Apostila (parte 2) - Criança Segura

criancasegura.com.br

Apostila (parte 2) - Criança Segura

ÍNDICE

1. PERFIL DOS ACIDENTES COM CRIANÇAS E ADOLESCENTES NA CIDADE DE SÃO PAULO 40

2. PREVENÇÃO DE ACIDENTES 45

3. ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS E PREVENTIVOS DO TRAUMA NA INFÂNCIA 48

4. DICAS DE PREVENÇÃO 55

AFOGAMENTO 55

ARMA DE FOGO 57

ATROPELAMENTO 59

BICICLETA, SKATE E PATINS 61

BRINCANDO 63

CARRO 65

ENVENENAMENTO E INTOXICAÇÃO 69

ESPORTE E RECREAÇÃO 71

PLAYGROUND 73

QUEDA 75

QUEIMADURA 76

TRANSPORTE ESCOLAR 79

39


1. PERFIL DOS ACIDENTES COM CRIANÇAS E ADOLESCENTES NA

CIDADE DE SÃO PAULO

INTRODUÇÃO

A CRIANÇA SEGURA é uma organização sem fins lucrativos, que tem como missão promover a

prevenção de acidentes com crianças e adolescentes até 14 anos.

Fundada pelo cirurgião-pediatra Martin Eichelberger, em 18 anos de atuação, o número de

mortes por acidentes nos Estados Unidos já alcançou uma redução de 40%. Integrante de uma

rede internacional que soma mais de 15 países, o Safe Kids Worldwide, em 2001 a CRIANÇA

SEGURA chegou ao Brasil e hoje está presente nas cidades de São Paulo, São José dos Campos,

Recife e Curitiba.

Os acidentes representam a principal causa de mortes, na faixa etária de 1 a 14 anos em

nosso país. Segundo o Ministério da Saúde, todos os anos, cerca de 6 mil crianças morrem, 140

mil são internadas e milhares ficam com seqüelas permanentes, vítimas de acidentes que

podem ser evitados.

A CRIANÇA SEGURA busca através de informação e educação reduzir o número de vítimas por

acidentes contribuindo para a promoção de vidas saudáveis. Para isso, desenvolve atividades

com o intuito de influenciar gestores públicos e a sociedade civil sobre a importância da

prevenção de acidentes como uma questão de saúde pública.

Um dos nossos programas é o CRIANÇA SEGURA na Escola, que tem como objetivo envolver os

3 pilares do contexto escolar: professores, alunos e pais, na prevenção de acidentes com

crianças e adolescentes. Ao longo do ano letivo os professores desenvolvem, com o apoio da

CRIANÇA SEGURA, atividades e metodologias de trabalho para a inserção do tema na sala de

aula.

Aplicado nas cidades de São Paulo, São José dos Campos, Jacareí, Recife e Curitiba o

programa atua em instituições de ensino dos mais diversos perfis: escolas da rede pública

(municipais e estaduais) e da rede privada, de pequeno, médio e grande porte.

Em São Paulo, o trabalho ocorre em quatro regiões do município que apresentam

características distintas tanto sociais como econômicas. Neste contexto o programa elaborou

40


uma pesquisa com o objetivo de investigar a dimensão e características dos acidentes

ocorridos com as crianças e adolescentes (0 a 14 anos) participantes do projeto e os

resultados obtidos fizeram parte da estratégia de trabalho desenvolvida nas escolas ao longo

do ano de 2005.

Cabe ressaltar que os dados analisados dizem respeito a acidentes que não levaram a criança

ao óbito.

OBJETIVOS

Os objetivos da pesquisa foram:

• Conhecer as especificidades de cada comunidade escolar e elaborar um plano de

prevenção que fosse condizente com as características de cada uma delas;

• Mobilizar os professores, pais e responsáveis para o trabalho de prevenção de acidentes.

METODOLOGIA

No primeiro semestre de 2005, foram entregues questionários para 23 escolas participantes do

Programa que foram aplicadas aos pais ou responsáveis diretamente, durante as reuniões

escolares, e outras, enviadas para casa.

