Iris Verena Santos de OLIVEIRA - Uesb
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O POVO-DE-SANTO NAS RUAS E LADEIRAS DE SALVADOR<br />
<strong>Iris</strong> <strong>Verena</strong> <strong>Santos</strong> <strong>de</strong> <strong>OLIVEIRA</strong><br />
irisverena@bol.com.br<br />
Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Ceará / CAPES<br />
A apresentação <strong>de</strong>ste trabalho em um simpósio temático, que preten<strong>de</strong><br />
discutir a experiência <strong>de</strong> outros trabalhadores na cida<strong>de</strong> carece <strong>de</strong> uma<br />
justificativa, haja vista que os trabalhos que tratam <strong>de</strong> a<strong>de</strong>ptos do candomblé,<br />
quase nunca são abordados na perspectiva do trabalho, e também não é este<br />
o foco da pesquisa que <strong>de</strong>senvolvo. Contudo, me chamou a atenção a<br />
proposta <strong>de</strong> pensar a cida<strong>de</strong> a partir das experiências <strong>de</strong> trabalhadores, numa<br />
abordagem que parece indicar que vivências diferenciadas produzem formas<br />
peculiares <strong>de</strong> apreensão do espaço urbano.<br />
Diante disso, procuro apresentar aspectos que tratam da complexida<strong>de</strong><br />
da relação dos a<strong>de</strong>ptos dos candomblés com os espaços da Salvador da<br />
década <strong>de</strong> 30. Embora, não seja a atuação profissional, o fator que une os<br />
sujeitos <strong>de</strong>sta pesquisa que têm, em comum, as experiências com práticas<br />
religiosas <strong>de</strong> matriz africana, o campo <strong>de</strong> atuação profissional vem sendo<br />
observado como um indício do lugar social que esses indivíduos ocupavam na<br />
cida<strong>de</strong>.<br />
Ao recortar um aspecto <strong>de</strong> suas vidas, qual seja a dimensão religiosa,<br />
não se po<strong>de</strong> prescindir da compreensão <strong>de</strong> suas ocupações profissionais e<br />
<strong>de</strong>mais relações sociais nas quais estejam inseridos, principalmente, quando o<br />
objetivo <strong>de</strong>sse trabalho é a compreensão da atuação <strong>de</strong>sses indivíduos na<br />
cida<strong>de</strong> e as diversas formas <strong>de</strong> significações <strong>de</strong> espaço por elas <strong>de</strong>lineadas.<br />
Nesse sentido, parece oportuno, á apresentação do trabalho neste<br />
simpósio, vez que sua justificativa apresenta a preocupação clara com as<br />
formas <strong>de</strong> praticar a cida<strong>de</strong>, a partir do entendimento <strong>de</strong> que as diferentes<br />
ocupações profissionais levam os sujeitos a significarem os espaços urbanos<br />
<strong>de</strong> maneira diferenciada.<br />
A preocupação primeira que me ocupa, neste trabalho, é a <strong>de</strong><br />
compreen<strong>de</strong>r as diversas formas <strong>de</strong> apropriação dos espaços <strong>de</strong> Salvador,<br />
pelos a<strong>de</strong>ptos do candomblé, que naquele momento se situavam,<br />
ANAIS do III Encontro Estadual <strong>de</strong> História: Po<strong>de</strong>r, Cultura e Diversida<strong>de</strong> – ST 08: Dobrando esquinas:<br />
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principalmente, entre os estratos sociais mais baixos cida<strong>de</strong>. Situação bastante<br />
complexa quando levamos em consi<strong>de</strong>ração que se tratava do período em que<br />
as práticas religiosas <strong>de</strong> matriz africana eram duramente combatidas.<br />
A maior parte da documentação que me leva aos a<strong>de</strong>ptos do candomblé<br />
que residiam em Salvador durante as primeiras décadas do século XX,<br />
