Magali Fialho Linge - UNIESP
Magali Fialho Linge - UNIESP
Magali Fialho Linge - UNIESP
Transforme seus PDFs em revista digital e aumente sua receita!
Otimize suas revistas digitais para SEO, use backlinks fortes e conteúdo multimídia para aumentar sua visibilidade e receita.
Autor e Texto<br />
Author - Text<br />
<strong>Magali</strong> <strong>Fialho</strong> <strong>Linge</strong>*<br />
PEQUENO TRIBUTO A EMILY DICKINSON<br />
A Humble Tribute To Emily Dickinson<br />
Resumo<br />
A proposta deste artigo é discutir sobre a obra poética de Emily<br />
Dickinson e sua perplexidade diante de um mundo que ela não<br />
compreendia. Tal perplexidade, longe de levá-la à insanidade, foi<br />
capaz de transformá-la numa grande e inovadora poetisa cujos<br />
poemas, plenos de aforismos e heterodoxia melódica singulares,<br />
nos levam a meditar sobre a imortalidade, morte física e emoções<br />
humanas comuns, que são muito importantes para a humanidade.<br />
Abstract<br />
The purpose of the article is to discuss about the poetic work of<br />
Emily Dickinson and her perplexity towards a world she did not<br />
understand. Such perplexity, far from leading her to madness,<br />
was able to transform her into a great and innovating poet whose<br />
poems, full of aphorisms and singular melodious heterodoxy, make<br />
us to take considerations about immortality, physical death and<br />
common human emotions, which are very important to humanity.<br />
Palavras-Chave<br />
Perplexidade. Aforismos. Heterodoxia melódica. Imortalidade.<br />
Morte física. Humanidade.<br />
Key Words<br />
Perplexity. Aphorisms. Melodious Heterodoxy. Immortality.<br />
Physical death. Humanity.<br />
*Mestre pela PUC- SP, lecionou nas Faculdades Integradas Teresa Martin<br />
e atualmente é colaboradora junto ao Núcleo de Pesquisa e Extensão.<br />
R.TEMA S.Paulo nº 58 jul/dez 2011 P. 84-103<br />
<strong>UNIESP</strong> 84
<strong>Magali</strong> <strong>Fialho</strong> <strong>Linge</strong><br />
PEQUENO TRIBUTO A EMILY DICKINSON<br />
A Humble Tribute To Emily Dickinson<br />
Alguns guardam o sábado em Sobrepeliz<br />
Eu somente uso minhas Asas –<br />
E em vez de dobres de sino, para a Igreja,<br />
Nosso Coroinha – canta.<br />
Emily Dickinson<br />
Escrever sobre Emily Dickinson é sempre algo<br />
que nos emociona, alguém cujo valor literário<br />
era imenso e que, na verdade, desejava apenas<br />
se comunicar com o mundo, com as pessoas, defendia e<br />
enaltecia a natureza, personalizando-a e fazendo dela sua<br />
única aliada contra a solidão. Amava e respeitava tanto a<br />
natureza que, em nome dela, pedia aos seus conterrâneos<br />
que fossem suaves ao criticar sua obra, caso ela se<br />
tornasse pública algum dia.<br />
This is my letter to the world,<br />
That never wrote to me, -<br />
The simple news that Nature told,<br />
85 TEMA
With tender majesty.<br />
Her message is committed<br />
To hands I cannot see;<br />
For love of her, sweet countrymen,<br />
Judge tenderly of me!<br />
Esta é minha carta para o mundo.<br />
Que nunca escreveu para mim, -<br />
Simples notícias que a Natureza conta<br />
Com suave majestade.<br />
Sua mensagem é confiada<br />
A mãos que eu não posso ver;<br />
Por amor a ela, doces conterrâneos,<br />
Julguem-me com suavidade!<br />
Não citarei nenhuma vez o “eu lírico” neste artigo<br />
sobre Emily Dickinson porque sua obra poética nasceu e<br />
desenvolveu-se diretamente de suas experiências pessoais<br />
e serviu como válvula de escape de suas frustradas emoções.<br />
Prova disso é o fato de suas cartas mudarem a prosa para<br />
poesia com uma naturalidade surpreendente, como se uma<br />
fosse continuação da outra.<br />
É impossível separar sua prosa de sua poesia. Seus<br />
