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F U N D A Ç Ã O G E T U L I O V A R G A S<br />
INSTITUTO SUPERIOR DE ADMINISTRAÇÃO E ECONOMIA<br />
CUSTO DE CAPITAL PARA GERAÇÃO DE ENERGIA HÍDRICA NO BRASIL<br />
POR MEIO DE PEQUENAS CENTRAIS HIDRELÉTRICAS (PCHS) E USINA HIDRELÉTRICA<br />
DE ENERGIA (UHE) ATÉ 50 MW NO CONTEXTO DO<br />
MECANISMO DE DESENVOLVIMENTO LIMPO<br />
Novembro, 2010<br />
© 2010 - Copyrights ISAE/FGV – Todos os direitos reservados. A reprodução total ou parcial deste documento, eletrônica ou mecânica,<br />
só será permitida com autorização expressa do ISAE/FGV. Impresso no Brasil, novembro, 2010
RESUMO<br />
O objetivo deste trabalho é apresentar uma metodologia para o cálculo da taxa de atratividade para<br />
avaliação de projetos que seja amplamente aceita pelo mercado financeiro, pelas empresas e pelos<br />
acadêmicos. Ao mesmo tempo, essa metodologia precisa ser clara e transparente para permitir uma fácil<br />
compreensão dos valores calculados e, principalmente, simplicidade para a auditoria dos números.<br />
Tendo essas características em mente propõe-se a utilização do Custo Médio Ponderado de Capital,<br />
combinado com o Capital Assets Princing Model (CAPM) para o cálculo do custo do capital próprio. A utilização<br />
dessas duas ferramentas, principalmente do CAPM, requer alguns cuidados que serão discutidos ao longo do<br />
texto.<br />
O texto apresentará, ainda, a aplicação prática da metodologia na avaliação do custo de capital de projetos<br />
de geração de energia hídrica no Brasil por meio de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e Usina<br />
Hidrelétrica de Energia (UHE) até 50 MW. Essa aplicação irá requerer a avaliação do papel do Banco Nacional<br />
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no financiamento desses projetos e, consequentemente, do<br />
seu impacto no custo de capital.<br />
2
01. INTRODUÇÃO<br />
A análise de viabilidade econômico-financeira de projetos de investimento é uma atividade de grande<br />
importância para a tomada de decisão nas empresas. Não obstante, a definição da taxa de<br />
atratividade a ser usada para a avaliação de projetos é um tema que ainda desperta discussões e<br />
controvérsias no universo das finanças corporativas.<br />
A falta de um consenso a respeito da melhor metodologia para a definição da taxa de atratividade,<br />
em muitos casos, faz com que a discussão a respeito da taxa a ser utilizada se sobreponha à<br />
discussão a respeito das características dos projetos e da projeção dos fluxos de caixa futuros<br />
esperados. A definição, a priori, de uma metodologia clara para a definição da taxa de atratividade<br />
traz o benefício de eliminar essa discussão e permitir que as atenções sejam voltadas apenas para a<br />
avaliação dos retornos esperados do projeto.<br />
Nesse estudo leva-se em consideração a necessidade de se considerar as especificidades do setor de<br />
atuação das empresas e dos mercados nos quais os investimentos serão implementados, para a<br />
definição da melhor forma de construção da taxa de atratividade.<br />
Sendo assim, é importante que se estabeleça, desde o início, que esta proposição tem como objetivo<br />
constituir uma metodologia que seja apropriada para a avaliação de projetos em geração de energia<br />
hídrica no mercado brasileiro, em particular de Pequenas Centrais Hidrelétricas 1 (PCHs), e UHEs até 50<br />
MW de capacidade instalada e que seja apropriada aos padrões do Mecanismo de Desenvolvimento<br />
Limpo (MDL) instituído pelo Protocolo de Kyoto.<br />
De acordo com a Convenção das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, o Mecanismo de<br />
Desenvolvimento Limpo (MDL) consiste na possibilidade de países em desenvolvimento implantarem<br />
projetos que reduzam a emissão ou capturem gases causadores do efeito estufa e obtenham, com<br />
esses projetos, certificados que podem ser comercializados com países industrializados, que possuem<br />
1 A Agência Nacional de Energia Elétrica, na sua Resolução 394/98, define Pequena Central Hidrelétrica<br />
(PCH) qualquer usina hidrelétrica com potência superior a 1.000 kW e igual ou inferior a 30.000 kW, com<br />
área total de reservatório igual ou inferior a 3,0 Km²<br />
3
metas de redução de emissão de gases que causam o efeito estufa. Os países industrializados podem,<br />
então, cumprir as suas metas adquirindo os certificados dos países em desenvolvimento.<br />
Como pressupostos para a definição dessa metodologia, foram levadas em consideração duas<br />
necessidades básicas. A primeira delas é a utilização de conceitos financeiros que contem com<br />
respaldo técnico e com aceitação nos meios acadêmico, empresarial e no mercado financeiro.<br />
Adicionalmente, buscou-se um método que respeitasse as melhores práticas, de forma que fosse<br />
possível conferir transparência às avaliações e cálculos.<br />
A utilização do (CMPC, ou do inglês, WACC – Weighted Average Cost of Capital) para a definição da<br />
taxa mínima de atratividade, combinado com o modelo CAPM (Capital Assets Pricing Model) para a<br />
definição do custo do capital próprio é a metodologia que melhor atende aos requisitos acima<br />
(CAMACHO, 2004), desde que respeitados os pressupostos e detalhes técnicos necessários à correta<br />
aplicação dessas ferramentas.<br />
Nas seções seguintes será apresentada, de forma conceitual, a proposta para a obtenção do CMPC<br />
para empresas de geração de energia no Brasil. Após a discussão teórica, será demonstrada, de<br />
forma numérica, a determinação do Custo de Capital para PCHs e UHEs até 50MW de capacidade<br />
instalada no Brasil, para o ano de 2005.<br />
02. DEFINIÇÃO DA TAXA DE ATRATIVIDADE<br />
A taxa mínima de atratividade pode ser entendida como a menor taxa de retorno aceitável pelos<br />
