Rumo a uma democracia de cidadãs e cidadãos
Rumo a uma democracia de cidadãs e cidadãos
Rumo a uma democracia de cidadãs e cidadãos
Transforme seus PDFs em revista digital e aumente sua receita!
Otimize suas revistas digitais para SEO, use backlinks fortes e conteúdo multimídia para aumentar sua visibilidade e receita.
<strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadãs e cidadãos<br />
Programa das Nações Unidas Para o Desenvolvimento
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
na América Latina<br />
<strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadãs e cidadãos<br />
Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador,<br />
Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru,<br />
República Dominicana, Uruguai, Venezuela<br />
Preparado pelo Programa das Nações<br />
Unidas para o Desenvolvimento
A análise e as recomendações políticas <strong>de</strong>ste Relatório não refletem necessariamente as opiniões do<br />
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, <strong>de</strong> sua Junta Executiva nem <strong>de</strong> seus Estados<br />
Membros. O Relatório é <strong>uma</strong> publicação in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte preparada a pedido do PNUD. É o fruto da<br />
colaboração entre um conjunto <strong>de</strong> prestigiosos consultores e assessores e a equipe do Relatório da<br />
Democracia na América Latina (PRODDAL).<br />
© Programa das Nações Unidas Para o Desenvolvimento, 2004<br />
1 UN Plaza, New York, New York, 10017, Estados Unidos da América<br />
Este documento foi elaborado com a ajuda financeira da União Européia. As análises e recomendações<br />
<strong>de</strong>ste documento não refletem a opinião oficial da União Européia.<br />
A tradução <strong>de</strong>ste Relatório para o português foi dirigida pela Profa. Monica Hirst, coor<strong>de</strong>nada por Miriam<br />
De Paoli e contou com a participação <strong>de</strong> Maria A<strong>de</strong>lina Gue<strong>de</strong>s Chaves, Gértea Coeli <strong>de</strong> Macedo<br />
Oliveira e Ivone Tupinambá Pereira Lima.<br />
Da Primeira edição em español: Aguilar, Altea, Taurus, Alfaguara S.A., 2004.<br />
Idéia da capa: Fisher América Argentina<br />
Desenho <strong>de</strong> portada e interiores: Schavelzon-Ludueña. Estudio <strong>de</strong> Diseño<br />
© Desta edição:<br />
LM&X Ltda., 2004<br />
Rua Calçada dos Antares, 264 2º andar<br />
Alphaville – Santana do Parnaíba – SP – Brasil<br />
www.lmx.com.br – livros@lmx.com.br<br />
ISBN: 85-98887-01-3<br />
Depósito Legal na Biblioteca Nacional<br />
conforme <strong>de</strong>creto nº 1825 <strong>de</strong> 20 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 1907<br />
Direção editorial:<br />
Diagramação:<br />
Revisão:<br />
Alessandra Machado<br />
Adalton Martins, Vanessa Thomaz, Verônica S. Martins<br />
Ivan Garcia<br />
Todos os direitos reservados. Esta publicação e seus materiais complementares não po<strong>de</strong>m ser reproduzidos, no todo<br />
ou em parte, nem registrados em, ou transmitidos por um sistema <strong>de</strong> recuperação <strong>de</strong> informação, sob nenh<strong>uma</strong> forma<br />
nem por nenhum meio, seja mecânico, fotoquímico, eletrônico, magnético, eletroóptico, por fotocópia ou qualquer<br />
outro, sem a autorização prévia por escrito da editora.
Programa das Nações Unidas<br />
para o Desenvolvimento (PNUD)<br />
Administrador<br />
Mark Malloch Brown<br />
Administrador Associado<br />
Zéphirin Diabré<br />
Administradora Auxiliar<br />
e Diretora Regional para a<br />
América Latina e o Caribe<br />
Elena Martínez<br />
Coor<strong>de</strong>nador<br />
do Programa Regional<br />
Freddy Justiniano<br />
Representante Resi<strong>de</strong>nte<br />
na Argentina<br />
Carmelo Angulo Barturén (até Abril <strong>de</strong> 2004)<br />
Carlos Felipe Martínez (<strong>de</strong>s<strong>de</strong> Maio <strong>de</strong> 2004)<br />
Assessora <strong>de</strong> Governabilida<strong>de</strong><br />
do Programa Regional<br />
Myriam Mén<strong>de</strong>z Montalvo<br />
Coor<strong>de</strong>nador do Projeto<br />
Dante Caputo
■ Projeto sobre a Democracia<br />
na América Latina<br />
Coor<strong>de</strong>nador do Projeto<br />
Dante Caputo<br />
Consultores por Áreas<br />
Marco teórico<br />
Guillermo O’Donnell, com os comentários<br />
<strong>de</strong> Bruce Ackerman, Andrew Arato, Renato<br />
Boschi, Fernando Cal<strong>de</strong>rón, Catherine<br />
Conaghan, Julio Cotler, Larry Diamond,<br />
José Eisenberg, Manuel A. Garretón, David<br />
Held, Céli Regina Jardim Pinto, Jennifer<br />
McCoy, Adalberto Moreira Cardoso, Juan<br />
Mén<strong>de</strong>z, José Nun, Pierre Rosanvallon,<br />
Alain Touraine e Laurence Whitehead.<br />
Pesquisa <strong>de</strong> opinião<br />
Jorge Vargas coor<strong>de</strong>nou a equipe integrada<br />
por Miguel Gómez Barrantes, Tatiana<br />
Benavi<strong>de</strong>s, Evelyn Villarreal e Lorena Kikut,<br />
para o projeto e análise da pesquisa Latinobarômetro<br />
/ PRODDAL 2002.<br />
Indicadores<br />
Gerardo Munck coor<strong>de</strong>nou a equipe<br />
integrada por David Altman, Jeffrey A.<br />
Bosworth, Jay Verkuilen e Daniel Zovatto.<br />
Rodada <strong>de</strong> consultas<br />
Diego Achard, Augusto Ramírez Ocampo,<br />
E<strong>de</strong>lberto Torres Rivas, Gonzalo Pérez<br />
<strong>de</strong>l Castillo, Claudia Dangond, Raúl Alconada<br />
Sempé, Rodolfo Mariani, Leandro García<br />
Silva, Adriana Raga, Luis E. González, Gonzalo<br />
Kmeid, Pablo Da Silveira, e <strong>uma</strong> equipe<br />
dirigida por Hilda Herzer e integrada por<br />
Verónica De Valle, María M. Di Virgilio,<br />
Graciela Kisilesky, Adriana Redondo e María<br />
C. Rodríguez.<br />
Coor<strong>de</strong>nadores<br />
Coor<strong>de</strong>nador Países Andinos<br />
Augusto Ramírez Ocampo, com a colaboração<br />
<strong>de</strong> Claudia Dangond, Elisabeth<br />
Ungar e Amalfy Fernán<strong>de</strong>z.<br />
Coor<strong>de</strong>nador Países<br />
do MERCOSUL<br />
Dante Caputo e Raúl Alconada Sempé.<br />
Coor<strong>de</strong>nador Países do Istmo<br />
Centro-americano e República<br />
Dominicana<br />
E<strong>de</strong>lberto Torres Rivas, com a colaboração<br />
<strong>de</strong> Claudio Luján.<br />
Coor<strong>de</strong>nador institucional<br />
Gonzalo Pérez <strong>de</strong>l Castillo.<br />
Equipe do Projeto em Buenos Aires<br />
Oficial <strong>de</strong> Programa PNUD: Rosa Zlachevsky.<br />
Equipe técnica: Leandro García Silva,<br />
Rodolfo Mariani e Thomas Scheetz.<br />
Equipe <strong>de</strong> apoio: María Eugenia Bóveda<br />
e Fabián <strong>de</strong> Achaval.<br />
Colaboradores especiais: Fabián Bosoer<br />
e Daniel Sazbón.<br />
Projeto sobre a Democracia na América Latina<br />
5
Difusão do Relatório<br />
Milena Leivi, Milagros Olivera, Sandra Rojas, Emilio Sampietro.<br />
Assessores<br />
José Luis Barros Horcasitas, Fernando Cal<strong>de</strong>rón, Alberto Couriel, Joaquín Estefanía,<br />
Gustavo Fernán<strong>de</strong>z Saavedra, Enrique Ganuza, Manuel Antonio Garretón, Edmundo<br />
Jarquín, Marta Lagos, Marcos Novaro, Vicente Palermo, Arturo O’Connell, Guillermo<br />
O’Donnell, Carlos Ominami.<br />
Consultores<br />
Gloria Ardaya, Horacio Boneo, Sebastián Campanario, Eva Capece, Julio Godio, Luis<br />
Eduardo González, Juan Carlos Herrera, Néstor Lavergne, Norbert Lechner, Silvia<br />
Lospennato, Luis Ver<strong>de</strong>soto.<br />
Grupo <strong>de</strong> leitores do Relatório<br />
Carmelo Angulo, Víctor Arango, Marcia <strong>de</strong> Castro, Juan Pablo Corlazzoli, Juan Alberto<br />
Fuentes, Enrique Ganuza, Freddy Justiniano (Coor<strong>de</strong>nador), Thierry Lemaresquier, Carlos<br />
Lopes, Carlos F. Martínez, Magdy Martínez, Myriam Mén<strong>de</strong>z-Montalvo, Gerardo Noto,<br />
William Orme, Stefano Pettinato, Juan Rial, Harold Robinson, Martín Santiago, Luis<br />
Francisco Thais.<br />
6<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Índice<br />
13 ■ Prólogo do Administrador do PNUD<br />
17 ■ Prefácio da Diretora Regional para América Latina e Caribe do PNUD<br />
21 ■ Apresentação<br />
21 Liberda<strong>de</strong>, <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e política<br />
25 ■ Resumo<br />
25 Introdução<br />
26 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e a idéia <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
26 Balanço da cidadania integral<br />
28 Percepções e apoio <strong>de</strong> lí<strong>de</strong>res e cidadãos<br />
29 Elementos para <strong>uma</strong> agenda<br />
31 Metodologia do Relatório<br />
primeira seção<br />
33 O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
35 ■ O <strong>de</strong>safio: <strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> eleitores a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadãos<br />
38 Democracia, pobreza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>: um triângulo latino-americano<br />
41 Balanço entre reformas e realida<strong>de</strong>s<br />
45 Os organismos internacionais e a promoção da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
49 ■ Exploração sobre o <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
50 Um <strong>de</strong>bate incompleto<br />
52 Fundamentos teóricos<br />
A idéia <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Os déficits da socieda<strong>de</strong> como déficit da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Alcances da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> no Relatório<br />
Democracia, regime político e Estado<br />
Os cidadãos, fonte e justificativa da autorida<strong>de</strong> do Estado <strong>de</strong>mocrático<br />
O cidadão, sujeito da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
A cidadania exce<strong>de</strong> os direitos políticos, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> também<br />
Estado e cidadania<br />
64 “Estatalidad” truncada e fragilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática<br />
66 Especificida<strong>de</strong> histórica das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s latino-americanas<br />
69 De quanta cidadania <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> precisa<br />
Índice<br />
7
segunda seção<br />
73 Bases empíricas do Relatório<br />
75 ■ Indicadores <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
75 Cidadania política, civil e social<br />
76 Cidadania política<br />
Índice <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral<br />
Outros indicadores do regime <strong>de</strong>mocrático <strong>de</strong> acesso ao governo<br />
Participação eleitoral<br />
Concorrência eleitoral e seleção <strong>de</strong> candidatos<br />
Representação eleitoral<br />
84 Balanço do regime <strong>de</strong> acesso <strong>de</strong>mocrático ao governo<br />
Outras dimensões da Cidadania Política<br />
Po<strong>de</strong>res constitucionais clássicos<br />
Agências especializadas <strong>de</strong> controle<br />
Mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> direta<br />
A corrupção na função pública<br />
Clientelismo<br />
88 Conclusões sobre a cidadania política: conquistas e <strong>de</strong>ficiências<br />
104 Cidadania civil<br />
122 Cidadania Social<br />
Igualda<strong>de</strong> legal e proteção contra a discriminação<br />
Direito à vida, à integrida<strong>de</strong> física e à segurança<br />
Administração <strong>de</strong> justiça<br />
Liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> imprensa e direito à informação<br />
Conclusões sobre a cidadania civil: conquistas e <strong>de</strong>ficiências<br />
Necessida<strong>de</strong>s básicas<br />
Integração social<br />
A socieda<strong>de</strong> civil como promotora da cidadania social<br />
Conclusões sobre a cidadania social: conquistas e <strong>de</strong>ficiências<br />
139 ■ Como os latino-americanos vêem a sua <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
140 Três tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: <strong>de</strong>mocrática, ambivalente e não-<strong>de</strong>mocrática<br />
Magnitu<strong>de</strong> das tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Distância entre as tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: perfil social<br />
Heterogeneida<strong>de</strong><br />
147 Formas <strong>de</strong> participação dos cidadãos na vida política<br />
Participação cidadã e tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Perfis <strong>de</strong> intensida<strong>de</strong> da cidadania<br />
153 O índice <strong>de</strong> Apoio Cidadão à Democracia<br />
157 ■ A percepção dos dirigentes latino-americanos<br />
157 Perfil dos atores consultados<br />
157 O ponto <strong>de</strong> partida conceitual<br />
8<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
158 Condições necessárias para a Democracia<br />
A expansão da participação política<br />
A expansão dos controles sobre o exercício do po<strong>de</strong>r<br />
Opiniões sobre o caráter da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
162 Causas das limitações das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s latino-americanas<br />
Po<strong>de</strong>res institucionais e po<strong>de</strong>res fáticos<br />
O papel dos partidos políticos<br />
Os po<strong>de</strong>res fáticos<br />
Empresas<br />
Os meios <strong>de</strong> comunicação<br />
Os fatores extraterritoriais<br />
As Igrejas<br />
O sindicalismo<br />
Os po<strong>de</strong>res ilegais<br />
Os po<strong>de</strong>res políticos formais<br />
O Po<strong>de</strong>r Executivo<br />
As Forças Armadas<br />
170 A visão dos presi<strong>de</strong>ntes e vice-presi<strong>de</strong>ntes<br />
Avaliação da figura do presi<strong>de</strong>nte no mapa <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> cada região<br />
Pressões dos po<strong>de</strong>res fáticos sobre a autorida<strong>de</strong> presi<strong>de</strong>ncial<br />
O papel dos meios <strong>de</strong> comunicação<br />
Valoração das organizações sociais na vida política do país<br />
172 O fortalecimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
A construção da agenda pública na América Latina<br />
A agenda futura<br />
Os <strong>de</strong>safios<br />
177 Alcances da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina. Um balanço<br />
Como se exerce o po<strong>de</strong>r nessas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
178 Síntese da rodada <strong>de</strong> consultas<br />
terceira seção<br />
181 <strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania<br />
183 ■ Quatro temas para <strong>uma</strong> agenda <strong>de</strong> <strong>de</strong>bate<br />
184 A política, primeira condição<br />
189 A necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>uma</strong> nova “estatalidad”<br />
192 Uma economia para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
198 Po<strong>de</strong>r e políticas <strong>de</strong>mocráticas na globalização<br />
201 Em síntese<br />
203 ■ Reflexões finais<br />
203 O eterno <strong>de</strong>safio<br />
Índice<br />
9
207 ■ Agra<strong>de</strong>cimentos<br />
Instituições que colaboraram na elaboração e discussão do Relatório<br />
Autores <strong>de</strong> artigos sobre temas da agenda<br />
Participantes da Rodada <strong>de</strong> Consultas<br />
Participações especiais<br />
Funcionários do Escritório do Administrador do PNUD<br />
Funcionários da Direção para América Latina e Caribe do PNUD.<br />
Funcionários do Escritório <strong>de</strong> Enlace do PNUD em Bruxelas<br />
Funcionários do Escritório do PNUD na Argentina<br />
Representantes Resi<strong>de</strong>ntes, Adjuntos e Auxiliares dos Escritórios do PNUD na<br />
América Latina<br />
Funcionários dos Escritórios do PNUD na América Latina<br />
210 Participantes em seminários e reuniões<br />
Reunião com o Secretário Geral da ONU<br />
Reunião com o Administrador do PNUD<br />
Apoio na preparação <strong>de</strong> reuniões e seminários<br />
Produção e tradução<br />
213 ■ Nota técnica sobre o Índice <strong>de</strong> Democracia Eleitoral (IDE)<br />
213 Construção do IDE<br />
A escolha dos componentes<br />
A medição dos componentes<br />
A geração <strong>de</strong> <strong>uma</strong> base <strong>de</strong> dados retangular com escalas normalizadas<br />
A escolha <strong>de</strong> regras <strong>de</strong> agregação<br />
217 Testando o IDE<br />
Confiabilida<strong>de</strong> entre codificadores e estimativa <strong>de</strong> erro<br />
A soli<strong>de</strong>z das regras <strong>de</strong> agregação<br />
O caráter dimensional dos elementos componentes<br />
218 Interpretando e usando o IDE<br />
219 ■ Nota técnica sobre os índices <strong>de</strong>rivados na análise da pesquisa Latinobarômetro<br />
2002 – A construção do Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD)<br />
219 Apresentação<br />
219 I- Pesquisa <strong>de</strong> opinião sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Dados e metodologia<br />
Desenho das amostras<br />
Análises estatísticas<br />
Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> análise<br />
Precisão dos resultados<br />
Amostras totais, amostras válidas e não-respostas<br />
Apresentação <strong>de</strong> resultados<br />
O método <strong>de</strong> medição do apoio cidadão à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> mais amplamente utilizado<br />
e suas fragilida<strong>de</strong>s<br />
227 O IAD e as tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
As três dimensões do IAD<br />
10<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Primeira dimensão: tamanho <strong>de</strong> <strong>uma</strong> tendência<br />
Segunda dimensão: ativismo político das tendências<br />
Classificação <strong>de</strong> modos <strong>de</strong> participação<br />
Terceira dimensão: distância entre as tendências<br />
A regra <strong>de</strong> agregação do IAD<br />
A Interpretação do IAD<br />
Validação e confiabilida<strong>de</strong> do IAD<br />
Pressupostos e limitações do IAD<br />
239 ■ Bibliografia<br />
255 ■ Abreviaturas<br />
257 ■ Índice <strong>de</strong> quadros<br />
260 ■ Índice <strong>de</strong> tabelas<br />
262 ■ Índice <strong>de</strong> gráficos<br />
263 ■ Conteúdo do CD-ROM incluído no relatório<br />
Índice<br />
11
Prólogo do Administrador do PNUD<br />
A AMÉRICA LATINA APRESENTA ATUALMENTE UM EXTRAORDINÁ-<br />
RIO PARADOXO. Por um lado, a região po<strong>de</strong> mostrar, com gran<strong>de</strong> orgulho,<br />
mais <strong>de</strong> duas décadas <strong>de</strong> governos <strong>de</strong>mocráticos. Por outro, enfrenta <strong>uma</strong> crescente<br />
crise social. Persistem profundas <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s, existem níveis <strong>de</strong> pobreza<br />
elevados, o crescimento econômico tem sido insuficiente e a insatisfação (expressa,<br />
em muitos lugares, por um amplo <strong>de</strong>scontentamento popular) das cidadãs<br />
e dos cidadãos com essas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s tem aumentado. Essa circunstância tem<br />
gerado, em alguns casos, conseqüências <strong>de</strong>sestabilizadoras.<br />
O Relatório representa um significativo esforço para compreen<strong>de</strong>r e superar<br />
esse paradoxo. Ele oferece <strong>uma</strong> análise abrangente do estado da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na<br />
América Latina, mediante a combinação <strong>de</strong> indicadores quantitativos, entrevistas,<br />
pesquisas e diálogo com gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> lí<strong>de</strong>res e formadores <strong>de</strong> opinião<br />
por toda a região. O Relatório procura, ainda, ir além do simples diagnóstico dos<br />
problemas existentes e propõe novos enfoques para os <strong>de</strong>safios que estão, atualmente,<br />
pondo em risco os avanços registrados nos últimos 25 anos.<br />
Resultado do trabalho <strong>de</strong> um grupo <strong>de</strong> especialistas in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes, o Relatório<br />
não é, conseqüentemente, um documento oficial sobre as políticas do Programa<br />
das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) ou das Nações Unidas.<br />
Consi<strong>de</strong>ramos que ele representa <strong>uma</strong> valiosa contribuição para a configuração<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> agenda ampliada para os países da América Latina, o PNUD e seus parceiros<br />
na busca pelo <strong>de</strong>senvolvimento nos meses e anos futuros. Por esse motivo,<br />
é gran<strong>de</strong> a satisfação do PNUD em ter apoiado esta iniciativa.<br />
O coração do problema está em que, embora a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> tenha-se propagado<br />
amplamente na América Latina, suas raízes não são profundas. Assim, o<br />
Relatório assinala que a proporção <strong>de</strong> latino-americanas e latino-americanos que<br />
estariam dispostos a sacrificar um governo <strong>de</strong>mocrático em favor do progresso<br />
socioeconômico real é superior a 50%.<br />
São várias as razões <strong>de</strong>ssa tendência. A mais importante é que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
é, pela primeira vez na história da América Latina, a forma <strong>de</strong> governo predominante.<br />
Assim, os governantes são culpados quando as coisas andam mal em<br />
matéria <strong>de</strong> emprego, renda e serviços básicos, que são insuficientes para satisfazer<br />
as crescentes expectativas da cidadania.<br />
O panorama torna-se ainda mais complexo quando se consi<strong>de</strong>ra que diversos<br />
fatores indispensáveis para a governabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática, tais como liberda<strong>de</strong><br />
Prólogo do Administrador do PNUD<br />
13
<strong>de</strong> imprensa, proteção sólida aos direitos h<strong>uma</strong>nos e po<strong>de</strong>r judiciário in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte<br />
e vigoroso ainda precisam ser substancialmente fortalecidos. Além disso,<br />
muitos grupos, tradicionalmente excluídos, não têm acesso ao po<strong>de</strong>r por meio<br />
dos canais formais. Assim, eles manifestam suas frustrações por vias alternativas,<br />
não raro por meio <strong>de</strong> expressões violentas.<br />
Não obstante, existem alguns sinais muito animadores por trás <strong>de</strong>ssa situação.<br />
O primeiro é que, apesar das crises, os países da região não optaram por um retrocesso<br />
ao autoritarismo; tendo, ao contrário, dado amplo apoio às instituições<br />
<strong>de</strong>mocráticas. Em segundo lugar, os cidadãos estão começando a distinguir entre<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> como sistema <strong>de</strong> governo e o <strong>de</strong>sempenho dos governantes em particular.<br />
Muitos <strong>de</strong>sses cidadãos nada mais são do que “<strong>de</strong>mocratas insatisfeitos”,<br />
fenômeno que é bastante conhecido em muitas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s estabelecidas. Isso<br />
explica, parcialmente, por que os movimentos <strong>de</strong> oposição não ten<strong>de</strong>m, hoje em<br />
dia, para soluções militares, mas para lí<strong>de</strong>res populistas que se apresentam como<br />
alheios ao po<strong>de</strong>r tradicional e prometem perspectivas inovadoras.<br />
Dessa forma, quando é hora <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntificar responsáveis, as populações diferenciam<br />
cada vez mais entre as diversas instituições. Ao passo que os corpos legislativos<br />
e os partidos políticos têm apoio <strong>de</strong> menos <strong>de</strong> um quarto da população,<br />
o Po<strong>de</strong>r Judiciário e o Executivo, assim como os serviços <strong>de</strong> segurança, mostram<br />
<strong>uma</strong> imagem um pouco melhor.<br />
Para que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não <strong>de</strong>finhe e possa crescer, a América Latina precisa<br />
trabalhar incansavelmente para que as instituições <strong>de</strong>mocráticas, das legislaturas<br />
às autorida<strong>de</strong>s locais, sejam transparentes, prestem contas dos seus atos e <strong>de</strong>senvolvam<br />
as aptidões e capacida<strong>de</strong>s necessárias para <strong>de</strong>sempenhar suas funções<br />
fundamentais. Isso significa que será preciso assegurar que o po<strong>de</strong>r, em todos os<br />
níveis <strong>de</strong> governo, seja estruturado e distribuído <strong>de</strong> tal forma que dê voz e participação<br />
real aos excluídos. Além disso, ele <strong>de</strong>ve proporcionar mecanismos pelos<br />
quais os po<strong>de</strong>rosos, sejam eles lí<strong>de</strong>res políticos, empresários ou outros atores,<br />
fiquem obrigados a prestar contas <strong>de</strong> suas ações.<br />
Nesse caminho não há atalhos: consolidar a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é um processo, não<br />
um ato isolado.<br />
Fazer, porém, com que as instituições públicas tenham um <strong>de</strong>sempenho efetivo<br />
é apenas <strong>uma</strong> parte do <strong>de</strong>safio. Além disso, é preciso <strong>de</strong>monstrar aos cidadãos<br />
que os governos <strong>de</strong>mocráticos estão cuidando dos problemas que verda<strong>de</strong>iramente<br />
preocupam os povos, que são capazes <strong>de</strong> respon<strong>de</strong>r a essas indagações e<br />
que estão sujeitos ao efetivo controle da cidadania quando não o fazem.<br />
Na prática, o <strong>de</strong>safio implica também na construção <strong>de</strong> instituições legislativas<br />
e jurídicas capazes <strong>de</strong> proteger os direitos h<strong>uma</strong>nos e <strong>de</strong> gerar espaço para um<br />
<strong>de</strong>bate político vigoroso e pacífico. Ele inclui o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> <strong>uma</strong> força<br />
policial capaz <strong>de</strong> garantir ruas e fronteiras seguras; um po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>scentralizado,<br />
14<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
para que a população <strong>de</strong> cada localida<strong>de</strong> possa mobilizar-se para garantir escolas<br />
com professores bem capacitados e hospitais com equipamento e medicamentos<br />
apropriados; <strong>uma</strong> florescente socieda<strong>de</strong> civil e <strong>uma</strong> imprensa livre. O <strong>de</strong>safio implica,<br />
ainda, que todos esses atores tenham plena participação na consolidação da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e estejam na vanguarda da luta contra a corrupção e a má administração<br />
<strong>de</strong> governos e empresas.<br />
Os Objetivos <strong>de</strong> Desenvolvimento do Milênio (ODM) das Nações Unidas<br />
— que vão <strong>de</strong> reduzir à meta<strong>de</strong> a pobreza extrema e a fome até assegurar que,<br />
no ano 2015, todas as meninas e meninos freqüentem escolas — oferecem um<br />
instrumento para ajudar a aten<strong>de</strong>r a essas questões no nível nacional e regional.<br />
Num sentido muito real, os ODM constituem o primeiro manifesto global para<br />
mulheres e homens, meninas e meninos <strong>de</strong> todo o mundo: um conjunto <strong>de</strong> questões<br />
concretas, mensuráveis e enunciadas sinteticamente, <strong>de</strong> forma que qualquer<br />
um possa compreendê-las e honrá-las.<br />
Como parte <strong>de</strong> um pacto global entre países ricos e pobres, em face do compromisso<br />
assumido pelo mundo <strong>de</strong>senvolvido <strong>de</strong> apoiar os países em <strong>de</strong>senvolvimento<br />
que levam a cabo reformas <strong>de</strong> boa fé, os ODM oferecem <strong>uma</strong> oportunida<strong>de</strong><br />
real para canalizar o apoio externo em termos <strong>de</strong> acesso a mercados, alívio<br />
da dívida e maior assistência, <strong>de</strong> que tantos países latino-americanos necessitam<br />
<strong>de</strong>sesperadamente para impulsionar seus próprios esforços.<br />
Se a América Latina e o mundo aproveitarem esta oportunida<strong>de</strong>, existirá então<br />
possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> se construir um novo círculo virtuoso, por meio do qual o<br />
crescimento econômico renovado dê impulso aos ODM e aju<strong>de</strong> simultaneamente<br />
a construir e sustentar <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s mais efetivas e capazes <strong>de</strong> acelerar um progresso<br />
social e econômico eqüitativo. Para fazer <strong>de</strong>ssa visão <strong>uma</strong> realida<strong>de</strong>, será<br />
preciso, porém, que os latino-americanos, e especialmente os lí<strong>de</strong>res em todas as<br />
esferas, enfrentem <strong>de</strong>cididamente as questões críticas que afetam a governabilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mocrática e que possam assegurar que <strong>de</strong>senvolvimento e <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
continuem sendo entendidos, não como alternativas, mas como dois lados da<br />
mesma moeda.<br />
Mark Malloch Brown<br />
Administrador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento<br />
Prólogo do Administrador do PNUD<br />
15
16<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Prefácio da Diretora Regional para<br />
América Latina e Caribe do PNUD<br />
HOUVE UM MOMENTO, NÃO FAZ MUITO TEMPO, em que muitos acreditaram<br />
que a política estava morta: o mercado impessoal e o saber tecnocrático<br />
se encarregariam <strong>de</strong> levar-nos ao <strong>de</strong>senvolvimento. O mercado, porém, pressupõe<br />
a segurança jurídica dada pelas instituições. E a tecnologia não diz para quê<br />
nem para quem, mas apenas como.<br />
Por isso, nestes últimos anos, os economistas e os organismos <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
voltaram os olhos para as instituições, para as opções e para os conflitos.<br />
Vale dizer, voltaram a <strong>de</strong>scobrir a política (embora prefiram não dizer isso).<br />
O Relatório faz parte <strong>de</strong>sse re<strong>de</strong>scobrimento e quer, ao mesmo tempo, ajudálo.<br />
Em outras palavras, contribui para a reinvenção da política como sustentáculo<br />
do <strong>de</strong>senvolvimento latino-americano.<br />
Assim, a pedido dos governos, o PNUD vem dando cada vez mais atenção<br />
ao <strong>de</strong>safio <strong>de</strong> consolidar a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina e no Caribe. De fato,<br />
a maioria dos programas nacionais <strong>de</strong> cooperação tem em vista esse propósito,<br />
mediante a mo<strong>de</strong>rnização do estado e <strong>de</strong> seus diferentes ramos, a reforma política,<br />
a governança local e a a<strong>de</strong>quada inserção na al<strong>de</strong>ia global. Em nada menos<br />
que 17 países, acompanhamos diálogos que ajudam a construir consensos entre<br />
autorida<strong>de</strong>s, forças políticas, socieda<strong>de</strong> civil e atores não tradicionais. Por sermos<br />
<strong>uma</strong> organização <strong>de</strong> conhecimento, vários projetos regionais e nacionais empenharam-se<br />
ou estão empenhados em avaliar alternativas e difundir boas práticas<br />
no que tange à governabilida<strong>de</strong>.<br />
Nesse contexto, o Conselho Executivo do PNUD aprovou o II Marco <strong>de</strong> Cooperação<br />
Regional para o período 2001-2005, no qual está incluída “a preparação<br />
<strong>de</strong> um Relatório sobre o estado da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina [que] será<br />
resultado <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s conjuntas <strong>de</strong> acadêmicos e agentes políticos e sociais da<br />
região 1 “. O texto que tenho hoje a honra <strong>de</strong> apresentar é o primeiro resultado<br />
<strong>de</strong>sse processo, em que participaram mais <strong>de</strong> 100 analistas, 32 presi<strong>de</strong>ntes ou<br />
ex-presi<strong>de</strong>ntes, mais <strong>de</strong> 200 lí<strong>de</strong>res políticos ou sociais e quase 19 mil cidadãos<br />
entrevistados em 18 países.<br />
Em seu sentido mais elementar, <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> nada mais é do que “o governo do<br />
povo”. O Relatório procura levar a sério essa velha idéia, para pô-la em diálogo<br />
com o presente e o futuro <strong>de</strong> nossa América: governo do povo significa que as<br />
<strong>de</strong>cisões que nos afetam a todos sejam tomadas por todos. No contexto da América<br />
Latina, há, portanto, que se celebrar a existência <strong>de</strong> governos eleitos pelo voto<br />
popular e os progressos na representação e participação na esfera política duran-<br />
1 Conselho Executivo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e do Fundo <strong>de</strong> População<br />
das Nações Unidas, Primeiro Período Ordinário <strong>de</strong> Sessões <strong>de</strong> 2002.<br />
Prefácio da Diretora Regional para América Latina e Caribe do PNUD<br />
17
te as últimas décadas. Mas persiste o <strong>de</strong>safio <strong>de</strong> engran<strong>de</strong>cer a política, isto é, <strong>de</strong><br />
submeter ao <strong>de</strong>bate e à <strong>de</strong>cisão coletiva todos os assuntos que afetam o <strong>de</strong>stino<br />