resultaram do combate às práticas religiosas afro-brasileiras, notadamente as<br />
matérias jornalísticas e os processos criminais. Ainda assim, essas fontes<br />
trazem dados importantes sobre as vidas dos réus e testemunhas que <strong>de</strong><br />
alguma maneira estiveram ligados aos candomblés.<br />
No processo arrolado contra Nelson José do Nascimento em 1939[1],<br />
sob acusação <strong>de</strong> exercer falsa medicina, po<strong>de</strong> ser apreendidas algumas<br />
informações acerca <strong>de</strong> sua vida, a partir da análise do <strong>de</strong>poimento do acusado,<br />
das testemunhas e ao analisar os objetos que foram apreendidos em sua casa.<br />
Os <strong>de</strong>poimentos das testemunhas são consensuais quanto a atuação <strong>de</strong><br />
Nelson no campo das religiões afro-brasileiras. O acusado, em seu primeiro<br />
<strong>de</strong>poimento, confessa ser “pai-<strong>de</strong>-santo”, o que também po<strong>de</strong> ser confirmado<br />
diante dos inúmeros objetos ligados aos cultos afro-brasileiros recolhidos em<br />
sua residência.<br />
No <strong>de</strong>poimento <strong>de</strong> Nelson e das testemunhas é possível apreen<strong>de</strong>r<br />
alguns aspectos <strong>de</strong> sua vida. No dia em que foi preso ele afirmou que estava<br />
<strong>de</strong>sempregado, contudo reiteradas vezes o acusado refere-se ao período em<br />
que trabalhou no Mercado Mo<strong>de</strong>lo comercializando comidas que ele mesmo<br />
preparava, o que foi confirmado pelas testemunhas.<br />
No processo arrolado contra Herida Helena Costa[2], investigada por ter<br />
supostamente usurpado objetos pessoais e uma quantia em dinheiro <strong>de</strong> Olga<br />
<strong>Santos</strong> Oliveira em troca <strong>de</strong> “serviços religiosos”, <strong>de</strong>ntre as informações que se<br />
po<strong>de</strong> coletar sobre sua vida, está a ocupação profissional; Herida trabalhava<br />
como empregada doméstica.<br />
Ao conversar com diversas pessoas ligadas aos candomblés, a<br />
pesquisadora Ruth Lan<strong>de</strong>s em 1938 i<strong>de</strong>ntificou a profissão <strong>de</strong> algumas <strong>de</strong>las.<br />
Entre as mulheres, as ocupações variavam, principalmente, entre o trabalho<br />
doméstico e o comércio informal. Enquanto entre os homens <strong>de</strong>stacavam-se os<br />
carregadores do porto e os que viviam do comércio informal ou <strong>de</strong> pequenos<br />
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serviços. Também na década <strong>de</strong> 30, Donald Pierson se preocupou em<br />
relacionar a ocupação <strong>de</strong> pessoas ligados aos terreiros que visitava e segundo<br />
ele, em um <strong>de</strong>terminado terreiro foi verificada a seguinte composição<br />
profissional:<br />
Os <strong>de</strong>zesseis ogãs tinham entre vinte e sessenta anos <strong>de</strong> ida<strong>de</strong>, com exceção<br />
<strong>de</strong> um menino <strong>de</strong> cinco anos. (...) Eram todos pessoas <strong>de</strong> classe ‘inferior’ que,<br />
com exceção do menino, tinham trabalho regular, havendo entre eles<br />
ven<strong>de</strong>dores ambulantes, estivadores, um carroceiro, um funileiro, um pintor,<br />
um pa<strong>de</strong>iro, um alfaiate, um linotipista. Apenas três (ou seja, menos <strong>de</strong> um<br />
quinto) moravam nas imediações do terreiro, vivendo os <strong>de</strong>mais esparsos por<br />
nove diferentes zonas da cida<strong>de</strong>.[3]<br />
As ocupações atribuídas aos homens e mulheres-<strong>de</strong>-santo são aquelas<br />
