Estudos Setoriais de Inovação - Sistema Moda Brasil

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Estudos Setoriais de Inovação - Sistema Moda Brasil

Estudos

Setoriais de

Inovação

Indústria Têxtil

e de Vestuário


AGÊNCIA BRASILEIRA DE DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL

Projeto:

Estudo sobre como as empresas brasileiras nos diferentes setores industriais

acumulam conhecimento para realizar inovação tecnológica

ABDI – FUNDEP/UFMG

Relatório Setorial:

INDÚSTRIA TÊXTIL E DE VESTUÁRIO

Pesquisadores:

Mauro Borges Lemos (Cedeplar/UFMG)

Eduardo Gonçalves (FEA/UFJF)

Edson Paulo Domingues (Cedeplar/UFMG)

Pedro Vasconcelos Amaral (Cedeplar/UFMG)

Ricardo Machado Ruiz (Cedeplar/UFMG)

Assistentes de Pesquisa:

Bernardo Abreu Fajardo

Marcelo de Brito Brandão

Márcia Alves Pereira

Verônica Lazarini Cardoso

Belo Horizonte, Fevereiro de 2009


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 2

2. DESCRIÇÃO DA CADEIA PRODUTIVA TÊXTIL-VESTUÁRIO ........................................................ 4

2.1 ANÁLISES DE INSUMO-PRODUTO ................................................................................... 4

2.2 ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE AS DUAS INDÚSTRIAS DA CADEIA .................................... 10

2.3 MUDANÇAS E TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CADEIA TÊXTIL-VESTUÁRIO ............................. 24

3. ESTRUTURA DA INDÚSTRIA TÊXTIL ..................................................................................... 28

4. EVOLUÇÃO DA INDÚSTRIA TÊXTIL ...................................................................................... 40

5. SISTEMA SETORIAL DE INOVAÇÃO ...................................................................................... 47

5.1 REGIME TECNOLÓGICO SETORIAL ................................................................................ 47

5.2 PARTICIPAÇÃO DO CAPITAL ESTRANGEIRO ................................................................... 56

5.3 FINANCIAMENTO: O PAPEL DOS AGENTES PÚBLICOS ....................................................... 58

6. OPORTUNIDADES TECNOLÓGICAS, ESTRATÉGIAS E PROPOSTAS .......................................... 60

7. ESTRUTURA DA INDÚSTRIA DE VESTUÁRIO .......................................................................... 70

8. EVOLUÇÃO DA INDÚSTRIA DE VESTUÁRIO ........................................................................... 74

9. SISTEMA SETORIAL DE INOVAÇÃO ...................................................................................... 80

9.1 REGIME TECNOLÓGICO SETORIAL ................................................................................ 80

9.2. PARTICIPAÇÃO DO CAPITAL ESTRANGEIRO .................................................................. 85

9.3. FINANCIAMENTO: O PAPEL DOS AGENTES PÚBLICOS ...................................................... 86

10. OPORTUNIDADES TECNOLÓGICAS, ESTRATÉGIAS E PROPOSTAS ........................................ 87

11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................................... 96

1


1. INTRODUÇÃO

Esse relatório analisa as indústrias têxteis e de vestuário, subproduto do Produto 4 –

“Indústrias objeto de programas para fortalecer a competitividade” do Projeto “Estudo

sobre como as empresas brasileiras nos diferentes setores industriais acumulam

conhecimento para realizar inovação tecnológica”. Está organizado em 10 seções além

desta introdução.

A Seção 2 descreve a cadeia têxtil-vestuário em seu conjunto, quantificando e mostrando

as transações de compra e venda internas a essa cadeia, assim como as transações com

outras indústrias fornecedoras e compradoras fora da cadeia. Embora sejam interrelacionadas

através de relações de venda e compra, possuem dinâmicas

organizacionais, tecnológicas e empresariais bem distintas. Por isso, o presente relatório

aborda separadamente a indústria têxtil e a indústria de vestuário nas seções

subseqüentes. O objetivo da seção 2 é fornecer um quadro produtivo da cadeia, indicando

o peso relativo de cada setor, o volume dos fluxos intra e inter-industriais da cadeia, os

efeitos multiplicadores diretos e indiretos de produção e emprego gerados para o conjunto

da economia brasileira.

A Seção 3 apresenta a estrutura da indústria têxtil com base na classificação de liderança

tecnológica, através das categorias empresas líderes, seguidoras, frágeis e emergentes e

dos quatro subsetores que a compõem, beneficiamento de fibras naturais, fiação e

tecelagem, fabricação de artefatos têxteis e artigos e tecidos de malhas.

A Seção 4 fornece a evolução temporal da participação de mercado e das margens de

lucro dessa indústria. Tais indicadores são analisados no período 1996/2005, construídos

a partir da Pesquisa Industrial Anual (PIA). É feito um cruzamento da classificação

segundo a liderança tecnológica com o corte segundo tamanho, pela maior participação

na produção e vendas setoriais.

A Seção 5 analisa o sistema setorial de inovação tecnológica da indústria têxtil. São

apresentados os indicadores de inovação segundo as categoriais de firmas líderes,

2


seguidoras, frágeis e emergentes, procurando caracterizar os regimes tecnológicos dos

quatro subsetores da indústria, segundo oportunidades tecnológicas, formas de

acumulação de conhecimento e de apropriação dos retornos da inovação. A participação

do capital estrangeiro e o papel do BNDES no financiamento dos investimentos são

também considerados. De modo geral, a seção evidencia forte heterogeneidade

tecnológica presente nas firmas têxteis brasileiras.

A Seção 6 apresenta as oportunidades tecnológicas, as estratégias empresariais e

tecnológicas e algumas propostas de políticas setoriais.

As Seções 7, 8, 9 e 10 se destinam a fazer a mesma análise para a indústria de vestuário.

3


2. DESCRIÇÃO DA CADEIA PRODUTIVA TÊXTIL-VESTUÁRIO

2.1 ANÁLISES DE INSUMO-PRODUTO

A Tabela 2.1 apresenta a decomposição das vendas setoriais da cadeia têxtil-vestuário.

Os dois subsetores mais a montante da cadeia, que são o beneficiamento de fibras

naturais e a fiação e tecelagem, fornecem mais de 90% de sua produção para outros

setores da economia (demanda intermediária). Por outro lado, o subsetor de vestuário

vende essencialmente para consumidores domésticos (89,5%), enquanto que nos casos

de artefatos têxteis e malhas há maior equilíbrio das vendas entre demanda intermediária,

com cerca de 46%, e demanda final, com 54%. Uma observação importante é que as

fibras naturais, setor de primeira transformação e menos dinâmico em termos de

agregação de valor, é o que possui maior parte da demanda final puxada pelas

exportações. O subsetor de vestuário possui pequena parcela das vendas finais destinada

a consumidores estrangeiros (1,9%). Qualquer estratégia para fortalecer e integrar a

cadeia têxtil-vestuário brasileira precisa melhorar a representatividade externa do

subsetor de vestuário, que é aquele com maior contato com os consumidores finais e, por

isso, capaz de sinalizar para todo o restante da cadeia as mudanças dos padrões de

consumo e as novas tendências da moda.

Tabela 2.1

Distribuição das vendas setoriais, por categoria da demanda final e intermediária

(% das vendas totais, 2005)

Demanda Final (% do Total)

Exportações

(1)

Consumo

das

Famílias

(2)

Formação

Bruta de

Capital

Fixo (3)

Outras

Demandas

(4)

Total

(1+2+3+4)

Demanda

Intermediária

(% do Total)

Fibras

Naturais

16,2 0,2 0,0 -6,6 9,8 90,2

Fiação e

Tecelagem

6,9 0,7 0,0 1,4 9,0 91,0

Artefatos

Têxteis

7,5 39,7 0,2 -1,4 46,0 54,0

Malhas 7,4 40,7 0,0 -1,4 46,6 53,4

Vestuário 1,9 89,5 0,1 -0,2 91,3 8,7

Fonte: Elaboração própria a partir da MIP 2005, RAIS, PIA.

4


A Figura 2.1 apresenta a cadeia têxtil-vestuário. As setas representam fluxos monetários

partindo dos setores de origem (vendedores) para os de destino (compradores). Para a

indústria de vestuário, as vendas se destinam exclusivamente para o consumo das

famílias, enquanto que suas compras são provenientes da fiação e tecelagem, que

representa 53% dos fluxos, artefatos têxteis (27%), fibras naturais (13%) e malhas (7%).

O subsetor de fibras naturais possui relações intensas com a agricultura e a silvicultura,

através das quais obtém fibras, como algodão, linho, seda, sisal, juta e rami, para

beneficiamento. Da pecuária são provenientes a lã e a crina.

O subsetor de fiação e tecelagem compra insumos principalmente do subsetor de fibras

naturais e, em seguida, do setor petroquímico. A preponderância dos fluxos monetários

oriundos de fibras naturais vis-à-vis o de produtos petroquímicos reflete as vantagens

competitivas que o Brasil possui em fibras naturais, especialmente em tecidos de algodão

e mesclas com outras fibras naturais.

Por outro lado, o subsetor de artefatos têxteis tem a maior parte das compras oriundas

dos setores de química, por causa da natureza das operações realizadas nessa etapa da

cadeia produtiva, como alvejamento, texturização, estamparia e tingimento. Os fluxos

intersetoriais entre o setor químico e os subsetores de fiação e tecelagem e de artefatos

têxteis são relevantes não apenas pela sua magnitude, mas também pela possibilidade de

absorção de inovações de processos provenientes do setor químico.

O subsetor de malhas revela fluxos monetários relevantes, oriundos da fiação e

tecelagem, de artefatos têxteis, de fibras naturais e do setor petroquímico, nessa ordem.

Nas compras das famílias, possuem maior peso as vendas do vestuário (80%), dos

artefatos têxteis (16%), que incluem a linha cama-mesa-lar, por exemplo, e as malhas

(4%), com artigos como tricotagens e meias.

A Tabela 2.2 apresenta os multiplicadores simples de produção dos subsetores da cadeia

têxtil-vestuário. Os multiplicadores revelam o tamanho do impacto potencial sobre a

atividade econômica decorrente da elevação da produção (ou demanda) do subsetor

5


considerado. Nesse caso, se a demanda por artigos do vestuário crescer 1%, o

crescimento da produção do próprio setor (efeito multiplicador direto) será de 1,01% e o

aumento da produção dos outros setores da economia (efeito multiplicador indireto) será

de 0,84%. Nota-se que todos os subsetores da cadeia, com exceção da fiação e

tecelagem, possuem efeito multiplicador total menor que o da média da indústria de

transformação, estimado em 1,95. Por se tratar de uma indústria de natureza

intermediária, o subsetor de fiação e tecelagem apresenta o maior efeito multiplicador da

cadeia (2,47), com predomínio do efeito direto sobre o indireto. Isso mostra que o

subsetor possui natureza estratégica na economia brasileira, posicionando-se com um

número significativo de encadeamentos intersetoriais.

Figura 2.1

Cadeia Produtiva da Indústria Têxtil e de Vestuário, transações intersetoriais

2005 (milhões de reais)

Vestuário

38732

Consumo das

Famílias

13524

7707

1823

7101 3621

979

Agricultura e

Silvicultura

2351

2173

695

2082

Fibras

Naturais

2544

Fiação e

Tecelagem

513

Artefatos

Têxtil

877

Malhas

Pecuária

241

164

1376 1175 376

Resinas e

Elastômeros

Fonte: Elaboração própria a partir da MIP 2005.

Químicos

6


Tabela 2.2

Multiplicador Simples de Produção (2005)

Multiplicador Simples de Produção Participação no mult. (%)

Total

(A+B) Direto (A) Indireto (B)

Direto

(A/Total)

Indireto

(B/Total)

Fibras Naturais 1,60 1,02 0,58 63,6 36,4

Fiação e Tecelagem 2,41 1,05 1,36 43,7 56,3

Artefatos Têxteis 1,77 1,03 0,73 58,6 41,4

Malhas 1,86 1,01 0,85 54,4 45,6

Vestuário 1,85 1,01 0,84 54,5 45,5

Fonte: Elaboração própria a partir da MIP 2005.

Para avaliar o impacto dos subsetores da cadeia têxtil-vestuário sobre a geração de

empregos nos próprios setores assim como nos outros setores da economia brasileira,

foram calculados os coeficientes setoriais de emprego (Tabela 2.3). Os indicadores

revelam que os subsetores de vestuário, de fiação e tecelagem e de malhas, nessa

ordem, possuem maior capacidade geradora de empregos totais. Em termos de nível

educacional dos empregos gerados, nota-se que o de fibras naturais é o que possui

menor impacto potencial sobre a criação de empregos com curso superior. Essa

capacidade é liderada pelo setor de fiação e tecelagem que apresenta indicador de 0,57.

Esse resultado é coerente com a natureza das funções exercidas no subsetor, que

exigem maior conhecimento de natureza físico-químico em virtude das intensas interrelações

com setores como o petroquímico. É também nesse setor que ocorrem maiores

possibilidades de incorporação de novo conhecimento a novos produtos (fibras especiais),

que demandam especial envolvimento com P&D. Em contraste, o subsetor de vestuário é

o que apresenta maior coeficiente de geração de empregos com qualificação inferior, o

que é coerente com as características da maior parte das firmas desse subsetor, a saber,

porte pequeno, baixa necessidade de capital por trabalhador, natureza simples das

operações de costura e baixo grau de envolvimento com inovação, como será descrito

posteriormente. De modo geral, as parcelas do coeficiente setorial de emprego que são

vinculadas à qualificação superior apenas representam de 3 a 5% do total do coeficiente,

sendo clara a predominância, em toda a cadeia, das ocupações de nível inferior.

7


Tabela 2.3

Coeficientes setoriais de emprego

(ocupações/valor da produção em milhões de reais de 2005)

Coeficiente de emprego

Total Superior Médio Inferior

Fibras Naturais 1,57 0,06 0,52 0,99

Fiação e Tecelagem 10,59 0,57 4,32 5,71

Artefatos Têxteis 8,63 0,42 3,58 4,63

Malhas 10,46 0,52 4,24 5,69

Vestuário 14,08 0,39 6,01 7,68

Fonte: Elaboração própria a partir da MIP, RAIS e PIA 2005.

A Tabela 2.4 decompõe os multiplicadores de emprego, também considerando a

qualificação da mão-de-obra. Nesse caso, nota-se que o subsetor de fibras naturais

possui multiplicador de 39,1 e o subsetor de fiação e tecelagem possui multiplicador de

36,4. Isso revela uma capacidade de geração de 39 e 36 empregos para cada R$ 1

milhão de produção de cada setor, respectivamente. Destes empregos totais, a grande

maioria (32) é de qualificação inferior no caso de fibras naturais. Na fiação e tecelagem,

porém, 2 são de qualificação superior e cerca de 13 são de qualificação média,

enfatizando novamente a capacidade desse subsetor de criar empregos na economia que

possuam maior qualificação.

Tabela 2.4

Multiplicador Simples de Emprego (ocupações/milhões de reais de 2005)

Total Superior Médio Inferior

(A+B+C) (A) (B) (C)

Fibras Naturais 39,1 1,0 5,5 32,6

Fiação e tecelagem 36,4 2,3 12,7 21,4

Artefatos texteis 22,7 1,4 8,1 13,2

Malhas 25,9 1,6 9,1 15,3

Vestuário 28,3 1,3 10,9 16,0

Fonte: Elaboração própria a partir da MIP, RAIS e PIA 2005.

As Tabelas 2.5 a 2.9 realizam o mesmo tipo de análise, porém por subsetor. Nota-se que

o de fibras naturais apresenta capacidade muito reduzida de criar empregos no próprio

setor a partir de um aumento de demanda (Tabela 2.5). Nos outros casos, a participação

do efeito indireto no multiplicador total é inferior à do subsetor de fibras naturais, embora

seja predominante sobre o efeito direto em todos os subsetores e em todas as

qualificações.

8


Tabela 2.5

Multiplicador Simples de Emprego por Qualificação, Fibras Naturais (2005)

Multiplicador Simples de Emprego Participação no mult. (%)

Qualificação do Total

Direto

Emprego

(A+B) Direto (A) Indireto (B) (A/Total) Indireto

Superior 1,04 0,06 0,97 5,81 94,19

Médio 5,52 0,53 4,98 9,65 90,35

Inferior 32,58 1,00 31,58 3,07 96,93

Fonte: Elaboração própria a partir da MIP, RAIS e PIA 2005.

Tabela 2.6

Multiplicador Simples de Emprego por Qualificação, Fiação e Tecelagem (2005)

Multiplicador Simples de Emprego Participação no mult. (%)

Qualificação do Total

Direto

Emprego

(A+B) Direto (A) Indireto (B) (A/Total) Indireto

Superior 2,32 0,60 1,72 25,69 74,31

Médio 12,71 4,55 8,16 35,81 64,19

Inferior 21,41 6,02 15,40 28,09 71,91

Fonte: Elaboração própria a partir da MIP, RAIS e PIA 2005.

Tabela 2.7

Multiplicador Simples de Emprego por Qualificação, Artefatos Têxteis (2005)

Multiplicador Simples de Emprego Participação no mult. (%)

Qualificação do Total

Direto

Emprego

(A+B) Direto (A) Indireto (B) (A/Total) Indireto

Superior 1,39 0,44 0,95 31,69 68,31

Médio 8,15 3,71 4,44 45,51 54,49

Inferior 13,18 4,79 8,39 36,33 63,67

Fonte: Elaboração própria a partir da MIP, RAIS e PIA 2005.

Tabela 2.8

Multiplicador Simples de Emprego por Qualificação, Malhas (2005)

Multiplicador Simples de Emprego Participação no mult. (%)

Qualificação do Total

Direto

Emprego

(A+B) Direto (A) Indireto (B) (A/Total) Indireto

Superior 1,55 0,53 1,02 34,17 65,83

Médio 9,09 4,29 4,80 47,22 52,78

Inferior 15,28 5,75 9,53 37,64 62,36

Fonte: Elaboração própria a partir da MIP, RAIS e PIA 2005.

Tabela 2.9

Multiplicador Simples de Emprego por Qualificação, Vestuário (2005)

Multiplicador Simples de Emprego Participação no mult. (%)

Qualificação do

Direto

Emprego

Total (A+B) Direto (A) Indireto (B) (A/Total) Indireto

Superior 1,34 0,39 0,95 29,02 70,98

Médio 10,92 6,05 4,86 55,44 44,56

Inferior 16,05 7,74 8,31 48,20 51,80

Fonte: Elaboração própria a partir da MIP, RAIS e PIA 2005.

9


2.2 ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE AS DUAS INDÚSTRIAS DA CADEIA

Essa seção descreve a importância da indústria têxtil e de vestuário em relação ao total

da indústria de transformação brasileira. Entre 1996 e 2006, o valor de transformação

industrial (VTI) da cadeia têxtil sofreu queda substantiva de participação na indústria

brasileira. Em 1996, a fabricação de produtos têxteis representava 3,42% do VTI da

indústria de transformação. Contudo, em 2006 tal participação se reduziu para 2%, o que

representa queda de 42% na participação do valor agregado da indústria nacional. Podese

perceber que tal resultado ocorreu de forma generalizada em todos subsetores,

principalmente do segmento de fiação, com queda de 60% de sua representatividade em

10 anos (de 0,72% para 0,29%). No caso da indústria de vestuário, houve queda de 32%

na participação do valor agregado industrial. Todas essas quedas refletem baixo

crescimento da economia nacional até 2003 e a consequente estagnação dos níveis de

renda e emprego em grande parte do período considerado. No entanto, o

recrudescimento da competição com produtos importados parece ter sido decisivo para

este resultado. A não recuperação da participação dos dois componentes da cadeia na

indústria de transformação a partir de 2003 parece indicar que a perda de competitividade

para as importações tornou-se um problema crônico dessa cadeia.

Tabela 2.8

Participação da Cadeia Têxtil-Vestuário no Valor de Transformação Industrial da

Indústria Brasileira (1996-2006)

1996 2006

Fabricação de Produtos Têxteis 3,42% 2,05%

Beneficiamento de Fibras têxteis 0,06% 0,03%

Fiação 0,72% 0,29%

Tecelagem 1,03% 0,60%

Fabricação de artefatos têxteis 0,41% 0,24%

Serviços de acabamentos em fios e tecidos 0,22% 0,15%

Fabricação de artefatos têxteis a partir de tecidos - exclusive Vestuário 0,68% 0,54%

Fabricação de tecidos e artigos de malha 0,30% 0,20%

Confecção de artigos do vestuário e acessórios 2,32% 1,58%

Confecção de artigos do vestuário 2,20% 1,49%

Confecção de acessórios do vestuário 0,12% 0,09%

Total 5,75% 3,63%

Fonte: PIA/IBGE.

10


Em termos de composição interna da cadeia integrada têxtil-vestuário, o Gráfico 2.1 não

revela mudanças bruscas na participação de cada indústria no total da receita líquida de

vendas. Entre 1996 e 2006, a indústria têxtil perdeu 1% na cadeia, que foi absorvido pela

indústria de vestuário e acessórios.

Corroborando os dados da Tabela 2.8, ambas as indústrias apresentam encolhimento da

receita líquida de vendas no período 1996-2006 de, aproximadamente, 27% para a

indústria têxtil e de 25% para vestuário. Esses percentuais significam a perda de R$ 10

bilhões na indústria têxtil e R$ 6 bilhões em vestuário num período de 10 anos. Apenas a

partir de 2005, é possível notar uma interrupção da tendência de queda da receita líquida

de ambas as indústrias. No caso da têxtil, sua receita estabiliza-se em torno de R$ 25

bilhões, enquanto que, para vestuário e confecções há uma retomada da trajetória de leve

crescimento das vendas a partir de 2004 (Gráfico 2.2; Tabela 2.9). Os indicadores de

valor bruto da produção e valor de transformação industrial (Tabela 2.10) também

confirmam os números acima.