coletivo, o que acarreta, por sua vez, maior diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> opções e mais po<strong>de</strong>r ao<br />
Estado, para que este possa cumprir os mandatos da cidadania.<br />
Governo do povo significa, então, um estado <strong>de</strong> cidadãos plenos. Uma forma,<br />
sem dúvida, <strong>de</strong> eleger as autorida<strong>de</strong>s, mas, além disso, <strong>uma</strong> forma <strong>de</strong> organização<br />
que garante os direitos <strong>de</strong> todos: os direitos civis (garantias contra a opressão),<br />
os direitos políticos (tomar parte nas <strong>de</strong>cisões públicas ou coletivas) e os direitos<br />
sociais (acesso ao bem-estar). É a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> da cidadania que o Relatório propõe<br />
e que serve <strong>de</strong> eixo or<strong>de</strong>nador <strong>de</strong> sua análise.<br />
Assim, a idéia seminal e o convite essencial do texto que estou apresentando<br />
é avançar na direção <strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadãs e cidadãos mediante a ampliação<br />
da política.<br />
Será necessário advertir que “política” não é só (e não é sempre) o que fazem<br />
os políticos, e sim o que fazem os cidadãos e suas organizações quando se ocupam<br />
da coisa pública Ou haverá necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> acrescentar que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
assim entendida é <strong>uma</strong> forma <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento h<strong>uma</strong>no Se <strong>de</strong>senvolvimento<br />
h<strong>uma</strong>no, como mais <strong>de</strong> <strong>uma</strong> vez disseram os Relatórios do PNUD, é “o aumento<br />
das opções para que as pessoas possam melhorar sua vida 2 “ , eu diria que <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
é <strong>de</strong>senvolvimento h<strong>uma</strong>no na esfera pública, é aumentar as opções <strong>de</strong><br />
caráter coletivo que inci<strong>de</strong>m na qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> nossas vidas. E assim, a afirmação<br />
<strong>de</strong> Amartya Sen —“<strong>de</strong>senvolvimento h<strong>uma</strong>no é o processo <strong>de</strong> expansão das liberda<strong>de</strong>s<br />
reais <strong>de</strong> que goza um povo” 3 — vem a ser, <strong>de</strong> fato, <strong>uma</strong> <strong>de</strong>finição <strong>de</strong><br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
O <strong>de</strong>bate está aberto. Como manter a vigência e aperfeiçoar o regime <strong>de</strong>mocrático<br />
<strong>de</strong> que agora <strong>de</strong>sfrutam nossos países Como expandir a cidadania social,<br />
como reduzir a pobreza e a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>, que continuam sendo a nossa gran<strong>de</strong><br />
mancha e a gran<strong>de</strong> ameaça a esse regime <strong>de</strong>mocrático Como ampliar a política<br />
ou como recuperar o que é público para o <strong>de</strong>bate e a participação das pessoas<br />
Como <strong>de</strong>volver a economia à política, ou como, sem populismos, direcionar o<br />
mercado para a cidadania e a serviço <strong>de</strong>la Como fazer com que o Estado se<br />
empenhe em <strong>de</strong>mocratizar a socieda<strong>de</strong> Como conseguir que ele se imponha<br />
aos po<strong>de</strong>res fáticos, ou <strong>de</strong> fato Como, enfim, fazer com que a al<strong>de</strong>ia global seja<br />
governada e que esse governo represente também as latino-americanas e os latino-americanos<br />
O Relatório não preten<strong>de</strong> dar as respostas, e sim ajudar a <strong>de</strong>finir as perguntas.<br />
Ainda mais: o texto é apenas um pré-texto, no sentido tanto <strong>de</strong> texto prévio que<br />
quer ser melhorado como no <strong>de</strong> <strong>de</strong>sculpa ou ocasião para continuar um diálogo<br />
já iniciado.<br />
2 Esta <strong>de</strong>finição foi proposta pela primeira vez no Informe Sobre Desarrollo H<strong>uma</strong>no, Bogotá, Tercer<br />
Mundo, 1990, p. 33.<br />
3 Desarrollo y Libertad, Madrid, Planeta, 2000, p. 13.<br />
18 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Esse diálogo é a razão <strong>de</strong> ser do Projeto sobre o Desenvolvimento da Democracia<br />
na América Latina (PRODDAL), que o PNUD leva a cabo com o generoso<br />
apoio da União Européia e <strong>de</strong> governos, instituições e pessoas a quem não me<br />
cabe enumerar, mas sim, certamente, agra<strong>de</strong>cer.<br />
Um fruto <strong>de</strong> seus esforços é o Relatório. Outros frutos; que, esperamos, estimularão<br />
e enriquecerão um <strong>de</strong>bate urgente (ao qual eu chamaria “<strong>de</strong>bate sobre<br />
a <strong>de</strong>mocratização <strong>de</strong> nossas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s”), são: o livro no qual 26 <strong>de</strong>stacados<br />
intelectuais procuram dar respostas a essas questões, o compêndio estatístico<br />
que permite um escrutínio integral das cidadanias e os ensaios acadêmicos que<br />
sustentam nosso modo <strong>de</strong> enten<strong>de</strong>r a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
A América Latina é múltipla e <strong>uma</strong> só. Por isso, o <strong>de</strong>bate político tem que<br />
ocorrer a partir das realida<strong>de</strong>s e dos sonhos próprios <strong>de</strong> cada pais, razão pela qual<br />
previmos encontros em cada um. Uma série <strong>de</strong> eventos regionais, a re<strong>de</strong> <strong>de</strong> atores<br />
da governabilida<strong>de</strong> que acompanha o PRODDAL e, evi<strong>de</strong>ntemente, a “e-comunicação”<br />
interativa são outros tantos cenários nos quais queremos prosseguir com<br />
este diálogo. Bem-vindos!<br />
Elena Martínez<br />
Administradora Auxiliar e Diretora Regional do PNUD para a América Latina e o<br />
Caribe.<br />
Prefácio da Diretora Regional para América Latina e Caribe do PNUD<br />
19
20 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Apresentação<br />
Liberda<strong>de</strong>, <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e política<br />
O RELATÓRIO SOBRE A DEMOCRACIA NA AMÉRICA LATINA propõe alg<strong>uma</strong>s<br />
respostas às incertezas e aos questionamentos das socieda<strong>de</strong>s latino-americanas<br />
sobre sua <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Fizemos esta exploração levando em conta, prioritariamente,<br />
a <strong>de</strong>manda, ou seja, as indagações que nossas mulheres e homens<br />
formulam e que não estão sendo eficientemente tratadas no <strong>de</strong>bate político.<br />
Nossa ambição é que ele venha a ser <strong>uma</strong> ferramenta para o <strong>de</strong>bate das socieda<strong>de</strong>s,<br />
que chegue a elas e que lhes aju<strong>de</strong> a compreen<strong>de</strong>r melhor suas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
e suas necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> aprimoramento.<br />
Não há problemas com a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, mas há problemas na <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Para<br />
resolvê-los, é indispensável fazer uso do mais precioso instrumento que ela nos<br />
oferece: a liberda<strong>de</strong>. Liberda<strong>de</strong> para discutir o que perturba, o que alguns prefeririam<br />
que ficasse oculto. Liberda<strong>de</strong> para dizer que o rei está nu e procurar compreen<strong>de</strong>r<br />
por quê. Liberda<strong>de</strong> para saber por que um sistema que é quase sinônimo<br />
<strong>de</strong> igualda<strong>de</strong> convive com a mais alta <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> do planeta; para saber se o<br />
que discutimos é o que precisamos discutir ou o que outros nos impuseram, para<br />
saber quais são nossas urgências e priorida<strong>de</strong>s.<br />
Sem dúvida nenh<strong>uma</strong>, conhecendo suas limitações, trata-se <strong>de</strong> um Relatório<br />
para exercitar a liberda<strong>de</strong>, o que em política significa, antes <strong>de</strong> tudo, exercer a<br />
capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> reconhecer e <strong>de</strong>cidir o que queremos fazer com nossas socieda<strong>de</strong>s;<br />
porque, em parte, a crise <strong>de</strong> representação na política é atacada com mais eficácia<br />
quando sabemos o que pleitear, o que exigir <strong>de</strong> nossos representantes.<br />
Evi<strong>de</strong>ntemente, não é um texto em si mesmo que atingirá esse objetivo. Além<br />
disso, é indispensável promover ativamente o <strong>de</strong>bate e incorporar no quotidiano<br />
das <strong>de</strong>cisões das organizações sociais os temas aqui propostos e outros que possamos<br />
ter omitido. Faz-se necessário provocar <strong>uma</strong> nova discussão.<br />
Para esse fim, o relatório contém <strong>uma</strong> análise crítica da situação <strong>de</strong> nossas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s,<br />
feita a partir da própria <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Isso nos levou necessariamente a<br />
<strong>de</strong>stacar déficits e carências.<br />
No exercício <strong>de</strong> exploração daquilo que falta existe, porém, um perigo: esquecer<br />
o que temos. Os déficits, as lacunas, as ciladas que se lançam sobre nossas<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s não <strong>de</strong>veriam levar-nos a esquecer que <strong>de</strong>ixamos para trás a longa<br />
noite do autoritarismo. Foram-se as histórias dos temores, dos assassinatos, dos<br />
<strong>de</strong>saparecimentos, das torturas e do silêncio esmagador que tem a falta <strong>de</strong> liberda<strong>de</strong>.<br />
A história, em que uns poucos se apo<strong>de</strong>raram do direito <strong>de</strong> interpretar e<br />
<strong>de</strong>cidir o <strong>de</strong>stino <strong>de</strong> todos, ficou para trás. Temos problemas, numerosos e alguns<br />
muito graves, mas guardamos a memória <strong>de</strong>sse passado, e <strong>de</strong>sejaríamos que ele<br />
não se esgotasse em nós, para que nossos filhos saibam que a liberda<strong>de</strong> não nas-<br />
Apresentação<br />
21
ceu espontaneamente; que protestar, falar, pensar e <strong>de</strong>cidir, com a dignida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
mulheres e homens livres, foi <strong>uma</strong> conquista árdua e <strong>de</strong>morada. Precisamos ser<br />
críticos com a nossa <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, porque essas lembranças nos obrigam a custodiá-la<br />
e aperfeiçoá-la.<br />
É por meio da política que se plasma a construção <strong>de</strong>mocrática. Aqui ocorre<br />
algo semelhante ao que acabo <strong>de</strong> indicar: também a política tem graves carências,<br />
o que tem produzido crescente repulsa em nossas socieda<strong>de</strong>s à face daqueles que<br />
a praticam. O Relatório não é benigno quando trata <strong>de</strong> mostrar a gravida<strong>de</strong> da<br />
crise da política e dos políticos. Estes políticos, porém, é que se lançaram às lutas,<br />
que optaram entre custos, que pagaram com seu prestígio ou sua honra por seus<br />
<strong>de</strong>feitos ou falhas. Eles não têm a pureza daqueles que só assumem o risco <strong>de</strong><br />
opinar. Muitos têm a simples valentia <strong>de</strong> lutar, em um ambiente em que, muitas<br />
vezes, o que se enfrenta não são gran<strong>de</strong>s idéias, mas, sim, paixões e misérias. Alguns<br />
temem e abandonam a política, outros cometem erros e, <strong>de</strong> um ou <strong>de</strong> outro<br />
modo, pagam por eles; <strong>uma</strong> maioria, porém, faz algo mais do que opinar sobre<br />
como as coisas <strong>de</strong>veriam ser feitas. Eles tentam, apostam, per<strong>de</strong>m, e muitos voltam<br />
a tentá-lo, alguns com êxito.<br />
Não existe aqui nada parecido com <strong>uma</strong> reivindicação sentimental dos políticos,<br />
mas simplesmente a advertência <strong>de</strong> que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não é <strong>uma</strong> construção<br />
idílica. Ela requer mulheres e homens dispostos a lutar neste turbulento território<br />
em que se <strong>de</strong>senvolvem os interesses e as paixões, as lutas reais, que são as<br />
lutas do po<strong>de</strong>r.<br />
Democracia se faz com política, única ativida<strong>de</strong> capaz <strong>de</strong> reunir a árdua e maravilhosa<br />
tarefa <strong>de</strong> lidar com a condição h<strong>uma</strong>na para construir <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong><br />
mais digna.<br />
Como disse Weber: “a política é <strong>uma</strong> dura e prolongada penetração através<br />
<strong>de</strong> resistências tenazes, e para isso são necessárias, ao mesmo tempo, paixão e<br />
comedimento. É certo, sem dúvida, e assim o <strong>de</strong>monstra a história, que nunca<br />
se consegue o possível neste mundo se não se tentar, vez por outra, o impossível.<br />
Para ser capaz <strong>de</strong> fazer isso, porém, é necessário ser um caudilho e assim também<br />
um herói, no sentido mais simples do termo. Mesmo aqueles que não são nem<br />
um nem outro precisam armar-se <strong>de</strong>s<strong>de</strong> agora com essa fortaleza <strong>de</strong> ânimo que<br />
permite suportar a <strong>de</strong>struição <strong>de</strong> todas as esperanças, se não quiserem ver-se incapacitados<br />
<strong>de</strong> realizar mesmo aquilo que hoje é possível. Só quem está seguro <strong>de</strong><br />
não se abater quando, do seu ponto <strong>de</strong> vista, o mundo se mostra <strong>de</strong>masiadamente<br />
estúpido ou <strong>de</strong>masiadamente abjeto para o que ele oferece; somente quem,<br />
em face <strong>de</strong> tudo isso, é capaz <strong>de</strong> respon<strong>de</strong>r com um ‘apesar disso’, somente um<br />
homem construído <strong>de</strong>ssa forma tem ‘vocação para a política’”.<br />
Finalmente, <strong>uma</strong> advertência sobre as limitações do trabalho. O Relatório<br />
sobre a Democracia na América Latina aborda a análise <strong>de</strong> nossa situação, oferece<br />
<strong>uma</strong> ampla base empírica e propõe um temário sobre seus <strong>de</strong>safios centrais.<br />
Não obstante, é um esforço parcial. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é um fenômeno cuja dimen-<br />
22 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
são h<strong>uma</strong>na e cultural é central. A história que recebemos, os impulsos sociais<br />
suscitados pelas esperanças e frustrações, as paixões <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>adas em torno das<br />
relações <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r, não raro contêm explicações ou indícios dos quais os dados e<br />
a análise não dão plena conta. Advertimos sobre essa ausência para indicar que<br />
estamos conscientes <strong>de</strong>la e para frisar nossa reticência em encerrar em categorias<br />
analíticas e em cifras a imensa complexida<strong>de</strong> dos fenômenos h<strong>uma</strong>nos. Só trabalhamos<br />
sobre um segmento, importante e necessário, da vasta experiência que a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> contém.<br />
Dante Caputo<br />
Coor<strong>de</strong>nador do Relatório<br />
Apresentação<br />
23
24 A El <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong>sarrollo <strong>de</strong> na la América <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> Latinaem América Latina
RESUMO<br />
Introdução<br />
O presente Relatório sobre A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
na América Latina: <strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
<strong>de</strong> cidadãs e cidadãos faz parte da estratégia<br />
do Programa das Nações Unidas para<br />
o Desenvolvimento (PNUD) no sentido <strong>de</strong><br />
fortalecer a governabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática e<br />
o <strong>de</strong>senvolvimento h<strong>uma</strong>no. Elaborado pelo<br />
Projeto sobre o Desenvolvimento da Democracia<br />
na América Latina (PRODDAL), é<br />
o primeiro insumo <strong>de</strong> um processo <strong>de</strong> maior<br />
fôlego e diálogo social. Seu propósito é avaliar<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina, não só<br />
como regime eleitoral, mas também como<br />
<strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadãos. Sob esse enfoque,<br />
i<strong>de</strong>ntificam-se conquistas, limites e <strong>de</strong>safios,<br />
e propõe-se <strong>uma</strong> agenda <strong>de</strong> reformas<br />
para fortalecer o <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
na região.<br />
Embora 140 países do mundo estejam<br />
vivendo hoje sob regimes <strong>de</strong>mocráticos –<br />
fato valorizado como <strong>uma</strong> gran<strong>de</strong> conquista<br />
– somente em 82 existe <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
plena 1 . De fato, muitos governos eleitos <strong>de</strong>mocraticamente<br />
ten<strong>de</strong>m a manter sua autorida<strong>de</strong><br />
com métodos não <strong>de</strong>mocráticos,<br />
por exemplo, modificando as constituições<br />
nacionais em seu favor e intervindo<br />
nos processos eleitorais e/ou restringindo a<br />
in<strong>de</strong>pendência dos po<strong>de</strong>res legislativo e judiciário.<br />
Esses fatos <strong>de</strong>monstram que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
não se reduz só ao ato eleitoral,<br />
mas requer eficiência, transparência e eqüida<strong>de</strong><br />
nas instituições públicas e também<br />
<strong>uma</strong> cultura que aceite a legitimida<strong>de</strong> da<br />
oposição política, reconheça os direitos <strong>de</strong><br />
todos e advogue por eles.<br />
Paralelamente ao que foi colocado, em<br />
muitos casos, a crescente frustração pela falta<br />
<strong>de</strong> oportunida<strong>de</strong>s e pelos altos níveis <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>, pobreza e exclusão social manifesta-se<br />
em mal-estar, perda <strong>de</strong> confiança<br />
no sistema político, ações radicalizadas e crises<br />
<strong>de</strong> governabilida<strong>de</strong>, fatos esses que colocam<br />
em risco a estabilida<strong>de</strong> do próprio regime<br />
<strong>de</strong>mocrático.<br />
De acordo com o Relatório do Desenvolvimento<br />
H<strong>uma</strong>no 2002, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não é<br />
apenas um valor em si mesmo, como também<br />
um meio necessário para o <strong>de</strong>senvolvimento.<br />
Para o PNUD, a governabilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mocrática é um elemento central do <strong>de</strong>senvolvimento<br />
h<strong>uma</strong>no, porque por meio<br />
da política, e não só da economia, é possível<br />
gerar condições mais eqüitativas e aumentar<br />
as opções das pessoas. Na medida em que a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> possibilita o diálogo que inclui<br />
os diferentes grupos sociais e, paralelamente,<br />
<strong>de</strong>s<strong>de</strong> que as instituições públicas se fortaleçam<br />
e sejam mais eficientes, será possível<br />
alcançar os Objetivos <strong>de</strong> Desenvolvimento<br />
do Milênio, principalmente, no que se refere<br />
a reduzir a pobreza. Nesse sentido, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
é o marco propício para abrir espaços<br />
<strong>de</strong> participação política e social, principalmente<br />
para os que mais sofrem: os pobres e<br />
as minorias étnicas e culturais.<br />
Essa contribuição organiza-se ao redor<br />
<strong>de</strong> três perguntas: Qual é o estado da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
na América Latina Quais são as<br />
percepções e quão forte é o apoio <strong>de</strong> lí<strong>de</strong>res<br />
e cidadãos à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> Quais seriam<br />
os principais temas <strong>de</strong> um <strong>de</strong>bate visando<br />
a um maior avanço na <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadãos<br />
Buscou-se respon<strong>de</strong>r a elas ao longo<br />
das seções <strong>de</strong>ste Relatório. Na primeira seção,<br />
<strong>de</strong>fine-se a base conceitual utilizada no<br />
estudo e contextualiza-se o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> em <strong>uma</strong> região com altos<br />
níveis <strong>de</strong> pobreza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>. Na segunda<br />
seção, analisam-se os dados obtidos<br />
mediante diversos instrumentos empíricos<br />
aplicados: indicadores e índices das cidadanias<br />
política, civil e social; <strong>uma</strong> pesquisa <strong>de</strong><br />
opinião respondida por 19.508 cidadãos dos<br />
1 PNUD 2002, Relatório do Desenvolvimento H<strong>uma</strong>no 2002 . Mundi-Prensa: Madrid (p. 10).<br />
Resumo<br />
25
O Relatório valoriza<br />
os principais<br />
avanços da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> como<br />
regime político<br />
na América<br />
Latina, e<br />
i<strong>de</strong>ntifica a<br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> e a<br />
pobreza como<br />
suas principais<br />
<strong>de</strong>ficiências.<br />
<strong>de</strong>zoito países consi<strong>de</strong>rados, e <strong>uma</strong> rodada<br />
<strong>de</strong> consultas a 231 lí<strong>de</strong>res sobre os <strong>de</strong>safios<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina. A terceira<br />
seção busca ampliar a agenda pública sobre<br />
o <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, centrada<br />
na crise da política, nas reformas estatais<br />
e estruturais da economia e no impacto da<br />
globalização na região.<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e a idéia <strong>de</strong><br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
Os 18 países da América Latina consi<strong>de</strong>rados<br />
neste Relatório cumprem hoje os requisitos<br />
fundamentais do regime <strong>de</strong>mocrático;<br />
só três <strong>de</strong>les viviam em <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> há<br />
25 anos. Contudo, ao mesmo tempo em que<br />
as latino-americanas e os latino-americanos<br />
consolidam seus direitos políticos, enfrentam<br />
altos níveis <strong>de</strong> pobreza e a mais alta<br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> do mundo. Desse modo, indica-se<br />
que existem fortes tensões entre a expansão<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e a economia, a busca<br />
da eqüida<strong>de</strong> e a superação da pobreza.<br />
O Relatório valoriza os principais avanços<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> como regime político na<br />
América Latina, e i<strong>de</strong>ntifica a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> e<br />
a pobreza como suas principais <strong>de</strong>ficiências.<br />
Além disso, aponta a urgência <strong>de</strong> <strong>uma</strong> política<br />
geradora <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>mocrático, cujo objetivo<br />
seja a cidadania integral.<br />
O que <strong>de</strong>vemos enten<strong>de</strong>r por “cidadania<br />
integral” Como terá inferido o leitor, ela<br />
abrange um espaço substancialmente maior<br />
do que o do mero regime político e suas regras<br />
institucionais. Falar <strong>de</strong> cidadania integral<br />
é consi<strong>de</strong>rar que o cidadão <strong>de</strong> hoje <strong>de</strong>ve<br />
ter acesso a seus direitos cívicos, sociais, econômicos<br />
e culturais em perfeita harmonia, e<br />
que todos eles formam um conjunto indivisível<br />
e articulado.<br />
O presente estudo assume e ressalta, como<br />
elementos importantes para a análise,<br />
as diferenças marcantes entre os países da<br />
região, mas também aponta que, em matéria<br />
<strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, existem problemas regionais<br />
comuns e diversida<strong>de</strong> nacional nas<br />
respostas.<br />
Com base nos fundamentos teóricos, argumenta-se<br />
que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>:<br />
■ pressupõe <strong>uma</strong> idéia do ser h<strong>uma</strong>no e<br />
da construção da cidadania;<br />
■ é <strong>uma</strong> forma <strong>de</strong> organização do po<strong>de</strong>r<br />
que implica a existência e o bom funcionamento<br />
do Estado;<br />
■ implica <strong>uma</strong> cidadania integral, isto é,<br />
o pleno reconhecimento da cidadania política,<br />
da cidadania civil e da cidadania social.<br />
■ é <strong>uma</strong> experiência histórica particular<br />
na região, que <strong>de</strong>ve ser entendida e avaliada<br />
em sua especificida<strong>de</strong>.<br />
■ tem no regime eleitoral um elemento<br />
fundamental, mas não se reduz às eleições.<br />
Balanço da cidadania integral<br />
Para medir os avanços em cidadania política,<br />
foi utilizado o Índice <strong>de</strong> Democracia<br />
Eleitoral (IDE) que, apesar <strong>de</strong> medir apenas<br />
um aspecto do sistema político, correspon<strong>de</strong><br />
à dimensão ou condição mínima para que<br />
se possa falar <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Os dados mostram<br />
que na região existem hoje “<strong>de</strong> mocracias<br />
eleitorais”. Mais pontualmente, eles indicam<br />
que:<br />
■ Em todos os países se reconhece o direito<br />
universal ao voto.<br />
■ Apesar <strong>de</strong> alguns problemas, em geral,<br />
as eleições nacionais foram limpas entre<br />
1990 e 2002 2 .<br />
■ Nesse mesmo período, ocorreram importantes<br />
restrições à liberda<strong>de</strong> eleitoral em<br />
10 <strong>de</strong> 70 eleições nacionais, mas a tendência<br />
geral foi positiva.<br />
■ Houve um avanço na questão das eleições<br />
serem um meio <strong>de</strong> acesso a cargos públicos:<br />
a passagem do mando eleitoral se<br />
converteu em <strong>uma</strong> prática comum, apesar<br />
<strong>de</strong>, em alguns casos, ter ocorrido em meio a<br />
complexas crises constitucionais.<br />
No entanto, os dados também <strong>de</strong>monstram<br />
que a participação eleitoral é irregular<br />
– em alguns países apresenta níveis muito<br />
baixos – e que, na disputa eleitoral, existem<br />
barreiras para a entrada <strong>de</strong> novos ato-<br />
2 A informação contida no Relatório, em geral, utiliza dados atualizados até 2002.<br />
26 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
es. Uma importante conquista é a abertura<br />
<strong>de</strong> espaços políticos para as mulheres, mediante<br />
<strong>uma</strong> porcentagem <strong>de</strong> vagas ou cotas<br />
nas listas dos partidos. Entretanto, a representação<br />
<strong>de</strong> povos originários e afro-<strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes<br />
no parlamento é, em geral, ainda<br />
muito reduzida. Os partidos políticos, como<br />
agentes <strong>de</strong> representação, também atravessam<br />
<strong>uma</strong> severa crise, que se traduz em<br />
<strong>de</strong>sconfiança, porque as pessoas os sentem<br />
distantes, como um ator indiferente e profissionalizado<br />
que não encarna um projeto<br />
<strong>de</strong> futuro compartilhado.<br />
Quanto aos mecanismos <strong>de</strong> controle político,<br />
não mencionando as eleições, cabe<br />
<strong>de</strong>stacar que o Po<strong>de</strong>r Executivo interfere diretamente<br />
na Corte Suprema <strong>de</strong> vários países,<br />
apesar dos avanços nas reformas constitucionais<br />
para fortalecer a in<strong>de</strong>pendência<br />
e a profissionalização do Po<strong>de</strong>r Judiciário.<br />
Desse modo, nos últimos anos, foram criados<br />
organismos especializados como controladorias<br />
públicas, promotorias e <strong>de</strong>fensorias<br />
do povo. Contudo, a insuficiência <strong>de</strong><br />
recursos e, em alguns casos, a pouca autonomia<br />
do Po<strong>de</strong>r Executivo limitam a eficácia<br />
<strong>de</strong>sses organismos. Finalmente, <strong>uma</strong> gran<strong>de</strong><br />
conquista a ser <strong>de</strong>stacada é a menor influência<br />
ou gravitação política das Forças Armadas<br />
em quase todos os países.<br />
Por conseguinte, apesar dos avanços no<br />
que se refere ao funcionamento eleitoral e<br />
das conquistas em termos institucionais,<br />
persistem sérias <strong>de</strong>ficiências quanto ao controle<br />
da ação estatal que os cidadãos po<strong>de</strong>riam<br />
exercer. Os partidos políticos enfrentam<br />
um momento <strong>de</strong> forte <strong>de</strong>sconfiança<br />
como agentes <strong>de</strong> representação, o que é um<br />
<strong>de</strong>safio-chave para o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong>mocrático.<br />
Assim, a representação <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s<br />
grupos populacionais é, em geral, baixa,<br />
e o comparecimento às urnas é irregular.<br />
Com respeito à cidadania civil, registram-se<br />
importantes conquistas em matéria<br />
<strong>de</strong> legislação, porém é preocupante a limitada<br />
capacida<strong>de</strong> dos Estados <strong>de</strong> garantir esses<br />
direitos na prática.<br />
A maioria dos países ratificou os principais<br />
tratados internacionais e avançou na<br />
normativa nacional referente à igualda<strong>de</strong> legal<br />
e à proteção contra a discriminação, e<br />
também no que diz respeito aos direitos da<br />
mulher. Houve também um avanço na <strong>de</strong>fesa<br />
dos direitos trabalhistas e nos direitos<br />
das crianças. Várias constituições reconheceram<br />
esses direitos, apesar <strong>de</strong> a ratificação<br />
da Convenção sobre os povos indígenas ter<br />
sido protelada.<br />
Não ocorreu o mesmo com os tratados<br />
internacionais nem, em especial, com a vigência<br />
do direito à vida, à integrida<strong>de</strong> física<br />
e à segurança. Não se registrou a queda<br />
esperada nesse tipo <strong>de</strong> violação dos direitos<br />
h<strong>uma</strong>nos, muito embora já não seja cometida<br />
por <strong>de</strong>terminação da cúpula estatal, e sim<br />
por forças para-estatais que o Estado não foi<br />
capaz <strong>de</strong> controlar.<br />
Apesar dos avanços normativos, a nãodiscriminação<br />
ainda não está suficientemente<br />
garantida, pois gran<strong>de</strong>s <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s<br />
são mantidas no tratamento dispensado<br />
a pessoas pertencentes a diferentes grupos,<br />
as leis que protegem as crianças no trabalho<br />
são freqüentemente <strong>de</strong>sobe<strong>de</strong>cidas e os trabalhadores<br />
viram diminuir sua proteção social.<br />
Uma conquista no âmbito trabalhista,<br />
porém, é a tendência ao aumento na eqüida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> gênero.<br />
Com relação aos sistemas <strong>de</strong> administração<br />
<strong>de</strong> justiça, observa-se que a carência<br />
<strong>de</strong> recursos econômicos e h<strong>uma</strong>nos os torna<br />
frágeis. Um tema preocupante, também, é o<br />
que se refere à população carcerária, pois os<br />
direitos dos réus são pouco respeitados, a tal<br />
ponto que mais da meta<strong>de</strong> dos presos carece<br />
<strong>de</strong> sentença.<br />
Quanto à liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> imprensa, o Relatório<br />
<strong>de</strong>tecta que a América Latina ainda se<br />
<strong>de</strong>para com graves falhas. Os avanços quanto<br />
ao direito à informação são mais encorajadores,<br />
pois o acesso às fontes públicas <strong>de</strong><br />
dados é legalmente reconhecido na maioria<br />
dos países.<br />
Em resumo, embora tenha melhorado<br />
a situação dos direitos h<strong>uma</strong>nos em comparação<br />
com a do período não <strong>de</strong>mocrático,<br />
tenham sido ratificadas as convenções<br />
internacionais relativas aos direitos civis e,<br />
inclusive, tenham sido criadas normativas<br />
nacionais nesse sentido, os dados mostram<br />
poucos avanços, fato que <strong>de</strong>veria ser um sinal<br />
<strong>de</strong> alerta. O progresso das questões rela-<br />
Resumo<br />
27
O <strong>de</strong>senvolvimento<br />
<strong>de</strong>mocrático<br />
<strong>de</strong>pen<strong>de</strong> <strong>de</strong> que<br />
se amplie <strong>de</strong><br />
maneira <strong>de</strong>cidida<br />
a cidadania social,<br />
principalmente<br />
a partir da luta<br />
contra a pobreza<br />
e a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong><br />
e da criação <strong>de</strong><br />
postos <strong>de</strong> trabalho<br />
<strong>de</strong> qualida<strong>de</strong>.<br />
cionadas ao direito à vida, à integrida<strong>de</strong> física,<br />
à segurança e à não-discriminação foi<br />
irregular e, em alguns casos, muito insuficiente.<br />
Por outro lado, as tendências <strong>de</strong>tectadas<br />
no que se refere à cidadania social são realmente<br />