poemas expressam seus mais profundos sentimentos. De<br />
certa forma sua poesia preservava a sua individualidade e<br />
lhe possibilitava o alívio necessário para seu equilíbrio.<br />
Assim podemos dizer que ela transformava suas<br />
perdas pessoais em uma lírica imperecível de autoexploração.<br />
Seu isolamento e sofrimento desenvolveram<br />
nela o hábito de introspecção e uma fascinação pelas áreas<br />
<strong>UNIESP</strong> 86
mais recônditas da alma humana.<br />
Por que Emily teimava em seu uma poetisa anônima?<br />
Talvez porque a parte mais profunda de seu “eu” (não o eulírico)<br />
era tão exposta em seus poemas que os publicando,<br />
era quase como se ela estivesse expondo sua mais íntima<br />
biografia espiritual. Além disso, Emily tinha medo de se<br />
expor, mas paradoxalmente nota-se muitas vezes em sua<br />
obra o desejo de ser conhecida. Certa vez, ao receber um<br />
elogio de sua cunhada sobre alguns de seus poemas, ela<br />
comentou que gostaria que algum dia sua família ficasse<br />
orgulhosa dela.<br />
Em 1861 publicaram sete de seus poemas no jornal<br />
“Spring-field Republican” a pedido por certo de algum<br />
amigo seu. Ao ler o que havia sido publicado ela exasperouse.<br />
O original de seu poema “I Taste a Liquor...” era:<br />
‘I taste a liquor never brewed<br />
From Tankards scooped in Pearl –<br />
Not all the Frankfort Berries<br />
Yield such an Alcohol!’<br />
“Provo um licor jamais fermentado<br />
De canecos esculpidos em pérola<br />
Nem todos os frutos de Frankfort<br />
Podem proporcionar tal álcool!”<br />
berries: frutinhos, como morango<br />
Frankfort: reino<br />
(tradução literal)<br />
Porém, os dois últimos versos foram publicados:<br />
..............................................<br />
“Not Frankfort berries yield the sense<br />
87 TEMA
Such a delirious whirl<br />
Em português:<br />
Os frutinhos de Frankfort jamais poderiam<br />
produzir tal delirante embriaguês<br />
- Whirl = remoinho<br />
O sentido foi praticamente o mesmo, mas, para revolta<br />
da poetisa, a delicada combinação do som “l” de “pearl” e<br />
“alcohol” e o efeito dos sons “a” (pearl) e o “o” (alcohol)<br />
foram destruídos em favor da rima convencional.<br />
Essas “correções” podem ter reforçado o desejo de<br />
Emily em permanecer no anonimato.<br />
Já no livro da poetisa Aíla de Oliveira Gomes (Uma Centena<br />
de Poemas) constatei uma terceira versão para o mesmo<br />
trecho do poema de Emily:<br />
‘I Taste a liquor never brewed<br />
From Tankards scooped in Pearl –<br />
Not All the Vats upon the Rhine<br />
Yield such an Alcohol !’<br />
Em côncavos escavados em pérolas<br />
Provo licor sem igual<br />
Nenhum dos tonéis do Reno<br />
Contém esse álcool!<br />
Emily Dickinson<br />
Poetisa norte-americana do século passado (1830-<br />
1886), nascida na cidadezinha de Amherst, no vale de<br />
Connecticut, por ter um estilo completamente diverso do<br />
romantismo confuso de sua época, foi desacreditada por<br />
seus contemporâneos, conseguindo um lugar no mundo<br />
<strong>UNIESP</strong> 88
das letras somente 100 anos após a sua morte.<br />
Com exceção de sua amiga, poetisa e novelista<br />
Helen Hunt Jackson, todos eram cautelosos em aceitar seu<br />
trabalho. Por isso escreveu “I’m nobody! Who are you? Are<br />
you nobody, too?” (Eu sou ninguém! Quem é você? Você é<br />
ninguém, também?<br />
Em 1862, quando pediu opinião, sobre alguns de seus<br />
poemas ao crítico Thomas Higginson. Conseguiu dele apenas<br />
a vaga afirmação de que “eram notáveis, mas estranhos” e<br />
“delicados demais para serem publicados”.<br />
O crítico havia ficado perplexo com a posição<br />
inteiramente nova de Emily na época. Eram versos marcados<br />
