Relatório_Acidentes Mortais em GIFs 2013.pdf

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Relatório encomendado pelo Ministério da Administração Interna (MAI) ao Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais - ADAI/LAETA do
Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade de Coimbra, com o fim de apurar as causas que levaram aos acidentes que provocaram a morte a 9 bombeiros.

Universidade de Coimbra Os Incêndios Florestais de 2013








controlado rapidamente sob a ameaça de o incêndio ganhar força novamente. Provavelmente seria

uma decisão mais acertada a colocação de equipas novas, ainda que houvesse necessidade de virem

de fora.

No dia 9 de julho pelas 13h47 deu‐se efetivamente um reacendimento a este da área ardida no dia

anterior. Este foi o primeiro momento chave do GIF de Picões.

O reacendimento deu‐se numa zona de difícil acesso para os meios terrestres e numa altura em que

as condições meteorológicas eram particularmente adversas. Um reacendimento usualmente

desenvolve‐se mais depressa que um foco inicial de incêndio, mais ainda com estas condições

atmosféricas. Apesar de não termos dados que o confirmem, acreditamos que o reacendimento não

foi detetado em tempo útil, o que associado à dificuldade de acessos ao local propiciou que o fogo

ganhasse novamente grande intensidade.

A população da zona afetada pelo incêndio tem um índice de envelhecimento muito elevado, em

média 2 vezes superior à média nacional mas que em algumas freguesias chega a ser 10 vezes maior.

Este envelhecimento tem como consequência algum grau de abandono dos terrenos agrícolas e uma

menor disponibilidade para a implementação de medidas de autoproteção junto dos aglomerados

urbanos. Isto é particularmente visível nos lugares mais pequenos, de que a Quinta das Quebradas é

o melhor exemplo.

As aldeias, quintas e lugares não são em grande número mas estão dispersas e o seu acesso é muito

moroso. Os meios deslocados para proteção do edificado tiveram muita dificuldade em chegar e

posteriormente em reposicionar‐se para o combate ao incêndio.

Ao longo do combate ao incêndio houve algumas situações que, à semelhança de muitos outros

incêndios florestais, obrigaram à dispersão de meios. Uma situação recorrente é a concentração de

meios na proteção dos aglomerados populacionais. A cultura de autoproteção através da

implementação de medidas de ação preventiva em muitos casos não existe ou é muito débil. Isto é

particularmente visível nas aldeias e lugares mais pequenos e com menor número de habitantes

(Quinta das Quebradas e outras pequenas aldeias, também designadas localmente por Quintas, com

apenas 3 ou 4 casas). Nos lugares mais povoados e de maiores dimensões existem muitos campos

agrícolas e pomares que funcionam bem como defesa passiva (Carviçais, Meirinhos). Pelo facto de a

defesa das pessoas e edificado ser uma prioridade, da qual não discordamos, o combate ao incêndio

florestal deixa muitas vezes de ser efetuado.

Ocorreu no dia 9 por volta das 16h50 uma situação atípica que também obrigou à dispersão dos

meios envolvidos no ataque ao incêndio: o resgate de um grupo de 30 trabalhadores que se

encontrava nas obras do novo Santuário de Santo Antão da Barca. O local da obra era uma zona

segura mas a falta de conhecimentos gerais sobre fogo por parte dos trabalhadores levou‐os a entrar

em pânico. Parece‐nos importante enfatizar esta situação na medida em que qualquer pessoa que

trabalhe numa zona remota, de ocupação predominantemente florestal ou de matos, pode

eventualmente deparar‐se com um incêndio florestal. Em particular em casos como este, em que

existe um grande número de pessoas, deve haver algum tipo de formação e plano de atuação para a

eventualidade de um incêndio florestal ocorrer, que permita resolver o problema sem ter de

empregar meios de combate para tal.

As obras da Barragem do Baixo Sabor encontram‐se já num estado muito avançado de execução, o

mesmo sucedendo com as ações de preparação para o seu enchimento. Grande parte dos vales desta

região, nomeadamente das principais linhas de água tinha já sido desmatada e desarborizada. A

primavera muito chuvosa de 2013 teve como consequência uma substancial produção herbácea, um

pouco por todo o país mas sobretudo nestas zonas, que estavam desprovidas de vegetação. A

existência de uma grande quantidade de vegetação herbácea seca influenciou favoravelmente a

rápida progressão do incêndio, especialmente no dia 9.

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