preocupantes e representam o principal<br />
<strong>de</strong>safio das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s latino-americanas,<br />
porque, além disso, os grupos mais<br />
excluídos do exercício pleno da cidadania<br />
social são os mesmos que sofrem carências<br />
nas outras dimensões da cidadania.<br />
Os problemas centrais nesse plano são<br />
a pobreza e a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>, que não permitem<br />
que os indivíduos se manifestem como<br />
cidadãos com plenos direitos e <strong>de</strong> maneira<br />
igualitária no âmbito público, e que corroem<br />
a inclusão social. Os indicadores mostram<br />
que todos os países da região são mais<br />
<strong>de</strong>siguais que a média mundial. Em 15 dos<br />
18 países estudados, mais <strong>de</strong> 25 por cento<br />
da população vive abaixo da linha <strong>de</strong> pobreza<br />
e, em 7 <strong>de</strong>les, mais da meta<strong>de</strong> da população<br />
vive nessas condições, embora em 12<br />
<strong>de</strong>les a pobreza até tenha diminuído e, em<br />
15, o PIB per capita tenha aumentado entre<br />
1991 e 2002.<br />
No entanto, cabe <strong>de</strong>stacar alguns avanços<br />
em termos <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> (a <strong>de</strong>snutrição infantil<br />
diminuiu em 13 dos 18 países, a mortalida<strong>de</strong><br />
infantil também se reduziu e a expectativa<br />
<strong>de</strong> vida aumentou) e <strong>de</strong> educação (a taxa <strong>de</strong><br />
analfabetismo diminuiu em todos os países<br />
e o nível <strong>de</strong> escolarida<strong>de</strong> aumentou, porém a<br />
qualida<strong>de</strong> da educação em geral é baixa).<br />
Um tema central é o <strong>de</strong>semprego, pois o<br />
trabalho é um mecanismo-chave <strong>de</strong> inclusão<br />
social e do próprio exercício da cidadania,<br />
que tem um componente econômico. O<br />
aumento nos índices <strong>de</strong> <strong>de</strong>semprego durante<br />
a década <strong>de</strong> noventa é, conseqüentemente,<br />
<strong>uma</strong> das maiores falhas das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
latino-americanas. E ainda mais: a proteção<br />
social dos trabalhadores diminuiu e aumentou<br />
o trabalho informal, em geral não qualificado<br />
e insuficiente para gerar <strong>uma</strong> integração<br />
social que garanta um mínimo <strong>de</strong><br />
bem-estar.<br />
Resumindo, o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong>mocrático<br />
<strong>de</strong>pen<strong>de</strong> <strong>de</strong> que se amplie <strong>de</strong> maneira<br />
<strong>de</strong>cidida a cidadania social, principalmente<br />
a partir da luta contra a pobreza e a<br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> e da criação <strong>de</strong> postos <strong>de</strong> trabalho<br />
<strong>de</strong> qualida<strong>de</strong>. Só será possível diminuir<br />
a pobreza <strong>de</strong> forma sustentável e melhorar<br />
as possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> crescimento<br />
econômico se a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> for reduzida.<br />
Percepções e apoio <strong>de</strong> lí<strong>de</strong>res<br />
e cidadãos<br />
Apesar dos avanços, inclusive em condições<br />
muito precárias, <strong>de</strong>ve-se reconhecer<br />
que, tanto no plano da evolução <strong>de</strong>mocrática<br />
quanto no da dinâmica econômica e social,<br />
a região está vivendo um momento <strong>de</strong><br />
mudanças que em muitos casos assume as<br />
características <strong>de</strong> <strong>uma</strong> crise generalizada.<br />
Conseqüentemente, inicia-se um período <strong>de</strong><br />
transformação tanto nos conteúdos da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
quanto em suas vinculações com<br />
a economia e com a dinâmica social, em um<br />
contexto global também <strong>de</strong> mudança, <strong>de</strong><br />
concentração <strong>de</strong> riqueza e <strong>de</strong> internacionalização<br />
crescente da política. A questão é que<br />
a política, como se po<strong>de</strong> constatar em vários<br />
pontos do Relatório, tem gran<strong>de</strong>s limitações<br />
e está em crise.<br />
Essa crise se manifesta no divórcio entre<br />
os problemas para os quais os cidadãos exigem<br />
<strong>uma</strong> solução e a capacida<strong>de</strong> da política<br />
para enfrentá-los. A política ten<strong>de</strong> a per<strong>de</strong>r<br />
conteúdo em virtu<strong>de</strong> da diminuição da<br />
soberania interior do Estado, que po<strong>de</strong> ser<br />
atribuída a:<br />
■ O <strong>de</strong>sequilíbrio na relação entre política<br />
e mercado.<br />
■ A presença <strong>de</strong> <strong>uma</strong> or<strong>de</strong>m institucional<br />
que limita a capacida<strong>de</strong> dos Estados para<br />
agir com razoável autonomia.<br />
■ O aumento da complexida<strong>de</strong> das socieda<strong>de</strong>s,<br />
que os sistemas <strong>de</strong> representação não<br />
po<strong>de</strong>m processar.<br />
Nesse sentido, os lí<strong>de</strong>res latino-americanos<br />
consultados coinci<strong>de</strong>m em várias questões<br />
quando formulam seu diagnóstico sobre<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Por um lado, valorizam a<br />
<strong>de</strong>mocratização durante a última década e o<br />
fato <strong>de</strong>, pelo menos no plano formal, os países<br />
da região cumprirem os requisitos mí-<br />
28 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
nimos da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Enten<strong>de</strong>m, também,<br />
que a participação e os controles sobre o<br />
exercício do po<strong>de</strong>r aumentaram e que as<br />
ameaças à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> como regime diminuíram,<br />
juntamente com os clássicos riscos<br />
<strong>de</strong> insubordinação militar.<br />
Por outro lado, <strong>de</strong>tectam problemas relacionados<br />
com os partidos políticos e com<br />
os po<strong>de</strong>res fáticos. Quanto aos partidos políticos,<br />
<strong>uma</strong> das principais dificulda<strong>de</strong>s encontradas<br />
é que não conseguem canalizar<br />
completamente as <strong>de</strong>mandas da cidadania.<br />
Desse modo, a relação entre partidos e organizações<br />
da socieda<strong>de</strong> civil cost<strong>uma</strong> ser<br />
conflituosa. Para os lí<strong>de</strong>res consultados, a<br />
solução <strong>de</strong>ssas dificulda<strong>de</strong>s está <strong>de</strong>ntro da<br />
política, com o fortalecimento dos partidos.<br />
Quanto aos po<strong>de</strong>res fáticos (principalmente<br />
o setor econômico e financeiro e os meios <strong>de</strong><br />
comunicação), são vistos como fatores que<br />
condicionam a capacida<strong>de</strong> dos governos <strong>de</strong><br />
dar respostas à cidadania. Entre as tensões<br />
com outros po<strong>de</strong>res fáticos, existe <strong>uma</strong> preocupação<br />
com a perda da autonomia governamental<br />
em relação aos Estados Unidos e<br />
aos organismos multilaterais, assim como<br />
coincidência no que se refere à ameaça representada<br />
pelo narcotráfico.<br />
Por sua vez, a pesquisa <strong>de</strong> opinião pública<br />
realizada para o Relatório apresenta <strong>uma</strong><br />
tensão entre a opção pelo <strong>de</strong>senvolvimento<br />
econômico e a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Os dados obtidos<br />
indicam que:<br />
■ A preferência dos cidadãos pela <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
é relativamente baixa.<br />
■ Gran<strong>de</strong> parte das latino-americanas e<br />
dos latino-americanos dá mais valor ao <strong>de</strong>senvolvimento<br />
do que à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e, inclusive,<br />
retiraria seu apoio a um governo <strong>de</strong>mocrático<br />
se ele fosse incapaz <strong>de</strong> resolver os<br />
seus problemas econômicos.<br />
■ Os não-<strong>de</strong>mocratas pertencem, geralmente,<br />
a grupos com menor educação, cuja<br />
socialização ocorreu, fundamentalmente,<br />
em períodos autoritários, que têm baixas expectativas<br />
<strong>de</strong> mobilida<strong>de</strong> social e <strong>uma</strong> gran<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>sconfiança das instituições <strong>de</strong>mocráticas<br />
e dos políticos.<br />
■ Embora os <strong>de</strong>mocratas estejam distribuídos<br />
em diversos grupos sociais, nos países<br />
com menores níveis <strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> os<br />
cidadãos ten<strong>de</strong>m a apoiar mais a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Contudo, essas pessoas não se manifestam<br />
por meio <strong>de</strong> organizações políticas.<br />
Com base nos dados da pesquisa, visando<br />
a proporcionar <strong>uma</strong> estimativa do grau<br />
<strong>de</strong> respaldo cidadão à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, elaborou-se<br />
o Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia<br />
(IAD), que oferece <strong>uma</strong> visão sintética sobre<br />
o apoio e a possível vulnerabilida<strong>de</strong> das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
latino-americanas.<br />
Concluindo, a informação empírica encontrada,<br />
os resultados da pesquisa <strong>de</strong> opinião<br />
pública e as opiniões <strong>de</strong> diversos lí<strong>de</strong>res<br />
políticos registradas no Relatório coinci<strong>de</strong>m<br />
tanto com a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> reconhecer que a<br />
região vive um momento <strong>de</strong> inflexão e crise,<br />
quanto com a <strong>de</strong> valorizar o sentido da política,<br />
ou seja, sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> criar opções<br />
para promover novos projetos coletivos viáveis.<br />
No coração <strong>de</strong> tal confluência está instalado<br />
o fortalecimento da cidadania.<br />
Elementos para <strong>uma</strong> agenda<br />
O Relatório aponta que o ponto <strong>de</strong> partida<br />
para fortalecer a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> passa pela<br />
revalorização do conteúdo e da relevância<br />
da política, argumenta que as soluções para<br />
os problemas e <strong>de</strong>safios da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> teriam<br />
que ser encontradas <strong>de</strong>ntro e não fora<br />
das instituições <strong>de</strong>mocráticas, e consi<strong>de</strong>ra<br />
que <strong>de</strong>ve ser recuperado um papel construtivo<br />
da política como or<strong>de</strong>nadora das <strong>de</strong>cisões<br />
da socieda<strong>de</strong>.<br />
Nesse sentido, continua com a mesma linha<br />
argumentativa em que o PNUD vem insistindo.<br />
Como afirma seu Administrador,<br />
Mark Malloch Brown, no prefácio do Relatório<br />
do Desenvolvimento H<strong>uma</strong>no 2002 :<br />
“[...] a política é tão importante para o êxito<br />
do <strong>de</strong>senvolvimento quanto para o da<br />
economia. A redução sustentável da pobreza<br />
não só requer um crescimento eqüitativo,<br />
como também que os pobres tenham po<strong>de</strong>r<br />
político. A melhor forma <strong>de</strong> conseguir esse<br />
resultado <strong>de</strong> maneira coerente com os objetivos<br />
do <strong>de</strong>senvolvimento h<strong>uma</strong>no é erigir<br />
formas sólidas e profundas <strong>de</strong> governabilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mocrática em todos os níveis da<br />
socieda<strong>de</strong>” 3 . A revalorização da política pas-<br />
Resumo<br />
29
Com Estados<br />
fracos e<br />
mínimos, só é<br />
possível aspirar<br />
a conservar<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
eleitorais. A<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
integral <strong>de</strong><br />
cidadãs e<br />
cidadãos<br />
requer <strong>uma</strong><br />
“estatalidad”<br />
que garanta a<br />
universalida<strong>de</strong><br />
dos direitos.<br />
sa pela aplicação <strong>de</strong> medidas que promovam<br />
<strong>uma</strong> institucionalida<strong>de</strong> legítima, fortaleçam<br />
<strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong> civil ativa, e, principalmente,<br />
promovam um amplo <strong>de</strong>bate sobre o Estado,<br />
a economia e a globalização.<br />
A agenda proposta pelo Relatório está<br />
voltada para a expansão da cidadania. Para<br />
torná-la sustentável é fundamental <strong>de</strong>senvolver<br />
<strong>uma</strong> política que materialize opções,<br />
reúna esforços e motivações individuais e<br />
crie po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>mocrático.<br />
Urge prosseguir a reforma das instituições,<br />
porém essas iniciativas precisam <strong>de</strong> um<br />
fio condutor que fortaleça a participação. Só<br />
ela po<strong>de</strong>rá tornar essas reformas mais legítimas.<br />
Nesse sentido, um aspecto institucional<br />
chave são as reformas eleitorais que garantam<br />
um melhor equilíbrio entre governabilida<strong>de</strong><br />
e representação.<br />
Muito embora tenham passado por importantes<br />
mudanças, os sistemas <strong>de</strong> partido<br />
ten<strong>de</strong>m a ser instrumentais ou operativos.<br />
No entanto, eles precisam é <strong>de</strong> se fortalecer<br />
para ampliar a eficácia, a transparência e a<br />
responsabilida<strong>de</strong>. Esta é, segundo o Relatório,<br />
a melhor maneira <strong>de</strong> reafirmar o papel<br />
indispensável <strong>de</strong> representação da socieda<strong>de</strong><br />
que eles expressam. Nesse sentido, os partidos<br />
políticos <strong>de</strong>veriam compreen<strong>de</strong>r melhor<br />
as mudanças nas socieda<strong>de</strong>s contemporâneas,<br />
propor novos projetos <strong>de</strong> socieda<strong>de</strong> e<br />
promover <strong>de</strong>bates públicos.<br />
Existe <strong>uma</strong> importante relação entre a cidadania<br />
e as organizações da socieda<strong>de</strong> civil.<br />
Elas são importantes protagonistas na<br />
construção <strong>de</strong>mocrática, no controle da gestão<br />
governamental e no <strong>de</strong>senvolvimento do<br />
pluralismo. É fundamental promover estratégias<br />
<strong>de</strong> fortalecimento da socieda<strong>de</strong> civil e<br />
<strong>de</strong> sua articulação com o Estado e com os<br />
partidos políticos. O Relatório advoga por<br />
formas alternativas <strong>de</strong> representação que,<br />
sem substituir as tradicionais, possam complementá-las<br />
e fortalecê-las.<br />
Uma proposta central é construir <strong>uma</strong><br />
nova legitimida<strong>de</strong> do Estado, <strong>uma</strong> vez que<br />
não existiria <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> sustentável<br />
sem um Estado capaz <strong>de</strong> promover e garantir<br />
o exercício da cidadania. Com Estados<br />
fracos e mínimos, só é possível aspirar<br />
a conservar <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s eleitorais. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
integral <strong>de</strong> cidadãs e cidadãos requer<br />
<strong>uma</strong> “ estatalidad” que garanta a universalida<strong>de</strong><br />
dos direitos.<br />
Por isso, o Relatório convida ao <strong>de</strong>bate<br />
sobre a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> um Estado capaz<br />
<strong>de</strong> conduzir o rumo geral da socieda<strong>de</strong>,<br />
processar os conflitos <strong>de</strong> acordo com<br />
regras <strong>de</strong>mocráticas, garantir eficazmente<br />
o funcionamento do sistema legal, preservar<br />
a segurança jurídica, regular os mercados,<br />
estabelecer equilíbrios macroeconômicos,<br />
fortalecer sistemas <strong>de</strong> proteção social<br />
baseados nos princípios <strong>de</strong> universalida<strong>de</strong> e<br />
assumir a preeminência da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> como<br />
princípio da organização social. A reforma<br />
do Estado teria que ser orientada no sentido<br />
<strong>de</strong> respon<strong>de</strong>r à pergunta sobre o tipo <strong>de</strong><br />
nação que <strong>uma</strong> <strong>de</strong>terminada socieda<strong>de</strong> aspira<br />
a construir. Dessa forma, o que se propõe<br />
aqui é um Estado em função da cidadania.<br />
Outro tema central a ser <strong>de</strong>batido é o das<br />
possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> <strong>uma</strong> economia congruente<br />
com a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, ou seja, <strong>uma</strong> economia<br />
que promova a diversida<strong>de</strong> para fortalecer<br />
as opções cidadãs. Sob essa perspectiva, o<br />
<strong>de</strong>bate sobre a diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> formas <strong>de</strong> organização<br />
do mercado <strong>de</strong>ve fazer parte da<br />
agenda <strong>de</strong> discussão pública. A discussão<br />
sobre o futuro da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não po<strong>de</strong> ignorar<br />
as opções econômicas. A economia é<br />
chave porque <strong>de</strong>la <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> a ampliação da<br />
cidadania social.<br />
Na perspectiva do Relatório, o Estado<br />
e o mercado são passíveis <strong>de</strong> serem combinados<br />
<strong>de</strong> diversas maneiras, tendo como<br />
resultado <strong>uma</strong> varieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> formas que<br />
po<strong>de</strong>m ser adaptadas em função do <strong>de</strong>senvolvimento<br />
h<strong>uma</strong>no. O tipo <strong>de</strong> economia<br />
<strong>de</strong>ve estar no centro do <strong>de</strong>bate público e<br />
não <strong>de</strong>ve ser relegado a <strong>uma</strong> mera questão<br />
técnica. Os avanços na <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e no estabelecimento<br />
<strong>de</strong> normas macroeconômicas<br />
claras e legítimas <strong>de</strong>vem ser consi<strong>de</strong>rados<br />
como complementares.<br />
O Relatório propõe ampliar o <strong>de</strong>bate sobre<br />
o processo <strong>de</strong> globalização. Observa-se<br />
que é perigoso cair em <strong>uma</strong> espécie <strong>de</strong> fa-<br />
3 PNUD 2002, Relatório do Desenvolvimento H<strong>uma</strong>no 2002. Mundi-Prensa: Madrid (p. v<br />
30 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
talismo em face <strong>de</strong> fenômeno; é preciso, ao<br />
contrário, discutir a respeito <strong>de</strong> seu real impacto<br />
sobre a soberania interior dos Estados<br />
e a respeito das melhores estratégias para<br />
fortalecer as nações latino-americanas no<br />
espaço da al<strong>de</strong>ia global. E a política é, justamente,<br />
a força que po<strong>de</strong> construir espaços<br />
autônomos.<br />
Metodologia do Relatório<br />
Para levar a cabo este Relatório, o<br />
PRODDAL contou com o patrocínio da<br />
Direção da América Latina e do Caribe do<br />
PNUD e com a colaboração <strong>de</strong> <strong>de</strong>stacados<br />
intelectuais e acadêmicos, assim como <strong>de</strong><br />
ex-presi<strong>de</strong>ntes e <strong>de</strong> muitas outras personalida<strong>de</strong>s<br />
da região.<br />
O estudo abarcou <strong>de</strong>zoito países (Argentina,<br />
Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa<br />
Rica, Equador, El Salvador, Guatemala,<br />
Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai,<br />
Peru, República Dominicana, Uruguai<br />
e Venezuela 4 ). O marco conceitual foi<br />
amplamente consultado e orientou a busca<br />
<strong>de</strong> informação empírica que inclui:<br />
■ Uma pesquisa <strong>de</strong> opinião <strong>de</strong> alcance<br />
regional (em colaboração com Latinobarômetro).<br />
■ A elaboração <strong>de</strong> indicadores sobre o estado<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
■ Entrevistas com lí<strong>de</strong>res e intelectuais<br />
da América Latina.<br />
Para a elaboração do Relatório, partiu-se<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> análise conceitual e histórica<br />
das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s latino-americanas, a partir<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> ampla revisão bibliográfica dos<br />
múltiplos estudos nacionais. Além disso,<br />
realizaram-se reuniões para discussão dos<br />
componentes do projeto, solicitaram-se a<br />
acadêmicos e personalida<strong>de</strong>s políticas opiniões<br />
e textos sobre diversas facetas do <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na região.<br />
O Relatório não preten<strong>de</strong> avaliar os governos<br />
ou os países, nem elaborar nenhum<br />
tipo <strong>de</strong> ranking nacional da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>; seu<br />
interesse é i<strong>de</strong>ntificar os gran<strong>de</strong>s <strong>de</strong>safios e<br />
promover <strong>uma</strong> ampla discussão em torno<br />
<strong>de</strong>les. Além disso, reconhece-se a dificulda<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> abordar os dilemas da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
pois ela está influenciada por múltiplos fatores<br />
(políticos, econômicos e sociais, nacionais<br />
e internacionais), alguns dos quais, ou<br />
não foram tratados, ou foram tratados <strong>de</strong><br />
maneira muito preliminar.<br />
A<strong>de</strong>mais do Relatório propriamente dito,<br />
foram preparados para difusão em massa<br />
outros produtos complementares como:<br />
■ Um livro com os artigos elaborados<br />
por políticos e <strong>de</strong>stacados acadêmicos que<br />
contribuem com “idéias e posições para um<br />
<strong>de</strong>bate sobre o <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
na América Latina”.<br />
■ Um Compêndio Estatístico que reúne<br />
informação, até agora dispersa, sobre <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
e cidadania integral nos países da<br />
América Latina, os índices construídos para<br />
este Relatório e os resultados da pesquisa<br />
<strong>de</strong> opinião.<br />
■ Os materiais que alimentam o marco<br />
conceitual do Projeto e sua maneira <strong>de</strong> enten<strong>de</strong>r<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, além das opiniões críticas<br />
<strong>de</strong> importantes analistas.<br />
■ Os resultados das rodadas <strong>de</strong> consulta a<br />
dirigentes latino-americanos.<br />
Para finalizar, o Relatório <strong>de</strong>monstra<br />
que, embora muito valiosos, os avanços alcançados<br />
em termos <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina não são<br />
suficientes. É necessário aprofundar tanto<br />
a governabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática, entendida<br />
como o fortalecimento institucional do<br />
regime, quanto, e acima <strong>de</strong> tudo, a cultura<br />
política que pressupõe a construção <strong>de</strong> espaços<br />
<strong>de</strong> participação eqüitativa, sobretudo<br />
dos mais <strong>de</strong>sfavorecidos nas socieda<strong>de</strong>s latino-americanas.<br />
Para isso, é preciso <strong>de</strong>cisão<br />
política, dirigentes comprometidos com<br />
seus países e com a região, e cidadãs e cidadãos<br />
<strong>de</strong>cididos a enfrentar os problemas e<br />
<strong>de</strong>safios para viver cada vez mais e melhor<br />
com <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
4 Estes países têm regimes <strong>de</strong>mocráticos, em sua maioria estabelecidos por meio <strong>de</strong> processos <strong>de</strong> transição <strong>de</strong>senvolvidos<br />
durante os últimos vinte e cinco anos, e seus governos aceitaram ser incorporados ao PRODDAL.<br />
Resumo<br />
31
32 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
primeira seção<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
Nesta seção apresenta-se o tema do Relatório a partir da conquista da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
nos países consi<strong>de</strong>rados, dando-se <strong>de</strong>staque ao fato <strong>de</strong> que na América Latina a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
se instala em socieda<strong>de</strong>s com altos níveis <strong>de</strong> pobreza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>. À primeira<br />
vista, consi<strong>de</strong>rando a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> do ponto <strong>de</strong> vista da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, observa-se que<br />
muitos direitos civis básicos não estão assegurados e que a pobreza e a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong><br />
colocam nossas socieda<strong>de</strong>s entre as mais <strong>de</strong>ficitárias do mundo.<br />
O Relatório inicia com <strong>uma</strong> <strong>de</strong>finição do <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e <strong>de</strong> suas<br />
principais carências na região, contrastando as reformas aplicadas com as realida<strong>de</strong>s<br />
políticas e econômicas. A partir daí, surge um conjunto <strong>de</strong> perguntas: quanta pobreza<br />
e quanta <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> as <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s são capazes <strong>de</strong> tolerar como esses contrastes<br />
influem na coesão social das nações qual a relevância da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> para os latinoamericanos<br />
Os resultados da pesquisa <strong>de</strong> opinião revelam que 54,7 por cento dos latino-americanos<br />
estariam dispostos a aceitar um governo autoritário <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que ele resolvesse<br />
a situação econômica (ver Segunda Seção “Como os latino-americanos vêem<br />
sua <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>”). As razões que explicam esse dado preocupante talvez se encontrem<br />
nos contrastes apontados.<br />
Consta também <strong>de</strong>sta seção <strong>uma</strong> referência aos fundamentos teóricos em que o Relatório<br />
se baseia. As conseqüências práticas da abordagem teórica adotada são importantes,<br />
porque sustentam as <strong>de</strong>scrições, a análise e as propostas com razões sistemáticas<br />
e rigorosas.<br />
Os <strong>de</strong>safios da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina são historicamente singulares. Para<br />
resolvê-los é preciso <strong>uma</strong> nova compreensão e <strong>uma</strong> discussão aberta, para as quais o<br />
Relatório visa a contribuir. Isso requer a <strong>de</strong>finição dos fundamentos teóricos: os conceitos<br />
<strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, cidadania e sujeitos na <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, Estado e regime. Os quatro<br />
argumentos centrais são: 1) a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> implica <strong>uma</strong> concepção do ser h<strong>uma</strong>no e da<br />
construção da cidadania; 2) a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é <strong>uma</strong> forma <strong>de</strong> organização do po<strong>de</strong>r na socieda<strong>de</strong>,<br />
que pressupõe a existência e o bom funcionamento <strong>de</strong> um Estado; 3) o regime<br />
eleitoral é um componente básico e fundamental da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, no entanto, a realização<br />
<strong>de</strong> eleições não esgota seu significado e alcances; e 4) a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> latino-americana<br />
é <strong>uma</strong> experiência histórica distintiva e singular, que <strong>de</strong>ve ser, <strong>de</strong>ssa maneira, reconhecida<br />
e valorizada, avaliada e <strong>de</strong>senvolvida.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
33
34 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
■ O <strong>de</strong>safio: <strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> eleitores<br />
a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadãos 1<br />
quadro 1<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: <strong>uma</strong> busca permanente<br />
É necessário consi<strong>de</strong>rar os <strong>de</strong>srespeitos, as fraturas, as tensões, os<br />
limites e as <strong>de</strong>negações que constituem a contrapartida da experiência da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> formula <strong>uma</strong> pergunta que permanece, portanto,<br />
continuamente pen<strong>de</strong>nte: é como se jamais pu<strong>de</strong>sse ser dada <strong>uma</strong> resposta<br />
perfeitamente a<strong>de</strong>quada. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> apresenta-se como um regime<br />
sempre marcado por formas não acabadas e incumpridas.<br />
Pierre Rosanvallon, texto elaborado para o PRODDAL, 2002.<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é <strong>uma</strong> imensa experiência<br />
h<strong>uma</strong>na. Está ligada à busca histórica <strong>de</strong> liberda<strong>de</strong>,<br />
justiça e progresso material e espiritual.<br />
Por isso é <strong>uma</strong> experiência permanentemente<br />
inconclusa.<br />
Este é um Relatório sobre a tarefa inconclusa<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, sobre seus <strong>de</strong>safios, sobre<br />
quais <strong>de</strong>veriam ser as metas <strong>de</strong> <strong>uma</strong> nova<br />
etapa, em cuja construção entrarão em jogo<br />
sua própria sustentabilida<strong>de</strong> e perduração.<br />
In<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente <strong>de</strong> quais tenham sido<br />
a forma, o ritmo ou o resultado, a busca<br />
da liberda<strong>de</strong>, da justiça e do progresso<br />
permeia toda a história social do ser h<strong>uma</strong>no.<br />
Participamos <strong>de</strong>ssa busca com maior ou<br />
menor consciência <strong>de</strong> nossos objetivos, com<br />
avanços e retrocessos; em s<strong>uma</strong>, com toda a<br />
diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> inci<strong>de</strong>ntes da qual nossa história<br />
está repleta. Mesmo nas circunstâncias<br />
mais difíceis, apesar <strong>de</strong> prolongados períodos<br />
<strong>de</strong> inércia, a luta renasceu e renascerá,<br />
seja para passar da condição <strong>de</strong> escravos à <strong>de</strong><br />
pessoas livres, ou para ampliar a cada dia o<br />
espaço da liberda<strong>de</strong>.<br />
No entanto, possuímos também outro<br />
impulso tão vital quanto os anteriores, expresso<br />
<strong>de</strong> maneira diferente e nos distintos<br />
âmbitos da vida: o impulso <strong>de</strong> dominação e<br />
<strong>de</strong> obter o po<strong>de</strong>r que permite exercê-la.<br />
Em gran<strong>de</strong> parte, nossa vida em socieda<strong>de</strong><br />
se constrói na trama <strong>de</strong>sses impulsos centrais:<br />
sabe-se que on<strong>de</strong> não houver liberda<strong>de</strong>,<br />
justiça e progresso, aí nascerá a luta para<br />
alcançá-los e que, nessa luta, se confrontarão<br />
interesses, pareceres e métodos.<br />
Nossa busca <strong>de</strong> liberda<strong>de</strong>, justiça e progresso,<br />
e a luta pelo po<strong>de</strong>r que se <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ia<br />
quando todos nós procuramos impor<br />
nossos interesses e pareceres sobre esses assuntos,<br />
<strong>de</strong>ram lugar a diversas formas <strong>de</strong> organização<br />
dos seres h<strong>uma</strong>nos. Uma <strong>de</strong>las é a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> se converteu em um sinônimo<br />
<strong>de</strong> liberda<strong>de</strong> e justiça. É, ao mesmo<br />
tempo, um fim e um instrumento. Contém,<br />
basicamente, <strong>uma</strong> série <strong>de</strong> procedimentos<br />
para o acesso e o exercício do po<strong>de</strong>r, mas é<br />
também, para os homens e as mulheres, o<br />
resultado <strong>de</strong>sses procedimentos.<br />
Nessa perspectiva, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não é<br />
só um método para eleger quem governa, é<br />
também <strong>uma</strong> forma <strong>de</strong> construir, garantir e<br />
expandir a liberda<strong>de</strong>, a justiça e o progresso,<br />
organizando as tensões e os conflitos gerados<br />
pelas lutas <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r.<br />
In<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente das diferenças manifestadas<br />
no plano da teoria sobre os alcances<br />
da idéia <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, a história revela<br />
que as aspirações no sentido <strong>de</strong> ampliar as<br />
fronteiras das liberda<strong>de</strong>s cidadãs e <strong>de</strong> atingir<br />
maiores níveis <strong>de</strong> justiça e progresso sempre<br />
estiveram no coração das lutas sociais e<br />