potenciais investidores para que se proponham a correr o risco associado a um ativo ou projeto. A<br />
teoria de finanças pressupõe que os investidores tenham aversão ao risco e, portanto, que requeiram<br />
taxas de retornos maiores para opções de investimento com maiores riscos (ROSS et al, 1995).<br />
A definição da taxa de atratividade de um projeto deve levar em consideração a existência das<br />
diferentes fontes de financiamento, a remuneração que deverá ser paga a cada uma delas (em função<br />
do risco incorrido pelos diferentes stakeholders, sejam eles credores ou acionistas), a proporção de<br />
utilização de cada fonte de recursos e os seus respectivos impactos fiscais e tributários. A forma<br />
4
clássica e consolidada de se fazer todas essas considerações é por meio do cálculo do CMPC<br />
(DAMODARAN, 2002; BREALEY e MYERS, 2003).<br />
O cálculo do CMPC é bastante simples de ser feito, bastando a aplicação da seguinte fórmula:<br />
∗ ∗ ∗ <br />
Onde:<br />
W e = Participação do Capital Próprio no total de recursos utilizados;<br />
W d = Participação de Capital de Terceiros no total de recursos utilizados;<br />
K e = Custo de Capital Próprio<br />
K d = Custo de Capital de Terceiros<br />
t = Alíquota de impostos sobre o lucro<br />
Não obstante a simplicidade do cálculo a ser feito para a obtenção do CMPC, existe uma série de<br />
cuidados a serem considerados e decisões a serem tomadas, no que tange à definição de cada uma<br />
das variáveis acima. Para fins do presente estudo, essas definições devem refletir a realidade dos<br />
projetos de geração de energia hídricas em PCHs e UHE até 50 MW de capacidade instalada no<br />
mercado brasileiro, de forma que se faz necessária a validação de cada uma delas antes da aplicação<br />
da equação acima e do cálculo da taxa de atratividade adequada.<br />
03. PROPORÇÃO DE CAPITAL PRÓPRIO (W e ) E DE CAPITAL DE TERCEIROS (W d )<br />
Uma das decisões importantes em avaliação de projetos diz respeito à proporção a ser utilizada de<br />
recursos de terceiros (dívidas) e de recursos próprios (dinheiro de investidores/acionistas). No<br />
mercado brasileiro, notadamente no caso de projetos de geração de energia, essa proporção está<br />
vinculada, na maior parte das vezes, aos parâmetros definidos pelo Banco Nacional de<br />
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), principal fonte de recursos para projetos de<br />
investimento no país.<br />
É importante destacar que o setor de geração de energia é intensivo de capital e, pela sua natureza,<br />
necessita de financiamentos de longo prazo, sem os quais seria impossível a implementação dos<br />
projetos.<br />
5
A maior parte das empresas brasileiras que implantam projetos de infra-estrutura e/ou de energia<br />
procura obter a maior alavancagem (relação dívida/capital próprio) admitida pelo BNDES para<br />
financiar projetos dessa natureza, uma vez que os recursos obtidos dessa fonte são de menor custo<br />
do que o capital obtido junto aos acionistas. Para esse setor, o BNDES se propõe a fornecer até 70% 2<br />
dos itens financiáveis necessários à implantação dos projetos na modalidade de Project Finance. No<br />
entanto, o BNDES também observa outros parâmetros para definição da alavancagem máxima<br />
concedida aos projetos, restringindo ainda mais a liberação de recursos, na maioria dos casos, o que<br />
resulta em alavancagens médias inferiores aos limites máximos definidos 3 .<br />
Para esses parâmetros utilizam-se, portanto, as médias de financiamento concedidos pelo BNDES para<br />
o setor de geração por PCHs e UHEs até 50 MW de capacidade instalada. As informações de<br />
alavancagem média, Wd e We, são obtidos de relatórios ou de outras publicações do próprio BNDES.<br />
04. CUSTO DO CAPITAL PRÓPRIO (K e )<br />
A determinação do custo do Capital Próprio depende da correta avaliação do risco associado aos<br />
projetos de geração de energia por PCHs e UHEs até 50 MW de capacidade instalada no Brasil. A<br />
ferramenta que conta com maior aceitação nos meios acadêmico e empresarial, para a definição do<br />
risco associado a um investimento e, consequentemente, para a definição da remuneração adequada<br />
ao capital é o Modelo de Precificação de Ativos de Capital (do inglês Capital Assets Pricing Model ou<br />
CAPM).<br />
Não obstante a existência de algumas limitações, o CAPM é o modelo que apresenta a melhor relação<br />
entre correção dos resultados obtidos e simplicidade de aplicação, sendo amplamente aceito pelo<br />
2 De acordo com as regras estabelecidas pelo BNDES, nem todos os itens necessários para a efetivação de<br />
um projeto são apoiáveis. Dentro dos itens considerados apoiáveis, projetos de geração de energia<br />
(exceto térmicas a carvão ou a óleo) podem obter até 70% dos recursos necessários à sua implantação<br />
financiados pela instituição.<br />
3 As políticas do BNDES para sua linha de Project Finance estão disponíveis no sítio da instituição na<br />
internet, no endereço<br />
http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Apoio_Financeiro/Produtos/Project_<br />
Finance/ (acessado em 18/10/2010).<br />
6
mercado financeiro e pelos acadêmicos, o que faz com que seja a principal opção na avaliação de<br />
projetos de investimento (DAMODARAN, 2002; BREALEY e MYERS, 2003).<br />
O CAPM avalia o retorno mínimo que um ativo deve oferecer ao investidor, em função do nível de<br />
risco não diversificável (ou sistemático) a ele associado. Tendo como premissa a aversão ao risco, o<br />
modelo pressupõe que ativos com maior nível de risco tenham que oferecer maior retorno, de forma<br />
a serem atrativos para os investidores (ROSS et al, 1995)<br />
O cálculo do custo do Capital Próprio (Ke) com a utilização do CAPM é dado pela seguinte expressão:<br />
∗ <br />
Onde:<br />
K e = Retorno / Custo de Capital Próprio<br />
Rf = Taxa Livre de Risco<br />
