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Braz J Periodontol - September 2012 - volume 22 - issue 03

EFICÁCIA DE LIMAS PH6 E NT1 NA REMOÇÃO DE

CÁLCULO DENTÁRIO ARTIFICIAL DA REGIÃO DE FURCA.

ESTUDO IN VITRO

Effectiveness of files PH6 and NT1 in removal of artificial dental calculus of the furcation area - In

vitro study

Luiz Alexandre Moura Penteado¹, Renato Felipe de Farias Costa², Gutemberg Oliveira Firmino Silva³, Thyanderson Talles Feitosa

Sales³, Roberta Alves Pinto Moura Penteado 4

¹ Mestre em Periodontia - UNITAU/SP, Professor de Periodontia do Centro Universitário Cesmac (CESMAC) e da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Alagoas (FOUFAL),

Maceió, Brasil.

² Graduando em Odontologia pela FOUFAL, Maceió, Brasil.

³ Cirurgião-Dentista graduado pelo CESMAC, Maceió, Brasil.

4

Mestre em Dentística - UNITAU/SP, Professora de Clínica Integrada do CESMAC, Maceió, Brasil.

Recebimento: 20/06/12 - Correção: 24/07/12 - Aceite: 27/08/12

RESUMO

A região anatômica de furca representa um dos desafios mais difíceis enfrentados pelos periodontistas tornando,

devido a sua anatomia, menos previsível uma adequada remoção do biofilme dental nesta região para que se obtenha

uma superfície radicular biologicamente compatível. Assim diversos instrumentos têm sido desenvolvidos no sentido de

potencializar a instrumentação desta área. O objetivo deste trabalho foi avaliar in vitro a eficácia de limas PH6 e NT1 na

remoção de cálculo dentário artificial da região de furca. Quarenta amostras padronizadas de um primeiro molar inferior

foram obtidas a partir de uma réplica em cera. A área de furca foi preenchida com cálculo artificial. A área de furca de

cada amostra foi fotografada de forma padronizada, em seguida as amostras foram incluídas em um modelo para

simular a condição subgengival e depois aleatoriamente divididas, de acordo com o tratamento que receberiam, em dois

grupos (n = 20): grupo A – raspagem com lima PH6; grupo B – raspagem com lima NT1. Um único pesquisador realizou

instrumentação por 30 segundos em cada amostra. Após a instrumentação a área de furca foi novamente fotografada.

As imagens iniciais e finais foram avaliadas quanto a área (mm 2 ), por meio do programa Image J, e computou-se em

valores percentuais a área isenta de cálculo. Houve um maior percentual de eficácia na remoção de cálculo artificial com

a lima PH6 (44%) em relação a lima NT1(40%), porém sem diferença estatística significativa. Concluiu-se que as limas

PH6 e NT1 não apresentaram diferença estatisticamente significante quanto à remoção de cálculo na região de furca.

UNITERMOS: Cálculo, Instrumentação, Raspagem. R Periodontia 2012; 22:54-61.

INTRODUÇÃO

Doença periodontal é um processo patológico que afeta

as estruturas periodontais de proteção e/ou sustentação

(Armitage et al., 1994; Cortelli et al., 2005). O principal

agente etiológico da doença periodontal é o biofilme dental,

sendo o cálculo um agente etiológico secundário, pois facilita

a formação e a retenção do biofilme dental sobre a superfície

radicular (Lara et al., 2006).

A base da terapia periodontal é a remoção do biofilme

dental e cálculo por meio dos procedimentos de raspagem e

aplainamento radicular (Alves et al., 2003; Lara et al., 2006).

Esta forma de tratamento tem se mostrado bem sucedida,

sendo observado nas áreas onde o biofilme dental e cálculo

foram removidos a formação de uma nova junção dento

epitelial (Miranda et al., 2001; Lara et al., 2006). Assim, a

instrumentação da superfície radicular é parte essencial da

terapia periodontal (Waerhaug, 1978; Miranda et al., 2001;

Lara et al., 2006).

