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Educação Ambiental - Senac

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Ano 18<br />

n.2<br />

2009<br />

Cresce<br />

mercado<br />

para<br />

“empregos<br />

verdes”<br />

Sacolas plásticas:<br />

podemos viver<br />

sem elas?<br />

O meio<br />

ambiente visto<br />

pela medicina<br />

Quilombolas lutam<br />

por terra e respeito<br />

às suas tradições


Foto da capa: Luiz Claudio Marigo<br />

Editores<br />

Anna Beatriz de Almeida Waehneldt<br />

Claudia Guimarães<br />

Editoração<br />

Centro de Comunicação Corporativa<br />

Projeto Gráfico,<br />

Programação Visual e Diagramação<br />

Cynthia Carvalho<br />

Revisão<br />

Fabiano Gonçalves<br />

Produção Gráfica<br />

Sandra Regina Fernandes do Amaral<br />

<strong>Senac</strong><br />

Serviço Nacional<br />

de Aprendizagem Comercial<br />

Conselho Nacional<br />

Antonio Oliveira Santos<br />

Presidente<br />

Departamento Nacional<br />

Sidney Cunha<br />

Diretor-Geral<br />

<strong>Senac</strong>/Departamento Nacional<br />

Av. Ayrton Senna 5.555 - Barra da Tijuca<br />

CEP 22775-004 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil<br />

http://www.senac.br<br />

E-mail: senacnet@senac.br<br />

E-mail da revista: educaambiental@senac.br<br />

Os artigos assinados são de inteira respon sabilidade<br />

dos seus autores e sua reprodução, em qualquer<br />

outro veículo de informação, só deve ser feita após<br />

consulta à editoria da publicação <strong>Senac</strong> e Educação<br />

<strong>Ambiental</strong>.<br />

<strong>Senac</strong> e edicação ambiental, – Vol. 1, n.1 (1992)- .<br />

– Rio de Janeiro : <strong>Senac</strong>/DN, 1992- . v. : il.<br />

Semestral<br />

1.Educação ambiental - Periódicos, 2. Ecologia –<br />

Periódicos. I. <strong>Senac</strong>.<br />

Departamento Nacional<br />

CDD 574.507<br />

Referência bibliográfica conforme as normas adotadas<br />

pelo Sistema de Informações Bibliográficas do <strong>Senac</strong>.<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 2 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


Você já pensou em fugir do burburinho da cidade e<br />

trabalhar em um lugar tranqüilo e arborizado, plantando<br />

mudas? Ou aproveitar resíduos sólidos que se prestam<br />

a reciclagem e a partir deles criar novos produtos? E<br />

que tal investir na área de tecnologias para o setor de<br />

energia renovável – eólica, solar, biomassa?<br />

Essas são apenas algumas das inúmeras possibilidades<br />

que se abrem no mercado para os chamados “empregos<br />

verdes” – tema de capa desta edição. Segundo a<br />

Organização Internacional do Trabalho (OIT), em todo<br />

o mundo, devem ser criados até 2 bilhões de novos<br />

empregos relacionados à substituição de práticas não<br />

sustentáveis por procedimentos produtivos menos<br />

agressivos ao meio ambiente.<br />

É nesse sentido que já se encaminham muitas empresas<br />

no Brasil, entre elas a Natura, cujo diretor de Sustentabilidade,<br />

Marcos Vaz, entrevistamos para essa edição.<br />

“Quem resolveu, de fato, conduzir sua atividade dentro<br />

dos princípios da sustentabilidade percebeu que isso<br />

não é custo, mas sim, investimento. É uma forma de<br />

inovar, se diferenciar. Acreditamos que ser sustentável<br />

é uma oportunidade de se aprimorar e de crescimento<br />

constante”, afirmou.<br />

Em outra escala, encontramos esses mesmos princípios<br />

de sustentabilidade permeando o trabalho de<br />

artesãs, que, em diferentes regiões do país, se dedicam<br />

a transformar fibras vegetais em belas peças de artesanato,<br />

como podemos ver na reportagem da seção<br />

“Cultura”.<br />

O caminho para práticas sustentáveis, em todos os<br />

âmbitos da sociedade, não é fácil, como fica claro na<br />

dificuldade de se colocar em prática um conjunto de<br />

medidas que viabilizem a redução no uso de sacolas<br />

plásticas – tema da matéria da seção “3Rs”. Se o uso<br />

individual parece pesar pouco na conta da degradação<br />

ambiental, quando este arraigado hábito é contabilizado<br />

em termos planetários, chega-se à cifra de 500 bilhões<br />

de unidades utilizadas a cada ano. Grande parte delas<br />

termina sendo jogada em rios e mares, provocando<br />

enorme dano à fauna e flora do planeta, que, aliás,<br />

serão objeto de maior atenção em todo o mundo em<br />

2010, decretado pela ONU como o Ano Internacional<br />

da Biodiversidade.<br />

Apesar de todos os percalços, há avanços para se<br />

comemorar, como vemos em outras matérias dessa<br />

edição. Entre eles, estão a crescente sensibilização de<br />

adeptos dos esportes de aventura para a importância<br />

da preservação ecológica, a mobilização em prol do<br />

meio ambiente mediante o uso das ferramentas disponíveis<br />

na internet e a cada vez maior atenção que<br />

as questões ambientais recebem dos profissionais da<br />

área da saúde.<br />

Por último, cabe destacar nessa edição a reportagem<br />

sobre a luta dos quilombolas de Alcântara, no Maranhão,<br />

pela preservação das suas terras e tradições<br />

culturais, tema central da entrevista exclusiva que o<br />

ministro Edson Santos, da Secretaria Especial de Políticas<br />

de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), nos<br />

concedeu.<br />

foto: dreamstime.com<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 3 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


8<br />

Entrevista<br />

Natura: referência<br />

empresarial em gestão<br />

sustentável<br />

Em entrevista a <strong>Senac</strong> &<br />

Educação <strong>Ambiental</strong>, o diretor<br />

de Sustentabilidade da Natura,<br />

Marcos Vaz, revela como a<br />

empresa coloca na prática os<br />

valores socioambientais que<br />

defende e revela os principais<br />

desafios no sentido de reduzir<br />

a sua pegada ecológica.<br />

12<br />

Capa<br />

A expansão dos<br />

empregos verdes<br />

O desafio climático impõe a<br />

substituição de práticas nãosustentáveis<br />

por procedimentos<br />

produtivos mais limpos, tendência<br />

que está gerando cada vez<br />

mais postos de trabalho em<br />

áreas como energia, transporte,<br />

construção civil, sistemas de água,<br />

esgoto e lixo, e atividades como<br />

reflorestamento e paisagismo.<br />

42<br />

Populações Tradicionais<br />

Quilombolas de<br />

Alcântara lutam pela<br />

preservação de suas<br />

terras e cultura<br />

Município maranhense abriga<br />

importantes comunidades<br />

quilombolas, que lutam há anos<br />

pela preservação de suas terras<br />

e de suas culturas, ameaçadas<br />

com a instalação da base de<br />

lançamento de foguetes.<br />

47<br />

“Para os quilombolas, a<br />

terra é mais do que um<br />

bem econômico”<br />

Em entrevista exclusiva para<br />

<strong>Senac</strong> & Educação <strong>Ambiental</strong>,<br />

o ministro Edson Santos, da<br />

Secretaria Especial de Políticas<br />

de Promoção da Igualdade Racial<br />

(SEPPIR), fala dos avanços e dos<br />

obstáculos ao reconhecimento dos<br />

direitos dos quilombolas e explica<br />

os critérios para a demarcação<br />

dessas terras.<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 4 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


20<br />

Cultura<br />

32<br />

Saúde<br />

40<br />

Comunicação<br />

Mulheres transformam<br />

fibras em peças de arte<br />

Artesãs de diferentes regiões se<br />

unem para superar uma realidade<br />

de pobreza por meio do artesanato,<br />

transformando em peças de<br />

arte os frutos que a natureza<br />

generosamente lhes oferece.<br />

24<br />

Biodiversidade<br />

2010: o Ano Internacional<br />

da Biodiversidade<br />

No Ano Internacional da<br />

Biodiversidade, a ser comemorado<br />

com diversos eventos ao longo de<br />

2010, especialistas do mundo inteiro<br />

alertam para a crescente destruição<br />

da fauna e flora do planeta e<br />

apontam experiências bemsucedidas<br />

em diferentes países.<br />

O meio ambiente<br />

visto pela medicina<br />

Os impactos causados pelo<br />

desequilíbrio ambiental na saúde<br />

humana mobilizam, em todo o<br />

mundo, profissionais da área médica<br />

e de saúde coletiva, que começam a<br />

dar particular importância aos efeitos<br />

das mudanças climáticas sobre<br />

a população.<br />

36<br />

Educação <strong>Ambiental</strong><br />

Adeptos dos esportes de<br />

aventura se engajam na<br />

preservação ecológica<br />

O aumento da consciência ecológica<br />

entre os praticantes de esportes<br />

de aventura é uma tendência que<br />

tem levado a ações concretas de<br />

preservação e educação ambiental.<br />

O ativismo ambiental<br />

via internet<br />

Cada vez mais, ativistas do mundo<br />

inteiro recorrem às diferentes<br />

ferramentas da internet para trocar<br />

informações, denunciar<br />

agressões ao meio ambiente e<br />

organizar protestos.<br />

Seções<br />

Editoral 3<br />

Cartas 7<br />

Notas 19<br />

Estante 23<br />

foto: dreamstime.com<br />

29<br />

3Rs<br />

O desafio de substituir as<br />

sacolas plásticas<br />

Amplamente utilizado na vida<br />

moderna, o plástico leva séculos<br />

para se decompor na natureza.<br />

Só de sacolas, calcula-se um<br />

consumo de mais de 500 bilhões<br />

de unidades por ano. O mais grave<br />

é que só 0,6% delas<br />

são recicladas.<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 5 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


100<br />

95<br />

75<br />

100<br />

25 95<br />

5 75<br />

0<br />

25<br />

5<br />

0<br />

Para expor suas opiniões na<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> ou<br />

divulgar projetos e programas voltados<br />

para a resolução de problemas<br />

socioambientais, escreva para:<br />

<strong>Senac</strong> Nacional<br />

Diretoria de educação Profissional<br />

Centro de Educação a Distância<br />

Av. Ayrton Senna, 5.555<br />

Barra da Tijuca<br />

CEP 22775-045<br />

Rio de Janeiro - RJ<br />

Fax: (21) 2136-5735<br />

E-mail: educaambiental@senac.br<br />

Atendimento ao leitor:<br />

Kátia Kitzinger<br />

Atenção<br />

As cartas devem trazer o nome,<br />

o endereço completo do remetente<br />

(no caso de e-mail, a cidade e<br />

o estado)<br />

100<br />

95<br />

75<br />

100<br />

25 95<br />

5 75<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong><br />

está na Internet:<br />

http://www.senac.br<br />

0<br />

25<br />

5<br />

tur105x280<br />

segunda-feira,4dejaneirode201018:04:54<br />

0


Meu nome é Daisymara, sou bióloga<br />

e professora da rede particular de<br />

ensino e tenho interesse em receber<br />

gratuitamente a revista. Gostaria<br />

desde já parabenizar pelo empenho<br />

em manter uma edição cujo principal<br />

foco seja a educação ambiental nas<br />

escolas e a preocupação com o meio<br />

ambiente.<br />

Atenciosamente,<br />

Daisymara P. de Almeida Marques<br />

......<br />

Tenho muito prazer em trabalhar com<br />

a educação ambiental, pois acredito<br />

que seja uma alternativa para nossa<br />

sobrevivência.<br />

Por razões essas, é que utilizo a<br />

revista de educação ambiental, pois<br />

os artigos são umas pérolas. Desta<br />

forma, quero continuar a recebendo<br />

a revista, pois sou professora do<br />

<strong>Senac</strong> Maringá-PR e faz tempo que<br />

não recebemos a revista.<br />

Desde já agradeço, fico no aguardo<br />

de sua resposta.<br />

Maria Lúcia Mariani<br />

Maringá - PR<br />

......<br />

Sou antiga admiradora da qualidade<br />

da revista do <strong>Senac</strong> e tenho achado<br />

muitas pérolas em suas páginas. Sou<br />

professora e a revista sempre me<br />

ajuda a pensar.<br />

Sheila Mendes Accioly<br />

Natal - RN<br />

......<br />

Parabéns pelo importante trabalho<br />

de divulgação da educação ambiental.<br />

Eu tenho os números antigos,<br />

porém depois deixei de receber a<br />

revista. Eu gostaria muito de receber<br />

novamente e também gostaria de<br />

ajudar com sugestões de matérias.<br />

Eu sou professor e pesquisador e<br />

atualmente coordeno o projeto Comunidade<br />

Educadora da ONG Care<br />

Brasil, aqui no Rio de<br />

Janeiro.<br />

Esse projeto tem<br />

várias ações<br />

tais como: construímos um biodigestor<br />

que está tratando o esgoto<br />

de uma escola pública e produzirá<br />

metano para abastecer a cozinha da<br />

mesma instituição; formamos jovens<br />

como mediadores de leitura, educadores<br />

ambientais e pesquisadores<br />

populares para resgatar a memória<br />

e a história local. Além disso, desenvolvemos<br />

muitas outras atividades de<br />

pesquisa e ensino que realizamos em<br />

parceria com diferentes instituições<br />

públicas e privadas.<br />

Renovando os votos de admiração<br />

pelo belíssimo trabalho,<br />

Marcelo Aranda Stortti<br />

Rio de Janeiro - RJ<br />

......<br />

Prezados senhores<br />

Meu nome é Nilton, sou estudante<br />

de Gestão <strong>Ambiental</strong> e estive lendo<br />

através da internet a revista <strong>Senac</strong> &<br />

Educação <strong>Ambiental</strong>. Gostei muito<br />

dos assuntos ali reportados, bem<br />

como do estilo da revista que é voltado<br />

exclusivamente para a matéria<br />

que estou cursando.<br />

Peço que, se possível, nos inclua<br />

entre as pessoas que recebem a<br />

mesma. Informo que após lê-la estarei<br />

repassando para a Faculdade<br />

onde estudo para que seja deixada à<br />

disposição para os demais alunos.<br />

Nilton Gonçalves dos Santos<br />

Santa Cecília do Pavão - PR<br />

......<br />

Sou Educadora ambiental e atuo no<br />

projeto Vila Viva Califórnia da Urbel,<br />

em Belo Horizonte, que é um projeto<br />

de urbanização de vilas e favelas.<br />

Gostaria muito de continuar recebendo<br />

a revista afinal ela sempre<br />

traz notícias e matérias que me são<br />

muito úteis.<br />

Monika Beatriz Tschoepe<br />

Belo Horizonte - MG<br />

......<br />

Em primeiro lugar parabenizo o <strong>Senac</strong><br />

por esta excelente publicação!<br />

Sou Gestor de Recursos Naturais<br />

e Professor do Ensino Superior em<br />

Goiânia. Recebia exemplares da <strong>Senac</strong><br />

& Educação <strong>Ambiental</strong> no local<br />

de meu emprego anterior. Solicito,<br />

se possível, que atualizem meu endereço<br />

para poder continuar a receber<br />

a revista.<br />

Desde já agradeço.<br />

Cláudio Rodrigues da Silva<br />

Goiânia - GO<br />

......<br />

A revista que recebemos está realmente<br />

maravilhosa, podemos<br />

dizer que estamos de parabéns, por<br />

estar na lista dos contemplados da<br />

mesma.<br />

Trabalhamos muito com palestras<br />

nas escolas, fazendo a nossa parte na<br />

Educação <strong>Ambiental</strong> e a Revista é um<br />

ótimo instrumento de trabalho para<br />

todos nós do GEAN. As reportagens<br />

são atuais e esclarecedoras, além de<br />

trazerem muita informação.<br />

Obrigado e parabéns pelo ótimo<br />

trabalho!<br />

Lair Soares Corrêa<br />

Coordenadora do GEAN - Grupo<br />

Ecológico Amantes da Natureza<br />

Arroio Grande - RS<br />

......<br />

Prezados senhores,<br />

Que revista maravilhosa! Tive a<br />

oportunidade de conhecê-la no site<br />

do <strong>Senac</strong>-SP., Gostaria de saber<br />

quais os procedimentos para adquirir<br />

rotineiramente a revista <strong>Senac</strong> e<br />

Educação <strong>Ambiental</strong>.<br />

Atenciosamente,<br />

William Fernandes<br />

......<br />

Conheci a revista <strong>Senac</strong> e Educação<br />

<strong>Ambiental</strong> através do meu supervisor<br />

do estágio e achei muito interessante.<br />

Faço Engenharia <strong>Ambiental</strong> e me<br />

interesso por tudo relacionado ao<br />

meio ambiente.<br />

Quero de parabenizá-los pelo belíssimo<br />

trabalho e saber como faço para<br />

receber exemplares da revista.<br />

Aguardo retorno e agradeço a<br />

atenção.<br />

Gabriela<br />

......<br />

Recebi a revista <strong>Senac</strong> & Educação<br />

<strong>Ambiental</strong> e gostei muito. Meus<br />

parabéns a todos que participaram<br />

dessa publicação!<br />

Maria da Graça Vasconcelos<br />

Uberlândia - MG<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 7 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


Natura:<br />

água de<br />

reúso<br />

Em entrevista a<br />

<strong>Senac</strong> & Educação<br />

<strong>Ambiental</strong>, o diretor de<br />

Sustentabilidade da Natura,<br />

Marcos Vaz, revela como a<br />

empresa coloca em prática<br />

os valores socioambientais<br />

que defende e revela os<br />

principais desafios para<br />

reduzir a sua pegada<br />

ecológica<br />

Por André Trigueiro<br />

Vendendo<br />

cosméticos<br />

sem maquiagem<br />

verde<br />

fotos: divulgação Natura<br />

Dar publicidade ao seu passivo<br />

ambiental, eleger metas de desempenho<br />

e eficiência que constrangem<br />

o "business as usual" no Brasil e<br />

reconhecer as próprias limitações,<br />

podem ser algumas das pistas que<br />

nos ajudam a entender o fenômeno<br />

Natura. De grande empresa do setor<br />

de cosméticos, a Natura virou case<br />

de gestão comprometida com sustentabilidade<br />

e inovação.<br />

Com um milhão de consultoras espalhadas<br />

pelo país, a empresa associa<br />

seus produtos a valores éticos como<br />

o banimento de testes em animais, a<br />

neutralização das emissões de C02, o<br />

apoio a comunidades de baixa renda<br />

que atuam como parceiras no processo<br />

produtivo e rígidos níveis de<br />

exigência impostos aos fornecedores<br />

que são periodicamente avaliados e<br />

auditados.<br />

Diretor de Sustentabilidade da Natura,<br />

Marcos Vaz é responsável pelas<br />

áreas de Sustentabilidade, Assuntos<br />

Regulatórios, Auditoria de Sistemas<br />

de Gestão, Segurança de Produtos<br />

e Cosmetovigilância. É ele quem<br />

explica como a empresa procura<br />

colocar em prática, em toda a sua<br />

cadeia produtiva, a preocupação<br />

com as questões socioambientais,<br />

atitude que a levou a se tornar referência<br />

na área empresarial em gestão<br />

sustentável.<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 8 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


S&EA – A Natura exige de seus<br />

fornecedores o cumprimento de várias<br />

exigências (selos, certificações,<br />

normas técnicas, etc.) incomuns<br />

para a maioria das empresas do país.<br />

Que critérios foram adotados para a<br />

formulação dessas exigências e em<br />

que medida isso determinou efetivamente<br />

mudanças nas rotinas desses<br />

fornecedores?<br />

MV – Em 2004, criamos o Qlicar<br />

(Q=Qualidade; L=Logística; I=Inovação;<br />

C=Competitividade; A=Atendimento;<br />

R=Relacionamento), para<br />

assegurarmos qualidade na aquisição<br />

de matérias-primas, produtos<br />

e serviços de nossos fornecedores,<br />

bem como para a avaliarmos critérios<br />

relacionados à responsabilidade corporativa<br />

deles.<br />

Os fornecedores que participam do<br />

programa são submetidos a avaliações<br />

rigorosas ao longo de todo o<br />

ano, feitas mensalmente, por meio<br />

do Score Card de Fornecedores da<br />

Natura, que congrega todos os elementos<br />

do Qlicar.<br />

Atualmente, o Qlicar abrange 68<br />

fornecedores que foram selecionados<br />

ao longo dos anos em função<br />

do histórico e volume de negócios<br />

com a Natura. Em 2008, todos eles<br />

foram auditados em requisitos de<br />

qualidade, meio ambiente e responsabilidade<br />

social, incluindo aspectos<br />

relacionados aos direitos humanos.<br />

Todos os contratos exigem, por<br />

exemplo, a não utilização de mãode-obra<br />

infantil, trabalho forçado ou<br />

análogo ao escravo.<br />

S&EA – É cada vez maior o número<br />

de empresas em diversos setores<br />

da economia que anunciam a compensação<br />

das emissões de gases<br />

estufa, normalmente com o plantio<br />

de árvores. Entretanto, nem sempre<br />

se conhece com clareza os critérios<br />

utilizados para fazer essa conta.<br />

Como a Natura vem promovendo a<br />

compensação e também a redução<br />

das emissões de C02?<br />

MV – Em 2007, a Natura assumiu o<br />

compromisso de se transformar em<br />

uma empresa carbono neutro e passamos<br />

a oferecer aos nossos clientes<br />

um portfólio composto por linhas<br />

de produtos que têm suas emissões<br />

de gases de efeito estufa totalmente<br />

neutralizadas. Criado a partir de um<br />

modelo que preza pela transparência,<br />

o Projeto Carbono Neutro envolve<br />

toda a cadeia de negócios e pode<br />

ser considerado o mais importante<br />

marco do nosso engajamento com a<br />

questão das mudanças climáticas.<br />

Nossa opção foi a de assumir a responsabilidade<br />

total de nossas emissões,<br />

indo além de práticas como a<br />

compra de créditos de carbono no<br />

Marcos Vaz: "Sustentabilidade não é<br />

custo, mas sim investimento"<br />

mercado. O foco da Natura está na<br />

redução das emissões e tudo aquilo<br />

que não é possível reduzir de imediato<br />

está sendo compensado pelo<br />

apoio a projetos externos, dotados<br />

de benefícios socioambientais evidentes.<br />

Dentro do Projeto Carbono<br />

Neutro, a Natura identificou a possibilidade<br />

de reduzir em 33% as emissões<br />

relativas da cadeia de negócios<br />

no prazo de cinco anos, tendo como<br />

base as emissões de 2006. A meta<br />

deve ser alcançada até 2011. Já conseguimos,<br />

com as práticas de 2007 e<br />

2008, alcançar 9% de redução.<br />

No dia 10 de dezembro a Natura<br />

anunciou sua adesão ao programa<br />

Defensores do Clima do WWF-Brasil<br />

e seu compromisso em reduzir em<br />

10% as emissões absolutas dos seus<br />

processos operacionais até 2012, em<br />

relação ao ano de 2008. O anúncio foi<br />

feito em Copenhague, em um evento<br />

paralelo à 15ª Conferência das Partes<br />

(COP-15) da Convenção-Quadro das<br />

Nações Unidas sobre Mudanças do<br />

Clima.<br />

Defensores do Clima é o nome de um<br />

programa da Rede WWF. No Brasil,<br />

o programa está sendo inaugurado<br />

pelo acordo firmado entre Natura e<br />

WWF-Brasil, organização não governamental<br />

brasileira que trabalha em<br />

articulação com a Rede WWF, a maior<br />

rede independente de conservação<br />

da natureza. O programa global<br />

conta com 22 empresas participantes,<br />

dentro as quais Coca-Cola, IBM,<br />

Tetrapak, Nokia, National Geographic<br />

e Sony. Juntas, essas empresas reduzirão<br />

suas emissões de gases do<br />

efeito estufa em 50 milhões de toneladas<br />

de CO2 até 2010, o equivalente<br />

às emissões anuais da Suíça.<br />

Para atingir a meta, a Natura investirá<br />

no uso de energias renováveis.<br />

Ela substituirá o combustível dos<br />

seus fornos de calor por biomassa<br />

e etanol, insumos renováveis, e<br />

usará etanol em sua frota própria de<br />

veículos.<br />

S&EA – Alvo de pressões de ONGs<br />

ambientalistas, a Natura anunciou<br />

em 2006 ter banido completamente<br />

os testes com animais para garantir<br />

a segurança de seus produtos. Por<br />

que é tão difícil para a indústria de<br />

cosméticos se comprometer com<br />

o fim desses testes considerados<br />

cruéis e desnecessários?<br />

MV – Desde dezembro de 2003 começamos<br />

o processo para eliminar<br />

os testes em animais por completo<br />

da nossa cadeia. Já em 2003, nossos<br />

produtos finalizados não eram testados<br />

em animais ou em tecidos de<br />

animais criados exclusivamente para<br />

pesquisa. Em dezembro de 2006,<br />

eliminamos também por completo<br />

estes testes em todas as etapas de<br />

pesquisa e avaliação de matériasprimas<br />

desenvolvidas exclusivamente<br />

para nós, seja internamente como<br />

em parceiros externos.<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 9 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


fotos: Pedro Martinelli<br />

O processo levou tempo, pois não<br />

existia no Brasil nenhum fornecedor<br />

de pele reconstituída e também<br />

porque precisávamos garantir que<br />

nossos fornecedores também não<br />

testariam os ativos.<br />

É importante ressaltar que não fizemos<br />

isso por pressão de ONGs e sim<br />

porque acreditamos na promoção do<br />

Bem Estar, que é a relação harmoniosa<br />

do indivíduo consigo mesmo, com<br />

os outros e com o mundo do qual<br />

fazemos parte.<br />

A eliminação dos testes em animais<br />

foi alcançada sem abrir mão dos exigentes<br />

critérios de segurança de nossos<br />

produtos. Investimos na busca,<br />

na validação e na implementação de<br />

métodos alternativos internacionalmente<br />

aceitos, como testes in vitro<br />

(em culturas de células) e posterior<br />

confirmação em voluntários humanos<br />

seguindo os preceitos éticos da<br />

Declaração de Helsinque.<br />

Para difundir a eliminação dos testes<br />

em animais, incentivamos nossos<br />

fornecedores de insumos a rejeitar<br />

essa prática em toda sua produção,<br />

mesmo aquela destinada a outras<br />

empresas.<br />

Assim, garantimos a segurança de<br />

uso de nossos produtos, sempre de<br />

forma ética e sem o uso de animais.<br />

S&EA – A empresa recruta<br />

os serviços de quase<br />

2 mil famílias em comunidades<br />

espalhadas pela Amazônia<br />

e Mata Atlântica. A própria Natura<br />

reconhece alguns riscos e problemas<br />

inerentes ao relacionamento com essas<br />

comunidades locais. Quais foram<br />

os principais desafios enfrentados<br />

até aqui?<br />

MV – O uso sustentável de insumos<br />

da biodiversidade brasileira é nossa<br />

principal plataforma tecnológica.<br />

Entendemos que o desenvolvimento<br />

das comunidades fornecedoras é<br />

fundamental para a conservação do<br />

patrimônio ambiental. Estabelecer e<br />

manter essa rede de relacionamentos<br />

e inseri-la no modelo de negócios<br />

é um desafio que a Natura assumiu<br />

há alguns anos, com o propósito de<br />

incentivar a conservação ambiental<br />

e valorizar o conhecimento tradicional.<br />

A complexidade da logística de<br />

abastecimento (que envolve custos,<br />

qualidade e rastreabilidade dos insumos);<br />

o marco regulatório ainda<br />

em construção que rege os diversos<br />

aspectos desse relacionamento; e a<br />

diversidade cultural e social das comunidades<br />

envolvidas compõem um<br />

cenário que exige esforço contínuo.<br />

Atualmente, temos 23 comunidades<br />

parceiras da Natura, localizadas nas<br />

regiões Norte, Nordeste, Sudeste e<br />

Sul do Brasil e em um país da América<br />

Latina (Equador). Ao todo, reúnem<br />

1.895 famílias. Esse conjunto<br />

de comunidades<br />

caracteriza-se por<br />

uma grande<br />

diversidade,<br />

tanto cultural,<br />

quanto<br />

socioeconômica.<br />

Além<br />

disso, estão<br />

localizadas em<br />

diferentes ecossistemas<br />

e apresentam<br />

diferentes formas de<br />

organização social e institucional.<br />

Fazem parte desse público desde<br />

pequenos grupos de agricultores<br />

familiares no Sul do Brasil até comunidades<br />

tradicionais extrativistas<br />

com grande número de famílias no<br />

Norte do País.<br />

A Natura estimula a organização e a<br />

capacitação dos fornecedores rurais<br />

e busca participar da construção de<br />

cadeias de valor e de preço justo das<br />

Parceiros da Natura: conhecimento<br />

tradicional valorizado<br />

matérias-primas, visando à promoção<br />

do progresso social e econômico<br />

desses fornecedores e a adoção de<br />

processos produtivos de menor impacto<br />

ambiental. Sua atuação segue<br />

as recomendações da Organização<br />

Internacional do Trabalho, do Estatuto<br />

da Criança e do Adolescente, dos<br />

programas de certificação ambiental<br />

e da legislação vigente.<br />

Vários são os processos e os sistemas<br />

de gestão específicos ligados à<br />

questão da biodiversidade na Natura:<br />

seleção de ativos candidatos à pesquisa,<br />

regulamentação para pesquisa<br />

desses ativos, desenvolvimento de<br />

produtos e testes, desenvolvimento<br />

de fornecedores de grande, médio<br />

e pequeno porte e identificação de<br />

comunidades fornecedoras, certificação<br />

ambiental e os processos ligados<br />

aos impactos socioambientais<br />

que a atividade produtiva provoca<br />

nas comunidades fornecedoras,<br />

entre outros.<br />

Antecipando-se à evolução da legislação<br />

brasileira sobre o tema da<br />

biodiversidade, fomos a primeira empresa<br />

brasileira a fechar acordos de<br />

remuneração sobre o conhecimento<br />

tradicional associado, realizando,<br />

inclusive, protocolo para obtenção<br />

de autorização de acesso perante o<br />

Conselho de Gestão do Patrimônio<br />

Genético (CGEN).<br />

S&EA – A Natura fez história na Bolsa<br />

de Valores de São Paulo quando<br />

decidiu abrir o capital em 2004 e viu<br />

a procura pelos papéis da empresa<br />

superar dez vezes a oferta. Acionistas<br />

aumentam tremendamente a<br />

pressão por lucros incessantes e, de<br />

preferência, cada vez maiores. Como<br />

compatibilizar essa expectativa tão<br />

amplamente disseminada no mercado<br />

financeiro com políticas empresariais<br />

efetivamente sustentáveis? Dá<br />

para conciliar sempre ou, às vezes, é<br />

preciso sacrificar uma das partes?<br />

MV – Temos aí um falso paradigma.<br />

Essa concepção só existe nas<br />

empresas que tratam a sustentabilidade<br />

como uma moda ou ação<br />

de marketing. Quem resolveu, de<br />

fato, conduzir sua atividade dentro<br />

dos princípios da sustentabilidade<br />

percebeu que sustentabilidade não<br />

é custo, mas sim, investimento. É<br />

uma forma de inovar, se diferenciar.<br />

Acreditamos que ser sustentável é<br />

uma oportunidade de se aprimorar<br />

e de crescimento constante. Se pu-<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 10 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


