O jornalismo radical de Raimundo Rodrigues Pereira

petehf

O jornalismo radical de Raimundo Rodrigues Pereira

GT de Mídia alternativa

O jornalismo radical de Raimundo Rodrigues Pereira

Autoras: VELOSO, Maria do Socorro Furtado 1 ; GONÇALVES, Maria Cristina

Oliveira 2

Em 2008 o jornalismo brasileiro completa dois séculos de existência. A maior

parte desses 200 anos foi marcada por ações repressoras ao livre pensamento e ao

direito de informar a sociedade. Na resistência a esses atos repressivos, especialmente

durante os 21 anos da ditadura militar (1964-1985), despontou Raimundo Rodrigues

Pereira, um dos jornalistas mais importantes e ativos daquela fase. Raimundo esteve à

frente de dois dos principais veículos alternativos do período – Opinião e Movimento –

e procura, até hoje, lutar pelo direito à informação em seus projetos jornalísticos, que

ele prefere chamar de “imprensa democrática-popular”. Hoje com 67 anos de idade, 42

dos quais vividos em redações de jornais e revistas, Raimundo Rodrigues Pereira é um

crítico permanente do monopólio exercido pelos grandes grupos de mídia e das relações

promíscuas entre imprensa e Estado. Retratar a trajetória deste grande nome da

imprensa alternativa brasileira é o objetivo do presente artigo.

Palavras chave: Imprensa alternativa - Raimundo Rodrigues Pereira - censura

1 Jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e professora de Jornalismo do Unifae (São João da

Boa Vista, SP), Isca Faculdades (Limeira, SP) e Faculdade Prudente de Moraes (Itu, SP).

2 Jornalista formada pelo Unifae (São João da Boa Vista, SP) e pós-graduanda em Jornalismo Literário pela

Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL) e TextoVivo.

1


Introdução

Desde que o Correio Braziliense foi lançado em Londres por Hipólito José da

Costa, há 200 anos, a imprensa brasileira tem enfrentado grandes problemas em suas

relações com o poder, ora cedendo às pressões, ora vencendo os obstáculos. Ao longo

da história, grandes nomes do jornalismo se destacaram na luta contra essas pressões,

entre eles Raimundo Rodrigues Pereira.

Raimundo trabalhou em dois dos mais importantes veículos alternativos do

período – Opinião e Movimento – e procura, até hoje, defender esses ideais em seus

projetos jornalísticos, que ele prefere chamar de “imprensa democrática-popular”.

Retratar sua trajetória é uma forma de preservar um capítulo importante da história do

jornalismo no Brasil, especialmente no que se refere à censura aos jornais durante o

regime militar (1964-1985) e à proliferação de títulos da imprensa alternativa. Sua

biografia serve de exemplo àqueles que defendem a democracia e a liberdade de

informação.

Imprensa alternativa ao poder e à grande mídia

Ao longo da história brasileira a imprensa foi utilizada, de maneira geral, para

legitimar as estruturas de poder. A censura prévia imposta a redações de jornais e

revistas após a decretação do AI-5 (Ato Institucional nº 5), em dezembro de 1968, é um

exemplo. Contudo, durante a ditadura militar, em meio às constantes tentativas de

controle da liberdade de expressão, surgiram centenas de publicações, denominadas de

“alternativas”, “independentes”, “populares” ou “nanicas”, que ousavam desafiar o

poder e denunciavam o quadro de opressão em que se vivia. Foi desta forma que a

oposição ao regime encontrou espaço para sua reorganização política e ideológica.

Coube a esses jornais alternativos criar espaços de contestação, defendendo

interesses de grupos e movimentos sociais, que de outra forma não seriam ouvidos, uma

vez que os grandes periódicos acabaram cedendo às pressões dos governos militares –

no início, o golpe contra o presidente João Goulart contou com a adesão dos principais

veículos de comunicação.

Kucinski (2003, p.13) reforça que “em contraste com a complacência da grande

imprensa para com a ditadura militar, os jornais alternativos cobravam com veemência a

2


estauração da democracia e do respeito aos direitos humanos e faziam a crítica do

modelo econômico” .

Os periódicos políticos que questionavam a ordem burguesa eram os principais

alvos da ditadura. Estes faziam parte da “má” imprensa, como observa Capelato (1984).

