consumo - Apas

portalapas.org.br

consumo - Apas

Capa

consumo

thinkstock / montagem: paulo garcia

26 SuperVarejo setembro 2012


Movimento de interiorização está levando empresas, empregos e

recursos dos grandes centros para as cidades médias do interior.

O momento requer planejamento estratégico pois, acima de tudo,

é hora de ser eficiente e rentável na operação

[ Por Natalie Catuogno revista@supervarejo.com.br ]

setembro 2012 SuperVarejo 27


Capa consumo

Desde 2010, o varejo abre mais lojas nas cidades do

interior que nas capitais. No ano passado, não foi

diferente e, em 2009, a quantidade de novas unidades

erguidas nos centros urbanos empatou com o

total aberto nos municípios interioranos, segundo

dados coletados pela Nielsen.

O varejo interiorano responde hoje por 33% das vendas do

autosserviço alimentar, mas tudo indica que essa participação

esteja em franco crescimento, já que, do total de aumento de

vendas registrado nesse primeiro semestre de 2012, 48% teve

como origem uma transação realizada em uma loja do interior.

Prova disso é que, entre junho de 2011 e o mesmo mês de

2012, as vendas em valor no autosserviço alimentar no interior

cresceram 13%, cinco pontos percentuais a mais que o

avanço de 8% verificado nas capitais e cidades integrantes

das regiões metropolitanas.

Os dados referem-se a todas as 194 categorias de produtos

que a Nielsen audita mensalmente em sua pesquisa Scantrack

e contrapõe o desempenho dessas cestas em dois grupos de

cidades: capitais e respectivas regiões metropolitanas de um

lado, todos os demais municípios de outro.

Juntos, esses números revelam a fotografia de um fenômeno

social e demográfico que o Brasil vem experimentando

agora e que já aconteceu em nações com mercados mais

maduros, como os Estados Unidos, por exemplo: a redescoberta

do interior, seu crescimento e o amadurecimento do

mercado local.

Boa Supermercados: plano de expansão com foco nas cidades médias

arquivo

28 SuperVarejo setembro 2012


Uma convergência de fatores tem tornado as cidades médias

– com mais de 100 mil habitantes – em municípios atraentes

tanto para as famílias como para as empresas.

No primeiro caso – o das famílias – especialistas ouvidos

por SuperVarejo explicam que as pessoas estão partindo para

o interior em busca de mais qualidade de vida, coisa que os

grandes centros urbanos não conseguem mais oferecer.

Sempre houve essa demanda latente entre uma parcela da

população moradora das capitais ou regiões metropolitanas,

mas as cidades menores não tinham oferta de emprego e renda

à altura das necessidades nem dos moradores locais – que frequentemente

migravam para as capitais – nem de “forasteiros”

dispostos a investir numa vida mais tranquila.

Esse cenário começou a mudar, principalmente, a partir da

ascensão da classe C e por causa do florescimento de polos

empresariais, como os ligados a petróleo, tecnologia e a agronegócios,

no interior do País.

Com mais renda circulando e mais trabalhadores remunerados

atraídos para postos de trabalho nesses polos, as cidades

passaram a ser interessantes para empresários e comerciantes

que, por sua vez, ao investirem, geraram mais emprego e renda,

criando um “círculo virtuoso”.

Polos e enriquecimento regional

favorecem comércio

Cidades que mais cresceram se desenvolveram na esteira de setores em ascensão na economia, como petróleo e agronegócio

Antonio Bernardino dos Santos, gerente da loja independente

Aalborg, localizada em Macaé (RJ), perdeu as contas de quantos

prédios novos estão em construção nas imediações do seu negócio.

Também não sabe dizer quantas são, mas garante que há mais e

mais empresas abrindo as portas ali no bairro. Macaé é conhecida

por ser um dos principais polos petrolíferos do País.