Gráfico 2.1

Composição da Receita Líquida de Vendas Industriais da Cadeia Têxtil-Vestuário

100%

90%

80%

40% 41%

70%

60%

50%

40%

30%

60% 59%

20%

10%

0%

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006

Fabricação de Produtos Têxteis

Fonte: SIDRA-IBGE, PIA.

Confecção de Artigos do Vestuário e Acessórios

11


Bilhões (R$)

40

35

30

Gráfico 2.2

Receita Líquida de Vendas Industriais da Cadeia Têxtil-Vestuário

25

20

15

10

5

0

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006

Fabricação de Produtos Têxteis

Fonte: SIDRA-IBGE, PIA. Deflacionados pelo IPA-OG.

Confecção de Artigos do Vestuário e Acessórios

Tabela 2.9

Receita Líquida com Vendas Industriais – Têxtil e Confecções

R$ bilhões de 2006 Taxa de crescimento a.a. (%)

Ano

Têxtil

Confecçõe

s

Têxtil Confecções

1996 36,6 24,7 - -

1997 32,7 23,2 -10,67 -5,82

1998 32,7 24,0 0 3,27

1999 33,8 20,9 3,61 -13,00

2000 32,5 19,6 -4,02 -6,04

2001 30,8 18,9 -5,22 -3,37

2002 29,3 16,5 -4,82 -12,81

2003 27,0 14,4 -7,95 -12,78

2004 28,3 14,6 4,82 1,48

2005 25,6 16,6 -9,46 13,83

2006 26,7 18,6 4,25 11,72

1996-2005 - - -3,09 -2,78

Fonte: SIDRA-IBGE, PIA. Deflacionados pelo IPA-OG.

12


Tabela 2.10

Valor Bruto da Produção (VBP) e da Transformação Industrial (VTI) -

Têxtil-Vestuário

Ano VBP VTI

Têxtil Vestuário Têxtil Vestuário

1996 37,50 24,97 16,33 11,08

1997 34,14 23,47 14,20 10,14

1998 33,27 23,83 14,38 9,99

1999 34,91 21,12 15,52 9,32

2000 33,70 19,70 14,21 8,85

2001 32,04 18,82 13,07 8,65

2002 30,15 16,48 12,37 7,54

2003 27,72 14,30 10,43 6,49

2004 28,76 14,63 11,09 6,74

2005 26,18 16,73 10,41 7,02

2006 27,42 18,50 10,94 8,42

Notas: R$ bilhões de 2006 e Deflator IPA-OG.

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

As reduções na receita líquida de vendas, no valor bruto da produção industrial e no valor

de transformação industrial contrastam com a evolução do número de empresas, que

aumentou 21,6% e 33,8%, respectivamente, na indústria têxtil e na de confecções, no

período 1996-2005 (Tabelas 2.11 e 2.12), indicando queda na produtividade por empresa.

Entretanto, a tendência de crescimento ocorre principalmente nos estratos de micro e

pequenas empresas, enquanto que o número de grandes empresas caiu

significativamente no período (46% no têxtil e 34% no vestuário). Este quadro sinaliza

claramente um processo de enfraquecimento e perda de competitividade do conjunto da

cadeia.

Enquanto a taxa de crescimento no período 1996-2005 é de, respectivamente, 23,7%,

28% e de -2,56% para as faixas de até 49 empregados, de 50 a 99 e de 100 a 249 na

indústria têxtil, é possível constatar que na indústria de vestuário as taxas para as

mesmas faixas são 32,9%, 76,4% e 44,28%. As maiores taxas para a indústria de

vestuário denotam a existência de menores barreiras à entrada, representadas por menor

volume de capital por trabalhador, em relação à indústria têxtil. Convém salientar, porém,

que essa última possui empresas de tamanho médio bem inferior na comparação com

seus fornecedores de fibras e filamentos artificiais e sintéticos da indústria química. Logo,

trata-se de uma cadeia em que a montante há empresas fornecedoras de grande porte e,

em geral, de capital estrangeiro, enquanto que a indústria têxtil em si é formada por

13


empresas de porte intermediário em relação às empresas do setor de vestuário e

acessórios, ambas de capital majoritariamente nacional.

Tabela 2.11

Número de empresas da Indústria Têxtil em 1996, 2000 e 2005

Número de empresas Taxa de crescimento (%)

Pessoal ocupado 1996 2000 2005 96/00 00/05 96/05

ATÉ 49 7.857 8.521 9720 8,45 14,07 23,71

DE 50 A 99 357 376 457 5,32 21,54 28,01

DE 100 A 249 313 270 305 -13,74 12,96 -2,56

DE 250 A 499 162 153 163 -5,56 6,54 0,62

DE 500 A 999 100 61 54 -39,00 -11,48 -46,00

1000 OU MAIS 38 35 36 -7,89 2,86 -5,26

Total 8.827 9.416 10735 6,67 14,01 21,62

Fonte: RAIS/MTE.

Alguns autores 1 apontam o elo da indústria química como o que compromete a

competitividade brasileira nos produtos derivados de fibras químicas, tendo em vista o

crescente uso mundial dessas na confecção de roupas em virtude de suas vantagens visà-vis

fibras naturais. 2 O fato é que a indústria nacional de fibras e filamentos químicos não

possui oferta adequada à cadeia têxtil-vestuário, criando a necessidade de volumes de

importações crescentes ao longo do tempo, principalmente a partir de 2003 (Gráfico 2.3).

Tabela 2.12

Número de empresas da Indústria de Vestuário em 1996, 2000 e 2005

Número de empresas

Taxa de crescimento

Pessoal ocupado 1996 2000 2005 96/00 00/05 96/05

ATÉ 49 30.305 33.480 40.293 10,48 20,35 32,96

DE 50 A 99 661 781 1.166 18,15 49,30 76,40

DE 100 A 249 332 360 479 8,43 33,06 44,28

DE 250 A 499 94 89 96 -5,32 7,87 2,13

DE 500 A 999 32 24 21 -25,00 -12,50 -34,38

1000 OU MAIS 12 11 11 -8,33 0,00 -8,33

Total 31.436 34.745 42.066 10,53 21,07 33,81

Fonte: RAIS/MTE.

1 Como, por exemplo, Prochnik (2002).

2 Fundação Vanzolini (2001) destaca que as roupas com fibras químicas se assemelham às confeccionadas

com fibras naturais em relação ao conforto e as superam em termos de características de uso (menor

necessidade de passar, maior repelência a sujeira, menores cuidados na lavagem doméstica), durabilidade,

além de possuírem preço competitivo. Viana et al. (2008) destacam que elas são mais resistentes a atritos e

tensionamentos, gerando aumento da produtividade dos teares.

14


Gráfico 2.3

Comércio Exterior de Fibras Artificiais e Sintéticas, em milhões de Dólares (1990-

2007)

Milhões (US$)

1500

1000

500

0

‐500

‐1000

1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006

Exportações Importações Saldo Comercial

Fonte: Elaboração própria a partir de dados da Secex/MDIC.

O déficit comercial em fibras químicas do Gráfico 2.3 contrasta com o desempenho da

balança comercial das fibras naturais (Gráfico 2.4). A produção brasileira de fibras

naturais, com base em algodão, apresenta forte competitividade devido à grande

produtividade e aos baixos custos de produção. Os fatores que contribuíram para esse

sucesso são: a pesquisa tecnológica da EMBRAPA que adaptou a produção de algodão

ao cerrado, o apoio financeiro dado pelo governo do estado do Mato Grosso após a

transição da produção do Nordeste para o Centro-Oeste e a facilidade de mecanização da

lavoura nessa macrorregião. Tal desempenho da balança comercial de fibras naturais

ocorre após o período em que o Brasil chegou a ser deficitário em fibras naturais entre

1992 e 2001, em conseqüência da praga do bicudo que desarticulou a produção

nordestina.

No entanto, o bom desempenho das fibras naturais (Gráfico 2.4) e das fibras mescladas

(Gráfico 2.5) não foi capaz de gerar superávit comercial no total da balança comercial de

fibras a partir de 2006, por causa do forte crescimento das compras externas de fibras

químicas, como pode ser observado no Gráfico 2.6. As importações do total de fibras

15


apresentaram aumento de 52% no período 2000-2007. Grande parte dessa dinâmica é

explicada pelo comportamento das importações de fibras artificiais e sintéticas, cuja

participação no total das importações de fibras saltou de 55% em 2000 para 76% em

2007 em conseqüência de compras 113% maiores que as do ano de 2000.

Gráfico 2.4

Comércio Exterior de Fibras Naturais, em milhões de Dólares (1990-2007)

1000

Milhões (US$)

700

400

100

‐200

‐500

‐800

1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006

Exportações Importações Saldo Comercial

Fonte: Elaboração própria a partir de dados da Secex/MDIC.

16


Gráfico 2.5

Comércio Exterior de Fibras Mescladas, em milhões de Dólares (1990-2007)

250

Milhões (US$)

200

150

100

50

0

Milhões (US$)

‐50

1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006

Exportações Importações Saldo Comercial

Fonte: Elaboração própria a partir de dados da Secex/MDIC.

Gráfico 2.6

Comércio Exterior do Total de Fibras, em milhões de Dólares (1990-2007)

2000

1500

1000

500

0

‐500

‐1000

‐1500

1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006

Exportações Importações Saldo Comercial

Fonte: Elaboração própria a partir de dados da Secex/MDIC.

17


Ainda assim, o segmento de fibras naturais foi o item de maior valor exportado em 2007

na pauta de exportações da cadeia têxtil-vestuário, atingindo US$ 651 milhões (Gráfico

2.7), enquanto os tecidos e as confecções alcançaram, respectivamente, US$ 564

milhões e US$ 631 milhões (Gráfico 2.8).

As exportações de artigos da cadeia têxtil-vestuário apresentam tendência crescente

nessa década, no entanto as importações desses produtos crescem ainda mais

intensamente. Ainda que exista superávit comercial nas confecções até o ano de 2007,

que aliás é decrescente (Gráfico 2.9), no caso dos tecidos passa a existir déficit (Gráfico

2.10).

Milhões (US$)

700

600

500

Gráfico 2.7

Exportações por Tipos de Fibras, em milhões de Dólares (1990-2007)

400

300

200

100

0

Fibras Naturais Fibras Artificiais e Sintéticas Fibras Mescladas

Fonte: Elaboração própria a partir de dados da Secex/MDIC.

18


Gráfico 2.8

Exportações por Tipos de Produtos Têxteis, em milhões de Dólares (1990-2007)

900

800

700

600

500

400

300

200

100

0

Tecidos Malhas Confeccções Outros artigos têxteis confeccionados

Fonte: Elaboração própria a partir de dados da Secex/MDIC.

Milhões (US$)

1000

800

Gráfico 2.9

Comércio Exterior de Confecções, em milhões de Dólares (1990-2007)

600

400

200

0

1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006

Exportações Importações Saldo Comercial

Fonte: Elaboração própria a partir de dados da Secex/MDIC.

19


Gráfico 2.10

Comércio Exterior de Tecidos, em milhões de Dólares (1990-2007)

800

Milhões (US$)

600

400

200

0

‐200

‐400

1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006

Exportações Importações Saldo Comercial

Fonte: Elaboração própria a partir de dados da Secex/MDIC.

Excluindo fibras, tecidos e confecções são os itens com maior participação média no total

de importações de produtos têxteis, com, respectivamente, 59% e 32%, no período 1990-

2007. Contudo, a participação das importações de tecidos decaiu de 57% em 2000 para

40% em 2007, ao passo que a participação de confecções no total das importações de

produtos têxteis aumentou de 28% para 40% no mesmo período. No período 2000-2007,

as importações de tecidos cresceram em 71%, enquanto que as de confecções

aumentaram em 242%. Os dados comprovam uma falta de competitividade crônica do

segmento de confecções, que é justamente o elo de maior valor agregado e

potencialmente mais dinâmico da cadeia têxtil-vestuário.

Em relação às exportações, as fibras apresentaram aumento de 195% no período 2000-

2007, graças ao desempenho das fibras naturais que aumentaram em 290%, como

assinalado anteriormente. As exportações de produtos têxteis, excluindo fibras, devem-se

principalmente às confecções e aos tecidos, cujas participações médias na pauta de

exportações de têxteis são de 60% e 30%, respectivamente, no período 1990-2007. Dois

indicadores revelam que as exportações de confecções vêm perdendo importância em

20


elação às exportações de tecidos, no período 2000-2007. O primeiro é a participação das

confecções na pauta de exportações de têxteis, que decaiu de 62% para 49%, enquanto

que no caso dos tecidos o indicador aumentou de 32% para 44%. O segundo indicador é

a taxa de crescimento das exportações no período 2000-2007, a qual aumentou 108%

para tecidos e apenas 18% para confecções. O resultado modesto para confecções

contrasta com a tendência do comércio mundial, no qual este segmento é o de maior

crescimento. As explicações para a pouca representatividade das exportações brasileiras

de confecções são tradicionalmente atribuídas ao amplo mercado interno e à baixa

competitividade da cadeia produtiva têxtil brasileira.

Além desses argumentos acima, para explicar a dinâmica das exportações e importações

brasileiras é preciso considerar também a política cambial e os momentos de crescimento

econômico. A desvalorização cambial de 1999 está intimamente associada à trajetória

das exportações de produtos têxteis, que iniciam fase de crescimento exatamente a partir

desse ano, após relativa estabilidade desde início dos anos 90 (Gráfico 2.11). As

importações, por outro lado, crescem de 1990 a 1994, quando iniciam trajetória declinante

até início do processo de valorização do real, a partir de 2003. Esse movimento também é

explicado pela estagnação econômica brasileira no final dos anos 90, a qual começa a se

reverter a partir 2004 e as importações passam a crescer também por causa do aumento

de demanda interna. Com isso, é possível observar duas fases de déficit na balança

comercial brasileira de produtos da cadeia têxtil-vestuário: o período 1994-2001 e o

período recente a partir de 2006. Tais fases estão inegavelmente associadas ao

comportamento do câmbio, mas também ao acirramento da competição internacional,

principalmente de produtos asiáticos.

21


Milhões (US$)

Gráfico 2.11

Exportações, Importações e Saldo Comercial de Produtos da Cadeia Têxtil-

Vestuário, em milhões de Dólares (1990-2007)

3750

3000

2250

1500

750

0

‐750

‐1500

1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006

Exportações Importações Saldo Comercial

Fonte: Elaboração própria a partir de dados da Secex/MDIC.

Como efeito da maior pressão competitiva exercida pelas importações de produtos têxteis

acabados ou mesmo da importação de insumos mais baratos (fibras químicas), o Gráfico

2.12 revela queda de preços relativos dos artigos da cadeia têxtil-vestuário, ao comparar

alguns índices de preços no atacado (IPA) com o índice geral de preços (IGP-DI). Nota-se

que o IPA-Tecidos, Vestuário e Calçados apresenta queda relativa em relação ao IGP

durante todo o período considerado. A tendência de queda se mostra mais proeminente

até início de 2003, quando os preços desses artigos passam a apresentar relativa

estabilidade. Tal comportamento coincide com a inversão da tendência de desvalorização

da moeda brasileira, que ocorre ao final de 2002. O processo de valorização do real

ocorrido a partir de então só se reverte recentemente em meados de 2008. O

comportamento do IPA-Vestuário (exceto malharia) apresenta redução de preços relativos

ainda mais drástica, pois a série situa-se abaixo da anterior, apresentando tendências

similares. O IPA-Malharia se comporta de forma análoga ao do IPA-Tecidos, Vestuário e

Calçados, com perda relativa de preços em comparação com os outros preços da

economia.

22


120

Gráfico 2.12

IPA da Cadeia Têxtil-Vestuário em relação ao IGP-DI (normalizado para 100)

100

80

60

40

20

0

ago/94

abr/95

dez/95

ago/96

abr/97

dez/97

ago/98

abr/99

dez/99

ago/00

abr/01

dez/01

ago/02

abr/03

dez/03

ago/04

abr/05

dez/05

ago/06

abr/07

dez/07

IGP‐DI / IGP‐DI

IPA‐Vestuario (exceto malharia) / IGP‐DI

IPA‐Vestuário e Calçados / IGP‐DI

IPA‐Malharia / IGP‐DI

Fonte: Elaboração própria a partir de dados do IpeaData.

Para não interromper a significativa trajetória de aumento de exportação de produtos

têxteis, que alcançou 93% no período 2000-2007, é preciso avaliar algumas estratégias

que sustentem esse dinamismo e aumentem a representatividade do comércio exterior

brasileiro.

O fim do Acordo de Têxteis e Vestuário em 2005, baseado em cotas e restrições às

importações, e a transição para as regras gerais da OMC afetaram o desempenho das

exportações brasileiras. Informações do setor revelam que as exportações de brins e

denim de empresas, como a Santista Têxtil, caíram 50% na comparação entre 2008 e

2004. 3 No entanto, a saída para enfrentar problemas como esse e a concorrência de

países asiáticos tem sido a internacionalização, assim como a realização de fusões e

joint-ventures. O Grupo Santista Têxtil, por exemplo, uniu-se à espanhola Tavex

Algodonera para assegurar presença no mercado internacional. Além de compra de

3 Dados da Internet, 28 de março de 2008.

(disponível em: http://valoresdefatos.blogspot.com/2008/03/s.html)

23


terreno em Honduras, o grupo adquiriu duas fábricas no México para acessar de forma

privilegiada o mercado norte-americano. De forma complementar, acordos bilaterais

poderiam ser realizados para compensar o fim das cotas que privilegiavam países em

desenvolvimento.

O principal fato a observar aqui é a rápida deterioração da competitividade externa dos

produtos da cadeia têxtil-confecção ao longo do processo recente de valorização do real

frente ao dólar, iniciado em 2004. Ao contrário de outros setores da indústria de

transformação nacional que conseguiram enfrentar relativamente bem esta mudança

cambial, enviesada para o barateamento das importações e encarecimento de das

exportações, a cadeia têxtil-confecção caminha rapidamente para a sua

desindustrialização na ausência de políticas de proteção compensatórias. A repentina

reversão do câmbio pela crise internacional no final de 2008, com a desvalorização do

real em relação ao dólar em torno de 40%, certamente pode contribuir para deter tal

processo, dependendo da sensibilidade da variação do preço dos importados têxteis e de

confecções frente à apreciação do dólar. A política chinesa, por exemplo, de desovar os

estoques gerados pelo esfriamento da demanda americana para mercados periféricos

deve avolumar os problemas de dumping desses produtos no país.

2.3 MUDANÇAS E TENDÊNCIAS MUNDIAIS DA CADEIA TÊXTIL-VESTUÁRIO

Ao longo das últimas décadas, a cadeia têxtil-vestuário tem passado por um processo de

reorganização que possui múltiplas dimensões, que são nesse texto resumidas em

tecnológicas, organizacionais e regionais. 4

Mudanças tecnológicas

Houve incorporação de máquinas e equipamentos com componentes microeletrônicos e

avanços da indústria química, em termos de corantes e tintas, ou petroquímica, como no

caso das fibras sintéticas. Nesse sentido, destaca-se o próprio surgimento de fibras

4 As informações estão baseadas nos seguintes estudos: Lupatini (2004), Pio et al. (2003), Garcia et al.

(2005), Monteiro Filho e Santos (2002), Antero (2006), Prochnik (2002), Serra e Carvalho (1999), Campos e

Paula (2006), Garcia (2008) e Hiratuka et al. (2008).

24


alternativas ao algodão, que vem sendo incorporadas de forma crescente na fabricação

de têxteis e confecções, seja substituindo as fibras naturais ou mescladas a essas.

Mais recentemente, segmentos mais a montante da cadeia, especialmente o de produção

de fibras químicas, sinalizam significativas oportunidades para o setor através da

incorporação de conhecimento científico aos produtos, como nos casos de aplicação de

nanotecnologia às propriedades das fibras, como resistência, conforto, efeitos antiodor,

bactericidas, hidratação e proteção ultravioleta. As trajetórias tecnológicas dos diversos

segmentos da cadeia têxtil-vestuário são especificadas a seguir:

Fiação: espessura e resistência de fios, atendimento a especificações físicoquímicas,

diferenciação de fibras. Também houve desenvolvimentos nas formas de

sistemas de transporte interno de materiais, como carregamento, descarregamento

e alimentação de máquinas, além de transporte de uma máquina para a

subsequente, como no caso do transporte de fitas e bobinas por um “veículo

guiado automaticamente” (VGA).

Tecelagem: velocidade, redução de perdas com manutenção, maior facilidade na

gravação de parâmetros estabelecidos dos teares; uso de do sistema VGA para

troca rápida de fios de urdume e de artigos têxteis.

Acabamento: redução do consumo de energia através de máquinas de

reaproveitamento de energia, melhoria de conservação, maior controle ambiental

através, por exemplo, de máquinas com sistema de coleta de efluentes aéreos ou

utilização de produtos químicos que não agridem o meio ambiente, controle de

temperatura da água e da variação na composição da mistura química para

tingimento. Outro desenvolvimento foi a automação da cozinha de cores destinada

à pesagem de produtos químicos e preparo de soluções para beneficiamentos. No

segmento de tinturaria, tem havido esforços para P&D de corantes cujas estruturas

causem menor dano ecológico, como corantes biodegradáveis. No segmento de

estamparia, fornecedores de produtos químicos buscam composições que façam

pastas de estampar sem substâncias tóxicas.