Em 2006, a Natura eliminou por<br />

completo os testes com animais<br />

foto: Divulgação Natura<br />

déssemos resumir em um conceito o<br />

que é sustentabilidade, diríamos que<br />

é cuidar das relações, com colaboradores,<br />

fornecedores, investidores,<br />

imprensa, consumidores, todos que<br />

ajudam na construção da marca e a<br />

garantir a longevidade da empresa.<br />

S&EA – Em outubro deste ano, a<br />

Natura alcançou a marca de 1 milhão<br />

de consultoras. Para quem se revela<br />

tão preocupada em consolidar uma<br />

imagem de ambientalmente responsável,<br />

que garantias existem de que<br />

esse exército de revendedores(as)<br />

têm conseguido explicar e praticar<br />

os valores da empresa?<br />

MV – Uma das crenças da Natura é a<br />

de aperfeiçoamento contínuo. Acreditamos<br />

que "a busca permanente do<br />

aperfeiçoamento é o que promove o<br />

desenvolvimento dos indivíduos, das<br />

organizações e da sociedade."<br />

Em 2008, ministramos aproximadamente<br />

165 mil treinamentos iniciais.<br />

Preparamos as consultoras não apenas<br />

para lidar com o trabalho diário,<br />

mas para seu desenvolvimento como<br />

pessoa. Toda Consultora Natura (CN)<br />

deve passar por um treinamento<br />

inicial, no qual tem a oportunidade<br />

de conhecer outras consultoras,<br />

compartilhar histórias, sonhos e<br />

expectativas em relação à atividade<br />

de consultoria. A cada 18 dias, a Natura<br />

entra num novo ciclo, onde um<br />

produto ou linha ganha destaque.<br />

Até o 7.º ciclo, a consultora precisa<br />

passar pelo treinamento "Paixão por<br />

Produto". Além disso, oferecemos<br />

cursos de maquiagem, perfumaria e<br />

tratamento de pele para que se conheça<br />

mais e se divulgue melhor os<br />

produtos e os valores da empresa.<br />

O setor de cosméticos atrai muitas<br />

mulheres porque elas se identificam<br />

com o produto e negócio. É um<br />

público muito mais suscetível às<br />

crenças da empresa e valores sócioambientais.<br />

Elas gostam de trabalhar<br />

em mercados que dominam e se<br />

realizam. Este mercado tem uma<br />

profunda intimidade com o mundo<br />

feminino. As mulheres percebem que<br />

é uma extensão de seu viver.<br />

S&EA – Em que medida as práticas<br />

sustentáveis defendidas pela Natura<br />

têm influenciado o consumidor a<br />

pensar e agir de forma mais consciente<br />

em relação ao planeta?<br />

MV – Nossas consultoras são um<br />

importante canal de disseminação<br />

das crenças e valores da Natura.<br />

São elas que levam ao consumidor,<br />

por exemplo, a informação de que<br />

ele, ao optar pela compra do refil de<br />

um produto ao invés da embalagem<br />

regular, deixa de consumir cerca de<br />

50% de matéria-prima. A consultora<br />

Natura além de vender produtos,<br />

ajuda a ampliar a consciência do consumidor.<br />

Em relação à venda de refis,<br />

fechamos o ano de 2008 com resultado<br />

acima da meta estabelecida. Na<br />

operação brasileira, por exemplo,<br />

a porcentagem de refis sobre itens<br />

faturados foi de 19,86%.<br />

S&EA – Do ponto de vista tecnológico,<br />

quais os principais desafios<br />

da empresa no sentido de reduzir<br />

sua pegada ecológica (consumo de<br />

matéria-prima, energia, água, produção<br />

de lixo, etc)?<br />

MV – A Natura busca desenvolver<br />

projetos e orienta os investimentos<br />

visando a compensação ambiental<br />

pelo uso de recursos naturais e pelo<br />

impacto causado por suas atividades.<br />

Busca organizar a sua estrutura interna<br />

de maneira que o meio ambiente<br />

não seja um tema isolado, mas que<br />

permeie todas as áreas da empresa,<br />

sendo considerado a cada produto,<br />

processo ou serviço que desenvolve<br />

ou planeja desenvolver. Isso permite<br />

à empresa prevenir-se de riscos,<br />

além de reduzir custos, aprimorar<br />

processos e explorar novos negócios<br />

voltados para a sustentabilidade ambiental,<br />

favorecendo a sua inserção<br />

no mercado.<br />

Sem alterar seu padrão tecnológico<br />

atual, procuramos reduzir o consumo<br />

de energia, água, produtos tóxicos e<br />

matérias-primas, e implantar processos<br />

de destinação adequada de resíduos.<br />

A Natura investe na atualização<br />

de seu padrão tecnológico, visando a<br />

redução ou substituição de recursos<br />

de entrada; realiza o tratamento de<br />

efluentes e de resíduos em geral e<br />

promove o uso de matérias-primas<br />

renováveis. Possuímos processos<br />

para medir, monitorar e auditar os<br />

aspectos ambientais associados ao<br />

consumo de recursos naturais e à<br />

geração de resíduos, estabelecendo<br />

periodicamente novas metas.<br />

Também procuramos adotar práticas<br />

de bom manejo florestal na extração<br />

de ativos e na utilização sustentável<br />

de recursos naturais básicos; promovemos<br />

a reciclagem e o reúso<br />

de materiais, o gerenciamento da<br />

qualidade do ar, da água e do solo, o<br />

controle de efeitos sonoros, a redução<br />

do desperdício e privilegiamos<br />

o uso de materiais biodegradáveis,<br />

entre outras iniciativas.<br />

A Natura implementou em 2006 o<br />

Sistema Natura de Gases de Efeito<br />

Estufa. O sistema mapeia emissões,<br />

identifica oportunidades de redução<br />

de gases, desde a cadeia de fornecimento<br />

ao descarte final, e gerencia<br />

planos de ação. Em 2007, lançamos<br />

o Programa Carbono Neutro, com<br />

ações mitigatórias e compensatórias.<br />

S&EA – A Natura estimula seus funcionários<br />

a estudarem meio ambiente<br />

ou complementarem seus estudos<br />

na área ambiental? No caso de novas<br />

admissões, valoriza-se como quesito<br />

importante a formação do candidato<br />

em alguma disciplina relacionada a<br />

meio ambiente para o preenchimento<br />

de cargos?<br />

MV – Na contratação de novos colaboradores<br />

a Natura busca pessoas<br />

alinhadas com suas crenças, pessoas<br />

que acreditam na construção de um<br />

mundo melhor, na importância das<br />

relações e na preservação do meio<br />

ambiente, na atuação sustentável.<br />

Todos os colaboradores da Natura<br />

são sensibilizados para o tema, seja<br />

por treinamentos específicos ou por<br />

ações de comunicação interna da<br />

empresa.<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 11 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


Cana-de-açúcar:<br />

combustível verde<br />

gera 1 milhão de<br />

empregos no Brasil<br />

Ações pelo clima geram milhões<br />

de postos de trabalho<br />

Organismos internacionais, como o Pnuma e a OIT, estimulam países a fazer do combate<br />

ao aquecimento atmosférico uma oportunidade para mudanças de padrões econômicos e<br />

inserção social pelo emprego.<br />

Por Procópio Mineiro<br />

foto: joão Roberto Ripper<br />

Quando faltavam três semanas para<br />

a Cúpula de Copenhague, o Fundo<br />

das Nações Unidas para a População<br />

(UNFPA) lançou, em 18 de novembro,<br />

seu relatório "Estado da população<br />

mundial 2009", destacando o papel<br />

preocupante que as mudanças climáticas<br />

globais tendem a exercer sobre<br />

as comunidades humanas, sobretudo<br />

as mais pobres. As alterações<br />

climáticas, segundo o relatório, vão<br />

acelerar migrações, destruir fontes<br />

de subsistência, abalar sistemas<br />

econômicos e as possibilidades de<br />

desenvolvimento de muitos países.<br />

Como se fosse pouco, se desenhou<br />

um cenários de escassez de água e<br />

de alimentos.<br />

De um ponto de vista mais esperançoso,<br />

porém, órgãos internacionais<br />

do sistema da ONU, como a Organização<br />

Internacional do Trabalho (OIT)<br />

e o Programa das Nações Unidas<br />

para o Meio Ambiente (Pnuma), vêm<br />

trabalhando para uma mobilização<br />

mundial que minimize ou mesmo<br />

reverta o processo de aquecimento<br />

global, apontando para a necessidade<br />

de legislações nacionais que<br />

privilegiem atividades dedicadas a<br />

melhorar as condições ambientais<br />

nas cidades, nos campos e nos<br />

sistemas de produção. Partem do<br />

relatório "Empregos verdes: trabalho<br />

decente em um mundo sustentável<br />

e com baixas emissões de carbono",<br />

lançado em meados de 2008, mas<br />

efetivamente disseminado e debatido<br />

no correr de 2009.<br />

O ponto central dessa campanha,<br />

que não tem data para terminar, é a<br />

de que o desafio climático deve levar<br />

a uma mobilização de governos, empresas<br />

e centros de desenvolvimento<br />

tecnológico, como as universidades,<br />

visando a substituição de práticas<br />

não-sustentáveis por procedimentos<br />

produtivos mais limpos – aliados a<br />

programas públicos de preservação<br />

ambiental, que vão de reflorestamento<br />

e paisagismo a uma gestão<br />

eficiente dos sistemas de energia e<br />

transporte, de água e esgoto e do<br />

lixo urbano.<br />

A OIT faz uma projeção positiva do<br />

envolvimento mundial por metas<br />

ambientais em todos os setores da<br />

atividade humana: até dois bilhões<br />

de novos empregos podem ser criados<br />

nessa mobilização pelo clima, o<br />

que, em tal proporção, seria capaz<br />

de varrer o desemprego da face do<br />

planeta ameaçado.<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 12 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


Mas, por enquanto, é hora de criar<br />

consciência e convocar a humanidade<br />

a posicionar-se para a batalha,<br />

que envolve aspectos tecnológicos,<br />

governamentais, empresariais e sociais.<br />

Mas saber que é possível, já é<br />

um grande passo e ajuda a alimentar<br />

o sonho de um futuro melhor.<br />

Economia verde,<br />

empregos verdes<br />

O alarme ambiental está tocando na<br />

cabeceira da humanidade sonolenta<br />

há cerca de 40 anos. Mas foi só com<br />

a Conferência Mundial sobre Meio<br />

Ambiente e Desenvolvimento (Rio-<br />

92), realizada no Rio de Janeiro, em<br />

1992, que, efetivamente, a população<br />

do planeta começou a se dar conta<br />

do tamanho da encrenca em que se<br />

meteu.<br />

A Rio-92 ocorreu há 17 anos e o Protocolo<br />

de Quioto, primeiro grande<br />

compromisso global em defesa da<br />

estabilidade do clima, será substituído<br />

em dois anos sem que se tenha<br />

avançado o quanto se desejava. Mas<br />

é consenso que a questão ambiental<br />

tornou-se tema tão presente e urgente<br />

que, mais cedo ou mais tarde,<br />

surgirão as adequações necessárias<br />

exigidas pelos perigos que as alterações<br />

climáticas estão criando para<br />

todos na Terra.<br />

Sendo essas alterações do clima<br />

provocadas pela forma de produzir e<br />

consumir da humanidade, especialmente<br />

dos países industrializados, os<br />

maiores causadores das emissões de<br />

gases de efeito estufa na atmosfera,<br />

sabe-se que, forçosamente, mudanças<br />

terão que acontecer na economia<br />

de hoje.<br />

Preocupada em produzir limpo, essa<br />

economia verde será movida a empregos<br />

verdes. E como, na realidade,<br />

essa economia já começa a estruturar-se<br />

por força de maior conscientização,<br />

de novas leis e por adesão<br />

de parte do empresariado, novas<br />

oportunidades de empregos começam<br />

também a surgir. A OIT, como<br />

diz o título de seu estudo, pretende<br />

que essas novas ocupações sejam<br />

decentes, isto é, estejam cercadas<br />

das garantias legais e ofereçam ao<br />

trabalhador condições adequadas de<br />

atuar profissionalmente e de usufruir<br />

de bom padrão de vida.<br />

Uma evolução<br />

Para Paulo Sérgio Muçouçah, coordenador<br />

de empregos verdes e trabalho<br />

decente do escritório da Organização<br />

Internacional do Trabalho em Brasília,<br />

o Brasil já possui uma significativa<br />

quantidade de pessoas envolvidas<br />

em atividades ligadas diretamente<br />

à preservação ambiental ou a ela<br />

relacionadas de forma indireta.<br />

No momento, já seriam cerca de dois<br />

milhões de pessoas, entre as quais<br />

cerca de 500 mil dedicadas à coleta<br />

e reciclagem de lixo, e mais de um<br />

milhão na área agrícola que gera<br />

etanol e biodiesel, combustíveis que<br />

contam com um grande futuro num<br />

mundo necessitado de carburantes<br />

com baixa emissão de carbono. Com<br />

terras apropriadas para a expansão<br />

da cana-de-açúcar nas diversas regiões<br />

do país, o Brasil tem condições<br />

de responder por grande parte da<br />

demanda por combustíveis verdes,<br />

criando, simultaneamente, centenas<br />

de milhares de empregos nessa<br />

área. Conhecido historicamente<br />

pela precariedade predominante<br />

nas relações de trabalho, o setor<br />

canavieiro precisaria, na visão da<br />

OIT, empenhar-se em obter eficiência<br />

também na qualidade das relações<br />

trabalhistas, de modo a expandir,<br />

igualmente, o chamado emprego<br />

verde decente.<br />

Nas entrevistas que tem concedido<br />

para divulgar o estudo da OIT, Muçouçah<br />

vem destacando a expansão<br />

de oportunidades também em outros<br />

segmentos, a partir de iniciativas<br />

empresariais e governamentais.<br />

Considera que tem grande poder de<br />

geração de empregos o programa<br />

habitacional Minha Casa, Minha Vida,<br />

do Governo Federal, pois princípios<br />

ambientais vêm sendo incorporados<br />

aos prédios, como a energia solar.<br />

Esse setor, portanto, receberá uma<br />

demanda que o levará a abrir muitas<br />

vagas de empregos especializados.<br />

Pneus: reciclados, se transformam<br />

em piso rodoviário<br />

Assim, de uma economia suja se passará<br />

a uma economia verde, dirigida<br />

pelos princípios ambientais quanto<br />

ao uso de energias, insumos, utilização<br />

de recursos naturais, emprego<br />

de novas tecnologias, percepção<br />

mais integrada da relação entre a<br />

produção e a sociedade, e a busca<br />

de redução das desigualdades entre<br />

os que consomem demais e os que<br />

consomem de menos.<br />

foto: Delfim Martins/Tyba<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 13 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


foto: Ricardo Azoury/Tyba<br />

Áreas<br />

privilegiadas<br />

Em um mundo que está sendo<br />

convocado a alterar profundamente<br />

algumas engrenagens de sua economia<br />

tradicional, certas áreas despontam<br />

como aquelas que ocuparão<br />

lugar privilegiado na nova economia<br />

verde.<br />

A primeira delas é a da energia, até<br />

hoje gerada, predominantemente<br />

(85%), por petróleo e carvão mineral,<br />

os vilões liberadores do gás carbônico,<br />

o CO2. Por sua importância<br />

central na questão do aquecimento<br />

atmosférico, darão lugar, em um processo<br />

cuja duração é difícil precisar,<br />

a outras fontes energéticas, como<br />

os ventos e o sol, ou a biomassa,<br />

de que resultam o etanol e misturas<br />

de produtos vegetais com fósseis,<br />

como o biodiesel. Nos cálculos da<br />

OIT, cerca de 630 bilhões de dólares<br />

serão aplicados em energia renovável<br />

nos próximos 20 anos, levando à<br />

criação de 20 milhões de postos de<br />

trabalho.<br />

Energia solar: expansão desse<br />

setor vai gerar mais empregos<br />

Durante a "2ª Semana do Etanol:<br />

compartilhando a experiência<br />

brasileira", promovida em<br />

novembro de 2009 pelo Ministério<br />

da Agricultura, Pecuária<br />

e Abastecimento em Ribeirão<br />

Preto/SP, com a presença de<br />

especialistas, empresários e<br />

representantes de governos de<br />

20 países, o assessor de Energia<br />

do Itamarati, Augusto Pestana,<br />

frisou o poder de inclusão social<br />

da agroenergia: “Hoje, a produção<br />

de etanol movimenta mais de R$ 20<br />

bilhões na economia brasileira e emprega<br />

mais de um milhão de pessoas.<br />

Queremos levar essa experiência<br />

brasileira para todos os países em<br />

desenvolvimento.”<br />

O objetivo desse encontro internacional<br />

foi o de estimular outros países<br />

a plantar cana e produzir etanol,<br />

de modo a criar uma oferta mundial<br />

do produto capaz de torná-lo uma<br />

commodity internacionalmente aceita,<br />

superando os boicotes atuais que<br />

limitam as exportações brasileiras do<br />

combustível verde. Com a ampliação<br />

futura de produtores, mais o mercado<br />

se expandirá, criando maior número<br />

de postos de trabalho, como prevê a<br />

OIT, para a qual atividades benéficas<br />

ao clima acabarão por desenvolver<br />

uma economia verde com crescente<br />

número de empregos.<br />

Segundo a assessora internacional da<br />

União da Indústria de Cana-de-Açúcar<br />

(Unica), Geraldine Kutas, os maiores<br />

emissores de CO 2 , como Estados<br />

Unidos, Europa e Japão, impõem<br />

barreiras tarifárias à importação do<br />

etanol brasileiro, preferindo manter<br />

a matriz energética poluidora.<br />

Diretamente ligado à energia está o<br />

setor de transportes rodoviários,<br />

que queimam gasolina e óleo, e se<br />

movem sobre pneus de borracha,<br />

considerados dos mais poluentes<br />

descartes. Readequações para o<br />

transporte sobre trilhos, melhorias<br />

na tecnologia dos motores, aperfeiçoamentos<br />

ou substituição de combustíveis<br />

e adoção da eletricidade em<br />

veículos envolvem a expectativa de<br />

desenvolvimento de múltiplas atividades<br />

geradoras de empregos.<br />

A atividade de reciclagem, em constante<br />

crescimento, é a que oferece a<br />

melhor perspectiva de multiplicação<br />

de mão de obra a curto prazo, à medida<br />

que a consciência ambiental se<br />

expande, sobretudo na população<br />

urbana, levando os governos a adotarem<br />

procedimentos mais efetivos<br />

quanto à coleta e tratamento do lixo.<br />

Os dados da OIT registram 500 mil<br />

pessoas envolvidas nessa atividade<br />

no Brasil, número considerado ainda<br />

modesto ante os dez milhões de trabalhadores<br />

atuantes nesse segmento<br />

na China.<br />

O saneamento desponta como uma<br />

atividade verde de grande poder empregador,<br />

sobretudo nos países em<br />

desenvolvimento, devido à demanda<br />

reprimida de tais serviços. Mesmo<br />

em grandes e cosmopolitas capitais<br />

do Terceiro Mundo, os sistemas de<br />

saneamento deixam a desejar ou são<br />

inexistentes em amplos setores das<br />

cidades, particularmente nas periferias.<br />

Fornecimento de água tratada,<br />

oferta de sistemas de esgotos com<br />

tratamento final dos dejetos, eficiência<br />

na coleta e deposição do lixo<br />

são atividades ambientais de grande<br />

efeito e cada vez mais necessárias.<br />

Outra área considerada destinada a<br />

crescer é a silvicultura, ante a consciência<br />

de que florestas são as melhores<br />

armas naturais de absorção do<br />

gás carbônico da atmosfera. Produzir<br />

mudas, reflorestar e conservar flofoto:<br />

Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />

Privilegiado em qualquer área dessas<br />

possibilidades, o Brasil pode contar<br />

com uma larga estrada à frente para<br />

expandir a produção energética e,<br />

com ela, o número de braços e cérebros<br />

envolvidos no processo.<br />

A coleta e reciclagem de lixo envolvem<br />

500 mil pessoas no Brasil<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


Hidrelétricas: fonte renovável<br />

garante matriz energética limpa<br />

foto: Luiz Claudio Marigo<br />

restas ainda existentes tendem a se<br />

transformar em atividades capazes<br />

de absorver grande número de trabalhadores,<br />

especializados ou não.<br />

No caso do Brasil, que se destaca<br />

como um dos últimos grandes refúgios<br />

florestais do planeta, apesar do<br />

desmatamento ininterrupto de mais<br />

de 500 anos, o apelo para atividades<br />

preservacionistas, conjugadas<br />

com atividades de exploração<br />

econômica sustentável na área, é<br />

inquestionável.<br />

Em cada um dos 17 estados do<br />

bioma da Mata Atlântica, milhares<br />

de empregos poderão ser gerados,<br />

caso tenha bom andamento o plano<br />

de reflorestar cerca de<br />

10% da área nas próximas<br />

décadas, elevando<br />

a proporção de bosques<br />

do sistema costeiro. Outro<br />

projeto ambiental de<br />

largo poder empregador<br />

é o de recuperação do<br />

Rio São Francisco, que<br />

envolverá um grande esforço<br />

de reflorestamento<br />

em Minas Gerais, Bahia e<br />

Pernambuco. Esse plano<br />

é desdobramento da ação<br />

de transposição de águas<br />

do rio para regularização<br />

e perenização de bacias<br />

hidrográficas em Pernambuco,<br />

Paraíba, Rio Grande<br />

do Norte e Ceará, e já em<br />

andamento, mas sob fortes críticas<br />

de alguns setores ambientalistas,<br />

que pedem prioridade para a revitalização<br />

da bacia hidrográfica. Embora<br />

os estudos técnicos demonstrem<br />

que o percentual de água a ser extraído<br />

– cerca de 1% da vazão – não<br />

ameaçará o rio, os mesmos estudos<br />

preveem, a longo prazo, a redução da<br />

torrente em consequência do intenso<br />

desmatamento na porção mineira,<br />

com prejuízo para os afluentes, que<br />

foto: Cris Kizzy/BrazilPhotos<br />

por isso abastecerão cada vez menos<br />

o São Francisco.<br />

Os compromissos voluntários do<br />

governo brasileiro para a redução<br />

da emissão de carbono incluem uma<br />

forte redução no desmatamento e<br />

nas queimadas. O foco é a Amazônia,<br />

mas certamente a larga destruição<br />

das matas mineira e baiana será<br />

alcançada pelas novas políticas,<br />

tornando inevitável que ações de<br />

reflorestamento, engenharia e saneamento<br />

comecem na extensa bacia hidrográfica<br />

do Rio São Francisco, com<br />

efeito positivo na oferta de empregos<br />

verdes nos sertões e veredas mineiras,<br />

baianas e pernambucanas.<br />

Construção "verde": preocupação<br />

crescente em reduzir impacto ambiental<br />

A construção civil já usa o argumento<br />

ambiental como tema de<br />

vendas e, na avaliação da OIT, é uma<br />

atividade capaz de incorporar, de<br />

forma crescente, elementos e tecnologias<br />

de grande efeito ecológico,<br />

criando funções para uma abundante<br />

mão de obra verde. Iluminação, aeração,<br />

sistemas de água e esgoto mais<br />

eficientes, aproveitamento espacial,<br />

arborização, geração alternativa de<br />

energia, como a solar, emprego de<br />

materiais menos poluentes e descarte<br />

correto dos seus resíduos, entre<br />

outros itens, são aspectos em que<br />

a construção civil, tradicionalmente<br />

uma das áreas que mais empregam<br />

no Brasil e no mundo, pode ampliar<br />

sua contribuição para a sustentabilidade<br />

do meio ambiente.<br />

Revolução energética<br />

Mudanças de padrões certamente<br />

abrem oportunidades a novos meios<br />

de produzir e de auferir renda. Mas,<br />

igualmente, podem tornar obsoletas<br />

as formas dominantes da economia<br />

do momento e de sua estrutura de<br />

trabalho. Isso se torna ainda<br />

mais verdade quando<br />

o desafio ambiental está<br />

propondo uma revolução<br />

energética que se baseie<br />

em fontes renováveis, acenando<br />

com o desmonte<br />

ou redução dos sistemas<br />

tecnológicos, financeiros<br />

e geopolíticos ligados à<br />

exploração das fontes nãorenováveis,<br />

o petróleo e<br />

o carvão mineral, ainda<br />

as matérias-primas energéticas<br />

dominantes, em<br />

torno das quais o mundo<br />

tem girado com um olhar<br />

imediatista e de forma nada<br />

pacífica.<br />

As resistências às mudanças, portanto,<br />

não devem surpreender. Ainda<br />

assim, o potencial de criação de empregos<br />

verdes no Brasil coloca-se na<br />

linha otimista do estudo da Organização<br />

Internacional do Trabalho, dependendo,<br />

apenas, da ação planejadora,<br />

orientadora e regulamentadora do<br />

governo, da adesão e do senso de<br />

oportunidade do empresariado urbano<br />

e rural, e da consciência ambiental<br />

da sociedade nacional.<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 15 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


