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Soraia Riche Pedro - Uniesp

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Autor e Texto<br />

Author - Text<br />

<strong>Soraia</strong> <strong>Riche</strong> <strong>Pedro</strong>*<br />

LER COM OS OUVIDOS!<br />

O QUE SE PODE FAZER?<br />

Read with the inner-ears! What may be done?<br />

Resumo<br />

Este artigo discute os conceitos de alfabetizado e leitor,<br />

mostrando o que poderia ser mudado no ensino, já que<br />

ninguém se torna leitor automaticamente.<br />

Abstract<br />

This essay discusses the concepts of literacy and reader, it<br />

presents the possibility of what may be changed in teaching<br />

area, as long as nobody becomes a reader automatically.<br />

Palavras-Chave<br />

Leitor. Leitura. Alfabetização. Soletrar.<br />

Key Words<br />

Reader, Reading. Literacy. Spellling.<br />

*Especilista em Fotografia pela Universidade Guarulhos, professora de cursos<br />

de extensão junto ao Núcleo de Pesquisa e Extensão da <strong>Uniesp</strong>, onde trabalha<br />

como assistente.<br />

R.TEMA S.Paulo nº 58 jul/dez. 2011 P. 68-73<br />

UNIESP 68


<strong>Soraia</strong> <strong>Riche</strong> <strong>Pedro</strong>*<br />

LER COM OS OUVIDOS!<br />

O QUE SE PODE FAZER?<br />

Read with the inner-ears! What may be done?<br />

Foi no século XIX que a leitura e a escrita adquiriram<br />

grande significado social e econômico. Com a revolução<br />

industrial haviam surgido a fábricas e novos conhecimentos<br />

relacionados à produção de bens e serviços. Era necessária<br />

uma mão de obra que tivesse conhecimentos específicos<br />

de leitura e escrita para trabalhar. Era necessário um<br />

conhecimento rudimentar de ler, escrever e contar e assim<br />

foram criadas escolas que ofereciam respostas a essas<br />

necessidades do mercado.<br />

Então, desde suas origens, a escola ocupou-se em<br />

alfabetizar pessoas e não em formar leitores. Obviamente<br />

as pessoas a quem era dirigido esse tipo de ensino eram<br />

membros das classes mais pobres, de onde vinham os<br />

operários e outros trabalhadores para lidar com escrituração<br />

e cálculos, e, mais tarde, com máquinas de escrever como<br />

a Remington que se tornou conhecida a partir de 1876,<br />

embora já existissem outras marcas.<br />

O ensino, então, tinha um caráter puramente<br />

utilitário, para formar pessoas com uma compreenssão<br />

básica da leitura. Nesse quadro, tornou-se comum a escola<br />

apresentar egressos que não ultrapassaram a condição de<br />

69 TEMA


analfabetos funcionais, aqueles que fazem pouco uso da<br />

leitura e da escrita em sua vida diária, demonstrando ter<br />

uma compreensão mínima de um texto escrito.<br />

Foucambert alerta para os conceitos de alfabetizado<br />

e de leitor, apontando suas diferenças e mostrando a<br />

necessidade da prática da leitura ser democratizada,<br />

difundindo as competências necessárias ao exercício da<br />

cidadania.<br />

A leiturização se configuraria como uma das<br />

alternativas possíveis de um novo modo de se relacionar<br />

como o mundo. Delors fala de uma utopia necessária:<br />

“tornar a educação um trunfo indispensável à humanidade<br />

na sua construção de ideias da paz, da liberdade e da justiça<br />

social”.<br />

Lendo com os ouvidos<br />

Enquanto esse debate se desenvolve e se aprofunda<br />

no mundo, em nosso país a situação da leitura e escrita<br />

continua dramática.<br />

É grande o número de analfabetos funcionais.<br />

Significativa parte da população é analfabeta, não sabe ler<br />

nem escrever. Mas os que são alfabetizados, conseguem de<br />

fato ser leitores? Será que é possível considerar que todo<br />

alfabetizado está apto para ser leitor?<br />

Este é um problema dos mais sérios que o país<br />

enfrenta:muita gente sai da escola lendo apenas com os<br />

ouvidos.O que significa isso? Muitos dos que pensam ser<br />