25


Confecções: melhorias dos moldes de base com diversos tamanhos, melhorias de

corte e desenho com sistemas CAD/CAM, integração de operações e ampliação e

flexibilidade das operações, dentre as mais importantes.

Mudanças organizacionais

Houve valorização e especialização em algumas funções corporativas por parte de

grandes empresas da cadeia, como marcas globais, marketing, desenvolvimento de

produtos, design, canais de comercialização, capacidade de coordenação da cadeia,

gestão de fornecedores e aportes financeiros. Essas funções propiciam o comando na

cadeia têxtil-vestuário e garantem maiores ganhos e apropriabilidade. Logo, o comando

da cadeia têxtil-vestuário passou a ser exercido por produtores, comerciantes e grandes

varejistas com marcas, exatamente porque focaram nas funções corporativas acima

citadas ou por causa do seu poder de compra. Em paralelo, houve tendência de

transferência a terceiros de atividades produtivas propriamente ditas. De fato, passou a

ser comum o esquema de produção triangular, em que o grande comprador faz

encomendas a um fornecedor, o qual, por sua vez, possui diversas fábricas afiliadas.

Houve também clara segmentação do mercado, de forma que os mercados com alto

preço, qualidade e criatividade coexistem com mercados de preços baixos e bens

padronizados.

De fato, os avanços tecnológicos em bens de capital e insumos e os investimentos

realizados em funções corporativas que garantem maior controle da cadeia produtiva

constituem dois conjuntos de fatores competitivos, que podem ser resumidos em ativos

materiais e imateriais.

Mudanças regionais

Houve deslocamento de atividades produtivas através de investimento direto ou

terceirização/subcontratação para regiões ou países em que o custo do trabalho é baixo.

Em termos mundiais, a subcontratação de atividades produtivas têm se estendido para

Ásia, América Central e Caribe, países do norte da África e leste europeu.

26


No Brasil, esse processo ocorreu à medida que algumas empresas (p.ex., Hering)

passaram a importar artigos, como jaquetas e bermudas sintéticas da China, e à medida

que grandes empresas dos ramos de tecelagem transferiram unidades produtivas para o

Nordeste em busca de custos mais reduzidos de trabalho e de benefícios fiscais e

creditícios. Por outro lado, tais empresas mantiveram em São Paulo outras funções

corporativas vinculadas a desenvolvimento de produto, design, marketing,

comercialização e distribuição de produtos e finanças.

Tal movimento esteve restrito às grandes empresas. Por isso, os sistemas locais de

produção continuam a exercer atração sobre as pequenas e médias empresas, as quais

se beneficiam de economias externas. No caso da indústria têxtil e, especialmente

vestuário, existe uma tendência de organização espacial das empresas de menor porte

em torno de pólos. Os exemplos mais conhecidos são os pólos de Americana (SP), Vale

do Itajaí (SC), Cianorte (PR), Maringá (PR), São João Nepomuceno (MG), Nova Friburgo

(RJ) e Jaraguá (GO).

27


3. ESTRUTURA DA INDÚSTRIA TÊXTIL

Nessa seção, são descritos indicadores da estrutura da indústria têxtil, analisada a partir

de quatro grupos industriais, segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas

(CNAE). A composição dos subsetores é detalhada a seguir:

Beneficiamento de Fibras Naturais (CNAE-171): compreende o beneficiamento

de fibras de algodão (cardação, penteação, etc.); a obtenção de subprodutos,

inclusive os desperdícios (lanolina); o descaroçamento do algodão quando não

associado ao cultivo; os beneficiamentos (lavagem, cardação, penteação, etc), de

outras fibras têxteis naturais (linho, seda, sisal, juta, rami, lã, crina, etc.).

Fiação e Tecelagem (CNAE-172 e CNAE-173): compreende a produção de fios de

algodão, inclusive mesclas, com predominância de algodão; de tecidos de fios e

filamentos contínuos artificiais ou sintéticos, inclusive mesclas, com predominância

de fios artificiais ou sintéticos; de tecidos de polipropileno; de tecidos de fibra de

vidro; de fios de papel; de fios de fibras artificiais ou sintéticas, inclusive mesclas,

com predominância de fios de fibras artificiais ou sintéticas; de linhas e fios para

costurar e bordar, de qualquer material (algodão, artificiais, sintéticos, sedas, lãs,

etc.); de tecidos planos de algodão, inclusive mesclas, com predominância de

algodão; de veludos, tecidos felpudos, tecidos de gaze e outros tecidos elaborados,

com predominância de fios de algodão; de tecidos de fios de fibras têxteis naturais

(lã, linho, juta, seda, rami, etc.), inclusive mesclas, com predominância de fibras

naturais; e de fibras têxteis naturais (linho, rami, juta, seda, lã, etc.), inclusive

mesclas, com predominância de fibras têxteis naturais.

Artefatos Têxteis (CNAE-174, CNAE-175 e CNAE-176): compreende a produção

de artefatos têxteis diversos, integrada com as fiações e tecelagens (sacos de

algodão e de outras fibras têxteis, bandeiras, etc.), de artefatos têxteis para uso

doméstico (roupas de cama, mesa, copa, cozinha, etc.), integrada com as fiações e

tecelagens; o alvejamento, texturização, estamparia, tingimento, torção e outros

acabamentos em fios, tecidos e artigos têxteis, inclusive peças do vestuário,

realizados para terceiros; a fabricação de artigos de tecidos de uso doméstico

(roupas de cama, mesa, copa, cozinha, etc.) a partir de tecidos; de artigos de

colchoaria a partir de tecidos (almofadas, travesseiros, edredons, etc.); de sacos a

partir de tecidos; de tapetes, forrações para revestimento de pisos (carpete) e

outros artefatos de tapeçaria; de barbantes, cordas, cabos e cordéis e de outros

artefatos de cordoaria; de redes de pesca a partir de fios e fibras; de feltros e

artigos de feltro; de tecidos e artefatos de crinas e cerdas de origem animal ou de

fibras vegetais; de tecidos impermeáveis e de acabamento especial (têxteis

técnicos, geotêxteis, tecidos revestidos de náilon, polipropileno e poliéster, panoscouro,

lonas, etc.); de artefatos têxteis técnicos, geotêxteis, lonas ou de outros

tecidos de acabamento especial; não-tecidos (falsos tecidos) e seus artefatos, para

usos industrial, sanitário ou doméstico; de mantas de fibras artificiais ou sintéticas,

agulhadas e/ou prensadas, para usos industriais (entretelas, forros, filtros

industriais e outros produtos para uso técnico e industrial); de telas para

28


pneumáticos; de tecidos para telas de desenho, pintura, etc.; de barracas para

acampamento, toldos, velas e semelhantes; de artefatos de não-tecidos (falsos

tecidos), integrada com a fabricação de não-tecidos; de artefatos de passamanaria

(galões, vieses, etc.); de fitas elásticas e de tecidos elásticos; de filós, rendas,

bordados e de tecidos bordados; e de fitas de tecidos.

Fabricação de Tecidos e Artigos de Malhas (CNAE-177): compreende a

fabricação de tecidos de malha; de meias; e de outros artigos do vestuário

produzidos em malharias (tricotagens).

O primeiro subsetor analisado, de beneficiamento de fibras naturais, é o de menor

dimensão da indústria têxtil, em termos de número de firmas, pessoal ocupado,

faturamento, valor agregado e exportações. O setor é também o de menor pujança

tecnológica, em termos de quantidade de firmas líderes (apenas três). No entanto, todas

as líderes e seguidoras são inovadoras, embora as empresas inovadoras de processo

superem em quantidade as inovadoras de produto em ambos os casos. Nenhuma

empresa frágil inova em produto.

Gráfico 3.1

Inovação nas Firmas Líderes, Seguidoras e Frágeis de Beneficiamento de Fibras

Naturais (%)

100%

75%

50%

25%

0%

Inovadoras Inovadora de produto Inovadora de processo P&D

deres Seguidoras Frágeis

Nota: 3 Firmas Líderes, 7 Firmas Seguidoras, 30 Firmas Frágeis

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/PINTEC-IBGE.

29


Tabela 3.1

Número e Valor Agregado das Firmas Líderes, Seguidoras e Frágeis de

Beneficiamento de Fibras Naturais (2005)

Indicador Líderes Seguidoras Frágeis

Número de empresas 3 7 30

(7,5%) (17,5%) (75,0%)

Pessoal Ocupado (número de pessoas) 234 622 2546

(6,9%) (18,3%) (74,8%)

Salários Totais (R$ milhões) - 21,6 20,1

- (51,8%) (48,2%)

Faturamento (R$ milhões) - 362,5 90,0

- (80,1%) (19,9%)

Lucros Totais (R$ milhões) - 15,8 9,6

- (62,2%) (37,8%)

Investimento Total (R$ milhões) 0,0 14,1 4,1

(0,0%) (77,5%) (22,5%)

Exportação Total (R$ milhões) 0,2 54,8 0,0

(0,5%) (99,5%) (0,0%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC.

Tabela 3.2

Indicadores da Indústria de Beneficiamento de Fibras Naturais para Líderes,

Seguidoras e Frágeis (2005)

Indicador Líderes Seguidoras Frágeis

Número de empresas 3 7 30

Salário médio mensal (R$) - 2893,7 656,6

Salário médio mensal no pessoal industrial (R$) - 819,8 709,6

Faturamento médio (R$ milhões) - 51,8 3,0

Lucro/Custo (%) - 4,8% 11,9%

VTI/Faturamento (%) - 17,5% 51,1%

Exportações/Faturamento (%) - 15,1% 0,0%

Importações/Custos (%) - 10,9% 0,0%

Investimento/Faturamento (%) - 3,9% 4,5%

P&D/Faturamento (%) - 0,0% 0,0%

P&D/Investimento (%) - 0,0% 0,0%

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC.

Para evitar individualização das informações, os indicadores presentes nas Tabelas 3.1 e

3.2 omitem a maior parte dos dados referentes às líderes desse subsetor. Em termos de

pessoal ocupado, as empresas frágeis são responsáveis por quase 75% de todo o

emprego do subsetor. Em contraste, apenas 48% da massa total de salários são providos

pelas frágeis, revelando a existência de empresas com baixos indicadores de salário

médio. A diferença é maior, contudo, para remuneração do pessoal não ligado à produção

(distribuição, marketing, design, controles administrativo, financeiro e comercial), em

30


elação ao pessoal do “chão de fábrica”. As empresas frágeis superam as seguidoras nos

indicadores de lucro/custo, VTI/faturamento e investimento/faturamento.

O setor de fiação e tecelagem possui 29% do número de empresas da indústria têxtil,

41% do pessoal ocupado, 43% dos salários totais, 44% do valor de transformação

industrial, 46% do faturamento, 50% do investimento, 43% das exportações, 52% das

importações e 68% dos gastos em P&D. De todos os quatro agrupamentos considerados

na indústria têxtil, nota-se que esse subsetor lidera a investigação que conduz a novos

produtos e processos. Esse subsetor possui, do ponto de vista tecnológico, papel chave

na cadeia têxtil-vestuário porque produz insumos, no caso fios e tecidos, para os demais

setores a jusante, determinando, em última instância, a possibilidade de inserção

competitiva nos mercados doméstico e internacional.

No setor de fiação e tecelagem foram identificadas 21 empresas líderes, 227 seguidoras,

221 frágeis e quatro emergentes (Gráfico 3.2). Todas as líderes são inovadoras de

produto, enquanto que 86% inovam em processo e 76% apresentam esforço (interno ou

externo) de P&D. Cabe salientar que no segmento fiação e tecelagem as inovações de

produto são incrementais, envolvendo, principalmente, o desenvolvimento de novas fibras

e a melhoria constante de sua qualidade. No caso de inovações de processo, o que

ocorre é a introdução de máquinas mais velozes e automatizadas, o que torna tal

segmento especialmente dependente de fornecedores de bens de capital e muito

intensivo em capital vis-à-vis setores mais a jusante da cadeia produtiva, como

confecções. No subsetor de fiação, por exemplo, os desenvolvimentos de processos

objetivam o aumento da velocidade de produção e o aumento do controle de qualidade do

produto. 5

As líderes de fiação e tecelagem são empresas grandes, possuindo em média 719

empregados, o que representa duas vezes o tamanho das seguidoras ou sete vezes o

tamanho das frágeis (Tabela 3.3). O maior porte explica a capacidade de suportar custos

fixos elevados de P&D e a maior capacidade de inovar em produto e em processo. A

5 Segundo Melo et al. (2007), atualmente um processo novo é o de fiação por compactação, no qual há

compressão das fibras estiradas por elementos mecânicos com aspiração e, depois, a torção. O processo

permite redução da torção e melhor estiragem, resultando em fio de maior resistência, com menor número

de pontos fracos e uma baixa pilosidade.

31


heterogeneidade industrial intragrupo em termos de tamanho reflete-se em

heterogeneidade quanto ao desenvolvimento tecnológico, pois a inovação de processo

representa capacidade de modernização da planta que amplia a capacidade de fornecer

produtos padronizados. Ao mesmo tempo, a tendência em inovar em produto constatada

significa capacidade em diferenciar e segmentar o mercado com base na inovação de

produto.

No caso das seguidoras, as duas tendências de inovação apontadas acima não ocorrem

com tanta frequência. Parcela bem menor das seguidoras inova (55%) e a atividade de

inovar, quando ocorre, é mais frequente em processo (45%) do que em produto (31%),

sendo também mais raro o envolvimento das firmas com atividade de P&D (16%). No

caso das frágeis, apenas 21% destas inovam, não possuindo nenhum envolvimento com

P&D.

100%

Gráfico 3.2

Inovação nas Firmas Líderes, Seguidoras, Frágeis e Emergentes de Fiação e

Tecelagem (%)

75%

50%

25%

0%

Inovadoras Inovadora de produto Inovadora de processo P&D

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Nota: 21 Firmas Líderes, 227 Firmas Seguidoras, 221 Firmas Frágeis, 4 Firmas Emergentes.

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/PINTEC-IBGE.

32


Embora constituam apenas 4% do número total de empresas, as líderes de fiação e

tecelagem são responsáveis por 23% do faturamento, 24% dos salários, 23% dos

investimentos, 24% dos lucros e 33% das exportações. Esse último dado confirma uma

característica estrutural do setor de fiação e tecelagem, no qual há forte concentração das

exportações em um número reduzido de grandes e eficientes empresas. Informações da

literatura do setor, referentes ao inicio da década, revelam que os três maiores grupos

empresariais do setor (Vicunha, Santista e Coteminas) respondiam por cerca de um terço

das exportações da cadeia têxtil-vestuário.

Tabela 3.3

Número e Valor Agregado das Firmas Líderes, Seguidoras, Frágeis e Emergentes de

Fiação e Tecelagem (2005)

Indicador Líderes Seguidoras Frágeis Emergentes

Número de empresas 21 227 221 4

(4,44%) (47,99%) (46,72%) (0,85%)

Pessoal Ocupado (número de pessoas) 15101 77494 22428 1455

(12,96%) (66,53%) (19,26%) (1,25%)

Salários Totais (R$ milhões) 347,22 903,96 172,66 12,50

(24,17%) (62,93%) (12,02%) (0,87%)

Faturamento (R$ milhões) 3058,71 9336,69 745,20 127,55

(23,05%) (70,37%) (5,62%) (0,96%)

Lucros Totais (R$ milhões) 208,48 593,81 49,53 2,22

(24,41%) (69,53%) (5,80%) (0,26%)

Investimento Total (R$ milhões) 176,97 559,96 20,40 9,62

(23,07%) (73,01%) (2,66%) (1,25%)

Exportação Total (R$ milhões) 179,72 371,23 0,00 0,00

(32,62%) (67,38%) (0,00%) (0,00%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/PINTEC-IBGE.

A Tabela 3.4 também aponta diferenças salariais em relação às seguidoras e frágeis, que

refletem a absorção de pessoal mais qualificado tanto no “chão de fábrica”, quanto no

pessoal ligado à área administrativa.

As seguidoras representam 48% do número de empresas, 67% do pessoal ocupado, 63%

dos salários, 70% do faturamento, 73% do investimento total e 67% das exportações

(Tabela 3.3). Embora as exportações representem 4% do faturamento, e não 5,9% como

nas líderes (Tabela 3.4), há grande capacidade de inserção externa, garantida pela

existência de plantas relativamente atualizadas do ponto de vista produtivo, o que as

capacita alcançar ganhos de produtividade e baixos custos de produção.

33


Tabela 3.4

Indicadores da Fiação e Tecelagem para Líderes, Seguidoras, Frágeis e Emergentes

(2005)

Indicador Líderes Seguidoras Frágeis Emergentes

Número de empresas 21 227 221 4

Salário médio mensal (R$) 1916,1 972,1 641,5 715,7

Salário médio mensal no pessoal industrial (R$) 1338,3 882,5 722,2 606,0

Faturamento médio (R$ milhões) 145,7 41,1 3,4 31,9

Lucro/Custo (R$) 7,1% 6,5% 6,2% 1,7%

VTI/Faturamento (%) 38,5% 34,3% 35,8% 29,6%

Exportações/Faturamento (%) 5,9% 4,0% 0,0% 0,0%

Importações/Custos (%) 4,2% 3,3% 0,5% 8,5%

Investimento/Faturamento (%) 5,8% 6,0% 2,7% 7,5%

P&D/Faturamento (%) 0,5% 0,2% 0,0% 2,1%

P&D/Investimento (%) 9,5% 4,1% 0,0% 28,3%

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/PINTEC-IBGE.

Cabe ressaltar que as quatro emergentes do subsetor possuem faturamento médio nove

vezes maior que as frágeis, assim como relação Investimento/Faturamento maior que o

das próprias empresas líderes (Tabela 3.4). As emergentes constituem nicho dinâmico do

setor à medida que possuem alta intensidade de P&D para os padrões do setor têxtil,

tendo em vista que gastam mais de 2% do faturamento em P&D vis-à-vis 0,5% das

deres. Nota-se que, em proporção do investimento total realizado, os gastos em P&D

são muito elevados (28%) nas emergentes, face aos 9,5% das empresas líderes. As

emergentes são muito dinâmicas do ponto de vista tecnológico, pois inovam em produto e

processo, além de realizarem gastos com P&D. Logo, são empresas de porte

intermediário que merecem apoio em termos de políticas públicas de financiamento e

subsídios para inovação.

As frágeis apenas atendem o mercado interno e são responsáveis por pequenas parcelas

do faturamento, do investimento total e tecnológico realizado pelo subsetor. Novamente,

destaca-se a heterogeneidade tecnológica intragrupo do setor de fiação e tecelagem, no

qual nada menos do que 221 empresas (cerca de 47% do subsetor), não possuem

condições efetivas de inserção no mercado externo nem sequer estão protegidas da

acirrada concorrência internacional, tendo em vista o aumento de 71% da importação

brasileira de tecidos no período 2000-2007.

A fabricação de artefatos têxteis constitui o maior subsetor da indústria têxtil, possuindo

56% do número de empresas, 48% do pessoal ocupado e dos salários totais, 45% do

34


valor de transformação industrial, 42% do faturamento e do investimento total e 50% das

exportações totais da indústria têxtil. Como enfatizado anteriormente, esse subsetor

apenas não possui liderança em termos de investimentos em P&D e importações, uma

vez que possui participações de 31% e 35%, respectivamente, contra 68% e 52% para os

mesmos indicadores do subsetor de fiação e tecelagem.

O Gráfico 3.3 indica que todas as empresas líderes são inovadoras, sendo que 86%

inovam em produto e 69% inovam em processo. Em relação às líderes de fiação e

tecelagem, proporção menor de empresas está engajada com atividade de P&D (42%).

Seguindo o padrão encontrado na taxonomia líder-seguidora-frágil, as seguidoras inovam

mais em processo (36%) do que em produto (27%) e, algumas delas, envolvem-se com

atividade de P&D (9%).

Nas empresas produtoras de artefatos têxteis, a participação das líderes nas exportações

situa-se em torno de um terço, embora representem apenas 4% do número total de

empresas (Tabela 3.7). Isso também é refletido nos indicadores de coeficiente de

exportação da Tabela 3.8, que apresenta indicador de 8,4% contra 5,1% das seguidoras.

Tabela 3.7

Número e Valor Agregado das Firmas Líderes, Seguidoras e Frágeis de Artefatos

Têxteis (2005)

Indicador Líderes Seguidoras Frágeis

Número de empresas 36 274 616

(3,89%) (29,59%) (66,52%)

Pessoal Ocupado (número de pessoas) 17805 76833 43570

(12,88%) (55,59%) (31,52%)

Salários Totais (R$ milhões) 287,63 1001,78 332,49

(17,73%) (61,77%) (20,50%)

Faturamento (R$ milhões) 2494,29 8344,19 1272,46

(20,60%) (68,90%) (10,51%)

Lucros Totais (R$ milhões) 169,09 511,09 72,22

(22,47%) (67,93%) (9,60%)

Investimento Total (R$ milhões) 107,67 492,70 40,47

(16,80%) (76,88%) (6,31%)

Exportação Total (R$ milhões) 208,56 424,97 0,00

(32,92%) (67,08%) (0,00%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC.