por uma heterodoxia melódica controlada por palavraschaves,<br />
cada parte expressando o todo com alterações<br />
da batida métrica com o objetivo de retardar ou acelerar o<br />
tempo. Sua quase que exclusiva forma de pontuação era o<br />
travessão, e as palavras-chaves geralmente substantivos,<br />
eram apresentadas sempre em letra maiúscula:<br />
“capitalization”. Não tinha nenhuma preocupação com a<br />
correção gramatical, por isso Hugginson, embora muitas<br />
vezes tocado pela beleza e vigor de sua poesia, questionava<br />
o seu valor. A “pessoa” de Emily o intrigava muito mais do<br />
que a “poetisa”, por sua vida isolada e simplicidade reveladas<br />
através de suas cartas. Após oito anos de correspondência<br />
regular o crítico foi visitá-la em Amherst e ao conhecê-la<br />
ficou ainda mais surpreso com sua forma de apresentar-se<br />
a ele como uma criança ingênua e logo após mostrando sua<br />
personalidade forte, e com uma conversação enigmática,<br />
plena de aforismos.<br />
Foi por essa época que Emily tomou a decisão<br />
de permanecer uma poetisa anônima. Continuando a<br />
corresponder-se com o crítico, sem ser compreendida, ela<br />
89 TEMA
lhe dizia que não conseguia organizar ou controlar o seu<br />
poder poético como o mesmo a aconselhava. Desistindo de<br />
fazer-se compreendida ela lhe escreveu:<br />
‘I think Carl would please you – He is dumb<br />
and brave.’<br />
‘Penso que Carl (seu cachorro) agradaria o<br />
senhor – Ele é mudo e corajoso’<br />
Longe de compreender a ironia contida nas palavras<br />
de Emily, Higginson interpretou-as como sendo o reflexo<br />
de uma grande carência afetiva. A partir daí tornou-se uma<br />
espécie de conselheiro para ela, durante 25 anos. Ela nunca<br />
seguiu seus ensinamentos, continuando com seu estilo<br />
característico com imagens vigorosas, mas, muitas vezes,<br />
singelo:<br />
I never saw a Moor –<br />
I never saw the Sea –<br />
Yet know I how the Heather looks<br />
And what a Billow be.<br />
Eu nunca vi um Pântano –<br />
Eu nunca vi o Mar –<br />
Mas eu sei como a Urze é<br />
E sei o que é uma Onda.<br />
Podemos observar as palavras-chaves, onde se<br />
concentra o significado do poema, grafadas em letras<br />
maiúsculas e o uso da forma subjuntiva do verbo “be” em<br />
vez do presente simples “is”.<br />
<strong>UNIESP</strong> 90
Fazendo menção ao fato de ter uma vida reclusa, explorando<br />
o mundo através dos livros ela continua:<br />
I never spoke with God –<br />
Nor visited in Heaven –<br />
Yet certain am I of the spot<br />
As if the Checks were given –<br />
Eu nunca falei com Deus –<br />
Nem nunca o visitei no Céu –<br />
Mas certamente estou no caminho certo<br />
Como se já tivessem sido distribuídas as<br />
“passagens”.<br />
Obs: Ela usa uma inversão, própria da forma<br />
interrogativa em inglês em “yet know I...”<br />
Na última estrofe ela confessa acreditar na vida eterna<br />
sem necessidade de prova maior. Julgando-se no “caminho<br />
certo”, embora reclusa, desconhecendo outras partes<br />
do mundo, não discordaria de ninguém que afirmasse a<br />
existência dela, da mesma forma que acreditava na vida<br />
eterna.<br />
Através de seus poemas nota-se uma constante:<br />
a procura de evidências que a levassem à vida eterna.<br />
Aos ministros religiosos com os quais se correspondia<br />
perguntava: “A imortalidade existirá realmente?”.<br />
Washington Gladden, clérigo de renome na época (1882)<br />
respondeu-lhe que não poderia demonstrar a existência da<br />
imortalidade, mas que “mil linhas de evidência convergem<br />
para ela...”.<br />
91 TEMA
Sua religiosidade, porém, não era nada convencional,<br />
como podemos perceber em ‘Some keep the Sabbath Going<br />