Segundo a autora, os jornais anarquistas, comunistas, socialistas, entre outros, tiveram

pouquíssimos períodos de liberdade. “Em nome da ordem, a vigilância se amplia e

atinge a todos os jornais: nenhuma crítica é tolerada – a sociedade e seus dirigentes são

inatacáveis” (CAPELATO, 1984, p. 30). Da história desses jornais faz parte o jornalista

pernambucano Raimundo Pereira.

Breve história de vida

Em 8 de setembro de 1940 3 nascia em Exu (PE) aquele que é considerado o mais

importante nome da imprensa alternativa brasileira: Raimundo Rodrigues Pereira. “Do

tempo da imprensa alternativa de São Paulo e do Brasil todo, Raimundo Pereira, um

pau-de-arara galego que anda com pernas de cowboy, é a pessoa mais representativa”

(RIBEIRO, 1998, p. 143).

Ainda pequeno, com quatro anos, mudou-se para o Sul com a família, em busca

das terras para colonização, doadas por Getúlio Vargas. O pai de Raimundo, Joaquim

Rodrigues de Oliveira, comerciante na terra natal, preferiu ficar no interior do Estado de

São Paulo, próximo a Mirandópolis. Como o pai não gostava de trabalhar em fazenda, a

família mudou-se para Pacaembu, cidade paulista, onde abriu um comércio de secos e

molhados. Também foi em Pacaembu que Raimundo arriscou as primeiras atuações no

jornalismo. Aos 12 anos trabalhou como cronista esportivo no serviço de alto-falante

local. O sonho de Raimundo, contudo, era ser jogador de futebol.

Por alguns anos o armazém do pai prosperou, mas em 1962, com a recessão,

faliu, obrigando a mãe, Lindanora Simplício Pereira, a ir para São Paulo com os outros

filhos. Nessa época Raimundo já estudava fora havia algum tempo. Assim que terminou

o ensino fundamental, na época chamado de ginásio, foi para Araçatuba, onde fez o

científico – hoje, ensino médio. Em seguida também foi para São Paulo com o objetivo

de estudar e entrar para a faculdade.

3

Raimundo nasceu no dia 8, porém foi registrado em 19 de setembro de 1940.

3


Como a carreira de jogador de futebol foi frustrante, Raimundo optou pela

engenharia aeronáutica. Em 1960 entrou no Instituto Tecnológico de Aeronáutica

(ITA), em São José dos Campos (SP), do qual foi expulso em 1964, após o golpe

militar. Raimundo conta que sua militância esquerdista deve-se às influências sofridas

dentro do ITA.

Minha formação ideológica, um pouco antes de vir para o ITA, era de uma

pessoa que, se bobeasse, caminharia para a direita. E no ITA tinha um outro

ambiente. Eu tive lá mentores, que me receberam e me encorajaram. [Ulrich]

Hoffman, ligado ao antigo partidão [Partido Comunista Brasileiro], era um

aluno mais velho e recebia os calouros. Me enturmei. Tinha naquela época

também o Última Hora. Era o jornal que a gente lia. Espetacular. Não houve

jornal igual no Brasil. 4

Durante os anos em que estudou no ITA, Raimundo dirigia um grupo teatral. Ele

também redigia o jornal O Suplemento. Com periodicidade semanal, era ligado à vida

dos estudantes.

Devido à atuação anarquista no jornal e no teatro, Raimundo e demais

companheiros foram expulsos do ITA e presos. O instituto foi uma das escolas que mais

sofreram com o golpe. Todos os suspeitos de subversão, tentativa de sabotagem e

doutrinação comunista que faziam parte do ITA foram para Santos (SP), onde foi

instaurado Inquérito Policial Militar (IPM). A investigação decidiu pela destituição de

dois professores e o desligamento de 12 estudantes, entre eles Raimundo Pereira.

Durante o período em que ficou preso ele foi torturado, porém, como descreve, sem a

mesma carga de violência aplicada a outros “subversivos”:

Era tortura. Porque o sujeito te deixa pelado e fica com um estilete batendo

no seu s..., te ameaçando dar umas porradas e te joga uns pós na cara. Você

não pode achar que isso não é tortura, que é normal. Mas comparado com o

que foi depois, era fichinha. 5

Ao ser encaminhado para a prisão militar na base da Aeronáutica, no Guarujá,

Raimundo foi interrogado e absolvido pela Auditoria Militar. Entretanto, a decisão

provocou descontentamento no ITA, pois a direção achava que Raimundo era um dos

maiores subversivos. Sua prisão foi novamente decretada, mas ele se escondeu.

4

Entrevista de Raimundo Pereira a Maria Cristina Gonçalves, em 10 de janeiro de 2007.