As frágeis do subsetor de artefatos têxteis constituem foco para intervenção de políticas

públicas porque existem em grande número e empregam 32% da mão-de-obra do

35


subsetor, embora não possuam inserção externa e sejam caracterizadas por baixa

produtividade, baixa participação nos lucros (9,6%) e nos investimentos totais (6,3%). Em

termos de faturamento por empregado, a diferença entre as líderes e as frágeis é 4,6

maior para as primeiras.

100%

Gráfico 3.3

Inovação nas Firmas Líderes, Seguidoras, Frágeis e Emergentes de Artefatos

Têxteis (%)

75%

50%

25%

0%

Inovadoras Inovadora de produto Inovadora de processo P&D

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Nota: 36 Firmas Líderes, 274 Firmas Seguidoras, 616 Firmas Frágeis.

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/PINTEC-IBGE.

Tabela 3.8

Indicadores da Indústria de Artefatos Têxteis para Líderes,

Seguidoras e Frágeis (2005)

Indicador Líderes Seguidoras Frágeis

Número de empresas 36 274 616

Salário médio mensal (R$) 1346,2 1086,5 635,9

Salário médio mensal no pessoal industrial (R$) 1236,5 940,8 652,3

Faturamento médio (R$ milhões) 69,3 30,5 2,1

Lucro/Custo (R$) 7,0% 6,2% 5,5%

VTI/Faturamento (%) 40,6% 38,3% 45,0%

Exportações/Faturamento (%) 8,4% 5,1% 0,0%

Importações/Custos (%) 1,7% 3,1% 0,1%

Investimento/Faturamento (%) 4,3% 5,9% 3,2%

P&D/Faturamento (%) 0,4% 0,1% 0,0%

P&D/Investimento (%) 9,8% 1,8% 0,0%

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC.

36


A representatividade do subsetor de tecidos e artigos de malhas é mais modesta, com

apenas 9% do valor de transformação da indústria têxtil e do faturamento ou 13% do

número de empresas e 10% do pessoal ocupado. Os investimentos em P&D são quase

inexistentes (1%), assim como há pouca inserção externa, medidas tanto pelas

participações nas exportações (3%) e importações (9%).

Esse subsetor possui quatro empresas líderes, 59 seguidoras e 153 frágeis. Nesse caso,

as líderes inovam em produto e processo em idêntica proporção, enquanto 25% delas

envolvem-se com atividade de P&D. Apenas 8% das seguidoras implementam gastos

com P&D, sendo que nas frágeis essa atividade é inexistente (Gráfico 3.4).

O desempenho econômico das líderes do segmento de malharias é ainda mais marcante,

pois apenas 4 empresas são responsáveis por 74% das exportações, 23% dos empregos,

25% dos salários totais, 27% do faturamento e 15% do investimento do subsetor. Nesse

segmento industrial, as frágeis também são bem numerosas, constituindo 71% do total de

empresas e empregando um terço do pessoal ocupado, embora não sejam exportadoras

(Tabela 3.9).

Tabela 3.9

Número e Valor Agregado das Firmas Líderes, Seguidoras e

Frágeis de Tecidos e Artigos de Malhas (2005)

Indicador Líderes Seguidoras Frágeis

Número de empresas

4 59 153

(1,90%) (27,30%) (70,80%)

Pessoal Ocupado (número de pessoas)

6246 12005 9228

-

(22,70%) (43,70%) (33,60%)

Salários Totais (R$ milhões)

70,2 139,5 69,1

(25,20%) (50,00%) (24,80%)

Faturamento (R$ milhões)

728,4 1529,5 450,9

(26,90%) (56,50%) (16,60%)

Lucros Totais (R$ milhões)

35 121,9 32,4

(18,50%) (64,40%) (17,10%)

Investimento Total (R$ milhões)

15,9 77,4 11,1

(15,20%) (74,10%) (10,70%)

Exportação Total (R$ milhões)

29,2 10,2 0

(74,10%) (25,90%) (0,00%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC.

37


Gráfico 3.4

Inovação nas Firmas Líderes, Seguidoras e Frágeis de Tecidos e Artigos de Malhas

(%)

100%

75%

50%

25%

0%

Inovadoras Inovadora de produto Inovadora de processo P&D

deres Seguidoras Frágeis

Nota: 4 Firmas Líderes, 59 Firmas Seguidoras, 153 Firmas Frágeis.

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/PINTEC-IBGE.

Tabela 3.10

Indicadores da Indústria de Tecidos e Artigos de Malhas (2005)

Indicador Líderes Seguidoras Frágeis

Número de empresas 4 59 153

Salário médio mensal (R$) 936,0 968,3 624,0

Salário médio mensal no pessoal industrial (R$) 770,4 873,7 600,2

Faturamento médio (R$ milhões) 182,1 25,9 2,9

Lucro/Custo (R$) 4,9% 8,7% 7,7%

VTI/Faturamento 33,6% 36,2% 35,6%

Exportações/Faturamento (%) 4,0% 0,7% 0,0%

Importações/Custos (%) 2,1% 4,1% 0,1%

Investimento/Faturamento (%) 2,2% 5,1% 2,5%

P&D/Faturamento (%) 0,0% 0,0% 0,0%

P&D/Investimento (%) 0,3% 0,7% 0,0%

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC.

Pela Tabela 3.10, é possível notar que o salário médio das líderes é inferior ao das

seguidoras, tanto para o pessoal do “chão de fábrica” quanto para o pessoal ligado à

administração. Esse indicador pode ser reflexo das estratégias de relocalização de

unidades produtivas industriais dos segmentos mais a jusante da cadeia produtiva têxtil

para regiões de baixo custo de mão-de-obra em face à crescente ameaça representada

38


pela concorrência com produtos importados, especialmente chineses. Indicadores de

tamanho, como faturamento por empresa, mostram a disparidade intrassetorial, uma vez

que as líderes são sete vezes maiores que as seguidoras e equivalem a 60 vezes o

tamanho das frágeis.

39


4. EVOLUÇÃO DA INDÚSTRIA TÊXTIL

Os indicadores de participação de mercado e mark-up das firmas da indústria têxtil são

apresentados para o período de 1996 a 2005, na classificação dederes-seguidorasfrágeis.

A metodologia consiste em identificar estas empresas em 2005 e calcular seus

indicadores ao longo do período, para se obter uma análise temporal das firmas do setor

classificadas como líderes, seguidoras e frágeis.

Com base no Gráfico 4.1, nota-se que a participação de mercado (nacional) das 64

deres tecnológicas da indústria têxtil decresceu de 26% em 1996 para 21% em 2004,

voltando a crescer em 2005 para 24%. Por outro lado, as 567 empresas seguidoras do

setor apresentam tendência de crescimento nas vendas do mercado de 66% para 71%,

entre 1996 e 2003. A categoria das frágeis, que engloba 1020 empresas, possui

participação estável no período, geralmente inferior a 9%. As 4 emergentes possuem

participação residual, menor que 1%, mas que evolui de 0,26% para 0,55%.

As evidências permitem inferir que a grande maioria das firmas com maior participação no

mercado, entre as 4 e 8 maiores (CR-4 e CR-8) é empresa tecnologicamente líder, ou

seja, as líderes tecnológicas de maior porte são as maiores firmas da indústria têxtil. No

entanto, o crescimento da participação no mercado doméstico das seguidoras revela que

estratégia dessas firmas é de grande relevância para o mercado brasileiro de produtos

têxteis. Ao mesmo tempo, tal estratégia não exclui a importância das estratégias das

deres que vêm procurando vender “menos quantidade” e “mais qualidade”, e embora sua

participação de mercado tenha decrescido relativamente no período vis-à-vis as

seguidoras. 6 Portanto, é provável que as líderes tecnológicas explorem nichos de

mercado de alto valor agregado na produção de têxteis.

O Gráfico 4.2 corrobora a tese de que é preciso inovar para sustentar margens de lucro

em períodos de intensa concorrência com produtos padronizados oriundos, sobretudo, da

Ásia. Se for considerado o indicador das firmas líderes, nota-se que há uma redução de

6 Em pronunciamento à imprensa, o presidente da Santista Têxtil, Ricardo Weiss, confirma essa nova

tendência das grandes empresas do setor, afirmando que “agora exportamos mais qualidade e menos

quantidade” (http://valoresdefatos.blogspot.com/2008/03/s.html).

40


37% para 34% entre 1996 e 2005, sendo este valor igual à média do indicador em todo o

período analisado. No caso das seguidoras, após o crescimento das margens de lucro

entre 1996 e 2000, de 24% para 39%, observam-se reduções sucessivas até o ano de

2005, quando o indicador atinge o patamar de 32%. A média das margens em todo o

período é de 31%. Como o desvio-padrão da série de margem de lucro das seguidoras é

o dobro do das líderes, isso indica que há forte instabilidade nas margens das primeiras, o

que reflete a maior concorrência com os importados têxteis que estas empresas estão

expostas. 7 A categoria de empresas que mais sofre com reduções de margens de lucro é

a das emergentes, em que o indicador se reduz de 38% para 13% no período analisado.

As frágeis possuem indicador que oscila entre 11% e 15% entre 2001 e 2005, após atingir

o pico (24%) em 1998 e se reduzir sucessivamente.

Gráfico 4.1

Participação de Mercado das Líderes, Seguidoras, Frágeis e Emergentes de 2005

Indústria Têxtil (1996-2005, %)

100%

90%

80%

70%

60%

50%

40%

30%

20%

10%

0%

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

7 No caso das seguidoras e das líderes o desvio-padrão é de, respectivamente, 6% e 3%.

41


45%

Gráfico 4.2

Mark-up das Firmas Líderes, Seguidoras, Frágeis e Emergentes de 2005

Indústria Têxtil (1996-2005, %)

40%

35%

30%

25%

20%

15%

10%

5%

0%

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

O Gráfico 4.3 reúne trajetórias bem diferentes em relação à participação de mercado das

quatro maiores empresas de cada grupo industrial. Em relação ao início do período

analisado, os únicos subsetores que apresentam tendência clara de aumento dos

percentuais de participação de mercado das quatro maiores empresas são os de fiação e

tecelagem e o de fabricação de artefatos têxteis, que passaram, respectivamente, de 15%

para 23% e de 18% para 21%. No caso do beneficiamento de fibras naturais houve forte

oscilação, acompanhada de tendência de queda da concentração de mercado das quatro

maiores, de 47% para 24%. Na fabricação de artigos de malhas, o subsetor experimentou

crescente concentração até 1998, que foi se reduzindo até atingir 26% em 2005, patamar

levemente superior ao de 1996. Isso pode estar associado à crescente importação de

malhas, que deteriorou a posição das líderes de mercado do grupo. As mesmas

tendências podem ser observadas para a participação de mercados das oito maiores

empresas (Gráfico 4.4).

42


Gráfico 4.3

Participação de Mercado das Quatro Maiores Empresas da Indústria Têxtil (1996-

2005)

100%

90%

80%

70%

60%

50%

40%

30%

20%

10%

0%

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

Beneficiamento de fibras naturais

Artefatos têxteis

Fiação e tecelagem

Fabricação de tecidos e artigos de malha

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

Gráfico 4.4

Participação de Mercado das Oito Maiores Empresas da Indústria Têxtil (1996-2005)

100%

90%

80%

70%

60%

50%

40%

30%

20%

10%

0%

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

Beneficiamento de fibras naturais

Artefatos têxteis

Fiação e tecelagem

Fabricação de tecidos e artigos de malha

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

43


O indicador de primazia entre as quatro maiores atingiu maiores níveis em 2005,

comparativamente a 1996, nos casos de fiação e tecelagem e artefatos têxteis (Gráfico

4.5), embora neste último tenha havido retração de 65% para 53% entre 2004 e 2005. No

caso das malharias, há uma certa estabilidade do indicador, especialmente entre 1999 e

2005, em torno de 32%. O mesmo pode ser dito da primazia em relação às oito maiores

do subsetor (Gráfico 4.6). De forma coerente com o comportamento do CR4, o setor de

beneficiamento de fibras naturais apresenta forte tendência de redução no período 1996-

2005, em que o indicador de primazia passou de 54% para 36%. A primazia em relação

às oito maiores apresenta maior queda ainda para esse subsetor, de 40% para 24%

(Gráfico 4.6).

100%

90%

80%

70%

60%

50%

40%

30%

20%

10%

Gráfico 4.5

Primazia em Relação às Quatro Maiores Empresas da Indústria Têxtil Por

Subsetores (1996-2005)

0%

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

Beneficiamento de fibras naturais

Fiação e tecelagem

Artefatos têxteis

Fabricação de tecidos e artigos de malha

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

44


Gráfico 4.6

Primazia em Relação às Oito Maiores Empresas da Indústria Têxtil Por Subsetores

(1996-2005)

100%

90%

80%

70%

60%

50%

40%

30%

20%

10%

0%

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

Beneficiamento de fibras naturais

Artefatos têxteis

Fiação e tecelagem

Fabricação de tecidos e artigos de malha

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

Em relação aos indicadores de mark-up das 4 maiores firmas (Gráfico 4.7), nota-se, em

geral, uma tendência de redução para a maior parte dos subsetores. Isso é claro, a partir

de 2002, para o subsetor de beneficiamento de fibras naturais, artefatos têxteis e artigos

de malhas e, entre 1999 e 2003, para fiação e tecelagem. Neste último, porém, a margem

de lucro das quatro maiores veio apresentando tendência de recuperação, atingindo 46%

em 2005. Em relação ao mark-up para o conjunto das empresas de todos os subsetores

(Gráfico 4.8), há relativa estabilidade desse indicador a partir de 2001, exceto para o

subsetor de beneficiamento de fibras naturais.

Comparando-se o mark-up das 4 maiores com o mark-up do total de firmas, nota-se que

no subsetor de artigos de malhas, a margem de lucro do total de firmas é um pouco

superior ao das 4 maiores desse setor. Isso contraria o padrão observado para os outros

subsetores em que a margem do total de firmas é sempre inferior à das 4 maiores.

45


140%

Gráfico 4.7

Mark-up (MK) das Quatro Maiores Firmas da Indústria Têxtil (1996-2005)

120%

100%

80%

60%

40%

20%

0%

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

Beneficiamento de fibras naturais

Artefatos têxteis

Fiação e tecelagem

Fabricação de tecidos e artigos de malha

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

Gráfico 4.8

Mark-up (MK) Total das Firmas da Indústria Têxtil (1996-2005)

80%

70%

60%

50%

40%

30%

20%

10%

0%

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

Beneficiamento de fibras naturais

Artefatos têxteis

Fiação e tecelagem

Fabricação de tecidos e artigos de malha

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

46


5. SISTEMA SETORIAL DE INOVAÇÃO

5.1 Regime Tecnológico Setorial

A dinâmica inovadora do setor têxtil depende substancialmente de desenvolvimento

tecnológico exógeno, especialmente da indústria química e de bens de capital, o que

caracteriza o setor como dominado por fornecedores. Tal característica, contudo, não

exclui a necessidade de esforços inovadores endógenos ao setor. Verificam-se esforços

de desenvolvimento de produto, de desenvolvimento e gestão de ativos intangíveis e de

atualização do sistema produtivo, que garantam flexibilidade em face das freqüentes

mudanças de demanda e da necessidade de encurtar o ciclo de lançamento de novos

produtos.

Ciclos de vida menores dos produtos constituem um mecanismo pelo qual as empresas

deres se protegem contra a baixa apropriabilidade que caracteriza o setor, uma vez que

patentes não são um meio eficaz de proteção contra cópias e imitações. Isso vale

principalmente para os setores de tecelagem e confecções, tendo em vista que o

segmento produtor de fios ainda se vale das patentes para proteger novos produtos

desenvolvidos. Através de lançamentos mais frequentes de produtos, as líderes também

coordenam melhor a sua cadeia. O lançamento de novos produtos exige investimentos

em ativos tangíveis e intangíveis. Os primeiros são medidos por indicadores que refletem

a compra de máquinas e equipamentos, sinalizando a compra de conhecimento

tecnológico incorporado em bens tangíveis. Os segundos podem ser medidos pelos

investimentos em P&D, indicando o grau de conhecimento em ciência básica e,

especialmente, em aplicada que a inovação de produto e processo exige.

A intensidade de P&D da indústria têxtil, medida pela proporção dos gastos de P&D em

relação ao faturamento, é de 0,22% bem abaixo da média da indústria de transformação

(0,66%). Isso indica que a probabilidade de inovar a partir de recursos investidos em

atividades de busca é pequena, o que denota que o setor possui baixa oportunidade

tecnológica, além de pequena cumulatividade, pois a compra de conhecimento

incorporado nos insumos químicos e em máquinas e equipamentos tende a prevalecer

sobre a aquisição de conhecimento intangível.

47


No caso da indústria de beneficiamento de fibras naturais, setor de primeira

transformação para tecidos feitos com esse tipo de fibra, não se observa intensidade em

capital ou em conhecimento (Tabela 5.1). Apenas 1% do investimento total realizado na

indústria têxtil é atribuído a esse setor, que também não implementa gastos com P&D. 8 A

melhoria tecnológica das empresas, quando ocorre, dá-se via compra de conhecimento

incorporado em bens de capital.

No caso do segmento de fiação e tecelagem, as seguidoras concentram a maior parte dos

investimentos totais e dos gastos em P&D, ainda que a dinâmica da inovação de produto

esteja particularmente vinculada às líderes, como visto na seção 3. No esforço de P&D,

porém, a participação das seguidoras é menor em termos relativos, tendo em vista que

possuem 54% dos gastos contra 40% das líderes, enquanto que nos investimentos a

participação é de 73% contra 23% (Gráfico 5.1). Indicadores de intensidade de

investimento da Tabela 5.1 exibem semelhanças entre as líderes (5,8%) e as seguidoras

(6%). Por outro lado, em termos de intensidade de P&D, as diferenças são substantivas,

pois o indicador das líderes (0,5%) é 150% maior que o das seguidoras (0,2%).

Tabela 5.1

Importância para a Inovação na Indústria Têxtil

(números de empresas e participação no total, 2005)

Setor Indicadores Líderes Seguidoras Frágeis Emergentes

Beneficiamento Número de empresas 3 7 30 -

de Fibras Investimento/Faturamento (%) - 3,9% 4,5% -

Naturais

P&D/Faturamento (%) - 0,0% 0,0% -

Número de empresas 21 227 221 4

Fiação e

Investimento/Faturamento (%) 5,8% 6,0% 2,7% 7,5%

Tecelagem

P&D/Faturamento (%) 0,5% 0,2% 0,0% 2,1%

Número de empresas 36 274 616 -

Artefatos

Investimento/Faturamento (%) 4,3% 5,9% 3,2% -

Têxteis

P&D/Faturamento (%) 0,4% 0,1% 0,0% -

Tecidos e Número de empresas 4 59 153 -

Artigos de Investimento/Faturamento (%) 2,2% 5,1% 2,5% -

Malhas

P&D/Faturamento (%) 0,0% 0,0% 0,0% -

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC.

8 Dados sobre P&D dederes não estão disponíveis para evitar individualização da informação. Mas, isso

não altera a natureza das conclusões extraídas.

48


Gráfico 5.1

Investimento Total e Investimento em P&D na Indústria de Fiação e Tecelagem

Investimento Total

Gastos em P&D

3% 1%

23%

0% 6%

40%

73%

54%

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC.

Na indústria de artefatos têxteis, há clara segmentação do regime tecnológico. Ao

contrário dos outros subgrupos da indústria têxtil, as empresas líderes realizam maior

parcela do gasto em P&D (54%), ao passo que seus investimentos perfazem apenas 17%

do total do subsetor. Esses números são corroborados pelos indicadores da Tabela 5.1,

que mostram intensidade de P&D das líderes (0,4%) 300% maior que das seguidoras

(0,1%). As seguidoras realizam 77% dos investimentos, enquanto que as frágeis investem

apenas 6% do total. Em relação ao esforço de P&D, as seguidoras realizam 46% dos

gastos e as frágeis não implementam tal estratégia de acumulação de conhecimento para

inovar (Gráfico 5.2).

Gráfico 5.2

Investimento Total e Investimento em P&D na Indústria de Artefatos Têxteis

Investimento Total

Gastos em P&D

6%

17%

0%

46%

54%

77%

deres Seguidoras Frágeis

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC.

No que tange aos artigos de malhas, há pequena participação das líderes tanto nos

investimentos totais (15%) quanto nos gastos de P&D (9%) – Gráfico 5.3. Esse fato está

49


associado à existência de apenas quatro empresas líderes nesse subsetor. Entretanto, a

concentração dos investimentos e dos gastos de P&D nas seguidoras contrasta com a

baixa taxa dessas empresas que são inovadoras de produto (29%), analisada no Gráfico

3.3. Através da Tabela 5.1, nota-se que o subsetor apresenta intensidade de P&D

próxima de zero, embora a intensidade de investimento das seguidoras (5,1%) seja muito

próxima das empresas da mesma categoria dos subsetores de fiação e tecelagem (6%) e

de artefatos têxteis (5,9%). Por outro lado, nesse subsetor as líderes possuem

intensidade de investimento (2,2%) significativamente inferior à das seguidoras (5,1%),

sendo menor que o próprio indicador das frágeis (2,5%).

Gráfico 5.3

Investimento Total e Investimento em P&D na Indústria de Tecidos e Artigos de

Malhas

Investimento Total

Gastos em P&D

11%

15%

0%

9%

74%

91%

deres Seguidoras Frágeis

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

A indústria de beneficiamento de fibras naturais possui líderes que atribuem importância

alta para diversas fontes externas de conhecimento para inovar: clientes e consumidores,

empresas de consultoria, universidades, centros de capacitação e instituições de testes,

feiras e exposições, além de redes de informação (Tabela 5.2). Essa forma de acumular

conhecimento para inovar é condizente com a condição de serem inovadoras de produto

e processo, simultaneamente, como visto no Gráfico 3.1, ainda que a participação dos

investimentos e gastos em P&D no total da indústria têxtil seja muito pequena.

