Educação Ambiental - Senac
Educação Ambiental - Senac
Educação Ambiental - Senac
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Ano 18<br />
n.2<br />
2009<br />
Cresce<br />
mercado<br />
para<br />
“empregos<br />
verdes”<br />
Sacolas plásticas:<br />
podemos viver<br />
sem elas?<br />
O meio<br />
ambiente visto<br />
pela medicina<br />
Quilombolas lutam<br />
por terra e respeito<br />
às suas tradições
Foto da capa: Luiz Claudio Marigo<br />
Editores<br />
Anna Beatriz de Almeida Waehneldt<br />
Claudia Guimarães<br />
Editoração<br />
Centro de Comunicação Corporativa<br />
Projeto Gráfico,<br />
Programação Visual e Diagramação<br />
Cynthia Carvalho<br />
Revisão<br />
Fabiano Gonçalves<br />
Produção Gráfica<br />
Sandra Regina Fernandes do Amaral<br />
<strong>Senac</strong><br />
Serviço Nacional<br />
de Aprendizagem Comercial<br />
Conselho Nacional<br />
Antonio Oliveira Santos<br />
Presidente<br />
Departamento Nacional<br />
Sidney Cunha<br />
Diretor-Geral<br />
<strong>Senac</strong>/Departamento Nacional<br />
Av. Ayrton Senna 5.555 - Barra da Tijuca<br />
CEP 22775-004 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil<br />
http://www.senac.br<br />
E-mail: senacnet@senac.br<br />
E-mail da revista: educaambiental@senac.br<br />
Os artigos assinados são de inteira respon sabilidade<br />
dos seus autores e sua reprodução, em qualquer<br />
outro veículo de informação, só deve ser feita após<br />
consulta à editoria da publicação <strong>Senac</strong> e Educação<br />
<strong>Ambiental</strong>.<br />
<strong>Senac</strong> e edicação ambiental, – Vol. 1, n.1 (1992)- .<br />
– Rio de Janeiro : <strong>Senac</strong>/DN, 1992- . v. : il.<br />
Semestral<br />
1.Educação ambiental - Periódicos, 2. Ecologia –<br />
Periódicos. I. <strong>Senac</strong>.<br />
Departamento Nacional<br />
CDD 574.507<br />
Referência bibliográfica conforme as normas adotadas<br />
pelo Sistema de Informações Bibliográficas do <strong>Senac</strong>.<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 2 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
Você já pensou em fugir do burburinho da cidade e<br />
trabalhar em um lugar tranqüilo e arborizado, plantando<br />
mudas? Ou aproveitar resíduos sólidos que se prestam<br />
a reciclagem e a partir deles criar novos produtos? E<br />
que tal investir na área de tecnologias para o setor de<br />
energia renovável – eólica, solar, biomassa?<br />
Essas são apenas algumas das inúmeras possibilidades<br />
que se abrem no mercado para os chamados “empregos<br />
verdes” – tema de capa desta edição. Segundo a<br />
Organização Internacional do Trabalho (OIT), em todo<br />
o mundo, devem ser criados até 2 bilhões de novos<br />
empregos relacionados à substituição de práticas não<br />
sustentáveis por procedimentos produtivos menos<br />
agressivos ao meio ambiente.<br />
É nesse sentido que já se encaminham muitas empresas<br />
no Brasil, entre elas a Natura, cujo diretor de Sustentabilidade,<br />
Marcos Vaz, entrevistamos para essa edição.<br />
“Quem resolveu, de fato, conduzir sua atividade dentro<br />
dos princípios da sustentabilidade percebeu que isso<br />
não é custo, mas sim, investimento. É uma forma de<br />
inovar, se diferenciar. Acreditamos que ser sustentável<br />
é uma oportunidade de se aprimorar e de crescimento<br />
constante”, afirmou.<br />
Em outra escala, encontramos esses mesmos princípios<br />
de sustentabilidade permeando o trabalho de<br />
artesãs, que, em diferentes regiões do país, se dedicam<br />
a transformar fibras vegetais em belas peças de artesanato,<br />
como podemos ver na reportagem da seção<br />
“Cultura”.<br />
O caminho para práticas sustentáveis, em todos os<br />
âmbitos da sociedade, não é fácil, como fica claro na<br />
dificuldade de se colocar em prática um conjunto de<br />
medidas que viabilizem a redução no uso de sacolas<br />
plásticas – tema da matéria da seção “3Rs”. Se o uso<br />
individual parece pesar pouco na conta da degradação<br />
ambiental, quando este arraigado hábito é contabilizado<br />
em termos planetários, chega-se à cifra de 500 bilhões<br />
de unidades utilizadas a cada ano. Grande parte delas<br />
termina sendo jogada em rios e mares, provocando<br />
enorme dano à fauna e flora do planeta, que, aliás,<br />
serão objeto de maior atenção em todo o mundo em<br />
2010, decretado pela ONU como o Ano Internacional<br />
da Biodiversidade.<br />
Apesar de todos os percalços, há avanços para se<br />
comemorar, como vemos em outras matérias dessa<br />
edição. Entre eles, estão a crescente sensibilização de<br />
adeptos dos esportes de aventura para a importância<br />
da preservação ecológica, a mobilização em prol do<br />
meio ambiente mediante o uso das ferramentas disponíveis<br />
na internet e a cada vez maior atenção que<br />
as questões ambientais recebem dos profissionais da<br />
área da saúde.<br />
Por último, cabe destacar nessa edição a reportagem<br />
sobre a luta dos quilombolas de Alcântara, no Maranhão,<br />
pela preservação das suas terras e tradições<br />
culturais, tema central da entrevista exclusiva que o<br />
ministro Edson Santos, da Secretaria Especial de Políticas<br />
de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), nos<br />
concedeu.<br />
foto: dreamstime.com<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 3 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
8<br />
Entrevista<br />
Natura: referência<br />
empresarial em gestão<br />
sustentável<br />
Em entrevista a <strong>Senac</strong> &<br />
Educação <strong>Ambiental</strong>, o diretor<br />
de Sustentabilidade da Natura,<br />
Marcos Vaz, revela como a<br />
empresa coloca na prática os<br />
valores socioambientais que<br />
defende e revela os principais<br />
desafios no sentido de reduzir<br />
a sua pegada ecológica.<br />
12<br />
Capa<br />
A expansão dos<br />
empregos verdes<br />
O desafio climático impõe a<br />
substituição de práticas nãosustentáveis<br />
por procedimentos<br />
produtivos mais limpos, tendência<br />
que está gerando cada vez<br />
mais postos de trabalho em<br />
áreas como energia, transporte,<br />
construção civil, sistemas de água,<br />
esgoto e lixo, e atividades como<br />
reflorestamento e paisagismo.<br />
42<br />
Populações Tradicionais<br />
Quilombolas de<br />
Alcântara lutam pela<br />
preservação de suas<br />
terras e cultura<br />
Município maranhense abriga<br />
importantes comunidades<br />
quilombolas, que lutam há anos<br />
pela preservação de suas terras<br />
e de suas culturas, ameaçadas<br />
com a instalação da base de<br />
lançamento de foguetes.<br />
47<br />
“Para os quilombolas, a<br />
terra é mais do que um<br />
bem econômico”<br />
Em entrevista exclusiva para<br />
<strong>Senac</strong> & Educação <strong>Ambiental</strong>,<br />
o ministro Edson Santos, da<br />
Secretaria Especial de Políticas<br />
de Promoção da Igualdade Racial<br />
(SEPPIR), fala dos avanços e dos<br />
obstáculos ao reconhecimento dos<br />
direitos dos quilombolas e explica<br />
os critérios para a demarcação<br />
dessas terras.<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 4 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
20<br />
Cultura<br />
32<br />
Saúde<br />
40<br />
Comunicação<br />
Mulheres transformam<br />
fibras em peças de arte<br />
Artesãs de diferentes regiões se<br />
unem para superar uma realidade<br />
de pobreza por meio do artesanato,<br />
transformando em peças de<br />
arte os frutos que a natureza<br />
generosamente lhes oferece.<br />
24<br />
Biodiversidade<br />
2010: o Ano Internacional<br />
da Biodiversidade<br />
No Ano Internacional da<br />
Biodiversidade, a ser comemorado<br />
com diversos eventos ao longo de<br />
2010, especialistas do mundo inteiro<br />
alertam para a crescente destruição<br />
da fauna e flora do planeta e<br />
apontam experiências bemsucedidas<br />
em diferentes países.<br />
O meio ambiente<br />
visto pela medicina<br />
Os impactos causados pelo<br />
desequilíbrio ambiental na saúde<br />
humana mobilizam, em todo o<br />
mundo, profissionais da área médica<br />
e de saúde coletiva, que começam a<br />
dar particular importância aos efeitos<br />
das mudanças climáticas sobre<br />
a população.<br />
36<br />
Educação <strong>Ambiental</strong><br />
Adeptos dos esportes de<br />
aventura se engajam na<br />
preservação ecológica<br />
O aumento da consciência ecológica<br />
entre os praticantes de esportes<br />
de aventura é uma tendência que<br />
tem levado a ações concretas de<br />
preservação e educação ambiental.<br />
O ativismo ambiental<br />
via internet<br />
Cada vez mais, ativistas do mundo<br />
inteiro recorrem às diferentes<br />
ferramentas da internet para trocar<br />
informações, denunciar<br />
agressões ao meio ambiente e<br />
organizar protestos.<br />
Seções<br />
Editoral 3<br />
Cartas 7<br />
Notas 19<br />
Estante 23<br />
foto: dreamstime.com<br />
29<br />
3Rs<br />
O desafio de substituir as<br />
sacolas plásticas<br />
Amplamente utilizado na vida<br />
moderna, o plástico leva séculos<br />
para se decompor na natureza.<br />
Só de sacolas, calcula-se um<br />
consumo de mais de 500 bilhões<br />
de unidades por ano. O mais grave<br />
é que só 0,6% delas<br />
são recicladas.<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 5 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
100<br />
95<br />
75<br />
100<br />
25 95<br />
5 75<br />
0<br />
25<br />
5<br />
0<br />
Para expor suas opiniões na<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> ou<br />
divulgar projetos e programas voltados<br />
para a resolução de problemas<br />
socioambientais, escreva para:<br />
<strong>Senac</strong> Nacional<br />
Diretoria de educação Profissional<br />
Centro de Educação a Distância<br />
Av. Ayrton Senna, 5.555<br />
Barra da Tijuca<br />
CEP 22775-045<br />
Rio de Janeiro - RJ<br />
Fax: (21) 2136-5735<br />
E-mail: educaambiental@senac.br<br />
Atendimento ao leitor:<br />
Kátia Kitzinger<br />
Atenção<br />
As cartas devem trazer o nome,<br />
o endereço completo do remetente<br />
(no caso de e-mail, a cidade e<br />
o estado)<br />
100<br />
95<br />
75<br />
100<br />
25 95<br />
5 75<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong><br />
está na Internet:<br />
http://www.senac.br<br />
0<br />
25<br />
5<br />
tur105x280<br />
segunda-feira,4dejaneirode201018:04:54<br />
0
Meu nome é Daisymara, sou bióloga<br />
e professora da rede particular de<br />
ensino e tenho interesse em receber<br />
gratuitamente a revista. Gostaria<br />
desde já parabenizar pelo empenho<br />
em manter uma edição cujo principal<br />
foco seja a educação ambiental nas<br />
escolas e a preocupação com o meio<br />
ambiente.<br />
Atenciosamente,<br />
Daisymara P. de Almeida Marques<br />
......<br />
Tenho muito prazer em trabalhar com<br />
a educação ambiental, pois acredito<br />
que seja uma alternativa para nossa<br />
sobrevivência.<br />
Por razões essas, é que utilizo a<br />
revista de educação ambiental, pois<br />
os artigos são umas pérolas. Desta<br />
forma, quero continuar a recebendo<br />
a revista, pois sou professora do<br />
<strong>Senac</strong> Maringá-PR e faz tempo que<br />
não recebemos a revista.<br />
Desde já agradeço, fico no aguardo<br />
de sua resposta.<br />
Maria Lúcia Mariani<br />
Maringá - PR<br />
......<br />
Sou antiga admiradora da qualidade<br />
da revista do <strong>Senac</strong> e tenho achado<br />
muitas pérolas em suas páginas. Sou<br />
professora e a revista sempre me<br />
ajuda a pensar.<br />
Sheila Mendes Accioly<br />
Natal - RN<br />
......<br />
Parabéns pelo importante trabalho<br />
de divulgação da educação ambiental.<br />
Eu tenho os números antigos,<br />
porém depois deixei de receber a<br />
revista. Eu gostaria muito de receber<br />
novamente e também gostaria de<br />
ajudar com sugestões de matérias.<br />
Eu sou professor e pesquisador e<br />
atualmente coordeno o projeto Comunidade<br />
Educadora da ONG Care<br />
Brasil, aqui no Rio de<br />
Janeiro.<br />
Esse projeto tem<br />
várias ações<br />
tais como: construímos um biodigestor<br />
que está tratando o esgoto<br />
de uma escola pública e produzirá<br />
metano para abastecer a cozinha da<br />
mesma instituição; formamos jovens<br />
como mediadores de leitura, educadores<br />
ambientais e pesquisadores<br />
populares para resgatar a memória<br />
e a história local. Além disso, desenvolvemos<br />
muitas outras atividades de<br />
pesquisa e ensino que realizamos em<br />
parceria com diferentes instituições<br />
públicas e privadas.<br />
Renovando os votos de admiração<br />
pelo belíssimo trabalho,<br />
Marcelo Aranda Stortti<br />
Rio de Janeiro - RJ<br />
......<br />
Prezados senhores<br />
Meu nome é Nilton, sou estudante<br />
de Gestão <strong>Ambiental</strong> e estive lendo<br />
através da internet a revista <strong>Senac</strong> &<br />
Educação <strong>Ambiental</strong>. Gostei muito<br />
dos assuntos ali reportados, bem<br />
como do estilo da revista que é voltado<br />
exclusivamente para a matéria<br />
que estou cursando.<br />
Peço que, se possível, nos inclua<br />
entre as pessoas que recebem a<br />
mesma. Informo que após lê-la estarei<br />
repassando para a Faculdade<br />
onde estudo para que seja deixada à<br />
disposição para os demais alunos.<br />
Nilton Gonçalves dos Santos<br />
Santa Cecília do Pavão - PR<br />
......<br />
Sou Educadora ambiental e atuo no<br />
projeto Vila Viva Califórnia da Urbel,<br />
em Belo Horizonte, que é um projeto<br />
de urbanização de vilas e favelas.<br />
Gostaria muito de continuar recebendo<br />
a revista afinal ela sempre<br />
traz notícias e matérias que me são<br />
muito úteis.<br />
Monika Beatriz Tschoepe<br />
Belo Horizonte - MG<br />
......<br />
Em primeiro lugar parabenizo o <strong>Senac</strong><br />
por esta excelente publicação!<br />
Sou Gestor de Recursos Naturais<br />
e Professor do Ensino Superior em<br />
Goiânia. Recebia exemplares da <strong>Senac</strong><br />
& Educação <strong>Ambiental</strong> no local<br />
de meu emprego anterior. Solicito,<br />
se possível, que atualizem meu endereço<br />
para poder continuar a receber<br />
a revista.<br />
Desde já agradeço.<br />
Cláudio Rodrigues da Silva<br />
Goiânia - GO<br />
......<br />
A revista que recebemos está realmente<br />
maravilhosa, podemos<br />
dizer que estamos de parabéns, por<br />
estar na lista dos contemplados da<br />
mesma.<br />
Trabalhamos muito com palestras<br />
nas escolas, fazendo a nossa parte na<br />
Educação <strong>Ambiental</strong> e a Revista é um<br />
ótimo instrumento de trabalho para<br />
todos nós do GEAN. As reportagens<br />
são atuais e esclarecedoras, além de<br />
trazerem muita informação.<br />
Obrigado e parabéns pelo ótimo<br />
trabalho!<br />
Lair Soares Corrêa<br />
Coordenadora do GEAN - Grupo<br />
Ecológico Amantes da Natureza<br />
Arroio Grande - RS<br />
......<br />
Prezados senhores,<br />
Que revista maravilhosa! Tive a<br />
oportunidade de conhecê-la no site<br />
do <strong>Senac</strong>-SP., Gostaria de saber<br />
quais os procedimentos para adquirir<br />
rotineiramente a revista <strong>Senac</strong> e<br />
Educação <strong>Ambiental</strong>.<br />
Atenciosamente,<br />
William Fernandes<br />
......<br />
Conheci a revista <strong>Senac</strong> e Educação<br />
<strong>Ambiental</strong> através do meu supervisor<br />
do estágio e achei muito interessante.<br />
Faço Engenharia <strong>Ambiental</strong> e me<br />
interesso por tudo relacionado ao<br />
meio ambiente.<br />
Quero de parabenizá-los pelo belíssimo<br />
trabalho e saber como faço para<br />
receber exemplares da revista.<br />
Aguardo retorno e agradeço a<br />
atenção.<br />
Gabriela<br />
......<br />
Recebi a revista <strong>Senac</strong> & Educação<br />
<strong>Ambiental</strong> e gostei muito. Meus<br />
parabéns a todos que participaram<br />
dessa publicação!<br />
Maria da Graça Vasconcelos<br />
Uberlândia - MG<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 7 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
Natura:<br />
água de<br />
reúso<br />
Em entrevista a<br />
<strong>Senac</strong> & Educação<br />
<strong>Ambiental</strong>, o diretor de<br />
Sustentabilidade da Natura,<br />
Marcos Vaz, revela como a<br />
empresa coloca em prática<br />
os valores socioambientais<br />
que defende e revela os<br />
principais desafios para<br />
reduzir a sua pegada<br />
ecológica<br />
Por André Trigueiro<br />
Vendendo<br />
cosméticos<br />
sem maquiagem<br />
verde<br />
fotos: divulgação Natura<br />
Dar publicidade ao seu passivo<br />
ambiental, eleger metas de desempenho<br />
e eficiência que constrangem<br />
o "business as usual" no Brasil e<br />
reconhecer as próprias limitações,<br />
podem ser algumas das pistas que<br />
nos ajudam a entender o fenômeno<br />
Natura. De grande empresa do setor<br />
de cosméticos, a Natura virou case<br />
de gestão comprometida com sustentabilidade<br />
e inovação.<br />
Com um milhão de consultoras espalhadas<br />
pelo país, a empresa associa<br />
seus produtos a valores éticos como<br />
o banimento de testes em animais, a<br />
neutralização das emissões de C02, o<br />
apoio a comunidades de baixa renda<br />
que atuam como parceiras no processo<br />
produtivo e rígidos níveis de<br />
exigência impostos aos fornecedores<br />
que são periodicamente avaliados e<br />
auditados.<br />
Diretor de Sustentabilidade da Natura,<br />
Marcos Vaz é responsável pelas<br />
áreas de Sustentabilidade, Assuntos<br />
Regulatórios, Auditoria de Sistemas<br />
de Gestão, Segurança de Produtos<br />
e Cosmetovigilância. É ele quem<br />
explica como a empresa procura<br />
colocar em prática, em toda a sua<br />
cadeia produtiva, a preocupação<br />
com as questões socioambientais,<br />
atitude que a levou a se tornar referência<br />
na área empresarial em gestão<br />
sustentável.<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 8 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
S&EA – A Natura exige de seus<br />
fornecedores o cumprimento de várias<br />
exigências (selos, certificações,<br />
normas técnicas, etc.) incomuns<br />
para a maioria das empresas do país.<br />
Que critérios foram adotados para a<br />
formulação dessas exigências e em<br />
que medida isso determinou efetivamente<br />
mudanças nas rotinas desses<br />
fornecedores?<br />
MV – Em 2004, criamos o Qlicar<br />
(Q=Qualidade; L=Logística; I=Inovação;<br />
C=Competitividade; A=Atendimento;<br />
R=Relacionamento), para<br />
assegurarmos qualidade na aquisição<br />
de matérias-primas, produtos<br />
e serviços de nossos fornecedores,<br />
bem como para a avaliarmos critérios<br />
relacionados à responsabilidade corporativa<br />
deles.<br />
Os fornecedores que participam do<br />
programa são submetidos a avaliações<br />
rigorosas ao longo de todo o<br />
ano, feitas mensalmente, por meio<br />
do Score Card de Fornecedores da<br />
Natura, que congrega todos os elementos<br />
do Qlicar.<br />
Atualmente, o Qlicar abrange 68<br />
fornecedores que foram selecionados<br />
ao longo dos anos em função<br />
do histórico e volume de negócios<br />
com a Natura. Em 2008, todos eles<br />
foram auditados em requisitos de<br />
qualidade, meio ambiente e responsabilidade<br />
social, incluindo aspectos<br />
relacionados aos direitos humanos.<br />
Todos os contratos exigem, por<br />
exemplo, a não utilização de mãode-obra<br />
infantil, trabalho forçado ou<br />
análogo ao escravo.<br />
S&EA – É cada vez maior o número<br />
de empresas em diversos setores<br />
da economia que anunciam a compensação<br />
das emissões de gases<br />
estufa, normalmente com o plantio<br />
de árvores. Entretanto, nem sempre<br />
se conhece com clareza os critérios<br />
utilizados para fazer essa conta.<br />
Como a Natura vem promovendo a<br />
compensação e também a redução<br />
das emissões de C02?<br />
MV – Em 2007, a Natura assumiu o<br />
compromisso de se transformar em<br />
uma empresa carbono neutro e passamos<br />
a oferecer aos nossos clientes<br />
um portfólio composto por linhas<br />
de produtos que têm suas emissões<br />
de gases de efeito estufa totalmente<br />
neutralizadas. Criado a partir de um<br />
modelo que preza pela transparência,<br />
o Projeto Carbono Neutro envolve<br />
toda a cadeia de negócios e pode<br />
ser considerado o mais importante<br />
marco do nosso engajamento com a<br />
questão das mudanças climáticas.<br />
Nossa opção foi a de assumir a responsabilidade<br />
total de nossas emissões,<br />
indo além de práticas como a<br />
compra de créditos de carbono no<br />
Marcos Vaz: "Sustentabilidade não é<br />
custo, mas sim investimento"<br />
mercado. O foco da Natura está na<br />
redução das emissões e tudo aquilo<br />
que não é possível reduzir de imediato<br />
está sendo compensado pelo<br />
apoio a projetos externos, dotados<br />
de benefícios socioambientais evidentes.<br />
Dentro do Projeto Carbono<br />
Neutro, a Natura identificou a possibilidade<br />
de reduzir em 33% as emissões<br />
relativas da cadeia de negócios<br />
no prazo de cinco anos, tendo como<br />
base as emissões de 2006. A meta<br />
deve ser alcançada até 2011. Já conseguimos,<br />
com as práticas de 2007 e<br />
2008, alcançar 9% de redução.<br />
No dia 10 de dezembro a Natura<br />
anunciou sua adesão ao programa<br />
Defensores do Clima do WWF-Brasil<br />
e seu compromisso em reduzir em<br />
10% as emissões absolutas dos seus<br />
processos operacionais até 2012, em<br />
relação ao ano de 2008. O anúncio foi<br />
feito em Copenhague, em um evento<br />
paralelo à 15ª Conferência das Partes<br />
(COP-15) da Convenção-Quadro das<br />
Nações Unidas sobre Mudanças do<br />
Clima.<br />
Defensores do Clima é o nome de um<br />
programa da Rede WWF. No Brasil,<br />
o programa está sendo inaugurado<br />
pelo acordo firmado entre Natura e<br />
WWF-Brasil, organização não governamental<br />
brasileira que trabalha em<br />
articulação com a Rede WWF, a maior<br />
rede independente de conservação<br />
da natureza. O programa global<br />
conta com 22 empresas participantes,<br />
dentro as quais Coca-Cola, IBM,<br />
Tetrapak, Nokia, National Geographic<br />
e Sony. Juntas, essas empresas reduzirão<br />
suas emissões de gases do<br />
efeito estufa em 50 milhões de toneladas<br />
de CO2 até 2010, o equivalente<br />
às emissões anuais da Suíça.<br />
Para atingir a meta, a Natura investirá<br />
no uso de energias renováveis.<br />
Ela substituirá o combustível dos<br />
seus fornos de calor por biomassa<br />
e etanol, insumos renováveis, e<br />
usará etanol em sua frota própria de<br />
veículos.<br />
S&EA – Alvo de pressões de ONGs<br />
ambientalistas, a Natura anunciou<br />
em 2006 ter banido completamente<br />
os testes com animais para garantir<br />
a segurança de seus produtos. Por<br />
que é tão difícil para a indústria de<br />
cosméticos se comprometer com<br />
o fim desses testes considerados<br />
cruéis e desnecessários?<br />
MV – Desde dezembro de 2003 começamos<br />
o processo para eliminar<br />
os testes em animais por completo<br />
da nossa cadeia. Já em 2003, nossos<br />
produtos finalizados não eram testados<br />
em animais ou em tecidos de<br />
animais criados exclusivamente para<br />
pesquisa. Em dezembro de 2006,<br />
eliminamos também por completo<br />
estes testes em todas as etapas de<br />
pesquisa e avaliação de matériasprimas<br />
desenvolvidas exclusivamente<br />
para nós, seja internamente como<br />
em parceiros externos.<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 9 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
fotos: Pedro Martinelli<br />
O processo levou tempo, pois não<br />
existia no Brasil nenhum fornecedor<br />
de pele reconstituída e também<br />
porque precisávamos garantir que<br />
nossos fornecedores também não<br />
testariam os ativos.<br />
É importante ressaltar que não fizemos<br />
isso por pressão de ONGs e sim<br />
porque acreditamos na promoção do<br />
Bem Estar, que é a relação harmoniosa<br />
do indivíduo consigo mesmo, com<br />
os outros e com o mundo do qual<br />
fazemos parte.<br />
A eliminação dos testes em animais<br />
foi alcançada sem abrir mão dos exigentes<br />
critérios de segurança de nossos<br />
produtos. Investimos na busca,<br />
na validação e na implementação de<br />
métodos alternativos internacionalmente<br />
aceitos, como testes in vitro<br />
(em culturas de células) e posterior<br />
confirmação em voluntários humanos<br />
seguindo os preceitos éticos da<br />
Declaração de Helsinque.<br />
Para difundir a eliminação dos testes<br />
em animais, incentivamos nossos<br />
fornecedores de insumos a rejeitar<br />
essa prática em toda sua produção,<br />
mesmo aquela destinada a outras<br />
empresas.<br />
Assim, garantimos a segurança de<br />
uso de nossos produtos, sempre de<br />
forma ética e sem o uso de animais.<br />
S&EA – A empresa recruta<br />
os serviços de quase<br />
2 mil famílias em comunidades<br />
espalhadas pela Amazônia<br />
e Mata Atlântica. A própria Natura<br />
reconhece alguns riscos e problemas<br />
inerentes ao relacionamento com essas<br />
comunidades locais. Quais foram<br />
os principais desafios enfrentados<br />
até aqui?<br />
MV – O uso sustentável de insumos<br />
da biodiversidade brasileira é nossa<br />
principal plataforma tecnológica.<br />
Entendemos que o desenvolvimento<br />
das comunidades fornecedoras é<br />
fundamental para a conservação do<br />
patrimônio ambiental. Estabelecer e<br />
manter essa rede de relacionamentos<br />
e inseri-la no modelo de negócios<br />
é um desafio que a Natura assumiu<br />
há alguns anos, com o propósito de<br />
incentivar a conservação ambiental<br />
e valorizar o conhecimento tradicional.<br />
A complexidade da logística de<br />
abastecimento (que envolve custos,<br />
qualidade e rastreabilidade dos insumos);<br />
o marco regulatório ainda<br />
em construção que rege os diversos<br />
aspectos desse relacionamento; e a<br />
diversidade cultural e social das comunidades<br />
envolvidas compõem um<br />