comumente encontradas entre as camadas mais baixas da população para o<br />
período, o que foi indicado por pesquisadores como Alberto Heráclito Ferreira<br />
Filho[4], ao estudar o cotidiano feminino na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Salvador, e por Maria<br />
Aparecida Prazeres Sanches[5] que se concentrou nas empregadas<br />
domésticas da cida<strong>de</strong>, entre as primeiras décadas do século XX.<br />
Ao tratar da experiência <strong>de</strong> pessoas ligadas aos candomblés, não se<br />
po<strong>de</strong> esquecer, que esse grupo social era composto por um número<br />
significativo <strong>de</strong> ex-escravos, libertos e seus <strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes, dando continuida<strong>de</strong><br />
às ativida<strong>de</strong>s profissionais <strong>de</strong>senvolvidas durante os últimos anos <strong>de</strong><br />
escravidão. Ainda na década <strong>de</strong> 30 é possível observar o domínio que esses<br />
indivíduos tinham da rua, aspecto bastante evi<strong>de</strong>nciado nas fontes que se<br />
reportam ao século XIX. Os relatos <strong>de</strong> viajantes e folcloristas, assim como os<br />
postais e fotografias <strong>de</strong>sse período são ricos em imagens que mostram a<br />
atuação <strong>de</strong>sses indivíduos nas ruas da cida<strong>de</strong>. Ao abordar essa temática,<br />
atentando particularmente para a participação das mulheres, a cronista<br />
Hil<strong>de</strong>lgar<strong>de</strong>s Vianna apresenta as diversas personagens que compunham as<br />
ruas da cida<strong>de</strong>:<br />
Mulheres <strong>de</strong> gamela, ven<strong>de</strong>ndo fato <strong>de</strong> boi, peixe, minguau, mulheres <strong>de</strong><br />
tabuleiro, mercando cuscuz, cocadas, bolos, mulheres <strong>de</strong> balaio ou<br />
ganha<strong>de</strong>iras, negociando pão, verduras, produtos da Costa d’África,<br />
caixinheiras, mascateando rendas e bicos <strong>de</strong> almofada, palas <strong>de</strong> camisa e<br />
barras <strong>de</strong> crochê, artigos <strong>de</strong> procedência africana e o que mais <strong>de</strong>sse <strong>de</strong>ntro<br />
do seu bauzinho <strong>de</strong> flandres, mulheres compra<strong>de</strong>iras <strong>de</strong> temperos e todas as<br />
<strong>de</strong>mais integrantes <strong>de</strong> profissões <strong>de</strong> mais ínfima categoria, eram mulheres <strong>de</strong><br />
saia.[6]<br />
Essa presença tão marcante dos afro-<strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes nas ruas <strong>de</strong><br />
Salvador impõe a questão: Qual era a configuração da “cida<strong>de</strong>” do povo-<strong>de</strong>-<br />
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santo? Que significados atribuíam as ruas, becos e encruzilhadas daquela<br />
Salvador? Ainda que essas respostas não possam ser dadas nesse momento,<br />
a única certeza que tenho, é a <strong>de</strong> que as experiências religiosas <strong>de</strong>stas<br />
pessoas lhes possibilitavam ler trama urbana <strong>de</strong> uma maneira única, diferente<br />
até mesmo, das pessoas que pertenciam ao seu segmento social.<br />
As fontes apresentam dados significativos a respeito do cotidiano <strong>de</strong><br />
pessoas ligadas aos cultos afro-brasileiros, na década <strong>de</strong> 30, apontam para<br />
uma predominância <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s profissionais ligadas ao pequeno comércio<br />
<strong>de</strong> rua da cida<strong>de</strong>, principalmente, no que diz respeito a comercialização <strong>de</strong><br />