As seguidoras desse subsetor evidenciam apenas duas formas de acesso a

conhecimento para inovar: empresas de consultoria (43%) e feiras e exposições (57%).

Dentre as frágeis, apenas 60% usam alguma fonte para inovar, que, nesse caso, são os

clientes e consumidores. Nenhuma empresa assinalou o departamento de P&D como

50


fonte para inovar, ressaltando uma particularidade desse subsetor de primeira

transformação da cadeia têxtil, que é o da dependência exclusiva de fontes externas,

principalmente clientes e feiras e exposições, tradicionalmente usadas pela indústria têxtil

para fins de mudança tecnológica.

Tabela 5.2

Importância das Fontes de Inovação na Indústria de Beneficiamento de Fibras

Naturais (Números de empresas que declararam importância alta, 2005)

deres Seguidoras Frágeis

Número de empresas 3 7 30

Importância alta para departamento de P&D 0 0 0

(0%) (0%) (0%)

Importância alta para Fornecedores 0 0 0

(0%) (0%) (0%)

Importância alta para Clientes e Consumidores 3 0 18

(100%) (0%) (60%)

Importância alta para Concorrentes 0 0 0

(0%) (0%) (0%)

Importância alta para Empresa de Consultoria 3 3 0

(100%) (43%) (0%)

Importância alta para Universidade 3 0 0

(100%) (0%) (0%)

Importância alta para Centro de Capacitação 3 0 0

(100%) (0%) (0%)

Importância alta para Instituições de Teste 3 0 0

(100%) (0%) (0%)

Importância alta para Feiras e Exposições 3 4 0

(100%) (57%) (0%)

Importância alta para Redes de Informação 3 0 0

(100%) (0%) (0%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

Ao contrário do subsetor anterior, a maior parte das líderes da indústria de fiação e

tecelagem atribui importância superior para fontes internas de conhecimento para inovar

através de departamento de P&D (Tabela 5.3). São também fontes altamente relevantes

para parte substantiva das líderes as feiras e exposições (63%), clientes e consumidores

(48%), redes de informação (40%), fornecedores (35%) e concorrentes (32%). Observase

que todas as fontes são altamente importantes para a grande maioria das emergentes,

ressaltando que todas elas consideram clientes e consumidores como fonte altamente

importante. Isto evidencia a hipótese de que este número restrito de firmas está

direcionado para nichos de mercado customizado. Em contraste com as líderes que não

usam as universidades como insumo para mudança tecnológica, estas empresas

emergentes desse subsetor, em sua maioria (72%), as utilizam certamente na busca de

51


conhecimentos direcionados para o desenvolvimento de produtos sob encomenda dos

clientes.

Tabela 5.3

Importância das Fontes de Inovação na Indústria de Fiação e Tecelagem

(Números de empresas que declararam importância alta, 2005)

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Número de empresas 21 227 222 4

Importância alta para departamento de P&D 11 21 0 3

(51%) (9%) (0%) (72%)

Importância alta para Fornecedores 7 61 21 0

(35%) (27%) (9%) (0%)

Importância alta para Clientes e Consumidores 10 79 40 4

(48%) (35%) (18%) (100%)

Importância alta para Concorrentes 7 36 19 3

(32%) (16%) (9%) (72%)

Importância alta para Empresa de Consultoria 0 10 2 3

(0%) (4%) (1%) (72%)

Importância alta para Universidade 0 9 0 3

(0%) (4%) (0%) (72%)

Importância alta para Centro de Capacitação 1 11 0 3

(5%) (5%) (0%) (72%)

Importância alta para Instituições de Teste 1 34 0 3

(5%) (15%) (0%) (72%)

Importância alta para Feiras e Exposições 13 72 39 3

(63%) (32%) (18%) (72%)

Importância alta para Redes de Informação 8 69 13 4

(40%) (30%) (6%) (100%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

Em relação à indústria de artefatos têxteis, a inovação nas líderes é induzida por fontes

múltiplas de conhecimento para inovar. As mais citadas são: clientes e consumidores

(55%), fornecedores (44%), feiras e exposições (44%), redes de informação (43%), centro

de capacitação (38%), departamento de P&D (37%) e universidade (29%). Ao contrário

das líderes, as seguidoras utilizam tais fontes de forma pouco frequente. As fontes mais

usadas são as feiras e exposições (25%) e as redes de informação (18%). Para as

frágeis, somente 25% das empresas usam clientes e consumidores como fontes de

conhecimento para inovar, sendo essa a fonte mais citada (Tabela 5.4).

52


Tabela 5.4

Importância das Fontes de Inovação na Indústria de Artefatos Têxteis

(Números de empresas que declararam importância alta, 2005)

deres Seguidoras Frágeis

Número de empresas 36 274 616

Importância alta para departamento de P&D 13 16 0

(37%) (6%) (0%)

Importância alta para Fornecedores 16 37 96

(44%) (14%) (16%)

Importância alta para Clientes e Consumidores 19 54 154

(55%) (20%) (25%)

Importância alta para Concorrentes 3 28 61

(10%) (10%) (10%)

Importância alta para Empresa de Consultoria 2 15 10

(7%) (6%) (2%)

Importância alta para Universidade 10 12 14

(29%) (4%) (2%)

Importância alta para Centro de Capacitação 14 12 8

(39%) (4%) (1%)

Importância alta para Instituições de Teste 8 8 4

(22%) (3%) (0,7%)

Importância alta para Feiras e Exposições 16 68 90

(45%) (25%) (15%)

Importância alta para Redes de Informação 16 48 77

(44%) (18%) (12%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

Na fabricação de artigos de malhas, duas das quatro líderes atribuem importância alta

para o departamento de P&D da empresa, assim como para feiras e exposições. Uma

entre as quatro declara a relevância para clientes, concorrentes e redes de informação.

Informações oriundas do meio universitário não são úteis para as líderes desse subsetor.

Dentre as seguidoras, fornecedores (27%), feiras e exposições (25%) e clientes e

consumidores (20%) são as três fontes mais usadas pelas empresas. Nas frágeis, a

situação é ainda mais precária, pois a fonte mais usada, clientes e consumidores, é

restrita à 18% das empresas. As outras, fornecedores, concorrentes, feiras e redes de

informação, são mencionadas por cerca de apenas 5% das empresas (Tabela 5.5).

Logo, das 216 empresas que constituem o segmento de malharias, apenas duas (líderes)

indicam grande relevância para geração interna de novos produtos e processos. Por outro

lado, grande parcela das restantes (seguidoras e frágeis), quando adota a inovação como

arma de competição, apenas é capaz de imitar, de forma defasada, produtos expostos em

feiras e exposições ou de realizar apenas pequenas adaptações (inovação incremental).

53


Tabela 5.5

Importância das Fontes de Inovação na Indústria de Artigos de Malhas

(Números de empresas que declararam importância alta, 2005)

deres Seguidoras Frágeis

Número de empresas 4 59 153

Importância alta para departamento de P&D 2 5 0

(50%) (9%) (0%)

Importância alta para Fornecedores 0 16 9

(0%) (27%) (6%)

Importância alta para Clientes e Consumidores 1 12 27

(25%) (20%) (18%)

Importância alta para Concorrentes 1 11 7

(25%) (19%) (5%)

Importância alta para Empresa de Consultoria 0 5 0

(0%) (9%) (0%)

Importância alta para Universidade 0 1 0

(0%) (2%) (0%)

Importância alta para Centro de Capacitação 0 5 0

(0%) (9%) (0%)

Importância alta para Instituições de Teste 0 5 0

(0%) (9%) (0%)

Importância alta para Feiras e Exposições 2 15 7

(50%) (25%) (5%)

Importância alta para Redes de Informação 1 11 7

(25%) (19%) (5%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

A cooperação para inovar não é praticada por nenhuma das 40 empresas do subsetor de

beneficiamento de fibras naturais. No subsetor de fiação e tecelagem (Tabela 5.6),

também há evidências de que a cooperação para inovação é pouco representativa para

tal subsetor, uma vez que apenas cinco das 21 líderes declararam que cooperam para

inovar, sendo que tal indicador é ainda menos significativo para seguidoras. A não

cooperação das emergentes possivelmente está relacionada ao foco que possuem em

inovação de produtos customizados, envoltos em segredo industrial. No caso das líderes

que cooperam, isso ocorre primordialmente com fornecedores, sendo que em dois casos

há cooperação através de P&D.

54


Tabela 5.6

Cooperação para Inovação na Indústria de Fiação e Tecelagem

(Números de empresas que declararam importância alta, 2005)

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Número de empresas 21 227 222 4

Cooperação para inovação 5 10 0 0

(24%) (5%) (0%) (0%)

Importância alta para cooperação com clientes e consumidores 1 5,72 0 0

(5%) (3%) (0%) (0%)

Importância alta para cooperação com fornecedores 3 3 0 0

(14%) (1%) (0%) (0%)

Importância alta para cooperação com concorrentes 1 0 0 0

(5%) (0%) (0%) (0%)

Cooperou PeD com fornecedores 2 2 0 0

(10%) (1%) (0%) (0%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

Na fabricação de artefatos têxteis, a cooperação também somente é realizada, em maior

proporção (28%), pelas líderes, que possivelmente são as de maior porte, as quais

cooperam especialmente com fornecedores (25%) e clientes e consumidores (19%). Para

nove empresas líderes, a cooperação ocorre através de P&D com fornecedores. No caso

de seguidoras e frágeis, a cooperação é praticamente inexistente, restrito a somente 1%

das firmas de cada categoria (Tabela 5.7).

Tabela 5.7

Cooperação para Inovação na Indústria de Artefatos Têxteis

(Números de empresas que declararam importância alta, 2005)

deres Seguidoras Frágeis

Número de empresas 36 274 616

Cooperação para inovação 10 3 8

(28%) (1%) (1%)

Importância alta para cooperação com clientes e consumidores 7 0 4

(19%) (0%) (0,7%)

Importância alta para cooperação com fornecedores 9 2 0

(25%) (1%) (0%)

Importância alta para cooperação com concorrentes 0 0 0

(0%) (0%) (0%)

Cooperou PeD com fornecedores 9 0 0

(25%) (0%) (0%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

No segmento de artigos e tecidos de malhas, apenas ¼ das líderes cooperam para

inovar. Nesses casos, a cooperação geralmente ocorre mais freqüentemente com clientes

e fornecedores (Tabela 5.8).

55


Tabela 5.8

Cooperação para Inovação na Indústria de Artigos e Tecidos de Malhas

(Números de empresas que declararam importância alta, 2005)

deres Seguidoras Frágeis

Número de empresas 4 59 153

Cooperação para inovação 1 1 20

(25%) (2%) (13%)

Importância alta para cooperação com clientes e consumidores 1 1 20

(25%) (2%) (13%)

Importância alta para cooperação com fornecedores 1 1 0

(25%) (2%) (0%)

Importância alta para cooperação com concorrentes 0 0 0

(0%) (0%) (0%)

Cooperou PeD com fornecedores 1 0 0

(25%) (0%) (0%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

De modo geral, a interação e a cooperação com fornecedores para inovar envolvem

pequeno número de empresas, ainda que seja uma das formas mais frequentemente

citadas. Estudos realizados juntamente com fornecedores sobre novos materiais e

tendências, a partir de solicitações de clientes, são importantes para integrar a cadeia

têxtil. A cooperação junto a fabricantes de bens de capital e fornecedores de bens e

componentes eletroeletrônicos auxilia no desenvolvimento de novos processos. A

interação com fornecedores de insumos e componentes é vista também como forma de

encurtar o ciclo de inovações, para dominar os canais de fornecimento e de

comercialização e de fidelizar marcas.

5.2 PARTICIPAÇÃO DO CAPITAL ESTRANGEIRO

A participação do capital estrangeiro na indústria têxtil é muito pouco expressiva. O

subsetor de fabricação de artigos e tecidos de malhas é composto em sua totalidade por

firmas de capital nacional. No subsetor de beneficiamento de fibras naturais não há firmas

estrangeiras líderes, somente seguidoras e frágeis, que equivalem a 57% e 16% do total

de firmas de cada categoria. O único indicador que diferencia nacionais de estrangeiras

na categoria frágeis é o relativo ao percentual de firmas que inovam. Cerca de 80% das

nacionais inovam, enquanto que, dentre as estrangeiras, não há nenhuma inovadora

(Tabela 5.9).

56


No subsetor de fiação e tecelagem, somente na categoria de seguidoras é possível

observar comportamento mais voltado à inovação das estrangeiras em relação às

nacionais. Nas líderes, todas inovam e exportam. Nas categorias frágeis e emergentes,

não há firmas de capital estrangeiro (Tabela 5.10).

Tabela 5.9

Firmas Estrangeiras na Indústria de Beneficiamento de Fibras Naturais

(Números de empresas e participação no total, 2005)

deres Seguidoras Frágeis

Nacional Estrangeira Nacional Estrangeira Nacional Estrangeira

de firmas 3 0 3 4 26 5

Investimento em

máquinas e equipamentos - - 100% 89% 74,5% -

(% Investimento total)

Exportadoras 100% - 100% 100% 0% 0%

Inovadoras 100% - 100% 100% 79,8% 0%

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

Tabela 5.10

Firmas Estrangeiras na Indústria de Fiação e Tecelagem

(Números de empresas e participação no total, 2005)

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Nacional Estrangeira Nacional Estrangeira Nacional Estrangeira Nacional Estrangeira

de firmas 16 5 216 11 222 0 4 0

Investimento em

máquinas e

equipamentos

(% Investimento

total)

85% 63% 80% 46% 93% - 90% -

Exportadoras 100% 100% 69% 100% 0% - 0% -

Inovadoras 100% 100% 54% 73% 21% - 100% -

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

Tabela 5.11

Firmas Estrangeiras na Indústria de Artefatos Têxteis

(Números de empresas e participação no total, 2005)

deres Seguidoras Frágeis

Nacionais Estrangeiras Nacionais Estrangeiras Nacionais Estrangeiras

de firmas 32 3 248 26 612 4

Investimento em máquinas e

equipamentos (%

Investimento total) 62% 77% 72% 77% 76% 72%

Exportadoras 100% 100% 66% 73% 0% 0%

Inovadoras 100% 100% 54% 8% 35% 0%

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

57


No subsetor de artefatos têxteis, as líderes estrangeiras, que equivalem a 9% do número

total de empresas, diferenciam-se pouco das nacionais, tendo em vista que todas inovam

e exportam, além de apresentarem indicador de investimento em máquinas e

equipamentos pouco superior às nacionais. No caso das seguidoras e das frágeis, há

significativa diferença entre estrangeiras e nacionais no que tange à inovação. Nesse

caso, apenas as nacionais dessas categorias têm algum esforço inovador (Tabela 5.11).

5.3 FINANCIAMENTO: O PAPEL DOS AGENTES PÚBLICOS

As tabelas abaixo mostram a distribuição do financiamento do BNDES ao setor têxtil.

Cabe ressaltar que os dados apresentados referem-se a todos os contratos de

empréstimos do BNDES entre 1996 e 2006. Por isso, mais de um empréstimo pode estar

vinculado a uma só empresa.

Através das Tabelas 5.12 a 5.15, nota-se que o acesso das líderes ao financiamento

público só não ocorre na indústria de beneficiamento de fibras, em que as seguidoras

absorvem 89% e as frágeis 11% de todo o financiamento. Na fiação e tecelagem e na

fabricação de artefatos têxteis, mais de 60% das líderes recorrem aos empréstimos do

BNDES, sendo que nas malharias esse indicador alcança a 100%. No entanto, a maior

parte do recurso emprestado é tomado pelas seguidoras, com cerca de 73% na fiação e

tecelagem, 65% na fabricação de artefatos têxteis e 54% na fabricação de malhas. Em

relação às frágeis, o percentual de financiamentos só é significativo nas malharias, com

participação de 25%. Nota-se que o BNDES possui importância fundamental para

financiamento da atualização tecnológica das seguidoras, propiciando inovações de

processo.

Tabela 5.12

Distribuição de Financiamentos Públicos na Indústria

Beneficiamento de Fibras Naturais (Valores acumulados no período 1996 a 2006)

deres Seguidoras Frágeis

Número de empresas 3 7 30

de empresas financiadas pelo BNDES 1996-2006 0 7 6

(0%) (100%) (20%)

Valores contrados pelo BNDES 1996-2006 0 45652,80 5646,13

(0%) (89%) (11%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

58


Tabela 5.13

Distribuição de Financiamentos Públicos na Indústria de Fiação e Tecelagem

(Valores acumulados no período 1996 a 2006)

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Número de empresas 21 227 222 4

de empresas financiadas pelo BNDES

1996-2006 13 123 57 4

(63%) (54%) (26%) (100%)

Valores contrados pelo BNDES 1996-2006 411206,45 1336761,88 57827,19 20352,63

(23%) (73%) (3%) (1%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

Tabela 5.14

Distribuição de Financiamentos Públicos na Indústria de Artefatos Têxteis

(Valores acumulados no período 1996 a 2006)

deres Seguidoras Frágeis

Número de empresas 36 274 616

de empresas financiadas pelo BNDES 1996-2006 22 144 91

(62%) (53%) (15%)

Valores contrados pelo BNDES 1996-2006 244819,73 600909,79 85501,99

(26%) (65%) (9%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE

Tabela 5.15

Distribuição de Financiamentos Públicos na Indústria de Artigos

e Tecidos de Malhas

(Valores acumulados no período 1996 a 2006)

deres Seguidoras Frágeis

Número de empresas 4 59 153

de empresas financiadas pelo BNDES 1996-2006 4 41 28

(100%) (69,5%) (18,3%)

Valores contrados pelo BNDES 1996-2006 52937,37 134630,01 61479,29

(21,3%) (54,1%) (24,7%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE

59


6. OPORTUNIDADES TECNOLÓGICAS, ESTRATÉGIAS E PROPOSTAS

O processo de acumulação de conhecimento da indústria têxtil é marcado por baixo nível

de oportunidades tecnológicas e de apropriação, tendo em vista a dependência de fontes

exógenas para inovar, como insumos químico-petroquímicos e bens de capital, os

reduzidos níveis de gastos em P&D e, em geral, a inexistência de barreiras legais ou

econômicas para evitar imitação e cópia. Entretanto, o processo de acumulação de

conhecimento tecnológico do setor têxtil, de modo geral, depende de investimentos de

dois tipos. No primeiro, há a necessidade de realização de P&D para dialogar com os

fornecedores de insumos, como no caso da fiação para acompanhar os lançamentos de

novos produtos dos grandes produtores mundiais de fibras químicas, como Dow

Chemical, Rhodia e Dupont. No segundo, há a necessidade de construir uma linha de

produção atualizada em termos de máquinas e equipamentos para produção em larga

escala e com alta produtividade.

Há significativa heterogeneidade tecnológica na cadeia têxtil. As oportunidades

tecnológicas diferem em temos intersetoriais e intrassetoriais, quando a indústria têxtil é

avaliada sob seus diferentes segmentos setoriais e sob a tipologia líderes-seguidorasfrágeis.

O subsetor de beneficiamento de fibras naturais parece ser o de menor oportunidade

tecnológica da cadeia têxtil. Em termos de regime tecnológico, o setor não é intensivo

nem em capital nem em conhecimento. Alguns indicadores econômicos das empresas

frágeis superam os das seguidoras, embora as últimas tenham maior envolvimento com

inovação de processo e produto.

O subsetor de fiação e tecelagem é o de maior oportunidade tecnológica da indústria têxtil

e abriga empresas líderes grandes e eficientes, integradas verticalmente e com boa

inserção externa. É possível que combinem economias de escala e capacidade de

diferenciar produtos, enquanto as seguidoras de maior porte do subsetor são capazes de

exportar bens padronizados em larga escala, produzindo sob plantas atualizadas

operacionalmente, como demonstra o indicador de investimento sobre faturamento (6%).

Embora possuam, em média, intensidade de P&D de apenas 0,2%, realizam 37% do P&D

60


de toda a indústria têxtil, enquanto as líderes respondem por 27%. De fato, líderes e

seguidoras não se distinguem tanto, em relação aos indicadores de investimentos e

inserção externa, ainda que a intensidade de P&D possua diferença mais significativa.

Isso denota que ambas as categorias seguem o mesmo regime tecnológico, existindo

maior homogeneidade entre as empresas.

No subsetor de artefatos têxteis há dois regimes tecnológicos diferenciados. As empresas

deres, com 17% dos gastos de P&D e 7% dos investimentos totais da indústria têxtil, são

mais intensivas em conhecimento e menos em capital, em relação às seguidoras, que

possuem 14% e 32% para os mesmos indicadores, respectivamente. Isso se reflete numa

relação P&D sobre investimento da ordem de 9,8% para as líderes e 1,8% para as

seguidoras. Logo, nota-se que as líderes estão em regime tecnológico de maiores

oportunidades, cumulatividade e apropriação, explorando nichos de mercado de alto valor

agregado, dada sua ótima performance exportadora. Essa estratégia tem produzido

concentração na maior empresa líder de mercado, conforme o indicador de primazia.

Alguns grupos nacionais atuam em diversos subsetores da cadeia têxtil, possuindo

competitividade externa em produtos de cama, mesa e banho e em tecidos (denin e brim).