β = Risco do investimento em comparação com o mercado<br />
(R m - R f ) = Prêmio pelo Risco de Mercado<br />
De acordo com o CAPM, a remuneração adequada ao Capital Próprio (Ke) será dada pela remuneração<br />
oferecida por um ativo livre de risco (Rf) mais um retorno adicional adequado ao risco associado ao<br />
ativo [β*(R m -R f )].<br />
O risco do ativo, identificado como Beta (β), é calculado por meio da covariância dos retornos do<br />
ativo em relação aos retornos de uma carteira representativa do mercado como um todo. Para a<br />
obtenção do Beta, portanto, é necessário que estejam disponíveis dados históricos a respeito dos<br />
retornos do mercado e do setor que se pretende avaliar, de forma que seja possível o cálculo da<br />
covariância entre eles.<br />
Nesse ponto encontra-se a primeira dificuldade de utilização do CAPM para a avaliação de projetos de<br />
geração de energia no Brasil. A falta de dados públicos a respeito dos retornos de projetos/empresas<br />
dedicados a essa atividade, impede uma aplicação direta desse modelo no mercado brasileiro.<br />
Em situações como essas, a técnica financeira propõe que se obtenham os parâmetros do modelo em<br />
outros mercados, nos quais exista a disponibilidade dos dados históricos necessários e que,<br />
7
posteriormente, seja feita a transposição para o mercado em que o projeto será realizado (PEREIRO,<br />
2001).<br />
Considera-se como melhor alternativa a aplicação do CAPM para o mercado de energia dos Estados<br />
Unidos da América (EUA) e, em seguida, a transposição dos resultados para o mercado brasileiro,<br />
considerando a diferença de risco associado à economia dos dois países.<br />
4.1 Taxa Livre de Risco (R f )<br />
A Taxa Livre de Risco (R f ) no CAPM representa a taxa de investimento padrão disponível para<br />
todos os investidores. Esta Taxa Livre de Risco atua como uma referência do custo da<br />
oportunidade, permitindo que os investidores comparem e meçam o risco e o retorno adicional<br />
oferecido por investimentos alternativos versus, simplesmente, comprar e deter este<br />
instrumento que está disponível para compra no mercado.<br />
O padrão internacionalmente aceito para a Taxa Livre de Risco é o título do Tesouro dos<br />
Estados Unidos, título com o menor risco de default, que pode ser adotado como referência<br />
para a avaliação de projetos no Brasil, desde que seja incorporada a diferença de risco<br />
existente entre as duas economias.<br />
Para determinar a Taxa Livre de Risco adequada a um projeto, é aconselhável que os<br />
investidores façam a correspondência entre o prazo do título e o horizonte de tempo estimado<br />
do projeto. Essa adequação considera, implicitamente, que no início de um projeto os<br />
investidores tenham a opção de alocar seus recursos em títulos com horizonte de tempo<br />
equivalente, ao invés de investir no projeto. Esses títulos representam, então, uma alternativa<br />
segura para o investidor, que para correr níveis de risco mais elevados irá requerer aumentos<br />
da remuneração do seu capital, equivalente aos riscos do investimento.<br />
O horizonte de tempo típico para a análise de projetos de geração de energia hidrelétrica é de<br />
30 (trinta) anos 4 e, portanto, a Taxa Livre de Risco a ser utilizada deverá refletir esse período<br />
4 Os contratos de compra de energia gerada por PCHs nos leilões de Energia Nova, realizados desde 2005,<br />
têm vigência de 30 anos.<br />
8
de tempo. No mercado de títulos do Tesouro dos EUA (UST, US Treasury) podem ser obtidos<br />
títulos com prazos de duração de 30 anos.<br />
Para a correta avaliação da Taxa Livre de Risco é necessária a consideração do nível de risco<br />
oferecido pela economia brasileira em comparação com a dos EUA. Para isso, recorre-se ao<br />
Índice de Títulos de Mercados Emergentes (do inglês Emerging Markets Bond Index Plus ou<br />
EMBI+), por meio do qual é possível avaliar o risco soberano embutido nos títulos de dívida<br />
de um país. Considerando que o EMBI+ relativo ao mercado de dívida livre de riscos dos EUA<br />
é 0, o EMBI+ do Brasil representaria o risco a ser adicionado ou reduzido em função das<br />
diferenças do mercado de dívida do Brasil em relação ao dos EUA.<br />
4.2 Prêmio pelo Risco de Mercado (Rm – Rf)<br />
As expectativas do mercado para a remuneração do capital próprio tendem a ter como base o<br />
histórico de remuneração, acima da taxa livre de risco, paga aos investidores. Este prêmio é<br />
obtido levando em consideração os retornos médios do mercado de ações em um período<br />
específico de tempo, subtraindo dele o desempenho/retornos dos títulos livres de riscos nos<br />
períodos correspondentes.<br />
O prêmio histórico, portanto, torna-se uma referência, para os participantes do mercado, da<br />
recompensa adequada pelo maior risco embutido nesses investimentos, em comparação com<br />
os títulos públicos. Esse prêmio deve ser adicionado à Taxa Livre de Risco para calcular os<br />
retornos adequados para um investimento que ofereça um nível de risco igual ao da média do<br />
mercado.<br />
Para que isso seja possível é necessária, portanto, a avaliação do Prêmio pelo Risco de<br />
Mercado. Uma das formas de estabelecer esse Prêmio é a obtenção do histórico de cotação das<br />
ações transacionadas no mercado de capitais dos EUA para que se possa, a partir desses<br />
dados, fazer o cálculo do retorno médio de mercado e do prêmio oferecido pela carteira<br />
representativa do mercado. Essa abordagem, entretanto, está sujeita a incorreções e erros de<br />
avaliação ao longo do processo.<br />
9
Uma alternativa que produz o mesmo efeito prático, com a vantagem de eliminar a<br />
possibilidade de erro, é a utilização de dados previamente levantados, validados e publicados.<br />
A utilização dos dados publicados pelo professor Damodaran, em seu sítio na internet<br />