“Muitas cidades, além do crescimento de renda, estão

experimentando uma movimentação na economia, pois viraram

polos regionais de agronegócios, de petróleo, de tecnologia, de

educação”, explica Mariana Pacheco de Andrade, executiva de

atendimento ao varejista da Nielsen.

Segundo levantamento exclusivo feito pela Escopo Geomarketing

com dados oficiais a pedido da SuperVarejo, Macaé é o terceiro

município médio (acima de 100 mil habitantes) que mais cresceu

em renda total entre 2000 e 2010, apresentando uma evolução

de 6,1% no período. A renda total mede o total recebido pelos

chefes de famílias num determinado período e evidencia a riqueza

de um local (mas não a distribuição dessa riqueza).

“Aqui tem emprego, tem renda e, consequentemente, cada vez

mais moradores”, explica Santos, do Aalborg. A prosperidade

e o crescimento experimentados resultaram em investimentos

para ampliar o negócio, atender melhor os clientes –sempre em

número crescente- e fazer frente à concorrência, que também

está de olho no mercado da cidade.

A loja está passando por reformas para ampliar açougue e

padaria, que, segundo Santos, não dão mais conta do movimento.

Na sequência, a frente de caixa será ampliada para receber mais

sete checkouts, totalizando 15. A área de FLV acabou de sofrer

uma reforma que igualmente aumentou sua área de vendas.

Em Araguaína (TO), o município interiorano de porte médio que

mais enriqueceu, segundo levantamento da Escopo (7,4% de

avanço em renda total desde 2000), o crescimento da cidade

levou Claudeilton Almeida do Carmo, supervisor de faturamento

do Supermercado Nunes, loja única, a um outro caminho. Para

enfrentar a concorrência crescente dos atacarejos, decidiu-se

que a distribuidora da companhia, antes focada em atender

apenas empresas, passaria a operar também no varejo.

Quando Carmo conversou com a reportagem de SuperVarejo, no

meio de agosto, o Supermercado Nunes estava a uma semana

de abrir as portas da distribuidora ao público “comum”.

Além disso, Carmo conta que a loja do supermercado triplicou

de tamanho em três anos. “Nosso diferencial é o atendimento.

Nos atacarejos, por exemplo, não tem nem empacotador,

ninguém ajuda o cliente a levar as compras ao carro. Aqui, nós

até entregamos, o que é um grande diferencial.

Comparando uma compra média nos atacadões com uma na

nossa loja, a diferença é pequena, uns R$ 15. Uma pessoa que

tenha ido no concorrente sem carro, vai gastar esse ganho em

táxi. Aqui, ela compra, e eu levo até a casa dela”, explica ele.

Araguaína cresceu devido ao agronegócio (já foi considerada

a “capital do boi”). Mas hoje sua economia é diversificada,

com atuação marcante no Estado em setores como comércio,

educação e serviços.

Caso similar acontece com outros municípios médios que vem

enriquecendo desde 2000. Mossoró, no Rio Grande do Norte

(segunda no ranking elaborado pela Escopo à SuperVarejo, com

avanço registrado de 6,3%), por exemplo, é considerado o maior

produtor de petróleo em terra no Brasil. Já Petrolina (PE), que

ocupa a quinta posição, tendo crescido 5,8% em renda total,

integra um poderoso polo exportador de frutas na região Nordeste.

setembro 2012 SuperVarejo 29


Capa consumo

Cinco razões para...

...ir para o interior

1. O crescimento do varejo interiorano está mais acelerado que

o das capitais, e a tendência é que esse avanço maior continue.

2. Isso é reflexo do aumento de renda da população local e

do consequente enriquecimento dessas cidades.

3. O custo de instalação de uma empresa no interior (contando

inclusive com as despesas com a burocracia para a abertura

da loja e com os custos fixos da operação mensal) chega a

ser até 20% mais barato que nas cidades grandes.

4. A rentabilidade também é maior, não só por causa da

operação mais em conta, mas principalmente porque a mão

de obra é mais barata no interior que nas metrópoles.