Por outro lado, a dificuldade neste modelo terapêutico

está em se conseguir remover adequadamente o cálculo e,

consequentemente, o biofilme aderido ao dente. Fatores

como a anatomia, posição dental e a profundidade da

bolsa periodontal dificultam a remoção do cálculo por meio

da raspagem e aplainamento radicular (Kepic et al., 1990;

Anderson et al., 1996).

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A literatura científica tem apontado a região anatômica

de furca como um dos problemas ou desafios mais difíceis

enfrentados pelos periodontistas, devido a sua complexa

anatomia radicular (Kepic et al., 1990; Anderson et al., 1996;

Ammons Jr. & Harrington, 2007; Carnevale et al., 2010). Sendo

assim, torna-se menos previsível uma adequada remoção

do biofilme dental nesta região para que se obtenha uma

superfície radicular biologicamente compatível (Schoen &

Dean, 1997; Oliveira & Brunetti, 2007).

Dentre os instrumentos disponíveis para a prática da

raspagem e aplainamento da superfície radicular, as curetas

tipo Gracey são aqueles mais largamente difundidos entre

os que se dedicam à prática da periodontia. Por outro lado,

alguns especialistas preferem utilizar limas periodontais de

Hirschfeld, que são mais delgadas e de extremidade mais

fina, sendo capazes de alcançar porções mais apicais da bolsa

periodontal. Há ainda minicuretas tipo Gracey, com pontas

ativas menores e com haste mais alongada, desenvolvidas

também no intuito de atingir regiões mais profundas da bolsa

(Alves et al, 2003).

Percebe-se assim que há uma variedade de instrumentos

com desenhos específicos que buscam aperfeiçoar a eficácia

da raspagem e aplainamento radicular, neste contexto podem

ser citados instrumentos como as curetas PL (Pádua Lima) e

PLF (Pádua Lima Francisco) destinadas à instrumentação da

região anatômica de furca (Lima & Lima, 1998), e curetas

delineadas pelo Prof.Dr. Antônio Wilson Sallum (FOP-

UNICAMP) com a mesma finalidade.

De acordo com Moraes et al. (2007), a Doutora Neila

Tanashiro e o corpo docente do curso de especialização

em Periodontia da ABENO/NAP desenvolveram recursos

diamantados para a prática da raspagem dental em regiões

específicas. Entre estes recursos há uma lima periodontal

denominada de NT1, a qual é indicada para a raspagem

da área de furca de molares. Contudo os autores citados

ressaltam a necessidade de estudos que investiguem a sua

eficácia.

Outro instrumento comercialmente disponível e indicado

para acesso à área de furca é a lima PH6. Esta, assim como

a NT1, não apresenta estudos investigando seu potencial.

Frente ao exposto, tornou-se importante investigar a

eficácia na remoção de cálculo das limas NT1 e PH6, por meio

de um estudo experimental in vitro.

2. MATERIAL E MÉTODO

O presente estudo foi do tipo experimental in vitro

realizado no Centro Universitário Cesmac, sendo a amostra

composta por 40 dentes artificiais impregnados com cálculo

artificial somente na região de furca.

O processo de confecção das amostras seguiu os passos

metodológicos descritos abaixo.

2.1- CONFECÇÃO DOS MOLDES DE UM MOLAR

INFERIOR

Inicialmente foi esculpido um primeiro molar inferior

esquerdo (MIE) em cera, seguindo-se as medidas anatômicas

médias do MIE natural (11,9 mm no sentido mesio-distal, 7,5

mm tamanho corono-cervical e 20 mm comprimento total

de raiz) descritas por Teixeira et al. (2001).