Em um primeiro momento, os questionários foram analisados a partir de uma tabulação

informal realizada pelos próprios professores e pela equipe CRIANÇA SEGURA para que fosse

possível traçar o perfil de cada escola. Após esse processo, as pesquisas foram recolhidas, a

tabulação feita pela Liga do Trauma da UNIFESP e a análise pela equipe da CRIANÇA SEGURA.

PRINCIPAIS RESULTADOS

Cerca de 7.000 questionários foram respondidos, mas devido a erros detectados pela CRIANÇA

SEGURA, foram considerados válidos 4.616 (64%) formulários. É importante considerar que a

pesquisa não foi respondida por profissionais da saúde, e sim por famílias de crianças que

estudam em escolas públicas e particulares da cidade de São Paulo.

41


Nos 4.616 questionários considerados, 2.269 crianças já sofreram algum tipo de acidente,

portanto, estatisticamente, metade (50,1%) dessas crianças já foi vítima de acidentes.

Na análise de todos os grupos etários o índice de quedas foi o mais elevado dos acidentes,

concentrando 52,7% dos casos. Em seguida temos as quedas de bicicletas, patinetes e skates

com 19%. E em terceiro lugar observa-se que a queimadura também ocupou um lugar de

destaque, ocorrendo em 11,2% dos casos.

A variável idade tem uma relação elevada com a ocorrência e a freqüência dos acidentes. Os

diferentes estágios de desenvolvimento da criança influenciam a capacidade de

movimentação e cognição de crianças e adolescentes.

Portanto para melhor analisar os tipos de acidentes nas diferentes faixas etárias, os dados

foram agrupados por idade. Percebe-se que entre crianças de 1 a 4 anos as quedas

predominam (58%), já dos 5 aos 9 anos esse número sofre uma redução (46%), e o índice de

acidentes com bicicletas patinetes e skates aumenta de 8% para 30%.

Essa situação cresce ainda mais dos 10 a 14 anos, onde os acidentes com bicicletas e patins se

apresentam 36% dos acidentes superando as quedas que reduzem para 34%.

42


A maioria dos acidentes ocorreu no ambiente domiciliar (55%), e, em seguida, na rua (30%) e

na escola (9%). Interessante também notar que a grande maioria das crianças estava

acompanhada no momento do acidente (78%). Torna-se claro que o fato das crianças estarem

acompanhadas não impossibilita que os acidentes ocorram, a supervisão é fundamental, mas

deve ser uma supervisão ativa, atenta e cuidadosa.

87% dos respondentes acreditam que os acidentes podem ser evitados, Contudo os dados

apresentados anteriormente colocam uma questão importante: mesmo sabendo da

possibilidade da prevenção de acidentes, cerca de 2.500 crianças têm o histórico de, pelo

43


menos, um acidente. Em outras palavras se é sabido que os acidentes podem ser evitados e,

ainda assim, eles acorrem, a deficiência está na falta de medidas preventivas. Isto pode ser

explicado pela idéia do acidente como um evento imprevisto no qual não há a possibilidade

de uma intervenção prévia.

Esta pesquisa legitima o trabalho e a importância do Programa CRIANÇA SEGURA na Escola.

Afinal o número de acidentes é alto e precisa ser enfrentado, pois muitos deles causam a

morte e deixam seqüelas permanentes em milhares de crianças anualmente.

A redução depende da apropriação de uma lógica, na qual o acidente seja visto como algo

que pode ser prevenido, através de uma cultura de prevenção que estimule comportamentos

seguros e saudáveis, por parte de crianças e seus responsáveis.

44


2. PREVENÇÃO DE ACIDENTES

Simone de Campos Vieira Abib

Todo mundo já se machucou um dia... Caiu, escorregou, cortou o dedo, queimou o braço,

quebrou a perna... Entretanto, poucas pessoas sabem que acidentes podem ser muito graves

e deixar seqüelas (defeitos) permanentes ou até provocar a morte. O trauma é a principal

causa de morte em crianças e adultos jovens em todo o mundo. É uma doença de proporções

epidêmicas e um dos maiores problemas de saúde pública em todo o mundo. Além disso, é a

principal causa de morte na população até 44 anos de idade. Nos sobreviventes, a incidência

de seqüelas temporárias ou permanentes é muito elevada. O custo do tratamento inicial, das

internações e do tratamento das seqüelas consome grande parte dos recursos destinados à

Saúde Pública.