to Church’:<br />
Some keep the Sabbath going to Church –<br />
I keep it staying at Home –<br />
With a Bobolink for a Chorister –<br />
And an Orchard for a Dome –<br />
Alguns guardam o sábado indo à Igreja –<br />
Eu o guardo ficando em Casa –<br />
Com um “Bobolink” por Corista –<br />
E um pomar no lugar da Abóbada –<br />
O sábado a que a poetisa se refere é o dia do Senhor<br />
dos judeus, Bobolink: pássaro americano cantor, a abóbada<br />
referindo-se à Igreja (para ela o seu pomar). Assim, através<br />
das comparações (metáforas) ela vai substituindo os<br />
aparatos externos de religiosidade pela natureza:<br />
Some keep the Sabbath in Surplice<br />
I just wear my Wings –<br />
And instead of Tolling the Bell, For Church,<br />
Our little sexton – sings.<br />
Alguns guardam o sábado em Sobrepeliz 1<br />
Eu somente uso minhas Asas –<br />
E em vez de dobres de sino, para a Igreja,<br />
1Sobrepeliz: espécie de mantelete branco usado pelos clérigos. As asas a<br />
que a poetisa se refere é uma metáfora significando “imaginação”; Coroinha:<br />
tipo de pássaro ao mesmo tempo lembrando o ajudante do clérigo nas<br />
funções religiosas.<br />
<strong>UNIESP</strong> 92
Nosso Coroinha – canta.<br />
E ela finaliza:<br />
God preaches a noted Clergyman –<br />
And the sermon is never long<br />
So instead of getting to Heaven, at last<br />
I’m going all along<br />
Deus anuncia um clérigo notável –<br />
E o sermão nunca é longo<br />
Assim, em vez de ir ao Céu, no final,<br />
Eu vou o tempo todo.<br />
“Clérigo notável”: o pássaro.<br />
O pomar: o Paraíso onde ela consegue estar, através<br />
da imaginação (asas), o tempo todo.<br />
Não há na poesia de Emily nenhuma autopiedade, de forma<br />
singela fala da morte sem dramas, como algo natural, uma<br />
obsessão para ela:<br />
I died for Beauty, but was scarce<br />
Adjusted in the Tomb,<br />
When One who died for Truth was lain<br />
In an adjoining Room.<br />
He questioned softly why I failed?<br />
‘For Beauty’. I replied –<br />
‘And I for Truth – Themselves are One’ –<br />
‘We Brethren are’, he said –<br />
And so, as Kinsmen met a Night –<br />
We talked between the Rooms –<br />
93 TEMA
Until the Moss had reached our lips –<br />
And covered up – our Names –<br />
Eu morri pela beleza, mas assim<br />
Que me senti na tumba<br />
Alguém que morreu pela Verdade<br />
Foi colocado na tumba anexa<br />
Ele me perguntou baixinho ‘Por que morreu?’<br />
‘Pela beleza’, respondi –<br />
‘E eu pela Verdade – o que é a mesma coisa<br />
Somos irmãos, Ele disse -<br />
E assim, como parentes que se encontram à<br />
noite –<br />
Nós conversamos por entre os Quartos –<br />
Até que o musgo alcançasse nossos lábios<br />
E cobrisse nossos nomes –<br />
No 2º quarteto esperaríamos que Emily usasse o<br />
discurso direto:<br />
‘Why did you fail?’ ou o discurso indireto:<br />
‘He questioned softly why I failed.’<br />
O mesmo acontece no mesmo quarteto quando ela<br />
emprega<br />
‘Themself are One?’, quando esperaríamos<br />
‘They are one?’<br />
‘Themself deveria ser: themselves.<br />
E ainda em: ‘We Brethren are’ querendo dizer ‘Somos<br />
irmãos de credo’, quando esperaríamos: ‘We are brothers’ –<br />
‘Somos irmãos’.<br />
Nessa poesia Emily relata uma conversa entre a<br />
Verdade e a Beleza quando ambas concluem que são a mesma<br />
<strong>UNIESP</strong> 94
coisa. Algo que, na opinião de uns é a realidade última, algo<br />
que permanece quando o Universo das aparências externas<br />
é removido. Outros ainda dizem que tanto a verdade<br />
quanto a beleza representam a Deus uma vez que ambas<br />
são qualidades dEle. Concluo que a conversa entre ambas,<br />
na concepção de Emily, se passa num “espaço” existente<br />
