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ISSN 1415-2762

REME

Revista Mineira

de Enfermagem

Nursing Journal

of Minas Gerais

Revista de Enfermería

de Minas Gerais

VOLUME 08, NÚMERO 2, ABR/JUN DE 2004

REME – Rev. Min. Enf; 8(2): 253-258, abr/jun, 2004 253


REVISTA MINEIRA DE ENFERMAGEM

Uma Publicação da Escola de Enfermagem da UFMG

em Parceria com:

Escola de Enfermagem Wenceslau Braz

Escola de Farmácia e Odontologia de Alfenas

Faculdades Federais Integradas de Diamantina

Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia da Fundação de Ensino

Superior de Passos

Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Juiz de Fora

Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro

Fundação de Ensino Superior do Vale do Sapucaí

Universidade Estadual de Montes Claros

Centro Universitário do Leste de Minas Gerais

Fundação Educacional de Divinópolis

Editor Geral

Francisco Carlos Félix Lana

Diretora Executiva

Aidê Ferreira Ferraz

Editores Associados

Edna Maria Resende

Jorge Gustavo Velásquez Melendez

Tânia Couto Machado Chianca

Conselho Editorial

André Petitat (Université de Lausanne-Suíça), Andréa

Gazzinelli C. Oliveira (UFMG), Anézia Moreira Faria Madeira

(UFMG), Cristina Arreguy de Sena (UFJF), Cristina Maria

Loyola Miranda (UFRJ), Daclê Vilma Carvalho (UFMG),

Emilia Campos de Carvalho (USP-RP), Emiko Yoshikawa Egry

(USP), Estelina Souto do Nascimento (PUC-MG), Flávia

Regina Souza Ramos (UFSC), Goolan Hussein Rassool

(Londres), Lélia Maria Madeira(UFMG), Lídia Aparecida Rossi

(USP-RP), Maguida Costa Stefanelli (USP-SP), Marga Simon

Coller (Connecticut-USA), Maria Consuelo Castrillón

Agudelo (Universidad de Antioquia, Medelin, Colômbia),

Maria Édila Abreu Freitas (UFMG), Maria Helena Larcher

Caliri (USP-RP), Maria Itayra Coelho de Souza Padilha

(UFSC), Marília Alves (UFMG), Maria Miriam Lima da

Nóbrega (UFPB), Maria Imaculada de Fátima Freitas (UFMG),

Marta Lenise do Prado (UFSC), Matilde Meire M. Cadete

(UFMG), Silvana Martins Mishima (USP-RP), Sônia Maria

Soares (UFMG), Sueli Maria dos Reis Santos (UFJF), Raquel

Rapone Gaidzinski (USP-SP), Rosângela Maria Greco (UFJF),

Roseni Rosângela de Sena (UFMG), Silvia Lúcia Ferreira (UFBA)

Conselho Deliberativo

Francisco Carlos Félix Lana- Presidente (Escola de Enfermagem

da Universidade Federal de Minas Gerais), Lucila Junqueira

Carneiro (Escola de Enfermagem Wenceslau Braz), Maria Betânia

Tinti de Andrade (Escola de Farmácia e Odontologia de Alfenas),

Maria Aparecida Vieira (Universidade Estadual de Montes Claros),

Marli Salvador (Universidade Federal de Juiz de Fora), Rosa Maria

Nascimento Moreira (Fundação de Ensino Superior do Vale do

Sapucaí), Flávia Lúcia Guimarães Heyden (Universidade Estadual

de Montes Claros), Sueli Riul da Silva (Faculdade de Medicina do

Triângulo Mineiro), Evânia Nascimento (Fundação de Ensino

Superior de Passos), Sônia Maria Neves (Centro Universitário do

Leste de Minas Gerais), Raquel Silva Assunção (Fundação

Educacional de Divinópolis), Taciana Cavalcante de Oliveira

(Faculdades Federais Integradas de Diamantina).

Normalização Bibliográfica

Maria Piedade Fernandes Ribeiro CRB/6-601

Secretaria Geral

Pablo Oliveira Pimenta - Bolsista da Fundação Universitária

Mendes Pimentel (FUMP/UFMG)

Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais

Revista Mineira de Enfermagem - Av. Alfredo Balena, 190 -

sala 607 - Belo Horizonte - MG - Brasil CEP: 30130-100

Tel.: (31) 3248 9876 Fax.: (31) 3248 9830

E-mail: reme@enfermagem.ufmg.br

Atendimento Externo: 14:00 às 18:00 h

Projeto Gráfico, Produção e Editoração Eletrônica

Brígida Campbel / Iara Velloso / Samuel Rosa Tou (DDC / UFMG)

Assinatura

Secretaria Geral - Tel.:(31) 3248 9876 Fax.:(31) 3248 9830

E-mail: reme@enfermagem.ufmg.br

Indexada em:

• LILACS – Centro Latino Americano e do Caribe de

Informações em Ciências da Saúde

• BDENF – Base de Dados em Enfermagem da SURENF – Sub-

Rede Brasileira de Informação em Enfermagem/ BIREME-OPS.

Texto disponível em

www.bibliomed.com.br e www.enfermagem.ufmg.br

ISSN: 1415-2762

Revista filiada à ABEC – Associação Brasileira de Editores

Científicos

Periodicidade: trimestral – Tiragem: 1.000 exemplares

APOIO

REME – Revista Mineira de Enfermagem da Escola de Enfermagem

da Universidade Federal de Minas Gerais. - v.1, n.21, jul./dez. 1997.

Belo Horizonte: Coopmed, 1997.

Semestral, v.1, n.1, jul./dez. 1997/ v.7, n.2, jul./dez. 2003.

Trimestral, v.8, n.2, abr./jun. 2004 sob a responsabilidade Editorial

da Escola de Enfermagem da UFMG.

ISSN 1415-2762

1. Enfermagem – Periódicos. 2. Ciências da Saúde – Periódicos.

I. Universidade Federal de Minas Gerias. Escola de Enfermagem.

NLM: WY 100

CDU: 616-83

UFMG

COREN-MG

EEUFMG

ABEn-MG

254 REME – Rev. Min. Enf; 8(2): 253-258, abr/jun, 2004


Sumário

EDITORIAL ................................................................................................................................................................... 257

PESQUISAS

A AVALIAÇÃO DO PROJETO VIDA E DO ACOLHIMENTO NO

SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE DE BELO HORIZONTE ...................................................................................... 259

Deborah Carvalho Malta

Emerson Elias Merhy

A INCERTEZA DO FUTURO: A VIVÊNCIA DA GRAVIDEZ EM UMA

COMUNIDADE BRASILEIRA DE BAIXA RENDA ............................................................................................... 268

Ruth Bernarda Riveros Jeneral

Luiza Akiko Komura Hoga

A REFORMA PSIQUIÁTRICA E AS ASSOCIAÇÕES DE FAMILIARES: UNIDADE E OPOSIÇÃO ............ 275

Paula Cambraia de Mendonça Vianna

Sônia Barros

A RESIDÊNCIA TERAPÊUTICA: O MELHOR LUGAR DE SE VIVER ............................................................... 283

Rosana Maria Resgalla

Maria Édila Abreu Freitas

ENFERMAGEM EM SETOR FECHADO-ESTRESSE OCUPACIONAL ............................................................. 290

Daclé Vilma Carvalho

Fabíola Carvalho De Almeida Lima

Tânia Maria Picardi Faria Costa

Elenice Dias Ribeiro De Paula Lima

ESTIMATIVA DA PREVALÊNCIA OCULTA DA HANSENÍASE NO

VALE DO JEQUITINHONHA - MINAS GERAIS .................................................................................................. 295

Francisco Carlos Félix Lana

Evaldo Pinheiro Amaral

Marcela Silvério Franco

Fernanda Moura Lanza

EVOLUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO EM ENFERMAGEM NO MUNICÍPIO DE

UBERLÂNDIA NO PERÍODO DE 1994 A 2002 ................................................................................................... 301

Madalena Gonçalves de Andrade Vieira

Arthur Velloso Antunes

METODOLOGIA QUALITATIVA E QUANTITATIVA NA AVALIAÇÃO DE UM

CURSO DE GRADUAÇÃO ...................................................................................................................................... 307

Ernesto Sílvio Rossi Júnior

Pola Hasmann Paparelli

Jaqueline Kalmus

Renata Paparelli

PREVALÊNCIA DE ÚLCERAS DE PRESSÃO EM PACIENTES CRÍTICOS INTERNADOS EM

UM HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ............................................................................................................................ 316

Marilda Carvalho de Sene Cardoso

Maria Helena Larcher Caliri

Vanderlei José Hass

REME – Rev. Min. Enf; 8(2): 253-258, abr/jun, 2004 255


RELATOS DE EXPERIÊNCIA

A VULNERABILIDADE AOS ACIDENTES ENTRE OS IDOSOS MORADORES DA

FUNDAÇÃO ESPÍRITA JOÃO DE FREITAS DE JUIZ DE FORA, MINAS GERAIS ....................................... 321

Heloisa Campos Paschoalin

Renata Antonáccio

Vânia Maria Freitas Bara

Girlene Alves da Silva

Helisamara Mota Guedes

COMISSÃO DE ESTÁGIOS EM ENFERMAGEM: A EXPERIÊNCIA DO

HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS ......................................... 326

Carla Aparecida Spagnol

Claudia Maria Mello Franco Silva

Elizabeth Soares Figueiredo

Joana Célia M. Nascimento

Maria Bárbara Alves dos Santos

Miguir Teresinha V. Donoso

Mônica Ribeiro Canhestro

Anne Rodrigues G. dos Santos

COMPRESSA CIRÚRGICA: O USO ÚNICO EM QUESTÃO ............................................................................ 330

Adelaide De Mattia Rocha

Alcione Bastos Rodrigues

Maria Cristina Silva

ARTIGOS REFLEXIVOS

PRÁTICAS EDUCATIVAS EM SAÚDE: A ENFERMAGEM REVENDO CONCEITOS NA

PROMOÇÃO DO AUTOCUIDADO ..................................................................................................................... 337

Gisely Abrantes Chalub Menezes

Rebeca dos Santos Duarte Rosa

NORMAS DE PUBLICAÇÃO .................................................................................................................................... 341

ASSINATURA ............................................................................................................................................................... 243

256 REME – Rev. Min. Enf; 8(2): 253-258, abr/jun, 2004


Editorial

BVS – ENFERMAGEM: NOVO PARADIGMA PARA A DIFUSÃO DO

CONHECIMENTO EM ENFERMAGEM

Ao implantar a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), tendo como referência áreas temáticas específicas, a

BIREME propôs às instituições brasileiras de enfermagem a criação da Biblioteca Virtual em Saúde

Enfermagem (BVS – Enfermagem). Em reunião realizada em setembro de 2003, na cidade de Belo Horizonte,

que contou com a representação de várias escolas de enfermagem do Brasil, do CEPEN/ABEn e dos

Centros Cooperantes da BIREME, ficou definida a criação da BVS – Enfermagem, a qual representaria

uma iniciativa fundamental para a organização e difusão das fontes de informação em enfermagem e se

constituiria em um desafio no campo cooperativo entre instituições de enfermagem do País.

Regida pela busca da eqüidade no acesso à informação em saúde; pela promoção de parcerias e consórcios

para maximizar o uso compartilhado de recursos humanos, de tecnologias de informação e de coleções

de fontes de informação; pela promoção do trabalho cooperativo; do intercâmbio de experiências e

pelo desenvolvimento e operação descentralizados em todos os níveis, a BVS inaugura um novo paradigma

ao utilizar a Web. Propõe, enfim, a comunicação intensiva e rápida entre pessoas e a formação das

chamadas comunidades virtuais em torno de interesses específicos.

Construída sobre esse paradigma, a BVS – Enfermagem deverá operar, progressivamente, fontes de

informação baseadas na comunicação, como listas de interesses, listas de discussão, entrevistas on-line,

fóruns, consultas a especialistas, notícias, clippings de notícias etc.

No Brasil, o Projeto BVS – Enfermagem está sendo organizado por um Comitê Consultivo Provisório,

constituído pela ABEn e por várias escolas de enfermagem, e tem a sede de sua Secretaria Executiva na

Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais.

Como proposta inicial a BVS – Enfermagem desenvolverá cinco grandes subprojetos:

1. Base de Dados de Enfermagem - BDEnf – Projeto criado em 1997 para a disseminação da

literatura nacional e internacional de enfermagem, de caráter convencional e não-convencional, essa

base de dados deverá ser otimizada a partir de nova metodologia e de incentivo aos atuais Centros

Cooperantes da Sub-Rede de Enfermagem da BIREME;

2. Textos Completos - As publicações eletrônicas incluem a operação, na BVS, de textos completos

em formato eletrônico da literatura técnico-científica em enfermagem, segundo a metodologia SCIELO.

Toda a literatura brasileira de enfermagem passível de ser indexada nas bases de dados LILACS deverá

ser progressivamente publicada em formato eletrônico e estar disponível na BVS, incluindo periódicos

científicos, monografias, teses, documentos governamentais, documentos da OPAS, da OMS e de outros

organismos internacionais, anais de congressos, manuais, guias e legislação.

3. Portal de Teses - Prevê a incorporação do material produzido pelos Programas de Pós-Graduação

em Enfermagem da Associação Brasileira de Enfermagem;

4. Terminologia/Descritores - Prevê a definição/adoção de vocabulário controlado em enfermagem,

também denominado vocabulário estruturado. São coleções de termos, organizados segundo uma

metodologia na qual é possível especificar as relações entre conceitos, com o propósito de facilitar o

acesso à informação. Os vocabulários são como uma espécie de filtro entre a linguagem utilizada pelo

autor e a terminologia da área e podem funcionar também como assistentes de pesquisa ajudando o

usuário a refinar, expandir ou enriquecer suas pesquisas, proporcionando resultados mais objetivos.

Vocabulários estruturados são necessários para descrever, organizar e prover acesso à informação. O

uso de um vocabulário estruturado permite ao pesquisador recuperar a informação com um termo

exato utilizado para descrever o conteúdo daquele documento científico.

5. Bibliometria - Trata-se do estudo do impacto dos periódicos de enfermagem no Brasil. Propõe o

uso de métodos estatísticos na análise do corpo da literatura em enfermagem para revelar o

desenvolvimento histórico de campos de assuntos e padrões de autoria, publicações e uso.

Além desses subprojetos, a BVS – Enfermagem deverá desenvolver uma rede de perfis de temas e

especialidades na área, que serão aperfeiçoados progressivamente com o objetivo de prover, de modo

eficiente, informação atualizada aos profissionais de saúde e da enfermagem e a outros grupos

interessados em temas específicos.

A BVS – Enfermagem, uma vez implantada, será capaz de maximizar a capacidade das bibliotecas e dos centros

de documentação em acessar fontes de informação, independentemente de sua localização física, ao mesmo

tempo em que amplia contínua e dinamicamente as coleções, minimiza as duplicações e privilegia os produtos

e serviços de melhor qualidade. Para tal, exigirá a participação ativa das bibliotecas e dos centros de documentação

e incluirá a adoção de um modelo avançado de operação da Internet que contribuirá para o atendimento mais

eficiente das demandas de informação da comunidade de enfermagem nacional e internacional.

Prof. Dr. Francisco Carlos Felix Lana

Editor Geral

Profª. Drª. Aidê Ferreira Ferraz

Diretora Executiva

REME – Rev. Min. Enf; 8(2): 253-258, abr/jun, 2004 257


258 REME – Rev. Min. Enf; 8(2): 253-258, abr/jun, 2004


A AVALIAÇÃO DO PROJETO VIDA E DO

ACOLHIMENTO NO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE DE

BELO HORIZONTE

Pesquisas

EVALUATION OF THE VIDA PROJECT AND

RECEPTION IN THE NATIONAL HEALTH SYSTEM IN BELO HORIZONTE

LA EVALUACIÓN DEL PROYECTO VIDA Y DEL

"ACOLHIMENTO" (ACOGIDA) EN EL SISTEMA ÚNICO DE SALUD DE BELO HORIZONTE

Deborah Carvalho Malta 1

Emerson Elias Merhy 2

RESUMO

O estudo propõe uma metodologia de avaliação de serviços de saúde, entendendo-a como um processo permanente e

sistemático, articulada às ações implementadas, com vistas a subsidiar a definição de problemas, mensurar impactos das

ações e reorientar as práticas sanitárias. São analisados os dispositivos de intervenção institucional, no Sistema Único de

Saúde de Belo Horizonte, o Projeto Vida e o Acolhimento, interrogando se os mesmos contribuíram para melhoria das

práticas sanitárias, junto à população infantil. São estabelecidas dimensões de avaliação (financiamento, acesso, eficácia,

publicização, novas tecnologias de trabalho e sustentabilidade do projeto) e indicadores específicos para cada um deles.

São utilizados métodos tanto quantitativos quanto qualitativos, possibilitando integrar enfoques metodológicos diversos.

As mudanças consistiram no aumento do financiamento das ações, na ampliação do acesso, publicização da gestão, na

utilização de novas tecnologias de mudança do processo de trabalho, na maior eficácia dos serviços no Sistema Único de

Saúde de Belo Horizonte, especialmente junto à população infantil. O trabalho analisa as mudanças produzidas no modelo

de atenção e constrói uma metodologia de avaliação de outras experiências.

Palavras-chave: Serviços de Saúde; SUS(BR); Avaliação-Métodos

ABSTRACT

This study proposes an evaluation methodology for health care services, which are seen as a permanent and systematic

process, linked to the work itself, in order to help to define problems, measure the impact of measures taken and guide

sanitary practice. We analyze the means for institutional intervention in the Unified Health System (SUS) of Belo Horizonte,

known as the "Vida" project and the method of reception, inquiring whether this has contributed to improve sanitary

practices among children. The guidelines for evaluation are established - financing, access, effectiveness, publicity, new

work technologies and the sustainability of the project, as well as specific indicators for each of them. Both qualitative and

quantitative methods are used, making it possible to integrate different methodological approaches. The changes included

an increase of funding of the measures, greater access, dissemination of the work being done, the use of new technologies

for change in the work process, more effectiveness in the Belo Horizonte Unified Health System, especially in child care.

The work analyzes changes in the health care model and builds a methodology to evaluate other experiences.

Key words: Health Services; Unified Health System; Evaluation-Methods

RESUMEN

El estudio propone una metodología de evaluación de los servicios de salud como un proceso permanente y sistemático,

articulado con las acciones llevadas a cabo, con miras a subsidiar la definición de problemas, medir impactos de las

acciones y orientar mejor las prácticas sanitarias. Se analizan dispositivos de intervención institucional en el Sistema

Único de Salud de Belo Horizonte, el Proyecto Vida y el Acolhimento (Acogida). La pregunta básica es si contribuyen o

no a mejorar las prácticas sanitarias de la población infantil. Se establecen dimensiones de evaluación (financiamiento,

acceso, eficacia, cuán pública es la gestión, nuevas tecnologías de trabajo, sustentabilidad del proyecto) e indicadores

específicos para cada uno de ellos. Se utilizaron métodos cualitativos y cuantitativos que permiten integrar varios enfoques

metodológicos. Los cambios consistirán en: más financiamiento para las acciones, mayor acceso, gestión más pública,

nuevas tecnologías de cambio de los procesos de trabajo y mayor eficacia de los servicios del Sistema Único de Salud de

Belo Horizonte, especialmente en relación a la población infantil. El trabajo analiza los cambios producidos en el modelo

de atención y construye una metodología de evaluación para otras experiencias.

Palabras clave: servicios de salud; SUS(BR); evaluación-métodos

1

Médica, Professora Adjunta do Dep. Materno Infantil e Saúde Pública da Escola Enfermagem da UFMG, Doutora em Saúde Coletiva (Administração e Planejamento)

2

Médico, Professor Livre Docente do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP

Endereço: Av. Alfredo Balena 190, sala 519, Santa Efigênia, CEP: 30130-100, Belo Horizonte-MG - E-mail: dcmalta@ufmg.br

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):259-267, abr/jun, 2004 259


A avaliação do Projeto Vida e...

INTRODUÇÃO

O atual trabalho se propõe investigar projetos de

intervenção que buscaram efetivar princípios

constitucionais do SUS, analisando os processos

institucionais, as diferentes tecnologias utilizadas,

especialmente as ações nos campos da formulação,

decisão de políticas e da gestão organizacional.

A avaliação de serviços de saúde possui obstáculos,

tanto conceituais quanto operacionais, que vão da

complexidade do objeto, da dificuldade na sistematização

de ferramentas que possam contribuir na sua apreensão,

à obtenção dos dados, fontes, documentos e informações

confiáveis.

O processo de avaliação, discutido por diversos

autores, envolve, necessariamente, um julgamento, uma

atribuição de um valor, uma medida de aprovação ou

desaprovação a uma política ou programa. A avaliação é

entendida, por autores como Sulbrandt (1), como

instrumento para melhorar o desempenho dos programas

sociais, tornando-se uma instância de aprendizagem que

permite reelaborar e melhorar esses programas. Assim,

a avaliação de uma intervenção deve permitir o julgamento

de sua eficácia, mas também dos fatores explicativos dos

resultados obtidos, tendo em vista modificações

posteriores.(2,3)

Avaliar é atribuir valor, entretanto, nem sempre estão

estabelecidos de modo claro os critérios sobre os quais

se determina esse valor e tampouco os objetos que serão

valorizados. Além disso, a avaliação não é imparcial, dotada

de suposta neutralidade técnica, pois depende da visão

de mundo daqueles que a realizam. A maneira como se

estrutura o sistema de informaçôes subordina-se a alguma

concepção de modelo assistencial. A própria construção

da análise dessas informações, igualmente é dotada de

intencionalidade e direcionalidade. Da mesma forma, não

há um único caminho avaliativo, ou seja, não existe uma

verdade única na esfera dos fenômenos sociais, sendo

muitas vezes selecionadas algumas dimensões para a

análise, em detrimento de outras. Os seus resultados são

uma aproximação à realidade e podem ser

operacionalizados por vários caminhos.

Entre as diversas metodologias de avaliação,

Donabedian (4) usa as categorias: estrutura (atributos

materiais e organizacionais), processos (meios e recursos

utilizados) e resultados (grau de consecução dos objetivos

propostos). Sulbrandt (1) adota outras: a análise de metas

(grau de obtenção), processos (usando a monitorização

sistemática na medição da cobertura do programa social)

e impacto (efeitos do programa sobre a população alvo).

O desenho deve medir a situação no início e ao final do

programa.

METODOLOGIA DE AVALIAÇÃO

EMPREGADA

O trabalho atual avalia dispositivos institucionais no

SUS/BH. Entendem-se os dispositivos institucionais como

novas práticas de saúde ou combinações variadas de

recursos que alteram o funcionamento organizacional, mas

que não fazem parte da estrutura das organizações.(5)

Para a análise em questão poderíamos escolher a

totalidade dos projetos ou parte deles. Optou-se por

investigar o Projeto Vida e o Acolhimento, descrevendo

e analisando a reorganização da atenção à criança e os

mecanismos e ferramentas utilizados na implantação da

mudança do processo de trabalho em saúde, avaliando se

esses projetos contribuíram na ampliação do acesso,

humanização e melhoria da qualidade dos serviços

prestados.

O Projeto Vida, implantado a partir de 1994, propôsse

reorganizar a assistência à gestante e à criança no

município. As ações incluíam: assistência integral à saúde

da criança, com acompanhamento do crescimento e

desenvolvimento; programas de imunização, vigilância aos

recém-nascidos de risco, priorizando a captação e o

acompanhamento de recém-nascidos de risco residentes

em áreas de risco; projeto de atenção às doenças

respiratórias na infância; combate à desnutrição de

crianças, gestantes e nutrizes; reorganização do

atendimento pré-natal, prevendo a captação precoce e o

acompanhamento das gestantes, referenciamento ao

parto, ampliação dos leitos de risco de assistência ao

recém-nascido, entre outros.

O Acolhimento foi implementado na rede pública

municipal de Belo Horizonte, em 1995, constituindo-se

numa estratégia de mudança do processo de trabalho em

saúde, buscando alterar as relações entre trabalhadores

e usuários e dos trabalhadores entre si, humanizar a

atenção, estabelecer vínculo/responsabilização das equipes

com os usuários, aumentar a capacidade de escuta às

demandas apresentadas, resgatar o conhecimento técnico

da equipe de saúde, ampliando sua intervenção. Esse

processo possibilitou ainda uma reflexão sobre a saúde

como direito de cidadania, resgatando no cotidiano dos

serviços a ampliação do acesso, a integralidade na

assistência, a resolubilidade, a responsabilização clínica e

sanitária; através das mudanças na micropolítica do

processo de trabalho em saúde, desenhando esse "novo"

fazer em saúde.

Utilizamos métodos tanto quantitativos quanto

qualitativos, possibilitando integrar enfoques

metodológicos diversos, captando as pautas de interação

dos atores sociais e a forma como eles afetaram o

programa e suas consecuções. Segundo Sulbrandt (1) o

uso combinado de métodos permite ao avaliador uma

variedade de enfoques para examinar diferenças sutis que

de outra maneira escapariam da sua atenção. Além disso,

aumenta a legitimidade do estudo e a possível utilização

dos resultados da pesquisa.

Empregamos uma metodologia que se propôs

interrogar os processos institucionais segundo

determinadas dimensões de avaliação: financiamento,

acesso, eficácia, publicização, novas tecnologias de trabalho

e sustentabilidade do projeto. Essas dimensões têm origem

na discussão de determinados grupos sociais implicados

na Reforma Sanitária Brasileira e tomam como

pressuposto de mudança, diretrizes como: a garantia do

acesso universal, a eqüidade e as bases do financiamento.

O uso do financiamento como categoria de avaliação

de determinado modelo assistencial fundamenta-se no fato

de que a aplicação de recursos define a intencionalidade

260 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):259-267, abr/jun, 2004


do governo. O gasto em saúde define campos, demarca

interesses conflitantes, como a disputa pela ampliação do

modelo hegemônico (expansão da indústria capitalista e

procedimentos, ao lado do financiamento de ações

simplificadas e focalizadas para grupos excluídos), ou, por

outro lado, o entendimento da saúde como política

universal, integral e equânime, comprometida com a vida.

O acesso é conceituado por Donabedian (4) como a

"capacidade do paciente obter, quando necessitar, cuidado

de saúde, de maneira fácil e conveniente". O estudo da

acessibilidade permite apreender a relação existente entre

as necessidades e aspirações da população, em termos

de ações de saúde e a oferta de recursos para satisfazêlas.

Utilizamos medidas indiretas do acesso, que indicam

a oferta de serviços e, conseqüentemente, a maior

facilitação do mesmo.

Eficácia é entendida como o poder de produzir um

efeito, ou seja, o benefício ou utilidade para o indivíduo,

por meio de um serviço, tratamento, medida preventiva

ou controle. Pode ser conceituada também como a

capacidade de intermediar a produção de resultados

melhores ou ainda não alcançados anteriormente.(6)

Segundo o dicionário Aurélio, publicar diz respeito a

tornar público, manifestar, divulgar, espalhar, propalar.(7)

O termo publicizar ainda não foi incorporado à língua

portuguesa, embora seja de uso freqüente na linguagem

oral e jornalística. Souza (8) utiliza o termo publicização

no sentido de socialização da informação, de tornar

público e comum o que não era. Optamos por incorporálo,

mesmo constituindo um neologismo. No atual estudo

nos referimos a publicização de um modo ainda mais

amplo, ou seja, a efetiva forma de participação popular

nas definições e no controle das ações de governo, a

construção coletiva das propostas com o conjunto dos

trabalhadores da saúde, a capacidade de gerir o setor

conveniado/contratado de forma a subordiná-lo ao

interesse público, enfim tornar democrática a gestão e

partilhando o processo decisório.

Usualmente o conceito de novas tecnologias é como

o conjunto "de produtos biotecnológicos, drogas e

equipamentos médicos, procedimentos terapêuticos e

sistemas de apoio à decisão".(9) Neste estudo o

empregamos como sendo a utilização de novas

ferramentas que possibilitam intervir no processo de

trabalho buscando respostas e saídas sobre o fazer em

saúde, abordando a micropolítica do trabalho em saúde.

Essas ferramentas visam publicizar o espaço,

transformando-o com novos sentidos e formatos,

instrumentalizando os trabalhadores na gestão efetiva do

seu processo de trabalho.(10)

O conceito de sustentabilidade começou a ser

difundido a partir da Conferência das Nações Unidas sobre

o Meio Ambiente, em 1972, e tem sido gradualmente

incorporado à gestão pública, no sentido de "satisfazer as

necessidades da geração atual sem comprometer as

necessidades das gerações futuras"; envolve, portanto,

eqüidade intergeracional.(11) No estudo tomamos

emprestado o elemento do fluxo, da responsabilidade da

transmissão entre gerações, da reflexão colocada sobre

os determinantes da auto-sustentação, da continuidade,

dos garantidores. O trabalho visa interrogar o porquê de

desmontes, mesmo no caso de projetos que mostram

avanços, bem como interrogar sobre a forma de garantir

a sustentabilidade desses projetos.

Dados os conceitos referenciais das diversas

dimensões de análise, procurou-se interrogá-las

construindo indicadores que medissem possíveis

mudanças ocorridas. Os indicadores propostos, ou os

instrumentos de medição, têm por finalidade dimensionar

a mudança, os resultados ou o impacto de uma atividade,

de um projeto ou de um determinado programa. O

Quadro 1 relaciona os indicadores selecionados e suas

medidas, em cada uma das dimensões avaliativas

propostas.

As fontes de pesquisa constaram de documentos

institucionais que descreviam a implantação do processo,

documentos do Conselho Municipal de Saúde (publicações

periódicas, jornais, atas, relatórios das conferências,

pesquisas), monografias e trabalhos de instituições de

pesquisa; avaliações institucionais e documentos de

entidades de classes, além de relatórios das bases de dados

como: o Sistema de Informação Ambulatorial (SIA/SUS),

Sistema de Informação Hospitalar (SIH/SUS), sistemas de

avaliação existentes na instituição como o Sistema de

Avaliação de Desempenho - SADE, Sistema de Informação

de Mortalidade (SIM) e Sistema de Informação Sobre

Nascidos (SINASC). O período de análise será de 1993 a

1996, estendendo-se até 1997 em alguns momentos em

função das bases de dados existentes.

A utilização de múltiplos instrumentos e focos de

observação é também considerada uma forma de avaliar

a coerência dos resultados, sugerindo uma maior

confiabilidade interna dos dados utilizados, aumentando

assim a validade interna.(3) Na articulação dessas diversas

fontes, as informações quantitativas foram subordinadas

à análise qualitativa. Na contemplação das múltiplas fontes,

buscou-se compensar a insuficiência de uma fonte pela

informação de outra fonte. Dessa forma estaremos

operando com indicadores sinérgicos, ou seja, indicadores

que mesmo não sendo robustos, vão reforçando uma

determinada linha de análise, por apontarem sempre no

mesmo sentido e por trazerem embutidos indícios

semelhantes. Estaremos buscando indícios de mudanças

através de dados que, se isolados, muitas vezes seriam

insuficientes.

RESULTADOS

Optamos por apresentar apenas os principais

resultados em cada dimensão analisada, em função da

extensão do texto. Na dimensão do financiamento houve

uma importante alteração nos recursos investidos, em

função do acréscimo dos investimentos municipais e

recursos federais. Estes últimos foram resultantes da

adesão do município à Gestão Semiplena, elevando o teto

em função do aumento da produção de serviços e melhora

do registro. Os recursos próprios oriundos do tesouro

municipal, passaram de 8,7% em 1992 para 12,4% em 1996.

Outro aspecto importante foi o aumento do gasto

ambulatorial, que, comparado ao recurso hospitalar,

sofreu uma inversão, passando de 49,5% em 1994 para

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):259-267, abr/jun, 2004 261


A avaliação do Projeto Vida e...

53,3% em 1996, mostrando o maior investimento da

gestão na assistência ambulatorial.

Houve um aumento na folha de pagamentos, passando

de 15,9 milhões (1993) para 121,6 milhões (1997) e

ampliação em mais de 1000% na compra de

medicamentos. Foram contabilizados investimentos na

ordem de 40,4 milhões de reais ou 10% dos recursos do

SUS no município, em gastos referentes ao Projeto Vida

e Acolhimento, em 1996. Por dificuldades metodológicas

de acompanhamento ao longo do período, não

conseguimos avaliar o incremento, mas observamos que

o mesmo foi ampliado, especialmente em: Recursos

Humanos, medicamentos, imunização, leitos de risco.

Além de ser efetivamente acrescido por gastos não

existentes anteriormente como: teste do pezinho,

convênio com a Pastoral da Criança, programas como

doenças respiratórias e desnutrição e o acolhimento.

A medida do acesso é complexa, pois a rigor teríamos

que estabelecer a capacidade de o paciente obter, quando

necessário, o cuidado com a saúde. Recorremos então a

medidas indiretas que indicaram o aumento da oferta de

serviços e, conseqüentemente, a maior facilitação do

acesso, mas não o acesso em si. Ocorreu no período um

aumento da capacidade instalada, demonstrada pela

ampliação de diversas unidades, entre elas: Centros de

Saúde que passaram de 118 (1992) para 126 (1996); as

unidades de Urgência passaram de 2 para 4 no mesmo

período; foram criados serviços de saúde mental,

especialidades, laboratórios, entre outros. Ocorreu no

período redução de 10.925 para 7.832 leitos, em função

de maior rigor na regulação pública, controle de fraudes

e internações desnecessárias. Houve também no período

de 1993 a 1996, aumento na produção de procedimentos

ambulatoriais. Os Atendimentos básicos passaram de 6,7

milhões para 14,8 milhões; os procedimentos

radiodiagnósticos de 66 mil para 144 mil, os exames

complementares: 1,1 milhão para 2,3 milhões e as

consultas médicas 1,4 milhão para 2,3 milhões (12, 13).

Apesar do aumento, a oferta de consultas médicas foi de

1,77 consultas/hab/ano; abaixo dos parâmetros do

Ministério da Saúde (2 a 3 cons./hab/ano). As consultas

pediátricas foram 0,33 cons/hab/ano, dentro do esperado

(0,31 a 0,47 cons./hab/ano).(14)

O investimento em Recursos Humanos foi realizado

por meio da contratação por concurso e terceirização.

O número de postos de trabalho em dezembro de 1992

era de 6.432, ampliado para 9.685 em fevereiro de 1997,

representando um acréscimo de 50,2%. Esse aumento

resultou principalmente da incorporação de pessoal do

quadro próprio concursado. Paralelamente houve redução

do quadro de servidores estaduais e federais. Observamos

também iniciativas importantes na capacitação de pessoal.

O indicador, incorporação de outras necessidades no

atendimento, buscou avaliar em que medida as portas da

rede se abriram para as novas demandas colocadas pelos

usuários. O indicador possibilitou detectar propostas e

projetos que conseguiram incorporar necessidades novas,

buscando atenção integral, resolutiva e universal. O evento

estudado foi o programa de acompanhamento das crianças

com doença respiratória, que propiciou o aumento do

vínculo e da responsabilização da equipe com as crianças

inscritas. Esse projeto reduziu em 21% a reinternação

hospitalar em 601 crianças acompanhadas no período.

Para os indicadores de eficácia, optamos por descrever

apenas alguns dos principais resultados, em função da

extensão dos mesmos. Os dados de morbidade

ambulatorial analisados revelam o crescimento dos

atendimentos de casos mais agudos, que cresceram na

rede, de uma média de 49,7% dos atendimentos em 1994,

para 57,5% em 1996. Esses diagnósticos se referem

principalmente às doenças respiratórias leves e

moderadas, otites e asma, traduzindo uma mudança no

perfil ambulatorial, com maior captação de agravos e

riscos, principalmente na pediatria. Quando comparado

o percentual de atendimento aos agudos em 5 CS que

implantaram acolhimento, esse percentual ampliou de 45%

para 58%, enquanto em outros 5 que não implantaram, o

atendimento aos agudos reduziu de 45% para 42% no

mesmo período.

A análise dos dados do SIH mostrou redução das

internações gerais em Belo Horizonte no período de 1993

a 1996, da ordem de 18%. No que se refere às internações

de menores de 28 dias, no período de julho a dezembro

de 1993 e igual período de 1996, encontrou-se uma

redução das internações de residentes em Belo Horizonte

em (-40,2%), permanecendo a mesma proporção de

internações na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Esse quadro repetiu-se em crianças entre 28 dias e

menores de 1 ano, ocorrendo redução nas internações

por: pneumonias (-34,8%), diarréia (-64,5%), septicemia

(-62,2%), bronquite/asma (-29,2%) e desnutrição (-84,6%),

ocorrendo uma redução global de (-40,9%) das

internações em residentes em Belo Horizonte, enquanto

na RMBH a redução foi de (-7,3%).(13)

A cobertura vacinal mostrou-se adequada, situandose

acima de 90% em todas as vacinas, durante o período,

o que resultou inclusive na redução de doenças

imunopreveníveis como difteria, coqueluche, caxumba e

rubéola. O programa de combate à desnutrição

apresentou bons resultados no período observado, 1993

a 1996. Houve aumento da inscrição/captação de

desnutridos de 7.470 crianças para 14.705 inscritos,

declínio da desnutrição nos atendimentos ambulatoriais

de 3,7% (1994) para 3,3% (1996), diminuição das

internações por desnutrição, em -84,6% e da mortalidade

infantil por desnutrição de 12,3% para (4,8%), ambas no

período de 1993 a 1996.(13)

Observamos redução do coeficiente de mortalidade

infantil no município (CMI), distritos e áreas de

abrangência. Verificamos redução do CMI global do

município em 24,4%, que passou de 34,4/1000 (1994)

para 25,8/1000 (1996). Também ocorreu redução do CMI

nas áreas de abrangência. A redução ocorreu em

conseqüência da diminuição do componente pós-neonatal

causado por pneumonias, infecções intestinais, desnutrição

e outras mais facilmente evitáveis.

A análise das condições de saúde referenciadas

territorialmente constitui-se em importante campo de

estudo para evidenciar as desigualdades regionais e intraurbanas.

Visando identificar os diferenciais intra-urbanos

262 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):259-267, abr/jun, 2004


em Belo Horizonte, estudamos o CMI nas diversas áreas

do município, avaliando sua evolução no período 1994/

1996. Foram utilizados os dados do SINASC e SIM dos

anos de 1994 e 1996, bem como mapas temáticos, com o

recorte geográfico das "área de abrangência" dos centros

de saúde. Para o cálculo dos CMI dessas áreas, visando

corrigir possíveis flutuações aleatórias, em decorrência

de números pequenos e instáveis, aplicou-se o método

Bayesiano empírico. Também ocorreu redução do CMI

nas áreas de abrangência. Em 1994, oito áreas

apresentaram CMI acima de 50/1000, e em 1996 não foi

observada nenhuma área com esse coeficiente; em 1994,

vinte e nove áreas apresentaram CMI entre 35 a 50/1000,

caindo para apenas quatro áreas em 1996; em 1996,

observamos um maior número de áreas com CMI abaixo

de 35/1000 em relação a 1994. Em 1996, verificamos maior

homogeneidade na distribuição dos CMI, reduzindo as

desigualdades intra-urbanas. Maiores detalhes poderão

ser obtidos em outra publicação sobre esse tema.(15)

Os indicadores de publicização encontram-se listados

no Quadro 1. No período ocorreu efetiva participação

popular tanto nas definições, quanto no controle e

fiscalização das ações de governo. Esta asseveração é

confirmada, por exemplo, pela ocorrência de inúmeros

fóruns coletivos, pelo crescimento da população envolvida

no processo, pelo compromisso com as deliberações das

Conferências Municipais, pela interlocução com os fóruns

instituídos e pelo papel do CMS, importante interlocutor

e ator político. A participação popular se deu nas

definições, no controle e fiscalização das ações de governo.

Eram 20 Comissões Locais de Saúde em 1993, passando

para 108 em 1996; além de se organizarem Conselhos

Distritais em todos os 9 Distritos Sanitários. Houve

crescimento da população envolvida no processo. Houve

também a preocupação com a construção coletiva das

propostas, envolvendo os trabalhadores nos projetos

institucionais, bem como a criação de colegiados nas

diversas instâncias.

A implantação do Acolhimento tornou-se um bom

marcador do processo, tendo aprovação consensual nos

diferentes fóruns de participação popular (Conselhos e

Conferências). Sua implantação, no entanto, esbarrou em

entraves relacionados às pressões corporativas por parte

dos trabalhadores da saúde, por ser um dispositivo que

altera o processo de trabalho. Pesquisa qualitativa de

avaliação do Acolhimento, conduzida pelo CMS, mostrou

que 95% dos Gerentes e 72,7% dos trabalhadores

preferiam o atendimento na unidade com o acolhimento.

Dentre os pontos positivos, destaca-se a mudança do

acesso aos casos agudos nas unidades, maior humanização

no atendimento, ampliação do acesso, o aumento do

vínculo entre usuários e equipe, a otimização do trabalho

da enfermeira e do trabalho médico.(16)

As novas tecnologias empregadas foram: ferramentas

do Planejamento Estratégico e da Análise Institucional que

impulsionaram as mudanças, possibilitando a reflexão

sobre o cotidiano dos serviços, extraindo as distintas

lógicas institucionais que atuam em um dado serviço,

interrogando sobre o processo de trabalho em saúde,

sobre a "captura do trabalho vivo em ato", a privatização

dos espaços públicos, entre outros. Os instrumentos

empregados foram: a rede de petição e compromisso, os

protocolos assistenciais, o fluxograma e a avaliação de

desempenho.(10)

A avaliação de desempenho constitui uma estratégia

de gestão, que transfere rendimentos aos trabalhadores

mediante o atingimento de indicadores e metas

assistenciais. Esse instrumento possibilitou a pactuação

coletiva em torno do projeto assistencial da Secretaria

de Saúde, a construção coletiva de indicadores e metas, a

avaliação dos processos, a motivação dos trabalhadores,

aprofundando reflexões sobre o cotidiano dos serviços e

suas contradições. Possibilitou aos vários atores a

explicitação de seus projetos, permitindo o debate público

dos espaços privados de trabalho, garantindo-se a inclusão

de indicadores relativos ao Projeto Vida e ao Acolhimento

na planilha de avaliação. O processo foi dinâmico, trazendo

mudanças e envolvendo toda a rede, introduzindo

processos de avaliação e debates constantes sobre

resultados e desempenho. Cabe reconhecer a necessidade

de aperfeiçoamentos e entre as críticas, a principal, foi a

sua descontinuidade, em função do peso financeiro e não

planejamento de longo prazo.

O fluxograma consiste em mapear os fluxos e o

processo de trabalho, publicizando-os, tornando-se uma

ferramenta para reflexão da equipe, mostrando os

interesses distintos, os modos distintos de governar a

instituição e provocando a reflexão das equipes acerca

do seu cotidiano. A rede de petição e compromisso,

constitui-se em um pacto produzido entre atores, em

torno de determinado tema, tornando-se importante por

permitir a publicização e o estabelecimento de

compromissos entre os diferentes níveis diretivos e

operacionais. Os protocolos assistenciais consistiram em

protocolos técnicos na área da atenção à criança e à

mulher, que propiciaram a capacitação das equipes,

definição de atribuições entre as categorias, a

padronização de condutas assistenciais, definição de

critérios de risco, e auxiliaram na formatação da

intervenção multiprofissional. Esses instrumentos foram

utilizados na maioria das equipes (60 a 70%). Pesquisa

qualitativa entre gerentes mostrou que reuniões

periódicas de avaliação do acolhimento eram feitas por

72% das equipes e 66% dos gerentes afirmaram partilhar

de processo de trabalho integrado e avaliavam a equipe

comprometida com o trabalho.(16)

O tema da sustentabilidade torna-se importante na

avaliação da continuidade das experiências. Em Belo

Horizonte, em função de divergências na condução da

Secretaria, ocorreu a troca da equipe dirigente e na

seqüência foi estabelecida outra relação com o setor

contratado / conveniado, reduzindo o controle e a gestão

pública. Essa ruptura resultou na desestruturação de

projetos importantes, principalmente o acolhimento, por

estar mais afeto ao tema da gestão. O Projeto Vida por

ser mais estruturado e incorporado às rotinas das equipes

locais, foi menos atingido. O poder político é determinante

para a hegemonização de dado projeto. A sua sustentação

advém tanto da sua capacidade de governo quanto da sua

governabilidade. A garantia de continuidade de

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):259-267, abr/jun, 2004 263


A avaliação do Projeto Vida e...

determinada proposta, não se faz de forma isolada pelo

poder técnico. Mesmo tendo ocorrido adesão dos

trabalhadores ao projeto, não foi suficiente para se fazer

a institucionalização do mesmo.