5. Em geral, dependendo do porte da empresa interessada

em aportar nas cidades menores, o poder público local

concede incentivos fiscais e estímulos para a instalação das

companhias. Faz isso de olho, claro, no aumento do emprego,

da renda e da arrecadação de tributos.

...não ir para o interior

1. O interior cresce mais, mas as capitais e as regiões

metropolitanas ainda detêm boa parte da participação nas

vendas em valor dos itens de mais giro auditados pela Nielsen.

Só as capitais da região Sudeste, por exemplo, respondem

por 44,5% de tudo o que é vendido no Brasil. O interior

da mesma região é responsável por outros 22%. Em pelo

menos cinco das quatro regiões, as capitais ainda têm maior

importância nas vendas que o interior dos estados.

2. É preciso cautela com os dados de crescimento, mesmo

comparando-se apenas cidades interioranas. As que crescem

mais, frequentemente, não são aquelas que já têm mais recursos

disponíveis. Campinas, em São Paulo, a cidade interiorana

média mais rica, por exemplo, tem renda mensal total quase 15

vezes maior que Araguaína, o município médio que mais cresceu.

3. A vantagem competitiva é, em geral, de quem já opera

no local. Forasteiros, mesmo os gigantes, costumam ter

problemas de adaptação aos hábitos de consumo em

mercados que não conhecem.

4. É preciso analisar com cuidado para ter certeza de que

aventurar-se no interior não colocará em risco a operação já

em andamento na capital; é esse negócio, em última análise,

que custeia o desafio de se arriscar em outros mercados.

5. A logística é mais cara e complicada.Consultores dizem

que o custo operacional mais baixo compensa isso, mas

supermercadistas reclamam desse preço mesmo assim. Ou

seja, vale a pena analisar a questão mais detidamente.

Fontes: especialistas, consultores e supermercadistas

Prefeituras também participaram, oferecendo incentivos

fiscais e, às vezes, até estímulos para a compra de imóveis

comerciais, como a urbanização de áreas mais afastadas que

fossem ocupadas pelas companhias.

Os municípios médios foram se tornando cada vez mais viáveis

e economicamente sustentáveis. “A migração para as capitais

diminuiu, e as cidades médias, que ‘perdiam’ moradores, começaram

a ‘ganhar’ população oriunda inclusive das cidades pequenas

no entorno desses centros regionais”, explica a executiva de Atendimento

a Varejistas da Nielsen, Mariana Pacheco de Andrade.

Maior mercado consumidor

Consequência, em parte, desse movimento, o interior de São

Paulo, por exemplo, é hoje o principal mercado consumidor do

País, ultrapassando inclusive a capital paulista e sua região metropolitana,

mostram os dados da IPC Marketing Editora, responsável

pelo estudo IPC Maps que, entre outras coisas, mede o potencial

de consumo nos mais de cinco mil municípios brasileiros.

Segundo o estudo, em 2012 a participação do interior de São

Paulo no consumo do Estado alcançou 50,2%, representando

pela primeira vez desde o início da medição uma fatia maior,

portanto, que a participação da região metropolitana.

covabra, do interior de SP: lojas modernas e com avançado nível de tecnologia

arquivo

30 SuperVarejo setembro 2012


Capa consumo

Não à toa, praticamente todas as redes instaladas no interior

paulista, ouvidas por SuperVarejo, estão investindo

de alguma forma em expansão, crescimento ou ampliação e

melhoria do atendimento.

Caso, por exemplo, do Boa Supermercados, que já tem

cinco lojas, sendo quatro em Jundiaí e uma em Cabreúva,

e está erguendo a sexta unidade, que funcionará em Rio

Claro. Não para por aí: a empresa tem forte plano de expansão

para Jundiaí e região. “O fator decisivo é o aumento

constante de pessoas se mudando para as cidades médias,

que experimentam um crescimento maior que o avanço

médio nacional”, explica a gerente de marketing da rede,

Eligimary Gismonte.