Caminhada rumo à economia verde<br />

Na sala da Escola de Engenharia da<br />

Universidade Federal Fluminense,<br />

em Niterói, o ambiente é típico e<br />

lembra qualquer outra escola superior<br />

brasileira: os móveis já aparentam<br />

longevidade, embora não reclamem,<br />

e os armários são em menor<br />

número do que o necessário. Mas<br />

um pequeno detalhe atrai o olhar.<br />

É uma obra de arte, um quadro na<br />

parede, expressivo em seu marrom<br />

claro, composto pela imaginação e<br />

perícia de um artesão verde, com<br />

fios de mangue. “A arte também<br />

pode ser verde”, comenta o engenheiro<br />

e professor titular Antônio<br />

da Hora, especialista em recursos<br />

hídricos, meio ambiente e energia,<br />

e que, por essas qualidades, é também<br />

subsecretário de Ambiente do<br />

Estado do Rio de Janeiro.<br />

Antônio da Hora concorda com as<br />

esperanças da OIT quanto a uma<br />

profusão de ocupações novas a<br />

serem estimuladas pelas atividades<br />

ambientais. Vê o Brasil como um<br />

país especialmente vocacionado<br />

para essa tarefa. Mas tece uma<br />

série de considerações sobre o desenvolvimento<br />

da economia verde<br />

e seus empregos anti-CO 2 . Recomenda<br />

criatividade, compromisso<br />

da sociedade, inteligente aplicação<br />

de recursos e planejamento<br />

governamental capaz de induzir o<br />

empresariado a adotar uma produção<br />

limpa.<br />

A criação de empregos verdes no<br />

Brasil, segundo ele, exigirá uma<br />

postura ativa dos governos, com<br />

planejamentos de longo prazo,<br />

compromisso com a melhoria<br />

ambiental e regulações que deem<br />

tranquilidade ao setor empresarial<br />

para investir em tecnologias limpas<br />

e outros aperfeiçoamentos.<br />

“Precisamos também de uma engenharia<br />

nova, para tornar rotineiro o<br />

reaproveitamento de bens escassos<br />

como a água. Haveria consequências<br />

positivas, tanto ambientais<br />

quanto econômicas, produti-<br />

vas e sociais”, propõe o professor,<br />

que sonha um dia ver uma empresa<br />

reciclar toda a água que usa em<br />

seus processos de produção para<br />

de novo reusá-la, reduzindo drasticamente<br />

novos aportes hídricos.<br />

Essa purificação da água industrial<br />

é já por si um mercado de trabalho,<br />

porque exigirá invenção da tecnologia<br />

e sua aplicação constante.<br />

“Podemos generalizar esse raciocínio<br />

para diversos bens da natureza<br />

e para a área de maquinário, buscando<br />

sempre um melhor aproveitamento<br />

e produtividade. Um bom<br />

exemplo de bem natural que pode<br />

gerar novas tecnologias e empregos<br />

é o da cana-de-açúcar, em que<br />

o Brasil está na frente, mas pode se<br />

desenvolver muito ainda. Além da<br />

produção do setor, como açúcar e<br />

álcool, o processo produtivo rende,<br />

como sobras, muito bagaço e palha.<br />

São restos que podem ser aproveitados<br />

para gerar energia através<br />

da queima, como já se faz. Mas<br />

se desenvolvermos métodos de<br />

processamento que transformem<br />

esses restos em briquetes prensados,<br />

pequenos tijolos, poderíamos<br />

não apenas desenvolver uma especialidade,<br />

mas também aumentar o<br />

poder energético dessa biomassa.<br />

Isto porque o bagaço e a palha,<br />

queimados em<br />

seu estado natural,<br />

rendem um<br />

d e t e r m i n a d o<br />

poder calórico,<br />

o que os torna<br />

próprios para<br />

alguns usos.<br />

Já o briquete,<br />

resultante do processo de prensagem<br />

desses materiais, teria poder<br />

calórico quatro vezes maior e uma<br />

maior gama de aplicações como<br />

combustível verde capaz de substituir<br />

um combustível mais sujo”,<br />

ensina o professor.<br />

Os ecopolos<br />

O professor Antônio da Hora especula<br />

sobre as virtudes de outro<br />

tipo de sistema de produção verde,<br />

que, alerta, exigiria a indução do<br />

poder público junto às empresas<br />

e associações empresariais, em<br />

conjunto com as universidades.<br />

“Trata-se de polos de produção ou<br />

ecopolos, que preferimos chamar<br />

simplesmente de polos industriais,<br />

nos quais o descarte de uma empresa<br />

possa servir como insumo<br />

de outra fábrica, estabelecendo-se<br />

uma espécie de encadeamento de<br />

reaproveitamentos, gerando-se no<br />

processo uma série de ocupações<br />

e serviços complementares. Em<br />

suma, esses polos reuniriam empresas<br />

com complementariedade<br />

de uso de rejeitos”, explica.<br />

“Vamos exemplificar com a canade-açúcar,<br />

cuja usina descartou<br />

bagaço e palhas. Ao lado, haveria<br />

uma indústria especializada em<br />

transformar esse bagaço e a palha<br />

Em dezembro,<br />

o governo fez o<br />

primeiro leilão de<br />

energia eólica<br />

foto: Luiz Claudio Marigo<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 16 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


em briquetes ou pallets, para uso<br />

energético da própria usina ou de<br />

outras fábricas. Aliás, esse processo<br />

de briquetagem via prensagem<br />

pode ser utilizado para todo resíduo<br />

de origem agrícola e florestal, resultando<br />

em produtos de alto valor<br />

calórico. A palha da soja é outro<br />

bom exemplo. É um processamento<br />

industrial bem simples, mas que<br />

resulta em um produto de utilização<br />

energética importante. Poderíamos<br />

chamá-lo de carvão verde.”<br />

Para Antônio, esse encadeamento<br />

produtivo geraria novas riquezas:<br />

“Mas, para acontecer, seriam necessárias<br />

novas especialidades profissionais<br />

e serviços relacionados,<br />

levando à criação de tecnologias<br />

e empregos em diversos níveis.<br />

O mercado que pode resultar das<br />

preocupações ambientais e do<br />

combate aos gases de efeito estufa<br />

tem vasto potencial.”<br />

Solução para os pneus<br />

usados<br />

Nessa linha, o professor aponta a<br />

reciclagem de pneus, atividade que<br />

abre grandes perspectivas de ocupação.<br />

Os pneus são dos descartes<br />

mais poluidores de nossa civilização<br />

motorizada. Hoje já existe tecnologia<br />

para reciclar sua borracha e<br />

transformá-la em piso rodoviário,<br />

em mistura com asfalto, aumentando<br />

a durabilidade do revestimento<br />

das estradas.<br />

pneus velhos. O pneu usado e<br />

descartado, que continua a ser uma<br />

dor de cabeça ambiental, é um bom<br />

exemplo do potencial da reciclagem<br />

ambiental na geração de atividades<br />

e emprego. Hoje já existe até associação<br />

de recicladores dos pneus,<br />

os quais, além do asfalto-borracha,<br />

podem virar outros produtos, como<br />

mangueiras e tubos. Esse pessoal<br />

vive à caça de pneus velhos, o que<br />

é uma grande ação ambiental e se<br />

tornou um ativo setor econômico, de<br />

alto benefício ambiental e que gera<br />

riqueza, renda e empregos verdes”,<br />

exemplifica Antônio.<br />

O papel do governo<br />

O professor atribui um grande papel<br />

aos diversos níveis de governo na<br />

indução de atitudes que incentivem<br />

a criação de atividades e empregos<br />

com foco ambiental: “Ao criar leis<br />

e regulamentos ou ao estabelecer<br />

certos incentivos fiscais, o governo<br />

tem condições de estimular setores<br />

econômicos a adotar políticas que resultem<br />

em benefício ambiental e, para<br />

alcançar resultados, tais segmentos<br />

tenderão a criar postos de trabalho<br />

voltados para aqueles objetivos”.<br />

“Um estímulo desse tipo, já existente<br />

aqui no Rio de Janeiro, mas voltado<br />

Obra<br />

de saneamento:<br />

atividade fundamental para reverter<br />

degradação ambiental<br />

para as prefeituras, é o ICMS Verde,<br />

destinado a contemplar municípios<br />

com um acréscimo na distribuição<br />

do ICMS”. A contrapartida, explica,<br />

é que alcancem determinadas metas<br />

ambientais, como ampliação do sistema<br />

de esgotos, melhorias na coleta e<br />

destinação do lixo, ampliação e conservação<br />

de áreas verdes, entre outros<br />

aspectos. “Dessa forma, as prefeituras<br />

são induzidas a desenvolver atividades<br />

ambientais que requerem novos<br />

serviços e mão de obra.”<br />

“Algo semelhante pode se estender<br />

às empresas, com redução fiscal<br />

àquelas que avançarem em suas<br />

metas ambientais, como redução<br />

do consumo de água, por meio da<br />

reutilização ou controle da energia,<br />

entre outros. Para alcançar suas<br />

metas, essas empresas acabariam<br />

criando postos de trabalho e recorrendo<br />

a serviços especializados da<br />

linha verde”, completa.<br />

(Procópio Mineiro)<br />

Poluição industrial: solução<br />

exige novas tecnologias e mão<br />

de obra qualificada<br />

foto: Luiz Claudio Marigo<br />

foto: Andre Valentim/Tyba<br />

“Algumas ruas do Rio de Janeiro já<br />

estão revestidas por esse asfalto-borracha,<br />

com resultados tão bons, que o<br />

Arco Rodoviário, de 129 quilômetros<br />

de extensão, já tem previsão de usar<br />

o produto. Se as condições de preço<br />

permitirem, toda a rodovia terá o piso<br />

de asfalto-borracha, o que corresponderá<br />

à reciclagem de 70 milhões de<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 17 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


Setor público e empresariado<br />

criam oportunidades<br />

Comércio: ênfase<br />

na conscientização<br />

ambiental do quadro<br />

de funcionários<br />

Uma semana antes da abertura da<br />

Conferência sobre Mudanças Climáticas,<br />

em Copenhague, a Prefeitura da<br />

Cidade do Rio de Janeiro inovou ao<br />

se tornar a primeira administração<br />

municipal do Brasil a traçar metas<br />

ambientais para os próximos dez<br />

anos, especificando percentuais<br />

de redução de emissão de gás<br />

carbônico: menos 8% em 2012,<br />

menos 16% em 2016 e menos 20%<br />

em 2020, tendo como referência as<br />

emissões de 2005. É o Programa Rio<br />

Sustentável.<br />

Para alcançar tais objetivos – nada<br />

fáceis –, a prefeitura carioca estabeleceu<br />

um plano de ações em quatro<br />

áreas: a) mitigação das emissões<br />

dos grandes grupos emissores de<br />

CO2 – resíduos e transportes; b) recuperação<br />

e ampliação da cobertura<br />

vegetal; c) projetos e medidas de<br />

gestão sustentável; d) disseminação<br />

da cultura de sustentabilidade e de<br />

eficiência energética.<br />

Nessas ações, são visíveis possibilidades<br />

de geração de novos<br />

empregos, via incremento da reciclagem<br />

do lixo domiciliar e industrial,<br />

mudanças na estrutura<br />

dos transportes, ampliando-se o<br />

transporte por trilhos, e a expansão<br />

do uso de combustíveis verdes na<br />

frota de veículos rodoviários, além<br />

do reflorestamento. Até 2011, toda<br />

a cidade do Rio de Janeiro – e provavelmente<br />

também seu entorno,<br />

de cinco milhões de pessoas – terá<br />

a coleta seletiva de lixo, para facilitar<br />

a reciclagem.<br />

A criação de empregos verdes é uma<br />

meta explícita da prefeitura, já que o<br />

Rio Sustentável tem por orientação<br />

articular a defesa ambiental com a<br />

ampliação de empregos nessa atividade,<br />

embora não haja ainda uma<br />

projeção do número de postos de<br />

trabalho a serem criados.<br />

Na área industrial, iniciativas já estão<br />

em marcha, como as executadas pela<br />

Federação das Indústrias do Estado<br />

do Rio de Janeiro (Firjan): a Bolsa de<br />

Resíduos e a Troca <strong>Ambiental</strong>, além<br />

do Grupo Executivo da Agroindústria,<br />

este voltado também para a<br />

expansão de atividades florestais.<br />

A Troca <strong>Ambiental</strong> envolve o compartilhamento<br />

de experiências e<br />

tecnologias desenvolvidas por uma<br />

indústria para as outras, gerando<br />

adaptações de funções nas equipes<br />

respectivas e até contratações para<br />

gestão ambiental. Desse programa<br />

já participam a Companhia Municipal<br />

de Limpeza Urbana, Petrobrás, Indústrias<br />

Nucleares do Brasil, Companhia<br />

Siderúrgica Nacional, Michelin,<br />

Ambev, empresas automobilísticas,<br />

Fábrica Carioca de Catalisadores e<br />

dezenas de outras.<br />

A Bolsa de Resíduos, por sua vez,<br />

visa o reaproveitamento de rejeitos<br />

de uma indústria por outra e abre<br />

mercado para recicladoras. Os restos<br />

reaproveitáveis vão de papel e<br />

papelão, vidros, latas, madeiras e<br />

plásticos, até inúmeros tipos de óleos<br />

usados, borracha, lodo com metais<br />

pesados, produtos farmacêuticos<br />

e veterinários, solventes e metais<br />

ferrosos e não ferrosos, entre muitos<br />

outros. Há quem ofereça 13 toneladas<br />

semanais de óleo vegetal usado,<br />

quanto quem procure 100 toneladas<br />

semanais do mesmo produto. Na<br />

linha do proposto pelo professor<br />

Antônio da Hora, esse mecanismo<br />

de reutilização de rejeitos industriais<br />

possui um horizonte de expansão infinito,<br />

contribuindo tanto para reduzir<br />

o lixo industrial lançado na natureza<br />

quanto para criar possibilidades de<br />

empregos.<br />

Já o segmento comercial não se vê<br />

como um criador direto de empregos<br />

verdes, segundo o posicionamento<br />

expresso pela Federação do Comércio<br />

do Estado do Rio de Janeiro<br />

(Fecomércio/RJ), embora o setor<br />

seja grande produtor de descartes,<br />

sobretudo de embalagens e outros<br />

resíduos recicláveis.<br />

Segundo nota da Fecomércio, no<br />

setor a conscientização ambiental<br />

é crescente, mas “a adequação a<br />

exigências ambientais não passa<br />

necessariamente pela contratação<br />

de novos profissionais, mas pela<br />

sensibilização do quadro de funcionários<br />

existente quanto às dimensões<br />

social, ambiental e econômica<br />

da sustentabilidade. A produção e<br />

o comércio têm meios de fornecer<br />

produtos ecologicamente corretos,<br />

mas estes precisam ser viáveis economicamente,<br />

despertar a demanda<br />

do consumidor e envolver a cadeia<br />

de ponta a ponta”.<br />

(Procópio Mineiro)<br />

foto: Rogerio Reis/Tyba<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 18 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


Conferência Mundial do Clima: resultados e impasses<br />

A Conferência Mundial do Clima, COP-15, reuniu durante<br />

duas semanas, em Copenhague, líderes mundiais de<br />

193 países com o objetivo de elaborar um novo acordo<br />

global do clima com prazos e metas para a redução das<br />

emissões de gases estufa, e mecanismos de ajuda financeira<br />

e tecnológica aos países que mais vão sofrer os<br />

efeitos das mudanças climáticas.<br />

A maior conferência do clima da História atraiu, em dezembro,<br />

as atenções do mundo inteiro para a capital da<br />

Dinamarca, que abrigou milhares de jornalistas, representantes<br />

de delegações oficiais e também de organizações<br />

não governamentais. Apesar dessa mobilização sem<br />

precedentes para uma Conferência das Partes, o tão<br />

esperado acordo não se concretizou.<br />

A COP-15 serviu para avaliar a disposição das principais<br />

economias do mundo em assumir compromissos rígidos<br />

de redução das emissões de gases estufa em atendimento<br />

aos alertas do IPCC<br />

(Painel Intergovernamental<br />

de Mudanças<br />

Climáticas da ONU).<br />

Os Estados Unidos<br />

e a China, principais<br />

poluidores do mundo,<br />

não modificaram suas<br />

propostas originais<br />

de redução das emissões,<br />

e deflagraram<br />

uma disputa particular<br />

durante toda a conferência<br />

em relação<br />

às regras de aferição<br />

internacional dos resultados<br />

dos planos<br />

de ação voluntários<br />

apresentados pelos<br />

países emergentes. Apenas no último dia da COP-15, os<br />

chineses aceitaram submeter seus resultados à checagem<br />

internacional, como exigiam os americanos.<br />

Os países pobres – especialmente os africanos e também<br />

as nações-ilha do Pacífico – paralisaram a conferência<br />

com reclamações ostensivas contra a morosidade dos<br />

países ricos em assumir prazos e metas de redução mais<br />

ousados. O Brasil, que se aliou em diversos momentos<br />

com o G-77 ( grupo de países que se articula como<br />

bloco no combate aos interesses dos países ricos) surpreendeu<br />

na reta final com um veemente discurso feito<br />

de improviso pelo presidente Lula que dirigiu um apelo<br />

em favor do consenso no último dia da Conferência,<br />

denunciando as “barganhas” e os interesses de curto<br />

prazo das nações mais poderosas. Naquele momento,<br />

explicitou-se o impasse.<br />

Pelos corredores do Bela Center, cenário da conferência,<br />

denunciava-se a intransigência de alguns países e a falta de<br />

empenho de outros. Diante do sentimento de frustração<br />

e até do possível fracasso da conferência, o presidente<br />

francês Nicolas Sarkozy convidou, no penúltimo dia do<br />

evento, o presidente Lula para organizar uma reunião<br />

de emergência com alguns chefes de Estado. A França<br />

decidiu manter o Protocolo de Quioto e a secretária<br />

de Estado americana, Hillary Clinton, aceitou a criação<br />

de um fundo internacional de 100 bilhões de dólares<br />

para ajudar os países pobres a combater os efeitos do<br />

aquecimento global – sugestão defendida pelo governo<br />

brasileiro e os países que formam o grupo G77.<br />

Após a reunião de emergência, o encontro final foi<br />

feito a portas fechadas no último dia da conferência,<br />

contando com chefes de Estado de 25 países, incluindo<br />

o Brasil. Mas, uma das principais bandeiras dos países<br />

em desenvolvimento, a manutenção do Protocolo de<br />

Quioto, não foi assinada pelos EUA. Foi elaborado o<br />

“Acordo de Copenhague”,<br />

liderado<br />

pelos EUA e China,<br />

um documento político<br />

sem força de<br />

lei que não definiu<br />

condições concretas<br />

para alcançar<br />

os objetivos principais<br />

da COP-15,<br />

mas apenas intenções,<br />

como: não<br />

aumentar a temperatura<br />

global em<br />

mais de 2°C até o<br />

final do século, reduzir<br />

as emissões<br />

de CO2, entre 25%<br />

a 40%, até 2020,<br />

por parte dos países ricos, e a criação de um fundo<br />

internacional com 100 bilhões de dólares por ano, até<br />

2020, para mitigar os efeitos das mudanças climáticas<br />

em países em desenvolvimento.<br />

Entretanto, a conclusão da COP-15 previa a apreciação<br />

do acordo final na última plenária da conferência. Os<br />

delegados dos países em desenvolvimento do G77,<br />

principalmente Sudão, Bolívia, Cuba, Venezuela e Nicarágua,<br />

criticaram duramente o documento, já que não<br />

havia compromissos jurídicos para garantir o que foi<br />

definido no acordo, mas apenas intenções políticas.<br />

Assim, as Nações Unidas assumiram o “acordo” como<br />

uma carta de intenções, incluindo a reprovação dos<br />

países discordantes. O que ficou como resultado da<br />

COP-15, além de algumas intenções gerais de cunho<br />

político, foi a continuidade dos debates para a COP-16,<br />

que será realizada no México, em 2010.<br />

foto: A. Mendes<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 19 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


Artesãs de diferentes regiões se unem para superar uma realidade de pobreza por meio do<br />

artesanato, transformando em peças de arte os frutos que a natureza generosamente lhes oferece.<br />

Por Elias Fajardo<br />

Fotos de Lena Trindade<br />

“O artesanato conserva a cicatriz<br />

quase apagada que comemora a<br />

fraternidade original dos homens, já<br />

que pertence a um mundo anterior<br />

à separação entre o útil e o belo”.<br />

Com seu texto poético, o mexicano<br />

Octavio Paz, ganhador do Prêmio<br />

Nobel de Literatura de 1990, nos<br />

informa também que “o artesanato<br />

não é único como a obra de arte e<br />

pode ser substituído por outro objeto<br />

parecido, mas nunca idêntico. Ele<br />

nos ensina a morrer – e, em consequência,<br />

nos ensina a viver”.<br />

Mas as atividades artesanais não<br />

possuem apenas aspectos simbólicos.<br />

Elas também são meio de vida<br />

para milhares de pessoas. Segundo<br />

o Programa do Artesanato Brasileiro,<br />

do Ministério do Desenvolvimento,<br />

Indústria e Comércio, a modalidade<br />

representa 3% do Produto Nacional<br />

Bruto e mobiliza mais de 8,5 milhões<br />

de pessoas, das quais 85% são<br />

mulheres.<br />

Como sempre cuidaram da casa<br />

e da alimentação, as mulheres se<br />

desenvolveram nas artes ligadas<br />

ao fazer manual e, historicamente,<br />

têm feito de suas habilidades uma<br />

fonte de renda. Mas, para sobreviver<br />

no competitivo mundo industrial, o<br />

artesanato busca renovar-se sem<br />

perder a tradição. Um dos pioneiros<br />

nessa área é o designer Renato<br />

Imbroisi, cujas oficinas para grupos<br />

de artesãs as ajudam a criar peças<br />

com aquilo que a natureza local<br />

lhes oferece, além de reaproveitar<br />

materiais industriais.<br />

Os exemplos são inúmeros e atestam<br />

a habilidade e o talento de<br />

nossas artesãs. O Programa Talentos<br />

do Brasil, do Ministério do<br />

Desenvolvimento Agrário, reúne<br />

peças elaboradas por cerca de 2.000<br />

pessoas, organizadas em 15 grupos<br />

de artesãs de 12 estados brasileiros.<br />

Elas participam de oficinas anuais<br />

realizadas, entre outros, pelo estilista<br />

Jum Nakao, pela designer Eloísa<br />

Crocco e a criadora de joias Virginia<br />

Scotti. Daí surgem coleções de roupas,<br />

acessórios, tapetes e objetos<br />

de fibras naturais, comercializados<br />

em uma feira anual de agricultura<br />

familiar.<br />

O artesanato brasileiro é feito principalmente<br />

com barro, madeira e<br />

trançados de fibras vegetais. Entre<br />

os materiais destacam-se ainda o<br />

tecido, a renda, o couro, a pedra,<br />

conchas e sementes.<br />

As fibras são um capítulo à parte.<br />

Duras ou maleáveis; fáceis de<br />

conseguir, muitas vezes crescendo<br />

na porta das casas das artesãs; ou<br />

exigindo longas caminhadas na<br />

floresta ou na caatinga para serem<br />

coletadas, elas têm a alma da nossa<br />

natureza que se transforma nas<br />

mãos hábeis das artesãs.<br />

Caroá<br />

O caroá (Neoglaziovia variegata) é<br />

uma bromélia espinhosa que cresce<br />

no Nordeste. Dá poucas folhas,<br />

dispostas em roseta, das quais se<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 20 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


etiram longas fibras, muito resistentes<br />

e duráveis. A colheita é extremamente<br />

difícil por causa dos espinhos.<br />

As 120 artesãs dos municípios<br />

de Valente, Araci e São Domingo, no<br />

interior da Bahia, reunidas na Cooperafis<br />

(Cooperativa Regional de Fibras<br />

do Sertão), cortam as folhas, fiam e<br />

tingem as fibras, produzindo bolsas,<br />

colares, chapéus e jogos de mesa.<br />

O tingimento com raiz-de-são-joão<br />

e casca de umbuzeiro, de cajueiro<br />

e de pau-de-colher resulta em tons<br />

suaves e originais.<br />

Os índios da Bahia já praticavam<br />

o trançado com<br />

essa bromélia e Euclides<br />

da Cunha, em<br />

seu livro Diários<br />

de viagem, relata<br />

que, nas casas<br />

do sertão, havia<br />

sempre uma<br />

rede de caroá.<br />

Essas fibras são<br />

u s a d a s a i n d a<br />

para fazer barbante,<br />

linhas de pesca e<br />

tecidos.<br />

Segundo Elione Alves de<br />

Souza, presidente da Cooperafis,<br />

a maior dificuldade é que não<br />

existe uma tecnologia voltada para<br />

plantar e a extrair a fibra. Ela afirma:<br />

“O caroá é nativo da caatinga e hoje<br />

o desmatamento está diminuindo a<br />

sua presença. Em 2007, iniciamos<br />

uma pesquisa com a Universidade<br />

Federal do Recôncavo Baiano e fizemos<br />

um campo experimental onde<br />

a planta tem se desenvolvido bem.<br />

A natureza nos dá tudo para viver. O<br />

meio ambiente é o nosso principal<br />

fator de produção. Assim, ou a gente<br />

preserva a caatinga ou não teremos<br />

renda nem melhoria de vida.”<br />

Taboa<br />

A taboa (Typha domingensis) é uma<br />

planta rústica e bela, altamente<br />

adaptável, que cresce em brejos,<br />

manguezais, várzeas e áreas alagadas<br />

de várias partes do mundo. Pode<br />

medir até dois metros de altura e, na<br />

época da reprodução, dá espigas<br />

cor de café, contendo milhões de<br />

sementes que se espalham ao vento.<br />

Tem também uma função ecológica<br />

pouco lembrada, mas muito<br />

importante para os ecossistemas<br />

aquáticos: suas raízes filtram e depuram<br />

águas poluídas, absorvendo<br />

até metais pesados. E ainda servem<br />

de abrigo e de local de reprodução<br />

para jacarés, tartarugas, gansos,<br />

patos e marrecos selvagens. No<br />

entanto, costuma ser considerada<br />

uma praga, já que se desenvolve<br />

muito, tanto em água doce como<br />

em salobra, tomando a superfície<br />

dos espelhos d’água.<br />

Para as artesãs, a planta<br />

é uma bênção. Suas<br />

folhas e caules possuem<br />

celulose em<br />

estado quase puro<br />

e por isso têm sido<br />

usadas para fazer<br />

papel, esteiras e<br />

todo tipo de trançado. Vivendo em<br />

água pura, ela chega a dar quatro<br />

cortes por ano.<br />

No Norte Fluminense, os grupos Taboa<br />

de São Francisco, no município<br />

de São Francisco de Itabapoana,<br />

com 20 artesãs, e Tranças e Tramas,<br />

de Barra do Furado, município de<br />

Quissamã, com 13 artesãs, têm no<br />

artesanato com essa fibra uma importante<br />

fonte de renda.<br />

A coordenadora dos dois grupos é<br />

Shirley Jardim, uma enfermeira<br />

que deixou a profissão<br />

para se dedicar a essa<br />

atividade. Ela explica<br />

que a taboa é retirada<br />

apenas uma<br />

vez por mês, na<br />

lua minguante,<br />

para evitar que<br />

o caruncho se<br />

desenvolva na<br />

fibra. Deve-se<br />

também tomar<br />

cuidados com a<br />

umidade dos meses<br />

mais chuvosos,<br />

pois ela só se presta<br />

a ser trançada se estiver<br />

inteiramente seca.<br />

“Matéria-prima tem à vontade”, diz<br />

Shirley. “Eu mesma moro em frente<br />

a um taboal em Gargaú, distrito de<br />

São Francisco de Itabapoana. Apesar<br />

da abundância, fazemos manejo<br />

sustentável e estamos sempre alertas.<br />

Fico feliz com essa atividade,<br />

pois estou ensinando e ajudando<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 21 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