5

Idem.

4


Eu fugi com o japonesinho [João Yutaka Kitahara]. Fugimos e ficamos

homiziados num sítio de uns amigos, perto de Itapecerica, não me lembro por

quanto tempo, mas um ou dois meses. Até que o [Heráclito Fontoura] Sobral

Pinto, que era um grande defensor dos presos políticos, conseguiu um habeas

corpus no Supremo, para todos os estudantes. Os que estavam presos foram

soltos e os que estavam escondidos puderam voltar. 6

Livre, Raimundo voltou a dar aulas particulares de matemática, como fazia

desde o ensino fundamental. Foi dando aulas que conheceu um dos responsáveis pela

revista Médico Moderno, o jornalista Ítalo Tronca. “No primeiro dia de janeiro de 1965

eu comecei a minha carreira profissional”. 7 Para ele, a expulsão do ITA foi um presente

recebido dos militares: “De certa maneira o regime militar me fez um grande favor, me

tirou de uma profissão que não era bem uma inspiração que eu tinha”. 8

Em 1965 Raimundo se casou. Com a mulher socióloga, Sizue Imanishi, teve

quatro filhas: Ana, Lia, Rute e Raquel.

Desde os tempos do ITA Raimundo alinhou-se à esquerda, mas nunca militou

efetivamente em um partido, postura que pretende rever em breve.

Vou buscar uma participação política maior a partir de agora. O jornalismo é

meio frustrante em certos aspectos, porque você precisa transcrever fatos e

novidades, que às vezes são interessantes de se conhecer, mas muitas vezes

nos limita a ficar transmitindo a opinião dos outros. Claro que todo texto

jornalístico tem a opinião de quem escreve, de uma maneira ou de outra. Mas

na política, é frustrante, porque não sou militante político de nada. Estou

pensando em entrar em um partido e deixar um pouco mais militante a minha

atividade jornalística. 9

A participação no movimento estudantil prosseguiu após Raimundo sair do ITA.

Em 1965, ele iniciou o curso de Física na Universidade de São Paulo (USP), onde

permaneceu até 1967, atuando junto ao Centro Acadêmico de Filosofia. Durante sua

passagem pela USP, Raimundo também lançou e editou, em 1967, o tablóide mensal e

alternativo Amanhã. O jornal era predominantemente político. Apesar de efêmero –

foram publicados apenas sete números – teve grande importância histórica. Amanhã foi

o primeiro alternativo em que Raimundo trabalhou e que viria incentivar o surgimento

de vários outros jornais alternativos.

6

Entrevista de Raimundo Pereira a Maria Cristina Gonçalves, em 10 de janeiro de 2007.

7

Idem.

8

Entrevista de Raimundo Pereira a Maria Cristina Gonçalves, em 19 de setembro de 2007.

9

Entrevista de Raimundo Pereira a Maria Cristina Gonçalves, em 10 de janeiro de 2007.

5


Depois de Médico Moderno, Raimundo foi trabalhar na Editora Abril, na revista

técnica Máquinas e Metais. Nesse mesmo período trabalhou à noite no jornal diário O

Dia, também em São Paulo. Em 1967, junto com o Amanhã, atuou na Folha da Tarde.

Era editor de texto e preparava as matérias da primeira página.

A trajetória da imprensa alternativa mostra que muitos dos jornalistas que

estiveram na primeira fase da Folha da Tarde faziam parte de tablóides experimentais e

depois também participaram de outros projetos, como Opinião e Movimento. “Nesse

sentido, a ‘Folha da Tarde do logotipo vermelho’ foi um dos locus embrionários de um

jornalismo contestador que a repressão fez sucumbir” (KUSHNIR, 2004, p. 234).

Em 1968, Raimundo fez parte da equipe de criação da revista Veja, onde atuou

até meados de 1970, com grandes reportagens, como uma série de matérias a respeito de

viagens tripuladas para a Lua, além de outras duas reportagens que tinham como foco a

tortura no Brasil. Depois da saída, em 1970, Raimundo retornaria à revista em 1993,

agora como freelancer. Produzindo grandes matérias, ficou na revista até 1997.