leitores, são apenas alfabetizados, isto é, não leem com<br />

os olhos, leem com os ouvidos: um som atrás do outro,<br />

soletrando,lendo palavra por palavra, numa atividade<br />

penosa e lenta, tentando atribuir sentido ao que oralizou.<br />

UNIESP 70


O Que é Leitura? O Que é Leitor?<br />

Ler é olhar e atribuir sentido ao que se vê: portanto,<br />

é muito mais do que em geral a escola oferece no Brasil, ou<br />

seja, o que se observa é que ela costuma levar o aprendiz<br />

simplesmente a oralizar as marcas gráficas que tem diante<br />

de seus olhos.<br />

A escola deve procurar um caminho que leve à<br />

aprendizagem social da escrita e da leitura, para formar o<br />

leitor social, que sabe escolher e selecionar, criticar, enfim<br />

que forme o cidadão.<br />

E o que é um leitor?<br />

É aquele que tem condições de compreender 15<br />

mil palavras por hora e cada olhar seu pode captar 20 ou<br />

30 letras, que correspondem a várias palavras ou a uma<br />

expressão completa. Ele sabe selecionar a informação<br />

que precisa, escolhe com os olhos, analisa, salta partes,<br />

qualifica o sentido.<br />

O outro, aquele que é apenas alfabetizado tem outro<br />

tipo de relação com o texto. Em primeiro lugar, ele não tem<br />

a velocidade de 15 mil palavras por hora; em segundo lugar,<br />

ele lê uma palavra depois da outra, linearmente, como<br />

na linguagem oral. Isto significa que ele lê de um modo<br />

gaguejante. Como seu comportamento é alfabético, ele<br />

não lê com os olhos, lê com os ouvidos: um som atrás do<br />

outro, palavra por palavra. Em cada fixação seus olhos não<br />

apanham mais que quatro letras. Para ler uma palavra que<br />

tem seis letras, serão necessárias duas fixações e vários<br />

movimentos.<br />

71 TEMA


Como Acontece Essa Não-Leitura?<br />

Um especiaIista chamado Jean Foucambert explica<br />

como ocorre este fenômeno de ‘’parecer’’ que se lê sem ser<br />

de fato leitor:<br />

- A pessoa que é simplesmente alfabetizada olha<br />

para o texto e procede de modo linear, fixando<br />

palavra por palavra, como na linguagem oral;<br />

- Oraliza um fragmento do texto, destituído de<br />

qualquer significado, e o grava na memória;<br />

- Oraliza o segundo segmento e torna a gravá-<br />

Io na sua memória;<br />

- Revê a palavra e a oraliza, juntando os dois<br />

segmentos gravados;<br />

- O som é murmurado internamente ou ecoado<br />

externamente, conforme a situação;<br />

O alfabetizado atribui, então, significado ao que<br />

oralizou. Isto se constitui numa não- leitura. Ou num penoso<br />

exercício de decifração da marca gráfica e memorização do<br />

som, uma atividade difícil, penosa e lenta. Por isso, o ato de<br />

ler torna-se difícil e desagradável em vez de ser ágil, rico e<br />

prazeroso,tão prazeroso quanto ver um filme ou assistir a<br />

uma peça de teatro, pois a leitura de um livro leva o leitor a<br />

grandes aventuras, à descoberta de universos fascinantes,<br />

a novas leituras do mundo.<br />

Mudar o quadro desfavorável que o país apresenta é<br />

UNIESP 72


um sonho que tem mobiIizado a energia e o empenho de<br />

milhares de professores, editores, bibliotecários e outros<br />

profissionais, em todo o território nacional.<br />

Espera-se que esse esforço encontre êxito. A tomada<br />

de consciência do problema já é um fato importante, primeiro<br />

passo para encontrar uma solução.<br />

Bibliografia<br />

DELORS,J. Educação: um tesouro<br />

a descobrir.São Paulo:Cortez,<br />

Brasilia: MEC/UNESCO,2003<br />

FOUCAMBERT,Jean. A leitura<br />

em questão. Porto Alegre: Artes<br />

Médicas, 1994.<br />

JAUSS, H.R. A leitura e o leitor.<br />

Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.<br />

L A J O L O , M a r i s a . L i t e r a t u r a :<br />

leitores e leitura.São Paulo:<br />

Moderna,2001.<br />

73 TEMA

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