O dente em cera foi então moldado da seguinte forma: (1)

manipulou-se 25 g de alginato (Jeltrate®, Dentsply Indústria

e Comércio Ltda., Petrópolis-RJ) para 25 mL de água; (2) um

copo plástico descartável de 25 mL (Coposcchio, Plásticos

Chiacchio Ltda., Vitória da Conquista-BA) foi preenchido

com o alginato até a sua borda (figura 1 – A); (3) em seguida

o dente foi introduzido no alginato - mais precisamente

no centro do copo plástico - (figura 1 – B); (4) aguardou-se

a presa final do alginato por meio da mudança de cor de

amarelo esbranquiçado para rosa; (5) logo após retirou-se

cuidadosamente o dente em cera - com auxílio de uma pinça

clínica (Neumar Instrumentos Cirúrgicos Ltda., Caieiras-SP) –

do interior do alginato (figura 1 – C).

Figura 1- Confecção do molde. (A) copo preenchido com alginato; (B) dente em cera no centro do alginato; (C) remoção de dente do alginato e (D) molde individualizado.

Fonte: Dados da Pesquisa

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Obteve-se assim o molde individualizado do dente

desejado (figura 1 - D) e seguiu-se para confecção dos dentes

em resina acrílica (n = 40).

2.2- CONFECÇÃO DOS DENTES EM RESINA

ACRÍLICA

Manipulou-se resina acrílica autopolimerizável de cor 66

(Duralay, Polidental Indústria e Comércio Ltda., Cotia-SP) de

forma a ficar com uma consistência ligeiramente mais líquida

que o padrão tido como normal.

Esta resina foi inserida dentro de uma seringa descartável

de 10 mL (Unijet, Plascalp Produtos Cirúrgicos Ltda., Feira

de Santana-BA). Com a seringa preenchida, seu êmbolo foi

comprimido e o seu conteúdo (resina acrílica autopolimerizável)

depositado no interior do molde (figura 2 – A), sempre de

apical para oclusal até o completo preenchimento. Este

procedimento foi relizado sob vibração manual para prevenir

a formação de bolhas.

Figura 2 – Confecção dos dentes em resina. (A) seringa depositando resina no interior do

molde; (B) remoção do dente em resina do interior do molde; (C) 40 dentes finalizados.

Fonte: Dados da Pesquisa

Aguardou-se a presa final da resina e o modelo/réplica

do dente foi removido cuidadosamente com auxílio da pinça

clínica (figura 2 – B). Logo depois foi realizado acabamento

da coroa removendo as rebarbas existentes. Nenhum tipo de

acabamento ou polimento foi efetuado em toda a superfície

radicular.

Estando todos os quarenta dentes prontos (figura 2 – C),

passou-se a realização da impregnação da área de furca com

cálculo artificial.

2.3- IMPREGNAÇÃO DA FURCA COM CÁLCULO

ARTIFICIAL, DIVISÃO DOS GRUPOS E FOTO INICIAL

Toda a área compreendida entre os cones radiculares, ou

seja, a região de furca; foi impregnada com cálculo artificial.

O modelo de cálculo dental artificial utilizado foi o

proposto por Penteado et al. (2010a). A escolha deste modelo

justificou-se pelo fato de seus idealizadores terem evidenciado

- por meio de estudo controlado - que este apresenta

características similares ao natural. Para sua obtenção foram

seguidos os passos abaixo:

Vinte gotas de cianoacrilato líquido (Super Bonder

Loctite®, Henkel Ltda., São Paulo-SP) foram depositadas em

uma placa acrílica de Petri (Maquira Indústria de Produtos

Odontológicos Ltda., Maringá-PR). Esta cola foi transferida

à região de furca de cada uma das amostras com auxílio

da porção dorsal da ponta ativa curva de um explorador 5S

(Neumar Instrumentos Cirúrgicos Ltda., Caieiras-SP), até se

perceber visualmente o preenchimento total da área (figura

3 - A).

Figura 3 – Impregnação da furca com cálculo. (A) transferência do cianoacrilato da placa

de Petri à furca; (B) preenchimento da furca com pó de serra; (C) pó de serra pressionado com

auxílio da parte reta do explorador.

