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Gênero, memória e narrativas - ST 41 Lucia M. A. ... - Fazendo Gênero

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Falando de si nos

Falando de si nos anúncios da Gazeta do Rio de Janeiro – o período joanino As matérias publicadas pela Gazeta do Rio de Janeiro, jornal que inaugura a tradição de impressão periódica no Brasil, tratavam mais do panorama político europeu do que dos assuntos da colônia e destinavam-se a informar os portugueses que haviam deixado Portugal em decorrência da guerra que se desenrolava desde 1804. Aos poucos a Gazeta foi ampliando seus serviços e sua influência no cotidiano da cidade. Na última página, uma seção trazia pequenos anúncios de interesse mais local, com informações sobre compra, venda e locação de imóveis, compra e venda de escravos e ofertas de serviços. Por intermédio desses anúncios, é possível conhecer um pouco do cotidiano da cidade do Rio de Janeiro, dos valores e das expectativas da época. Apesar da pouca visibilidade da mulher no espaço público em geral, os pequenos anúncios da última página da Gazeta constituiram-se, durante o período joanino, em espaços enunciativos públicos em que mulheres falaram de si a um outro a quem desejavam, de alguma forma, transformar. São raros no período joanino anúncios em que mulheres falam de si, de seus atributos e do seu fazer no mundo do trabalho. Na maioria das vezes, são viúvas que anunciam a venda de propriedades após a morte do marido. Quando as mulheres falam do seu fazer em enunciados em que se projetam como sujeito de ação, quase que invariavelmente se oferecem para ensinar outras mulheres, inaugurando uma cadeia parafrástica de sentidos que irá perdurar por décadas. Na rua dos Ourives N.º 27, mora huma Ingleza com casa de educação para meninas, que queirão aprender a lêr, escrever, contar, e fallar Inglez e Portuguez, cozer, e bordar. Gazeta do Rio de Janeiro, 6 de Setembro de 1809. Afinal, quem fala nos enunciados? Não muito diferente do que ocorre nos jornais de hoje, aquele que de fato anuncia seus serviços não fala diretamente ao interlocutor e passa a ser aquele de quem se fala porque precisa da intermediação do jornal para falar. Quem designa, nomeia e ordena os modos de existência do discurso é o jornal, mas é esse sujeito de que fala o enunciado e que nele fala de si próprio o objeto principal da nossa reflexão. Quem pode se apropriar do seu discurso? Que condições orientam a sua existência? Designado em primeiro lugar pelo espaço urbano em que habita e, em segundo, pela sua nacionalidade, o sujeito-mulher oferece-se para transformar o outro-mulher. A nacionalidade inglesa aparece aqui como atributo que valoriza o serviço ofertado, em um contexto

social de modernização da sociedade colonial urbana, que, apesar da precária infraestrutura para a educação dos cidadãos, valoriza os modelos europeus. A materialidade da forma dos enunciados não apresenta variações muito significativas ao longo do período estudado, o que não significa, entretanto, que as posições do sujeito sejam fixas, que permaneçam inalteradas. Vejamos para quem aponta o sujeito que fala de seus próprios atributos e de sua atividade no mundo do trabalho no enunciado a seguir, publicado duas vezes na Gazeta. D. Catharina Jacob toma a liberdade de fazer sciente ao Publico, que ella tem estabelecido huma Academia para instrucção de Meninas na rua da Lapa, defronte da Ex. ma Duqueza, em que ensinará a lêr, escrever e fallar as linguas Portugueza, e Ingleza Grammaticalmente; toda a qualidade de costura e bordado, e o manejo da Caza. Está esperançada que, em consequencia do seu cuidado, e attenção na educação, Religião, e Moral, merecerá eternamente a protecção dos Pais, parentes, e pessoas, que lhe confiarem esta honra: cada Menina trará a cama completa, tres toalhas de mãos, hum talher completo, e cópo de prata, pagarão por cada Menina dezoito mil réis por mez, sendo a quarteis adiantados. Igualmente todas as pessoas, que quizerem, que as suas Meninas aprendão Muzica, Dança, e Desenho, será pago á parte [...]. Gazeta do Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1812; 6 de janeiro de 1813. Colocando-se a si mesmo no foco do olhar do outro, o sujeito aqui ocupa duas posições distintas, quase antagônicas. Há uma voz de mulher que reivindica para si e ocupa o lugar do sujeito que se projeta publicamente no mundo das atividades produtivas remuneradas (‘pagarão por cada Menina dezoito mil réis por mez’). Concomitantemente, percebe-se uma outra voz que, pelo mesmo serviço, procura sua recompensa não na remuneração, mas na ‘protecção dos Pais, parentes, e pessoas, que lhe confiarem esta honra’, evocando as práticas não-discursivas da época relativas ao lugar da mulher na sociedade. Quatro meses após a abertura da Academia a proprietária publica novo anúncio, desta vez informando que a Princesa Carlota, demonstrando seu interesse pela instrução pública, havia permitido que as alunas pensionistas passassem a usar uma medalhinha com seu retrato. As estratégias discursivas para atrair futuras alunas tornam aparente uma complexa rede de significados e o desejo do sujeito de atuar sobre a conduta do outro, seduzindo-o com uma possível aproximação aos círculos de poder a que aludem a vizinhança com a nobreza e a medalha com o retrato da Princesa. Anúncios de oferta de serviços relativos à educação feminina serão mais freqüentes em periódicos publicados em outros momentos do século XIX, como no Diário do Rio de Janeiro, que publicou textos de Nísia Floresta na década de 1850, e no Correio Mercantil, a maioria anunciando serviços educacionais em que mulheres se propõem a educar mulheres. Este fato não apenas indica a

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