(http://pages.stern.nyu.edu/~adamodar/) atende a essas especificações.<br />
Damodaran é professor de finanças da Universidade de Nova Iorque e tem se dedicado a<br />
estudar, escrever e ministrar cursos e palestras voltados à avaliação e valoração de projetos<br />
e empresas. O sítio mantido por Damodaran na internet inclui estudos e discussões a respeito<br />
das técnicas de valuation, assim como dados históricos necessários à avaliação de projetos e<br />
empresas.<br />
Exatamente por ser especialista nessa atividade, Damodaran reconhece a importância da<br />
correção dos dados históricos para a aplicação do CAPM e para a obtenção de resultados<br />
confiáveis. Sendo assim, o professor fornece dados validados para que sejam utilizados por<br />
profissionais e acadêmicos. Essa disponibilidade de dados previamente validados atende às<br />
necessidades da metodologia, de utilizar dados que sejam transparentes, auditáveis e<br />
tecnicamente corretos para a obtenção do custo de capital.<br />
É sabido e aceito que nos mercados de capitais desenvolvidos há uma tendência ao equilíbrio,<br />
o que faz com que a abordagem do CAPM, vista de forma ampla, seja correta. Existem,<br />
entretanto, desequilíbrios momentâneos de mercado, que podem levar a conclusões incorretas<br />
ou vieses, caso não sejam tratados adequadamente. Uma forma de eliminar possíveis vieses é<br />
a utilização de séries históricas de longo prazo, nas quais os desequilíbrios temporários terão<br />
efeitos pequenos ou nulos (DAMODARAN, 2008). Dessa forma, considera-se adequada a<br />
utilização dos retornos médios observados desde o início da série disponibilizada por<br />
Damodaran, ou seja, desde o ano de 1928.<br />
4.3 Definição do Beta (β)<br />
Uma vez definido o prêmio pelo risco de mercado, há que se avaliar o risco específico do<br />
projeto em questão, em comparação com a média de mercado. Para avaliar o risco de um ativo<br />
(ou projeto) em comparação com o mercado, utiliza-se a medida da covariância dos retornos do<br />
10
ativo em relação aos retornos de mercado. Essa medida é chamada de Beta. Neste caso o<br />
projeto seria um projeto representativo do setor de geração de energia e o Beta pode ser<br />
obtido pelo beta médio das empresas do setor.<br />
Uma vez que o Beta é uma medida relativa de risco que compara a volatilidade de ativos<br />
específicos com a média de mercado, conclui-se que uma carteira representativa do mercado<br />
possui um Beta = 1 5 . Ativos que possuam uma maior volatilidade, ou seja, maior nível de<br />
risco em comparação com o mercado, terão Betas maiores que 1, ao passo que as alternativas<br />
de investimento que apresentem volatilidade menor do que a apresentada pelo mercado<br />
contarão com Betas menores que 1. A multiplicação do beta pelo prêmio de risco de mercado<br />
aumenta ou desconta o prêmio de capital próprio que os investidores devem esperar,<br />
indicando a remuneração adequada ao nível de risco oferecido pelo ativo.<br />
É importante que se tenha em mente que o cálculo do Beta depende da existência de séries de<br />
dados históricas, que permitam a avaliação da covariância do ativo em relação ao mercado.<br />
Em novos projetos de investimento, obviamente, essa série histórica não existe, o que exige<br />
que sejam feitas avaliações utilizando ativos ou projetos que apresentem perfis semelhantes.<br />
Para possibilitar essas avaliações, é importante que se conheça a composição do risco<br />
representado pelo Beta.<br />
O Beta de um ativo representa a somatória do risco associado à atividade desempenhada pela<br />
empresa (risco do negócio ou da operação) e do risco associado à sua estrutura de capital<br />
(BREALEY e MYERS, 2003). Empresas em um determinado setor de atividade terão riscos<br />
semelhantes relacionados à atividade desempenhada, mas apresentarão diferenças de risco<br />
que dizem respeito às suas respectivas alavancagens. Organizações que utilizam maiores<br />
proporções de capital de terceiros apresentam maior risco de inadimplência e o Beta associado<br />
a elas é maior. O raciocínio inverso também é válido.<br />
5 Matematicamente o Beta é calculado por meio da razão entre a covariância do ativo analisado e o<br />
mercado, pela variância do mercado. Se o ativo analisado for a carteira de mercado, o numerador do<br />
cálculo do Beta seria a covariância do mercado com o próprio mercado, o que é equivalente à variância do<br />
mercado. Dessa forma teríamos a variância do mercado no numerador e no denominador, ou seja, o Beta<br />
de mercado é igual a 1.<br />
11
Para a avaliação do Beta de novos projetos/novas empresas utiliza-se a técnica de encontrar o<br />
Beta que represente o risco da atividade relacionada ao projeto em questão, e fazer o ajuste<br />
necessário para refletir a alavancagem que se pretende utilizar naquele caso específico. Essa<br />
técnica consiste em: (1) obter o Beta das empresas que exerçam a mesma atividade do projeto<br />
que será implantado; (2) retirar do Beta a proporção de risco relativo à estrutura de capital<br />
das empresas do setor (desalavancagem), de forma a obter um índice que reflita apenas o<br />
risco da atividade desempenhada pela empresa 6 e; (3) incorporar ao Beta Desalavancado, o<br />
risco referente à estrutura de capital que será efetivamente utilizada no caso avaliado<br />
(realavancagem).<br />
Novamente recorremos a séries históricas do mercado americano, desta vez para a obtenção<br />
do Beta.<br />
Essa abordagem nos permite calcular o risco inerente ao setor, após descontarmos dos Betas<br />
observados, os riscos financeiros nele embutidos, obtendo o Beta desalavancado.<br />
′/ ′ ∗ <br />
Onde:<br />
βu = Beta desalavancado;<br />
β’ = Value Line Beta 7 ;<br />
t’ = Impostos marginais do mercado de referência 8 ;<br />