Fonte: Dados da Pesquisa

Com uma pinça clínica transferiu-se pó de serra de uma

bandeja rasa de inox (20x10 cm) para a cola depositada sobre

a furca, até se perceber de forma visual o preenchimento

completo da área (figura 3 - B).

Este pó, com a parte reta do explorador 5S, foi pressionado

levemente de encontro a furca (figura 3 - C) com o propósito

de gerar a adesão dos corpos.

Ao final desta etapa os quarenta dentes com cálculo na

região de furca estavam prontos. Estes foram numerados

por meio de algarismos arábicos e aleatoriamente divididos

(sorteio simples) em dois grupos de acordo com o tratamento

que receberiam:

Grupo A – (n = 20) instrumentados por 30 s com a lima PH6.

Grupo B – (n = 20) instrumentados por 30 s com a lima NT1.

Antes de iniciar a instrumentação das amostras, de acordo

com o grupo que pertenciam, foram feitas fotos padronizadas

da área da furca para futura mensuração em milímetros

quadrados desta região.

As fotos foram padronizadas, usando-se a máquina

FinePix S1800 (Fujifilm do Brasil Ltda., Manaus-AM), quanto a:

Qualidade da imagem: formato JPEG, 12 megapixels,

resolução (600 dpi) colorida, sem flash.

Distância foco-objeto: utilizou-se o dispostivo citado por

Penteado et al. (2010b) e um tripé fotográfico Velbon, que

porporcionaram uma distância estável de 15 cm.

Destaca-se que as fotos foram feitas em um ambiente

iluminado artificialmente e em um mesmo horário, de maneira

a prevenir interferências de luminosidade na qualidade da

imagem fotográfica que pudessem influenciar na futura leitura

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das mesmas.

Todas foram feitas por um único pesquisador e por meio

do uso do botão de retardo disparador regulado em 10 s,

também visando evitar distorções (tremores).

2.4- PREPARO DOS DENTES PARA

INSTRUMENTAÇÃO E REALIZAÇÃO DAS FOTOS

FINAIS

Uma vez que as limas PH6 e NT1 são indicadas para

instrumentação de furca, foi simulado o ambiente e condições

de uma furca Classe III. Usou-se para tanto o protocolo

proposto por Barandregt et al. (2009).

Inicialmente, o terço apical de cada amostra foi inserido

em um copo plástico descartável de 25 mL (Maratá Indústria

de copos Ltda., Lagarto-SE) preenchido com gesso tipo 3

(Durone III, Dentsply Indústria e Comércio Ltda., Petrópolis-RJ)

conforme figura 4(A).

Após a presa do gesso, os 2/3 coronários da raiz

foram recobertos com silicona de adição (Adsil, Vigodente

S/A Indústria e Companhia, Bonsucesso-RJ) até a junção

amelocementária (JAC) simulando assim o tecido mole

gengival (figura 4 – B).

Figura 4 – Simulação de furca Classe III. (A) terço apical do dente inserido no gesso; (B) 2/3

coronários recobertos com silicona.

Fonte: Dados da pesquisa.

As bases de gesso foram identificadas com o mesmo

número do dente para distinguir qual instrumentação deveriam

receber (PH6 ou NT1). Destaca-se que a instrumentação foi

realizada por um único e mesmo operador com duração de

30 s.

Após a instrumentação, os modelos (gesso/gengiva/

dente) foram desmontados e novas fotos (finais) da área de

furca foram efetuadas de forma idêntica à inicial.

As imagens (fotos) da área de furca foram avaliadas

por outro avaliador cego e previamente calibrado usando

um programa de análise de imagens (Image J – versão

Windows) de domínio público disponível em: rsbweb.nih.

gov/ij/download.html.

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O avaliador cego foi calibrado lendo cinco vezes uma

mesma imagem nos tempos de zero, trinta e sessenta minutos.

As medidas encontradas em milímetros quadrados (mm 2 ) nos

diferentes tempos foram comparadas por meio do teste de

correlação intraclasse utilizando-se o pacote estatístico de

domínio público Bioestat 5.0 disponível em www.mamiraua.

org.br/downloads. O avaliador foi considerado calibrado

quando o valor de r foi igual ou superior a 0,75.