Segundo Krug (1999), em relatório da Organização Mundial de Saúde, aproximadamente 5,8

milhões de pessoas morreram vítimas de trauma, no mundo, em 1998, o que representa 97,9

óbitos por 100.000 de população. Destes, aproximadamente 800.000 óbitos e 50 milhões de

seqüelados estão na faixa etária de 0 a 14 anos de idade.

No Brasil, aproximadamente 150.000 vítimas de trauma morrem anualmente, segundo dados

do ministério da Saúde. Dados do SEADE (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados)

mostram que 20.238 pessoas morreram devido a causas externas, no município de São Paulo

em 2001, sendo 286 de 0 a 4 anos, 520 de 4 a 14 anos e 15.000 de 14 a 44 anos (apenas em

um ano). As causas externas determinaram 119 óbitos em menores de um ano no município de

São Paulo no mesmo período (2001). É importante ressaltar que, para cada óbito, estima-se

uma média de quatro seqüelados graves.

Esta mudança filosófica no atendimento, baseada em conscientização, mudança de

comportamento e educação deve ser transportada para a prevenção e multiplicada na

comunidade e na sociedade como um todo.

Um exemplo deste processo foi o da organização não-governamental que trata de prevenção

de acidentes na infância Safe Kids, nos Estados Unidos: a partir de uma "pesquisa de

mercado", coletou dados para dispor de argumentos sólidos; medidas de informação e

educação puderam ser multiplicadas por pessoas dos mais variados segmentos da sociedade e

reduziram em 40% a mortalidade do trauma infantil num período de 14 anos.

45


Aparentemente, mudança de comportamento pode soar como atitude revolucionária, mas

com coisas muito simples e pequenas, pode-se ter grandes impactos na redução da morbimortalidade

do trauma.

No Brasil, os dados sobre o trauma pediátrico ainda são muito escassos. Um estudo realizado

em 1995 mostrou que as crianças que morreram de trauma estavam sozinhas ou com outro

menor, denotando um problema social, pois os pais saem para trabalhar e não há quem cuide

das crianças; esses "acidentes" ocorreram próximo à residência das vítimas ou na própria

residência (Waksman, 1995).

A maioria dos estudos se referem à mortalidade e poucos deles à situação atual quanto ao

atendimento, seqüelas e custos. Assim, considerando que a expectativa de vida das crianças é

bem maior que a dos adultos, se uma criança ficar paraplégica aos 5 anos, ela pode ter que

conviver com isso por um período de 70 anos, aproximadamente, o que causa ônus pessoal,

familiar e social.

Stylianos e Eichelberger (1993) dizem que o enorme dano que o trauma pode provocar na

criança e na família só pode ser reduzido com estratégias de prevenção e melhorias no acesso

da vítima pediátrica a pessoas e estruturas capazes de fornecer tratamento

adequado.Também destacam as dificuldades na mudança de hábitos dos pais e sugerem

alterações na fabricação de brinquedos, automóveis, móveis, estruturas das casas ou parques,

para maior efetividade na prevenção.

Dez (10) estratégias são propostas para reduzir a possibilidade de trauma ou minimizar suas

conseqüências:

1. prevenir quanto à criação do perigo (proibir fabricação de armas de fogo, por exemplo);

2. diminuir a quantidade do perigo (embalagens de medicamentos com quantidade não letal

de droga);

3. evitar uso inapropriado de um risco existente (ensinar a criança a nadar);

4. modificar o impacto ou distribuição do perigo (uso de dispositivos adequados no carro);

5. separar a criança do perigo por tempo (horários escolares) ou espaço (ciclovias);

6. separar o perigo da criança fisicamente (protetores de tomada);

7. modificar a estrutura do perigo (áreas de lazer construídas com madeira ao invés de

concreto);

8. aumentar a resistência da criança ao perigo (exercícios);

9. agir contra dano já real (treinamento de paramédicos para tratar de crianças);

46


10. estabilizar, reparar e reabilitar a criança traumatizada (centros de trauma pediátrico

regionais e reabilitação).