mulheres de pescadores, carentes<br />

de recursos e ricas de talento.”<br />

Os grupos trabalham também com<br />

junco, uma fibra aquática mais fina<br />

e delicada do que a taboa, e empregam<br />

escamas da tainha e couro<br />

do peixe chamado peruá para fazer<br />

flores e enfeites.<br />

Capim dourado e buriti<br />

Apesar do nome, ele não é um<br />

capim. De modo geral, os capins<br />

pertencem ao grupo das gramíneas<br />

e, segundo os biólogos, o capim<br />

dourado (Singonanthus nitens) é,<br />

na verdade, uma sempre-viva. Ele<br />

ocorre no cerrado e sua maior incidência<br />

se dá no Estado do Tocantins,<br />

principalmente no belo deserto de<br />

Jalapão, onde se desenvolveu o<br />

artesanato em tons dourados.<br />

Os moradores aprenderam a lidar<br />

com a planta com os índios xerente,<br />

que passaram pela região há mais<br />

de um século. O núcleo inicial do<br />

trabalho artesanal foi o povoado<br />

de Mumbuca, no município de Mateiros,<br />

formado por descendentes<br />

de negros que deixaram a Bahia no<br />

início do século 19, depois da libertação<br />

dos escravos. Daí o artesanato<br />

se espalhou e hoje é exportado<br />

para vários países.<br />

A exploração tem sido tão<br />

intensa que está ameaçando<br />

a própria sobrevivência do capim<br />

dourado. Além de arrancar<br />

a planta pela raiz, alguns moradores<br />

usam fogo para fazer a<br />

coleta, argumentando que ajuda<br />

o capim a crescer mais forte<br />

depois. Mas não há evidências<br />

científicas de que isso seja verdadeiro.<br />

Para respeitar o seu ciclo<br />

de vida, ele deve ser coletado<br />

quando as hastes já estão secas e<br />

com a coloração típica. Só então<br />

as sementes estão maduras e prontas<br />

para germinar. Assim, a coleta<br />

torna-se quase um plantio natural.<br />

A retirada do capim dourado ainda<br />

verde causa a sua morte.<br />

A importância do capim dourado<br />

para a região pode ser comprovada<br />

pela decisão do Instituto Natureza<br />

do Tocantins (Naturatins) ao baixar a<br />

Portaria 362, de 25 de maio de 2007,<br />

para regulamentar o seu manejo.<br />

A coleta deve ser feita entre 20 de<br />

setembro e 30 de novembro, e só<br />

por associados credenciados de<br />

entidades comunitárias de artesãos<br />

do Jalapão.<br />

As peças de capim dourado são<br />

costuradas com a fibra de buriti<br />

(Mauritia flexuosa). Essa palmeira<br />

mítica, presente na obra do escritor<br />

Guimarães Rosa, tem muitas utilidades<br />

para quem vive no sertão. Dos<br />

frutos se fazem doces e licores, e<br />

folhas adultas e caules são empregados<br />

na cobertura e na construção<br />

de casas. Folhas jovens e adultas se<br />

prestam também à confecção de<br />

vários tipos de artesanato.<br />

As comunidades do Jalapão utilizam<br />

a seda do buriti, obtida das folhas<br />

jovens ainda não abertas. Depois de<br />

coletada, a epiderme da folha é posta<br />

ao sol para secar. A intensidade<br />

da retirada dessas folhas ainda não<br />

é suficiente para ameaçar a palmeira<br />

de extinção.<br />

Em Mumbuca, uma forte liderança<br />

feminina se faz presente na Associação<br />

do Capim Dourado. A pioneira<br />

é Guilhermina Ribeiro da Silva, a<br />

dona Miúda, com mais de 80 anos.<br />

Ela era menina, mas ainda se lembra<br />

quando sua mãe a levou ao campo,<br />

apontou o capim e disse: “Isso é o<br />

ouro do cerrado.”<br />

Hoje, mais de 600 artesãs do Tocantins<br />

praticam essa atividade. Algumas<br />

se orgulham de ter comprado<br />

casa, carro e moto com o artesanato.<br />

Se, por um lado, o impacto ambiental<br />

é evidente, por outro, caminha-se<br />

para uma prática de sustentabilidade<br />

que pode ser uma solução a longo<br />

prazo. Dona Miúda acredita na continuidade<br />

dessa atividade: “Eu sinto<br />

entusiasmo de alegria, de prazer<br />

com esse resultado. Hoje, acabou<br />

o sofrimento de pobre. O garimpo<br />

mais grande que houve no Brasil foi<br />

o capim dourado. E foi o que mais<br />

deu futuro.”<br />

Tucumã e cipós<br />

amazônicos<br />

A Floresta Amazônica (com seu<br />

celeiro natural de cocos, sementes<br />

e fibras) é a inspiração para 40 artesãs<br />

da Cooperativa das Mulheres<br />

Costureiras e Artesãs de Manicoré,<br />

a 390 km de Manaus. Trançados<br />

feitos com a palmeira tucumã e os<br />

cipós ambé e titica, que pendem das<br />

árvores, são usados na produção de<br />

cestas, bijuterias e cortinas.<br />

O tucumã (Astrocaryum aculeatum)<br />

chega a medir 20 metros, tem espinhos<br />

negros no caule e dá frutos<br />

amarelos com tons avermelhados.<br />

Abundante na Amazônia brasileira,<br />

essa palmeira nasce solitariamente<br />

em solos pobres e degradados.<br />

Dela se extraem palmito, frutos<br />

comestíveis e madeira, e o óleo das<br />

sementes é usado na culinária. Das<br />

folhas se coleta a fibra tucum, empregada<br />

para fazer redes e cordas<br />

que resistem à água salgada. Já os<br />

cipós titica (Heteropsis flexuosa) e<br />

ambé (Philodendron sp.), tradicionalmente<br />

usados para a confecção<br />

de vassouras, adaptaram-se muito<br />

bem ao artesanato elaborado pelas<br />

mulheres.<br />

As peças com esses materiais,<br />

distribuídas principalmente em São<br />

Paulo, Rio de Janeiro e Brasília,<br />

aumentam a renda das famílias locais.<br />

A presidente da cooperativa,<br />

Ocilonete França Bezerra, afirma:<br />

“Queremos expandir e produzir<br />

mais; assim poderemos garantir,<br />

ao menos, um salário mínimo para<br />

cada artesã”.<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 22 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


Sustentabilidade:<br />

a economia mais<br />

humana. Elizabeth<br />

Oliveira. Editora Salesiana,<br />

2009.<br />

Como equilibrar o<br />

desenvolvimento<br />

econômico com a redução<br />

dos problemas<br />

que afetam a humanidade,<br />

como violência,<br />

distribuição de renda<br />

e destruição do meio<br />

ambiente? Para apresentar<br />

esses temas<br />

ao público do ensino<br />

fundamental, a autora<br />

dividiu a obra em dez<br />

capítulos temáticos,<br />

ricamente ilustrado<br />

com desenhos de<br />

Marlon Tenório: O tripé<br />

da sustentabilidade,<br />

Crise econômica,<br />

Economia globalizada,<br />

Economias emergentes,<br />

A natureza<br />

no limite, Mudanças<br />

climáticas, Consumo<br />

consciente, Economia<br />

solidária, Alimentos<br />

x biocombustíveis e<br />

Economia verde. A<br />

autora é jornalista,<br />

membro da Rede<br />

Brasileira de Jornalistas<br />

Ambientais e<br />

integrante do Grupo<br />

de Pesquisa Biodiversidade<br />

em Áreas<br />

Protegidas e Inclusão<br />

Social da UFRJ.<br />

Editora Salesiana.<br />

Tel: (11) 3274-4900 ou<br />

www.editorasalesiana.com.br<br />

Espiritismo e ecologia.<br />

André Trigueiro. Editora:<br />

FEB (Federação Espírita<br />

Brasileira), 2009.<br />

O jornalista André Trigueiro<br />

apresenta a relação<br />

entre os princípios da<br />

doutrina espírita de Alan<br />

Kardec e os fundamentos<br />

da ecologia, assinalando<br />

que ambos procuram<br />

entender o processo evolutivo<br />

do ser humano, de<br />

forma sistêmica, em sua<br />

relação com outro e com<br />

o meio ambiente. Para o<br />

autor, o espiritismo pode<br />

colaborar para a formação<br />

de uma consciência<br />

voltada à conservação<br />

do planeta para as novas<br />

gerações, bem como na<br />

consolidação de uma<br />

atitude mais solidária<br />

em relação à produção e<br />

distribuição da riqueza.<br />

Do mesmo modo que a<br />

ecologia aponta os limites<br />

ao uso irracional e exacerbado<br />

dos recursos naturais,<br />

a doutrina espírita<br />

afirma que o ser humano<br />

não pode culpar a natureza<br />

por sua imprevidência<br />

e imperícia no uso desses<br />

recursos.<br />

Federação Espírita Brasileira.<br />

Tels.: (61) 2101-6161<br />

e (21) 2187-8297 ou<br />

www.feblivraria.com.br<br />

Mudança climática:<br />

as alterações do<br />

clima e as consequências<br />

diretas em<br />

questões morais,<br />

sociais e políticas.<br />

Stephan Faris. Editora<br />

Campus, 2009.<br />

O jornalista Stephan<br />

Faris viajou por vários<br />

países coletando<br />

observações de diferentes<br />

regiões, como<br />

Darfur, Amazônia,<br />

Bangladesh, Caxemira,<br />

Europa, América do<br />

Norte e Ártico, e percebeu<br />

uma característica<br />

comum: as mudanças<br />

climáticas já estão influenciando<br />

fortemente<br />

essas e outras regiões,<br />

como um dos motores<br />

de transformação na<br />

estrutura da sociedade<br />

global. O livro, que<br />

conta com um capítulo<br />

sobre a Amazônia – Em<br />

uma nova fronteira:<br />

Brasil, desequilíbrios<br />

nos ecossistemas e<br />

doenças –, traz fatos<br />

que relacionam as mudanças<br />

climáticas com<br />

as alterações culturais,<br />

políticas e econômicas,<br />

tais como os conflitos<br />

decorrentes da escassez<br />

dos recursos naturais,<br />

as migrações na<br />

Europa, África e Ásia,<br />

e o impacto do derretimento<br />

das geleiras,<br />

entre outros.<br />

Editora Campus. Tel.:<br />

0800 026-5340 ou<br />

www.elsevier.com.br<br />

Ecossistemas florestais:<br />

interação homemambiente.<br />

Elinor Ostrom<br />

e Emilio F. Moran (orgs.)<br />

Editora <strong>Senac</strong>, 2009.<br />

Elinor Ostrom, ganhadora<br />

do Prêmio Nobel<br />

de Economia 2009, e<br />

Emilio Moran, codiretor<br />

do Centro de Estudos de<br />

Instituições, População e<br />

Mudança <strong>Ambiental</strong> da<br />

Universidade de Indiana<br />

(EUA), organizaram este<br />

livro como um projeto<br />

multidisciplinar, desenvolvido<br />

em mais de 12 países<br />

e em cerca de 80 locais<br />

diferentes. O objetivo dos<br />

autores é contextualizar<br />

os processos de mudanças<br />

ambientais para entender<br />

a complexa relação<br />

entre as ações humanas e<br />

o ambiente, e para discernir<br />

os efeitos positivos e<br />

negativos dessas ações. A<br />

publicação reúne resultados<br />

de cinco anos de pesquisa<br />

com participação de<br />

dezenas de pesquisadores<br />

de diferentes disciplinas e<br />

nacionalidades. Realizado<br />

pelo Centro para o Estudo<br />

de Instituições, População<br />

e Mudanças Ambientais<br />

(Cipec), da Universidade<br />

de Indiana, o projeto foi<br />

precursor de uma abordagem<br />

interdisciplinar e<br />

multitemporal para o estudo<br />

da interação homemambiente.<br />

Editora <strong>Senac</strong> São Paulo.<br />

Tel.: (11) 2187-4450 ou<br />

www.editorasenacsp.<br />

com.br<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 23 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


Biocontagem regressiva<br />

foto: Luiz Claudio Marigo<br />

No Ano Internacional da Biodiversidade, a ser comemorado com diversos eventos ao longo de<br />

2010, especialistas do mundo inteiro alertam para a crescente destruição da fauna e flora do<br />

planeta e apontam experiências bem-sucedidas de preservação de espécies em diferentes países.<br />

Desde 2000, seis milhões de hectares<br />

de florestas primitivas são<br />

perdidos a cada ano. No Atlântico<br />

Norte, nos últimos 50 anos, as espécies<br />

de peixes declinaram em cerca<br />

de 66%. No Caribe, os recifes de<br />

corais diminuíram em 40%, nas três<br />

décadas passadas. Na Europa, mais<br />

da metade das espécies de plantas<br />

estão ameaçadas.<br />

Os dados são do Countdown 2010,<br />

promovido pela União Internacional<br />

pela Conservação da Natureza<br />

(IUCN), que reúne mais de 900<br />

parceiros ao redor do globo, entre<br />

órgãos públicos, ONGs e empresas,<br />

comprometidos com a recuperação<br />

da biodiversidade na Terra.<br />

Com site e atividades como encontros<br />

temáticos, o Countdown<br />

(“contagem regressiva”, em inglês)<br />

é uma das principais iniciativas<br />

internacionais visando a comemoração<br />

do Ano Internacional da Biodiversidade,<br />

em 2010. A contagem<br />

foi iniciada em maio de 2009 e,<br />

em 2010, será publicado o terceiro<br />

Global Biodiversity Outlook (GBO-<br />

3), pela Convenção da Diversidade<br />

Biológica (CDB), com os resultados<br />

gerais e realce para as iniciativas<br />

mais significativas entre as nações.<br />

Por Rosane Carneiro<br />

À medida que se aproxima a data,<br />

números sobre o status atual da<br />

biodiversidade no planeta pululam,<br />

em muitos países. A Organização<br />

das Nações Unidas (ONU) lançou,<br />

em maio deste ano, o Twentyten.<br />

net, portal com indicadores e tendências<br />

atualizados sobre o estado<br />

internacional da biodiversidade. No<br />

mesmo mês, o Centro Mundial de<br />

Monitoramento de Conservação<br />

das Nações Unidas (Unep) e a IUCN<br />

lançaram também portal exclusivamente<br />

voltado ao ecossistema<br />

marinho mundial.<br />

O Ano Internacional da Biodiversidade<br />

foi estabelecido em 2006 pela<br />

Assembleia Geral da ONU. Nele,<br />

será visto o grau de comprometimento<br />

dos países signatários da<br />

Convenção da Diversidade Biológica,<br />

documento oficial mundial com<br />

metas a serem cumpridas até 2010<br />

para a preservação da biodiversidade.<br />

Um dos principais indicadores<br />

da Convenção a ser seguido pelos<br />

participantes é o de colocar sob<br />

proteção 10% dos ecossistemas<br />

terrestres até 2010 e 10% dos ecossistemas<br />

marinhos, até 2012 – cada<br />

país em seu respectivo território,<br />

para que, ao final, em âmbito geral,<br />

a proteção global chegue também a<br />

10%, em todos os continentes.<br />

A importância da CDB<br />

A Convenção da Diversidade Biológica<br />

(CDB) é o principal fórum<br />

mundial na definição do marco legal<br />

e político para temas e questões<br />

relacionados à biodiversidade (168<br />

países a assinaram e 192 países já a<br />

ratificaram, tendo estes últimos se<br />

tornado Parte da Convenção). A cada<br />

dois anos são realizados encontros<br />

mundiais, chamados Conferências<br />

das Partes (COP), com a participação<br />

dos países membros. A última<br />

ocorreu em Bonn, na Alemanha, em<br />

maio de 2008, e a próxima, a décima,<br />

está marcada para outubro de 2010,<br />

em Nagoia, no Japão.<br />

Uma das principais determinações<br />

da Convenção de Diversidade Biológica<br />

é a divulgação de dados em<br />

escala mundial. Por isso, o site da<br />

CDB já reúne quase 800 relatos de<br />

ações em prol da biodiversidade,<br />

experiências isoladas que, aos<br />

poucos, indicam uma grande rede<br />

Ano 18 • n.1 • janeiro/junho de 2009


de iniciativas. Alguns exemplos: o<br />

monitoramento de recursos aquáticos<br />

em Perak, na Malásia; o plano de<br />

manejo para a Reserva da Biosfera<br />

de Bañados Del Este, no Uruguai; a<br />

recuperação dos rios da Cornuália,<br />

na Grã-Bretanha; a manutenção da<br />

biodiversidade dos polinizadores<br />

na agricultura canadense; a política<br />

nacional para florestas em Uganda.<br />

Iniciativas no Brasil também estão<br />

disponibilizadas, como o crescimento<br />

da técnica no till (semeadura<br />

direta) na agricultura, a<br />

bem-sucedida experiência<br />

em redes de produção<br />

agrícola alternativa,<br />

pagamentos de serviços<br />

ambientais e<br />

taxas de incentivo<br />

para áreas preservadas.<br />

A cada quatro anos, a<br />

CDB cria novas metas<br />

e estratégias de ação<br />

pela defesa da biodiversidade<br />

no planeta. Segundo<br />

Oliver Hillel, coordenador de<br />

projetos da Secretaria da Convenção,<br />

no Canadá, a mais importante,<br />

estabelecida em 2006, foi o envolvimento<br />

de esferas de governos<br />

estaduais e municipais nas ações<br />

da Convenção, o que fez multiplicar<br />

os esforços pelo planeta.<br />

Em 2010, explica, novas metas devem<br />

ser estabelecidas: “Com base<br />

nas avaliações feitas pelos países<br />

membros, cientistas e ONGs, devemos<br />

definir, em outubro de 2010, parte<br />

de uma nova estratégia da CBD”. A<br />

razão seria a dificuldade dos países<br />

em cumprir as demais metas, além<br />

da proteção à biodiversidade – como<br />

o acesso e a repartição de benefícios<br />

no uso econômico de recursos<br />

genéticos, a adoção de biocombustíveis<br />

e a proteção aos conhecimentos<br />

de comunidades tradicionais.<br />

Mas o fato de não alcançar plenamente<br />

as metas da CDB, em si, não é<br />

negativo, na avaliação de Hillel, pois<br />

confirma a necessidade de esforços<br />

conjuntos. “Muito pelo contrário,<br />

apenas reafirma a urgência de uma<br />

ação coordenada em nível global<br />

para salvar o que é, no fim das contas,<br />

a base para a vida na Terra – a<br />

variedade de espécies de plantas,<br />

animais e outros seres vivos que servem<br />

como alimento, medicamento,<br />

insumo primário de produção e base<br />

para os serviços prestados pelos<br />

ecossistemas, como água potável,<br />

regulação climática, fertilidade do<br />

solo e muitos outros”, explana.<br />

O próximo relatório Global Biodiversity<br />

Outlook, de acordo<br />

com o coordenador, deve<br />

chamar a atenção da<br />

população mundial<br />

para a importância<br />

da biodiversidade<br />

em todos os aspectos<br />

da vida. O<br />

tom de alerta, segundo<br />

Hillel, será<br />

para mobilizar ainda<br />

mais os países<br />

de todo o mundo: “Ao<br />

mesmo tempo, queremos<br />

ressaltar a importância<br />

da biodiversidade no<br />

cotidiano das pessoas, em níveis<br />

variados, na economia, na saúde, na<br />

educação. Essa será a marca do Ano<br />

Internacional da Biodiversidade”.<br />

Brasil: papel de<br />

destaque<br />

O Brasil foi o primeiro signatário da<br />

Convenção da Diversidade Biológica<br />

e tem papel preponderante em todas<br />

foto: Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 25 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


Riquezas várias<br />

A biodiversidade é base para o<br />

desenvolvimento cultural, social<br />

e econômico das sociedades.<br />

Traduzidos para valores monetários,<br />

os recursos advindos da<br />

biodiversidade mundial perfazem<br />

cerca de 40% do Produto<br />

Interno Bruto do planeta. Na<br />

atualidade, estima-se que a diversidade<br />

máxima das espécies<br />

em todo o planeta varie entre<br />

50 e 100 milhões. No entanto,<br />

catalogadas existem apenas<br />

aproximadamente 1,7 milhão, o<br />

que atesta a grande necessidade<br />

de pesquisa sobre a riqueza da<br />

biodiversidade mundial.<br />

Mesmo com tamanha abundância,<br />

o estilo de vida do ser<br />

humano ameaça velozmente a<br />

biodiversidade no globo. Pesquisa<br />

científica da Universidade<br />

de Harvard, nos Estados Unidos,<br />

apontou que, no atual ritmo de<br />

vida, nas próximas três décadas<br />

o ser humano pode levar à extinção<br />

20% do total de espécies já<br />

conhecidas – o que corresponderia<br />

a uma perda semelhante à<br />

ocorrida no período de extinção<br />

dos dinossauros, há mais de<br />

60 milhões de anos. A mais recente<br />

lista de espécies animais<br />

ameaçadas de extinção da IUCN<br />

aponta para 16.928 espécies em<br />

sério risco: 21% entre os mamíferos,<br />

12% de pássaros, 31% de<br />

répteis, 30% de anfíbios e 37%<br />

de peixes.<br />

Por outro lado, estudos realizados<br />

nos Estados Unidos apontam<br />

aumento no total de áreas<br />

protegidas mundialmente. De<br />

acordo com pesquisa da Universidade<br />

de Maryland, na atualidade<br />

há 12,8% de terras protegidas<br />

no planeta (há cerca de 30 anos,<br />

o total era de apenas<br />

3,5%).<br />

foto: Luiz Claudio Marigo<br />

as negociações da CDB no mundo.<br />

As atenções voltam-se para o país,<br />

que é detentor de nada menos do<br />

que cerca de 15% de todas as espécies<br />

do planeta – a Mata Atlântica, o<br />

Cerrado, a Amazônia e o Pantanal,<br />

considerados biomas dos mais<br />

ricos da Terra e estão localizados<br />

aqui. Apenas a Floresta Amazônica<br />

brasileira já corresponde a mais de<br />

25% das florestas tropicais que ainda<br />

sobrevivem no mundo. E grande<br />

parte das espécies é endêmica, só<br />

ocorrendo em território brasileiro.<br />

Do ponto de vista econômico, a<br />

biodiversidade brasileira é fonte<br />

importante para o Produto Interno<br />

Bruto nacional: segundo o Ministério<br />

do Meio Ambiente (MMA), a<br />

agroindústria, o setor florestal e<br />

o setor pesqueiro respondem por<br />

cerca de 40%, 4% e 1% do PIB, respectivamente.<br />

A riqueza estende-se também à<br />

questão social. Vivem no Brasil centenas<br />

de comunidades de populações<br />

tradicionais – como indígenas,<br />

extrativistas, ribeirinhos, caiçaras,<br />

quilombolas –, mantenedores de<br />

importantes conhecimentos sobre<br />

a biodiversidade. Hoje, são registrados<br />

no Brasil mais de 200 povos<br />

indígenas.<br />

Essas são as razões de o Brasil ter<br />

sido eleito presidente do Grupo<br />

dos Países Megadiversos. O país é<br />

responsável por estabelecer encontros<br />

com os demais detentores de<br />

grande biodiversidade, para troca<br />

de experiências e apoio mútuo no<br />

cumprimento das metas da CDB.<br />

Integram também o Grupo dos<br />

Megadiversos: Colômbia, México,<br />

Venezuela, Equador, Peru, Estados<br />

Unidos, África do Sul, Madagascar,<br />

República Democrática do Congo,<br />

Indonésia, China, Papua Nova Guiné,<br />

Índia, Malásia, Filipinas e Austrália.<br />

A megadiversidade<br />

sem prece-<br />

dentes do Brasil acarretou diferenças<br />

para o país também perante as<br />

próprias metas da CDB. “Enquanto<br />

todos os signatários devem preservar<br />

10% da biodiversidade de seus<br />

territórios, o Brasil comprometeu-se<br />

a preservar 10% de quatro de seus<br />

biomas, isoladamente, e 30% da<br />

Amazônia”, revela Maria Cecília Wey<br />

de Brito, secretária de Biodiversidade<br />

e Florestas do Ministério do Meio<br />

Ambiente.<br />

Oliver Hillel aponta o desempenho<br />

acima das expectativas do país:<br />

“Entre 2006 e 2010, o Brasil sozinho<br />

já atingiu cerca de 72% da meta de<br />

proteção mundial de ecossistemas.<br />

É um país líder na Convenção”. No<br />

entanto, indica um único ponto ainda<br />

merecedor de atenção, não apenas<br />

dos brasileiros, mas de todos os<br />

países signatários: os ecossistemas<br />

marinhos. O coordenador aponta<br />

que apenas cerca de 1% dos mares<br />

estão protegidos pelas nações; no<br />

Brasil, o percentual é de 1,5%.<br />

Esforços nacionais<br />

O MMA foi denominado ponto focal<br />

da Convenção da Diversidade<br />

Biológica no Brasil, o que significa<br />

que concentra as ações mais importantes<br />

em torno da iniciativa aqui,<br />

tornando-se o principal responsável<br />

pela defesa da biodiversidade<br />

brasileira. Maria Cecília Wey de<br />

Brito afirma que o país terá bons<br />

resultados a mostrar em 2010:<br />

“Nos destacamos na proteção das<br />

Unidades de Conservação e ainda<br />

somos protagonistas nas principais<br />

discussões acerca do acesso aos<br />

recursos genéticos e repartição de<br />

benefícios em todo o mundo”.<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 26 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