D = Percentual de capital de terceiros sobre o valor de mercado da empresa 9 ;<br />
E = Percentual de capital de terceiros sobre o valor de mercado da empresa.<br />
A realavancagem consiste na inclusão dos riscos financeiros observados no setor de estudo ao<br />
beta desalavancado, chegando ao beta re-alavancado, que reflete os riscos totais de se<br />
investir no setor com relação à média do mercado.<br />
6 Uma forma alternativa de entender o Beta Desalavancado é considerá-lo como o Beta que a empresa ou<br />
projeto apresentariam caso fosse utilizado apenas capital próprio para o seu financiamento.<br />
7<br />
Valor obtido do sítio do economista Damodaran http://pages.stern.nyu.edu/~adamodar/ e estimado pela<br />
regressão dos retornos semanais das ações com relação ao NYSE usando dados de 5 anos ou menos, se<br />
menos de 5 anos disponíveis, não podendo ser o período inferior a 2 anos.<br />
8<br />
No mercado americano a taxa de impostos a se considerar é de 40%<br />
9<br />
Valor obtido de http://pages.stern.nyu.edu/~adamodar/ .<br />
12
∗ ∗ <br />
<br />
Onde:<br />
β = Beta re-alavancado (beta do setor estudado);<br />
βu = Beta desalavancado;<br />
t = Impostos marginais do mercado estudado;<br />
W e = Participação do Capital Próprio no total de recursos utilizados;<br />
W d = Participação de Capital de Terceiros no total de recursos utilizados.<br />
De forma análoga à utilizada para a obtenção do prêmio pelo risco, os dados disponibilizados<br />
pelo professor Damodaran, no seu sítio na intenet, nos fornecem as informações necessárias<br />
para a avaliação do Beta das empresas de geração de energia. Damodaran mantém em suas<br />
bases de dados os betas de mais de 7 mil empresas, classificadas pelos seus setores de<br />
atividade.<br />
Reconhecendo a possibilidade de desvios momentâneos de mercado, Damodaran faz o cálculo<br />
dos betas utilizando uma base de tempo de 5 anos. Quando novas empresas passam a ser<br />
listadas na Bolsa de Nova Iorque (NYSE), seus betas só são incluídos na base de dados quando<br />
atingem um mínimo de 2 anos de dados disponíveis 10 .<br />
No banco de dados fornecidos pelo professor Damodaran estão disponíveis, não apenas os<br />
betas totais (ou observados), como os betas desalavancados.<br />
Nesse ponto, volta-se às considerações anteriores a respeito da utilização de capital de<br />
terceiros em projetos de geração de energia no Brasil e da participação do BNDES no<br />
financiamento desses empreendimentos. Conforme citado anteriormente, o BNDES oferece até<br />
70% dos itens financiáveis, o que resulta em projetos altamente alavancados e com Betas<br />
elevados.<br />
10 O Beta é calculado com base em dados históricos e, portanto, há a necessidade de se utilizar uma série<br />
longa para capturar corretamente a relação de risco de uma empresa em relação à média do mercado,<br />
eliminando-se, dessa forma, distorções referentes a variações ou desequilíbrios temporários do<br />
mercado.<br />
13
Além da proporção entre dívida e capital próprio, a alíquota marginal do imposto sobre o lucro<br />
também é considerada no processo de desalavancagem e realavancagem dos Betas. Esse<br />
ponto também merece atenção.<br />
No Brasil, a alíquota marginal de imposto varia de acordo com o regime tributário ao qual a<br />
empresa se enquadra 11 . Empresas enquadradas no regime de Lucro Presumido têm o valor do<br />
imposto estimado em função das receitas obtidas e, portanto, possuem alíquota marginal de<br />
impostos igual a zero 12 . As empresas que trabalham sob o regime do Lucro Real, por outro<br />
lado, apuram seus impostos em função dos lucros efetivamente auferidos, ou seja, nesses<br />
casos as despesas financeiras são dedutíveis para fins fiscais e a alíquota marginal, de 34% 13 ,<br />
deve ser considerada nos cálculos de realavancagem dos Betas. As alíquotas efetivamente<br />
utilizadas devem refletir corretamente o enquadramento fiscal ao qual o projeto estará sujeito<br />
após a sua implantação.<br />
Para a obtenção do Beta a ser utilizado na obtenção do Custo do Capital Próprio (Ke), indica-se<br />
a utilização do Beta médio desalavancado do setor de energia elétrica dos EUA, medindo<br />
assim, o risco associado à atividade (risco do negócio). Para a realavancagem do Beta,<br />
considera-se adequada a utilização da estrutura de capital que será efetivamente utilizada no<br />
projeto, bem como a consideração dos efeitos tributários equivalentes ao enquadramento<br />
fiscal efetivamente aplicável ao setor no Brasil.<br />
5. CUSTO DE CAPITAL DE TERCEIROS (Kd )<br />
Ao contrário do que ocorre em outros mercados, nos quais a maior parte das empresas obtém<br />
financiamento junto a financiadores privados, as empresas brasileiras que investem no setor de<br />
infra-estrutura têm como principais fontes de financiamento as linhas de crédito oferecidas pelo<br />
11 Decreto Lei 1.598/77, Leis 9.249/95, Lei 9.430/96 e Instrução Normativa RFB 93/97.<br />
12 Nas empresas enquadradas no Lucro Presumido, os impostos a serem pagos são arbitrados em função das<br />
receitas auferidas. Nesses casos, a existência de despesas de juros e amortização do principal<br />
decorrentes da utilização de capital de terceiros não são considerado na base de calculo de impostos ,<br />
motivo pelo qual a alíquota de impostos não deve ser considerada para a realavancagem do Beta.<br />
13 O percentual de 34% é composto por 15% de alíquota básica de Imposto de Renda, 10% de adicional de<br />
Imposto de Renda e 9% de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL).<br />
14
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o que confere ao Custo de Capital de<br />
Terceiros no Brasil algumas características específicas.<br />
O BNDES é uma empresa pública federal e o principal fornecedor de financiamento de longo prazo no<br />