alimentos. Nesse sentido, é preciso salientar que além da necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
sobrevivência premente, a ativida<strong>de</strong> mercantil ligada, por vezes <strong>de</strong>terminada,<br />
pela relação que essas pessoas, estabeleciam com as religiões <strong>de</strong> matriz<br />
africana. Segundo Raul Lody:<br />
O ato <strong>de</strong> ven<strong>de</strong>r comida na banca ou caixa pe <strong>de</strong> forte fundamento religioso<br />
ligado às casas <strong>de</strong> candomblé. As comidas dos santos, os amuletos que<br />
compõem a ´venda´, projetam o rigor da culinária votiva dos templos, incluindo<br />
seus simbolismos e sentidos sagrados. (...) Essas ven<strong>de</strong><strong>de</strong>iras tradicionais das<br />
ruas marcam, inegavelmente, a presença <strong>de</strong> trabalhos das mulheres <strong>de</strong>dicadas<br />
ao santo e seus preceitos. Trabalho da banca dá gran<strong>de</strong> permissivida<strong>de</strong> ao<br />
cumprimento dos calendários dos terreiros, não havendo rigores <strong>de</strong> faltar ao<br />
ponto <strong>de</strong> venda quando das necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> aten<strong>de</strong>r as obrigações dos<br />
templos[7]<br />
Nessa tentativa <strong>de</strong> acompanhar as andanças do povo-<strong>de</strong>-santo pela<br />
cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Salvador, a atuação profissional apresenta pistas significativas, já<br />
que para muitos pais, mães e filhos-<strong>de</strong>-santo as ruas, la<strong>de</strong>iras e vielas da<br />
cida<strong>de</strong> possibilitavam a sua sobrevivência. Por isso, uma tentativa <strong>de</strong><br />
compreensão das experiências <strong>de</strong> a<strong>de</strong>ptos do candomblé <strong>de</strong>ntro e fora dos<br />
terreiros não <strong>de</strong>ve prescindir da compreensão <strong>de</strong> que essas pessoas eram<br />
trabalhadores, ainda que não estivessem, em sua maioria, ligados aos setores<br />
formais.<br />
Quando o objetivo é i<strong>de</strong>ntificar as roças <strong>de</strong> candomblé na tessitura<br />
urbana, a tarefa se torna mais fácil. Despontam localida<strong>de</strong>s como Mata Escura,<br />
Engenho Velho da Fe<strong>de</strong>ração, Estrada da Liberda<strong>de</strong>, Alto do Abacaxi, Alto das<br />
Pombas, Cabrito, Retiro, Cruz do Cosme, Matatu, entre outras. Já que, na<br />
ânsia por <strong>de</strong>nunciar as práticas religiosas <strong>de</strong> matriz africana, os jornais<br />
oferecem farto material a cerca da localização <strong>de</strong>ssas casas. Por outro lado, os<br />
estudiosos que freqüentavam os terreiros na década <strong>de</strong> 30 também<br />
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apresentam dados a cerca da organização dos terreiros na cida<strong>de</strong>.<br />
Donald Pierson em “Brancos e Prêtos na Bahia. Estudo <strong>de</strong> contacto<br />
racial” preocupou-se com a distribuição racial na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Salvador e em<br />
diversos momentos, comparou a situação dos negros brasileiros com a dos<br />
norte-americanos. Ele realizou em Salvador um trabalho <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntificação dos<br />
distritos, classificando-os a partir <strong>de</strong> sua composição étnica, o que lhe<br />
possibilitou apresentar um quadro interessante sobre a ocupação daquela<br />
cida<strong>de</strong> por brancos e negros.[8]<br />
Contudo, Pierson se limita a i<strong>de</strong>ntificação dos locais on<strong>de</strong> residia um<br />