A entrada de empresas brasileiras em segmentos de alto valor agregado é vista como

alternativa ao segmento de commodities, em que há grande concorrência mundial.

Informações do setor revelam que os tecidos da linha “premium” têm preços, em média,

50% maiores que os convencionais. O exemplo da empresa Cedro Cachoeira ilustra que

a entrada nesses segmentos requer, porém, capacidade tecnológica interna, propensão a

interagir com empresas da indústria química como Basf e Clariant e preocupação com

certificação e selos de qualidade. Outro segmento de produtos de alto valor agregado é o

que inclui fios com partículas nanotecnológicas, capazes de conferir propriedades

bactericidas e antichama, por exemplo, às roupas. É o caso da linha profissional que

abastece confecções que fabricam uniformes para hospitais, forças de segurança e outros

segmentos em que há riscos aos empregados. No caso da Cedro Cachoeira, os tecidos

dessa divisão respondem por 35% das receitas, além de possuírem selo de aprovação da

universidade canadense de Alberta, especializada nesse tipo de certificação.

61


O subsetor de tecidos e artigos de malhas é caracterizado por um único regime

tecnológico que representa todas as empresas. O padrão do subsetor é de baixas

oportunidades tecnológicas, pequena acumulação de conhecimento incorporado no

produto e baixo nível de apropriação. As baixas taxas de investimentos das líderes (2,2%)

indicam que elas operam com baixos níveis de economia de escala e a baixa intensidade

de P&D, que não alcança 0,01%, sinaliza que atuam em mercados de bens padronizados,

concorrendo via preço. Embora as quatro líderes exportem muito em relação ao próprio

subsetor a que pertencem (74%), suas exportações representam apenas 2% do total

exportado pela cadeia têxtil. Logo, as empresas exploram basicamente o mercado interno

e não possuem competitividade externa significativa.

Esse subsetor é o mais vulnerável à concorrência externa, principalmente se

considerarmos o aumento de 628% das importações de malhas no período recente (2005-

2007). Logo, como o setor possui pequena representatividade em termos de valor

agregado, faturamento e pessoal ocupado, em relação aos outros subsetores da cadeia

têxtil, existe o risco de desindustrialização. O Brasil não possui competitividade nos

chamados “tecidos tecnológicos” que envolvem misturas de, por exemplo, algodão com

inox e com linho. Os melhores desempenhos de tecelagens de malhas brasileiras, em

termos de adoção de inovações e capacidade de exportação, estão em confecções

integradas com malharias, como nos casos da moda praia e de produção de roupas

esportivas, que serão abordados na próxima seção. Mesmo assim, dada a falta de

competitividade brasileira em fibras químicas, toda inovação usada por tais empresas

resultam de progressos técnicos oriundos de empresas multinacionais como Dow

Chemical, que investe em fibras elásticas de alta resistência, de menor espessura e com

propriedades específicas, como não desbotar e ser resistente à radiação solar e ao cloro.

Isso significa dizer que processos de integração vertical na cadeia, que internalizem

etapas intensivas em P&D, como a produção de fios, até a etapa de confecção, devem

ser estimulados para exploração de melhores oportunidades tecnológicas no setor.

O bom desempenho brasileiro em fibras naturais e mescladas, a partir de 2001 e 2002,

respectivamente, em termos de saldo da balança comercial, opõe-se ao desempenho em

fibras químicas, em que o Brasil tem déficit estrutural.

62


De modo geral, o processo de redução da importância produtiva, medida em termos de

participação da cadeia têxtil no valor de transformação da indústria de transformação,

contrasta com o aumento do número de micro e pequenas empresas no setor nos últimos

dez anos, em virtude de pequenas barreiras à entrada. Em paralelo, tem havido fusões de

grandes empresas que levaram à redução do seu número no mesmo período. Evidências

mostradas no que tange à capacidade de exportar, adquirir maquinário novo, investir em

P&D e em ativos intangíveis são favoráveis às grandes empresas, líderes ou seguidoras,

dependendo do subsetor considerado. Isso significa dizer que fusões entre empresas

nacionais e entre estas e estrangeiras podem propiciar o surgimento de grandes grupos

nacionais que possam se internacionalizar. A internacionalização pode ocorrer via

investimento direto externo e/ou aquisições de empresas no exterior, a exemplo dos

grupos Santista Têxtil e Coteminas. Grandes grupos nacionais possuem melhores

condições para conquistar posições internacionais e coordenar a cadeia têxtil.

Considerando os quatros grupos industriais (CNAE) avaliados, nota-se que a convivência

de 64 empresas líderes, 630 seguidoras, 1020 frágeis e 4 emergentes é um indicador de

quão heterogênea é a cadeia têxtil brasileira. Ou seja, do total de 1718 empresas, apenas

3,7% possuem eficiência produtiva, por inovarem em processo, e boa capacidade de

desenvolvimento de produtos. Ambas são pré-requisitos para alcançar o mercado

internacional de forma competitiva. A capacidade de desenvolver novos produtos permite

atingir nichos de especialização que não concorram diretamente com a produção das

cadeias que são organizadas por grandes produtores e compradores globais que já

possuem marcas próprias e consolidadas, assim como já construíram redes produtivas

nas quais as etapas produtivas mais intensivas em trabalho já se deslocaram para regiões

com vantagens competitivas nesses fatores, como a Ásia, América Central e México.

Em termos de diretrizes de política industrial para o setor têxtil, apresentamos abaixo

algumas propostas em consonância aos resultados encontrados na pesquisa:

1. Estimular a consolidação de um regime tecnológico das empresas líderes e

seguidoras do subsetor de fiação e tecelagem mais intensivo em

conhecimento na geração de novos produtos, pela posição estratégica que

ocupam. A capacidade de diferenciar produtos nessas empresas determina,

em última instância, grande parte da competitividade da cadeia. Isso também

63


implica em estipular metas para aumentar a intensidade de P&D dessas

empresas, tendo em vista que as médias de 0,5% e 0,2%, respectivamente,

para líderes e seguidoras estão abaixo da média da indústria de

transformação e são proporções reduzidas para assimilação de novas

tendências tecnológicas para produção de fibras. Atenção deve ser dada à

nanotecnologia e às possibilidades de produzir tecidos com fios que possuem

nano partículas que alteram propriedades das fibras, como resistência,

conforto, efeitos antiodor, bactericidas, hidratação e proteção ultravioleta.

Nesse sentido, são positivas as medidas da PDP que busquem maior controle

das propriedades das fibras 9 , como: novas fibras para criar produtos

inovadores para a saúde e segurança do homem; novas fibras que propiciem

a fabricação de produtos inovadores saudáveis com características de

conforto, segurança e bem-estar; compósitos mais fortes, melhores e mais

eficientes; aumento da sustentabilidade de fibras e compósitos com redução

dos impactos no ambiente relacionados ao seu uso e à sua produção; fibras

como materiais que capacitem a fabricação de micro e nanotecnologias; fibras

para novos produtos têxteis com propriedades que facilitem limpeza e

lavagem; fibras como meio para mecanismos inovadores de transferência e

transporte, como gradual liberação de medicamentos; aperfeiçoamento de

métodos de fabricação de fibras, não-tecidos e compósitos fibrosos. Por isso,

os grupos de trabalho que venham a ser criados pela PDP para fins de

desenvolvimento da nanotecnologia devem conter representantes das

empresas mais intensivas em P&D do subsetor de fiação e tecelagem. Tais

proposições equivalem a criar maiores oportunidades tecnológicas e maior

acumulação de conhecimento setorial. Apenas através disso é que insumos e

processos necessários para produção de “tecidos inteligentes” poderão ser

alcançados, como: materiais poliméricos eletricamente ativos, tecidos e fibras

termo sensíveis, materiais fibrosos inteligentes, redes poliméricas com

capacidade de resposta a estímulos, membranas poliméricas com controle de

permeabilidade, sensores de fibras óticas, integração de componentes

fibrosos nas estruturas têxteis, integração com tecnologias fotônicas e

9 Essas propostas constam no documento "Análise das Ações Aprovadas pelo Comitê Executivo em

Relação às Propostas do Estudo Prospectivo T&C" por Caetano Glavam Ulharuzo.

64


eletrônicas, estruturas têxteis responsivas e adaptativas e integração com

aplicações biomédicas 10 ;

2. Articuladas às medidas citadas acima, podem ser implementadas políticas

que visem à criação de centros de excelência na área têxtil no Brasil para que

a política industrial possa conferir competitividade a nível mundial para as

empresas brasileiras. Ações como essas são reivindicadas por industriais do

setor. O foco dessa política poderia estar na criação de capacidade de P&D

voltada para a industrial têxtil, pois segundo os empresários do setor “nós não

temos no Brasil centros de excelência na área têxtil, tão fortes como existem

lá fora [...]”. 11

3. Estimular a integração vertical do setor têxtil. A verticalização das empresas

com know-how em um segmento industrial possibilita reduzir custos de

transação, dominar outros processos industriais, agregar valor aos seus

produtos, ter aprendizado tecnológico, ampliar economias de escala ao longo

da cadeia e criar condições para maior apropriação de investimentos e

retornos da inovação. Um exemplo disso, é uma empresa de fiação e

tecelagem adquirir unidade industrial de acabamento, com vistas a dominar

processos de tinturaria, estamparia e acabamento, para entrada em mercados

de produtos mais sofisticados. Outro exemplo é uma empresa de confecções

que produza seu próprio fio, com capacidade de realizar P&D nessa etapa, a

fim de assimilar novas tendências tecnológicas e articular demandas

específicas aos seus fornecedores de fibras. O crescimento bem sucedido da

Coteminas foi decorrente da estratégia de integração vertical, que também

ocorria em outras partes do mundo, iniciado ao final da década de 90, que a

transformou na maior empresa de produtos têxteis manufaturados no âmbito

do Mercosul, com posição de liderança nos segmentos de artigos para o lar e

malharia (camisas polo, camisetas e meias). 12

10 Idem.

11 Entrevista concedida ao IPEA, dentro do programa PAEDI, por Alvim Fauh Neto da Karsten.

12 Herrmann e Nassar (2000). Disponível em:

http://www.pensa.org.br/anexos/biblioteca/2212008111743_EC00_Coteminas.pdf

65


4. A maior apropriação sobre retornos de investimentos e inovação requer

construção de canais de distribuição, comercialização e marcas próprias.

Design para tecelagem e malharias é fundamental para garantir

competitividade em setores mais a jusante da cadeia, em que há maior

agregação de valor. Nesse sentido, podem ser eficazes as metas da PDP que

vislumbrem o desenvolvimento da capacidade de design têxtil;

5. A PDP deveria estimular a internacionalização dederes nacionais de tal

forma que se transformem em grandes atores no mercado mundial da cadeia

têxtil. Para tal, uma forma de conquistar essa meta é implementar ações

propostas pelo Estudo Prospectivo T&C que visem aumentar a capacidade de

P&D de empresas líderes da cadeia. 13 Outros instrumentos para a

internacionalização poderiam ser processos de fusões e aquisições entre

empresas nacionais e entre estas e estrangeiras, investimentos diretos

externos em países que detenham vantagens comparativas, como baixo custo

de trabalho, ou que possuam acesso privilegiado aos grandes mercados

consumidores. Além disso, as políticas de incentivos à exportação da

indústria, como PROEX-Financiamento, PROEX-Equalização e o Novo

Revitaliza Exportações, poderiam fortalecer as empresas seguidoras para

atingirem metas de aceleração do crescimento de suas exportações. Também

em relação à política externa, deveriam ser buscados acordos preferenciais

de acesso aos mercados dos Estados Unidos e União Européia;

6. Atingir mercados de bens com maior valor agregado não significa deixar de

focar os mercados internacionais commoditizados. Isso porque há líderes e,

principalmente, seguidoras que possuem capacidade tecnológica para

produção em larga escala e com baixos custos, por causa de vantagens

associadas ao nível salarial do pessoal de “chão de fábrica”, a exemplo de

plantas que se deslocaram para o Nordeste, ou porque se aproveitam de

mesclas de fibras naturais (algodão), nas quais o Brasil tem competitividade, e

químicas (poliéster), como no caso da Coteminas;

13 Ação proposta no documento "Análise das Ações Aprovadas pelo Comitê Executivo em

Relação às Propostas do Estudo Prospectivo T&C" por Caetano Glavam Ulharuzo.

66


7. Logo, tanto líderes quanto seguidoras dos subsetores de fiação e tecelagem

como do subsetor de artefatos têxteis devem ser o foco da PDP, em relação

às políticas de capacitação tecnológica, que inclui modernização de bens de

capital, investimentos em P&D e políticas de integração vertical. O foco se

justifica porque, além dos argumentos acima expostos, os setores

representam juntos 85% das firmas da indústria têxtil, concentrando 89% do

pessoal ocupado, 89% do faturamento, 92% do investimento e 93% das

exportações. No entanto, a participação das frágeis nesses números é

preocupante, tendo em vista que constituem 51% do número de firmas e 23%

do pessoal ocupado da indústria têxtil, enquanto respondem por apenas 4%

do investimento total e 7% do faturamento;

8. Embora o número de emergentes seja muito reduzido (4), deveriam receber

maiores aportes ou condições mais favoráveis em programas de estruturação

de empresas emergentes do BNDES, do qual já participam captando 1% dos

recursos financiados ao subsetor a que pertencem. O seu potencial

tecnológico é muito grande, tendo em vista que suas relações

P&D/faturamento e P&D/investimento são de 2,1% e 28%. Segundo

panorama setorial da ABDI (2008), o envolvimento das universidades poderia

ocorrer via incubação de pequenos negócios inovadores da cadeia da moda,

intensivos em tecnologia de comunicação e informação, em técnicas de

beneficiamento, de design ou de montagem de peças. Outra proposta que

poderia atingir pequenas empresas emergentes seria a subvenção de projetos

de inovação, ao invés de financiamento, nos quais os riscos seriam repartidos

com o BNDES e parte dos royalties seriam empregados para financiar outros

projetos. Esta proposta deveria estar articulada à capacidade embrionária de

inovação, já existente em empresas emergentes ou empresas pequenas e

médias das categorias líderes e seguidoras;

9. Como a cadeia têxtil brasileira é pouco integrada, em termos de coordenação

vertical entre fornecedores e usuários e integração de capital a montante e a

jusante, que constitui desvantagem em relação à cadeia têxtil de países

competidores asiáticos, é mister articular os instrumentos de incentivo da PDP

67


ao longo de toda a cadeia, a fim de fortalecer seus elos. A competitividade do

setor têxtil depende de todos os elos da cadeia e não apenas de uma

empresa ou grupo de empresas. Para tal, medidas que promovam cursos

sobre gerenciamento da cadeia de suprimentos (“supply-chain management”),

em instituições de suporte às empresas, permitiriam acompanhar tendências

mundiais do setor e difundir o uso dessa técnica de gestão no Brasil para que

as trocas de informações entre clientes e fornecedores pudessem ser

ampliadas.

10. A questão ambiental é importante porque organismos internacionais já criaram

o “selo verde” para produtos têxteis que respeitem aspectos ecológicos e

toxicológicos. A indústria têxtil chega a consumir 15% da água usada por todo

o setor industrial, além de gerar efluentes tóxicos, como no subsetor de

acabamento. A certificação pode facilitar a entrada em mercados

internacionais. Outras iniciativas, como a certificação do algodão

ambientalmente sustentável em seu ciclo de produção, lideradas por

Coteminas, Marisol, Santista Têxtil/Tavex e Springs Global, também são

exemplos que devem ser apoiados pela PDP. Explorar a vantagem

competitiva em produtos de algodão, como denin e outros da linha cama,

mesa e banho, envolve melhoria constante na produtividade e na qualidade

da fibra de algodão brasileiro. Nesse sentido, o aproveitamento do know-how

de centros de pesquisa como a EMBRAPA e IAC são importantes para fazer

melhoramento genético e desenvolvimento de novas variedades de algodão,

como o “algodão colorido”, o qual pode propiciar produtos diferenciados e

dispensar o uso de corantes, com benefícios vinculados à redução de

efluentes químicos e tóxicos ao meio ambiente;

11. Aumentar a competitividade do elo produtor de fibras químicas, que possui

déficit estrutural. Associações entre grupos empresariais privados e o Estado

podem contribuir para isso. Essa possibilidade é ilustrada pelo projeto que

envolve a Petroquisa, o governo do Estado de Pernambuco e o grupo formado

pelas empresas Vicunha Têxtil, FIT e Polyenka (Companhia Integrada do

Nordeste – CITENE), que pretende criar a Companhia Integrada Têxtil de

68


Pernambuco (Projeto CITEPE). Tal companhia será uma unidade fabril

verticalizada para produção de fibras sintéticas, segundo padrões asiáticos de

competitividade, prevista para 2010. Outro exemplo é a construção da

refinaria de petróleo da Petrobrás/PDVSA no Estado de Pernambuco,

possibilitando a criação do Pólo de Poliéster do Nordeste. O empreendimento

será sustentado pela Petrobrás, pelo grupo italiano Mossi & Ghisolfi (M&G) e

uma fábrica de tecidos sintéticos finos do grupo coreano Kabul Synthetics

Fiber.

12. A PDP deve contemplar medidas de desoneração tributária, previstas e

aprovadas pelo Comitê Executivo de T&C, como 14 : ampliação do prazo de

recolhimento do PIS e COFINS para 60 dias; redução de IPI de insumos sem

similar nacional, como o GLICOL que entra na confecção da “lycra”; ampliar

as possibilidades de créditos das indústrias na apuração do PIS/COFINS não

cumulativos; desoneração de produtos têxteis considerados essenciais, como

uniformes e roupas profissionais; elevação do limite de empréstimo do

governo federal para viabilizar o financiamento, a estocagem e o processo de

industrialização do algodão de produção nacional. Outras medidas de

desoneração tributária deveriam estar condicionadas ao aumento dos gastos

em P&D, ao desempenho exportador das seguidoras e à internacionalização

das líderes, como regras de reciprocidade para suporte de natureza creditício

e tributário da PDP.

13. Outras medidas são associadas aos determinantes de caráter políticoinstitucional

da competitividade, como o uso do poder de compra do Estado

para produtos com maior nível de agregação tecnológica.

14 Medidas propostas no documento "Análise das Ações Aprovadas pelo Comitê Executivo em

Relação às Propostas do Estudo Prospectivo T&C" por Caetano Glavam Ulharuzo.

69


7. ESTRUTURA DA INDÚSTRIA DE VESTUÁRIO

Essa seção analisa os dados da PINTEC para a indústria de vestuário, que compreende

dois subsetores: confecção de artigos do vestuário (CNAE-181) e fabricação de

acessórios do vestuário e de segurança profissional (CNAE-182).

A indústria de vestuário possui grande quantidade de empresas, mesmo considerando

apenas o estrato certo da PIA, restrito a firmas acima de 30 pessoas ocupadas (3.647). A

maioria é de pequeno porte, em média 86 empregados por firma, e pouco intensiva em

capital. A intensidade de P&D (0,18%) é inferior ao da indústria têxtil (0,22%) e bem

abaixo da média da indústria de transformação (0,66%). Nesse universo de 3.647

empresas foram identificadas 12 líderes, 623 seguidoras, 3000 frágeis e 12 emergentes.

Ressalta-se, portanto, a proporção elevada de firmas dessa indústria que são

classificadas como frágeis (82%), em contraste com apenas 0,3% das firmas

consideradas líderes, 17% seguidoras e outras 0,3% emergentes.

Ainda assim, a literatura da área aponta algumas empresas brasileiras que se destacam

em termos de esforço de concepção e criação de novos produtos. No segmento de moda

praia e de roupa íntima destacam-se, no mercado doméstico e até mesmo internacional,

as empresas Rosa Chá, Cia. Marítima e DuLoren. Outras marcas como Zoomp, M. Officer

e Ellus ocupam liderança de mercado doméstico, obtendo bons resultados também no

mercado internacional.

O Gráfico 7.1 indica que as líderes são principalmente inovadoras de produto e de

processo, estando envolvidas, em sua maior parte, com esforço interno de P&D. A

inovação nas seguidoras e frágeis é uma atividade bem menos frequente, pois apenas

40% das seguidoras e 31% das frágeis são inovadoras. As seguidoras realizam inovação

de processo numa frequência superior à inovação de produto, sendo que o mesmo ocorre

para as frágeis. É interessante notar que todas as emergentes são inovadoras de produto

e 75% realizam P&D. A atividade de P&D ocorre numa fração muito modesta das

seguidoras (2,7%) e está ausente nas frágeis.

70


Gráfico 7.1

Inovação nas Firmas Líderes, Seguidoras e Frágeis da Indústria de Vestuário (%)

100%

75%

50%

25%

0%

Inovadoras Inovadora de produto Inovadora de processo P&D

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Nota: 12 Firmas Líderes, 623 Firmas Seguidoras, 3000 Firmas Frágeis e 12 Firmas Emergentes.

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

As Tabelas 7.1 e a 7.2 mostram características estruturais das empresas do setor de

vestuário de acordo com a classificação por inovação e liderança. Comparando líderes e

seguidoras, as líderes pagam salários médios 33% maiores e têm faturamento médio 6,6

vezes superior. A inserção externa das líderes é maior do que a das seguidoras e ausente

nas frágeis, como evidenciada pelas relações entre exportações e faturamento e

importações e custos. Sobre esse aspecto, é interessante notar a capacidade de geração

de divisas das líderes, pois as 12 empresas líderes exportam 17% do total enquanto 623

seguidoras exportam 83%. O padrão exportador das seguidoras é de bens padronizados,

competindo via preços, tendo em vista o baixo envolvimento com P&D. Pela sua

capacidade de exportação, tanto líderes quanto seguidoras merecem atenção

diferenciada por políticas industriais.