A prevenção baseia-se em quatro princípios: educação (persuasão); execução (leis);

engenharia (tecnologia) e economia (incentivos).

Assim, pode ser ativa ou passiva e as intervenções são possíveis desde que se conte com

legislação efetiva e se conheçam o hospedeiro, o meio físico e o ambiente social,

identificando o momento de intervenção no pré-evento, no evento e no pós-evento.

Esses conceitos são reiterados por Krug (1999), que descreve etapas para a prevenção:

• Primeiro passo: determinar magnitude, escopo e característica do problema;

• Segundo passo: identificar fatores de risco e quais são passíveis de modificação;

• Terceiro passo: prevenção baseada nos dados obtidos, projeto piloto e avaliação das

intervenções;

• Quarto passo: implementação de intervenções em larga escala.

A fim de conscientizar melhor a população sobre o problema, é fundamental que tenhamos

dados do nosso meio (cidade de São Paulo), para que as ações de prevenção sejam

apropriadas e eficientes, contribuindo para o primeiro passo descrito por Krug (1999).

O grande problema é que todo mundo acha que "acidente" é algo do acaso, imprevisível ou

"por que Deus quis". Isso faz com que achemos que não podemos interferir sobre eles ou

impedi-los.

Imaginem só o que acontece se uma criança não puder mais andar depois de um

atropelamento, por exemplo. As conseqüências para ela são inquestionáveis, mas também são

freqüentes os pais perderem o emprego, pois precisam cuidar delas; os seus irmãos podem se

sentir abandonados, pois às vezes a criança pode ter de ficar internada por muito tempo.

A boa notícia á que, na verdade, podemos impedir quase todos eles com medidas muito

simples do nosso dia-a-dia. Este comportamento evita muitas mortes, defeitos e perdas para

toda a sociedade.

47


3. ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS E PREVENTIVOS DO TRAUMA NA

INFÂNCIA

João Gilberto Maksoud Filho e Martin R. Eichelberger

INTRODUÇÃO

O conceito de que os traumatismos são secundários ao acaso e ao infortúnio é errôneo e

prejudicial.

Ao contrário, na maioria das vezes os mesmos são previsíveis e seguem padrões determinados,

influenciados pelo meio ambiente e tipo de atividade do indivíduo. A forma mais adequada de

dimensionarmos a gravidade do problema é desmembrando-se o evento "trauma" em seus

fatores, conforme modelo proposto por Haddon.Segundo esse modelo, as circunstâncias

causais relacionadas ao traumatismo são eventos distintos das lesões conseqüentes ao mesmo.

O estudo dessas causas deve ser minuciosamente realizado, com o objetivo de identifica-las e

determinar a freqüência com que elas surgem. Desta forma podemos determinar quais os

tipos de acidentes mais freqüentes em uma determinada comunidade.

Os traumatismos na infância, da mesma forma, seguem padrões específicos, influenciados

pela idade, sexo, local de moradia, hora do dia, e clima.

Outro aspecto fundamental no estudo dos traumatismos é o da utilização permanente de um

sistema de coleta e análise de dados. Este deve ser abrangente, qualitativo e eficiente, tanto

em âmbito local como nacional, objetivando identificar de forma detalhada e profunda os

problemas e a população alvo e planejar estratégias de controle e prevenção. O mesmo

sistema pode ser usado retrospectivamente para a avaliação dos resultados e verificação do

cumprimento dos objetivos.

A mortalidade decorrente dos traumatismos representa apenas parte do problema. A

morbidade e a incapacitação permanente são as conseqüências sociais mais trágicas,

permanecendo escondias atrás do desinteresse, desorganização e falta de informação.

Nos países desenvolvidos, os acidentes automobilísticos e os atropelamentos são as principais

causas dos traumatismos na infância, sendo esses os responsáveis por metade das mortes e

pela maioria dos casos de paraplegia, tetraplegia, traumatismo cranianos com seqüelas, e

lesões faciais extensas. Recente estudo realizado no Brasil revelou que em crianças na faixa

etária de 5 a 14 anos os acidentes de trânsito também são as principais causas de óbito.