DISCUSSÃO

A avaliação deve se constituir em um processo

dinâmico, integrado ao processo decisório, devendo estar

presente nas diferentes esferas de gestão. Deve ser um

processo permanente e sistemático, articulada às ações

implementadas, com vistas a subsidiar a definição de

problemas, reorientar estratégias desenvolvidas, fornecer

elementos para a transformação das práticas sanitárias,

mensurar impactos das ações sobre a condição de vida

de saúde das populações e sobre a organização dos

serviços. Portanto, o monitoramento e avaliação tornamse

etapas fundamentais para gestão dos serviços de saúde.

A opção metodologia de usar das fontes existentes,

estimula os técnicos do serviço no registro rotineiro das

experiências. Essas fontes, mesmo que limitadas ou

incompletas, podem e devem ser usadas, pois o uso

combinado e simultâneo de fontes diversas, permite o

confronto das mesmas, a qualificação dos registros e dados.

Mesmo que tenhamos indícios e não resultados concretos,

na medida em que utilizamos indicadores à exaustão e

fontes várias, o retrato vai se completando. Procede-se ao

confronto de informações e fontes, que são ou confirmadas,

por outros indícios similares, ou desautorizadas, por

inconsistência. Essa é uma abordagem que vem somar

facilidades no processo de avaliação de serviços.(13)

Entre os resultados aferidos, o maior incremento no

financiamento resulta de um novo formato de gestão

pública, investindo-se por exemplo na estruturação da

regulação (Controle e Avaliação), da fiscalização e

acompanhamento do desempenho dos prestadores,

reduzindo fraudes; além do incremento da rede

ambulatorial pública e aumento dos investimentos em

projetos considerados prioritários. Essas evidências nos

permitem concluir que, no período analisado, houve maior

comprometimento orçamentário com os projetos,

produzindo-se maior comprometimento da riqueza social

com a vida e com as políticas públicas em saúde.

Em relação à melhoria do acesso, destacamos a

expansão da rede física, o aumento da produção de serviços

e em especial o maior ingresso de casos agudos, demostram

como a mudança no processo de trabalho implantada na

rede básica, possibilitou a mudança do fluxo nas unidades

básicas. Casos agudos que antes não tinham a possibilidade

de entrada em função do engessamento da porta de entrada

passaram a ser priorizados, melhorando a possibilidade de

resposta e de vigilância à saúde.

Os indicadores de eficácia demonstram diversas

mudanças ocorridas que se traduzem em melhorias no

quadro sanitário, tendo o conjunto de ações

implementadas, produzido impacto positivo. Dentre elas

destacamos a redução das internações, que foi motivada

em parte pela melhoria assistencial, mas também pela

melhoria da gestão, que através do Controle e Avaliação,

controlou fraudes, internações desnecessárias e até

mesmo descredenciou hospitais.

A redução da mortalidade infantil reflete diversos

fatores associados, dentre eles melhorias nas condições

de vida, no saneamento, queda da fecundidade, não

podendo ser atribuídas exclusivamente às intervenções

estudadas. Cabe destacar que a importância da

reorganização da assistência (dos serviços ambulatoriais

e hospitalares), o papel da vigilância à Mortalidade infantil,

no acompanhando das crianças menores de um ano

situadas em áreas de risco, favelas, o que contribuiu nos

resultados, principalmente na maior homogeneização dos

coeficientes de mortalidade infantil em todas as áreas de

abrangência, ou na cidade como um todo.

O tema da publicização foi tomado sob a perspectiva

da democratização da gestão, da construção coletiva das

propostas, partilhando o processo decisório e da

subordinação ao interesse público. Concluímos que essas

foram pautas importantes no SUS/BH.

Através da reorganização do processo de trabalho

houve uma melhor utilização dos recursos da Unidade

de Saúde, qualificando o trabalho dos profissionais,

integrando os profissionais na assistência e resgatando o

trabalho multiprofissional. Essa mudança possibilitou a

ampliação de espaços democráticos de discussão e de

decisão, por ampliar os espaços de escuta e trocas, o que

mobilizou as forças instituintes, que tendem a transformar

as instituições, desencadeando um intenso movimento

de forças criativas e propostas inovadoras.

A gestão pautou-se por práticas democráticas,

buscando partilhar o processo decisório, tentando ampliar

o leque de atores aderidos ao projeto, buscou também o

controle do setor conveniado, estruturando o controle

e avaliação, traçando estratégias de intervenção nos leitos

hospitalares, redesenhando o fluxo, ampliando leitos de

risco, definindo critérios de qualidade, entre outros. O

marcador publicização demarca um novo modo de operar

a política, com princípios democráticos, por isso tornase

tão sensível na avaliação dos modelos.

O uso das ferramentas analisadoras permitiu revelar

qualitativamente o modo de operar o cotidiano, a

finalidade daquele trabalho, os princípios ético-políticos

que comandavam aquela ação. Os trabalhadores passaram

a dialogar, a se expressar, a ocupar os espaços do trabalho,

contribuindo para tornar a gestão menos privada e mais

coletiva na perspectiva da construção do "trabalhador

coletivo".(10)

A discussão da sustentabilidade é uma reflexão

estimulada por experiências de interrupção e

descontinuidade de projetos muitas vezes eficazes e

modernizantes, em função da troca de dirigentes. Tornase

importante avaliar a instituição de mecanismos de autosustentação,

na produção de atores (sujeitos) que

mantenham os projetos, ou, na institucionalização dos

mesmos. Diante desta experiência fica sempre a

interrogação: Como incorporar esses avanços de forma

mais definitiva na instituição Como institucionalizar o

projeto Uma das alternativas consiste na criação de

estruturas técnicas permanentes, investindo-se no grau

de profissionalização da gerência, capacitação, formação,

a fim de sustentar minimamente esses avanços, por se

constituírem em lócus de poder organizacional. Sem

264 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):259-267, abr/jun, 2004


dúvida, este se torna um desafio constante, mostrando a

tensão constitutiva do campo da saúde.

CONCLUSÃO

Neste trabalho pode-se verificar que os dispositivos

analisados, Projeto Vida e o Acolhimento, provocaram

intervenções positivas, possibilitando a ampliação da

dimensão do núcleo cuidador, desencadeando processos

mais conjuntos e partilhados no interior da equipe e

melhorando a resposta assistencial. Ao analisarmos a

intervenção, à luz das dimensões de avaliação -

financiamento, acesso, eficácia, publicização, novas

tecnologias de trabalho e sustentabilidade do projeto –

foi possível concluir que houve avanço e melhoria dos

indicadores analisados. Produziram-se mudanças no

modelo de atenção, permitindo ampliar o acesso,

aumentar a publicização, ampliar o financiamento das

ações e assegurar a maior eficácia dos serviços no SUS

de Belo Horizonte, especialmente junto à população

infantil. Entretanto, não houve sustentabilidade desses

projetos de governo, mesmo com os avanços

reconhecidos.

A saúde é um território de práticas em permanente

estruturação, onde é possível experimentar uma infinidade

de fazeres, não existindo apenas um formato único

possível. Por se representar como um território tenso e

aberto, sempre podem emergir novos processos

instituintes como chaves para a permanente reforma do

próprio campo de práticas, o que constitui em si desafios

constantes para qualquer paradigma a ser adotado.(17)

A gestão em saúde terá de enfrentar a tensão nos

terrenos da política, da organização e do processo de

trabalho, em que os conflitos entre os atores estarão

sempre em cena. Assim, os distintos projetos terão de

utilizar, nas suas estratégias gerenciais, novas modalidades

assistenciais, que não anulem as anteriores, convivendo e

recriando o novo. Cabe também não abandonar as lógicas

administrativas que permitam a construção de um agir

em saúde mais eficiente, sem substituir a racionalidade

principal deste agir, que é a cuidadora, comprometida

com a defesa da vida.

Ao se tentar estabelecer considerações sobre a

generalização de uma dada intervenção, busca-se um

processo de validação externa, ou seja, utilizam-se seus

resultados e aprendizados para estabelecer algumas

reflexões gerais. O presente trabalho possibilitou não

somente avaliar os dispositivos institucionais empregados

em Belo Horizonte e analisar o seu impacto, mas, através

das dimensões de avaliação utilizadas, pôde-se também

contribuir com uma metodologia de abordagem de outras

experiências. A metodologia proposta permite olhar para

outros municípios e avaliá-los quanto ao modelo de

atenção implantado, seus pressupostos, acertos e limites.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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2002.

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):259-267, abr/jun, 2004 265


A avaliação do Projeto Vida e...

Quadro 1 - Indicadores, fontes e medidas utilizados na avaliação do Projeto Vida e Acolhimento.

Indicador de Financiamento

Medida

1. Evolução dos recursos do ROT no financiamento 1. Recursos próprios do tesouro municipal –

do SUS em BH 1992 e 1996

2. Evolução do gasto ambulatorial 2. Proporção do gasto ambulatorial em relação ao

hospitalar entre 1994 e1996

3. Evolução do gasto com pessoal 3. Evolução de gastos com recursos humanos

4. Evolução dos recursos aplicados na compra de 4. Evolução de gastos na compra de medicamentos

medicamentos

5. Gastos especificamente com o Projeto Vida e o 5. Gastos com Projeto Vida e Acolhimento

Acolhimento

Indicadores de Acesso

Medida

1. Evolução da rede física própria e contratada 1. Evolução da rede de serviços próprios e

credenciados entre 1992 e 1996

2. Incorporação de Recursos Humanos 2. Evolução dos postos de trabalho

3. Capacitação da força de trabalho 3. dentificar iniciativas de capacitação de RH no período

4. Evolução da oferta de serviços ambulatoriais 4. Evolução dos procedimentos ambulatoriais de

próprios 1992 a 1996

5. Cobertura de consultas médicas aos residentes 5. Oferta de consultas médicas aos residentes

(Número de consultas/habitante/ano)

6. Incorporação de outras necessidades em saúde 4 6. Identificar a implantação de projetos inovadores na

atenção à criança.

Indicador de Eficácia

Medida

1. Atendimento de casos agudos pediatria 5 1. Medir o atendimento de casos agudos nos CS,

na pediatria entre 1994 e 1996

2. Comparação do atendimento dos casos agudos na 2. Comparar o % de atendimento de casos agudos na

pediatria nos CS com e sem acolhimento 5

pediatria em 5 CS que implantaram acolhimento e

CS sem acolhimento, entre 1994 e 1996

3. Distribuição de atendimentos realizados pela 3. Avaliar a capacidade resolutiva da equipe de

equipe do Acolhimento 5

acolhimento

4. Cobertura Vacinal 6 4. Avaliar a cobertura vacinal em menores de 1 ano,

no período de 1993 a 1996

5. Evolução das doenças imunopreviniveis 6 5. Avaliar no período de 1993 a 1996, a evolução das

doenças imunopreviníveis

6. Evolução das internações em Belo Horizonte 7 6. Avaliar a evolução das internações gerais em

Belo Horizonte no período de 1993 a 1996

7. Internação de menores de 28 dias por 7. Comparar a evolução das internações em crianças

local de residência 7

menores de 28 dias, de Belo Horizonte e da região

metropolitana, em 1993 e 1996

8. Internação de crianças entre 28 dias e 1 ano por 8. Comparar a evolução das internações por causa de

local de residência 7

crianças entre 28 dias e 1 ano, de Belo e da região

metropolitana, em 1993 e 1996

9. Visitas aos RN do programa de Vigilância à 9. Avaliar o % de visitas domiciliares aos menores de

Mortalidade Infantil 4

1 ano do programa de Vigilância à Mortalidade Infantil

em 1994 e 1995.

10. Captação dos desnutridos no programa de 10. Avaliar a evolução de crianças inscritas no

combate à desnutrição 5 programa entre 1996 e 1997

11. Morbidade ambulatorial, hospitalar e mortalidade 11. Avaliação da desnutrição no período de 1993 a 1996,

por desnutrição no município 8

nas diversas bases de dados.

12. Evolução da Mortalidade Infantil 9 12. Evolução do Coeficiente de Mortalidade Infantil entre

1993 a 1996

13. Evolução da Mortalidade Neonatal 9 13. Evolução do Coeficiente de Mortalidade Neonatal

de 1993 a 1996

14. Evolução da Mortalidade Pós-Neonatal 9 14. Evolução do Coeficiente de Mortalidade

Pós-Neonatal, de 1993 a 1996

15. Evolução da Mortalidade Infantil em Belo Horizonte 15. Mede a variação da mortalidade infantil por área de

por área de abrangência dos CS, 1994/1996 9 abrangência dos CS, comparando 1994 e 1996,

investigando diferenças intraurbanas em pequenas áreas

266 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):259-267, abr/jun, 2004


Continuação do Quadro 1.

Indicador de Publicização

Medida

1. Fóruns de concertamento democrático 10 1. Nº de instâncias criadas e fóruns realizados

1993/1996

2. A publicização da gestão nas Unidades de Saúde 11 2. Avaliar formatos organizacionais para a direção da

Secretaria

3. O Acolhimento na perspectiva dos diversos atores: 3. Identificar posicionamento das entidades sobre o

COREN, Sindicato dos Médicos e CMS 12

acolhimento

4. Avaliação dos Gerentes e trabalhadores 12 4. Percentual de aprovação entre trabalhadores e gerentes

5. Avaliação dos usuários 12 5. Percentual de aprovação entre os usuários.

6. Estratégias adotadas na relação público e privado no 6. Medidas adotadas para aumentar o controle do

âmbito do Projeto Vida

público sobre o privado na gestão da Secretaria

7. Evolução do nº de leitos de cuidado intermediário 7. Nº de leitos de cuidado intermediário acrescidos

para recém nascidos

Indicador de novas tecnologias de trabalho Medida

1. Mudanças produzidas pelos instrumentos de 1. Descreve os instrumentos empregados no processo

mudança do processo de trabalho 13

de gestão e avalia qualitativamente algumas mudanças

no processo de trabalho

2. O papel da Avaliação de Desempenho na 2. Avalia qualitativamente a introdução da Avaliação de

implantação do acolhimento 12

Desempenho na rede e seu papel na implantação

do acolhimento

3. O percentual de utilização das ferramentas e 3. Avalia a utilização das ferramentas de mudança do

instrumentos gerenciais pelas equipes 12

processo de trabalho pelas equipes locais (CS)

4. Avaliação da integração do processo de 4. Avalia qualitativamente a integração das equipes,

trabalho das equipes 12

segundo relato dos gerentes e dos CS

Fonte: Malta (2001) que trabalhou com as seguintes bases de dados e relatórios: 1 Relatórios de Gestão da SMSA/BH, _ Planilha construída pelos autores a partir

do SIH/SIA/Folha de Pagamento/Relatório de Gestão, _ SIA, 4 Relatórios de Gestão/ Relatórios da Atenção à criança/SMSA, 5 SADE (Sistema de Avaliação de

Desempenho), 6 PNI/Relatórios de Imunização SMSA, 7 SIH/Relatório de Gestão, 8 Pesquisa de morbidade ambulatorial/SIH/SIM, 9 SIM/SINASC, 10 Documentos do

Conselho Municipal de Saúde, 11 Jornais e documentos das entidades, 12 Pesquisa qualitativa de avaliação do acolhimento CMS-(Conselho Municipal de Saúde), 13

Relatórios da SMSA de implantação do acolhimento e avaliação de desempenho.

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):259-267, abr/jun, 2004 267


A incerteza do futuro:...

A INCERTEZA DO FUTURO:

A VIVÊNCIA DA GRAVIDEZ EM UMA

COMUNIDADE BRASILEIRA DE BAIXA RENDA

THE UNCERTAINTY OF THE FUTURE:

THE EXPERIENCE OF PREGNANCY IN A

BRAZILIAN LOW INCOME COMMUNITY

LA INCERTIDUMBRE DEL FUTURO:

CÓMO SE VIVE EL EMBARAZO EN UNA

COMUNIDAD BRASILEÑA DE ESCASOS INGRESOS

Ruth Bernarda Riveros Jeneral 1

Luiza Akiko Komura Hoga 2

RESUMO

O objetivo desta pesquisa foi descrever como as gestantes vivenciam a gravidez. O método de pesquisa foi a etnoenfermagem

e o recurso da história oral foi utilizado para entrevistar dez gestantes moradoras em uma comunidade brasileira de baixa

renda. O tema cultural foi "Vivenciando a incerteza do futuro: procurando adaptar-se às novas situações, pedindo a Deus

a indicação do caminho certo". A assistência de enfermagem deve estar dirigida à preservação do cuidado cultural. Há

necessidade de reestruturar o cuidado, no sentido de relevar as condições sociais das gestantes no planejamento da

assistência e promover o empoderamento da mulher.

Palavras-chave: Gravidez-Psicologia; Teoria de Enfermagem; Gravidez-Etnologia

RESUMEN

Esta investigación busca describir cómo las embarazadas viven su embarazo. Se empleó la etnoenfermería como método

y la historia oral para entrevistar a las diez embarazadas de una comunidad de escasos ingresos. El tema cultural fue

"Cómo se vive la incertidumbre del futuro: adaptándose a situaciones difíciles y pidiéndole a Dios que indique el buen

camino". La asistencia de enfermería debe buscar preservar el cuidado cultural. Además, se debe reestructurar el

cuidado para aliviar las condiciones sociales de las embarazadas en la planificación de la asistencia y para que la mujer

consiga obtener más poder.

Palabras clave: embarazo-psicología; teoría de enfermería; embarazo-etnología

ABSTRACT

Many Brazilian women suffer with unplanned pregnancy. The purpose of this research is to describe how pregnant

women experience pregnancy. The research method was ethno-nursing, and oral history was used to interview ten

pregnant women living in a low income community. The cultural theme was "The uncertainty of the future: making hard

adaptations in life and asking God to show the right way". The essence of nursing care must be directed to the preservation

of cultural care and, from the point of view of the health care institution, the prenatal care available must be restructured

and, above all, women must be empowered.

Key words: Pregnancy-Psychology; Nursing Theory; Pregnancy-Ethnology

1

Enfermeira obstétrica. Mestre em Enfermagem. Pontifícia Universidade Católica de Sorocaba.

2

Enfermeira obstétrica. Livre docente em Enfermagem. Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo.

Endereço para correspondência: Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419, São Paulo, SP. CEP: 05403000 - email: kikatuca@usp.br

268 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):268-274, abr/jun, 2004


INTRODUÇÃO

A gravidez é uma experiência de vital importância na

vida da mulher e de sua família. Sua vivência é influenciada

por inúmeros fatores, dentre os quais se destacam as

circunstâncias de vida pessoais, a situação marital, as

condições socioeconômicas assim como as crenças e

valores culturais a ela relacionados.

A assistência à mulher e a sua família durante o decurso

da gravidez requer um conhecimento profundo e

abrangente dos fatores que influenciam as vivências desta

importante fase da vida. Pressupõe-se que tais experiências

são fortemente influenciadas pelas crenças e pelos valores

culturais relativos à gravidez, assim como pelas condições

socioeconômicas da família.

Avalia-se que a compreensão ampla e profunda de tais

experiências, narradas a partir da visão de mundo e da

realidade vivida pelas próprias gestantes, possibilita um

planejamento da assistência pré-natal socioculturalmente

significativa.

OBJETIVO DO ESTUDO

Compreender e descrever como as gestantes

vivenciam a sua gravidez.

REVISÃO DA LITERATURA

O crescimento demográfico sofreu queda acentuada

no Brasil nas últimas décadas. A taxa de fecundidade, de

6,2 filhos por mulher nos anos 70 declinou para 2,4

atualmente.(1) Um grande contingente de mulheres

continua sofrendo com a gravidez não planejada. Cerca

de dez milhões de mulheres brasileiras estão expostas à

gravidez involuntária, e 800.000 a 1.100.000 abortos

clandestinos são praticados anualmente. Muitas gestações

não planejadas prosseguem, mas continuam indesejadas

até o nascimento. Mulheres com menor instrução e renda

apresentam maiores taxas de fecundidade e mortalidade

materna e menor acesso aos serviços de planejamento

familiar, assistência pré-natal e parto. O período gravídico

é vivenciado por essas mulheres de diversas formas e

depende da situação de vida pessoal, marital e familiar e

do contexto sociocultural.(2)

A gestação e o parto são eventos marcantes porque

determinam modificações afetivas, sociais, e biológicas na

vida da mulher e de sua família. Existem mitos e símbolos

culturais que norteiam o comportamento em relação aos

papéis sociais e de gênero relativos à gravidez, ao parto e

à maternidade(3-4) e as crenças e valores culturais que

permeiam o processo da gestação e do parto e os

transformam em eventos sociais.(5)

A gestação é permeada por sentimentos profundos e

complexos e pode ser vivida com plenitude ou ser

angustiante. Uma ou outra vivência dependem da história

pessoal e da situação social de cada mulher e de cada

família.(6) A gravidez desejada pode propiciar sentimentos

de euforia por representar a continuidade da família e a

reafirmação da feminilidade da mulher.(7) Entretanto, a

sua ocorrência em circunstâncias de vida adversas pode

ser sinônimo de sofrimento para a mulher.

A gravidez pode representar uma forma de preencher

o vazio provocado pela falta de expectativas em relação

ao futuro, segundo a visão de um grupo de adolescentes

que vive na marginalidade social. Muitas dessas

adolescentes chegam a engravidar porque a maternidade

permite desempenhar novos papéis sociais e formar redes

de parentesco que podem ser valiosos em situações de

necessidade e para melhorar a auto-estima.(8) As

problemáticas associadas à deteriorização da identidade

social e à ausência de expectativas positivas para o futuro

são conseqüências da situação de pobreza que é

estigmatizante para o ser humano.(9)

A gravidez provoca um grande impacto e pode gerar

sentimentos de frustração, sobretudo para mulheres

solteiras e suas famílias, porque ela dificulta ou impossibilita

a concretização de antigas aspirações relativas ao

casamento.(10) O pensamento de proteção mágica

próprio da adolescência influencia os comportamentos

nesta fase da vida e pode levar os adolescentes a

praticarem atos sem planejamento, pois muitos deles

imaginam estar protegidos por fantasias de impunidade,

conseqüentes aos resquícios do senso infantil de

onipotência.(11)

A gestação representa para as mulheres um período

de elaboração de suas vidas e é influenciada pelo meio

social. As experiências difíceis vividas por amigos, vizinhos

e familiares, que desvirtuam a gravidez ou exageram seus

aspectos negativos, podem influenciar o pensamento das

gestantes e fazer com que a gravidez passe a ser sinônimo

da necessidade de grandes enfrentamentos.(5)

A vivência da gravidez é permeada por sentimentos

positivos quando ela é desejada e pelo medo, quando

ocorre de forma involuntária. As gestantes convivem com

dúvidas e preocupações relativas ao bem-estar fetal e ao

parto, sentimentos de ambivalência em relação a vários

aspectos relacionados à gravidez, resignação em situações

de abandono e felicidade nos casos de gravidez desejada,

quando há apoio e participação familiar.(12)

Uma das principais preocupações de gestantes

atendidas pelo Sistema Único de Saúde é a incerteza da

disponibilidade de leito para atendimento ao parto.(13)

A população da Cidade de São Paulo convive com a

problemática da má distribuição de leitos obstétricos, pois

existem bairros onde o proporção de leitos é menor do

que 1/1.000 habitantes.(14) Esta é também a realidade da

cidade de Sorocaba, onde esta pesquisa foi realizada.

Não foram encontrados na literatura latino-americana,

estudos descrevendo a vivência da gravidez na perspectiva

sociocultural entre mulheres moradoras em comunidades

de baixa renda, o que justificou a realização desta pesquisa.

MÉTODO DE PESQUISA

A etnoenfermagem(15) foi utilizada como método de

pesquisa e o Processo de Observação, Participação e

Reflexão (OPR Model) preconizado pelo método foi

desenvolvido para a coleta de dados.

LOCAL DA PESQUISA

A pesquisa foi desenvolvida em uma comunidade de

baixa renda da cidade de Sorocaba, do interior do Estado

de São Paulo, Brasil, a qual começou a se formar em 1984

com a chegada de famílias do interior do Estado do Paraná,

que começaram a construir os seus barracos. Estes foram

gradualmente substituídos por casas de alvenaria, pelo

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):268-274, abr/jun, 2004 269


A incerteza do futuro:...

esforço dos próprios moradores. Porém, a vila é

considerada ilegal porque sua formação começou com a

invasão de um terreno do governo federal. Apesar da

condição de irregularidade dos domicílios, eles são

servidos por creche, pré-escola, centro comunitário e

rede de água e esgoto.

As famílias dessa comunidade enfrentam dificuldades

econômicas, poucas condições de acesso às instituições

de saúde e ao emprego devido à baixa escolaridade e

escassas oportunidades de lazer. As pessoas conhecemse

entre si e é costume na comunidade o

compartilhamento de idéias, dificuldades e possibilidades,

que ocorrem nos momentos de interação social o que

permite considerá-los possuidores de uma identidade

sociocultural própria.

O DESENVOLVIMENTO DO PROCESSO

DE OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE

O processo de observação primária do cenário

cultural ocorreu no decorrer de algumas visitas

domiciliares a gestantes atendidas no serviço pré-natal

da unidade de saúde, quando observava-se apenas o

cenário cultural. A fase de participação primária, em que

o pesquisador participa das ações da cultura mas continua

observando, iniciou-se por meio da orientação e

supervisão de estudantes de enfermagem, que

desenvolvem atividades educativas grupais com gestantes

no centro comunitário existente no local.

O desenvolvimento das etapas subseqüentes desta

pesquisa iniciou-se em 1998 quando começou a haver

observação e escuta atenta aos aspectos direta ou

indiretamente relacionados à gravidez e registro

sistemático dos sentimentos e experiências relacionadas

ao processo de gestação naquela cultura. A realização de

sessões grupais com gestantes possibilitou desenvolver a

fase de participação ativa do modelo OPR e compreender

mais profundamente as experiências das grávidas.

AS ENTREVISTAS

As entrevistas foram realizadas por meio do recurso

da história oral temática, que parte de um assunto

específico e preestabelecido, neste caso a experiência da

gravidez. O recurso vale-se do produto da entrevista para

esclarecer a experiência do entrevistado sobre algum

evento definido.(16)

As gestantes foram entrevistadas individualmente,

enquanto ainda estavam grávidas e cada entrevista durou

de 30 a 60 minutos. As entrevistas foram realizadas no

primeiro semestre de 1999 no domicílio das gestantes. A

questão norteadora das entrevistas foi: "Você poderia

narrar a sua história pessoal em relação à gravidez e como

tem sido a sua vivência enquanto grávida". Perguntas

adicionais foram feitas no decorrer da exposição das

narrativas com o objetivo de aprofundar ou esclarecer

aspectos significativos da experiência. Foram entrevistadas

10 gestantes e o encerramento da inclusão de novas

gestantes ocorreu depois de ter sido observada a saturação

teórica de dados. Para pesquisas utilizando o recurso da

história oral, cerca de nove narrativas são suficientes para

compor uma amostra representativa de dados.(17)

Os aspectos éticos foram respeitados conforme a

Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.(18)

Foram atribuídos nomes fictícios para preservar a

identidade das gestantes e todas assinaram o termo de

consentimento pós-informação, depois do esclarecimento

de que suas histórias precisariam ser gravadas e que os

dados seriam mantidos em sigilo, mas trechos das

narrativas seriam publicados e apresentados em artigos e

congressos científicos.

ANÁLISE DOS DADOS

As entrevistas foram transcritas integralmente e

textualizadas por meio da supressão das perguntas,

exclusão das repetições e estabelecimento das idéias

centrais. Nesta fase foi escolhido o tom vital de cada

narrativa, que corresponde à frase que serve de epígrafe

para a leitura da entrevista. A seguir, as narrativas foram

submetidas à conferência por cada uma das

entrevistadas, conforme a proposição de Bom

Meihy.(16)

Os conteúdos das narrativas e os respectivos tons

vitais foram confirmados por cada uma das gestantes.

Procedeu-se à elaboração dos descritores culturais e do

tema cultural, que emergiram do conjunto de dados,

conforme pressupõe a etnoenfermagem. Descritores

culturais são dados codificados e classificados para refletir

a visão êmica da experiência da gravidez na perspectiva

social e cultural, e o tema cultural corresponde à

formulação de uma frase caracterizada por um alto grau

de abstração, que representa a síntese da experiência

vivenciada pelas gestantes.

Os descritores culturais e respectivos conteúdos,

assim como o tema cultural, foram validados e

confirmados por algumas das gestantes para conferir

credibilidade à pesquisa e atribuir significado contextual.

Esse trabalho foi facilitado pelo fato de uma das

pesquisadoras estar continuamente presente em

atividades docente-assistenciais na unidade de saúde que

presta atendimento às gestantes deste estudo.

A história oral possibilita às pessoas que normalmente

não têm voz expressar seus pensamentos o que confere

sentido social às experiências vividas.(16) Durante as

entrevistas as gestantes externaram seus conflitos e

enfrentamentos.

A justificativa para exposição dos tons vitais das

narrativas baseou-se no fato de eles refletirem a essência

da experiência da gravidez na perspectiva individual e os

descritores e tema cultural, a visão global da experiência

da gravidez na perspectiva êmica.

RESULTADOS

São apresentadas as características pessoais das

gestantes na Tabela 1 e a seguir o tom vital de cada

narrativa. Do conjunto de narrativas emergiram dois

descritores culturais e um tema cultural, cujo conjunto

reflete a vivência da gravidez entre as mulheres daquela

comunidade.

Características Pessoais das Gestantes e o Tom Vital

das Narrativas

270 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):268-274, abr/jun, 2004


Tabela 1 – Características gerais das gestantes

Nome Idade Estado Civil Anos de Número de Com Quem Ocupação Planejamento

Estudo Gestações Mora da Gravidez

Isabela 15 solteira 08 01 pais do lar não

Luana 17 amigada 06 01 pais do lar não

Antonia 17 casada 09 01 pais do lar sim

Dolores 29 casada 03 06 marido do lar não

Joaquina 20 casada 06 03 marido do lar não

Paola 16 solteira 10 01 pais estudante não

Érica 21 amigada 05 05 marido do lar não

Joana 27 amigada 04 03 marido do lar não

Emília 21 amigada 06 02 marido do lar não

Josefa 22 amigada 03 02 marido do lar não

OS TONS VITAIS

Isabela: "Pensava em casar e ter filhos, mas aconteceu.

Meu namorado reagiu bem, mas não está me ajudando

em nada. Está sendo difícil, mas tento seguir e quando

penso em minha vida fico triste, mudo de pensamento e

me pergunto: e agora"

Luana: "Meu sonho era casar e engravidar, mas não

deu certo. Aconteceram tantas coisas, fico nervosa e

penso: o que acontecerá comigo e meu filho"

Antonia: "Casamos na igreja e no civil. A gravidez

deixou a minha família muito contente. Estou feliz, pois

queria engravidar e meu marido faz carinho, pergunta se

estou bem e isso me faz feliz."

Dolores: "Sempre sonhei em casar e ter marido.

Quando soube que estava grávida fiquei nervosa, chorei,

não sabia como falar para meu marido. Por que grávida

outra vez Mas como não é da nossa vontade e sim da

vontade de Deus, fiquei em paz."

Joaquina: "Fiquei nervosa, está difícil ter muitos filhos.

Moro com minha cunhada e tudo é motivo de briga.

Acredito que quem casa, quer casa."

Paola: "Casar é o que toda mulher deseja, só que a

falta de sorte foi ter engravidado antes. Meu namorado

falou que não estava preparado para casar. Vou enfrentar

coisas difíceis, peço a Deus que me mostre o caminho certo."

Érica: "Ele não me procura para ter relações sexuais

e isso me deixa insegura, penso que está acontecendo

algo... fico nervosa porque não sei o que vai acontecer

com cinco filhos."

Joana: "Fiquei grávida em condições financeiras

escassas. Não tenho com quem dividir meus problemas,

meu marido é fechado e quieto e eu preciso procurar

outras pessoas para desabafar."

Emília: "Chorava muito porque não tinha onde

desabafar. Meu marido soube da gestação e ficou nervoso,

resolvemos abortar, mas desistimos. Está difícil por causa

das dificuldades financeiras."

Josefa: "Sinto preocupação, nervosismo e irritação e

ao mesmo tempo sinto-me bem, bonita e feliz. Fico

insegura, com medo de morrer no parto ou que aconteça

algo com meu filho."

OS DESCRITORES CULTURAIS (DC) E O

TEMA CULTURAL (TC)

Um conjunto de fatores intimamente ligados exerce

influência sobre a vida da mulher grávida e,

conseqüentemente, sobre sua experiência em relação à

gravidez. Os descritores culturais e o tema cultural e

respectivos componentes são exemplificados por meio

de trechos significativos extraídos das narrativas e

reveladores das vivências das gestantes.

DC 1 – A ocorrência da gravidez depende da

vontade humana e da ação divina: a gravidez

desejada proporciona vivências positivas,mas a

gravidez involuntária causa muito sofrimento

As mulheres possuem expectativas quanto ao futuro,

nos aspectos afetivo, profissional e familiar. Tinham o

sonho da profissionalização e da caminhada no curso da

vida na seqüência do namoro, casamento e do nascimento

dos filhos. Mas a maioria é surpreendida pela gravidez

involuntária, pois apenas uma gestante referiu ter

planejado a gravidez em conjunto com o marido. Esta

gestante recebeu respaldo familiar e pôde vivenciar a

gravidez de forma tranqüila e referiu sentimentos de

contentamento e felicidade.

"Eu esperava ficar grávida, estou feliz, a notícia deixou a

minha família e a de meu marido muito contentes..." (Antonia)

As demais mulheres enfrentaram crises no âmbito

marital, familiar e socioeconômico.

"Eu sonhava em ter filhos depois de casar... ter minha

casa, mas aconteceu e agora estou sozinha morando com

meus pais e irmãos, sofrendo." (Isabella)

A crença de que a gravidez não depende apenas da

vontade humana mas também da ação divina faz com que

as gestantes convivam com sentimento de resignação

diante dela, pois acreditam não possuir total domínio deste

processo.

"Não compreendo o que aconteceu. Ficava me

perguntando, por que grávida outra vez Mas como não é da

nossa vontade, e sim, da vontade de Deus...Então, fiquei em

paz." (Dolores)

A gravidez causa insegurança devido às dificuldades

para concretizar planos, e muitas gestantes recorrem à

ajuda divina para diminuir a sensação de incerteza quanto

ao futuro, pois este é o único recurso de que dispõem.

"Estou me sentindo forte porque Deus tem me dado forças.

Sinto-me com coragem para enfrentar tudo." (Paola)

A gravidez involuntária entre casais que não

desejavam mais filhos gera muita angústia nas gestantes.

Nestas circunstâncias a gravidez é vivenciada

solitariamente até a época em que não conseguem mais

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):268-274, abr/jun, 2004 271


A incerteza do futuro:...

escondê-la, pois sua condição física impõe a necessidade

de compartilhar o fato com o pai da criança. Postergam

em dar a notícia para o pai por temer uma reação

adversa dele.

"Fiquei nervosa, chorei, porque já tinha cinco filhos... Escondi

a gestação mas um dia tive de contar para meu marido, pensei

que acharia ruim, mas reagiu bem." (Dolores)

Mulheres solteiras ou que não possuem situação

conjugal definida angustiam-se com a condição de

dependência em relação a seus namorados/maridos no

que se refere ao futuro. São cientes da possibilidade de a

gravidez piorar a já instável relação conjugal ou até mesmo

provocar a separação do casal.

"A gravidez foi difícil, a relação com meu namorado ficou

abalada... ele falou que não estava preparado para

casar..."(Paola)

As solteiras sofrem por ter de anunciar a gravidez a

seus familiares, sobretudo aos pais. Contrariar as

expectativas familiares é uma temeridade para elas em

razão da possibilidade de reprovação e ausência de

respaldo deles.

"A confirmação da gravidez foi muito difícil para mim,

sentia que tinha traído meus pais, mas graças a Deus meus

pais me ampararam."

Algumas se sentiram divididas entre abortar ou

continuar grávida e esta decisão foi tomada com muita

angústia.

"Quando meu marido soube da gestação ficou muito

nervoso, chocado, resolvemos que eu iria abortar, mas depois

começamos a ver as coisas de outro jeito e desistimos" (Emília).

Nas entrevistas e nas abordagens educativas grupais,

muitas gestantes desabafaram suas angústias e choraram,

o que contribuiu para aliviar o peso suportado por elas

desde o início da gravidez.

Muitas conviveram com a solidão e a sensação de

isolamento social e familiar porque não puderam contar

com o respaldo de pessoas significativas. Nestas

circunstâncias cada gestante procurou superar suas

dificuldades como podia, para ser menos afetada pelas

atitudes de alheamento demonstradas pelas pessoas.

"Minha preocupação era com meus familiares, eles vivem

me criticando,"jogando pedras" e dizendo: Mais um filho...

Para eles eu sou culpada por ter engravidado. Mas fico firme,

pensando que tudo vai dar certo. Fico confiando em Deus."

(Dolores)

Os parentes e amigos de casais em situação marital

indefinida exercem pressão visando definição, sobretudo

quando há a notícia da gravidez.

As adolescentes solteiras que buscaram apoio de

amigos e vizinhos quando engravidaram foram

discriminadas e rejeitadas por eles, pois eram consideradas

como "mal exemplo" para outras jovens.

"Me isolaram por causa da gravidez... Diziam que eu era

um mal exemplo. Meus irmãos também ficaram contra."

(Josefa)

A falta da casa própria aumenta a sensação de

insegurança em relação ao futuro. Todas as gestantes

mencionaram menor ou maior grau de dificuldade

financeira e nesse aspecto cada qual busca ou almeja um

encaminhamento para o problema, de acordo com as

possibilidades individuais. Na falta de uma solução

concreta, as gestantes recorrem à "ajuda divina" e esta é

uma forma de diminuir a sensação de incerteza quanto

ao futuro.

"Um dia sonhei com coisas ruins, mas peço a Deus que

dê tudo certo e assim fico mais calma." (Emilia)

DC 2 –As alterações físicas e emocionais da

gravidez afetam e são afetadas pela situação de

instabilidade conjugal e financeira vivida pelas

gestantes

Inúmeras alterações físicas e emocionais afetam as

gestantes, sobretudo os sentimentos de ambivalência,

suas ansiedades e medos se exacerbam na proporção

direta das dificuldades enfrentadas por elas. O conjunto

das incertezas nos aspectos financeiro, de situação

conjugal, profissional e familiar que se configuram de

forma nebulosa e indefinida, afeta a vivência da gravidez

de forma negativa.

"Às vezes consigo ficar um pouco em paz, mas logo fico

nervosa pois tenho muitas preocupações comigo, minha filha,

a gravidez, meu marido, falta de casa..." (Emília).

"Estou confusa, solitária, uma hora quero uma coisa e

outra não, penso que tudo vai dar certo e logo acho que não..."

(Emília).

As mudanças corporais geram sentimentos diversos,

sobretudo quando elas afetam a performance sexual e

cada gestante a seu modo diante delas. Algumas sentemse

mais enciumadas em relação ao marido, temem a

rejeição sexual deles e exacerbam-se as suspeitas de

infidelidade conjugal. O relacionamento marital torna-se

inseguro, sobretudo quando o futuro marital está incerto.

"Eu sinto meu corpo mudando, feia, nervosa. Ele fica

indiferente, não me procura para ter relações. Desconfio que

está saindo com outras mulheres e isso me deixa insegura."

(Érica)

Outras convivem com a crença de que o

relacionamento sexual na gravidez prejudica o

desenvolvimento fetal e sentem necessidade de abstenção

temporária da atividade sexual.

"O relacionamento sexual mudou, tenho muito medo de

prejudicar a criança" (Antonia).

As mudanças corporais afetam especialmente as

adolescentes. Ficam ansiosas com a imagem corporal e

desejam o retorno breve às condições físicas anteriores.

Muitas não acreditam na reversibilidade das condições

corporais e tomam cuidado para diminuir as marcas da

gravidez sobre o corpo e o desejo de pronto

restabelecimento de seu corpo.

"Tenho vontade de ter aquele corpinho bonito e fico

pensando: como vou fazer, meu Deus..." (Luana )

"Tenho medo de ficar com um corpo feio, isso me assusta..."

(Antonia).

As gestantes possuem muitas expectativas em relação

à proximidade do parto, que é encarado como algo

inevitável a ser enfrentado por elas. É um período em

que sentimentos como o medo, a angústia do risco de

vida e a possibilidade da morte se intensificam.

"Sinto muita insegurança quando lembro a hora do parto

porque temo a minha morte e a de meu filho." (Josefa)

272 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):268-274, abr/jun, 2004


TEMA CULTURAL:

Vivenciando a incerteza do futuro:

procurando adaptar-se às novas situações, pedindo

a Deus a indicação do caminho certo

A incerteza em relação ao futuro é o sentimento

predominante entre as gestantes, e essa condição resulta

da situação de dependência das gestantes em relação aos

maridos ou pais para sobreviver e criar os filhos e está

relacionada à indefinição quanto à situação conjugal e

instabilidade nos aspectos familiar e financeiro.

"Minha gravidez está difícil mas tento levar. Quando penso

em minha vida, o pensamento vai e vem. Paro e penso em

outra coisa. Quando penso no futuro me dá tristeza, mudo de

pensamento e me pergunto: e agora" (Isabela)

"Sinto-me nervosa por tantas coisas que aconteceram

comigo. Aí, penso, não vou ligar, preciso pensar em outra coisa.

Fico pensando: como será comigo e meu bebê" (Luana)

"Sinto-me nervosa porque não sei como vai ser com cinco

filhos e o que vai acontecer." (Érica)

As mulheres que enfrentam situações difíceis

causadoras de sofrimento buscam formas de amenizá-las

na medida de suas próprias possibilidades.

"Fiquei abalada e chorava quando ele se separou de mim.

Percebi que não podia continuar assim porque poderia

prejudicar o bebê... Então procurava me distrair um pouco

para não ficar deprimida" (Paola)

As gestantes buscam soluções para seus problemas,

porém nem sempre as encontram. Nestas circunstâncias

pedem a ajuda de Deus, pois para elas o amparo Dele é

essencial para suportar a situação de adversidade e

conseguir prosseguir na sua trajetória, marcada pela

incerteza em relação ao futuro. A crença na proteção

divina é uma forma de aliviar o sofrimento e conseguir

ver uma luz para o seu futuro.

"Vou passar por coisas que deverei ter calma para resolver,

estou na expectativa que tudo saia bem. Eu sempre peço a

Deus que me mostre o caminho certo." (Paola)

"Com tudo o que eu passo, tem de pensar no lado positivo,

que tudo vai dar certo. Fico mais tranqüila, confiando em Deus."

(Dolores)

A VIVÊNCIA DA GRAVIDEZ E A TEORIA

DO CUIDADO CULTURAL

A Teoria do Cuidado Cultural(15) foi o referencial

teórico deste estudo. Ela remete à necessidade de

considerar aspectos abrangentes da estrutura social e da

visão de mundo que influenciam a vivência da gravidez

das gestantes estudadas. Esta teoria preconiza que os

sistemas popular, de enfermagem e profissional

mantenham um intercâmbio contínuo e operem como

sistemas abertos às influências mútuas. Esta dinâmica

possibilita que a enfermagem tome decisões e opte por

práticas de preservação/manutenção, acomodação/

negociação ou repadronização/reestruturação do cuidado

cultural com a finalidade do cuidado de enfermagem

culturalmente congruente.(15)

Este tipo de cuidado, no caso desta comunidade,

demanda necessariamente a consideração do aspecto

socioeconômico, que está intimamente interligado ao

cultural. O alicerce que as gestantes buscam na

religiosidade, como forma de enfrentar as incertezas em

relação ao futuro, necessita de uma visualização ampla.