2.5- COMPARAÇÃO DA EFICÁCIA DOS

INSTRUMENTOS

O avaliador cego calibrado mensurou nas imagens iniciais

a área da furca preenchida por cálculo da seguinte forma:

inicialmente calibrou o programa (Image J) traçando uma

linha do quinto ao décimo milímetro na régua endodôntica

que era fotografada junto com o dente. Esta régua é parte

integrante do dispositivo de Awabdi e Penteado citado por

Penteado et al. (2010b).

Logo após clicou em settings (ferramentas) e em seguida

em set scale. Isto gerou a abertura de uma caixa de diálogo

onde no local knowdistance digitou o valor de 5 mm. Esta

manobra técnica faz o programa converter medidas de pixels

para mm.

Em seguida usando a ferramenta freehand o avaliador

circundou toda a área de cálculo e pressionou/clicou analyze,

depois em measure. Assim, se obteve a medida da área de

região de furca com cálculo em mm 2 . Este procedimento foi

repetido por três vezes para se obter uma média.

As imagens finais (pós-instrumentação) foram mensuradas

da mesma forma.

Os valores das médias finais e iniciais foram submetidos

a uma regra de três simples para ser obtido o percentual de

cálculo remanescente (figura 5).

As porcentagens médias dos tratamentos dos Grupos A

e B foram armazenadas em planilha Microsoft Excel ® versão

2010 e transportadas ao pacote estatístico Bioestat 5.0, sendo

verificada a normalidade dos dados paramétricos por meio

do teste Shapiro-Wilk e diferenças investigadas pelo teste de

Tukey (p < 0,05).

x =

af x 100

ai

Figura 5 – regra de três simples para determinação do percentual de cálculo remanescente.

Legenda: AF (área final), AI (área inicial)

Fonte: Dados da Pesquisa.

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3 - RESULTADO

Por se tratar de amostras com número menor que

cinquenta, os valores médios percentuais de cálculo removido

por meio das limas PH6 e NT1 foram submetidos ao teste de

normalidade de Shapiro-Wilk e apresentaram uma distribuição

normal (p > 0,05).

No gráfico 1 verifica-se um maior percentual de eficácia

na remoção do cálculo artificial para a lima PH6 (44%) em

relação a lima NT1 (40%), porém sem diferença estatística

significativa (Tukey, p > 0,05).

Cálculo removido (%)

50

45

40

35

30

25

20

Gráfico 1 – Valores médios percentuais de cálculo removido por meio das limas PH6 e NT1.

(Tukey, p > 0,05). Fonte: Dados da Pesquisa.

4- DISCUSSÃO

Grupo A (PH6) Grupo B (NT1)

Grupos

Grupo A (PH6)

Grupo B (NT1)

A região de furca é um tópico a parte dentro do contexto

da terapia básica periodontal ou fase etiotrópica. Devido à

anatomia radicular característica o resultado do tratamento é

menos previsível nesta região (Wylam et al., 1993).

De acordo com Grecco et al. (2007), há uma preocupação

em se investigar a eficácia da instrumentação sônica,

ultrassônica e manual nestas áreas de difícil acesso. Estudos

conduzidos em molares artificiais ou extraídos, que avaliam

de uma forma geral a porcentagem de superfícies limpas

(livres de corantes), mostram resultados controversos (Kocher

& Plagmann, 1997).

Há na literatura, de acordo com Moraes et al. (2007),

uma carência de pesquisas avaliando a eficácia da lima NT1.

Observa-se também uma falta de estudos que tenham

investigado a eficácia na remoção de cálculos com a lima

PH6, o que confere dificuldade para se confrontar e discutir

os resultados paramétricos encontrados no presente estudo.

Por outro lado, quanto à metodologia empregada, haveria

a possibilidade de se investigar a eficácia destes instrumentos

por meio de um estudo in vitro ou in vivo.