Assim que deixou Veja pela primeira vez, o jornalista fez uma edição especial

para a revista Transporte Moderno a respeito das estradas da Amazônia, trabalho que

durou cerca de dois meses. Como editor, visitou as rodovias que eram construídas na

região. Com base na investigação para essa matéria, foi proposta, por Raimundo, uma

edição especial sobre a Amazônia para a revista Realidade, para a qual já havia feito

alguns trabalhos como freelancer no início de 1968. “Foi um grande investimento, com

muitos repórteres, fotógrafos e eu como editor. Quando terminou, nós fizemos a edição

Cidades. Esses dois trabalhos levaram um ano e meio para terminar”. 10 A edição

especial da Amazônia rendeu um Prêmio Esso a Raimundo e à equipe comandada por

ele.

Em seguida foi fundado Opinião, em 1972. Raimundo era o editor do jornal e

em 1975, demitido, montou outro semanal, Movimento. Tratam-se dos “[...] dois mais

importantes ‘alternativos’ de natureza política” (CHAPARRO, 1998, p. 64-65).

Assim que Movimento foi fechado, Raimundo retornou para a Editora Abril,

onde trabalhou por cerca de um ano na revista Ciência Ilustrada, fundada em 1981 e

com apenas três anos de circulação. Ao sair da publicação, em 1983, fez, com a ajuda da

Editora Três, o jornal alternativo Política. Mas a experiência durou apenas um número.

10

Entrevista de Raimundo Pereira a Maria Cristina Gonçalves, em 16/17 de julho de 2007.

6


“Vimos que aquele caminho não dava, não tinha apoio. Precisávamos acumular

dinheiro”, justifica 11 . Para isso, teve início o terceiro grande projeto alternativo do

jornalista: Retrato do Brasil.

Em 1986, uma equipe de jornalistas liderada por Raimundo, por meio da Editora

Política, lançou a primeira coleção Retrato do Brasil, com um estudo sobre a ditadura

militar. O dinheiro arrecadado com a venda dos fascículos e de cotas possibilitou a

criação do jornal diário Retrato do Brasil, em São Paulo. “Achávamos que o Brasil

precisava de um jornal crítico”, conta Raimundo. 12 Entretanto, circulando com apenas

oito páginas, o periódico durou só dois meses.

Antes da criação do diário, Raimundo e outros profissionais procuraram Mino

Carta e produziram algumas matérias especiais, em parceria com a Editora Três e

Domingo Alzugaray, para a revista Senhor, que depois passou a chamar-se

IstoÉ/Senhor, mas por um curto período.

Em 1997, Raimundo fundou a Editora Manifesto. A sede e os departamentos

administrativo e financeiro funcionam em Belo Horizonte, e a redação, em São Paulo.

Há correspondentes em Brasília e Porto Alegre. Além de levar o título Retrato do Brasil

para a nova empresa, a equipe criou o site Oficina de Informações

(www.oficinainforma.com.br), voltado para a cobertura de fatos do dia-a-dia. Logo em

seguida foi criada a revista mensal Reportagem. Publicada até meados de 2005, era

voltada para a reflexão e análise. O grupo também transformou Retrato do Brasil em

revista, porém sem periodicidade definida e com baixa tiragem.

Vinte anos depois, a Manifesto relançou a coleção Retrato do Brasil, que faz um

apanhado dos principais acontecimentos entre o fim da ditadura e o encerramento do

primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006).

A nova edição foi publicada de agosto de 2005 a julho de 2006. A proposta é

criar um jornal democrático-popular com a verba arrecadada. Raimundo acredita que o

país necessita de um veículo com posição independente, sustentado por um público

mais interessado e crítico.

Com o fim do jornal Retrato do Brasil, em 1987, Raimundo voltou para a grande

imprensa, onde trabalhou como editor e repórter especial da revista semanal IstoÉ. Em

1998, juntamente com o jornalista Carlos Azevedo, publicou a reportagem “O muro

11

Entrevista de Raimundo Pereira a Maria Cristina Gonçalves, em 16/17 de julho de 2007.

12

Disponível em: http://www.cartacapital.com.br. Acesso em: 26 de set. de 2007, às 20h50.

7


fácil”. 14 Além disso, é necessário que o jornalista tenha posição. Raimundo lembra que a

americano” na revista Caros Amigos. “Queríamos fazer uma revista em sociedade, a

Caros Amigos Reportagem, mas não deu certo. Então fundamos a revista Reportagem e

o site [Oficina de Informações], que durou um pouquinho mais”. 13

No final de 2006 Raimundo produziu algumas matérias de destaque, intituladas

“Dossiê Globo”, na revista Carta Capital. O jornalista, com a colaboração de Antônio

Carlos Queiroz, discutiu o papel da grande imprensa nas eleições presidenciais, focando

as Organizações Globo. A edição de 18 de outubro de 2006 revelou um complô da

mídia com o objetivo de influenciar o resultado do segundo turno das eleições para

presidente. O escândalo, às vésperas dede outubro, foi reportagem de capa, com o

texto intitulado “Os fatos ocultos”.