Por um lado considera-se a necessidade da

preservação cultural da fé e da religiosidade das gestantes,

pois esta é a forma que elas encontraram para prosseguir

na sua vida cotidiana. Por outro, há necessidade de uma

reestruturação cultural no sentido da superação da

realidade atualmente vivida, visto que as vivências relatadas

caracterizam-se pelo sofrimento e angústia em relação a

muitos aspectos relacionados à ocorrência da gravidez

involuntária, que refletem um grau de alienação das

mulheres em relação ao domínio de seu próprio corpo e

da capacidade reprodutiva delas.

Esta reestruturação cultural seria possível pelo maior

empoderamento feminino em aspectos amplos da vida

pessoal e familiar, o que inclui a necessidade de elas

poderem engravidar apenas em situações de vontade

própria ocorrida de forma consciente. O maior

empoderamento feminino sobre as questões reprodutivas

inclui também um melhor envolvimento masculino neste

âmbito e mais eqüidade nas relações de gênero. Esses

aspectos constituem-se em um dos principais desafios do

âmbito da saúde reprodutiva em nível mundial e

representaram uma das principais prerrogativas das

conferências internacionais sobre população,

desenvolvimento e sobre a mulher, ocorridas nas cidades

do Cairo e Beijing, nos anos de 1994 e 1995.(19)

Na perspectiva institucional observou-se a necessidade

de reestruturação da assistência pré-natal oferecida a essa

comunidade, visto que os homens encontram-se excluídos

do processo de assistência, o que contribui para o pouco

envolvimento deles na questão reprodutiva, inclusive

durante a gestação, o que está contribuindo para uma

vivência solitária da gravidez por parte da mulher. Muitas

vezes, ela necessita "esconder" de seu marido a notícia

da gravidez, e esta é uma realidade que precisa ser

transformada. Há uma urgente necessidade de integrar o

homem no conjunto de atividades desenvolvidas na

assistência pré-natal, pois eles estão à margem deste

processo.

O oferecimento de grupos participativos com local e

horários adequados para a exposição de problemas e a

troca de experiências do cotidiano dos casais poderia

constituir-se em uma alternativa para o melhor

envolvimento masculino na gravidez e para o

esclarecimento das dúvidas que afetam o relacionamento

marital no período grávido-puerperal e evitar desgastes

desnecessários que podem prejudicar o futuro da família.

A reação dos homens quando confrontados com uma

gravidez indesejada é um aspecto do comportamento

masculino que ainda necessita ser mais bem

explorado.(20)

As gestantes revelaram uma grande necessidade de

espaço para exposição de suas angústias e incertezas quanto

ao futuro. Embora este aspecto esteja inserido num

contexto social profundo que depende de transformação

e de um desenvolvimento social mais amplo da sociedade,

a disposição dos profissionais das instituições saúde para a

escuta e estabelecimento de um relacionamento

interpessoal construtivo surgiu como uma grande demanda

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):268-274, abr/jun, 2004 273


A incerteza do futuro:...

ainda não satisfeita. Essa é uma forma de amenizar a vivência

da incerteza no decorrer da assistência à gestante e implica

a disponibilidade e preparo dos profissionais, que

necessitam de uma visão abrangente da estrutura social da

qual as gestantes são originárias.(21-23)

As gestantes demonstraram preocupação com a

estética corporal e uma grande ênfase ao corpo feminino

e sua relação com a atividade sexual como requisitos para

a manutenção da fidelidade de seus maridos. Embora este

aspecto esteja relacionado à superação da desigualdade

de gênero, considera-se válida a proposição de sessões

grupais para o ensino de exercícios de fortalecimento

muscular e outras medidas estéticas e dietéticas como

formas de promover e preservar o cuidado cultural

demonstrado pelas gestantes.

A preservação do cuidado cultural também é

importante no sentido de que elas aprenderam a agir em

causa própria para resguardar o que consideram ser

essencial à constituição e preservação da unidade familiar.

Uma característica cultural dessas gestantes refere-se à

capacidade que elas possuem de promoção da saúde

mental delas, por meio da exposição de suas angústias

quando lhes é oferecida tal oportunidade. Esse fato

demanda que os profissionais da saúde demonstrem

atitudes com disponibilidade, dedicação e capacitação

adequada para captar o que é expresso, nas entrelinhas,

na comunicação não-verbal, para compreender as reais

necessidades delas.

LIMITAÇÕES DO ESTUDO

Ao concluir uma pesquisa é necessário admitir que

ela apresenta limitações. É necessário considerar que a

presença contínua na comunidade possa ter constituído

uma forma de limitação, pois a familiaridade com o

contexto estudado pode fazer com que o pesquisador

não tenha notado aspectos considerados banais em sua

visão. Nesse sentido, buscou-se permanecer em constante

atitude de estranhamento em relação ao cenário e aos

fatos observados, pois esta é a atitude mais adequada

para o estudioso da cultura.

Outro aspecto refere-se ao fato de os dados serem

específicos ao agrupamento sociocultural estudado e deve

ser tomado cuidado para não haver generalização em

relação à aplicação dos resultados em outros contextos

socioculturais semelhantes, muito embora consideramos

pertinente a ocorrência de algumas generalizações

naturalísticas, considerando-se que existem muitas

comunidades com condições sociais semelhantes no

contexto brasileiro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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estratégias para mudanças In: Galvão L, Díaz J. Saúde sexual e reprodutiva

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274 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):268-274, abr/jun, 2004


A REFORMA PSIQUIÁTRICA E AS

ASSOCIAÇÕES DE FAMILIARES:

UNIDADE E OPOSIÇÃO 1

THE REFORM OF PSYCHIATRY AND

FAMILY ASSOCIATIONS:

UNITY AND OPPOSITION

LA REFORMA PSIQUIÁTRICA Y LAS

ASOCIACIONES DE FAMILIARES:

UNIDAD Y OPOSICIÓN

Paula Cambraia de Mendonça Vianna 1

Sônia Barros 2

RESUMO

Esta investigação foi realizada com familiares, membros de diretorias de Associações de familiares dos serviços de saúde

mental, que se posicionam contra e a favor da reforma psiquiátrica que acontece no país. Buscou-se compreender a

realidade social e histórica dessas associações e identificar as concepções dos familiares sobre o cuidar e os motivos que

os levaram a se organizar em associações com posições tão distintas. O estudo está fundamentado no referencial teórico

do materialismo histórico dialético, e a análise dos discursos revelou que é dentro das Associações que os familiares

encontram a cooperação e o apoio necessários para a convivência e a assistência ao doente mental.

Palavras-chave: Família; Saúde Mental; Enfermagem Psiquiátrica

ABSTRACT

The investigation was carried out with family members, who sit on boards of family associations in the mental health

services and who are for or against the psychiatric reform ongoing in the country. Attempts were made to understand

the social reality of these associations and to identify the families´ concepts about care, as well as the reasons that led

them to get organized in associations with such distinct approaches. The study was based on the theoretical framework

of dialectic historical materialism. Discourse analysis revealed that it is within the associations that the families find the

necessary cooperation and support to care for and live with mental patients.

Key words: Family; Mental Health; Psychiatric Nursing

RESUMEN

Esta investigación se realizó con parientes, miembros de directorios de asociaciones de familiares y en servicios de salud

mental, a favor o en contra de la reforma llevada a cabo en el país. Se buscó comprender la realidad social e histórica de

dichas asociaciones e identificar las concepciones de los parientes sobre el cuidado y las motivaciones para crear asociaciones

con posturas tan distintas. El estudio se basa en el referencial teórico del materialismo histórico dialéctico; el análisis de

los discursos reveló que los familiares encuentran cooperación en las asociaciones y el apoyo necesario para convivir y

brindarle asistencia al enfermo mental.

Palabras clave: familia; salud mental; enfermería psiquiátrica

1

Este artigo é o resumo da tese de Doutorado de Paula Cambraia de Mendonça Vianna, defendida na Escola de Enfermagem/USP, sob orientação da

Profª. Dra. Sônia Barros, em outubro/2002.

2

Professora da Escola de Enfermagem/UFMG. Doutora em Enfermagem.

2

Professora da Escola de Enfermagem/USP. Doutora em Enfermagem.

Endereço para correspondência: Rua Henrique Passini, 36/201, Serra, Belo Horizonte-MG CEP: 30220-380 E-mail: paulacambraia@ufmg.br

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):275-282, abr/jun, 2004 275


A Reforma Psiquiátrica e as...

1 - INTRODUÇÃO

Até alguns anos atrás, a voz das famílias e dos usuários

era calada pelos técnicos e instituições hospitalares que

definiam a exclusão social do louco. Com a reforma

psiquiátrica surgem novos protagonistas no movimento:

os usuários e os familiares. A organização dos familiares

e usuários em associações fez com que o movimento da

reforma psiquiátrica introduzisse atores importantes nas

suas discussões sobre a assistência prestada ao doente

mental. Enquanto algumas dessas associações assumem

as discussões sobre as propostas da reforma psiquiátrica,

outras lutam para que seja mantido o modelo

hospitalocêntrico de assistência.

Contra ou a favor da reforma psiquiátrica, a família

surge no cenário da saúde mental brasileira, passando a

ocupar um lugar, tanto na formulação das políticas públicas

como na assistência ao doente mental, até então delegado

aos profissionais e às instituições psiquiátricas. Partindo

do pressuposto de que, em muitos casos, as famílias

desconhecem ou não têm claro entendimento das metas

propostas pela reforma psiquiátrica e impera o medo e a

insegurança perante o novo modelo assistencial,

entendemos ser de fundamental importância a

compreensão desse movimento dialético entre o cuidar

e o delegar a assistência em saúde mental. É sobre esse

cuidar em família e a atuação dos familiares dentro das

associações de familiares dos serviços de saúde mental

que realizamos este estudo, no período compreendido

entre 1999 e 2002.

Os objetivos propostos foram:

• Conhecer a história de associações de familiares dos

serviços de saúde mental, compreendendo o que motiva

os familiares a participarem de uma determinada

associação.

• Identificar as concepções do familiar sobre o cuidar.

• Analisar os determinantes que levam os familiares a

cuidar do doente mental ou a delegar a outrem esse

cuidado.

• Contribuir para a formulação de diretrizes que

orientem a atenção à família nos serviços de saúde mental.

2 - PERCURSO METODOLÓGICO

O referencial teórico-metodológico utilizado neste

estudo é o materialismo histórico dialético, pois ele

permite evidenciar a contradição presente nos

discursos dos familiares organizados em associações

e analisar os fenômenos históricos que perpassam a

sua realidade social, a partir de uma determinada visão

de mundo.

Foram consideradas como categorias analíticas: a

família e a ideologia. Neste estudo, utilizaremos o seguinte

conceito sobre família, que retrata a realidade que vivemos

atualmente no Brasil: a família é constituída por pessoas

que se unem "por laços consangüíneos, de afetividade,

interesse e/ou adoção. Possui uma estrutura e organização

com direitos e responsabilidades, vivendo em determinado

ambiente, sendo influenciada socioeconômica e

culturalmente".(1)

A ideologia é definida como um "corpo explicativo

(representações) e prático (normas, regras, preceitos)

de caráter prescritivo, normativo, regulador, cuja função

é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes

uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas

e culturais, sem jamais atribuir tais diferenças à divisão da

sociedade em classes, a partir das divisões na esfera da

produção".(2)

Utilizamos, como cenário do estudo, duas

associações de familiares dos serviços de saúde mental.

A Associação Franco Basaglia (AFB), localizada na

cidade de São Paulo, busca a realização das metas

preconizadas pela reforma psiquiátrica. A Associação

de Amigos, Familiares e Doentes Mentais (AFDM),

localizada na cidade do Rio de Janeiro, objetiva não só

a manutenção do modelo hospitalocêntrico de

atendimento ao doente mental como também a criação

de outras formas de tratamento.

Os sujeitos do estudo foram os familiares, membros

da diretoria atual da AFB e AFDM. A escolha desses

familiares deveu-se ao fato de que os mesmos detêm a

história oral dessas Associações, seus objetivos e

organização, o que possibilitou a consecução dos

objetivos propostos neste estudo. De acordo com as

características socioeconômicas dos sujeitos

entrevistados, podemos inferir o seguinte perfil dos

familiares entrevistados: a maioria do sexo feminino, em

geral a mãe, com idade variando entre os 50 e 70 anos,

casada, com grau de instrução oscilando entre o

médio e o superior, renda familiar entre 10 e 20

salários mínimos, reside em casa própria com até três

moradores.

Para a coleta de dados foram obedecidas as seguintes

etapas:

• consulta aos documentos relativos à criação e

organização das Associações como, por exemplo, os

estatutos e os regimentos, buscando resgatar a

historicidade do fenômeno estudado;

• entrevistas semi-estruturadas.

Para a análise dos discursos, foi obedecida a seguinte

seqüência(3):

• leitura repetida dos discursos;

• análise das várias possibilidades de leitura do texto;

• análise da estrutura do texto de acordo com as

estruturas discursiva, narrativa e profunda, procurando

depreender as figuras e os temas;

• identificação dos valores, crenças e concepções dos

sujeitos, presentes no texto;

• identificação das argumentações presentes nos

discursos dos sujeitos;

• reconhecimento da emergência das categorias

empíricas a partir dos temas depreendidos.

Foram reconhecidas como categorias empíricas:

• As políticas de saúde mental

A assistência em saúde mental nos Estados do Rio

de Janeiro e São Paulo

• O processo saúde/doença mental

O ato de cuidar e a doença mental

Instrumentos de intervenção no processo de cuidar

• O modelo assistencial em saúde mental

276 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):275-282, abr/jun, 2004


• A organização de rede social: as associações de

familiares dos serviços de saúde mental.

3 - A ANÁLISE DOS DISCURSOS

3.1 - As Políticas de Saúde Mental

Nesta categoria, foram analisadas as políticas de saúde

mental e o papel do Estado na assistência prestada aos

portadores de transtornos psíquicos. Nos discursos dos

familiares da AFB, não existe nenhum questionamento

sobre a qualidade da assistência em saúde mental prestada

pelo Estado de São Paulo. Apesar de alguns familiares

participarem dos Conselhos Municipal, Estadual e Nacional

de Saúde, elaborando e implementando novas políticas

de saúde mental, constatamos, em seus discursos, a

inexistência de qualquer referência às políticas de saúde

mental em São Paulo e no Brasil. Esses familiares detêm

uma visão muito restrita ao universo em que vivem, ou

seja, eles se limitam a falar sobre sua experiência particular

na Associação e com o seu doente. Perde-se a visão do

todo e ficam restritos, muitas vezes, à própria Associação

e aos adeptos da reforma, as possibilidades de estarem

compartilhando suas experiências com outros familiares,

veiculando as propostas da reforma psiquiátrica e

apontando para a importância da participação da família

na reabilitação psicossocial do doente mental.

Já, os familiares da AFDM detêm o discurso da falta

de suporte, da desassistência e da inoperância do Estado

na formulação e execução de políticas públicas que

atendam de maneira eficiente o familiar e o doente mental.

"Eles falam de democracia, eles falam de cidadania, eles

falam de direitos humanos, o discurso deles é belíssimo.

Inclusive eu quero fazer um parêntese. Quando nós fundamos

a Associação, eu ia nestes encontros, eu dizia: Meu Deus do

céu, será que eu estou errada Porque o discurso deles é

maravilhoso, é lindo, é bonito. Agora a prática deles é

perversa, é hipócrita, é demagógica" (AFDM).

Apontam que a saúde, no Brasil, é tratada como um

bem econômico e o doente mental é menosprezado, pois

é visto, pelo governo, como perda de dinheiro.

"O Estado quer se livrar do doente mental. O doente

mental é ônus. Então, seria ótimo se a sociedade assumisse

para si esse problema. E eu acho que esse problema é do

Estado. Então, eu não quero assumir o tratamento das

pessoas e livrar a cara do Estado. O Estado que seja

competente. O Estado que venha cumprir a sua função.

Eu acho que saúde é dever do Estado" (AFDM).

Para essa Associação, o sistema de saúde brasileiro é

moroso e não atende à demanda do usuário. Isso faz com

que a população não receba assistência adequada e os

casos acabam caminhando para a cronificação, como

vemos a seguir.

"No Brasil, não há um tratamento decente para a

doença mental. Aquele que já é miserável, que não vai ter

dinheiro para se tratar, vai procurar um sistema de saúde,

vai procurar um ambulatório para marcar uma consulta

para ele daqui a três meses e não vai ter remédio. E por

causa disso, ele piora, ele cronifica" (AFDM).

Para um dos familiares da AFDM, "viver neste país

com um salário mínimo é o cúmulo, é complicado. Então,

nestas condições, cadê o doente mental Porque é um

doente trabalhoso e complicado. Como é que trata Nós

queremos que dêem suporte para que essa gama de

miseráveis possa viver" (AFDM). A reforma psiquiátrica,

entretanto, não pode tomar como responsabilidade sua

os problemas sociais e econômicos com que vivemos

atualmente em nosso país. Torna-se fundamental,

portanto, a formulação de políticas públicas intersetoriais

que promovam a reabilitação psicossocial do doente

mental.

Considerando os discursos analisados, percebemos

que as ações realizadas ou pretendidas pelo Estado não

correspondem às expectativas dos familiares

entrevistados, pertencentes à AFDM. Contudo é

impossível não considerar os avanços que a assistência

psiquiátrica brasileira alcançou nas décadas de 80 e 90.

Leitos psiquiátricos foram fechados e serviços

substitutivos criados (com certeza, o número ainda não

é suficiente). Muitos pacientes encontram-se, ainda, nos

hospitais psiquiátricos . Mas, hoje, existe a crítica sobre

esses lugares de tratamento, e estratégias várias têm sido

criadas para a reversão do modelo hospitalocêntrico de

atendimento. Entretanto, percebemos que quase todos

os esforços se voltam para a modificação do

comportamento dos pacientes e muito poucos para a

modificação das crenças e preconceitos da sociedade em

relação ao doente mental. A discussão junto à sociedade

sobre o que é a doença mental e sobre as novas práticas

e políticas públicas torna-se premente para a

transformação do modelo assistencial em saúde mental.

3.2 - O processo saúde-doença mental

Para os familiares da AFDM, a doença mental é

diferente de tudo o que possa existir, pois ela afeta o

indivíduo e sua família em todos os aspectos da vida. O

preconceito e a exclusão são os atributos que permeiam

a vida dessas pessoas.

"Eu me sentia muito perdida, não sabia como agir

porque a loucura é uma doença muito diferente de

tudo que possa existir. No início, a gente não sabe

como agir, o que fazer (...) fica tudo trancado, tesoura,

faca, tudo escondido. Às vezes, a gente tem problema

com alguém que quer vir ficar na casa da gente, eu não

deixo ninguém ficar. Não, aqui eu não posso receber

ninguém" (AFDM).

A família, independentemente de sua posição atual

frente à reforma psiquiátrica, não percebe o adoecimento.

Além de não entender o que seja a doença mental, acredita

que é impossível acontecer um adoecimento mental em

sua família, como vemos nos discursos que se seguem.

"Quando ele adoeceu, eu não tive a percepção de

perceber isto como a maioria das pessoas não tem (...)

Eu achava que era vagabundagem dele mesmo, não queria

me ajudar, queria parar de estudar, se irritava por qualquer

coisa, brigava, quebrava coisas. Só depois que eu comecei

a entender" (AFB).

"Ele chegava em casa da escola, cheio de placas de

carros que estavam perseguindo e fazia queixa para a

família: esses carros estão me perseguindo (...) Vovó e

papai estavam pensando que ele estivesse em algum

movimento estudantil, da ditadura, 68" (AFDM).

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):275-282, abr/jun, 2004 277


A Reforma Psiquiátrica e as...

Na fase inicial da doença, o familiar tenta buscar

explicações para o que vem ocorrendo. Recorrem, na

grande maioria das vezes, à religião. Em muitos casos,

entretanto, quando já sabem o que vem acontecendo com

seu familiar, continuam a acreditar na força divina como

uma das grandes responsáveis pelo adoecimento.

"Ninguém é doente mental porque quer. Deus quis

fazer todo mundo com saúde. Acho que o problema foi

este Deus quando veio ao mundo querer fazer todo

mundo com saúde, perfeito, mas não deu jeito, ele não

conseguiu" (AFDM).

Os familiares da AFB têm uma compreensão dinâmica

do processo saúde-doença mental visto que, para eles,

esse processo é resultante dos aspectos sociais, culturais,

psíquicos e biológicos que norteiam a vida do indivíduo.

"Foi um caso muito grave mesmo. Depois de algum

tempo é que a gente descobriu que a doença dela era

por causa do marido. Ela teve um trauma muito grande"

(AFB).

"O pai morreu de infarto. Na véspera disso, nós fomos

ao Guarujá e os dois andaram muito juntos, conversaram

muito e riram muito juntos. No dia seguinte, veio a notícia

que ele tinha morrido. Então, isso foi o ponto de ruptura"

(AFB).

Os familiares da AFDM têm uma compreensão

biológica da doença e acreditam que a hereditariedade é

um dos principais determinantes para o processo de

adoecimento mental.

"Você traz embutido no seu eu, uma patologia do

passado porque a esquizofrenia é hereditária. Diga que

sim, diga que não, mas ela é hereditária porque no passado

eu já tive parentes que tiveram doença mental" (AFDM).

"A gente não quer ver filho velho, a gente quer ver

filho novo, alegre, saudável. E eu quero ver meus filhos

velhos para vê-los escapar da doença, para ter a certeza

de que escaparão da doença, que neles a doença não vai

se manifestar" (AFDM).

Apesar de buscarem uma compreensão para o que se

passa, a convivência com o doente mental é um dos

grandes desafios vividos pelo familiar de ambas as

associações. "Muitas vezes, você se desespera: puxa vida!

Será que eu joguei pedra na cruz" (AFB).

"Às vezes, ele grita comigo e eu tenho que abaixar a

crista porque senão eu posso apanhar. E eu tenho de

saber disso e esta é uma coisa que eu procuro respeitar.

O dia que ele está bem violento, fala mais alto, eu boto a

minha viola no saco e seguro. Porque eu sei que posso

apanhar" (AFDM).

Apesar das dificuldades enfrentadas pela família na

convivência com o doente mental, os familiares da AFDM

e da AFB apontam que a doença fez com que vissem a

vida de uma outra forma.

"Eu mudei toda a concepção da minha vida. Eu era um

executivo louco, gostava de ganhar dinheiro. A doença

do meu filho me fez crescer, eu conheci outras pessoas,

tenho outros interesses na vida e vivo muito melhor hoje

em dia, apesar do meu filho ter uma doença" (AFB).

"Se Deus me deu dois irmãos doentes mentais, não

foi em vão. Eu senti que eu cresci como gente. Que foi

uma maneira, através da convivência com meu irmão, d’eu

ser gente mesmo, d’eu não olhar tanto para esta vida

terrestre" (AFDM).

Podemos afirmar que os familiares, em geral, diante da

doença mental experimentam inicialmente uma certa

perplexidade, que congrega o questionamento acerca dos

determinantes dessa doença, bem como o questionamento

sobre as possibilidades de intervenção no sentido de livrar

desse problema o doente mental e, por extensão, sua família.

"Algumas pessoas em casa achavam que ela ia

desencarnar do jeito que estava, as pessoas não tinham

mais esperança e a maioria dos médicos achava que não,

que ela não ia sair daquilo, que não ia ter jeito" (AFB).

Com o decorrer do tempo, os familiares da AFB

parecem superar tal momento de perplexidade. Apoiados

pelos serviços, avançam em direção às discussões e a novas

maneiras de agir que possam ajudá-los a melhor se situar

diante da doença mental.

"No momento em que entrei no CAPS junto com o

meu filho, que eu descobri a Associação Franco Basaglia,

comecei a participar das reuniões e, enfim, fui me

envolvendo cada vez mais de forma completamente

apaixonada e cada vez me convencendo mais que os

lugares de tratar não são esses chamados hospitais

psiquiátricos" (AFB).

Em contrapartida, os familiares da AFDM parecem

permanecer cativos dessa perplexidade que os mantém

de certa forma num estado de "excesso de impotência"

diante da doença mental. Impregnados por essa

impotência, eles passam a buscar instituições ou pessoas

a quem possam apresentar seu problema e obter solução

para ele, seja qual for essa solução.

"Quando existe uma doença mental na família, a família

se organiza em função da doença e do doente mental. A

vida passa a ser uma conseqüência daquela doença"

(AFDM).

"(...) Eu sofri muito, eu não quero mais este sofrimento

para mim. Se eu botar ele dentro de casa, não vou fazer

nada, vou ficar morta dentro de casa"(AFDM).

3.2.1 -O ato de cuidar e a doença mental

Importante pontuarmos que o ato de cuidar adquire

características diferentes em cada sociedade e é

determinado por fatores culturais, sociais e econômicos.

Esses fatores vão definir os valores e as condições em

que se processa o ato cuidador.

A doença mental modifica o relacionamento da família

com as outras pessoas e essa tenta adequar sua vida à

doença. Como é grande o preconceito acerca da doença

mental, a maioria das pessoas que fazia parte do círculo

de amizades da família se afasta. A casa se fecha, são poucas

as pessoas que permanecem e conseguem entender e

compartilhar com a família o que se passa lá dentro.

"Os amigos antigos que ele tinha acabaram, sumiram.

Novo ele não consegue fazer" (AFB).

"Eu quase não saio, visito pouco as pessoas. Tenho

poucos amigos, mas aqueles amigos que eu tenho entendem

e somos muito felizes neste sentido" (AFB).

"Quando existe uma doença mental na família, a família

se organiza em função da doença e do doente mental. A

vida passa a ser uma conseqüência daquela doença" (AFDM).

278 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):275-282, abr/jun, 2004


Na AFB, essa sobrecarga é amainada pelo suporte

permanente do serviço, que gera apoio e tranqüilidade

para a família. O entendimento sobre a doença, o respeito

à diferença, a certeza do atendimento são essenciais para

que o familiar da AFB possa cuidar.

"Quando eu percebo que vai engrossar o caldo, eu

não tenho dúvida, eu falo com o psiquiatra dele e essa é

a história da facilidade de você falar, você telefona. O que

é que eu faço Por telefone, ele fala: dá mais isso, dá mais

aquilo, diminui isso, depois você passa lá" (AFB).

"Ele (o médico) sai para tentar resolver um surto

que está acontecendo no final de semana. Quando a gente

precisa, a gente encontra ele e ele está sempre disposto.

E fazem assim com o prazer de ajudar, não é obrigação

não" (AFB).

Para o familiar da AFDM, essa sobrecarga é, contudo,

uma constante em sua vida e tem sido exacerbada com a

possibilidade de fechamento dos hospitais psiquiátricos.

A criação dos serviços substitutivos gera insegurança e

desconfiança nesses familiares. Afirmam que continuam

internando seus doentes em hospitais psiquiátricos porque

não dispõem de um serviço de saúde mental de qualidade.

Não acreditam na eficiência desses serviços e vêem essas

alternativas assistenciais como tentativas demagógicas de

quem não conhece a sobrecarga do cuidado, ou seja, os

profissionais envolvidos com a reforma psiquiátrica.

"O meu filho freqüenta o CAPS. Mas ele só vai lá na

5ª feira porque ele não sabe tocar violão e eu comprei o

violão. Fora disso, ele não quer ir, que sabe que vai fazer

culinária. Então, não tem nada. Eu gostaria que tivesse

tudo aquilo que eles põem no papel" (AFDM).

"Eu já levei o meu filho no CAPS, ele não foi aceito no

CAPS (...) não é que ele não foi aceito, não é bem assim

que se diz (...) a psicóloga disse que ele não tinha perfil

para o CAPS. Aí, mandou ele para o posto, lá tem

psiquiatra que cuida dele" (AFDM).

Em um país pobre de recursos assistenciais para a

implementação de políticas públicas na área da saúde

mental, a morte do cuidador é uma das principais fontes

de estresse e preocupação para o familiar. Fica sempre a

pergunta: Se eu morrer, quem vai cuidar

"A maior preocupação que eu tenho é morrer na

frente dele e ele ficar aí; quem vai tomar conta dele E no

surto, como é que vai internar Mas eu sou católica e eu

peço a Deus que, quando chegar a minha hora, que Ele

tome conta da situação" (AFDM).

"Nós vamos morrer, eu não sei o que vai acontecer

com ele. Eu pergunto: se nós morrermos, parente doente

mental é herança para se deixar para filho O Estado está

aparelhado para cuidar desses doentes" (AFDM).

Torna-se premente o investimento do Estado em um

trabalho, junto às famílias e comunidade, que possibilite

uma maior discussão e busca de estratégias que amenizem

a sobrecarga do cuidado e o sofrimento da família na

convivência com o doente mental. Estratégias que não

signifiquem o ônus do cuidado para as famílias, mas que

pretendam criar novas maneiras de estar junto e lidar

com a doença, que possibilitem aos familiares a expressão

e elaboração de muitas vivências associadas à sobrecarga

do cuidado, aos preconceitos sociais, ao isolamento, aos

problemas que surgem no relacionamento com os

profissionais de saúde, aos sentimentos de derrota.(4)

3.2.2 – Instrumentos de intervenção no

processo de cuidar

A discussão sobre a reabilitação psicossocial do doente

mental pretende não apenas mudanças na forma de

assistência, mas também mudanças de ordem

organizacional e jurídica e, sobretudo, mudanças quanto

à maneira que percebemos e convivemos com a loucura.

Uma tríade para o tratamento é consensual para os

familiares das Associações: profissional adequado, acesso

ao serviço e medicação.

É fundamental a presença dos serviços de saúde mental

no atendimento e suporte ao doente e sua família. O

vínculo com o serviço e o profissional tranqüiliza a família

e dá o norte ao tratamento.

"O que é importante Bons ambulatórios, bons

remédios. Um telefone que a família, em momentos de

desespero, sabe que pode contar. Que a família se sinta,

com o doente em casa, mais apoiada pelo governo, com

tudo que ela precisar" (AFDM).

"Para cuidar é importante paciência e entendimento,

mas para quem não tem suporte é difícil" (AFB).

Um dos problemas apontados pelos familiares da AFB

é o não funcionamento da maioria dos serviços

substitutivos à noite, nos finais de semana e feriados.

"Essas coisas geralmente acontecem no final de

semana, não sei por que, mas no final de semana. É por

isto que nós queremos que isso aqui passe a ser 24horas

por dia e sábado e domingo" (AFB).

De certa forma, o não funcionamento dos serviços

substitutivos nesses horários, empurra o familiar para as

emergências dos hospitais psiquiátricos, reforçando o

modelo hospitalocêntrico de atendimento.

Outro fator importante para o tratamento, apontado

pelos familiares da AFB e da AFDM, é o uso correto e

constante da medicação psiquiátrica. Entendem que a

medicação não cura, mas possibilita uma maior

socialização.

"Estava fazendo um mês que ele estava tomando

remédio. Ele voltou a trabalhar, voltou a estudar e, de

repente, ele inventou que o remédio estava fazendo mal.

Não teve quem fizesse ele tomar. Aí, ele regrediu. Largou

tudo" (AFB).

"Às vezes, não dependede mim, depende dele

também. Porque se hoje ele não tomasse o medicamento

rigorosamente, quem saberá Eu poderia até ter internado

novamente. Na doença mental, eles têm de ter consciência

de tomar o remédio para sobreviver dentro da sociedade"

(AFDM).

Os familiares, porém, apontam que algumas

medicações prescritas não são disponibilizadas para os

usuários pelos serviços, acarretando um grande ônus

financeiro para as famílias.

"Nem todo medicamento existe para que o doente

possa ser tratado. Mês passado, eu tive de comprar

medicamento para o meu filho. O Neuleptil não tem e

nem o Nitrazepol, estes são comprados todos os meses.

Agora, eu pergunto, será que a família que ganha o salário

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):275-282, abr/jun, 2004 279


A Reforma Psiquiátrica e as...

mínimo tem condição de comprar para medicar um filho,

um parente (AFDM)".

"É um remédio que é caro, mas compensa. Quer dizer,

o Estado não tem e isso é uma tristeza porque muitos

poderiam estar utilizando o Melleril." (AFB).

Gostaríamos de salientar a importância de uma

assistência ao doente mental que contemple, também, a

família e a comunidade, já que vivemos num país cheio

de desigualdades sociais, em que "o desemprego

prolongado, as formas de vida isolada, decorrentes da

debilitação dos laços familiares e sociais, a mobilidade

social e geográfica e as situações de exclusão social

(imigrantes, sem teto, marginais) aumentam a

vulnerabilidade à doença mental".(5) Intervir, portanto,

em saúde mental não significa apenas prestar assistência.

Intervir significa, sobretudo, estar atento à realidade

social, econômica e cultural em que vivem as pessoas

que atendemos, sem a busca inútil de soluções mágicas

ou fórmulas poderosas.

3.3 – O Modelo Assistencial em Saúde Mental

É através da definição de um modelo assistencial que

elaboramos as ações de saúde a serem desenvolvidas,

delimitamos o seu universo de atendimento, traçamos o

perfil dos profissionais e os objetivos a serem alcançados.

O modelo é, portanto, a mola mestra para a organização

e direcionamento das práticas em saúde.

O modelo assistencial hegemônico em saúde mental

é centrado no hospital psiquiátrico, apesar da reforma

psiquiátrica atual objetivar a transformação desse modelo,

buscando a implantação de uma rede comunitária de

atenção em saúde mental.

Para os familiares da AFB, o hospital representa um

espaço de exclusão e aprisionamento do doente mental.

O tratamento prestado e o funcionamento do hospital

geram desconforto na família e representam uma

experiência negativa na vida do familiar. "Eu não me

aventuro a ficar aí querendo fazer análise, pontos de vista

técnicos, filosóficos, nada disso. Eu falo do banheiro, da

privada, do banho frio, da violência do atendente mal

preparado, do eletrochoque, daquela roupa que eles

amarram o cara. Falo da sedação, da prepotência do

conhecimento. E eu não estou falando não é porque eu li

não. Eu estou falando porque eu vivi isto com uma pessoa

que é a coisa mais importante da minha vida" (AFB).

Mas, para os familiares da AFDM, a realidade dos

hospitais psiquiátricos é ainda a única forma de assistência

em saúde mental existente no país que supre as

necessidades da família e dos pacientes. A descrença nas

políticas de saúde mental e nas novas formas de assistência,

a falta de informações sobre o tratamento do doente

mental, as precárias condições sociais e econômicas em

que vivem esses familiares são fatores que dificultam a

participação da família como um dos atores fundamentais

para o sucesso da reforma.

"As coisas estão complicando, não se encontra lugar

algum para internar paciente. Você anda, anda e tem família

que não tem recurso algum" (AFDM).

"O Brasil de verdade está aqui. O Brasil de verdade é

uma mãe negra, desassistida, com um filho doente, que

ela não consegue tratar em casa e que o governo nega

tratamento para ele" (AFDM).

Já, para os familiares da AFB, o novo modelo de

atenção centrado nos serviços substitutivos evita a

cronificação, trazendo o doente à vida pública e criando

condições para que o indivíduo possa viver fora do

hospital.

Para a AFB, a reforma traz o sentido de desconstrução

e de reinvenção de novas formas de lidar com a loucura.

Em contrapartida, a AFDM afirma que a reforma tem gerado

desassistência. Uma das reclamações mais freqüentes desses

familiares é em relação ao fato de a reforma ter colocado

a família à margem de toda a discussão, não atentando

para as experiências e dificuldades vividas pela mesma no

convívio com o doente mental.

"Eu queria que as autoridades deste país ouvissem a

família, porque tem uns que estão fazendo a psiquiatria

com demagogia. Tem muitos adeptos no mundo e fica

difícil a família ter uma convivência maior para dizer que

não é isto que vocês estão pensando. Então, vamos ouvir

a família, ver o que a família tem a dizer. Mas não, na hora

que fazem as coisas, a família não é consultada. É da

maneira que jogam e a família tem de aceitar" (AFDM).

Várias são as contradições. Duas associações que não

compartilham de uma mesma visão de mundo. Enquanto

a AFB apóia a atual política nacional de saúde mental, a

AFDM condena as diretrizes que norteiam essa política e

defende o modelo hospitalocêntrico como uma forma

de tratamento para a doença mental. Torna-se essencial,

neste momento, a definição e aceitação, por parte das

famílias, de um modelo assistencial que cuide dos direitos

fundamentais do doente e da família e que permita a

convivência dos métodos terapêuticos com a cidadania e

a liberdade do usuário dos serviços.

3.4 - A organização de rede social – as

associações de familiares dos serviços de

saúde mental

A participação de usuários e familiares no movimento

da reforma, seja como aliado ou como adversário, fez

com que estes se organizassem em associações, buscando

a construção de novas formas de expressão política,

ideológica, social, cultural e de lazer. Essas novas formas

de organização apontam para a possibilidade de o familiar

e o usuário tornarem-se sujeitos de seu destino,

posicionando-se contra ou a favor da reforma psiquiátrica.

As associações que se posicionam favoravelmente à

reforma psiquiátrica contam com um maior número de

usuários, enquanto as que não concordam com as

propostas da reforma são constituídas, em sua grande

maioria, por familiares. Estas últimas surgiram fazendo

clara oposição ao projeto de lei do deputado Paulo

Delgado, como vemos a seguir.

"Nós fizemos a nossa Associação por causa dos nossos

doentes, que eles estão querendo botar na rua, acabar

com os hospitais. Foi devido àquele projeto do Paulo

Delgado. Aí, nós formamos a Associação. Eu entrei por

causa disso" (AFDM).

As associações são, no entender dos familiares,

instâncias de proteção aos direitos dos familiares e dos

280 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):275-282, abr/jun, 2004


usuários na assistência em saúde mental. Elas abrigam

pessoas que compartilham de uma mesma visão de mundo

e lutam pela conquista de um mesmo ideal. "A Associação

foi um encontro com pessoas que tinham os mesmos

problemas para resolver, da doença, da convivência com

o doente mental" (AFB).

"Eu me sinto mais fortalecida, mais segura junto à

AFDM. Quando tenho um problema, quando você fala,

você está falando a mesma linguagem." (AFDM).

"Aqui eu vejo que é tudo igual, todo mundo sofre da

mesma maneira (...) nós somos unidos pela dor, pelo

sofrimento, pelas dificuldades que a gente tem" (AFDM).

O motivo pelo qual os familiares procuram as

associações está diretamente relacionado à sua visão de

mundo, ao sofrimento vivido pela família na convivência

com a doença mental e à busca de suporte emocional e

assistencial para a realização do cuidado. Dentro delas,

os familiares compartilham de sentimentos que fazem com

que consigam conviver de uma forma menos árdua com

a loucura, pois as experiências vivenciadas com outros

familiares amenizam o sofrimento.

"A Associação, desde o primeiro momento, foi muito

importante, pra gente. Serviu, principalmente, como um

apoio. Porque, em momentos de desespero, há uma

verdadeira cadeia de ajuda. É um trabalho comunitário

importantíssimo. É um espírito de solidariedade que se

cria entre os que têm a mesma desgraça" (AFB).

"Eu tenho a impressão que muitas pessoas que vêm

aqui, em situações difíceis, sentam e conversam, saem

daqui mais convencidas de uma realidade. Não é só você

que tem um problema na sua casa, eu também tenho"

(AFDM).

Muitas famílias procuram as associações em busca de

soluções imediatas e pontuais para os seus problemas.

Não conseguem perceber que o trabalho desenvolvido

por essas instituições demanda tempo, disponibilidade e

construção de estratégias diante de novas situações que

surgem. Por não conseguirem perceber as associações

como um local de ajuda mútua e luta política, procuramnas

apenas para resolver um problema pessoal. Os

familiares que participam de ambas as associações apontam

que é muito difícil organizar as famílias para que seja

desenvolvido um trabalho associativo.

"A AFB precisa de gente para trabalhar. São muito

poucas as pessoas que ficam na Associação. Às vezes, as

pessoas vêm com suas necessidades, achando que vai

resolver rápido e quando percebem que não resolveu,

elas vão embora" (AFB).

"Quando uma família chega aqui e pede ajuda da

Associação, a gente conversa. A família, naquele momento,

faz mil juras e amor eterno à Associação. E o que

acontece A família nunca mais volta. Acontece que, às

vezes, depois de um tempo, a família volta como se não

tivesse acontecido nada e pede ajuda de novo" (AFDM).

Segundo um dos entrevistados da AFDM, muitos

familiares procuram a Associação em busca de soluções

que não podem ser dadas por essa entidade. A falta de

esclarecimento da população sobre os novos serviços de

saúde mental; a crença de que só o hospital psiquiátrico

trata; a permanência de uma representação social que

afirma que a loucura deve ser excluída do meio social; a

redução dos leitos psiquiátricos fazem com que o familiar

conceba a associação como a solução mágica para os seus

problemas.

"Essa semana, uma senhora ligou para a Associação

para saber como ela procedia para internar a filha. Eu

falei: é meio complicado, a Associação não tem ambulância,

a Associação não interna ninguém" (AFDM).

"Infelizmente, nós da Associação, não podemos

‘amostrar’ nada para ninguém, nós não temos poder para

‘amostrar’ alguma coisa. O poder público tem, mas nós

não" (AFDM).

Assumindo ou não papéis que não lhes competem, as

associações se transformam em locais de descobertas,

de trocas, de ajuda e de solidariedade. Convivem com

avanços e retrocessos na assistência em saúde mental.

Apontam caminhos, levantam bandeiras. Lugar de luta,

de encontro, de subjetividade e coletividade. Lugar de

compartilhar idéias, sentimentos, emoções e fracassos.

Lugar de conflitos, disputas e contradições. Dentro delas,

a vida se torna menos árdua para quem convive com a

loucura.

4 – CONSIDERAÇÕES FINAIS

As contradições, conflitos e semelhanças estiveram

presentes nos discursos hegemônicos e contrahegemônicos

dos familiares entrevistados e apontaram

tanto para a transformação como para a reversão do

modelo assistencial proposto pela atual reforma

psiquiátrica brasileira. Temas fundamentais como a luta

pelo reconhecimento da cidadania do doente mental e

sua reabilitação psicossocial, a inserção da família no

movimento pela reforma e a discussão sobre o modelo

assistencial nortearam este estudo.

Os familiares da AFDM reproduzem o pensamento

hegemônico na assistência prestada ao doente mental.

De maneira oposta, os familiares da AFB almejam a

transformação do modelo assistencial em saúde mental e

compartilham das metas preconizadas pela reforma

psiquiátrica, posicionando-se de acordo com a política

oficial de saúde mental brasileira. Detêm o discurso

contra-hegemônico da assistência em saúde mental e, ante

o novo modelo, surgem como atores sociais importantes

na construção e implementação das novas políticas

públicas para a área da saúde mental.

Os familiares da AFDM vêem os fenômenos saúde/

doença mental sob uma concepção biologicista, o que os

leva a pensar que pouco podem fazer para aliviar o peso

da convivência com o doente mental. A doença é

hereditária e, dessa maneira, ela "chega pronta", sem que

a realidade social e histórica interfira em seu processo e

sem que a família se sinta parte de uma realidade a ser

transformada.

Já para os familiares da AFB, a doença acontece dentro

de uma concepção dinâmica em que, também, os fatores

sociais, econômicos, biológicos e culturais influenciam

sobremaneira o surgimento e a evolução da doença.

A facilidade de acesso aos serviços de saúde mental e

a certeza de que são apoiados pelos mesmos na assistência

e no cuidado ao doente mental permite que se criem

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):275-282, abr/jun, 2004 281


A Reforma Psiquiátrica e as...

novas formas de conviver com a loucura. Esses familiares

têm a sobrecarga do cuidado amainada pela certeza da

parceria com os serviços e profissionais na assistência

prestada.

De maneira oposta, os familiares da AFDM continuam

a acreditar que o hospital psiquiátrico ainda é o grande

parceiro da família. Essa parceria para a AFDM pressupõe,

na grande maioria das vezes, a delegação do cuidado aos

hospitais psiquiátricos. A dificuldade na convivência com

a doença, a descrença no atendimento prestado pelos

novos serviços, a certeza de que o Estado não vem

desempenhando o seu papel na assistência à saúde da

população são exacerbadas pelo fechamento progressivo

dos hospitais psiquiátricos. Acreditam que as atuais ações

desenvolvidas pelo Estado oneram a família no cuidado

ao doente, ao entregar para a mesma a responsabilidade

pela assistência. O discurso da falta e da desassistência

permeia a vida desses familiares.