cenário que exige esforço contínuo.<br />
Atualmente, temos 23 comunidades<br />
parceiras da Natura, localizadas nas<br />
regiões Norte, Nordeste, Sudeste e<br />
Sul do Brasil e em um país da América<br />
Latina (Equador). Ao todo, reúnem<br />
1.895 famílias. Esse conjunto<br />
de comunidades<br />
caracteriza-se por<br />
uma grande<br />
diversidade,<br />
tanto cultural,<br />
quanto<br />
socioeconômica.<br />
Além<br />
disso, estão<br />
localizadas em<br />
diferentes ecossistemas<br />
e apresentam<br />
diferentes formas de<br />
organização social e institucional.<br />
Fazem parte desse público desde<br />
pequenos grupos de agricultores<br />
familiares no Sul do Brasil até comunidades<br />
tradicionais extrativistas<br />
com grande número de famílias no<br />
Norte do País.<br />
A Natura estimula a organização e a<br />
capacitação dos fornecedores rurais<br />
e busca participar da construção de<br />
cadeias de valor e de preço justo das<br />
Parceiros da Natura: conhecimento<br />
tradicional valorizado<br />
matérias-primas, visando à promoção<br />
do progresso social e econômico<br />
desses fornecedores e a adoção de<br />
processos produtivos de menor impacto<br />
ambiental. Sua atuação segue<br />
as recomendações da Organização<br />
Internacional do Trabalho, do Estatuto<br />
da Criança e do Adolescente, dos<br />
programas de certificação ambiental<br />
e da legislação vigente.<br />
Vários são os processos e os sistemas<br />
de gestão específicos ligados à<br />
questão da biodiversidade na Natura:<br />
seleção de ativos candidatos à pesquisa,<br />
regulamentação para pesquisa<br />
desses ativos, desenvolvimento de<br />
produtos e testes, desenvolvimento<br />
de fornecedores de grande, médio<br />
e pequeno porte e identificação de<br />
comunidades fornecedoras, certificação<br />
ambiental e os processos ligados<br />
aos impactos socioambientais<br />
que a atividade produtiva provoca<br />
nas comunidades fornecedoras,<br />
entre outros.<br />
Antecipando-se à evolução da legislação<br />
brasileira sobre o tema da<br />
biodiversidade, fomos a primeira empresa<br />
brasileira a fechar acordos de<br />
remuneração sobre o conhecimento<br />
tradicional associado, realizando,<br />
inclusive, protocolo para obtenção<br />
de autorização de acesso perante o<br />
Conselho de Gestão do Patrimônio<br />
Genético (CGEN).<br />
S&EA – A Natura fez história na Bolsa<br />
de Valores de São Paulo quando<br />
decidiu abrir o capital em 2004 e viu<br />
a procura pelos papéis da empresa<br />
superar dez vezes a oferta. Acionistas<br />
aumentam tremendamente a<br />
pressão por lucros incessantes e, de<br />
preferência, cada vez maiores. Como<br />
compatibilizar essa expectativa tão<br />
amplamente disseminada no mercado<br />
financeiro com políticas empresariais<br />
efetivamente sustentáveis? Dá<br />
para conciliar sempre ou, às vezes, é<br />
preciso sacrificar uma das partes?<br />
MV – Temos aí um falso paradigma.<br />
Essa concepção só existe nas<br />
empresas que tratam a sustentabilidade<br />
como uma moda ou ação<br />
de marketing. Quem resolveu, de<br />
fato, conduzir sua atividade dentro<br />
dos princípios da sustentabilidade<br />
percebeu que sustentabilidade não<br />
é custo, mas sim, investimento. É<br />
uma forma de inovar, se diferenciar.<br />
Acreditamos que ser sustentável é<br />
uma oportunidade de se aprimorar<br />
e de crescimento constante. Se pu-<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 10 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
Em 2006, a Natura eliminou por<br />
completo os testes com animais<br />
foto: Divulgação Natura<br />
déssemos resumir em um conceito o<br />
que é sustentabilidade, diríamos que<br />
é cuidar das relações, com colaboradores,<br />
fornecedores, investidores,<br />
imprensa, consumidores, todos que<br />
ajudam na construção da marca e a<br />
garantir a longevidade da empresa.<br />
S&EA – Em outubro deste ano, a<br />
Natura alcançou a marca de 1 milhão<br />
de consultoras. Para quem se revela<br />
tão preocupada em consolidar uma<br />
imagem de ambientalmente responsável,<br />
que garantias existem de que<br />
esse exército de revendedores(as)<br />
têm conseguido explicar e praticar<br />
os valores da empresa?<br />
MV – Uma das crenças da Natura é a<br />
de aperfeiçoamento contínuo. Acreditamos<br />
que "a busca permanente do<br />
aperfeiçoamento é o que promove o<br />
desenvolvimento dos indivíduos, das<br />
organizações e da sociedade."<br />
Em 2008, ministramos aproximadamente<br />
165 mil treinamentos iniciais.<br />
Preparamos as consultoras não apenas<br />
para lidar com o trabalho diário,<br />
mas para seu desenvolvimento como<br />
pessoa. Toda Consultora Natura (CN)<br />
deve passar por um treinamento<br />
inicial, no qual tem a oportunidade<br />
de conhecer outras consultoras,<br />
compartilhar histórias, sonhos e<br />
expectativas em relação à atividade<br />
de consultoria. A cada 18 dias, a Natura<br />
entra num novo ciclo, onde um<br />
produto ou linha ganha destaque.<br />
Até o 7.º ciclo, a consultora precisa<br />
passar pelo treinamento "Paixão por<br />
Produto". Além disso, oferecemos<br />
cursos de maquiagem, perfumaria e<br />
tratamento de pele para que se conheça<br />
mais e se divulgue melhor os<br />
produtos e os valores da empresa.<br />
O setor de cosméticos atrai muitas<br />
mulheres porque elas se identificam<br />
com o produto e negócio. É um<br />
público muito mais suscetível às<br />
crenças da empresa e valores sócioambientais.<br />
Elas gostam de trabalhar<br />
em mercados que dominam e se<br />
realizam. Este mercado tem uma<br />
profunda intimidade com o mundo<br />
feminino. As mulheres percebem que<br />
é uma extensão de seu viver.<br />
S&EA – Em que medida as práticas<br />
sustentáveis defendidas pela Natura<br />
têm influenciado o consumidor a<br />
pensar e agir de forma mais consciente<br />
em relação ao planeta?<br />
MV – Nossas consultoras são um<br />
importante canal de disseminação<br />
das crenças e valores da Natura.<br />
São elas que levam ao consumidor,<br />
por exemplo, a informação de que<br />
ele, ao optar pela compra do refil de<br />
um produto ao invés da embalagem<br />
regular, deixa de consumir cerca de<br />
50% de matéria-prima. A consultora<br />
Natura além de vender produtos,<br />
ajuda a ampliar a consciência do consumidor.<br />
Em relação à venda de refis,<br />
fechamos o ano de 2008 com resultado<br />
acima da meta estabelecida. Na<br />
operação brasileira, por exemplo,<br />
a porcentagem de refis sobre itens<br />
faturados foi de 19,86%.<br />
S&EA – Do ponto de vista tecnológico,<br />
quais os principais desafios<br />
da empresa no sentido de reduzir<br />
sua pegada ecológica (consumo de<br />
matéria-prima, energia, água, produção<br />
de lixo, etc)?<br />
MV – A Natura busca desenvolver<br />
projetos e orienta os investimentos<br />
visando a compensação ambiental<br />
pelo uso de recursos naturais e pelo<br />
impacto causado por suas atividades.<br />
Busca organizar a sua estrutura interna<br />
de maneira que o meio ambiente<br />
não seja um tema isolado, mas que<br />
permeie todas as áreas da empresa,<br />
sendo considerado a cada produto,<br />
processo ou serviço que desenvolve<br />
ou planeja desenvolver. Isso permite<br />
à empresa prevenir-se de riscos,<br />
além de reduzir custos, aprimorar<br />
processos e explorar novos negócios<br />
voltados para a sustentabilidade ambiental,<br />
favorecendo a sua inserção<br />
no mercado.<br />
Sem alterar seu padrão tecnológico<br />
atual, procuramos reduzir o consumo<br />
de energia, água, produtos tóxicos e<br />
matérias-primas, e implantar processos<br />
de destinação adequada de resíduos.<br />
A Natura investe na atualização<br />
de seu padrão tecnológico, visando a<br />
redução ou substituição de recursos<br />
de entrada; realiza o tratamento de<br />
efluentes e de resíduos em geral e<br />
promove o uso de matérias-primas<br />
renováveis. Possuímos processos<br />
para medir, monitorar e auditar os<br />
aspectos ambientais associados ao<br />
consumo de recursos naturais e à<br />
geração de resíduos, estabelecendo<br />
periodicamente novas metas.<br />
Também procuramos adotar práticas<br />
de bom manejo florestal na extração<br />
de ativos e na utilização sustentável<br />
de recursos naturais básicos; promovemos<br />
a reciclagem e o reúso<br />
de materiais, o gerenciamento da<br />
qualidade do ar, da água e do solo, o<br />
controle de efeitos sonoros, a redução<br />
do desperdício e privilegiamos<br />
o uso de materiais biodegradáveis,<br />
entre outras iniciativas.<br />
A Natura implementou em 2006 o<br />
Sistema Natura de Gases de Efeito<br />
Estufa. O sistema mapeia emissões,<br />
identifica oportunidades de redução<br />
de gases, desde a cadeia de fornecimento<br />
ao descarte final, e gerencia<br />
planos de ação. Em 2007, lançamos<br />
o Programa Carbono Neutro, com<br />
ações mitigatórias e compensatórias.<br />
S&EA – A Natura estimula seus funcionários<br />
a estudarem meio ambiente<br />
ou complementarem seus estudos<br />
na área ambiental? No caso de novas<br />
admissões, valoriza-se como quesito<br />
importante a formação do candidato<br />
em alguma disciplina relacionada a<br />
meio ambiente para o preenchimento<br />
de cargos?<br />
MV – Na contratação de novos colaboradores<br />
a Natura busca pessoas<br />
alinhadas com suas crenças, pessoas<br />
que acreditam na construção de um<br />
mundo melhor, na importância das<br />
relações e na preservação do meio<br />
ambiente, na atuação sustentável.<br />
Todos os colaboradores da Natura<br />
são sensibilizados para o tema, seja<br />
por treinamentos específicos ou por<br />
ações de comunicação interna da<br />
empresa.<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 11 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
Cana-de-açúcar:<br />
combustível verde<br />
gera 1 milhão de<br />
empregos no Brasil<br />
Ações pelo clima geram milhões<br />
de postos de trabalho<br />
Organismos internacionais, como o Pnuma e a OIT, estimulam países a fazer do combate<br />
ao aquecimento atmosférico uma oportunidade para mudanças de padrões econômicos e<br />
inserção social pelo emprego.<br />
Por Procópio Mineiro<br />
foto: joão Roberto Ripper<br />
Quando faltavam três semanas para<br />
a Cúpula de Copenhague, o Fundo<br />
das Nações Unidas para a População<br />
(UNFPA) lançou, em 18 de novembro,<br />
seu relatório "Estado da população<br />
mundial 2009", destacando o papel<br />
preocupante que as mudanças climáticas<br />
globais tendem a exercer sobre<br />
as comunidades humanas, sobretudo<br />
as mais pobres. As alterações<br />
climáticas, segundo o relatório, vão<br />
acelerar migrações, destruir fontes<br />
de subsistência, abalar sistemas<br />
econômicos e as possibilidades de<br />
desenvolvimento de muitos países.<br />
Como se fosse pouco, se desenhou<br />
um cenários de escassez de água e<br />
de alimentos.<br />
De um ponto de vista mais esperançoso,<br />
porém, órgãos internacionais<br />
do sistema da ONU, como a Organização<br />
Internacional do Trabalho (OIT)<br />
e o Programa das Nações Unidas<br />
para o Meio Ambiente (Pnuma), vêm<br />
trabalhando para uma mobilização<br />
mundial que minimize ou mesmo<br />
reverta o processo de aquecimento<br />
global, apontando para a necessidade<br />
de legislações nacionais que<br />
privilegiem atividades dedicadas a<br />
melhorar as condições ambientais<br />
nas cidades, nos campos e nos<br />
sistemas de produção. Partem do<br />
relatório "Empregos verdes: trabalho<br />
decente em um mundo sustentável<br />
e com baixas emissões de carbono",<br />
lançado em meados de 2008, mas<br />
efetivamente disseminado e debatido<br />
no correr de 2009.<br />
O ponto central dessa campanha,<br />
que não tem data para terminar, é a<br />
de que o desafio climático deve levar<br />
a uma mobilização de governos, empresas<br />
e centros de desenvolvimento<br />
tecnológico, como as universidades,<br />
visando a substituição de práticas<br />
não-sustentáveis por procedimentos<br />
produtivos mais limpos – aliados a<br />
programas públicos de preservação<br />
ambiental, que vão de reflorestamento<br />
e paisagismo a uma gestão<br />
eficiente dos sistemas de energia e<br />
transporte, de água e esgoto e do<br />
lixo urbano.<br />
A OIT faz uma projeção positiva do<br />
envolvimento mundial por metas<br />
ambientais em todos os setores da<br />
atividade humana: até dois bilhões<br />
de novos empregos podem ser criados<br />
nessa mobilização pelo clima, o<br />
que, em tal proporção, seria capaz<br />
de varrer o desemprego da face do<br />
planeta ameaçado.<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 12 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
Mas, por enquanto, é hora de criar<br />
consciência e convocar a humanidade<br />
a posicionar-se para a batalha,<br />
que envolve aspectos tecnológicos,<br />
governamentais, empresariais e sociais.<br />
Mas saber que é possível, já é<br />
um grande passo e ajuda a alimentar<br />
o sonho de um futuro melhor.<br />
Economia verde,<br />
empregos verdes<br />
O alarme ambiental está tocando na<br />
cabeceira da humanidade sonolenta<br />
há cerca de 40 anos. Mas foi só com<br />
a Conferência Mundial sobre Meio<br />
Ambiente e Desenvolvimento (Rio-<br />
92), realizada no Rio de Janeiro, em<br />
1992, que, efetivamente, a população<br />
do planeta começou a se dar conta<br />
do tamanho da encrenca em que se<br />
meteu.<br />
A Rio-92 ocorreu há 17 anos e o Protocolo<br />
de Quioto, primeiro grande<br />
compromisso global em defesa da<br />
estabilidade do clima, será substituído<br />
em dois anos sem que se tenha<br />
avançado o quanto se desejava. Mas<br />
é consenso que a questão ambiental<br />
tornou-se tema tão presente e urgente<br />
que, mais cedo ou mais tarde,<br />
surgirão as adequações necessárias<br />
exigidas pelos perigos que as alterações<br />
climáticas estão criando para<br />
todos na Terra.<br />
Sendo essas alterações do clima<br />
provocadas pela forma de produzir e<br />
consumir da humanidade, especialmente<br />
dos países industrializados, os<br />
maiores causadores das emissões de<br />
gases de efeito estufa na atmosfera,<br />
sabe-se que, forçosamente, mudanças<br />
terão que acontecer na economia<br />
de hoje.<br />
Preocupada em produzir limpo, essa<br />
economia verde será movida a empregos<br />
verdes. E como, na realidade,<br />
essa economia já começa a estruturar-se<br />
por força de maior conscientização,<br />
de novas leis e por adesão<br />
de parte do empresariado, novas<br />
oportunidades de empregos começam<br />
também a surgir. A OIT, como<br />
diz o título de seu estudo, pretende<br />
que essas novas ocupações sejam<br />
decentes, isto é, estejam cercadas<br />
das garantias legais e ofereçam ao<br />
trabalhador condições adequadas de<br />
atuar profissionalmente e de usufruir<br />
de bom padrão de vida.<br />
Uma evolução<br />
Para Paulo Sérgio Muçouçah, coordenador<br />
de empregos verdes e trabalho<br />
decente do escritório da Organização<br />
Internacional do Trabalho em Brasília,<br />
o Brasil já possui uma significativa<br />
quantidade de pessoas envolvidas<br />
em atividades ligadas diretamente<br />
à preservação ambiental ou a ela<br />
relacionadas de forma indireta.<br />
No momento, já seriam cerca de dois<br />
milhões de pessoas, entre as quais<br />
cerca de 500 mil dedicadas à coleta<br />
e reciclagem de lixo, e mais de um<br />
milhão na área agrícola que gera<br />
etanol e biodiesel, combustíveis que<br />
contam com um grande futuro num<br />
mundo necessitado de carburantes<br />
com baixa emissão de carbono. Com<br />
terras apropriadas para a expansão<br />
da cana-de-açúcar nas diversas regiões<br />
do país, o Brasil tem condições<br />
de responder por grande parte da<br />
demanda por combustíveis verdes,<br />
criando, simultaneamente, centenas<br />
de milhares de empregos nessa<br />
área. Conhecido historicamente<br />
pela precariedade predominante<br />
nas relações de trabalho, o setor<br />
canavieiro precisaria, na visão da<br />
OIT, empenhar-se em obter eficiência<br />
também na qualidade das relações<br />
trabalhistas, de modo a expandir,<br />
igualmente, o chamado emprego<br />
verde decente.<br />
Nas entrevistas que tem concedido<br />
para divulgar o estudo da OIT, Muçouçah<br />
vem destacando a expansão<br />
de oportunidades também em outros<br />
segmentos, a partir de iniciativas<br />
empresariais e governamentais.<br />
Considera que tem grande poder de<br />
geração de empregos o programa<br />
habitacional Minha Casa, Minha Vida,<br />
do Governo Federal, pois princípios<br />
ambientais vêm sendo incorporados<br />
aos prédios, como a energia solar.<br />
Esse setor, portanto, receberá uma<br />
demanda que o levará a abrir muitas<br />
vagas de empregos especializados.<br />
Pneus: reciclados, se transformam<br />
em piso rodoviário<br />
Assim, de uma economia suja se passará<br />
a uma economia verde, dirigida<br />
pelos princípios ambientais quanto<br />
ao uso de energias, insumos, utilização<br />
de recursos naturais, emprego<br />
de novas tecnologias, percepção<br />
mais integrada da relação entre a<br />
produção e a sociedade, e a busca<br />
de redução das desigualdades entre<br />
os que consomem demais e os que<br />
consomem de menos.<br />
foto: Delfim Martins/Tyba<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 13 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
foto: Ricardo Azoury/Tyba<br />
Áreas<br />
privilegiadas<br />
Em um mundo que está sendo<br />
convocado a alterar profundamente<br />
algumas engrenagens de sua economia<br />
tradicional, certas áreas despontam<br />
como aquelas que ocuparão<br />
lugar privilegiado na nova economia<br />
verde.<br />
A primeira delas é a da energia, até<br />
hoje gerada, predominantemente<br />
(85%), por petróleo e carvão mineral,<br />
os vilões liberadores do gás carbônico,<br />
o CO2. Por sua importância<br />
central na questão do aquecimento<br />
atmosférico, darão lugar, em um processo<br />
cuja duração é difícil precisar,<br />
a outras fontes energéticas, como<br />
os ventos e o sol, ou a biomassa,<br />
de que resultam o etanol e misturas<br />
de produtos vegetais com fósseis,<br />
como o biodiesel. Nos cálculos da<br />
OIT, cerca de 630 bilhões de dólares<br />
serão aplicados em energia renovável<br />
nos próximos 20 anos, levando à<br />
criação de 20 milhões de postos de<br />
trabalho.<br />
Energia solar: expansão desse<br />
setor vai gerar mais empregos<br />
Durante a "2ª Semana do Etanol:<br />
compartilhando a experiência<br />
brasileira", promovida em<br />
novembro de 2009 pelo Ministério<br />
da Agricultura, Pecuária<br />
e Abastecimento em Ribeirão<br />
Preto/SP, com a presença de<br />
especialistas, empresários e<br />
representantes de governos de<br />
20 países, o assessor de Energia<br />
do Itamarati, Augusto Pestana,<br />
frisou o poder de inclusão social<br />
da agroenergia: “Hoje, a produção<br />
de etanol movimenta mais de R$ 20<br />
bilhões na economia brasileira e emprega<br />
mais de um milhão de pessoas.<br />
Queremos levar essa experiência<br />
brasileira para todos os países em<br />
desenvolvimento.”<br />
O objetivo desse encontro internacional<br />
foi o de estimular outros países<br />
a plantar cana e produzir etanol,<br />
de modo a criar uma oferta mundial<br />
do produto capaz de torná-lo uma<br />
commodity internacionalmente aceita,<br />
superando os boicotes atuais que<br />
limitam as exportações brasileiras do<br />
combustível verde. Com a ampliação<br />
futura de produtores, mais o mercado<br />
se expandirá, criando maior número<br />
de postos de trabalho, como prevê a<br />
OIT, para a qual atividades benéficas<br />
ao clima acabarão por desenvolver<br />
uma economia verde com crescente<br />
número de empregos.<br />
Segundo a assessora internacional da<br />
União da Indústria de Cana-de-Açúcar<br />
(Unica), Geraldine Kutas, os maiores<br />
emissores de CO 2 , como Estados<br />
Unidos, Europa e Japão, impõem<br />
barreiras tarifárias à importação do<br />
etanol brasileiro, preferindo manter<br />
a matriz energética poluidora.<br />
Diretamente ligado à energia está o<br />
setor de transportes rodoviários,<br />
que queimam gasolina e óleo, e se<br />
movem sobre pneus de borracha,<br />
considerados dos mais poluentes<br />
descartes. Readequações para o<br />
transporte sobre trilhos, melhorias<br />
na tecnologia dos motores, aperfeiçoamentos<br />
ou substituição de combustíveis<br />
e adoção da eletricidade em<br />
veículos envolvem a expectativa de<br />
desenvolvimento de múltiplas atividades<br />
geradoras de empregos.<br />
A atividade de reciclagem, em constante<br />
crescimento, é a que oferece a<br />
melhor perspectiva de multiplicação<br />
de mão de obra a curto prazo, à medida<br />
que a consciência ambiental se<br />
expande, sobretudo na população<br />
urbana, levando os governos a adotarem<br />
procedimentos mais efetivos<br />
quanto à coleta e tratamento do lixo.<br />
Os dados da OIT registram 500 mil<br />
pessoas envolvidas nessa atividade<br />
no Brasil, número considerado ainda<br />
modesto ante os dez milhões de trabalhadores<br />
atuantes nesse segmento<br />
na China.<br />
O saneamento desponta como uma<br />
atividade verde de grande poder empregador,<br />
sobretudo nos países em<br />
desenvolvimento, devido à demanda<br />
reprimida de tais serviços. Mesmo<br />
em grandes e cosmopolitas capitais<br />
do Terceiro Mundo, os sistemas de<br />
saneamento deixam a desejar ou são<br />
inexistentes em amplos setores das<br />
cidades, particularmente nas periferias.<br />
Fornecimento de água tratada,<br />
oferta de sistemas de esgotos com<br />
tratamento final dos dejetos, eficiência<br />
na coleta e deposição do lixo<br />
são atividades ambientais de grande<br />
efeito e cada vez mais necessárias.<br />
Outra área considerada destinada a<br />
crescer é a silvicultura, ante a consciência<br />
de que florestas são as melhores<br />
armas naturais de absorção do<br />
gás carbônico da atmosfera. Produzir<br />
mudas, reflorestar e conservar flofoto:<br />
Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />
Privilegiado em qualquer área dessas<br />
possibilidades, o Brasil pode contar<br />
com uma larga estrada à frente para<br />
expandir a produção energética e,<br />
com ela, o número de braços e cérebros<br />
envolvidos no processo.<br />
A coleta e reciclagem de lixo envolvem<br />
500 mil pessoas no Brasil<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
Hidrelétricas: fonte renovável<br />
garante matriz energética limpa<br />
foto: Luiz Claudio Marigo<br />
restas ainda existentes tendem a se<br />
transformar em atividades capazes<br />
de absorver grande número de trabalhadores,<br />
especializados ou não.<br />
No caso do Brasil, que se destaca<br />
como um dos últimos grandes refúgios<br />
florestais do planeta, apesar do<br />
desmatamento ininterrupto de mais<br />
de 500 anos, o apelo para atividades<br />
preservacionistas, conjugadas<br />
com atividades de exploração<br />
econômica sustentável na área, é<br />
inquestionável.<br />
Em cada um dos 17 estados do<br />
bioma da Mata Atlântica, milhares<br />
de empregos poderão ser gerados,<br />
caso tenha bom andamento o plano<br />
de reflorestar cerca de<br />
10% da área nas próximas<br />
décadas, elevando<br />
a proporção de bosques<br />
do sistema costeiro. Outro<br />
projeto ambiental de<br />
largo poder empregador<br />
é o de recuperação do<br />
Rio São Francisco, que<br />
envolverá um grande esforço<br />
de reflorestamento<br />
em Minas Gerais, Bahia e<br />
Pernambuco. Esse plano<br />
é desdobramento da ação<br />
de transposição de águas<br />
do rio para regularização<br />
e perenização de bacias<br />
hidrográficas em Pernambuco,<br />
Paraíba, Rio Grande<br />
do Norte e Ceará, e já em<br />
andamento, mas sob fortes críticas<br />
de alguns setores ambientalistas,<br />
que pedem prioridade para a revitalização<br />
da bacia hidrográfica. Embora<br />
os estudos técnicos demonstrem<br />
que o percentual de água a ser extraído<br />
– cerca de 1% da vazão – não<br />
ameaçará o rio, os mesmos estudos<br />
preveem, a longo prazo, a redução da<br />
torrente em consequência do intenso<br />
desmatamento na porção mineira,<br />
com prejuízo para os afluentes, que<br />
foto: Cris Kizzy/BrazilPhotos<br />
por isso abastecerão cada vez menos<br />
o São Francisco.<br />
Os compromissos voluntários do<br />
governo brasileiro para a redução<br />
da emissão de carbono incluem uma<br />
forte redução no desmatamento e<br />
nas queimadas. O foco é a Amazônia,<br />
mas certamente a larga destruição<br />
das matas mineira e baiana será<br />
alcançada pelas novas políticas,<br />
tornando inevitável que ações de<br />
reflorestamento, engenharia e saneamento<br />
comecem na extensa bacia hidrográfica<br />
do Rio São Francisco, com<br />
efeito positivo na oferta de empregos<br />
verdes nos sertões e veredas mineiras,<br />
baianas e pernambucanas.<br />
Construção "verde": preocupação<br />
crescente em reduzir impacto ambiental<br />
A construção civil já usa o argumento<br />
ambiental como tema de<br />
vendas e, na avaliação da OIT, é uma<br />
atividade capaz de incorporar, de<br />
forma crescente, elementos e tecnologias<br />
de grande efeito ecológico,<br />
criando funções para uma abundante<br />
mão de obra verde. Iluminação, aeração,<br />
sistemas de água e esgoto mais<br />
eficientes, aproveitamento espacial,<br />
arborização, geração alternativa de<br />
energia, como a solar, emprego de<br />
materiais menos poluentes e descarte<br />
correto dos seus resíduos, entre<br />
outros itens, são aspectos em que<br />
a construção civil, tradicionalmente<br />
uma das áreas que mais empregam<br />
no Brasil e no mundo, pode ampliar<br />
sua contribuição para a sustentabilidade<br />
do meio ambiente.<br />