maior número <strong>de</strong> negros e pessoas ligadas aos candomblés, ele não se<br />
preocupa com a circulação <strong>de</strong>ssas pessoas pela cida<strong>de</strong>. Dando a impressão <strong>de</strong><br />
que elas viviam circunscritas em <strong>de</strong>terminadas localida<strong>de</strong>s. Entendo que<br />
<strong>de</strong>terminadas regiões havia uma concentração maior <strong>de</strong> a<strong>de</strong>ptos do<br />
candomblé, no entanto, interessa compreen<strong>de</strong>r a circulação <strong>de</strong>sses indivíduos<br />
pelos <strong>de</strong>mais espaços da cida<strong>de</strong>. Elas também circulavam pela Rua Chile, pelo<br />
Corredor da Vitória ou pelo distante, mais já elitizado, arrabal<strong>de</strong> da Barra. Que<br />
significados essas regiões adquiriam para estas pessoas? O intuito é <strong>de</strong>senhar<br />
uma cartografia simbólica da cida<strong>de</strong> atentando para os espaços, e não<br />
lugares[9], constituídos por esses indivíduos.<br />
Por isso busquei fontes que tratam da atuação dos a<strong>de</strong>ptos do<br />
candomblé fora do território dos terreiros, em espaços que eram sacralizados<br />
pelo povo-<strong>de</strong>-santo e que passavam <strong>de</strong>sapercebidos por pessoas que não<br />
compartilhavam das crenças nos orixás, inquices, vonduns ou caboclos. Nesse<br />
sentido, o relato <strong>de</strong> estudiosos como Edison Carneiro oferece algumas pistas:<br />
As pessoas que têm obrigações com Yêmanjá só se consi<strong>de</strong>ram quites com a<br />
mãe-d’água quando lhe levaram presentes, em ruidosas procissões marítimas,<br />
a bordo <strong>de</strong> saveiros a vela ou a remo, ao som dos atabaques e dos cânticos<br />
sagrados, em todas as águas, - na Lagoa do Abaeté (Itapoã), em Amaralina,<br />
no Dique, na Lagoa <strong>de</strong> Vovó (Fazenda gran<strong>de</strong> do Retiro), no Rio vermelho, nas<br />
cabeceiras da Ponte e na Loca da mãe-d’água (Monte-Serrate). Também se<br />
dão presentes à mãe-d’água nas povoações itaparicanas da Amoreira, do Bom<br />
Despacho e da Gameleira[10].<br />
Outro aspecto importante que <strong>de</strong>ve ser abordado diz respeito à<br />
composição social <strong>de</strong> a<strong>de</strong>ptos dos candomblés. Ao <strong>de</strong>monstrar que estas<br />
pessoas se situavam entre as camadas mais pobres da população, autores<br />
como Donald Pierson <strong>de</strong>ixam <strong>de</strong> lado um gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> indivíduos <strong>de</strong><br />
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outros grupos da socieda<strong>de</strong> que estabeleciam relações com os terreiros. O que<br />
i<strong>de</strong>ntifiquei nos periódicos da época, que faziam ressalvas ao flagrarem<br />
pessoas <strong>de</strong> melhores condições financeiras nas cerimônias. Por outro lado,<br />
não se po<strong>de</strong> <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> pensar na intrincada re<strong>de</strong> <strong>de</strong> pactos e alianças que pais,<br />
mães e filhos-<strong>de</strong>-santo estabeleciam com intelectuais, políticos e policiais<br />
visando resguardar a integrida<strong>de</strong> <strong>de</strong> seu terreiro diante das famigeradas<br />
batidas policiais.<br />
Ao situar diversos a<strong>de</strong>ptos do candomblé entre as classes pobres <strong>de</strong><br />
Salvador, não acredito que eles estivessem isolados nos cultos aos orixás,<br />
inquices, voduns e caboclos. Ainda que diversos candomblés estivessem<br />
situados nos subúrbios e em regiões como a cida<strong>de</strong> baixa, suponho que não é<br />