Mesmo para os familiares da AFB, que se sentem

amparados na assistência prestada pelos serviços aos

seus doentes, é dentro da associação, ou seja, no Núcleo

Familiar da AFB, que eles encontram a cooperação e o

apoio necessários na convivência com a doença mental.

As associações vêm preencher uma falta que existe na

assistência às famílias dentro dos serviços de saúde

mental, revelando, com isso, a urgente necessidade de

um trabalho junto a elas, pelo Estado e pelos serviços

de saúde mental.

A participação da universidade e de órgãos formadores

de pessoal da área da saúde, parcerias imprescindíveis na

discussão sobre as propostas da reforma psiquiátrica,

estimulariam uma percepção mais crítica sobre o

atendimento prestado ao doente mental. As escolas têm

sido, tradicional e historicamente, as reprodutoras da

ideologia dominante e implementadoras (acríticas) das

políticas sociais, apesar de reconhecer-se que,

contraditoriamente, contribuem, como transmissoras de

conhecimentos, para a formação de uma contraideologia.(6)

Entretanto, "a reforma psiquiátrica deixou

de lado, praticamente em todos os lugares, a universidade,

demasiadamente conservadora e endogâmica. A frente

da reforma psiquiátrica foi a assistência".(5)

Para os familiares da AFB e da AFDM, as associações

representam uma rede de apoio e solidariedade. Elas se

tornam, também, locais de reivindicações e de luta dos

familiares em face das políticas públicas para a área da saúde

mental. Essa posição é compartilhada pelos familiares tanto

da AFDM como da AFB, que percebem essas entidades

como instâncias de proteção aos direitos dos familiares e

dos usuários na assistência em saúde mental.

A superação dar-se-á a partir da construção e do

desenvolvimento de um trabalho, realizado pelo Estado,

pelos serviços de saúde mental, pelas instituições

formadoras e pelos profissionais de saúde, voltado para a

realidade social e histórica vivida pelas famílias na

assistência prestada ao doente mental.

A busca de novos parceiros, a escuta atenta para o

que falam, as dificuldades que vivem e a sua realidade

social e histórica são pontos de partida para reformular

o que se quer.

A reforma tem plantado suas idéias em terrenos

férteis, em terrenos que produzem frutos favoráveis à

transformação da assistência. Buscar novos terrenos,

mesmo que áridos e desconhecidos ou que contradigam

o que está posto pela reforma ainda é o grande desafio.

5 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 - Penna CMM. Repensando o pensar: análise crítica de um referencial

teórico de enfermagem e família [dissertação]. Florianópolis (SC): Escola

de Enfermagem da UFSC; 1992.

2 - Chauí MS. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense; 1981.

3 - Fiorin JL, Savioli FP. Para entender o texto: leitura e redação. 15ª ed.

São Paulo: Ática; 1999.

4 - Melman J. Repensando o cuidado em relação aos familiares de

pacientes com transtorno mental [dissertação]. São Paulo (SP): Faculdade

de Medicina da USP; 1998.

5 - Desviat M. A Reforma psiquiátrica. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 1999.

6 - Barros S. O louco, a loucura e a alienação institucional: o ensino de

enfermagem psiquiátrica sub judice [tese]. São Paulo (SP): Escola de

Enfermagem da USP; 1996.

282 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):275-282, abr/jun, 2004


A RESIDÊNCIA TERAPÊUTICA:

O MELHOR LUGAR DE SE VIVER 1

THERAPEUTIC RESIDENCE:

THE BEST PLACE TO LIVE

EL HOGAR TERAPÉUTICO:

EL MEJOR LUGAR PARA VIVIR

Rosana Maria Resgalla 2

Maria Édila Abreu Freitas 3

RESUMO

Este estudo buscou compreender o significado da travessia do hospício para a residência terapêutica na percepção dos

portadores de transtornos psíquicos. Para desvelar as experiências vividas por estes sujeitos, optei pela pesquisa qualitativa

na modalidade fenomenológica. A reflexão e a compreensão deste tema possibilitaram um novo olhar sobre a questão

da desinstitucionalização e proporcionaram discussões acerca deste processo contínuo de criação de novas formas de

lidar com a loucura, a diferença e o sofrimento humano.

Palavras-chave: Desinstitucionalização-Tendências; Saúde mental; Percepção; Existencialismo

ABSTRACT

This study sought to understand the meaning of the move from the mental institution to therapeutic residence as

perceived by patients with psychic disturbances. In order to understand the experiences lived by these subjects, I chose

qualitative research in a phenomenological mode. Reflection and the understanding of this theme made it possible to have

a new understanding on de-institutionalization and provided input for the discussion on this continuous process of

creating new ways of dealing with madness, difference and human suffering.

Key words: De-institutionalization-Trends; Mental Health; Perception; Existentialism

RESUMEN

Este estudio busca entender el significado del camino del hospicio al hogar terapéutico en la percepción de los portadores

de trastornos psíquicos. Para desvendar las experiencias de estos sujetos he optado por la investigación cualitativa en la

modalidad fenomenológica. La reflexión y la comprensión de este tema permitieron darle una nueva mirada al problema

de la desintitucionalización además de causar debates sobre este proceso continuo de creación de nuevas formas de

manejar la locura, la diferencia y el sufrimiento humano.

Palabras clave: desinstitucionalización – tendencias; salud mental, percepción, existencialismo.

1

Texto extraído da Dissertação de Mestrado:"A travessia do Hospício para a Residência Terapêutica: a conquista de um porto seguro" apresentada na

Escola de Enfermagem da UFMG.

2

Enfermeira do CHPB/MG, Mestre em Enfermagem.

3

Enfermeira, Doutora em Enfermagem, Professora Adjunta da EE/UFMG.

Endereço para correspondência: Caixa Postal 277- Centro, 36200970 – Barbacena- MG, e-mail: rosanar@net-rosas.com.br

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):283-289, abr/jun, 2004 283


A residência terapêutica: ...

I- INTRODUÇÃO

Sempre manifestei muita curiosidade sobre os sujeitos

portadores de transtornos psíquicos. Durante o meu

curso de Graduação em Enfermagem tive maior interação

com pacientes alcoolistas internados em hospitais

psiquiátricos particulares e o meu contato real com o

doente mental ocorreu quando comecei a trabalhar no

Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB)/MG.

Como profissional de enfermagem, tinha de lidar tanto

com pacientes com longo tempo de internação psiquiátrica

quanto com pacientes em crise que, tão logo melhorassem

dos sintomas, iriam ter alta hospitalar.A vivência e a

experiência de conviver com portadores de transtornos

psíquicos teve início em 1980, logo após a visita do psiquiatra

Franco Basaglia a Barbacena. Essa visita favoreceu as

discussões que já aconteciam no Brasil, sobre a humanização

da assistência aos doentes mentais internados nos hospitais.

Basaglia(1) trouxe a idéia da reinserção do doente mental

à comunidade, após o fechamento do manicômio em

Trieste e a criação de centros de atendimento à saúde

mental na comunidade italiana.

A adoção de propostas para a reformulação da

assistência psiquiátrica em Minas Gerais foi resultado da

divulgação de reportagens e fotos de pacientes no Hospital

Colônia de Barbacena, do lançamento do filme Em Nome

da Razão, de Helvécio Ratton, e das denúncias advindas

de associações profissionais e serviços de saúde sobre os

maustratos que lá aconteciam.

As transformações na assistência em Saúde Mental

no CHPB buscaram acompanhar os movimentos sociais

da luta antimanicomial que aconteciam em outras cidades

brasileiras. Em fevereiro de 2000, o Ministério da Saúde

aprovou a Portaria n. 106(2) que em seu Art.1° cria os

Serviços Residenciais Terapêuticos em Saúde Mental, no

âmbito do Sistema Único de Saúde. Em 2001, após 12

anos de tramitação é aprovada a Lei n. 10.216(3) que

dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas

portadoras de transtornos mentais e redireciona o

modelo assistencial em saúde mental.

Em 2001 foi inaugurada pela Coordenação de Saúde

Mental de Barbacena, a primeira residência terapêutica, e

em 2002 a segunda, totalizando 13 pacientes femininas

asilares integradas à comunidade barbacenense.

Essas residências vêm atender às propostas preconizadas

pela reforma psiquiátrica em curso no país e nos próximos

meses espera-se que mais oito residências terapêuticas sejam

instaladas nos vários bairros da cidade. Propõe-se também

a desinstitucionalização, com o desmonte dos hospícios e a

desestruturação de fazeres sobre a loucura, levando o sujeito

a se tratar em ambulatórios de postos de saúde, hospitaldia,

nos centros de convivência e até mesmo possibilitando

sua participação em cooperativas sociais.

Sendo a desinstitucionalização algo novo e recente,

tanto para o doente mental quanto para os profissionais

de saúde, surgirão muitas indagações. Os significados e

as reações diante deste processo são algo desconhecido.

Compreender e explicitar esses significados da travessia

do portador de transtornos psíquicos para a residência

terapêutica, são fatos que poderão contribuir para a

trajetória da desinstitucionalização, bem como para sua

aplicabilidade em contextos semelhantes em outros

serviços.

É um novo tempo, primeiro para a sociedade que

começará a conviver com este novo processo de

incorporação desses sujeitos, egressos do hospital

psiquiátrico, no seu cotidiano e principalmente para o

portador de transtornos psíquicos que é um novo ser

incorporado ao mundo.

2- A REFORMA PSIQUIÁTRICA E A

DESINSTITUCIONALIZAÇÃO:

FRAGMENTOS DE UM DISCURSO TEÓRICO

As diretrizes da reforma psiquiátrica, que nos leva até

a desinstitucionalização e conseqüentemente aos modelos

de atendimentos substitutivos ao portador de transtornos

psíquicos, fazem eclodir a discussão em torno da

reformulação da assistência ao doente mental que consiste

em uma necessidade já posta e discutida nas últimas duas

décadas. Desvelado está o hospital psiquiátrico como

instituição total onde se encontravam a miséria, a

periculosidade social, a marginalidade e a improdutividade.

Goffman(4) define instituição total como:

"[...] um local de residência e trabalho onde um grande

número de indivíduos com a situação semelhante,

separados da sociedade mais ampla por considerável

período de tempo, levam uma vida fechada e

formalmente administrada".

Esta definição nos permite uma possibilidade de

reflexão sobre o papel do hospital psiquiátrico e a sua

ação totalizadora sobre o sujeito que sofre de transtornos

psíquicos.

Atualmente percebe-se um novo olhar da sociedade

sobre o portador de transtornos mentais, sujeito

despojado de direitos e que foi submetido pelo saber e

pelas práticas médicas, bem diferentes daqueles já tão

vistos e feitos por nós.

"[...] as águas divisórias que separam os loucos e nãoloucos

nutrem-se de um olhar, de um poder do olhar

que os separa e distancia. Esse olhar que marca, que

define, que traça caminhos é o olhar manicomial. Olhar

onipotente e poderoso em tudo por um saber que dá

ao profissional de saúde o domínio do fazer, do saber,

do ouvir e do olhar sobre a loucura". Lobosque(5)

Conforme Amarante(6), a "[...] reforma psiquiátrica é

o conjunto de iniciativas políticas, sociais, culturais,

administrativas e jurídicas que visam transformar a relação

da sociedade para com o doente". É o reconhecimento

dos direitos individuais, uma nova consciência e um novo

olhar sobre o significado de cidadania, que favoreceram

as reivindicações por liberdade e reavivaram o interesse

por problemas sociais e de saúde Ornellas.(7)

A partir da desconstrução física e intelectual do hospital

psiquiátrico, o exercício de cidadania será desenvolvido

tanto em seus pacientes quanto em seus trabalhadores, e

o portador de transtornos mentais, ao sair do isolamento

e começar a praticar uma assistência terapêutica, pode

se transformar em um sujeito de direito e de fato.

Para Saraceno(8),

284 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):283-289, abr/jun, 2004


A cidadania do doente mental não é a simples restituição

de seus direitos formais, mas a construção de seus

direitos substanciais, e é dentro de tal construção (afetiva,

relacional, material, habitacional e produtiva) que se

encontra a única reabilitação possível.

O processo da desinstitucionalização delineia suas

práticas e saberes na construção de um novo modo de

tratar a loucura e conviver com ela, pois é

"[...] um processo social complexo, com envolvimento

de todos: políticos, médicos e o povo, e que visa

modificar as formas de organização psiquiátricas

existentes, produzindo estruturas de saúde mental que

substituam inteiramente a internação psiquiátrica do

tipo manicomial, através da construção de uma nova

política de saúde mental. Esse processo dar-se-ia

através de um trabalho terapêutico enriquecedor da

assistência global, complexa e concreta dos pacientes;

construindo-se estruturas externas diferentes aos

manicômios, como: centros de saúde mental, plantão

psiquiátrico em hospitais gerais, estruturas e espaços

extra-hospitalares e parques municipais". Rotelli (9)

Um novo cuidar, um cuidar diferenciado levará tanto o

profissional de saúde quanto o doente mental a

ultrapassarem barreiras impostas por tantos anos de

exclusão e posse de um saber cristalizado. Torna-se

urgente então tirar o doente mental da exclusão e reintegrálo

a uma sociedade, readaptá-lo a uma comunidade mesmo

que não seja a sua de origem, mas que irá aceitá-lo como

cidadão e vizinho no momento em que o mesmo tornarse

integrante de uma moradia terapêutica.

Desse modo, Bezerra (10), afirma que a reintegração

do sujeito não é uma adaptação a um determinado padrão

de normalidade, mas a um "reintegrar-se a si próprio e a

uma rede subjetiva", fortalecendo no sujeito o sentimento

de "estar no mundo".

Para regular sobre a desinstitucionalização, foi criada

uma lei sobre a saúde mental para garantia dos direitos de

cidadania dos doentes mentais e desconstrução do modelo

asilar. Isso demonstra, sobretudo, coragem política, pois

afronta vários interesses, principalmente os financeiros.

Bezerra Jr.(11), em comentário sobre a Lei n. 10.216(3)

de 6 de abril de 2001, do deputado Paulo Delgado, concluiu

que essa lei não institui um modelo terapêutico, não exclui

a internação e não propõe a ressocialização dos milhares

de doentes mentais de longa permanência, mas interrompe

a reprodução dos modelos manicomiais e principalmente

torna-se o primeiro instrumento legal de defesa dos direitos

do doente mental. Ainda, a Portaria n. 106 de 11 de

fevereiro de 2000 do Ministério da Saúde(2) dispõe sobre

o serviço de residências terapêuticas, que é uma alternativa

para o doente mental de longa permanência no hospital

que não possui casa ou família, ou cujos parentes não têm

a mínima condição de cuidar dele.

A Portaria n. 106 é complementada pela Portaria n.

1.220 de 7 de novembro de 2000(12), pela qual é criada

a atividade profissional de cuidador em saúde para

acompanhamento de paciente em residência terapêutica.

Essas residências, inseridas na comunidade fora das

instituições asilares, permitem uma reaproximação muito

rica do corpo, do espaço e do tempo, do uso dos objetos

e propiciam a formação de vínculos interpessoais. Criam

novas oportunidades sociais na comunidade e melhores

condições para lutar contra o preconceito relacionado à

loucura Vasconcelos.(13)

Furtado(14) mostra que:

"[...] é necessário que tenhamos claro que o prover

moradias acaba sendo mais complexo para os

profissionais – que precisam transpor políticas e

paradigmas cristalizados – do que propriamente para

seus futuros moradores, uma vez que na história da

humanidade a ‘novidade’ foram os hospícios e não

propriamente nossas habitações."

Este processo implica também uma mudança de

mentalidade e de comportamento da sociedade para com

o doente mental, uma revisão das práticas dos profissionais

de saúde mental e principalmente uma postura mais crítica

das instituições formadoras de profissionais tanto da saúde

quanto da educação.(15)

Delgado(16) conclui que o caminho a ser percorrido é:

[...] um longo processo, um vasto mundo, marcado

pela busca do tratamento adequado e acessível e da

autonomia possível dos usuários e trabalhadores dos

serviços públicos. A autonomia como tarefa maior,

como desafio posto pela construção da sociedade

democrática: o feito e o por fazer.

Fato é que as leituras realizadas não aplacaram minha

inquietação na busca do significado expresso pelo portador

de transtornos psíquicos, quanto a sua saída do hospital

psiquiátrico para a residência terapêutica. Esse sujeito, não

importa que seja homem ou mulher, para ser transferido

deverá ter mais de vinte anos de internação, não conviver

com seus familiares e não possuir mais sintomas agudos

que justifiquem a sua permanência no hospital psiquiátrico.

A revisão bibliográfica atuou como coadjuvante,

mostrando-me que existem vários estudos que discorrem

sobre os diversos aspectos envolvidos na problemática

da desinstitucionalização e que servem como uma diretriz

na atuação dos profissionais da área de saúde mental.

Assim sendo, persisto em minha inquietação buscando

compreender a experiência destes sujeitos, portadores

de transtornos psíquicos, ao efetuarem esta travessia do

hospital para a residência terapêutica, como ela é vivida.

Para tal, recorri à pesquisa na abordagem fenomenológica,

numa tentativa de ir "às coisas nelas mesmas", diretamente a

partir da experiência desses sujeitos, para compreender os

significados que emergem de sua vida cotidiana nas residências.

3- REFERENCIAL TEÓRICO-

METODOLÓGICO: PRESSUPOSTOS DA

ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA

Não é minha pretensão realizar um "tratado" sobre a

fenomenologia, pois o meu interesse é buscar na fonte

do referencial fundamentação que me possibilite

compreender o fenômeno em estudo e, conseqüentemente,

construir um conhecimento embasado na

ciência do vivido desses sujeitos, sofredores de

transtornos psíquicos, ao deixarem para trás o hospício

e partirem para uma residência terapêutica.

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):283-289, abr/jun, 2004 285


A residência terapêutica: ...

Assim sendo, busquei referendar-me em estudiosos que

utilizaram a abordagem fenomenológica em suas pesquisas

e em fenomenólogos, dentre eles Merleau-Ponty(17), que

trabalhou com concepções de fenômeno como liberdade,

autonomia, temporalidade e corporeidade, temas estes que

enfocarei ainda neste capítulo.

O termo fenomenologia diz respeito ao estudo do

fenômeno. Fenômeno refere-se, pois, ao vivido da

consciência: nossos atos, nossas lembranças, imaginações

e percepções. O fenômeno só tem sentido se sua

manifestação for na vivência e se o sujeito que o

experenciou descrever o fato.

Compete à fenomenologia, então, criar a possibilidade

para a compreensão do fenômeno estudado que será

apresentado e revelado à consciência.

Husserl, apud Capalbo(18), define que a

"fenomenologia é então uma ciência rigorosa que se inicia

pela descrição do vivido. Ela busca a descrição dos atos

intencionais da consciência e dos objetos por ela visados.

Portanto a consciência é sempre consciência de alguma

coisa. Não há consciência desvinculada do mundo e não

há mundo sem uma consciência para lhe dar significado,

não há "consciência pura" separada do mundo.

É a essência do fenômeno que se busca quando

interroga a consciência, é o invariante, a unidade do

fenômeno, é a realidade pura e objetiva. O fenômeno é

conhecido por meio da linguagem, que é o logos, e a

fenomenologia utiliza-se da linguagem para construir o

seu diálogo, que é a troca de compreensão dos sentidos.

E neste diálogo é importante conhecer o sentido que o

outro dá às coisas.

Merleau-Ponty(17) acrescenta ao conceito da

fenomenologia os seus pensamentos existencialistas,

apresentando assim a fenomenologia existencial:

"[...] a fenomenologia é o estudo da essência seja ela

da percepção ou da consciência [...] principalmente a

fenomenologia busca as essências na existência [...]

para ela o mundo está sempre ‘aí’ antes da reflexão,

como uma presença inalienável e cujo esforço está

sempre em encontrar esse contato ingênuo com o

mundo para lhe dar um ‘status’ filosófico."

Merleau-Ponty(17) identificou-se com o movimento

existencialista, no qual o seu ser, o ser do homem tornase

a grande questão a ser evidenciada. O existencialismo

torna-se humanismo quando tem como proposta revelar

a estrutura ontológica do homem tal como ele é e quando

tem como ponto de partida a vinculação do homem com

o mundo Piccino.

A fenomenologia de Merleau-Ponty(17) investiga o

homem como corpo encarnado em sua experiência de vida;

a intencionalidade, para ele, é a experiência vivida, é o sentir

a emoção, e o gosto, o olfato é o sentir dos sentidos Capalbo.

A opção em fazer o presente estudo, buscando ouvir

o que os sujeitos portadores de transtornos psíquicos

vivenciam ao efetuarem a travessia do hospício para as

residências terapêuticas, motivou-me a optar pela

abordagem fenomenológica. Fato é que não tenho

conhecimento de que tenha sido dada voz, escuta a estes

sofredores; assim sendo, busquei uma abordagem que

me permitisse trabalhar com o significado expresso por

esses sujeitos. Até mesmo por ser sabedora das reais

condições de segregação, abandono, descaso em que esses

sujeitos experienciam as suas existências.

Não busco explicações causais, mensurações e

quantificações nesta pesquisa, a minha escolha foi a

investigação qualitativa por ser uma opção coerente com a

minha visão de mundo e com o fenômeno que desejo estudar.

A pesquisa qualitativa proporciona ao pesquisador uma

ampla liberdade para realizar seus estudos, e seu limite é

fixado pelo rigor do trabalho científico Gualda et al.(19)

Sua concepção mais abrangente produz dados descritivos,

como palavras, sejam elas escritas ou faladas, e também

os comportamentos observados das pessoas.

Busquei nesta pesquisa os depoimentos das pessoas

visando à essência, ao significado e à compreensão do

fenômeno estudado, o que foi possibilitado pela utilização

da abordagem fenomenológica enquanto uma vertente

da pesquisa qualitativa.

Bicudo(20), sintetizando o pensamento de Joel Martins,

aponta três momentos para a pesquisa fenomenológica,

momentos esses que não são isolados, mas entrelaçados:

a descrição, a redução e a compreensão.

No primeiro momento, o pesquisador buscará o

fenômeno a partir da descrição do sujeito que o vivencia.

O fenômeno será apresentado por meio de símbolos e

significados próprios dos sujeitos, em fala ingênua e

espontânea.

O momento seguinte é o da redução fenomenológica,

no qual o pesquisador deverá continuar a olhar o fenômeno

tal como ele foi descrito, buscando a sua essência,

colocando-se na perspectiva do sujeito e buscando

compreender a situação vivenciada pela ótica do sujeito.

O último momento é a compreensão seguida da

interpretação. É importante lembrar que a compreensão

do fenômeno e a sua interpretação não acontecem de

uma maneira isolada, mas em uma região de fenômenos

co-percebidos e com o rigor do pesquisador.

Os sujeitos do discurso são os portadores de

transtornos psíquicos que obtiveram alta de hospitais

psiquiátricos ou hospícios da cidade de Barbacena. Foram

considerados aqueles que ficaram internados por mais

de quinze anos, que não tinham convivência com nenhum

membro da família e que não apresentavam nenhuma

sintomatologia psiquiátrica que justificasse sua

permanência no hospício.

A melhor maneira de realizar esta pesquisa foi ouvir

os próprios moradores, aqueles que vivenciam

cotidianamente o fenômeno que está situado em seu

mundo-vida, conhecido também como região de inquérito.

A região de inquérito deste estudo são as duas residências

terapêuticas onde residem os sujeitos da pesquisa que

vivenciaram esta travessia, situadas na cidade de

Barbacena, Minas Gerais.

Para a coleta dos discursos, fui encaminhada pela

Coordenação de Saúde Mental de Barbacena a uma das

residências terapêuticas existentes naquela cidade. Após

as apresentações, informei-as sobre o meu estudo,

expliquei os objetivos e a metodologia. Com o

consentimento dos moradores e sua adesão à pesquisa,

formulei-lhes a seguinte questão norteadora: Para você,

o que é sair do hospital e vir morar nesta casa

286 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):283-289, abr/jun, 2004


O momento do encontro foi único para cada moradora,

em sua residência e em seu quarto como elas preferiram,

assegurando a tranqüilidade e o anonimato. Uma das

passagens mais importantes durante o período em que

realizei as entrevistas foi quando eu disse que o nome delas

seria expresso por meio de pseudônimos, e que eu gostaria

de que elas sugerissem os apelidos. Imediatamente elas

disseram que queriam manter o seu nome verdadeiro, pois

por muitos anos foram conhecidas como "Maria de Tal",

"Bambu", "Maria Interrogação", entre outros. Agora que

tinham documentos, identidade, nome e sobrenome, o

mesmo não iria aparecer Optei, então, por colocar nos

depoimentos as iniciais do nome de cada colaboradora.

Na pesquisa qualitativa não há um número

predeterminado de sujeitos a serem entrevistados, portanto

fui agendando as entrevistas e realizando-as. Foram

realizadas 10 entrevistas, a seguir procedi à transcrição

das mesmas, e quando as falas começaram a dar sinal de

repetição encerrei esta etapa da pesquisa.

Os discursos depois de coletados foram transcritos e

analisados seguindo os passos preconizados por Bicudo &

Espósito(20) que engloba: leitura global do depoimento,

extração das unidades de significado, unidades de

significados transformadas, convergência e divergência de

sentido, encontrando oito unidades temáticas que em nova

convergência de sentido originaram três categorias abertas.

Para a análise compreensiva dos depoimentos,

realizarei "uma interlocução" considerando os significados

expressos pelos sujeitos da pesquisa, os autores

escolhidos e a minha vivência neste cenário em que se

coloca o hospício e a residência terapêutica.

A partir desse momento, analiso uma das categorias

abertas que é o tema deste artigo.

4. A ANÁLISE COMPREENSIVA DOS

DISCURSOS

A residência terapêutica: o melhor lugar

de se viver

Esta categoria engloba O medicamento na existência

das moradoras e os Equívocos na busca da residência

terapêutica. Evidenciamos transformações ocorridas no

portador de transtornos psíquicos ao fazer a opção de

ser transferido para a residência terapêutica. Ao querer

sair do hospício, ao efetivar a sua escolha, ele possui

apenas as três dimensões temporais do seu existir, ou

seja: o passado, lembrando-lhe do que viveu; o presente,

mostrando-lhe como é; e o futuro, o vir a ser, com as

possíveis imprevisibilidades da existência Forghieri.(21)

Merleau-Ponty(17) aponta a questão da liberdade de

escolha, afirmando que "[...] a escolha verdadeira é a

escolha de nosso caráter inteiro e de nossa maneira de

ser no mundo". Inicia-se no ato da escolha o exercício de

liberdade, levando o sujeito a ter responsabilidade de

assumir os riscos da imprevisibilidade e suas

conseqüências, traduzindo-se na coragem de ser ou não

ser, conforme mencionaram:

[...] sente-se realizada por ter saído do hospício [...]

foi uma graça de Deus que recebeu ao ir morar na

residência, sente-se livre para fazer o que quiser [...]

participa de grupos de orações, tem uma vida muito

ativa, convivendo normalmente com a comunidade de

Barbacena [...] (S.C.O)

[...] depois que foi para a residência adquiriu mais

saúde, sente-se bem na casa dela, tem bom

relacionamento e é uma espécie deder[...] (M.R.S.)

[...] sente-se aliviada, compra o que quer e já viajou

para outra cidade[...] Não possuía nada no hospital,

agora possui roupas, conta no banco e uma cômoda

que é só dela [...] (R.V.S.)

Às vezes, é possível concretizar alguns sonhos, pois o

homem é um ser de possibilidades e ao fazer uso de sua

liberdade, viverá este sentimento de uma maneira ampla,

atribuindo-lhe sentido, direcionando a sua intenção e o

seu agir de maneira a torná-lo real, pois terá diante de si

as múltiplas possibilidades de seu existir.

Em primeiro lugar as moradoras sentem-se gratas a

Deus por terem conseguido realizar sonhos antigos, de

possuírem o que desejavam, de poderem sair de casa para

passear, de exercitarem a sua liberdade, de adquirirem

as coisas e de se sentirem cidadãs. No pensamento

merleau-pontyano(17): "[...] se a liberdade é liberdade de

fazer, é preciso que aquilo que ela faz não seja desfeito

em seguida por uma liberdade nova.[...]"

Para as colaboradoras, a liberdade e o exercício da

cidadania se mostram quando:

[...] faz as atividades na cozinha junto com a outra

moradora, gosta do que faz, afinal é a sua casa, faz o

que quer e se levanta na hora que quiser[...] (M.R.S)

[...] participa intensamente das atividades domésticas

da residência [...] dentro de casa sempre tem alguma

coisa para fazer, e quando não tem cuida de sua

aparência, de seus cabelos [...] (S.C.O)

[...] é atuante na residência, faz atividades de limpeza

em dias predeterminados [...] (M.L.S.)

[...] está com uma vida muito boa, pois o seu cotidiano

é tranqüilo, faz suas obrigações nos dias determinados

e tem tempo para fazer trabalhos manuais e vendêlos

[...] (M.C.A)

Nestes depoimentos desvelam-se o espaço das ações,

onde tudo acontece. As moradoras sentem-se como parte

atuante na residência terapêutica, distribuem entre si as

atividades domésticas que devem ser realizadas

considerando o contexto de qualquer outra residência,

como: limpeza de banheiros, varrição da casa, lavação de

roupas e o provimento e confecção da alimentação.

Sentem-se responsáveis por suas tarefas, demonstram

prazer em fazer o almoço do dia e escolhem o cardápio

no momento em que vão realizar as compras na feira ao

lado da casa.

Se, por acaso, sentem-se indispostas ou impossibilitadas

de exercer alguma das funções previamente determinadas,

trocam idéias entre elas e as funções são novamente

redistribuídas, sem causar danos e transtornos entre elas.

O que acabamos de explicitar se mostra no sentido

da palavra autonomia, descrito por Giddensi(22);

"[...] a condição de se relacionar com outras pessoas

de modo igualitário. [...] Assim concebida, a autonomia

permite aquele respeito pelas capacidades do ‘outro’,

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):283-289, abr/jun, 2004 287


A residência terapêutica: ...

intrínseco a uma ordem democrática. O indivíduo

autônomo é capaz de tratar os outros da mesma forma

e reconhecer que o desenvolvimento de suas

potencialidades separadas não é uma ameaça. A

autonomia também ajuda a configurar os limites

pessoais necessários à administração bem-sucedida dos

relacionamentos. [...]"

As moradoras da segunda residência adquiriram

móveis tipo cômodas para guardar seus pertences e estas

cômodas ficam dentro de seus quartos, espaço, território

que elas delimitaram e reconheceram como de seu

domínio. Elas não possuem gavetas trancadas, ao contrário

do que acontecia no hospício, onde tinham que guardar

os seus pertences em embornais, dependurados no

pescoço ou trancados em guarda-roupas, com medo de

serem roubadas. Argumentam que guardam os seus

tesouros nas gavetas e sobre a cômoda e não some nada,

pois existe o respeito e a confiança entre elas, conforme

explicitam:

[...] comprou uma cômoda grande para ela, onde cabe

seus sapatos e roupas, viajou à Aparecida do Norte,

emocionou-se com a imagem de Nossa Senhora e

comprou uma igualzinha para ela [...] As moradoras

sabem onde ela guarda o dinheiro e a chave da gaveta,

mas ela tem confiança nelas e não some nada[...]

(M.R.S.)

[...] pode comprar e ter as coisas que compra [ ..]

.Com o dinheiro que está recebendo comprou uma

cômoda nova que é só sua [...] Guarda as roupas nela

e ninguém mexe[...] (F.M.O.)

[...] não precisa de mais nada para sentir-se melhor,

ressalta a existência entre as moradoras de uma ética

de bem viver, um respeito e confiança mútua [...]

(G.M.J.)

Neste espaço onde elas convivem, a palavra de ordem

é a liberdade, a liberdade de escolha, de ir e vir. Esta

condição de liberdade humana é a própria existência que

se fundamenta na percepção e na compreensão das

possibilidades de escolha na vida cotidiana. É o encontro

do significado com o ato de significar, do desejo com o

real, do imaginário com a concretude. Esta situação de

liberdade é definida por Merleau-Ponty(17) como um

encontro do interior com o exterior.

E é a liberdade no seu sentido mais puro que

encontramos nos discursos das moradoras:

[...].a liberdade de ir e vir é a palavra de ordem dentro

da casa, só precisam avisar quando for sair, para que

outra moradora tome conta de seus animais [...] o

único horário fixo na residência é o almoço, quando

há um motivo justo [...] (G.M.J.)

[...] vai aonde quer e quantas vezes quiser[...] comenta

que vai à missa sozinha, mas quando é para ir a algum

lugar mais distante vai acompanhada pela cuidadora

[...´] (M.C.A.)

[...] foi muito boa a mudança para ela, faz suas

atividades na residência e tem tempo para fazer

ginástica para perder a barriga[...] transita livremente

para fazer as coisas de que necessita, como buscar a

sua medicação e fazer as suas compras [...] (M.R.S.)

é livre para sair e fazer o que quiser, participa de

vários grupos de orações, já conheceu várias cidades e

tem uma vida ativa, convivendo normalmente com a

comunidade de Barbacena [...] Coisas miúdas que

encantam a vida da gente[...] (S.C.O.)

O homem é responsável por suas escolhas, e mesmo

correndo o risco de fazê-las de forma indevida ou iludindose,

ele tem a liberdade de fazer as suas opções, por isso

que ele é um ser de possibilidades em sua trajetória

existencial.

Freitas(23) ressalta que "[...] é o homem que em seu

horizonte de possibilidades atribui sentido à liberdade e

busca vivenciá-la como uma procura de libertação,

expandindo-se no contexto das suas experiências, ou seja,

situado na ação".

É neste novo mundo que as moradoras sentem o que

é liberdade, o que é construir a autonomia, oportunizar

a compreensão de escolher a roupa que irá vestir;

o horário em que irá se levantar e deitar, além de poder

sair para passear na rua sem que exista alguém correndo

atrás dela para pegá-la e levá-la de volta para dentro

do hospício.

Viveram durante anos submissas às ordens do poder

institucional. Não tinham direito a escolhas, eram

acordadas na madrugada para desocuparem o leito e irem

para o pátio, onde permaneciam durante todo o dia. Eram

contadas como se fossem apenas números, comiam o

que lhes era dado, durante muito tempo foi canjiquinha

mal cozida; tomavam medicamentos sem saber para que

servia. Esse tempo ficou marcado no corpo e na memória.

A sensação de ser um cidadão, de ser escutado e

respeitado não se traduz em palavras, gestos ou símbolos

conhecidos por nós, pois perpassa a nossa compreensão,

uma vez que não estivemos do outro lado das grades e

dos muros. O profissional, este sim, sempre esteve do

outro lado na posição de mando e poder.

A categoria A residência terapêutica:o melhor lugar

de se viver é desvelada de maneira significativa durante

todo este estudo. Nas entrevistas percebi que era um

assunto expressivo para as moradoras, pois se

transformavam em outras pessoas, abriam sorrisos,

iluminavam-se e falavam com o coração. Como Merleau-

Ponty (17) assinalou, "[...] sua fala é o seu pensamento[...]":

[...] sente-se bem na residência, onde se encontra entre

amigas e com boa convivência [...] está agradecida

pela oportunidade de estar na residência [...] a

residência é muito melhor que o hospital [...] (M.A.G)

[...] agora está muito bem, não se sentia bem no

hospital, rezava para sair de lá [...] seu cotidiano é

muito bom [...] agradece por estar debaixo de um

teto, de uma casa onde pode viver feliz [...] (S.C.O.)

[...] sente-se sossegada, com uma boa vida e como

está recebendo benefícios, compra o que quer [...] conta

que festejou seu aniversário e que fez 86 anos, apesar

de aparentar bem menos [...] comenta que todos

perguntam a ela se gosta da casa, responde

afirmativamente, pois é a sua casa agora e lá ela está

no céu [...] (M.C.A.)

[...] agradece a Deus por ter ido morar na residência,

convive bem com as outras moradoras e com a

288 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):283-289, abr/jun, 2004


vizinhança [...] pela recepção que teve na residência,

ela viu que estava em outro mundo, um mundo melhor

[...] existem profissionais de saúde que querem trocar

de lugar com ela, porque ela mora no melhor lugar

que existe [...] (G.M.J.)

[...] na residência é bom porque ela pode comprar o

que quiser para comer [...] a residência é melhor que

o hospital [...] a residência é o melhor lugar de se viver

[...] ( M.H.O.)

5- CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir do momento em que me dispus a desenvolver

esta pesquisa na abordagem fenomenológica, buscando

compreender o significado da travessia do hospício para

a residência terapêutica, expresso na percepção dos

portadores de transtornos psíquicos, a fala desses sujeitos

passou a ser fundamental para a construção deste

conhecimento que passa pelo significado, pelo sentido

que essa travessia adquiriu no mundo-vida desses sujeitos.

Sinto que as considerações que trago estão

circunscritas ao olhar da profissional e dos pacientes nesta

realidade, por isso são perspectivais, por estarem inscritas

em um espaço e em um tempo próprio de quem as

vivenciou.

Devo salientar que o prazer de realizar as entrevistas

foi uma experiência indescritível, pois o tempo todo

percebia e aprendia ser inútil tentar calar as vozes, destruir

a auto-estima, roubar os saberes e tomar a liberdade,

pois mais cedo ou mais tarde o sujeito ressurge como

um presente, vivo, transformado e autodeterminado a

reescrever novamente a sua história.

Os significados que emergiram desta pesquisa

transcenderam a enfermagem para abranger a totalidade

dos profissionais que tratam e lidam no seu dia-a-dia com

os portadores de transtornos psíquicos, sejam eles

pacientes institucionalizados, em preparação para a alta

hospitalar, em processo de transferência para a residência

terapêutica, para o hospital-dia ou qualquer outro serviço

substitutivo em saúde mental.

Torna-se premente uma cultura institucional em que

todos os profissionais envolvidos estejam conscientes de

que a reforma psiquiátrica é um movimento amplo,

presente, contínuo e que veio para ser refletida e adotada

como uma possibilidade de exercício da cidadania.

Agora, resta-nos divulgar o conhecimento construído,

fortalecendo as iniciativas de desinstitucionalização a partir

dos ensinamentos que aprendemos com nossos novos

cidadãos: a coragem de ousar, a vontade de ser e viver

intensamente a liberdade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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o otimismo da prática. São Paulo: Brasil Debates; 1979

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REME – Rev. Min. Enf; 8(2):283-289, abr/jun, 2004 289


Enfermagem em setor ...

ENFERMAGEM EM SETOR

FECHADO – ESTRESSE OCUPACIONAL

NURSING IN A CLOSED

UNIT – OCCUPATIONAL STRESS

ENFERMERÍA EN UNIDAD

CERRADA – ESTRÉS OCUPACIONAL

Daclé Vilma Carvalho 1

Fabíola Carvalho de Almeida Lima 2

Tânia Maria Picardi Faria Costa 3

Elenice Dias Ribeiro de Paula Lima 4

RESUMO

Trata-se de um estudo descritivo desenvolvido em um hospital geral, filantrópico e de médio porte de Belo Horizonte

com o objetivo de determinar o nível de estresse de trabalhadores de enfermagem que atuam em setores fechados. De

uma amostra de 31 pessoas, 9,7% apresentaram altos níveis de estresse.

Palavras-chave: Estresse Psicológico; Doenças Ocupacionais; Riscos Ocupacionais; Enfermagem de Centro Cirúrgico;

Unidades de Terapia Intensiva

ABSTRACT

This study was carried out in a general philanthropic hospital in the city of Belo Horizonte. The objective is to show the

level of stress in nursing staff working in a closed unit. In a sample of 31 people, 9.7% have a high level of stress.

Key-words: Psychological Stress; Occupational Diseases; Occupational Risk; Operating Room Nursing; Intensive Care

Units

RESUMEN

Se trata de un estudio descriptivo efectuado en un hospital general filantrópico mediano de Belo Horizonte con el

objetivo de determinar el nivel de estrés de trabajadores de enfermería que ejercen su tarea en una unidad cerrada. De

una muestra de 31 personas el 9,7% tiene un nivel de estrés elevado.

Palabras clave: estrés psicológico; enfermedades ocupacionales; riesgos laborales; enfermería en quirófano; unidades

de terapia intensiva

1

Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta da Escola de Enfermagem da UFMG.

2

Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora Assistente da Escola de Enfermagem da UFMG.

3

Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora Assistente da Escola de Enfermagem da UFMG.

4

Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem. Professora Assistente da Escola de Enfermagem da UFMG.

Endereço para correspondência: Av. Alfredo Balena, 190, CEP: 30130-100, Belo Horizonte-MG E-mail: dacle@enf.ufmg.br

290 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):290-294, abr/jun, 2004


INTRODUÇÃO

Nos primórdios da história da humanidade o trabalho

ocorria de forma bastante rústica nas tribos nômades.

Após esse período houve a formação de conglomerados

e núcleos familiares, e o produto do trabalho agrícola e

manufaturado era comercializado com relação de troca.

Com o passar dos tempos, o processo de trabalho foi

se modificando e aprimorando, tendo seu ápice no século

XVIII com a Revolução Industrial. O trabalho era exercido

por grande parte da população em diversos países e era

realizado em condições mínimas de segurança, o que

acarretou aumento de acidentes, morbidade e mortalidade

dos trabalhadores.

Já no século passado, surgiram alguns tímidos

movimentos em prol da questão da saúde do trabalhador.

Atualmente, temos presenciado grandes avanços nesta

área, fortificando-se principalmente nas últimas décadas.

Entretanto, muitos trabalhadores continuam adoecendo

e morrendo de doenças antigas, ao mesmo tempo em

que surgem novas doenças decorrentes do avanço

tecnológico.

Sabe-se que o trabalho pode trazer benefícios e

sofrimentos ao homem e segundo Dejours(1), não há

neutralidade na relação do trabalho - saúde, pois este

favorece a doença ou a saúde.

Segunda a Organização Mundial de Saúde-OMS(2) há

um favorecimento da saúde física e mental quando o

trabalho se adapta às condições do trabalhador e quando

os riscos para a saúde estão sob controle.

Há cada vez mais uma preocupação com a saúde do

trabalhador, no sentido de se evitarem danos. A OMS

tem se empenhado não só no estudo das "doenças

profissionais", que são aquelas que possuem uma relação

direta de causa e efeito entre risco e enfermidade, mas

também no das "doenças relacionadas ao trabalho", que

são aquelas que englobam características pessoais do

trabalhador, fatores socioculturais e risco do próprio

ambiente de trabalho.

Mendes(3), considera o estresse ocupacional como

uma doença relacionada ao trabalho, e a OMS(2) coloca

que em locais de trabalho onde há um grande número de

fatores estressantes, metade dos trabalhadores apresenta

níveis moderados de estresse e 5% a 10% apresentam

problemas graves.

A palavra estresse foi utilizada pela primeira vez, na

área de saúde, pelo médico canadense Hans Selye, para

designar um conjunto de reações inespecíficas, de ordem

química e estrutural apresentada por uma pessoa em

situação de tensão.(1)

Sabe-se também que essas reações provocadas pelo

estresse são inerentes ao ser humano, fazendo com que

este reaja positivamente a certas situações. Porém o que

tem preocupado vários estudiosos é a exposição

acentuada a agentes estressores, sofrida por um número

cada vez maior de pessoas, levando a uma intolerância

orgânica, causando sofrimento físico e psíquico ao

indivíduo.

Vários tipos de trabalho são considerados

estressantes, por desencadearem desgaste físico e/ou

mental, estando entre eles as atividades desenvolvidas

nos hospitais. Araújo(5), mostra que o ambiente hospitalar

gera o estresse de várias naturezas, principalmente por

estar ligado com o sofrimento, a dor e a morte.

Segundo Waldron(6), os profissionais de enfermagem

desenvolvem, ao longo de sua profissão, algum grau de

estresse. Constantemente estão enfrentando situações

de estresse, decorrentes do seu trabalho, tais como:

ambigüidade de atribuições, sendo muitas vezes

remanejados de setor, ou ainda executando diversas

tarefas dentro de uma mesma unidade; jornada de

trabalho, que em geral é de 12 horas em dias alternados,

o que expõe os trabalhadores durante um tempo elevado

a fatores estressantes. Há também um outro fator

desencadeador do estresse, que é a própria relação de

trabalho com a clientela, seja o próprio paciente ou seu

familiar que se encontram em muitos casos ansiosos e

amedrontados.