Revolução energética<br />
Mudanças de padrões certamente<br />
abrem oportunidades a novos meios<br />
de produzir e de auferir renda. Mas,<br />
igualmente, podem tornar obsoletas<br />
as formas dominantes da economia<br />
do momento e de sua estrutura de<br />
trabalho. Isso se torna ainda<br />
mais verdade quando<br />
o desafio ambiental está<br />
propondo uma revolução<br />
energética que se baseie<br />
em fontes renováveis, acenando<br />
com o desmonte<br />
ou redução dos sistemas<br />
tecnológicos, financeiros<br />
e geopolíticos ligados à<br />
exploração das fontes nãorenováveis,<br />
o petróleo e<br />
o carvão mineral, ainda<br />
as matérias-primas energéticas<br />
dominantes, em<br />
torno das quais o mundo<br />
tem girado com um olhar<br />
imediatista e de forma nada<br />
pacífica.<br />
As resistências às mudanças, portanto,<br />
não devem surpreender. Ainda<br />
assim, o potencial de criação de empregos<br />
verdes no Brasil coloca-se na<br />
linha otimista do estudo da Organização<br />
Internacional do Trabalho, dependendo,<br />
apenas, da ação planejadora,<br />
orientadora e regulamentadora do<br />
governo, da adesão e do senso de<br />
oportunidade do empresariado urbano<br />
e rural, e da consciência ambiental<br />
da sociedade nacional.<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 15 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
Caminhada rumo à economia verde<br />
Na sala da Escola de Engenharia da<br />
Universidade Federal Fluminense,<br />
em Niterói, o ambiente é típico e<br />
lembra qualquer outra escola superior<br />
brasileira: os móveis já aparentam<br />
longevidade, embora não reclamem,<br />
e os armários são em menor<br />
número do que o necessário. Mas<br />
um pequeno detalhe atrai o olhar.<br />
É uma obra de arte, um quadro na<br />
parede, expressivo em seu marrom<br />
claro, composto pela imaginação e<br />
perícia de um artesão verde, com<br />
fios de mangue. “A arte também<br />
pode ser verde”, comenta o engenheiro<br />
e professor titular Antônio<br />
da Hora, especialista em recursos<br />
hídricos, meio ambiente e energia,<br />
e que, por essas qualidades, é também<br />
subsecretário de Ambiente do<br />
Estado do Rio de Janeiro.<br />
Antônio da Hora concorda com as<br />
esperanças da OIT quanto a uma<br />
profusão de ocupações novas a<br />
serem estimuladas pelas atividades<br />
ambientais. Vê o Brasil como um<br />
país especialmente vocacionado<br />
para essa tarefa. Mas tece uma<br />
série de considerações sobre o desenvolvimento<br />
da economia verde<br />
e seus empregos anti-CO 2 . Recomenda<br />
criatividade, compromisso<br />
da sociedade, inteligente aplicação<br />
de recursos e planejamento<br />
governamental capaz de induzir o<br />
empresariado a adotar uma produção<br />
limpa.<br />
A criação de empregos verdes no<br />
Brasil, segundo ele, exigirá uma<br />
postura ativa dos governos, com<br />
planejamentos de longo prazo,<br />
compromisso com a melhoria<br />
ambiental e regulações que deem<br />
tranquilidade ao setor empresarial<br />
para investir em tecnologias limpas<br />
e outros aperfeiçoamentos.<br />
“Precisamos também de uma engenharia<br />
nova, para tornar rotineiro o<br />
reaproveitamento de bens escassos<br />
como a água. Haveria consequências<br />
positivas, tanto ambientais<br />
quanto econômicas, produti-<br />
vas e sociais”, propõe o professor,<br />
que sonha um dia ver uma empresa<br />
reciclar toda a água que usa em<br />
seus processos de produção para<br />
de novo reusá-la, reduzindo drasticamente<br />
novos aportes hídricos.<br />
Essa purificação da água industrial<br />
é já por si um mercado de trabalho,<br />
porque exigirá invenção da tecnologia<br />
e sua aplicação constante.<br />
“Podemos generalizar esse raciocínio<br />
para diversos bens da natureza<br />
e para a área de maquinário, buscando<br />
sempre um melhor aproveitamento<br />
e produtividade. Um bom<br />
exemplo de bem natural que pode<br />
gerar novas tecnologias e empregos<br />
é o da cana-de-açúcar, em que<br />
o Brasil está na frente, mas pode se<br />
desenvolver muito ainda. Além da<br />
produção do setor, como açúcar e<br />
álcool, o processo produtivo rende,<br />
como sobras, muito bagaço e palha.<br />
São restos que podem ser aproveitados<br />
para gerar energia através<br />
da queima, como já se faz. Mas<br />
se desenvolvermos métodos de<br />
processamento que transformem<br />
esses restos em briquetes prensados,<br />
pequenos tijolos, poderíamos<br />
não apenas desenvolver uma especialidade,<br />
mas também aumentar o<br />
poder energético dessa biomassa.<br />
Isto porque o bagaço e a palha,<br />
queimados em<br />
seu estado natural,<br />
rendem um<br />
d e t e r m i n a d o<br />
poder calórico,<br />
o que os torna<br />
próprios para<br />
alguns usos.<br />
Já o briquete,<br />
resultante do processo de prensagem<br />
desses materiais, teria poder<br />
calórico quatro vezes maior e uma<br />
maior gama de aplicações como<br />
combustível verde capaz de substituir<br />
um combustível mais sujo”,<br />
ensina o professor.<br />
Os ecopolos<br />
O professor Antônio da Hora especula<br />
sobre as virtudes de outro<br />
tipo de sistema de produção verde,<br />
que, alerta, exigiria a indução do<br />
poder público junto às empresas<br />
e associações empresariais, em<br />
conjunto com as universidades.<br />
“Trata-se de polos de produção ou<br />
ecopolos, que preferimos chamar<br />
simplesmente de polos industriais,<br />
nos quais o descarte de uma empresa<br />
possa servir como insumo<br />
de outra fábrica, estabelecendo-se<br />
uma espécie de encadeamento de<br />
reaproveitamentos, gerando-se no<br />
processo uma série de ocupações<br />
e serviços complementares. Em<br />
suma, esses polos reuniriam empresas<br />
com complementariedade<br />
de uso de rejeitos”, explica.<br />
“Vamos exemplificar com a canade-açúcar,<br />
cuja usina descartou<br />
bagaço e palhas. Ao lado, haveria<br />
uma indústria especializada em<br />
transformar esse bagaço e a palha<br />
Em dezembro,<br />
o governo fez o<br />
primeiro leilão de<br />
energia eólica<br />
foto: Luiz Claudio Marigo<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 16 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
em briquetes ou pallets, para uso<br />
energético da própria usina ou de<br />
outras fábricas. Aliás, esse processo<br />
de briquetagem via prensagem<br />
pode ser utilizado para todo resíduo<br />
de origem agrícola e florestal, resultando<br />
em produtos de alto valor<br />
calórico. A palha da soja é outro<br />
bom exemplo. É um processamento<br />
industrial bem simples, mas que<br />
resulta em um produto de utilização<br />
energética importante. Poderíamos<br />
chamá-lo de carvão verde.”<br />
Para Antônio, esse encadeamento<br />
produtivo geraria novas riquezas:<br />
“Mas, para acontecer, seriam necessárias<br />
novas especialidades profissionais<br />
e serviços relacionados,<br />
levando à criação de tecnologias<br />
e empregos em diversos níveis.<br />
O mercado que pode resultar das<br />
preocupações ambientais e do<br />
combate aos gases de efeito estufa<br />
tem vasto potencial.”<br />
Solução para os pneus<br />
usados<br />
Nessa linha, o professor aponta a<br />
reciclagem de pneus, atividade que<br />
abre grandes perspectivas de ocupação.<br />
Os pneus são dos descartes<br />
mais poluidores de nossa civilização<br />
motorizada. Hoje já existe tecnologia<br />
para reciclar sua borracha e<br />
transformá-la em piso rodoviário,<br />
em mistura com asfalto, aumentando<br />
a durabilidade do revestimento<br />
das estradas.<br />
pneus velhos. O pneu usado e<br />
descartado, que continua a ser uma<br />
dor de cabeça ambiental, é um bom<br />
exemplo do potencial da reciclagem<br />
ambiental na geração de atividades<br />
e emprego. Hoje já existe até associação<br />
de recicladores dos pneus,<br />
os quais, além do asfalto-borracha,<br />
podem virar outros produtos, como<br />
mangueiras e tubos. Esse pessoal<br />
vive à caça de pneus velhos, o que<br />
é uma grande ação ambiental e se<br />
tornou um ativo setor econômico, de<br />
alto benefício ambiental e que gera<br />
riqueza, renda e empregos verdes”,<br />
exemplifica Antônio.<br />
O papel do governo<br />
O professor atribui um grande papel<br />
aos diversos níveis de governo na<br />
indução de atitudes que incentivem<br />
a criação de atividades e empregos<br />
com foco ambiental: “Ao criar leis<br />
e regulamentos ou ao estabelecer<br />
certos incentivos fiscais, o governo<br />
tem condições de estimular setores<br />
econômicos a adotar políticas que resultem<br />
em benefício ambiental e, para<br />
alcançar resultados, tais segmentos<br />
tenderão a criar postos de trabalho<br />
voltados para aqueles objetivos”.<br />
“Um estímulo desse tipo, já existente<br />
aqui no Rio de Janeiro, mas voltado<br />
Obra<br />
de saneamento:<br />
atividade fundamental para reverter<br />
degradação ambiental<br />
para as prefeituras, é o ICMS Verde,<br />
destinado a contemplar municípios<br />
com um acréscimo na distribuição<br />
do ICMS”. A contrapartida, explica,<br />
é que alcancem determinadas metas<br />
ambientais, como ampliação do sistema<br />
de esgotos, melhorias na coleta e<br />
destinação do lixo, ampliação e conservação<br />
de áreas verdes, entre outros<br />
aspectos. “Dessa forma, as prefeituras<br />
são induzidas a desenvolver atividades<br />
ambientais que requerem novos<br />
serviços e mão de obra.”<br />
“Algo semelhante pode se estender<br />
às empresas, com redução fiscal<br />
àquelas que avançarem em suas<br />
metas ambientais, como redução<br />
do consumo de água, por meio da<br />
reutilização ou controle da energia,<br />
entre outros. Para alcançar suas<br />
metas, essas empresas acabariam<br />
criando postos de trabalho e recorrendo<br />
a serviços especializados da<br />
linha verde”, completa.<br />
(Procópio Mineiro)<br />
Poluição industrial: solução<br />
exige novas tecnologias e mão<br />
de obra qualificada<br />
foto: Luiz Claudio Marigo<br />
foto: Andre Valentim/Tyba<br />
“Algumas ruas do Rio de Janeiro já<br />
estão revestidas por esse asfalto-borracha,<br />
com resultados tão bons, que o<br />
Arco Rodoviário, de 129 quilômetros<br />
de extensão, já tem previsão de usar<br />
o produto. Se as condições de preço<br />
permitirem, toda a rodovia terá o piso<br />
de asfalto-borracha, o que corresponderá<br />
à reciclagem de 70 milhões de<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 17 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
Setor público e empresariado<br />
criam oportunidades<br />
Comércio: ênfase<br />
na conscientização<br />
ambiental do quadro<br />
de funcionários<br />
Uma semana antes da abertura da<br />
Conferência sobre Mudanças Climáticas,<br />
em Copenhague, a Prefeitura da<br />
Cidade do Rio de Janeiro inovou ao<br />
se tornar a primeira administração<br />
municipal do Brasil a traçar metas<br />
ambientais para os próximos dez<br />
anos, especificando percentuais<br />
de redução de emissão de gás<br />
carbônico: menos 8% em 2012,<br />
menos 16% em 2016 e menos 20%<br />
em 2020, tendo como referência as<br />
emissões de 2005. É o Programa Rio<br />
Sustentável.<br />
Para alcançar tais objetivos – nada<br />
fáceis –, a prefeitura carioca estabeleceu<br />
um plano de ações em quatro<br />
áreas: a) mitigação das emissões<br />
dos grandes grupos emissores de<br />
CO2 – resíduos e transportes; b) recuperação<br />
e ampliação da cobertura<br />
vegetal; c) projetos e medidas de<br />
gestão sustentável; d) disseminação<br />
da cultura de sustentabilidade e de<br />
eficiência energética.<br />
Nessas ações, são visíveis possibilidades<br />
de geração de novos<br />
empregos, via incremento da reciclagem<br />
do lixo domiciliar e industrial,<br />
mudanças na estrutura<br />
dos transportes, ampliando-se o<br />
transporte por trilhos, e a expansão<br />
do uso de combustíveis verdes na<br />
frota de veículos rodoviários, além<br />
do reflorestamento. Até 2011, toda<br />
a cidade do Rio de Janeiro – e provavelmente<br />
também seu entorno,<br />
de cinco milhões de pessoas – terá<br />
a coleta seletiva de lixo, para facilitar<br />
a reciclagem.<br />
A criação de empregos verdes é uma<br />
meta explícita da prefeitura, já que o<br />
Rio Sustentável tem por orientação<br />
articular a defesa ambiental com a<br />
ampliação de empregos nessa atividade,<br />
embora não haja ainda uma<br />
projeção do número de postos de<br />
trabalho a serem criados.<br />
Na área industrial, iniciativas já estão<br />
em marcha, como as executadas pela<br />
Federação das Indústrias do Estado<br />
do Rio de Janeiro (Firjan): a Bolsa de<br />
Resíduos e a Troca <strong>Ambiental</strong>, além<br />
do Grupo Executivo da Agroindústria,<br />
este voltado também para a<br />
expansão de atividades florestais.<br />
A Troca <strong>Ambiental</strong> envolve o compartilhamento<br />
de experiências e<br />
tecnologias desenvolvidas por uma<br />
indústria para as outras, gerando<br />
adaptações de funções nas equipes<br />
respectivas e até contratações para<br />
gestão ambiental. Desse programa<br />
já participam a Companhia Municipal<br />
de Limpeza Urbana, Petrobrás, Indústrias<br />
Nucleares do Brasil, Companhia<br />
Siderúrgica Nacional, Michelin,<br />
Ambev, empresas automobilísticas,<br />
Fábrica Carioca de Catalisadores e<br />
dezenas de outras.<br />
A Bolsa de Resíduos, por sua vez,<br />
visa o reaproveitamento de rejeitos<br />
de uma indústria por outra e abre<br />
mercado para recicladoras. Os restos<br />
reaproveitáveis vão de papel e<br />
papelão, vidros, latas, madeiras e<br />
plásticos, até inúmeros tipos de óleos<br />
usados, borracha, lodo com metais<br />
pesados, produtos farmacêuticos<br />
e veterinários, solventes e metais<br />
ferrosos e não ferrosos, entre muitos<br />
outros. Há quem ofereça 13 toneladas<br />
semanais de óleo vegetal usado,<br />
quanto quem procure 100 toneladas<br />
semanais do mesmo produto. Na<br />
linha do proposto pelo professor<br />
Antônio da Hora, esse mecanismo<br />
de reutilização de rejeitos industriais<br />
possui um horizonte de expansão infinito,<br />
contribuindo tanto para reduzir<br />
o lixo industrial lançado na natureza<br />
quanto para criar possibilidades de<br />
empregos.<br />
Já o segmento comercial não se vê<br />
como um criador direto de empregos<br />
verdes, segundo o posicionamento<br />
expresso pela Federação do Comércio<br />
do Estado do Rio de Janeiro<br />
(Fecomércio/RJ), embora o setor<br />
seja grande produtor de descartes,<br />
sobretudo de embalagens e outros<br />
resíduos recicláveis.<br />
Segundo nota da Fecomércio, no<br />
setor a conscientização ambiental<br />
é crescente, mas “a adequação a<br />
exigências ambientais não passa<br />
necessariamente pela contratação<br />
de novos profissionais, mas pela<br />
sensibilização do quadro de funcionários<br />
existente quanto às dimensões<br />
social, ambiental e econômica<br />
da sustentabilidade. A produção e<br />
o comércio têm meios de fornecer<br />
produtos ecologicamente corretos,<br />
mas estes precisam ser viáveis economicamente,<br />
despertar a demanda<br />
do consumidor e envolver a cadeia<br />
de ponta a ponta”.<br />
(Procópio Mineiro)<br />
foto: Rogerio Reis/Tyba<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 18 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
Conferência Mundial do Clima: resultados e impasses<br />
A Conferência Mundial do Clima, COP-15, reuniu durante<br />
duas semanas, em Copenhague, líderes mundiais de<br />
193 países com o objetivo de elaborar um novo acordo<br />
global do clima com prazos e metas para a redução das<br />
emissões de gases estufa, e mecanismos de ajuda financeira<br />
e tecnológica aos países que mais vão sofrer os<br />
efeitos das mudanças climáticas.<br />
A maior conferência do clima da História atraiu, em dezembro,<br />
as atenções do mundo inteiro para a capital da<br />
Dinamarca, que abrigou milhares de jornalistas, representantes<br />
de delegações oficiais e também de organizações<br />
não governamentais. Apesar dessa mobilização sem<br />
precedentes para uma Conferência das Partes, o tão<br />
esperado acordo não se concretizou.<br />
A COP-15 serviu para avaliar a disposição das principais<br />
economias do mundo em assumir compromissos rígidos<br />
de redução das emissões de gases estufa em atendimento<br />
aos alertas do IPCC<br />
(Painel Intergovernamental<br />
de Mudanças<br />
Climáticas da ONU).<br />
Os Estados Unidos<br />
e a China, principais<br />
poluidores do mundo,<br />
não modificaram suas<br />
propostas originais<br />
de redução das emissões,<br />
e deflagraram<br />
uma disputa particular<br />
durante toda a conferência<br />
em relação<br />
às regras de aferição<br />
internacional dos resultados<br />
dos planos<br />
de ação voluntários<br />
apresentados pelos<br />
países emergentes. Apenas no último dia da COP-15, os<br />
chineses aceitaram submeter seus resultados à checagem<br />
internacional, como exigiam os americanos.<br />
Os países pobres – especialmente os africanos e também<br />
as nações-ilha do Pacífico – paralisaram a conferência<br />
com reclamações ostensivas contra a morosidade dos<br />
países ricos em assumir prazos e metas de redução mais<br />
ousados. O Brasil, que se aliou em diversos momentos<br />
com o G-77 ( grupo de países que se articula como<br />
bloco no combate aos interesses dos países ricos) surpreendeu<br />
na reta final com um veemente discurso feito<br />
de improviso pelo presidente Lula que dirigiu um apelo<br />
em favor do consenso no último dia da Conferência,<br />
denunciando as “barganhas” e os interesses de curto<br />
prazo das nações mais poderosas. Naquele momento,<br />
explicitou-se o impasse.<br />
Pelos corredores do Bela Center, cenário da conferência,<br />
denunciava-se a intransigência de alguns países e a falta de<br />
empenho de outros. Diante do sentimento de frustração<br />
e até do possível fracasso da conferência, o presidente<br />
francês Nicolas Sarkozy convidou, no penúltimo dia do<br />
evento, o presidente Lula para organizar uma reunião<br />
de emergência com alguns chefes de Estado. A França<br />
decidiu manter o Protocolo de Quioto e a secretária<br />
de Estado americana, Hillary Clinton, aceitou a criação<br />
de um fundo internacional de 100 bilhões de dólares<br />
para ajudar os países pobres a combater os efeitos do<br />
aquecimento global – sugestão defendida pelo governo<br />
brasileiro e os países que formam o grupo G77.<br />
Após a reunião de emergência, o encontro final foi<br />
feito a portas fechadas no último dia da conferência,<br />
contando com chefes de Estado de 25 países, incluindo<br />
o Brasil. Mas, uma das principais bandeiras dos países<br />
em desenvolvimento, a manutenção do Protocolo de<br />
Quioto, não foi assinada pelos EUA. Foi elaborado o<br />
“Acordo de Copenhague”,<br />
liderado<br />
pelos EUA e China,<br />
um documento político<br />
sem força de<br />
lei que não definiu<br />
condições concretas<br />
para alcançar<br />
os objetivos principais<br />
da COP-15,<br />
mas apenas intenções,<br />
como: não<br />
aumentar a temperatura<br />
global em<br />
mais de 2°C até o<br />
final do século, reduzir<br />
as emissões<br />
de CO2, entre 25%<br />
a 40%, até 2020,<br />
por parte dos países ricos, e a criação de um fundo<br />
internacional com 100 bilhões de dólares por ano, até<br />
2020, para mitigar os efeitos das mudanças climáticas<br />
em países em desenvolvimento.<br />
Entretanto, a conclusão da COP-15 previa a apreciação<br />
do acordo final na última plenária da conferência. Os<br />
delegados dos países em desenvolvimento do G77,<br />
principalmente Sudão, Bolívia, Cuba, Venezuela e Nicarágua,<br />
criticaram duramente o documento, já que não<br />
havia compromissos jurídicos para garantir o que foi<br />
definido no acordo, mas apenas intenções políticas.<br />
Assim, as Nações Unidas assumiram o “acordo” como<br />
uma carta de intenções, incluindo a reprovação dos<br />
países discordantes. O que ficou como resultado da<br />
COP-15, além de algumas intenções gerais de cunho<br />
político, foi a continuidade dos debates para a COP-16,<br />
que será realizada no México, em 2010.<br />
foto: A. Mendes<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 19 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
Artesãs de diferentes regiões se unem para superar uma realidade de pobreza por meio do<br />
artesanato, transformando em peças de arte os frutos que a natureza generosamente lhes oferece.<br />
Por Elias Fajardo<br />
Fotos de Lena Trindade<br />
“O artesanato conserva a cicatriz<br />
quase apagada que comemora a<br />
fraternidade original dos homens, já<br />
que pertence a um mundo anterior<br />
à separação entre o útil e o belo”.<br />
Com seu texto poético, o mexicano<br />
Octavio Paz, ganhador do Prêmio<br />
Nobel de Literatura de 1990, nos<br />
informa também que “o artesanato<br />
não é único como a obra de arte e<br />
pode ser substituído por outro objeto<br />
parecido, mas nunca idêntico. Ele<br />
nos ensina a morrer – e, em consequência,<br />
nos ensina a viver”.<br />
Mas as atividades artesanais não<br />
possuem apenas aspectos simbólicos.<br />
Elas também são meio de vida<br />
para milhares de pessoas. Segundo<br />
o Programa do Artesanato Brasileiro,<br />
do Ministério do Desenvolvimento,<br />
Indústria e Comércio, a modalidade<br />
representa 3% do Produto Nacional<br />
Bruto e mobiliza mais de 8,5 milhões<br />
de pessoas, das quais 85% são<br />
mulheres.<br />
Como sempre cuidaram da casa<br />
e da alimentação, as mulheres se<br />
desenvolveram nas artes ligadas<br />
ao fazer manual e, historicamente,<br />
têm feito de suas habilidades uma<br />
fonte de renda. Mas, para sobreviver<br />
no competitivo mundo industrial, o<br />
artesanato busca renovar-se sem<br />
perder a tradição. Um dos pioneiros<br />
nessa área é o designer Renato<br />
Imbroisi, cujas oficinas para grupos<br />
de artesãs as ajudam a criar peças<br />
com aquilo que a natureza local<br />
lhes oferece, além de reaproveitar<br />
materiais industriais.<br />
Os exemplos são inúmeros e atestam<br />
a habilidade e o talento de<br />
nossas artesãs. O Programa Talentos<br />
do Brasil, do Ministério do<br />
Desenvolvimento Agrário, reúne<br />
peças elaboradas por cerca de 2.000<br />
pessoas, organizadas em 15 grupos<br />
de artesãs de 12 estados brasileiros.<br />
Elas participam de oficinas anuais<br />
realizadas, entre outros, pelo estilista<br />
Jum Nakao, pela designer Eloísa<br />
Crocco e a criadora de joias Virginia<br />
Scotti. Daí surgem coleções de roupas,<br />
acessórios, tapetes e objetos<br />
de fibras naturais, comercializados<br />
em uma feira anual de agricultura<br />
familiar.<br />
O artesanato brasileiro é feito principalmente<br />
com barro, madeira e<br />
trançados de fibras vegetais. Entre<br />
os materiais destacam-se ainda o<br />
tecido, a renda, o couro, a pedra,<br />
conchas e sementes.<br />
As fibras são um capítulo à parte.<br />
Duras ou maleáveis; fáceis de<br />
conseguir, muitas vezes crescendo<br />
na porta das casas das artesãs; ou<br />
exigindo longas caminhadas na<br />
floresta ou na caatinga para serem<br />
coletadas, elas têm a alma da nossa<br />
natureza que se transforma nas<br />
mãos hábeis das artesãs.<br />
Caroá<br />
O caroá (Neoglaziovia variegata) é<br />
uma bromélia espinhosa que cresce<br />
no Nordeste. Dá poucas folhas,<br />
dispostas em roseta, das quais se<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 20 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
etiram longas fibras, muito resistentes<br />
e duráveis. A colheita é extremamente<br />
difícil por causa dos espinhos.<br />
As 120 artesãs dos municípios<br />
de Valente, Araci e São Domingo, no<br />
interior da Bahia, reunidas na Cooperafis<br />
(Cooperativa Regional de Fibras<br />
do Sertão), cortam as folhas, fiam e<br />
tingem as fibras, produzindo bolsas,<br />
colares, chapéus e jogos de mesa.<br />
O tingimento com raiz-de-são-joão<br />
e casca de umbuzeiro, de cajueiro<br />
e de pau-de-colher resulta em tons<br />
suaves e originais.<br />
Os índios da Bahia já praticavam<br />
o trançado com<br />
essa bromélia e Euclides<br />
da Cunha, em<br />
seu livro Diários<br />
de viagem, relata<br />
que, nas casas<br />
do sertão, havia<br />
sempre uma<br />
rede de caroá.<br />
Essas fibras são<br />
u s a d a s a i n d a<br />
para fazer barbante,<br />
linhas de pesca e<br />
tecidos.<br />
Segundo Elione Alves de<br />
Souza, presidente da Cooperafis,<br />
a maior dificuldade é que não<br />
existe uma tecnologia voltada para<br />
plantar e a extrair a fibra. Ela afirma:<br />
“O caroá é nativo da caatinga e hoje<br />
o desmatamento está diminuindo a<br />
sua presença. Em 2007, iniciamos<br />
uma pesquisa com a Universidade<br />
Federal do Recôncavo Baiano e fizemos<br />
um campo experimental onde<br />
a planta tem se desenvolvido bem.<br />
A natureza nos dá tudo para viver. O<br />
meio ambiente é o nosso principal<br />
fator de produção. Assim, ou a gente<br />
preserva a caatinga ou não teremos<br />
renda nem melhoria de vida.”<br />
Taboa<br />
A taboa (Typha domingensis) é uma<br />
planta rústica e bela, altamente<br />
adaptável, que cresce em brejos,<br />
manguezais, várzeas e áreas alagadas<br />
de várias partes do mundo. Pode<br />
medir até dois metros de altura e, na<br />
época da reprodução, dá espigas<br />
cor de café, contendo milhões de<br />
sementes que se espalham ao vento.<br />
Tem também uma função ecológica<br />
pouco lembrada, mas muito<br />
importante para os ecossistemas<br />
aquáticos: suas raízes filtram e depuram<br />
águas poluídas, absorvendo<br />
até metais pesados. E ainda servem<br />
de abrigo e de local de reprodução<br />
para jacarés, tartarugas, gansos,<br />
patos e marrecos selvagens. No<br />