48


Nos grandes centros urbanos observamos um alarmante aumento dos traumatismos causados

pela violência interpessoal. É possível identificar-se dois tipos distintos de violência na

infância: o primeiro que atinge a criança menor, representado pelo espancamento infantil e

outro atingindo adolescentes e adultos jovens, representado pelos homicídios e acidentes com

armas de fogo. Assustadoramente, os homicídios são a principal causa de óbito na população

brasileira acima dos 15 anos. Constata-se um aumento significativo de todas as "causas

externas", na última década, em nosso país, sendo que os homicídios foram os que cresceram

em maior proporção.

De forma geral, comparando-se os dados brasileiros com aqueles dos países ditos

"desenvolvidos", notamos que enquanto nestes o suicídio e as colisões automobilísticas são os

principais componentes da mortalidade por trauma na infância, no Brasil os homicídios tem

uma importância destacada, estando as taxas de prevalência em franca ascensão. Dentre os

acidentes de trânsito, os atropelamentos são as principais causas de óbito na população

pediátrica.

Essa tendência ao aumento da violência na adolescência é atribuída ao grave problema social

do pais, em especial nas grandes concentrações urbanas ,onde os contrastes e a miséria se

acentuam.

FATORES DE RISCO INDIVIDUAIS PARA O TRAUMA NA INFÂNCIA

Uma série de fatores próprios da infância combinados entre si tais como sexo, idade e

comportamento individual são os determinantes dos padrões de acidentes e lesões.

• Idade:

A idade é o principal fator que determina os padrões de acidente da criança. As etapas do

desenvolvimento psicomotor determinam o comportamento e a atividade diária da criança

como engatinhar, andar, correr ou andar de bicicleta. Já no primeiro ano de vida essas

características se tornam evidentes. Durante a adolescência os acidentes adquirem sua maior

importância, sendo responsáveis por aproximadamente 80% das mortes nessa faixa etária.

• Sexo:

As diferenças quanto a prevalência e padrões dos acidentes de acordo com o sexo também

tornam-se evidentes já no primeiro ano de vida. Essas diferenças se intensificam no momento

49


em que as crianças completam o primeiro aniversário e continuam a aumentar durante os

anos subsequentes.

Os meninos são vítimas com maior freqüência de acidentes em playgrounds, acidentes

ciclísticos e atropelamentos, indicando que o tipo de comportamento é fator determinante.

Um menino adolescente tem duas vezes mais possibilidade de sofrer um acidente que uma

menina da mesma idade. As diferenças são bem evidentes nos casos de afogamentos (3 vezes

maior em meninos), homicídios (2,5 vezes), e acidentes automobilísticos (2 vezes).

AGENTES E VETORES DE LESÃO

De forma genérica podemos considerar que a causa de lesão tecidual nos traumatismos é a

transferência de energia cinética, térmica, radioativa ou química, causando a falência

tecidual. Os vetores de energia são por exemplo o automóvel, a bicicleta, a chaleira fervente.

É exatamente para esse vetores que os programas de prevenção são mais eficientes e

portanto são os que merecem maior atenção. Um exemplo interessante é o do controle das

lesões causadas pelos acidentes ciclísticos em crianças e adolescentes em Seattle, no final da

década de 80. Nesta cidade americana, na maioria das admissões hospitalares em

conseqüência de acidentes ciclísticos havia a presença do traumatismo crânio-encefálico.

Uma coalizão de órgãos estaduais e particulares de saúde, comunidade e empresas privadas,

desenvolveram uma campanha destinada a incentivar o uso de capacetes para ciclistas.

Através da divulgação da campanha na mídia, descontos sobre a aquisição do produto e

orientação aos familiares, observou-se o aumento do uso do capacete de 5% para 40%,

reduzindo os riscos de traumatismos cranianos em 85%.

FATORES AMBIENTAIS

O fator ambiental isolado que mais influencia os acidentes na infância e a pobreza. Uma

criança pobre em um centro urbano tem probabilidade 2,5 vezes maior de sofrer acidentes.