Alguns ambientes de trabalho são, sem dúvida

nenhuma, considerados como um risco à saúde, ou ainda,

como propensos a esse risco. De acordo com Araújo(5),

o ambiente hospitalar é um deles e apesar dos poucos

estudos existentes, percebe-se um risco acentuado nos

setores fechados, como Bloco Cirúrgico e Centro de

Terapia Intensiva. Esses setores possuem características

próprias, como a necessidade de se restringir o contato

pessoal fora dessas unidades de trabalho. Além disso, o

atendimento aos pacientes nesses locais é diferenciado,

necessitando de agilidade e habilidade pois se trata de

situações emergenciais, em que o paciente corre risco

de vida. Tem-se ainda nesses setores o emprego de

tecnologias avançadas, exigindo a permanente atualização

da equipe. Essas características desses locais de trabalho

repercutem de alguma forma na saúde dos trabalhadores.

Geram ansiedade e fadiga que, acrescidos de tantos

outros riscos ocupacionais ali encontrados, exigem

atenção por parte dos dirigentes e profissionais da

saúde ocupacional.

Com vistas a contribuir com a direção de uma

instituição hospitalar no sentido de oferecer subsídios

para atuar na promoção de saúde de seus trabalhadores,

foi desenvolvido este trabalho com o seguinte objetivo:

Identificar o nível de estresse ocupacional dos

auxiliares de enfermagem que atuam no Bloco Cirúrgico

e no Centro de Terapia Intensiva de um hospital

filantrópico de Belo Horizonte.

PERCURSO METODOLÓGICO

Trata-se de um estudo descritivo e exploratório. As

pesquisas descritivas têm como objetivo primordial a

descrição das características de uma determinada

população, fenômeno ou o estabelecimento de relações

entre variáveis. As exploratórias são desenvolvidas com

o objetivo de proporcionar uma visão geral de um

determinado problema, a fim de torná-lo familiar, sem a

intenção de explicar a realidade como um todo.(7)

O estudo foi desenvolvido nos setores fechados -

Bloco Cirúrgico (BC) e Centro de Terapia Intensiva (CTI)

de um hospital geral, filantrópico e de médio porte de

Belo Horizonte.

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):290-294, abr/jun, 2004 291


Enfermagem em setor ...

O Bloco Cirúrgico possui 7 Salas de Operação e 1

Sala de Recuperação Pós- Anestésica. São realizadas em

média 15 cirurgias / dia, incluindo as de grande porte, nas

diversas especialidades médicas.

O Centro de Terapia Intensiva possui 8 leitos

destinados ao tratamento intensivo de pacientes da

própria instituição, principalmente daqueles cujo pósoperatório

exige esse tipo de cuidado.

A população estudada foi constituída por todos

trabalhadores de nível médio de enfermagem (34), lotados

no turno diurno, do BC e CTI do referido hospital.

Fizeram parte do estudo 31 trabalhadores, que

correspondem a 91,2% da população. Não participaram

da pesquisa 3 auxiliares de enfermagem que se

encontravam em licença médica ou gozo de férias, durante

a fase de coleta de dados.

Para coleta de dados foi utilizado um instrumento,

previamente testado e validado por Lima(8) junto a um

grupo de trabalhadores de enfermagem, constituído de

2 partes:

PARTE A – Teve a finalidade de caracterizar os

trabalhadores de enfermagem, no que diz respeito aos

aspectos pessoais, tais como: código do entrevistado,

sexo, faixa etária, estado civil, religião, número e idade

de filhos, escolaridade, tempo de formado e de serviço

na referida instituição ou em outra concomitantemente.

PARTE B – Teve como objetivo levantar dados para

determinar o nível de estresse dos trabalhadores. Para

tal verificação, foram utilizadas escalas que medem a

Nível de

=

Estresse

ocorrência de sintomas somáticos (12 itens) e mentais

(18 itens) de estresse. Essas escalas foram obtidas do

"Occupation Stress Indicator", que é um instrumento

utilizado e validado internacionalmente, criado por

Cooper et al.(9), sendo validado no Brasil por Moraes.(10)

A coleta de dados foi realizada após a assinatura do

termo de consentimento pós- informado. Para facilitar a

explicação sobre o preenchimento individual do

questionário, foram organizados grupos de respondentes,

utilizando sala fora do setor de trabalho, para manter a

privacidade do grupo e evitar transtornos nos setores.

Após a coleta dos dados, estes foram tabulados e

apresentados em tabela e quadro e analisados por meio

de percentuais.

A caracterização da equipe de enfermagem - PARTE

A - foi apresentada de forma descritiva.

Para calcular o nível de estresse dos trabalhadores

(PARTE B do instrumento), pautou-se na avaliação do

estado atual de saúde mental e sintomas físicos. O estado

de saúde mental foi determinado por meio de uma média

simples de todas as opções apresentadas na escala

(Questões de 1 a 18 da parte B – Estado atual de saúde,

cuja gradação variava de 1 a 6).

Na avaliação dos sintomas físicos, foi utilizada uma

média simples das opções apresentadas na escala

(Questões de 1 a 12 da parte B – Inventário de sintomas

e do estado físico, no qual a resposta positiva valia 5 e a

negativa 1).

O nível de estresse foi determinado por meio da

seguinte fórmula:

= 6 X média de saúde mental + 5 X média de sintomas físicos

11

Assim, utilizando os parâmetros adotados por

Cooper(9), os níveis de estresse variam de 1,0 a 5,5 com

média de normalidade entre 2,0 e 3,4. Aqueles resultados

que estivessem abaixo ou acima desse nível, estariam

necessitando de intervenção.

RESULTADOS

Caracterização da amostra

Fizeram parte da amostra 31 trabalhadores de

enfermagem, sendo 25 auxiliares e 9 atendentes que já

estavam em processo de profissionalização.

Todos possuem apenas um vínculo empregatício e

75,2% (23) trabalham na instituição de 2 a 5 anos. A

maioria dos pesquisados (27 – 87,1%) é do sexo feminino,

professa a fé católica (20 – 64,5%), é solteira (17 – 54,8%)

Quanto à idade, 51,6% (16) encontram-se na faixa de

23 a 30 anos. Apenas 9,7% (3) têm acima de 41 anos. No

que se refere à escolaridade, 51,6% concluíram o ensino

fundamental e 38,7% o nível médio. E os demais tinham

apenas até a sexta série.

Nível de estresse

Para calcular o nível de estresse, segundo o modelo

adotado de Cooper et al(9), foi calculado o escore médio

do atual estado de saúde mental, utilizando-se a gradação

dada pelos sujeitos às situações apresentadas. A saúde

física, foi avaliada através de sintomas físicos apresentados

por eles nos últimos 3 meses.

A partir dos escores desta avaliação, foi calculado o

nível de estresse de cada participante da pesquisa.

TABELA 1 - Nível de estresse apresentado por trabalhadores de Enfermagem em Bloco Cirúrgico e

Centro de Terapia Intensiva .

Setor B.C CTI Total

Nível Abs. % Abs. % Abs. %

Baixo (< 2) `4 20,0 6 54,5 10 32,3

Normal (2-3,4) 13 65,0 5 45,5 18 58,0

Elevado (> 3,4) 3 15,0 --- --- 3 9,7

TOTAL 20 100 11 100 31 100

292 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):290-294, abr/jun, 2004


Considerando os parâmetros adotados, verifica-se que

a maioria (58%) dos trabalhadores apresenta um nível de

estresse dentro da normalidade (de 2 a 3,4).

Alguns autores chamam de "bom estresse" ou "eustresse"

o estresse devido a desafios positivos que promovem e até

mesmo resultam em crescimento e realização pessoal. É

uma conseqüência do próprio ato de viver.(4,11) Portanto

o indivíduo necessita de um nível adequado de estresse para

o seu próprio desenvolvimento pessoal e profissional.Tendo

em vista que 10 (32,3%) dos trabalhadores estudados

apresentam um baixo nível de estresse (


Enfermagem em setor ...

apresentarem nível de estresse considerado normal.

Portanto, esses constituem também um grupo de

trabalhadores que merecem acompanhamento.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo realizado com a finalidade de identificar o

nível de estresse ocupacional de trabalhadores de

enfermagem que atuam em setores fechados – Bloco

Cirúrgico e Centro de Terapia Intensiva - revelou que,

embora a maioria apresente níveis de estresse

considerados dentro da faixa de normalidade, 93,5% (29)

apresentam sintomas físicos característicos de ansiedade

ou estresse.

Algumas condições de trabalho consideradas por

Sato(14) como penosas, são encontradas nas organizações

hospitalares.

Pelas características das atividades de enfermagem,

entre elas, o trabalho em turno e de 12 horas consecutivas,

o lidar diretamente com sofrimento e morte do outro,

juntamente com as condições adversas do ambiente

hospitalar, tornam penoso o trabalho de enfermagem.

Este trabalho, além de exigir esforço físico e mental do

trabalhador, gera insatisfação, sofrimento e problemas de

saúde física e mental.

Consideramos de fundamental importância que se

determinem fatores de risco de estresse nesses setores

de trabalho, para que sejam adotadas medidas preventivas

para proteger esses trabalhadores, mantendo-os em

condições físicas e mentais de responderem às demandas

cotidianas da vida pessoal e profissional.

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294 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):290-294, abr/jun, 2004


ESTIMATIVA DA PREVALÊNCIA OCULTA DA

HANSENÍASE NO VALE DO

JEQUITINHONHA – MINAS GERAIS

ESTIMATE OF HIDDEN PREVALENCE OF

LEPROSY IN THE JEQUITINHONHA

RIVER VALLEY – STATE OF MINAS GERAIS

ESTIMACIÓN DEL PREDOMINIO OCULTO DEL MAL DE

HANSEN (LEPRA) EN EL VALLE DEL

JEQUITINHONHA - MINAS GERAIS

Francisco Carlos Félix Lana 1

Evaldo Pinheiro Amaral 2

Marcela Silvério Franco 3

Fernanda Moura Lanza 4

RESUMO

A longa evolução clínica da hanseníase condiciona o diagnóstico tardio e resulta em prevalência oculta. A estimativa desse

valor é importante para aproximar-nos da prevalência real, definirmos estratégias e assim alcançarmos sua eliminação. O

objetivo deste estudo é estimar a prevalência oculta da hanseníase no Vale do Jequitinhonha/MG. Segundo metodologia

proposta pela OPAS/OMS foi estimado que 328 casos deixaram de ser diagnosticados no período 1998-2002. Os resultados

indicam que os programas de eliminação não estão sendo capazes de captar todos os casos existentes na área e indicam

a necessidade de se intensificarem as estratégias de controle para sua eliminação.

Palavras-chave: Hanseníase-Epidemiologia; Hanseníase-Diagnóstico; Brasil

ABSTRACT

The long clinical evolution of leprosy results in a late diagnosis and hidden prevalence. Estimating this prevalence is

important to bring us close to actual prevalence, to define strategies and eliminate the disease. The objective of this study

is to estimate the hidden prevalence of leprosy in the Jequitinhonha river valley in the State of Minas Gerais, Brazil.

According to methodology proposed by the Panamerican Health Organization/World Health Organization, it was estimated

that 328 cases failed to be diagnosed in the period 1998-2002. The results show that elimination programs are unable to

detect all the cases in the area and show the need to intensify control strategies for its eradication.

Key Words: Leprosy-Epidemiology; Leprosy-Diagnosis; Brazil

RESUMEN

La larga evolución clínica del mal de Hansen condiciona el diagnóstico tardío y resulta en predominio oculto. La estimación

de ese valor es importante para que nos acerquemos al predominio real y lograr, entonces, su eliminación. El objeto de

este estudio es estimar el predominio oculto del mal de Hansen en el Valle del Jequitinhonha, Estado de Minas Gerais.

Según la metodología propuesta por la OPAS/OMS se estimó que 328 casos dejaron de ser diagnosticados entre 1998 y

2002. Los resultados señalan que los programas de eliminación no están logrando captar todos los casos existentes en el

área e indican que se deben intensificar las estrategias de control para su eliminación.

Palabras Clave: Lepra- epidemiología; lepra-diagnóstico; Brasil

1

Enfermeiro, doutor em Enfermagem, Professor Adjunto da Escola de Enfermagem da UFMG

2

Aluno do Curso de Graduação em da UFMG, Bolsista de Iniciação Científica do PIBIC/CNPq.

3

Aluna do Curso de Graduação em da UFMG, Bolsista de Iniciação Científica do PROBIC/FAPEMIG

4

Aluna do Curso de Graduação em da UFMG

Endereço para correspondência: Av. Professor Alfredo Balena, 190 - Santa Efigênia - CEP: 30 130-100 Tel.: (31) 3248 9862 - e-mail: xicolana@enf.ufmg.br

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):295-300, abr/jun, 2004 295


Estimativa da prevalência oculta da...

INTRODUÇÃO

A hanseníase é uma doença infecciosa, de evolução

crônica, transmitida pelo Mycobacterium leprae,

caracterizada por lesões na pele e comprometimento dos

nervos periféricos. Quando não diagnosticada e tratada

oportunamente, acaba evoluindo para as incapacidades e

deformidades, que acarretam problemas como a

diminuição da capacidade de trabalho, limitação da vida

social e problemas psicológicos. Também é responsável

pelo estigma e preconceito contra seus portadores.(1)

Esse continua sendo um grave problema de saúde pública

nos países em desenvolvimento. Em 1991, a Organização

Mundial de Saúde-OMS propôs a eliminação da hanseníase,

ou seja, que os países endêmicos alcançassem uma taxa de

prevalência menor que 1/10.000 habitantes até o ano de

2000. Para esse fim utilizou-se uma estratégia que inclui a

detecção de casos, tratamento com poliquimioterapia (PQT/

OMS) e disponibilidade de medicamentos para todos os

casos, além de ações de monitoramento.(2)

Nessa ocasião, Minas Gerais ocupava o 1o lugar no

Brasil em número absoluto de casos, com 34.944 doentes

e taxa de prevalência de 22,21/10.000 hab. Além do trabalho

que vinha sendo realizado, o Estado deveria fazer um

esforço adicional para atingir esta meta e, para tanto,

elaborou o "Plano de Emergências" (1991 a 1994) e o "Plano

de Eliminação da Hanseníase" (1995-2000) com metas e

estratégias claras para alcançar os objetivos. As principais

metas foram: aumentar a cobertura, através de capacitação

de pessoal; aumentar o percentual de casos em

poliquimioterapia; diagnosticar e tratar todos os casos

novos esperados; conhecer a prevalência real, através de

adequação do sistema de informação e eliminar a hanseníase

como problema de saúde pública até o ano 2000.(3)

Apesar dos esforços nacional e estadual, não se

conseguiu atingir a meta em 2000. Ao final desse ano o

Brasil apareceu nas estatísticas da OMS como o 2o país

em número absoluto de casos em registro ativo, com

77.676 casos conhecidos, o que representava 86% dos

casos das Américas e uma prevalência de 4,68 doentes

por 10.000 habitantes. Sendo assim, o prazo de eliminação

foi revisto e prorrogado até o ano de 2005.(4)

Em 2001, Minas Gerais apresentou uma taxa de

prevalência de 2,5 casos por 10.000 habitantes e uma

detecção de 1,46/10.000 hab. Com o objetivo de intensificar

o combate à endemia e de forma a causar impacto sobre o

problema no menor espaço de tempo possível, a Secretaria

de Estado da Saúde de Minas Gerais (SES/MG) estabeleceu

áreas prioritárias, nas quais se insere o Vale do Jequitinhonha,

cujas elevadas taxas de prevalência e detecção em alguns de

seus municípios os colocam como uma região com níveis

endêmicos considerados muito altos.(1)

O Vale é a região mais pobre do Estado e uma das

mais pobres do país, sendo que seus municípios detêm

alguns dos piores indicadores sociais e de saúde do Brasil.

Waldmam et al. (5) afirmam que o comportamento

epidemiológico da hanseníase é muito influenciado, de

um lado pelo nível de desenvolvimento socioeconômico

e pelas condições de vida de uma população e, de outro,

pela qualidade dos serviços de saúde na implementação

de programas de controle.

Em relação aos programas de controle, vários fatores

influenciam negativamente em seus resultados,

identificando-se como um dos principais a permanência

de casos não diagnosticados – prevalência oculta –

responsável pela manutenção de fontes de contágio na

população. A estimativa desse valor é um importante

elemento para aproximarmo-nos do conhecimento da

prevalência real, definirmos estratégias apropriadas e assim

alcançarmos sua eliminação.

Neste sentido, estabelecemos como objetivo deste

trabalho estimar a prevalência oculta da hanseníase no Vale

do Jequitinhonha, Estado de Minas Gerais, para o ano de

2003, referente ao acumulado no período entre 1998 a 2002.

METODOLOGIA

Foi realizado um estudo epidemiológico, configurado

como ecológico, do tipo transversal, tendo como cenário o

Vale do Jequitinhonha, composto por 51 municípios e com

uma população total de cerca de 670 mil habitantes. Essa

região foi escolhida dada a sua relevância epidemiológica em

relação ao controle da endemia no Estado.

Suárez e Lombardi (6) afirmam que a única forma de

se conhecer a prevalência real da hanseníase seria

avaliando toda a população, método que se torna inviável

devido ao seu alto custo e à distribuição irregular da

população. No entanto, existem outros métodos que

permitem estimar tal prevalência. Neste trabalho

utilizamos a metodologia proposta pelas Organizações

Pan-Americana e Mundial de Saúde (7), que leva em conta

o grau de incapacidade física no momento do diagnóstico.

Cabe lembrar que as incapacidades físicas em hanseníase

podem ser classificadas em graus 0, 1 e 2, de acordo com

o comprometimento neural. Para o grau 0 estão

classificados os doentes sem qualquer tipo de incapacidade

funcional; grau 1, aqueles que apresentam perda de

sensibilidade protetora e o grau 2 aqueles que, além da

perda de sensibilidade, apresentam complicações tais

como: úlceras tróficas, garras, reabsorções ósseas em

mãos e ou pés ou, ainda, lesões oculares diversas.(1)

O método proposto está resumido na Tabela 1.

Tabela 1 – Metodologia para estimar a prevalência oculta da hanseníase

ANOS 1 2 3 4 5 TOTAL

INDICADORES

a) casos novos

b) avaliados

c) incapacitados I e II

d) % de incapacitados (c/b)%

e) estimativa de casos não detectados (d/a)%

Fonte: OPAS/OMS

296 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):295-300, abr/jun, 2004


Essa metodologia considera como diagnóstico

precoce aquele realizado antes que o indivíduo

desenvolva qualquer grau de incapacidade física. Em

contrapartida, os casos novos diagnosticados já com

alguma incapacidade (inclusive grau 1) são identificados

como diagnóstico tardio. A estimativa dos casos não

detectados é feita com base no percentual de

incapacitados entre os doentes avaliados (c/b), aplicado

ao total de casos novos (a). Assim, a prevalência real

estimada seria o resultado da soma das prevalências

conhecida e oculta.

Levando-se em conta o período médio de

incubação da doença, utilizam-se, como base de

cálculo, os cinco anos anteriores ao ano que se

pretende calcular. Dessa forma, estabeleceu-se como

período de estudo os anos compreendidos entre 1998

e 2002, entendendo-se também que as informações

epidemiológicas relacionadas à hanseníase são

extremamente sensíveis à capacidade operacional dos

serviços e programas de controle, incluindo o próprio

sistema de informação, e que variações operacionais

que porventura tenham ocorrido estariam diluídas

nesse intervalo.

A fim de se obter uma visão mais ampla da situação

epidemiológica da hanseníase na região, foram também

analisados outros indicadores epidemiológicos tais como:

taxa de detecção geral e em menores de 15 anos,

distribuição segundo forma clínica e percentual de casos

diagnosticados através de busca ativa. Como referência

foram utilizados os parâmetros propostos pelo

Ministério da Saúde.(1)

Utilizaram-se informações das fichas de notificação

de casos de hanseníase de residentes no Vale, disponíveis

na Coordenadoria de Dermatologia Sanitária da

Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais. Foram

analisadas 722 fichas e coletados dados como: município

de residência, município e data da notificação, forma

clínica, modo de descoberta e grau de incapacidade física

ao diagnóstico.

As taxas de detecção geral e em menores de 15 anos

foram calculadas com base nas estimativas populacionais

do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

para a região.

Os dados foram lançados e trabalhados no EPI-INFO

(versão 6.01), um software para organização de bancos

de dados e análise epidemiológica.

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

A Tabela 2 apresenta o número de casos e as

taxas de detecção de hanseníase no Vale do

Jequitinhonha, separadas por microrregião e por ano

de notificação.

Tabela 2 – Número de casos e taxa de detecção * da hanseníase no Vale do Jequitinhonha,

por microrregião – Período de 1998 a 2002

Microrregião 1998 1999 2000 2001 2002

Nº Taxa Nº Taxa Nº Taxa Nº Taxa Nº Taxa

casos detec casos detec casos detec casos detec casos detec

Almenara 83 4,95 90 5,38 82 5,35 75 4,34 76 4,38

Araçuaí 35 2,40 26 1,78 36 2,37 45 2,97 32 2,10

Capelinha 9 0,50 10 0,55 20 1,10 8 0,43 7 0,37

Diamantina 5 0,62 9 1,12 17 2,08 13 1,59 12 1,47

Pedra Azul 8 0,93 4 0,47 8 0,94 7 0,84 4 0,47

* Taxa de detecção por 10.000 habitantes

Fonte: Fichas de Notificação de Casos de Hanseníase – Período 1998-2002

A partir da análise da Tabela 2 observa-se que há

uma queda nas taxas de detecção em todas as

microrregiões, exceto Diamantina, quando se

consideram os valores dos períodos inicial e final. Tais

resultados sugerem duas hipóteses: a primeira seria

uma diminuição da força de transmissão da endemia;

já a segunda refere-se a falhas no processo de

diagnóstico e/ou registro dos casos.

Além disso, percebe-se que há um acúmulo de casos

nas microrregiões de Almenara e Araçuaí, que juntas

são responsáveis por 80,4% do total de notificações,

apesar de representarem apenas 46,5% da população

do Vale. Esse valores, quando avaliados isoladamente,

indicam baixa incidência da hanseníase nas

microrregiões de Capelinha, Diamantina e Pedra Azul

e alta nas demais. No entanto, outros indicadores

devem ser avaliados antes de se chegar a uma

conclusão.

Um parâmetro comumente utilizado para se avaliar

a expansão da endemia é a taxa de detecção em

menores de 15 anos (Gráfico 1). Este constitui um

importante indicador epidemiológico, pois indica a

precocidade da exposição e a persistência da

transmissão da doença.(8)

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):295-300, abr/jun, 2004 297


Estimativa da prevalência oculta da...

Gráfico 1 – Taxa de detecção* de hanseníase em menores de 15 anos no Vale do Jequitinhonha.

Período de 1998 a 2002

* Taxa de detecção por 10.000 habitantes

Fonte: Fichas de Notificação de Casos de Hanseníase – Período 1998-2002

A variação da taxa em menores de 15 anos

praticamente acompanha a detecção geral, o que poderia

reforçar a hipótese de diminuição da endemia. Porém,

apesar da queda verificada, a taxa de detecção em menores

de 15 anos ainda apresenta valores considerados altos

para essa faixa etária (1), o que indica a oportunidade de

exposição precoce ao M. leprae e a persistência da cadeia

de transmissão.

Gráfico 2 – Distribuição dos casos de hanseníase no Vale do Jequitinhonha segundo forma clínica.

Período de 1998 a 2002.

Fonte: Fichas de Notificação de Casos de Hanseníase – Período 1998-2002

Observando o Gráfico 2, nota-se que há um

predomínio das formas clínicas multibacilares – dimorfa

e virchowiana – (74,2%) sobre as paucibacilares –

indeterminada e tuberculóide – (25,8%). Para Lombardi

et al. (8), esses resultados podem ser vistos, dentro de

um enfoque epidemiológico, como um indicativo de

estabilização da endemia ou tendendo a uma situação de

baixa prevalência, contradizendo os dados observados em

alguns municípios do Vale. Por outro lado, o pequeno

número de casos diagnosticados na forma indeterminada

– fase inicial da doença e a desejável de se fazer o

diagnóstico – somada ao predomínio das formas

multibacilares – principalmente a virchowiana – sugere

que esteja ocorrendo um diagnóstico tardio e corrobora

a suspeita de prevalência oculta.

Além da sua magnitude, a hanseníase deve ser pensada

também pela sua transcendência em função do sofrimento

humano, discriminação social e prejuízos econômicos que

298 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):295-300, abr/jun, 2004


vêm sempre associados à doença, principalmente se não

for oportunamente diagnosticada e tratada.

De acordo com a Tabela 3, vê-se que todas as

microrregiões apresentam altos percentuais de casos

diagnosticados já com algum grau de incapacidade,

chegando a 100% em Diamantina e Pedra Azul, em

diferentes anos do estudo.

Tabela 3 – Grau de incapacidade entre os casos novos no Vale do Jequitinhonha, por microrregião.

Período de 1998 a 2002

Microrregião % Incapacitados (graus 1 e 2)

1998 1999 2000 2001 2002

Almenara 24,09 24,44 51,25 60,00 67,10

Araçuaí 37,14 32,00 17,64 40,00 31,25

Capelinha 66,66 50,00 30,00 37,50 57,14

Diamantina 40,00 60,00 94,11 84,61 100,00

Pedra Azul 37,50 100,00 100,00 42,85 50,00

Fonte: Fichas de Notificação de Casos de Hanseníase – Período 1998-2002

A porcentagem de casos com incapacidade física de grau

2 entre os casos novos avaliados é de 13,65%, valor

considerado alto segundo parâmetros do Ministério da Saúde

(1). Conhecendo as características da hanseníase e seu tempo

de evolução podemos concluir que está ocorrendo um

diagnóstico tardio da doença no Vale do Jequitinhonha.

Quando se avaliam simultaneamente as Tabelas 2 e 3, observase

que Almenara e Araçuaí, que são responsáveis por um

maior número de notificações, apresentam percentuais mais

baixos de incapacitados se comparados às outras

microrregiões. Isso é um sinal de que nessas os serviços

responsáveis pela prevenção e controle da hanseníase estão

mais bem organizados, mas ainda muito aquém do necessário

para que se tenha um combate efetivo da doença.

Nos últimos anos muita ênfase vem sendo dada à

prevenção e ao tratamento das incapacidades físicas como

forma de diminuir os danos resultantes da doença.

Ressalta-se, entretanto, ser o diagnóstico precoce a

medida mais eficaz para controlar a expansão da endemia

e também para prevenir as deformidades, evitando-se

assim os problemas citados anteriormente.

A busca ativa de casos constitui a principal ferramenta

para se atingir o diagnóstico precoce. Ela engloba o

exame dos comunicantes e de coletividade. O primeiro,

também denominado exame de contatos, refere-se à

avaliação dos indivíduos que residem ou tenham residido

com o doente nos últimos 5 anos, sendo este o grupo

de maior risco para contrair a doença. O segundo trata

do exame de grupos específicos: em prisões, quartéis,

escolas etc.(1)

A Tabela 4 traz os casos de hanseníase distribuídos

segundo modo de descoberta.

Tabela 4 – Distribuição dos casos de hanseníase no Vale do Jequitinhonha, segundo modo de

descoberta. Período de 1998 a 2002

Ano

Modo de Descoberta

TOTAL

1998 1999 2000 2001 2002

N N N N N N %

Demanda Expontânea 81 92 100 99 86 458 63,43

Encaminhamentos 43 37 36 35 26 177 24,52

Exame de coletividade 0 1 9 0 3 13 1,80

Exame de contatos 12 8 16 13 12 61 8,45

Outros 4 2 2 1 4 13 1,80

Total 140 140 163 148 131 722 100,00

Fonte: Fichas de Notificação de Casos de Hanseníase – Período 1998-2002

Pode-se ver na Tabela 4 a baixa porcentagem de casos

descobertos por meio do exame de contatos (8,5%).

Considerando que este é o principal instrumento para

evitar-se o acúmulo de casos não detectados (prevalência

oculta) e a instalação de incapacidades físicas, o percentual

encontrado deveria ser maior.

Pinto Neto et al.(9) afirmam que, apesar da

importância dos comunicantes na cadeia epidemiológica

da hanseníase, as atividades relacionadas ao controle dos

mesmos têm sido pouco valorizadas pelos serviços e

profissionais de saúde.

Para Lana(10) a passividade dos métodos de detecção

pode ser erroneamente interpretada como diminuição

da taxa de detecção, contribuindo para elevar a

prevalência oculta, ou seja, para ampliar o "iceberg

epidemiológico" da endemia hansênica.

A estimativa do valor da prevalência oculta é um

importante elemento para se conhecer a prevalência real

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):295-300, abr/jun, 2004 299


Estimativa da prevalência oculta da...

e a partir daí planejar ações com o objetivo de detectar e

tratar todos os pacientes e agir sobre os focos de

transmissão.(6)

A partir dos cálculos realizados e utilizando-se a

metodologia proposta pela OPAS/OMS, estima-se que

328 casos deixaram de ser diagnosticados e/ou registrados

Tabela 5 – Estimativa da prevalência oculta da hanseníase no Vale do Jequitinhonha no ano de 2003.

ANO

INDICADOR 1998 1999 2000 2001 2002 TOTAL

a) casos novos 140 140 163 148 131 722

b) avaliados 140 140 159 148 131

c) incapacitados 1 e 2 44 46 77 80 79

d) % de incapacitados 31,43 32,86 48,43 54,05 60,31

e) estimativa de casos não detectados 44 46 79 80 79 328

Fonte: Coordenadoria Estadual de Dermatologia Sanitária / Secretaria de Estado da Saúde

no período. Somando-se a esses os 722 casos conhecidos,

obtém-se uma prevalência real estimada de 1050 doentes.

Isso significa que, do total de casos existentes no Vale

do Jequitinhonha, apenas 68,8% foram descobertos, sendo

que 31,2% permanecem não identificados, atuando como

fontes de contágio e dando continuidade à cadeia de

transmissão da hanseníase na região.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As altas taxas de detecção na população geral e em

menores de 15 anos evidenciam a pressão endêmica da

hanseníase no Vale do Jequitinhonha. O predomínio das

formas clínicas multibacilares e o alto percentual de casos

diagnosticados com incapacidade indicam que está

ocorrendo diagnóstico tardio e a persistência da cadeia

de transmissão da doença na região.

A explicação mais provável para o retardo no

diagnóstico estaria na baixa cobertura populacional das

ações de controle da doença, isto é, na precariedade do

acesso da população a serviços de promoção da saúde e

prevenção de doenças em geral e, especificamente, ao

diagnóstico precoce e tratamento oportuno dos casos

de hanseníase.

Os resultados obtidos mostram que os programas de

eliminação não estão sendo capazes de captar todos os

casos existentes na área, fato que contribui para agravar

a situação epidemiológica da doença e aponta para a

necessidade de se intensificarem as estratégias de controle

para a eliminação desse problema de saúde pública.

O combate à hanseníase deve fundamentar-se em

políticas públicas efetivas por meio das seguintes medidas:

construção de sustentabilidade econômica, política e social

do Plano de Eliminação; descentralização das ações de

controle por meio do Programa Saúde da Família;

sensibilização popular e capacitação dos profissionais de

saúde. Além disso, algumas diretrizes epidemiológicas

devem ser adotadas, como a definição de áreas prioritárias

de risco; investigação de eventos-sentinela para hanseníase

em "áreas silenciosas" e a busca ativa de casos.

A fim de subsidiar o planejamento de estratégias cada

vez mais específicas, pretende-se continuar a investigação

realizando uma análise espacial mais detalhada da

distribuição dos casos nesta região, utilizando-se a

ferramenta do geoprocessamento em saúde.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Brasil. Ministério da Saúde. Guia para o controle da hanseníase. Brasília:

Coronário; 2002. (Cadernos de Atenção Básica, 10)

2. WHO. Um guia para eliminar a hanseníase como problema de saúde

pública. Genebra: 1995.

3. Minas Gerais. Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais. Área

Técnica de Hanseníase Seminário Estadual de Hanseníase. Belo

Horizonte: Secretaria de Estado da Saúde; 2002.

4. Organização Panamericana de Saúde, OMS. Bol Eliminação da

Hanseníase das Américas 2000; 8: 4.

5. Waldman EA, Silva LJ, Monteiro CA. Trajetória das doenças

infecciosas: da eliminação da poliomielite à reintrodução da cólera. Inf

Epidemiol SUS 1999; 8 (3): 5-47.

6. Suárez REG, Lombardi C. Estimado de prevalência de lepra. Hansen

Int 1997; 22 (2): 31-5.

7. Organização Panamericana de Saúde, OMS. Bol. Eliminação da

Hanseníase das Américas. 1998; 6: 4.

8. Lombardi C, Ferreira J, Motta CP, Oliveira MLWR. Hanseníase:

epidemiologia e controle. São Paulo: IMESP/SAESP; 1990.

9. Pinto Neto JM., Villa TCS, Mencaroni DA, Gonzales TC, Gazeta CE.

Considerações epidemiológicas referentes ao controle dos comunicantes

de hanseníase. Hansen Int 2002; 27 (1): 23-8.

10. Lana FCF, Meléndez, JGV, Branco AC. Transmissão e controle da

hanseníase no município de Governador Valadares/MG – Período de

1990 a 2000. Hansen Int 2002; 27 (2): 83-92.

300 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):295-300, abr/jun, 2004


EVOLUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO EM

ENFERMAGEM NO MUNICÍPIO DE

UBERLÂNDIA NO PERÍODO DE 1994 A 2002

CHANGES IN NURSING STAFF IN THE TOWN OF UBERLANDIA,

STATE OF MINAS GERAIS, BRAZIL FROM 1994 TO 2002

EVOLUCIÓN DE LA FUERZA DE TRABAJO EN ENFERMERÍA EN LA

CIUDAD DE UBERLANDIA DE 1994 A 2002

Madalena Gonçalves de Andrade Vieira 1

Arthur Velloso Antunes 2

RESUMO

Este estudo apresenta a evolução da força de trabalho da enfermagem em Uberlândia-MG, no período de 1994 a 2002.

Buscou caracterizar as mudanças de aspectos relevantes ocorridas nos últimos oito anos. Os dados foram colhidos por

meio de um formulário preenchido pelos profissionais das diversas instituições. Dentre as principais conclusões se

destacam as seguintes: crescimento no número de enfermeiros, técnicos e auxiliares e decréscimo no de atendentes;

manutenção da prevalência feminina; maior inserção de profissionais jovens; o setor público é o maior empregador;

existem poucos profissionais irregulares com o COREN-MG; melhoria na titulação dos enfermeiros; aumento do duplo

vínculo; rotatividade estável.

Palavras-chave: Força de Trabalho; Enfermagem; Estudos Retrospectivos; Brasil

ABSTRACT

This study examines the Nursing personnel in the town of Uberlândia, state of Minas Gerais, Brazil, in the period from

1994 to 2002. It intends to describe relevant changes that occurred during these eight years. The data was collected

through a form filled out by nurses in various institutions. Some of the main conclusions: growth of the number of nurses,

nursing technicians and nursing auxiliaries, and reduction of the number of "nursing attendants"; prevalence of women

continues; greater number of young workers; public sector is greatest employer; there are few nurses not properly

registered with the official licensing agency – COREN-MG; nurses are better qualified; more workers have more than

one job; turnover is unaltered.

Key words: Workforce; Nursing; Retrospective Studies; Brazil

RESUMEN

Este análisis, que muestra la evolución de la fuerza de trabajo de enfermería en Uberlândia, Estado de Minas Gerais, entre

1994 y 2002, busca caracterizar los cambios de aspectos relevantes durante los últimos ocho años. Los datos se recopilaron

en una planilla completada por profesionales de distintas instituciones. Entre las principales conclusiones se destacan:

aumenta el número de enfermeros, técnicos y auxiliares y disminuye el de ayudantes; se mantiene la preponderancia

femenina; más inserción de profesionales jóvenes; el sector público es el principal empleador; pocos profesionales en

situación irregular con COREN-MG; mejora la titulación de los enfermeros; aumenta el doble vínculo laboral y se

mantiene estable la rotatividad..

Palabras clave: fuerza de trabajo; enfermería; estudios retrospectivos; Brasil

1

Enfermeira, docente do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Universidade Federal de Juiz de Fora - EEUFJF, Doutora em

Enfermagem pela EEAN/UFRJ.

2

Enfermeira, docente do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais -

EEUFMG, Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo – EE/USP.

Endereço paara correspondência: Rua Caratinga, 259, apto 1002 - 31310-510. Anchieta - BELO HORIZONTE-MG

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):301-306, abr/jun, 2004 301


Evolução da Força de...

INTRODUÇÃO

A Enfermagem é uma profissão dinâmica, sujeita a

transformações permanentes, e que está continuamente

incorporando reflexões sobre novos temas, problemas e

ações, porque o seu princípio ético é o de manter ou

restaurar a dignidade do corpo em todos os âmbitos da

vida. Portanto a Enfermagem deve ser compreendida

como arte e ciência de pessoas que convivem e cuidam

de outras. (1)

Profissão regulamentada pela Lei nº 7.498 de 25 de

junho de 1986 e pelo Decreto 94.406 de 8 de junho de

1987, disciplina e congrega profissionais formados nos

três níveis do sistema educacional brasileiro, assim, conta

com auxiliares de enfermagem, técnicos de enfermagem

e enfermeiros, além da parteira, provenientes

respectivamente do ensino fundamental, ensino médio e

superior. Conta ainda com a colaboração do atendente

de enfermagem treinado para o exercício das tarefas

elementares de enfermagem. (2,3)

A institucionalização da saúde levou a enfermagem a

atuar em hospitais, casas de repouso, unidades básicas de

saúde, entre outros serviços. Essa atuação depende

diretamente da política de saúde vigente, assim, a ênfase

é dada ora à saúde preventiva, ora à saúde curativa.

Atualmente no Sistema Único de Saúde - SUS, o Programa

de Saúde da Família - PSF, e o Programa de Agentes

Comunitários de Saúde - PACS consistem numa estratégia

de inversão do modelo de saúde vigente levando os

profissionais, especialmente a enfermagem, a prestar

assistência nos domicílios.

Em Uberlândia, município do Triângulo Mineiro, com

aproximadamente 500.000 habitantes, através do trabalho

de fiscalização do Conselho Regional de Enfermagem de

Minas Gerais - COREN-MG, temos verificado, nos últimos

anos, um maior empenho das instituições de saúde e

ensino na qualificação da força de trabalho em

Enfermagem. Aliado a esse fato, um crescente aumento

do número de instituições e da complexidade das ações

de enfermagem.

O estudo que tivemos a oportunidade de realizar em

1994, "A força de trabalho em enfermagem no Município

de Uberlândia", mostrou-nos a composição, distribuição,

inserção institucional, jornada de trabalho, entre outros

atributos dos trabalhadores de enfermagem. (4)

O universo analisado identificou problemas legais e

funcionais, bem como apontou para uma deficiência

qualitativa e quantitativa na força de trabalho. Os vários

parâmetros utilizados mostraram-nos insuficiência de

pessoal legalmente habilitado, demonstrando assim a

necessidade de uma política efetiva de recursos humanos

no município, no que se refere à formação, bem como ao

dimensionamento de pessoal. (4)

Naquela oportunidade, verificamos que 46% dos

trabalhadores eram atendentes de enfermagem,

trabalhadores sem nenhuma formação específica e

habilitação legal para o exercício da profissão. Tal situação

se agravava na iniciativa privada que absorvia 78% desse

pessoal. (4)

Destarte, resolvemos fazer o presente estudo, cujo

principal objetivo foi caracterizar a força de trabalho em

enfermagem no município de Uberlândia e levantar as

mudanças ocorridas nos últimos oito anos, relacionadas a:

• distribuição do pessoal por categoria profissional,

sexo e idade;

• inserção institucional;

• legalidade do exercício profissional;

• titulação dos enfermeiros;

• jornada de trabalho, vínculos empregatícios,

rotatividade e tempo de serviço na enfermagem.

METODOLOGIA

O presente estudo consta de uma análise quantitativa

da força de trabalho em enfermagem e foi realizado no

Município de Uberlândia, no Estado de Minas Gerais, de

fevereiro a agosto de 2002.

A população considerada foi constituída de todos os

profissionais de enfermagem: enfermeiro, técnico de

enfermagem, auxiliar de enfermagem e atendente de

enfermagem. Assim, neste estudo tivemos a pretensão

de estudar o universo de profissionais da enfermagem

que trabalha nas instituições de saúde pública e privada,

hospitalar e ambulatorial, somando-se:

• 02 hospitais públicos e 06 privados;

• 05 unidades de atendimento integrado da Secretaria

Municipal de Saúde;

• 24 unidades de saúde da Secretaria Municipal de

Saúde, sendo 18 na área urbana e 06 na área rural;

• 11 clínicas de natureza privada;

• 01 hemocentro regional;

• 03 instituições formadoras, sendo dois cursos de

graduação em enfermagem e um curso técnico de

enfermagem;

• 01 Diretoria Regional de Saúde;

• 01 subseção do Conselho Regional de Enfermagem.

Foram excluídos desse estudo os profissionais que

atuam em ambulatórios de empresa, creches, consultórios

e asilos, pela baixa representatividade numérica.

Este estudo foi realizado com observância da

Resolução 196/96 que normatiza a pesquisa em seres

humanos.Portanto, cada sujeito autorizou sua participação

e a divulgação dos resultados, sendo-lhes garantido o sigilo

e o anonimato.

A coleta de dados foi feita por intermédio de um

formulário, ao qual foi anexado um ofício que solicitava

autorização das instituições, explicava aos profissionais

de enfermagem o objetivo do estudo e solicitava a

participação dos mesmos. Esse instrumento foi preenchido

por 150 enfermeiros, 573 técnicos, 908 auxiliares e 08

atendentes de enfermagem, o que corresponde ao total

de profissionais do universo trabalhado. Nele foram

solicitados os seguintes dados: nome, local de trabalho,

categoria profissional, número de registro no COREN-

MG, sexo, data de nascimento, tempo de serviço na

enfermagem, quantidade de empregos hoje, jornada de

trabalho, média de horas extras mensais, número de

mudanças de emprego e titulação dos enfermeiros.

302 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):301-306, abr/jun, 2004


APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS

RESULTADOS

Quando analisamos os dados relativos à distribuição

dos profissionais de enfermagem por categoria,

apresentados na Tabela 1, pudemos identificar pela

comparação dos dois momentos, um aumento de 44%

na força de trabalho em enfermagem no município de

Uberlândia.

Tabela 1- Distribuição dos profissionais da enfermagem por categoria em Uberlândia-MG nos

anos de 1994 e 2002:

Anos 1994 2002 Variação no Nº

de profissionais

Categoria N % N % %

Enfermeiro 75 6,6 150 9,1 + 100%

Técnico 298 26,2 573 35 + 92%

Auxiliar 243 21,4 908 55,4 + 274%

Atendente 521 45,8 8 0,5 - 98%

Total 1137 100 1639 100 + 44%

Verificamos que na categoria de enfermeiro houve

um aumento de 100%, o que teoricamente poderia

implicar uma melhoria significativa da qualidade da

assistência, quando consideramos que este profissional é

detentor de conhecimentos científicos e que atua como

der da equipe de enfermagem, tendo como atividade

privativa, entre outras afins: direção, supervisão,

organização, planejamento, coordenação, execução e

avaliação dos serviços de enfermagem.

Por sua vez, a categoria de técnico de enfermagem teve

também um aumento expressivo, ou seja, de 92%. Mas o

destaque maior foi dado à categoria de auxiliar de

enfermagem com um aumento de 274% e o respectivo

decréscimo de 98% do percentual de atendente de

enfermagem, o que significa a quase extinção dessa categoria

nas instituições de saúde do município de Uberlândia.

Esses dados nos mostram que a quase totalidade dos

atendentes de enfermagem foi qualificada e passaram para

a categoria de auxiliar de enfermagem, o que nos permite

afirmar que as ações de enfermagem no município são,

hoje, desenvolvidas por pessoas qualificadas , com

formação específica.

