Views
4 years ago

Um estudo sobre as relações de gênero Arlete de - Fazendo ...

Um estudo sobre as relações de gênero Arlete de - Fazendo ...

No início da

No início da brincadeira, Alano ficou observando de fora, viu as meninas se maquiando, viu os meninos se maquiando. Logo se interessou também em brincar com a maquiagem. Utilizou como argumento a festa. Se vai a uma festa, é preciso arrumar-se, então isso justificaria, ao menos em parte, o uso da maquiagem. Alano utilizou-se de um argumento adulto para experimentar a brincadeira. Poderíamos dizer que ele se apropriou criativamente da informação do mundo adulto para produzir a sua própria cultura de pares (CORSARO, 2002, p.214). Nessa brincadeira não houve proibições, olhares de cobrança ou falas contrárias. A dona do instituto era a professora, recebia cada criança e, rodeada por todas as outras, faziam juntas as maquiagens. Nenhuma criança questionou o fato de os meninos usarem maquiagem. Ninguém se sentiu constrangido e todos puderam se divertir muito. O Alano também ficou satisfeito em brincar com a maquiagem. Em outros momentos ele não havia experimentado. Alano demonstrou resistência em brincar com maquiagem por saber que, em nossa cultura, maquiagem é própria para mulheres e meninas; mas em outra situação esse mesmo menino brincou tranqüilamente com objetos que ainda representam, em nosso meio, atividades voltadas para a prática doméstica. O trabalho de investigação da construção dos gêneros a partir das expressões das meninas e meninos nessa instituição de educação infantil mostrou- se ser de uma complexidade desmedida, dificultando a elaboração de conclusões e correndo o risco de sugerir modelos ou verdades reducionistas a partir das análises e sínteses elaboradas. Essa preocupação intensificou-se ao perceber que as expressões de gênero observadas nos diversos momentos do cotidiano das crianças investigadas na maioria das vezes não seguiam uma trajetória linear, fácil de ser compreendida por nós, adultas/os. A observação do cotidiano mostrou que as meninas e meninos do CEI Lapagesse possuem grandes habilidades em responder ao que os adultos esperam delas, reproduzindo comportamentos estereotipados quando lhes é conveniente; no entanto, imprimem suas marcas, transformando e ressignificando os conhecimentos do mundo adulto para a sua própria cultura de pares. Ao se apropriarem ativamente das informações do mundo adulto, elas criam rotinas interativas coerentes com essa cultura. Embora admitindo minhas limitações em traduzir o ponto de vista das crianças numa temática que considero tão fundamental para a construção de uma sociedade que respeite o universo e todos/as que dele fazem parte, saio desta 6

pesquisa com uma visão bastante otimista, acreditando que, se tivermos humildade para aprender com as meninas e meninos deste mundo afora, talvez a sociedade almejada não esteja tão distante. Mas para isso é preciso aprender a ousar, a sonhar, a brincar com as coisas que parecem sérias, a tratar com seriedade as coisas que parecem banais, é preciso aprender a desejar, a sentir prazer – enfim, é preciso aprender a transgredir, sempre que preciso for, para alcançar a felicidade. Bibliografia: CORSARO, William A. A reprodução interpretativa no brincar ao “faz-de-conta”das crianças. In: Educação, Sociedade e Culturas, nº 17, 2002. p. 113-134. FERREIRA, Maria Manuela Martinho. A gente aqui o que gosta mais é de brincar com os outros meninos: as criancas como actores sociais e a (re)organização social do grupo de pares no quotidiano de um jardim de infância. 2002. (Tese de Doutorado). Universidade do Porto, Portugal. GROSSI, Miriam Pillar. Identidade de gênero e sexualidade. In: Antropologia em Primeira Mão. UFSC, 1995. ______. A questão do masculino e do feminino para a transformação das relações na sala de aula. In: Um novo paradigma sobre a aprendizagem. Ed. Vozes. Petrópolis, 1995. ______. O masculino e o feminino na educação. In: GROSSI, E. P. & BORDIN, Jussara. Revista Paixão de Aprender. 6. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994. ROCHA, Eloísa Candal. A pesquisa em educação infantil no Brasil: trajetória recente e perspectivas de consolidação de uma pedagoga. Florianópolis, UFSC, Centro de Ciências da Educação, Núcleo de Publicações, 1999. SARMENTO, Manuel Jacinto. PINTO, Manuel. As crianças e a infância: definindo conceitos, delimitando o campo. In: PINTO, Manuel. SARMENTO, Manuel Jacinto. As crianças: contextos e identidades. Portugal, Centro de Estudos da Criança. Ed. Bezerra, 1997. p. 7-30. SAYÃO, Déborah Thomé. Pequenos homens, pequenas mulheres? Meninos, meninas? Algumas questões para pensar as relações entre gênero e infância. In: Pro-Posições, v. 14, n. 3(42)- set./dez., 2003. P.67-87. SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. In: Educação e Realidade. 1995. 1 O termo “tia” aparece nas falas das crianças ao se dirigirem à professora, à auxiliar ou à pesquisadora. Embora já tenham ocorrido discussões em reuniões de estudos com as professoras sobre a questão, seu uso ainda permanece com bastante intensidade. Sobre essa discussão, ver: FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. 12. ed. São Paulo: Olho d’Água, 2002. 2 Estudos recentes têm procurado ouvir e levar em conta os conhecimentos produzidos pelas crianças no contexto coletivo de instituições educativas. Entre eles: Búfalo (1997), Gobbi (1997), Leite (1997), Prado (1998), Batista (1997), Delgado (1998), Oliveira (2001), Coutinho (2002), Agostinho (2003). 3 Márcia Gobbi (1997, p.26) faz uma relação deste termo, que significa uma visão de mundo que considera o adulto como o centro de tudo, tudo passa a ser visto e sentido segundo a ótica do adulto, com o termo etnocentrismo, que se caracteriza por uma visão de mundo segundo a qual o grupo a que pertencemos é tomado como centro de tudo. 7

Anais do III Encontro Nacional de Estudos sobre o Mediterrâneo ...
Jovens Feministas: um estudo sobre a ... - Fazendo Gênero
1 Articulando Gênero e Geração aos Estudos de ... - Fazendo Gênero
Relações de gênero e suas representações na ... - Fazendo Gênero
a educação das relações violentas e sua ... - Fazendo Gênero
Relações de gênero, feminismo e subjetividades ... - Fazendo Gênero
O que os alunos pensam sobre questões de ... - Fazendo Gênero
Gênero e sexualidade nas práticas escolares ... - Fazendo Gênero
RESUMO PARA FAZENDO GÊNERO - Grupo de Estudos em ...
Relações de gênero, feminismo e subjetividades ... - Fazendo Gênero
Relações de Poder na Agricultura Familiar Dayse ... - Fazendo Gênero
Bem do seu tamanho: uma análise de ... - Fazendo Gênero
Desmistificando medéias - Fazendo Gênero 10
homossexualidade: qual a sua visibilidade na ... - Fazendo Gênero
GÊNERO, MASCULINIDADE E DOCÊNCIA: - Fazendo Gênero
Gênero e Sexualidade nas Práticas Escolares ... - Fazendo Gênero
Violência; Gênero; Ciências - Fazendo Gênero
1 Sobre gênero e preconceitos: Estudos em análise crítica do ...
Gênero e sexualidade nas práticas escolares ST ... - Fazendo Gênero