Optou-se pelo uso de um modelo in vitro pela possibilidade

de se controlar alguns fatores característicos dos estudos in

vivo que podem dificultar ou interferir no mesmo. Como

exemplo destes fatores pode-se ter a necessidade da

obtenção de um número mínimo de sujeitos com indicação

de remoção dentária (por motivos de lesão de furca) que

possam viabilizar uma análise da área da furca com poder

estatístico significativo.

Expõe-se ainda que nos estudos in vivo há dificuldade de

padronização da quantidade e qualidade do cálculo dentário

a ser instrumentado, seja por grupos teste(s) e/ou controle(s).

Assim, percebe-se que o modelo de estudo in vitro delineado

no presente estudo possibilitou a padronização da área a

ser instrumentada quando utilizou um modelo de cálculo

padronizado artificialmente.

Os estudos in vivo possuem como vantagem ter todas

as condições limitantes bucais oferecidas à instrumentação

profissional. Apesar disto o presente estudo buscou simular

este ambiente subgengival utilizando um modelo de gengiva

artificial descrito por Barandregt et al. (2009).

Sabe-se, ainda, que outros fatores podem interferir na

qualidade de instrumentação, como: anatomia dental (Kepic

et al., 1990; Anderson et al., 1996), força do operador (Lara

et al., 2006), tempo ou quantidade de golpes de raspagem

(Lara et al, 2006; Takacs et al., 1993) e tipo ou composição

do cálculo (Anderson et al., 1996).

Destaca-se assim que, para prevenir estas interferências,

o modelo in vitro utilizado neste estudo lançou mão de uma

réplica artificial dental que possibilitou eliminar o viés ligado ao

fator anatomia dental, uma vez que todos os dentes advieram

de um mesmo modelo em cera.

Os estudos de Otero-Cagide et al. (1997), Kocher et

al. (1998) e Sugaya et al. (2002) também utilizaram réplicas

dentais artificiais de molares inferiores de maneira similar à

presente pesquisa. Por outro lado, os estudos in vivo como

os de Wylam et al. (1993), Kocher et al. (1997), Kocher &

Plagmann (1999) não possibilitaram o controle desta variável

(anatomia).

Quanto ao fator força do operador, utilizando um

aparelho de ensaio mecânico específico para raspagem e

alisamento radicular Lara et al. (2006) demonstraram que

distintas forças de instrumentação numa mesma quantidade

de golpes de raspagem (quinze) promovem diferentes efeitos

sobre a quantidade de cálculo removido, bem como sobre a

estrutura de cemento radicular. Portanto visando minimizar

esse viés, no presente estudo, determinou-se que todas as

amostras fossem instrumentadas por um único e mesmo

operador, com intuito de se ter força similar de instrumentação

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para todos os grupos.

A padronização da raspagem em termos de tempo

ou quantidade de golpes é outro fator importante a ser

controlado, pois se sabe que um número exagerado de golpes

(Lara et al., 2006) ou um tempo elevado de instrumentação

(Kocher & Plagmann, 1997; Pattison & Pattison, 2007) podem

além de remover completamente o cálculo, inferir um desgaste

desnecessário à superfície radicular.

Entre os estudos consultados observou-se o uso do

número de golpes por Alves et al. (2006) e Lara et al. (2006)

como forma de padronização da raspagem, enquanto os

estudos de Chan et al. (2000); Anderson et al. (2006) e

Martins et al. (2007) usaram o fator tempo. Diante destas

possibilidades optou-se no presente estudo, por conveniência,

pela utilização da padronização por tempo de instrumentação.

O presente estudo, com base nos tempos verificados

na literatura, realizou um piloto com um intervalo de

instrumentação predeterminado de 30 s. Ao final do piloto

foi possível notar a presença de cálculos artificiais residuais

em quantidade suficiente para viabilizar a análise estatística.

Assim, o tempo de 30 s foi o utilizado no presente estudo.