Fatores sócio-econômicos como maternidade precoce, mães solteiras, e baixo nível

educacional estão presentes nas camadas inferiores da sociedade e que contribuem para um

aumento do número de acidentes na infância. No Brasil observa-se uma nítida relação da

miséria como aumento da violência contra crianças e adolescentes especialmente em grandes

centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro e Recife.

50


ESTRATÉGIAS PARA PREVENÇÃO DE ACIDENTES NA INFÂNCIA

Considerando-se as inúmeras causas e formas de traumatismos na criança, como determinar

as prioridades na estratégia de prevenção? Deve-se considerar, dentre as causas: as mais

freqüentes, as mais graves e aquelas nas quais uma estratégia de prevenção já exista ou seja

possível de ser testada.

Formas de atuação:

• Educação e persuasão

Uma das formas mais eficientes de atuação é voltada a educação individual, especialmente

dos pais. Entretanto essa educação deve ser feita de forma prática e objetiva visando

problemas específicos. Orientações genéricas como "seja cuidadoso" ou "olhe sempre seu

filho", não trazem resultados efetivos. Programas específicos de treinamento voltado aos pais

foram empregados por pediatras responsáveis pelo atendimento primário à infância em

comunidades de Israel e dos Estados Unidos. Esses programas visavam orientar a prevenção de

acidentes automobilísticos, quedas , queimaduras e afogamentos. As principais limitações

foram: o tempo relativamente curto de cada consulta e o número restrito de tópicos que

eram abordados em cada consulta .

• Mudança de produtos

Outra forma eficiente de redução de acidentes é através da mudança planejada do design e

acabamento dos produtos ou de seus componentes. Por exemplo, a mudança na embalagem e

apresentação de remédios e produtos de limpeza diminuiu significativamente a ingestão

acidental dos mesmos por crianças. Limitando-se a temperatura dos aquecedores de água,

conseguiu-se diminuir a incidência de queimaduras por escaldamentos.

• Mudanças no meio

São Mudanças de caráter físico e social. É sabido que as crianças tem maior propensão aos

traumatismos, mas tal fato não é somente resultante das características inatas mas também

são dependentes do meio em que vivem. As mudanças no meio resultam em significativa

diminuição da incidência de lesão. Exemplos: A instalação de detectores de fumaça em

edifícios comprovadamente diminui as fatalidades em incêndios. Campanhas para a colocação

de grades ao redor de piscinas diminuíram a mortalidade por afogamento. A orientação de

colocação de telas e grades em janelas de edifícios diminui a incidência de óbitos por quedas.

A forma mais eficiente de propagação e difusão dessas mudanças é através da criação de leis

e a imposição de multa a transgressores dessas leis. Um exemplo disso na cidade de São Paulo

51


foi a lei que obrigou o uso de cinto de segurança em automóveis. Desde a implantação dessa

lei, as mortes decorrentes de acidentes de automóvel diminuíram cerca de 30%.

SAFE KIDS Worldwide: UM EXEMPLO A SER SEGUIDO

Em 1987, profissionais de diversas áreas se reuniram sob a liderança do Serviço de Trauma

Pediátrico do Children's National Medical Center em Washington, DC. O grupo composto por

médicos, administradores de empresas privadas, publicitários, especialistas em saúde pública

e advogados reuniu a experiência de várias áreas de atuação para estabelecer estratégias de

combate e prevenção ao trauma na infância. O grupo foi patrocinado pelo governo e

principalmente por companhias privadas como a Johnson & Johnson's e General Motors .

A SAFE KIDS Worldwide tem como objetivo conduzir pesquisas relacionadas a formas de

prevenção do trauma na criança, levar ao conhecimento do público através da mídia e de

campanhas os resultados dessa pesquisa e transmitir amplamente as orientações e

recomendações relativas a essa prevenção. Os objetivos foram plenamente alcançados, graças

a atuação de inúmeras coalizões formadas por voluntários treinados por todo o país, os quais

desenvolviam a campanha em sua comunidades.

CONCLUSÃO

O grave impacto social causado pelos traumatismos é uma realidade ainda desconhecida ou

ignorada no Brasil e nos países da América do Sul. O principal objetivo do combate ao trauma

pediátrico deve ser minimizar os devastadores efeitos dessa verdadeira epidemia. As armas

para esse combate não devem estar limitadas à cirurgia mas também devem se basear nos

estudos epidemiológicos. Os avanços tecnológicos no tratamento do doente gravemente

acidentado devem ser desenvolvidos paralelamente com programas sociais e comunitários de

educação e prevenção.