A secretária de Biodiversidade e<br />

Florestas confirma que, da meta<br />

de conservação estabelecida pela<br />

CDB para o planeta, o Brasil sozinho<br />

já atingiu mais de 70%. Quanto à<br />

normatização para os recursos genéticos,<br />

o país já possui lei interna,<br />

ainda discutida, mas, mesmo assim,<br />

referência para o avanço da questão<br />

para diversos outros governos.<br />

“Buscamos estabelecer um regime<br />

internacional para o assunto”, atesta.<br />

Em 15 de setembro, os Ministérios<br />

do Meio Ambiente e da Ciência<br />

e Tecnologia assinaram projeto de<br />

lei, com novo texto para o acesso e<br />

a coleta do patrimônio genético brasileiro,<br />

para combate mais efetivo da<br />

biopirataria no país.<br />

Para implementar a CDB, foi criado<br />

em 1994 o Programa Nacional da<br />

Diversidade Biológica (Pronabio),<br />

responsável pela implantação da<br />

Política Nacional de Biodiversidade<br />

(PNB), instituída em 2002. Para subsidiar<br />

a elaboração da PNB, foram<br />

realizadas consultas públicas entre<br />

2000 e 2001, com o próprio governo,<br />

estatais, ONGs, comunidades acadêmicas,<br />

populações locais e com o<br />

empresariado. Em 2003, o Pronabio<br />

passou a chamar-se Conabio e, hoje,<br />

é composto por representantes de<br />

diversos ministérios e de organismos<br />

da sociedade civil.<br />

Programas de destaque<br />

“Com o lançamento do Programa<br />

Áreas Protegidas da Amazônia<br />

(Arpa) e por meio de muitos outros<br />

esforços, o Brasil destaca-se pelas<br />

atitudes inovadoras”, elogia Hillel.<br />

O Arpa foi estabelecido em 2003<br />

com o intuito de proteger 500 mil<br />

foto: Luiz Claudio Marigo<br />

foto: Luiz Claudio Marigo<br />

Por dentro da CDB<br />

O biólogo paulista Oliver Hillel é um dos 20 profissionais do escritório<br />

da sede da Convenção da Diversidade Biológica, que tem sede em<br />

Montreal. Como uma pequena ONU, o escritório “muito vivo”, como ele<br />

diz, reúne pessoas de todo o mundo, responsáveis por temas variados<br />

dentro do tema da biodiversidade. Hillel é responsável, entre outros,<br />

por tópicos como turismo sustentável, cidades e biodiversidade, e usos<br />

sustentáveis. Coordenada pelo argelino Ahmed Djoghlaf, a equipe é<br />

estimulada a uma grande proatividade. “Somos empreendedores”,<br />

define.<br />

Como é considerado por vocês o não alcance da maioria das<br />

metas pelos participantes?<br />

Na verdade, devido à diversidade entre os signatários, esse panorama<br />

já era considerado possível. Esperamos sempre que o desempenho<br />

esteja regulado por um mínimo denominador comum, devido a essas<br />

discrepâncias. O que esperamos, principalmente, é criar compromissos<br />

entre os países, para que todos caminhem juntos rumo ao objetivo.<br />

Como é lidar com as diferenças entre as nações?<br />

É nosso papel. A cada ano, por exemplo, devemos receber relatórios<br />

dos países, mas muitos não possuem recursos para realizá-los. Então,<br />

“corremos atrás”, incentivamos, é nossa função. Ao lado de nações<br />

com ótimo desempenho, há outras muito pequenas onde, muitas vezes,<br />

uma única pessoa é incumbida de todas as ações referentes à questão<br />

ambiental.<br />

Qual é a parte mais difícil do trabalho?<br />

Estamos em contato com interesses muito poderosos, tratamos de<br />

assuntos fundamentais para grupos multinacionais e governos, como<br />

petróleo, recursos genéticos... Não é simples. Além disso, outro aspecto<br />

importante é que hoje mais da metade da população mundial é urbana –<br />

apenas no Brasil, são 85%. Isso significa que as pessoas estão perdendo<br />

contato com a biodiversidade. Antes, ela batia à nossa porta.<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 27 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


quilômetros quadrados<br />

da Amazônia.<br />

O Programa<br />

é coordenado<br />

pelo Ministério<br />

do Meio Ambiente<br />

e implementado<br />

pelo Instituto<br />

Chico Mendes<br />

de Conservação<br />

da Biodiversidade<br />

(ICMBio), em<br />

parceria com governos<br />

estaduais<br />

e municipais da<br />

Amazônia e com<br />

o Fundo Brasileiro<br />

para a Biodiversidade<br />

(Funbio). Suas atividades são<br />

financiadas com recursos da União,<br />

do Fundo para o Meio Ambiente<br />

Global (GEF – Global Environment<br />

Facility), através do Banco Mundial,<br />

do WWF-Brasil e do banco alemão<br />

para o desenvolvimento KfW, além<br />

de contar com a parceria da agência<br />

de cooperação técnica alemã GTZ.<br />

Entre as conquistas do Arpa para a<br />

biodiversidade está a estimativa de<br />

redução de 1,1 bilhão de toneladas<br />

de emissões de carbono e degradação<br />

florestal, por meio das áreas<br />

protegidas pelo Programa.<br />

A Amazônia, bioma de destaque no<br />

Ano Internacional da Biodiversidade,<br />

também tem no Programa de<br />

Pesquisa em Biodiversidade (PPBio)<br />

outro ponto de apoio. Realizado pelo<br />

Ministério da Ciência e Tecnologia<br />

(MCT) desde 2004, o PPBio incentiva<br />

a pesquisa sobre os ecossistemas<br />

brasileiros a fim de disponibilizar os<br />

dados sobre a biodiversidade nacional.<br />

“O PPBio preencheu uma lacuna<br />

importante no setor de ciência e<br />

tecnologia brasileiras, pois o Brasil,<br />

detentor da maior biodiversidade do<br />

planeta, não possuía um programa<br />

de pesquisa bem estruturado sobre<br />

esse tema”, avalia Maria Luiza Braz,<br />

coordenadora-geral de Política e<br />

Programa em Biodiversidade da<br />

Secretaria de Políticas e Programas<br />

de Pesquisa e Desenvolvimento do<br />

MCT.<br />

O PPBio começou pela Amazônia,<br />

com dois núcleos: o Instituto Nacional<br />

de Pesquisa da Amazônia (Inpa) e<br />

o Museu Paraense Emílio Goeldi. No<br />

semiárido foi criado outro núcleo,<br />

localizado na Universidade Estadual<br />

de Feira de Santana (Uefs), na Bahia.<br />

Em 2009, o Programa começa a atuar<br />

na Mata Atlântica, com recomendações<br />

para o início das pesquisas<br />

também no Cerrado, no Pantanal,<br />

nos Pampas e nas Zonas Costeiras e<br />

Marinhas. Para divulgar as informações<br />

coletadas, o MCT estabeleceu<br />

uma política de dados, que integrará<br />

os resultados das pesquisas aos<br />

bancos de dados das instituições envolvidas<br />

no PPBio.<br />

“Os dados gerados<br />

serão disponibilizados<br />

aos pesquisadores<br />

e ao público<br />

externo”, adianta<br />

Maria Luiza.<br />

Para o professor<br />

Peter May, presidente<br />

da Sociedade<br />

Internacional<br />

para a Economia<br />

Ecológica e diretor<br />

da Sociedade<br />

Brasileira de Economia<br />

Ecológica,<br />

há perdas e ganhos<br />

em prol da biodiversidade no país.<br />

“Se, por um lado, temos a redução<br />

de desmatamento na Amazônia,<br />

por conta do Arpa e do desempenho<br />

de Marina Silva, por outro,<br />

somos surpreendidos pela notícia<br />

da grande devastação do Cerrado”,<br />

aponta, referindo-se ao índice de 20<br />

mil quilômetros quadrados anuais<br />

desmatados no ecossistema, anunciado<br />

em setembro pelo Governo<br />

Federal.<br />

foto: Luiz Claudio Marigo<br />

O professor é um dos principais<br />

colaboradores do Ministério do<br />

Meio Ambiente quanto à gestão de<br />

políticas públicas para a defesa da<br />

biodiversidade. “O resultado líquido<br />

dos esforços brasileiros é positivo,<br />

mas é necessário vencermos a incoerência<br />

das políticas públicas quanto<br />

ao tema”, afirma, exemplificando<br />

com a expansão da cultura agropecuária<br />

nacional. May indica a saída:<br />

“Precisamos alcançar a transversalidade<br />

no uso da biodiversidade,<br />

relacionando-a com outros temas de<br />

interesse social, como transportes<br />

e energia.”<br />

foto: Luiz Claudio Marigo<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 28 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


Sacolas plásticas:<br />

podemos viver sem elas?<br />

Estima-se que, hoje, são consumidas em todo o mundo mais de 500 bilhões de sacolas plásticas<br />

por ano. O mais grave é que só 0,6% delas são recicladas. O resultado é um crescente problema<br />

ambiental que vem mobilizando governos e entidades civis pelos quatro cantos do planeta.<br />

Por Patrícia Costa<br />

foto: Adriano Von Markendorf<br />

Quando o cientista inglês Alan Parker<br />

inventou o primeiro plástico,<br />

em 1862, jamais pensou que tal feito<br />

teria consequências tão importantes<br />

nas décadas seguintes. Apesar das<br />

facilidades e imensas vantagens que<br />

o plástico trouxe para a vida moderna,<br />

o novo material sintético também<br />

provocou grandes impactos<br />

na natureza. Isso por conta da sua<br />

principal característica: a durabilidade.<br />

Produzido a partir de uma resina<br />

originada do petróleo, o plástico<br />

leva séculos para se decompor na<br />

natureza. Vemos essa realidade por<br />

todos os lados, ao nos depararmos<br />

com toneladas de sacos, garrafas<br />

PET e outros objetos feitos a partir<br />

desse material flutuando em rios,<br />

oceanos e lagoas. Eles entopem<br />

sistemas de escoamento de águas<br />

pluviais das cidades; vão parar nos<br />

estômagos de tartarugas, golfinhos<br />

e baleias; se enroscam nas asas de<br />

aves marinhas e nas barbatanas de<br />

focas e outros animais que vivem<br />

nos mares; nos aterros sanitários,<br />

impermeabilizam o solo e dificultam<br />

a degradação dos produtos<br />

orgânicos.<br />

“Sopão” de lixo plástico<br />

O problema se tornou tão grave que<br />

vem afetando os oceanos em larga<br />

escala. No Pacífico, a cerca de 920<br />

quilômetros da costa da Califórnia,<br />

no oeste dos Estados Unidos, se<br />

localiza uma área conhecida como<br />

“giro Pacífico Norte”, onde as águas<br />

são calmas por conta dos poucos<br />

ventos e dos sistemas de pressão<br />

muito altos. Ali está depositado um<br />

gigantesco mar de lixo plástico, com<br />

mais de 100 milhões de toneladas de<br />

detritos. Estima-se que a área corresponda<br />

a dois Estados Unidos. Tudo<br />

foi levado pelas correntes marítimas<br />

que se encontram naquele ponto<br />

onde, de acordo com os pesquisadores,<br />

é possível encontrar lixo trazido<br />

de todos os cantos do planeta.<br />

Segundo o Programa das Nações<br />

Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma),<br />

90% de todo o lixo flutuante<br />

encontrado nos oceanos é de plástico.<br />

“O saco plástico é um ícone da<br />

nossa responsabilidade com relação<br />

ao meio ambiente. No momento em<br />

que as pessoas no mundo inteiro<br />

estão parando para pensar nisso já é<br />

um avanço”, afirma a técnica do Departamento<br />

de Consumo Sustentável<br />

do Ministério do Meio Ambiente, Fernanda<br />

Daltro. Para ela, tomar consciência<br />

do problema do excesso de<br />

sacolas plásticas é fundamental para<br />

reduzir o consumo, medida que vai<br />

ter um impacto positivo em todos os<br />

níveis: “Tanto localmente, evitando<br />

a enchente na sua rua, quanto mundialmente,<br />

diminuindo a poluição em<br />

alto mar, por exemplo”.<br />

Só no Brasil, são consumidas 12<br />

bilhões de sacolas plásticas por ano.<br />

É ainda um número modesto, se<br />

comparado às 100 bilhões de sacolas<br />

consumidas pelos Estados Unidos,<br />

mas, ainda assim, se pensarmos que<br />

corresponde a 66 sacos por brasileiro<br />

por mês, é um exagero. Fernanda<br />

culpa o hábito: “Quando você sai de<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 29 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


O mundo<br />

X sacolas plásticas<br />

Os Estados Unidos são os campeões<br />

no consumo de sacolas<br />

plásticas no mundo: 100 bilhões<br />

ao ano. Para fabricá-las,<br />

anualmente são necessários 12<br />

milhões de barris de petróleo.<br />

Mas São Francisco, na Califórnia,<br />

se tornou a primeira cidade<br />

norte-americana a proibir o uso<br />

de sacolas plásticas em 2007, e<br />

outras cidades como Filadélfia,<br />

Boston e Seattle estão seguindo<br />

o mesmo caminho.<br />

No início de 2008, a China proibiu<br />

a distribuição gratuita de sacos<br />

plásticos no comércio. Em Bangladesh,<br />

na Austrália e na cidade<br />

do México aconteceu o mesmo.<br />

Na Itália, elas serão proibidas<br />

a partir de 2010. Na Alemanha,<br />

na Dinamarca, na África do Sul<br />

e na Irlanda, é preciso comprar<br />

sacolas plásticas nas lojas. Parte<br />

desse dinheiro é investido em<br />

gestão do lixo nas cidades.<br />

Em Zanzibar, um conjunto de<br />

ilhas na África, o governo foi<br />

mais radical. Como o turismo ali<br />

é a principal atividade econômica<br />

e as sacolas plásticas estavam<br />

afetando a vida marinha, quem<br />

for pego usando sacola plástica<br />

vai preso por seis meses ou paga<br />

dois mil dólares de multa.<br />

casa e vai ao comércio, em cada loja<br />

que entra para comprar um produto<br />

ganha uma sacolinha. Vai à farmácia,<br />

ganha a sacola. Vai no supermercado,<br />

ganha outra. Quando vê, volta pra<br />

casa com aquele monte de sacolas.<br />

É um desperdício.”<br />

Saco é um saco<br />

Uma das ações governamentais<br />

que vem se popularizando no país<br />

no combate às sacolas plásticas é a<br />

substituição delas pelas chamadas<br />

sacolas “oxibiodegradáveis”. Três<br />

estados já adotaram sacolas desse<br />

material: Goiás, Espírito Santo e Maranhão,<br />

além de alguns municípios,<br />

como Sorocaba e Guarulhos (SP).<br />

Outros, como São Paulo, vetaram<br />

projetos de lei que propunham a<br />

troca. Tudo por conta das dúvidas a<br />

respeito da sua degradação. Apesar<br />

de os fabricantes garantirem que elas<br />

desaparecem no meio ambiente em<br />

até 18 meses, o Ministério de Meio<br />

Ambiente não apoia essa nova tecnofoto:<br />

Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />

Seguindo a tendência mundial de<br />

combate ao excesso de consumo<br />

de sacolas plásticas (ver boxe), o<br />

Ministério de Meio Ambiente lançou,<br />

em junho, a campanha Saco é um<br />

saco, que visa despertar a atenção<br />

da população para a questão e provocar<br />

uma mudança de hábitos que<br />

culmine numa redução de resíduos<br />

sólidos. “A campanha está tendo um<br />

retorno muito positivo. A Wal-Mart,<br />

uma grande empresa de varejo,<br />

aderiu primeiro, mas agora a lista<br />

está enorme, com a adesão de outras<br />

grandes empresas como o Carrefour<br />

e a Kimberly Clark. E a tendência<br />

é que essas parcerias aumentem”,<br />

explica Fernanda Daltro.<br />

Ela conta que já existem diversas<br />

prefeituras e governos estaduais procurando<br />

o Ministério: “Somos uma<br />

referência, e estamos defendendo<br />

um bem muito maior, que é a natureza.<br />

Nós temos de estimular o debate<br />

na sociedade e ir trabalhando em<br />

diversas frentes, seja governamental,<br />

empresarial ou social”.<br />

logia, pois nem mesmo no Canadá e<br />

na Inglaterra, onde foi desenvolvida,<br />

sua produção foi liberada.<br />

O professor do Programa de Engenharia<br />

Química da Coppe/UFRJ, José<br />

Carlos Pinto, afirma que essas sacolas<br />

são uma solução ambientalmente<br />

incorreta: “Elas se transformam em<br />

pó e obviamente poluem o solo e a<br />

água. Além disso, para fazer essa<br />

transformação, utilizam-se catalisadores<br />

à base de metais pesados<br />

como titânio e chumbo, que vão<br />

poluir mais ainda e poderão voltar<br />

ao corpo humano através de carnes<br />

e vegetais contaminados, o que é um<br />

absurdo”. Para o químico, a solução<br />

para as sacolas plásticas está na reciclagem<br />

e no reúso. (ver boxe)<br />

Fernanda Daltro concorda. Além da<br />

reciclagem, a redução do consumo<br />

e o descarte adequado são os principais<br />

focos de atenção das políticas<br />

públicas. “Não temos, por exemplo,<br />

a coleta seletiva estruturada no<br />

país. Apenas 10% dos municípios<br />

possuem coleta seletiva. Precisamos<br />

implementar uma estrutura pública<br />

que permita uma coleta de resíduos<br />

sólidos adequada, para que as pessoas<br />

deixem de desperdiçar”.<br />

Menos seria demais!<br />

Não é o caso do Rio de Janeiro, que<br />

saiu na frente e se tornou o primeiro<br />

estado brasileiro a criar uma lei<br />

que obriga os estabelecimentos<br />

comerciais a substituírem, ao longo<br />

dos próximos três anos, as sacolas<br />

plásticas por sacolas retornáveis. A<br />

lei fluminense determina ainda que o<br />

cliente poderá trocar 50 sacos por um<br />

quilo de alimento ou ganhar um desconto<br />

de R$ 0,03 a cada cinco itens<br />

levados fora de sacos plásticos.<br />

Para o presidente do Conselho Empresarial<br />

de Meio Ambiente da Associação<br />

Comercial do Rio de Janeiro,<br />

Haroldo Mattos de Lemos, essa lei<br />

ainda precisa de ajustes. “Ao invés de<br />

proibir as sacolas plásticas, por que<br />

não se estimula o seu reúso, como<br />

acontece na Europa? Lá, o cliente usa<br />

uma sacola plástica mais resistente<br />

e, quando volta ao mercado, ele a<br />

leva, pois senão vai pagar por uma<br />

nova sacola”.<br />

Essa alternativa esbarra numa questão<br />

chave: a má qualidade das sacolas<br />

plásticas brasileiras. Segundo<br />

a Associação Brasileira de Normas<br />

Técnicas (ABNT), existe uma norma<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 30 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


foto: Divulgação-MMA<br />

estabelecida<br />

para esse produto, que deve ter uma<br />

espessura adequada para agüentar<br />

até seis quilos. Mas a realidade é bem<br />

diferente. A qualidade das sacolas de<br />

supermercado é tão ruim que obriga<br />

o cliente a usar duas e até três sacolas<br />

de uma vez para carregar os produtos.<br />

“Infelizmente, não existe legislação<br />

para regulamentar isso. A norma da<br />

ABNT é apenas uma norma, que o<br />

fabricante respeita se quiser. O lojista<br />

deveria cobrar mais qualidade, mas<br />

isso é delicado, pois mexe com custo.”<br />

Mattos argumenta que caberia ao<br />

próprio cliente cobrar pela qualidade<br />

das sacolas plásticas: “Só assim o<br />

dono do mercado poderia exigir do<br />

fornecedor uma sacola mais resistente,<br />

o que poderia reduzir o número de<br />

sacolas em circulação”.<br />

Ele afirma que os donos de supermercados<br />

e outros lojistas estão<br />

acompanhando a aplicação da lei<br />

com preocupação, e defende que<br />

a proposta de troca de sacolas por<br />

alimentos deveria ser revista, já<br />

que não há uma contrapartida do<br />

governo. “O objetivo principal da lei<br />

não é reduzir o consumo de sacolas,<br />

mas proteger o meio ambiente, e por<br />

esse objetivo estamos todos juntos<br />

lutando. Por isso, precisamos ajudar<br />

os legisladores a aperfeiçoar a lei, à<br />

medida que as dificuldades forem<br />

surgindo”, destaca.<br />

Outro problema é a adesão da população:<br />

cerca de 80% das pessoas<br />

vão ao mercado a pé ou de ônibus e a<br />

sacola plástica facilita muito o transporte<br />

das compras. Fabíola dos Santos<br />

é um bom exemplo. A estudante<br />

de Direito de 22 anos assume que<br />

teria preguiça de levar uma sacola<br />

retornável de casa cada vez que fosse<br />

à rua fazer compras. “Acho a lei superválida,<br />

mas muito difícil de pegar.<br />

Carioca é meio folgado, sempre vai<br />

querer dar um jeitinho, ainda mais se<br />

tiver de pagar pela sacola retornável,<br />

vai sempre preferir o caminho mais<br />

fácil”. Mas confessa: “Hoje eu penso<br />

assim, mas, no futuro, quem sabe, se<br />

todo mundo aderir, eu até poderia me<br />

O ministro Minc no lançamento da<br />

campanha "Saco é um saco"<br />

esforçar, comprar uma sacola retornável<br />

e mudar meus hábitos”.<br />

Já Pedro Nascimento Peixoto, de 76<br />

anos, é o oposto. Este autodenominado<br />

“jovem advogado aposentado”<br />

é um entusiasta da ideia de<br />

substituir sacolas plásticas pelas<br />

retornáveis: “Eu sou do tempo em<br />

que se fazia mercado com sacola de<br />

algodão e não tinha nenhum problema.<br />

Assino embaixo e vou aderir à<br />

lei, sim. Quero um mundo melhor<br />

para minha neta. Lá em casa sou eu<br />

quem faço as compras e evito levar<br />

tantos sacos. Vou começar a estimular<br />

os amigos a fazer o mesmo. As<br />

pessoas precisam se conscientizar<br />

de que usam sacolas plásticas demais!”<br />

Carioca da gema, o dr. Pedro<br />

lamenta as praias poluídas. “O mar<br />

é o mais prejudicado. Tanto plástico<br />

só serve pra poluir o meio ambiente”,<br />

sentencia.<br />

Mudando hábitos e<br />

mentes<br />

O entusiasmo do dr. Pedro parece ter<br />

acompanhado os adeptos da campanha<br />

Saco é um saco. Segundo dados<br />

do Ministério do Meio Ambiente, a<br />

Wal-Mart, por exemplo, registrou, só<br />

nos meses de julho e agosto de 2009,<br />

uma redução no consumo de quatro<br />

milhões de sacolas plásticas em suas<br />

lojas. A adesão à campanha faz parte<br />

de um conjunto de ações que vêm<br />

sendo adotadas desde o final de<br />

2008 e que fazem parte do projeto<br />

Sustentabilidade: “Já vendemos<br />

mais de 2 milhões de sacolas retornáveis<br />

e já evitamos o consumo total<br />

de 9,1 milhões de sacolas plásticas<br />

oferecendo descontos para quem<br />

deixa de usá-las. Acreditamos que a<br />

empresa tem um papel importante na<br />

reeducação de hábitos de consumo”,<br />

afirma Cristina Cassis, responsável<br />

pelas relações com a imprensa da<br />

Wal-Mart.<br />

Fernanda Daltro, do Ministério de<br />

Meio Ambiente, acredita que é pela<br />

educação que se muda esse quadro:<br />

“A lei das sacolas no Estado do Rio<br />

deve ser acompanhada de uma campanha<br />

educativa, para conscientizar<br />

as pessoas da importância, para a<br />

vida delas, de se diminuir o uso das<br />

sacolas plásticas.”<br />

Em Belo Horizonte, por exemplo,<br />

onde desde fevereiro deste ano as<br />

sacolas plásticas começaram a ser<br />

abolidas dos supermercados, na prática,<br />

nada parece ter mudado. Célia<br />

Franco, bancária aposentada de 63<br />

anos, costuma usar uma sacola retornável<br />

por hábito, mas não percebeu<br />

mudanças grandes nos mercados e<br />

lojas que frequenta: “O que eu notei<br />

é que, antes, as sacolas plásticas<br />

ficavam à disposição de quem quisesse<br />

pegar aos montes. Hoje, elas<br />

ficam em caixinhas como de lenço de<br />

papel, e só dá para tirar uma por uma.<br />

E as sacolas retornáveis estão mais à<br />

vista”. Outra coisa que a aposentada<br />

reparou é que nos mercados mineiros<br />

existe o hábito de deixar caixas<br />

de papelão à disposição dos clientes<br />

para guardarem as compras. “Isso<br />

facilita a vida de quem usa carro para<br />

fazer mercado”, afirma ela.<br />

Fernanda Daltro destaca que essa é<br />

uma boa alternativa às sacolas plásticas:<br />

“Deixar engradados no portamalas<br />

ou sacolas retornáveis dentro<br />

do carro também ajuda na hora das<br />

compras. É preciso usar a imaginação<br />

e ter força de vontade para poupar a<br />

natureza”.<br />

Para saber mais:<br />

Campanha Saco é um saco<br />

http://blog.mma.gov.br/sacolasplasticas/<br />

Os 4Rs das sacolas<br />

plásticas<br />

RECUSAR – Sempre que puder,<br />

recuse a sacola plástica e ajude a<br />

diminuir a demanda por recursos<br />

não-renováveis.<br />

REDUZIR – Pense se você realmente<br />

precisa de tantas sacolas<br />

plásticas armazenadas em casa.<br />

Diminua a quantidade guardada,<br />

mas não jogue fora, vá armazenando<br />

menos e racionalize seu uso.<br />

REUTILIZAR – É usar de novo, dar<br />

outra finalidade. Use como saco<br />

de lixo, sacola de novas compras,<br />

embalagem etc.<br />

RECICLAR – É transformar materiais<br />

para a produção de matériaprima<br />

para outros produtos por<br />

meio de processos industriais ou<br />

artesanais. As sacolas plásticas<br />

também são recicláveis. Até as<br />

que se rasgam devem ser encaminhadas<br />

para a reciclagem, como<br />

o plástico da garrafa PET. Nunca<br />

jogue fora no lixo comum.<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 31


foto: João Roberto Ripper<br />

O meio<br />

ambiente<br />

visto pela<br />

medicina<br />

Poluição:<br />

efeito direto<br />

sobre a saúde<br />

humana<br />

Os impactos causados pelo<br />

desequilíbrio ambiental na<br />

saúde humana mobilizam,<br />

em todo o mundo,<br />

profissionais da área médica<br />

e de saúde coletiva, que<br />

começam a dar particular<br />

importância aos efeitos das<br />

mudanças climáticas sobre<br />

a população.<br />

Por Enrique Blanco<br />

A relação entre meio ambiente e<br />

saúde pode parecer óbvia para<br />

a maioria das pessoas, mas só<br />

recentemente o tema tem conseguido<br />

crescente destaque nos<br />

cenários nacional e internacional,<br />

devido, principalmente, à ação<br />

dos profissionais da área de saúde<br />

coletiva. As mudanças climáticas e<br />

seus impactos na saúde das populações<br />

chamaram a atenção desses<br />

profissionais, e a preocupação com<br />

o meio ambiente passou a ocupar<br />

as agendas médicas. Setores dos<br />

governos federal, estadual e municipal<br />

estão começando a ouvir o<br />

que esses profissionais têm a dizer<br />

sobre as condições socioambientais<br />

das populações rurais e urbanas.<br />

O resultado começou aparecer este<br />

ano, com o apoio do Poder Público a<br />

dois eventos pioneiros sobre o tema:<br />

o 1° Congresso Internacional de Medicina<br />

<strong>Ambiental</strong> – Os homens, seus<br />

ambientes e a nova ameaça global –,<br />

em setembro, e a 1ª Conferência Nacional<br />

de Saúde <strong>Ambiental</strong> (CNSA) – A<br />

saúde ambiental na cidade, no campo e<br />

na floresta: construindo cidadania, qualidade<br />

de vida e territórios sustentáveis<br />

–, em dezembro deste ano.<br />

A 1ª CNSA foi precedida de três seminários,<br />

que tiveram por objetivo dar início ao<br />

processo de mobilização e sistematização<br />

de propostas para subsidiar as etapas municipais,<br />

estaduais e federal. O primeiro, com<br />

foco na saúde dos povos da floresta, aconteceu<br />

em Belém (PA), em agosto, e contou com<br />

a participação de índios, extrativistas, quilom-<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 32 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