Brasil. O mercado brasileiro oferece poucas alternativas de fontes de recursos de longo prazo que<br />
não sejam oriundas de entidades governamentais, uma vez que financiamentos de longo prazo<br />
raramente são oferecidos por bancos comerciais e, quando ocorrem, são oferecidos a taxas não<br />
competitivas em comparação com as praticadas pelo BNDES. O financiamento de projetos pelo BNDES é<br />
fornecido através da linha de crédito batizada de FINEM 14 (Financiamento a Empreendimentos) em um<br />
modelo de Project Finance. Esse tipo de operação pode ser realizado diretamente com o BNDES<br />
(operações diretas) ou com a intermediação de uma instituição financeira credenciada (operações<br />
indiretas).<br />
Nas operações diretas, o custo da transação é composto por Custo Financeiro, Remuneração do BNDES<br />
e Taxa de Risco de Crédito. Nos casos das transações indiretas, o custo total será composto por Custo<br />
Financeiro, Remuneração do BNDES, Taxa de Intermediação Financeira e Remuneração da Instituição<br />
Financeira Credenciada. Na presente metodologia estamos considerando que todas operações são<br />
diretas, o que implica que o projeto obtém financiamento do BNDES ao menor custo possível. Na<br />
realidade observa-se que muitos empreendedores obtêm empréstimos por meio de bancos<br />
intermediadores, porém para maior conservadorismo dentro do MDL, considerou-se o apoio direto<br />
como padrão.<br />
As condições oferecidas pelo BNDES para o financiamento desse tipo de empreendimento faz com que<br />
as empresas procurem utilizar os recursos do FINEM/Project Finance até o limite máximo permitido<br />
pelo Banco. Essa situação, conforme citado anteriormente, tem resultado em estruturas de capital<br />
altamente alavancadas, com participação majoritária de recursos de terceiros. Em geral,<br />
empreendimentos de geração de energia têm contado com uma proporção de 60% a 70% de dívidas<br />
e, respectivamente, de 40% a 30% de recursos obtidos junto aos investidores.<br />
14 http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Apoio_Financeiro/Produtos/FINEM/e<br />
nergia_eletrica_geracao.html<br />
15
É importante salientar que esses percentuais servem apenas como referência e que precisam ser<br />
validados a cada novo período, de forma que seja refletida a realidade em termos de oferta de<br />
recursos por parte do BNDES.<br />
5.1 Custo Financeiro (TJLP)<br />
A Taxa de Juros de Longo Prazo - TJLP foi instituída pela Medida Provisória nº 684, de<br />
31.10.94, publicada no Diário Oficial da União em 03.11.94, sendo definida como o custo básico<br />
dos financiamentos concedidos pelo BNDES.<br />
A Taxa de Juros de Longo Prazo - TJLP tem período de vigência de um trimestre-calendário e é<br />
fixada pelo Conselho Monetário Nacional. Ela é divulgada até o último dia útil do trimestre<br />
imediatamente anterior ao de sua vigência.<br />
Considerando-se a variabilidade da TJLP, é aconselhável que a estimativa da taxa utilize um<br />
histórico extenso das suas cotações, de forma a eliminar os efeitos de possíveis picos e vales,<br />
que trariam distorções à análise no caso da utilização de períodos muito curtos. Por esse<br />
motivo, considera-se adequada a utilização TJLP média dos últimos 5 anos.<br />
5.2 Spread do BNDES<br />
Outro fator que compõe a taxa de financiamento que as empresas no Brasil encontram via<br />
FINEM/BNDES é o spread cobrado pelo Banco. Essa taxa é fixada pelo BNDES para pagar seus<br />
custos administrativos e operacionais e sua remuneração.<br />
O spread do BNDES é definido pelas políticas do Banco e varia de acordo com o tipo de projeto<br />
financiado.<br />
Assim como nos demais casos, os spreads a serem aplicados na avaliação dos projetos devem<br />
refletir as taxas praticadas pelo BNDES na época em que os financiamentos forem solicitados<br />
ao Banco.<br />
16
5.3 Taxa de Risco de Crédito<br />
Ao conceder financiamento para projetos de infra-estrutura, o BNDES adiciona à TJLP e ao<br />
spread, uma Taxa de Risco de Crédito, que irá variar em função da avaliação individual da<br />
empresa solicitante do crédito. Os limites, inferior e superior, dessa taxa são definidos<br />
anualmente pelo BNDES de acordo com as políticas estabelecidas pelo Banco.<br />
Por ser uma definição que ocorre caso a caso, em uma avaliação prévia de projetos, a Taxa de<br />
Risco de Crédito não estará disponível. Sendo assim, há a necessidade de estabelecer um<br />
parâmetro para a estimativa e utilização desse componente do Custo de Capital de Terceiros.<br />
Considerando o histórico para projetos de geração de energia, e por questões de<br />
conservadorismo, consideramos apropriado considerar a menor taxa que pode ser concedida<br />
para investidores privados em operações diretas, de acordo com as políticas do Banco.<br />
6. APLICAÇÃO DA METODOLOGIA<br />
A aplicação da metodologia proposta permite que se obtenha a taxa de referência para a avaliação de<br />
investimentos em geração de energia hídrica, de forma particular aquelas que envolvem PCHs.<br />
Será apresentada, a seguir, a aplicação da metodologia para a data de julho de 2005, ressaltando que<br />
o procedimento é aplicável para qualquer período, desde que sejam utilizados os dados referentes ao<br />
período analisado<br />
De acordo com a metodologia estabelecida, a taxa de atratividade de um projeto será calculada por<br />
meio do Custo Médio Ponderado de Capital (CMPC), que requer a definição dos custos do capital de<br />
terceiros e do capital próprio, além da proporção de cada um deles no capital total utilizado pela<br />
empresa.<br />
A definição do custo do capital próprio é feita por meio do modelo CAPM, de acordo com a seguinte<br />
expressão matemática:<br />
∗ <br />
17
Onde:<br />
K e = Retorno / Custo de Capital Próprio<br />
Rf = Taxa Livre de Risco<br />