políticas, ligadas, <strong>de</strong> certa forma, à idéia <strong>de</strong><br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Com períodos <strong>de</strong> expansão e<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
é <strong>uma</strong> imensa<br />
experiência<br />
h<strong>uma</strong>na. Está<br />
ligada à busca<br />
histórica <strong>de</strong><br />
liberda<strong>de</strong>, justiça<br />
e progresso<br />
material e<br />
espiritual. Por<br />
isso é <strong>uma</strong><br />
experiência<br />
permanentemente<br />
inconclusa.<br />
1 “A presente publicação é a tradução para português da segunda edição revisada em Espanhol do Relatório<br />
“La <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> en América Latina ”. O listado completo <strong>de</strong> modificações po<strong>de</strong> ser consultado no site<br />
www.<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.undp.org”.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
35
quadro 2<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: um i<strong>de</strong>al<br />
retração, <strong>de</strong> mobilização ou quietu<strong>de</strong>, a história<br />
nos mostra que on<strong>de</strong> não havia liberda<strong>de</strong>,<br />
por ela se lutou; on<strong>de</strong> não havia justiça,<br />
também se brigou por ela e, on<strong>de</strong> não<br />
havia progresso, a ele se tentou chegar. In<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente<br />
dos retrocessos e das apatias,<br />
o reconhecimento da igualda<strong>de</strong> e a busca<br />
<strong>de</strong> sua realização social, em termos <strong>de</strong><br />
liberda<strong>de</strong>, justiça e progresso, constituem<br />
um impulso histórico substancialmente ligado<br />
à idéia <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Esta forma <strong>de</strong> organização entrou e saiu<br />
<strong>de</strong> nossa história. Surgiu há 2.500 anos na<br />
Grécia, mas <strong>de</strong>pois <strong>de</strong>sapareceu. “Como o<br />
fogo, a pintura ou a escrita, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
parece ter sido inventada mais <strong>de</strong> <strong>uma</strong> vez e<br />
em mais <strong>de</strong> um lugar”. 2<br />
Na América Latina alcançou-se a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
eleitoral e suas liberda<strong>de</strong>s básicas. Agora<br />
se trata <strong>de</strong> avançar na <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania.<br />
A primeira nos <strong>de</strong>u as liberda<strong>de</strong>s e o<br />
direito <strong>de</strong> <strong>de</strong>cidir por nós mesmos. Traçou,<br />
em muitos <strong>de</strong> nossos países, a fronteira entre<br />
a vida e a morte. A segunda, hoje plena <strong>de</strong><br />
carências, é a que avança para que o conjunto<br />
<strong>de</strong> nossos direitos se torne efetivo. É a que nos<br />
permite passar <strong>de</strong> eleitores a cidadãos. A que<br />
utiliza as liberda<strong>de</strong>s políticas como alavanca<br />
para construir a cidadania civil e social.<br />
Para as mulheres e os homens, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
gera expectativas, esperanças e <strong>de</strong>cepções<br />
porque contribui para organizar suas<br />
vidas na socieda<strong>de</strong>, garante seus direitos e<br />
permite melhorar a qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> suas existências.<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é muito mais do que<br />
um regime <strong>de</strong> governo, ela se confun<strong>de</strong> com<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é, primeiro e acima <strong>de</strong> tudo, um i<strong>de</strong>al. […] Sem <strong>uma</strong> tendência<br />
i<strong>de</strong>alista, <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não nasce e, se nasce, <strong>de</strong>bilita-se rapidamente.<br />
Mais do que qualquer outro regime político, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> vai contra a<br />
corrente, contra as leis inerciais que governam os grupos h<strong>uma</strong>nos. As<br />
monocracias, as autocracias, as ditaduras são fáceis, aparecem sozinhas;<br />
as <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s são difíceis, têm que ser promovidas e é preciso acreditar<br />
nelas.<br />
Giovanni Sartori, 1991, p. 119.<br />
2 Dahl, 1999, p. 15.<br />
a própria vida. É mais que um método para<br />
eleger e ser eleito. Seu sujeito não é apenas<br />
aquele que vota, é o cidadão.<br />
Na América Latina, em 200 anos <strong>de</strong> vida<br />
in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> nasceu e morreu<br />
<strong>de</strong>zenas <strong>de</strong> vezes. Nas instituições a consagravam,<br />
na prática a <strong>de</strong>struíam. Guerras,<br />
tiranias e breves primaveras compõem gran<strong>de</strong><br />
parte <strong>de</strong>ssa história in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte, durante<br />
a qual até as violações à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> foram<br />
feitas em seu nome. A América Latina é,<br />
provavelmente, a região do mundo que mais<br />
reivindicou a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, nos dois últimos<br />
séculos, até para a interromper invocando<br />
sua futura instauração.<br />
Nós, latino-americanos que, muitas vezes,<br />
vimos como nos era negado ou arrebatado o<br />
anseio <strong>de</strong> ser parte da construção da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
somos agora, finalmente, atores que assumem<br />
seus <strong>de</strong>safios e seu <strong>de</strong>senvolvimento.<br />
Após duas décadas <strong>de</strong> diversas formas<br />
<strong>de</strong> transição, os regimes <strong>de</strong>mocráticos estão<br />
amplamente vigentes na América Latina.<br />
Há vinte e cinco anos, <strong>de</strong>ntre os <strong>de</strong>zoito<br />
países incluídos no Relatório, só a Colômbia,<br />
a Costa Rica e a Venezuela eram <strong>de</strong>mocráticos.<br />
Um quarto <strong>de</strong> século <strong>de</strong>pois, todos<br />
os nossos países cumprem os critérios básicos<br />
do regime <strong>de</strong>mocrático, em sua dimensão<br />
eleitoral e política.<br />
As liberda<strong>de</strong>s que hoje possuímos são<br />
um bem <strong>de</strong> valor incomensurável; essa é<br />
<strong>uma</strong> conquista que se <strong>de</strong>ve ao impulso, à luta<br />
e ao sofrimento <strong>de</strong> milhões <strong>de</strong> seres h<strong>uma</strong>nos.<br />
Somos testemunhas do avanço mais<br />
profundo e amplo que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> obteve<br />
<strong>de</strong>s<strong>de</strong> a in<strong>de</strong>pendência <strong>de</strong> nossas nações. No<br />
entanto, como se verá neste Relatório, o que<br />
foi conquistado não está assegurado.<br />
A preservação da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e sua expansão<br />
não são fatos espontâneos. São construções<br />
voluntárias, formuladas em projetos,<br />
mo<strong>de</strong>ladas por li<strong>de</strong>ranças e investidas<br />
do po<strong>de</strong>r que se origina no apoio popular.<br />
Requerem partidos políticos que construam<br />
opções fundamentais, um Estado com po<strong>de</strong>r<br />
para executá-las e <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong> capaz<br />
<strong>de</strong> participar <strong>de</strong> <strong>uma</strong> construção que exce<strong>de</strong><br />
as reivindicações setoriais. Uma política que<br />
omite os problemas centrais torna as opções<br />
dos cidadãos vazias <strong>de</strong> conteúdo. Um Esta-<br />
36 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
do sem po<strong>de</strong>r transforma o mandato eleitoral<br />
em <strong>uma</strong> expressão <strong>de</strong> <strong>de</strong>sejos sem conseqüências,<br />
e <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong> sem participação<br />
ativa leva, mais cedo ou mais tar<strong>de</strong>, a <strong>uma</strong><br />
perigosa autonomia do po<strong>de</strong>r, que <strong>de</strong>ixa <strong>de</strong><br />
expressar as necessida<strong>de</strong>s dos cidadãos.<br />
Parece que nos afastamos dos riscos dos<br />
golpes militares <strong>de</strong> Estado, mas surgem outros<br />
perigos: a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> aparenta per<strong>de</strong>r<br />
vitalida<strong>de</strong>, dá-se preferência a ela porém se<br />
<strong>de</strong>sconfia <strong>de</strong> sua capacida<strong>de</strong> para melhorar<br />
as condições <strong>de</strong> vida; os partidos políticos<br />
estão no nível mais baixo da estima pública;<br />
3 o Estado é visto, ao mesmo tempo, com<br />
expectativa e apreensão e, em alguns casos, o<br />
ímpeto <strong>de</strong>mocrático que caracterizou as últimas<br />
décadas do século passado está se <strong>de</strong>bilitando.<br />
A socieda<strong>de</strong> está nas ruas, mas<br />
sem um objetivo que unifique as suas reivindicações<br />
e <strong>de</strong>mandas.<br />
Qual a gravida<strong>de</strong> <strong>de</strong>ssas novas fragilida<strong>de</strong>s<br />
Se a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> per<strong>de</strong>r relevância para<br />
os latino-americanos, se ela se divorciar <strong>de</strong><br />
suas necessida<strong>de</strong>s, po<strong>de</strong>rá resistir aos novos<br />
perigos, aos seus adversários, às frustrações<br />
Analisar, como nos propomos, o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina,<br />
leva-nos a sondar a vigência dos direitos<br />
dos latino-americanos, e o nível <strong>de</strong> concretização<br />
das esperanças que <strong>de</strong>positam em seus<br />
representantes. E também nos conduz a indagar<br />
sobre a sustentabilida<strong>de</strong> da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
isto é, sobre sua capacida<strong>de</strong> para perdurar<br />
e aperfeiçoar-se, a partir da legitimida<strong>de</strong><br />
que gera em seus cidadãos, enfim, leva-nos<br />
a i<strong>de</strong>ntificar os <strong>de</strong>safios da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, e as<br />
ameaças que sobre ela pairam.<br />
Como se resolvem as tensões entre a expansão<br />
<strong>de</strong>mocrática e a economia, entre a liberda<strong>de</strong><br />
e a busca da igualda<strong>de</strong>, entre crescimento<br />
e pobreza, entre as <strong>de</strong>mandas públicas<br />
manifestadas livremente e as reformas econômicas<br />
que exigem ajustes e sacrifícios Quais<br />
são as chaves que explicam a crise <strong>de</strong> representação,<br />
a <strong>de</strong>sconfiança da socieda<strong>de</strong> para<br />
com a política Por que a esperança <strong>de</strong>mocrática<br />
não se traduziu em avanços nos direitos<br />
civis e sociais da mesma dimensão que as<br />
expectativas que gerou Por que o Estado não<br />
possui o po<strong>de</strong>r necessário Por que o direito<br />
<strong>de</strong> escolher governantes não se traduziu, em<br />
muitos casos, em mais liberda<strong>de</strong>, mais justiça<br />
e maior progresso<br />
Esses são dilemas cuja solução é complexa,<br />
como <strong>de</strong>monstra a nossa própria história<br />
recente. E não po<strong>de</strong>rão ser resolvidos se não<br />
forem colocados no centro do <strong>de</strong>bate público<br />
e das opções que os partidos oferecem.<br />
Infelizmente, em muitas ocasiões, parece<br />
que existe um <strong>de</strong>bate proibido na América<br />
Latina. Questões sobre as quais é inconveniente<br />
falar, ou – ainda mais grave – não<br />
se <strong>de</strong>ve falar. O silêncio da política e dos que<br />
constroem a agenda do <strong>de</strong>bate público não<br />
po<strong>de</strong> continuar ignorando, in<strong>de</strong>finidamente,<br />
o clamor <strong>de</strong> milhões <strong>de</strong> pessoas, a não ser<br />
que se esteja disposto a pagar o preço do enfraquecimento<br />
paulatino da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> latino-americana.<br />
Este Relatório trata <strong>de</strong>ssas questões,<br />
i<strong>de</strong>ntificando-as não por <strong>uma</strong> mera intuição,<br />
mas por meio da análise teórica, da observação<br />
empírica e do pensamento <strong>de</strong> intelectuais<br />
e políticos.<br />
Atacar esses dilemas <strong>de</strong>manda a maior<br />
informação possível para iluminar os critérios<br />
com que as políticas são formuladas.<br />
A falta <strong>de</strong> informação e <strong>de</strong> <strong>de</strong>bate constitui<br />
<strong>uma</strong> carência grave, porque a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> –<br />
que se baseia na reflexão e no <strong>de</strong>bate dos cidadãos<br />
e <strong>de</strong> seus lí<strong>de</strong>res – é a única forma<br />
<strong>de</strong> organização política que tem capacida<strong>de</strong><br />
para retificar-se a si mesma. Essa é a principal<br />
vantagem para fazer da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> um<br />
sistema justo e eficaz. A liberda<strong>de</strong> garantida<br />
pela <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é, ao mesmo tempo, o principal<br />
instrumento que ela tem para se aperfeiçoar<br />
como sistema, mas a liberda<strong>de</strong>, ou<br />
melhor, a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> optar, requer que a<br />
matéria da opção esteja presente. Na América<br />
Latina, a reflexão e o <strong>de</strong>bate políticos requerem<br />
ser renovados e promovidos, porque<br />
per<strong>de</strong>ram vitalida<strong>de</strong> e conteúdo. Isso<br />
está ocorrendo no período <strong>de</strong> maior difusão<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e em um mundo em que<br />
a globalização torna cada vez mais peremptório<br />
saber o que queremos como socieda<strong>de</strong>s<br />
e como nações.<br />
Na América<br />
Latina, a<br />
reflexão e o<br />
<strong>de</strong>bate políticos<br />
requerem ser<br />
renovados e<br />
promovidos,<br />
porque per<strong>de</strong>ram<br />
vitalida<strong>de</strong> e<br />
conteúdo.<br />
3 Segundo os dados da pesquisa Latinobarômetro 2002, apenas 14 por cento dos latino-americanos têm confiança<br />
nos partidos políticos.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
37
Pela primeira<br />
vez na história,<br />
<strong>uma</strong> região em<br />
<strong>de</strong>senvolvimento<br />
e com socieda<strong>de</strong>s<br />
profundamente<br />
<strong>de</strong>siguais está<br />
completamente<br />
organizada<br />
politicamente<br />
sob regimes<br />
<strong>de</strong>mocráticos.<br />
Nossas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s precisam, urgentemente,<br />
retomar o impulso inicial. Seus déficits<br />
não representam seu fracasso, são seus<br />
<strong>de</strong>safios. O que ainda não alcançamos é o<br />
que <strong>de</strong>ve constituir a essência das políticas<br />
que permitirão o nascimento da segunda<br />
etapa da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> latino-americana.<br />
Este é o fio condutor que <strong>de</strong>veria guiar a<br />
leitura dos materiais propostos pelo Relatório:<br />
a busca dos temas cruciais nos quais será<br />
testada a nossa capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> passar da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
eleitoral à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania.<br />
Nessa transformação se <strong>de</strong>finirá a questão<br />
da capacida<strong>de</strong> latino-americana <strong>de</strong> fazer<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> um sistema que se estabilize,<br />
se regenere e se expanda.<br />
Nossa proposta é <strong>de</strong>monstrar que, como<br />
a aposta está no caminho a seguir para passar<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral à <strong>de</strong> cidadania, é<br />
inevitável <strong>uma</strong> séria reflexão conceitual, capaz<br />
<strong>de</strong> gerar idéias que orientem a observação<br />
da realida<strong>de</strong> e a coleta <strong>de</strong> dados que, por<br />
sua vez, construam a base empírica do Relatório.<br />
A partir daí, da soma <strong>de</strong>sses dois componentes,<br />
sairá a proposição do núcleo <strong>de</strong><br />
temas que configuram os <strong>de</strong>safios da agenda<br />
ampliada para o <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
na América Latina.<br />
Esses objetivos, que constituem a razão<br />
<strong>de</strong>sta obra, encontrarão aqui <strong>uma</strong> primeira<br />
aproximação, um início. O Relatório é o<br />
começo <strong>de</strong> <strong>uma</strong> tarefa, <strong>de</strong> um <strong>de</strong>bate que o<br />
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento<br />
(PNUD) procura promover entre<br />
os latino-americanos. É só o primeiro<br />
passo para que a construção <strong>de</strong> alternativas<br />
e <strong>de</strong> políticas concretas seja assumida pelos<br />
atores sociais e políticos que <strong>de</strong>vem relançar<br />
e regenerar nossas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s.<br />
Estas reflexões, observações e conseqüências<br />
partirão <strong>de</strong> um reconhecimento<br />
inicial: a singular realida<strong>de</strong> da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
em nossa região. O leque <strong>de</strong> <strong>de</strong>safios é novo<br />
porque também é nova a realida<strong>de</strong> que<br />
expõe <strong>uma</strong> região que é <strong>de</strong>mocrática e, ao<br />
mesmo tempo, pobre e <strong>de</strong>sigual. A partir<br />
<strong>de</strong>sse triângulo – <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral, pobreza<br />
e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> – iniciamos nossa exploração.<br />
Democracia, pobreza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>:<br />
um triângulo latino-americano<br />
Para enten<strong>de</strong>r as necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> expansão<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina e perceber<br />
suas fragilida<strong>de</strong>s, é indispensável fazer<br />
<strong>uma</strong> apreciação do que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> possui<br />
<strong>de</strong> próprio e original nessa região.<br />
Na América Latina, as regras e instituições<br />
do regime são semelhantes às dos países<br />
<strong>de</strong>mocraticamente mais maduros, no entanto,<br />
as socieda<strong>de</strong>s latino-americanas e as <strong>de</strong>sses<br />
países são profundamente diferentes.<br />
Na América Latina, construir e ampliar<br />
os direitos cidadãos é <strong>uma</strong> tarefa que se <strong>de</strong>senvolve<br />
em um novo contexto. Nos últimos<br />
vinte anos, produziu-se um conjunto<br />
<strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s transformações. Pela primeira<br />
vez na história, <strong>uma</strong> região em <strong>de</strong>senvolvimento<br />
e com socieda<strong>de</strong>s profundamente <strong>de</strong>siguais<br />
está completamente organizada politicamente<br />
sob regimes <strong>de</strong>mocráticos. Assim,<br />
<strong>de</strong>fine-se na América Latina <strong>uma</strong> nova realida<strong>de</strong>,<br />
sem prece<strong>de</strong>ntes 4 : o triângulo da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
da pobreza e da <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>.<br />
O primeiro vértice do triângulo é a difusão<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral na região. Todos<br />
os países que a integram satisfazem os requisitos<br />
básicos do regime <strong>de</strong>mocrático. Apenas<br />
os países agrupados na Organização <strong>de</strong> Cooperação<br />
e Desenvolvimento Econômicos<br />
(OCDE) compartilham essa característica.<br />
O segundo vértice é a pobreza . Em 2002,<br />
a região contava com 218 milhões <strong>de</strong> pessoas<br />
(ou 42,9 por cento) com renda abaixo<br />
do nível <strong>de</strong> pobreza. É certo que essa situação<br />
varia <strong>de</strong> país para país. Apesar <strong>de</strong>ssas diferenças,<br />
comparada com as outras gran<strong>de</strong>s<br />
regiões <strong>de</strong>mocráticas do mundo, a América<br />
Latina oferece a singularida<strong>de</strong> da coabitação<br />
das liberda<strong>de</strong>s políticas com as severas privações<br />
materiais <strong>de</strong> muitas pessoas. Democracia<br />
e riqueza, <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e pobreza são<br />
duas combinações que geram necessida<strong>de</strong>s,<br />
4 Não afirmamos aqui que não se verifica a existência conjunta <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, pobreza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> em outros<br />
países ou regiões do planeta. O que apontamos é que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> latino-americana convive, em toda a sua região,<br />
com níveis amplamente difundidos <strong>de</strong> pobreza e situações <strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> extremas.<br />
38 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
dificulda<strong>de</strong>s e riscos diferentes.<br />
O terceiro vértice é a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> . As socieda<strong>de</strong>s<br />
latino-americanas são as mais <strong>de</strong>siguais<br />
do mundo. Como no caso da pobreza,<br />
observa-se na região não apenas a profundida<strong>de</strong><br />
do grau <strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>, em comparação<br />
com o resto do mundo, mas também<br />
sua persistência ao longo das três últimas<br />
décadas.<br />
Pela primeira vez, essas três características<br />
convivem e a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> enfrenta o<br />
<strong>de</strong>safio <strong>de</strong> sua própria estabilida<strong>de</strong>, coexistindo<br />
com os <strong>de</strong>safios da pobreza e da <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>.<br />
Os riscos que <strong>de</strong>rivam <strong>de</strong>ssa situação<br />
são diferentes e mais complexos do que<br />
os riscos tradicionais do golpe militar <strong>de</strong> Estado<br />
que, por outro lado, não <strong>de</strong>sapareceram<br />
totalmente.<br />
No entanto, apesar <strong>de</strong>ssa experiência ter<br />
um caráter particular, é habitual que se pense<br />
na América Latina sob a perspectiva da experiência<br />
histórica das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s <strong>de</strong>senvolvidas,<br />
<strong>de</strong>sconhecendo que a estabilida<strong>de</strong> e a<br />
expansão <strong>de</strong>mocráticas têm aqui conteúdos<br />
e dilemas distintos, resultados <strong>de</strong> sua própria<br />
originalida<strong>de</strong>. Essas são <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s pobres<br />
e <strong>de</strong>siguais, cujos homens e mulheres, ao<br />
mesmo tempo em que consolidam seus direitos<br />
políticos, precisam também completar<br />
suas cidadanias civil e social.<br />
A limitada compreensão <strong>de</strong>ssa realida<strong>de</strong><br />
singular po<strong>de</strong> levar a duas conseqüências<br />
graves para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. A primeira<br />
é ignorar a necessida<strong>de</strong> da viabilida<strong>de</strong> econômica<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Isso significa ignorar<br />
a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> construir bases sólidas<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> economia que torne possível atacar<br />
a pobreza e a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>. Por exemplo, para<br />
muitos cidadãos latino-americanos, atingir<br />
maiores níveis <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento em<br />
seus países é <strong>uma</strong> aspiração tão importante<br />
que muitos estariam dispostos a apoiar um<br />
regime autoritário que pu<strong>de</strong>sse aten<strong>de</strong>r suas<br />
<strong>de</strong>mandas <strong>de</strong> bem-estar. A segunda é <strong>de</strong>sconhecer<br />
a viabilida<strong>de</strong> política dos programas<br />
econômicos. Isso significa ignorar que esses<br />
programas se aplicam em socieda<strong>de</strong>s em que<br />
as <strong>de</strong>mandas cidadãs e a opinião sobre essas<br />
políticas se expressam livremente.<br />
Na realida<strong>de</strong>, também é comum ten<strong>de</strong>r<br />
ao erro <strong>de</strong> pensar em termos <strong>de</strong> reforma<br />
econômica como se não houvesse <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Como se os difíceis e dolorosos<br />
processos <strong>de</strong> ajuste estrutural não influíssem<br />
nas <strong>de</strong>cisões tomadas pelas maiorias –<br />
submetidas a condições <strong>de</strong> pobreza e <strong>de</strong> alta<br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> – no momento <strong>de</strong> votar ou <strong>de</strong><br />
expressar seu apoio ou rejeição a um gover-<br />
DEMOCRACIA, POBREZA E DESIGUALDADE<br />
TABELA 1<br />
Região Participação eleitoral (1) Desigualda<strong>de</strong> (2) Pobreza PIB per capita<br />
América Latina 62,7 0,552 (3) 42,8 (6) 3792 (9)<br />
Europa 73,6 0,290 (4) 15,0 (7) 22600 (10)<br />
EUA 43,3 0,344 (5) 11,7 (8) 36100<br />
Notas:<br />
(1) Votantes com base na população com direito a voto 1990-2002. Ver tabela 8.<br />
(2) Coeficiente <strong>de</strong> Gini. As cifras mais altas do coeficiente <strong>de</strong> Gini correspon<strong>de</strong>m a um grau mais alto <strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>.<br />
(3) Média simples para a década <strong>de</strong> 90. Perry et al., 2004, p.57.<br />
(4) Eurostat PCM-BDU, <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 2002.<br />
(5) Fontes: OCDE 2002, Social Indicators and Tables.<br />
(6) Média pon<strong>de</strong>rada por população dos dados <strong>de</strong> pobreza entre 1998-2002, CEPAL, 2004.<br />
(7) Eurostat PCM-BDU, <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 2002.<br />
(8) Fonte: US Census Bureau 2001, Poverty in the United States 2002.<br />
(9) Elaboração própria com base nos dados da CEPAL, 2004 (em dólares constantes).<br />
(10)Europa oci<strong>de</strong>ntal (EU15) e EUA, PIB per capita 2002. Fonte: OCDE (em dólares correntes)<br />
Dada a multiplicida<strong>de</strong> <strong>de</strong> fontes e as diversas metodologias <strong>de</strong> elaboração <strong>de</strong> dados sugere-se usar os dados <strong>de</strong>sta<br />
tabela como referências indicativas.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
39
Só com mais<br />
e melhor<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
as socieda<strong>de</strong>s<br />
latino-americanas<br />
po<strong>de</strong>rão ser mais<br />
igualitárias e<br />
<strong>de</strong>senvolvidas.<br />
no, ou como se fosse possível levar adiante<br />
um plano econômico sem o apoio da população,<br />
ou pior ainda, apesar <strong>de</strong> sua manifesta<br />
hostilida<strong>de</strong>.<br />
Essa maneira <strong>de</strong> pensar a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> latino-americana,<br />
in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente <strong>de</strong> sua<br />
economia, ou, simetricamente, pensar sua<br />
economia separadamente <strong>de</strong> sua <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
parece um erro ingênuo, mas não por<br />
isso menos recorrente e preocupante para<br />
o <strong>de</strong>stino da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e da economia, se<br />
consi<strong>de</strong>rarmos a experiência das últimas décadas<br />
na América Latina.<br />
Conseqüentemente, o <strong>de</strong>bate sobre a estabilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mocrática não <strong>de</strong>ve ignorar a<br />
pobreza e a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>, nem as políticas<br />
<strong>de</strong> crescimento <strong>de</strong>vem esquecer que, pobres<br />
e <strong>de</strong>siguais, os cidadãos exercem sua liberda<strong>de</strong><br />
para aceitar ou rejeitar essas políticas.<br />
Surge daí o <strong>de</strong>safio <strong>de</strong> resolver as tensões<br />
entre economia e <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Esse <strong>de</strong>safio<br />
parte da necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> não pensar a economia<br />
como se não houvesse <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
pobres, e <strong>de</strong> não atacar os problemas da estabilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mocrática in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente<br />
das necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> resolver as questões do<br />
crescimento. É provável que um <strong>de</strong>bate que<br />
ignore <strong>uma</strong> questão tão elementar termine<br />
levando a recomendações simplesmente<br />
impraticáveis.<br />
Essas características da América Latina<br />
foram utilizadas como argumento para<br />
concluir que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> seria inviável enquanto<br />
não fossem resolvidos os problemas<br />
da pobreza e não fosse alcançado um mínimo<br />
aceitável <strong>de</strong> igualda<strong>de</strong>. Em várias ocasiões,<br />
regimes autoritários instalaram-se com<br />
um discurso “restaurador” do regime <strong>de</strong>mocrático.<br />
“Assumimos o governo para criar as<br />
condições para que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> se instale<br />
solidamente no futuro”. Supostamente, seria<br />
preciso atingir um certo nível mínimo <strong>de</strong><br />
riqueza para ter acesso à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Contra<br />
essa visão, este Relatório sustenta que<br />
só com mais e melhor <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> as socieda<strong>de</strong>s<br />
latino-americanas po<strong>de</strong>rão ser mais<br />
igualitárias e <strong>de</strong>senvolvidas. A razão é que,<br />
somente na <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, aqueles que não gozam<br />
<strong>de</strong> níveis mínimos <strong>de</strong> bem-estar e que<br />
sofrem as injustiças da <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> po<strong>de</strong>m<br />
reivindicar, mobilizar-se e eleger em <strong>de</strong>fesa<br />
<strong>de</strong> seus direitos. Para que isso se concretize,<br />
é indispensável indagar caminhos não<br />
explorados e abrir novos <strong>de</strong>bates na América<br />
Latina, porque – reiteramos – o gran<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>safio é combater a pobreza e a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>,<br />
com os instrumentos da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
para criar as bases <strong>de</strong> coesão e estabilida<strong>de</strong><br />
social que são os requisitos do crescimento<br />
econômico.<br />
Na América Latina, ocorreram processos<br />
<strong>de</strong> reforma no plano político e econômico.<br />
Embora esses processos tenham ocasionado<br />
alguns progressos importantes, sobretudo<br />
na expansão da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral, subsiste<br />
um evi<strong>de</strong>nte contraste entre as reformas<br />
realizadas durante as duas últimas décadas<br />
e <strong>uma</strong> realida<strong>de</strong> que continua marcada por<br />
gran<strong>de</strong>s carências no plano das diferentes cidadanias,<br />
particularmente a social.<br />
Esses não foram anos só <strong>de</strong> transformações<br />
políticas. A economia, especialmente na<br />
década <strong>de</strong> 90, também passou por um processo<br />
<strong>de</strong> profundas mudanças, <strong>de</strong> abertura,<br />
reformas e <strong>de</strong>sregulamentações, que se tornou<br />
conhecido com a <strong>de</strong>nominação genérica<br />
<strong>de</strong> ajustes estruturais. Dessa forma, com<br />
alg<strong>uma</strong>s exceções, “a nova onda <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocratização<br />
na região, que teve início em meados<br />
dos anos oitenta, assumiu as reformas<br />
econômicas orientadas no sentido da ampliação<br />
das esferas do mercado como sua<br />
própria agenda”. 5<br />
Como conseqüência <strong>de</strong>ssas transformações,<br />
as socieda<strong>de</strong>s latino-americanas passam<br />
a ser socieda<strong>de</strong>s em vias <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento,<br />
em que as <strong>de</strong>mandas sociais se<br />
expressam livremente e a economia se organiza<br />
em torno do mercado. Dessa maneira,<br />
<strong>de</strong>mandas sociais manifestadas em um contexto<br />
<strong>de</strong> liberda<strong>de</strong> política (<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>) e liberda<strong>de</strong><br />
econômica (mercado) formam outro<br />
triângulo singular. Um triângulo que<br />
<strong>de</strong>veria ser virtuoso e que, à luz dos últimos<br />
vinte anos, apresenta complexas dificulda<strong>de</strong>s<br />