entanto, costuma ser considerada<br />
uma praga, já que se desenvolve<br />
muito, tanto em água doce como<br />
em salobra, tomando a superfície<br />
dos espelhos d’água.<br />
Para as artesãs, a planta<br />
é uma bênção. Suas<br />
folhas e caules possuem<br />
celulose em<br />
estado quase puro<br />
e por isso têm sido<br />
usadas para fazer<br />
papel, esteiras e<br />
todo tipo de trançado. Vivendo em<br />
água pura, ela chega a dar quatro<br />
cortes por ano.<br />
No Norte Fluminense, os grupos Taboa<br />
de São Francisco, no município<br />
de São Francisco de Itabapoana,<br />
com 20 artesãs, e Tranças e Tramas,<br />
de Barra do Furado, município de<br />
Quissamã, com 13 artesãs, têm no<br />
artesanato com essa fibra uma importante<br />
fonte de renda.<br />
A coordenadora dos dois grupos é<br />
Shirley Jardim, uma enfermeira<br />
que deixou a profissão<br />
para se dedicar a essa<br />
atividade. Ela explica<br />
que a taboa é retirada<br />
apenas uma<br />
vez por mês, na<br />
lua minguante,<br />
para evitar que<br />
o caruncho se<br />
desenvolva na<br />
fibra. Deve-se<br />
também tomar<br />
cuidados com a<br />
umidade dos meses<br />
mais chuvosos,<br />
pois ela só se presta<br />
a ser trançada se estiver<br />
inteiramente seca.<br />
“Matéria-prima tem à vontade”, diz<br />
Shirley. “Eu mesma moro em frente<br />
a um taboal em Gargaú, distrito de<br />
São Francisco de Itabapoana. Apesar<br />
da abundância, fazemos manejo<br />
sustentável e estamos sempre alertas.<br />
Fico feliz com essa atividade,<br />
pois estou ensinando e ajudando<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 21 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
mulheres de pescadores, carentes<br />
de recursos e ricas de talento.”<br />
Os grupos trabalham também com<br />
junco, uma fibra aquática mais fina<br />
e delicada do que a taboa, e empregam<br />
escamas da tainha e couro<br />
do peixe chamado peruá para fazer<br />
flores e enfeites.<br />
Capim dourado e buriti<br />
Apesar do nome, ele não é um<br />
capim. De modo geral, os capins<br />
pertencem ao grupo das gramíneas<br />
e, segundo os biólogos, o capim<br />
dourado (Singonanthus nitens) é,<br />
na verdade, uma sempre-viva. Ele<br />
ocorre no cerrado e sua maior incidência<br />
se dá no Estado do Tocantins,<br />
principalmente no belo deserto de<br />
Jalapão, onde se desenvolveu o<br />
artesanato em tons dourados.<br />
Os moradores aprenderam a lidar<br />
com a planta com os índios xerente,<br />
que passaram pela região há mais<br />
de um século. O núcleo inicial do<br />
trabalho artesanal foi o povoado<br />
de Mumbuca, no município de Mateiros,<br />
formado por descendentes<br />
de negros que deixaram a Bahia no<br />
início do século 19, depois da libertação<br />
dos escravos. Daí o artesanato<br />
se espalhou e hoje é exportado<br />
para vários países.<br />
A exploração tem sido tão<br />
intensa que está ameaçando<br />
a própria sobrevivência do capim<br />
dourado. Além de arrancar<br />
a planta pela raiz, alguns moradores<br />
usam fogo para fazer a<br />
coleta, argumentando que ajuda<br />
o capim a crescer mais forte<br />
depois. Mas não há evidências<br />
científicas de que isso seja verdadeiro.<br />
Para respeitar o seu ciclo<br />
de vida, ele deve ser coletado<br />
quando as hastes já estão secas e<br />
com a coloração típica. Só então<br />
as sementes estão maduras e prontas<br />
para germinar. Assim, a coleta<br />
torna-se quase um plantio natural.<br />
A retirada do capim dourado ainda<br />
verde causa a sua morte.<br />
A importância do capim dourado<br />
para a região pode ser comprovada<br />
pela decisão do Instituto Natureza<br />
do Tocantins (Naturatins) ao baixar a<br />
Portaria 362, de 25 de maio de 2007,<br />
para regulamentar o seu manejo.<br />
A coleta deve ser feita entre 20 de<br />
setembro e 30 de novembro, e só<br />
por associados credenciados de<br />
entidades comunitárias de artesãos<br />
do Jalapão.<br />
As peças de capim dourado são<br />
costuradas com a fibra de buriti<br />
(Mauritia flexuosa). Essa palmeira<br />
mítica, presente na obra do escritor<br />
Guimarães Rosa, tem muitas utilidades<br />
para quem vive no sertão. Dos<br />
frutos se fazem doces e licores, e<br />
folhas adultas e caules são empregados<br />
na cobertura e na construção<br />
de casas. Folhas jovens e adultas se<br />
prestam também à confecção de<br />
vários tipos de artesanato.<br />
As comunidades do Jalapão utilizam<br />
a seda do buriti, obtida das folhas<br />
jovens ainda não abertas. Depois de<br />
coletada, a epiderme da folha é posta<br />
ao sol para secar. A intensidade<br />
da retirada dessas folhas ainda não<br />
é suficiente para ameaçar a palmeira<br />
de extinção.<br />
Em Mumbuca, uma forte liderança<br />
feminina se faz presente na Associação<br />
do Capim Dourado. A pioneira<br />
é Guilhermina Ribeiro da Silva, a<br />
dona Miúda, com mais de 80 anos.<br />
Ela era menina, mas ainda se lembra<br />
quando sua mãe a levou ao campo,<br />
apontou o capim e disse: “Isso é o<br />
ouro do cerrado.”<br />
Hoje, mais de 600 artesãs do Tocantins<br />
praticam essa atividade. Algumas<br />
se orgulham de ter comprado<br />
casa, carro e moto com o artesanato.<br />
Se, por um lado, o impacto ambiental<br />
é evidente, por outro, caminha-se<br />
para uma prática de sustentabilidade<br />
que pode ser uma solução a longo<br />
prazo. Dona Miúda acredita na continuidade<br />
dessa atividade: “Eu sinto<br />
entusiasmo de alegria, de prazer<br />
com esse resultado. Hoje, acabou<br />
o sofrimento de pobre. O garimpo<br />
mais grande que houve no Brasil foi<br />
o capim dourado. E foi o que mais<br />
deu futuro.”<br />
Tucumã e cipós<br />
amazônicos<br />
A Floresta Amazônica (com seu<br />
celeiro natural de cocos, sementes<br />
e fibras) é a inspiração para 40 artesãs<br />
da Cooperativa das Mulheres<br />
Costureiras e Artesãs de Manicoré,<br />
a 390 km de Manaus. Trançados<br />
feitos com a palmeira tucumã e os<br />
cipós ambé e titica, que pendem das<br />
árvores, são usados na produção de<br />
cestas, bijuterias e cortinas.<br />
O tucumã (Astrocaryum aculeatum)<br />
chega a medir 20 metros, tem espinhos<br />
negros no caule e dá frutos<br />
amarelos com tons avermelhados.<br />
Abundante na Amazônia brasileira,<br />
essa palmeira nasce solitariamente<br />
em solos pobres e degradados.<br />
Dela se extraem palmito, frutos<br />
comestíveis e madeira, e o óleo das<br />
sementes é usado na culinária. Das<br />
folhas se coleta a fibra tucum, empregada<br />
para fazer redes e cordas<br />
que resistem à água salgada. Já os<br />
cipós titica (Heteropsis flexuosa) e<br />
ambé (Philodendron sp.), tradicionalmente<br />
usados para a confecção<br />
de vassouras, adaptaram-se muito<br />
bem ao artesanato elaborado pelas<br />
mulheres.<br />
As peças com esses materiais,<br />
distribuídas principalmente em São<br />
Paulo, Rio de Janeiro e Brasília,<br />
aumentam a renda das famílias locais.<br />
A presidente da cooperativa,<br />
Ocilonete França Bezerra, afirma:<br />
“Queremos expandir e produzir<br />
mais; assim poderemos garantir,<br />
ao menos, um salário mínimo para<br />
cada artesã”.<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 22 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
Sustentabilidade:<br />
a economia mais<br />
humana. Elizabeth<br />
Oliveira. Editora Salesiana,<br />
2009.<br />
Como equilibrar o<br />
desenvolvimento<br />
econômico com a redução<br />
dos problemas<br />
que afetam a humanidade,<br />
como violência,<br />
distribuição de renda<br />
e destruição do meio<br />
ambiente? Para apresentar<br />
esses temas<br />
ao público do ensino<br />
fundamental, a autora<br />
dividiu a obra em dez<br />
capítulos temáticos,<br />
ricamente ilustrado<br />
com desenhos de<br />
Marlon Tenório: O tripé<br />
da sustentabilidade,<br />
Crise econômica,<br />
Economia globalizada,<br />
Economias emergentes,<br />
A natureza<br />
no limite, Mudanças<br />
climáticas, Consumo<br />
consciente, Economia<br />
solidária, Alimentos<br />
x biocombustíveis e<br />
Economia verde. A<br />
autora é jornalista,<br />
membro da Rede<br />
Brasileira de Jornalistas<br />
Ambientais e<br />
integrante do Grupo<br />
de Pesquisa Biodiversidade<br />
em Áreas<br />
Protegidas e Inclusão<br />
Social da UFRJ.<br />
Editora Salesiana.<br />
Tel: (11) 3274-4900 ou<br />
www.editorasalesiana.com.br<br />
Espiritismo e ecologia.<br />
André Trigueiro. Editora:<br />
FEB (Federação Espírita<br />
Brasileira), 2009.<br />
O jornalista André Trigueiro<br />
apresenta a relação<br />
entre os princípios da<br />
doutrina espírita de Alan<br />
Kardec e os fundamentos<br />
da ecologia, assinalando<br />
que ambos procuram<br />
entender o processo evolutivo<br />
do ser humano, de<br />
forma sistêmica, em sua<br />
relação com outro e com<br />
o meio ambiente. Para o<br />
autor, o espiritismo pode<br />
colaborar para a formação<br />
de uma consciência<br />
voltada à conservação<br />
do planeta para as novas<br />
gerações, bem como na<br />
consolidação de uma<br />
atitude mais solidária<br />
em relação à produção e<br />
distribuição da riqueza.<br />
Do mesmo modo que a<br />
ecologia aponta os limites<br />
ao uso irracional e exacerbado<br />
dos recursos naturais,<br />
a doutrina espírita<br />
afirma que o ser humano<br />
não pode culpar a natureza<br />
por sua imprevidência<br />
e imperícia no uso desses<br />
recursos.<br />
Federação Espírita Brasileira.<br />
Tels.: (61) 2101-6161<br />
e (21) 2187-8297 ou<br />
www.feblivraria.com.br<br />
Mudança climática:<br />
as alterações do<br />
clima e as consequências<br />
diretas em<br />
questões morais,<br />
sociais e políticas.<br />
Stephan Faris. Editora<br />
Campus, 2009.<br />
O jornalista Stephan<br />
Faris viajou por vários<br />
países coletando<br />
observações de diferentes<br />
regiões, como<br />
Darfur, Amazônia,<br />
Bangladesh, Caxemira,<br />
Europa, América do<br />
Norte e Ártico, e percebeu<br />
uma característica<br />
comum: as mudanças<br />
climáticas já estão influenciando<br />
fortemente<br />
essas e outras regiões,<br />
como um dos motores<br />
de transformação na<br />
estrutura da sociedade<br />
global. O livro, que<br />
conta com um capítulo<br />
sobre a Amazônia – Em<br />
uma nova fronteira:<br />
Brasil, desequilíbrios<br />
nos ecossistemas e<br />
doenças –, traz fatos<br />
que relacionam as mudanças<br />
climáticas com<br />
as alterações culturais,<br />
políticas e econômicas,<br />
tais como os conflitos<br />
decorrentes da escassez<br />
dos recursos naturais,<br />
as migrações na<br />
Europa, África e Ásia,<br />
e o impacto do derretimento<br />
das geleiras,<br />
entre outros.<br />
Editora Campus. Tel.:<br />
0800 026-5340 ou<br />
www.elsevier.com.br<br />
Ecossistemas florestais:<br />
interação homemambiente.<br />
Elinor Ostrom<br />
e Emilio F. Moran (orgs.)<br />
Editora <strong>Senac</strong>, 2009.<br />
Elinor Ostrom, ganhadora<br />
do Prêmio Nobel<br />
de Economia 2009, e<br />
Emilio Moran, codiretor<br />
do Centro de Estudos de<br />
Instituições, População e<br />
Mudança <strong>Ambiental</strong> da<br />
Universidade de Indiana<br />
(EUA), organizaram este<br />
livro como um projeto<br />
multidisciplinar, desenvolvido<br />
em mais de 12 países<br />
e em cerca de 80 locais<br />
diferentes. O objetivo dos<br />
autores é contextualizar<br />
os processos de mudanças<br />
ambientais para entender<br />
a complexa relação<br />
entre as ações humanas e<br />
o ambiente, e para discernir<br />
os efeitos positivos e<br />
negativos dessas ações. A<br />
publicação reúne resultados<br />
de cinco anos de pesquisa<br />
com participação de<br />
dezenas de pesquisadores<br />
de diferentes disciplinas e<br />
nacionalidades. Realizado<br />
pelo Centro para o Estudo<br />
de Instituições, População<br />
e Mudanças Ambientais<br />
(Cipec), da Universidade<br />
de Indiana, o projeto foi<br />
precursor de uma abordagem<br />
interdisciplinar e<br />
multitemporal para o estudo<br />
da interação homemambiente.<br />
Editora <strong>Senac</strong> São Paulo.<br />
Tel.: (11) 2187-4450 ou<br />
www.editorasenacsp.<br />
com.br<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 23 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
Biocontagem regressiva<br />
foto: Luiz Claudio Marigo<br />
No Ano Internacional da Biodiversidade, a ser comemorado com diversos eventos ao longo de<br />
2010, especialistas do mundo inteiro alertam para a crescente destruição da fauna e flora do<br />
planeta e apontam experiências bem-sucedidas de preservação de espécies em diferentes países.<br />
Desde 2000, seis milhões de hectares<br />
de florestas primitivas são<br />
perdidos a cada ano. No Atlântico<br />
Norte, nos últimos 50 anos, as espécies<br />
de peixes declinaram em cerca<br />
de 66%. No Caribe, os recifes de<br />
corais diminuíram em 40%, nas três<br />
décadas passadas. Na Europa, mais<br />
da metade das espécies de plantas<br />
estão ameaçadas.<br />
Os dados são do Countdown 2010,<br />
promovido pela União Internacional<br />
pela Conservação da Natureza<br />
(IUCN), que reúne mais de 900<br />
parceiros ao redor do globo, entre<br />
órgãos públicos, ONGs e empresas,<br />
comprometidos com a recuperação<br />
da biodiversidade na Terra.<br />
Com site e atividades como encontros<br />
temáticos, o Countdown<br />
(“contagem regressiva”, em inglês)<br />
é uma das principais iniciativas<br />
internacionais visando a comemoração<br />
do Ano Internacional da Biodiversidade,<br />
em 2010. A contagem<br />
foi iniciada em maio de 2009 e,<br />
em 2010, será publicado o terceiro<br />
Global Biodiversity Outlook (GBO-<br />
3), pela Convenção da Diversidade<br />
Biológica (CDB), com os resultados<br />
gerais e realce para as iniciativas<br />
mais significativas entre as nações.<br />
Por Rosane Carneiro<br />
À medida que se aproxima a data,<br />
números sobre o status atual da<br />
biodiversidade no planeta pululam,<br />
em muitos países. A Organização<br />
das Nações Unidas (ONU) lançou,<br />
em maio deste ano, o Twentyten.<br />
net, portal com indicadores e tendências<br />
atualizados sobre o estado<br />
internacional da biodiversidade. No<br />
mesmo mês, o Centro Mundial de<br />
Monitoramento de Conservação<br />
das Nações Unidas (Unep) e a IUCN<br />
lançaram também portal exclusivamente<br />
voltado ao ecossistema<br />
marinho mundial.<br />
O Ano Internacional da Biodiversidade<br />
foi estabelecido em 2006 pela<br />
Assembleia Geral da ONU. Nele,<br />
será visto o grau de comprometimento<br />
dos países signatários da<br />
Convenção da Diversidade Biológica,<br />
documento oficial mundial com<br />
metas a serem cumpridas até 2010<br />
para a preservação da biodiversidade.<br />
Um dos principais indicadores<br />
da Convenção a ser seguido pelos<br />
participantes é o de colocar sob<br />
proteção 10% dos ecossistemas<br />
terrestres até 2010 e 10% dos ecossistemas<br />
marinhos, até 2012 – cada<br />
país em seu respectivo território,<br />
para que, ao final, em âmbito geral,<br />
a proteção global chegue também a<br />
10%, em todos os continentes.<br />
A importância da CDB<br />
A Convenção da Diversidade Biológica<br />
(CDB) é o principal fórum<br />
mundial na definição do marco legal<br />
e político para temas e questões<br />
relacionados à biodiversidade (168<br />
países a assinaram e 192 países já a<br />
ratificaram, tendo estes últimos se<br />
tornado Parte da Convenção). A cada<br />
dois anos são realizados encontros<br />
mundiais, chamados Conferências<br />
das Partes (COP), com a participação<br />
dos países membros. A última<br />
ocorreu em Bonn, na Alemanha, em<br />
maio de 2008, e a próxima, a décima,<br />
está marcada para outubro de 2010,<br />
em Nagoia, no Japão.<br />
Uma das principais determinações<br />
da Convenção de Diversidade Biológica<br />
é a divulgação de dados em<br />
escala mundial. Por isso, o site da<br />
CDB já reúne quase 800 relatos de<br />
ações em prol da biodiversidade,<br />
experiências isoladas que, aos<br />
poucos, indicam uma grande rede<br />
Ano 18 • n.1 • janeiro/junho de 2009
de iniciativas. Alguns exemplos: o<br />
monitoramento de recursos aquáticos<br />
em Perak, na Malásia; o plano de<br />
manejo para a Reserva da Biosfera<br />
de Bañados Del Este, no Uruguai; a<br />
recuperação dos rios da Cornuália,<br />
na Grã-Bretanha; a manutenção da<br />
biodiversidade dos polinizadores<br />
na agricultura canadense; a política<br />
nacional para florestas em Uganda.<br />
Iniciativas no Brasil também estão<br />
disponibilizadas, como o crescimento<br />
da técnica no till (semeadura<br />
direta) na agricultura, a<br />
bem-sucedida experiência<br />
em redes de produção<br />
agrícola alternativa,<br />
pagamentos de serviços<br />
ambientais e<br />
taxas de incentivo<br />
para áreas preservadas.<br />
A cada quatro anos, a<br />
CDB cria novas metas<br />
e estratégias de ação<br />
pela defesa da biodiversidade<br />
no planeta. Segundo<br />
Oliver Hillel, coordenador de<br />
projetos da Secretaria da Convenção,<br />
no Canadá, a mais importante,<br />
estabelecida em 2006, foi o envolvimento<br />
de esferas de governos<br />
estaduais e municipais nas ações<br />
da Convenção, o que fez multiplicar<br />
os esforços pelo planeta.<br />
Em 2010, explica, novas metas devem<br />
ser estabelecidas: “Com base<br />
nas avaliações feitas pelos países<br />
membros, cientistas e ONGs, devemos<br />
definir, em outubro de 2010, parte<br />
de uma nova estratégia da CBD”. A<br />
razão seria a dificuldade dos países<br />
em cumprir as demais metas, além<br />
da proteção à biodiversidade – como<br />
o acesso e a repartição de benefícios<br />
no uso econômico de recursos<br />
genéticos, a adoção de biocombustíveis<br />
e a proteção aos conhecimentos<br />
de comunidades tradicionais.<br />
Mas o fato de não alcançar plenamente<br />
as metas da CDB, em si, não é<br />
negativo, na avaliação de Hillel, pois<br />
confirma a necessidade de esforços<br />
conjuntos. “Muito pelo contrário,<br />
apenas reafirma a urgência de uma<br />
ação coordenada em nível global<br />
para salvar o que é, no fim das contas,<br />
a base para a vida na Terra – a<br />
variedade de espécies de plantas,<br />
animais e outros seres vivos que servem<br />
como alimento, medicamento,<br />
insumo primário de produção e base<br />
para os serviços prestados pelos<br />
ecossistemas, como água potável,<br />
regulação climática, fertilidade do<br />
solo e muitos outros”, explana.<br />
O próximo relatório Global Biodiversity<br />
Outlook, de acordo<br />
com o coordenador, deve<br />
chamar a atenção da<br />
população mundial<br />
para a importância<br />
da biodiversidade<br />
em todos os aspectos<br />
da vida. O<br />
tom de alerta, segundo<br />
Hillel, será<br />
para mobilizar ainda<br />
mais os países<br />
de todo o mundo: “Ao<br />
mesmo tempo, queremos<br />
ressaltar a importância<br />
da biodiversidade no<br />
cotidiano das pessoas, em níveis<br />
variados, na economia, na saúde, na<br />
educação. Essa será a marca do Ano<br />
Internacional da Biodiversidade”.<br />
Brasil: papel de<br />
destaque<br />
O Brasil foi o primeiro signatário da<br />
Convenção da Diversidade Biológica<br />
e tem papel preponderante em todas<br />
foto: Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 25 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
Riquezas várias<br />
A biodiversidade é base para o<br />
desenvolvimento cultural, social<br />
e econômico das sociedades.<br />
Traduzidos para valores monetários,<br />
os recursos advindos da<br />
biodiversidade mundial perfazem<br />
cerca de 40% do Produto<br />
Interno Bruto do planeta. Na<br />
atualidade, estima-se que a diversidade<br />
máxima das espécies<br />
em todo o planeta varie entre<br />
50 e 100 milhões. No entanto,<br />
catalogadas existem apenas<br />
aproximadamente 1,7 milhão, o<br />
que atesta a grande necessidade<br />
de pesquisa sobre a riqueza da<br />
biodiversidade mundial.<br />
Mesmo com tamanha abundância,<br />
o estilo de vida do ser<br />
humano ameaça velozmente a<br />
biodiversidade no globo. Pesquisa<br />
científica da Universidade<br />
de Harvard, nos Estados Unidos,<br />
apontou que, no atual ritmo de<br />
vida, nas próximas três décadas<br />
o ser humano pode levar à extinção<br />
20% do total de espécies já<br />
conhecidas – o que corresponderia<br />
a uma perda semelhante à<br />
ocorrida no período de extinção<br />
dos dinossauros, há mais de<br />
60 milhões de anos. A mais recente<br />
lista de espécies animais<br />
ameaçadas de extinção da IUCN<br />
aponta para 16.928 espécies em<br />
sério risco: 21% entre os mamíferos,<br />
12% de pássaros, 31% de<br />
répteis, 30% de anfíbios e 37%<br />
de peixes.<br />
Por outro lado, estudos realizados<br />
nos Estados Unidos apontam<br />
aumento no total de áreas<br />
protegidas mundialmente. De<br />
acordo com pesquisa da Universidade<br />
de Maryland, na atualidade<br />
há 12,8% de terras protegidas<br />
no planeta (há cerca de 30 anos,<br />
o total era de apenas<br />
3,5%).<br />
foto: Luiz Claudio Marigo<br />
as negociações da CDB no mundo.<br />
As atenções voltam-se para o país,<br />
que é detentor de nada menos do<br />
que cerca de 15% de todas as espécies<br />
do planeta – a Mata Atlântica, o<br />
Cerrado, a Amazônia e o Pantanal,<br />
considerados biomas dos mais<br />
ricos da Terra e estão localizados<br />
aqui. Apenas a Floresta Amazônica<br />
brasileira já corresponde a mais de<br />
25% das florestas tropicais que ainda<br />
sobrevivem no mundo. E grande<br />
parte das espécies é endêmica, só<br />
ocorrendo em território brasileiro.<br />
Do ponto de vista econômico, a<br />
biodiversidade brasileira é fonte<br />
importante para o Produto Interno<br />
Bruto nacional: segundo o Ministério<br />
do Meio Ambiente (MMA), a<br />
agroindústria, o setor florestal e<br />
o setor pesqueiro respondem por<br />
cerca de 40%, 4% e 1% do PIB, respectivamente.<br />
A riqueza estende-se também à<br />
questão social. Vivem no Brasil centenas<br />
de comunidades de populações<br />
tradicionais – como indígenas,<br />
extrativistas, ribeirinhos, caiçaras,<br />
quilombolas –, mantenedores de<br />
importantes conhecimentos sobre<br />
a biodiversidade. Hoje, são registrados<br />
no Brasil mais de 200 povos<br />
indígenas.<br />
Essas são as razões de o Brasil ter<br />
sido eleito presidente do Grupo<br />
dos Países Megadiversos. O país é<br />
responsável por estabelecer encontros<br />
com os demais detentores de<br />
grande biodiversidade, para troca<br />
de experiências e apoio mútuo no<br />
cumprimento das metas da CDB.<br />
Integram também o Grupo dos<br />
Megadiversos: Colômbia, México,<br />
Venezuela, Equador, Peru, Estados<br />
Unidos, África do Sul, Madagascar,<br />
República Democrática do Congo,<br />
Indonésia, China, Papua Nova Guiné,<br />
Índia, Malásia, Filipinas e Austrália.<br />
A megadiversidade<br />
sem prece-<br />
dentes do Brasil acarretou diferenças<br />
para o país também perante as<br />
próprias metas da CDB. “Enquanto<br />
todos os signatários devem preservar<br />
10% da biodiversidade de seus<br />
territórios, o Brasil comprometeu-se<br />
a preservar 10% de quatro de seus<br />
biomas, isoladamente, e 30% da<br />
Amazônia”, revela Maria Cecília Wey<br />
de Brito, secretária de Biodiversidade<br />
e Florestas do Ministério do Meio<br />
Ambiente.<br />
Oliver Hillel aponta o desempenho<br />
acima das expectativas do país:<br />
“Entre 2006 e 2010, o Brasil sozinho<br />
já atingiu cerca de 72% da meta de<br />
proteção mundial de ecossistemas.<br />
É um país líder na Convenção”. No<br />
entanto, indica um único ponto ainda<br />
merecedor de atenção, não apenas<br />
dos brasileiros, mas de todos os<br />
países signatários: os ecossistemas<br />
marinhos. O coordenador aponta<br />
que apenas cerca de 1% dos mares<br />
estão protegidos pelas nações; no<br />
Brasil, o percentual é de 1,5%.<br />
Esforços nacionais<br />
O MMA foi denominado ponto focal<br />
da Convenção da Diversidade<br />
Biológica no Brasil, o que significa<br />
que concentra as ações mais importantes<br />
em torno da iniciativa aqui,<br />
tornando-se o principal responsável<br />
pela defesa da biodiversidade<br />
brasileira. Maria Cecília Wey de<br />
Brito afirma que o país terá bons<br />
resultados a mostrar em 2010:<br />
“Nos destacamos na proteção das<br />
Unidades de Conservação e ainda<br />
somos protagonistas nas principais<br />
discussões acerca do acesso aos<br />
recursos genéticos e repartição de<br />
benefícios em todo o mundo”.<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 26 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
A secretária de Biodiversidade e<br />
Florestas confirma que, da meta<br />
de conservação estabelecida pela<br />
CDB para o planeta, o Brasil sozinho<br />
já atingiu mais de 70%. Quanto à<br />
normatização para os recursos genéticos,<br />
o país já possui lei interna,<br />
ainda discutida, mas, mesmo assim,<br />
referência para o avanço da questão<br />
para diversos outros governos.<br />
“Buscamos estabelecer um regime<br />
internacional para o assunto”, atesta.<br />
Em 15 de setembro, os Ministérios<br />
do Meio Ambiente e da Ciência<br />
e Tecnologia assinaram projeto de<br />
lei, com novo texto para o acesso e<br />
a coleta do patrimônio genético brasileiro,<br />
para combate mais efetivo da<br />
biopirataria no país.<br />
Para implementar a CDB, foi criado<br />
em 1994 o Programa Nacional da<br />
Diversidade Biológica (Pronabio),<br />
responsável pela implantação da<br />
Política Nacional de Biodiversidade<br />
(PNB), instituída em 2002. Para subsidiar<br />
a elaboração da PNB, foram<br />
realizadas consultas públicas entre<br />
2000 e 2001, com o próprio governo,<br />
estatais, ONGs, comunidades acadêmicas,<br />
populações locais e com o<br />
empresariado. Em 2003, o Pronabio<br />
passou a chamar-se Conabio e, hoje,<br />