β = Risco do investimento em comparação com o mercado<br />
(R m - R f ) = Prêmio pelo Risco de Mercado<br />
A primeira variável a ser definida, então, é a Taxa Livre de Risco, que será obtida por meio da<br />
cotação dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos com duração de 30 anos. O acesso às cotações<br />
desses títulos pode ser feito por meio do Yahoo Finance (http://finance.yahoo.com/q/hp?s=%5ETYX).<br />
A média de um ano das cotações dos títulos de 30 anos (4,77% ao ano) nos dá a Taxa Livre de Risco<br />
nominal.<br />
Para a obtenção da Taxa Livre de Risco em termos reais, desconta-se a inflação esperada dos Estados<br />
Unidos, dada pela diferença de retorno entre os Títulos do Tesouro e os Títulos Protegidos da Inflação<br />
(TIPS) 15 . A avaliação dessa diferença implica em uma inflação de 2,45% e, consequentemente, chegase<br />
a uma Taxa Livre de Risco real de 2,27% ao ano, como segue:<br />
R f = (1+0,0477)/(1+0,0245) – 1<br />
R f = 2,27% (real)<br />
Essa taxa livre de risco, entretanto, não contempla o Risco Brasil, que precisa ser adicionado para que<br />
seja refletida a diferença de risco que existe entre as economias dos Estados Unidos e do Brasil. Para<br />
isso, será considerada a média de 5 anos do EMBI+Brasil 16 , que é de 8,44% ao ano.<br />
Adicionando-se o Risco Brasil, portanto, a taxa livre de risco (Rf) para 2005 é de 10,71% ao ano<br />
(2,27% + 8,44%).<br />
A definição do retorno de mercado acima da taxa livre de risco (Rm - Rf) é feita por meio da diferença<br />
entre o retorno médio do mercado de ações e o retorno médio dos títulos públicos, no longo prazo (de<br />
1928 a 2004).<br />
15<br />
Cotação dos TIPS disponíveis em http://www.federalreserve.gov/econresdata/researchdata.htm.<br />
Acessado em 20/09/2010<br />
16 EMBI+Brasil obtido em http://www.cbonds.info/all/eng/index/index_detail/group_id/1/. Acessado em<br />
20/09/2010<br />
18
O retorno médio anual das ações menos retorno médio anual dos T Bonds americanos de 1928 a 2004<br />
é dado por (Rm - Rf) = 11,81% - 5,27% = 6,53%.<br />
Para determinar o Custo do Capital Próprio por meio do modelo CAPM há necessidade, ainda, da<br />
determinação do Beta a ser utilizado. Para isso será obtido, inicialmente, o Beta Desalavancado para<br />
o setor de geração de energia no mercado dos Estados Unidos. Esse Beta é encontrado na internet, na<br />
página do professor Aswath Damodaran 17 .<br />
Empresa<br />
Símbolo<br />
Valor de<br />
Mercado<br />
Particip.<br />
Mercado<br />
β β '<br />
EDP - Electricidade de Portugal EDP $91.080,00 83,18% 0,75 0,71<br />
Headwaters Inc. HDWR $978,50 0,89% 0,8 0,74<br />
Quantum Fuel Sys. Tech Wldwid QTWW 188 0,17% 0,8 0,80<br />
Amer. Superconductor AMSC 418,6 0,38% 1,3 1,30<br />
Energy Conversion ENER 472 0,43% 1,4 1,38<br />
Capstone Turbine CPST 151,7 0,14% 1,45 1,45<br />
Active Power ACPW 195,8 0,18% 1,6 1,60<br />
FuelCell Energy FCEL 481,3 0,44% 1,6 1,60<br />
Ballard Power Sys. BLDP 804,5 0,73% 1,65 1,65<br />
Reliant Energy RRI 3929,3 3,59% 1,75 0,90<br />
AES Corp. AES 8709,1 7,95% 1,9 0,81<br />
Calpine Corp. CPN 2083 1,90% 2,15 0,35<br />
BETA DO SETOR 0,92 0,73<br />
β = Beta da empresa<br />
β ' = Beta desalavancado da empresa<br />
Para encontrar o Beta brasileiro, há a necessidade de partir do Beta Desalavancado (β’) das<br />
empresas dos Estados Unidos e realavancá-lo utilizando os dados de impostos e estrutura de capital<br />
do Brasil.<br />
Para fazer a realavancagem do Beta é necessária a obtenção de dois dados: (1) a taxa de imposto a<br />
ser utilizada e; (2) a estrutura de capital típica das empresas de geração de energia.<br />
Conforme explicitado anteriormente, empresas brasileiras que estejam enquadradas no regime de<br />
Lucro Presumido têm alíquota marginal de impostos igual a zero, ou seja, para essas empresas não<br />
há benefícios fiscais e tributários da existência de despesas com juros e amortização do principal.<br />
Esse é o caso das PCHs, pois a maior parte desses projetos são financiados pelo BNDES, que exige a<br />
17 http://pages.stern.nyu.edu/~adamodar/. Acessado em 20/09/2010.<br />
19
constituição de uma sociedade de propósito específico (SPE). Devido ao porte do empreendimento as<br />
SPEs que desenvolvem projetos de geração até 20MW de potência conseguem se enquadrar no regime<br />
de Lucro Presumido. Por esse motivo, a alíquota de imposto usada na realavancagem do Beta é zero.<br />
Quanto à estrutura de capital, também já foi exposto que as empresas buscam obter a maior<br />
proporção de recursos de terceiros oferecidos pelo BNDES para financiamento de projetos de geração<br />
de energia. No ano de 2005, esse percentual foi de 70% 18 , motivo pelo qual serão utilizados os<br />
parâmetros 0,7 para Capital de Terceiros (Wd) e 0,3 para Capital Próprio (We) no cálculo do Beta<br />
realavancado.<br />
Utilizando a fórmula de realavancagem do Beta, apresentada anteriormente, temos a seguinte<br />
equação:<br />
∗ ∗ <br />
<br />
, <br />
, ∗ ∗ <br />
, <br />
, <br />
Conforme demonstrado acima, portanto, a estrutura de capital típica de PCHs e UHEs até 50 MW de<br />
capacidade instalada no Brasil, o Beta Realavancado para essa atividade em 2005 é de 2,45.<br />
Esse Beta elevado já era esperado, uma vez que as PCHs utilizam uma grande proporção de capital de<br />
terceiros, o que eleva o risco medido pelo Beta.<br />
Obtidos esses dados, é possível calcular o custo de capital próprio em termos reais, utilizando o<br />
modelo CAPM, como segue:<br />
∗ <br />
18 Segundo o relatório anual de BNDES referente ao ano de 2005, o Banco financiou um valor de R$ 2,1<br />
bilhões de um total de R$ 3,0 bilhões de investimentos em PCHs.<br />
20
, , ∗ , <br />
, , % . .<br />
Uma vez definido o custo do Capital Próprio, a atenção deve ser voltada para a obtenção do custo do<br />