Considerando nosso conhecimento acerca das

transformações ocorridas na enfermagem no município,

podemos apontar como fatores determinantes do

aumento qualitativo e quantitativo da força de trabalho

em enfermagem nos últimos oito anos, a fiscalização do

Conselho Regional de Enfermagem (COREN-MG), o

empenho das instituições de saúde e ensino, o

posicionamento do próprio profissional, e o aumento do

número de instituições e da complexidade das ações de

enfermagem.

No Brasil em 1983, a força de trabalho em enfermagem

era composta por 8,5% de enfermeiros, 6,6% de técnicos,

21,1% de auxiliares e 63,8% de atendentes de

enfermagem.(5) Quando comparamos estes dados com

os obtidos no presente estudo verificamos que neste

Município: o percentual de enfermeiros era menor em

1994 e maior em 2002; o percentual de técnicos e

auxiliares era maior nos dois momentos e; o percentual

de atendentes era menor nos dois momentos.

De acordo com o estudo "Força de Trabalho em

Enfermagem: o exercício da enfermagem nas instituições

de saúde do Brasil"(5), os Estados de Minas Gerais e

Espírito Santo juntos possuíam, em 1983, 6,8% de

enfermeiros, 7,7% de técnicos, 15,5% de auxiliares e 70,5%

de atendentes de enfermagem. O presente estudo mostra

que no Município de Uberlândia, o percentual de

enfermeiros era menor em 1994 e maior em 2002; o

percentual de técnicos e auxiliares era maior nos dois

momentos e; o percentual de atendentes de enfermagem

era significativamente menor em 1994 e quase inexistente

em 2002.

Conforme pode ser identificado na Tabela 2, em oito

anos não houve mudanças expressivas no que se refere

ao sexo. Verifica-se que para o sexo masculino tivemos

um aumento de 2%, ou seja, de 13% em 1994 para 15%

em 2002, mantendo assim a predominância feminina.

Tabela 2 – Distribuição dos profissionais de enfermagem por sexo e categoria em Uberlândia nos

anos de 1994 e 2002:

Sexo / 1994 2002

Anos / Feminino Masculino Feminino Masculino

Categoria N° % N° % N° % N° %

Enfermeiro 63 84% 12 16% 129 86% 21 14%

Técnico 257 86% 41 14% 474 83% 99 17%

Auxiliar 209 86% 34 14% 790 87% 118 13%

Atendente 463 89% 58 11% 07 88% 01 12%

Total 992 87% 145 13% 1400 85% 239 15%

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):301-306, abr/jun, 2004 303


Evolução da Força de...

Analisando por categoria profissional, as mudanças são

também inexpressivas nos segmentos atendente e auxiliar

de enfermagem. Salientamos entretanto que a composição

masculina da categoria enfermeiro decresceu 2% e a categoria

técnico de Enfermagem cresceu 3%.

No Brasil, em 1983, o percentual do componente

masculino era de 5,6% de enfermeiros, 10,4% de técnicos,

18,2% de auxiliares e 10,9% de atendentes de enfermagem.(5)

Quando comparamos estes dados com os obtidos no

presente estudo verificamos que, nos dois momentos

estudados, os percentuais de enfermeiros, técnicos e

atendentes do sexo masculino em Uberlândia sempre

foram maiores do que aqueles encontrados no país e

que o de auxiliar sempre foi menor.

No que se refere à faixa etária verificamos, através

dos dados da Tabela 3, que 64% do pessoal de

enfermagem concentra-se na faixa etária de 31 a 50 anos.

Confrontando os dados de 1994 com os de 2002,

identificamos algumas alterações interessantes: um

aumento de 7% do percentual de enfermeiros, de 20%

do percentual de técnico de enfermagem e um

decréscimo de 10% na categoria do auxiliar de

enfermagem na faixa etária de 18 a 30 anos. Tais dados

deixam claro a inserção de novos profissionais

enfermeiros e técnicos dessa faixa etária e ao mesmo

tempo a redução dos auxiliares, provavelmente como

resultado das estratégias adotadas para a qualificação

dos atendentes de enfermagem.

Tabela 3 – Distribuição percentual dos profissionais de enfermagem, segundo faixa etária em

Uberlândia nos anos de 1994 e 2002:

Faixa Etária / 1994 2002

Ano

Categoria 18 a 30 anos 31 a 50 anos 51 ou mais 18 a 30 anos 31 a 50 anos 51 ou mais

Enfermeiro 13% 84% 3% 20% 61% 19%

Técnico 15% 82% 3% 35% 55% 10%

Auxiliar 23% 71% 6% 13% 70% 17%

Atendente 13% 75% 12% zero 50% 50%

Total 16% 77% 7% 22% 64% 14%

Quando fazemos uma análise geral das alterações

relacionadas á faixa etária, constatamos um aumento de

6% na faixa de 18 a 30 anos, evidenciando assim uma

maior inserção de novos profissionais no mercado de

trabalho.

No que se refere ao atendente de enfermagem,

conforme exigência legal, não houve inserção do mesmo

no mercado de trabalho, uma vez que o percentual na

faixa etária mais jovem foi de 0%.

Diferentemente do estudo anterior, no estudo atual

fica evidenciado um aumento do interesse para inserir-se

neste mercado de trabalho.

No que se refere à natureza do estabelecimento, a Tabela

4 nos mostra que 69,7% dos profissionais de enfermagem

encontram-se no setor público e 30,3% na iniciativa privada,

o que significa que nos últimos oito anos não tivemos

mudança expressiva, uma vez que em 1994, esse percentual

era de 68,6% no setor público e 31,4 na iniciativa privada.

Tabela 4: Distribuição percentual dos profissionais de enfermagem por categoria e natureza do

estabelecimento em Uberlândia- MG, em 2002

Estabelecimento

Categoria Público Privado

Enfermeiro 65,3% 34,7%

Técnico 69,5% 30,5%

Auxiliar 70,4% 29,6%

Atendente 100% zero

Total 69,7% 30,3%

De acordo com os estudos de Girardi(6) até 1976, a

iniciativa privada detinha a maioria dos empregos da saúde

(53,2%). Na década de 80 perdeu esta posição, sendo

que em 1982 o setor público passava a deter a maioria

dos postos de trabalho de saúde, alcançando em 1984,

54,2% destes. Durante o período de 76 a 84 o emprego

de saúde cresceu de forma mais intensa no setor público

(9,1%) que na iniciativa privada ( 5,2%).

Os dados referentes à legalidade do exercício

profissional são apresentados na Tabela 5, onde

verificamos a distribuição dos profissionais da

enfermagem, segundo categoria e registro no COREN/

MG. Informamos que todos os dados foram conferidos

no cadastro do Conselho Regional de Enfermagem

COREN/MG e as inscrições em andamento foram

computadas como já inscritos.

304 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):301-306, abr/jun, 2004


Tabela 5: Distribuição dos profissionais da enfermagem, segundo categoria e inscrição no COREN-

MG em Uberlândia em 1994 e 2002.

Inscrição/Anos 1994 2002

Categoria Inscritos Não Inscritos Inscritos Não Inscritos

N° % N° % N° % N° %

Enfermeiro 75 100% zero zero 150 100% zero zero

Técnico 281 94% 17 6% 545 95,1% 28 4,9%

Auxiliar 209 86% 34 14% 860 95,4% 48 5,3%

Atendente 366 70,2% 155 29,8% 8 100% zero zero

Total 931 81,9% 206 18,1% 1563 95,4% 76 4,6%

Podemos verificar que 95,4% dos profissionais da

enfermagem são devidamente inscritos no COREN-MG

e 4,6% não contam com a referida inscrição.

Verificamos ainda que, na categoria enfermeiro, 100%

dos profissionais têm situação regularizada no COREN-

MG. Quanto aos atendentes de enfermagem todos são

autorizados pelo COREN-MG. Vale ressaltar que essa

categoria profissional não conta com inscrição e sim com

autorização para o exercício das tarefas elementares, uma

vez que não dispõe de formação específica.

No que se refere às categorias de técnico e auxiliar

de enfermagem, encontramos ainda 4,6% de profissionais

não inscritos e essa situação na maioria das vezes se deve

à inscrição provisória que tem prazo de validade expirado

e o profissional não procura regularizar a situação, até

que seja notificado pela enfermeira fiscal do COREN-MG.

Confrontando os dados de 1994 com os dados de 2002,

identificamos que tivemos uma melhoria significativa em

termos percentuais, uma vez que 18,1% dos trabalhadores

não eram inscritos no COREN-MG em 1994. No ano de

2002, esse percentual diminuiu para 4,6%.

Essa alteração positiva nos leva a pensar em uma

maior conscientização do profissional da enfermagem em

regularizar sua situação junto ao órgão de fiscalização.

Quando analisamos os dados relativos a titulação dos

enfermeiros na Tabela 6, pudemos identificar pela

comparação dos dois momentos um avanço nesse sentido,

o que pode ser verificado abaixo:

Tabela 6: Distribuição dos enfermeiros segundo a titulação em Uberlândia nos anos 1994 e 2002:

Ano 1994 2002

Titulação

Graduação 37% 26,00%

Especialização 27% 39,30%

+ de 1 Especialização 35% 27,30%

Mestrado 1% 6,67%

Doutorado 0% 0,67%

Neste quadro, podemos verificar que em 1994 não

existiam profissionais com doutorado no município, e a

porcentagem dos que tinham mestrado passou de 1% para

6,67%. Além disso, verificamos um aumento de 27% para

39,3% daqueles que tinham título de especialistas e uma

diminuição no percentual daqueles que só tinham

graduação, que passou de 37% para 26%. Fazendo uma

análise geral, identificamos uma melhoria significativa na

formação do profissional enfermeiro, uma vez que é maior

o percentual de especialistas, mestres e doutores em

Enfermagem nos dias atuais.

Vale ressaltar ainda que em 1994 não tínhamos curso

de graduação em enfermagem no município, situação

diferente de 2002, quando passamos a contar com dois

cursos de graduação. Esta nova realidade que exige

profissionais com maior titulação para a docência e a

formação dos enfermeiros, pelos dados apresentados, tem

sido suprida com profissionais qualificados.

Os dados apresentados na Tabela 7 referentes ao

vínculo empregatício, nos permitem verificar que 70,4%

dos profissionais da enfermagem possuem vínculo único

e 28% possuem duplo vínculo.

Tabela 7: Distribuição percentual dos profissionais de enfermagem por categoria e vínculo

empregatício em Uberlândia no ano 2002

Vínculos Único Dois Três Mais de

Categoria Vínculo Vínculos Vínculos Três Vínculos

Enfermeiro 44% 46% 9,3% 0,66%

Técnico 73,6% 26,2% 0,2% Zero

Auxiliar 72,2% 26,8% 0,8% 0,2%

Atendente 100% zero zero zero

Total 70,4% 28% 1,4% 0,2%

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):301-306, abr/jun, 2004 305


Evolução da Força de...

Este quadro nos mostra que a situação de duplicidade

de vínculos fica mais exacerbada na categoria enfermeiro

em que apenas 44% contam com único vínculo, 46%

contam com duplo vínculo, 9,3% contam com três vínculos

e encontramos ainda situação em que o profissional tem

até quatro vínculos empregatícios.

Cotejando os dados do estudo que realizamos

anteriormente(4) com os do estudo realizado em 2002

verificamos um aumento de duplicidade de vínculos de

aproximadamente 20%, uma vez que em 1994 o

percentual dos profissionais que contavam com duplo

vínculo era de 8,8% e em 2002 passa para 28%. A

existência de duplo vínculo entre os enfermeiros

aumentou em 20%, pois passou de 26,6% em 1994 para

46% em 2002. Na categoria do técnico de enfermagem

houve um aumento expressivo de 16,2%, uma vez que

cresceu de 10% para 26%. Para o auxiliar de enfermagem

o aumento foi ainda mais expressivo, ou seja, de 5,7% em

1994 para 26,8% em 2002.

Esses resultados sugerem a existência de uma carência

de profissionais de enfermagem no município, uma vez

que é significativo o número dos que assumem duplo

vínculo especialmente o profissional enfermeiro. Sugerem

ainda que a situação contribui para o não reconhecimento

e valorização profissional, pois as jornadas são extenuantes

em função do número de vínculos e o profissional não

tem condições de desempenhar um trabalho com a

qualidade devida, o que o leva a ser mal remunerado, e

sua admissão, em muitos casos, ser feita apenas por uma

exigência legal, formando-se assim um ciclo vicioso. Dessa

forma fica comprometida a qualidade da assistência

prestada, bem como a qualidade de vida do profissional

da enfermagem.

Além dos dados apresentados nas tabelas que

exibimos, o estudo nos forneceu dados sobre a

rotatividade e sobre a jornada de trabalho do pessoal.

No que se refere à rotatividade dos profissionais de

Enfermagem, vimos que 40% deles nunca mudaram de

emprego, porém, 18% já mudaram uma vez, 16% mudaram

duas vezes, 13% três, 6% quatro vezes e 7% mais de quatro

vezes. Comparando esses dados com os do primeiro estudo

realizado em 1994, verificamos que naquele momento 36%

nunca haviam mudado de emprego e 64% tinha mudado

uma ou mais vezes. Assim podemos dizer que não houve

mudança importante nesse aspecto em Uberlândia em 1994

e 2002. Mas, comparando os dados desses estudos com a

pesquisa realizada no Estado de São Paulo em 1996(3),

constatamos que a estabilidade é maior naquele Estado,

onde 76,5% não haviam mudado de emprego.

No que se refere à jornada de trabalho, considerando

todas as categorias, verificamos que 1,6% trabalha 20 horas

semanais, 10,7% 30 horas, 60,7% 36 horas, 3,7% 40 horas

e 23,3% trabalham 44 horas semanais. É importante

ressaltar que, em todas as categorias, a jornada de trabalho

de 36 horas semanais é predominante.

Concluímos que os atendentes de enfermagem quase

foram extintos, o número de enfermeiros e técnicos

praticamente duplicou e o número de auxiliares de

enfermagem quase quadruplicou.

Além disso, verificamos que, no período estudado:

mantiveram-se as taxas de predominância do sexo

feminino; houve maior inserção de profissionais na faixa

etária de 18 a 30 anos; o setor público continua sendo o

maior empregador; ocorreu um decréscimo significativo

de trabalhadores não inscritos no COREN-MG; houve

uma melhoria importante na titulação dos enfermeiros e

aumentou o número de profissionais com duplo vínculo.

Os resultados do presente estudo apontam uma

mudança positiva no quadro da enfermagem do Município,

uma vez que ocorreu um aumento expressivo do número

de profissionais, bem como melhoria da formação no que

se refere à qualificação dos atendentes de enfermagem e

à titulação dos enfermeiros.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Lima MJ. O que é enfermagem. São Paulo: Brasiliense; 1993.

2. Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais -COREN-MG.

Legislação e normas; 2002; 8(1): 48-180.

3. Moura MLPA. A força de trabalho em enfermagem no Estado de São

Paulo. São Paulo: COREM-SP, ABEn-SP; 1996.

4. Andrade MG, Rezende CHA. A força de trabalho em enfermagem

no município de Uberlândia – MG. Cad Enf 1996; 2(5): 5-19.

5. Conselho Federal de Enfermagem -COFEN. Força de trabalho em

Enfermagem: o exercício da Enfermagem nas instituições de saúde do

Brasil. Rio de Janeiro; 1985.

6. Girard SN. Elementos da dinâmica e da estrutura do emprego de

saúde no Brasil nos anos 76–84: compreender para explicar. Belo

Horizonte: Cadernos do Nescon; 1988.

CONCLUSÕES

Os dados apresentados neste estudo nos mostraram

as características da evolução da força de trabalho em

enfermagem no Município de Uberlândia, no período de

1994 a 2002.

306 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):301-306, abr/jun, 2004


METODOLOGIA QUALITATIVA E QUANTITATIVA NA

AVALIAÇÃO DE UM CURSO DE GRADUAÇÃO

QUALITATIVE AND QUANTITATIVE METHODOLOGY IN THE

EVALUATION OF AN UNDERGRADUATE COURSE

METODOLOGÍA CUALITATIVA Y CUANTITATIVA EN LA

EVALUACIÓN DE LOS CURSOS SUPERIORES

Ernesto Sílvio Rossi Júnior 1

Pola Hasmann Paparelli 2

Jaqueline Kalmus 3

Renata Paparelli 4

RESUMO

A análise de pesquisas que avaliam cursos oferecidos por instituições de ensino superior (IES) revela a existência de inúmeros

trabalhos que adotam perspectivas quantitativas. Raros são os trabalhos que optam por abordagens qualitativas ou que articulam

essas duas abordagens. Tendo em vista essa lacuna e a importância da abordagem desta problemática, optou-se por desenvolver

uma pesquisa que garantisse essa articulação. Desse modo, buscou-se investigar as representações dos corpos docente e

discente sobre o curso de Administração de Empresas de uma IES. A partir das duas perspectivas (qualitativa e quantitativa)

foram investigadas: expectativas a respeito do curso, possibilidades oferecidas pela carreira pretendida, opiniões sobre estrutura

curricular e qualidade de ensino, motivos que interferem e/ou determinam as variações do comportamento dos alunos em face

de suas expectativas iniciais, relação entre fatores organizacionais e variação de expectativas dos alunos. Para tanto, foram

aplicados questionários e realizadas entrevistas com alunos (em grupo) e com professores. A pesquisa revelou que a articulação

entre as perspectivas qualitativa e quantitativa contribuiu, de modo substancial, para o aprofundamento na compreensão do

fenômeno investigado. Além disso, a pesquisa suscitou novas questões, propiciando, inclusive, a problematização de resultados

obtidos por outros trabalhos realizados apenas através de um viés quantitativo. Acreditamos, assim, que a abordagem qualitativa

muito tem a contribuir para a temática da avaliação dos cursos oferecidos por IES.

Palavras-Chave: Educação Superior; Avaliação-Métodos

ABSTRACT

An analysis of research that evaluates courses offered by Higher Education Institutes reveals the existence of countless

works that adopt a quantitative approach. There is very little work that chooses a qualitative approach and that bring

together both approaches. Considering this gap and the importance of the issue, we decided to do research that would

bring about this combination. Thus, we decided to investigate the views of teachers and students in a Business Administration

Course in a Higher Education Institute. Using both approaches (qualitative and quantitative), the following aspects were

investigated: course expectations, opportunities offered by the intended career, opinion about the curriculum and the

quality of education, reasons that interfere and/or determine changes in students around their initial expectations, relation

between organizational factors and variation of students’ expectations. Students were asked to answer questionnaires

and were also interviewed in groups and with teachers. The research revealed that the combination of the qualitative and

quantitative approaches contributed in a substantial way to deepen the understanding of the phenomenon. The research

also raised new questions from the results of other work which had a quantitative approach. We believe, therefore, that

the qualitative approach has much to contribute on the issue of evaluating the courses given at Higher Education Institutes.

Key Words: Higher Education; Evaluation-Methods

RESUMEN

El análisis de algunos estudios que evalúan cursos ofrecidos por instituciones de educación superior revela la existencia de una

gran cantidad de trabajos que adoptan perspectivas cuantitativas. Son raros los trabajos que optan por enfocar la investigación

cualitativa o que articulan las dos. Teniendo en vista esa ausencia y el importante enfoque de esta problemática, se optó por

desarrollar una investigación que garantizase esa articulación. De este modo, se buscó investigar las representaciones del cuerpo

docente y dicente sobre el curso de Administración de Empresas de un Instituto de Educación Superior (IES). A partir de estas

dos perspectivas (cualitativa y cuantitativa) se estudiaron las expectativas sobre el curso, posibilidades ofrecidas por la carrera

pretendida, opiniones sobre la estructura curricular y la calidad de educación, motivos que interfieren y/o determinan las

variaciones de comportamiento de los alumnos ante sus expectativas iniciales, relación entre factores organizacionales y variación

de expectativas de los alumnos. Por lo tanto, se aplicaron cuestionarios y realizaron entrevistas con alumnos (en grupo) y con

profesores. La investigación reveló que la articulación entre las perspectivas cualitativa y cuantitativa contribuyó, de modo

substancial, a profundizar la comprensión del fenómeno investigado. Además, la investigación originó nuevas preguntas, propiciando,

inclusive, la problematización de resultados obtenidos para otros trabajos realizados apenas a través de una forma cuantitativa.

Nos parece, así, que el enfoque cualitativo contribuye mucho a la temática de la evaluación de los cursos ofrecidos por I.E.S.

Palabras clave: educación superior; evaluación-métodos

1

Doutor em Física Nuclear pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares - IPEN/SP. Concluindo Pós-Doutoramento na Área de Física Nuclear no

Departamento de Física Nuclear da Universidade de São Paulo - USP. Professor do Centro Universitário FIEO - UNIFIEO em Osasco.

2

Especialista em Educação Matemática pela Univ. de Guarulhos – UNG. Especialista em Matemática Avançada pela Univ. São Judas Tadeu -SP – USJT.

Professora do Centro Universitário FIEO - UNIFIEO em Osasco.

3

Psicóloga da Educação. Professora do Centro Universitário FIEO - UNIFIEO em Osasco.

4

Psicóloga da Educação pela USP. Professora da PUC - São Paulo. Doutoranda em Psicologia da Educação pela USP.

Endereço para correspondência: UNIFIEO - Av. Franz Vorgeli, 300 Vila Yara - CEP 06 020-190 - Osasco - São Paulo – e-mail: esrossi@unifieo.br

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):307-315, abr/jun, 2004 307


Metodologia Qualitativa e...

INTRODUÇÃO

A análise de pesquisas que avaliam cursos oferecidos

por instituições de ensino superior (IES) revela a existência

de inúmeros trabalhos que adotam perspectivas

quantitativas. Raros são os trabalhos que optam por

abordagens qualitativas ou que articulam essas duas

abordagens. Tendo em vista essa lacuna e a importância

da abordagem desta problemática, optou-se por

desenvolver uma pesquisa que garantisse essa articulação.

Desse modo, buscou-se investigar as representações dos

corpos docente e discente do curso de administração de

empresas de uma IES. A partir das duas perspectivas

(qualitativa e quantitativa) (1) foram investigadas:

expectativas a respeito do curso, possibilidades oferecidas

pela carreira pretendida, opiniões sobre estrutura

curricular e qualidade de ensino, motivos que interferem

e/ou determinam as variações do comportamento dos

alunos em face de suas expectativas iniciais, relação entre

fatores organizacionais e variação de expectativas dos

alunos. Para tanto, foram aplicados questionários e

realizadas entrevistas com alunos (em grupo) e com

professores. A pesquisa revelou que a articulação entre

as perspectivas qualitativa e quantitativa contribuiu, de

modo substancial, para o aprofundamento na

compreensão do fenômeno investigado. Além disso, a

pesquisa suscitou novas questões, propiciando, inclusive,

a problematização de resultados obtidos por outros

trabalhos realizados apenas através de um viés

quantitativo. Acreditamos, assim, que a abordagem

qualitativa muito tem a contribuir para a temática da

avaliação dos cursos oferecidos por IES.

OBJETIVOS

O objetivo geral desta pesquisa foi o de investigar as

representações do corpo docente e discente de um curso

de graduação de uma IES, sobre o próprio curso e alguns

de seus aspectos, tais como: expectativas a respeito do

curso, das possibilidades oferecidas pela carreira

pretendida; opiniões sobre estrutura curricular e qualidade

de ensino, como também o de identificar os motivos que

interferem e/ou determinam as variações no

comportamento dos alunos ante suas aspirações iniciais.

METODOLOGIA

Foram utilizadas duas formas de abordagem do

fenômeno estudado, a qualitativa e a quantitativa. A

composição da equipe, integrada por profissionais

especialistas em diferentes áreas do conhecimento (dois

psicólogos, um físico e um matemático) propiciou a

articulação entre essas duas abordagens, de modo a

possibilitar visão mais abrangente da complexidade do

objeto do estudo. Foram realizados:

GRUPOS DE DISCUSSÃO COM ALUNOS

Encontros em grupo com alunos do 1º e 3º anos do

Curso. Após cada encontro foram feitas a análise das

informações coletadas e a elaboração das diretrizes do

encontro seguinte, com vistas tanto aos objetivos gerais,

prévios aos encontros, quanto às novas questões que

surgiam no decorrer do trabalho. Com os do 1º ano foram

realizados 4 encontros com duração de aproximadamente

1hora e freqüência semanal, contando com a presença

de 6 alunos e das duas psicólogas pesquisadoras (uma

coordenadora principal e outra coordenadora auxiliar);

com os do 3º ano, foram realizados 3 encontros, com

duração aproximada de 1hora e freqüência semanal,

contando com a participação de 3 alunos e das duas

pesquisadoras psicólogas.

Os procedimentos de investigação adotados foram:

dupla coordenação, que permite a otimização do tempo,

melhor observação dos aspectos a serem investigados

no grupo, maior objetividade para análise dos dados – já

que diminui a possibilidade de vieses pessoais – e, também,

uma discussão posterior mais aprofundada, contribuindo

para o surgimento e a confirmação/refutação de novas

hipóteses; discussão em grupo, que propicia o acesso à

construção de um conhecimento sobre a realidade,

produzido no embate de idéias e representações dos seus

integrantes sobre o fenômeno estudado, bem como

permite o estudo mais particularizado e, portanto, mais

aprofundado, das representações que emergem no

grupo(2) e composições gráficas.

Os encontros se estruturaram em três fases: na

apresentação dos participantes e do projeto de pesquisa

(objetivos, metodologia, devolução dos resultados da

pesquisa, etc.), enquadre e início da tarefa propriamente

dita; no levantamento e discussão dos temas a serem

investigados e na retomada, discussão e articulação de

todos os temas abordados durante o processo do grupo,

incluindo-se uma análise preliminar dos dados obtidos.

Os temas abordados giraram em torno das expectativas

e motivação dos alunos antes de ingressarem na

instituição(3); dos aspectos relacionados à vivência

cotidiana na instituição, tais como a interação entre os

alunos, a relação aluno-direção e aluno-corpo docente, a

estrutura curricular, a qualidade de ensino, das

perspectivas do futuro profissional.

ENTREVISTAS

Nas entrevistas com representantes do Diretório

Acadêmico e da Empresa Júnior, os temas abordados

foram: história e organização interna tanto do Diretório

Acadêmico quanto da Empresa Júnior (fundação, principais

atividades realizadas, composição da diretoria,

funcionamento); relação entre esses órgãos e outros

alunos, corpo docente do curso, e corpo administrativo

da instituição, além dos temas discutidos nos encontros

em grupo com os demais alunos.

Nas entrevistas com professores – um professor de

cada ano – os temas se voltaram à concepção sobre o

profissional administrador de empresas; peculiaridades da

formação desse profissional pela instituição; às opiniões

sobre os alunos (expectativas, motivos da escolha da

carreira, etc.); à avaliação do professor sobre o curso e

sobre as transformações que vem sofrendo; às explicações

sobre a motivação dos alunos no decorrer do curso (como

se modifica e quais são os motivos que levam a alterações).

QUESTIONÁRIOS

Foram aplicados em 511 alunos do curso, investigando:

o perfil dos alunos e suas aspirações ao ingressarem no

curso de Administração de Empresas; a representação dos

alunos sobre o curso, contendo questões relacionadas ao

308 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):307-315, abr/jun, 2004


funcionamento institucional, qualidade de ensino(4), corpo

docente, entre outros. Foram aplicados em 36 professores,

contemplando a totalidade do corpo docente, investigando:

perfil do professor; relação entre sua formação acadêmica

e sua formação profissional; as representações que os

professores têm sobre o curso, em seus aspectos didáticopedagógicos,

estruturais, entre outros.

LEVANTAMENTO E ANÁLISE

DOCUMENTAL

Foram tabulados os dados referentes a: matrículas,

aprovação, retenção, saídas (transferências, desistências,

trancamentos), transferências recebidas, dependência e

adaptação, segunda época, em relação aos alunos de todas

as séries do curso, no decorrer de 4 anos.

RESULTADOS

Um dos aspectos observados na investigação

qualitativa foi o da relação entre corpo discente e corpo

administrativo da instituição (direção, coordenação de

curso, chefia de departamento). Segundo os alunos, há

uma grande distância entre eles, o que acarreta um

descontentamento em relação às informações a serem

obtidas e/ou possibilidades de participação nas discussões/

decisões relativas à sua vida acadêmica.

Outro aspecto observado na investigação qualitativa foi

o da escolha profissional pelo curso de Administração de

Empresas. Esta geralmente parece estar associada ao campo

de trabalho diversificado que a profissão oferece, tanto como

profissional assalariado – onde se pode trabalhar em diversos

setores de uma empresa – quanto como profissional liberal/

empresário. Foram vários os depoimentos que atestaram a

importância dessa característica da profissão para a escolha

pelo curso superior de Administração:

"A gente tem que estudar um pouquinho de cada área,

precisa aprender um pouco de pessoal, um pouco de

chefia, no caso você vai aprender a como lidar com

seus funcionários, vai aprender contabilidade, vai

aprender parte financeira. Então você vai sempre poder

se encaixar num lugar" (aluno do 1º ano).

"É um curso muito abrangente que vai te dar uma

visão de tudo um pouco. Que você vai poder optar por

vários tipos de mercado. É um curso que te capacita

para uma grande gama de profissões para exercer"

(aluno do 3º ano).

Porém, mais importante do que essa diversidade que

a carreira de administrador contempla é, provavelmente,

o fato de que grande parte do alunado já exerce atividades

profissionais relacionadas com a Administração antes do

ingresso no curso, o que também ficou claro a partir da

análise quantitativa dos questionários respondidos pelos

alunos. Assim, a procura por este curso superior vem

atender, basicamente, a duas necessidades: a) a exigência

de um diploma universitário por parte da empresa em

que o aluno trabalha; b) a busca de subsídios teóricos

para um aperfeiçoamento da prática que o alunotrabalhador

exerce em seu trabalho 1 . Nas palavras de

alguns alunos:

"Eu, particularmente, trabalhava na área de Recursos

Humanos do departamento de pessoal, então eu quero,

a minha intenção é fazer Pós-Graduação em Recursos

Humanos (...). Desde os dezesseis anos estou trabalhando

no departamento de pessoal" (aluno do 1º ano).

"Trabalhei em banco, trabalhei em uma outra empresa

logo que entrei aqui (...) E como já trabalhei em banco,

no departamento financeiro, lá você conhece de tudo

do departamento financeiro. Dei sorte de entrar na

empresa que eu estou agora. Só me pegaram porque

eu faço Administração e porque eu já tenho uma noção

de alguma coisa" (aluno do 1º ano).

A relação, quase que de subordinação, da teoria

aprendida em sala de aula à prática exercida pelo aluno

em seu trabalho perdura por todo o curso , intensificandose

a partir do momento em que as matérias específicas

são ministradas, o que ocorre nos terceiro e quarto anos:

• Aluno do 3º ano:

"Porque no 3º ano você vai aplicar um pouco da teoria

que você está aprendendo e vai aplicar na sua prática.

Se você trabalha na área de Marketing, da área de

R.H. tem alguma coisa para você assimilar. Porque eu

acho que é no 3º ano que você tem essa fase: ‘o que

eu gostaria de fazer’"

• Pesquisador:

"Normalmente relacionado com o trabalho que as

pessoas já exercem"

• Aluno do 3º ano:

"Já exercem. Acho que, geralmente, é porque te prende

mais a atenção, né Que eu vejo, o pessoal que trabalha

na área financeira participa muito mais da aula de

Mercado de Capitais do que outros. E que já trabalha

mais numa área produtiva participa muito mais, muito

mais de uma outra disciplina".

Se a prática aparece como grande norteador da

conduta do aluno, desde a escolha profissional até seu

interesse por uma ou outra disciplina do curso,

compreende-se o motivo pelo qual os alunos do 3º ano

vivem esse momento do curso como um marco: marco

da reflexão sobre sua identidade profissional...

"É no 3º ano que você se identifica: ‘esse é o curso

que eu quero’ ou ‘esse é o curso que eu não quero’.

Porque o 1º e o 2º ano são matérias básicas: Estatística,

Matemática, Contabilidade. E no 3º ano tem muita

teoria. No 4º ano você vai aplicar mais essa teoria

com sua realidade. Então você fica: ‘Pô, será que eu

preciso de tudo isso Será que é necessário eu aprender

tudo isso Será que eu estou no curso certo’ Você

tem uma certa expectativa numa determinada matéria

e a hora que você vê, sabe, você fica: ‘pensei que era

uma coisa...’ Então: ‘Por que que eu vou aplicar isso’

1

A análise dos questionários apontou, além desses, um outro motivo da escolha pelo curso de Administração, qual seja, a possibilidade de realização pessoal.

Este motivo não apareceu assim formulado nas entrevistas/encontros em grupo. Mas, há que se notar que a "possibilidade de realização pessoal" aparece sempre

atrelada à prática profissional, o que condiz com os dados qualitativos.

2

Como visto na análise quantitativa, 399 alunos dentre os 511 que responderam ao questionário afirmaram que sua atividade profissional está total ou parcialmente

relacionada com a área administrativa.

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):307-315, abr/jun, 2004 309


Metodologia Qualitativa e...

(...) Porque é o 3º ano e o 4º ano que vai te dar aquele:

‘Sou um profissional na área de Administração’" (aluno

do 3º ano).

... e marco do questionamento de sua escolha

profissional:

Pesquisador:

"Sei, daí você pode perceber que fez a escolha certa..."

Aluno do 3º ano:

"... como fez a escolha errada: ‘É isso que é

Administração Não era isso que eu queria’. Tem gente

que está no 3º ano que fala: ‘Pô, se eu não estivesse

aqui, eu teria feito outro curso. Se eu estivesse no 2º

ano com essa visão que eu estou tendo no 3º, eu já

teria trancado a matrícula e prestado outra coisa’".

É nesse contexto, que a participação do alunado na

empresa Jr. surge como possibilidade da ampliação do

engajamento no curso e de uma melhor apropriação da

totalidade do conteúdo aprendido em sala de aula, já que

permite que o aluno exerça atividades em diversos campos

da Administração:

"Então, a UNO Jr. te dá a oportunidade de analisar o

quadro todo, o quadro geral de uma empresa. Você é

uma empresa aqui. Então fazemos um trabalho todo,

desde a linha de frente com os clientes, a parte de

levantamento de projetos, a consultoria, a auditoria.

Então, a gente vive algumas coisas que, no nosso diaa-dia

no trabalho, não seria possível, você fica parado,

sempre num ponto só. Então abre muito os horizontes,

expande, você tem realmente condições de aplicar

aquilo tudo que a gente recebe de uma forma muito

teórica na sala de aula. Esse é o ponto forte da UNO

Jr." (membro da Empresa Júnior)

Se, como vimos, a escolha pela profissão de

administrador de empresas é feita porque esta parece

propiciar um futuro promissor, já que permite a realização

de atividades em diversas áreas, por outro lado essa

diversidade vem atrelada à difícil identificação das

atribuições específicas do administrador, o que acarreta

uma certa confusão no que se refere à identidade do

profissional: será que as atividades que ele realiza/realizará

são, de fato, atribuições específicas da profissão de

administrador de empresas

Somando-se a isso, há o fato de que grande parte dos

alunos afirma já trabalhar com atividades administrativas,

mesmo sem ser diplomado, o que dá margem ao

questionamento sobre o que define a profissão de

administrador de empresas: será cursar uma faculdade e

obter o diploma de administrador de empresas Será

exercer atividades chamadas de "administrativas" em

empresas Será que essas atividades requerem uma

formação universitária para serem desenvolvidas, já que

grande parte as realiza mesmo antes do ingresso no curso

Será que toda sorte de atividades dos setores

administrativos de uma empresa, desde as menos

especializadas às que requerem maior especialização, são

específicas do administrador ,(5) Será que a identidade

profissional só pode ser estabelecida com uma futura

especialização em uma das diversas áreas administrativas

(Recursos Humanos, Marketing, área de finanças etc.)

O único aspecto sob o qual parece não pairar nenhuma

dúvida é o fato de que o trabalho deve ser realizado em

uma empresa ,(6).

A difícil identificação das atribuições específicas do

administrador, associada ao caráter generalista do curso,

traz conseqüências tanto para o aprendizado quanto para

a visão que os próprios alunos têm de seus colegas:

"O curso de Administração, pelo menos aqui na

Instituição, tem uma característica que a gente percebe.

É muito imaturo, não com relação ao que a faculdade

propõe, mas os alunos não estão num nível de

maturidade de Universidade. Então, é diferente se você

for fazer a mesma pesquisa no curso de Direito, por

exemplo. Se você for fazer uma pesquisa num curso

de Medicina qualquer, quem paga um curso de

Medicina, quer realmente ser um médico. Agora aqui

não, muita gente só quer um canudo, só precisa do

diploma. (...) Então, há muito desinteresse, nas próprias

aulas, no curso" (membro da Empresa Júnior).

"Quem faz Medicina, vai ser médico. Quem faz Direito,

vai ser advogado. Quem faz Administração, pode ser

qualquer coisa" (membro da Empresa Júnior)

"Porque Administração, a meu ver, é um curso muito

abrangente. Você aprende tudo, mas é tudo um pouco.

Você não se aprofunda em nada. Você não vai ser

especialista em nada. Você tem uma visão geral" (aluno

do 3º ano).

"Direito é mais direcionado, Informática, Contábeis,

tudo. Agora, Administração, não. É genérico. Então,

eu não sei o que vou fazer da minha vida. Então, vou

fazer Administração. Assim, vejo de tudo um pouco.

Então, eu não tenho um interesse como outros alunos

por parte do curso" (membro da Empresa Júnior)

Assim, na concepção dos alunos, a escolha de uma

profissão como a de administrador de empresas é, muitas

vezes, uma escolha "imatura": sua abrangência significaria

uma indefinição quanto à profissionalização. Mas, como

foi visto anteriormente, parece que esta indefinição é

inerente ao próprio curso e à própria profissão. Do

mesmo modo, pode-se compreender a questão do caráter

generalista do curso: se por um lado, esse é um dos

motivos que leva, em grande parte, à escolha pela carreira,

por outro, impede um maior aprofundamento do curso,

gerando descontentamento por parte dos alunos, além

de confusões quanto à identidade profissional. Se por um

3

Segundo Paro (1996), o administrador é aquele que coordena e controla as ações dos trabalhadores em uma organização. Sendo assim, algumas das atividades

pertencentes aos "setores administrativos" das empresas fazem parte da burocracia da organização, mas não são, a rigor, atividades administrativas.

É interessante notar que, desde o ingresso no curso, vários alunos já se referem ao projeto de cursar alguma especialização/pós-graduação lato sensu:

"Hoje em dia só faculdade não é mais vantagem. Eu vou me formar, depois entrar na Pós" (aluno do 1o ano).

3

A idéia de que o trabalho do administrador quase que necessariamente ocorre dentro de organizações é corroborada por teóricos da área, como por exemplo

Motta e Pereira (1981): "Não existe organização sem administração e a recíproca é quase sempre totalmente verdadeira, já que é precisamente dentro das

organizações que a administração é exercida" (p. 19).

310 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):307-315, abr/jun, 2004


lado o caráter especialista da função do administrador é

de difícil identificação, é este mesmo caráter que leva o

aluno a se identificar profissionalmente.

A idéia trazida pelos alunos, de que existe uma

contradição entre um curso genérico e uma identidade

profissional "especializada" perdura para além dos muros

da instituição de ensino: as organizações supostamente

exigem profissionais generalistas e especializados, ao

mesmo tempo. Nas palavras de um aluno:

"O mercado diz que isso é bom, só que você precisa

ser especialista. Precisa ser generalista e especialista.

Para o mercado é suficiente saber de tudo um pouco.

Na verdade, você tem que ser generalista, porém, no

seu trabalho, tem que ser o melhor. Você tem que ser

o melhor no seu trabalho. Você é um especialista no

seu trabalho" (membro da Empresa Júnior).

Como visto acima, a prática profissional é a grande

norteadora do aluno no que se refere à sua formação em

Administração de Empresas. É ela que determina, em

grande parte, desde a escolha profissional até o interesse

do aluno pelas diferentes disciplinas do curso. Mais do

que isso, a prática influencia a avaliação que o aluno faz

dos professores...

"São matérias mais técnicas, específicas [no 3º ano],

e muitos deles [os professores] são profissionais da

área e vivenciam aquilo. A gente vê que manja daquilo,

que entende daquilo" (aluno do 3º ano).

"Principalmente na nossa área de Administração, acho

impossível a gente ter um professor que não praticou,

que não viveu aquilo, não tem aquela vivência, aquela

experiência administrativa para estar te passando

aquilo que está falando" (membro da Empresa Júnior).

... a prática serve de base para que o aluno reflita sobre

a teoria...

"Eu vejo assim: os alunos que trabalham na área

financeira participam muito da aula de Mercado de

Capitais. Aqueles que trabalham na área mais

produtiva, mais na aula de Produção. Assim, é o que

tem mais afinidade com a sua área, então você

consegue debater, criar um embate com o professor.

Tirar suas dúvidas do seu dia-a-dia, com relação à

teoria. Mas aqueles assuntos que a gente não tem

muito vínculo, não dá para discutir muito. É que nem,

tipo, R.H., assim... Eu não tenho como questionar, às

vezes eu tento colocar uma posição em particular,

minha, mas eu não tenho a realidade (...) Se você não

conhece, você vai engolindo, engolindo..." (aluno do 3º

ano).

... e é a prática que, na concepção de parte dos alunos,

ensina de fato a exercer a profissão:

"É que eu estou [trabalhando] na área de informática.

Não pretendo sair tão cedo porque eu não sei fazer

outra coisa na vida" (aluno do 3º ano).

O aluno acaba por afirmar que seu conhecimento

restringe-se unicamente à sua prática profissional. Ora,

será que ele não adquiriu nenhuma habilidade durante os

anos que freqüentou a faculdade Na verdade, a

subordinação da teoria à pratica aparece de forma tão

intensa que o aluno acaba, muitas vezes, por desconsiderar

o que aprendeu em sala de aula em detrimento de sua

atividade não acadêmica.

Porém, ao fazermos uma análise mais aprofundada do

que foi relatado pelos alunos do curso de Administração

de Empresas, vemos que, se é a prática que aponta as

diretrizes acadêmicas para o aluno, a teoria aprendida

em sala de aula tampouco pode ser menosprezada. Ao

contrário, ela aparece, de forma clara e freqüente nas

falas do corpo discente, mostrando que, em larga medida,

a visão de mundo subjacente ao discurso científico

administrativo foi incorporada pelos alunos de modo tão

"natural" que esta relação com a teoria acaba

desapercebida pelos mesmos. Discurso administrativo

que, longe de habitar unicamente as salas de aula, permeia,

na atualidade, todo o corpo social ,(7).

Exemplo disso são as falas de alguns alunos quando se

referem à sua inserção no curso de Administração de

Empresas e na faculdade, que evidenciam a forma de

raciocínio e o uso de termos/conceitos oriundos do

discurso científico administrativo:

"Na realidade, é a relação de cliente-fornecedor que

nós temos que ter num contrato de prestação de

serviço, que é o nosso aqui. (...) O cliente precisa, tem

necessidade de ser bem atendido. No entanto, isso

não acontece na íntegra. Eles têm melhorado a partir

da ampliação da faculdade, agora nos processos todos

que o MEC está avaliando. Ela [a faculdade] quer o

objetivo, a meta de chegar à Universidade e tudo isso

está sendo positivo, por isso está melhorando o

processo" (membro da Empresa Júnior).

"As empresas, na verdade, querem pessoas melhores

capacitadas para poderem concorrer melhor no

mercado. Isso vai para o MEC ou para órgãos

governamentais que também têm que tomar uma ação

de gerar essa mão-de-obra mais qualificada. Vai acabar

nas faculdades. Então nós sofremos uma conseqüência,

até como efeito da globalização. Eu acho que nesse

sentido, o que está acontecendo hoje nada mais é do

que conseqüência, coisas desse tipo aí. A gente sabe,

no passado, não tinha essa concorrência, toda essa

cobrança" (membro da Empresa Júnior).