52


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Haddon W. A logical framework for categorizing highway safety phenomena and activity.

J trauma12: 193-207, 1972

2. Eichelberger MR. Pediatric Trauma: prevention, acute care and rehabilitation. 1st

Edition, Mosbi Co, Philadelphia, Pa, 1993.

3. Haddon W. The changing approach to the epidemiology, prevention and amelioration of

trauma: the transition to approaches etiologically rather than descriptively based. Am J

Public Health 58: 1431, 1968.

4. Lapidus GD, Gregorio DI, Hansen H. Misclassification of childhood homicide on deaths

certificates, Am J Public Health 80:213, 1990.

5. Children's Safety Network. A data book of child and adolescent injury, Washington DC,

1991, National Center for Education in Maternal and Child Health.

6. Szwarcwald CL. Mortalidade por causas externas nas capitais das grandes regiões

metropolitanas brasileiras. 1977. Rio de Janeiro: FIOCRUZ. 1989:5. Mimeo.

7. Division of Injury Control, Centers for Disease control Childhood injury in the United

States. Am J Dis Child 144: 627, 1990.

8. Christoffel K: Violent death and injury in US children and adolescent, Am J Dis Child 144:

697, 1990.

9. Lólio CA. Investigação sobre a magnitude e tendência da mortalidade no Brasil. 1977. São

Paulo OPAS, 1989, 7. Relatório final de pesquisa.

10. Minayo MC, Assis SG. Saúde e violência na infância e adolescência. J Pediatr (Rio J.)

70:263, 1994.

11. Rivara FP, Bergman AB, Logerfos J et al. Epidemiology of childhood injury II, Sex

differences in injury rates. Am J Dis Child 136:502, 1982.

12. Thompsom RS, Rivara FP, Thompson DC. A case-control study of the effectiveness of

bicycle safety helmets. New Engl J Med 320: 1361, 1989.

13. Nersesian WS, Petit MR, Shaper R et al. Childhood death and poverty: a study of al

childhood death in Maine, 1976, Pediatrics 75: 41, 1985.

14. Vethencourt L. Psicologia da violência. Gaceta APCUV/IPP, 1990, 11, n 62: 5.

15. Miller TR, Galbraith M. Injury prevention counseling by pediatrician: a benefit-cost

comparison. Pediatricas 96: 1-4, 1995

16. Feely HB, Bhatia E. National SAFE KIDS Campaign In Eichelberger MR (ed): Pediatric

Trauma: prevention, acute care and rehabilitation. First Edition, Mosbi Co, Philadelphia, Pa,

1993

17. Gofin R, De Leon D, Knishawi B, Palty H. Injury prevention program in primary care

process evaluation and surveillance. In Rev 1: 35-9, 1995.

53


18. Grater P. The development of state and local injury surveillance systems, J Safety Res

18: 191, 1987.

19. Champion HR, Sacco WJ, Carnazzo AJ et al. Trauma Score, Crit Care Med 9: 672, 1981.

20. Champion HR, Sacco WJ, Copes WS, et al: A revision of the Trauma Score, J Trauma 29:

623, 1989.

21. Baker SP, O'Neill B, Haddon W et al. The Injury Severity Score: a method for describing

patient with multiple injuries and evaluating emergency care. J Trauma 14: 187, 1974.

22. Tepas JJ, Mollitt DC, Talbert JL et al. The Pediatric Trauma Score as a predictor of

injury severity in the injured child, J Pediatr Surg 22:14, 1987.

23. Eichelberger MR, Gotschall CS, Sacco WJ et al. A comparison of the trauma score, the

Revised Trauma Score and the Pediatric Trauma Score. Ann Emerg Med 18: 1053, 1989.

24. Boyd CR, Tolson MA, Copes WS. Evaluating trauma care: the TRISS method. J Trauma 27:

370-378, 1987.

54

More magazines by this user
Similar magazines