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Gênero, violência e segurança pública ST. 39 ... - Fazendo Gênero

Gênero, violência e segurança pública ST. 39 ... - Fazendo Gênero

em que a

em que a violência física ou emocional, se surge, é relatada como fato passado ou de pouca relevância, importando mais a essas usuárias o relato acerca de uma cotidianidade bastante conflitada que gera dúvidas quanto ao espectro de possibilidades de condutas que as mesmas podem ter em relação aos seus cônjuges. Falas do tipo “apesar de tantas feridas há amor entre nós, não queria uma separação” ou “estou indecisa, ainda gosto dele, mas não agüento tanta humilhação” ou “ele me humilha e depois pede perdão, chora, diz que me ama, não sei o que faço” tornam muitas vezes o Disque-Mulher semelhante a um consultório privado da vida amorosa conflitada das classes populares. Os limites de nossa intervenção devem estar bastante delimitados já que essas situações são bastante freqüentes. Nesses 25% acima mencionados estão inseridas solicitações de acompanhamento dos encaminhamentos por nós realizados para as instâncias públicas. O vínculo criado entre plantonista e usuária gera, em muitos casos, esse tipo de continuidade, quando o Disque passa a ser a referência de confiança para onde as mulheres recorrem sempre que têm dúvidas, principalmente sobre o andamento de seus processos jurídicos, desencadeados a partir das orientações do próprio Disque. Confirmando outras pesquisas i , os relatos apresentam um índice de violência executada dentro do lar pelo marido ou companheiro de união estável. Das mulheres que procuram o Disque 35,1% são casadas. Compilamos no item união estável tanto as mulheres que coabitam com seus cônjuges como as que referem longa união, muitas vezes entremeadas por separações, ou constituindo-se como amantes, onde os homens têm dupla residência, ou namoros em que o homem usufrui certo grau de intimidade e liberdade na residência da mulher. A união estável abarca então 39,92% dos casos. As divorciadas e separadas somam 13,12% e não informaram 9,17%. As mulheres identificam-se ao telefone em 45% dos casos como brancas. Em 45% dos telefonemas as usuárias informaram que souberam do Disque por alguém que conhecia o número e a aconselhou a ligar. Em 23% alguma instituição ligada a REMUV, incluindo muitas vezes a própria delegacia, deram o telefone ou o cartão do Disque. No quesito encaminhamentos, cada caso pode corresponder a mais de um encaminhamento, por exemplo, a orientação para a realização do boletim de ocorrência na delegacia e uma indicação para acompanhamento psicológico. O que observamos, entretanto, é que com a mudança da forma de realizarmos a escuta e o registro telefônico, o encaminhamento principal que era anteriormente dado com vistas à realização do boletim de ocorrência na delegacia, a partir de 2004 passa gradativamente a rumar para o Núcleo Integrado de Atendimento à Mulher (NIAM) onde se realiza uma continuidade do trabalho iniciado pelo telefonema. Toda equipe do Programa acredita não ser uma presunção apostar na proposta do Disque-Mulher em realizar a transformação de uma situação de crise num processo de tomada de consciência. Percebemos a ineficiência dessas chamadas telefônicas em romper o ciclo de

subordinação e medo em que se encontram muitas das mulheres que nos telefonam. Este processo de transformação é apenas deflagrado no momento do telefonema. Daí o processo “detonador de transformações” ii tem no NIAM uma chance a mais de se fortalecer. Os profissionais (advogado e psicóloga) que nele trabalham, passaram por capacitações no CEDIM (Conselho Estadual dos Direitos da Mulher) e têm com a equipe do Disque grande interlocução; o que nos permite confirmar, via troca de impressões entre os membros de ambas as equipes, que um maior número de mulheres referendadas pelo Disque para o NIAM o têm procurado, assim como também retornam a nós, agradecendo a orientação. Na segunda etapa de análise de nosso banco de dados, o recorte menor de 422 atendimentos, em conjunto com a mudança metodológica da colheita e registro do material, possibilitou-nos ampliar nossa visão e entendimento acerca da mulher que vive a violência conjugal em Nova Friburgo e adjacências. Não abordaremos nesse recorte as estatísticas relativas aos dados identificatórios, haja vista assemelharem-se com os do recorte anterior. Na análise dos dados privilegiamos algumas especificações que iremos agora apresentar. Vale ressaltar a dificuldade e os perigos de realizar essas estatísticas, isto porque os relatos são muito ricos quando analisados como um todo, quando podemos agregar o perfil sócio-econômicocultural à singular maneira como cada mulher expõe sua história. As categorizações dos casos que aqui realizamos têm o objetivo de perscrutar regularidades nas histórias sem perder, entretanto, o ponto de vista das singularidades das mesmas. As categorizações são frutos de distintas conexões entre referências sócio culturais que informam as usuárias quanto as suas condutas em termos de identidade de gênero (o que um homem e uma mulher devem ser para a sociedade e um para o outro) e as idiossincrasias pessoais que as fazem reagir ou se intimidar frente aos seus conflitos/violências conjugais, em distintos graus. A “polissemia da cena” iii que as mulheres relatam ao telefone leva-nos a perceber que existem várias situações de violência que nem sempre são encaradas, por parte das mulheres, como insuperáveis ou intransponíveis. Há uma lógica na problematização que fazem de suas vidas, que não podemos omitir-nos de ouvir. Como já foi observado em outros estudos iv , as mulheres freqüentemente preferem reparar o conflito conjugal a separarem-se de seus cônjuges. Devido à heterogeneidade dos relatos contidos nos registros telefônicos, em apenas 22,8% deles fatores associados como causadores da violência são mencionados pelas mulheres. Na maioria dos casos a violência é narrada como um acontecimento que surge sem nenhum antecedente, como uma prática naturalizada, e ao mesmo tempo repelida, no cotidiano conjugal. Uma das usuárias dizia que “ele bate sempre que cisma, não tem porque de nada não”. Dentre esses 22,8%, em 27% a violência é atribuída ao uso do álcool. Em apenas 7% surgiu a questão da drogadicção como relacionada à violência e para nosso espanto, em apenas 5% os ciúmes foram colocados como

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