olas, pescadores, entre outros. Nos<br />

mês seguinte, foi a vez do seminário<br />

sobre os povos dos campos, em<br />

Cuiabá (MT), e do que discutiu questões<br />

ligadas aos povos das cidades,<br />

em Guarulhos (SP).<br />

A importância desses eventos é tão<br />

grande que a 1ª CNSA foi convocada<br />

por decreto do presidente Lula e envolveu<br />

os Ministérios da Saúde, das<br />

Cidades e do Meio Ambiente para<br />

desenvolver uma Política Nacional<br />

de Saúde <strong>Ambiental</strong>. A proposta é<br />

definir diretrizes para uma política<br />

pública integrada no campo da saúde<br />

ambiental, a partir da atuação transversal<br />

e intersetorial dos vários atores<br />

envolvidos, bem como promover<br />

e ampliar a consciência da população<br />

a respeito dos determinantes<br />

socioambientais, num conceito<br />

ampliado de saúde.<br />

As áreas da saúde e da medicina<br />

compartilham diretamente<br />

desses interesses,<br />

pois seus profissionais procuram<br />

identificar como esses<br />

fatores afetam a saúde<br />

das populações, por meio de<br />

uma visão sistêmica que enfatiza<br />

a prevenção e procura<br />

evitar os fatores desencadeadores<br />

de doenças ambientais.<br />

As ações e campanhas<br />

que começam a se consolidar<br />

no Brasil tiveram início<br />

em países da Europa e nos<br />

Estados Unidos, com o apoio<br />

de organizações de saúde<br />

pública e meio ambiente, e,<br />

atualmente, estão ganhando<br />

novos parceiros.<br />

Preocupação<br />

internacional<br />

foto: Rogerio Reis/Tyba<br />

Na Inglaterra, estudos apontando o<br />

impacto dos crescentes problemas<br />

ambientais à saúde da população<br />

têm ganho cada vez maior espaço.<br />

Essa preocupação da classe médica<br />

foi bem expressa no artigo Dez ações<br />

práticas contra as mudanças climáticas,<br />

de Jenny Griffiths, Alison Hill,<br />

Jackie Spiby e Robin Stott, publicado<br />

em uma das revistas científicas mais<br />

reconhecidas no mundo na área da<br />

medicina, o British Medical Journal,<br />

e editado no Brasil pela BMJ-Brasil,<br />

em setembro de 2008.<br />

Os autores fazem parte da Rede de<br />

Saúde e Sustentabilidade (Health<br />

and Sustainability Network) e do<br />

Conselho de Saúde e Clima (Climate<br />

and Health Council), e afirmam que<br />

uma das ações estratégicas a ser realizada<br />

pelos médicos preocupados<br />

com a questão ambiental é “colocar<br />

as mudanças climáticas como pauta<br />

de todas as reuniões: de equipes<br />

clínicas, de comitês e de redes de<br />

profissionais. Os médicos podem<br />

oferecer suas opiniões a presidentes<br />

e gerentes executivos”.<br />

Nas “ações práticas contra as mudanças<br />

climáticas”, os médicos se<br />

Questões ambientais, como as mudanças climáticas,<br />

estão ganahando maior peso na área da saúde<br />

Outra clara sinalização da importância<br />

que as questões ambientais vêm<br />

ganhando na área da saúde foi a<br />

recente publicação, pela Organização<br />

Mundial de Saúde (OMS), de dois documentos:<br />

"Hospitais saudáveis, placomprometem,<br />

entre outras medidas,<br />

a aconselhar os pacientes a<br />

reduzir o consumo de energia e a<br />

emissão de carbono no seu dia a dia<br />

(evitando, por exemplo, o uso do<br />

carro); a melhorar a alimentação com<br />

o consumo de alimentos regionais e<br />

da época (e se possível, produzidos<br />

com menor emissão de carbono),<br />

e a utilizar em seus lares e locais<br />

de trabalho materiais e tecnologias<br />

consideradas mais limpas. No caso<br />

da Inglaterra e do Reino Unido, os<br />

autores defendem ainda o estímulo<br />

à estabilização populacional, promovendo<br />

a alfabetização e o acesso<br />

a métodos contraceptivos por meio<br />

de institutos como o International<br />

Planned Parenthood Federation e o<br />

Marie Stopes International.<br />

A estratégia de convencimento individual<br />

está associada à confiança<br />

entre médico e paciente. Esse é,<br />

aliás, um dos principais diferenciais<br />

da ação dos médicos e que explica<br />

o poder de ação que têm esses<br />

profissionais. “A sociedade deposita<br />

grande confiança no médico<br />

e, por isso, sua voz tem um peso<br />

grande. Estamos encorajando-os a<br />

falar com seus pacientes e colegas<br />

sobre a importância da redução das<br />

emissões de carbono”, confirmam<br />

Griffiths e Hill.<br />

Nos Estados Unidos, se observa<br />

também uma crescente preocupação<br />

dos médicos com as questões<br />

ambientais. A respeitada revista<br />

da Associação Médica<br />

Americana publicou, no final<br />

de 2008, um artigo em tom de<br />

convocação: Os médicos devem<br />

também ser ambientalistas.<br />

Nele, os autores afirmam<br />

que “é hora de tomarmos uma<br />

posição e confrontarmos a<br />

situação ambiental, juntamente<br />

com governos, cientistas<br />

e empresas do mundo.”<br />

Eles lembram que a atuação<br />

direta com os pacientes é<br />

muito importante, mas a ação<br />

institucional é fundamental.<br />

Por isso, pretendem somar<br />

esforços, não apenas na área<br />

acadêmica, mas na elaboração<br />

e execução de planos de<br />

ação: “As escolas de medicina<br />

poderiam ensinar ciência ambiental;<br />

as sociedades especializadas e os<br />

institutos de pesquisa poderiam<br />

coletar evidências sobre os efeitos<br />

prováveis da mudança acelerada do<br />

clima sobre a saúde humana; os hospitais<br />

poderiam se ‘esverdear’ e os<br />

médicos poderiam unir forças com<br />

ambientalistas para delinear planos<br />

de ação e executá-los”.<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 33 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


neta saudável, pessoas saudáveis – O<br />

problema das alterações climáticas<br />

nos serviços de saúde" e "Proteger<br />

a saúde da mudança climática – As<br />

prioridades da investigação global".<br />

A situação no Brasil<br />

A falta de saneamento básico<br />

mata milhões de crianças,<br />

anualmente, em todo o<br />

mundo<br />

A maior atenção com o impacto<br />

das determinantes sociais da saúde<br />

na qualidade de vida da população<br />

brasileira reflete, portanto, um<br />

movimento mundial. Na verdade,<br />

se poderia dizer que conceitos de<br />

saúde ambiental já são aplicados no<br />

Brasil desde o desenvolvimento da<br />

medicina-sanitarista e das políticas<br />

higienistas vinculadas ao saneamento<br />

básico e ao controle das endemias.<br />

A explicação das doenças a partir<br />

da relação entre o clima, o modo de<br />

vida e as condições das habitações já<br />

estava presente na atuação de médicos-sanitaristas<br />

e epidemiologistas,<br />

como Carlos Chagas e Oswaldo Cruz,<br />

que agiram diretamente na eliminação<br />

das condições socioambientais<br />

das doenças.<br />

Desde então, as ações tornaram-se<br />

mais estratégicas e menos radicais<br />

e, cada vez mais, levam em consideração<br />

os indicadores sociais que<br />

afetam o dia a dia das comunidades.<br />

A ideia passa a ser tratar o doente e<br />

não apenas a doença, compreendendo<br />

o paciente em sua integralidade e<br />

inserido no contexto socioambiental<br />

em que vive. Essa proposta está<br />

relacionada à denominada Clínica<br />

Ampliada, ou Clínica do Sujeito, e<br />

está relacionada à ação integrada de<br />

todos os profissionais de saúde envolvidos<br />

no atendimento. Nessa direção,<br />

trabalha o Médico de Família e<br />

Comunidade (MFC), profissional que<br />

atua na linha de frente com o Atendimento<br />

Primário à Saúde (APS).<br />

O médico Eno Dias de Castro Filho,<br />

vice-presidente da Sociedade Brasileira<br />

de Medicina de Família e Comunidade<br />

(SBMFC), faz parte do Grupo<br />

de Pesquisa em APS da Universidade<br />

Federal do Rio Grande do Sul e<br />

do Serviço de Saúde Comunitária<br />

do Grupo Hospitalar Conceição (RS).<br />

Ele explica que “a natureza sistêmica<br />

do trabalho cotidiano do MFC,<br />

que vai desde os determinantes<br />

sociais aos determinantes genéticos<br />

das doenças, é similar à forma de<br />

pensar e agir dos ‘ambientalistas’.<br />

Atualmente, a SBMFC trabalha com<br />

a questão das mudanças climáticas,<br />

e já fez sugestões ao Plano Nacional<br />

sobre Mudança Climática do governo<br />

brasileiro”.<br />

Os MFCs elaboram um mapa das<br />

condições de vida do paciente, identificando<br />

os fatores sociais e ambientais<br />

responsáveis por determinadas<br />

enfermidades, permitindo a ação<br />

sobre as causas e não apenas sobre<br />

os efeitos da doença.<br />

O dr. Eno Dias também vem trabalhando<br />

– juntamente com o dr. Enrique<br />

Barros e o dr. Fabio Schwalm,<br />

médicos residentes em MFC do Serviço<br />

de Saúde Comunitária do Grupo<br />

Hospitalar Conceição (RS) – para<br />

identificar o impacto do aquecimento<br />

global sobre a atenção primária à<br />

saúde. Eles esclarecem: “O MFC é um<br />

profissional capacitado a diagnosticar<br />

problemas socioambientais<br />

em sua<br />

comunidade e a buscar soluções com<br />

a cooperação da população local<br />

e com outros setores (serviços públicos<br />

de limpeza, luz, saneamento,<br />

segurança etc.). Há vários exemplos<br />

de ações socioambientais: o MFC<br />

que coordena ações comunitárias<br />

de prevenção à dengue, o que lidera<br />

o movimento pela pavimentação ou<br />

saneamento de sua comunidade etc.<br />

Os aspectos ecológicos específicos,<br />

como o tema da mudança climática,<br />

ainda são incipientes para o MFC.<br />

Por esse motivo, nosso grupo de<br />

pesquisa investiga formas da Atenção<br />

Primária à Saúde para atuar na<br />

mitigação e adaptação à mudança<br />

climática”, afirmam os médicos.<br />

A ação sobre as condições socioambientais<br />

das comunidades evita a<br />

propagação de doenças emergentes<br />

recentemente identificadas e das<br />

reemergentes que, apesar de controladas<br />

no passado, ressurgiram<br />

como problema de saúde pública.<br />

Conforme alertam Terezinha Maria<br />

Mafioletti, enfermeira especialista<br />

em Saúde Coletiva e em Saneamento<br />

e Vigilância Sanitária e mestre em<br />

Saúde Coletiva, e Dione Maria Menz,<br />

enfermeira especialista em Saúde<br />

Mental Comunitária, essas doenças<br />

“assumiram nova condição de transmissão<br />

devido a modificações das<br />

características do agente infeccioso<br />

e porque passaram de doenças raras<br />

e restritas a problemas de saúde<br />

pública. A dengue, por exemplo, erradicada<br />

em vários países nas décadas<br />

de 1950 e 1960, retornou<br />

na década de<br />

foto: Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 34 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


1970 por falhas na vigilância epidemiológica<br />

e pelas mudanças sociais<br />

e ambientais provocadas pela urbanização<br />

acelerada e pelas condições<br />

sociais. A malária, após ter diminuído<br />

no início da última década, voltou aos<br />

patamares dos anos 1990, na faixa de<br />

aproximadamente 600 mil casos por<br />

ano”, lembram.<br />

O trabalho em campo comprova que<br />

as mudanças climáticas e a ação do<br />

ser humano provocam desequilíbrios<br />

ambientais e o desencadeamento<br />

de diversas doenças que afetam as<br />

populações. “A derrubada da floresta<br />

e o represamento de igarapés e rios<br />

favorecem a proliferação do mosquito<br />

transmissor de várias doenças. As<br />

hantaviroses, a cólera, a febre amarela,<br />

a tuberculose, a esquistossomose<br />

mansônica, entre outras, compõem<br />

esse quadro, além de exporem<br />

as frágeis estruturas ambientais<br />

urbanas em nosso país, as quais<br />

tornam as populações vulneráveis a<br />

doenças que pareciam superadas e<br />

ampliam a já alta carga de doenças<br />

da população”, confirmam Terezinha<br />

e Dione.<br />

Mudança de<br />

conduta<br />

A ação dos profissionais<br />

de saúde<br />

coletiva pretende<br />

convencer pacientes,<br />

instituições e<br />

governos sobre<br />

a emergência de<br />

uma mudança estrutural:<br />

cuidar da<br />

saúde ambiental é<br />

cuidar das condições<br />

socioambientais<br />

necessárias à<br />

sobrevivência humana.<br />

Os eventos<br />

que começaram<br />

este ano no Brasil,<br />

visando a consolidação<br />

da Política<br />

Nacional de Saúde<br />

<strong>Ambiental</strong>, são sinais importantes de<br />

mudança de atitude. Mas ainda há<br />

muito trabalho a fazer.<br />

De acordo com a análise de Jenny<br />

Griffiths e Alison Hill, “as questões<br />

ambientais podem parecer sem importância<br />

para as pessoas nos países<br />

em desenvolvimento, que lidam com<br />

muitos outros problemas, mas eles<br />

já estão enfrentando o impacto das<br />

alterações climáticas. A mensagem<br />

A melhoria da alimentação passa pelo<br />

consumo de produtos regionais e de época<br />

A derrubada de florestas favorece a proliferação do mosquito transmissor<br />

de várias doenças<br />

foto: Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />

é a mesma que na Inglaterra: se não<br />

cuidarmos do meio ambiente, do<br />

qual dependemos para nossa sobrevivência,<br />

não vamos ter um planeta<br />

para viver”.<br />

A partir da experiência europeia,<br />

Jenny e Alison sugerem: “Médicos<br />

no Brasil e de todo o mundo podem<br />

fazer parte de campanhas mundiais<br />

para redução de emissões de<br />

carbono per capita, com base no<br />

princípio da equidade. Segundo o<br />

World Resources Institute, as emissões<br />

do Brasil são de 5,5 toneladas<br />

por pessoa, em comparação com 11<br />

toneladas no Reino Unido. No futuro,<br />

será necessário reduzir a não mais<br />

de duas toneladas por pessoa. O<br />

trabalho da ambientalista Vandana<br />

Shiva, na Índia, é inspirador: ela treina<br />

as pessoas sobre modos de vida<br />

sustentáveis, para combater o que<br />

ela chama de economia do ‘suicídio’.<br />

Médicos de saúde pública precisam<br />

estar envolvidos em organizações de<br />

base e redes sociais. Isso está comecias<br />

na saúde de sua comunidade,<br />

tendo autoridade legal e moral para<br />

buscar os parceiros mais adequados<br />

para corrigir determinada prática<br />

insalubre”, aponta dr. Eno.<br />

Mas essas ações devem envolver<br />

outros atores da sociedade. “O<br />

Poder Público cumpre papel legislativo<br />

e fiscalizador,<br />

e necessita<br />

ser informado de<br />

forma técnica e<br />

confiável pelos<br />

MFCs, no sentido<br />

da prevenção e<br />

promoção de saúde.<br />

As empresas<br />

caminham cada<br />

vez mais para a<br />

responsabilidade<br />

socioambiental e<br />

podem também<br />

tornar-se parceiras<br />

estratégicas.<br />

Quando o MFC<br />

c o n s t r ó i c o m<br />

seus pacientes/<br />

comunidades os<br />

conhecimentos<br />

sobre as múltiplas<br />

relações entre<br />

saúde e ambiente,<br />

esses ficam mais capacitados a<br />

exigir posturas mais ecossustentáveis,<br />

tanto das empresas quanto do<br />

Poder Público. O MFC tem um papel<br />

de ‘advogado’ das pessoas, famílias<br />

e comunidades com as quais trabalha<br />

e, por vezes, necessitará mobilizar o<br />

potencial de ação cidadã coletiva das<br />

mesmas, trazendo à tona a temática<br />

ambiental conflituosa de alguns contextos.<br />

O que não aparece não pode<br />

ser melhorado”, finaliza dr. Eno.<br />

çando a acontecer na Índia e tenho<br />

certeza que também acontecerá no<br />

Brasil”, concluem.<br />

Nesse movimento mundial pela saúde<br />

ambiental, a Vigilância Sanitária e<br />

a Medicina de Família e Comunidade<br />

assumem um papel relevante. “O Médico<br />

de Família e Comunidade está<br />

em posição privilegiada para fazer a<br />

conexão entre causas e consequênfoto:<br />

Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 35 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


Na onda da<br />

sustentabilidade<br />

O aumento da consciência ecológica entre os<br />

praticantes de esportes de aventura é uma tendência<br />

que aumenta a cada ano e tem levado a ações<br />

concretas de preservação e educação ambiental. Afinal<br />

de contas, a degradação cada vez maior dos ambientes<br />

naturais coloca em risco a prática de atividades como<br />

surfe, escalada, montanhismo e canionismo.<br />

Montanhistas:<br />

preocupção com<br />

degradação<br />

ambiental é<br />

antiga<br />

Por Márcia Soares<br />

foto: Renata Mello/Tyba<br />

Se, para muitos de nós, o aumento<br />

da degradação ambiental é algo<br />

somente visto pela TV, jornais e<br />

revistas, para os praticantes dos<br />

chamados esportes de aventura é<br />

uma realidade vivenciada no cotidiano.<br />

Quem pode conhecer melhor<br />

a situação de mares, rios, trilhas e<br />

montanhas do que aqueles que frequentam<br />

e usam esses ambientes?<br />

A consciência ambiental entre esses<br />

esportistas não é uma novidade,<br />

mas, nos últimos anos, tem aumentado<br />

e estimulado ações em prol da<br />

conservação.<br />

Um bom exemplo é o Programa Surfe<br />

Sustentável, promovido pela ONG<br />

Ecosurfi, que vem realizando uma<br />

série de seminários pelo litoral paulista.<br />

O objetivo principal é provocar<br />

a discussão sobre sustentabilidade<br />

entre os surfistas, estimulando-os a<br />

agir em prol da conservação dos mares.<br />

O primeiro produto da iniciativa<br />

será a "Carta de responsabilidades<br />

dos surfistas para sociedades sustentáveis",<br />

documento que está sendo<br />

estruturado com base em quatro<br />

eixos: protagonismo dos surfistas e<br />

educação ambiental; cultura surfe e<br />

consumo; surfe e gestão costeira; e,<br />

por último, surfe, juventude e meio<br />

ambiente.<br />

O programa já alcançou boa repercussão<br />

entre surfistas amadores e<br />

profissionais, fabricantes de pranchas,<br />

juízes de surfe, artistas e admiradores<br />

do esporte. Segundo João<br />

Malavolta, dirigente da Ecosurfi, o<br />

Estado de São Paulo está servindo<br />

de piloto para essa primeira fase,<br />

que visa a mobilização por meio<br />

dos seminários Surfe nas ondas da<br />

sustentabilidade. A experiência deve<br />

ser replicada em outras cidades<br />

litorâneas, como Rio de Janeiro e<br />

Salvador, onde algumas instituições<br />

já sinalizaram interesse no projeto.<br />

No início de setembro passado, o<br />

programa colheu o primeiro fruto de<br />

seu trabalho: foi criada uma comunidade<br />

na internet chamada "Aliança<br />

dos surfistas pelo meio ambiente",<br />

que tem como proposta servir como<br />

um canal de escuta e mobilização.<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 36 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


Para Malavolta, esse amplo processo<br />

de discussão é o grande diferencial<br />

da proposta, que visa catalisar<br />

parcerias na comunidade do surfe,<br />

estimulando ações práticas voltadas<br />

para a preservação e conservação<br />

das áreas costeiras.<br />

Ainda de acordo com Malavolta, a<br />

comunidade do surfe estava acostumada<br />

a ações pontuais, como limpeza<br />

de praias, e eventos específicos<br />

pela defesa ambiental. “O diferencial<br />

deste programa, desenvolvido de<br />

forma completamente voluntária e<br />

contando com parcerias locais, é<br />

que trabalhamos numa lógica participativa<br />

e de conscientização de<br />

longo prazo. Afinal, estamos falando<br />

de uma mudança socioambiental<br />

global, agravada pela questão das<br />

mudanças climáticas”, explica. A<br />

segunda fase do programa terá<br />

como foco a mobilização, a difusão<br />

e o enraizamento, e deve engajar<br />

personalidades para servirem como<br />

difusores da ideia, além de usar a<br />

internet como instrumento de propagação.<br />

“Queremos envolver nesta proposta<br />

desde empresários do esporte<br />

– agentes importantes de um negócio<br />

que movimenta cerca de R$<br />

3 bilhões ao ano, só no Brasil – até<br />

as escolas de surfe”, diz Malavolta.<br />

“O surfista está sentindo na pele<br />

toda essa degradação dos mares.<br />

É comum encontrarmos plásticos<br />

boiando, animais mortos, como<br />

tartarugas e toninhas, sem contar<br />

com a própria redução do litoral –<br />

em alguns lugares, a faixa de areia é<br />

cada vez menor. O surfista percebe<br />

tudo isso, mas precisa avançar no<br />

entendimento das causas e do que<br />

precisa ser feito para garantir a sustentabilidade.<br />

E o grande desafio em<br />

tudo isso é provocar a proatividade”,<br />

reflete.<br />

Do mar à terra<br />

Se no mar os esportistas tentam<br />

surfar na onda da sustentabilidade,<br />

em terra firme o vento já sopra<br />

nessa direção há muito tempo. Na<br />

vanguarda desse movimento estão<br />

foto: Flavio Vidiga//Tyba<br />

os montanhistas e escaladores que,<br />

muito antes do tema ecologia se tornar<br />

tão popular, já se preocupavam<br />

com os rumos do esporte e o impacto<br />

ambiental por ele causado.<br />

Na década de 1980, há exatamente<br />

26 anos, foi realizado na cidade de<br />

Teresópolis (RJ), na sede do Parque<br />

Nacional da Serra dos Órgãos, o 1º<br />

Encontro Brasileiro de Montanhismo.<br />

Um dos textos lidos durante este<br />

evento foi o "Manifesto da escalada<br />

natural", redigido pelo escalador<br />

André Ilha, hoje diretor de Biodiversidade<br />

e Áreas Protegidas do Instituto<br />

Estadual do Ambiente do Rio<br />

de Janeiro (Inea). O manifesto fazia<br />

um panorama rápido da evolução<br />

do esporte e de como seu desenvolvimento<br />

técnico vinha a favor do<br />

menor impacto nas montanhas.<br />

De lá para cá, o movimento cresceu<br />

e passou a engajar não apenas os<br />

praticantes, mas também os órgãos<br />

governamentais responsáveis pela<br />

proteção de cenários de rara beleza,<br />

palcos de várias práticas esportivas:<br />

os parques e reservas. Em 2003, o<br />

Ministério do Meio Ambiente (MMA)<br />

lançou uma iniciativa para definir<br />

diretrizes de mínimo impacto para<br />

a visitação em Unidades de Conservação<br />

(UCs).<br />

Vários seminários e reuniões foram<br />

promovidos pelo MMA, envolvendo<br />

Surfistas: engajados<br />

em programas de<br />

sensibilização para<br />

preservar sistemas<br />

costeiros<br />

praticantes de caminhada, escalada,<br />

canoagem, rafting, voo livre<br />

e ciclismo, entre outros esportes,<br />

juntamente com os gestores de UCs,<br />

para definirem as melhores práticas<br />

dentro dessas áreas. “O bacana desse<br />

trabalho foi o envolvimento dos<br />

esportistas e de outros segmentos<br />

da sociedade na definição das diretrizes,<br />

muitas vezes por meio de<br />

consultas presenciais, ao invés de se<br />

estabelecer regras sem sequer discuti-las<br />

com a sociedade”, ressalta<br />

Camila Rodrigues, do Departamento<br />

de Áreas Protegidas do MMA.<br />

O documento "Diretrizes para visitação<br />

em unidades de conservação",<br />

lançado em 2006 e disponível no site<br />

do MMA (www.mma.gov.br), traz<br />

um conjunto de princípios e recomendações<br />

para ordenar a visitação<br />

em parques e reservas, visando<br />

assegurar a sustentabilidade desse<br />

“serviço” oferecido pela natureza:<br />

sua beleza cênica.<br />

A popularização do ecoturismo e o<br />

aumento crescente de visitantes em<br />

ambientes naturais, especialmente<br />

nos parques nacionais, foram o<br />

grande motivador da ação do MMA.<br />

Pesquisas mostram que o mercado<br />

de esportes de aventura cresce consideravelmente<br />

a cada ano. Segundo<br />

dados do Conselho Mundial de<br />

Viagem e Turismo (em inglês, World<br />

Travel & Tourism Council – WTTC),<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 37 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