Atualmente também pela Carta Capital, em parceria com a Editora Manifesto,

Raimundo coordena outro importante projeto: a série Retrato do Brasil e Carta Capital.

Nesse novo projeto são publicados, na revista de Mino Carta, suplementos que fazem

uma reflexão profunda a respeito de problemas e desafios enfrentados pelo país.

Para ele, independentemente de onde atua, seja na imprensa alternativa ou na

patronal, o jornalista tem a obrigação de investigar, buscar fatos novos, ter

conhecimento e formar opinião a respeito do que está escrevendo, pensando sempre nos

leitores. Além disso, é necessário ter recursos financeiros e materiais para executar bem

o trabalho. Entretanto, Raimundo acredita que a imprensa moderna tem deixado de lado

essa função intrínseca do jornalismo.

Para ele, a imprensa é um dos meios de se educar a população, visando à

elevação de seu nível de compreensão política. “Você deve contribuir nessa direção, de

aprofundar e popularizar o conhecimento das coisas. É uma tarefa criativa. E não é

imparcialidade é um mito. “Você não descreve as coisas de um Olimpo, livre de todas

as influências. Escreve como você é, com seus preconceitos, suas informações. Quanto

mais tiver uma posição clara, melhor consegue informar”. 15

Uma saída possível, de acordo com Raimundo, é a construção de uma nova

imprensa popular. O jornalista avalia que atualmente há movimentos neste sentido, mas

13

Entrevista de Raimundo Pereira a Maria Cristina Gonçalves, em 16/17 de julho de 2007.

14

Entrevista de Raimundo Pereira a Maria Cristina Gonçalves, em 19 de setembro de 2007.

15

Entrevista de Raimundo Pereira a Maria Cristina Gonçalves, em 16/17 de julho de 2007.

8


ainda em pequena escala, como as revistas Carta Capital e Caros Amigos, o projeto

Retrato do Brasil, o jornal do MST, Brasil de Fato, entre outras iniciativas, além da

internet. “Devemos persistir nesse rumo, trabalhar nessa direção e esperar dias melhores

para florescer”. 16

Opinião e Movimento: principais jornais alternativos brasileiros

O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira é hoje reconhecido como um grande

nome da imprensa nacional sobretudo devido à sua intensa atuação nos semanários

Opinião (1972-1977) e Movimento (1975-1981), dois dos principais periódicos

populares políticos, que nasceram para combater a ditadura militar.

Em outubro de 1972 o empresário Fernando Gasparian lançou no Rio de Janeiro

o alternativo Opinião, um jornal de oposição ligado a intelectuais e políticos de

esquerda perseguidos pelo regime. Raimundo Pereira foi convidado para dirigir a

redação.

O periódico vendia uma média de 29 mil exemplares por edição. Mas, “com o

aperto da censura prévia [...] a partir do número 23, em abril de 1973, [...] Opinião

muda de caráter, tornando-se quase que exclusivamente um jornal de resistência. [...] A

vendagem cai à metade” (KUCINSKI, 2003, p. 324).

Raimundo conta que driblar a censura era uma busca constante da redação. Os

jornalistas sabiam o que seria vetado, como, por exemplo, referências à própria censura,

a torturas e assassinatos. Mas no começo ainda era possível escrever nas entrelinhas.

“Até o número 23 – que foi o momento de inflexão da censura – dava para tocar no

assunto muito indiretamente, sem citar nome. Era uma coisa completamente cifrada. A

partir dessa edição nem assim conseguíamos”. 17 A alternativa era mudar o foco, tratando

de temas econômicos, menos visados pelos censores.

A batalha contra a censura durou quase cinco anos. Mas o semanário já não

conseguia conviver com os cortes feitos em Brasília, além da apreensão de diversos

números, processos judiciais, atentados e prisões. Desta forma, Fernando Gasparian

decidiu que Opinião só voltaria a circular depois do fim da censura. Os redatores

calcularam, na época, que nos quatro anos e meio de existência do jornal, as 230 edições

16

Idem.

17

Entrevista de Raimundo Pereira a Maria Cristina Gonçalves, em 16/17 de julho de 2007.

