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Violência; Gênero; Ciências - Fazendo Gênero

Violência; Gênero; Ciências - Fazendo Gênero

interação, sua

interação, sua relação é de controle e domínio, pretende a decomposição para o estudo das partes, transforma o que estuda em objeto. Sua prática é competitiva e hierárquica. Os valores masculinos não apenas são os mais prestigiados como há uma constante tentativa de exclusão do que são considerados valores e saberes historicamente associados ao feminino 5 . Em seu cerne, a ciência tradicionalmente feita exclui as mulheres em corpos e mentes, em ideais e práticas. Para adentrar neste mundo, as mulheres paulatinamente são mergulhadas no discurso científico androcêntrico que, muitas vezes, entra em conflito com o discurso introjetado, em diferentes níveis, do que é “ser mulher”. Refiro-me aos discursos centrais que estabelecem os parâmetros mais aceitos na nossa sociedade para a legitimação do que é ciência e do que é “ser mulher”. Somos o tempo todo processadas, fabricadas 6 . O discurso do gênero antecede nosso nascimento, encontra-se enraizado no nosso nome. Assumo a perspectiva Foucaultiana, segundo a qual somos parte sujeitas e, na maior parte, assujeitadas: feito sujeitas, reproduzidas em humanas. Fomos todas educadas e socializadas pelo discurso da feminidade, ainda que em diferentes graus de formatação, não só pela família e escola que representam a educação formal, mas também pela mídia, pelos brinquedos, pelos contos de fada... Os corpos constantemente operados em mulheres pelos discursos do que deve ser e como deve agir a mulher, no singular, entram em constante disputa com os valores e práticas projetadas pela cultura da ciência. Considero que esta disputa fica mais clara em áreas tipicamente masculinas como a física, no Brasil. Os relatos que tive, por meio de entrevistas semi-estruturadas 7 e de participação no Congresso “Second IUPAP Conference on Women in Physics”, foram impressionantes. Ter uma concretude feminina em um mundo gerado e operado à maneira masculina é violento por si só. O binário masculino-feminino é uma diferença a todo o momento reproduzida, criada, transformada em uma relação hierárquica e excludente em que, como afirmei acima, constantemente o feminino é sacado de valor, é subestimado, é menosprezado em face ao masculino. O mundo da ciência é estruturado no masculino, sua institucionalização, como Londa Schiebinger (2001) sugere, é feita sistematicamente com o processo de exclusão do feminino e das mulheres. Apesar deste processo de exclusão, até mesmo pelos processos construídos de invisibilização das cientistas 8 na historiografia, elas, em maior ou menor número, estiveram presentes e atuantes na história das ciências. Em alguns relatos, percebi quão excluídas e discriminadas podem ser as marcas do feminino no meio científico. As questões de como se vestir foram, de diversas formas, pautas nas entrevistas. Trago perspectivas apontadas por algumas físicas para este ponto: 2

Eu odeio ver mulheres tirando vantagem da sua condição de mulher, certo? Odeio! Isto me deixa muito mal e gostaria que não acontecesse... Porque muitas vezes as mulheres usam sua condição de mulher para tirar vantagem e isso dá lugar para que depois sejam assediadas. Eu acho que se você está tem claro que na vida que existe uma diferença fundamental entre o que é profissão e o que é vida privada, você vai evitar esta situação, certo? Se você evita, tranqüilamente, você cancela este... Há mulheres que me dizem:- você não podia se vestir assim, tinha que ser de calça comprida, camiseta... Eu não tenho medo do assédio. Eu sei tratar com ele... E as meninas me procuram, eu instruo, olha, mas elas dizem: será que provoquei isso... Aquela culpa, sabe? - será que é porque eu estou vestindo isso? É aquilo que eu falo, você acaba tendo que se comportar da maneira masculina para não ficar destoando muito...Bom, principalmente, você está em sala de aula, então você tem que se vestir de uma maneira mais... senão os alunos ficam olhando... eu não sei, eu sempre fui muito discreta também na minha maneira de vestir, mas acho que também por causa desta minha característica: não sei, “cientista de ser”. Eu acho que eu gostaria de ser um pouco mais solta, você acaba se moldando ao ambiente. Junto a este caldeirão de visões sobre como se comportar e o que vestir emitido pelas pesquisadoras, ao fazer o trabalho de campo, soube de uma pesquisadora que havia sido pejorativamente apelidada 9 em virtude de sua maneira de vestir. Tive a oportunidade de encontrá-la e descobri que o apelido discriminativo se referia a sua não-adequada forma de vestir, assim interpretada pelos seus e suas colegas. Fiquei espantada ao verificar que a forma não-adequada se referia a meias finas, sapato alto, maquiagem, cabelo arrumado, um colar de pérolas e vestido. A forma não-adequada era aquela que trazia símbolos ligados costumeiramente associados ao feminino. Além é claro de representar uma preocupação com o corpo quando a figura do cientista está muito associada a um distanciamento do corpo. Também tive relatos sobre como é necessário ser agressiva e “falar grosso” para ser ouvida. Trago estes exemplos para ilustrar quão coercitivo pode ser atuar em um mundo caracterizado no masculino. Violências pesadas sobre o corpo feminino desde sua forma de apresentação. Em uma ciência meritocrática que não permite pensar em corpos (raça, gênero, classe, colonialidade...) ao mesmo tempo em que exige uma forma masculina de se apresentar e agir. Tentei sistematizar, após e continuamente pesquisar a carreira das mulheres, em especial das físicas, duas formas de violência: o sexismo automático e o sexismo instrumental. O sexismo automático é aquele que, segundo Rita Laura Segato (2003), está incrustado na cultura, responde ao automatismo de um costume que não se revisa. É tão maquinal que, muitas vezes, nem é percebido e freqüentemente é reproduzido pelo próprio alvo do sexismo: as mulheres. É um sexismo difuso, tido como natural, de algo que já não mais se questiona, resposta já esperada, confunde-se com algo imutável e mesmo “normal”. Rita Segato (2003) utiliza o conceito de violência moral para melhor explicá-lo em 3

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