Proporcionalmente ao faturamento, as emergentes investem mais em P&D do que todas

as outras categorias de empresas, embora não tenham ainda inserção externa.

Entretanto, é razoável supor que, com tal intensidade de P&D (2,1%), em pouco tempo

71


algumas delas alcancem o mercado internacional com produtos novos, produzidos sob

processos mais atualizados, tendo em vista que todas inovam em produto e metade inova

em processo.

Tabela 7.1

Estrutura da Indústria de Vestuário por Liderança Tecnológica (2005)

Indicador Líderes Seguidoras Frágeis Emergentes

12 623 3000 12

Número de empresas

(0,3%) (17,1%) (82,3%) (0,3%)

14395 109055 189874 2083

Pessoal Ocupado (número de pessoas)

(4,6%) (34,6%) (60,2%) (0,7%)

179,95 1023,30 1009,44 14,65

Salários Totais (R$ milhões)

(8,1%) (45,9%) (45,3%) (0,7%)

1049,94 8195,55 3414,74 62,02

Faturamento (R$ milhões)

(8,3%) (64,4%) (26,8%) (0,5%)

93,23 728,22 209,96 2,80

Lucros Totais (R$ milhões)

(9,0%) (70,4%) (20,3%) (0,3%)

27,08 245,33 69,44 0,20

Investimento Total (R$ milhões)

(7,9%) (71,7%) (20,3%) (0,1%)

29,26 140,34 0,00 0,00

Exportação Total (R$ milhões)

(17,3%) (82,7%) (0,0%) (0,0%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

Tabela 7.2

Estrutura da Indústria de Vestuário por Liderança Tecnológica (2005)

Indicador Líderes Seguidoras Frágeis Emergentes

Número de empresas 12 623 3000 12

Salário médio mensal (R$) 1041,7 781,9 443,0 586,2

Salário médio mensal no pessoal industrial (R$) 858,4 685,3 462,5 540,7

Faturamento médio (R$ milhões) 87,5 13,2 1,1 5,2

Lucro/Custo (R$) 9,5% 9,4% 6,0% 4,2%

VTI/Faturamento (%) 50,3% 37,9% 42,2% 35,1%

Exportações/Faturamento (%) 2,8% 1,7% 0,0% 0,0%

Importações/Custos (%) 1,2% 1,0% 0,1% 1,8%

Investimento/Faturamento (%) 2,6% 3,0% 2,0% 0,3%

P&D/Faturamento (%) 1,0% 0,1% 0,0% 2,1%

P&D/Investimento (%) 39,2% 4,7% 0,1% 653,5%

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

A agregação de valor (relação VTI/Faturamento) é maior para as líderes, sendo coerente

com a capacitação tecnológica. A possível explicação para as frágeis possuírem maior

agregação de valor do que as seguidoras deve-se, paradoxalmente, ao fato de serem

tecnologicamente mais defasadas e, portanto, mais intensivas em trabalho. Por sua vez,

72


os elevados custos fixos relativos aos dispêndios em P&D das emergentes podem

explicar sua menor agregação de valor..

O salário médio do pessoal industrial é maior nas líderes, seguidoras, emergentes, nessa

ordem, em relação às frágeis. Isso reflete a utilização de pessoal mais qualificado, o que

condiz com a capacitação tecnológica das empresas.

73


8. EVOLUÇÃO DA INDÚSTRIA DE VESTUÁRIO

Os indicadores de participação de mercado e mark-up das firmas da indústria de vestuário

são apresentados para o período de 1996 a 2005, na classificação dederes-seguidorasfrágeis.

A metodologia consiste em identificar estas empresas em 2005 e calcular seus

indicadores ao longo do período, para se obter uma análise temporal das firmas do setor

classificadas como líderes, seguidoras e frágeis.

Gráfico 8.1

Participação de Mercado das Líderes, Seguidoras, Frágeis e Emergentes de 2005

Indústria de Vestuário (1996-2005, %)

100%

90%

80%

70%

60%

50%

40%

30%

20%

10%

0%

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

Com base no Gráfico 8.1, nota-se que a participação das 12 líderes tecnológicas da

indústria de vestuário apresenta trajetória declinante, reduzindo pela metade a sua

magnitude entre 1996 e 2005. Por outro lado, as 623 empresas seguidoras do setor

apresentam participação de mercado que oscilou entre 64% e 67%, embora haja

tendência levemente decrescente no período. A categoria das frágeis, que engloba 3000

empresas, possui participação crescente, tendo em vista que o indicador evoluiu de 20%

para 27%. As 12 emergentes possuem participação residual, menor que 1% em todo o

período, mas que cresceu de 0,40% para 0,49%. Tais números evidenciam o quadro geral

74


de perda de competitividade da indústria nacional de vestuário, em que suas empresas

maiores e com maior capacidade tecnológica perderam significativamente participação no

mercado doméstico.

60%

50%

40%

30%

20%

10%

0%

‐10%

‐20%

Gráfico 8.2

Mark-up das Firmas Líderes, Seguidoras e Frágeis de 2005

Indústria de Vestuário (1996-2005, %)

‐30%

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

A situação descrita acima é confirmada pelo Gráfico 8.2, em que as margens de lucro das

seguidoras, amplamente dominantes no mercado doméstico, com 65% de participação,

apresentaram tendência declinante entre 1996 e 2002. A recuperação que se segue não é

suficiente para fazer as margens alcançarem o mesmo patamar do início do período

analisado. Por outro lado, as líderes apresentaram margens crescentes no período, com

crescimento do mark up de 28% em 1996 para 49% em 2005. É paradoxal, por sua vez, a

perda significativa de mercado das líderes tecnológicas simultaneamente ao forte

crescimento do mark up, o que seguramente lhes é assegurado pela atuação em nichos

de mercado em que a inovação é importante. Uma provável explicação para esse

paradoxo é o aumento vigoroso do poder aquisitivo dos estratos de renda mais baixos da

população brasileira nesse período, que resultou em um crescimento mais rápido dos

75


segmentos de vestuário popular relativamente aos nichos dos estratos de alta renda.

Refletindo a pressão competitiva as importações sobre as empresas frágeis o mark up

desta categoria é fortemente reduzido, passando de 41%, em 1996, para 10%, em 2005.

Em suma, ainda que as frágeis tenham ganhado participação no mercado nacional em

relação às firmas domésticas de maior porte e melhor capacidade tecnológica, as líderes

e seguidoras, sua posição competitiva frente às importações é de crescente

vulnerabilidade.

O Gráfico 8.3 mostra o crescimento do número de empresas da indústria de vestuário

(CNAE-181) entre 1996-2005, especialmente a partir do ano de 2000. Esse crescimento

ocorre simultaneamente a uma queda da participação de mercado das quatro maiores

empresas desse subsetor, cuja tendência de queda se inicia em 1999. Em relação ao

subsetor de acessórios,CNAE-182, o número de empresas oscilou ao longo dessa

década, situando-se num patamar ligeiramente superior ao de 1996 (Gráfico 8.4). No caso

do subsetor CNAE-182, houve maior oscilação do indicador CR4, com tendência recente

de declínio da participação das 4 maiores, o que resultou numa participação similar ao do

início da década (Gráfico 8.5).

Gráfico 8.3

Número de Empresas da Indústria de Vestuário – CNAE-181 (1996-2005)

20000

18000

18723

16000

14000

13972

12000

10000

8000

6000

4000

2000

0

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

Número de empresas

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

76


1000

Gráfico 8.4

Número de Empresas da Indústria de Vestuário – CNAE-182 (1996-2005)

900

800

700

600

500

400

300

200

100

736

799

0

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

Número de empresas

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

45%

Gráfico 8.5

Primazia da Indústria de Vestuário (1996-2005)

40%

35%

30%

25%

20%

15%

10%

5%

0%

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

Primazia 4

77


A relativa redução da concentração setorial é indicada pelo indicador de primazia

(participação da maior empresa no grupo das 4 maiores). O Gráfico 8.5 ilustra uma

redução sistemática do peso da maior empresa na receita das quatro maiores no período

entre 1996 e 2005, de 36% para 29%.

O mark-up da indústria de vestuário cresceu apenas de 1998 a 2002, quando se reduz e

atinge nível similar a de 1996. Essa trajetória acompanhou o mark-up do setor (Gráfico

8.7), que também declina sistematicamente a partir de 2001.

60%

Gráfico 8.6

Mark-up das Quatro Maiores Firmas da Indústria de Vestuário (1996-2005)

50%

40%

30%

20%

10%

0%

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

MK 4 maiores

78


60%

Gráfico 8.7

Mark-up das Firmas da Indústria de Vestuário (1996-2005)

50%

40%

30%

20%

10%

0%

1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA/IBGE.

MK total

79


9. SISTEMA SETORIAL DE INOVAÇÃO

9.1 REGIME TECNOLÓGICO SETORIAL

Nessa seção serão descritos o regime tecnológico da indústria de vestuário e as

condições de desenvolvimento de um sistema setorial de inovação.

Alguns aspectos que caracterizam a indústria têxtil também marcam a indústria de

vestuário, como baixo grau de apropriação, oportunidade tecnológica e cumulatividade. O

grau de oportunidade tecnológica pode ser medido pela intensidade de P&D da indústria

de vestuário, de 0,18%, que se situa abaixo da média da indústria de transformação

(0,66%) e da indústria têxtil (0,22%). Isso caracteriza o setor como de baixa oportunidade

tecnológica. Como as barreiras à entrada são pequenas por causa da existência de firmas

pouco intensivas em capital, a competitividade do setor é dependente da estratégia de

diferenciação ou moda, com investimentos em marca, concepção de produto, qualidade e

canais de distribuição e comercialização. A rapidez de resposta da empresa aos sinais de

mercado é uma forma de se antecipar aos concorrentes e aumentar a participação de

mercado. O encurtamento do ciclo de vida dos produtos é uma forma de lidar com a

ausência de mecanismos de apropriação efetiva dos benefícios provenientes de

investimentos realizados na criação de produtos novos.

No setor de vestuário há firmas que procuram diferenciar ao máximo seus produtos, que

são de maior valor agregado, baseados em fashion design, feitos a partir de pequenos

lotes. As vendas são feitas em lojas de griffe, muitas vezes sob franchising. Outras, no

entanto, não possuem marcas, nem capacidade de realizar P&D para diferenciar

produtos, sendo subcontratadas. Algumas possuem economias de escala para produção

de grandes volumes a preços baixos, enquanto outras são de pequeno porte, sendo

contratadas sob regime de facção. 15

15 Empresas faccionistas ou maquiladoras, em geral, não tem linha de produção própria, trabalhando sob

encomenda para terceiros. Tais empresas contam apenas com instalações, equipamentos e mão-de-obra

próprios. A empresa contratante orienta a faccionista em relação à matéria-prima, aos insumos e à

fabricação. Esta modalidade de operação é bastante comum na fase de costura.

80


A terceirização ou subcontratação ocorre a partir de firmas do próprio setor que possuem

marcas ou a partir de comercializadores e varejistas com marcas. 16 No caso de

produtores com marcas o foco é totalmente sobre design e comercialização, sem

envolvimento com produção. Ilustram tal categoria empresas como Nike, Donna Karan,

Ralph Lauren, sendo emblemáticos os casos da Levi Strauss & Co. e o da Benetton. Suas

vantagens comparativas estão centradas nas atividades a jusante, como design,

marketing e comercialização, contratando atividades de produção. Monteiro Filha e

Santos (2002) destacam que tais empresas precisam ter capacitação em gerenciamento

de marcas, de canais de distribuição e comercialização e operação dos pontos de venda;

desenvolver P&D para dialogar com fornecedores de fibras e insumos químicos para o

acabamento na especificação correta; dominar os conceitos de práticas de gestão de

suprimentos para que se possa terceirizar a produção e a logística. Essas empresas

investiram em tecnologias (Eletronic Data Interchange) para controlar a cadeia de

fornecedores e para obter informações de mercado.

Grandes varejistas, que têm investido crescentemente em marcas, também exercem o

papel de coordenar a cadeia de vestuário por causa do seu grande poder de compra.

Supermercados, hipermercados e redes varejistas privilegiam grandes volumes e baixos

preços, tornando-se opção para empresas que possuem economias de escala para

fabricação de mercadorias padronizadas, com baixos preços. São exemplos dessa

categoria empresas como The Gap, C&A e Marks & Spencer.

As diferenças tecnológicas intragrupo tornam-se mais evidentes à medida que os

indicadores são apresentados a partir da taxonomia líderes-seguidoras-frágeis. As líderes

brasileiras na indústria de vestuário parecem que estão focando em etapas mais criativas

do processo produtivo. Essa constatação é feita com base no fato de que as líderes

concentram 8% dos investimentos totais mas respondem por 45% dos gastos em P&D

(Gráfico 9.1). Ou seja, 12 empresas, que são 0,33% do total, possuem em média uma

participação de P&D em relação ao faturamento de 1%, enquanto a participação dos

investimentos em capital fixo em relação ao faturamento é de 2,6%, abaixo da

participação média das seguidoras, de 3% (Tabela 7.2), que por sua vez possuem uma

participação média de P&D de apenas 0,1% (Tabela 7.2). Isso mostra que parte

16 Essa tipologia de modelos de organização de empresas foi realizada por Fleury et alii (2001).

81


expressiva dos investimentos das líderes é concentrada em ativos mais intangíveis,

enquanto as seguidoras provavelmente concentram seus gastos em tecnologia

incorporada em máquinas e equipamentos, por serem intensivas em capital e atingirem

economias de escala suficientes para competirem por preço. Em suma, o regime

tecnológico das líderes baseia-se em maior grau cumulatividade de conhecimento, que

aumenta a apropriabilidade dos novos produtos e maiores oportunidades para novos

lançamentos, em geral determinado pelas 4 estações do ano. Em contraste, o regime

tecnológico das seguidoras é de baixa cumulatividade e apropriabilidade, baseado em

ganhos de escala de logística de produção, inclusive subcontratação, e principalmente

rede de distribuição.

Gráfico 9.1

Investimento Total e Investimento em P&D na Indústria de Vestuário

Investimento Total

Gastos em P&D

20%

0%

8%

0,2% 5,5%

45,1%

49,2%

72%

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

Com intensidade média de P&D de 2,1% (Tabela 7.2), as emergentes respondem por

5,5% dos gastos em P&D (Gráfico 9.1). A preocupação das líderes e emergentes em

desenvolver formas de conhecimento intangíveis para inovar reflete-se nos indicadores da

Tabela 9.1.

No caso das líderes, as fontes de conhecimento para inovar mais indicadas são

fornecedores (76%) e departamento interno de P&D (57%), seguidas de feiras e

exposições (49%) e clientes e consumidores (43%). Nas emergentes, nota-se que as

fontes consideradas mais importantes são as redes de informação (69%), as concorrentes

(61%) e os clientes e consumidores (59%), seguidas de feiras e exposições (55%) e

departamento interno de P&D (40%). É interessante também observar que são também

relevantes para um percentual significativo de firmas as universidades (28%) e as

82


instituições de teste (28%), enquanto os fornecedores são pouco importantes (14%), em

contraste com sua alta importância para a grande maioria das líderes.

Tabela 9.1

Importância das Fontes de Inovação na Indústria de Vestuário

(Números de empresas que declararam importância alta, 2005)

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Número de empresas 12 623 3000 12

Importância alta para departamento de P&D 7 4 0 5

(57%) (1%) (0%) (40%)

Importância alta para Fornecedores 9 104 459 2

(76%) (17%) (15%) (14%)

Importância alta para Clientes e Consumidores 5 103 439 7

(43%) (17%) (15%) (59%)

Importância alta para Concorrentes 2 42 190 7

(16%) (7%) (6%) (61%)

Importância alta para Empresa de Consultoria 1 6,33 42,53 0

(8%) (1%) (1%) (0%)

Importância alta para Universidade 2 8 9 3

(16%) (1%) (0,3%) (28%)

Importância alta para Centro de Capacitação 1 12,28 82,65 0

(8%) (2%) (3%) (0%)

Importância alta para Instituições de Teste 2 9 8 3

(16%) (2%) (0,3%) (28%)

Importância alta para Feiras e Exposições 6 94 413 6

(49%) (15%) (14%) (55%)

Importância alta para Redes de Informação 2 103 340 8

(16%) (17%) (11%) (69%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PINTEC/IBGE.

Nota-se que o departamento de P&D é citado nas duas categorias de empresas como

forma usada para aquisição de conhecimento para geração de inovações, com a

diferença de que as líderes a utilizam em maior frequência do que as emergentes. Isso

deve estar associado ao maior tamanho daquelas em relação a estas. De acordo com a

literatura, a atividade de P&D vem se tornando mais custosa ao longo dos anos, o que

acentua o caráter de custo fixo desse tipo de gasto, o qual somente pode ser bem

suportado por grandes empresas. Além disso, o acesso a redes de informação externas e

a universidades por empresas emergentes são indícios de que tais empresas utilizam

mecanismos para atenuar a desvantagem associada ao seu menor tamanho que, por sua

vez, reflete-se na dificuldade de suportar os custos fixos elevados da P&D.

Entretanto, formas tradicionais ao setor de acesso a conhecimento, como participação em

feiras e exposições, são comuns a ambos os tipos de empresas. No entanto, formas

83


ligadas diretamente à inovação induzida de produto e, assim, a sua efetiva diferenciação,

expressas nos quesitos “sugestões de clientes e consumidores” e “concorrentes”, é bem

mais presente entre as emergentes do que entre as líderes, o que sugere que aquelas

são “tailor made”, operando em pequena escala que permite a customização. Convém

aqui ressaltar que, para as líderes, os fornecedores, possivelmente de máquinas e

equipamentos e de tecidos, são muito citados como forma de acesso a conhecimento

relevante para inovar, ao contrário das emergentes. Isso deve refletir a maior integração

das líderes com empresas mais a montante da cadeia têxtil-vestuário. Esse é um aspecto

importante que deve ser incentivado por políticas industriais, tendo em vista que grande

parte da competitividade asiática está vinculada à grande integração existente entre

vários segmentos da cadeia têxtil-vestuário.

Nas empresas frágeis, em que a atividade inovadora é pouco frequente (31% das firmas),

o acesso a informações ocorre por meio dos mecanismos tradicionais, fornecedores,

clientes e feiras, que apenas capacitam tais firmas para imitar, de forma defasada,

produtos já criados no exterior ou por líderes nacionais. A situação nas empresas

seguidoras pouco difere da descrita nas frágeis porque as fontes de informação são

acessadas em proporção muito similares e porque a ordem de importância das fontes

usadas não se altera substancialmente entre as duas categorias de firmas. O fato de as

seguidoras usarem poucas fontes de informações é condizente com a pequena parcela

destas que são inovadoras de produto (18%). Como visto, a maioria (36%) inova apenas

em processo, o que dispensa conexões complexas em termos de redes de informações

com diferentes agentes do sistema de inovação, requerendo, ao contrário, inter-relações

com fornecedores de bens de capital, na maior parte das vezes. Isso revela uma situação

preocupante porque as empresas seguidoras são numerosas e respondem por grande

parcela de exportações, investimentos, faturamento, lucros, pessoal ocupado e salários,

como visto anteriormente.

Corroborando os dados acima, a Tabela 9.2 informa que as empresas líderes e as

emergentes cooperam para inovar em uma proporção bem superior (33% e 25%,

respectivamente) que as frágeis e seguidoras. No caso das líderes que cooperam para

inovar (33%, i.e., 4 no total de 12 firmas), a grande maioria (76%, i.e., 3 firmas) coopera

com fornecedores, enquanto apenas uma firma (24%),coopera com clientes, concorrentes

84


e outra empresa do grupo. Das emergentes que cooperam para inovar (25%, i.e., 3 no

total de 12 firmas), a cooperação ocorre com firmas de consultoria e fornecedores.

Apenas 3% das seguidoras cooperam, sendo o percentual ainda bem menor para as

frágeis (1%).

Tabela 9.2

Cooperação para Inovação na Indústria Vestuário

(Números de empresas que declararam importância alta, 2005)

Número de empresas 12 623 3000 12

Cooperação para inovação 4 20 24 3

(33%) (3%) (1%) (25%)

Clientes e consumidores 1 10 6 0

(8%) (2%) (0,2%) (0%)

Fornecedores 3 18 6 2

(25%) (3%) (0,2%) (14%)

Concorrentes 1 0 3 0

(8%) (0%) (0,1%) (0%)

Outra empresa do grupo 1 4 0 0

(8%) (1%) (0%) (0%)

Empresa de consultoria 0 2 0 2

(0%) (0,4%) (0%) (14%)

Universidade 0 1 0 0

(0%) (0%) (0%) (0%)

Centro de Capacitação 0 1 18 0

(0%) (0,2%) (1%) (0%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PINTEC/IBGE.

9.2. PARTICIPAÇÃO DO CAPITAL ESTRANGEIRO

A participação do capital estrangeiro na indústria de vestuário não era muito significativa

em 2005 (Tabela 9.3). Destacam-se duas estrangeiras como líderes, que inovam e

exportam, assim como as líderes nacionais. Como seguidoras, todas exportam, mas

somente 33% delas são inovadoras. As estrangeiras classificadas como frágeis não

exportam e não inovam.

Os indicadores de investimentos em máquinas e equipamentos são favoráveis às líderes

e seguidoras nacionais, enquanto que, dentre as frágeis, as estrangeiras parecem ter

investido mais em 2005.