Diferenças na maneira pela qual o cálculo se adere à

superfície do dente afetam a relativa facilidade ou dificuldade

encontrada em sua remoção (Hinrichs, 2007). Portanto,

as possíveis interferências ligadas à aderência do cálculo

foram minimizadas pelo uso do modelo de cálculos artificiais

proposto por Penteado et al (2010a), pois segundo os autores

tais cálculos apresentam uma resistência à instrumentação e

sensação táctil próximas ao natural. Outras formas de simular

o cálculo são observadas na literatura, como o uso de corantes

(Kocher & Plagmann, 1997; Kocher et al., 1998).

Após discutir os tópicos acima, retoma-se a dificuldade em

se comparar numericamente os resultados aqui encontrados

com os da literatura devido à inexistência de estudos que

tenham avaliado os mesmos instrumentos aqui investigados

(limas PH6 e NT1).

Por outro lado, vale ressaltar a probabilidade de que

estudos usando dentes díspares dos aqui empregados

possam mostrar diferenças estatísticas, pois distinto do

presente estudo, Kocher et al. (1998) avaliando a eficácia

de 5 tipos diferentes de instrumentos - usando 12 réplicas

de molares superiores e 12 inferiores - observaram que não

ocorreram diferenças notáveis nos molares inferiores. Já nos

molares superiores, a instrumentação com insertos sônicos

recobertos com diamante resultou em maior número de áreas

instrumentadas.

Por fim, outro evento importante, que não pode ser

referenciado com base no modelo de estudo aqui proposto,

mas que possui grande relevância clínica é o nível de

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rugosidade deixado pelos diferentes instrumentos testados

sobre a superfície radicular após a instrumentação. Sabe-se

que as rugosidades deixadas podem agir como um fator de

retenção de biofilme (Hinrichs, 2007), deste modo estudos

posteriores que busquem mostrar uma existência ou não

de diferença significativa promovida por uma ou outra lima

quanto à rugosidade poderiam levar, junto com os resultados

aqui vistos, ao direcionamento do instrumento mais eficaz

clinicamente.

CONCLUSÃO

Dentro dos limites metodológicos utilizados e dos

resultados observados é possível concluir que as limas PH6 e

NT1 não apresentaram, entre si, diferença estatisticamente

significante quanto à eficácica na remoção do cálculo artificial.

ABSTRACT

The anatomic region of furcation represents one of the

most difficult challenges faced by periodontists rendering,

due to its anatomy, less predictable an adequate remove

of dental biofilm in order to obtain a biologically compatible

root surface. Thus, several instruments have been developed

in order to potencialize the instrumentation of this area.

The aim of this study was assess in vitro the efficacy of PH6

and NT1 files in the removal of artificial dental calculus of

furcation area. Forty standardized samples of a mandibular

first molar were obtained from a wax replica. The furcation

area was filled with artificial calculus. The furcation area of

each sample was photographed in a standardized manner,

then the samples were included in a model to simulate the

subgingival condition and then ramdomly divided, according

to treatment they would receive, into two groups (n=20):

group A - scaling with PH6 file; group B - scaling with NT1

file. A single researcher performed the instrumentation for

30 seconds in each sample. After the instrumentation the

furcation area was photographed again. The initial and

final images were evaluated with regard to area (mm2), by

means of Image J program, and the area free of calculus was

calculated in percentage. There was a higher percentage of

efficacy in the removal of artificial calculus with Ph6 file (44%)

over the NT1 file (40%), but without significant statistical

difference. It was concluded that the files PH6 and NT1

showed no statistically significant difference regarding calculus

removal in furcation area.

UNITERMS: Calculus, Instrumentation, Scaling.

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Endereço para correspondência:

Luiz Alexandre Moura Penteado

Av. Roberto Mascarenhas de Brito, 545 - Ap. 602 - Mangabeiras

CEP: 57037-240 - Maceió - Alagoas.

Tels.: (82) 3325-8273 - 9132-2363

E-mail: penteado.odonto@gmail.com

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