é composto por representantes de<br />
diversos ministérios e de organismos<br />
da sociedade civil.<br />
Programas de destaque<br />
“Com o lançamento do Programa<br />
Áreas Protegidas da Amazônia<br />
(Arpa) e por meio de muitos outros<br />
esforços, o Brasil destaca-se pelas<br />
atitudes inovadoras”, elogia Hillel.<br />
O Arpa foi estabelecido em 2003<br />
com o intuito de proteger 500 mil<br />
foto: Luiz Claudio Marigo<br />
foto: Luiz Claudio Marigo<br />
Por dentro da CDB<br />
O biólogo paulista Oliver Hillel é um dos 20 profissionais do escritório<br />
da sede da Convenção da Diversidade Biológica, que tem sede em<br />
Montreal. Como uma pequena ONU, o escritório “muito vivo”, como ele<br />
diz, reúne pessoas de todo o mundo, responsáveis por temas variados<br />
dentro do tema da biodiversidade. Hillel é responsável, entre outros,<br />
por tópicos como turismo sustentável, cidades e biodiversidade, e usos<br />
sustentáveis. Coordenada pelo argelino Ahmed Djoghlaf, a equipe é<br />
estimulada a uma grande proatividade. “Somos empreendedores”,<br />
define.<br />
Como é considerado por vocês o não alcance da maioria das<br />
metas pelos participantes?<br />
Na verdade, devido à diversidade entre os signatários, esse panorama<br />
já era considerado possível. Esperamos sempre que o desempenho<br />
esteja regulado por um mínimo denominador comum, devido a essas<br />
discrepâncias. O que esperamos, principalmente, é criar compromissos<br />
entre os países, para que todos caminhem juntos rumo ao objetivo.<br />
Como é lidar com as diferenças entre as nações?<br />
É nosso papel. A cada ano, por exemplo, devemos receber relatórios<br />
dos países, mas muitos não possuem recursos para realizá-los. Então,<br />
“corremos atrás”, incentivamos, é nossa função. Ao lado de nações<br />
com ótimo desempenho, há outras muito pequenas onde, muitas vezes,<br />
uma única pessoa é incumbida de todas as ações referentes à questão<br />
ambiental.<br />
Qual é a parte mais difícil do trabalho?<br />
Estamos em contato com interesses muito poderosos, tratamos de<br />
assuntos fundamentais para grupos multinacionais e governos, como<br />
petróleo, recursos genéticos... Não é simples. Além disso, outro aspecto<br />
importante é que hoje mais da metade da população mundial é urbana –<br />
apenas no Brasil, são 85%. Isso significa que as pessoas estão perdendo<br />
contato com a biodiversidade. Antes, ela batia à nossa porta.<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 27 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
quilômetros quadrados<br />
da Amazônia.<br />
O Programa<br />
é coordenado<br />
pelo Ministério<br />
do Meio Ambiente<br />
e implementado<br />
pelo Instituto<br />
Chico Mendes<br />
de Conservação<br />
da Biodiversidade<br />
(ICMBio), em<br />
parceria com governos<br />
estaduais<br />
e municipais da<br />
Amazônia e com<br />
o Fundo Brasileiro<br />
para a Biodiversidade<br />
(Funbio). Suas atividades são<br />
financiadas com recursos da União,<br />
do Fundo para o Meio Ambiente<br />
Global (GEF – Global Environment<br />
Facility), através do Banco Mundial,<br />
do WWF-Brasil e do banco alemão<br />
para o desenvolvimento KfW, além<br />
de contar com a parceria da agência<br />
de cooperação técnica alemã GTZ.<br />
Entre as conquistas do Arpa para a<br />
biodiversidade está a estimativa de<br />
redução de 1,1 bilhão de toneladas<br />
de emissões de carbono e degradação<br />
florestal, por meio das áreas<br />
protegidas pelo Programa.<br />
A Amazônia, bioma de destaque no<br />
Ano Internacional da Biodiversidade,<br />
também tem no Programa de<br />
Pesquisa em Biodiversidade (PPBio)<br />
outro ponto de apoio. Realizado pelo<br />
Ministério da Ciência e Tecnologia<br />
(MCT) desde 2004, o PPBio incentiva<br />
a pesquisa sobre os ecossistemas<br />
brasileiros a fim de disponibilizar os<br />
dados sobre a biodiversidade nacional.<br />
“O PPBio preencheu uma lacuna<br />
importante no setor de ciência e<br />
tecnologia brasileiras, pois o Brasil,<br />
detentor da maior biodiversidade do<br />
planeta, não possuía um programa<br />
de pesquisa bem estruturado sobre<br />
esse tema”, avalia Maria Luiza Braz,<br />
coordenadora-geral de Política e<br />
Programa em Biodiversidade da<br />
Secretaria de Políticas e Programas<br />
de Pesquisa e Desenvolvimento do<br />
MCT.<br />
O PPBio começou pela Amazônia,<br />
com dois núcleos: o Instituto Nacional<br />
de Pesquisa da Amazônia (Inpa) e<br />
o Museu Paraense Emílio Goeldi. No<br />
semiárido foi criado outro núcleo,<br />
localizado na Universidade Estadual<br />
de Feira de Santana (Uefs), na Bahia.<br />
Em 2009, o Programa começa a atuar<br />
na Mata Atlântica, com recomendações<br />
para o início das pesquisas<br />
também no Cerrado, no Pantanal,<br />
nos Pampas e nas Zonas Costeiras e<br />
Marinhas. Para divulgar as informações<br />
coletadas, o MCT estabeleceu<br />
uma política de dados, que integrará<br />
os resultados das pesquisas aos<br />
bancos de dados das instituições envolvidas<br />
no PPBio.<br />
“Os dados gerados<br />
serão disponibilizados<br />
aos pesquisadores<br />
e ao público<br />
externo”, adianta<br />
Maria Luiza.<br />
Para o professor<br />
Peter May, presidente<br />
da Sociedade<br />
Internacional<br />
para a Economia<br />
Ecológica e diretor<br />
da Sociedade<br />
Brasileira de Economia<br />
Ecológica,<br />
há perdas e ganhos<br />
em prol da biodiversidade no país.<br />
“Se, por um lado, temos a redução<br />
de desmatamento na Amazônia,<br />
por conta do Arpa e do desempenho<br />
de Marina Silva, por outro,<br />
somos surpreendidos pela notícia<br />
da grande devastação do Cerrado”,<br />
aponta, referindo-se ao índice de 20<br />
mil quilômetros quadrados anuais<br />
desmatados no ecossistema, anunciado<br />
em setembro pelo Governo<br />
Federal.<br />
foto: Luiz Claudio Marigo<br />
O professor é um dos principais<br />
colaboradores do Ministério do<br />
Meio Ambiente quanto à gestão de<br />
políticas públicas para a defesa da<br />
biodiversidade. “O resultado líquido<br />
dos esforços brasileiros é positivo,<br />
mas é necessário vencermos a incoerência<br />
das políticas públicas quanto<br />
ao tema”, afirma, exemplificando<br />
com a expansão da cultura agropecuária<br />
nacional. May indica a saída:<br />
“Precisamos alcançar a transversalidade<br />
no uso da biodiversidade,<br />
relacionando-a com outros temas de<br />
interesse social, como transportes<br />
e energia.”<br />
foto: Luiz Claudio Marigo<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 28 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
Sacolas plásticas:<br />
podemos viver sem elas?<br />
Estima-se que, hoje, são consumidas em todo o mundo mais de 500 bilhões de sacolas plásticas<br />
por ano. O mais grave é que só 0,6% delas são recicladas. O resultado é um crescente problema<br />
ambiental que vem mobilizando governos e entidades civis pelos quatro cantos do planeta.<br />
Por Patrícia Costa<br />
foto: Adriano Von Markendorf<br />
Quando o cientista inglês Alan Parker<br />
inventou o primeiro plástico,<br />
em 1862, jamais pensou que tal feito<br />
teria consequências tão importantes<br />
nas décadas seguintes. Apesar das<br />
facilidades e imensas vantagens que<br />
o plástico trouxe para a vida moderna,<br />
o novo material sintético também<br />
provocou grandes impactos<br />
na natureza. Isso por conta da sua<br />
principal característica: a durabilidade.<br />
Produzido a partir de uma resina<br />
originada do petróleo, o plástico<br />
leva séculos para se decompor na<br />
natureza. Vemos essa realidade por<br />
todos os lados, ao nos depararmos<br />
com toneladas de sacos, garrafas<br />
PET e outros objetos feitos a partir<br />
desse material flutuando em rios,<br />
oceanos e lagoas. Eles entopem<br />
sistemas de escoamento de águas<br />
pluviais das cidades; vão parar nos<br />
estômagos de tartarugas, golfinhos<br />
e baleias; se enroscam nas asas de<br />
aves marinhas e nas barbatanas de<br />
focas e outros animais que vivem<br />
nos mares; nos aterros sanitários,<br />
impermeabilizam o solo e dificultam<br />
a degradação dos produtos<br />
orgânicos.<br />
“Sopão” de lixo plástico<br />
O problema se tornou tão grave que<br />
vem afetando os oceanos em larga<br />
escala. No Pacífico, a cerca de 920<br />
quilômetros da costa da Califórnia,<br />
no oeste dos Estados Unidos, se<br />
localiza uma área conhecida como<br />
“giro Pacífico Norte”, onde as águas<br />
são calmas por conta dos poucos<br />
ventos e dos sistemas de pressão<br />
muito altos. Ali está depositado um<br />
gigantesco mar de lixo plástico, com<br />
mais de 100 milhões de toneladas de<br />
detritos. Estima-se que a área corresponda<br />
a dois Estados Unidos. Tudo<br />
foi levado pelas correntes marítimas<br />
que se encontram naquele ponto<br />
onde, de acordo com os pesquisadores,<br />
é possível encontrar lixo trazido<br />
de todos os cantos do planeta.<br />
Segundo o Programa das Nações<br />
Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma),<br />
90% de todo o lixo flutuante<br />
encontrado nos oceanos é de plástico.<br />
“O saco plástico é um ícone da<br />
nossa responsabilidade com relação<br />
ao meio ambiente. No momento em<br />
que as pessoas no mundo inteiro<br />
estão parando para pensar nisso já é<br />
um avanço”, afirma a técnica do Departamento<br />
de Consumo Sustentável<br />
do Ministério do Meio Ambiente, Fernanda<br />
Daltro. Para ela, tomar consciência<br />
do problema do excesso de<br />
sacolas plásticas é fundamental para<br />
reduzir o consumo, medida que vai<br />
ter um impacto positivo em todos os<br />
níveis: “Tanto localmente, evitando<br />
a enchente na sua rua, quanto mundialmente,<br />
diminuindo a poluição em<br />
alto mar, por exemplo”.<br />
Só no Brasil, são consumidas 12<br />
bilhões de sacolas plásticas por ano.<br />
É ainda um número modesto, se<br />
comparado às 100 bilhões de sacolas<br />
consumidas pelos Estados Unidos,<br />
mas, ainda assim, se pensarmos que<br />
corresponde a 66 sacos por brasileiro<br />
por mês, é um exagero. Fernanda<br />
culpa o hábito: “Quando você sai de<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 29 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
O mundo<br />
X sacolas plásticas<br />
Os Estados Unidos são os campeões<br />
no consumo de sacolas<br />
plásticas no mundo: 100 bilhões<br />
ao ano. Para fabricá-las,<br />
anualmente são necessários 12<br />
milhões de barris de petróleo.<br />
Mas São Francisco, na Califórnia,<br />
se tornou a primeira cidade<br />
norte-americana a proibir o uso<br />
de sacolas plásticas em 2007, e<br />
outras cidades como Filadélfia,<br />
Boston e Seattle estão seguindo<br />
o mesmo caminho.<br />
No início de 2008, a China proibiu<br />
a distribuição gratuita de sacos<br />
plásticos no comércio. Em Bangladesh,<br />
na Austrália e na cidade<br />
do México aconteceu o mesmo.<br />
Na Itália, elas serão proibidas<br />
a partir de 2010. Na Alemanha,<br />
na Dinamarca, na África do Sul<br />
e na Irlanda, é preciso comprar<br />
sacolas plásticas nas lojas. Parte<br />
desse dinheiro é investido em<br />
gestão do lixo nas cidades.<br />
Em Zanzibar, um conjunto de<br />
ilhas na África, o governo foi<br />
mais radical. Como o turismo ali<br />
é a principal atividade econômica<br />
e as sacolas plásticas estavam<br />
afetando a vida marinha, quem<br />
for pego usando sacola plástica<br />
vai preso por seis meses ou paga<br />
dois mil dólares de multa.<br />
casa e vai ao comércio, em cada loja<br />
que entra para comprar um produto<br />
ganha uma sacolinha. Vai à farmácia,<br />
ganha a sacola. Vai no supermercado,<br />
ganha outra. Quando vê, volta pra<br />
casa com aquele monte de sacolas.<br />
É um desperdício.”<br />
Saco é um saco<br />
Uma das ações governamentais<br />
que vem se popularizando no país<br />
no combate às sacolas plásticas é a<br />
substituição delas pelas chamadas<br />
sacolas “oxibiodegradáveis”. Três<br />
estados já adotaram sacolas desse<br />
material: Goiás, Espírito Santo e Maranhão,<br />
além de alguns municípios,<br />
como Sorocaba e Guarulhos (SP).<br />
Outros, como São Paulo, vetaram<br />
projetos de lei que propunham a<br />
troca. Tudo por conta das dúvidas a<br />
respeito da sua degradação. Apesar<br />
de os fabricantes garantirem que elas<br />
desaparecem no meio ambiente em<br />
até 18 meses, o Ministério de Meio<br />
Ambiente não apoia essa nova tecnofoto:<br />
Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />
Seguindo a tendência mundial de<br />
combate ao excesso de consumo<br />
de sacolas plásticas (ver boxe), o<br />
Ministério de Meio Ambiente lançou,<br />
em junho, a campanha Saco é um<br />
saco, que visa despertar a atenção<br />
da população para a questão e provocar<br />
uma mudança de hábitos que<br />
culmine numa redução de resíduos<br />
sólidos. “A campanha está tendo um<br />
retorno muito positivo. A Wal-Mart,<br />
uma grande empresa de varejo,<br />
aderiu primeiro, mas agora a lista<br />
está enorme, com a adesão de outras<br />
grandes empresas como o Carrefour<br />
e a Kimberly Clark. E a tendência<br />
é que essas parcerias aumentem”,<br />
explica Fernanda Daltro.<br />
Ela conta que já existem diversas<br />
prefeituras e governos estaduais procurando<br />
o Ministério: “Somos uma<br />
referência, e estamos defendendo<br />
um bem muito maior, que é a natureza.<br />
Nós temos de estimular o debate<br />
na sociedade e ir trabalhando em<br />
diversas frentes, seja governamental,<br />
empresarial ou social”.<br />
logia, pois nem mesmo no Canadá e<br />
na Inglaterra, onde foi desenvolvida,<br />
sua produção foi liberada.<br />
O professor do Programa de Engenharia<br />
Química da Coppe/UFRJ, José<br />
Carlos Pinto, afirma que essas sacolas<br />
são uma solução ambientalmente<br />
incorreta: “Elas se transformam em<br />
pó e obviamente poluem o solo e a<br />
água. Além disso, para fazer essa<br />
transformação, utilizam-se catalisadores<br />
à base de metais pesados<br />
como titânio e chumbo, que vão<br />
poluir mais ainda e poderão voltar<br />
ao corpo humano através de carnes<br />
e vegetais contaminados, o que é um<br />
absurdo”. Para o químico, a solução<br />
para as sacolas plásticas está na reciclagem<br />
e no reúso. (ver boxe)<br />
Fernanda Daltro concorda. Além da<br />
reciclagem, a redução do consumo<br />
e o descarte adequado são os principais<br />
focos de atenção das políticas<br />
públicas. “Não temos, por exemplo,<br />
a coleta seletiva estruturada no<br />
país. Apenas 10% dos municípios<br />
possuem coleta seletiva. Precisamos<br />
implementar uma estrutura pública<br />
que permita uma coleta de resíduos<br />
sólidos adequada, para que as pessoas<br />
deixem de desperdiçar”.<br />
Menos seria demais!<br />
Não é o caso do Rio de Janeiro, que<br />
saiu na frente e se tornou o primeiro<br />
estado brasileiro a criar uma lei<br />
que obriga os estabelecimentos<br />
comerciais a substituírem, ao longo<br />
dos próximos três anos, as sacolas<br />
plásticas por sacolas retornáveis. A<br />
lei fluminense determina ainda que o<br />
cliente poderá trocar 50 sacos por um<br />
quilo de alimento ou ganhar um desconto<br />
de R$ 0,03 a cada cinco itens<br />
levados fora de sacos plásticos.<br />
Para o presidente do Conselho Empresarial<br />
de Meio Ambiente da Associação<br />
Comercial do Rio de Janeiro,<br />
Haroldo Mattos de Lemos, essa lei<br />
ainda precisa de ajustes. “Ao invés de<br />
proibir as sacolas plásticas, por que<br />
não se estimula o seu reúso, como<br />
acontece na Europa? Lá, o cliente usa<br />
uma sacola plástica mais resistente<br />
e, quando volta ao mercado, ele a<br />
leva, pois senão vai pagar por uma<br />
nova sacola”.<br />
Essa alternativa esbarra numa questão<br />
chave: a má qualidade das sacolas<br />
plásticas brasileiras. Segundo<br />
a Associação Brasileira de Normas<br />
Técnicas (ABNT), existe uma norma<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 30 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
foto: Divulgação-MMA<br />
estabelecida<br />
para esse produto, que deve ter uma<br />
espessura adequada para agüentar<br />
até seis quilos. Mas a realidade é bem<br />
diferente. A qualidade das sacolas de<br />
supermercado é tão ruim que obriga<br />
o cliente a usar duas e até três sacolas<br />
de uma vez para carregar os produtos.<br />
“Infelizmente, não existe legislação<br />
para regulamentar isso. A norma da<br />
ABNT é apenas uma norma, que o<br />
fabricante respeita se quiser. O lojista<br />
deveria cobrar mais qualidade, mas<br />
isso é delicado, pois mexe com custo.”<br />
Mattos argumenta que caberia ao<br />
próprio cliente cobrar pela qualidade<br />
das sacolas plásticas: “Só assim o<br />
dono do mercado poderia exigir do<br />
fornecedor uma sacola mais resistente,<br />
o que poderia reduzir o número de<br />
sacolas em circulação”.<br />
Ele afirma que os donos de supermercados<br />
e outros lojistas estão<br />
acompanhando a aplicação da lei<br />
com preocupação, e defende que<br />
a proposta de troca de sacolas por<br />
alimentos deveria ser revista, já<br />
que não há uma contrapartida do<br />
governo. “O objetivo principal da lei<br />
não é reduzir o consumo de sacolas,<br />
mas proteger o meio ambiente, e por<br />
esse objetivo estamos todos juntos<br />
lutando. Por isso, precisamos ajudar<br />
os legisladores a aperfeiçoar a lei, à<br />
medida que as dificuldades forem<br />
surgindo”, destaca.<br />
Outro problema é a adesão da população:<br />
cerca de 80% das pessoas<br />
vão ao mercado a pé ou de ônibus e a<br />
sacola plástica facilita muito o transporte<br />
das compras. Fabíola dos Santos<br />
é um bom exemplo. A estudante<br />
de Direito de 22 anos assume que<br />
teria preguiça de levar uma sacola<br />
retornável de casa cada vez que fosse<br />
à rua fazer compras. “Acho a lei superválida,<br />
mas muito difícil de pegar.<br />
Carioca é meio folgado, sempre vai<br />
querer dar um jeitinho, ainda mais se<br />
tiver de pagar pela sacola retornável,<br />
vai sempre preferir o caminho mais<br />
fácil”. Mas confessa: “Hoje eu penso<br />
assim, mas, no futuro, quem sabe, se<br />
todo mundo aderir, eu até poderia me<br />
O ministro Minc no lançamento da<br />
campanha "Saco é um saco"<br />
esforçar, comprar uma sacola retornável<br />
e mudar meus hábitos”.<br />
Já Pedro Nascimento Peixoto, de 76<br />
anos, é o oposto. Este autodenominado<br />
“jovem advogado aposentado”<br />
é um entusiasta da ideia de<br />
substituir sacolas plásticas pelas<br />
retornáveis: “Eu sou do tempo em<br />
que se fazia mercado com sacola de<br />
algodão e não tinha nenhum problema.<br />
Assino embaixo e vou aderir à<br />
lei, sim. Quero um mundo melhor<br />
para minha neta. Lá em casa sou eu<br />
quem faço as compras e evito levar<br />
tantos sacos. Vou começar a estimular<br />
os amigos a fazer o mesmo. As<br />
pessoas precisam se conscientizar<br />
de que usam sacolas plásticas demais!”<br />
Carioca da gema, o dr. Pedro<br />
lamenta as praias poluídas. “O mar<br />
é o mais prejudicado. Tanto plástico<br />
só serve pra poluir o meio ambiente”,<br />
sentencia.<br />
Mudando hábitos e<br />
mentes<br />
O entusiasmo do dr. Pedro parece ter<br />
acompanhado os adeptos da campanha<br />
Saco é um saco. Segundo dados<br />
do Ministério do Meio Ambiente, a<br />
Wal-Mart, por exemplo, registrou, só<br />
nos meses de julho e agosto de 2009,<br />
uma redução no consumo de quatro<br />
milhões de sacolas plásticas em suas<br />
lojas. A adesão à campanha faz parte<br />
de um conjunto de ações que vêm<br />
sendo adotadas desde o final de<br />
2008 e que fazem parte do projeto<br />
Sustentabilidade: “Já vendemos<br />
mais de 2 milhões de sacolas retornáveis<br />
e já evitamos o consumo total<br />
de 9,1 milhões de sacolas plásticas<br />
oferecendo descontos para quem<br />
deixa de usá-las. Acreditamos que a<br />
empresa tem um papel importante na<br />
reeducação de hábitos de consumo”,<br />
afirma Cristina Cassis, responsável<br />
pelas relações com a imprensa da<br />
Wal-Mart.<br />
Fernanda Daltro, do Ministério de<br />
Meio Ambiente, acredita que é pela<br />
educação que se muda esse quadro:<br />
“A lei das sacolas no Estado do Rio<br />
deve ser acompanhada de uma campanha<br />
educativa, para conscientizar<br />
as pessoas da importância, para a<br />
vida delas, de se diminuir o uso das<br />
sacolas plásticas.”<br />
Em Belo Horizonte, por exemplo,<br />
onde desde fevereiro deste ano as<br />
sacolas plásticas começaram a ser<br />
abolidas dos supermercados, na prática,<br />
nada parece ter mudado. Célia<br />
Franco, bancária aposentada de 63<br />
anos, costuma usar uma sacola retornável<br />
por hábito, mas não percebeu<br />
mudanças grandes nos mercados e<br />
lojas que frequenta: “O que eu notei<br />
é que, antes, as sacolas plásticas<br />
ficavam à disposição de quem quisesse<br />
pegar aos montes. Hoje, elas<br />
ficam em caixinhas como de lenço de<br />
papel, e só dá para tirar uma por uma.<br />
E as sacolas retornáveis estão mais à<br />
vista”. Outra coisa que a aposentada<br />
reparou é que nos mercados mineiros<br />
existe o hábito de deixar caixas<br />
de papelão à disposição dos clientes<br />
para guardarem as compras. “Isso<br />
facilita a vida de quem usa carro para<br />
fazer mercado”, afirma ela.<br />
Fernanda Daltro destaca que essa é<br />
uma boa alternativa às sacolas plásticas:<br />
“Deixar engradados no portamalas<br />
ou sacolas retornáveis dentro<br />
do carro também ajuda na hora das<br />
compras. É preciso usar a imaginação<br />
e ter força de vontade para poupar a<br />
natureza”.<br />
Para saber mais:<br />
Campanha Saco é um saco<br />
http://blog.mma.gov.br/sacolasplasticas/<br />
Os 4Rs das sacolas<br />
plásticas<br />
RECUSAR – Sempre que puder,<br />
recuse a sacola plástica e ajude a<br />
diminuir a demanda por recursos<br />
não-renováveis.<br />
REDUZIR – Pense se você realmente<br />
precisa de tantas sacolas<br />
plásticas armazenadas em casa.<br />
Diminua a quantidade guardada,<br />
mas não jogue fora, vá armazenando<br />
menos e racionalize seu uso.<br />
REUTILIZAR – É usar de novo, dar<br />
outra finalidade. Use como saco<br />
de lixo, sacola de novas compras,<br />
embalagem etc.<br />
RECICLAR – É transformar materiais<br />
para a produção de matériaprima<br />
para outros produtos por<br />
meio de processos industriais ou<br />
artesanais. As sacolas plásticas<br />
também são recicláveis. Até as<br />
que se rasgam devem ser encaminhadas<br />
para a reciclagem, como<br />
o plástico da garrafa PET. Nunca<br />
jogue fora no lixo comum.<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 31
foto: João Roberto Ripper<br />
O meio<br />
ambiente<br />
visto pela<br />
medicina<br />
Poluição:<br />
efeito direto<br />
sobre a saúde<br />
humana<br />
Os impactos causados pelo<br />
desequilíbrio ambiental na<br />
saúde humana mobilizam,<br />
em todo o mundo,<br />
profissionais da área médica<br />
e de saúde coletiva, que<br />
começam a dar particular<br />
importância aos efeitos das<br />
mudanças climáticas sobre<br />
a população.<br />
Por Enrique Blanco<br />
A relação entre meio ambiente e<br />
saúde pode parecer óbvia para<br />
a maioria das pessoas, mas só<br />
recentemente o tema tem conseguido<br />
crescente destaque nos<br />
cenários nacional e internacional,<br />
devido, principalmente, à ação<br />
dos profissionais da área de saúde<br />
coletiva. As mudanças climáticas e<br />
seus impactos na saúde das populações<br />
chamaram a atenção desses<br />
profissionais, e a preocupação com<br />
o meio ambiente passou a ocupar<br />
as agendas médicas. Setores dos<br />
governos federal, estadual e municipal<br />
estão começando a ouvir o<br />
que esses profissionais têm a dizer<br />
sobre as condições socioambientais<br />
das populações rurais e urbanas.<br />
O resultado começou aparecer este<br />
ano, com o apoio do Poder Público a<br />
dois eventos pioneiros sobre o tema:<br />
o 1° Congresso Internacional de Medicina<br />
<strong>Ambiental</strong> – Os homens, seus<br />
ambientes e a nova ameaça global –,<br />
em setembro, e a 1ª Conferência Nacional<br />
de Saúde <strong>Ambiental</strong> (CNSA) – A<br />
saúde ambiental na cidade, no campo e<br />
na floresta: construindo cidadania, qualidade<br />
de vida e territórios sustentáveis<br />
–, em dezembro deste ano.<br />
A 1ª CNSA foi precedida de três seminários,<br />
que tiveram por objetivo dar início ao<br />
processo de mobilização e sistematização<br />
de propostas para subsidiar as etapas municipais,<br />
estaduais e federal. O primeiro, com<br />
foco na saúde dos povos da floresta, aconteceu<br />
em Belém (PA), em agosto, e contou com<br />
a participação de índios, extrativistas, quilom-<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 32 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
olas, pescadores, entre outros. Nos<br />
mês seguinte, foi a vez do seminário<br />
sobre os povos dos campos, em<br />
Cuiabá (MT), e do que discutiu questões<br />
ligadas aos povos das cidades,<br />
em Guarulhos (SP).<br />
A importância desses eventos é tão<br />
grande que a 1ª CNSA foi convocada<br />
por decreto do presidente Lula e envolveu<br />
os Ministérios da Saúde, das<br />
Cidades e do Meio Ambiente para<br />
desenvolver uma Política Nacional<br />
de Saúde <strong>Ambiental</strong>. A proposta é<br />
definir diretrizes para uma política<br />
pública integrada no campo da saúde<br />
ambiental, a partir da atuação transversal<br />
e intersetorial dos vários atores<br />
envolvidos, bem como promover<br />
e ampliar a consciência da população<br />
a respeito dos determinantes<br />
socioambientais, num conceito<br />
ampliado de saúde.<br />
As áreas da saúde e da medicina<br />
compartilham diretamente<br />
desses interesses,<br />
pois seus profissionais procuram<br />
identificar como esses<br />