Estudo da Associação Paulista de Supermercados (Apas)

mostra que há cidades no interior paulista que ainda têm

demanda para mais lojas, caso, por exemplo, de Araçatuba e

Presidente Prudente, por exemplo.

Segundo o departamento de economia e pesquisa da entidade,

um supermercado paulista atende, em média, 6.700 pessoas.

Há municípios em que, de acordo com o levantamento, as

lojas estão atendendo mais de 11 mil pessoas, quase o dobro da

média. “Nesses locais cabem mais lojas”, conclui.

CRESCIMENTO DE ABERTURA

DO NÚMERO DE LOJAS DE VAREJO

2009 x 2008 Região metropolitana interior

2010 x 2009

2011 x 2010

Região metropolitana

Região metropolitana

=

>

<

interior

interior

SÃO PAULO

2011 x 2010 Região metropolitana + 8% mais lojas

Interior + 13%

MINAS GERAIS

2011 x 2010 Região metropolitana +10% mais lojas

Interior + 33%

PARANÁ

2011 x 2010 Região metropolitana +10% mais lojas

Interior + 25%

CRESCIMENTO DE VENDAS

EM VALOR NO AUTOSSERVIÇO

junho de 2011 x junho de 2012

Sul:

9,9 % 18,6 %

Capitais x Interior

Brasil:

8 % 13 %

Capitais x Interior

Sudeste:

4,4 % 8,4 %

Capitais x Interior

Centro-Oeste:

5,9 % 10,8 %

Capitais x Interior

Nordeste:

7,8 % 22,8 %

Capitais x Interior

Fonte: Nielsen

32 SuperVarejo setembro 2012


Capa consumo

Quem cresce no interior

A pedido da SuperVarejo, a Escopo Geomarketing levantou cidades e Estados que mais

cresceram em renda – e os mais ricos – no período que compreende 2000 e 2010.

INTERIOR QUE MAIS CRESCE

EM RENDA TOTAL (%)*

1) Rio Grande do Norte: 5,4%

2) Tocantins: 5,2%

3) Sergipe: 5%

4) Mato Grosso e Roraima: 4,7%

5) Piauí e Mato Grosso do Sul: 4,4%

* variação percentual da evolução de renda total

dos responsáveis pelas famílias nas cidades do

interior dos estados, no período de 2000 a 2010.

Estamos planejando expandir ainda

mais nossas operações no interior do

Tocantis, seja comprando ou abrindo

novas lojas, especialmente em cidades

como Porto Nacional, Gurupi, Araguaína

e Pedro Afonso” – Maria de Fátima de

Jesus, presidente do Quartetto

Supermercados, de Tocantins.


MUNICÍPIOS MÉDIOS QUE MAIS CRESCEM (%)*

1) Araguaína (TO): 7,4%

2) Rio Verde (GO) e Mossoró (RN): 6,3%

3) Macaé (RJ): 6,1%

4) Teixeira de Freitas (BA): 5,9%

5) Águas Lindas (GO) e Petrolina (PE): 5,8%

* variação percentual entre 2000 e 2010 da evolução da

renda total dos responsáveis pelas famílias nas cidades do

interior com população acima dos 100 mil habitantes.

INTERIOR QUE MAIS CRESCE

EM RENDA MENSAL (%)*

1) São Paulo: R$ 9 bilhões

2) Paraná: 2,6 bilhões

3) Rio Grande do Sul: 2,5 bilhões

4) Santa Catarina: 2,3 bilhões

5) Rio de Janeiro: 1,3 bilhões

* valor absoluto em reais com a soma das rendas totais

mensais dos responsáveis pelas famílias nas cidades do

interior dos estados.


Vamos reformar nossa loja em Leme e, no ano

que vem, abriremos uma nova unidade em

Campinas. É nossa meta estimular expansão

constante da rede, que cresceu cerca de 10%

em vendas” – Adilson dos Santos, diretor

comercial da rede Covabra de Supermercados,

sediada na região de Campinas.