9


publicadas de Opinião somaram 5.796 páginas impressas. Se somado ao material

cortado pelos censores, o número de páginas publicadas subiria para 10.548. “[...]

precisávamos fazer semanalmente, para cada jornal publicado, quase dois” (JORGE,

1987, p. 100-101). Em 1º de abril de 1977, Opinião circulou pela última vez.

Para os redatores e representantes de Opinião, a censura foi ferrenha porque o

semanário foi o primeiro veículo a combater abertamente a censura e a desvendar seus

mecanismos.

Outro fator que agilizou o fechamento do alternativo foi a oposição entre a

redação e o proprietário. “A política de abertura aprofundou divergências entre o

proprietário d’Opinião, Fernando Gasparian, e seu editor, Raimundo Pereira, que já

vinham de longe, na medida do progressivo atrelamento do jornal ao Comitê Central do

PC do B” (KUCINSKI, 2003 p. 117). Raimundo conta que foi “posto para fora de

Opinião”. 18 Ao ser demitido, a equipe com a qual trabalhava também demitiu-se, em

solidariedade ao editor e aos ideais por ele defendidos.

Ele [Gasparian] achou que estava em curso uma mudança favorável no

quadro político brasileiro, que era a saída de [Emílio] Médici e a entrada de

[Ernesto] Geisel, que iniciou uma política de distensão. Por ter sido dirigente

da Petrobras – que é símbolo do nacionalismo brasileiro –, Geisel tinha fama

de ser nacionalista. Nós, no Opinião, demonstramos que não era verdade,

enquanto o patrão, no meu entendimento, acreditava nisso. Ele e muita gente.

Houve uma diferença de opiniões. O desfecho foi a minha demissão e a saída

da equipe. Ele era o dono e, realmente, numa situação como essa, o que

acontece é o dono substituir o editor. 19

Após a demissão em massa, Opinião ainda sobreviveu por dois anos. Mas,

devido à deterioração da imagem do periódico, Gasparian não conseguiu formar uma

nova equipe e decidiu fechar o jornal após 231 edições.

Racha em Opinião cria o alternativo Movimento

Após desentendimentos editoriais e políticos em Opinião, Raimundo e mais

cerca de 50 jornalistas (vindos do mesmo periódico), lançaram em julho de 1975, em

São Paulo, o jornal Movimento, um projeto político que reunia em torno de 300

18

Entrevista de Raimundo Pereira a Maria Cristina Gonçalves, em 16/17 de julho de 2007.

19

Idem.

10


jornalistas, organizados de forma efetivamente alternativa, unindo várias correntes de

esquerda (PEREIRA In: FESTA; SILVA, 1986, p. 64).

“Inviabilizado o Opinião, Raimundo partiu para o que considera o primeiro

jornal sem patrão no Brasil, o semanário Movimento” (RIBEIRO, 1998, p. 145), uma

vez que as decisões do jornal eram tomadas por meio dos conselhos. “Os principais

jornais do período procuraram montar um conselho editorial, do qual faziam parte

personalidades de prestígio, com o intuito de legitimar a linha editorial e ampliar a base

de sustentação dos jornais perante as investidas da repressão” (KUCINSKI, 2003, p.

20).

Movimento nasceu como um “jornal de jornalistas”, de propriedade coletiva e

articulado à sociedade. Tinha como objetivo lutar pela independência do país, pela

defesa das liberdades democráticas e pela elevação do padrão de vida dos trabalhadores.

Os acionistas estabeleceram compromisso ético visando ao funcionamento democrático

do jornal.

Segundo seu fundador e editor, Movimento foi mais visado pelo regime militar

do que os demais periódicos, uma vez que a primeira edição já saiu censurada, apesar

dos cortes a O Estado de S. Paulo terem sido suspensos no mesmo ano do surgimento

do alternativo. “O Movimento só teve liberdade quando caiu a censura para o país

inteiro, em 1978”. 20

O programa político de Movimento consistia em apresentar, analisar e comentar

os principais acontecimentos políticos, econômicos e culturais da semana. Para isso,

lançou mão das charges. Como observa Miani, “de natureza intertextual, dissertativa,

lúdica e humorística, a charge cumpre invariavelmente a função de ‘editorial gráfico’.

[...] O humor mina os limites da lei”. 21

Além da sede em São Paulo, o semanário contava com núcleos de apoio em

várias cidades, como Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre,

Curitiba e Belém, e correspondentes em Paris e Nova York. Além da distribuição em

bancas, o jornal era enviado a essas sucursais, onde havia pessoas que saíam às ruas

para vender as edições. Assim como as assinaturas, a venda de mão em mão também era

positiva.