fatores afetam a saúde<br />
das populações, por meio de<br />
uma visão sistêmica que enfatiza<br />
a prevenção e procura<br />
evitar os fatores desencadeadores<br />
de doenças ambientais.<br />
As ações e campanhas<br />
que começam a se consolidar<br />
no Brasil tiveram início<br />
em países da Europa e nos<br />
Estados Unidos, com o apoio<br />
de organizações de saúde<br />
pública e meio ambiente, e,<br />
atualmente, estão ganhando<br />
novos parceiros.<br />
Preocupação<br />
internacional<br />
foto: Rogerio Reis/Tyba<br />
Na Inglaterra, estudos apontando o<br />
impacto dos crescentes problemas<br />
ambientais à saúde da população<br />
têm ganho cada vez maior espaço.<br />
Essa preocupação da classe médica<br />
foi bem expressa no artigo Dez ações<br />
práticas contra as mudanças climáticas,<br />
de Jenny Griffiths, Alison Hill,<br />
Jackie Spiby e Robin Stott, publicado<br />
em uma das revistas científicas mais<br />
reconhecidas no mundo na área da<br />
medicina, o British Medical Journal,<br />
e editado no Brasil pela BMJ-Brasil,<br />
em setembro de 2008.<br />
Os autores fazem parte da Rede de<br />
Saúde e Sustentabilidade (Health<br />
and Sustainability Network) e do<br />
Conselho de Saúde e Clima (Climate<br />
and Health Council), e afirmam que<br />
uma das ações estratégicas a ser realizada<br />
pelos médicos preocupados<br />
com a questão ambiental é “colocar<br />
as mudanças climáticas como pauta<br />
de todas as reuniões: de equipes<br />
clínicas, de comitês e de redes de<br />
profissionais. Os médicos podem<br />
oferecer suas opiniões a presidentes<br />
e gerentes executivos”.<br />
Nas “ações práticas contra as mudanças<br />
climáticas”, os médicos se<br />
Questões ambientais, como as mudanças climáticas,<br />
estão ganahando maior peso na área da saúde<br />
Outra clara sinalização da importância<br />
que as questões ambientais vêm<br />
ganhando na área da saúde foi a<br />
recente publicação, pela Organização<br />
Mundial de Saúde (OMS), de dois documentos:<br />
"Hospitais saudáveis, placomprometem,<br />
entre outras medidas,<br />
a aconselhar os pacientes a<br />
reduzir o consumo de energia e a<br />
emissão de carbono no seu dia a dia<br />
(evitando, por exemplo, o uso do<br />
carro); a melhorar a alimentação com<br />
o consumo de alimentos regionais e<br />
da época (e se possível, produzidos<br />
com menor emissão de carbono),<br />
e a utilizar em seus lares e locais<br />
de trabalho materiais e tecnologias<br />
consideradas mais limpas. No caso<br />
da Inglaterra e do Reino Unido, os<br />
autores defendem ainda o estímulo<br />
à estabilização populacional, promovendo<br />
a alfabetização e o acesso<br />
a métodos contraceptivos por meio<br />
de institutos como o International<br />
Planned Parenthood Federation e o<br />
Marie Stopes International.<br />
A estratégia de convencimento individual<br />
está associada à confiança<br />
entre médico e paciente. Esse é,<br />
aliás, um dos principais diferenciais<br />
da ação dos médicos e que explica<br />
o poder de ação que têm esses<br />
profissionais. “A sociedade deposita<br />
grande confiança no médico<br />
e, por isso, sua voz tem um peso<br />
grande. Estamos encorajando-os a<br />
falar com seus pacientes e colegas<br />
sobre a importância da redução das<br />
emissões de carbono”, confirmam<br />
Griffiths e Hill.<br />
Nos Estados Unidos, se observa<br />
também uma crescente preocupação<br />
dos médicos com as questões<br />
ambientais. A respeitada revista<br />
da Associação Médica<br />
Americana publicou, no final<br />
de 2008, um artigo em tom de<br />
convocação: Os médicos devem<br />
também ser ambientalistas.<br />
Nele, os autores afirmam<br />
que “é hora de tomarmos uma<br />
posição e confrontarmos a<br />
situação ambiental, juntamente<br />
com governos, cientistas<br />
e empresas do mundo.”<br />
Eles lembram que a atuação<br />
direta com os pacientes é<br />
muito importante, mas a ação<br />
institucional é fundamental.<br />
Por isso, pretendem somar<br />
esforços, não apenas na área<br />
acadêmica, mas na elaboração<br />
e execução de planos de<br />
ação: “As escolas de medicina<br />
poderiam ensinar ciência ambiental;<br />
as sociedades especializadas e os<br />
institutos de pesquisa poderiam<br />
coletar evidências sobre os efeitos<br />
prováveis da mudança acelerada do<br />
clima sobre a saúde humana; os hospitais<br />
poderiam se ‘esverdear’ e os<br />
médicos poderiam unir forças com<br />
ambientalistas para delinear planos<br />
de ação e executá-los”.<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 33 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
neta saudável, pessoas saudáveis – O<br />
problema das alterações climáticas<br />
nos serviços de saúde" e "Proteger<br />
a saúde da mudança climática – As<br />
prioridades da investigação global".<br />
A situação no Brasil<br />
A falta de saneamento básico<br />
mata milhões de crianças,<br />
anualmente, em todo o<br />
mundo<br />
A maior atenção com o impacto<br />
das determinantes sociais da saúde<br />
na qualidade de vida da população<br />
brasileira reflete, portanto, um<br />
movimento mundial. Na verdade,<br />
se poderia dizer que conceitos de<br />
saúde ambiental já são aplicados no<br />
Brasil desde o desenvolvimento da<br />
medicina-sanitarista e das políticas<br />
higienistas vinculadas ao saneamento<br />
básico e ao controle das endemias.<br />
A explicação das doenças a partir<br />
da relação entre o clima, o modo de<br />
vida e as condições das habitações já<br />
estava presente na atuação de médicos-sanitaristas<br />
e epidemiologistas,<br />
como Carlos Chagas e Oswaldo Cruz,<br />
que agiram diretamente na eliminação<br />
das condições socioambientais<br />
das doenças.<br />
Desde então, as ações tornaram-se<br />
mais estratégicas e menos radicais<br />
e, cada vez mais, levam em consideração<br />
os indicadores sociais que<br />
afetam o dia a dia das comunidades.<br />
A ideia passa a ser tratar o doente e<br />
não apenas a doença, compreendendo<br />
o paciente em sua integralidade e<br />
inserido no contexto socioambiental<br />
em que vive. Essa proposta está<br />
relacionada à denominada Clínica<br />
Ampliada, ou Clínica do Sujeito, e<br />
está relacionada à ação integrada de<br />
todos os profissionais de saúde envolvidos<br />
no atendimento. Nessa direção,<br />
trabalha o Médico de Família e<br />
Comunidade (MFC), profissional que<br />
atua na linha de frente com o Atendimento<br />
Primário à Saúde (APS).<br />
O médico Eno Dias de Castro Filho,<br />
vice-presidente da Sociedade Brasileira<br />
de Medicina de Família e Comunidade<br />
(SBMFC), faz parte do Grupo<br />
de Pesquisa em APS da Universidade<br />
Federal do Rio Grande do Sul e<br />
do Serviço de Saúde Comunitária<br />
do Grupo Hospitalar Conceição (RS).<br />
Ele explica que “a natureza sistêmica<br />
do trabalho cotidiano do MFC,<br />
que vai desde os determinantes<br />
sociais aos determinantes genéticos<br />
das doenças, é similar à forma de<br />
pensar e agir dos ‘ambientalistas’.<br />
Atualmente, a SBMFC trabalha com<br />
a questão das mudanças climáticas,<br />
e já fez sugestões ao Plano Nacional<br />
sobre Mudança Climática do governo<br />
brasileiro”.<br />
Os MFCs elaboram um mapa das<br />
condições de vida do paciente, identificando<br />
os fatores sociais e ambientais<br />
responsáveis por determinadas<br />
enfermidades, permitindo a ação<br />
sobre as causas e não apenas sobre<br />
os efeitos da doença.<br />
O dr. Eno Dias também vem trabalhando<br />
– juntamente com o dr. Enrique<br />
Barros e o dr. Fabio Schwalm,<br />
médicos residentes em MFC do Serviço<br />
de Saúde Comunitária do Grupo<br />
Hospitalar Conceição (RS) – para<br />
identificar o impacto do aquecimento<br />
global sobre a atenção primária à<br />
saúde. Eles esclarecem: “O MFC é um<br />
profissional capacitado a diagnosticar<br />
problemas socioambientais<br />
em sua<br />
comunidade e a buscar soluções com<br />
a cooperação da população local<br />
e com outros setores (serviços públicos<br />
de limpeza, luz, saneamento,<br />
segurança etc.). Há vários exemplos<br />
de ações socioambientais: o MFC<br />
que coordena ações comunitárias<br />
de prevenção à dengue, o que lidera<br />
o movimento pela pavimentação ou<br />
saneamento de sua comunidade etc.<br />
Os aspectos ecológicos específicos,<br />
como o tema da mudança climática,<br />
ainda são incipientes para o MFC.<br />
Por esse motivo, nosso grupo de<br />
pesquisa investiga formas da Atenção<br />
Primária à Saúde para atuar na<br />
mitigação e adaptação à mudança<br />
climática”, afirmam os médicos.<br />
A ação sobre as condições socioambientais<br />
das comunidades evita a<br />
propagação de doenças emergentes<br />
recentemente identificadas e das<br />
reemergentes que, apesar de controladas<br />
no passado, ressurgiram<br />
como problema de saúde pública.<br />
Conforme alertam Terezinha Maria<br />
Mafioletti, enfermeira especialista<br />
em Saúde Coletiva e em Saneamento<br />
e Vigilância Sanitária e mestre em<br />
Saúde Coletiva, e Dione Maria Menz,<br />
enfermeira especialista em Saúde<br />
Mental Comunitária, essas doenças<br />
“assumiram nova condição de transmissão<br />
devido a modificações das<br />
características do agente infeccioso<br />
e porque passaram de doenças raras<br />
e restritas a problemas de saúde<br />
pública. A dengue, por exemplo, erradicada<br />
em vários países nas décadas<br />
de 1950 e 1960, retornou<br />
na década de<br />
foto: Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 34 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
1970 por falhas na vigilância epidemiológica<br />
e pelas mudanças sociais<br />
e ambientais provocadas pela urbanização<br />
acelerada e pelas condições<br />
sociais. A malária, após ter diminuído<br />
no início da última década, voltou aos<br />
patamares dos anos 1990, na faixa de<br />
aproximadamente 600 mil casos por<br />
ano”, lembram.<br />
O trabalho em campo comprova que<br />
as mudanças climáticas e a ação do<br />
ser humano provocam desequilíbrios<br />
ambientais e o desencadeamento<br />
de diversas doenças que afetam as<br />
populações. “A derrubada da floresta<br />
e o represamento de igarapés e rios<br />
favorecem a proliferação do mosquito<br />
transmissor de várias doenças. As<br />
hantaviroses, a cólera, a febre amarela,<br />
a tuberculose, a esquistossomose<br />
mansônica, entre outras, compõem<br />
esse quadro, além de exporem<br />
as frágeis estruturas ambientais<br />
urbanas em nosso país, as quais<br />
tornam as populações vulneráveis a<br />
doenças que pareciam superadas e<br />
ampliam a já alta carga de doenças<br />
da população”, confirmam Terezinha<br />
e Dione.<br />
Mudança de<br />
conduta<br />
A ação dos profissionais<br />
de saúde<br />
coletiva pretende<br />
convencer pacientes,<br />
instituições e<br />
governos sobre<br />
a emergência de<br />
uma mudança estrutural:<br />
cuidar da<br />
saúde ambiental é<br />
cuidar das condições<br />
socioambientais<br />
necessárias à<br />
sobrevivência humana.<br />
Os eventos<br />
que começaram<br />
este ano no Brasil,<br />
visando a consolidação<br />
da Política<br />
Nacional de Saúde<br />
<strong>Ambiental</strong>, são sinais importantes de<br />
mudança de atitude. Mas ainda há<br />
muito trabalho a fazer.<br />
De acordo com a análise de Jenny<br />
Griffiths e Alison Hill, “as questões<br />
ambientais podem parecer sem importância<br />
para as pessoas nos países<br />
em desenvolvimento, que lidam com<br />
muitos outros problemas, mas eles<br />
já estão enfrentando o impacto das<br />
alterações climáticas. A mensagem<br />
A melhoria da alimentação passa pelo<br />
consumo de produtos regionais e de época<br />
A derrubada de florestas favorece a proliferação do mosquito transmissor<br />
de várias doenças<br />
foto: Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />
é a mesma que na Inglaterra: se não<br />
cuidarmos do meio ambiente, do<br />
qual dependemos para nossa sobrevivência,<br />
não vamos ter um planeta<br />
para viver”.<br />
A partir da experiência europeia,<br />
Jenny e Alison sugerem: “Médicos<br />
no Brasil e de todo o mundo podem<br />
fazer parte de campanhas mundiais<br />
para redução de emissões de<br />
carbono per capita, com base no<br />
princípio da equidade. Segundo o<br />
World Resources Institute, as emissões<br />
do Brasil são de 5,5 toneladas<br />
por pessoa, em comparação com 11<br />
toneladas no Reino Unido. No futuro,<br />
será necessário reduzir a não mais<br />
de duas toneladas por pessoa. O<br />
trabalho da ambientalista Vandana<br />
Shiva, na Índia, é inspirador: ela treina<br />
as pessoas sobre modos de vida<br />
sustentáveis, para combater o que<br />
ela chama de economia do ‘suicídio’.<br />
Médicos de saúde pública precisam<br />
estar envolvidos em organizações de<br />
base e redes sociais. Isso está comecias<br />
na saúde de sua comunidade,<br />
tendo autoridade legal e moral para<br />
buscar os parceiros mais adequados<br />
para corrigir determinada prática<br />
insalubre”, aponta dr. Eno.<br />
Mas essas ações devem envolver<br />
outros atores da sociedade. “O<br />
Poder Público cumpre papel legislativo<br />
e fiscalizador,<br />
e necessita<br />
ser informado de<br />
forma técnica e<br />
confiável pelos<br />
MFCs, no sentido<br />
da prevenção e<br />
promoção de saúde.<br />
As empresas<br />
caminham cada<br />
vez mais para a<br />
responsabilidade<br />
socioambiental e<br />
podem também<br />
tornar-se parceiras<br />
estratégicas.<br />
Quando o MFC<br />
c o n s t r ó i c o m<br />
seus pacientes/<br />
comunidades os<br />
conhecimentos<br />
sobre as múltiplas<br />
relações entre<br />
saúde e ambiente,<br />
esses ficam mais capacitados a<br />
exigir posturas mais ecossustentáveis,<br />
tanto das empresas quanto do<br />
Poder Público. O MFC tem um papel<br />
de ‘advogado’ das pessoas, famílias<br />
e comunidades com as quais trabalha<br />
e, por vezes, necessitará mobilizar o<br />
potencial de ação cidadã coletiva das<br />
mesmas, trazendo à tona a temática<br />
ambiental conflituosa de alguns contextos.<br />
O que não aparece não pode<br />
ser melhorado”, finaliza dr. Eno.<br />
çando a acontecer na Índia e tenho<br />
certeza que também acontecerá no<br />
Brasil”, concluem.<br />
Nesse movimento mundial pela saúde<br />
ambiental, a Vigilância Sanitária e<br />
a Medicina de Família e Comunidade<br />
assumem um papel relevante. “O Médico<br />
de Família e Comunidade está<br />
em posição privilegiada para fazer a<br />
conexão entre causas e consequênfoto:<br />
Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 35 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
Na onda da<br />
sustentabilidade<br />
O aumento da consciência ecológica entre os<br />
praticantes de esportes de aventura é uma tendência<br />
que aumenta a cada ano e tem levado a ações<br />
concretas de preservação e educação ambiental. Afinal<br />
de contas, a degradação cada vez maior dos ambientes<br />
naturais coloca em risco a prática de atividades como<br />
surfe, escalada, montanhismo e canionismo.<br />
Montanhistas:<br />
preocupção com<br />
degradação<br />
ambiental é<br />
antiga<br />
Por Márcia Soares<br />
foto: Renata Mello/Tyba<br />
Se, para muitos de nós, o aumento<br />
da degradação ambiental é algo<br />
somente visto pela TV, jornais e<br />
revistas, para os praticantes dos<br />
chamados esportes de aventura é<br />
uma realidade vivenciada no cotidiano.<br />
Quem pode conhecer melhor<br />
a situação de mares, rios, trilhas e<br />
montanhas do que aqueles que frequentam<br />
e usam esses ambientes?<br />
A consciência ambiental entre esses<br />
esportistas não é uma novidade,<br />
mas, nos últimos anos, tem aumentado<br />
e estimulado ações em prol da<br />
conservação.<br />
Um bom exemplo é o Programa Surfe<br />
Sustentável, promovido pela ONG<br />
Ecosurfi, que vem realizando uma<br />
série de seminários pelo litoral paulista.<br />
O objetivo principal é provocar<br />
a discussão sobre sustentabilidade<br />
entre os surfistas, estimulando-os a<br />
agir em prol da conservação dos mares.<br />
O primeiro produto da iniciativa<br />
será a "Carta de responsabilidades<br />
dos surfistas para sociedades sustentáveis",<br />
documento que está sendo<br />
estruturado com base em quatro<br />
eixos: protagonismo dos surfistas e<br />
educação ambiental; cultura surfe e<br />
consumo; surfe e gestão costeira; e,<br />
por último, surfe, juventude e meio<br />
ambiente.<br />
O programa já alcançou boa repercussão<br />
entre surfistas amadores e<br />
profissionais, fabricantes de pranchas,<br />
juízes de surfe, artistas e admiradores<br />
do esporte. Segundo João<br />
Malavolta, dirigente da Ecosurfi, o<br />
Estado de São Paulo está servindo<br />
de piloto para essa primeira fase,<br />
que visa a mobilização por meio<br />
dos seminários Surfe nas ondas da<br />
sustentabilidade. A experiência deve<br />
ser replicada em outras cidades<br />
litorâneas, como Rio de Janeiro e<br />
Salvador, onde algumas instituições<br />
já sinalizaram interesse no projeto.<br />
No início de setembro passado, o<br />
programa colheu o primeiro fruto de<br />
seu trabalho: foi criada uma comunidade<br />
na internet chamada "Aliança<br />
dos surfistas pelo meio ambiente",<br />
que tem como proposta servir como<br />
um canal de escuta e mobilização.<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 36 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
Para Malavolta, esse amplo processo<br />
de discussão é o grande diferencial<br />
da proposta, que visa catalisar<br />
parcerias na comunidade do surfe,<br />
estimulando ações práticas voltadas<br />
para a preservação e conservação<br />
das áreas costeiras.<br />
Ainda de acordo com Malavolta, a<br />
comunidade do surfe estava acostumada<br />
a ações pontuais, como limpeza<br />
de praias, e eventos específicos<br />
pela defesa ambiental. “O diferencial<br />
deste programa, desenvolvido de<br />
forma completamente voluntária e<br />
contando com parcerias locais, é<br />
que trabalhamos numa lógica participativa<br />
e de conscientização de<br />
longo prazo. Afinal, estamos falando<br />
de uma mudança socioambiental<br />
global, agravada pela questão das<br />
mudanças climáticas”, explica. A<br />
segunda fase do programa terá<br />
como foco a mobilização, a difusão<br />
e o enraizamento, e deve engajar<br />
personalidades para servirem como<br />
difusores da ideia, além de usar a<br />
internet como instrumento de propagação.<br />
“Queremos envolver nesta proposta<br />
desde empresários do esporte<br />
– agentes importantes de um negócio<br />
que movimenta cerca de R$<br />
3 bilhões ao ano, só no Brasil – até<br />
as escolas de surfe”, diz Malavolta.<br />
“O surfista está sentindo na pele<br />
toda essa degradação dos mares.<br />
É comum encontrarmos plásticos<br />
boiando, animais mortos, como<br />
tartarugas e toninhas, sem contar<br />
com a própria redução do litoral –<br />
em alguns lugares, a faixa de areia é<br />
cada vez menor. O surfista percebe<br />
tudo isso, mas precisa avançar no<br />
entendimento das causas e do que<br />
precisa ser feito para garantir a sustentabilidade.<br />
E o grande desafio em<br />
tudo isso é provocar a proatividade”,<br />
reflete.<br />
Do mar à terra<br />
Se no mar os esportistas tentam<br />
surfar na onda da sustentabilidade,<br />
em terra firme o vento já sopra<br />
nessa direção há muito tempo. Na<br />
vanguarda desse movimento estão<br />
foto: Flavio Vidiga//Tyba<br />
os montanhistas e escaladores que,<br />
muito antes do tema ecologia se tornar<br />
tão popular, já se preocupavam<br />
com os rumos do esporte e o impacto<br />
ambiental por ele causado.<br />
Na década de 1980, há exatamente<br />
26 anos, foi realizado na cidade de<br />
Teresópolis (RJ), na sede do Parque<br />
Nacional da Serra dos Órgãos, o 1º<br />
Encontro Brasileiro de Montanhismo.<br />
Um dos textos lidos durante este<br />
evento foi o "Manifesto da escalada<br />
natural", redigido pelo escalador<br />
André Ilha, hoje diretor de Biodiversidade<br />
e Áreas Protegidas do Instituto<br />
Estadual do Ambiente do Rio<br />
de Janeiro (Inea). O manifesto fazia<br />
um panorama rápido da evolução<br />
do esporte e de como seu desenvolvimento<br />
técnico vinha a favor do<br />
menor impacto nas montanhas.<br />
De lá para cá, o movimento cresceu<br />
e passou a engajar não apenas os<br />
praticantes, mas também os órgãos<br />
governamentais responsáveis pela<br />
proteção de cenários de rara beleza,<br />
palcos de várias práticas esportivas:<br />
os parques e reservas. Em 2003, o<br />
Ministério do Meio Ambiente (MMA)<br />
lançou uma iniciativa para definir<br />
diretrizes de mínimo impacto para<br />
a visitação em Unidades de Conservação<br />
(UCs).<br />
Vários seminários e reuniões foram<br />
promovidos pelo MMA, envolvendo<br />
Surfistas: engajados<br />
em programas de<br />
sensibilização para<br />
preservar sistemas<br />
costeiros<br />
praticantes de caminhada, escalada,<br />
canoagem, rafting, voo livre<br />
e ciclismo, entre outros esportes,<br />
juntamente com os gestores de UCs,<br />
para definirem as melhores práticas<br />
dentro dessas áreas. “O bacana desse<br />
trabalho foi o envolvimento dos<br />
esportistas e de outros segmentos<br />
da sociedade na definição das diretrizes,<br />
muitas vezes por meio de<br />
consultas presenciais, ao invés de se<br />
estabelecer regras sem sequer discuti-las<br />
com a sociedade”, ressalta<br />
Camila Rodrigues, do Departamento<br />
de Áreas Protegidas do MMA.<br />
O documento "Diretrizes para visitação<br />
em unidades de conservação",<br />
lançado em 2006 e disponível no site<br />
do MMA (www.mma.gov.br), traz<br />
um conjunto de princípios e recomendações<br />
para ordenar a visitação<br />
em parques e reservas, visando<br />
assegurar a sustentabilidade desse<br />
“serviço” oferecido pela natureza:<br />
sua beleza cênica.<br />
A popularização do ecoturismo e o<br />
aumento crescente de visitantes em<br />
ambientes naturais, especialmente<br />
nos parques nacionais, foram o<br />
grande motivador da ação do MMA.<br />
Pesquisas mostram que o mercado<br />
de esportes de aventura cresce consideravelmente<br />
a cada ano. Segundo<br />
dados do Conselho Mundial de<br />
Viagem e Turismo (em inglês, World<br />
Travel & Tourism Council – WTTC),<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 37 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
o turismo ecológico representa hoje<br />
de 5% a 8% do negócio turismo, e<br />
tem estimativa de crescimento anual<br />
entre 10% e 30%.<br />
Outro fator relevante nesse cenário<br />
é a diversidade biológica e geográfica<br />
do país. A revista National<br />
Geographic, em sua edição de dezembro<br />
de 2008, cita o Brasil como<br />
o melhor destino turístico para a<br />
prática dos esportes de aventura, ao<br />
lado do Nepal. Sem dúvida, a riqueza<br />
dos biomas brasileiros, bem como<br />
a nossa diversidade cultural, são<br />
atrativos singulares para o aumento<br />
da visitação em áreas naturais.<br />
Pega leve!<br />
Organizados em clubes excursionistas,<br />
associações, federações<br />
e confederação, os montanhistas<br />
brasileiros continuam realizando<br />
campanhas pela ética na montanha<br />
e menor impacto nas paredes de escalada.<br />
Em alguns casos, seguindo<br />
a trilha de entidades internacionais<br />
como a União Internacional das Associações<br />
de Alpinismo (na sigla em<br />
francês, UIAA) ou o Leave no trace<br />
(“Não deixe rastro”), organização<br />
norte-americana dedicada à difusão<br />
da ética em ambientes naturais.<br />
ças’, que são válidas conceitualmente,<br />
mas não ensinam ou<br />
orientam como as pessoas<br />
devem se comportar nestes<br />
ambientes”.<br />
Com o apoio do WWF<br />
Brasil, o projeto elaborou<br />
uma série de cartilhas e<br />
construiu um website<br />
que mantém disponível<br />
todo o material da<br />
campanha (www.pegaleve.org.br).<br />
São<br />
nove livretos, estruturados<br />
em três<br />
eixos: Brasil, com<br />
orientações gerais<br />
para ecoturistas;<br />
Aventura, com<br />
recomendações<br />
específicas para<br />
caminhadas e<br />
acampamento,<br />
visitas a cavernas,<br />
corridas<br />
de aventura e<br />
escalada em<br />
rocha; e Biomas,<br />
dedicado<br />
aos cuidados<br />
especiais que<br />
cada ambiente<br />
deste requer.<br />
Assim surgiu o projeto Pega leve!,<br />
criado pelo Centro Excursionista<br />
Universitário, organização fundada<br />
por estudantes da Universidade<br />
de São Paulo em 1970 e que se<br />
dedica à prática, desenvolvimento<br />
e difusão de atividades esportivas<br />
em ambientes naturais. O objetivo<br />
da iniciativa é propagar a ética do<br />
cuidado ambiental e provocar um<br />
mínimo impacto em locais onde se<br />
praticam esportes como caminhada,<br />
montanhismo, escalada, canoagem,<br />
espeleologia (exploração de cavernas)<br />
e mountain bike.<br />
Lançado em 2002, o programa tem<br />
como foco a difusão de informações<br />
visando aumentar a consciência e o<br />
respeito ao meio ambiente. O coordenador<br />
do Pega leve!, Milton Dines,<br />
lembra que, na época, os parques<br />
começavam a ser muito visitados<br />
e não havia uma orientação precisa<br />
sobre como as pessoas deveriam<br />
agir nesses locais: “Sentíamos falta<br />
de um código de conduta para atividades<br />
ao ar livre. O que tínhamos<br />
até então eram aquelas máximas<br />
‘não deixe nada a não ser pegadas’,<br />
‘não leve nada a não ser lembran-<br />
Dines ressalta<br />
que, para elaborar<br />
o conteúdo das cartilhas,<br />
foram consultados uns 80 códigos<br />
de conduta do mundo inteiro, pela<br />
internet. Esse material ainda se mantém<br />
atual e com resultados concretos.<br />
“Recebemos um número grande<br />
de mensagens por e-mail do país inteiro,<br />
demonstrando interesse pelo<br />