possível compreen<strong>de</strong>r as dinâmicas vivenciadas por esses homens e<br />
mulheres-<strong>de</strong>-santo se <strong>de</strong>ixarmos <strong>de</strong> lado as relações que esses indivíduos<br />
estabeleceram com as pessoas <strong>de</strong> outras camadas sociais, resi<strong>de</strong>ntes na<br />
Barra, na Graça ou na Vitória.<br />
Afinal, não se po<strong>de</strong> esquecer que muitos a<strong>de</strong>ptos dos candomblés<br />
exerciam ativida<strong>de</strong>s domésticas nos casarões da cida<strong>de</strong> alta ou vendiam <strong>de</strong><br />
porta em porta artigos diversos, para não falar nas ven<strong>de</strong>doras <strong>de</strong> tabuleiros<br />
que comercializavam comidas em diversos pontos da cida<strong>de</strong>, promovendo uma<br />
interlocução <strong>de</strong> costumes e valores entre vários segmentos sociais.<br />
Por isso, não proponho uma leitura da cida<strong>de</strong> que procura os a<strong>de</strong>ptos <strong>de</strong><br />
candomblés em guetos, circunscritos nos limites <strong>de</strong> um ou outro bairro. As<br />
pessoas envolvidas com a religiosida<strong>de</strong> afro-brasileira percorriam toda a cida<strong>de</strong><br />
atribuindo-lhe significados diferenciados, participando <strong>de</strong> um universo peculiar.<br />
Por isso, nesses primeiros passos da pesquisa tenho tentado seguir os indícios<br />
<strong>de</strong>ixados por filhos, mães e pais-<strong>de</strong>-santo em suas andanças, pelos becos,<br />
ruas, la<strong>de</strong>iras e encruzilhadas daquela cida<strong>de</strong> da Bahia.<br />
NOTAS:<br />
[1]Processo Criminal movido contra Nelson José do Nascimento, Salvador,<br />
1939. APEB. Judiciário. Série: Crimes. Sobre isso ver: BRAGA, Julio. Na<br />
Gamela do Feitiço. Repressão e Resistência nos Candomblés da Bahia.<br />
Salvador: CEAO / EDUFBa, 1995.<br />
[2]Processo Criminal movido contra Herida Helena Costa em 1947.Salvador.<br />
APEB, Judiciário, Série: Crimes.<br />
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[3]PIERSON. Donald. Brancos e Pretos na Bahia. Estudo <strong>de</strong> contato racial. São<br />
Paulo: Nacional, 1945.p.326.<br />
[4]FERREIRA FILHO, Alberto Heráclito. Salvador das Mulheres: condição<br />
feminina e cotidiano popular na Belle Époque Imperfeita. Salvador: UFBa,<br />
dissertação <strong>de</strong> Mestrado, 1994.<br />
[5]SANCHES, Maria Aparecida Prazeres. Fogões, Pratos e Panelas. Práticas e<br />
relações <strong>de</strong> trabalho doméstico em Salvador: 1900/1950. Salvador: UFBa,<br />
dissertação <strong>de</strong> Mestrado, 1998. Fotocópia.<br />
[6]VIANNA, Hil<strong>de</strong>rgar<strong>de</strong>s. A Bahia já foi assim. Crônicas <strong>de</strong> Costumes.<br />
Salvador: Editora Itapuã.1973. p.144. As observações da autora se referem à<br />
Bahia até mais ou menos 1940.<br />
[7]LODY, Raul. Santo também come. Estudo sócio-cultural da alimentação<br />
cerimonial dos terreiros <strong>de</strong> candomblé. Recife: Fundação Joaquim Nabuco <strong>de</strong><br />
Pesquisas Sociais, 1979. pp. 71-2.<br />
[8]PIERSON, Donald. Op. Cit. p. 105.<br />
[9]Essa diferenciação entre espaços e lugares é tratada por: CERTEAU, Michel<br />
<strong>de</strong>. A Invenção do Cotidiano. 1. Artes <strong>de</strong> Fazer. 9ª ed. Rio <strong>de</strong> Janeiro: Vozes,<br />
1994. p.199-202<br />
[10] CARNEIRO, Edison. Candomblés da Bahia.Salvador: Publicações do<br />
Museu do Estado e Secretaria <strong>de</strong> Educação e Saú<strong>de</strong> da Bahia, 1948. p p.91-2<br />
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