20

Entrevista de Raimundo Pereira a Maria Cristina Gonçalves, em 16/17 de julho de 2007.

21

MIANI, R. A. A luta pela redemocratização no Brasil através da charge no jornal Movimento.

Disponível em: http://www.jornalismo.ufsc.br. Acesso em: 6 de dez. de 2006.

11


O periódico teve três edições apreendidas, 2.250 matérias vetadas e 2.700

ilustrações proibidas. Os três números previamente censurados que não puderam ir para

as bancas tratavam do trabalho da mulher brasileira, de uma denúncia relativa a

contratos de risco na área de exploração do petróleo, e a defesa da anistia, liberdade e

instalação da Assembléia Constituinte.

A censura prévia ao jornal somente foi suspensa em junho de 1978. Tratou-se de

um dos últimos periódicos a deixar de conviver com essa restrição. Quando finalmente

ficou livre da censura prévia, Movimento publicou na capa da edição número 155, de 19

de junho de 1978, o título: “Primeira edição totalmente planejada e executada sem

censura”.

A redação pôde escrever exatamente da maneira que pensava e as vendas do

jornal começaram a crescer. Sentindo a necessidade de uma publicação mais popular,

devido à abertura política, o alternativo lançou o suplemento Assuntos, que reunia

mensalmente artigos escritos por líderes do movimento popular. Ao todo, foram

vendidas de mão em mão sete edições, de abril a outubro de 1978 (PEREIRA In:

FESTA; SILVA, 1986, p. 67).

Movimento cresceu no período inicial da abertura, de forma estupenda.

Elevou em 250% suas vendas em banca e aumentou o número de assinaturas,

chegando a uma vendagem próxima de 30 mil exemplares. Depois caiu em

patamares sucessivos, até que os atentados terroristas de meados de 80 lhe

assestaram o golpe fatal, ao qual sobreviveu por poucos meses, já em agonia.

(PEREIRA In: FESTA; SILVA, 1986, p. 72)

No final de 1977 foi criado o jornal Em Tempo, também em São Paulo, com o

objetivo de abrigar jornalistas e colaboradores que já não concordavam com a linha

seguida por Movimento. Formaram-se dois grupos dentro do jornal, os que rejeitavam a

autoridade do PC do B e os que defendiam a necessidade dessa união. O articulador

desse novo projeto foi o jornalista Bernardo Kucinski.

Além dos desentendimentos internos, uma das principais razões para o fim de

Movimento, em 23 de novembro de 1981, foram os atentados às bancas que vendiam o

alternativo, assim como outros periódicos que ainda incomodavam os militares. Com os

ataques, o jornal perdeu assinantes e as vendas avulsas caíram pela metade.

Com os atentados e as mudanças políticas, que culminaram em sucessivas crises

dentro do alternativo, Movimento não teve mais forças para continuar.

12


O futuro para Raimundo Pereira

Dezesseis anos após o fim de Movimento, Raimundo Rodrigues Pereira fala dos

projetos editoriais que alimenta com o mesmo entusiasmo de antes. Aos 67 anos de

idade, 42 deles dedicados ao jornalismo, ele pretende completar bodas de ouro na

profissão. “Estou fazendo um plano extremamente ambicioso de viver mais dez anos

produtivos” 22 . Para isso, alguns pontos serão levados em consideração: definição por um

partido; articulação de um novo projeto alternativo (um jornal diário democráticopopular);

produção de matérias especiais; algum documento a respeito da imprensa

alternativa; e um estudo acerca de O capital, de Karl Marx.

Para Raimundo, desde o fechamento de Movimento a imprensa brasileira não

teve projetos de grande expressão no campo popular. “Um jornal nacional, de unidade

das forças populares mais democráticas, não houve. Não conseguimos realizar um

jornal que tivesse a repercussão e representasse para o movimento de massas uma

alternativa” 23 .

Para suprir essa necessidade, Raimundo, juntamente com outros jornalistas de

sua equipe, pretende, a partir de meados deste ano, montar outro projeto de imprensa

popular. Ele se sente na obrigação de estimular um projeto desse tipo, para que

jornalistas mais jovens dêem andamento à proposta. A intenção é fazer um jornal diário,

mas a periodicidade dependerá do resultado do esforço.

