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Gênero, memória e narrativas - ST 41 Lucia M. A. ... - Fazendo Gênero

Gênero, memória e narrativas - ST 41 Lucia M. A. ... - Fazendo Gênero

mais substancial, mais

mais substancial, mais chistosa e menos pedante? Pouco a pouco, à regeneração da mulher, seguir-se-ia a regeneração do homem 9 . A rica polissemia do termo ‘regeneração’ – renascimento; refortalecimento; recuperação moral ou espiritual; reconstituição de partes de um organismo vivo – faz ecoar no discurso as vozes que povoavam o imaginário da época, matriz de sentidos que escapa do controle do sujeito. Mas os rearranjos da memória discursiva se sucedem e sentidos sobrepõem-se continuamente no mesmo espaço discursivo. As formações discursivas por não serem nem fixas nem estáveis são invadidas por outras, provocando deslocamentos e o surgimento de novos sentidos. No mesmo A Família, que muitas vezes veicula discursos extremamente conservadores, são construídos veementes discursos favoráveis ao sufrágio feminino, como ilustra o fragmento a seguir, também de 1890, em que a autora comenta o parecer dos parlamentares encarregados da elaboração da Constituição, desfavorável ao voto feminino: [...] claro está que as nossas aptidões não podem ser delimitadas pelos preconceitos de sexo, principalmente nos casos em que tenhamos de afirmar a nossa soberania pelo direito de voto. O direito de votar não pode, não deve, não é justo que tenha outra restrição além da emancipação intelectual, da consciência do ato, da faculdade de discriminação 10 . O singular gesto de escrita de si neste enunciado denuncia uma prática social negada à mulher – o direito de votar – e os preconceitos em que se baseia a proibição. Concomitantemente, remete aos domínios de uma formação discursiva em que a igualdade entre os sexos é possível e desejada. Considerações finais Nesta reflexão sobre enunciados supostamente produzidos por mulheres acerca de si mesmas e publicados em periódicos do século XIX, procurei melhor compreender a relação que esses sujeitos têm com sua própria escrita e com o outro para quem escrevem. Uma das questões que surgiram por se tratar de matéria jornalística diz respeito ao caráter heterogêneo desse tipo de discurso que já vem impregnado de uma memória institucionalizada. Não cabe, então, procurar a unidade ou perguntar quem fala e sim examinar a relação entre o sujeito e seu discurso. Outra questão de fundo diz respeito à perspectiva de análise. Diferentes tipos de escrita foram tomados como instâncias de escrita de si: anúncios, uma carta, textos mais opinativos e exortativos, produções discursivas em que sujeitos falavam de si, de suas intenções, opiniões, sentimentos, desejos, expondo-se e deixando-se ver por outros sobre os quais desejavam, de algum modo, atuar.

O terceiro aspecto da reflexão que gostaria de destacar é seu aspecto longitudinal, que pode transparecer a intenção de procurar marcas temporais, origens, pontos de partida, seqüências temporais e possíveis interpretações cronológicas. Na verdade, o que se busca são referências acerca das condições de existência desse discurso que se enuncia de modo diferente a cada instante. A pergunta, portanto, não é o que originou o discurso e sim quais as condições que permitiram a existência desse ou daquele conjunto de enunciados, a sua singularidade. Decerto os enunciados da imprensa feminina não poderiam ter sido produzidos nas primeiras décadas do século, quando as relações entre o discursivo e o não- discursivo era outra. Existem condições para o surgimento histórico de determinados enunciados e essas são relativas aos processos sociais e econômicos e às instituições. Com relação à escrita feminina na imprensa brasileira, o que se constata é que, como já havia observado Michelle Perrot acerca de outros espaços públicos na Europa, “a irrupção de uma presença e de uma fala femininas em locais que lhes eram até então proibidos ou pouco familiares é uma inovação do século XIX que muda o horizonte sonoro” 11 . 1 Este trabalho foi elaborado no âmbito do projeto Representações no Discurso Midiático, desenvolvido na linha de pesquisa Memória e Linguagem do Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO e apoiado pelo CNPq. Uma versão preliminar foi publicada em FERREIRA, Lucia M. A. A escrita de si na imprensa – exemplos da fala feminina no século XIX. In: MARIANI, Bethânia (org.). A escrita e os escritos: reflexões em análise do discurso e em psicanálise. S. Carlos: Claraluz, 2006. p. 107-118. 2 FOUCAULT, Michel. A escrita de si. In: ______. O que é um autor? Lisboa: Veja, 1992. 3 FOUCAULT, Michel. Op. Cit., p.145. 4 Cf. SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. 4. ed. Rio de Janeiro: Mauad, 1999. 5 Cf. BICALHO, M. Fernanda Baptista. O bello sexo: imprensa e identidade feminina no Rio de Janeiro em fins do século XIX e início do século XX. In: COSTA, Albertina de O.; BRUSCHINI, Cristina (orgs.). Rebeldia e submissão – estudos sobre condição feminina. São Paulo: Vértice, 1989; SOIHET, Rachel. Condição feminina e formas de violência ─ mulheres pobres e ordem urbana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989. 6 Cf. BUITONI, Dulcília Schroeder. Imprensa feminina. São Paulo: Ática, 1990. 7 Cf. BICALHO, M. Fernanda Baptista. Op. Cit. 8 Cf. FOUCAULT, Michel. Op. Cit. 9 Citado em BICALHO, M. Fernanda Baptista. Op. Cit. p. 91 10 Citado em BICALHO, M. Fernanda Baptista. Op. Cit. p. 97 11 PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru, SP: EDUSC, 2005. p. 9.

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