MUNICÍPIOS MÉDIOS MAIS RICOS EM 2010*

1) Campinas (SP): 737, 4 milhões

2) Ribeirão Preto (SP): 381 milhões

3) São José dos Campos (SP): 371,9 milhões

4) Uberlândia (MG): 314,4 milhões

5) Sorocaba (SP): 305,9 milhões

* valor absoluto em reais da soma das rendas totais

mensais dos responsáveis pelas famílias nas cidades do

interior com mais de 100 mil habitantes.

34 SuperVarejo setembro 2012


divulgação

Shoppings centers

também rumam

para o interior

Pazzini, da ipc mkt editora: interior dos estados do SE movimentará R$ 654,3 bilhões

Não é só São Paulo

O fenômeno, no entanto, está longe de ser localizado em São

Paulo, o estado com o interior mais rico, segundo levantamento

exclusivo feito pela Escopo Geomarketing, a pedido de Super-

Varejo. “As regiões metropolitanas da região Sudeste, ou seja,

as de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Grande Vitória,

serão responsáveis por 52,3% do potencial de consumo

da região Sudeste, movimentando em valor o equivalente a R$

718,2 bilhões em 2012. O interior desses estados movimentará

R$ 654,3 bilhões, correspondendo a 47,7% do potencial de consumo

da região Sudeste”, explica o diretor da IPC Marketing

Editora, Marcos Pazzini.

Embora as regiões interioranas, no Sudeste todo, ainda não

tenham ultrapassado as capitais em participação, o crescimento

constante desse índice mostra que é apenas uma questão de

tempo: há dez anos, esse percentual era apenas de 44%. Em

2007, o número já tinha saltado para 45,4%.

Dados da Nielsen mostram que o Sul do País é uma das regiões

cujo interior mais cresce na comparação com as capitais:

18,6% contra 9,9%, respectivamente, no período compreendido

entre junho de 2011e o mesmo mês de 2012.

O interior do Rio Grande do Sul, por exemplo, o terceiro mais

rico no ranking da Escopo Geomarketing, acumula avanços significativos.

Antonio Ortiz, diretor-presidente do grupo Asun,

Nos próximos três anos, serão erguidos mais de 120 shoppings

centers no Brasil. Três quartos deles não estarão operando

nas capitais, diz Marcos Hirai, sócio-diretor da BG&H Real

State, unidade da consultoria GS&MD - Gouvêa de Souza.

Há 14 anos, 70% dos centros de compras estavam

localizados nas grandes cidades. Hoje, esse percentual

caiu para 49%, invertendo a participação metrópole x

interior nesse negócio: há mais shoppings centers nas

cidades interioranas que nas capitais, conta Luis Augusto

Ildefonso Silva, diretor da Associação Brasileira de Lojistas

de Shopping (Alshop).

A explicação é basicamente a mesma que justifica o

crescimento do autosserviço nesses municípios: aumento

de emprego e renda, ascensão da classe C, crescimento

populacional de cidades médias (acima de 100 mil

habitantes) e desenvolvimento de polos industriais, de

serviços, educação e agronegócios no interior.

Além disso, outros fatores favoreceram a expansão dos centros

de compra, como a maturidade das franquias –essencial

para levar marcas nacionais ao interior- e o crescimento do

mercado de food service, incluindo também as franquias que

atuam no ramo. “Na prática, isso significa uma uniformização

do consumo no País. O interior, a partir do momento que

tem acesso às marcas nacionais e ao estilo de vida das

capitais, começa a mudar também seu modo de consumir e

se aproximar mais do jeitão da capital”, avalia Hirai.

Para ele, o varejo de autosserviço já está bem estabelecido no

interior, maduro. São os outros varejos - agora capitaneados

pelos centros de compras - que estão começando a se

interiorizar mais. “Os supermercados locais estão se

aproveitando desse bom momento e, em alguns casos,

abrindo lojas em shoppings”, diz Silva, da Alshop.

