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ST 13. Beatriz Polido - Fazendo Gênero

ST 13. Beatriz Polido - Fazendo Gênero

Na época em que foram

Na época em que foram escritos esses contos, a honra familiar carregada pelas mulheres se traduzia na manutenção de um corpo casto, livre de desejos. O conceito de honra familiar vinculado à virtude sexual feminina, isto é, à contenção e ao controle da sexualidade das mulheres, e, ao mesmo tempo, a idéia da virilidade associada à potência sexual masculina, resultava numa moral sexual que privilegiava a hegemonia do poder masculino. Conforme Pierre Bourdieu, “o mundo social constrói o corpo como realidade sexuada e como depositário de princípios de visão e de divisão sexualizantes”. iii O corpo feminino, na década de 1950, carregava os valores da moral sexual. Dessa forma, a infidelidade feminina significava a quebra da hierarquia de gênero, pois o corpo feminino deixava de pertencer ao marido, revelando a possibilidade de livre arbítrio da mulher, além da intensidade da sexualidade feminina. O adultério feminino era uma violação dos valores atribuídos ao corpo feminino, gerador da prole, isto é, o meio de continuidade da família. Pelo Código Civil de 1916 (que vigorou até 2002) a mulher era um ser tutelado, como os menores, e o adultério feminino poderia ser punido se houvesse suspeita ou prova da relação íntima com um homem que não fosse o marido, mesmo que esporádica, enquanto o adultério masculino somente seria punido se comprovada a manutenção de uma concubina por um longo tempo. iv Assim, enquanto a punição do adultério para as mulheres tinha relação com o contato físico delas com outros homens, para os homens tinha relação com a sua função social de provedor do lar, ou seja, sua relação física com outras mulheres pouco significava perante a lei, mas a manutenção de uma concubina poderia significar a transgressão do seu papel de chefe de uma única família. Além disso, muitos criminosos passionais acabavam favorecidos pela justiça quando agrediam ou matavam as esposas adúlteras ou os amantes destas, pela noção de “legítima defesa da honra”, que embora não fosse uma figura legal (pois não era tipificada pelo Código Penal de 1940), era uma figura jurídica muito utilizada. v Nesse sentido, segundo Mary Del Priore, enquanto a infidelidade masculina era considerada um problema de foro íntimo, não manchando a reputação das esposas traídas, a infidelidade feminina significava escândalo social e estava associada ao crime. vi Nota-se, assim, que no caso do adultério feminino, se torna relativa a dicotomia usual entre o privado e o público, pois, mesmo a mulher e a família estando associadas ao espaço privado, a (in)fidelidade feminina era uma questão social e pública, não fazia parte somente do foro privado. Como o adultério feminino era uma questão social e não somente íntima, havia o medo de que infidelidades femininas manchassem a imagem dos maridos e das famílias. A forma como Nelson Rodrigues abordava esse tema em A vida como ela é... foi o que tornou a coluna extremamente popular. Podemos analisar essa questão levando em conta, conforme pensou Pierre Bourdieu, que a contrapartida da exaltação dos valores masculinos, como a virilidade 2

e a honra, eram os medos e as angústias que a feminilidade suscitava, pois a fraqueza feminina também deixava, no plano simbólico, a virtude feminina vulnerável. vii Esses contos de Nelson Rodrigues jogavam com o conceito de “mulheres de família” e sua pressuposta “seriedade”, insinuando que todas as mulheres seriam vulneráveis e poderiam sentir desejos por outros homens. O jogo que o autor fazia não era somente em torno do adultério feminino em si, mas do que as mulheres pareciam ser e o que eram na realidade – as histórias giravam em torno dos desejos escondidos que elas sentiam. Nos contos Pecadora e A dama do lotação as protagonistas tinham, na primeira impressão, a virtude e a honestidade como alguns de seus principais atributos, embora isto não se confirme posteriormente. Elas inspiravam a maior confiança: “O velho e diabético general poderia pôr a mão no fogo pela nora. Qualquer um faria o mesmo” (DL); “Meu querido tem absoluta confiança em mim” (P). Elas enganam, no entanto, o marido e os demais componentes da família, elas não são o que parecem ser. Luci, de Uma senhora honesta, e Jupira, de Casal de três, apresentam características físicas e comportamentais que não correspondem ao modelo feminino do período. Luci (SH) era uma mulher de corpo robusto, muito mais forte que o marido e “o tratava mal, muito mal mesmo; desacatava-o, inclusive na frente de visitas” (SH). Jupira (CT) era uma mulher desleixada, que não se enfeitava e não se arrumava. Como agravante da situação de desleixo o narrador afirma que ela até cheirava mal. Além disso, tinha um gênio terrível, desacatava e humilhava o marido: Filadelfo “sofria as mais graves desconsiderações, inclusive na frente de visitas” (CT). Essas eram as suas características até ela começar a trair o marido, quando tudo se modifica e ela passa a ser uma esposa amável. Nos casos acima, embora haja uma inversão das características femininas ideais, na lógica dessas tramas as personagens também não são o que parecem ser, pois Luci (SH) promulgava ser a mais fiel e honesta de todas as mulheres, mas quando lhe aparece um admirador, ela fica eufórica com a possibilidade de ter um romance com outro homem. Jupira (CT), por sua vez, só se torna uma boa esposa depois que começa a trair o marido. Jandira, de Sem caráter, é a mais falsa, pelo título do conto percebe-se que o narrador condena suas atitudes, pois ela é a “sem caráter”. Ela mantinha dois relacionamentos amorosos sem que um afetasse o outro, era uma mulher capaz de manter as aparências acima de todas as suspeitas. Quando Geraldo (CT) a conhecera, sua naturalidade era tanta que ele viu o anel de noivado dela, mas não acreditava que ela estivesse de fato noiva. Já Clara, de O decote, era uma mulher extremamente bela e, no início do conto, muito apaixonada pelo marido. Porém, esta personagem se desiludiu com o marido e com o casamento, porque Aderbal (D), seu marido, não lhe dava a atenção que ela desejava. Passou então a levar uma 3

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