Assim como no discurso dos alunos, sobre a profissão

de administrador de empresas, também a fala do corpo

docente aponta como característica marcante da profissão

de administrador de empresas seu caráter generalista, já

que o administrador de empresas é um profissional que

transita por diversas áreas dentro de uma organização e

detém conhecimentos básicos sobre cada uma delas.

Esse caráter generalista da profissão, segundo o

relatado por alguns entrevistados, propicia um campo de

trabalho diversificado e ampliado:

"(...) o administrador de empresa, ele não tem aquela

formação específica de um economista, por exemplo,

4

Cf. Chaui, "O discurso competente", in Cultura e Democracia (1997).

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):307-315, abr/jun, 2004 311


Metodologia Qualitativa e...

ele não vai ter que trabalhar só na área econômica,

ele pode trabalhar na área financeira, na área de

marketing, produção e etc., quer dizer, então o

mercado fica um pouco maior para ele, tudo bem,

que se tem aí uma série de profissionais formados

todos as anos. Mas o leque de oportunidades é muito

maior porque ele tem uma visão generalista, e é isso

que as empresas pedem hoje, eles não querem

ninguém com uma visão muito específica, tem que ser

um cara que consiga jogar em qualquer time"

(Professor 1).

Assim, segundo uma parcela do corpo docente, um

Curso de Administração de Empresas generalista

permitiria a formação de um bom profissional, apto a

realizar as mais diversas tarefas do campo administrativo

numa organização:

"Olha, eu costumo dizer para os alunos que se o

administrador fosse um médico, ele seria um clínico

geral porque de tudo ele conhece um pouquinho, sendo

que se ele quiser se especializar, ele vai ter que passar

por outra etapa que é a Pós-Graduação. Mas o Curso

de Administração, ele dá uma boa base teórica, e

muitas vezes até prática, para o futuro profissionaque

vai lá batalhar na empresa" (Professor 1).

Já uma outra visão presente no discurso do corpo

docente afirma que a Graduação, por si só, não seria

suficiente. Mais do que isso, o caráter generalista poderia

acarretar a superficialidade do conhecimento do

administrador:

"(...) eu vejo muita identidade [da administração de

empresas] com o jornalismo. Pergunta para um

jornalista o que ele acha:"olha, nós temos um curso

em que nós entendemos de tudo e não entendemos

de nada". Porque tudo o que eles conhecem é

superficial, estudam um monte de coisas na

superficialidade e daí você vai ler num órgão de

imprensa, um artigo mais científico sobre determinada

área, não é um jornalista que vai escrever. Porque ele

só domina a superficialidade, e quando o jornalista vai

fazer alguma análise ele tende a falar coisas que são

descabidas.(...) quando é jornalista que escreve ele

enxerga a superficialidade e ele não domina o que

está por baixo, porque ele tem uma formação muito

genérica (...) que nem o administrador" (Professor 2).

Assim, alguns professores apontam a necessidade da

especialização em alguma das áreas do campo da

Administração, realizada após a graduação, para

complementar a formação do administrador de empresas.

Essa especialização, juntamente com a prática profissional,

seria condição necessária para o exercício da profissão;

isto é, apenas um curso de graduação não formaria um

administrador de empresas:

"Mas ele precisa de um estudo, uma especialização,

fazer um estudo continuado dentro daquela área.

Porque veja bem, Administração de Empresas não

forma administradores de empresas. Só o nome

administrador de empresas, dentro da empresa, quase

todos são, só que cada um com uma especialização.

Se ele se especializa, por exemplo, na área

administrativa, então ele tem que saber coisas sobre

matemática financeira, ele tem que entender de

balanço. Isso ele vê durante o curso, mas não sai daqui

um especialista. (...) fazer um Curso de Administração

é como fazer um curso de Medicina. Em seguida ou

ele vai fazer Clínica Geral ou então para que ele tenha

domínio numa determinada área ele vai ter que se

especializar naquela área. Que dentro do próprio curso

ele não consegue fazer isso" (Professor 3).

Outros professores, espelhando-se no modelo de

outros países, acham que o ideal seria que a própria

administração de empresas fosse uma especialização.

Assim, profissionais de diferentes áreas que necessitassem

de conhecimentos administrativos para executarem o

gerenciamento das instituições em que trabalhassem,

buscariam o curso de especialização em administração

de empresas como complementação à sua própria

formação. Em suas palavras:

"(...) existe uma posição que defende o seguinte,

defende uma forma que funciona em alguns países,

na Alemanha principalmente, onde o administrador

não é uma carreira na universidade. O administrador

é uma especialização. Então como é que seria: o

cidadão faz um curso de engenharia, um curso de

medicina, qualquer curso na universidade; sai

engenheiro, médico... E esse médico precisa dirigir uma

empresa de medicina, o engenheiro precisa dirigir uma

empresa química; daí ele faz uma especialização de

um ou dois anos na universidade como administrador.

(...) Até porque na sociedade é assim que você

geralmente entra: você entra no hospital, geralmente

é um médico que é o diretor. E por que é que o médico

é o diretor financeiro Porque ele tem que dominar

algumas coisas de medicina" (Professor 2).

O Curso de Administração de Empresas tem um

caráter generalista, preparando o futuro profissional para

atuar em diversas áreas; além disso, grande parte de sua

clientela já exerce atividades ditas "administrativas" em

diversas organizações. A partir da reflexão sobre essas

características, um dos objetivos principais das atividades

ministradas durante o curso, segundo o discurso docente,

seria o de ampliar e transformar a visão que os alunos/

profissionais possuem das atividades que exercem em sua

prática profissional e também abrir novas perspectivas

de trabalho em áreas diferentes daquela exercida pelo

aluno em seu trabalho:

"Eles [os alunos bancários] aprendem os coeficientes

que usam trabalhando e que nunca souberam de onde

surgiram esses coeficientes. Para eles aquilo era, por

exemplo, uma determinação do Banco Central. Era

ordem superior. Quando na realidade, não. É que o

banco tem medo que eles não saibam fazer o cálculo

na hora, então já dá tudo em tabelas. Eles tem que

seguir, acompanhar aquelas tabelas. Mas agora eles

aprendem a fazer a tabela. Eles aprendem de onde

veio (...) Eles acabam entendendo, porque para eles

aquilo era um mistério"(Professor 3).

312 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):307-315, abr/jun, 2004


"Eu vou te falar como ex-aluno [de administração de

empresas]: quando eu terminei o curso, confesso que

nos três primeiros meses eu fiquei completamente

perdido"E agora o que é que eu vou fazer, para quê o

curso me serviu"Então eu comecei a perceber o

seguinte: que todas as matérias, principalmente as

voltadas para RH –- na época eu trabalhava em RH -

–- me serviram para muita coisa; comecei a enxergar

a minha área de outra forma. Mas percebi que eu

tinha também uma grande chance de mudar de rumo

na minha carreira, porque eu comecei a enxergar coisas

que até então eu não enxergava. Porque quando você

só está na empresa, sem formação técnica, sem o teu

curso superior, você só está enxergando o seu

mundinho ali, só aquela tua atividade, e você não pára

para ver as outras coisas. Aí você começa a ver a área

financeira, começa a ver economia, começa a ver

orçamento, contabilidade etc.; isso te desperta interesse

para outras coisas. Foi isso que aconteceu comigo e

eu tenho quase certeza que é isso que está

acontecendo com os meus alunos. (...) Eu costumo

falar para os meus alunos no 1o dia de aula o seguinte:

"Eu quero que no final do ano vocês tenham uma

concepção diferente, principalmente da minha matéria.

Se você hoje de manhã abre o jornal e vai ler esporte

e horóscopo, você vai terminar o ano lendo economia".

É isso que eu procuro incentivar e assim a gente tem

muitos resultados que são extremamente satisfatórios;

eu acho que a faculdade muda a cabeça do aluno"

(Professor 1).

É dessa forma que a atividade do professor visa

transformar uma das idéias expressas no discurso

discente, qual seja a de que a maior parte do alunado, a

princípio, só se interessaria por aquelas disciplinas que

tivessem utilidade imediata em seu cotidiano laboral.

Porém, ampliar o interesse do aluno e propiciar um

ensino de qualidade requer especial atenção do professor

a aspectos como: relação professor-aluno, relação

teoria-prática, didática etc:

"(...) é porque eu tenho o conceito de ensino muito

diferente, eu acho, assim, que eu tenho que procurar

"n" alternativas para passar o conteúdo para os alunos,

para ministrar as aulas, porque os alunos estão cansados

daquele negócio do professor só falar, sem dar

oportunidade do aluno expressar a idéia dele, dele

discutir alguma coisa. (...) Você [o professor] tem que

buscar transformar, variar seus métodos, exigir trabalhos

que fogem da regra, trazer profissionais de fora para

falar da experiência deles etc." (Professor 1).

A estrutura do curso também foi apontada como fator

diretamente relacionado com a qualidade de ensino. Em

geral, há uma concordância quanto à estrutura de base

adotada pela instituição, qual seja, a de um curso básico e

generalista, e quanto à necessidade de especialização do

futuro administrador de empresas. A forma e momento

em que o aluno começa a ter contato com uma visão

mais específica, porém, não é consensual: concebe-se a

especialização como atividade a ser iniciada somente após

a graduação (uma pós-graduação latu senso, que poderia

ser oferecida pela própria instituição)...

"Repare bem, é uma profissão onde normalmente

existem áreas em que os formandos de administração

normalmente se especializam em uma área. Que em

si, o Curso de Administração é mais informativo.

Quando ele faz o Curso ele tem uma visão geral da

profissão, mas não é específico, não é nada ele não se

especializa ele tem uma noção da área de Marketing,

uma noção da área de Recursos Humanos, na área

de Produção, mas nada assim a nível de especializarse.

Então ele tem que fazer um estudo continuado.

(...) Eu procuraria vincular [a graduação e a pós]; por

exemplo, a própria escola oferecer áreas para que ele

fizesse a pós-graduação nessas áreas. Aí eu acho que

seria a escola ideal. Ou que se fizesse um 5º ano, por

exemplo, dividindo em áreas em que o sujeito fosse

fazendo especialização nessa área" (Professor 3).

... e também concebe-se a especialização como

atividade que teria seu início no próprio curso de

Administração de Empresas, através da oferta de

disciplinas optativas que poderiam iniciar um

direcionamento do aluno para determinada área:

"Você poderia fazer alguma coisa em módulos básicos,

que seriam alguma coisa como cadeiras chaves, que

todo mundo tem que ter para homogeneizar

conhecimento. A partir daí poderia oferecer para os

alunos uma maior especialização: se ele quiser se

desenvolver um pouco mais em finanças, então eu

ofereço na área de finanças essa grade. Ofereço na

área de administração mercadológica essa grade. Então

eu conceituo basicamente o que é marketing, mercado,

as relações, a demanda. (...) Então poderia fazer

seminários, cursos, outras coisas que é aí que eu vou

complementar" (Professor 4).

Segundo o discurso docente, a característica marcante

do aluno de Administração de Empresas da Instituição é

o fato de ele já trabalhar com atividades ditas

administrativas antes do ingresso na faculdade,

notadamente no setor bancário. Nesse sentido, o

professorado entende que a escolha profissional da

clientela desta instituição de ensino seria motivada,

sobremaneira, pela suposta importância que um curso

superior teria, atualmente, para o mercado de trabalho,

ainda mais um curso valorizado como o de Administração

de Empresas:

"Os alunos estão atraídos pelo curso de administração

porque oferece a oportunidade de entrar no mercado

de trabalho como administrador, o próprio mercado

de trabalho valoriza (...) em geral, quem procura

administração é porque trabalha numa empresa ou

porque vai trabalhar, ou porque vai administrar a

empresa do pai, então ele vê que esse é um caminho,

uma coisa que o mercado valoriza" (Professor 2).

"Nós temos alguns alunos que já trabalham em

empresas, principalmente bancários, (...) porque o

aluno já trabalha numa empresa e ele sabe que para

ele progredir profissionalmente o diploma de

administrador vai ser importante" (Professor 2).

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):307-315, abr/jun, 2004 313


Metodologia Qualitativa e...

Assim, o diploma de nível superior seria entendido

como possibilidade de melhora de posição dentro da

organização em que o aluno trabalha e como atributo

necessário à empregabilidade; além disso, o curso

proporcionaria uma melhor qualificação profissional. De

qualquer forma, o que acabaria preponderando seria uma

intensa preocupação com o mercado de trabalho, o que

levaria o aluno, de modo geral, a uma compreensão de

que a formação no ensino superior deveria ter como

objetivo fundamental a formação para o mercado; mais

do que isso, as disciplinas oferecidas deveriam cumprir o

papel de responder às exigências do que os alunos

supostamente crêem que é o mercado de trabalho ,(8).

Se a preocupação quase que exclusiva de grande

parcela do alunado com o mercado de trabalho é passível

de ser questionada, não podemos esquecer que também

é reveladora de sua situação concreta de vida. Um alunotrabalhador

cujo perfil socioeconômico permite a inserção

profissional em atividades como as que realizam nos

setores administrativos das organizações em que

trabalham, em detrimento das tarefas menos qualificadas

dos estratos mais empobrecidos da população

(construção civil, linha de montagem etc.), mas que, ao

mesmo tempo, impõe a necessidade do trabalho e da

melhoria de suas condições de vida como prioridade,

podendo relegar a um segundo plano questões acadêmicas

não diretamente relacionadas com sua carreira

profissional.

A política educacional que dita novas regras para o

ensino superior também é alvo da reflexão do corpo

docente. Os acontecimentos recentes da Instituição têm

certas particularidades, mas estão inseridos em um

contexto educacional mais amplo e, dessa forma, devem

ser compreendidos. Esse contexto compreenderia etapas

anteriores ao próprio ingresso no ensino superior:

"Não é um problema específico desta escola, mas é

um problema nacional esse como os alunos chegam a

cada ano menos preparados. Nossa, mas isso é

generalizado. Eu tenho a impressão de que de dez

anos para cá ninguém fez o ginásio para entrar na

faculdade ou se fizeram só passaram pela porta.(...)

Não dá para entender como chegou na faculdade. E

vão sair da faculdade, e vão corrigir isso onde, quando

mas isso não é um problema específico da nossa

instituição, isso já é nacional. (...) Mas repare bem, o

gozado é que isso vem num crescente. E agora eu fico

vendo em jornais que não vão mais reprovar na 1a e

na 4a série, que não vão mais reprovar na 5a e na 8a.

Acho que não vão mais reprovar no colegial. Já estão

fazendo provão na faculdade e daqui a pouco vira só

a única prova em todo o curso" (Professor 3).

CONCLUSÃO

Com relação ao corpo discente, tornou-se importante

conhecer seu perfil individual, suas representações a

respeito da profissão, do curso, suas relações com os

professores e com o corpo administrativo/coordenação.

Revelador foi o estudo dos motivos que levam os

graduandos a fazer sua opção por este curso: a escolha

geralmente parece estar associada ao campo de trabalho

diversificado que a profissão oferece: são muitas as funções

burocráticas dentro de uma empresa (desde o atendente

no Departamento de Recursos Humanos, por exemplo,

até o profissional liberal/empresário) que são denominadas

funções administrativas: é uma profissão generalista.

Mesmo quando se indica a escolha como adequação às

aptidões pessoais (à realização pessoal), essas aptidões

surgem atreladas à prática profissional: grande norteador

da conduta do aluno no curso. É em nome dessa prática

que o indivíduo busca o curso à procura de subsídios

teóricos para o aperfeiçoamento da prática que já exerce.

Embora a escolha pela profissão de administrador de

empresas seja feita porque esta parece propiciar um futuro

promissor, já que permite a realização de atividades em

diversas áreas, por outro lado essa diversidade vem

atrelada à difícil identificação das atribuições específicas

do administrador, o que acarreta uma certa confusão no

que se refere à identidade do profissional. O momento

do curso, quando se iniciam as disciplinas ou atividades

acadêmicas diretamente relacionadas com sua prática,

determina um marco na reflexão sobre a identidade

profissional.

A prática profissional não só é determinante do

interesse do aluno pelas diferentes disciplinas do curso

como também influencia a avaliação que o aluno faz dos

professores, da estrutura do curso,...

Existe uma contradição entre um curso genérico e

uma identidade profissional "especializada" que perdura

para além dos muros da instituição de ensino, pois as

organizações exigem profissionais generalistas e

especializados ao mesmo tempo.

Com relação ao corpo docente, tornou-se importante

conhecer seu perfil quanto à sua formação acadêmica e

profissional bem como suas representações a respeito

de sua inserção no curso e instituição. A fala do corpo

docente aponta como característica marcante da profissão

de administrador de empresas o caráter generalista, visto

que este é um profissional que transita por diversas áreas

dentro de uma organização e detém conhecimentos

básicos sobre cada uma delas. Esse caráter generalista da

profissão propicia um campo de trabalho diversificado e

ampliado. É comum entre os docentes a colocação de

que a graduação por si só não é suficiente, que há

necessidade de uma especialização em alguma das áreas

do campo da Administração, realizada ou no decorrer da

graduação ou como curso de extensão após a mesma.

Consideram que esta especialização, juntamente com a

prática profissional, é condição necessária para o exercício

5

A idéia, presente no discurso discente, de que uma formação superior estritamente voltada para o mercado de trabalho garantiria a inserção do profissional nos

melhores postos de trabalho pode ser questionada quando nos valemos de autores (Rifkin, 1995), que investigam a questão da empregabilidade, tendo em vista o

contexto atual de desemprego estrutural. Se, por um lado, é verdade que a possibilidade de empregabilidade tem relação com um profissional de formação sólida,

ampla e ao mesmo tempo especializada, que transite em diversas áreas, por diversos idiomas, etc., por outro lado, os melhores postos exigem um investimento

muito grande na formação que não se reduz nem à formação superior nem às técnicas aprendidas em cursos extra-curriculares de informática, línguas, etc.

Trata-se de um idéia presente no senso comum, que cumpre mais a função de alimentar toda uma indústria de certificados, do que realmente propiciar a passagem

para os almejados postos de trabalho mais privilegiados .

314 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):307-315, abr/jun, 2004


da profissão: apenas um curso de graduação não forma

um administrador de empresas.

A partir de reflexões a respeito do caráter generalista

do curso, o professor percebe como um de seus objetivos

principais o de auxiliar na ampliação e transformação da

visão que os alunos/profissionais possuem das atividades

que exercem em sua prática profissional, bem como

possibilitar a percepção pelo aluno de suas possibilidades

de atuar em áreas diferentes das que atuou até então.

Ampliar o interesse do aluno e propiciar um ensino

de qualidade requer atenção do professor a aspectos

como: relação professor-aluno; relação teoria-prática;

didática....

O fato de o aluno já trabalhar com atividades ditas

administrativas antes do ingresso na Instituição o leva à

compreensão de que o diploma de nível superior surja

como possibilidade de melhora de posição dentro da

organização e como atributo necessário à

empregabilidade.

A intensa preocupação com o mercado de trabalho

leva o aluno, de modo geral, a uma compreensão de que

a formação no ensino superior deve ter como objetivo

fundamental a formação para o mercado; mais do que

isso, as disciplinas oferecidas deveriam cumprir o papel

de responder às exigências do que os alunos supostamente

consideram que é o mercado de trabalho (questionado

por parcela do corpo docente).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Rev Rede Aval Inst Educ Sup 1997 set.; 2 (3): 5.

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REME – Rev. Min. Enf; 8(2):307-315, abr/jun, 2004 315


Prevalência de úlceras de...

PREVALÊNCIA DE ÚLCERAS DE PRESSÃO EM

PACIENTES CRÍTICOS INTERNADOS EM UM

HOSPITAL UNIVERSITÁRIO

PREVALENCE OF PRESSURE ULCERS IN CRITICAL PATIENTS

HOSPITALIZED IN A UNIVERSITY HOSPITAL

PREPONDERANCIA DE ÚLCERA DE DECÚBITO EN

PACIENTES GRAVES DE UN HOSPITAL UNIVERSITARIO

Marilda Carvalho de Sene Cardoso 1

Maria Helena Larcher Caliri 2

Vanderlei José Hass 3

RESUMO

Estudo retrospectivo realizado em um hospital universitário, após aprovação do comitê de ética, consistiu na revisão de

234 prontuários de pacientes que estiveram internados no Centro de Terapia Intensiva (CTI). A prevalência de úlcera de

pressão(UP) foi de 25,6% dos pacientes internados. Desses pacientes, 30,0% apresentaram a UP antes da admissão no

CTI, 55,0% durante a internação no CTI e 10,0% após sair do CTI. O teste do Qui-Quadrado identificou associação entre

UP e idade maior ou igual a 65 anos, maior tempo de hospitalização e saída do hospital por óbito. São feitas recomendações

para identificação dos pacientes que apresentam risco, a fim de que sejam implementadas medidas preventivas adequadas.

Palavras-chave: Úlcera de decúbito-Epidemiologia; Hospitais Universitários; Unidades de Terapia Intensiva

ABSTRACT

Retrospective study carried out at a university hospital after the approval by the Ethics Committee, reviewing the

records of 234 critical patients who had been hospitalized in the Critical Care Unit (CCU). On admission, 30% of the

patients presented pressure ulcers (PU), 55% had PU during hospitalization in the CCU and 10% after leaving the unit.

The chi-squared test identified an association between PU and age greater or equal to 65 years old, greater time of

hospitalization and leaving hospital through death. Recommendations are made for patients which present the risk for

the implementation of adequate preventive measures.

Key-Words: Decubitus Ulcer-Epidemiology; University Hospital; Intensive Care Units

RESUMEN

Estudio retrospectivo realizado en un hospital universitario. Después de la aprobación del Comité de Reglamentaciones

y Ética se revisaron los manuales de 234 pacientes graves internados en la Unidad de la Terapia Intensiva (UTI). La

preponderancia de úlcera por decúbito (UD) era del 25,6% del cual el 30% presentó UD antes ingresar en la UTI, el 55%

durante la internación en la UTI y el 10 después de dejar la UTI. El test del Qui Cuadrado identificó una asociación entre

UD/ edad igual o superior a los 65 años/ internación más prolongada y salida por muerte. Se recomienda identificar a los

pacientes de alto riesgo para a tomar las medidas preventivas adecuadas.

Palabras clave: úlcera por decúbito-epidemiología; hospitales universitarios; unidades de terapia intensiva

1

Enfermeira do Departamento de Saúde Pública da Secretaria de Municipal de Saúde de Uberaba, Mestranda da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-

Universidade de São Paulo – EERP-USP.

2

Enfermeira, Professora Livre-docente do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto –Universidade de

São Paulo- EERP-USP.

3

Estatístico, Professor Doutor (PRO-DOC/CAPES) do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto –

Universidade de São Paulo- EERP-USP.

Endereço para correspondência: Av. Santa Beatriz 1750, Apto 505 Ed. Trinidad - CEP 38050 000. Uberaba M.G. - E-mail: marildacardoso@netsite.com.br

316 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):316-320, abr/jun, 2004


INTRODUÇÃO

O risco de pacientes críticos apresentarem úlcera de

pressão (UP) durante a internação hospitalar é documentado

na literatura nacional e internacional.(1) São considerados

pacientes críticos aqueles que têm condições clínicas graves

ou necessidades de controles mais freqüentes e rigorosos,

associados a terapias de maior complexidade, de caráter

invasivo ou não. Nogueira(2) afirma que os pacientes críticos

são diferenciados dos demais doentes pela gravidade de suas

condições clínicas; logo, estão mais sujeitos a falências

orgânicas múltiplas, processos infecciosos, procedimentos

invasivos diversos, assistência mecânica respiratória e maior

necessidade de manipulação que favorecem complicações,

levando a uma maior permanência no hospital pela

necessidade de assistência especializada.

A úlcera de pressão é definida como qualquer lesão

causada por uma pressão não aliviada que resulta em danos

nos tecidos, sendo freqüentemente localizada na região

das proeminências ósseas. As úlceras de pressão são

classificadas em níveis de I a IV, de acordo com os danos

observados nos tecidos, considerando as suas estruturas,

podendo envolver a pele, tecidos subcutâneos, músculos,

cartilagem e até mesmo ossos.(3)

O desenvolvimento de úlceras de pressão em

pacientes hospitalizados tem sido apresentado como um

dos indicadores de qualidade da assistência prestada pela

equipe de enfermagem.(4) Assim, medidas têm sido

recomendadas para avaliar a incidência e prevalência do

problema, bem como a adesão às diretrizes preconizadas

internacionalmente para prevenção e tratamento.(5,6)

A prevalência de UP é medida pela freqüência de sua

ocorrência ou pelo seu coeficiente apresentado como

índice de pacientes com UP em determinada população

em um determinado tempo. Pode ser medida tendo como

referência a situação em determinado período de tempo

como ano, mês ou determinado dia.(7)

No Brasil, estudos de ocorrência de UP em pacientes

críticos são raros e consideraram somente a avaliação da

presença da UP enquanto o paciente está na UTI.(8)

Entretanto, esses pacientes, em função da gravidade e do

risco para UP, podem apresentar o problema desde a

admissão até a alta, o que justifica a realização desta pesquisa.

Nessa perspectiva, realizamos este estudo com o objetivo

de determinar a prevalência de UP nos pacientes críticos

hospitalizados em um hospital escola do Estado de Minas

Gerais, no ano de 2002; bem como identificar as características

das feridas e a associação entre algumas variáveis demográficas

e clínicas e a presença da úlcera de pressão.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo retrospectivo, descritivoexploratório

de natureza quantitativa. Foi desenvolvido

em um hospital universitário do Estado de Minas Gerais,

após aprovação pela Comissão de Regulamentação e

Normas Éticas da instituição.

Para a realização do estudo, foram consultados prontuários

com a história da evolução clínica dos pacientes internados

no CTI durante os meses de janeiro e dezembro de 2002.

Como não conhecemos estudos de prevalência de úlcera de

pressão durante o período de um ano no Brasil, foi estabelecido

o índice estimado de 50%, com uma probabilidade de erro

(alfa) de 5% e aplicada a correção correspondente a uma perda

de amostragem de 15%.(9) O tamanho da amostra resultante

foi 250 prontuários. Foi utilizado programa de computador

para a seleção aleatória dos prontuários que compuseram a

amostra, considerando o número do registro do mesmo. A

coleta dos dados foi feita utilizando-se um instrumento

desenvolvido e testado previamente. Os dados coletados

foram transferidos para uma planilha do Excel para análise

estatística descritiva e realização do teste Qui-Quadrado com

o nível de significância a=0,05. Foi utilizado o programa de

computador Statistical Package for Social Science – SPSS.

RESULTADOS

Dos 250 prontuários sorteados para a análise por

amostragem, considerando as 453 internações ocorridas,

foram localizados 234, os quais compuseram a amostra

da pesquisa. Sessenta pacientes apresentavam úlcera,

implicando um índice de prevalência de 25,6%. Pela revisão

dos prontuários, foi identificado que 2 (3,4%) pacientes

apresentavam UP quando foram admitidos no hospital,

19 (31,6%) apresentaram UP antes da admissão no CTI,

33 (55%) durante a internação no CTI e 6 (10%) após a

saída do CTI. A presença da UP foi identificada pelas

anotações de enfermagem. O termo usado com maior

freqüência para descrever a UP foi "escara". Foram

identificadas 98 úlceras com a média de 1,63 por paciente

sendo que 35 apresentaram 1, 13 apresentaram 2 , 11

apresentaram 3 e 1 apresentou 4 UP. A maior parte das

úlceras estava localizada na metade inferior do corpo,

com destaque para a região sacrococcigeana, glúteos,

trocânter do fêmur e calcâneos. A documentação no

prontuário foi realizada com maior freqüência por técnicos

de enfermagem em 19 prontuários (31,66%), por técnicos

e auxiliares de enfermagem em 18 (30%), pelos auxiliares

em 13 (21,66%), por enfermeiro, técnico e auxiliar em 6

(10%), por graduandos de enfermagem em 3 prontuários

(5%) e somente pela enfermeira em 1 (1,66%).

Na tabela 1, é apresentada a distribuição dos pacientes

considerando as características demográficas e clínicas,

a presença de UP e os resultados dos testes estatísticos.

A maior parte dos pacientes era do sexo masculino

(61,5%) e de cor branca (65,4%); entretanto, a UP ocorreu

de forma homogênea entre os grupos. Apresentaram idade

média de 53,76 anos (DP 18,01) com a maior parte com

menos de 65 anos. A idade média dos pacientes sem UP foi

51,34 anos (DP17,82) e dos pacientes com UP 60,78 anos

tendo-se encontrado associação entre a UP e o ser idoso.

Considerando o tempo total de hospitalização, a média

foi de 21,17 dias (DP 19,67), com o mínimo de 0 e o máximo

de 170 dias. Para os pacientes sem UP, o tempo médio foi

de 18,70 dias (DP19,35) e para os pacientes com UP 30,90

dias (DP26,65). Foi identificado que quanto maior o tempo

de hospitalização, maior a proporção de pacientes com

UP, sendo as diferenças estatisticamente significantes.

No CTI a média de permanência foi de 8,62 dias (DP

14,78) com o mínimo de 0 e o máximo de 168 dias. Para

os pacientes sem UP a média foi de 6,06 dias (DP 8,96) e

para os pacientes com UP a média foi de 9 dias (DP23,40),

sendo as diferenças estatisticamente significantes.

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):316-320, abr/jun, 2004 317


Prevalência de úlceras de...

Tabela 1- Distribuição dos pacientes segundo a presença e ausência de U.P. e

variáveis clínicas e demográficas. Uberaba, 2003

Variáveis

Úlcera de Pressão

Não Sim Total c_ P

f (%) f (%) f (%)

Sexo

Masculino 110 (76,4) 34 (23,6) 144 (61,5) 0,368 0,442

Feminino 64 (71,1) 26 (28,9) 90 (38,5)

Cor

Branca 110 (71,9) 43 (28,1) 153 (65,4) 0,272 0,152

Não Branca 64 (79,0) 17 (21,0) 81 (34,6)

Faixa etária

£ 64 anos 126 (79,7) 32 (20,3) 158 (67,5)

≥ 65 anos 48 (63,2) 28 (36,8) 76 (32,5) 0,010 0,006*

Tempo total de internação

£ 14 dias 91 (82,0) 20 (18,0) 111 (47,4) 0,000 0,001*

15 – 29 dias 54 (78,3) 15 (21,7) 69 (29,5)

> 30 dias 29 (53,7) 25 (41,7) 54 (23,1)

Tempo de permanência no CTI

£ 14 dias 164 (79,6) 42 (20,4) 206 (88,0) 0,000 0,000*

15 – 29 dias 6 (40,0) 9 (60,0) 15 (6,4)

> 30 dias 4 (30,8) 9 (69,2) 13 (5,6)

Tipo de saída (Hospital)

Óbito 66 (62,9) 39 (37,1) 105 (44,9) 0,000 0,000*

Sobreviventes 108 (83,7) 21 (16,3) 129 (55,1)

* Diferenças estatisticamente significantes.

Quanto ao tipo de saída do hospital, observa-se que

129 (55,1%) saíram por alta hospitalar e 105 (44,9%) por

óbito. No grupo de pacientes com UP, foi observado

maior freqüência de saída por óbito, sendo as diferenças

estatisticamente significantes entre os grupos.

Quanto ao diagnóstico principal no momento da

internação, observamos a presença de 12 categorias,

considerando a Classificação Internacional das Doenças

(CID-10). A maior parte dos pacientes (37,6%) apresentava

doenças do aparelho circulatório, incluindo hipertensão

arterial e infarto. Este também foi o diagnóstico secundário

mais freqüente (25,2%) nos pacientes da amostra deste

estudo. O segundo diagnóstico principal mais freqüente

foi a lesão por causas externas, que inclui os traumatismos,

lesões, queimaduras e envenenamento.

DISCUSSÃO

A úlcera de pressão é considerada um problema sério

tanto para os pacientes como para os hospitais, pois pode

causar dor, desconforto e sofrimento, além do aumento

da morbidade e mortalidade elevando os custos do

tratamento; assim, o investimento na prevenção é

primordial.(1) O levantamento da prevalência na instituição

constitui o primeiro passo para caracterizar a situação. A

prevalência encontrada neste estudo foi de 25,6% com a

maior ocorrência das UP durante a internação no CTI.

Rogenski(8), em estudo de prevalência pontual

realizado em um único dia, a partir da inspeção da pele

de todos os pacientes internados nas clínicas cirúrgicas,

médicas, UTI e semi-intensiva de um hospital universitário

geral em São Paulo, identificou o índice geral de (18,63%)

com uma média de 2,84 úlceras por paciente.

Considerando somente os pacientes hospitalizados na

Unidade de Terapia Intensiva, a prevalência foi de 66,67%.

Ao comparar os índices de prevalência obtidos nas

diferentes unidades, a diferença entre a UTI e as outras

unidades foi estatisticamente significante (p < 0,001),

indicando que os pacientes de terapia intensiva tinham

mais úlceras do que pacientes com menor gravidade

internados em outras unidades da instituição.

Para Williams (10) a prevalência da úlcera de pressão

em situações de cuidado crítico nos Estados Unidos varia

de 1,4% a 36,4%, o que representa aproximadamente 1,6

milhões de pacientes, e um custo anual de 2,2 a 3,6 bilhões

de dólares para o sistema de saúde.

Também no Reino Unido e em outros países da Europa

as estatísticas indicam que o gasto com o tratamento da

úlcera de pressão consome um elevado valor financeiro e

esforços têm sido feitos para uma melhor identificação do

problema visando a sua redução.(11, 12)

Os pacientes críticos hospitalizados, antes de serem

admitidos no CTI, podem permanecer internados em outras

unidades e desenvolverem UP. Entretanto estes casos não

são considerados em estudos de incidência que incluem

318 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):316-320, abr/jun, 2004


somente as novas ocorrências durante a permanência do

paciente no CTI. Neste estudo, considerando a

documentação nos prontuários, pudemos identificar o

momento de detecção da UP no processo de hospitalização

e concluir que, desde a admissão até após a alta do CTI, a

úlcera pode ser diagnosticada. Esta observação sugere que

o problema pode persistir mesmo após a alta do paciente,

trazendo implicações quanto à manutenção de intervenções

preventivas e à realização de terapias adequadas para o

tratamento tanto no hospital quanto no domicílio. Os

resultados encontrados remetem também a indagações sobre

a qualidade da assistência prestada durante a hospitalização

pela equipe de saúde no que se refere à implementação da

prevenção e ao tratamento precoce da UP.

A maior parte das úlceras foi descrita como "escaras"

nos prontuários, um termo não adequado para ser utilizado

como sinônimo de UP. A utilização desta denominação é

comum tanto pelos profissionais como por leigos no Brasil,

porém esforços precisam ser feitos para utilização e

padronização do uso da nomenclatura adequada conforme

a proposta das diretrizes internacionais.(13)

A manutenção do paciente crítico em repouso na posição

dorsal e com a cabeceira elevada em ângulo maior que 30º

fornece as condições para o excesso de pressão nas regiões

de proeminências ósseas na metade inferior do corpo,

principalmente na região da bacia ou pelve (sacrococcigeana,

glúteos) e nos calcâneos, o que observamos neste estudo.

Entretanto as úlceras também podem ocorrer nos cotovelos,

escápulas e processo espinhoso da coluna.

Outros autores (8, 14, 15), em estudos de incidência de

UP em pacientes de terapia intensiva, também identificaram

estas regiões como tendo elevada freqüência de ocorrência.

A identificação dos membros da equipe de

enfermagem que realizaram as anotações no prontuário

da presença da UP indica que os técnicos e auxiliares de

enfermagem são os que, na maior parte das vezes,

implementam as intervenções de enfermagem, e precisam

ser preparados adequadamente para isto tanto no ensino

básico quanto nos programas de Educação Continuada.

Quanto à caracterização demográfica e clínica dos

pacientes, a observação de maior porcentagem de

indivíduos do sexo masculino com menos de 65 anos pode

ser atribuída aos diagnósticos principais que levaram à

internação: doenças do aparelho circulatório e lesão por

causa externa. As doenças cardiovasculares (DCV) que

incluem a hipertensão arterial, são de elevada prevalência

nessa faixa etária na população brasileira, assim como os

traumas decorrentes principalmente da violência urbana.

As DCV e do aparelho respiratório foram citadas como

as causas de maior prevalência para admissão em UTIs

brasileiras, em um censo realizado pela Associação de

Medicina Intensiva Brasileira (16), correspondendo a

25,9% e 22,9% das internações, respectivamente.

Foi identificado em um estudo multicêntrico em CTIs

no Brasil que 62% das admissões são de pacientes do

sexo masculino e que nos Estados Unidos esses pacientes

representam 55% das internações.(16)

A associação entre idade igual ou maior que 65 anos e

presença de UP encontrada neste estudo também foi referida

por outros autores em pesquisas com pacientes de CTI em

hospitais universitários no Brasil.(8,14) O fator idade é

considerado um indicador de risco para UP na literatura

internacional em pacientes com mais de 65 anos.(3) O aumento

do risco pode ser decorrência das mudanças das características

da pele e tecido subcutâneo do idoso, assim como do aumento

de doenças cardiovasculares que ocasionam alterações

circulatórias e no nível de consciência.(17)

Neste estudo, tanto a maior permanência no CTI como

um maior período total de hospitalização apresentaram

associação com a presença de UP, estatisticamente

significante, corroborando os achados de outros autores.

Williams et al. (10), ao compararem um grupo de pacientes

críticos admitidos com UP com outro sem UP, identificaram

que o primeiro era mais idoso, o período de hospitalização

foi maior, tinham pior estado nutricional, e pior perfusão de

oxigênio. A presença de UP associada com um período maior

de hospitalização tem sido relatada na literatura. Sabe-se

que o desenvolvimento da UP é um produto do "tempo" e

"intensidade da pressão" combinado com outros fatores

extrínsecos e intrínsecos, onde pressões de baixa intensidade

por longo período de tempo podem causar tantos danos

nos tecidos quanto as pressões de elevada intensidade por

um curto período.(18) A presença de uma doença

prolongada que exige repouso do paciente por longo período

de tempo deve ser um evento sinalizador para que medidas

para alívio da pressão sejam utilizadas, como freqüentes

mudanças de decúbito, uso de colchões e almofadas especiais

e cuidados para manter a pele limpa, seca e hidratada.(2)

Silva(16), investigando as ocorrências iatrogênicas em 2

Unidades de Terapia Intensiva em um município de São Paulo

e seu impacto em alguns indicadores hospitalares e do

paciente, identificou que os pacientes vítimas de iatrogenias

(entre estas a autora incluiu a presença de UP) tiveram um

maior tempo de permanência (média 24,41 dias) que aqueles

considerados não vítimas (média de 6,66 dias), com diferença

estatisticamente significante entre os dois grupos.

O uso de uma escala que identifique os fatores de risco

individuais para cada paciente, independentemente do

diagnóstico ou tipo de patologia, pode contribuir para a

identificação das limitações presentes em diferentes grupos

de pacientes.(3) A escala de Braden é a que tem sido mais

extensivamente estudada em diferentes países e foi validada

para o português.(19) Recomenda-se que a avaliação dos

pacientes críticos seja feita na admissão e pelo menos a

cada 48 horas ou sempre que as condições do paciente se

modificarem.(20) Nos estudos de incidência de UP em

pacientes de terapia intensiva realizados no Brasil, baixos

escores na Escala de Braden estavam associados a presença

de UP (19,8,14) com boa validade preditiva. As diretrizes

internacionais recomendam a utilização da escala para

auxiliar o profissional a identificar os pacientes que

apresentam o risco para UP já na admissão e para nortear

a seleção das medidas preventivas.(3,20)

Neste estudo foi identificada a taxa de mortalidade de

36,8% durante a hospitalização no CTI e 44,9% incluindo o

tempo total de hospitalização e a presença de associação entre

UP e saída do hospital por óbito. Relata-se que as taxas de

mortalidade de pacientes hospitalizados em unidade de terapia

intensiva no Brasil são em torno de 30% a 35%, devido à

gravidade dos pacientes, antecedentes mórbidos e idade.(16)

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):316-320, abr/jun, 2004 319


Prevalência de úlceras de...

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Carlson et al. (21) destacaram que pacientes críticos são

mais vulneráveis ao desenvolvimento da UP, principalmente

na fase inicial da internação no CTI, um momento no qual as

atividades de monitoração do risco e da integridade da pele

competem com as atividades para a avaliação de mudanças

no estado do sistema cardiorrespiratório, neurológico e renal.

Assim, embora as intervenções para reduzir o

desenvolvimento da úlcera sejam de baixa tecnologia e

facilmente disponíveis, despertar a atenção dos enfermeiros

para que a implementação seja feita não tem sido fácil. Neste

estudo foi identificada a ocorrência da UP em diferentes

momentos do processo de internação do paciente crítico, e

durante a permanência no CTI a freqüência foi mais elevada.

Pelas anotações de enfermagem referentes à UP, observouse

que os técnicos e auxiliares de enfermagem são os

membros da equipe que prestam a assistência, assim,

estratégias precisam ser adotadas na instituição para que as

recomendações internacionais sejam implementadas pela

equipe para garantir uma assistência de qualidade. As barreiras

para a implementação podem estar associadas às

características dos profissionais como valores, habilidades e

conhecimento assim como às características da instituição.(22)

Dentre as recomendações existentes para a prevenção

da UP, destaca-se que cabe às instituições de saúde,

administradores e aos enfermeiros:

• elaborar e implementar Programas de Prevenção

direcionados para profissionais, pacientes, familiares e/

ou cuidadores informais;

• elaborar e implementar Programas de Melhoria de

Qualidade que incluam a UP como indicador negativo;

• realizar estudos de prevalência e incidência para

monitorar os índices da UP e avaliar a eficácia dos

Programas de Prevenção;

• ter enfermeiros especialistas em feridas, responsáveis

pela construção de protocolos de assistência para

avaliação e identificação dos pacientes em risco assim

como para nortear a escolha das intervenções preventivas

e curativas adequadas;

• utilizar a Escala de Braden ou de Norton como

instrumentos de avaliação de risco;

• capacitar os profissionais nos Programas de Educação

Continuada para identificar, descrever e documentar a

UP segundo a classificação em estágios de I a IV;

• fornecer materiais e equipamentos necessários para

a prevenção da UP.

Estas recomendações são baseadas em evidências

científicas ou em consenso entre especialistas e devem

ser a base para uma prática de qualidade. O desafio atual

é a implementação dessas evidências na prática.

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320 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):316-320, abr/jun, 2004


A VULNERABILIDADE AOS ACIDENTES ENTRE

OS IDOSOS MORADORES DA FUNDAÇÃO ESPÍRITA

JOÃO DE FREITAS DE JUIZ DE FORA, MINAS GERAIS 1

VULNERABILITY TO ACCIDENTS OF THE

ELDERLY INMATES OF THE

JOÃO DE FREITAS SPIRITIST FOUNDATION, IN JUIZ DE FORA, MINAS GERAIS

Relatos de

Experiência

LA VULNERABILIDAD PARA ACCIDENTES ENTRE

ANCIANOS QUE VIVEN EN LA FUNDACIÓN ESPÍRITA

JOÃO DE FREITAS DE JUIZ DE FORA, MINAS GERAIS

Heloisa Campos Paschoalin 1

Renata Antonáccio 2

Vânia Maria Freitas Bara 3

Girlene Alves da Silva 4

Helisamara Mota Guedes 5

RESUMO

Trata-se de um estudo exploratório e descritivo sobre as circunstâncias e os fatores ambientais que tornam o idoso

asilar vulnerável aos acidentes. O trabalho tem como objetivos: identificar os fatores de riscos a acidentes presentes no

ambiente domiciliar e elaborar proposta educativa aos idosos e à Instituição. Foram encontrados diversos fatores que

predispõem esta população a acidentes, e as quedas prevaleceram, entre outros. Esses fatores estão relacionados ao

próprio ambiente cuja estrutura necessita de medidas administrativas para que as conseqüências possam ser minimizadas

ou extintas. Realizaram-se atividades educativas coletivas, como: ciclo de palestras, vídeos educativos, cartazes e orientações

individuais.