85


Tabela 9.3

Firmas Estrangeiras na Indústria de Vestuário

(Números de empresas e participação no total, 2005)

Nacion

al

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Estrange Nacion Estrange Nacion Estrange Nacion

ira al ira al ira al

Estrange

ira

de firmas 10 2 617 6 2984 17 12 0

Investimento em

máquinas e

equipamentos

(% Investimento

total) 52% 12% 44% 0% 60% 90% 89% -

Exportadoras 100% 100% 73% 100% 0% 0% 0% -

Inovadoras 100% 100% 41% 33% 31% 0% 100% -

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

9.3. FINANCIAMENTO: O PAPEL DOS AGENTES PÚBLICOS

A Tabela 9.4 apresenta as características da distribuição do financiamento do BNDES ao

setor de vestuário, entre 1996 e 2006. Convém ressaltar que uma mesma empresa pode

ter tomado vários empréstimos ao longo desse período. As seguidoras absorvem cerca de

83% dos financiamentos concedidos ao vestuário brasileiro, contra 7% das líderes. Vale

notar que os recursos destinados às frágeis (10%) são também superiores aos recursos

atribuídos às líderes. Esses dados parecem não colocar o BNDES como um financiador

importante das empresas líderes do setor.

Tabela 9.4

Distribuição de Financiamentos Públicos na Indústria de Vestuário

(Valores acumulados no período 1996 a 2006)

deres Seguidoras Frágeis Emergentes

Número de empresas 12 623 3000 12

de empresas financiadas pelo BNDES 1996-2006 5 190 383 5

(41%) (30%) (12%) (42%)

Valores contrados pelo BNDES 1996-2006 39839,15 472327,29 59394,55 577

(7%) (83%) (10%) (0,10%)

Fonte: Elaboração própria a partir da PIA e PINTEC/IBGE.

86


10. OPORTUNIDADES TECNOLÓGICAS, ESTRATÉGIAS E PROPOSTAS

Tal como na indústria têxtil, a indústria de vestuário possui em média baixos níveis de

oportunidades tecnológicas e de apropriabilidade. As oportunidades são dependentes

especialmente de insumos fornecidos pela indústria têxtil, como tecidos mais sofisticados

tecnologicamente, e pela indústria de bens de capital, como máquinas de costura. A

apropriabilidade depende de estratégias de diferenciação de produto e de segmentação

da demanda em nichos. A diferenciação de produto envolve substancial capacitação em

design e qualidade das peças produzidas para que se possam explorar mercados com

preços elevados para lojas de griffe e marcas valorizadas.

Neste sentido, o regime tecnológico das líderes parece ser bem distinto do regime das

seguidoras. Embora representem um número muito reduzido de firmas (0,3%), as líderes

parecem ser as únicas com capacidade de implementar estratégias de agregação de

valor às roupas. Alguns indicadores demonstram isso, como exportação/faturamento

(2,8%), P&D/faturamento (1%) e P&D/investimento (39,2%). Algumas seguidoras também

poderiam ter condições de focar em estratégias de agregação de valor, tomando por

referência os mesmos indicadores, ainda que sejam mais modestos que os das líderes,

como exportação/faturamento (1,7%), P&D/faturamento (0,1%) e P&D/investimento

(4,7%). Isso envolveria mudança de foco das empresas que teriam que se afastar da

estratégia que geralmente adotam, que é a de produção de bens padronizados e

competição por preços. Entretanto, é preciso ressaltar que tal migração entre as

categorias de empresas pode não ser estrategicamente interesse para as empresas

seguidoras, especialmente as de grande porte, que estão assentadas em distintas

vantagens competitivas relacionadas a escala de suas redes de distribuição e vendas,

pertencendo a outro regime tecnológico. Como visto, a relativa estabilidade do market

share das seguidoras pode reforçar essa última posição, mas a queda das suas margens

de lucro mostra que a estratégia das líderes em investir em P&D, design e atuar em

nichos de alto valor agregado é uma estratégia sustentável. Nota-se que, pelo menos

para as maiores seguidoras, sua estratégia de crescimento está baseada em escala e

padronização. Assim, as margens menores podem ser compensadas por uma massa de

lucros maior, que viabilizam seu crescimento consistente com sua estratégia competitiva.

87


Logo, a sua progressão para a categoria dederes é improvável, afinal suas vantagens

competitivas são diferentes, baseadas em distintos regimes tecnológicos.

Essa indústria contém empresas emergentes com grande potencial de sucesso na

estratégia de exploração de nichos de mercados diferenciados, a partir dos indicadores de

P&D/investimento (653%) e P&D/faturamento (2,1%). O lucro anual por empresa é de

apenas R$ 233 mil, o que demonstra que tais empresas ainda estão em fase de

investimentos, especialmente em ativos intangíveis, que ainda alcançarão a fase de

maturação. A partir disso, a inserção externa que ainda não é uma característica

importante para tais empresas, poderá se constituir em fonte de receita relevante para tais

empresas.

Lideres e emergentes parecem seguir o mesmo regime tecnológico, centrado na

capacidade de realizar P&D e na preocupação em diferenciar produtos com base em

design. Por outro lado, as seguidoras e as frágeis aparentam seguir outro regime

tecnológico, no qual não existem estrutura interna de P&D ou valorização de fontes

internas de acumulação de conhecimento tecnológico. Embora haja essa semelhança, as

seguidoras de maior porte não podem ser comparadas com as frágeis, que são “firmas de

produção”, possivelmente em arranjos produtivos locais, enquanto as seguidoras são

firmas de distribuição”, essencialmente comerciantes de grande escala. O faturamento

médio das seguidoras, que é 13 vezes maior do que o das frágeis, ajuda a sustentar essa

tese.

No que tange às frágeis, ampla maioria do setor (82%), dificilmente poderiam aderir a

uma estratégia individual de agregação de valor, tendo em vista que são empresas,

geralmente, de pequeno porte, de origem familiar, prestadoras de serviços às maiores

confecções sob o regime de facção e pertencem ao setor informal da economia. Com

lucro médio anual de R$ 70 mil e ausências de inserção externa e de estrutura interna de

P&D, seria muito pouco provável que suportassem despesas relativas à implantação de

um núcleo de design na própria empresa, principalmente para aquelas que são

faccionistas, dada a ausência de autonomia, recursos humanos qualificados e estrutura

produtiva limitada. Para as outras, resta a opção de consórcio de empresas, na qual

várias pequenas podem se aglutinar para suportar custos de design, de estrutura de

88


exportação e participações em feiras nacionais e internacionais com apoio de instituições

como o SEBRAE e poderes públicos locais.

A estratégia de desenvolver marcas próprias em nichos de mercado que não concorrem

com produtos asiáticos parece ser a melhor alternativa para escapar da acirrada

concorrência nos segmentos de mercado mais padronizados e de baixo preço, mesmo

para pequenas empresas que pertençam à categoria das frágeis, desde que haja suporte

institucional adequado. O caso da cidade de Jaraguá (GO), que contempla parceria entre

instituições e empresariado locais, ilustra um crescente grau de formalização das

empresas e de criação de marcas próprias, investimentos em design de roupas feitas a

partir de jeans, certificações de qualidade, além de promoção de eventos e feiras para o

setor.

Do ponto de vista regional, o suporte às formas espaciais de organização da indústria de

confecções, como os pólos, permite atingir objetivos de desconcentração espacial da

atividade econômica e recuperação de regiões economicamente deprimidas. Isso porque

o elo do vestuário é o de menor gasto de capital por posto de trabalho. Ao contrário da

tendência brasileira recente de instalação de grandes unidades fabris do ramo de

tecelagem no Nordeste, pólos de confecções podem ser incentivados em regiões pobres

nordestinas e unidades de fiação e tecelagem em regiões do Centro-Oeste, que possuem

vantagens na produção de fibras naturais. 17

O apoio às empresas frágeis se justifica porque suas desvantagens, em termos de

escassez de recursos financeiros e humanos, tornam difícil qualquer estratégia de fugir do

poder de coordenação da cadeia exercido pelas grandes redes varejistas. Além do poder

que possuem para ditar preços para as peças de roupas e escolher os insumos a serem

usados, as grandes redes varejistas podem ainda deslocar suas encomendas para outros

países, pois contam com amplo leque de fornecedores devido à existência de fabricantes

que dispõem de trabalho barato em várias partes do globo. Dessa forma, participar de

uma rede de fornecedores mundiais pode representar uma estratégia perigosa, além de

limitar a autonomia econômica e tecnológica empresarial.

17 Propostas como essa também aparecem na literatura do setor, particularmente em Prochnik (2002).

89


Em contraste com as desvantagens competitivas das frágeis que induzem sua

aglomeração em busca de externalidades positivas, as grandes empresas líderes de

confecções possuem diversas vantagens competitivas: 1) recursos disponíveis para

investimento em P&D e estruturação de um núcleo de design, além de valorização de

fontes internas de inovação; 2) capacidade operacional atualizada, com máquinas

automatizadas e de alta produtividade; 3) recursos para investimento em ativos

intangíveis (marcas), em marketing, em canais de distribuição e comercialização,

reforçando representação comercial no exterior; 4) capacidade de coordenação da

cadeia; e 5) possibilidade de explorar nichos de mercado de alto valor agregado tanto no

mercado doméstico quanto no externo.

De fato, a coordenação da cadeia a montante, a partir do elo confecções, e a

especialização em funções vinculadas ao design, à consolidação de redes de distribuição

e à valorização de marcas própria são tendências internacionais consolidadas da cadeia.

Ainda que a coordenação vertical da cadeia seja uma alternativa muita usada a nível

mundial, pode-se considerar a estratégia de integração vertical em alguns casos, ou seja,

tal estratégia envolve um passo além da coordenação da cadeia de fornecedores,

resultando em efetivo controle de capital da empresa âncora dos elos tecnologicamente

estratégicos para a competitividade da cadeia. Com isso, grandes empresas líderes

podem controlar etapas do processo produtivo que são estratégicas do ponto de vista de

introduções de inovações ou para aferir maior apropriabilidade dos retornos econômicos.

No ramo de confecção de jeans, por exemplo, há uma tendência de os clientes exigirem

das tecelagens não apenas o tecido, mas também o jeans já confeccionado.

Segundo Rocha e Nunes (2008), que pesquisaram a viabilidade dessa estratégia na

cidade de Fortaleza, a integração vertical à jusante para a pequena confecção mostrou-se

eficiente, pois a loja da fábrica funciona como canal de distribuição eficiente e acessível à

empresa de pequeno porte, por causa do contato entre o empresário e os clientes no que

tange às tendências de moda, fazendo com que aquele possa planejar e controlar a

produção de forma mais eficiente. Para as empresas de médio e grande porte, a melhor

forma de integração vertical é à montante, em direção à fiação, tecelagem e malharia,

tendo em vista que à jusante haveria concorrência com seus próprios clientes. Os

90


enefícios dessa última forma de integração estão vinculados à obtenção de vantagens

de custo e aquisição de fornecedores importantes.

Se, além da liderança, a empresa for integrada verticalmente, podem-se adicionar as

vantagens associadas à produção dos próprios tecidos com fibras especiais para

produção de roupas que podem ser lançadas no mercado a partir da estratégia de

“technology push” e as vantagens de poder responder rapidamente às mudanças de

sinais do mercado como alteração de gostos, hábitos e de tendências da moda. Porém,

mesmo grandes empresas podem se valer da transferência de atividades produtivas

rotineiras para empresas que funcionam sob regime de facção, por causa das vantagens

em termos de menores custos de trabalho. Não se pode esquecer que a opção de

coordenação vertical de uma rede de sub-contratação pode ser alternativa mais atraente

nas funções mais simples do processo produtivo, uma vez que os ganhos de escala estão

centrados na rede de distribuição e de escopo na capacidade de design.

Quando as empresas não são integradas verticalmente, os custos de transação e as

desvantagens associadas à distância em relação aos consumidores finais podem ser

atenuados com investimentos em tecnologia de informação, como no caso de empresas

que investem em sofisticados sistemas de informação, que incluem capacidade de

previsão e administração de toda a cadeia de suprimentos para atendimento rápido das

mudanças dos padrões de consumo, ou seja, em técnicas de supply chain management

combinadas com tecnologias de informação (Electronic Data Interchange e Efficient

Consumer Response). Além desses investimentos, o custo de transação torna-se baixo

quando as empresas que coordenam verticalmente a cadeia impõem ao produtor

terceirizado o molde, originário do design, e fornece todos os materiais. Dessa forma,

existem poucos ativos específicos, tornando os custos de transação relativamente baixos.

Caso a alternativa de fusão ou aquisição de empresas de tecelagens e confecções não

seja uma opção desejável, no mínimo, parcerias informais deveriam ser realizadas, a fim

de atingir maior grau de sintonia entre as empresas das diferentes etapas produtivas da

cadeia e as exigências do mercado.

91


No caso das empresas frágeis, que são relativamente de menor porte, as políticas de

apoio são semelhantes às micro e pequenas empresas abaixo de 30 pessoas ocupadas,

que estão no estrato da amostra aleatória da PIA. Neste caso, instituições como o

SEBRAE e SENAI podem atuar em diversas áreas, como: 1) apoiar a realização de feiras

para o setor, suportando parte dos custos e exigindo, como contrapartida das empresas,

sua legalização; 2) instituir certificações, como a criação de selos que atestem a

qualidade e a legalidade das roupas, estimulando a criação de marcas próprias; 3)

patrocinar parte dos custos relativos à capacitação e treinamento de funcionários e à

formação de estilistas para criação de roupas com design próprio.

É preciso ampliar a capacidade nacional de formação e treinamento em design, com

criação de cursos novos em escolas federais e instituições de suporte à indústria, tendo

em vista que o design é visto como uma maneira de fugir à concorrência de produtos

chineses.

Outras medidas, também com caráter de suporte institucional, estão vinculadas à

ampliação dos esforços de promoção da moda brasileira no exterior através de

instituições do setor como Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT), Agência

Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEXBRASIL) e Associação

Brasileira de Estilistas (ABEST). Um exemplo disso é o Programa Estratégico da Cadeia

Têxtil Brasileira (TEXBRASIL), na qual foram investidos R$ 51,7 milhões, dos quais R$

25,8 milhões vieram da APEX, com o desenvolvimento de 250 ações no exterior por ano.

Ações como essas podem auxiliar os produtores com marca própria a reforçar

representações comerciais no exterior, tendo em vista o alto custo da montagem de rede

própria de distribuição, cujo domínio é importante para aumentar o grau de apropriação de

retornos econômicos.

Tais medidas são condições para o Brasil adicionar mais valor ao elo da cadeia que é o

mais dinâmico em termos mundiais e o que o País possui menor competitividade, com

pequena inserção internacional em termos de volume de vendas, qualidade e

diferenciação de produto. Para isso, o maior apoio financeiro, creditício e fiscal ao setor,

especialmente às maiores firmas (líderes e seguidoras), deveria estar associado ao

atendimento de metas vinculadas à construção de marcas próprias, capacidade interna de

92


design e de incorporação de insumos com maior conteúdo tecnológico. Várias empresas

brasileiras foram bem sucedidas no esforço de criar marca própria, a exemplo do Grupo

Santista Têxtil, ou no esforço de investir em design e em redes varejistas de distribuição,

reforçando a representação comercial no mercado doméstico, como no caso da Hering.

Outros segmentos de mercado, como surf wear, roupa de praia, moda esportiva e linha

cama-mesa-banho, constituem exemplos de promissoras possibilidades.

Além de ativos intangíveis, quaisquer prescrições de políticas industriais também não

podem prescindir da melhoria do sistema de financiamento público para compra de

máquinas e equipamentos, tendo em vista que grande parte da competitividade também

depende de investimentos em ativos materiais. Isso ganha maior relevância quando se

constata que apenas 36% das seguidoras e 29% das frágeis inovam em processo.

Em resumo, propõem-se as seguintes medidas de política industrial, de acordo com a

tipologia líder-seguidora-frágeis-emergentes:

1) Incentivar a consolidação do regime tecnológico das líderes e emergentes,

centrado em P&D, capacidade de design e atuação em nichos de alto valor

agregado. Para tanto, é fundamental a construção de redes de distribuição

próprias, reforçando a representação comercial no exterior, para aumentar

exportações destes itens de alto valor agregado. Instituições como ABIT,

APEXBRASIL e ABEST deveriam envidar esforços para maior promoção da moda

brasileira no exterior. Logo, medidas da PDP que criam o “Comitê da Moda” para

promover o diálogo entre as cadeias produtivas vinculadas à moda (têxtil e

confecções, gemas e jóias, cosméticos e couro e calçados) são iniciativas úteis

para maior integração da cadeia, difundindo oportunidades e informações. 18 Além

disso, também são importantes investimentos para aumentar a eficiência de

coordenação vertical da cadeia, gerenciando toda a cadeia de suprimentos. Nesse

sentido, cursos sobre “supply chain management” para difusão dessa técnica nas

empresas do setor auxiliariam na difusão de informações entre clientes e

18 Medida proposta no documento "Análise das Ações Aprovadas pelo Comitê Executivo em

Relação às Propostas do Estudo Prospectivo T&C" por Caetano Glavam Ulharuzo.

93


fornecedores, sendo uma meta da PDP que permitiria maior coordenação da

cadeia.

2) Potencializar oportunidades de negócios a partir do conceito de franquias através

da difusão dos benefícios desse sistema entre as empresas brasileiras é uma

medida prevista e aprovada pelo Comitê Executivo T&C que deve ser estimulada, a

exemplo de outras marcas que utilizam tal sistema com sucesso, como Hering,

Recco Confecções e Rosa Chá.

3) Para as seguidoras que prefiram permanecer na estratégia de produção de bens

padronizados e competição por preços, são fundamentais a atualização

tecnológica, o ganho de escala de produção e a construção de rede de distribuição

própria.

4) Para as frágeis, é interessante incentivar a opção de consórcios de empresas, em

que se pode contar com núcleo de design coletivo, estrutura de exportação e

participações em feiras nacionais e internacionais. Tal suporte deve partir de

instituições como o SEBRAE, SENAI e de poderes públicos locais, que, além do

que foi acima citado, pode contribuir para criação de marcas próprias e

certificações de qualidade. O Selo QUAL, previsto como medida pelo Comitê

Executivo T&C, pode ser um instrumento para conquista de qualidade e

produtividade.

5) Independentemente da categoria, apoio financeiro e creditício deve ser dado à

atualização operacional das empresas por meio de investimentos em máquinas e

equipamentos, mas também à construção de marcas próprias. Também é

necessário, ampliar a capacidade nacional de formação e treinamento em design,

com criação de cursos novos em escolas federais e instituições de suporte à

indústria. Incentivar arranjos cooperativos entre empresas de diferentes etapas da

cadeia têxtil-vestuário, a fim de promover maior grau de sintonia entre as

empresas, para que possam responder rapidamente a quaisquer sinais de

mudança do mercado da moda, incorporando insumos de maior tecnologia aos

produtos do vestuário. Em alguns casos, a alternativa de integração vertical parece

também ser adequada mesmo à indústria de vestuário.

6) Como muitas das empresas da indústria de vestuário são de pequeno e médio

porte, são interessantes as medidas da PDP que criam linha de crédito para tais

94


empresas por meio da disponibilização de parte do compulsório bancário 19 . Da

mesma forma, o apoio pretendido aos arranjos produtivos locais são bem-vindos,

principalmente se forem direcionados a atingir as medidas por nós propostas no

item 4 acima.

7) São adequadas as medidas que focam componentes políticos-institucionais da

competitividade, como desoneração tributária de produtos nacionais, políticas de

proteção comercial contra dumping, atenção às regulamentações internacionais e

firmamento de acordos bilaterais, não só para acesso privilegiado a outros

mercados como também para acesso a tecnologias de EUA e União Européia.

8) Investir em formação e qualificação de recursos humanos, como costureiras,

modistas, estilistas, vendedores, designers. 20 Esse objetivo encontra-se nas ações

propostas pelo Estudo Prospectivo T&C, no campo da criação de talentos,

principalmente em design. Essa ação, se implementada, permite atingir muitas das

propostas inseridas nos itens anteriores, em termos de inserção de produtos

brasileiros com maior valor agregado de nichos de mercado específicos, porque

estão sendo previstos 21 : investimentos na capacitação tecnológica ancorada em

tecnologias de informação de novos designers; desenvolvimento de departamentos

de P&D em empresas e em institutos cujo foco sejam novos materiais e roupas

inteligentes; formação de novas competências em design de produtos e processos

intensivos em tecnologia; investimentos na formação de competências técnicas

múltiplas para ampliar a capacidade de tradução de impulsos criativos;

disseminação de desafios de P&D na área de têxteis e de confecções na formação

de profissionais-chave (físicos, químicos, engenheiros, administradores,

economistas, sociólogos etc.); disseminação da criação de áreas de pesquisa

voltadas para inovação no setor por parte de universidades brasileiras; e ampliação

do número de dissertações e teses, assim como a produção científica em têxtil e

confecções.

19 Medida proposta no documento "Análise das Ações Aprovadas pelo Comitê Executivo em

Relação às Propostas do Estudo Prospectivo T&C" por Caetano Glavam Ulharuzo.

20 Pesquisa da CNI registra que 75% das empresas de vestuário e 32,5% das têxteis carecem de mão-deobra

qualificada (ABDI, 2008).

21 Medida proposta no documento "Análise das Ações Aprovadas pelo Comitê Executivo em

Relação às Propostas do Estudo Prospectivo T&C" por Caetano Glavam Ulharuzo.

95


11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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