Para ele, o jornalismo tem as limitações de todas as profissões, mas é uma

atividade que tem a vantagem de sempre buscar o novo. Por essa razão, a imprensa

popular deve ser valorizada e desenvolvida.

Considerações finais

O jornalista tem de batalhar para fazer um trabalho bom e sensato, sem

precisar sair correndo na frente do trem. Mesmo sob o regime patronal, onde

tem um patrão que escolhe a linha editorial da publicação, que define o

editor, é você, como jornalista, o sujeito que vai para a rua fazer a matéria,

articular os fatos. Então você tem uma margem de atuação onde deve se

situar, buscando um trabalho que o dignifique, do qual tenha orgulho, que

possa reler com satisfação. 24

22

Entrevista de Raimundo Pereira a Maria Cristina Gonçalves, em 10 de janeiro de 2007.

23

Entrevista de Raimundo Pereira a Maria Cristina Gonçalves, em 19 de setembro de 2007.

24

Idem.

13


Desde o seu surgimento, a imprensa brasileira sempre viveu sob a pressão da

censura, que tentou calar jornais e jornalistas utilizando-se de variadas ferramentas de

repressão e autoritarismo. Mesmo com a grande mídia silenciando ou pouco reagindo

aos abusos do regime, surgiram vozes dissonantes na multidão, personificadas pelos

jornais alternativos. Esse movimento, mesmo que muitas vezes sufocado pela censura

prévia, fez sua parte. Em sua história, como um dos principais protagonistas, já está

inscrito o nome do pernambucano Raimundo Rodrigues Pereira, um “gigante da

imprensa nanica”, conforme definição do jornalista Lúcio Flávio Pinto 25 .

Mesmo trabalhando para o patronato da mídia em vários momentos de sua

carreira, Raimundo sempre procurou seguir seus ideais e aos 67 anos de idade, continua

atuante. Hoje envolvido com projetos editoriais por meio da Editora Manifesto, busca

em seu trabalho o que o jornalismo tem de melhor: investigar os fatos, fazendo com que

cheguem ao público de forma transparente. Tanto é que planeja trazer para o século

XXI o formato dos alternativos Opinião e Movimento. Além de criticar o modelo

político e social vigente, ele pretende, com esse novo projeto, buscar um sistema

alternativo ao existente hoje.

O silenciamento da grande imprensa e a ausência de projetos democráticos

devem ser questionados pelos movimentos de resistência, por meio da imprensa

democratizada, visando criar estratégias de ação e viabilidade a projetos como o

defendido por Raimundo Pereira. Há 42 anos, o maior nome da imprensa alternativa

brasileira luta para abrir espaços legítimos ao exercício da liberdade de expressão.

Encarar esse desafio não é tarefa simples, mas deve ser uma meta perseguida

diariamente por jornalistas e estudantes da área, muitos dos quais ainda desconhecem as

engrenagens do sistema midiático e sua estreita relação com o grande capital.

Referências

CAPELATO, M. H. R. Imprensa e história do Brasil. São Paulo: Edusp, 1994.

CHAPARRO, C. M. Sotaques d’aquém e d’além mar. Santarém: Jortejo, 1998.

JORGE, F. Cale a boca, jornalista! Petrópolis: Vozes, 1987.

25

Entrevista de Lúcio Flávio Pinto a Maria Cristina Gonçalves, em 25 de março de 2007, por e-mail

14


KUCINSKI, B. Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa. São Paulo:

Edusp, 2003.

KUSHNIR, B. Cães de guarda – jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988. São

Paulo: Boitempo Editorial, 2004.

PEREIRA, R. R. “Viva a imprensa alternativa. Viva a imprensa alternativa!” In: FESTA, R &

SILVA, C. E. L. (orgs). Comunicação popular e alternativa no Brasil. São Paulo: Paulinas,

1986.

RIBEIRO, J. H. Jornalistas – 1937 a 1997: história da imprensa de São Paulo vista pelos que

batalham laudas (terminais), câmeras e microfones. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado,

1998.

Documentos online

MIANI, R. A. A luta pela redemocratização no Brasil através da charge no jornal

Movimento. Disponível em: http://www.jornalismo.ufsc.br. Acesso em: 6 de dez. de 2006.

Retrato do Brasil. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br. Acesso em: 26 de set. de

2007, às 20h50.

Entrevistas

Lúcio Flávio Pinto, em 25 de março de 2007, por e-mail.

Raimundo Rodrigues Pereira, em 10 de janeiro, 16/17 de julho e 19 de setembro de 2007.

15

Similar magazines