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Violência; Gênero; Ciências - Fazendo Gênero

Violência; Gênero; Ciências - Fazendo Gênero

contraposição à

contraposição à violência física. Esta tornou-se uma categoria de significado evidente, facilmente representável e apreensível e, portanto, tornou-se alvo a ser combatido formalmente pelo sistema jurídico. Já a violência moral, por sua natureza difusa, sutil e onipresente é ainda de difícil representação, pouco apreensível, escapa à formalidade da lei e encontra poucas formas de resistência, uma vez que responde ao automatismo da repetição da tradição. A violência moral produzida segundo as regras culturais do sistema tem aí seu poder de perpetuação e de eficácia. As resistências são nulas ao sexismo automático, não há resistência onde não há percepção do exercício da violência. A resistência é minada onde também somos capturadas a atuar como nossos próprios algozes. Existe a permissão e inclusive a reprodução da lógica quando não há percepção. Neste sentido, os contra-discursos produzidos são fundamentais como pontos de escapatória pela consciência crítica. Por meio do sexismo automático é possível como vimos das próprias mulheres culparem outras pela discriminação ou assédio sofridos devido a sua forma de se vestir ou agir não-pautada no masculino/científico. É o que permite que elas, muitas vezes, se excluam ou sejam excluídas de alguns processos relativos a cargos de chefia. É o que, muitas vezes, viabiliza que não sejam vistas e se vejam como possíveis palestrantes, elegíveis para promoção ou cargos de decisão, ou até como possíveis colaboradoras. O sexismo automático opera segundo as representações sociais 10 associadas ao que é ser mulher de forma singular e homogênea. Esta lógica é o que torna possíveis os seguintes casos contados: 1) Ao ser perguntada sobre sua profissão e responder: ”sou física”, a/o interlocutor/a responder: “ah! Educação Física”; ou 2) Ao terminar uma aula em uma turma da graduação uma pesquisadora jovem recebe o seguinte comentário: “pensei que fosse trote”. Estas falas mostram o quanto o imaginário central sequer relaciona a física à possibilidade de atuação da mulher. Permite também que as bolsas de pós-doutorado concedidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) possam ser divididas em duas categorias sem nenhum questionamento: Pós-doutorado Júnior e Pós-Doutorado Sênior. Júnior e Sênior, quem são as figuras a que se destina nominalmente estas bolsas? Nomes destinados ao masculino e simplesmente não questionados, desapercebidos, mas que mesmo desapercebidos marcam presenças, delineiam figuras, consolidam representações. O segundo tipo de violência de gênero a que me refiro é o que chamo de sexismo instrumental, aquele acionado como meio de colocar alguém em seu “devido” lugar (dito como natural). Estas violências são tentativas de assegurar posições de privilégio na hierarquia em situações de divergências, quando e principalmente outros elementos não garantem estas posições. É provável que inúmeros recursos sejam utilizados nestas situações, em especial nas ciências, tais como: senioridade, titulação, trajetória acadêmica (prêmios e cargos), regionalidade, área do 4

conhecimento, raça e, em especial, gênero. Segundo afirma a Profa. Rita Laura Segato o gênero é um sistema violento: “A falta de correspondência entre as posições e subjetividades dentro deste sistema articulado, mas não inteiramente consistente produzem e reproduzem um mundo violento. Este efeito violento resulta do mandato moral e moralizador de reduzir, por todos os meios possíveis, recorrendo à violência sexual, psicológica e física...”. (Segato, 2003: 15) Neste sentido caminha a interpretação da vivência relatada por uma pesquisadora em física: Um colega, uma vez, no meio do debate, me acusou de ter ganho o debate porque eu estava usando um perfume perturbativo, eu me virei pra ele e disse: - meu caro, você perdeu o debate porque eu sou muito mais inteligente do que tu, e porque os meus argumentos eram bons. Então, muitas vezes, os homens vão colocar o erro no fato de tu ser mulher e tu tem que ser capaz de dar a resposta. Nesta linha, ouvi relatos sobre pesquisadora que após comentarem seus sucessos (tirar nota máxima em uma prova, ganhar recursos para um projeto, entre outros) receberam comentários do tipo: “mas também com este sorriso”; ou ainda, “com esta saia.” Também tive relatos e observei casos em que as mulheres estando em posição inquestionável quanto à sua competência, tinham suas indicações para assumirem cargos de poder vetadas com a utilização de argumentos ligados ao feminino quando associado à autoridade: “encrenqueira”, “complicada”, com problemas de relacionamento pessoal. Estas foram as características elencadas para impedí-las de serem colocadas em posições de liderança. Outro relato foi de uma pesquisadora que ao transitar pelos corredores da universidade onde trabalha, ouviu um comentário de baixo calão sobre seus componentes corporais traseiros, proferido por um professor de física, seu colega, dirigido a uma roda de alunos de ambos. Ela decidiu fingir não ter ouvido o comentário. Interpreto estas falas, estes casos, como formas pensadas e utilizadas estrategicamente para retirar legitimidade dos resultados obtidos pelas mulheres, como forma de minimizar seus sucessos, de retirar e impedir o seu acesso ao poder. No primeiro caso, o comentário ainda passa por uma espécie de cantada heteronormativa em que as mulheres são apenas corpos e atributos femininos que desconcertam os homens e os tornam vulneráveis às investidas femininas. Qualquer sucesso nesta perspectiva é interpretado como uma concessão do homem que se deixou convencer pela sedução do mundo feminino e não por sua capacidade intelectual. No segundo caso, a capacidade intelectual da tarefa já não foi questionada, talvez por estar ligada nos casos relatados a cientistas já no topo da carreira, mas sim por suas habilidades pessoais serem conjugadas no feminino que as coloca próximas de mulheres complicadas e inadequadas. Esta vinculação talvez responda ao sexismo automático que rotula que as características necessárias 5

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