entre a morte (túmulo) e a eternidade, almejada por ambas,<br />
e somente alcançada após se envolverem inteiramente nela<br />
(na eternidade), conscientizando-se da morte:<br />
“Conversamos por entre os quartos até que o musgo<br />
alcançasse nossos lábios e cobrisse nossos nomes”.<br />
Isto é, quando deixassem de existir completamente<br />
para a vida material, mergulhando na eternidade.<br />
Poucos foram os artifícios usados pela poetisa para<br />
transmitir todas essas idéias. Como se vê, usou letras<br />
maiúsculas (“capitalization”) nas palavras-chaves (de<br />
significado maior) e, sem preocupação com a métrica ou<br />
rima, importou-se somente com a harmonia dos sons.<br />
Emily detestava a hipocrisia que combatia através das<br />
ortodoxias. Não acreditava num inferno para os pecadores,<br />
como os seus contemporâneos. O pecado para ela era algo<br />
a que todos poderiam resistir. Considerava que a liberdade<br />
e a paz, objetivos de todo ser, só poderiam ser alcançados<br />
através do sofrimento e do trabalho. O ser humano deveria,<br />
segundo ela, atingir o ideal por si mesmo, e que o crescimento<br />
de cada um só seria possível através da autodescoberta.<br />
Referindo-se a isso e utilizando como elemento de<br />
comparação a natureza, ela diz:<br />
95 TEMA
‘Growth of Man – like Growth of Nature<br />
Gravitates within<br />
Atmosphere an Sun (endorse it)<br />
But it stirs – alone –<br />
Each – it’s difficult Ideal<br />
Must achieve – Itself –<br />
Through the solitary prowess<br />
Of a silence life – Effort – is the sole condition<br />
Patience of opposing forces –<br />
And intact Belief –<br />
Looking on is the Department<br />
Of its Audience –<br />
But Transactions – is assisted<br />
By no Countenance.’<br />
“O crescimento do homem – como o da<br />
natureza –<br />
Gravita dentro dele.<br />
O ar e o sol ajudam-no,<br />
Mas ele avança sozinho<br />
Cada qual seu difícil ideal<br />
Deve atingir – por si<br />
Através da solitária proeza<br />
De uma vida silenciosa<br />
Esforço, condição única,<br />
Paciência consigo mesmo,<br />
Paciência com as forças opostas<br />
E uma crença intacta.<br />
Assistir é a incumbência<br />
Das platéias.<br />
Mas a transação – não assiste<br />
<strong>UNIESP</strong> 96
Qualquer ajuda.”<br />
Querendo dizer que cada um deve crescer por<br />
seu próprio mérito, com paciência no sofrimento (forças<br />
opostas).<br />
Notamos que um problema de suprema importância<br />
para ela era o da própria identidade. Ela começou daí a<br />
considerar o mistério do sofrimento, e dizia que só a dor<br />
dá poder, e que os homens condenados à imortalidade,<br />
só aprendem que a dor é suportável através da disciplina:<br />
“os entorpecentes que mitigam a dor, entorpecem também<br />
nosso sentido de apreciação dos valores e a capacidade<br />
de perceber a verdade”. E a percepção da verdade, por<br />
mais dolorosa que seja é que suporta o homem. E ela dizia:<br />
“Meço toda a dor que me deparo”, “Tudo é o preço de tudo”.<br />
Sobre essas idéias Emily escreveu uma de suas melhores<br />
realizações poéticas:<br />
‘Experience in the Angled Road<br />
Preferred against the Mind<br />
By – Paradox – the Mind itself –<br />
Presuming it to lead<br />
Quite Opposite – How Complicate –<br />
The Discipline of Man –<br />
Compelling Him to Choose Himself<br />
His Preappointed Pain – ‘<br />
“A experiência é a estrada angulosa<br />
Preferida contra a inteligência,<br />
Por paradoxo, pela própria inteligência,<br />
Presumindo que a leve<br />
Para o lado oposto. Quão complicada<br />
97 TEMA
A disciplina do homem,<br />
Compelindo-o a escolher ele próprio,<br />
A sua dor predestinada.’<br />