(19 lojas espalhadas pelo estado), compara o crescimento da

capital, Porto Alegre, onde também tem operações, com o do

interior. Tanto na região metropolitana quanto nos municípios

interioranos, diz, registra majoração equivalente nas vendas.

Contudo, foi no litoral que se deu a maior transformação:

há algum tempo, Ortiz fechava suas lojas litorâneas durante

o inverno; não havia população ou consumo que justificasse a

manutenção das unidades abertas.

setembro 2012 SuperVarejo 35


Capa consumo

Ocorre que agora isso não é mais necessário, e as lojas dessa

região seguem abertas durante o ano inteiro, não apenas no

verão. “O custo de vida é mais baixo no litoral. O que vejo é que

cada vez mais pessoas se fixam na faixa costeira, o que favorece

o consumo e os negócios”, diz ele.

As cidades menores do Rio Grande do Sul só perdem o posto

de interior que mais cresce na comparação com sua capital

para o Nordeste. Lá, a variação é de impressionantes 15 pontos

percentuais. Enquanto as capitais e regiões metropolitanas

nordestinas crescem 7,8% em valor de vendas, o interior registra

majoração de 22,8%, segundo o Scantrack, da Nielsen.

Levantamento feito com exclusividade para a SuperVarejo

pela Escopo Geomarketing, ajuda a entender esses números:

no topo da lista dos estados que mais cresceram em renda

total entre 2000 e 2010, está o Rio Grande do Norte. Em terceiro

lugar, figura Sergipe e, em quinto, Piauí. Todos os três

são nordestinos.

A Rede 10 Supermercados, que tem 18 lojas pequenas (entre

quatro e seis checkouts) no Rio Grande do Norte, por exemplo,

cresce 10% ao ano beneficiada, entre outros fatores, pelo avanço

de Mossoró, uma das cidades que mais crescem no País (6,3%,

de acordo com dados da Escopo).

“Cidades com mais de 200 mil habitantes estão chamando a

atenção até das multinacionais”, conta Antonio Ferreira Júnior,

diretor de marketing da rede.

Locais x forasteiros

As condições favoráveis têm levado, principalmente, a três

situações: 1) crescimento das redes locais em seus próprios

domicílios, seja ampliando a rede seja melhorando ou reformando

as lojas, seja investindo em treinamento e qualificação

ou, ainda, melhorando o mix e o sortimento.

2) redes locais avançando em direção a outras cidades da

mesma região –ou até de outras regiões ou estados.

3) chegada de redes “estrangeiras” às cidades interioranas,

sejam redes de outras cidades próximas, das capitais ou mesmo

bandeiras das gigantes nacionais e multinacionais.

Os três casos não são excludentes, estão acontecendo ao

mesmo tempo. Carlos Giacometti, do Enxuto (seis lojas em

cidades como Campinas, Rio Claro e Limeira), conta que, nos

locais em que a rede tem operações, os gigantes já chegaram,

concorrentes de outras cidades estão chegando e, ainda, tem

aumentado o número de “atacarejos” (inclusive as bandeiras

compradas pelos gigantes), formato baseado em grandes lojas,

que vendem em quantidades maiores a preços mais baixos que

os oferecidos por supermercados e lojas de vizinhança.

“As cidades suportam um pouco mais de concorrência, mas

Laban, do insper: momento de supermercados locais defenderem seu território

sempre que chega outro atacarejo ou supermercado, ainda mais

quando constroem, como é o nosso caso, parede-a-parede com

a gente, isso divide muito as receitas. Nossos custos, no entanto,

continuam os mesmos. Resultado: pressão sobre os preços”,

explica Giacometti.

Coisa semelhante acontece com todas as outras redes ouvidas

pela reportagem, independentemente da localização geográfica.

