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Gênero, memória e narrativas - ST 41 Lucia M. A. ... - Fazendo Gênero

Gênero, memória e narrativas - ST 41 Lucia M. A. ... - Fazendo Gênero

valorização social da

valorização social da instrução feminina, mas também evidencia que mulheres passam a ocupar posições no espaço público do trabalho e da imprensa, que se consolidam como espaços de construção da subjetividade feminina. A imprensa feminina – o final do século XIX A partir da década de 1870, as idéias republicanas conquistavam a imprensa e o fluxo dos acontecimentos propicia o surgimento de inúmeros jornais que combatiam a pretensa sacralidade das instituições: da escravidão, da monarquia, do latifúndio 4 . Por colocar em circulação os discursos de igualdade, liberdade e fraternidade, a fecunda imprensa do final do século XIX também tem sido freqüentemente apontada como partícipe ativa na construção de uma nova identidade feminina, até então construída com referência ao domínio familiar e doméstico e na visão da maternidade enquanto uma função biológica 5 . No final do século XIX, acompanhando as tendências européias, surge no Brasil a imprensa feminina, inaugurando um novo espaço de expressão para a palavra da mulher. Era forte a vinculação entre os periódicos femininos e a literatura. Vários jornais e revistas foram publicados por associações literárias femininas, abrindo-se então para as mulheres um espaço no mundo da literatura, antes ocupado quase que exclusivamente por homens 6 . Além da literatura, a moda também tinha papel significativo na imprensa feminina. As colecionadoras ansiavam pelas publicações que traziam, além do noticiário cultural, a continuação dos romances lidos em série e a última moda de Paris. Delineava-se a identidade de mulher urbana, burguesa, instruída, que passava a expressar o desejo de atuar mais decididamente no seu meio. Alguns periódicos projetavam uma mulher que se percebia e se fazia notar por intermédio dos discursos que construíam a sua subjetividade na ordem do privado: diários, memórias e escritos íntimos, gêneros discursivos de escrita de si e que juntamente com os figurinos, receitas culinárias, moldes de trabalhos manuais, contos, folhetins, tentavam normatizar a conduta feminina em seu papel de esposa, mãe e dona de casa 7 . O Jornal das Famílias, por exemplo, apresentava uma seção de cartas que publicava o que aparentemente se tratava de correspondência pessoal. No exemplo a seguir, carta publicada em 28 de janeiro de 1863, Helena, que se encontra no estrangeiro, escreve à sua prima Eulália, no Brasil, para anunciar seu ingresso no mundo do jornalismo, como colaboradora do próprio Jornal das Famílias. Minha formosa e querida prima. Agora mesmo acabo de receber uma amabilíssima carta, assignada pela redacacção do Jornal das Familias, na qual sou convidada de modo tão lisonjeiro “que não devo resistir, para com minha colaboração honrar ( olhe que é ella, a redacção que diz

honrar) as columnas d’este jornal”.[...] Como resistir, dizia comigo, relendo a carta; como resistir a força d’estas lisongeiras expressões? E demais, eu não tenho nada escripto e nada na cabeça para escrever! Um romance? Depois dos Miseráveis? Uma poesia? E papae? E papae quando souber que tive loucura de fazer versos, e que cai na doidice de publical-os sob o título de poesias? E minha prima sabe que mais fidagal inimigo de portas é sem dúvida seu tio! Ainda não há muitos dias, lhe ouvi dizer a um de seus amigos que; se elle fosse naturalista, classificava-os (o poetas) na familia dos caranguejos. Neste segmento da carta, Helena produz uma escrita de si que expressa mais seus sentimentos do que enuncia suas ações. Envaidecida com o convite, mas insegura e temerosa da reação do pai, o sujeito ‘dá-se a ver’ ao outro, à prima, e com ela estabelece uma relação de cumplicidade, procurando tecer uma rede de significados em que a memória discursiva, o já-dito tem papel crucial: escrever um romance, depois do sucesso de Victor Hugo com Os Miseráveis? Também o já-dito das relações familiares – a menção ao pai conservador, “fidagal inimigo de portas” – assume papel relevante na sua subjetividade. Ao construir o outro na figura do pai, constrói seu próprio discurso. Mais adiante na carta, expressando mais uma vez sua dúvida sobre o que escrever, Helena comunica sua decisão de colaborar com o jornal mensalmente, publicando as cartas que escreverá à prima. Para Foucault, seja qual for a função a que se destina – informar, aconselhar, exortar, consolar – a escrita de si constitui-se em um exercício, um treinamento para o escritor que, ao escrever, constróise enquanto sujeito 8 . Esta observação traz à reflexão algumas questões. Afinal, que posições ocupa o sujeito deste enunciado? A de sujeito-mulher que exercita a construção de sua própria subjetividade e anuncia sua intenção de agir? A do sujeito-jornal que se constrói como instituição e se promove junto às suas leitoras? Constitui-se no enunciado uma rede de significados que pressupõem um campo de coexistências, não necessariamente pacíficas, em que afloram as contradições, os esquecimentos e apagamentos, as diferenças. Os dois enunciados que se seguem são exemplo da tensão entre as falas e os significados construídos na imprensa feminina da segunda metade do século XIX. No primeiro, fragmento de uma matéria do jornal A Família, de 1889, a subjetividade é calcada na valorização da maternidade, no cuidado com o marido e os filhos: Da alegria da mesa depende a alegria do lar; da economia de todos os instantes depende o bom-humor das festas de família; da elegância e primoroso asseio da mulher depende a ternura inesgotável do marido; do modo por que ela rege e domina o seu pequeno império doméstico depende a educação dos filhos, a moralidade do interior [...]Por que não fazemos da nossa casa um ninho alegre e fofo, que o nosso marido prefira ao botequim, ao grêmio, ao clube, ao restaurante, à casa de seus amigos, e onde ele esteja certo de encontrar o alimento mais saboroso e mais higiênico, o ar mais puro e lavado, a poltrona mais cômoda, a conversa mais animada,

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