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ST 13. Beatriz Polido - Fazendo Gênero

ST 13. Beatriz Polido - Fazendo Gênero

vida frívola: “Mãe

vida frívola: “Mãe displicente, vivia em tudo que era festa, exibindo seus vestidos, seus decotes, seus belos ombros nus” (D). Assim, vemos que as características femininas não seguem um padrão em todos os contos, mas todas elas, as doces esposas perfeitas, de Pecadora, A humilhada e A dama do Lotação, as esposas-megeras, de Uma senhora honesta e Casal de três e as frívolas, de O decote e Sem caráter, aparentam ser uma coisa e são outra. Todas elas sentem desejos por outros homens, que não os seus maridos. Assim, podemos nos perguntar se não eram as características pessoais das esposas que determinavam sua virtude, o que seria? Talvez a resposta esteja nas características descritas de seus maridos e de seus casamentos. Vejamos então como as personagens protagonistas masculinas desses contos são descritas pelo narrador. Os maridos mostram-se fracos, não só moralmente, pois são dominados pelas mulheres, mas também fisicamente. Se por um lado não têm autoridade dentro de casa, por outro não apresentam a virilidade relativa à coragem e à ousadia. Doenças lhes são comuns, intensificando sua fragilidade. Valverde, de Uma senhora honesta, marido de Luci, era um homem que parecia ter até medo da mulher: “Valverde, metido num pijama listrado, tremia diante dessa virtude agressiva e esbravejante” (SH). Ficava imaginando que poderia apanhar da esposa, pois numa luta corporal ela levaria “vantagem esmagadora” (SH). Além de ganhar pouco, sofria de asma e tinha um físico fraco: “Mirrado, com peito de criança, uns bracinhos finos e longos de Olívia Palito – o pobre-diabo não tinha a base física da coragem” (SH). Conforme Bourdieu, a virilidade, que é o “princípio da conservação ou do aumento da honra, mantém-se indissociável, pelo menos tacitamente, da virilidade física”. viii Dessa forma, podemos concluir que na descrição dessa personagem está implícita a visão do ideal masculino que associa a força física à coragem e ao poder. Assim, os maridos que não conseguiam dominar as mulheres, não apresentavam as características físicas tidas como essencialmente masculinas, como a força. O caso de Filadelfo, de Casal de três, marido de Jupira, é parecido. Ele queixava-se da mulher, vivia amargurado com as grosserias e humilhações que faziam parte do seu dia a dia. No entanto, era incapaz de tomar qualquer atitude, obedecendo sempre a esposa e demonstrando também certo receio da agressividade dela: “Qualquer dia apanho na cara!” (CT). Filadelfo usava dentadura. Aderbal, de O decote, no início do conto, quando a sua mãe e a sua esposa brigaram, ele já demonstrou fraqueza, pois “limitou-se a uma exclamação vaga e pusilânime: ‘Mulher é um caso sério!’ ” (D). Ele não conseguia fazer valer sua autoridade de chefe da casa. Mais tarde, ao tentar conversar com a mulher, para persuadi-la a mudar de comportamento, recebeu como resposta um 4

desaforo: “Vê se não dá palpite, sim? Sou dona do meu nariz!” (D). Quando nasceu sua filha, ele tornou-se o mais sentimental dos homens. Durante o parto, enquanto a mulher gemia, ele teve uma terrível dor de dente, que desapareceu logo após nascer a criança. Nos contos, vemos que as doenças têm relação com a virilidade masculina, elas são um sinal da fraqueza desses maridos. O noivo de Sem caráter era um homem sério, segundo Jandira “sério demais!”, “_Imagina que até hoje não me beijou na boca! (...)” (SC). Estas características também demonstram a falta de virilidade do noivo porque o dinamismo e a ousadia eram características tipicamente masculinas. Geraldo (SC), por sua vez, que era amante de Jandira e ao final do conto se torna marido, era “meio tímido” (SC). No final do conto ela casa com Geraldo e o antigo noivo fica sendo seu amante. Os dois homens aceitaram a situação de dividir a mulher com o outro. No caso desse conto, tanto Geraldo quanto o noivo apresentam características não viris, pois, na lógica da história, os dois são dominados por ela. Em contraste com a falta de virilidade dos homens do conto, ela é independente e dona da situação. Lembremos que na constituição do ideal de masculinidade, de acordo com Pedro Paulo de Oliveira ix , a coragem e a força física eram elementos que acabavam sendo associados com a iniciativa e a ousadia, garantindo a virilidade do homem. Da mesma forma, a responsabilidade e a racionalidade eram características consideradas importantes nos homens, pois estes exerciam a função de provedores do lar. Vemos assim que as histórias ridicularizavam os maridos, ironizando seu papel social. Já os amantes, ou pretendentes a amantes, ao contrário, são descritos como belos, fortes e com boa saúde. Podemos concluir então que esta imagem positiva de homem, associada ao amante, está sendo contraposta à imagem negativa do marido criada nos contos. Estes maridos, pacíficos, fracos, contidos, são os maridos traídos. Podemos concluir que nessas histórias a falta de virilidade dos maridos refletia no desejo de suas mulheres por outros homens. Este fator revela que esses contos ridicularizavam não os maridos em geral ou a instituição do casamento, mas ridicularizavam justamente aqueles que não correspondiam à norma do marido com poder, controlador da mulher. Isso nos leva a crer que nessas histórias, onde muitos conflitos do casamento são apontados, há mais uma ironia e provocação perante os maus casamentos de homens e de mulheres do que uma crítica à instituição do casamento. A importância da instituição da família era enfatizada pelas histórias de Nelson Rodrigues, o que percebemos no valor dado aos filhos em alguns contos. Aderbal (D), ao negar a possibilidade do divórcio, disse para sua mãe: “Não darei esse desgosto à minha filha, nunca!”. Vemos que nos contos de Nelson Rodrigues onde existiam filhos – O decote, A humilhada e Pecadora – as histórias são mais pesadas, a traição feminina torna-se um drama muito maior do que nos outros contos, onde o assunto tende para o humor, que é o caso de Uma senhora honesta, Casal de três e Sem caráter. 5

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