Seja a Rede 10, de Rio Grande do Norte, o Quartetto,

de Tocantins ou a loja independente Aalborg, em Macaé, Rio

de Janeiro, os varejistas reportam o mesmo cenário: chegada

maciça de atacarejos, alguns com sucesso, outros nem tanto.

“É momento de os supermercadistas locais defenderem seu

território”, sugere o professor do Insper, Silvio Laban. Não dá

para dizer, concordam especialistas, quem vai sobreviver a esse

embate, ao aumento natural da concorrência: se as pequenas e

médias locais, se as bandeiras “forasteiras”, se ambas.

Mas Laban destaca que, pelo menos em tese, os varejos que

já operam localmente têm vantagens sobre quem vem de fora.

“Em Vinhedo (SP), por exemplo, que já era bem servida

por redes locais, uma bandeira ‘gigante’ aportou por lá e está

enfrentando dificuldades. Os ‘nativos’, por outro lado, ainda

‘mandam’ na cidade”, conta.

Para os especialistas ouvidos pela reportagem, o caminho das

arquivo

36 SuperVarejo setembro 2012


pedras para manter e ampliar o mercado, mesmo com as investidas

da concorrência, é se diferenciar. Não é possível concorrer

com o atacarejo em preços? Sem problemas, basta oferecer serviços

e atendimento, diz o líder da consultoria da IBM Brasil para

o Setor de Distribuição, João Pissuto, por exemplo.

É o que já vem fazendo Antonio Ferreira Júnior, da Rede 10,

em Mossoró (RN). A rede investe em treinamento dos funcionários

para melhorar sempre o atendimento, dá atenção especial

aos compradores, para que o mix esteja sempre adequado,

e fazem entregas em domicílio, coisa que os atacarejos, por

exemplo, não conseguem fazer. “É um serviço muito valorizado

pelos nossos clientes. Além disso, na rede, o cliente é atendido

pelo dono, todo mundo sabe o nome dele”, conta Júnior, comemorando

o crescimento dos nada desprezíveis 10% ao ano.

“Pode-se investir também nos perecíveis, pois os maiores

não conseguem explorar bem esse tipo de categoria”, analisa

o presidente do conselho do Provar/Ibevar, Claudio Felisoni.

Para quem está num grande centro e quer migrar para cidades

menores, Felisoni acha que o momento é “auspicioso”. Mas

alerta: é preciso planejar bem, considerando inclusive o panorama

econômico mundial, e pesar bem se, estrategicamente,

vale mais a pena o risco de investir fora de casa e conquistar

um novo mercado ou a segurança de uma operação que já está

dando certo. “É uma ótima oportunidade de expansão, mas é

preciso, antes de tudo, ser eficiente e rentável nas operações

em que a empresa já atua para não correr o risco de perder, no

processo de crescimento, a renda certa que garante ao varejista

assumir o risco para esse crescimento”, avalia Laban.

FONTES DESTA MATÉRIA

Aalborg Supermercados: (22) 2273-5005

Alshop (Associação Brasileira de Lojistas de Shopping): (11) 3284-8493

Apas (Associação Paulista de Supermercados): (11) 3647 5000

Asun Supermercados: (51) 2129-0999

Boa Supermercados: www.supermercadoboa.com.br

Covabra Supermercados: www.covabra.com.br

Enxuto Supermercados: (19) 3743-6000

Escopo Geomarketing: (11) 4058.4400

GS&MD - Gouvêa de Souza: (11) 3262-0092

IBM Brasil: (11) 2132-3122

Insper: (11) 4504-2400

IPC Marketing Editora: (11) 2219-0321

Nielsen Brasil: (11) 4613 7000

Provar: (11) 3894-5004

Quartetto Supermercados: (63) 3232-8800

Rede 10 Supermercados: (84) 3315-1020

Supermercado Nunes: (63) 3414-2926

setembro 2012 SuperVarejo 37

More magazines by this user
Similar magazines