material e pedindo informações,<br />
e conseguimos influenciar outras<br />
iniciativas, como o Programa Trilhas<br />
de São Paulo, do governo do estado,<br />
que, além de fazer um descritivo das<br />
trilhas, criou um passaporte ao estilo<br />
do que existe no Caminho de Santiago<br />
de Compostela, incluindo os<br />
princípios do Pega leve!”, destaca.<br />
Adote uma montanha<br />
Com foco nos locais frequentados<br />
por escaladores e montanhistas,<br />
o programa Adote uma montanha<br />
é uma iniciativa da Confederação<br />
Brasileira de Montanhismo (CBME)<br />
para a conservação desses ambientes.<br />
Por meio de mobilização voluntária,<br />
o programa já conta com 41<br />
áreas adotadas por 30 associações<br />
de montanhismo, em sete estados<br />
brasileiros.<br />
Nessas áreas, os grupos realizam<br />
atividades como recuperação e<br />
manejo de trilhas, remoção de lixo,<br />
recuperação de áreas degradadas e<br />
conscientização de visitantes e moradores<br />
locais sobre a importância<br />
ambiental das montanhas. “Na verdade,<br />
há muito tempo os montanhistas<br />
realizam atividades desse tipo,<br />
como mutirões e campanhas, mas o<br />
que o Adote uma montanha trouxe<br />
foi a possibilidade de concentrar e<br />
fortalecer iniciativas isoladas”, conta<br />
Silvério Nery, presidente da CBME.<br />
Para Silvério, os montanhistas foram<br />
os primeiros a acessarem locais de<br />
rica beleza natural, antes mesmo<br />
deles se transformarem em parques<br />
e reservas, e até hoje alcançam<br />
áreas ainda pouco frequentadas,<br />
de difícil acesso. “Tem uma questão<br />
de maturidade mesmo, e de<br />
pioneirismo. Sentimos na pele que<br />
o tempo está passando e as coisas,<br />
mudando. Percebemos uma grande<br />
foto: Ricardo Ribas/Tyba<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 38 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
foto: Renata Mello/Tyba<br />
transformação nos espaços naturais<br />
nestes últimos 20 anos, em termos<br />
de degradação. As montanhas<br />
começaram a se encher de gente,<br />
com um aumento significativa da<br />
visitação. E, por isso, iniciativas<br />
de mobilização são fundamentais,<br />
ainda que os montanistas tenham<br />
uma consciência ambiental bastante<br />
aguçada. A ficha já caiu”, reflete.<br />
Novos esportes, nova<br />
mentalidade<br />
Se esportes de aventura como o<br />
surfe e a escalada precisaram de<br />
um tempo e de muitas campanhas<br />
para estimular uma atitude mais<br />
consciente na questão ambiental,<br />
outros trazem essa preocupação<br />
em sua essência. É o caso do canionismo,<br />
atividade que consiste na<br />
exploração de cânions, rios em gargantas,<br />
desfiladeiros e cachoeiras.<br />
O esporte surgiu no país na década<br />
de 1990, época em que a mídia<br />
abria grande espaço para o tema<br />
ecologia, especialmente por conta<br />
dos movimentos ambientalistas e<br />
das conferências internacionais de<br />
meio ambiente.<br />
Segundo Carlos Zaith, fotógrafo de<br />
natureza e precursor da atividade no<br />
país, o canionismo já nasceu com<br />
a preocupação ambiental. “É um<br />
esporte moderno, recente e exótico.<br />
Tem poucos praticantes no país,<br />
mas conta com uma consciência<br />
ambiental intrínseca à atividade.<br />
Cada praticante acaba monitorando<br />
os locais que frequenta. Se a<br />
condição da água for insalubre, não<br />
há como praticar”, explica. Zaith<br />
destaca que o rafting e a canoagem<br />
só ganharam maior difusão após<br />
a Rio-92 (Conferência das Nações<br />
Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento)<br />
e seguem a mesma<br />
lógica do canionismo.<br />
O canyoning é um esporte de muita<br />
exigência técnica, uma espécie de<br />
“alpinismo” praticado em cachoeiras,<br />
unindo os ambientes aquático<br />
e vertical. Talvez por isso tenha tão<br />
poucos praticantes no Brasil – menos<br />
de 300 – e impacto ambiental<br />
quase nulo. Entretanto, dentro das<br />
atividades do esporte, a descida de<br />
cachoeira por rapel, também chamada<br />
de cascading, tem sido cada<br />
vez mais procurada no turismo de<br />
aventura. Nos últimos anos, cerca<br />
de 30 mil pessoas já participaram de<br />
operações comerciais de cascading<br />
no Brasil. “As empresas que operam<br />
com a atividade estão conscientes<br />
da necessidade<br />
de proteção<br />
Escaladores: acesso a<br />
locais não visitados<br />
os tornou pioneiros<br />
no trabalho de<br />
conscientização<br />
ambiental<br />
dos ambientes<br />
naturais e praticam<br />
técnicas<br />
d e m í n i m o<br />
impacto específicas”,<br />
alerta<br />
Zaith, que<br />
já explorou e<br />
fotografou os<br />
principais rios<br />
em garganta e<br />
grandes quedas<br />
d’água, em 12 estados<br />
brasileiros.<br />
No Rio Grande do<br />
Sul, a Associação<br />
Cânions da Serra<br />
Geral (Acaserge),<br />
criada em 1998, estabeleceu<br />
uma parceria<br />
com os Parques<br />
Nacionais Serra Geral e<br />
Aparados da Serra, onde<br />
praticam suas atividades.<br />
“Hoje eles ajudam a monitorar<br />
esses parques. Mas<br />
para que pudessem atuar lá<br />
dentro tiveram que negociar<br />
com o Ibama, responsável<br />
Princípios gerais<br />
do Pega leve!<br />
Para se ter um mínimo impacto<br />
em áreas naturais, é<br />
necessário:<br />
1. Planejamento é<br />
fundamental.<br />
2. Você é responsável por<br />
sua segurança.<br />
3. Cuide dos locais por onde<br />
passa, das trilhas e dos<br />
acampamentos.<br />
4. Deixe cada coisa<br />
em seu lugar.<br />
5. Evite fazer fogueiras.<br />
6. Respeite os animais e<br />
as plantas.<br />
7. Seja cortês com<br />
outros visitantes e com a<br />
população local.<br />
8. Participe.<br />
pelas unidades de conservação na<br />
época, e comprovar que a preocupação<br />
ambiental do grupo era real<br />
e se refletia em práticas corretas”,<br />
conta Zaith.<br />
Fundador da Agência H2Omem,<br />
Zaith praticou espeleologia (exploração<br />
de cavernas) antes de se<br />
dedicar ao canionismo no Brasil.<br />
“Um dos principais preceitos do<br />
esporte é o de ser uma atividade de<br />
baixo impacto no convívio com o<br />
ambiente natural. Para uma prática<br />
saudável, a qualidade da água, entre<br />
outras condições ambientais, deve<br />
estar acima de qualquer suspeita.<br />
Por isso, é dever de todo canionista<br />
ser um defensor ferrenho destas<br />
áreas de preservação permanente”,<br />
completa.<br />
Para saber mais:<br />
www.surfesustentavel.blogspot.com<br />
www.ecosurfi.org<br />
www.cbme.org.br<br />
www.femerj.org<br />
www.femesp.org<br />
www.pegaleve.org.br<br />
www.turismoresponsavel.tur.br<br />
www.lnt.org<br />
www.trilhasdesaopaulo.sp.gov.br<br />
www.h2omem.com.br<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 39 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
A força do cyberativismo<br />
ambiental<br />
Cada vez mais, ativistas do mundo inteiro recorrem às<br />
diferentes ferramentas da internet para trocar informações<br />
e denunciar as agressões ao meio ambiente<br />
Ativismo sempre foi uma palavra de<br />
ordem de muita força na defesa do<br />
meio ambiente. E, nos últimos anos,<br />
com o avanço exponencial da internet,<br />
o ativismo através da rede – ou<br />
cyberativismo – se desenvolveu em<br />
proporções inimagináveis, envolvendo<br />
um crescente número de pessoas<br />
de uma forma cada vez mais intensa<br />
e comprometida. Bom para o meio<br />
ambiente, que tem ao seu lado mais<br />
um forte aliado.<br />
C y b erativismo consiste num<br />
modelo de atuação que utiliza as<br />
novas tecnologias de informação<br />
e comunicação – ou, no jargão<br />
internético, TICs – como palco de<br />
suas ações e parâmetro estrutural<br />
de sua organização. “A importância<br />
Por Jaqueline B. Ramos<br />
foto: Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />
da internet hoje para as nossas<br />
campanhas é indiscutível, tanto<br />
no sentido de informar as pessoas<br />
como no de sensibilizar e facilitar<br />
a participação. E isso acaba se<br />
transformando numa forte ferramenta<br />
de pressão política, pois fica evidente<br />
para o governo que o público vê o<br />
que está acontecendo, entende o<br />
quanto aquilo pode impactar suas<br />
vidas e exige ações de mudança”,<br />
afirma Mariana Schwarv, publicitária<br />
da área de marketing online do<br />
Greenpeace Brasil. “A verdade é que<br />
a internet dá voz a todo mundo.”<br />
O Greenpeace é um dos principais<br />
exemplos de organização que “usa<br />
e abusa” da internet tanto para seus<br />
trabalhos de informação e conscientização<br />
como de levantamento de<br />
recursos. E no Greenpeace Brasil<br />
não é diferente. A estratégia é usar os<br />
diferentes recursos oferecidos hoje<br />
pela rede para atingir um número<br />
cada vez maior de pessoas com<br />
uma linguagem clara e objetiva. Em<br />
termos práticos, isso significa que o<br />
Greenpeace está em todas as modernas<br />
redes sociais – Orkut, Facebook e<br />
Twitter, por exemplo – e utiliza recursos<br />
como vídeos, animações e flash<br />
para tornar as mensagens digitais<br />
cada vez mais acessíveis.<br />
Os números confirmam o sucesso do<br />
cyberativismo da ONG. O cadastro<br />
base de cyberativistas do Greenpeace<br />
Brasil é composto atualmente<br />
por nada mais nada menos que 260<br />
mil nomes. E o Twitter da organização<br />
tem mais de 32 mil seguidores,<br />
sendo o maior e o que faz mais sucesso<br />
entre todos os escritórios do<br />
Greenpeace no mundo – incluindo o<br />
internacional, que tem “apenas” 14<br />
mil seguidores.<br />
“Usamos o Twitter há pouco mais de<br />
seis meses e felizmente tem sido um<br />
grande sucesso. Procuramos twittar<br />
notícias e também informações de<br />
serviço para os internautas, bem<br />
como ações ao vivo, o que desperta<br />
um grande interesse. Em termos de<br />
volume de pessoas envolvidas, também<br />
destacamos o Orkut, que reúne<br />
comunidades ligadas diretamente às<br />
nossas campanhas e também comunidades<br />
simpatizantes”, diz Mariana.<br />
Ela destaca a recente campanha<br />
online sobre a MP-458 (de regularização<br />
fundiária da Amazônia), na qual<br />
divulgaram os telefones do gabinete<br />
do presidente Lula e cujo resultado<br />
foi que os internautas lotaram a caixa<br />
postal presidencial com mensagens<br />
contrárias à aprovação da lei.<br />
O jornalista e escritor Vilmar Berna,<br />
um dos precursores no movimento<br />
de divulgação de informações no<br />
movimento ambiental brasileiro, é<br />
um dos entusiastas da internet e do<br />
cyberativismo. Editor do Portal do<br />
Meio Ambiente e fundador da Rede<br />
Brasileira de Informação <strong>Ambiental</strong><br />
(Rebia), ele lembra que a internet é<br />
um território livre, não controlado por<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 40 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
Campanha do Greenpeace-Brasil:<br />
cadastro de cyberativistas tem<br />
260 mil nomes<br />
político algum. “Todos sabem<br />
o poder que o povo tem e não<br />
há um político que não tema esse<br />
poder popular. Nesse contexto, a<br />
internet assume um papel muito importante”,<br />
garante.<br />
Inclusão digital e atuação in loco<br />
Em meio ao avanço exponencial do cyberativismo,<br />
com todos os modernos recursos<br />
oferecidos pela rede, uma questão merece<br />
ser ressaltada: o acesso, propriamente dito, à<br />
internet. Apesar de ser um veículo democrático<br />
e livre, a web ainda é um privilégio que não alcança<br />
nem 20% da sociedade brasileira. E isso<br />
é um ponto que merece ser considerado.<br />
“Acho que todos os recursos cumprem seu<br />
papel na rede virtual. São ferramentas de comunicação<br />
livres e interativas, de mão dupla, em<br />
que a gente é influenciado e também influencia.<br />
O desafio é promover a inclusão digital de mais<br />
e mais brasileiros e lutar pela democratização<br />
da informação socioambiental, pois, sem<br />
acesso adequado à informação, dificilmente a<br />
sociedade conseguirá avançar a tempo rumo<br />
a um modelo diferente de desenvolvimento<br />
deste que está conduzindo a humanidade ao<br />
colapso", afirma Vilmar.<br />
Outro desafio para o cyberativismo é a sua<br />
utilização de forma inteligente. Em outras palavras,<br />
é saber usar a internet e as TICs como<br />
plataformas e objetos de organização, para dar<br />
visibilidade à causa e recrutar novos ativistas,<br />
mas nunca substituir a atuação in loco. A opinião<br />
é do jornalista Pedro Penido, especialista<br />
em comunicação online e em produção para<br />
mídias digitais.<br />
“Apesar de inicialmente o cyberativismo ser<br />
muito sedutor e apresentar possibilidades<br />
muito interessantes, a médio e longo prazos há<br />
o risco dessas opções removerem do ativismo<br />
sua essência e torná-lo apenas um ensaio,<br />
enquadrado de acordo com as limitações<br />
midiáticas da web. Acredito que a internet e o<br />
ciberespaço possam ser utilizados de maneira<br />
inteligente como plataformas de lançamento<br />
de campanhas, como repositórios de informações<br />
qualificadas, dados e estatísticas, como<br />
opção de organização de grupos e troca rápida<br />
e segura de informações. Mas o cyberativismo<br />
nunca pode tomar o lugar da atuação in loco”,<br />
conclui Penido.<br />
foto: Ricardo Funari\BrazilPhotos<br />
Os recursos Web 2.0 para o<br />
cyberativismo<br />
Twitter<br />
A característica principal do Twitter é a<br />
de seu imediatismo, da velocidade das<br />
informações e da possibilidade de “seguir”<br />
(ouvir) apenas quem interessa a você. Da mesma<br />
maneira, você só será “seguido” (ouvido) por pessoas<br />
que se interessam pelo seu campo de atuação. É uma boa opção<br />
por oferecer opções de aprofundamento das informações para<br />
públicos já filtrados/segmentados. O Twitter pode ser utilizado<br />
para compartilhar informações mais específicas e detalhadas.<br />
Além disso, é um fator mobilizador, uma vez que permite alcance<br />
e penetração de maneira rápida e precisa.<br />
Redes Sociais (Ning)<br />
O Ning é uma estrutura nova na internet. Seu principal objetivo<br />
não é o de reunir pessoas apenas, mas o de reunir pessoas que<br />
queiram reunir pessoas. O Ning permite que você crie sua própria<br />
rede social, organizando-a de acordo com suas necessidades<br />
e oferecendo múltiplas ferramentas e recursos para que sua<br />
experiência seja interessante e atraente, de modo que pessoas<br />
possam se inscrever na rede recém-criada e nela compartilharem<br />
informações. Pode servir como repositório de dados, fotos, vídeos,<br />
agenda e informações que podem ser difundidas no Twitter,<br />
por exemplo.<br />
Facebook e Orkut<br />
Facebook e Orkut são redes de relacionamento gigantescas, com<br />
milhões de usuários. A entrada de um movimento de ativismo<br />
nessas redes pode funcionar como chamariz para a causa.<br />
As palavras que regem a participação de um movimento ativista<br />
nessas redes são visibilidade e recrutamento. No entanto, não se<br />
pode esperar que tenham a mesma profundidade que outros recursos<br />
destinados exclusivamente ao movimento ou à causa.<br />
Blogs<br />
Blogs servem às mais variadas causas, projetos e interesses. É<br />
uma ferramenta para dizer as coisas na internet, de acordo com<br />
uma rotina de publicação e política editorial mais livre de amarras<br />
institucionais. Blogs são mais limitados em termos interacionais,<br />
porém mais avançados em termos “jornalísticos” (mediadores<br />
de informação). E isso, quando bem utilizado e pensado, pode<br />
servir como salvaguarda de múltiplas necessidades ao longo de<br />
um processo mobilizador.<br />
Listas de discussão<br />
Mesmo tendo perdido parte de sua força para a popularização<br />
das redes sociais atuais, as listas de discussão sempre podem<br />
servir como mantenedoras da organização informacional e<br />
estrutural de um movimento. Nelas sabe-se da participação<br />
de cada um. Nelas acontecem demonstrações de opinião que<br />
permitem desdobramentos mais intensos e menos “imediatistas”.<br />
Conservando todas as características do uso dos e-mails,<br />
as listas de discussão podem ser uma viga mestra dentro de<br />
um movimento, ou, no mínimo, a responsável por permitir uma<br />
visualização da participação das pessoas.<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 41<br />
Fonte: Pedro Penido (Meio Digital)
Quilombolas de<br />
^<br />
Alcantara lutam<br />
por terra<br />
Famoso por sua arquitetura<br />
colonial, município<br />
maranhense abriga também<br />
centro de lançamento<br />
de foguetes, cuja<br />
instalação afetou a vida<br />
de comunidades negras<br />
tradicionais.<br />
Texto e fotos de<br />
João Roberto Ripper<br />
O município de Alcântara, no Maranhão,<br />
é nacionalmente conhecido<br />
pela beleza de seus azulejos portugueses,<br />
por sua arquitetura colonial<br />
e por sediar a base aeroespacial<br />
brasileira, no chamado Centro de<br />
Lançamento de Alcântara (CLA).<br />
O que poucos brasileiros sabem,<br />
no entanto, é que Alcântara abriga<br />
também importantes comunidades<br />
de quilombolas (comunidades cujos<br />
integrantes são remanescentes de<br />
antigos quilombos, centros de resistência<br />
da cultura negra). E mais:<br />
que esses grupos lutam, há anos,<br />
pela preservação de suas terras e<br />
de suas culturas, ameaçadas com<br />
a instalação da base de lançamento<br />
de foguetes.<br />
Há séculos, a população majoritariamente<br />
negra de Alcântara se<br />
organizou em comunidades e transformou<br />
suas terras num imenso<br />
42
em coletivo, onde produzem com<br />
liberdade e respeito às famílias.<br />
Desde a década de 1980, porém, a<br />
vida dos quilombolas de Alcântara<br />
tem sofrido grandes transformações,<br />
a partir do momento em que uma<br />
extensa área do território por eles<br />
habitado foi desapropriada para a<br />
construção da base espacial. De uma<br />
hora para outra, centenas de famílias<br />
foram deslocadas e proibidas de<br />
retornar às suas áreas tradicionais,<br />
onde mantinham suas casas, suas<br />
roças e viviam também da pesca e<br />
do extrativismo.<br />
Para frear os constantes despejos<br />
e deslocamentos das comunidades<br />
tradicionais, os quilombolas de<br />
Alcântara começaram, então, um<br />
processo de organização, criando<br />
movimentos em defesa de sua cultura<br />
e de sua forma de organização<br />
da economia. Passaram a exigir do<br />
Governo Federal a regulamentação<br />
dos territórios quilombolas, como<br />
prevê a Constituição Federal Brasileira,<br />
de 1988, assim como a Convenção<br />
169 da Organização Internacional do<br />
Trabalho (OIT).<br />
Território Étnico de<br />
Alcântara<br />
Após longa luta, no ano 2000, as<br />
organizações quilombolas fizeram<br />
denúncia à Comissão dos Direitos<br />
Humanos da Organização dos Estados<br />
Americanos (OEA), responsabilizando<br />
o governo brasileiro pelo deslocamento<br />
das famílias quilombolas<br />
e suas consequências. O movimento<br />
e a denúncia surtiram efeito e, em<br />
2006, a justiça federal determinou<br />
que o Instituto Nacional de Colonização<br />
e Reforma Agrária (Incra)<br />
concluísse o processo de titulação<br />
do Território Étnico de Alcântara,<br />
baseado em laudo do antropólogo<br />
e professor Alfredo Wagner Berno<br />
de Almeida, elaborado a pedido do<br />
Ministério Público Federal. Agora, os<br />
quilombolas se organizam para escolher<br />
a instituição que os representará<br />
para receber o título.<br />
De acordo com o laudo antropológico,<br />
as próprias comunidades<br />
remanescentes de quilombos no<br />
município de Alcântara é que se<br />
autodefinem como étnicorraciais,<br />
na busca de seus direitos. O documento<br />
aponta a mobilização social e<br />
as principais conquistas das comunidades<br />
pelo direito ao seu território<br />
tradicional. Mostra também a luta<br />
pela visibilidade pública da realidade<br />
quilombola e pela manutenção de<br />
suas visões de mundo.<br />
O reconhecimento definitivo para<br />
fins de titulação das terras deve ser<br />
dado às comunidades, garante o<br />
laudo do professor Alfredo Wagner,<br />
que se baseia no artigo 68 do Ato<br />
das Disposições Transitórias da<br />
Constituição Federal. Diz o texto<br />
constitucional: “Aos remanescentes<br />
das comunidades dos quilombos<br />
que estejam ocupando suas terras é<br />
reconhecida a propriedade definitiva,<br />
devendo o Estado emitir-lhes os<br />
títulos respectivos”.<br />
Para a composição<br />
do laudo, 53 comunidades<br />
foram visitadas e mais de 70 pessoas<br />
entrevistadas diretamente. O laudo<br />
antropológico alerta para os “interesses<br />
que se contrapõem às comunidades<br />
quilombolas de Alcântara,<br />
de acordo com as medidas oficiais<br />
que afetam seu modo de fazer e de<br />
continuar vivendo nas terras”. Aponta<br />
também os impactos causados<br />
aos quilombolas com a implantação<br />
do Centro de Lançamento. E revela,<br />
ainda, como a base de foguetes e a<br />
ação dos latifúndios antigos ferem o<br />
desenvolvimento da cultura de um<br />
povo, sua organização econômica,<br />
política e social. “Essa destruição é<br />
dolorosamente vivenciada por décadas<br />
e décadas pelos remanescentes<br />
de quilombos. Com a implantação da<br />
base, de uma hora para outra, todos<br />
os seus direitos enquanto cidadãos<br />
são violados de forma violenta”,<br />
atesta o documento.<br />
Segundo Sérvulo Borges, o Borjão,<br />
coordenador do Movimento dos<br />
Atingidos pela Base (MAB), Alcântara<br />
convive hoje com três diferentes<br />
territórios quilombolas. Os três territórios<br />
envolvem 110 comunidades,<br />
com mais de 15 mil pessoas, e estão<br />
em processo<br />
Quilombo<br />
Mamuna<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 43 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
Quilombo São Raimundo<br />
de titulação, com relatórios prontos,<br />
respondendo a contestações por<br />
parte do governo, que mantém os<br />
processos em “banho-maria”, uma<br />
vez que tem interesse na expansão<br />
da base aeroespacial. Os territórios<br />
que estão na área da base envolvem<br />
3.598 famílias.<br />
Ameaça à soberania<br />
nacional<br />
Em 2000, durante o governo de<br />
Fernando Henrique Cardoso, um<br />
acordo de salvaguardas tecnológicas<br />
foi assinado entre Brasil e EUA,<br />
assegurando aos norte-americanos<br />
o direito de usar a base espacial de<br />
Alcântara, “estrategicamente situada<br />
na entrada da Amazônia”, conforme<br />
observou o jornalista José Arbex<br />
Júnior em artigo publicado em 19<br />
de agosto de 2002, sob o título FHC<br />
entrega Base de Alcântara a Tio Sam.<br />
No mesmo artigo, ele lembra que a<br />
posição geográfica da base é perfeita<br />
para o lançamento de foguetes, por<br />
estar situada a dois graus da linha<br />
do Equador, tornando o projeto bem<br />
mais econômico no tocante ao uso<br />
de combustível.<br />
O acordo era bastante favorável aos<br />
norte-americanos, garantindo-lhes<br />
o controle total sobre a base de<br />
lançamentos e permitindo aos Estados<br />
Unidos desenvolver programas<br />
sigilosos e realizar operações sem<br />
o conhecimento das autoridades<br />
brasileiras. Além disso, somente as<br />
pessoas ligadas ao programa aeroespacial<br />
dos Estados Unidos estariam<br />
autorizadas a circular em Alcântara.<br />
Nem mesmo parlamentares brasileiros<br />
ou membros do Executivo,<br />
incluindo o presidente da República<br />
do Brasil, poderiam circular na área<br />
sem prévia autorização do governo<br />
norte-americano.<br />
Outro item do acordo francamente<br />
desfavorável ao Brasil era o fato de<br />
que nenhum brasileiro poderia ter<br />
acesso a nenhum material que chegasse<br />
ou saísse da base, qualquer<br />
que fosse a sua origem ou destinação.<br />
Tudo isso por 34 milhões de<br />
dólares anuais. Verdadeira ameaça<br />
à soberania nacional, conforme definiu<br />
manifesto assinado por dezenas<br />
de entidades e personalidades<br />
brasileiras, em ato que reuniu mais<br />
de três mil pessoas no Teatro João<br />
Caetano, no Rio de Janeiro, em junho<br />
de 2002.<br />
Posteriormente, esse acordo foi<br />
abandonado, já que não chegou a ser<br />
aprovado no Congresso. Já no governo<br />
Lula, foi assinado novo acordo,<br />
desta vez com a Ucrânia, com Roseane<br />
Sarney à frente do governo maranhense.<br />
Após o acordo com aquele<br />
país, um acidente na plataforma<br />
de lançamento de foguetes deixou<br />
um saldo de 21 mortos, em agosto<br />
de 2003. Atualmente, o governo se<br />
prepara para fazer o lançamento do<br />
foguete Ciclone 4 no Centro de Lançamento<br />
de Alcântara.<br />
O coordenador do MAB, Sérvulo Borges,<br />
acredita que a mobilização das<br />
populações nativas foi importante<br />
para que o acordo com os Estados<br />
Unidos não fosse adiante, mas acha<br />
que ainda há muito a fazer. “Fizeram<br />
um estudo ambiental exigido pelo<br />
Ibama (Instituto do Meio Ambiente e<br />
Recursos Naturais Renováveis), mas<br />
continuaram os desmatamentos”, diz<br />
o coordenador do MAB. As comunidades<br />
quilombolas se mobilizaram,<br />
fizeram manifestações, fecharam<br />
estradas e ajuizaram ação, tendo conseguido<br />
barrar na Justiça a expansão<br />
do desmatamento naquela área, com<br />
a regulamentação garantida pelo<br />
decreto 4.887.<br />
“A titulação só não acontece porque<br />
existe um interesse do governo em<br />
promover mais remanejamentos,<br />
embora não tenham um projeto<br />
claro. Aproveitamos essa incerteza<br />
para mover processos e fazer ações”,<br />
declara Borges.<br />
Resistência: dos<br />
engenhos à base<br />
aeroespacial<br />
A luta das comunidades negras de<br />
Alcântara vem de longa data. “Aqui<br />