Capital de Terceiros. Para isso há a necessidade de calcular o custo de financiamento obtido junto ao<br />
BNDES.<br />
Os componentes de custo dos financiamentos concedidos pelo BNDES são:<br />
a) Custo financeiro – Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP);<br />
b) Spread do BNDES;<br />
c) Taxa de risco de crédito<br />
A média de cinco anos da é TJLP 10,48% ao ano 19 . O spread do BNDES, de acordo com a política de<br />
créditos a atividades de geração de energia, é de 2,5% ao ano. A taxa de risco de crédito, por sua<br />
vez, é de 1,5% ao ano, como definido pelas políticas do BNDES da época.<br />
O Custo de Capital de Terceiros nominal é, então, a somatória dos três componentes da taxa de<br />
financiamento do BNDES, ou seja, 10,48% + 2,50% + 1,50% = 14,48% ao ano.<br />
Para transformar esse cálculo, feito em termos nominais, em um custo em termos reais há a<br />
necessidade de expurgar a inflação do período. Como a meta de inflação no Brasil para 2005 era de<br />
4,5% ao ano, esse é o parâmetro a ser utilizado para ajustar a taxa, ou seja, Custo de Capital de<br />
Terceiros em termos reais é de 9,55% ao ano.<br />
Uma vez obtidas todas as variáveis necessárias para o cálculo do CMPC, torna-se possível obter o<br />
custo de capital. O CMPC em termos reais é dado por:<br />
∗ ∗ ∗ 1 <br />
0,3 ∗ 0,2671 0,7 ∗ 0,0955 ∗ 1 0<br />
19<br />
A Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) está disponível na página do BNDES na internet em<br />
http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Apoio_Financeiro/Custos_Financeiros/Taxa_de<br />
_Juros_de_Longo_Prazo_TJLP/index.html. Acessado em 15/09/2010.<br />
21
0,1470 14,70%<br />
7. CONCLUSÃO<br />
A correta definição da taxa de custo de capital é essencial para que sejam tomadas decisões<br />
acertadas a respeito da sua viabilidade ou inviabilidade.<br />
Em projetos de geração de energia no Brasil, devido à escassez de dados públicos a respeito de<br />
empresas que se dediquem a essa atividade, a aplicação direta da metodologia que combina o CAPM<br />
e o CMPC torna-se impossível. A teoria financeira, entretanto, oferece ferramentas que permitem a<br />
avaliação das variáveis necessárias ao cálculo do custo de capital próprio em outras economias, nas<br />
quais seja possível a obtenção de dados para a utilização do CAPM, e a transposição dos dados para<br />
outras realidades, com a efetivação de ajustes decorrentes das diferenças de inflação e de risco entre<br />
as economias.<br />
Outro cuidado necessário quando se faz a transposição dos resultados obtidos por meio do CAPM para<br />
outras realidades é observar que o risco de um projeto, medido pelo Beta, depende da atividade e da<br />
alavancagem da empresa. Nesse caso, é importante retirar do Beta o efeito do risco associado à<br />
alavancagem das empresas no país de origem dos dados, e incorporar ao indicador o efeito da<br />
estrutura de capital utilizada no país de destino da informação. No caso dos projetos de geração de<br />
energia no Brasil, esse ajuste é essencial, uma vez que a participação do BNDES com percentuais<br />
elevados de recursos para a implantação dos projetos, as empresas de geração de energia<br />
apresentam altos índices de endividamento e, portanto, Betas elevados.<br />
Os resultados obtidos com a aplicação da metodologia não apresentam novidades em relação às<br />
técnicas amplamente aceitas em finanças de empresas. O objetivo da definição dessa metodologia,<br />
entretanto, está na padronização das fontes de informações a serem utilizadas, aumentando a<br />
transparência e conferindo maior facilidade de auditagem às avaliações dos projetos e investimentos<br />
em geração de energia.<br />
22
ISAE/FGV<br />
INSTITUTO SUPERIOR DE ADMINISTRAÇÃO E ECONOMIA<br />
NORMAN DE PAULA ARRUDA FILHO<br />
Superintendente<br />
RUBENS MAZZALI<br />
Economista-chefe do Escritório de Sustentabilidade Estratégica<br />
PAULO SÉRGIO MARTINS MARQUES<br />
Autor responsável pelo Estudo<br />
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS<br />
BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social: 2010. Disponível em:<br />
http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Apoio_Financeiro/Produtos/FINEM/energia_el<br />
etrica_geracao.html. Acesso em: 30 de Julho 2010<br />
BARAD, MICHAEL W. Ibbotson’s Answer. Ibootson Associates: 2001. Disponível em:<br />
http://corporate.morningstar.com/ib/html/pdf.htm?../documents/MethodologyDocuments/IBBAssociates/IntnlRis<br />
kPremium.pdf, Acesso em 24/09/2010.<br />
BREALEY, R. A.; MYERS, S. C. Principles of Corporate Finance. Columbus: Mc Graw Hill, 2003.<br />
CAMACHO, F. Custo de Capital de Indústrias Reguladas no Brasil. Revista do BNDES, Rio de Janeiro, v. 11, n. 21, p.<br />
139 – 164, jun 2004<br />
CAMACHO, F.; ROCHA, K.; FIUZA, G. Custo de Capital de Distribuição de Energia Elétrica: Revisão Tarifária 2007-<br />
2009. Revista do BNDES, Rio de Janeiro, v. 13, n. 25, p. 231-268, jun. 2006.<br />
DAMODARAN, A. Investment valuation: tools and techniques for determining the value of any assets. New York:<br />
Wiley, 2002<br />
DAMODARAN, A. Betas by Sector: 2010. Disponível em:<br />
http://pages.stern.nyu.edu/~adamodar/New_Home_Page/datafile/Betas.html. Acesso em 30 de Julho 2010<br />
DAMODARAN, A. Equity Risk Premiums (ERP): Determinants, Estimation and Implications. Stern School of Business:<br />
2008. Disponível em http://ssrn.com/abstract=1274967. Acesso em 20/09/2010.<br />
PEREIRO, L. The Valuation of Closely-Held Companies in Latin America. Emerging Markets Review, v. 2, n. 2, p. 330-<br />
370, dez. 2001.<br />
ROSS, S. A.; WESTERFIELD, R. W.; JAFFE, J. F. Administração Financeira. São Paulo: Atlas, 1995<br />
23
ANEXO I<br />
PLANILHAS BASE 20<br />
20 Neste anexo estão fixadas as pplanilhas base. As planilhas de parâmetros, bem como outras auxiliares<br />
estão disponíveis em format digital<br />
24