que requerem um pensamento renovado.<br />
A combinação entre liberda<strong>de</strong> política e<br />
liberda<strong>de</strong> econômica, em contextos <strong>de</strong> po-<br />
5 José Antonio Ocampo, 2003 (texto preparado para o Relatório).<br />
40 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
eza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>, po<strong>de</strong> não gerar como<br />
resultado o fortalecimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e<br />
o <strong>de</strong>senvolvimento da economia.<br />
Nas páginas seguintes, mostra-se <strong>uma</strong><br />
fotografia que contrasta reformas e realida<strong>de</strong>s.<br />
Esta é também <strong>uma</strong> primeira fotografia<br />
do déficit <strong>de</strong>mocrático da América Latina,<br />
um indício da chave das frustrações, <strong>uma</strong><br />
evidência da urgência <strong>de</strong> construir a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
<strong>de</strong> cidadania.<br />
Balanço entre reformas e realida<strong>de</strong>s<br />
Para este balanço foram utilizados sete<br />
indicadores básicos: as reformas estruturais<br />
na economia, as reformas <strong>de</strong>mocráticas,<br />
a evolução do produto interno bruto (PIB)<br />
per capita, a pobreza, a indigência, a concentração<br />
<strong>de</strong> renda e a situação trabalhista.<br />
Antes <strong>de</strong> iniciar a apresentação da tabela<br />
que mostra um resumo <strong>de</strong>sses indicadores<br />
básicos (tabela 2), é necessário fazer alguns<br />
esclarecimentos. Em primeiro lugar,<br />
o Relatório não afirma que existe necessariamente<br />
<strong>uma</strong> relação causal entre as variáveis<br />
que serão utilizadas. Afirma, porém,<br />
que os cidadãos latino-americanos sentiram<br />
os efeitos <strong>de</strong>ssas variáveis <strong>de</strong> forma mais ou<br />
menos simultânea.<br />
Em segundo lugar, na <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, os cidadãos<br />
têm expectativas quanto ao funcionamento<br />
da economia. Elas têm origem na<br />
i<strong>de</strong>ologia igualitária subjacente à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
no discurso dos políticos nacionais, nos<br />
meios <strong>de</strong> comunicação, nas organizações internacionais<br />
etc. Durante a década <strong>de</strong> 90,<br />
instalou-se, como promessa <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento,<br />
um mo<strong>de</strong>lo econômico que <strong>de</strong>fraudou<br />
a muitos.<br />
Em terceiro lugar, a percepção <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
gran<strong>de</strong> parte dos cidadãos é <strong>de</strong> que as políticas<br />
implementadas “produziram” insuficiente<br />
crescimento aceitável, pobreza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong><br />
crescentes e agravamento da<br />
situação trabalhista (com seu conseqüente<br />
impacto sobre a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> e os rendimentos<br />
futuros da previdência).<br />
1. O índice <strong>de</strong> reforma econômica indica<br />
um avanço sustentado <strong>de</strong>ssas reformas, medido<br />
entre 0 e 1, que subiu <strong>de</strong> 0,58 nos anos<br />
oitenta para <strong>uma</strong> média <strong>de</strong> 0,83 entre 1998<br />
e 2002. Esse índice está composto <strong>de</strong> cinco<br />
subíndices: “políticas <strong>de</strong> comércio internacional”,<br />
“políticas impositivas”, “políticas financeiras”,<br />
“privatizações” e “contas <strong>de</strong> capital”,<br />
todos relacionados com o Consenso<br />
<strong>de</strong> Washington, assim <strong>de</strong>nominado posteriormente.<br />
2. Na América Latina hoje se reconhece<br />
o direito ao voto universal, sem restrição alg<strong>uma</strong><br />
<strong>de</strong> peso significativo. Essa é <strong>uma</strong> conquista<br />
notável e extremamente importante.<br />
O índice <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral (IDE),<br />
elaborado pelo Projeto sobre o Desenvolvimento<br />
da Democracia na América Latina<br />
(PRODDAL), <strong>de</strong>monstra que, em termos<br />
eleitorais, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> teve <strong>uma</strong> melhora<br />
constante ao longo do período consi<strong>de</strong>rado.<br />
Os processos <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocratização e reforma<br />
<strong>de</strong> mercado, embora <strong>de</strong> natureza distinta,<br />
avançaram <strong>de</strong> maneira sustentada, provocando<br />
<strong>uma</strong> gran<strong>de</strong> expectativa que contrastou<br />
visivelmente com a evolução dos fatos.<br />
3. A média regional do PIB per capita não<br />
variou <strong>de</strong> maneira significativa nos últimos<br />
vinte anos. Em 1980, enquanto o índice <strong>de</strong><br />
reforma econômica era <strong>de</strong> 0,55, o PIB per<br />
capita era <strong>de</strong> U$S 3.734 a valores constantes<br />
<strong>de</strong> 1995. Vinte anos mais tar<strong>de</strong>, no ano 2000,<br />
tendo-se avançado consi<strong>de</strong>ravelmente na<br />
aplicação das reformas, o índice era <strong>de</strong> 0,83,<br />
e o PIB per capita, <strong>de</strong> U$S 3.920, um avanço<br />
quase irrelevante.<br />
4. Os níveis <strong>de</strong> pobreza tiveram <strong>uma</strong> leve<br />
diminuição em termos relativos. Em 1990,<br />
a porcentagem <strong>de</strong> pobres 6 pon<strong>de</strong>rada pelo<br />
tamanho da população representava 46<br />
por cento para os <strong>de</strong>zoito países; entre 1998<br />
e 2002 esse percentual tinha caído para 42,8<br />
6 A medição da pobreza com o método da “Linha <strong>de</strong> Pobreza” (LP) elaborado pela CEPAL consiste em estabelecer,<br />
a partir da renda dos domicílios, sua capacida<strong>de</strong> para satisfazer – por meio da compra <strong>de</strong> bens e serviços – um<br />
conjunto <strong>de</strong> necessida<strong>de</strong>s alimentícias e não alimentícias consi<strong>de</strong>radas essenciais<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
41
REFORMAS E REALIDADES<br />
TABELA 2<br />
Índice <strong>de</strong><br />
Reforma<br />
Econômica (1)<br />
Índice <strong>de</strong><br />
Democracia<br />
Eleitoral (1)<br />
Crescimento<br />
do PIB Real<br />
per capita<br />
anualizado (3)<br />
%<br />
Pobreza<br />
(2) %<br />
Indigência (2)<br />
%<br />
Coeficiente <strong>de</strong><br />
Gini (2)<br />
Desemprego<br />
Urbano (1)<br />
Sub-Região “Cone Sul” (Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai)<br />
1981-90 0,66 0,44 -0,8% 25,6 7,1 0,502 8,8<br />
1991-97 0,82 0,88 1,3% 21,2 5,7 0,527 8,7<br />
1998-02 0,84 0,91 1,0% 32,3 12,9 0,558 12,1<br />
Brasil<br />
1981-90 0,52 0,70 1,7% 48,0 23,4 0,603 5,2<br />
1991-97 0,75 1,00 0,4% 40,6 17,1 0,638 5,3<br />
1998-02 0,79 1,00 1,1% 37,5 13,1 0,640 7,1<br />
Sub-Região Andina (Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela)<br />
1981 - 90 0,53 0,83 -0,6% 52,3 22,1 0,497 8,8<br />
1991 - 97 0,76 0,86 0,9% 50,4 18,1 0,544 8,3<br />
1998 - 02 0,82 0,83 0,1% 52,7 25,0 0,545 12,0<br />
México<br />
1981-90 0,61 0,31 1,7% 47,8 18,8 0,521 4,2<br />
1991-97 0,78 0,70 0,4% 48,6 19,1 0,539 4,0<br />
1998-02 0,81 1,00 2,2% 42,5 15,4 0,528 2,6<br />
Sub-Região América Central (C. Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá, Rep. Dom.)<br />
1981-90 0,55 0,59 4,1% 55,3 35,6 0,532 9,1<br />
1991-97 0,80 0,89 -3,5% 52,0 27,8 0,524 9,1<br />
1998-02 0,85 0,97 2,8% 54,0 29,7 0,546 8,8<br />
Região Latino-americana<br />
1981-90 0,58 0,64 0,7% 46,0 20,4 0,551 8,4<br />
1991-97 0,79 0,87 0,6% 42,8 18,3 0,574 8,8<br />
1998-02 0,83 0,92 1,2% 42,8 17,7 0,577 10,4<br />
(1) Média simples.<br />
(2) Pon<strong>de</strong>rada por população.<br />
(3) De período a período.<br />
O índice <strong>de</strong> reforma econômica é composto por cinco componentes: políticas <strong>de</strong> comércio internacional, políticas impositivas,<br />
políticas financeiras, privatizações e contas <strong>de</strong> capitais. O índice vai <strong>de</strong> 0, que indica <strong>uma</strong> falta <strong>de</strong> reformas orientadas para o<br />
mercado, a 1, que indica a aplicação <strong>de</strong> reformas fortemente orientadas para o mercado.<br />
O “Índice <strong>de</strong> Democracia Eleitoral” vai <strong>de</strong> 0 (igual a falta <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral) a 1 (indica que os requisitos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
eleitoral são cumpridos).<br />
A taxa <strong>de</strong> crescimento do PIB real per capita anualizado foi calculada da seguinte maneira: a) foram somados os PIB reais (base<br />
dólares 1995) dos anos do período analisado, e se dividiu pelo número <strong>de</strong> anos do período; b) dividiu-se pela população média do<br />
período; c) o PIB per capita <strong>de</strong>sse período foi dividido pelo do período anterior, extraindo, em seguida, a raiz geométrica, conforme o<br />
número <strong>de</strong> anos do período analisado.<br />
As cifras <strong>de</strong> crescimento real do PIB per capita foram calculadas com base em dólares 1995. As cifras sobre pobreza, indigência e o<br />
coeficiente <strong>de</strong> Gini são médias <strong>de</strong> somente alguns anos.<br />
Notas do Quadro atualizado em maio <strong>de</strong> 2004, para a segunda edição.<br />
Em todos os casos, as colunas sobre Pobreza e Indigência abarcam a porcentagem maior do território oferecida na base <strong>de</strong> dados<br />
CEPAL. Nesse sentido, e para certos países, foram utilizadas séries com cobertura espacial diferente, com o critério <strong>de</strong> utilizar o dado<br />
mais abrangente. Isto implica que os dados <strong>de</strong> Pobreza e Indigência po<strong>de</strong>m estar subestimados e, no caso <strong>de</strong>sses países, os saltos<br />
da série po<strong>de</strong>m não refletir necessariamente os saltos nos níveis <strong>de</strong> Pobreza e Indigência.<br />
A atualização <strong>de</strong>ste quadro foi feita com base nos novos dados fornecidos pela CEPAL e nos novos dados populacionais do CELADE.<br />
A partir dos censos mais recentes, o CELADE reestimou os dados populacionais da década <strong>de</strong> 90. Por conseguinte, isso se refletiu em<br />
todos os dados pon<strong>de</strong>rados por população e nos dados per capita.<br />
Este exercício acrescentou vários milhões <strong>de</strong> pessoas aos dados oficiais anteriores.<br />
Fontes: Os dados sobre o Índice <strong>de</strong> Reforma Econômica são <strong>de</strong> Morley, Machado e Pettinato, CEPAL 1999; Lora 2001, e comunicação<br />
com Manuel Marfán, diretor da Divisão <strong>de</strong> Desenvolvimento Econômico da CEPAL, 4 <strong>de</strong> fevereiro <strong>de</strong> 2003.<br />
A metodologia e os dados do Índice <strong>de</strong> Democracia Eleitoral são apresentados no Compêndio Estatístico. Os outros dados são <strong>de</strong><br />
várias publicações da CEPAL, com exceção dos dados sobre o coeficiente <strong>de</strong> Gini antes <strong>de</strong> 1990, cuja fonte é Deininger e Squire 1998.<br />
42 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
por cento. Esse avanço se produziu, fundamentalmente,<br />
em virtu<strong>de</strong> das melhorias relativas<br />
do Brasil, do Chile e do México. Entretanto,<br />
em termos absolutos, o número <strong>de</strong><br />
habitantes que se situava abaixo da linha <strong>de</strong><br />
pobreza aumentou. Em 1990, 191 milhões<br />
<strong>de</strong> latino-americanos eram pobres. Em<br />
2002, quando a população era <strong>de</strong> 508 milhões<br />
<strong>de</strong> habitantes, a quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> pobres<br />
chegava a 218 milhões. Po<strong>de</strong>ria se acrescentar<br />
que, inclusive em termos relativos, durante<br />
esse período houve um crescimento<br />
da pobreza no Cone Sul (<strong>de</strong> 25,6 a 32,3 por<br />
cento) e nos países andinos (<strong>de</strong> 52,3 a 53,3<br />
por cento).<br />
5. Os níveis <strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> não diminuíram.<br />
Em 1990, o coeficiente <strong>de</strong> Gini 7 (média<br />
regional pon<strong>de</strong>rada por população) era<br />
<strong>de</strong> 0,554. Em 2002, esse coeficiente subiu para<br />
0,576. A média mundial para os anos noventa<br />
foi <strong>de</strong> 0,381 e a dos países <strong>de</strong>senvolvidos<br />
<strong>de</strong> 0,337. A alta <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> também se<br />
expressa na relação entre os níveis superiores<br />
e inferiores <strong>de</strong> renda. Em 1990, a renda<br />
<strong>de</strong> 10 por cento da população latino-americana<br />
<strong>de</strong> mais alta renda era 25,4 vezes superior<br />
à renda <strong>de</strong> 10 por cento da população <strong>de</strong><br />
renda mais baixa. Em 2002, essa relação era<br />
<strong>de</strong> 40 vezes. 8 Em 2002, 20 por cento da população<br />
da região <strong>de</strong> mais alta renda recebeu<br />
quase 54,2 por cento da renda total, enquanto<br />
20 por cento do setor <strong>de</strong> mais baixa renda,<br />
apenas 4,7 por cento. A região possui os<br />
níveis <strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> mais altos do mundo<br />
na distribuição da renda.<br />
6. Durante os últimos quinze anos, a situação<br />
trabalhista agravou-se em quase toda<br />
a região . O <strong>de</strong>semprego e a informalida<strong>de</strong><br />
aumentaram significativamente. Além disso,<br />
a proteção social dos trabalhadores sofreu<br />
<strong>uma</strong> queda (saú<strong>de</strong>, pensões e sindicalização).<br />
Isso está vinculado a um agravamento<br />
da distribuição da renda e a um aumento<br />
da pobreza atual, configurando um quadro<br />
cujos efeitos terão conseqüências muito negativas<br />
a médio e longo prazo.<br />
Esta primeira visão é um indício da<br />
imensida<strong>de</strong> e da complexida<strong>de</strong> das tarefas<br />
que a América Latina <strong>de</strong>veria assumir. Há<br />
vinte e cinco anos, a região tinha um <strong>de</strong>safio<br />
difícil e, ao mesmo tempo, simples. Era<br />
preciso audácia e imaginação para alcançá-lo,<br />
porém não havia dúvidas quanto ao<br />
seu conteúdo: vencer as ditaduras, superar<br />
as guerras e alcançar a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e a paz.<br />
Ninguém tinha dúvidas sobre a agenda da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Hoje, regenerar seu conteúdo, dar impulso<br />
a <strong>uma</strong> nova etapa é <strong>uma</strong> meta muito<br />
mais ampla e plena <strong>de</strong> incertezas. O que<br />
quer dizer realmente ir rumo à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
<strong>de</strong> cidadania Quais são os temas centrais<br />
Que condições nos são requeridas para resolvê-los<br />
Quem são os novos adversários<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> ampliada Nenh<strong>uma</strong> <strong>de</strong>ssas<br />
questões tem a clareza daquela opção binária<br />
dos anos setenta: <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>-ditadura,<br />
liberda<strong>de</strong>-opressão, vida-morte.<br />
Mobilizar a imaginação, o conhecimento<br />
e a política é, como nos ilustram esses contrastes<br />
que terminamos <strong>de</strong> mostrar, <strong>uma</strong> tarefa<br />
difícil, árdua e incerta. A primeira condição,<br />
à qual visamos nessa obra, é tomar<br />
consciência sobre até que ponto não existem<br />
<strong>de</strong>sculpas para não encará-la. A tarefa inclui,<br />
é claro, a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> enfrentar o legado<br />
histórico <strong>de</strong> atraso econômico e tecnológico,<br />
<strong>de</strong> fratura social e <strong>de</strong> inserção secundária e<br />
<strong>de</strong>svantajosa no sistema internacional.<br />
As páginas seguintes iniciam a exploração<br />
<strong>de</strong>stas questões, da natureza dos <strong>de</strong>safios<br />
para o <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
da centralida<strong>de</strong> dos direitos do cidadão para<br />
a etapa que se inicia, e <strong>de</strong> alguns temas – a<br />
própria noção <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e do papel do<br />
Estado – que constituem o ponto <strong>de</strong> partida<br />
Hoje, regenerar<br />
seu conteúdo,<br />
dar impulso a<br />
<strong>uma</strong> nova etapa<br />
é <strong>uma</strong> meta<br />
muito mais<br />
ampla e plena <strong>de</strong><br />
incertezas.<br />
7 Este coeficiente é <strong>uma</strong> medida que surge <strong>de</strong> <strong>uma</strong> representação gráfica da distribuição da renda chamada Curva<br />
<strong>de</strong> Lorenz. Para o coeficiente <strong>de</strong> Gini, 0 representa a igualda<strong>de</strong> perfeita <strong>de</strong> distribuição e 1, a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> absoluta.<br />
Um coeficiente <strong>de</strong> Gini <strong>de</strong> 0,25-0,35 po<strong>de</strong> ser consi<strong>de</strong>rado como <strong>uma</strong> distribuição “razoável” e um coeficiente <strong>de</strong><br />
Gini <strong>de</strong> 0,55 representa <strong>uma</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> extrema.<br />
8 Esses dados foram retirados <strong>de</strong> <strong>uma</strong> versão agregada da tabela 2.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
43
<strong>de</strong> nossas proposições.<br />
Não se trata <strong>de</strong> um <strong>de</strong>senvolvimento teórico<br />
no sentido estrito, mas <strong>de</strong> alguns pontos-chave<br />
básicos que estão nos fundamentos<br />
teóricos <strong>de</strong> nosso trabalho.<br />
Ingressamos nesse campo não porque o<br />
objetivo do Relatório seja <strong>uma</strong> indagação<br />
acadêmica sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, e sim porque<br />
as conseqüências práticas das diferentes<br />
concepções são fundamentais no momento<br />
<strong>de</strong> pensar as políticas e as estratégias <strong>de</strong> sustentabilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mocrática. Essas diferenças<br />
se referem às condições <strong>de</strong> expansão da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
aos seus riscos <strong>de</strong> <strong>de</strong>saparecimento,<br />
à maneira como certas políticas públicas<br />
são vistas e formuladas, às diferenças socioculturais<br />
e <strong>de</strong> gênero, à visão do Estado e suas<br />
transformações, ou ao papel da política e<br />
suas organizações. Além disso, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo<br />
da visão <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> por nós adotada,<br />
existirão diferenças contun<strong>de</strong>ntes em relação<br />
ao que esperamos <strong>de</strong> outra forma <strong>de</strong> organização<br />
da socieda<strong>de</strong>: a economia .<br />
Em outras palavras, se a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> fosse<br />
apenas um regime, po<strong>de</strong>ríamos chegar ao<br />
paradoxo extremo da existência <strong>de</strong> <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong><br />
pobre no tocante aos direitos sociais<br />
e econômicos <strong>de</strong> seus cidadãos, pobre, inclusive,<br />
em seus direitos civis básicos, mas plenamente<br />
<strong>de</strong>mocrática.<br />
Outra conseqüência importante, <strong>de</strong>rivada<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> compreensão da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> limitada<br />
a seu regime, é a visão segmentada das<br />
políticas públicas. Dessa forma, haveria políticas<br />
recomendáveis para assegurar as boas<br />
condições <strong>de</strong> funcionamento do regime <strong>de</strong>-<br />
quadro 3<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e a promessa dos direitos cidadãos<br />
Apesar da instauração do regime <strong>de</strong>mocrático,<br />
não foi possível modificar a natureza e o<br />
funcionamento do Estado por causa da<br />
presença <strong>de</strong> fatores internos e externos que<br />
obstaculizaram o cumprimento dos direitos<br />
cidadãos. Conseqüentemente, as expectativas<br />
<strong>de</strong>positadas em tal or<strong>de</strong>namento viramse<br />
frustradas, porque o <strong>de</strong>sempenho das<br />
representações políticas e das instituições<br />
públicas não correspondiam às expectativas da<br />
maioria da população, sujeita historicamente<br />
a condições <strong>de</strong> “pobreza” e <strong>de</strong> “exclusão”<br />
– <strong>de</strong>nominações tecnocráticas que escon<strong>de</strong>m<br />
as relações sociais geradoras <strong>de</strong>ssas situações;<br />
mais ainda porque nas novas circunstâncias<br />
internacionais, o regime e o Estado reforçam<br />
tais condições, em direção contrária à dos<br />
discursos <strong>de</strong>mocráticos e liberais, e das<br />
promessas dos dirigentes políticos.<br />
Por tais motivos, o <strong>de</strong>scrédito do regime<br />
<strong>de</strong>mocrático “realmente existente” propicia<br />
que amplos setores sociais, particularmente<br />
os pobres e os excluídos, tanto do imaginário<br />
como da ação político-estatal, ass<strong>uma</strong>m<br />
comportamentos “informais”, às vezes ilegais,<br />
para satisfazer suas aspirações individuais e<br />
coletivas, que o Estado é incapaz <strong>de</strong> controlar<br />
por não contar com os recursos materiais nem<br />
com o respaldo da população. A fragmentação<br />
dos interesses sociais e das representações<br />
políticas, que essa conduta acarreta, agrava os<br />
problemas da ação coletiva, ao mesmo tempo<br />
em que a proliferação <strong>de</strong> “aproveitadores”<br />
(free-ri<strong>de</strong>rs), que <strong>de</strong> maneira irresponsável se<br />
oferecem para resolver as <strong>de</strong>mandas sociais<br />
por meio <strong>de</strong> propostas oportunistas <strong>de</strong> curto<br />
prazo, causa <strong>de</strong>sconcerto e intranqüilida<strong>de</strong><br />
geral.<br />
Nessa conjuntura, não é <strong>de</strong> se estranhar<br />
a existência <strong>de</strong> vozes que prognosticam<br />
<strong>de</strong>senlaces dramáticos; porém, mesmo com os<br />
obscuros presságios, observa-se a presença<br />
<strong>de</strong> atores que, apesar <strong>de</strong> tudo, persistem<br />
obstinadamente em <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r a valida<strong>de</strong> do<br />
regime <strong>de</strong>mocrático, alegando que esse regime<br />
constitui o único marco para nacionalizar e<br />
<strong>de</strong>mocratizar o Estado e a socieda<strong>de</strong>. Como<br />
dizia há pouco tempo um dirigente sindical<br />
peruano: “a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não assegura a justiça<br />
social, mas é o único espaço que permite lutar<br />
para consegui-la”.<br />
Julio Cotler, texto elaborado para o PRODDAL,<br />
2002.<br />
44 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
mocrático, outras aconselháveis para o a<strong>de</strong>quado<br />
funcionamento da economia, e outras<br />
que indicassem as reformas apropriadas para,<br />
por exemplo, a organização estatal.<br />
Com essa visão fragmentada se julgaria<br />
estar fortalecendo a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> com o simples<br />
recurso <strong>de</strong> melhorar o funcionamento<br />
<strong>de</strong> seu regime, e se estaria ignorando o impacto<br />
que, por exemplo, as reformas do Estado<br />
ou as reformas estruturais na economia<br />
teriam sobre ela.<br />
Tampouco se observariam fatos como<br />
o <strong>de</strong> que as políticas <strong>de</strong> reforma do Estado<br />
ou da economia sejam, em última instância,<br />
avaliadas por maiorias que me<strong>de</strong>m seus resultados<br />
em termos do progresso <strong>de</strong> suas vidas<br />
ou <strong>de</strong> <strong>uma</strong> maior justiça na distribuição<br />
<strong>de</strong> bens. Por essa razão, a opinião cidadã é<br />
<strong>uma</strong> parte fundamental da viabilida<strong>de</strong> das<br />
políticas <strong>de</strong> reforma.<br />
Os organismos internacionais e a<br />
promoção da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
O Relatório se inspira na letra e no espírito<br />
<strong>de</strong> diferentes documentos das Nações<br />
Unidas:<br />
■ A Declaração Universal dos Direitos<br />
H<strong>uma</strong>nos, aprovada pelas Nações Unidas<br />
em 1948, estabelece <strong>uma</strong> concepção ampla<br />
<strong>de</strong> cidadania, abrangendo direitos civis, políticos<br />
e sociais.<br />
■ A Declaração e Programa <strong>de</strong> Ação <strong>de</strong><br />
Viena, <strong>de</strong> 1993, estabelece que “a comunida<strong>de</strong><br />
internacional <strong>de</strong>ve apoiar o fortalecimento<br />
e a promoção da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
e respeito aos direitos h<strong>uma</strong>nos<br />
e às liberda<strong>de</strong>s fundamentais no mundo<br />
inteiro”.<br />
■ A promoção do direito à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
foi proclamada pela Comissão <strong>de</strong> Direitos<br />
H<strong>uma</strong>nos das Nações Unidas, em sua resolução<br />
1999/57.<br />
■ Adicionalmente, no ano 2000, a Assembléia<br />
Geral das Nações Unidas, na Declaração<br />
do Milênio, estabelece que: “não<br />
mediremos esforços para promover a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
e reforçar o cumprimento da lei,<br />
assim como o respeito por todos os direitos<br />
h<strong>uma</strong>nos internacionalmente reconhecidos<br />
e liberda<strong>de</strong>s fundamentais, incluindo o direito<br />
ao <strong>de</strong>senvolvimento.”<br />
O Sistema das Nações Unidas, por meio<br />
<strong>de</strong> todos os seus organismos e programas,<br />
promove o respeito pelos direitos h<strong>uma</strong>nos<br />
e a realização <strong>de</strong> eleições livres e limpas.<br />
Com a Declaração do Milênio, a ONU e<br />
outros organismos internacionais <strong>de</strong> cooperação<br />
e financiamento reforçaram seu chamamento<br />
para a promoção da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
para o fortalecimento do estado <strong>de</strong> direito<br />
e para o <strong>de</strong>senvolvimento sustentável. O<br />
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento<br />
(PNUD), por meio <strong>de</strong> seus programas<br />
<strong>de</strong> governabilida<strong>de</strong>, inclui a promoção<br />
<strong>de</strong> diálogos <strong>de</strong>mocráticos, programas <strong>de</strong><br />
reforma do Estado e <strong>de</strong> promoção do <strong>de</strong>senvolvimento<br />
econômico. Para o PNUD,<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e <strong>de</strong>senvolvimento h<strong>uma</strong>no<br />
compartilham <strong>uma</strong> visão e um propósito<br />
comum: o <strong>de</strong>senvolvimento h<strong>uma</strong>no é um<br />
processo para fortalecer as capacida<strong>de</strong>s do<br />
ser h<strong>uma</strong>no, expandindo as oportunida<strong>de</strong>s<br />
<strong>de</strong> cada pessoa <strong>de</strong> chegar a ter <strong>uma</strong> vida respeitável<br />
e valiosa; e é necessário, como correlato,<br />
<strong>uma</strong> forma política que assegure tudo<br />
isso, a saber, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
É <strong>de</strong>stacável também, o papel <strong>de</strong> vários<br />
organismos e iniciativas regionais que <strong>de</strong>ram<br />
priorida<strong>de</strong> à <strong>de</strong>fesa e ao fortalecimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Nesse sentido, é notável o<br />
compromisso que os países da região assumiram<br />
com a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, por meio da Organização<br />
<strong>de</strong> Estados Americanos (OEA).<br />
A OEA <strong>de</strong>u um passo fundamental em sua<br />
quadro 4<br />
Declaração Universal <strong>de</strong> Direitos H<strong>uma</strong>nos<br />
As Nações Unidas reafirmaram, na sua Carta, sua fé nos direitos<br />
fundamentais do homem, na dignida<strong>de</strong> e no valor da pessoa h<strong>uma</strong>na e<br />
na igualda<strong>de</strong> <strong>de</strong> direitos dos homens e das mulheres; e <strong>de</strong>clararam-se<br />
<strong>de</strong>cididas a promover o progresso social e a elevar o nível <strong>de</strong> vida <strong>de</strong>ntro<br />
<strong>de</strong> um conceito mais amplo <strong>de</strong> liberda<strong>de</strong>.<br />
ONU, 1948.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
45
quadro 5<br />
Os direitos <strong>de</strong>mocráticos<br />
A Comissão <strong>de</strong> Direitos H<strong>uma</strong>nos das Nações<br />
Unidas afirma que <strong>de</strong>ntre os direitos a <strong>uma</strong><br />
gestão pública <strong>de</strong>mocrática figuram os<br />
seguintes:<br />
a. O direito à liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> opinião e <strong>de</strong><br />
expressão, <strong>de</strong> pensamento, <strong>de</strong> consciência<br />
e <strong>de</strong> religião, <strong>de</strong> associação e <strong>de</strong> reunião<br />
pacíficas.<br />
b. O direito à liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> investigar e <strong>de</strong><br />
receber e difundir informações e idéias por<br />
qualquer meio <strong>de</strong> expressão.<br />
c. O império da lei, incluída a proteção<br />
jurídica dos direitos, interesses e<br />
segurança pessoal dos cidadãos e a<br />
eqüida<strong>de</strong> na administração da justiça,<br />
assim como a in<strong>de</strong>pendência do Po<strong>de</strong>r<br />
judiciário.<br />
d. O direito ao sufrágio universal e igual, assim<br />
como a procedimentos livres <strong>de</strong> votação e a<br />
eleições periódicas livres.<br />
e. O direito à participação política, incluindo<br />
a igualda<strong>de</strong> <strong>de</strong> oportunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> todos<br />
os cidadãos para apresentarem-se como<br />
candidatos.<br />
f. Instituições <strong>de</strong> governo transparentes e<br />
responsáveis.<br />
g. O direito dos cidadãos a eleger seu sistema<br />
<strong>de</strong> governo por meios constitucionais ou outros<br />
meios <strong>de</strong>mocráticos.<br />
h. O direito <strong>de</strong> acesso, em condições <strong>de</strong><br />
igualda<strong>de</strong>, à função pública no próprio país.<br />
ONU, Comissão <strong>de</strong> Direitos H<strong>uma</strong>nos, 1999.<br />
reunião <strong>de</strong> Santiago do Chile, em 1991,<br />
quando seus países membros adotaram mecanismos<br />
para reagir diante <strong>de</strong> situações em<br />
que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> fosse interrompida. Outro<br />
passo-chave foi dado pela aprovação da Carta<br />
Democrática Interamericana em 2001. Indubitavelmente,<br />
a coor<strong>de</strong>nação <strong>de</strong> esforços<br />
em prol da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> por parte <strong>de</strong> lí<strong>de</strong>res<br />
latino-americanos, especialmente por meio<br />
<strong>de</strong> organizações internacionais, é um marco<br />
que fortalece as <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s na América<br />
Latina.<br />
Além disso, cabe <strong>de</strong>stacar o trabalho realizado<br />
pelo Grupo do Rio, pelas Cúpulas<br />
Ibero-americanas dos Chefes <strong>de</strong> Estado e <strong>de</strong><br />
Governo, e pela OEA por meio da Unida<strong>de</strong><br />
para a Promoção da Democracia, acerca<br />
<strong>de</strong> temas-chave para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Mais es-<br />
quadro 6<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> requer mais do que eleições<br />
A <strong>de</strong>mocratização verda<strong>de</strong>ira é algo mais do<br />
que as eleições. […] O fato <strong>de</strong> conce<strong>de</strong>r a todas<br />
as pessoas <strong>uma</strong> igualda<strong>de</strong> política oficial não<br />
é suficiente para criar, na mesma medida, a<br />
vonta<strong>de</strong> ou a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> participar nos<br />
processos políticos, nem <strong>uma</strong> capacida<strong>de</strong><br />
igual <strong>de</strong> todos em influir nos resultados.<br />
Os <strong>de</strong>sequilíbrios <strong>de</strong> recursos e <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r<br />
político minam, freqüentemente, o princípio<br />
“<strong>uma</strong> pessoa, um voto”, e a finalida<strong>de</strong> das<br />
instituições <strong>de</strong>mocráticas.<br />
PNUD, 2002c, pp.4 e 14.<br />
As eleições não são eventos isolados, mas sim<br />
parte <strong>de</strong> um processo mais amplo.<br />
Kofi Annan, Secretário Geral da ONU 2003.<br />
As eleições livres e justas são necessárias,<br />
mas não são suficientes. Não apreciamos<br />
plenamente o valor da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, quando<br />
realizamos eleições, como evidência <strong>de</strong> que<br />