existiam inúmeras fazendas de engenhos<br />
que, em 1775, começaram a<br />
entrar em decadência. Desde aquela<br />
época, os quilombolas já mostravam<br />
resistência contra os maus-tratos<br />
e trabalhos forçados. Existem, inclusive,<br />
registros de solicitação de<br />
tropas para atacar quilombolas”,<br />
conta Borjão<br />
Em 1980, o governo estadual decretou<br />
o despejo e a desapropriação de áreas<br />
para a implantação da base. Na ocasião,<br />
foram desapropriados, para fins<br />
de utilidade pública, 52 mil hectares de<br />
terras para a criação da base espacial.<br />
Em 1990, o governo Collor ampliou<br />
esse número para 62 mil hectares.<br />
Desde então, já foram retiradas do<br />
local 312 famílias de 23 comunidades,<br />
reinstaladas em sete agrovilas.<br />
“Com tudo isso acontecendo, nos<br />
mobilizamos e os quilombolas entraram<br />
na justiça com uma ação civil<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 44 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
Inácio Diniz<br />
e Sérvulo<br />
Borges: luta<br />
por melhor<br />
qualidade<br />
de vida<br />
pública. Como<br />
consequência,<br />
foi feito o relatório<br />
de delimitação e identificação<br />
da área, a partir do laudo<br />
antropológico do professor Alfredo Wagner, que<br />
considerou a área um território étnico”, ressalta<br />
Borges.<br />
Na verdade, o avanço sobre os territórios dos quilombolas<br />
de Alcântara é bem anterior: desde 1962<br />
são feitas propostas de metodologia de implantação<br />
da base, acarretando especulação e um desenvolvimento<br />
desenfreado que desconsidera o modo<br />
de vida das comunidades locais. “Aqui acontece<br />
um verdadeiro apartheid social e cultural”, critica o<br />
coordenador do MAB.<br />
Borges faz questão de esclarecer que “participação<br />
popular” não significa “dar emprego pra limpar latrina,<br />
nem empregar jovens para serem soldados”.<br />
A comunidade quer saber se vai ser integrada ao<br />
processo de forma mais ampla e inclusiva: “Vamos<br />
ter uma faculdade que forme cientistas? Então<br />
que se preparem quilombolas para participar”, diz,<br />
acrescentando que a comunidade quer discutir com<br />
o município um plano de economia sustentável, pois<br />
a maioria dos quilombolas é formada por agricultores<br />
que vivem da agricultura de subsistência, do<br />
extrativismo e da pesca.<br />
Após o processo de transferência para as agrovilas,<br />
as 312 famílias não só perderam seus territórios originais<br />
como tiveram que abrir mão de seu meio de<br />
subsistência. Isso atinge cerca de 23 comunidades,<br />
de um total de 110.<br />
E as ameaças continuam, já que o governo quer expandir<br />
a base para os territórios onde estão instaladas<br />
as comunidades de Mamuna, Brito, Mamuninha,<br />
Itapera, Canelatiua, Ponte de Areia, Santa Maria, São<br />
João de Cortes e Vista Alegre. São comunidades que<br />
já vivem nessas localidades há 300 anos.<br />
Os territórios quilombolas<br />
Existem atualmente em Alcântara três territórios<br />
quilombolas: o chamado território étnico, que<br />
engloba 110 comunidades, com 89 mil hectares; o<br />
território do quilombo Itamatatiua (57 mil hectares),<br />
que abarca outros quilombos; e o território da Ilha<br />
do Cajual, de apenas seis mil hectares. Todos são<br />
certificados pela Fundação Cultural Palmares, órgão<br />
do Ministério da Cultura.<br />
No momento, está sendo estudada a forma como<br />
serão administrados esses territórios. A titulação<br />
deverá ser em nome de uma “associação mãe”, que<br />
receberá os títulos e fará a gestão com as associações<br />
das comunidades quilombolas.<br />
Quilombos no Brasil<br />
Segundo documentos da Fundação Cultural Palmares,<br />
órgão do Ministério da Cultura, no Brasil<br />
estão identificadas, oficialmente, mil comunidades<br />
remanescentes dos quilombos. A maioria se localiza<br />
nos Estados da Bahia e Maranhão, embora existam<br />
comunidades quilombolas em todo o país.<br />
O governo brasileiro considera comunidades remanescentes<br />
de quilombos os grupos étnicorraciais, segundo<br />
critérios de auto-atribuição, com trajetória histórica própria,<br />
dotados de relações territoriais específicas, com presunção<br />
de ancestralidade negra relacionada com formas<br />
de resistência à opressão histórica sofrida.<br />
Já o conceito de comunidades negras tradicionais é mais<br />
amplo. São grupos culturalmente diferenciados e que se<br />
reconhecem como tais, que possuem formas próprias<br />
de organização social, que ocupam e usam territórios e<br />
recursos naturais como condição para sua reprodução<br />
cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando<br />
conhecimentos, inovações e práticas gerados e<br />
transmitidos pela tradição. Nele podem ser englobados,<br />
por exemplo, os próprios quilombolas, além dos terreiros<br />
de matriz africana, as comunidades negras rurais que não<br />
detêm modo de vida próprio de comunidades quilombolas,<br />
bem como os povos indígenas.<br />
Esses conceitos são definidos por dois decretos: o no<br />
6040/2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento<br />
Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais,<br />
e o decreto no 4.887/2003, que regulamenta o procedimento<br />
para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação<br />
e titulação das terras ocupadas por remanescentes<br />
das comunidades dos quilombos, de que trata o artigo 68<br />
do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.<br />
Os quilombolas e moradores de comunidades negras<br />
tradicionais, espalhados por várias regiões, estão em luta<br />
pelo reconhecimento de suas áreas, seus territórios e por<br />
melhores condições de vida e trabalho. Buscam preservar<br />
suas regiões de origem, onde ainda existam florestas, e<br />
trabalhar nas roças e colheitas extrativistas. Além disso,<br />
tentam melhorias nas áreas de saúde e educação, quase<br />
sempre precárias.<br />
Quilombo Itamatatiua<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 45
Os quilombolas de Alcântara se articulam<br />
para garantir uma titulação<br />
participativa no território étnico da<br />
região. São centenas de negros,<br />
negras e alguns brancos, buscando,<br />
em ações e pensamentos, a luz dos<br />
sonhos. Mulheres e homens que não<br />
perdem a esperança e se mantêm<br />
firmes na busca de seus direitos,<br />
expressando sua coragem e luta na<br />
tradição das danças e nas orações<br />
de seus ancestrais. Com emoção,<br />
fibra e ritmo, viajando nos sons dos<br />
tambores, no canto chorado dos<br />
homens e no requebrar mágico das<br />
mulheres, ecoam o lamento e o grito<br />
de guerra, repetido há centenas de<br />
anos: “A terra é nossa!”<br />
A vida nas agrovilas<br />
Corrida<br />
do saco no<br />
Quilombo<br />
Marudá<br />
O líder comunitário Inácio Silva Diniz,<br />
de 29 anos, nasceu em Alcântara, na<br />
comunidade de São Raimundo, e foi<br />
remanejado em 1987 para a agrovila<br />
Marudá, aos sete anos de idade. Na<br />
sua antiga comunidade existiam<br />
13 famílias, mas para essa agrovila<br />
foram trasladados moradores de 15<br />
comunidades. “Nós não tínhamos<br />
água encanada nem saneamento<br />
básico; aliás, não temos saneamento<br />
até hoje. Onze anos atrás chegou<br />
água e a energia veio antes, em<br />
1992”, conta.<br />
A agrovila Marudá é formada por<br />
habitantes removidos das comunidades<br />
Marudá, Santo Antônio, Ponta<br />
Alta, Curuçá, Jenipariba, Ladeira,<br />
Caninana, Jabaquara, Fé em Deus,<br />
Piraema, São Raimundo, Águas Belas,<br />
Corre Prata, Camarajá, Jardim e<br />
Santa Rosa. Uma casa na vila urbana<br />
tem 25 metros por 40 e cada família<br />
tem um lote de 15 hectares na área<br />
rural.<br />
“Antes, todas as famílias plantavam,<br />
pescavam e praticavam o extrativismo<br />
do babaçu, açaí, murici, buriti e<br />
outras frutas, como manga”, recorda<br />
Inácio, referindo-se ao tempo anterior<br />
à transferência para a agrovila.<br />
Segundo os moradores mais antigos,<br />
os lotes das agrovilas não têm o solo<br />
fértil e só algumas pessoas conseguiram<br />
áreas que não encharcam.<br />
Nos solos urbanos das agrovilas,<br />
as raízes apodrecem. Com isso, a<br />
produção agrícola caiu muito. Hoje,<br />
as famílias, na sua maioria, têm que<br />
comprar até farinha.<br />
A renda da maioria das famílias consiste<br />
de aposentadorias dos mais<br />
velhos e do Bolsa Família, que varia<br />
entre R$ 40 e R$ 120. Algumas pessoas,<br />
esporadicamente, alcançam<br />
rendas alternativas quando conseguem,<br />
longe da comunidade, uma<br />
boa pesca, ou mediante a venda de<br />
carvão com resto de lenha de roça.<br />
Em média, 40 sacos de carvão são<br />
vendidos a R$ 170. Outras possibilidades<br />
relacionam-se ao emprego<br />
de mão de obra no roçado, no corte<br />
de lenha ou no ofício de pedreiro e<br />
de carpintaria.<br />
Marudá hoje conta com uma associação<br />
que reúne 55 famílias. Em<br />
muitas delas, é o aposentado quem<br />
garante o sustento da própria casa,<br />
além de ajudar os filhos casados. As<br />
mães jovens se veem forçadas, para<br />
ajudar os pais a criar seus filhos,<br />
a trabalhar em São Luís. A criança<br />
fica com os avós. “A comunidade de<br />
Marudá, hoje, vive um abandono. De<br />
100 casas construídas, quase 50%<br />
estão fechadas. As pessoas foram<br />
tentar uma vida melhor nas cidades,<br />
principalmente em Alcântara e São<br />
Luís, mas tem gente espalhada pelo<br />
Brasil inteiro”, conta Inácio.<br />
Nessa agrovila não há pessoas vivendo<br />
na miséria, mas a quantidade<br />
e a qualidade de alimento caíram<br />
acentuadamente. A produção de um<br />
morador local não garante o sustento<br />
alimentar de sua família por mais de<br />
cinco meses. Muitas pessoas fazem<br />
apenas uma refeição por dia e, se<br />
ninguém fica sem comer, deve isso<br />
às aposentadorias dos idosos, ao<br />
Bolsa Família e à solidariedade entre<br />
os vizinhos.<br />
O líder comunitário explica que a vida<br />
está mais difícil, pois “antigamente<br />
existiam os igarapés (rios pequenos)<br />
e plantio com fartura que dava pra alimentar<br />
a família o ano inteiro”. Hoje,<br />
cerca de 80% do peixe consumido<br />
em Marudá vem do mercado de Alcântara.<br />
“Antes, pescávamos na praia<br />
e hoje, nas vendas”, constata.<br />
Ao todo, são sete agrovilas e há apenas<br />
quatro escolas construídas pela<br />
Aeronáutica. Em duas delas, só se<br />
ensina até a quarta série; nas outras<br />
duas, até a oitava. Marudá tem uma<br />
escola que funciona do pré-escolar<br />
até a quarta série. Recebe alunos<br />
de outras agrovilas e comunidades,<br />
como Cuicaua, Ponta Seca, Só Assim<br />
e Pipital. Em Marudá, somente três<br />
pessoas estão empregadas na base<br />
de Alcântara. Trabalham como auxiliares<br />
de limpeza, ganhando salário<br />
mínimo.<br />
Em Alcântara, entre quilombolas de<br />
várias comunidades, apenas cinco<br />
moradores conseguiram entrar para<br />
faculdade: três estudam Pedagogia<br />
e duas, Agronomia. Um deles é Inácio,<br />
que se formou em dezembro de<br />
2008. Ele é uma espécie de “faz-tudo”<br />
na comunidade: organiza reuniões,<br />
cuida da rede de encanamentos, é<br />
vice-presidente da Associação dos<br />
Moradores de São Sebastião, uma<br />
comunidade de Marudá, busca assistência<br />
médica para os moradores<br />
e leva os doentes para Alcântara,<br />
pois o posto de saúde só funciona<br />
pela manhã e não há médicos. Além<br />
disso, não mede esforços para que<br />
as pessoas da comunidade sejam<br />
capacitadas.<br />
“A Aeronáutica só nos procura quando<br />
há alguma troca de comando ou<br />
alguma questão de propriedade.<br />
Eles interferem nas medições ou<br />
em qualquer casa que queremos<br />
construir. Aparecem também se tiver<br />
lançamento de foguete ou quando<br />
tem visita de alguma autoridade.<br />
Queremos conseguir projetos para<br />
cursos que capacitem os moradores,<br />
mas o governo só conversa com a<br />
Aeronáutica e o governo da Ucrânia.<br />
Não participamos de decisão nenhuma”,<br />
lamenta Inácio.<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 46 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
Quilombo<br />
Samucangaua<br />
“Para os quilombolas,<br />
a terra é mais do que um bem econômico”<br />
Em entrevista exclusiva para a <strong>Senac</strong> & Educação <strong>Ambiental</strong>, o ministro Edson Santos,<br />
da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), fala dos<br />
avanços e dos obstáculos ao reconhecimento dos direitos dos quilombolas e explica os<br />
critérios para a demarcação dessas terras.<br />
fotos: João Roberto Ripper<br />
S&EA – Como está hoje a situação<br />
dos quilombos?<br />
ES – As comunidades tradicionais,<br />
como as comunidades quilombolas,<br />
indígenas, ciganas e de terreiro,<br />
puderam perceber um quadro de<br />
melhora em sua qualidade de vida<br />
no atual contexto de desenvolvimento<br />
econômico e social do país.<br />
No entanto, seus indicadores de<br />
desenvolvimento humano ainda<br />
são muito desiguais quando comparados<br />
aos demais segmentos da<br />
população, demonstrando a necessidade<br />
de investir ainda mais nos<br />
programas específicos voltados a<br />
essas populações.<br />
Sob o ponto de vista dos quilombolas,<br />
a questão fundamental que<br />
se coloca é a garantia do acesso à<br />
terra. A histórica concentração de<br />
terras no Brasil atinge diretamente<br />
essas comunidades, que possuem<br />
uma relação com a terra que transcende<br />
a mera questão produtiva.<br />
Assim como acontece em relação<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 47<br />
aos povos indígenas, a terra para<br />
os quilombolas é mais do que um<br />
bem econômico. Terra e identidade,<br />
para essas comunidades, estão<br />
intimamente relacionadas. A partir<br />
da terra se constituem as relações<br />
sociais, econômicas, culturais e<br />
são transmitidos bens materiais e<br />
imateriais.<br />
Quando privados de sua territorialidade<br />
e, assim, alienados de seu<br />
modo tradicional de vida e produção,<br />
muitos quilombolas buscam o<br />
caminho das periferias das grandes<br />
cidades. Lá chegando, sem os anos<br />
necessários de educação formal ou<br />
qualificação para o trabalho, a eles<br />
resta a miséria e o subemprego.<br />
Simultaneamente, a contínua mobilidade<br />
dos quilombolas para os centros<br />
urbanos, a longo prazo, resulta<br />
na dissolução de suas comunidades<br />
e de sua identidade. Essa é uma<br />
situação que, a despeito de todo o<br />
esforço do Governo Federal, ainda<br />
persiste em várias regiões do país.<br />
O Governo brasileiro busca garantir<br />
um desenvolvimento sustentável<br />
para o meio rural. Nesse contexto,<br />
as garantias presentes na Constituição<br />
Federal e demais instrumentos<br />
legais, visam dar maior equidade no<br />
acesso à terra no país. O direito aos<br />
territórios das comunidades quilombolas,<br />
dos povos indígenas e das demais<br />
comunidades tradicionais deve<br />
ser respeitado e implementado.<br />
S&EA – Que avanços há na qualidade<br />
de vida dessas comunidades?<br />
ES – Apesar de todas as dificuldades,<br />
são muitos os avanços. Gradualmente,<br />
transpomos as barreiras<br />
que separam as comunidades<br />
quilombolas do<br />
pleno exercício dos<br />
direitos de cidadania,<br />
Edson Santos:<br />
"Apesar de todas as<br />
dificuldades, são muitos<br />
os avanços"<br />
foto: Divulgação/SEPPIR
que legalmente estão garantidos a<br />
todos os brasileiros e brasileiras.<br />
Desde 2003, o Governo Federal<br />
busca dar maior objetividade na<br />
busca pela superação dos entraves<br />
jurídicos, orçamentários e operacionais<br />
para a promoção da melhoria da<br />
qualidade de vida das comunidades,<br />
por meio da efetivação das políticas<br />
públicas, articuladas no Programa<br />
Brasil Quilombola – PBQ. O Programa<br />
tem por finalidade coordenar as<br />
ações governamentais, através de<br />
articulações transversais, setoriais<br />
e interinstitucionais para as comunidades<br />
quilombolas, com ênfase na<br />
participação da sociedade civil.<br />
Quilombo Itamatatiua<br />
O Programa é coordenado pela<br />
SEPPIR, por meio da Subsecretaria<br />
de Políticas para Comunidades<br />
Tradicionais, e agrega 23 órgãos<br />
da administração pública federal.<br />
É um programa que busca garantir<br />
do direito à terra, à documentação<br />
básica, alimentação, saúde, esporte,<br />
lazer, moradia adequada, serviços<br />
de infra-estrutura, previdência social,<br />
educação e cultura, baseado<br />
na realidade e nas demandas das<br />
comunidades.<br />
S&EA – Quantos estão regularizados?<br />
ES – Existem 107 títulos emitidos,<br />
regularizando 955 mil hectares em<br />
benefício de 98 comunidades e<br />
11.126 famílias.<br />
S&EA – Quais os critérios técnicos<br />
para a definição de um quilombo?<br />
Quilombo Samucangaua<br />
ES – O Decreto nº 4.887, de 20 de<br />
novembro de 2003, regulamenta<br />
o procedimento para identificação,<br />
reconhecimento, delimitação,<br />
demarcação e titulação das terras<br />
ocupadas por remanescentes das<br />
comunidades dos quilombos de que<br />
trata o artigo 68, do Ato das Disposições<br />
Constitucionais Transitórias. A<br />
partir do Decreto nº 4.883/03 ficou<br />
transferida do Ministério da Cultura<br />
para o Ministério do Desenvolvimento<br />
Agrário/ Incra a competência<br />
para a delimitação das terras dos<br />
remanescentes das comunidades<br />
dos quilombos, bem como a determinação<br />
de suas demarcações e<br />
titulações.<br />
Quilombo<br />
Mamuna<br />
Conforme o artigo 2º do Decreto nº<br />
4.887/2003, “consideram-se remanescentes<br />
das comunidades dos<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 48 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>
quilombos, para os fins deste Decreto,<br />
os grupos étnico-raciais, segundo<br />
critérios de auto-atribuição, com<br />
trajetória histórica própria, dotados<br />
de relações territoriais específicas,<br />
com presunção de ancestralidade<br />
negra relacionada com a resistência<br />
à opressão histórica sofrida”.<br />
É a própria comunidade que se<br />
auto-reconhece “remanescente de<br />
quilombo”. O amparo legal é dado<br />
pela Convenção 169, da Organização<br />
Internacional do Trabalho, cujas<br />
determinações foram incorporadas<br />
à legislação brasileira pelo Decreto<br />
Legislativo nº 143/2002 e Decreto nº<br />
5.051/2004.<br />
Cabe à Fundação Cultural Palmares<br />
emitir uma certidão sobre essa<br />
autodefinição. O processo para<br />
essa certificação obedece norma<br />
específica desse órgão (Portaria da<br />
Fundação Cultural Palmares Nº 98,<br />
de 26/11/2007).<br />
Para acessar a política de regularização<br />
de territórios quilombolas,<br />
as comunidades devem encaminhar<br />
uma declaração na qual se<br />
identificam enquanto comunidade<br />
remanescente de quilombo à Fundação<br />
Cultural Palmares, que, após<br />
a confirmação da origem quilombola<br />
por meio de um estudo antropológico,<br />
expedirá uma Certidão de<br />
Auto-reconhecimento em nome da<br />
mesma.<br />
Por força do Decreto nº 4.887, de<br />
2003, o Incra é o órgão competente,<br />
na esfera federal, pela titulação<br />
dos territórios quilombolas. Para<br />
que o Incra inicie os trabalhos em<br />
determinada comunidade, ela deve<br />
apresentar a Certidão de Registro no<br />
Cadastro Geral de Remanescentes<br />
de Comunidades de Quilombos,<br />
emitida pela Fundação Cultural Palmares.<br />
A primeira parte dos trabalhos<br />
do Incra consiste na elaboração<br />
de um estudo da área, destinado à<br />
confecção do Relatório Técnico de<br />
Identificação e Delimitação (RTID)<br />
do território. Uma segunda etapa é<br />
a de recepção, análise e julgamento<br />
de eventuais contestações. Aprovado<br />
em definitivo esse relatório, o<br />
Incra publica uma portaria de reconhecimento<br />
que declara os limites<br />
do território quilombola.<br />
A fase seguinte do processo administrativo<br />
corresponde à regularização<br />
fundiária, com desintrusão<br />
de ocupantes não quilombolas<br />
mediante desapropriação e/ ou<br />
pagamento de indenização e demarcação<br />
do território. O processo<br />
culmina com a concessão do título<br />
de propriedade à comunidade, que é<br />
coletivo, pró-indiviso e em nome da<br />
associação dos moradores da área,<br />
registrado no cartório de imóveis,<br />
sem qualquer ônus financeiro para<br />
a comunidade beneficiada.<br />
S&EA – Quanto tempo leva, em<br />
média, esse processo?<br />
ES – É difícil precisar, porque existem<br />
muitas variantes. Cada caso é<br />
um caso. Existem áreas reivindicadas<br />
por comunidades remanescentes<br />
de quilombos que são disputadas<br />
por outros grupos.<br />
S&EA – Qual o principal problema<br />
no Brasil para a regularização e<br />
posse definitiva de todas as áreas<br />
quilombolas?<br />
ES – São grandes os obstáculos. A<br />
garantia dos direitos dos quilombolas,<br />
assim como as políticas de promoção<br />
da igualdade racial de uma<br />
forma mais ampla, está colocada<br />
no centro de uma disputa ideológica<br />
hoje desenhada em nossa sociedade.<br />
As contestações à demarcação<br />
de terras quilombolas feitas na<br />
justiça, as reações dos setores mais<br />
conservadores através da imprensa<br />
e o recrudescimento da violência no<br />
campo são a prova disso.<br />
Festa de Santa<br />
Terezinha,<br />
Quilombo<br />
Itamatatiua<br />
<strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong> 49 Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009
Quilombo Ilha do Cajual<br />
S&EA – O que o sr. acha do Estatuto<br />
da Igualdade Racial, atualmente<br />
em discussão no Congresso? O sr.<br />
considera que está bem colocada<br />
a questão dos quilombolas nesse<br />
estatuto?<br />
ES – O Estatuto da Igualdade Racial<br />
foi concebido para alcançar direitos<br />
essenciais à população negra<br />
em sua totalidade. O Projeto de<br />
Lei nº 6.264 de 2005 veicula normas<br />
com a finalidade de combater<br />
a discriminação racial incidente<br />
sobre a população negra com a implementação<br />
de políticas públicas,<br />
sob responsabilidade do Estado,<br />
contemplando os seguintes eixos<br />
de atuação: saúde; educação;<br />
cultura; esporte; lazer; liberdade<br />
de consciência, de crença e livre<br />
exercício dos cultos religiosos;<br />
financiamento das iniciativas de<br />
promoção da igualdade racial;<br />
moradia adequada; direito dos<br />
remanescentes das comunidades<br />
dos quilombos as suas terras; mercado<br />
de trabalho; sistema de cotas;<br />
meios de comunicação; ouvidorias<br />
permanentes nas casas legislativas<br />
e acesso à justiça.<br />
A SEPPIR/ PR e a Casa Civil iniciaram<br />
em 2003 debate sistemático<br />
sobre o Estatuto no âmbito do Governo<br />
Federal, com a participação<br />
de diversos órgãos diretamente<br />
envolvidos nos temas contemplados<br />
no Projeto de Lei. Até o ano<br />
de 2005, o projeto do Estatuto da<br />
Igualdade Racial refletiu o diálogo<br />
realizado entre o movimento negro,<br />
o Governo Federal e o Congresso<br />
Nacional sobre a realidade da discriminação<br />
racial experimentada pela<br />
população negra brasileira.<br />
Contudo, desde sua proposição,<br />
houve avanço significativo na implementação<br />
de novos instrumentos<br />
de promoção da igualdade racial por<br />
parte do Governo Federal. O que<br />
gerou a necessidade de adequar os<br />
dispositivos contidos no Projeto de<br />
Lei. Para tanto, foram consultados<br />
importantes segmentos do movimento<br />
negro, parlamentares de amplo<br />
espectro partidário e órgãos do<br />
governo, com o objetivo de propiciar<br />
maior participação dos interessados<br />
no assunto.<br />
A atual disposição dos artigos no<br />
substitutivo ao PL nº 6.264/2005<br />
visa melhorar os eixos de atuação<br />
do instrumento normativo. Os<br />
artigos que tratavam de assuntos<br />
específicos inseridos em outros<br />
capítulos foram remanejados para<br />
a área pertinente, havendo apenas<br />
adequação estrutural, sem ferir o<br />
sentido original do projeto.<br />
Em relação às comunidades remanescentes<br />
de quilombos, o PL<br />
reafirma e resguarda o direito de<br />
propriedade de suas terras, na forma<br />
que dispõe o Artigo 68 do Ato<br />
das Disposições Transitórias da<br />
Constituição Federal. O Governo<br />
parte do princípio que o Artigo 68 é<br />
auto-aplicável.<br />
O capítulo sobre quilombolas no texto<br />
original, com reprodução parcial<br />
do Decreto nº 4.887 e da Instrução<br />
Normativa nº 20 (que inclusive já<br />
foi revogada), criava complicadores<br />
legais para a aprovação do Estatuto.<br />
Cabe ainda salientar que mesmo<br />
com a supressão do capítulo que<br />
tratava especificamente dos direitos<br />
das comunidades quilombolas, a<br />
questão quilombola não perdeu a<br />
centralidade no Projeto de Lei, sendo<br />
contemplada de forma transversal<br />
do início ao fim do documento.<br />
S&EA – Quantos quilombos existem<br />
oficialmente no Brasil?<br />
ES – Até 2002, o Governo Federal<br />
havia identificado a existência de<br />
743 quilombos. Atualmente, em<br />
decorrência da iniciativa das comunidades<br />
quilombolas pelo seu<br />
auto-reconhecimento, do fomento<br />
à ampliação e qualificação dos<br />
serviços disponíveis e da criação<br />
do Programa Brasil Quilombola<br />
(PBQ), que deu visibilidade a essa<br />
política, o número de comunidades<br />
identificadas é de 3.524, dentre as<br />
quais 1.342 foram certificadas pela<br />
Fundação Cultural Palmares.<br />
(João Roberto Ripper)<br />
Quilombo São Raimundo<br />
Ano 18 • n.2 • julho/dezembro de 2009 50 <strong>Senac</strong> e Educação <strong>Ambiental</strong>