Confinada a um espaço restrito, seu lar, esteve<br />
Emily, até a sua morte à procura de si própria e de uma<br />
confirmação:<br />
“A imortalidade existirá realmente?” Muitas<br />
vezes, através de seus poemas pode-se notar que<br />
realmente acreditava na vida eterna, outras vezes, porém,<br />
paradoxalmente, nota-se sua dúvida e a procura tormentosa<br />
da resposta. Procura vã de seu “eu” que ela designava por<br />
diferentes metáforas como “continente desconhecido”,<br />
“alma em companhia de si mesma...” Sem assistência, sem<br />
multidão, ela escreveu:<br />
‘Suffice us - for a Crowd –<br />
Ourself and Rectitude –<br />
And that Assembly –not far off –<br />
From furthest spirit – God –<br />
A autora escreveu “ourself”, gramaticalmente deveria<br />
ser “ourselves”, porém, é uma licença poética da autora que<br />
era autodidata e não seguia regras gramaticais.<br />
“Baste- nos – como multidão –<br />
Nós mesmos e a retidão.<br />
E essa assembléia não muito distante<br />
Do mais longínquo espírito – Deus.”<br />
e ainda:<br />
They say that ‘Time assuages’ –<br />
Time never did assuage –<br />
<strong>UNIESP</strong> 98
An actual suffering strengthens<br />
As Sinews do with age –<br />
Time is a Test of Trouble<br />
But not a Remedy –<br />
If such it prove, it prove too<br />
There was no Malady –<br />
Dizem “com o tempo se esquece”<br />
Mas isto não é verdade.<br />
Que a dor real endurece,<br />
Como os músculos, com a idade.<br />
O tempo é o teste da dor,<br />
Mas não é o seu remédio –<br />
Prove-se e, se provado, for,<br />
É que não houve moléstia.<br />
Quando Emily dizia ‘They say that time assuages’…<br />
isto é, se o tempo curar a dor, (no caso dela ocasionada pelo<br />
amor não realizado) se o tempo fizer alguém esquecer do<br />
amor, será porque não houve “moléstia”, não houve amor.<br />
Que ela amava é um fato fácil de comprovar-se nesse<br />
poema, e seu sofrimento era tal a ponto de ela sentir-se<br />
“doente” lutando para salvar sua sanidade. Possuidora de<br />
uma alma apaixonada, sua crise nervosa, se podemos assim<br />
dizer, nunca foi direcionada a um homem só. Cada homem<br />
representava para ela coisas diferentes. Proporcionavam-lhe<br />
emoções diversas e necessárias à sua vida. Assim: Samuel<br />
Bowles era seu amigo, Higginson seu incentivador e crítico,<br />
Reverendo Wadsworth era sua “musa” se podemos assim<br />
dizer, por falta de termo masculino para o fenômeno.<br />
Comentaremos tudo isso mais para frente. Na 2º carta<br />
que escreve ao “mestre”, Reverendo Charles Wadsworth<br />
(1860-62), ela diz:<br />
99 TEMA
‘I am older – tonight, Master – but the love is<br />
the same’ –<br />
“Sinto-me mais velha essa noite, Mestre, mas<br />
o amor continua o mesmo.”<br />
Com a morte do Reverendo (1º de abril de 1882) ela<br />
comentou:<br />
‘Love has but one Date –<br />
‘The first of April’ – Today, yesterday, and<br />
Forever.’<br />
“O amor tem somente uma data – primeiro de<br />
abril – hoje, ontem e sempre.”<br />
Por causa desse comentário de Emily, julgouse<br />
que ele poderia ter sido sua inspiração para muitos<br />
poemas reveladores de sua alma apaixonada e sofrida.<br />
Sendo, porém, o Reverendo de Filadélfia, bem casado e<br />
com crenças ortodoxas, não se pode afirmar que a tenha<br />
incentivado nesse amor puramente platônico. Talvez ele<br />
nem tenha percebido a idealizada devoção de que era alvo<br />
(encontraram-se apenas duas ou três vezes na vida).<br />
Newton, Bowles, Higginson, Wadsworth ou qualquer<br />
outro homem, sendo ou não amado por ela, tem menos<br />
importância do que o fato de que a resposta apaixonada<br />
de Emily produziu alguns dos melhores poemas da poesia<br />
norte-americana.<br />