existe <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Mark Malloch Brown, Administrador do PNUD,<br />
2002.<br />
46 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
pecificamente, essas iniciativas vêm impulsionando<br />
a <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> <strong>uma</strong> agenda política<br />
para a região, que ressalta a importância<br />
da política e dos partidos políticos, das organizações<br />
da socieda<strong>de</strong> civil e da participação<br />
cidadã nos diversos processos da vida pública,<br />
da cultura <strong>de</strong>mocrática, das instituições<br />
que garantem a transparência e a eficácia<br />
governamental, da governabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática,<br />
do estado <strong>de</strong> direito, da redução da<br />
pobreza, e do impacto da nova economia sobre<br />
o <strong>de</strong>senvolvimento econômico.<br />
É importante <strong>de</strong>stacar que essas iniciativas<br />
internacionais não se restringem<br />
a promover a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> em seu aspecto<br />
eleitoral. Pelo contrário, levando em consi<strong>de</strong>ração<br />
as preocupações dos cidadãos, os<br />
organismos internacionais globais e regionais<br />
incluem em suas metas tanto o estado<br />
<strong>de</strong> direito quanto o <strong>de</strong>senvolvimento econômico.<br />
Cada vez mais, a comunida<strong>de</strong> internacional<br />
está convergindo para a visão mais<br />
ampla <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, proposta por este<br />
Relatório, e para a idéia <strong>de</strong> que, para prevenir<br />
retrocessos no processo <strong>de</strong>mocrático,<br />
é necessário analisar o regime <strong>de</strong>mocrático<br />
não isoladamente, mas como parte do<br />
marco das cidadanias política, civil e social.<br />
O gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>safio resi<strong>de</strong> em consolidar este<br />
consenso emergente e traduzi-lo em apoio a<br />
reformas que fortaleçam as <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s latino-americanas.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
47
48 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
■ Exploração sobre o<br />
<strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> 9<br />
Quanto maior o grau <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
melhor. Essa é a idéia que guia nossa exploração<br />
sobre o <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
na América Latina. No entanto,<br />
mesmo assim, in dubio pro <strong>de</strong>mocratia.<br />
Embora este seja um critério geral válido,<br />
ele não resolve a discussão teórica e<br />
política sobre duas questões: quanta <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
e on<strong>de</strong><br />
A que esferas <strong>de</strong>veriam ser ampliados<br />
os mecanismos <strong>de</strong>mocráticos <strong>de</strong> tomada<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão e os princípios e direitos <strong>de</strong> cidadania<br />
Que custos, em termos <strong>de</strong> outros<br />
objetivos sociais, estamos dispostos a pagar<br />
para avançar na <strong>de</strong>mocratização Deveriam<br />
os mecanismos <strong>de</strong>mocráticos e os princípios<br />
<strong>de</strong> cidadania se esten<strong>de</strong>r ao, digamos,<br />
funcionamento interno dos partidos e sindicatos,<br />
mas não a empresas, universida<strong>de</strong>s,<br />
organizações internacionais e famílias<br />
Po<strong>de</strong>m existir critérios razoavelmente consistentes<br />
e amplamente aceitos sobre on<strong>de</strong><br />
aplicar e on<strong>de</strong> não, os mecanismos e princípios<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> E, talvez ainda mais<br />
enigmático, quem <strong>de</strong>veria <strong>de</strong>cidir este tipo<br />
<strong>de</strong> questão e por meio <strong>de</strong> que processos<br />
Os <strong>de</strong>mocratas sinceros <strong>de</strong> diversas<br />
escolas e tradições sempre <strong>de</strong>baterão sobre<br />
on<strong>de</strong>, como, quando e por quem <strong>de</strong>vem ser<br />
colocados os limites da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. A política,<br />
especialmente a política <strong>de</strong>mocrática,<br />
<strong>de</strong>bate centralmente sobre os seus próprios<br />
limites e, por conseqüência, também sobre<br />
os do Estado 10 . Quais os males que po<strong>de</strong>m<br />
ser prevenidos Quais <strong>de</strong>les <strong>de</strong>veriam ser resolvidos<br />
pela política e pelo Estado a<strong>de</strong>quado<br />
Quais são os fatos inelutáveis ou que<br />
<strong>de</strong>vem ser <strong>de</strong>ixados à mercê do mercado ou<br />
da boa vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> alguns atores sociais<br />
Estas perguntas não admitem ser tratadas<br />
in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente das circunstâncias<br />
específicas <strong>de</strong> cada país. No entanto, no<br />
contexto do presente Relatório não po<strong>de</strong>mos<br />
<strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> registrar como, na história<br />
recente da América Latina, os limites da<br />
política, da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e do Estado se<br />
reduziram.<br />
Gran<strong>de</strong> parte da teoria contemporânea da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> se limita a caracterizá-la como<br />
um regime político. Esta restrição reflete<br />
e reforça <strong>uma</strong> concepção geral daquilo<br />
que a política, especificamente a política<br />
<strong>de</strong>mocrática, trata. Tais visões expulsam<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e, em geral, a política, <strong>de</strong><br />
qualquer relação ativa diante da gran<strong>de</strong><br />
injustiça social que se manifesta na ampla<br />
carência <strong>de</strong> direitos sociais e civis, e também<br />
na anemia <strong>de</strong> um Estado que se mostra<br />
ineficaz e que per<strong>de</strong> credibilida<strong>de</strong> perante<br />
maiorias flutuantes <strong>de</strong> suas respectivas<br />
socieda<strong>de</strong>s.<br />
Essa redução da capacida<strong>de</strong> criadora da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é produto, entre outras coisas,<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong>de</strong>ficiência conceitual: julgar a <strong>de</strong>-<br />
Na história<br />
recente da<br />
América Latina,<br />
os limites da<br />
política, da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e<br />
do Estado se<br />
reduziram.<br />
9 Esta seção se baseia principalmente nos documentos preparados por Guillermo O’Donnell para este Relatório:<br />
“Notas sobre el estado <strong>de</strong> la <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> en América Latina” e “Acerca <strong>de</strong>l Estado en América Latina contemporánea:<br />
Diez tesis para su discusión”. Este último documento é também <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> importância na Terceira Seção do<br />
Relatório, principalmente na parte intitulada: “A necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>uma</strong> nova “Estatalidad”.<br />
10 Do mesmo modo, S. N. Eisenstadt (2000, p. 14) faz a importante observação <strong>de</strong> que um dos “aspectos centrais<br />
do processo político <strong>de</strong>mocrático […] [é] <strong>uma</strong> luta contínua sobre a <strong>de</strong>finição do âmbito da política. Na verda<strong>de</strong>,<br />
é somente com o advento da mo<strong>de</strong>rnida<strong>de</strong> que o traçado dos limites da política transforma-se em um dos maiores<br />
foci da luta e da contestação política aberta”.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
49
quadro 7<br />
Os alicerces da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Não há nada misterioso quanto aos alicerces<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> saudável e forte. As<br />
coisas básicas que nosso povo espera <strong>de</strong> seus<br />
sistemas políticos e econômicos são simples.<br />
Elas são:<br />
■ A igualda<strong>de</strong> <strong>de</strong> oportunida<strong>de</strong> para os jovens<br />
e os <strong>de</strong>mais.<br />
■ Um trabalho para os que po<strong>de</strong>m trabalhar.<br />
■ A segurança (social) para os que <strong>de</strong>la<br />
precisam.<br />
■ O fim do privilégio especial para alguns.<br />
■ A preservação das liberda<strong>de</strong>s civis para<br />
todos.<br />
■ A participação nos frutos do progresso<br />
científico, em um padrão <strong>de</strong> vida<br />
constantemente crescente e amplamente<br />
compartilhado.<br />
Essas são as coisas simples e básicas que seria<br />
necessário nunca se per<strong>de</strong>r <strong>de</strong> vista no tumulto<br />
e na incrível complexida<strong>de</strong> <strong>de</strong> nosso mundo<br />
mo<strong>de</strong>rno. A força interior e duradoura <strong>de</strong><br />
nossos sistemas econômico e político <strong>de</strong>pen<strong>de</strong><br />
do grau em que cumprem essas expectativas.<br />
Franklin Delano Roosevelt, “Discurso das<br />
Quatro Liberda<strong>de</strong>s”, janeiro 1941.<br />
A medida do<br />
<strong>de</strong>senvolvimento<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
é dada, portanto,<br />
por sua capacida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> dar vigência<br />
aos direitos<br />
dos cidadãos e<br />
constituir seus<br />
cidadãos em<br />
sujeitos das<br />
<strong>de</strong>cisões que a<br />
eles se referem.<br />
mocracia como a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> do eleitor.<br />
Quando a cidadania é colocada como fundamento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, muda a forma <strong>de</strong> avaliá-la.<br />
Na verda<strong>de</strong>, se o <strong>de</strong>senvolvimento da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> for medido por sua capacida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> garantir e expandir a cidadania em suas<br />
esferas civil, social e política, abre-se <strong>uma</strong><br />
dimensão diferente <strong>de</strong> reflexão e <strong>de</strong> ação.<br />
A noção <strong>de</strong> cidadania implica um status<br />
para cada pessoa como membro <strong>de</strong> pleno<br />
direito <strong>de</strong> <strong>uma</strong> comunida<strong>de</strong>, e abrange diversas<br />
esferas que se expressam em direitos e<br />
obrigações. A expansão da cidadania é <strong>uma</strong><br />
condição do êxito <strong>de</strong> <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong> e da realização<br />
<strong>de</strong> suas aspirações. A qualida<strong>de</strong> da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong>ve ser julgada sobre essa base.<br />
A medida do <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é dada, portanto, por sua capacida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> dar vigência aos direitos dos cidadãos<br />
e constituir seus cidadãos em sujeitos<br />
das <strong>de</strong>cisões que a eles se referem.<br />
Em síntese, quando este Relatório analisa<br />
o grau <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
suas conquistas e carências, interroga-se<br />
sobre o sistema que possibilita o acesso aos<br />
cargos públicos, sobre a organização social<br />
gerada pela <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> – o Estado, os partidos,<br />
o po<strong>de</strong>r – e sobre a qualida<strong>de</strong> da cidadania<br />
civil, social e política das mulheres e dos<br />
homens que integram <strong>uma</strong> Nação.<br />
Um <strong>de</strong>bate incompleto<br />
Durante quase duas décadas, particularmente<br />
nos anos noventa, a agenda e as políticas<br />
públicas na América Latina trataram da<br />
questão do fortalecimento <strong>de</strong>mocrático, da<br />
crise da política, das reformas do Estado, das<br />
reformas estruturais da economia e do impacto<br />
da globalização na região. No entanto,<br />
apesar <strong>de</strong> terem sido abordados aspectos<br />
fundamentais <strong>de</strong>ssas questões, o <strong>de</strong>bate<br />
marginalizou outros que, à luz da análise<br />
apresentada neste Relatório, <strong>de</strong>veriam ser<br />
colocados no centro da discussão.<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> foi observada essencialmente<br />
em sua dimensão eleitoral; a política<br />
foi examinada sob o prisma da crise expressa<br />
pelos partidos, pelas estruturas clientelistas,<br />
pela corrupção ou pelos regimes eleitorais;<br />
a problemática do Estado centrou-se<br />
na questão do equilíbrio das contas fiscais,<br />
na mo<strong>de</strong>rnização burocrática e na diminuição<br />
<strong>de</strong> sua interferência na economia; a<br />
economia teve como tema quase exclusivo<br />
a questão <strong>de</strong> seus equilíbrios e as reformas<br />
estruturais supostamente necessárias para<br />
atingi-los; e, finalmente, a globalização foi<br />
consi<strong>de</strong>rada ou como a origem <strong>de</strong> males<br />
inevitáveis ou como fonte <strong>de</strong> benefícios<br />
imensos, colocando inclusive em dúvida<br />
o sentido da continuida<strong>de</strong> dos Estados<br />
nacionais em um mundo que marchava a<br />
50 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
TABELA 3<br />
PERCEPÇÕES SOBRE AS RAZÕES DE DESCUMPRIMENTO DE PROMESSAS<br />
ELEITORAIS POR PARTE DOS GOVERNANTES 2002.<br />
Cumprimento <strong>de</strong> promessas Pessoas (%)<br />
Os governantes cumprem suas promessas eleitorais 2,3<br />
Não cumprem porque ignoram como os problemas são complicados 10,1<br />
Não cumprem porque aparecem outros problemas mais urgentes 9,6<br />
Não cumprem porque o sistema não os <strong>de</strong>ixa cumprir 11,5<br />
Não cumprem porque mentem para ganhar as eleições 64,7<br />
Nenh<strong>uma</strong> das anteriores 1,7<br />
Nota: n = 19.279.<br />
Fonte: Pergunta P25U da Seção Proprietária do PNUD, pesquisa Latinobarômetro 2002.<br />
caminho da “al<strong>de</strong>ia global”.<br />
Como dissemos, esses <strong>de</strong>bates eram,<br />
naquele momento, imprescindíveis. Agora,<br />
são insuficientes. O <strong>de</strong>senvolvimento da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é muito mais do que a perfeição<br />
<strong>de</strong> seu sistema eleitoral.<br />
A crise da política se manifesta tanto na<br />
baixa credibilida<strong>de</strong> e prestígio dos partidos<br />
quanto na pouca eficácia dos governos para<br />
abordar as questões centrais <strong>de</strong>tectadas<br />
como déficit <strong>de</strong> cidadania, em particular, os<br />
déficits que dizem respeito aos direitos civis<br />
e sociais (tabela 3). Ambas as dimensões da<br />
crise da política – instituições e conteúdos<br />
– são vitais, pois é a política que <strong>de</strong>ve formular<br />
opções, representar os cidadãos e criar os<br />
nexos entre Estado e socieda<strong>de</strong> para gerar<br />
po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>mocrático.<br />
Gran<strong>de</strong> parte das questões consi<strong>de</strong>radas<br />
carências centrais está situada no plano da<br />
“estatalidad” – que enten<strong>de</strong>mos como a<br />
capacida<strong>de</strong> do Estado para cumprir suas<br />
funções e objetivos, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente do<br />
tamanho e da forma <strong>de</strong> organização <strong>de</strong> suas<br />
burocracias. Ultimamente, o tema do Estado<br />
reduziu-se, no momento da discussão e das<br />
propostas públicas, a questões relacionadas<br />
com sua capacida<strong>de</strong> burocrática e sua estrutura<br />
<strong>de</strong> gastos e recursos, ou seja, à questão<br />
do déficit fiscal. Ficou fora da discussão a<br />
existência <strong>de</strong> Estados com legalida<strong>de</strong>s truncadas,<br />
incapazes <strong>de</strong> monopolizar a coerção,<br />
carentes do po<strong>de</strong>r necessário para colocar<br />
em prática o mandato eleitoral e que, geralmente,<br />
encontram sérias dificulda<strong>de</strong>s para<br />
cumprir sua crucial responsabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
construir <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. 11<br />
A questão econômica tem caminhos<br />
e <strong>uma</strong> diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> opções que o pensamento<br />
único ignora, e a relação entre<br />
economia e <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é apresentada no<br />
<strong>de</strong>bate atual a partir do impacto da segunda<br />
sobre a primeira. Desse modo, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
ocupa na análise <strong>uma</strong> posição subordinada<br />
aos objetivos do crescimento econômico. É<br />
preciso inverter os termos e perguntar qual<br />
é a economia necessária para fortalecer a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Desse modo po<strong>de</strong>remos <strong>de</strong>bater<br />
tanto o papel da economia no <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, a partir <strong>de</strong> seu impacto<br />
nos direitos sociais, quanto a capacida<strong>de</strong><br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> para influir na organização<br />
da economia e possibilitar a diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
opções da economia <strong>de</strong> mercado.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é<br />
muito mais do que<br />
a perfeição <strong>de</strong> seu<br />
sistema eleitoral.<br />
11 Do ponto <strong>de</strong> vista <strong>de</strong> George Soros (2001), esta questão se expressa assim: “O capitalismo cria riqueza, mas não<br />
se po<strong>de</strong> <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>r <strong>de</strong>le para garantir a liberda<strong>de</strong>, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e o Estado <strong>de</strong> direito. As empresas estão motivadas<br />
pelo benefício, não têm por objetivo salvaguardar os princípios universais. Até a proteção do mercado requer muito<br />
mais que o benefício próprio: os participantes no mercado competem para ganhar, e se pu<strong>de</strong>ssem eliminariam<br />
a concorrência” (Soros, 2001).<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
51
quadro 8<br />
Cidadania e comunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> cidadãos<br />
A cidadania caracteriza <strong>uma</strong> situação <strong>de</strong> inclusão em <strong>uma</strong> “comunida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> cidadãos”. Mas esta última não po<strong>de</strong> ser <strong>de</strong>finida simplesmente pelo<br />
direito <strong>de</strong> voto e pela garantia <strong>de</strong> ver protegido um certo número <strong>de</strong><br />
liberda<strong>de</strong>s individuais. A cidadania se caracteriza também pela existência<br />
<strong>de</strong> um mundo comum. Em outros termos, possui, necessariamente, <strong>uma</strong><br />
dimensão social. Tocqueville foi o primeiro a <strong>de</strong>stacar que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
caracterizava <strong>uma</strong> forma <strong>de</strong> socieda<strong>de</strong> e não apenas um conjunto <strong>de</strong><br />
instituições e <strong>de</strong> princípios políticos.<br />
Pierre Rosanvallon, texto elaborado para o PRODDAL, 2002.<br />
Finalmente, mesmo não ignorando suas<br />
importantes conseqüências, a globalização<br />
não <strong>de</strong>veria conduzir a conclusões fatalistas.<br />
Os espaços <strong>de</strong> participação e <strong>de</strong>cisão<br />
<strong>de</strong>mocráticas são essencialmente nacionais<br />
e, embora a globalização imponha gran<strong>de</strong>s<br />
restrições à capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ação dos Estados<br />
nacionais, em vez <strong>de</strong> sucumbir à impotência,<br />
é preciso focar o <strong>de</strong>bate na forma <strong>de</strong> gerar<br />
novos espaços <strong>de</strong> autonomia nacional a<br />
partir dos âmbitos regionais <strong>de</strong> cooperação<br />
e integração.<br />
Portanto, para discutir as condições do<br />
<strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, propomos<br />
ampliar os conteúdos da agenda que predominou<br />
ultimamente. Obviamente, o objeto<br />
<strong>de</strong>ste Relatório não é propor políticas nacionais;<br />
cada país tem tempos e situações<br />
diferentes. Essas especificida<strong>de</strong>s, porém,<br />
dizem respeito ao tipo <strong>de</strong> solução a ser aplicada<br />
em cada caso, e não à relevância dos<br />
problemas. As diversas respostas possíveis<br />
a esses problemas não alteram o conjunto<br />
<strong>de</strong> interrogações que apresentamos, em<br />
especial, a que se refere à necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
elaborar <strong>uma</strong> nova agenda <strong>de</strong> reformas <strong>de</strong>mocráticas<br />
para a América Latina.<br />
Assim sendo, <strong>de</strong> que estamos falando<br />
quando nos referimos à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> A<br />
partir <strong>de</strong> que marco conceitual apresentamos<br />
a idéia <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> Que <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> temos nós,<br />
latino-americanos E, finalmente, qual<br />
é a agenda <strong>de</strong> <strong>de</strong>bate necessária para <strong>de</strong>senvolver<br />
nossas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s e expandir<br />
nossas cidadanias<br />
Fundamentos teóricos<br />
Nesta seção, são apresentados alguns dos<br />
conceitos, argumentos e questões <strong>de</strong> <strong>de</strong>bate<br />
que pertencem ao campo teórico do Relatório,<br />
12 partindo da base <strong>de</strong> que a <strong>de</strong>finição dos<br />
sentidos da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> também faz parte<br />
das tarefas que possibilitam transformá-la<br />
e enriquecê-la.<br />
Quando nos <strong>de</strong>paramos com a complexida<strong>de</strong><br />
das questões em jogo, quando<br />
observamos novas realida<strong>de</strong>s impossíveis <strong>de</strong><br />
serem abordadas por meio da mera intuição,<br />
tomamos consciência <strong>de</strong> nossa insuficiente<br />
base teórica. Evi<strong>de</strong>ntemente, não estamos<br />
afirmando que a prática da política é o<br />
corolário <strong>de</strong> <strong>uma</strong> teoria apropriada; só estamos<br />
enfatizando a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> sérios e<br />
fundados conhecimentos e <strong>de</strong>bates para que<br />
a prática política possa orientar com êxito o<br />
futuro <strong>de</strong> nossos países. A teoria não é <strong>uma</strong><br />
maneira <strong>de</strong> encerrar-se em um mundo distante<br />
da prática, ela é utilizada para enten<strong>de</strong>r<br />
como estamos, para on<strong>de</strong> vamos e o que seria<br />
prioritário transformar.<br />
A teoria política e, <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong>la, a teoria <strong>de</strong>mocrática<br />
<strong>de</strong>ram importantes contribuições<br />
para a análise da nossa realida<strong>de</strong>. Entretanto, é<br />
provável que não haja exemplo mais eloqüente<br />
da distância entre teoria e prática do que o<br />
mundo da política. Por um lado, freqüentemente<br />
se discutem idéias sobre o complexo<br />
<strong>de</strong>senvolvimento político das socieda<strong>de</strong>s e por<br />
outro – quase como se essas idéias pertencessem<br />
a outro universo – pratica-se a política.<br />
Desvalorizar a análise teórica, mais do<br />
que um afã <strong>de</strong> tratar imediatamente <strong>de</strong><br />
12 Os dados estatísticos e <strong>de</strong> opinião pública que constam neste Relatório têm origem em um marco conceitual.<br />
Sem esse marco, não po<strong>de</strong>ríamos ter i<strong>de</strong>ntificado os indicadores relevantes para interpretar o <strong>de</strong>senvolvimento da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Os indicadores e a pesquisa utilizados neste Relatório são o resultado <strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong>de</strong>terminada concepção<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Essa teoria justifica e explica o método adotado em sua elaboração.<br />
52 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
coisas práticas, po<strong>de</strong> ser, às vezes, <strong>uma</strong> maneira<br />
<strong>de</strong> evitar o cotejo das <strong>de</strong>cisões com as<br />
razões que as fundamentam, ou <strong>uma</strong> forma<br />
<strong>de</strong> encobrir as verda<strong>de</strong>iras motivações dos<br />
que exercem o po<strong>de</strong>r, público ou privado. A<br />
<strong>de</strong>svalorização da teoria cost<strong>uma</strong> ser um recurso<br />
que abre caminho para o pensamento<br />
mágico, entendido como um conjunto <strong>de</strong><br />
idéias que, por seu fascínio, parecem prescindir<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>monstração.<br />
Este Relatório se propõe a basear suas<br />
<strong>de</strong>scrições, análises e propostas em razões<br />
sistemáticas e rigorosas. Sua intenção não<br />
é abranger a totalida<strong>de</strong> do <strong>de</strong>bate sobre a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, mas sim fundamentar as afirmações<br />
e propostas que apresenta.<br />
quadro 9<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: <strong>uma</strong> construção permanente<br />
Devemos relembrar que, <strong>de</strong>pois dos seus princípios promissores, a evolução<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> até nossos dias não seguiu um caminho ascen<strong>de</strong>nte.<br />
Houve altos e baixos, movimentos <strong>de</strong> resistência, rebeliões, guerras civis,<br />
revoluções. Durante alguns séculos […] inverteram-se alguns dos avanços<br />
anteriores. Olhando para trás, para a ascensão e queda da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, é<br />
evi<strong>de</strong>nte que não po<strong>de</strong>mos contar com as forças sociais para assegurar<br />
que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> continue sempre avançando. […] A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, tal como<br />
parece, é um pouco incerta, mas suas possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m também<br />
do que nós fizermos. Inclusive, ainda que não possamos contar com impulsos<br />
benignos que a favoreçam, não somos meras vítimas <strong>de</strong> forças cegas<br />
sobre as quais não temos nenhum controle. Com <strong>uma</strong> a<strong>de</strong>quada compreensão<br />
do que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> exige e com a <strong>de</strong>terminação <strong>de</strong> satisfazer seus<br />
requerimentos, po<strong>de</strong>mos agir no sentido <strong>de</strong> satisfazer as idéias e práticas<br />
<strong>de</strong>mocráticas e, ainda mais, avançar nelas.<br />
Robert Dahl, 1999, pp. 32-33.<br />
A idéia <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Parte-se aqui <strong>de</strong> <strong>uma</strong> idéia básica e geral<br />
<strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, mas não se utiliza <strong>uma</strong> <strong>de</strong>finição<br />
taxativa e rígida; procura-se encontrar<br />
nas diferentes esferas da vida social o que,<br />
sendo próprio <strong>de</strong>las, afeta e é afetado pela<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Nesse sentido, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é<br />
o resultado da história das socieda<strong>de</strong>s e não<br />
só <strong>de</strong> si mesma.<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é o resultado <strong>de</strong> <strong>uma</strong> intensa<br />
e corajosa experiência social e histórica<br />
que se constrói dia-a-dia nas realizações<br />
e frustrações, ações e omissões, ocupações,<br />
intercâmbios e aspirações <strong>de</strong> seus protagonistas:<br />
cidadãos, grupos sociais e comunida<strong>de</strong>s,<br />
que lutam por seus direitos e edificam<br />
incessantemente sua vida em comum.<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> implica <strong>uma</strong> forma <strong>de</strong><br />
conceber o ser h<strong>uma</strong>no e <strong>de</strong> garantir os<br />
direitos individuais. Por conseguinte, ela<br />
contém um conjunto <strong>de</strong> princípios, regras<br />
e instituições que organizam as relações sociais,<br />
os procedimentos para eleger governos<br />
e os mecanismos para controlar seu exercício.<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é também o modo como<br />
a socieda<strong>de</strong> concebe o Estado e com o qual<br />
preten<strong>de</strong> fazê-lo funcionar.<br />
Mas isso não é tudo. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> também<br />
é um modo <strong>de</strong> conceber e resguardar a<br />
memória coletiva e <strong>de</strong> acolher, celebrandoas,<br />
diversas i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> comunida<strong>de</strong>s<br />
locais e regionais.<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é cada <strong>uma</strong> <strong>de</strong>ssas <strong>de</strong>finições<br />
e tarefas, assim como as diversas maneiras<br />
em que elas se materializam em regras e<br />
instituições.<br />
Sustentamos que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é mais do<br />
que um conjunto <strong>de</strong> condições para eleger<br />
e ser eleito, que chamamos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
eleitoral. É também, como já dissemos,<br />
<strong>uma</strong> maneira <strong>de</strong> organizar a socieda<strong>de</strong> com<br />
o objetivo <strong>de</strong> garantir e expandir os direitos<br />
que os indivíduos possuem. Este segundo<br />
aspecto é o que <strong>de</strong>fine a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania.<br />
Essas duas caras da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> estão intimamente<br />
vinculadas e o grau <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
<strong>de</strong> ambas inci<strong>de</strong> substancialmente<br />
em sua qualida<strong>de</strong> e sustentabilida<strong>de</strong>.<br />
A diferença entre <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral<br />
e <strong>de</strong> cidadania contém quatro argumentos<br />
básicos que guiam este Relatório:<br />
1. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> encontra seu fundamento<br />
filosófico e normativo em <strong>uma</strong> concepção<br />
do ser h<strong>uma</strong>no como sujeito portador <strong>de</strong><br />
direitos. Nela se distingue a idéia do ser<br />
h<strong>uma</strong>no como um ser autônomo, razoável e<br />
responsável. Esta concepção subjaz a toda e<br />
qualquer noção <strong>de</strong> cidadania, inclusive à <strong>de</strong><br />
cidadania política.<br />
2. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é <strong>uma</strong> forma <strong>de</strong> organização<br />
da socieda<strong>de</strong> que garante o exercício<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
implica <strong>uma</strong><br />
forma <strong>de</strong> conceber<br />
o ser h<strong>uma</strong>no<br />
e <strong>de</strong> garantir<br />
os direitos<br />
individuais.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
53
quadro 11<br />
Democracia e soberania<br />
e promove a expansão da cidadania; estabelece<br />
regras para as relações políticas e para a<br />
organização e o exercício do po<strong>de</strong>r, que são<br />
coerentes com a já mencionada concepção<br />
do ser h<strong>uma</strong>no.<br />
3. As eleições livres, competitivas e institucionalizadas,<br />
e as regras e os procedimentos<br />
para a formação e o exercício do governo<br />
(conjunto que <strong>de</strong>nominamos <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
eleitoral) são componentes essenciais da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e constituem sua esfera básica.<br />
No entanto, no que se refere a seus alcances e<br />
a suas possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> realização, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
não se esgota nessa esfera.<br />
4. O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na<br />
América Latina constitui <strong>uma</strong> experiência<br />
histórica única, caracterizada por especificida<strong>de</strong>s<br />
intimamente relacionadas com os<br />
processos <strong>de</strong> construção da Nação e das socieda<strong>de</strong>s<br />
latino-americanas, incluindo suas<br />
diversas i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>s culturais.<br />
Os déficits da socieda<strong>de</strong> como déficit<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Um corolário relevante <strong>de</strong>sta maneira<br />
<strong>de</strong> enten<strong>de</strong>r a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e seu <strong>de</strong>senvolvimento<br />
é observar os déficits sociais como<br />