o turismo ecológico representa hoje<br />

de 5% a 8% do negócio turismo, e<br />

tem estimativa de crescimento anual<br />

entre 10% e 30%.<br />

Outro fator relevante nesse cenário<br />

é a diversidade biológica e geográfica<br />

do país. A revista National<br />

Geographic, em sua edição de dezembro<br />

de 2008, cita o Brasil como<br />

o melhor destino turístico para a<br />

prática dos esportes de aventura, ao<br />

lado do Nepal. Sem dúvida, a riqueza<br />

dos biomas brasileiros, bem como<br />

a nossa diversidade cultural, são<br />

atrativos singulares para o aumento<br />

da visitação em áreas naturais.<br />

Pega leve!<br />

Organizados em clubes excursionistas,<br />

associações, federações<br />

e confederação, os montanhistas<br />

brasileiros continuam realizando<br />

campanhas pela ética na montanha<br />

e menor impacto nas paredes de escalada.<br />

Em alguns casos, seguindo<br />

a trilha de entidades internacionais<br />

como a União Internacional das Associações<br />

de Alpinismo (na sigla em<br />

francês, UIAA) ou o Leave no trace<br />

(“Não deixe rastro”), organização<br />

norte-americana dedicada à difusão<br />

da ética em ambientes naturais.<br />

ças’, que são válidas conceitualmente,<br />

mas não ensinam ou<br />

orientam como as pessoas<br />

devem se comportar nestes<br />

ambientes”.<br />

Com o apoio do WWF<br />

Brasil, o projeto elaborou<br />

uma série de cartilhas e<br />

construiu um website<br />

que mantém disponível<br />

todo o material da<br />

campanha (www.pegaleve.org.br).<br />

São<br />

nove livretos, estruturados<br />

em três<br />

eixos: Brasil, com<br />

orientações gerais<br />

para ecoturistas;<br />

Aventura, com<br />

recomendações<br />

específicas para<br />

caminhadas e<br />

acampamento,<br />

visitas a cavernas,<br />

corridas<br />

de aventura e<br />

escalada em<br />

rocha; e Biomas,<br />

dedicado<br />

aos cuidados<br />

especiais que<br />

cada ambiente<br />

deste requer.<br />

Assim surgiu o projeto Pega leve!,<br />

criado pelo Centro Excursionista<br />

Universitário, organização fundada<br />

por estudantes da Universidade<br />

de São Paulo em 1970 e que se<br />

dedica à prática, desenvolvimento<br />

e difusão de atividades esportivas<br />

em ambientes naturais. O objetivo<br />

da iniciativa é propagar a ética do<br />

cuidado ambiental e provocar um<br />

mínimo impacto em locais onde se<br />

praticam esportes como caminhada,<br />

montanhismo, escalada, canoagem,<br />

espeleologia (exploração de cavernas)<br />

e mountain bike.<br />

Lançado em 2002, o programa tem<br />

como foco a difusão de informações<br />

visando aumentar a consciência e o<br />

respeito ao meio ambiente. O coordenador<br />

do Pega leve!, Milton Dines,<br />

lembra que, na época, os parques<br />

começavam a ser muito visitados<br />

e não havia uma orientação precisa<br />

sobre como as pessoas deveriam<br />

agir nesses locais: “Sentíamos falta<br />

de um código de conduta para atividades<br />

ao ar livre. O que tínhamos<br />

até então eram aquelas máximas<br />

‘não deixe nada a não ser pegadas’,<br />

‘não leve nada a não ser lembran-<br />

Dines ressalta<br />

que, para elaborar<br />

o conteúdo das cartilhas,<br />

foram consultados uns 80 códigos<br />

de conduta do mundo inteiro, pela<br />

internet. Esse material ainda se mantém<br />

atual e com resultados concretos.<br />

“Recebemos um número grande<br />

de mensagens por e-mail do país inteiro,<br />

demonstrando interesse pelo<br />

material e pedindo informações,<br />

e conseguimos influenciar outras<br />

iniciativas, como o Programa Trilhas<br />

de São Paulo, do governo do estado,<br />

que, além de fazer um descritivo das<br />

trilhas, criou um passaporte ao estilo<br />

do que existe no Caminho de Santiago<br />

de Compostela, incluindo os<br />

princípios do Pega leve!”, destaca.<br />

Adote uma montanha<br />

Com foco nos locais frequentados<br />

por escaladores e montanhistas,<br />

o programa Adote uma montanha<br />

é uma iniciativa da Confederação<br />

Brasileira de Montanhismo (CBME)<br />

para a conservação desses ambientes.<br />

Por meio de mobilização voluntária,<br />

o programa já conta com 41<br />

áreas adotadas por 30 associações<br />

de montanhismo, em sete estados<br />

brasileiros.<br />

Nessas áreas, os grupos realizam<br />

atividades como recuperação e<br />

manejo de trilhas, remoção de lixo,<br />

recuperação de áreas degradadas e<br />

conscientização de visitantes e moradores<br />

locais sobre a importância<br />

ambiental das montanhas. “Na verdade,<br />

há muito tempo os montanhistas<br />

realizam atividades desse tipo,<br />

como mutirões e campanhas, mas o<br />

que o Adote uma montanha trouxe<br />

foi a possibilidade de concentrar e<br />

fortalecer iniciativas isoladas”, conta<br />

Silvério Nery, presidente da CBME.<br />

Para Silvério, os montanhistas foram<br />

os primeiros a acessarem locais de<br />

rica beleza natural, antes mesmo<br />

deles se transformarem em parques<br />

e reservas, e até hoje alcançam<br />

áreas ainda pouco frequentadas,<br />

de difícil acesso. “Tem uma questão<br />

de maturidade mesmo, e de<br />

pioneirismo. Sentimos na pele que<br />

o tempo está passando e as coisas,<br />

mudando. Percebemos uma grande<br />

foto: Ricardo Ribas/Tyba<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 38 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


foto: Renata Mello/Tyba<br />

transformação nos espaços naturais<br />

nestes últimos 20 anos, em termos<br />

de degradação. As montanhas<br />

começaram a se encher de gente,<br />

com um aumento significativa da<br />

visitação. E, por isso, iniciativas<br />

de mobilização são fundamentais,<br />

ainda que os montanistas tenham<br />

uma consciência ambiental bastante<br />

aguçada. A ficha já caiu”, reflete.<br />

Novos esportes, nova<br />

mentalidade<br />

Se esportes de aventura como o<br />

surfe e a escalada precisaram de<br />

um tempo e de muitas campanhas<br />

para estimular uma atitude mais<br />

consciente na questão ambiental,<br />

outros trazem essa preocupação<br />

em sua essência. É o caso do canionismo,<br />

atividade que consiste na<br />

exploração de cânions, rios em gargantas,<br />

desfiladeiros e cachoeiras.<br />

O esporte surgiu no país na década<br />

de 1990, época em que a mídia<br />

abria grande espaço para o tema<br />

ecologia, especialmente por conta<br />

dos movimentos ambientalistas e<br />

das conferências internacionais de<br />

meio ambiente.<br />

Segundo Carlos Zaith, fotógrafo de<br />

natureza e precursor da atividade no<br />

país, o canionismo já nasceu com<br />

a preocupação ambiental. “É um<br />

esporte moderno, recente e exótico.<br />

Tem poucos praticantes no país,<br />

mas conta com uma consciência<br />

ambiental intrínseca à atividade.<br />

Cada praticante acaba monitorando<br />

os locais que frequenta. Se a<br />

condição da água for insalubre, não<br />

há como praticar”, explica. Zaith<br />

destaca que o rafting e a canoagem<br />

só ganharam maior difusão após<br />

a Rio-92 (Conferência das Nações<br />

Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento)<br />

e seguem a mesma<br />

lógica do canionismo.<br />

O canyoning é um esporte de muita<br />

exigência técnica, uma espécie de<br />

“alpinismo” praticado em cachoeiras,<br />

unindo os ambientes aquático<br />

e vertical. Talvez por isso tenha tão<br />

poucos praticantes no Brasil – menos<br />

de 300 – e impacto ambiental<br />

quase nulo. Entretanto, dentro das<br />

atividades do esporte, a descida de<br />

cachoeira por rapel, também chamada<br />

de cascading, tem sido cada<br />

vez mais procurada no turismo de<br />

aventura. Nos últimos anos, cerca<br />

de 30 mil pessoas já participaram de<br />

operações comerciais de cascading<br />

no Brasil. “As empresas que operam<br />

com a atividade estão conscientes<br />

da necessidade<br />

de proteção<br />

Escaladores: acesso a<br />

locais não visitados<br />

os tornou pioneiros<br />

no trabalho de<br />

conscientização<br />

ambiental<br />

dos ambientes<br />

naturais e praticam<br />

técnicas<br />

d e m í n i m o<br />

impacto específicas”,<br />

alerta<br />

Zaith, que<br />

já explorou e<br />

fotografou os<br />

principais rios<br />

em garganta e<br />

grandes quedas<br />

d’água, em 12 estados<br />

brasileiros.<br />

No Rio Grande do<br />

Sul, a Associação<br />

Cânions da Serra<br />

Geral (Acaserge),<br />

criada em 1998, estabeleceu<br />

uma parceria<br />

com os Parques<br />

Nacionais Serra Geral e<br />

Aparados da Serra, onde<br />

praticam suas atividades.<br />

“Hoje eles ajudam a monitorar<br />

esses parques. Mas<br />

para que pudessem atuar lá<br />

dentro tiveram que negociar<br />

com o Ibama, responsável<br />

Princípios gerais<br />

do Pega leve!<br />

Para se ter um mínimo impacto<br />

em áreas naturais, é<br />

necessário:<br />

1. Planejamento é<br />

fundamental.<br />

2. Você é responsável por<br />

sua segurança.<br />

3. Cuide dos locais por onde<br />

passa, das trilhas e dos<br />

acampamentos.<br />

4. Deixe cada coisa<br />

em seu lugar.<br />

5. Evite fazer fogueiras.<br />

6. Respeite os animais e<br />

as plantas.<br />

7. Seja cortês com<br />

outros visitantes e com a<br />

população local.<br />

8. Participe.<br />

pelas unidades de conservação na<br />

época, e comprovar que a preocupação<br />

ambiental do grupo era real<br />

e se refletia em práticas corretas”,<br />

conta Zaith.<br />

Fundador da Agência H2Omem,<br />

Zaith praticou espeleologia (exploração<br />

de cavernas) antes de se<br />

dedicar ao canionismo no Brasil.<br />

“Um dos principais preceitos do<br />

esporte é o de ser uma atividade de<br />

baixo impacto no convívio com o<br />

ambiente natural. Para uma prática<br />

saudável, a qualidade da água, entre<br />

outras condições ambientais, deve<br />

estar acima de qualquer suspeita.<br />

Por isso, é dever de todo canionista<br />

ser um defensor ferrenho destas<br />

áreas de preservação permanente”,<br />

completa.<br />

Para saber mais:<br />

www.surfesustentavel.blogspot.com<br />

www.ecosurfi.org<br />

www.cbme.org.br<br />

www.femerj.org<br />

www.femesp.org<br />

www.pegaleve.org.br<br />

www.turismoresponsavel.tur.br<br />

www.lnt.org<br />

www.trilhasdesaopaulo.sp.gov.br<br />

www.h2omem.com.br<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 39 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


A força do cyberativismo<br />

ambiental<br />

Cada vez mais, ativistas do mundo inteiro recorrem às<br />

diferentes ferramentas da internet para trocar informações<br />

e denunciar as agressões ao meio ambiente<br />

Ativismo sempre foi uma palavra de<br />

ordem de muita força na defesa do<br />

meio ambiente. E, nos últimos anos,<br />

com o avanço exponencial da internet,<br />

o ativismo através da rede – ou<br />

cyberativismo – se desenvolveu em<br />

proporções inimagináveis, envolvendo<br />

um crescente número de pessoas<br />

de uma forma cada vez mais intensa<br />

e comprometida. Bom para o meio<br />

ambiente, que tem ao seu lado mais<br />

um forte aliado.<br />

C y b erativismo consiste num<br />

modelo de atuação que utiliza as<br />

novas tecnologias de informação<br />

e comunicação – ou, no jargão<br />

internético, TICs – como palco de<br />

suas ações e parâmetro estrutural<br />

de sua organização. “A importância<br />

Por Jaqueline B. Ramos<br />

foto: Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />

da internet hoje para as nossas<br />

campanhas é indiscutível, tanto<br />

no sentido de informar as pessoas<br />

como no de sensibilizar e facilitar<br />

a participação. E isso acaba se<br />

transformando numa forte ferramenta<br />

de pressão política, pois fica evidente<br />

para o governo que o público vê o<br />

que está acontecendo, entende o<br />

quanto aquilo pode impactar suas<br />

vidas e exige ações de mudança”,<br />

afirma Mariana Schwarv, publicitária<br />

da área de marketing online do<br />

Greenpeace Brasil. “A verdade é que<br />

a internet dá voz a todo mundo.”<br />

O Greenpeace é um dos principais<br />

exemplos de organização que “usa<br />

e abusa” da internet tanto para seus<br />

trabalhos de informação e conscientização<br />

como de levantamento de<br />

recursos. E no Greenpeace Brasil<br />

não é diferente. A estratégia é usar os<br />

diferentes recursos oferecidos hoje<br />

pela rede para atingir um número<br />

cada vez maior de pessoas com<br />

uma linguagem clara e objetiva. Em<br />

termos práticos, isso significa que o<br />

Greenpeace está em todas as modernas<br />

redes sociais – Orkut, Facebook e<br />

Twitter, por exemplo – e utiliza recursos<br />

como vídeos, animações e flash<br />

para tornar as mensagens digitais<br />

cada vez mais acessíveis.<br />

Os números confirmam o sucesso do<br />

cyberativismo da ONG. O cadastro<br />

base de cyberativistas do Greenpeace<br />

Brasil é composto atualmente<br />

por nada mais nada menos que 260<br />

mil nomes. E o Twitter da organização<br />

tem mais de 32 mil seguidores,<br />

sendo o maior e o que faz mais sucesso<br />

entre todos os escritórios do<br />

Greenpeace no mundo – incluindo o<br />

internacional, que tem “apenas” 14<br />

mil seguidores.<br />

“Usamos o Twitter há pouco mais de<br />

seis meses e felizmente tem sido um<br />

grande sucesso. Procuramos twittar<br />

notícias e também informações de<br />

serviço para os internautas, bem<br />

como ações ao vivo, o que desperta<br />

um grande interesse. Em termos de<br />

volume de pessoas envolvidas, também<br />

destacamos o Orkut, que reúne<br />

comunidades ligadas diretamente às<br />

nossas campanhas e também comunidades<br />

simpatizantes”, diz Mariana.<br />

Ela destaca a recente campanha<br />

online sobre a MP-458 (de regularização<br />

fundiária da Amazônia), na qual<br />

divulgaram os telefones do gabinete<br />

do presidente Lula e cujo resultado<br />

foi que os internautas lotaram a caixa<br />

postal presidencial com mensagens<br />

contrárias à aprovação da lei.<br />

O jornalista e escritor Vilmar Berna,<br />

um dos precursores no movimento<br />

de divulgação de informações no<br />

movimento ambiental brasileiro, é<br />

um dos entusiastas da internet e do<br />

cyberativismo. Editor do Portal do<br />

Meio Ambiente e fundador da Rede<br />

Brasileira de Informação <strong>Ambiental</strong><br />

(Rebia), ele lembra que a internet é<br />

um território livre, não controlado por<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 40 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


Campanha do Greenpeace-Brasil:<br />

cadastro de cyberativistas tem<br />

260 mil nomes<br />

político algum. “Todos sabem<br />

o poder que o povo tem e não<br />

há um político que não tema esse<br />

poder popular. Nesse contexto, a<br />

internet assume um papel muito importante”,<br />

garante.<br />

Inclusão digital e atuação in loco<br />

Em meio ao avanço exponencial do cyberativismo,<br />

com todos os modernos recursos<br />

oferecidos pela rede, uma questão merece<br />

ser ressaltada: o acesso, propriamente dito, à<br />

internet. Apesar de ser um veículo democrático<br />

e livre, a web ainda é um privilégio que não alcança<br />

nem 20% da sociedade brasileira. E isso<br />

é um ponto que merece ser considerado.<br />

“Acho que todos os recursos cumprem seu<br />

papel na rede virtual. São ferramentas de comunicação<br />

livres e interativas, de mão dupla, em<br />

que a gente é influenciado e também influencia.<br />

O desafio é promover a inclusão digital de mais<br />

e mais brasileiros e lutar pela democratização<br />

da informação socioambiental, pois, sem<br />

acesso adequado à informação, dificilmente a<br />

sociedade conseguirá avançar a tempo rumo<br />

a um modelo diferente de desenvolvimento<br />

deste que está conduzindo a humanidade ao<br />

colapso", afirma Vilmar.<br />

Outro desafio para o cyberativismo é a sua<br />

utilização de forma inteligente. Em outras palavras,<br />

é saber usar a internet e as TICs como<br />

plataformas e objetos de organização, para dar<br />

visibilidade à causa e recrutar novos ativistas,<br />

mas nunca substituir a atuação in loco. A opinião<br />

é do jornalista Pedro Penido, especialista<br />

em comunicação online e em produção para<br />

mídias digitais.<br />

“Apesar de inicialmente o cyberativismo ser<br />

muito sedutor e apresentar possibilidades<br />

muito interessantes, a médio e longo prazos há<br />

o risco dessas opções removerem do ativismo<br />

sua essência e torná-lo apenas um ensaio,<br />

enquadrado de acordo com as limitações<br />

midiáticas da web. Acredito que a internet e o<br />

ciberespaço possam ser utilizados de maneira<br />

inteligente como plataformas de lançamento<br />

de campanhas, como repositórios de informações<br />

qualificadas, dados e estatísticas, como<br />

opção de organização de grupos e troca rápida<br />

e segura de informações. Mas o cyberativismo<br />

nunca pode tomar o lugar da atuação in loco”,<br />

conclui Penido.<br />

foto: Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />

Os recursos Web 2.0 para o<br />

cyberativismo<br />

Twitter<br />

A característica principal do Twitter é a<br />

de seu imediatismo, da velocidade das<br />

informações e da possibilidade de “seguir”<br />

(ouvir) apenas quem interessa a você. Da mesma<br />

maneira, você só será “seguido” (ouvido) por pessoas<br />

que se interessam pelo seu campo de atuação. É uma boa opção<br />

por oferecer opções de aprofundamento das informações para<br />

públicos já filtrados/segmentados. O Twitter pode ser utilizado<br />

para compartilhar informações mais específicas e detalhadas.<br />

Além disso, é um fator mobilizador, uma vez que permite alcance<br />

e penetração de maneira rápida e precisa.<br />

Redes Sociais (Ning)<br />

O Ning é uma estrutura nova na internet. Seu principal objetivo<br />

não é o de reunir pessoas apenas, mas o de reunir pessoas que<br />

queiram reunir pessoas. O Ning permite que você crie sua própria<br />

rede social, organizando-a de acordo com suas necessidades<br />

e oferecendo múltiplas ferramentas e recursos para que sua<br />

experiência seja interessante e atraente, de modo que pessoas<br />

possam se inscrever na rede recém-criada e nela compartilharem<br />

informações. Pode servir como repositório de dados, fotos, vídeos,<br />

agenda e informações que podem ser difundidas no Twitter,<br />

por exemplo.<br />

Facebook e Orkut<br />

Facebook e Orkut são redes de relacionamento gigantescas, com<br />

milhões de usuários. A entrada de um movimento de ativismo<br />

nessas redes pode funcionar como chamariz para a causa.<br />

As palavras que regem a participação de um movimento ativista<br />

nessas redes são visibilidade e recrutamento. No entanto, não se<br />

pode esperar que tenham a mesma profundidade que outros recursos<br />

destinados exclusivamente ao movimento ou à causa.<br />

Blogs<br />

Blogs servem às mais variadas causas, projetos e interesses. É<br />

uma ferramenta para dizer as coisas na internet, de acordo com<br />

uma rotina de publicação e política editorial mais livre de amarras<br />

institucionais. Blogs são mais limitados em termos interacionais,<br />

porém mais avançados em termos “jornalísticos” (mediadores<br />

de informação). E isso, quando bem utilizado e pensado, pode<br />

servir como salvaguarda de múltiplas necessidades ao longo de<br />

um processo mobilizador.<br />

Listas de discussão<br />

Mesmo tendo perdido parte de sua força para a popularização<br />

das redes sociais atuais, as listas de discussão sempre podem<br />

servir como mantenedoras da organização informacional e<br />

estrutural de um movimento. Nelas sabe-se da participação<br />

de cada um. Nelas acontecem demonstrações de opinião que<br />

permitem desdobramentos mais intensos e menos “imediatistas”.<br />

Conservando todas as características do uso dos e-mails,<br />

as listas de discussão podem ser uma viga mestra dentro de<br />

um movimento, ou, no mínimo, a responsável por permitir uma<br />

visualização da participação das pessoas.<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 41<br />

Fonte: Pedro Penido (Meio Digital)


Quilombolas de<br />

^<br />

Alcantara lutam<br />

por terra<br />

Famoso por sua arquitetura<br />

colonial, município<br />

maranhense abriga também<br />

centro de lançamento<br />

de foguetes, cuja<br />

instalação afetou a vida<br />

de comunidades negras<br />

tradicionais.<br />

Texto e fotos de<br />

João Roberto Ripper<br />

O município de Alcântara, no Maranhão,<br />

é nacionalmente conhecido<br />

pela beleza de seus azulejos portugueses,<br />

por sua arquitetura colonial<br />

e por sediar a base aeroespacial<br />

brasileira, no chamado Centro de<br />

Lançamento de Alcântara (CLA).<br />

O que poucos brasileiros sabem,<br />

no entanto, é que Alcântara abriga<br />

também importantes comunidades<br />

de quilombolas (comunidades cujos<br />

integrantes são remanescentes de<br />

antigos quilombos, centros de resistência<br />

da cultura negra). E mais:<br />

que esses grupos lutam, há anos,<br />

pela preservação de suas terras e<br />

de suas culturas, ameaçadas com<br />

a instalação da base de lançamento<br />

de foguetes.<br />

Há séculos, a população majoritariamente<br />

negra de Alcântara se<br />

organizou em comunidades e transformou<br />

suas terras num imenso<br />

42


em coletivo, onde produzem com<br />

liberdade e respeito às famílias.<br />

Desde a década de 1980, porém, a<br />

vida dos quilombolas de Alcântara<br />

tem sofrido grandes transformações,<br />

a partir do momento em que uma<br />

extensa área do território por eles<br />

habitado foi desapropriada para a<br />

construção da base espacial. De uma<br />

hora para outra, centenas de famílias<br />

foram deslocadas e proibidas de<br />

retornar às suas áreas tradicionais,<br />

onde mantinham suas casas, suas<br />

roças e viviam também da pesca e<br />

do extrativismo.<br />

Para frear os constantes despejos<br />

e deslocamentos das comunidades<br />

tradicionais, os quilombolas de<br />

Alcântara começaram, então, um<br />

processo de organização, criando<br />

movimentos em defesa de sua cultura<br />

e de sua forma de organização<br />

da economia. Passaram a exigir do<br />

Governo Federal a regulamentação<br />

dos territórios quilombolas, como<br />

prevê a Constituição Federal Brasileira,<br />

de 1988, assim como a Convenção<br />

169 da Organização Internacional do<br />

Trabalho (OIT).<br />

Território Étnico de<br />

Alcântara<br />

Após longa luta, no ano 2000, as<br />

organizações quilombolas fizeram<br />

denúncia à Comissão dos Direitos<br />

Humanos da Organização dos Estados<br />

Americanos (OEA), responsabilizando<br />

o governo brasileiro pelo deslocamento<br />

das famílias quilombolas<br />

e suas consequências. O movimento<br />

e a denúncia surtiram efeito e, em<br />

2006, a justiça federal determinou<br />

que o Instituto Nacional de Colonização<br />

e Reforma Agrária (Incra)<br />

concluísse o processo de titulação<br />

do Território Étnico de Alcântara,<br />

baseado em laudo do antropólogo<br />

e professor Alfredo Wagner Berno<br />

de Almeida, elaborado a pedido do<br />

Ministério Público Federal. Agora, os<br />

quilombolas se organizam para escolher<br />

a instituição que os representará<br />

para receber o título.<br />

De acordo com o laudo antropológico,<br />

as próprias comunidades<br />

remanescentes de quilombos no<br />

município de Alcântara é que se<br />

autodefinem como étnicorraciais,<br />

na busca de seus direitos. O documento<br />

aponta a mobilização social e<br />

as principais conquistas das comunidades<br />

pelo direito ao seu território<br />

tradicional. Mostra também a luta<br />

pela visibilidade pública da realidade<br />

quilombola e pela manutenção de<br />

suas visões de mundo.<br />

O reconhecimento definitivo para<br />

fins de titulação das terras deve ser<br />

dado às comunidades, garante o<br />

laudo do professor Alfredo Wagner,<br />

que se baseia no artigo 68 do Ato<br />

das Disposições Transitórias da<br />

Constituição Federal. Diz o texto<br />

constitucional: “Aos remanescentes<br />

das comunidades dos quilombos<br />

que estejam ocupando suas terras é<br />

reconhecida a propriedade definitiva,<br />

devendo o Estado emitir-lhes os<br />

títulos respectivos”.<br />

Para a composição<br />

do laudo, 53 comunidades<br />

foram visitadas e mais de 70 pessoas<br />

entrevistadas diretamente. O laudo<br />

antropológico alerta para os “interesses<br />

que se contrapõem às comunidades<br />

quilombolas de Alcântara,<br />

de acordo com as medidas oficiais<br />

que afetam seu modo de fazer e de<br />

continuar vivendo nas terras”. Aponta<br />

também os impactos causados<br />

aos quilombolas com a implantação<br />

do Centro de Lançamento. E revela,<br />

ainda, como a base de foguetes e a<br />

ação dos latifúndios antigos ferem o<br />

desenvolvimento da cultura de um<br />

povo, sua organização econômica,<br />

política e social. “Essa destruição é<br />

dolorosamente vivenciada por décadas<br />

e décadas pelos remanescentes<br />

de quilombos. Com a implantação da<br />

base, de uma hora para outra, todos<br />

os seus direitos enquanto cidadãos<br />

são violados de forma violenta”,<br />

atesta o documento.<br />

Segundo Sérvulo Borges, o Borjão,<br />

coordenador do Movimento dos<br />

Atingidos pela Base (MAB), Alcântara<br />

convive hoje com três diferentes<br />

territórios quilombolas. Os três territórios<br />

envolvem 110 comunidades,<br />

com mais de 15 mil pessoas, e estão<br />

em processo<br />

Quilombo<br />

Mamuna<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 43 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


Quilombo São Raimundo<br />

de titulação, com relatórios prontos,<br />

respondendo a contestações por<br />

parte do governo, que mantém os<br />

processos em “banho-maria”, uma<br />

vez que tem interesse na expansão<br />

da base aeroespacial. Os territórios<br />

que estão na área da base envolvem<br />

3.598 famílias.<br />

Ameaça à soberania<br />

nacional<br />

Em 2000, durante o governo de<br />

Fernando Henrique Cardoso, um<br />

acordo de salvaguardas tecnológicas<br />

foi assinado entre Brasil e EUA,<br />

assegurando aos norte-americanos<br />

o direito de usar a base espacial de<br />

Alcântara, “estrategicamente situada<br />

na entrada da Amazônia”, conforme<br />

observou o jornalista José Arbex<br />

Júnior em artigo publicado em 19<br />

de agosto de 2002, sob o título FHC<br />

entrega Base de Alcântara a Tio Sam.<br />

No mesmo artigo, ele lembra que a<br />

posição geográfica da base é perfeita<br />

para o lançamento de foguetes, por<br />

estar situada a dois graus da linha<br />

do Equador, tornando o projeto bem<br />

mais econômico no tocante ao uso<br />

de combustível.<br />

O acordo era bastante favorável aos<br />

norte-americanos, garantindo-lhes<br />

o controle total sobre a base de<br />

lançamentos e permitindo aos Estados<br />

Unidos desenvolver programas<br />

sigilosos e realizar operações sem<br />

o conhecimento das autoridades<br />

brasileiras. Além disso, somente as<br />

pessoas ligadas ao programa aeroespacial<br />

dos Estados Unidos estariam<br />

autorizadas a circular em Alcântara.<br />

Nem mesmo parlamentares brasileiros<br />

ou membros do Executivo,<br />

incluindo o presidente da República<br />

do Brasil, poderiam circular na área<br />

sem prévia autorização do governo<br />

norte-americano.<br />

Outro item do acordo francamente<br />

desfavorável ao Brasil era o fato de<br />

que nenhum brasileiro poderia ter<br />

acesso a nenhum material que chegasse<br />

ou saísse da base, qualquer<br />

que fosse a sua origem ou destinação.<br />

Tudo isso por 34 milhões de<br />

dólares anuais. Verdadeira ameaça<br />

à soberania nacional, conforme definiu<br />

manifesto assinado por dezenas<br />

de entidades e personalidades<br />

brasileiras, em ato que reuniu mais<br />

de três mil pessoas no Teatro João<br />

Caetano, no Rio de Janeiro, em junho<br />

de 2002.<br />

Posteriormente, esse acordo foi<br />

abandonado, já que não chegou a ser<br />

aprovado no Congresso. Já no governo<br />

Lula, foi assinado novo acordo,<br />

desta vez com a Ucrânia, com Roseane<br />

Sarney à frente do governo maranhense.<br />

Após o acordo com aquele<br />

país, um acidente na plataforma<br />

de lançamento de foguetes deixou<br />

um saldo de 21 mortos, em agosto<br />

de 2003. Atualmente, o governo se<br />

prepara para fazer o lançamento do<br />

foguete Ciclone 4 no Centro de Lançamento<br />

de Alcântara.<br />

O coordenador do MAB, Sérvulo Borges,<br />

acredita que a mobilização das<br />

populações nativas foi importante<br />

para que o acordo com os Estados<br />

Unidos não fosse adiante, mas acha<br />

que ainda há muito a fazer. “Fizeram<br />

um estudo ambiental exigido pelo<br />

Ibama (Instituto do Meio Ambiente e<br />

Recursos Naturais Renováveis), mas<br />

continuaram os desmatamentos”, diz<br />

o coordenador do MAB. As comunidades<br />

quilombolas se mobilizaram,<br />

fizeram manifestações, fecharam<br />

estradas e ajuizaram ação, tendo conseguido<br />

barrar na Justiça a expansão<br />

do desmatamento naquela área, com<br />

a regulamentação garantida pelo<br />

decreto 4.887.<br />

“A titulação só não acontece porque<br />

existe um interesse do governo em<br />

promover mais remanejamentos,<br />

embora não tenham um projeto<br />

claro. Aproveitamos essa incerteza<br />

para mover processos e fazer ações”,<br />

declara Borges.<br />

Resistência: dos<br />

engenhos à base<br />

aeroespacial<br />

A luta das comunidades negras de<br />

Alcântara vem de longa data. “Aqui<br />

existiam inúmeras fazendas de engenhos<br />

que, em 1775, começaram a<br />

entrar em decadência. Desde aquela<br />

época, os quilombolas já mostravam<br />

resistência contra os maus-tratos<br />

e trabalhos forçados. Existem, inclusive,<br />

registros de solicitação de<br />

tropas para atacar quilombolas”,<br />

conta Borjão<br />

Em 1980, o governo estadual decretou<br />

o despejo e a desapropriação de áreas<br />

para a implantação da base. Na ocasião,<br />

foram desapropriados, para fins<br />

de utilidade pública, 52 mil hectares de<br />

terras para a criação da base espacial.<br />

Em 1990, o governo Collor ampliou<br />

esse número para 62 mil hectares.<br />

Desde então, já foram retiradas do<br />

local 312 famílias de 23 comunidades,<br />

reinstaladas em sete agrovilas.<br />

“Com tudo isso acontecendo, nos<br />

mobilizamos e os quilombolas entraram<br />

na justiça com uma ação civil<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 44 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