Quando sua fonte de inspiração poética: Reverendo<br />
Wadsworth foi transferido para São Francisco em 1861,<br />
sendo impossibilitado de lhe servir de diretor espiritual,<br />
passou a vestir-se de branco, como um “luto” ao contrário.<br />
Seu aprendizado poético parece ter terminado por essa<br />
<strong>UNIESP</strong> 100
época.<br />
A partir daí já começou a mostrar interesse pelas<br />
técnicas poéticas e suas melhores obras datam daí.<br />
Continuava, porém, necessitando de liberdade de expressão<br />
total para transmitir seus pensamentos. Seus poemas<br />
aparentemente feitos por uma artista indisciplinada na<br />
época, denunciavam apenas uma nova expressão poética<br />
da qual Emily foi precursora.<br />
Mesmo sua prosa, notada em suas cartas a Borwles,<br />
Wadsworth ou Higginson, era bem próxima da poesia. Suas<br />
crises existenciais, seu sofrimento e amadurecimento são<br />
também claramente visíveis em suas obras.<br />
Em 1860 ela escreveu:<br />
‘Just lost when I was saved –<br />
Just felt the world goes by –<br />
Just girl me for the onset with Eternity –<br />
When breath blew back -<br />
And on the other side –<br />
I heard recede the disappointed tide –<br />
…………………………………<br />
Estava perdida quando me salvaram<br />
Sentia o mundo passar –<br />
Presa sendo arremessada para a Eternidade<br />
Quando a inspiração voltou –<br />
E na outra margem –<br />
Ouvi a maré recuar desapontada.<br />
............................................<br />
Certa vez ela agradeceu a Higginson por tê-la “salvo”.<br />
Estaria ela se sentindo tão só, desamparada, “arremessada”<br />
para a morte, quando uma carta de Higginson ou Wadsworth<br />
101 TEMA
chegava dando-lhe novo alento? Suas palavras na poesia<br />
que acabamos de ler não traduzem uma espécie de “drible”<br />
à morte? Que “recuou” desapontada...?<br />
Sobre Emily há muito a ser estudado, mas o pouco<br />
que foi apresentado aqui poderá servir de ponto de partida<br />
para os que não a conheciam. Ela escrevia para si mesma,<br />
pois temia não ser compreendida:<br />
‘I’m nobody! Who are you?<br />
Are you nobody, too?<br />
Then there’s a pair of us – don’t tell!<br />
They’d banish us, you know.<br />
How dreary to be somebody!<br />
How public, like a frog<br />
To tell your name the livelong day<br />
To an admiring log!’<br />
“Eu sou ninguém! E você quem é?<br />
É ninguém também?<br />
Então há um par de nós – não “espalhe”!<br />
Acabariam conosco, você sabe.<br />
É “chato” ser alguém!<br />
Tão público, como um sapo<br />
Coaxando seu nome o dia inteiro<br />
Para um charco perplexo!”<br />
Observação:<br />
Traduzi os poemas I, II, III, IV. V, IX e X com objetivo puramente<br />
didático, sem nenhuma pretensão poética. Segui a mesma<br />
pontuação dos poemas originais para facilitar a comparação<br />
com o original.<br />
<strong>UNIESP</strong> 102
Bibliografia<br />
DICKINSON,Emily.Selected<br />
poems of Emily Dickinson (with<br />
an introduction by Conrad Aiken)<br />
New York: The Modern Library,<br />
1924.<br />
DICKINSON, Emily. Selected<br />
Poems. Borders Classics.<br />
Edwards Brothers, Inc. United<br />
States of America, 2003.<br />
DICKINSON, Emily. Uma Centena<br />
de Poemas (Tradução, introdução<br />
e notas de Aíla de Oliveira Gomes)<br />
São Paulo:T.A. Queiroz, 1985.<br />
LINGE, MAGALI F. A obra poética<br />
de Emily Dickinson. In Revista<br />
TEMA nº 6. São Paulo. Edição de<br />
maio a setembro de 1988.p.59-71<br />
PICKARD, John B. – Emily<br />
Dickinson, An introduction and<br />
interpretation. Nova York: Holt,<br />
Rinehart & Winston, 1967.<br />
SEWALL, Richard B.- Emily<br />
Dickinson A collection of critical<br />
essays. New Jersey:Prentice-<br />
Hall, 1963.<br />
103 TEMA