carências da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Dessa forma, a<br />
pobreza e a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> não são somente<br />
“problemas sociais”, mas também déficits<br />
<strong>de</strong>mocráticos. Portanto, resolvê-los é atacar<br />
<strong>uma</strong> das questões básicas da sustentabilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mocrática. Daí se <strong>de</strong>rivará, em nossa<br />
O exercício da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é <strong>uma</strong> afirmação da soberania <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
nação: É necessário um marco <strong>de</strong>mocrático que <strong>de</strong>volva à reduzida<br />
noção <strong>de</strong> soberania seu sentido político prístino: não existe nação<br />
soberana no concerto internacional que não seja soberana na or<strong>de</strong>m<br />
nacional, isto é, que não respeite os direitos políticos e culturais da<br />
população concebida não como simples número, mas como complexa<br />
qualida<strong>de</strong>, não como quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> habitantes, mas como qualida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> cidadãos.<br />
Carlos Fuentes, 1998, p. 9.<br />
quadro 10<br />
Democracia e igualda<strong>de</strong><br />
Nenh<strong>uma</strong> teoria da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> que<br />
omita dar à idéia igualitária um lugar<br />
central po<strong>de</strong> oferecer <strong>uma</strong> representação<br />
fi<strong>de</strong>digna do peso extraordinário da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na imaginação política<br />
mo<strong>de</strong>rna. […] Devemos ter em<br />
mente que, historicamente, um dos<br />
principais objetivos dos movimentos<br />
<strong>de</strong>mocráticos foi procurar compensação<br />
na esfera política para os efeitos<br />
das <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s na economia e na<br />
socieda<strong>de</strong>.<br />
C.R. Beitz, 1989, pp. xi, xvi.<br />
análise, <strong>uma</strong> crítica à perigosa cisão entre<br />
“política econômica”, “política social” e fortalecimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> que, freqüentemente,<br />
são tratados como compartimentos<br />
estanques. O principal corolário <strong>de</strong>sta crítica<br />
é que não <strong>de</strong>ve haver <strong>uma</strong> agenda econômica<br />
social divorciada da agenda <strong>de</strong>mocrática.<br />
Como fundamento dos seus mecanismos<br />
e instituições, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> apela a<br />
<strong>uma</strong> certa visão da condição h<strong>uma</strong>na e <strong>de</strong><br />
seu <strong>de</strong>senvolvimento: todos os seres h<strong>uma</strong>nos<br />
nascem livres e iguais em dignida<strong>de</strong> e<br />
direitos, dotados <strong>de</strong> razão e consciência. 13<br />
Os princípios que daí emanam projetam-se<br />
sobre o conjunto da socieda<strong>de</strong>. A<br />
escola, a família, a economia e, em geral,<br />
todas as formas <strong>de</strong> organizar a socieda<strong>de</strong><br />
além das instituições próprias da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
são atingidos pelos princípios inerentes<br />
a ela. O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
está relacionado com a intensida<strong>de</strong> com que<br />
esses princípios são capazes <strong>de</strong> impregnar os<br />
diferentes campos da vida social. É por essa<br />
razão que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não aparece somente<br />
em sua dimensão institucional; é também<br />
<strong>uma</strong> promessa civilizadora que instala a<br />
expectativa <strong>de</strong> expansão da liberda<strong>de</strong>, da<br />
igualda<strong>de</strong>, da justiça e do progresso.<br />
13 Declaração Universal dos Direitos H<strong>uma</strong>nos das Nações Unidas.<br />
54 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
quadro 12<br />
Uma <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> poliarquia<br />
Poliarquia <strong>de</strong>riva das palavras gregas que<br />
significam “muitos” e “governo”. Distinguese<br />
assim o “governo <strong>de</strong> muitos” do governo<br />
<strong>de</strong> um, ou monarquia, ou do governo<br />
<strong>de</strong> poucos, aristocracia ou oligarquia.<br />
[…] Uma <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> poliárquica é um<br />
sistema político dotado das instituições<br />
<strong>de</strong>mocráticas [<strong>de</strong>scritas]. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
poliárquica é, pois, diferente da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
representativa com sufrágio restrito, como<br />
a do século XIX. É também diferente das<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s e repúblicas mais antigas, que<br />
tinham sufrágio restrito, e não possuíam<br />
muitas das outras características cruciais<br />
das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s poliárquicas, tais<br />
como: partidos políticos, direito a formar<br />
organizações políticas para influir em ou<br />
opor-se a governos existentes, grupos<br />
<strong>de</strong> interesse organizados etc. É também<br />
diferente das práticas <strong>de</strong>mocráticas<br />
próprias <strong>de</strong> unida<strong>de</strong>s tão pequenas que<br />
possibilitem a realização <strong>de</strong> <strong>uma</strong> assembléia<br />
direta <strong>de</strong> seus membros e a <strong>de</strong>cisão (ou<br />
recomendação) direta das políticas ou leis.<br />
Robert Dahl, 1987, p. 105.<br />
Alcances da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> no Relatório<br />
Conforme a perspectiva que adotamos,<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> pressupõe um conjunto <strong>de</strong><br />
características essenciais que <strong>de</strong>finem suas<br />
condições necessárias. Essas características,<br />
raras vezes, existem plenamente, freqüentemente<br />
combinam-se em diversos graus<br />
e alcances. 14 O que importa é colocar em<br />
evidência que a análise do grau <strong>de</strong> realização<br />
<strong>de</strong> cada um <strong>de</strong>sses elementos é irrefutável<br />
no momento <strong>de</strong> avaliar o grau <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
inclui, como um <strong>de</strong> seus elementos centrais,<br />
<strong>uma</strong> livre <strong>de</strong>legação da soberania popular<br />
em um governo, para executar a opção<br />
majoritária da cidadania. Para que esse procedimento<br />
atinja seu objetivo é preciso que<br />
exista o conjunto <strong>de</strong> condições que serão<br />
<strong>de</strong>scritas a seguir.<br />
1. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> pressupõe como condição<br />
necessária a existência <strong>de</strong> um regime político<br />
que se <strong>de</strong>senvolve em um Estado e em<br />
<strong>uma</strong> Nação <strong>de</strong>limitados por <strong>uma</strong> população,<br />
por um território e pelo po<strong>de</strong>r exercido em<br />
seu interior. Esse regime contém um conjunto<br />
<strong>de</strong> instituições e procedimentos que<br />
<strong>de</strong>finem as regras e os canais <strong>de</strong> acesso às<br />
principais posições do Estado, ao exercício<br />
do po<strong>de</strong>r estatal e ao processo <strong>de</strong> tomada <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>cisões públicas.<br />
Na ciência política contemporânea,<br />
existe consenso sobre as condições que<br />
<strong>de</strong>vem ser cumpridas para que o acesso ao<br />
governo <strong>de</strong> um Estado possa ser consi<strong>de</strong>rado<br />
<strong>de</strong>mocrático: 15<br />
■ Autorida<strong>de</strong>s públicas eleitas.<br />
■ Eleições livres e limpas.<br />
■ Sufrágio universal.<br />
■ Direito a competir por cargos públicos.<br />
■ Liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> expressão.<br />
■ Acesso à informação alternativa.<br />
■ Liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> associação.<br />
■ Respeito pela duração dos mandatos,<br />
segundo prazos constitucionalmente estabelecidos.<br />
■ Um território que <strong>de</strong>fine claramente o<br />
<strong>de</strong>mos votante.<br />
■ A expectativa generalizada <strong>de</strong> que o<br />
processo eleitoral e as liberda<strong>de</strong>s contextuais<br />
serão mantidos em um futuro in<strong>de</strong>finido.<br />
2. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> implica o real acesso<br />
ao po<strong>de</strong>r do Estado, ou seja, que não exista<br />
14 Essas características, resumidas na seqüência, foram apresentadas e discutidas com um amplo conjunto <strong>de</strong><br />
personalida<strong>de</strong>s acadêmicas.<br />
15 Segundo os aportes <strong>de</strong> Robert Dahl e Guillermo O’Donnell.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
55
no território outra organização (formal ou<br />
não) com po<strong>de</strong>r igual ou superior ao próprio<br />
Estado. Isso <strong>de</strong>fine a soberania interior,<br />
atributo que implica: o monopólio do uso<br />
efetivo e legítimo da força; a capacida<strong>de</strong> para<br />
aplicar justiça <strong>de</strong> modo efetivo e <strong>de</strong>finitivo,<br />
normatizar as condutas dos indivíduos e<br />
organizações, encontrar os meios – econômicos<br />
e organizativos – necessários para<br />
o cumprimento <strong>de</strong> seus fins e executar as<br />
políticas <strong>de</strong>cididas. Em <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, a<br />
capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> soberania do Estado <strong>de</strong>riva<br />
da renovada legitimida<strong>de</strong> outorgada pelos<br />
membros da socieda<strong>de</strong>.<br />
Este acesso ao real po<strong>de</strong>r estatal requer<br />
também <strong>uma</strong> certa forma <strong>de</strong> inter-relação<br />
com os outros Estados soberanos, <strong>de</strong> maneira<br />
que os objetivos estabelecidos pela<br />
socieda<strong>de</strong> em exercício <strong>de</strong> suas opções só<br />
po<strong>de</strong>rão ser substancialmente alterados por<br />
imposições <strong>de</strong> outros po<strong>de</strong>res fora do território<br />
como conseqüência da livre <strong>de</strong>legação<br />
<strong>de</strong> soberania a órgãos multilaterais.<br />
3. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> também implica a vigência<br />
do estado <strong>de</strong> direito. Isso pressupõe<br />
a in<strong>de</strong>pendência <strong>de</strong> po<strong>de</strong>res e um sistema legal<br />
que é <strong>de</strong>mocrático em três sentidos: protege<br />
as liberda<strong>de</strong>s políticas e as garantias da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> política, protege os direitos civis<br />
do conjunto da população e estabelece re<strong>de</strong>s<br />
<strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong> e <strong>de</strong> prestação <strong>de</strong> contas<br />
por meio das quais os funcionários públicos,<br />
incluindo os cargos mais altos do Estado, estejam<br />
sujeitos a controles apropriados sobre<br />
a legalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> seus atos. Pressupõe também<br />
a submissão da ação do Estado e <strong>de</strong> seus<br />
po<strong>de</strong>res às normas que emanam <strong>de</strong> po<strong>de</strong>res<br />
<strong>de</strong>signados <strong>de</strong>mocraticamente.<br />
4. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> pressupõe <strong>uma</strong> certa<br />
forma <strong>de</strong> organizar o po<strong>de</strong>r na socieda<strong>de</strong>.<br />
Em <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, as relações <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r, entre<br />
o Estado e os cidadãos, os cidadãos entre si,<br />
e entre o Estado, as organizações e os cidadãos,<br />
<strong>de</strong>vem estar ajustadas ao exercício dos<br />
direitos políticos, civis e sociais <strong>de</strong> maneira<br />
tal que a imposição <strong>de</strong> <strong>uma</strong> conduta (império<br />
do po<strong>de</strong>r) não vulnere esses direitos. A<br />
essência <strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é que o po<strong>de</strong>r<br />
– público ou privado – esteja organizado <strong>de</strong><br />
modo que, além <strong>de</strong> não vulnerar os direitos,<br />
possa ser um instrumento central para sua<br />
expansão. A opinião acerca <strong>de</strong>ssa relação entre<br />
po<strong>de</strong>r e direitos <strong>de</strong>ve ser objetiva, isto é,<br />
<strong>de</strong>finida pela própria maioria dos membros<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong>.<br />
5. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> requer que as opções<br />
cidadãs abor<strong>de</strong>m as questões substantivas.<br />
As regras e condições <strong>de</strong> concorrência procuram<br />
garantir <strong>uma</strong> eleição livre entre candidatos<br />
e programas <strong>de</strong> governo. Determinam<br />
o leque real <strong>de</strong> opções do cidadão. Esse<br />
temário eleitoral ou agenda pública exce<strong>de</strong> o<br />
regime, mas é fundamental para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
é parte <strong>de</strong> sua organização.<br />
Supondo a ausência <strong>de</strong> limitações sobre<br />
a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> eleger, interessa-nos indagar<br />
qual é o leque real <strong>de</strong> opções e como se<br />
constrói. Essa é a função da agenda pública.<br />
Ela contém o temário dos problemas que<br />
<strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong> <strong>de</strong>ve resolver e os métodos<br />
para encará-los. A agenda i<strong>de</strong>ntifica, para o<br />
cidadão, as metas <strong>de</strong>sejáveis <strong>de</strong> um governo<br />
e o caminho para atingi-las.<br />
Eleger sobre o quê e entre quê Essa<br />
eleição contém todas as opções necessárias,<br />
reais, para garantir e expandir a cidadania<br />
em um momento dado Ou essas opções,<br />
submetidas a eleições, são somente <strong>uma</strong><br />
parte do necessário para o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da cidadania e excluem outras essenciais<br />
Se este fosse o caso, po<strong>de</strong>ríamos ter<br />
regras <strong>de</strong> concorrência perfeitas, ótimas<br />
condições para a eleição, porém temas <strong>de</strong><br />
eleição parciais ou limitados. Nessas condições,<br />
talvez o essencial esteja fora da eleição<br />
e o marginal centralize o <strong>de</strong>bate da <strong>de</strong>cisão<br />
eleitoral. O regime ten<strong>de</strong>ria, então, a girar<br />
em falso, a separar-se do <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da cidadania, a tornar-se irrelevante.<br />
Portanto, a agenda pública, entendida<br />
como o leque real <strong>de</strong> opções <strong>de</strong> que os cidadãos<br />
dispõem <strong>de</strong> acordo com as referências<br />
citadas acima, constitui um componente<br />
central da organização <strong>de</strong>mocrática. Essa<br />
agenda contém o conjunto <strong>de</strong> questões<br />
prioritárias em torno do qual se centram o<br />
<strong>de</strong>bate público, a <strong>de</strong>finição e as opções <strong>de</strong><br />
políticas da opinião pública.<br />
A agenda <strong>de</strong>veria conter os <strong>de</strong>safios<br />
56 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
centrais para os interesses individuais, das<br />
organizações e do conjunto da socieda<strong>de</strong>. O<br />
que se po<strong>de</strong> eleger está <strong>de</strong>ntro da agenda. A<br />
agenda <strong>de</strong>fine o campo da opção.<br />
Entretanto esta agenda não se constrói<br />
i<strong>de</strong>almente, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente das relações<br />
<strong>de</strong> po<strong>de</strong>r. Escolhe-se a política econômica<br />
Debatem-se as reformas fiscais<br />
Estão claras as opções para combater a<br />
pobreza e a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> E se esses temas<br />
estiverem fora da oferta eleitoral, <strong>de</strong> sua<br />
agenda, como se vincula a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> com<br />
as necessida<strong>de</strong>s reais <strong>de</strong> expansão da cidadania<br />
social<br />
Essa questão, o que <strong>de</strong>ve ser <strong>de</strong>batido<br />
em <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong> e em <strong>uma</strong> região, é um<br />
dos interesses centrais <strong>de</strong>ste Relatório. Promover<br />
um <strong>de</strong>bate sobre nossa agenda, para<br />
saber se ela contém nossos problemas, ou se<br />
há questões omitidas, diluídas, ignoradas<br />
ou, simplesmente, proibidas é a primeira<br />
condição para utilizar nossas capacida<strong>de</strong>s<br />
<strong>de</strong> evitar os perigos e <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolver nossa<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Discutir os alcances do <strong>de</strong>bate<br />
público, as formas <strong>de</strong> abordá-lo e recuperar<br />
o que se escamoteia e ignora, é <strong>uma</strong> condição<br />
necessária das reformas <strong>de</strong>mocráticas<br />
<strong>de</strong> que nossa região precisa. A relevância ou<br />
não do conteúdo da agenda pública é <strong>de</strong>terminante<br />
para nosso futuro <strong>de</strong>mocrático.<br />
Democracia, regime político e Estado<br />
Em um regime <strong>de</strong>mocrático, o acesso às<br />
principais posições governamentais (com<br />
exceção do po<strong>de</strong>r judiciário, das forças<br />
armadas e, eventualmente, dos bancos centrais)<br />
é realizado por meio <strong>de</strong> eleições limpas<br />
e institucionalizadas. Por eleições limpas<br />
se enten<strong>de</strong> aqui as que são competitivas,<br />
livres, igualitárias, <strong>de</strong>cisivas e inclusivas, e<br />
nas quais são respeitadas as liberda<strong>de</strong>s políticas.<br />
16 Essas liberda<strong>de</strong>s são essenciais não só<br />
durante as eleições, como também nos períodos<br />
entre elas. Caso contrário, o governo<br />
no po<strong>de</strong>r po<strong>de</strong>ria facilmente manipular ou<br />
cancelar eleições futuras. Os indivíduos que<br />
gozam <strong>de</strong>ssas liberda<strong>de</strong>s estão habilitados e<br />
protegidos para o exercício <strong>de</strong> seus direitos<br />
<strong>de</strong> participação. Isso significa que a todos<br />
os cidadãos é concedido o direito, vinculatório<br />
em todo o território, <strong>de</strong> participar<br />
no Estado e no governo, não só por meio<br />
<strong>de</strong> eleições, como também por meio da<br />
tomada <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões, seja <strong>de</strong> forma conjunta<br />
ou individual. Por outro lado, o requisito <strong>de</strong><br />
inclusivida<strong>de</strong> das eleições em um regime<br />
<strong>de</strong>mocrático indica que todos os adultos<br />
que satisfazem o critério <strong>de</strong> cidadania têm<br />
direito <strong>de</strong> participar nessas eleições. 17<br />
Além disso, em um regime <strong>de</strong>mocrático<br />
as eleições estão institucionalizadas: para a<br />
gran<strong>de</strong> maioria dos cidadãos é indiscutível<br />
que, no futuro, continuem sendo realizadas<br />
eleições limpas nas datas ou ocasiões legalmente<br />
preestabelecidas.<br />
Existem quatro aspectos centrais da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: 1) eleições limpas e institucionalizadas;<br />
2) inclusivida<strong>de</strong>; 3) um sistema<br />
legal que sanciona e respalda os direitos e<br />
as liberda<strong>de</strong>s políticas; e 4) um sistema legal<br />
que prescreve que nenh<strong>uma</strong> pessoa ou<br />
instituição retenha o arbítrio <strong>de</strong> eliminar ou<br />
suspen<strong>de</strong>r os efeitos da lei ou <strong>de</strong> evadir-se a<br />
seu alcance. Vemos então, que, enquanto os<br />
dois primeiros aspectos correspon<strong>de</strong>m ao<br />
regime, os dois últimos correspon<strong>de</strong>m ao<br />
Estado. O Estado não é um elemento alheio<br />
ou extrínseco à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, é um <strong>de</strong> seus<br />
componentes intrínsecos. Por isso, segundo<br />
o esquema conceitual que aqui propomos,<br />
é importante indagar acerca do caráter <strong>de</strong>mocrático<br />
do Estado e não só sobre o do<br />
regime.<br />
A relação entre regime <strong>de</strong>mocrático e<br />
Estado se fundamenta na existência <strong>de</strong> um<br />
sistema legal estatal que, em primeiro lugar,<br />
sanciona e respalda os direitos e liberda<strong>de</strong>s<br />
<strong>de</strong>correntes do regime <strong>de</strong>mocrático; e,<br />
em segundo lugar, coloca sob esse sistema<br />
legal a totalida<strong>de</strong> das instituições e dos<br />
funcionários do Estado. Sob esse prisma, se<br />
organiza o Estado segundo o princípio da<br />
Essas liberda<strong>de</strong>s<br />
são essenciais<br />
não só durante<br />
as eleições, como<br />
também nos<br />
períodos entre<br />
elas.<br />
16 De acordo com Dahl (1989 e 1999), as liberda<strong>de</strong>s políticas relevantes são as <strong>de</strong> expressão, associação e acesso à<br />
informação <strong>de</strong> caráter pluralista. Para <strong>uma</strong> lista <strong>de</strong>talhada, ver Diamond (1999).<br />
17 A inclusivida<strong>de</strong> é <strong>uma</strong> conquista bastante recente dos trabalhadores urbanos, dos camponeses, das mulheres e<br />
<strong>de</strong> vários tipos <strong>de</strong> minorias e setores discriminados.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
57
quadro 13<br />
Democracia e responsabilida<strong>de</strong><br />
dos governantes<br />
Em <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, espera-se<br />
que os governantes estejam<br />
submetidos a três tipos <strong>de</strong><br />
prestação <strong>de</strong> contas 18 : a) a “vertical<br />
eleitoral”, resultado <strong>de</strong> eleições<br />
limpas e institucionalizadas, por<br />
meio das quais os cidadãos po<strong>de</strong>m<br />
mudar o partido e os funcionários<br />
do governo, b) a “vertical <strong>de</strong> tipo<br />
societário”, exercida por indivíduos<br />
ou grupos com o objetivo <strong>de</strong><br />
mobilizar o sistema legal para<br />
<strong>de</strong>mandar o Estado e o governo<br />
com o objetivo <strong>de</strong> prevenir,<br />
compensar ou con<strong>de</strong>nar ações<br />
(ou inações), presumivelmente<br />
ilegais, perpetradas por<br />
funcionários públicos, c) a<br />
“horizontal”, realizada quando<br />
alg<strong>uma</strong>s instituições do Estado,<br />
<strong>de</strong>vidamente autorizadas,<br />
agem para prevenir, in<strong>de</strong>nizar<br />
ou sancionar ações ou inações,<br />
presumivelmente ilegais, <strong>de</strong> outras<br />
instituições ou <strong>de</strong> funcionários<br />
estatais.<br />
Cabe, no entanto, observar, que<br />
há <strong>uma</strong> diferença importante<br />
entre essas prestações <strong>de</strong><br />
contas. A vertical-eleitoral <strong>de</strong>ve<br />
existir pela própria <strong>de</strong>finição do<br />
regime <strong>de</strong>mocrático; sem ela<br />
esse regime simplesmente não<br />
existiria. Em compensação, o grau<br />
e a efetivida<strong>de</strong> da prestação <strong>de</strong><br />
contas societária e da horizontal<br />
são variáveis conforme os casos<br />
e o tempo. Essas variações<br />
são relevantes para avaliar o<br />
<strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>;<br />
por exemplo, a inexistência<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong> vigorosa e<br />
autônoma, ou a impossibilida<strong>de</strong><br />
ou falta <strong>de</strong> <strong>de</strong>terminação <strong>de</strong><br />
certas instituições do Estado <strong>de</strong><br />
exercer sua autorida<strong>de</strong> sobre<br />
outras instituições estatais são<br />
indicadores <strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong><br />
escasso <strong>de</strong>senvolvimento.<br />
Guillermo O’Donnell, texto<br />
elaborado para o PRODDAL, 2002c.<br />
divisão, inter<strong>de</strong>pendência e controle <strong>de</strong> seus<br />
po<strong>de</strong>res, da existência <strong>de</strong> um po<strong>de</strong>r judicial<br />
in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte, da supremacia do po<strong>de</strong>r civil<br />
sobre o militar e da responsabilida<strong>de</strong> dos<br />
governantes perante a cidadania.<br />
Um aspecto crucial do sistema legal é<br />
sua efetivida<strong>de</strong>, o grau em que o Estado<br />
realmente organiza as relações sociais. Em<br />
um sistema legal <strong>de</strong>mocrático, nenh<strong>uma</strong><br />
instituição estatal ou funcionário <strong>de</strong>veria<br />
negar-se ao controle legal <strong>de</strong> suas ações.<br />
Em <strong>uma</strong> dimensão territorial se supõe que<br />
o sistema legal se esten<strong>de</strong> homogeneamente<br />
ao longo do espaço <strong>de</strong>limitado pelo Estado.<br />
No mesmo sentido, espera-se que o sistema<br />
jurídico dê o mesmo tratamento a casos<br />
similares, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente <strong>de</strong> consi<strong>de</strong>rações<br />
<strong>de</strong> classe, gênero, etnia ou outros atributos<br />
dos respectivos atores. Em todas essas<br />
A eficácia do sistema legal <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> do<br />
entrelaçamento <strong>de</strong> suas regras com <strong>uma</strong><br />
re<strong>de</strong> <strong>de</strong> instituições que, em <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
<strong>de</strong>vem atuar com propósitos e resultados<br />
coerentes com um Estado <strong>de</strong>mocrático <strong>de</strong><br />
direito.<br />
dimensões, o sistema legal pressupõe um<br />
Estado eficaz, 19 que não <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> só <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
legislação apropriada mas também <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
re<strong>de</strong> <strong>de</strong> instituições estatais que operam<br />
para garantir o real império <strong>de</strong> um sistema<br />
legal <strong>de</strong>mocrático.<br />
Os cidadãos, fonte e justificativa<br />
da autorida<strong>de</strong> do Estado <strong>de</strong>mocrático<br />
Na <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, o sistema legal, começando<br />
por suas mais altas regras constitucionais,<br />
estabelece que os cidadãos, ao<br />
votarem em eleições limpas e institucionalizadas,<br />
são a fonte da autorida<strong>de</strong> que o<br />
Estado e o governo exercem sobre eles. Os<br />
cidadãos não são somente portadores <strong>de</strong> direitos<br />
e obrigações, eles são também a fonte<br />
e a justificativa da pretensão <strong>de</strong> mando e<br />
autorida<strong>de</strong> que o Estado e o governo invocam<br />
quando tomam <strong>de</strong>cisões coletivamente<br />
vinculatórias.<br />
Esta é outra característica específica da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: fundamenta o direito <strong>de</strong> governar<br />
na soberania popular que se manifesta<br />
em eleições limpas e institucionalizadas.<br />
Todos os outros sistemas políticos fundamentam<br />
esse direito em outras fontes.<br />
De tudo isso se <strong>de</strong>preen<strong>de</strong> que um indivíduo<br />
não é, e nunca <strong>de</strong>veria, ser tratado<br />
18 Por esse conceito se enten<strong>de</strong> o equivalente à expressão do inglês accountability.<br />
19 O’Donnell, 2000, 2002a, 2002c.<br />
20 De acordo com esse ponto, Dworkin afirma que “<strong>uma</strong> <strong>de</strong>manda particular <strong>de</strong> moralida<strong>de</strong> política […] requer<br />
dos governos falar com <strong>uma</strong> voz, atuar <strong>de</strong> maneira coerente e com princípios para com todos os seus cidadãos, [e]<br />
ampliar para todos os cidadãos os padrões <strong>de</strong> justiça substantiva ou <strong>de</strong> eqüida<strong>de</strong> que usa para alguns”.<br />
58 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
como um súdito, um suplicante da boa vonta<strong>de</strong><br />
do governo e do Estado. Este indivíduo<br />
– portador <strong>de</strong> um conjunto <strong>de</strong> direitos civis,<br />
sociais e políticos – tem pretensão legalmente<br />
sustentada <strong>de</strong> ser tratado com plena<br />
consi<strong>de</strong>ração e respeito. 20 Esse tratamento<br />
<strong>de</strong>ve estar baseado na implementação <strong>de</strong><br />
leis e regulamentos que são preexistentes,<br />
claros e discerníveis por todos os cidadãos 21<br />
e sancionados em concordância com os procedimentos<br />
<strong>de</strong>mocráticos. Na medida em<br />
que as instituições estatais reconhecem esses<br />
direitos, elas po<strong>de</strong>m ser consi<strong>de</strong>radas mais<br />
ou menos <strong>de</strong>mocráticas, ou coerentes com<br />
as obrigações impostas a elas pela cidadania.<br />
Na verda<strong>de</strong>, este aspecto das relações<br />
diretas e cotidianas dos cidadãos com o<br />
Estado é um dos mais problemáticos da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> em nossa região. Com relação<br />
a eleições limpas e, geralmente, ao exercício<br />
dos direitos políticos, os cidadãos são colocados<br />
em um nível <strong>de</strong> igualda<strong>de</strong> genérica.<br />
No entanto, ao tratar com burocracias estatais,<br />
os cidadãos estão freqüentemente colocados<br />
em situações <strong>de</strong> aguda <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> fato. Cost<strong>uma</strong>m enfrentar burocracias<br />
que agem sobre a base <strong>de</strong> regras formais e<br />
informais – que não são transparentes nem<br />
facilmente compreensíveis – e que tomam<br />
<strong>de</strong>cisões (ou as omitem) com conseqüências<br />
importantes para os cidadãos. Este é<br />
um problema em todos os lugares, porém<br />
muito mais sério e sistemático em socieda<strong>de</strong>s<br />
castigadas pela pobreza e pela <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>.<br />
Esses males expressam e cultivam o<br />
autoritarismo social, 22 e repercutem na maneira<br />
<strong>de</strong>srespeitosa com que as burocracias<br />
estatais, às vezes, tratam muitos cidadãos,<br />
sobretudo imigrantes e estrangeiros. Embora<br />
seja comumente ignorada, esta é outra<br />
dimensão crucial da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: o grau em<br />
que as instituições estatais realmente respeitam<br />
os direitos <strong>de</strong> todos os habitantes,<br />
cidadãos ou não.<br />
O cidadão, sujeito da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> reconhece em cada indivíduo<br />
<strong>uma</strong> pessoa moral e legal, portadora <strong>de</strong><br />
direitos e responsável pela forma com que<br />
exercita tais direitos e suas obrigações <strong>de</strong>correntes.<br />
Nesse sentido, concebe o indivíduo<br />
como um ser dotado da capacida<strong>de</strong> para<br />
escolher entre opções diversas, assumindo<br />
responsavelmente as conseqüências <strong>de</strong>ssas<br />
escolhas, ou seja, como um ser autônomo,<br />
razoável e responsável. 23 Essa concepção do<br />
ser h<strong>uma</strong>no não é apenas filosófica e moral,<br />
é também legal: consi<strong>de</strong>ra o indivíduo como<br />
portador <strong>de</strong> direitos subjetivos que são sancionados<br />
e garantidos pelo sistema legal.<br />
A potencialida<strong>de</strong> inerente a essa concepção<br />
do indivíduo, cujos direitos não <strong>de</strong>rivam<br />
da posição que ocupa na hierarquia social e<br />
sim <strong>de</strong> sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> comprometer-se<br />
a cumprir, voluntária e responsavelmente,<br />
as obrigações que assume livremente – com<br />
seu correlato do direito a <strong>de</strong>mandar o cumprimento<br />
das obrigações contraídas – <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ou<br />
conseqüências transcen<strong>de</strong>ntais<br />
para as lutas pela expansão da cidadania.<br />
Enten<strong>de</strong>mos por cidadania um tipo <strong>de</strong><br />
igualda<strong>de</strong> básica associada ao conceito <strong>de</strong><br />
pertencimento a <strong>uma</strong> comunida<strong>de</strong>, o que<br />
em termos mo<strong>de</strong>rnos é equivalente aos<br />
direitos e obrigações <strong>de</strong> que todos os indivíduos<br />
estão dotados por pertencer a um estado<br />
nacional. 24 Destacamos vários atributos<br />
da cidadania assim <strong>de</strong>finida:<br />
Os cidadãos não<br />
são somente<br />
portadores<br />
<strong>de</strong> direitos e<br />
obrigações, eles<br />
são também<br />
a fonte e a<br />
justificativa<br />
da pretensão<br />
<strong>de</strong> mando e<br />