Inácio Diniz<br />

e Sérvulo<br />

Borges: luta<br />

por melhor<br />

qualidade<br />

de vida<br />

pública. Como<br />

consequência,<br />

foi feito o relatório<br />

de delimitação e identificação<br />

da área, a partir do laudo<br />

antropológico do professor Alfredo Wagner, que<br />

considerou a área um território étnico”, ressalta<br />

Borges.<br />

Na verdade, o avanço sobre os territórios dos quilombolas<br />

de Alcântara é bem anterior: desde 1962<br />

são feitas propostas de metodologia de implantação<br />

da base, acarretando especulação e um desenvolvimento<br />

desenfreado que desconsidera o modo<br />

de vida das comunidades locais. “Aqui acontece<br />

um verdadeiro apartheid social e cultural”, critica o<br />

coordenador do MAB.<br />

Borges faz questão de esclarecer que “participação<br />

popular” não significa “dar emprego pra limpar latrina,<br />

nem empregar jovens para serem soldados”.<br />

A comunidade quer saber se vai ser integrada ao<br />

processo de forma mais ampla e inclusiva: “Vamos<br />

ter uma faculdade que forme cientistas? Então<br />

que se preparem quilombolas para participar”, diz,<br />

acrescentando que a comunidade quer discutir com<br />

o município um plano de economia sustentável, pois<br />

a maioria dos quilombolas é formada por agricultores<br />

que vivem da agricultura de subsistência, do<br />

extrativismo e da pesca.<br />

Após o processo de transferência para as agrovilas,<br />

as 312 famílias não só perderam seus territórios originais<br />

como tiveram que abrir mão de seu meio de<br />

subsistência. Isso atinge cerca de 23 comunidades,<br />

de um total de 110.<br />

E as ameaças continuam, já que o governo quer expandir<br />

a base para os territórios onde estão instaladas<br />

as comunidades de Mamuna, Brito, Mamuninha,<br />

Itapera, Canelatiua, Ponte de Areia, Santa Maria, São<br />

João de Cortes e Vista Alegre. São comunidades que<br />

já vivem nessas localidades há 300 anos.<br />

Os territórios quilombolas<br />

Existem atualmente em Alcântara três territórios<br />

quilombolas: o chamado território étnico, que<br />

engloba 110 comunidades, com 89 mil hectares; o<br />

território do quilombo Itamatatiua (57 mil hectares),<br />

que abarca outros quilombos; e o território da Ilha<br />

do Cajual, de apenas seis mil hectares. Todos são<br />

certificados pela Fundação Cultural Palmares, órgão<br />

do Ministério da Cultura.<br />

No momento, está sendo estudada a forma como<br />

serão administrados esses territórios. A titulação<br />

deverá ser em nome de uma “associação mãe”, que<br />

receberá os títulos e fará a gestão com as associações<br />

das comunidades quilombolas.<br />

Quilombos no Brasil<br />

Segundo documentos da Fundação Cultural Palmares,<br />

órgão do Ministério da Cultura, no Brasil<br />

estão identificadas, oficialmente, mil comunidades<br />

remanescentes dos quilombos. A maioria se localiza<br />

nos Estados da Bahia e Maranhão, embora existam<br />

comunidades quilombolas em todo o país.<br />

O governo brasileiro considera comunidades remanescentes<br />

de quilombos os grupos étnicorraciais, segundo<br />

critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria,<br />

dotados de relações territoriais específicas, com presunção<br />

de ancestralidade negra relacionada com formas<br />

de resistência à opressão histórica sofrida.<br />

Já o conceito de comunidades negras tradicionais é mais<br />

amplo. São grupos culturalmente diferenciados e que se<br />

reconhecem como tais, que possuem formas próprias<br />

de organização social, que ocupam e usam territórios e<br />

recursos naturais como condição para sua reprodução<br />

cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando<br />

conhecimentos, inovações e práticas gerados e<br />

transmitidos pela tradição. Nele podem ser englobados,<br />

por exemplo, os próprios quilombolas, além dos terreiros<br />

de matriz africana, as comunidades negras rurais que não<br />

detêm modo de vida próprio de comunidades quilombolas,<br />

bem como os povos indígenas.<br />

Esses conceitos são definidos por dois decretos: o no<br />

6040/2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento<br />

Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais,<br />

e o decreto no 4.887/2003, que regulamenta o procedimento<br />

para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação<br />

e titulação das terras ocupadas por remanescentes<br />

das comunidades dos quilombos, de que trata o artigo 68<br />

do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.<br />

Os quilombolas e moradores de comunidades negras<br />

tradicionais, espalhados por várias regiões, estão em luta<br />

pelo reconhecimento de suas áreas, seus territórios e por<br />

melhores condições de vida e trabalho. Buscam preservar<br />

suas regiões de origem, onde ainda existam florestas, e<br />

trabalhar nas roças e colheitas extrativistas. Além disso,<br />

tentam melhorias nas áreas de saúde e educação, quase<br />

sempre precárias.<br />

Quilombo Itamatatiua<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 45


Os quilombolas de Alcântara se articulam<br />

para garantir uma titulação<br />

participativa no território étnico da<br />

região. São centenas de negros,<br />

negras e alguns brancos, buscando,<br />

em ações e pensamentos, a luz dos<br />

sonhos. Mulheres e homens que não<br />

perdem a esperança e se mantêm<br />

firmes na busca de seus direitos,<br />

expressando sua coragem e luta na<br />

tradição das danças e nas orações<br />

de seus ancestrais. Com emoção,<br />

fibra e ritmo, viajando nos sons dos<br />

tambores, no canto chorado dos<br />

homens e no requebrar mágico das<br />

mulheres, ecoam o lamento e o grito<br />

de guerra, repetido há centenas de<br />

anos: “A terra é nossa!”<br />

A vida nas agrovilas<br />

Corrida<br />

do saco no<br />

Quilombo<br />

Marudá<br />

O líder comunitário Inácio Silva Diniz,<br />

de 29 anos, nasceu em Alcântara, na<br />

comunidade de São Raimundo, e foi<br />

remanejado em 1987 para a agrovila<br />

Marudá, aos sete anos de idade. Na<br />

sua antiga comunidade existiam<br />

13 famílias, mas para essa agrovila<br />

foram trasladados moradores de 15<br />

comunidades. “Nós não tínhamos<br />

água encanada nem saneamento<br />

básico; aliás, não temos saneamento<br />

até hoje. Onze anos atrás chegou<br />

água e a energia veio antes, em<br />

1992”, conta.<br />

A agrovila Marudá é formada por<br />

habitantes removidos das comunidades<br />

Marudá, Santo Antônio, Ponta<br />

Alta, Curuçá, Jenipariba, Ladeira,<br />

Caninana, Jabaquara, Fé em Deus,<br />

Piraema, São Raimundo, Águas Belas,<br />

Corre Prata, Camarajá, Jardim e<br />

Santa Rosa. Uma casa na vila urbana<br />

tem 25 metros por 40 e cada família<br />

tem um lote de 15 hectares na área<br />

rural.<br />

“Antes, todas as famílias plantavam,<br />

pescavam e praticavam o extrativismo<br />

do babaçu, açaí, murici, buriti e<br />

outras frutas, como manga”, recorda<br />

Inácio, referindo-se ao tempo anterior<br />

à transferência para a agrovila.<br />

Segundo os moradores mais antigos,<br />

os lotes das agrovilas não têm o solo<br />

fértil e só algumas pessoas conseguiram<br />

áreas que não encharcam.<br />

Nos solos urbanos das agrovilas,<br />

as raízes apodrecem. Com isso, a<br />

produção agrícola caiu muito. Hoje,<br />

as famílias, na sua maioria, têm que<br />

comprar até farinha.<br />

A renda da maioria das famílias consiste<br />

de aposentadorias dos mais<br />

velhos e do Bolsa Família, que varia<br />

entre R$ 40 e R$ 120. Algumas pessoas,<br />

esporadicamente, alcançam<br />

rendas alternativas quando conseguem,<br />

longe da comunidade, uma<br />

boa pesca, ou mediante a venda de<br />

carvão com resto de lenha de roça.<br />

Em média, 40 sacos de carvão são<br />

vendidos a R$ 170. Outras possibilidades<br />

relacionam-se ao emprego<br />

de mão de obra no roçado, no corte<br />

de lenha ou no ofício de pedreiro e<br />

de carpintaria.<br />

Marudá hoje conta com uma associação<br />

que reúne 55 famílias. Em<br />

muitas delas, é o aposentado quem<br />

garante o sustento da própria casa,<br />

além de ajudar os filhos casados. As<br />

mães jovens se veem forçadas, para<br />

ajudar os pais a criar seus filhos,<br />

a trabalhar em São Luís. A criança<br />

fica com os avós. “A comunidade de<br />

Marudá, hoje, vive um abandono. De<br />

100 casas construídas, quase 50%<br />

estão fechadas. As pessoas foram<br />

tentar uma vida melhor nas cidades,<br />

principalmente em Alcântara e São<br />

Luís, mas tem gente espalhada pelo<br />

Brasil inteiro”, conta Inácio.<br />

Nessa agrovila não há pessoas vivendo<br />

na miséria, mas a quantidade<br />

e a qualidade de alimento caíram<br />

acentuadamente. A produção de um<br />

morador local não garante o sustento<br />

alimentar de sua família por mais de<br />

cinco meses. Muitas pessoas fazem<br />

apenas uma refeição por dia e, se<br />

ninguém fica sem comer, deve isso<br />

às aposentadorias dos idosos, ao<br />

Bolsa Família e à solidariedade entre<br />

os vizinhos.<br />

O líder comunitário explica que a vida<br />

está mais difícil, pois “antigamente<br />

existiam os igarapés (rios pequenos)<br />

e plantio com fartura que dava pra alimentar<br />

a família o ano inteiro”. Hoje,<br />

cerca de 80% do peixe consumido<br />

em Marudá vem do mercado de Alcântara.<br />

“Antes, pescávamos na praia<br />

e hoje, nas vendas”, constata.<br />

Ao todo, são sete agrovilas e há apenas<br />

quatro escolas construídas pela<br />

Aeronáutica. Em duas delas, só se<br />

ensina até a quarta série; nas outras<br />

duas, até a oitava. Marudá tem uma<br />

escola que funciona do pré-escolar<br />

até a quarta série. Recebe alunos<br />

de outras agrovilas e comunidades,<br />

como Cuicaua, Ponta Seca, Só Assim<br />

e Pipital. Em Marudá, somente três<br />

pessoas estão empregadas na base<br />

de Alcântara. Trabalham como auxiliares<br />

de limpeza, ganhando salário<br />

mínimo.<br />

Em Alcântara, entre quilombolas de<br />

várias comunidades, apenas cinco<br />

moradores conseguiram entrar para<br />

faculdade: três estudam Pedagogia<br />

e duas, Agronomia. Um deles é Inácio,<br />

que se formou em dezembro de<br />

2008. Ele é uma espécie de “faz-tudo”<br />

na comunidade: organiza reuniões,<br />

cuida da rede de encanamentos, é<br />

vice-presidente da Associação dos<br />

Moradores de São Sebastião, uma<br />

comunidade de Marudá, busca assistência<br />

médica para os moradores<br />

e leva os doentes para Alcântara,<br />

pois o posto de saúde só funciona<br />

pela manhã e não há médicos. Além<br />

disso, não mede esforços para que<br />

as pessoas da comunidade sejam<br />

capacitadas.<br />

“A Aeronáutica só nos procura quando<br />

há alguma troca de comando ou<br />

alguma questão de propriedade.<br />

Eles interferem nas medições ou<br />

em qualquer casa que queremos<br />

construir. Aparecem também se tiver<br />

lançamento de foguete ou quando<br />

tem visita de alguma autoridade.<br />

Queremos conseguir projetos para<br />

cursos que capacitem os moradores,<br />

mas o governo só conversa com a<br />

Aeronáutica e o governo da Ucrânia.<br />

Não participamos de decisão nenhuma”,<br />

lamenta Inácio.<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 46 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


Quilombo<br />

Samucangaua<br />

“Para os quilombolas,<br />

a terra é mais do que um bem econômico”<br />

Em entrevista exclusiva para a <strong>Senac</strong> & Educação <strong>Ambiental</strong>, o ministro Edson Santos,<br />

da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), fala dos<br />

avanços e dos obstáculos ao reconhecimento dos direitos dos quilombolas e explica os<br />

critérios para a demarcação dessas terras.<br />

fotos: João Roberto Ripper<br />

S&EA – Como está hoje a situação<br />

dos quilombos?<br />

ES – As comunidades tradicionais,<br />

como as comunidades quilombolas,<br />

indígenas, ciganas e de terreiro,<br />

puderam perceber um quadro de<br />

melhora em sua qualidade de vida<br />

no atual contexto de desenvolvimento<br />

econômico e social do país.<br />

No entanto, seus indicadores de<br />

desenvolvimento humano ainda<br />

são muito desiguais quando comparados<br />

aos demais segmentos da<br />

população, demonstrando a necessidade<br />

de investir ainda mais nos<br />

programas específicos voltados a<br />

essas populações.<br />

Sob o ponto de vista dos quilombolas,<br />

a questão fundamental que<br />

se coloca é a garantia do acesso à<br />

terra. A histórica concentração de<br />

terras no Brasil atinge diretamente<br />

essas comunidades, que possuem<br />

uma relação com a terra que transcende<br />

a mera questão produtiva.<br />

Assim como acontece em relação<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 47<br />

aos povos indígenas, a terra para<br />

os quilombolas é mais do que um<br />

bem econômico. Terra e identidade,<br />

para essas comunidades, estão<br />

intimamente relacionadas. A partir<br />

da terra se constituem as relações<br />

sociais, econômicas, culturais e<br />

são transmitidos bens materiais e<br />

imateriais.<br />

Quando privados de sua territorialidade<br />

e, assim, alienados de seu<br />

modo tradicional de vida e produção,<br />

muitos quilombolas buscam o<br />

caminho das periferias das grandes<br />

cidades. Lá chegando, sem os anos<br />

necessários de educação formal ou<br />

qualificação para o trabalho, a eles<br />

resta a miséria e o subemprego.<br />

Simultaneamente, a contínua mobilidade<br />

dos quilombolas para os centros<br />

urbanos, a longo prazo, resulta<br />

na dissolução de suas comunidades<br />

e de sua identidade. Essa é uma<br />

situação que, a despeito de todo o<br />

esforço do Governo Federal, ainda<br />

persiste em várias regiões do país.<br />

O Governo brasileiro busca garantir<br />

um desenvolvimento sustentável<br />

para o meio rural. Nesse contexto,<br />

as garantias presentes na Constituição<br />

Federal e demais instrumentos<br />

legais, visam dar maior equidade no<br />

acesso à terra no país. O direito aos<br />

territórios das comunidades quilombolas,<br />

dos povos indígenas e das demais<br />

comunidades tradicionais deve<br />

ser respeitado e implementado.<br />

S&EA – Que avanços há na qualidade<br />

de vida dessas comunidades?<br />

ES – Apesar de todas as dificuldades,<br />

são muitos os avanços. Gradualmente,<br />

transpomos as barreiras<br />

que separam as comunidades<br />

quilombolas do<br />

pleno exercício dos<br />

direitos de cidadania,<br />

Edson Santos:<br />

"Apesar de todas as<br />

dificuldades, são muitos<br />

os avanços"<br />

foto: Divulgação/SEPPIR


que legalmente estão garantidos a<br />

todos os brasileiros e brasileiras.<br />

Desde 2003, o Governo Federal<br />

busca dar maior objetividade na<br />

busca pela superação dos entraves<br />

jurídicos, orçamentários e operacionais<br />

para a promoção da melhoria da<br />

qualidade de vida das comunidades,<br />

por meio da efetivação das políticas<br />

públicas, articuladas no Programa<br />

Brasil Quilombola – PBQ. O Programa<br />

tem por finalidade coordenar as<br />

ações governamentais, através de<br />

articulações transversais, setoriais<br />

e interinstitucionais para as comunidades<br />

quilombolas, com ênfase na<br />

participação da sociedade civil.<br />

Quilombo Itamatatiua<br />

O Programa é coordenado pela<br />

SEPPIR, por meio da Subsecretaria<br />

de Políticas para Comunidades<br />

Tradicionais, e agrega 23 órgãos<br />

da administração pública federal.<br />

É um programa que busca garantir<br />

do direito à terra, à documentação<br />

básica, alimentação, saúde, esporte,<br />

lazer, moradia adequada, serviços<br />

de infra-estrutura, previdência social,<br />

educação e cultura, baseado<br />

na realidade e nas demandas das<br />

comunidades.<br />

S&EA – Quantos estão regularizados?<br />

ES – Existem 107 títulos emitidos,<br />

regularizando 955 mil hectares em<br />

benefício de 98 comunidades e<br />

11.126 famílias.<br />

S&EA – Quais os critérios técnicos<br />

para a definição de um quilombo?<br />

Quilombo Samucangaua<br />

ES – O Decreto nº 4.887, de 20 de<br />

novembro de 2003, regulamenta<br />

o procedimento para identificação,<br />

reconhecimento, delimitação,<br />

demarcação e titulação das terras<br />

ocupadas por remanescentes das<br />

comunidades dos quilombos de que<br />

trata o artigo 68, do Ato das Disposições<br />

Constitucionais Transitórias. A<br />

partir do Decreto nº 4.883/03 ficou<br />

transferida do Ministério da Cultura<br />

para o Ministério do Desenvolvimento<br />

Agrário/ Incra a competência<br />

para a delimitação das terras dos<br />

remanescentes das comunidades<br />

dos quilombos, bem como a determinação<br />

de suas demarcações e<br />

titulações.<br />

Quilombo<br />

Mamuna<br />

Conforme o artigo 2º do Decreto nº<br />

4.887/2003, “consideram-se remanescentes<br />

das comunidades dos<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 48 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>


quilombos, para os fins deste Decreto,<br />

os grupos étnico-raciais, segundo<br />

critérios de auto-atribuição, com<br />

trajetória histórica própria, dotados<br />

de relações territoriais específicas,<br />

com presunção de ancestralidade<br />

negra relacionada com a resistência<br />

à opressão histórica sofrida”.<br />

É a própria comunidade que se<br />

auto-reconhece “remanescente de<br />

quilombo”. O amparo legal é dado<br />

pela Convenção 169, da Organização<br />

Internacional do Trabalho, cujas<br />

determinações foram incorporadas<br />

à legislação brasileira pelo Decreto<br />

Legislativo nº 143/2002 e Decreto nº<br />

5.051/2004.<br />

Cabe à Fundação Cultural Palmares<br />

emitir uma certidão sobre essa<br />

autodefinição. O processo para<br />

essa certificação obedece norma<br />

específica desse órgão (Portaria da<br />

Fundação Cultural Palmares Nº 98,<br />

de 26/11/2007).<br />

Para acessar a política de regularização<br />

de territórios quilombolas,<br />

as comunidades devem encaminhar<br />

uma declaração na qual se<br />

identificam enquanto comunidade<br />

remanescente de quilombo à Fundação<br />

Cultural Palmares, que, após<br />

a confirmação da origem quilombola<br />

por meio de um estudo antropológico,<br />

expedirá uma Certidão de<br />

Auto-reconhecimento em nome da<br />

mesma.<br />

Por força do Decreto nº 4.887, de<br />

2003, o Incra é o órgão competente,<br />

na esfera federal, pela titulação<br />

dos territórios quilombolas. Para<br />

que o Incra inicie os trabalhos em<br />

determinada comunidade, ela deve<br />

apresentar a Certidão de Registro no<br />

Cadastro Geral de Remanescentes<br />

de Comunidades de Quilombos,<br />

emitida pela Fundação Cultural Palmares.<br />

A primeira parte dos trabalhos<br />

do Incra consiste na elaboração<br />

de um estudo da área, destinado à<br />

confecção do Relatório Técnico de<br />

Identificação e Delimitação (RTID)<br />

do território. Uma segunda etapa é<br />

a de recepção, análise e julgamento<br />

de eventuais contestações. Aprovado<br />

em definitivo esse relatório, o<br />

Incra publica uma portaria de reconhecimento<br />

que declara os limites<br />

do território quilombola.<br />

A fase seguinte do processo administrativo<br />

corresponde à regularização<br />

fundiária, com desintrusão<br />

de ocupantes não quilombolas<br />

mediante desapropriação e/ ou<br />

pagamento de indenização e demarcação<br />

do território. O processo<br />

culmina com a concessão do título<br />

de propriedade à comunidade, que é<br />

coletivo, pró-indiviso e em nome da<br />

associação dos moradores da área,<br />

registrado no cartório de imóveis,<br />

sem qualquer ônus financeiro para<br />

a comunidade beneficiada.<br />

S&EA – Quanto tempo leva, em<br />

média, esse processo?<br />

ES – É difícil precisar, porque existem<br />

muitas variantes. Cada caso é<br />

um caso. Existem áreas reivindicadas<br />

por comunidades remanescentes<br />

de quilombos que são disputadas<br />

por outros grupos.<br />

S&EA – Qual o principal problema<br />

no Brasil para a regularização e<br />

posse definitiva de todas as áreas<br />

quilombolas?<br />

ES – São grandes os obstáculos. A<br />

garantia dos direitos dos quilombolas,<br />

assim como as políticas de promoção<br />

da igualdade racial de uma<br />

forma mais ampla, está colocada<br />

no centro de uma disputa ideológica<br />

hoje desenhada em nossa sociedade.<br />

As contestações à demarcação<br />

de terras quilombolas feitas na<br />

justiça, as reações dos setores mais<br />

conservadores através da imprensa<br />

e o recrudescimento da violência no<br />

campo são a prova disso.<br />

Festa de Santa<br />

Terezinha,<br />

Quilombo<br />

Itamatatiua<br />

<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 49 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009


Quilombo Ilha do Cajual<br />

S&EA – O que o sr. acha do Estatuto<br />

da Igualdade Racial, atualmente<br />

em discussão no Congresso? O sr.<br />

considera que está bem colocada<br />

a questão dos quilombolas nesse<br />

estatuto?<br />

ES – O Estatuto da Igualdade Racial<br />

foi concebido para alcançar direitos<br />

essenciais à população negra<br />

em sua totalidade. O Projeto de<br />

Lei nº 6.264 de 2005 veicula normas<br />

com a finalidade de combater<br />

a discriminação racial incidente<br />

sobre a população negra com a implementação<br />

de políticas públicas,<br />

sob responsabilidade do Estado,<br />

contemplando os seguintes eixos<br />

de atuação: saúde; educação;<br />

cultura; esporte; lazer; liberdade<br />

de consciência, de crença e livre<br />

exercício dos cultos religiosos;<br />

financiamento das iniciativas de<br />

promoção da igualdade racial;<br />

moradia adequada; direito dos<br />

remanescentes das comunidades<br />

dos quilombos as suas terras; mercado<br />

de trabalho; sistema de cotas;<br />

meios de comunicação; ouvidorias<br />

permanentes nas casas legislativas<br />

e acesso à justiça.<br />

A SEPPIR/ PR e a Casa Civil iniciaram<br />

em 2003 debate sistemático<br />

sobre o Estatuto no âmbito do Governo<br />

Federal, com a participação<br />

de diversos órgãos diretamente<br />

envolvidos nos temas contemplados<br />

no Projeto de Lei. Até o ano<br />

de 2005, o projeto do Estatuto da<br />

Igualdade Racial refletiu o diálogo<br />

realizado entre o movimento negro,<br />

o Governo Federal e o Congresso<br />

Nacional sobre a realidade da discriminação<br />

racial experimentada pela<br />

população negra brasileira.<br />

Contudo, desde sua proposição,<br />

houve avanço significativo na implementação<br />

de novos instrumentos<br />

de promoção da igualdade racial por<br />

parte do Governo Federal. O que<br />

gerou a necessidade de adequar os<br />

dispositivos contidos no Projeto de<br />

Lei. Para tanto, foram consultados<br />

importantes segmentos do movimento<br />

negro, parlamentares de amplo<br />

espectro partidário e órgãos do<br />

governo, com o objetivo de propiciar<br />

maior participação dos interessados<br />

no assunto.<br />

A atual disposição dos artigos no<br />

substitutivo ao PL nº 6.264/2005<br />

visa melhorar os eixos de atuação<br />

do instrumento normativo. Os<br />

artigos que tratavam de assuntos<br />

específicos inseridos em outros<br />

capítulos foram remanejados para<br />

a área pertinente, havendo apenas<br />

adequação estrutural, sem ferir o<br />

sentido original do projeto.<br />

Em relação às comunidades remanescentes<br />

de quilombos, o PL<br />

reafirma e resguarda o direito de<br />

propriedade de suas terras, na forma<br />

que dispõe o Artigo 68 do Ato<br />

das Disposições Transitórias da<br />

Constituição Federal. O Governo<br />

parte do princípio que o Artigo 68 é<br />

auto-aplicável.<br />

O capítulo sobre quilombolas no texto<br />

original, com reprodução parcial<br />

do Decreto nº 4.887 e da Instrução<br />

Normativa nº 20 (que inclusive já<br />

foi revogada), criava complicadores<br />

legais para a aprovação do Estatuto.<br />

Cabe ainda salientar que mesmo<br />

com a supressão do capítulo que<br />

tratava especificamente dos direitos<br />

das comunidades quilombolas, a<br />

questão quilombola não perdeu a<br />

centralidade no Projeto de Lei, sendo<br />

contemplada de forma transversal<br />

do início ao fim do documento.<br />

S&EA – Quantos quilombos existem<br />

oficialmente no Brasil?<br />

ES – Até 2002, o Governo Federal<br />

havia identificado a existência de<br />

743 quilombos. Atualmente, em<br />

decorrência da iniciativa das comunidades<br />

quilombolas pelo seu<br />

auto-reconhecimento, do fomento<br />

à ampliação e qualificação dos<br />

serviços disponíveis e da criação<br />

do Programa Brasil Quilombola<br />

(PBQ), que deu visibilidade a essa<br />

política, o número de comunidades<br />

identificadas é de 3.524, dentre as<br />

quais 1.342 foram certificadas pela<br />

Fundação Cultural Palmares.<br />

(João Roberto Ripper)<br />

Quilombo São Raimundo<br />

Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 50 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>

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