Palavras-chave: Idoso; Acidentes; Fatores de Rico; Asilo para Idosos

ABSTRACT

This is an exploratory and descriptive study on the circumstances and environmental factors that make the elderly

inmates vulnerable to accidents. The objectives are: to identify the risk factors present in the asylum environment and to

prepare an education proposal for the elderly and for the institution. Several factors were found which predispose these

inmates to accidents. Falls were the most significant. These factors are related to the environment itself, which needs

alterations to minimize or eliminate the consequences of accidents. Several collective education activities were carried

out, such as: lectures, educational videos, posters and individual guidance.

Key words: Aged; Accidents; Risk Factors; Homes for the Elderly

RESUMEN

Estudio exploratorio y descriptivo que trata de las circunstancias y de los factores ambientales que hacen que los ancianos

que viven en un asilo sean vulnerables a accidentes. Los objetivos de este trabajo son: identificar los factores de riesgo de

accidentes presentes en el ambiente domiciliario del asilo y elaborar una propuesta educativa para los ancianos y la

institución. Se encontraron varios factores que predisponen esta población a accidentes preponderando, entre otros, los

incidentes por caídas. Tales factores se relacionan con el propio ambiente cuya estructura necesita medidas administrativas

para poder disminuir o eliminar las consecuencias. Se realizaron actividades educativas colectivas como: ciclo de charlas,

deos educativos, carteles y orientación individual.

Palabras clave: anciano; accidentes; factores de riesgo; hogares para ancianos

1

O trabalho faz parte das atividades do projeto de extensão: "A Participação da Faculdade de Enfermagem na Promoção da Saúde do Idoso em uma Instituição

Asilar de Juiz de Fora", da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF.

2

Enfermeira; Profª. Assistente I - Mestre em Enfermagem - Faculdade de Enfermagem da UFJF. Coordenadora do projeto de extensão.

3

Enfermeira; Profª. Assistente I - Mestre em Enfermagem - Faculdade de Enfermagem da UFJF. Coordenadora do projeto de extensão.

4

Enfermeira; Profª. Assistente II - Mestre em Enfermagem - Faculdade de Enfermagem / Chefe do Departamento de Enfermagem Aplicada da UFJF.

5

Enfermeira; Profª. Adjunto I - Doutora em Enfermagem - Faculdade de Enfermagem da UFJF.

Acadêmica da Faculdade de Enfermagem - 8º período - Bolsista de Extensão da Faculdade de Enfermagem da UFJF.

Endereço para correspondência: Rua Bororó 16, Bairro Guaruá – Juiz de Fora – MG. - E-mail: sissi@enfermagem.ufjf.br

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):321-325, abr/jun, 2004 321


A vulnerabilidade aos acidentes...

I - INTRODUÇÃO

Neste início de século, "o Brasil passa por um processo

de envelhecimento populacional rápido e intenso, onde

o grande desafio do século XXI será o cuidar de uma

população de 32 milhões de idosos, a maioria com baixo

nível socioeconômico e educacional, associado a uma alta

prevalência de doenças crônicas e incapacitantes".(1)

O processo de transição demográfica ocorrida na

população idosa brasileira tem sido uma questão de saúde

pública. O País deixa de ser essencialmente jovem e passa

a amadurecer. Essa mudança de perfil é caracterizada pela

redução da mortalidade em geral, especialmente a infantil,

diminuição das taxas de fecundidade e aumento das taxas

de sobrevida ou expectativa de vida.(2)

Segundo as projeções estatísticas da Organização

Mundial de Saúde – OMS (3), entre os anos de 1950 e

2025, a população de idosos no país crescerá 16

(dezesseis) vezes contra 5(cinco) vezes da população total,

o que colocará o Brasil como a sexta população de idosos

do mundo, com mais de 32 milhões de pessoas com 60

anos ou mais".

Diante dessa nova realidade, Camarano(4) e

Paschoal(5) ressaltam a importância de associar a

qualidade de vida à longevidade, que garante aos idosos

autonomia, independência e boa saúde física, para

desenvolverem papéis sociais e permanecerem ainda

ativos no dia-a-dia.

Dentre as ações de prevenção de agravos à saúde

dos idosos, destaca-se a necessidade de se investir na

prevenção de acidentes, principalmente das quedas, que

ocorrem com freqüência na velhice, limitando a capacidade

física e funcional dessas pessoas e reduzindo

substancialmente a qualidade e, até mesmo, o tempo de

vida, cujas causas são a morbidade e a mortalidade.

Parafraseando Bodachne(6) , um determinante

fundamental da qualidade de vida do idoso é a sua

capacidade de deambular. Dificuldades de marcha, queda

e receio de andar causam significativa incapacidade ao

idoso.

Da mesma forma, Araújo(7) define queda como uma

precipitação ao solo, repentina, involuntária e inesperada

e lembra ainda que as alterações posturais próprias do

envelhecimento podem facilitar as quedas e que os

acidentes mais comuns poderiam ser evitados se fossem

observados alguns cuidados em relação ao ambiente,

orientações à família e cuidadores, aliadas às ações de

profissionais que objetivassem o treinamento da marcha

e fortalecimento muscular.

A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia

(SBGG)(8) revela que, pelo menos 30% dos idosos

brasileiros caem ao menos uma vez ao ano e que essas

quedas têm relação causal com 12% de todos os óbitos

na população geriátrica e são responsáveis por 70% das

mortes acidentais em pessoas com 75 anos ou mais. A

queda constitui, de acordo com a pesquisa, a sexta causa

de óbitos em pacientes com mais de 65 anos em todo o

mundo.

Mais de 70% das quedas sofridas por idosos ocorrem

em casa, segundo apuração da pesquisa da SBGG, sendo

que a maior freqüência é entre mulheres. Pelo menos 5%

das quedas resultam em fraturas e 10% em ferimentos

importantes que necessitam de cuidados médicos. Entre

os que são hospitalizados em decorrência de uma queda,

o risco de morte no ano seguinte ao internamento é de

até 50%.

Sabemos que, além dos fatores citados, outros

contribuem de forma substancial para a queda do idoso:

alterações fisiológicas do processo de envelhecimento,

doenças, efeitos provocados pelo uso de alguns

medicamentos e o meio-ambiente inadequado às suas

condições físicas.

O risco de quedas está relacionado com o aumento

do grau de dificuldade na execução de tarefas físicas do

dia-a-dia e reflete o peso do efeito cumulativo de prejuízos

funcionais na predição de quedas em idosos. Quando há

comprometimento, as atividades físicas significam não

somente prejuízo no equilíbrio em si, que seria o fator

primordial no comprometimento das suas atividades,

como também nas limitações da força muscular, da

mobilidade e da marcha.

Diante disso, com um Projeto de Extensão da

Faculdade de Enfermagem da UFJF desenvolvido na

Fundação Espírita João de Freitas (FEJOF), uma instituição

asilar na cidade de Juiz de Fora – MG, decidiu-se realizar

um estudo com o objetivo de identificar os fatores de

risco para acidentes e, especificamente, para as quedas.

A escolha desse tipo de acidente ocorreu devido ao

fato de ser o que mais predomina entre os residentes da

Instituição, trazendo comprometimento à qualidade de

vida. Foram também considerados os fatores inerentes

ao processo de envelhecimento. Partindo da observação

desses fatores, elaboraram-se propostas educativas para

os idosos e para a instituição com o objetivo de prevenir

tais acidentes.

Considerando este novo contexto, concordamos com

Duarte(9) quando afirma que cabe aos enfermeiros o

compromisso de prestar uma assistência de qualidade,

por meio do desenvolvimento de ações adequadas, o mais

precocemente possível, para que as pessoas envelheçam

preservando a sua capacidade funcional.

2 - A ABORDAGEM METODOLÓGICA

Nesta investigação de caráter exploratório e

descritivo, com análise qualitativa dos dados coletados,

fizeram parte deste estudo 75 idosos, residentes na FEJOF

com idade entre 60 e 97 anos, dos quais 54 eram do sexo

feminino e 21 do sexo masculino.

A referida instituição, destinada a abrigar idosos de

ambos os sexos, localiza-se em um bairro de classe média.

Os residentes são admitidos mediante uma avaliação da

equipe multiprofissional da Instituição, constituída de

enfermeira, médico, assistente social e psicóloga.

No que se refere à área física, é constituída de

41(quarenta e uma) residências: 20 (vinte) casas e 21 (vinte

e um) apartamentos, onde vivem os idosos que são

capazes de gerir seu autocuidado. A esses idosos é

permitido ter seu mobiliário, eletrodomésticos e objetos

pessoais. A instituição conta ainda com uma enfermaria

com capacidade para 36 (trinta e seis) leitos, estando na

ocasião do estudo com 17 (dezessete) deles ocupados. A

322 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):321-325, abr/jun, 2004


enfermaria é destinada à permanência temporária ou

definitiva dos idosos que se encontram impossibilitados

de viverem em suas residências, necessitando de uma

assistência mais efetiva.

A coleta de dados teve início mediante o aceite dos

participantes, após a explanação dos objetivos da pesquisa

e da garantia do sigilo e do anonimato. Destaca-se que

foi obtida da direção a autorização para a divulgação dos

resultados e identificação da Instituição.

Os dados obtidos ocorreram no período de junho a

setembro de 2003, mediante uma busca ativa em todas

as casas, apartamentos e enfermaria, cujo objetivo era

identificar os fatores que pudessem configurar como

sendo de risco para acidentes entre os idosos. Após a

coleta dos dados, foi realizada a categorização dos fatores

de risco, quando foi possível ordenar os dados

encontrados, permitindo, assim, uma melhor visualização

da situação pesquisada.

3 - DISCUTINDO OS RESULTADOS DO

ESTUDO

No primeiro momento da análise, foi feita uma

apresentação de todas as situações encontradas, que têm

relação direta com os acidentes que colocam os idosos

em situação vulnerável.

Os dados mostram que, dos 15 (quinze) fatores

identificados como sendo de risco, 8 (oito) estão

relacionados a circunstâncias e fatores ambientais que

colocam o idoso vulnerável às quedas.

Dos 62 (sessenta e dois) ambientes pesquisados, todos

apresentavam algum tipo de fator de risco. A presença

de tapetes prevaleceu em 17 (dezessete) residências,

eqüivalendo a 27,41% delas. Vale ressaltar que tal fato

por si só já é algo bastante significativo e este risco

aumenta quando associado à presença de piso encerado

ou escorregadio.

Embora a arquitetura permita uma boa distribuição

dos móveis e utensílios necessários para a gestão cotidiana,

foram identificados que, em 10 (dez) residências (16,12%),

os móveis encontram-se dispostos de maneira inadequada,

dificultado a movimentação, o que coloca em risco a

segurança do idoso. Essa situação faz com que a pessoa

recorra à utilização de extensão elétrica, deixando o fio

atravessado pelo ambiente. Associado a esses fatores,

observa-se ainda o excesso de alguns móveis e utensílios

em relação ao tamanho dos ambientes nos quais vivem.

De acordo com a orientação da Instituição, a existência

de eletrodomésticos, do fogão e/ou do fogareiro nas

residências é desaconselhada por representar diversos

riscos à vida dessa população. No entanto, das 16

(dezesseis) residências (25,80%) nas quais identificou-se

a presença de eletrodomésticos, em 9 (nove) (14,51%)

delas havia fogão ou fogareiro.

Sabe-se que a iluminação do ambiente é fundamental

para a segurança de qualquer pessoa, no entanto verificouse

uma iluminação inadequada em 4 (quatro) (6,45%)

residências, o que representa um fator importante de

risco para os idosos: 1 (uma) (1,61%) residência não

possuía lâmpada em um dos cômodos; 3 (três) (4,83%)

apresentaram uma iluminação com pouca visibilidade;

100% das residências não possuíam interruptor próximo

à cama sendo que, de acordo com a Portaria 810, de 22/

09/89 do Ministério da Saúde(10) é obrigatória a instalação

de luz de vigília nos dormitórios, banheiros, área de

circulação, no primeiro e último degraus da escada da

moradia de idosos.

Também despertou a atenção a presença de degrau

na porta de entrada de duas residências (3,22 %); noutro

domicílio (1,61 %), a altura da cama põe em risco a

integridade física da pessoa. Embora essas situações de

risco não estejam em todos os ambientes investigados,

vale considerar que estes necessitam de uma reavaliação,

mesmo porque os moradores transitam livremente por

todos os ambientes da Instituição.

Outro aspecto relevante identificado foi o

acondicionamento do material de limpeza junto aos

alimentos. Em alguns casos, essas substâncias são

guardadas dentro do quarto, situação que, por si só, já

representa riscos para a saúde e se vê agravada, uma vez

que a ventilação do local não é adequadamente

aproveitada, porque permanecem fechadas as janelas na

maior parte do dia.

Tem-se ciência de que, com as alterações decorrentes

do processo de envelhecimento no que diz respeito aos

órgãos dos sentidos, tal fato pode favorecer a ingestão

acidental de substâncias químicas e, até mesmo, a inalação

de produtos tóxicos durante o sono.

De acordo com Waldow(11), na velhice ocorre

diminuição progressiva da audição e visão e, por volta

dos 70 anos, é mais acentuada a alteração do paladar, do

olfato e, em alguns casos, do tato causado por

degeneração das terminações nervosas.

Foram identificados também alguns fatores de risco

para incêndio e queimaduras (9,68 %) decorrentes da

utilização de velas e do hábito de fumar dentro das

residências.

Diante desses dados, os resultados foram organizados

com o objetivo de analisar as circunstâncias que podem

gerar as quedas, tomando ainda como base para essa

categorização o ambiente domiciliar e as enfermarias da

instituição. A categoria de análise foi assim nomeada:

situações que deixam o idoso vulnerável à queda.

SITUAÇÕES QUE TORNAM O IDOSO

VULNERÁVEL A QUEDA

Foram analisados os dados que tratam das situações

de vulnerabilidade identificados tanto no âmbito das

residências quanto no das enfermarias.

A queda é definida como um evento não esperado; a

pessoa cai ao chão de um mesmo nível ou de um nível

superior, e esta é uma situação comum entre os idosos,

uma vez que, em sua grande maioria, as quedas são

interpretadas como um acontecimento inevitável do

envelhecimento.(2)

É notório que a queda pode ser considerada um ponto

de referência para um alerta sobre algumas modificações

na vida de um idoso: início de um declínio de suas funções

ou indícios de alguma patologia.

A freqüência com que o idoso está exposto às quedas

aumenta significativamente com o avanço da idade como

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):321-325, abr/jun, 2004 323


A vulnerabilidade aos acidentes...

demonstram os dados epidemiológicos: 32% entre 65 a

74 anos, 51% acima de 85 anos.(8)

Os fatores de risco a quedas encontrados nas

residências foram a presença de tapetes associada a pisos

escorregadios e/ou encerados, o excesso e a distribuição

inadequada dos móveis, a pouca e/ou a falta de iluminação,

a presença de degraus, cama de altura inapropriada para

a idade e a inexistência de grades em alguns leitos.

No que se refere à enfermaria, situações identificadas

como sendo de risco foram: ausência de grades nas camas,

camas com altura não compatível com a habilidade do

idoso, leitos muito próximos e em número excessivo,

ausência de escadinha junto aos leitos e de cadeiras para

o banho e rodas em mal estado de conservação.

A ausência de grades estava presente em 16 (dezesseis)

leitos, num total de 36 (trinta e seis). Cabe esclarecer

que em uma enfermaria feminina, dos 15 (quinze) leitos

existentes e utilizados, somente 3 (três) dispõem de

grades, e os demais leitos que dispõem delas apresentam

uma altura acima do recomendado. A falta da grade no

leito pode interferir de forma significativa na segurança

do idoso. Tal fator ganha uma maior relevância quando

associado a outro aspecto também identificado: leitos com

a altura acima da recomendada. De acordo com Santos

(2), a altura da cama, de 55 a 65 centímetros deve permitir

à pessoa idosa sentar-se e levantar-se do colchão.

A disposição dos leitos muito próximos aumenta

significativamente o risco a quedas, na medida em que

pode dificultar a locomoção e a movimentação do idoso

no ambiente. Essa proximidade, quando associada ao

excesso de leitos favorece ainda mais os riscos, e esse

fato torna-se preocupante, visto que na enfermaria

feminina, regularmente ocupada em sua totalidade a

distância entre os mesmos é inferior ao recomendado

pela Portaria n. 810, de 22/09/89 do Ministério da

Saúde(10) a qual dispõe que "a distância mínima entre

dois leitos paralelos deve ser de 1,0 m e de 1,50m entre

um leito e outro fronteiriço. Recomenda-se que a distância

mínima entre o leito e a parede que lhe seja paralela deva

ser de 0,50 m". Averiguou-se que a distância entre os

leitos varia de 30 a 82 cm e ainda deve-se considerar que

4(quatro) leitos estão encostados na parede sem nenhuma

distância.

A escada para cada leito é imprescindível para o acesso

e saída com segurança de qualquer indivíduo de um leito

hospitalar, mas a Instituição disponibiliza somente 7 (sete)

escadas para os 36 (trinta e seis) leitos. O número

insuficiente delas, portanto, aumenta substancialmente o

risco de quedas, principalmente ao considerar que as

pessoas que ali residem são idosas e que, pelo próprio

processo de envelhecimento, podem apresentar

alterações músculo-esqueléticas que vão interferir no

equilíbrio.

No que diz respeito às cadeiras de rodas e para banho,

que são utensílios freqüentemente utilizados durante o

processo de cuidados ao idoso, das 14 (quatorze)

existentes na instituição, 14,28 % (duas) apresentavam

problemas como rodas vazias e emperradas, dificultando

a locomoção. É oportuno salientar que esse fator pode

ocasionar a queda no momento do transporte, uma vez

que obriga os profissionais de saúde a despenderem uma

força maior, ocasionando movimentação brusca,

interferindo diretamente na segurança do idoso.

As quedas, muitas vezes, ocasionam a hospitalização

do idoso, retirando-o de seu ambiente e dificultando ou

impedindo a realização das suas atividades diárias, e tais

situações repercutem nas suas relações interpessoais,

gerando estresse e comprometendo o bem-estar físico e

mental do idoso.

4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante dos resultados obtidos neste estudo, foi

possível identificar que muitos são os fatores de acidentes

no ambiente doméstico dos idosos residentes na FEJOF.

Durante a coleta e análise dos dados, deu-se uma

maior ênfase aos fatores e situações que provocavam as

quedas, uma vez que tem sido um dos acidentes mais

freqüentes na Instituição e que traz na maioria das vezes,

desastrosas conseqüências para os idosos.

Constatou-se que boa parte dos fatores de

vulnerabilidade ali existentes está relacionada ao próprio

ambiente e estrutura os quais necessitam de medidas

administrativas para que os acidentes possam ser

minimizados ou até mesmo extintos.

Alterações ambientais aparentemente banais podem

favorecer a locomoção dos idosos, trazendo maior

segurança e diminuindo substancialmente as quedas. Entre

algumas delas, podem ser citadas: a colocação de grades

nos leitos, disponibilização de escadinha próximo a cada

leito hospitalar, manutenção e preservação do estado de

conservação das cadeiras de rodas.

Julgamos ainda necessário o cumprimento da legislação

vigente, no que estabelece a Portaria n. 810, de 22/09/89

do Ministério da Saúde(10) que trata das normas para

funcionamento de casas de repouso, clínicas geriátricas e

outras instituições de atendimento ao idoso. É certo que

a adoção de tais medidas irá favorecer a melhoria da

qualidade de vida dos idosos, já que proporcionará um

ambiente seguro e adequado às suas condições de saúde.

Além disso, cabe ressaltar também a necessidade de

acompanhamento constante de uma equipe

multidisciplinar atuante e integrada, com o olhar voltado

aos cuidados específicos. Diante disso, os cuidadores

devem ser qualificados e conhecedores do processo de

envelhecimento, visando à prevenção, à promoção, à

recuperação e à reabilitação da saúde dos idosos.

Outras situações identificadas e que requerem

medidas imediatas foram as encontradas nas residências,

como a presença de tapetes, o piso encerado e/ou

escorregadio, excesso de mobiliário e inadequada

distribuição do mesmo.

Tais fatores talvez sejam os mais difíceis de serem

eliminados, visto que estão relacionados com a identidade

e individualidade de cada idoso.

Há que se refletir sobre as implicações emocionais

que ocorrem no idoso, decorrentes de algumas ações

dos profissionais com o objetivo de prevenir a queda,

como a retirada dos tapetes fator de maior risco

encontrado nas residências.

324 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):321-325, abr/jun, 2004


Em contrapartida, a retirada de alguns móveis ou

pertences pessoais, que sobrecarregam o ambiente, pode

representar uma perda muito grande para o idoso, porque

na maioria das vezes tais objetos representam o único

elo com seu passado tão carregado de emoções e

lembranças.

No que diz respeito à eliminação desses fatores, foi

observada uma grande resistência por parte dos idosos

que não aceitavam as orientações sobre a retirada dos

tapetes e o ato de não encerar os pisos, com a justificativa

de que tais hábitos faziam parte de sua trajetória de vida.

Dessa maneira, os profissionais de saúde e os

cuidadores não devem simplesmente "ordenar" aos idosos

que retirem os tapetes, mas, antes, lembrar que existe

toda uma história de vida, uma identidade "por detrás"

que, com certeza, os remete a lembranças familiares, laços

afetivos que não podem ser simplesmente "arrancados"

de suas casas.

Para minimizar o problema, devem-se encontrar meios

alternativos como, por exemplo, o uso de tapetes

antiderrapantes e mudança na disposição de algum

mobiliário e que, principalmente, todas as decisões possam

contar com a participação e o aceite de cada idoso. Essa

atitude pode colaborar para um melhor entendimento e

colaboração diante das mudanças necessárias, além de

trazer menor prejuízo emocional, sentindo-se, assim, o

idoso respeitado e sendo elemento ativo no processo de

mudança.

Reforça-se, mais uma vez, que a queda, por limitar a

capacidade funcional e emocional dos idosos, acarretando

muitas vezes seqüelas irreversíveis e reduzindo a

expectativa e a qualidade de vida, deve ser prevenida.

Cabe aos profissionais de saúde, especificamente aos

enfermeiros, identificar os fatores que colocam os idosos

em vulnerabilidade aos acidentes, fazendo com que essa

população possa ter uma velhice saudável e digna.

Em face da situação vivenciada, realizaram-se trabalhos

educativos por meio de palestras, utilização dedeos,

cartazes, dinâmicas de grupos e orientações individuais.

Foram promovidas participações em reuniões com a

Diretoria e demais profissionais com o objetivo de discutir

os problemas identificados, buscando encontrar soluções

passíveis de serem efetivadas pela Instituição.

Por fim, não se pode negar que o envelhecimento

traz mudanças na pessoa, como a regressão das suas

funções, porém não significa a perda da vida. Precisamos,

como profissionais da saúde, proporcionar momentos

para que os idosos possam continuar vivendo com

autonomia e liberdade, realizando suas atividades diárias

e conservando o prazer pela vida.

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2. Santos SSC. Enfermagem gerontogeriátrica: da reflexão à ação

cuidativa. São Paulo: Robe Editorial; 2001.

3. Brasil. Ministério da Saúde. Programas e Projetos. Programa de

Saúde do Idoso. Acesso em: 01 de maio 2001.Disponível em:

http://www.saude.gov.br

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):321-325, abr/jun, 2004 325


Comissão de estágios em...

COMISSÃO DE ESTÁGIOS EM ENFERMAGEM:

A EXPERIÊNCIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

NURSE TRAINING COMMISSION:

THE EXPERIENCE OF THE UNIVERSITY HOSPITAL OF THE

FEDERAL UNIVERSITY OF MINAS GERAIS

COMISIÓN DE CAPACITACIÓN DE ENFERMEROS:

LA EXPERIENCIA DEL HOSPITAL DE CLÍNICAS DE LA

UNIVERSIDAD FEDERAL DE MINAS GERAIS

Carla Aparecida Spagnol 1

Claudia Maria Mello Franco Silva 2

Elizabeth Soares Figueiredo 3

Joana Célia M. Nascimento 4

Maria Bárbara Alves dos Santos 5

Miguir Teresinha V. Donoso 6

Mônica Ribeiro Canhestro 7

Anne Rodrigues G. dos Santos 8

RESUMO

O Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais-HC-UFMG é utilizado como campo de estágio para

cursos de graduação e de nível médio da enfermagem. Neste contexto, o Hospital e a Escola de Enfermagem-UFMG,

visando à integração ensino-serviço, instituíram a Comissão de Estágios em Enfermagem para coordenar os estágios

curriculares e extracurriculares nesta área; sistematizar as visitas técnicas e o trabalho voluntário e implantar o Programa

de Educação Continuada. O objetivo deste artigo é relatar a experiência de implantação desta Comissão, evidenciando a

sua trajetória e os resultados alcançados. O trabalho da Comissão tem contribuído para o desenvolvimento e crescimento

profissional dos estagiários e dos trabalhadores da enfermagem.

Palavras-chave: Estágio clínico; Enfermagem; Comissões

ABSTRACT

The University Hospital of the Federal University of Minas Gerais is used as a training field for nursing undergraduate

students. Therefore, the Hospital and the Nursing School, with a view to integrating teaching and service, created a

Nurse Training Commission in order to coordinate curricular and extracurricular training in this area, systematically

organizing the technical visits and the voluntary work and to implement a Continuing Education Program. The purpose of

this article is to report the experience of implementing this Commission, showing its actions and the results achieved.

The work of the Commission is contributing to the students’ development and professional improvement as well as to

the members of the nursing team.

Key words: Clinical clerkship; Nursing; Comissions

RESUMÉN

El Hospital de Clínicas de la Universidad Federal de Minas Gerais se emplea como campo de entrenamiento para cursos

de graduación y nivel intermedio del curso de Enfermería. En este contexto el Hospital y la Escuela de Enfermería de la

Universidad Federal de Minas Gerais designaron una Comisión de Capacitación de Enfermeros con miras a integrar

enseñanza - trabajo. Las tareas asignadas a dicha comisión fueron: coordinar los entrenamientos curriculares y

extracurriculares en enfermería, sistematizar las visitas técnicas y el voluntariado e implantar el Programa de Educación

Continuada. El objetivo de este artículo es relatar la experiencia de implantación de tal comisión, evidenciando su

trayectoria y los resultados alcanzados. El trabajo de la comisión ha contribuido al desarrollo y crecimiento profesional

de los alumnos y de los trabajadores en enfermería.

Palabras clave: Prácticas clinicas; Enfermeria; Comisiones

1

Enfermeira. Professora da Escola de Enfermagem-UFMG. Mestre em Enfermagem. Membro da Comissão de Estágios em Enfermagem do HC-UFMG, no período

de março de 2000 a abril de 2002.

2

Enfermeira do HC-UFMG. Especialista em Administração da Assistência em Enfermagem. Membro da Comissão de Estágios em Enfermagem do HC-UFMG,

no período de junho de 2001 a dezembro de 2002.

3

Enfermeira do HC-UFMG. Especialista em Administração da Assistência de Enfermagem em Serviços de Saúde. Membro da Comissão de Estágios em Enfermagem

do HC-UFMG, no período de junho de 2001 a dezembro de 2002.

4

Enfermeira do HC-UFMG. Especialista em Enfermagem Obstétrica. Membro da Comissão de Estágios em Enfermagem do HC-UFMG, no período de novembro de

1999 a junho de 2001.

5

Enfermeira do HC-UFMG. Especialista em Administração da Assistência de Enfermagem em Serviços de Saúde. Membro da Comissão de Estágios em Enfermagem

do HC-UFMG, no período de novembro de 1999 a junho de 2001.

6

Enfermeira. Professora da Escola de Enfermagem-UFMG. Mestre em Enfermagem. Membro da Comissão de Estágios em Enfermagem do HC-UFMG, no período

de novembro de 1999 a junho de 2001.

7

Enfermeira. Professora da Escola de Enfermagem-UFMG. Mestre em Enfermagem. Membro da Comissão de Estágios em Enfermagem do HC-UFMG, no período

de junho de 2001 a dezembro de 2002.

8

Aluna do Curso de Graduação em Enfermagem da EE-UFMG. Bolsista da Comissão de Estágios em Enfermagem do HC-UFMG, no período de agosto a dezembro

de 2001. Endereço para correspondência: Rua Maestro Dele Andrade, 140/202 Bloco 4, Santa Efigênia, Belo Horizonte-MG CEP: 30260-210 Tel: (31)3482-3050

E-mail: spagnol@ufmg.br.

326 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):326-329, abr/jun, 2004


INTRODUÇÃO

O objetivo deste artigo é relatar a experiência de

implantação da Comissão Coordenadora de Estágios em

Enfermagem (CEE) do Hospital das Clínicas da

Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG),

evidenciando a sua trajetória e os resultados alcançados.

Na área da saúde o estágio é uma atividade obrigatória

prevista nos currículos de graduação e de nível médio,

regulamentada pelo Conselho Federal de Educação. De

acordo com a Lei nº 6494 (1),

"os estágios devem propiciar a complementação do

ensino e da aprendizagem a serem planejados,

executados, acompanhados e avaliados em

conformidade com os currículos, programas e

calendários escolares, a fim de se constituírem em

instrumentos de integração, em termos de treinamento

prático, de aperfeiçoamento técnico-cultural, científico

e de relacionamento humano".

No entanto, Rodrigues e Zanetti (2) ressaltam a

distância existente entre a teoria e a prática dos serviços

de saúde, pois, na maioria das vezes, o ensino está

focalizado em conteúdos "ideais" que não correspondem

à realidade da assistência prestada aos clientes. Neste

sentido, Secaf, Lorencette e Marx (3) pontuam que a

permanência do aluno numa determinada realidade, os

campos de estágios curriculares, nem sempre é suficiente

para lhe proporcionar a competência e experiência prática

necessária ao futuro profissional.

Segundo as autoras citadas, na "seleção de profissionais

para um emprego é quase sempre exigida como requisito

a competência, qualidade não traduzida apenas pela

apresentação de um diploma ou do histórico escolar do

curso realizado". Assim, consideram importante o aluno

buscar outras experiências de estágio, além das previstas

no currículo mínimo, pois, tendo realizado um estágio

extracurricular, estará demonstrando um "interesse maior

pelas atividades da profissão e provavelmente terá

adquirido algumas habilidades técnicas desejáveis no

profissional a ser contratado". (3)

Além dessas considerações relacionadas aos estágios

curriculares, observa-se que a crise econômica no nosso

país, também pode ser considerada um dos fatores que

influenciam de forma crescente a procura e oferta de

estágios remunerados, em grande parte das empresas.(4)

Nessa perspectiva, concordamos com Caldeira (5) quando

refere que omitir esta modalidade de estágio é ocultar as

contradições da prática pedagógica e do mercado de

trabalho, portanto, negá-lo seria ingenuidade.

Para Amorim, Freitas e Wanderley (4) "a bolsa de

estágio muitas vezes representa, para o aluno, um

complemento de sua renda familiar, contribuindo ainda

para a aquisição de materiais bibliográficos necessários à

conclusão de seu próprio curso". Para as empresas, esta

modalidade de ensino pode se apresentar "como solução

às suas dificuldades econômicas/financeiras, uma vez que

o custo de manter estagiários é bem menor que para

manter funcionários com o mesmo nível de exigência".

No estudo realizado por Caldeira (6) com alunos de

enfermagem, os resultados encontrados revelaram que

estes buscavam realizar um estágio extracurricular, não

só como uma complementação da sua aprendizagem

prática, mas também como uma fonte de remuneração.

Revelaram ainda que a rede hospitalar estudada, "utiliza

os alunos como mão-de-obra barata, substituindo os

enfermeiros", trabalhando em plantões noturnos, sem

acompanhamento das escolas ou de enfermeiros das

instituições.

Diante da importância da realização de atividades

prático-reflexivas desenvolvidas em várias organizações,

tendo em vista a qualificação do processo de ensino

aprendizagem dos alunos, o HC-UFMG-se destaca como

campo de estágio para cursos de graduação e de nível

médio na área de saúde, recebendo diversas solicitações

de estágios curriculares e extracurriculares, visitas técnicas

aos setores do hospital, trabalho voluntário, entre outras

demandas, principalmente vindas dos cursos de

enfermagem.

Nesse contexto, a Divisão Técnica de Enfermagem

(DTE) e a Escola de Enfermagem-UFMG elaboraram um

projeto de integração de ensino-serviço e instituíram, em

janeiro de 2000, a Comissão Coordenadora de Estágios

em Enfermagem (CEE). Esta Comissão é composta por

dois docentes da Escola de Enfermagem-UFMG e dois

enfermeiros do HC-UFMG, tendo diversos programas

que serão descritos posteriormente.

OBJETIVOS DA COMISSÃO DE ESTÁGIOS

EM ENFERMAGEM

1. Coordenar e acompanhar os diversos estágios na

área de enfermagem (nível médio e graduação)

desenvolvidos no HC-UFMG.

2. Coordenar o Programa de Estágio Extracurricular,

as visitas técnicas e os trabalhos voluntários, na área da

enfermagem, a serem realizados nos diversos setores do

hospital.

3. Desenvolver trabalhos científicos que poderão

subsidiar as atividades da Comissão de Estágios em

Enfermagem, divulgando-os em eventos e periódicos da área.

4. Promover atividades científicas que poderão

contribuir para o aperfeiçoamento de estagiários e equipe

de enfermagem do HC-UFMG.

5. Implantar o Programa de Educação Continuada em

Enfermagem.

PROGRAMAS E PROJETO DA COMISSÃO

DE ESTÁGIOS EM ENFERMAGEM

• Programa de Estágio Extracurricular em

Enfermagem

O Programa de Estágio Extracurricular (PEEC) foi

elaborado em fevereiro de 1999, a partir do Projeto

Acadêmico-Assistencial Escola de Enfermagem-Hospital

das Clínicas, o qual descreve que a criação do referido

programa, para a Escola "(...) possibilitaria o acúmulo de

experiência para desempenhar seu papel junto à rede de

serviços de saúde" e para o Hospital "(...) a contribuição

do estagiário possibilitaria um reforço quali-quantitativo

importante para a assistência". (7)

O referido programa tem como objetivos: contribuir

com a construção de bases pedagógicas que norteiam o

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):326-329, abr/jun, 2004 327


Comissão de estágios em...

desenvolvimento de estágios extracurriculares na área

de enfermagem; inserir o aluno da graduação no processo

de trabalho do hospital, enquanto elemento de estímulo

à reflexão crítica; apoiar qualitativa e quantitativamente

as atividades que o corpo de enfermagem vem

desenvolvendo com vistas à melhoria da assistência

prestada; contribuir com parâmetros para a normatização

de estágios extracurriculares de outros profissionais de

saúde.

O PEEC possui 16 bolsistas atuando em unidades de

internação (clínica médica e cirúrgica, pediátrica,

maternidade, neonatologia, CTI e pronto atendimento)

sendo supervisionados pelos enfermeiros das referidas

unidades, contando ainda, com bolsistas voluntários que

desenvolvem atividades em projetos da DTE.

A partir do sétimo período, os alunos do Curso de

Graduação da EE-UFMG podem se candidatar ao

programa como bolsistas. O mesmo é remunerado

através de bolsas de estágio pagas pelo HC-UFMG. Os

bolsistas assinam um contrato por período de 1 (um)

ano, sem caracterizar nenhum vínculo empregatício com

a instituição. A seleção dos bolsistas é feita através da

avaliação do histórico escolar e entrevista, solicitando-se

aos candidatos que exponham suas expectativas em

relação ao estágio, suas preferências de horário e setor.

Os aprovados são lotados em unidades de internação

previamente selecionadas, dando início ao estágio

introdutório.

Após o treinamento introdutório, o bolsista é avaliado

periodicamente quanto à sua atitude pessoal, atuação

gerencial e de desempenho técnico. Essas avaliações são

realizadas pela Comissão de Estágio juntamente com o

enfermeiro que fez o acompanhamento do estagiário.

No desenvolvimento do estágio extracurricular no

HC-UFMG, busca-se uma integração plena do bolsista na

equipe multiprofissional. A importância de tal propósito

também foi apontada por Secaf, Lorencette e Marx (3)

que fizeram um relato de experiência sobre o estágio

extracurricular desenvolvido em um hospital privado

localizado na capital paulista. As autoras ressaltaram que

essa experiência também estava propiciando uma

atualização constante dos profissionais integrados nesse

processo.

A primeira avaliação do PEEC foi realizada por meio

de questionário distribuídos aos bolsistas e equipe de

enfermagem das unidades em que os mesmos estavam

estagiando. Pelos resultados apresentados, verifica-se que

o PEEC vem contribuindo de forma efetiva para a

formação dos alunos da Escola de Enfermagem-UFMG,

bem como para a melhoria da assistência de enfermagem

prestada aos pacientes internados no HC-UFMG.

Uma das vantagens deste tipo de estágio é que os

bolsistas do PEEC, quando tornam-se recém-formados,

já conhecem a organização e o funcionamento do hospital,

pois adquiriram esta experiência durante o estágio, o que

facilita a adaptação e o treinamento inicial do profissional,

bem como a sua inserção na equipe multiprofissional,

quando é admitido como enfermeiro.

Nessa perspectiva, a CEE criou, juntamente com o

Núcleo de Computação do HC-UFMG, um Banco de

Dados dos Bolsistas do PEEC, contendo os dados pessoais

e as avaliações dos bolsistas. Esse Banco de Dados tem

como objetivo subsidiar a DTE no recrutamento, na

seleção e na contratação de enfermeiros para a lotação

do quadro de pessoal de enfermagem, via Fundação.

• Programa de estágios curriculares

O currículo mínimo das profissões da área da saúde

estabelece o estágio como atividade prática de caráter

obrigatório. (3) Sendo o HC-UFMG um Centro Formador

de Recursos Humanos nessa área, mantém convênio com

diferentes Escolas de Enfermagem, para o

desenvolvimento de estágios curriculares dos cursos de

graduação e de nível médio.

A CEE tem a função de operacionalizar os estágios

curriculares desenvolvidos no hospital, avaliando as escalas

de lotação dos alunos, intermediando na resolução de

problemas, revendo periodicamente os convênios e

realizando outras atividades que contribuem para

melhorar o desenvolvimento do processo de ensinoaprendizagem

dos alunos da UFMG e de outras

instituições.

• Programa de atividades científicas

Tendo como uma das metas o aperfeiçoamento dos

bolsistas e da equipe de enfermagem do HC-UFMG, a

Comissão de Estágio de Enfermagem vem promovendo

atividades científicas com temas diversos tais como:

"Assistência de enfermagem aos portadores de catéteres",

"Infecção hospitalar na maternidade e no berçário",

"Eletrocardiograma: teoria e prática", "Projeto de

profissionalização dos trabalhadores da área de

enfermagem- PROFAE/EEUFMG", "Estresse qualidade de

vida dos cuidadores", entre outros.

Além disso, a Comissão vem divulgando seus trabalhos

em eventos científicos internos e externos à Universidade.

• Programa de trabalho voluntário e de visitas

técnicas

A Comissão de Estágios em Enfermagem, avalia as

solicitações de trabalho voluntário e visitas técnicas e faz

o agendamento e devidos encaminhamentos dessas

solicitações, juntamente com os Coordenadores de

Enfermagem dos setores. Deve-se ressaltar que o

acompanhamento dos alunos e profissionais é realizado

pelos enfermeiros das próprias unidades solicitadas.

• Projeto de Educação Continuada

A Comissão de Estágios em Enfermagem tem o

propósito de desenvolver, junto com a Divisão Técnica

de Enfermagem-DTE, um projeto de criação do Programa

de Educação Continuada, para coordenar e sistematizar

os trabalhos de capacitação dos profissionais da

enfermagem, que são desenvolvidos no HC-UFMG. Este

projeto prevê a constituição dos seguintes trabalhos:

treinamento introdutório; capacitação de pessoal para os

profissionais da enfermagem do hospital e para o público

externo (cursos, treinamentos, aperfeiçoamento) e outras

atividades relacionadas à educação em serviço.

328 REME – Rev. Min. Enf; 8(2):326-329, abr/jun, 2004


CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Programa de Estágio Extracurricular em

Enfermagem (PEEC) tem possibilitado ao aluno vivências

de um universo objetivo e concreto da prática diária da

enfermagem. Sendo assim, a Escola e a DTE/HC-UFMG

entendem que a presença do aluno na instituição é um

fator de estímulo ao aprimoramento crítico e reflexivo

dos profissionais que desenvolvem a prática da

enfermagem.

Atualmente, os alunos de enfermagem têm buscado

com maior freqüência o estágio extracurricular como uma

estratégia de ampliação de seu arsenal de conhecimentos,

diante da competitividade do mercado de trabalho, uma

vez que os profissionais estão cada vez mais se capacitando

e se qualificando. Outro fator motivador para realizar

esta modalidade de estágio é a proposta de flexibilização

curricular, que possibilita ao aluno contar créditos e

enriquecer seu currículo com estas experiências

extramuros à Universidade.

A avaliação do PEEC mostrou que este programa tem

consolidado as relações entre a Escola e a Divisão Técnica

de Enfermagem do hospital, propiciando uma inserção

mais crítica do aluno na dinâmica do processo de trabalho

da enfermagem hospitalar.

Em relação aos estágios curriculares da área de

enfermagem desenvolvidos no hospital, as atividades

realizadas pela Comissão de Estágios em Enfermagem têm

contribuído de forma significativa para a organização dos

mesmos, tanto da graduação quanto do nível médio.

Anteriormente as Escolas de Enfermagem faziam as

solicitações de estágio à DTE, que encaminhava os pedidos

às unidades, sem uma avaliação prévia do número de

alunos por setor. Além disso, não havia o registro

quantitativo de alunos de enfermagem que estagiavam no

hospital. A Comissão criou, então, um instrumento que

possibilitou registrar o número de alunos por setor a

cada mês, denominado "escala de estágios em

enfermagem". Esse instrumento permite visualizar o setor

em que existe uma maior concentração de alunos em

determinados períodos e setores, possibilitando uma

avaliação criteriosa e um planejamento dos estágios a

serem desenvolvidos, redimensionando o número de

alunos nas unidades, tendo em vista a qualidade dos

cuidados prestados.

A Comissão acredita que a sistematização do

Programa de Educação Continuada em Enfermagem é um

avanço para a DTE, pois estará investindo

permanentemente na capacitação e aperfeiçoamento dos

profissionais da enfermagem.

Portanto, os programas da Comissão de Estágios em

Enfermagem do HC-UFMG, têm propiciado o

desenvolvimento de atividades pedagógicas contribuindo

de forma significativa para o crescimento profissional dos

alunos e trabalhadores da enfermagem.

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o ensino e o mercado de trabalho. Rev. Latino-am. Enf. 2000; (8)

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extracurricular remunerado. Acta Paulista 1989; (2) 3: 79-85.

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problema ou solução Recife: Centro de Ciências Sociais Aplicadas.

Departamento de Ciências Administrativas. Universidade Federal de

Pernambuco; s/d.

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contradição a ser superada [dissertação] Rio de Janeiro: Universidade

do Rio de Janeiro; 1992.

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contradição a ser superada. REME Rev. Min Enf. 1997; (1) 1: 36-41.

7. Brant MJCG, Sena RR. Projeto acadêmico assistencial- Escola de

Enfermagem e Hospital das Clínicas. Belo Horizonte: Escola de

Enfermagem, Universidade Federal de Minas Gerais; 1999.

REME – Rev. Min. Enf; 8(2):326-329, abr/jun, 2004 329


Compressa cirúrgica: o uso...

COMPRESSA CIRÚRGICA:

O USO ÚNICO EM QUESTÃO

SURGICAL PAD:

ISSUE OF SINGLE USAGE

COMPRESA QUIRÚRGICA:

SE CUESTIONA SU USOÚNICO

Adelaide de Mattia Rocha 1

Alcione Bastos Rodrigues 2

Maria Cristina Silva 3

RESUMO

Este estudo se configura como um relato de experiência de professores de Enfermagem e enfermeiros sobre a discussão

da confiabilidade da utilização de compressas cirúrgicas reprocessadas. O percurso metodológico se destinou a obter o

máximo possível de informações sobre o reprocessamento de compressas cirúrgicas e a confiabilidade de sua reutilização

em salas de cirurgia. Utilizamos como fonte de consulta a opinião de enfermeiras experts em procedimentos cirúrgicos

e esterilização e buscamos na literatura científica sobre o tema, bem como na legislação vigente, subsídios que

fundamentassem os procedimentos citados. Acompanhamos, também, o processamento de f