autorida<strong>de</strong><br />
que o Estado<br />
e o governo<br />
invocam quando<br />
tomam <strong>de</strong>cisões<br />
coletivamente<br />
vinculatórias.<br />
21 Mesmo em situações on<strong>de</strong> esta <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> é a mais aguda possível (como sob encarceramento), permanece<br />
a obrigação moral <strong>de</strong> respeitar a agência. Hoje em dia, esta é também <strong>uma</strong> obrigação legal, embora seja muitas<br />
vezes ignorada.<br />
22 Aristóteles (1968, p. 181) sabia disso: “Aqueles que gozam <strong>de</strong> muitas vantagens –força, riqueza, conexões,<br />
etc.– não estão dispostos a obe<strong>de</strong>cer [o direito] e <strong>de</strong>sconhecem como obe<strong>de</strong>cer”.<br />
23 Segundo o conceito <strong>de</strong>senvolvido por O’Donnell (2002c), a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> consi<strong>de</strong>ra o ser h<strong>uma</strong>no como um<br />
agente. “Um agente é um ser dotado <strong>de</strong> razão prática: usa sua capacida<strong>de</strong> cognitiva e motivacional para escolher<br />
opções que são razoáveis em termos <strong>de</strong> sua situação e <strong>de</strong> seus objetivos, para os quais, exceto prova em contrário,<br />
é consi<strong>de</strong>rado como o melhor juiz. Essa capacida<strong>de</strong> faz do agente um ser moral, no sentido <strong>de</strong> que normalmente<br />
se sentirá, e será consi<strong>de</strong>rado por outros seres relevantes, como responsável pela escolha <strong>de</strong> suas opções, ao menos<br />
pelas conseqüências diretas <strong>de</strong>correntes <strong>de</strong> tais opções.”<br />
24 T. H.Marshall (1965) <strong>de</strong>staca que “a cidadania mo<strong>de</strong>rna é, por <strong>de</strong>finição, nacional”.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
59
a. caráter expansivo, baseado na concepção,<br />
moral e legalmente respaldada, do ser h<strong>uma</strong>no<br />
como responsável, razoável e autônomo;<br />
b. condição legal <strong>de</strong> status que se conce<strong>de</strong><br />
ao indivíduo como portador <strong>de</strong> direitos<br />
legalmente sancionados e respaldados;<br />
c. sentido social ou intersubjetivo que<br />
cost<strong>uma</strong> ser o resultado do pertencimento a<br />
um espaço social comum; 25<br />
d. caráter igualitário, baseado no reconhecimento<br />
universal dos direitos e <strong>de</strong>veres<br />
<strong>de</strong> todos os membros <strong>de</strong> <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocraticamente<br />
organizada;<br />
e. inclusivida<strong>de</strong>, ligada ao atributo <strong>de</strong><br />
nacionalida<strong>de</strong> que implica o pertencimento<br />
dos indivíduos aos Estados nacionais;<br />
f. caráter dinâmico, contingente e aberto,<br />
como produto e condição das lutas históricas<br />
para enriquecer ou reduzir seu conteúdo,<br />
e aumentar ou diminuir o número dos<br />
que são reconhecidos.<br />
Po<strong>de</strong>mos i<strong>de</strong>ntificar três conjuntos <strong>de</strong><br />
direitos <strong>de</strong> cidadania, 26 cada um <strong>de</strong>les relacionado<br />
a <strong>uma</strong> área diferente da socieda<strong>de</strong>:<br />
civis, políticos e sociais. 27<br />
Muito antes da expansão universal da<br />
cidadania política, a formulação <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
visão legal e moral do indivíduo como<br />
portador <strong>de</strong> direitos subjetivos contou com<br />
<strong>uma</strong> longa trajetória <strong>de</strong> elaboração por meio<br />
<strong>de</strong> diversas doutrinas – religiosas, éticas,<br />
legais, filosóficas. 28 Essa concepção do ser<br />
h<strong>uma</strong>no foi projetada no âmbito político<br />
pelos gran<strong>de</strong>s teóricos do liberalismo 29 e<br />
posteriormente transmitida às duas gran<strong>de</strong>s<br />
25 Esse aspecto da cidadania remete a <strong>uma</strong> concepção da política como espaço comum, no qual nos reconhecemos<br />
como participantes <strong>de</strong> <strong>uma</strong> comunida<strong>de</strong> política orientada para a construção e para a realização intersubjetiva<br />
<strong>de</strong> um bem público. Essa concepção foi amplamente <strong>de</strong>senvolvida pela tradição do republicanismo cívico, cujas<br />
origens remontam ao pensamento grego e romano, e que adquire <strong>uma</strong> renovada vigência nos <strong>de</strong>bates contemporâneos<br />
entre liberais e comunitaristas.<br />
26 Este enunciado não implica que ignoremos que alg<strong>uma</strong>s discussões atuais propõem acrescentar outras “gerações”<br />
<strong>de</strong> direitos aos que aqui enunciamos. Dadas as circunstâncias da América Latina, <strong>de</strong>ntre essas discussões são<br />
importantes especialmente as relacionadas com seus povos indígenas, e nos parecem particularmente importantes<br />
as propostas <strong>de</strong> acrescentar <strong>uma</strong> área específica <strong>de</strong> direitos culturais. No entanto, para facilitar esta primeira exposição<br />
<strong>de</strong> um tema muito complexo, preferimos manter a classificação <strong>de</strong> direitos tradicional. Isso não impe<strong>de</strong><br />
que a questão dos povos indígenas seja tratada em outras partes <strong>de</strong>ste Relatório, nem que em suas futuras versões<br />
revisemos a classificação aqui utilizada.<br />
27 “Começarei propondo <strong>uma</strong> divisão da cidadania em três partes. [...] Chamarei cada <strong>uma</strong> <strong>de</strong>stas três partes ou<br />
elementos, civil, político e social. O elemento civil se compõe dos direitos para a liberda<strong>de</strong> individual: liberda<strong>de</strong> da<br />
pessoa, <strong>de</strong> expressão, <strong>de</strong> pensamento e religião, direito à proprieda<strong>de</strong> e a estabelecer contratos válidos, e direitos à<br />
justiça. Este último é <strong>de</strong> índole diferente dos restantes, porque se trata do direito <strong>de</strong> <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r e fazer valer o conjunto<br />
dos direitos <strong>de</strong> <strong>uma</strong> pessoa em igualda<strong>de</strong> com os <strong>de</strong>mais, mediante os <strong>de</strong>vidos procedimentos legais. As instituições<br />
diretamente relacionadas com os direitos civis são os tribunais <strong>de</strong> justiça. Por elemento político, entendo<br />
o direito a participar no exercício do po<strong>de</strong>r político como membro <strong>de</strong> um corpo investido <strong>de</strong> autorida<strong>de</strong> política<br />
ou como eleitor <strong>de</strong> seus membros. As instituições correspon<strong>de</strong>ntes são o Parlamento e as juntas do governo local.<br />
O elemento social abarca todo o espectro, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o direito à segurança e a um mínimo <strong>de</strong> bem-estar econômico<br />
até o <strong>de</strong> compartilhar plenamente a herança social e viver a vida <strong>de</strong> um ser civilizado conforme os padrões predominantes<br />
na socieda<strong>de</strong>. As instituições diretamente relacionadas são, nesse caso, o sistema educativo e os serviços<br />
sociais.” Marshall, 1965, pp. 22-23.<br />
28 “O reconhecimento institucionalizado (i.e. legalmente sancionado e respaldado, e amplamente aceito) do indivíduo<br />
como portador <strong>de</strong> direitos subjetivos percorreu um longo e complicado caminho, cuja origem remonta<br />
historicamente a alguns sofistas e aos estóicos e a Cícero, atravessa a tradição do direito romano e dos legistas<br />
medievais, para <strong>de</strong>pois ser refinado pelos teóricos do direito natural, e ser finalmente reapropriado e, por assim<br />
dizer, politizado, apesar <strong>de</strong> suas diferenças em outros aspectos, pelos gran<strong>de</strong>s pensadores liberais –especialmente<br />
Hobbes, Locke e Kant–, assim como pelos não-liberais como Espinoza e Rousseau”. O’Donnell, 2000.<br />
29 Pierre Rosanvallon (1992, p. 111) comenta que antes do advento do liberalismo “esta visão <strong>de</strong> autonomia da<br />
vonta<strong>de</strong> certamente já havia aparecido juridicamente formulada no direito civil”. Isso, por sua vez, era parte das<br />
mudanças na própria concepção <strong>de</strong> moralida<strong>de</strong>; como Schneewind (1998, p. 27) indica: “durante os séculos XVII<br />
e XVIII, as concepções estabelecidas <strong>de</strong> moralida<strong>de</strong> como obediência começaram a ser fortemente contestadas<br />
por concepções emergentes <strong>de</strong> moralida<strong>de</strong> como auto-governo […] centradas na idéia <strong>de</strong> que todos os indivíduos<br />
normais são igualmente capazes <strong>de</strong> viver juntos em <strong>uma</strong> moralida<strong>de</strong> auto-governada”.<br />
60 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
constituições mo<strong>de</strong>rnas: a dos Estados Unidos<br />
e a da França.<br />
A cidadania exce<strong>de</strong> os direitos políticos,<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> também<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania, como dissemos,<br />
exce<strong>de</strong> o regime político, o exercício<br />
dos direitos políticos. Ela precisa ampliar-se<br />
em direção aos direitos civis e sociais. Esse é<br />
um ponto central da nossa análise, do qual<br />
se <strong>de</strong>riva a justificativa <strong>de</strong> conceber a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
abrangendo um campo mais amplo e<br />
complexo. Como já mencionamos, as conseqüências<br />
práticas <strong>de</strong> sustentar esta tese são<br />
consi<strong>de</strong>ráveis.<br />
Se os direitos inerentes ao ser h<strong>uma</strong>no<br />
estão baseados em sua capacida<strong>de</strong> como ser<br />
moral, por que então atribuí-los somente a<br />
certas esferas da vida social e política Já que<br />
a autonomia responsável implica escolher,<br />
que opções reais, ou capacida<strong>de</strong>s, seriam<br />
razoavelmente coerentes com a condição<br />
que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> confere ao indivíduo Em<br />
outros termos, quais são as condições reais<br />
do exercício <strong>de</strong> tais direitos<br />
Essas perguntas apontam a um dos argumentos<br />
centrais na análise que este Relatório<br />
propõe: colocar a questão das capacida<strong>de</strong>s<br />
na esfera política implica ir além da atribuição<br />
universal dos direitos <strong>de</strong> cidadania<br />
política, e leva à pergunta sobre as condições<br />
que po<strong>de</strong>m permitir ou não o exercício real<br />
<strong>de</strong>sses direitos.<br />
Embora sob diferentes condições históricas,<br />
em todos os países, a resposta a tais<br />
perguntas resultou em numerosas lutas pela<br />
progressiva expansão dos direitos políticos,<br />
civis e sociais, 30 <strong>de</strong>stacando-se, entre eles, o<br />
direito <strong>de</strong> sufrágio até alcançar a sua atual<br />
inclusivida<strong>de</strong>. Essa história foi construída<br />
ao longo <strong>de</strong> múltiplos conflitos, ao final<br />
dos quais, os setores sociais marginalizados<br />
foram sendo incluídos na <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
isto é, obtiveram finalmente a cidadania<br />
política. 31<br />
Nos países centrais, esses processos provocaram<br />
inicialmente a expansão adicional<br />
<strong>de</strong> direitos na esfera civil, no duplo sentido<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> maior especificação <strong>de</strong> direitos e<br />
<strong>de</strong> incorporação <strong>de</strong> outros novos, que não<br />
eram ainda os direitos <strong>de</strong> participação próprios<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> inclusiva, mas direitos<br />
civis concernentes às ativida<strong>de</strong>s sociais e<br />
econômicas privadas. 32 No que se refere a<br />
esses direitos, chegou-se, <strong>de</strong> diversas maneiras,<br />
à conclusão <strong>de</strong> que seu exercício implica<br />
escolha, e escolha implica liberda<strong>de</strong> para<br />
escolher entre as diversas alternativas que<br />
cada indivíduo valoriza por alg<strong>uma</strong> razão.<br />
Isso pressupõe a vigência <strong>de</strong> um critério <strong>de</strong><br />
eqüida<strong>de</strong>: <strong>de</strong>ve existir um patamar mínimo<br />
<strong>de</strong> igualda<strong>de</strong> entre os membros da socieda<strong>de</strong><br />
que outorgue a todos um leque razoável <strong>de</strong><br />
opções para exercer sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> escolha<br />
e sua autonomia.<br />
Por outro lado, também nos países centrais,<br />
o mencionado critério <strong>de</strong> eqüida<strong>de</strong> foi<br />
muito importante para o surgimento dos<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong><br />
cidadania, como<br />
dissemos, exce<strong>de</strong><br />
o regime político,<br />
o exercício dos<br />
direitos políticos.<br />
Ela precisa<br />
ampliar-se em<br />
direção aos<br />
direitos civis e<br />
sociais.<br />
30 O processo <strong>de</strong> progressiva expansão <strong>de</strong> direitos, que nos países centrais incluiu a extensão da cidadania civil<br />
prévia à expansão da cidadania política, foi o pano <strong>de</strong> fundo histórico da idéia central do liberalismo político: o<br />
governo e o Estado <strong>de</strong>vem ser limitados e constitucionalmente regulados, pois ambos existem para, e em nome <strong>de</strong>,<br />
indivíduos portadores <strong>de</strong> direitos subjetivos sancionados e respaldados pelo mesmo sistema legal que o Estado e o<br />
governo <strong>de</strong>vem obe<strong>de</strong>cer e do qual extraem sua autorida<strong>de</strong>.<br />
31 Cidadãos políticos são aqueles que, <strong>de</strong>ntro do território <strong>de</strong> um Estado que inclui um regime <strong>de</strong>mocrático,<br />
cumprem o critério respectivo <strong>de</strong> nacionalida<strong>de</strong>. Como <strong>de</strong>rivação do regime <strong>de</strong>mocrático, os cidadãos políticos<br />
possuem dois tipos <strong>de</strong> direitos. Primeiro, liberda<strong>de</strong>s tais como as <strong>de</strong> associação, expressão, movimento, acesso a<br />
informação pluralista e outras que, embora em última instância sejam não <strong>de</strong>finíveis ex ante, em conjunto tornam<br />
possível a realização <strong>de</strong> eleições limpas, institucionalizadas e – hoje em dia – inclusivas. O segundo tipo <strong>de</strong> direito<br />
é <strong>de</strong> caráter participativo: eleger e eventualmente ser eleito ou nomeado para cargos estatais. Os cidadãos políticos,<br />
assim entendidos, são o lado individual <strong>de</strong> um regime <strong>de</strong>mocrático, e nenhum <strong>de</strong>les po<strong>de</strong> existir sem o outro.<br />
32 Como ressalta T. H. Marshall (1965, p. 18): “A história dos direitos civis em seu período formativo é <strong>uma</strong> história<br />
<strong>de</strong> adição gradual <strong>de</strong> novos direitos a um status que já existia e que já pertencia a todos os membros adultos da<br />
comunida<strong>de</strong>”. Estes direitos civis são, em sua <strong>de</strong>finição clássica <strong>de</strong> cidadania civil, “os direitos necessários para a<br />
liberda<strong>de</strong> individual-liberda<strong>de</strong> pessoal, liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> palavra, pensamento e fé, o direito a possuir proprieda<strong>de</strong> e a<br />
terminar contratos válidos, e o direito à justiça” (ibid., pp. 10-11).<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
61
direitos sociais. 33 Novamente, ao longo <strong>de</strong><br />
lutas freqüentemente árduas, diversos setores<br />
que haviam sido politicamente excluídos<br />
terminaram aceitando a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> política<br />
em troca dos benefícios do bem-estar.<br />
Por meio da legislação social, e com avanços<br />
e retrocessos em termos das respectivas<br />
relações <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r, estas visões <strong>de</strong> eqüida<strong>de</strong><br />
foram incorporadas aos sistemas legais. Os<br />
direitos sociais, sancionados pela legislação<br />
correspon<strong>de</strong>nte, uniram-se ao direito civil<br />
para expressar que a socieda<strong>de</strong>, e especialmente<br />
o Estado, não <strong>de</strong>vem ser indiferentes,<br />
pelo menos nos casos em que existe severa<br />
privação <strong>de</strong> capacida<strong>de</strong>s relevantes.<br />
Em resumo, nos países centrais, a questão<br />
das capacida<strong>de</strong>s que habilitam a exercer<br />
a liberda<strong>de</strong> dos indivíduos foi encarada no<br />
âmbito dos direitos civis e sociais. A idéia<br />
que subjaz a essas construções legais é a da<br />
eqüida<strong>de</strong>, que, em termos <strong>de</strong> capacida<strong>de</strong>s<br />
disponíveis e <strong>de</strong> ausência <strong>de</strong> coerção peremptória,<br />
consi<strong>de</strong>ra os indivíduos como<br />
seres livres e responsavelmente capazes <strong>de</strong><br />
escolher. Essa visão ficou inscrita na consciência<br />
moral da h<strong>uma</strong>nida<strong>de</strong> pela Declaração<br />
Francesa dos Direitos do Homem e<br />
do Cidadão. 34 É importante <strong>de</strong>stacar que a<br />
maioria <strong>de</strong>sses direitos não foi simplesmente<br />
outorgada, que eles foram conquistados<br />
por meio <strong>de</strong> múltiplas lutas, conduzidas<br />
por setores sociais oprimidos, explorados e<br />
discriminados.<br />
Por esses caminhos complexos – tão<br />
simplificadamente resumidos – foram surgindo,<br />
nos países centrais, as instituições e<br />
práticas que hoje reconhecemos como <strong>de</strong>mocráticas.<br />
Poucos países da América Latina<br />
(Chile, Costa Rica e Uruguai) seguiram<br />
caminhos mais ou menos semelhantes. Nos<br />
outros, apesar <strong>de</strong> cada um com suas significativas<br />
particularida<strong>de</strong>s, encontramos<br />
<strong>uma</strong> situação muito diferente à <strong>de</strong>scrita: alcançamos<br />
a enorme conquista dos direitos<br />
políticos, mas ainda falta muito para conseguir,<br />
para todos, <strong>uma</strong> expansão satisfatória<br />
dos direitos civis e sociais. Essa circunstância<br />
realça ainda mais a enorme importância<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e <strong>de</strong> seus direitos políticos<br />
para a América Latina. Eles são, têm que<br />
ser, o principal ponto <strong>de</strong> apoio das lutas<br />
para alcançar os outros direitos, ainda tão<br />
limitados e conferidos <strong>de</strong> maneira parcial<br />
na prática. Veremos ecos <strong>de</strong>ssas afirmações<br />
nas seções empíricas <strong>de</strong>ste Relatório.<br />
Estado e cidadania<br />
O Estado é um fenômeno histórico contemporâneo,<br />
para o qual convergem as lutas<br />
pelo po<strong>de</strong>r e as lutas pelos direitos. Seu aparecimento<br />
foi marcado pela expropriação,<br />
por parte dos governantes, <strong>de</strong> um centro <strong>de</strong><br />
po<strong>de</strong>r emergente, dos meios <strong>de</strong> coerção, <strong>de</strong><br />
administração e <strong>de</strong> legalida<strong>de</strong> que haviam<br />
sido até então controlados por outros atores.<br />
O surgimento do Estado foi contemporâneo<br />
da expansão do capitalismo, que incluiu outra<br />
expropriação, a dos produtores diretos<br />
dos meios <strong>de</strong> produção. Esse surgimento<br />
foi também contemporâneo da construção<br />
política da Nação como referência privilegiada<br />
das <strong>de</strong>cisões estatais. Todos os Estados<br />
sustentam que sua autorida<strong>de</strong> emana <strong>de</strong><br />
ser Estados-para-a-Nação (ou, em alguns<br />
casos, para-o-povo), cuja missão é atingir<br />
o bem comum – ou o interesse geral – <strong>de</strong><br />
<strong>uma</strong> Nação interpretada homogeneamente,<br />
à qual tanto governantes quanto governados<br />
<strong>de</strong>vem supostamente dar priorida<strong>de</strong> em<br />
suas lealda<strong>de</strong>s.<br />
33 Uma vez mais, <strong>de</strong> acordo com Marshall (1965, p. 72), os direitos sociais incluem “<strong>de</strong>s<strong>de</strong> o direito ao bem-estar<br />
e à segurança econômica básica até o direito a participar plenamente do patrimônio social e viver a vida <strong>de</strong> um ser<br />
civilizado <strong>de</strong> acordo com o padrão predominante na socieda<strong>de</strong>”. Para <strong>uma</strong> discussão útil e <strong>de</strong>talhada <strong>de</strong> Marshall<br />
com respeito a esses direitos, ver José Nun, 2001.<br />
34 Po<strong>de</strong>mos agregar: o Prólogo e a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, e mais tar<strong>de</strong>, a<br />
Declaração Universal dos Direitos H<strong>uma</strong>nos das Nações Unidas, o Acordo Internacional sobre Direitos Civis<br />
e Políticos; o Acordo Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais; a Declaração <strong>de</strong> Direitos<br />
H<strong>uma</strong>nos <strong>de</strong> Viena, e muitos outros tratados e protocolos internacionais e regionais, todos eles ratificados por<br />
um gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> países.<br />
62 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Por Estado, enten<strong>de</strong>mos um conjunto<br />
<strong>de</strong> instituições e relações sociais que cobre<br />
o território que ele <strong>de</strong>limita e sobre o qual<br />
exerce normalmente a supremacia no controle<br />
dos meios <strong>de</strong> coerção. Esta <strong>de</strong>finição<br />
permite enten<strong>de</strong>r o Estado como: a) um<br />
foco <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> coletiva para os habitantes<br />
<strong>de</strong> um território – aí resi<strong>de</strong> sua credibilida<strong>de</strong>;<br />
b) um sistema legal, que aspira a<br />
um alto grau <strong>de</strong> efetivida<strong>de</strong> na regulação <strong>de</strong><br />
relações sociais; e c) um conjunto <strong>de</strong> burocracias,<br />
cujo funcionamento supostamente<br />
alcança eficácia no <strong>de</strong>sempenho das funções<br />
que lhes são formalmente outorgadas.<br />
O grau <strong>de</strong> realização <strong>de</strong>ssas dimensões em<br />
cada caso é <strong>uma</strong> variável historicamente<br />
contingente e, na verda<strong>de</strong>, problemática<br />
(O’Donnell, 2002b).<br />
Portanto, o Estado é:<br />
que os habitantes estão imersos. Dessa forma,<br />
o Estado também preten<strong>de</strong> garantir a<br />
continuida<strong>de</strong> histórica da unida<strong>de</strong> territorial<br />
respectiva, usualmente concebida como<br />
<strong>uma</strong> Nação.<br />
Esses aspectos do Estado são tendências<br />
que nenhum <strong>de</strong>les chegou a atingir completamente.<br />
No que diz respeito ao Estado<br />
como foco <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> coletiva, sua pretensão<br />
<strong>de</strong> ser verda<strong>de</strong>iramente um Estadopara-a-Nação<br />
po<strong>de</strong> ser pouco verossímil<br />
para boa parte <strong>de</strong> sua população. Quanto<br />
ao sistema legal, po<strong>de</strong> per se ter carências<br />
e/ou não se ampliar efetivamente a diversas<br />
relações sociais e também a vastas regiões.<br />
No que se refere ao Estado como conjunto<br />
<strong>de</strong> burocracias, seu <strong>de</strong>sempenho po<strong>de</strong> se<br />
<strong>de</strong>sviar seriamente do cumprimento das responsabilida<strong>de</strong>s<br />
que lhe foram formalmente<br />
A enorme<br />
importância da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e<br />
<strong>de</strong> seus direitos<br />
políticos para a<br />
América Latina:<br />
eles são, têm que<br />
ser, o principal<br />
ponto <strong>de</strong> apoio<br />
das lutas para<br />
alcançar os outros<br />
direitos.<br />
a. Um âmbito em que se concentra e se<br />
conce<strong>de</strong> a i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> coletiva para todos ou<br />
quase todos os habitantes do território; convida<br />
ao reconhecimento generalizado <strong>de</strong> um<br />
“nós”, os membros da Nação.<br />
b. Um sistema legal, <strong>uma</strong> trama <strong>de</strong> regras<br />
jurídicas que aspira a regular numerosas relações<br />
sociais. 35<br />
c. É também um conjunto <strong>de</strong> entes<br />
burocráticos, <strong>uma</strong> trama institucional e<br />
administrativa com responsabilida<strong>de</strong>s que<br />
formalmente visam a alcançar e a proteger<br />
algum aspecto do bem comum. Juntas,<br />
as burocracias do Estado e sua legalida<strong>de</strong><br />
preten<strong>de</strong>m gerar, para os habitantes <strong>de</strong> seu<br />
território, o gran<strong>de</strong> bem público da or<strong>de</strong>m<br />
e da previsibilida<strong>de</strong> das relações sociais em<br />
quadro 14<br />
Estado liberal e Estado <strong>de</strong>mocrático<br />
O Estado liberal não é apenas o pressuposto histórico, mas também o<br />
pressuposto jurídico do Estado <strong>de</strong>mocrático. Estado liberal e Estado<br />
<strong>de</strong>mocrático são inter<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes em duas formas: 1. na linha que<br />
vai do liberalismo à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, no sentido <strong>de</strong> que são necessárias<br />
certas liberda<strong>de</strong>s para o correto exercício do po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>mocrático; 2)<br />
na linha oposta, a que vai da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> ao liberalismo, no sentido<br />
<strong>de</strong> que é indispensável o po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>mocrático para garantir a existência<br />
e a persistência das liberda<strong>de</strong>s fundamentais. Em outras palavras:<br />
é improvável que um Estado não liberal possa garantir um correto<br />
funcionamento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e, por outro lado, é pouco provável que um<br />
Estado não <strong>de</strong>mocrático seja capaz <strong>de</strong> garantir as liberda<strong>de</strong>s fundamentais.<br />
A prova histórica <strong>de</strong>ssa inter<strong>de</strong>pendência está no fato <strong>de</strong> que quando o<br />
Estado liberal e o Estado <strong>de</strong>mocrático caem, caem juntos.<br />
Norberto Bobbio, 1992, pp. 15-16.<br />
35 Mesmo sob um regime <strong>de</strong>mocrático, a legalida<strong>de</strong> do Estado é <strong>uma</strong> mistura complexa <strong>de</strong> igualda<strong>de</strong> e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>.<br />
Por um lado, essa legalida<strong>de</strong> sanciona os direitos universais da cidadania política e civil. Por outro, essa mesma<br />
legalida<strong>de</strong> sanciona dois tipos <strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s: <strong>uma</strong>, a resultante da organização hierárquica, legalmente regulada,<br />
das instituições burocráticas do Estado, bem como do respaldo ou da autorização que o sistema legal outorga<br />
a outras instituições privadas que também estão hierarquicamente organizadas; outra, a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> resultante<br />
do fato <strong>de</strong> que esta mesma legalida<strong>de</strong> dá forma à condição capitalista da socieda<strong>de</strong>. Esta forma sanciona e respalda<br />
<strong>uma</strong> or<strong>de</strong>m social que inclui, <strong>de</strong> várias maneiras, a dominação social <strong>de</strong> quem controla os meios <strong>de</strong> produção,<br />
como também, e com crescente importância no mundo contemporâneo, o controle dos circuitos do capital financeiro.<br />
Isto nos leva a consi<strong>de</strong>rar o papel crucial que o Estado tem, em suas várias dimensões, na correção ou reprodução<br />
<strong>de</strong>ssas <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s, ao mesmo tempo que promulga alg<strong>uma</strong>s igualda<strong>de</strong>s <strong>de</strong>mocráticas fundamentais.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
63
quadro 15<br />
O Estado: pressuposto da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
O Estado – como instituição na qual se reconhece a i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> coletiva,<br />
não voluntária, baseada em um território, sustentada em última instância<br />
por sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> coerção, altamente burocratizada e <strong>de</strong>nsamente<br />
legalizada – é a premissa histórica e social da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Des<strong>de</strong> o<br />
início, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> política contemporânea implica <strong>uma</strong> cidadania <strong>de</strong><br />
dupla face: a cidadania (potencialmente) ativa e participativa própria da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, e a cidadania implícita, que resulta do fato <strong>de</strong> pertencer a<br />
<strong>uma</strong> nação.<br />
Guillermo O’Donnell, texto elaborado para o PRODDAL, 2002c.<br />
outorgadas.<br />
Sejam quais forem as conquistas e carências<br />
nestas três dimensões, nos interessa<br />
ressaltar que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> política surgiu<br />
e continuou existindo com e no marco do<br />
Estado nacional. Foi <strong>de</strong>vido a esta interseção<br />
que a “<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> nasceu com um sentido<br />
<strong>de</strong> nacionalida<strong>de</strong>. As duas estão fundamentalmente<br />
inter-relacionadas e nenh<strong>uma</strong><br />
<strong>de</strong>las po<strong>de</strong> ser verda<strong>de</strong>iramente entendida<br />
in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente <strong>de</strong>ssa conexão.” 36 Isso<br />
ressalta a importância que o Estado e a Nação<br />
tiveram e continuam tendo para a existência<br />
e o funcionamento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. 37<br />
“Estatalidad” truncada e fragilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mocrática<br />
Como já vimos, pela primeira vez em<br />
dois séculos <strong>de</strong> vida in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte, praticamente<br />
todos os países latino-americanos satisfazem<br />
a <strong>de</strong>finição mínima <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Eles têm em comum duas características:<br />
por um lado, realizam eleições razoavelmente<br />
limpas, institucionalizadas e inclusivas,<br />
e sancionam os direitos participativos<br />
correspon<strong>de</strong>ntes a tais eleições; por outro,<br />
sustentam a vigência <strong>de</strong> alg<strong>uma</strong>s liberda<strong>de</strong>s<br />
políticas fundamentais, especialmente <strong>de</strong><br />
opinião, expressão, associação, movimento<br />
e acesso a meios <strong>de</strong> comunicação razoavelmente<br />
livres e plurais, e afirmam a supremacia<br />
dos po<strong>de</strong>res constitucionais sobre os<br />
po<strong>de</strong>res fáticos.<br />
Contudo, há variações quanto ao grau<br />
em que os atributos mencionados são realmente<br />
cumpridos, assim como também<br />
existem variações significativas quanto ao<br />
quadro 16<br />
Estado e globalização<br />
A globalização econômica <strong>de</strong> nenh<strong>uma</strong><br />
maneira se traduz necessariamente na<br />
diminuição do po<strong>de</strong>r do Estado; na verda<strong>de</strong><br />
está transformando as condições sob as<br />
quais o po<strong>de</strong>r do Estado é exercido. […] Há<br />
muitas e boas razões para ter dúvidas sobre<br />
as bases empíricas e teóricas <strong>de</strong> alg<strong>uma</strong>s<br />
afirmações <strong>de</strong> que o Estado-nação está sendo<br />
eclipsado pelos padrões contemporâneos<br />
da globalização.[...] No entanto, é preciso<br />
reconhecer que os novos padrões <strong>de</strong> mudança<br />
regional e global estão transformando o<br />
contexto da ação política, criando um sistema<br />
<strong>de</strong> centros <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r múltiplos e esferas <strong>de</strong><br />
autorida<strong>de</strong> superpostas – <strong>uma</strong> or<strong>de</strong>m pós-<br />
Westfalia.<br />
David Held, 1999, p. 441.<br />
36 Greenfeld, 1992, p. 7.<br />
37 Maíz, 2002a e Canovan, 1996. John Gray (2000, p. 123) concorda: “O Estado nacional soberano é a gran<strong>de</strong> premissa<br />
não examinada do pensamento liberal. […] A instituição do Estado-nação é tacitamente pressuposta pelos<br />
i<strong>de</strong>ais liberais da cidadania”.<br />
64 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
grau em que o Estado e seu sistema legal<br />
cobrem a totalida<strong>de</strong> do território <strong>de</strong>sses<br />
países. Neste contexto, a avaliação social<br />
sobre o rendimento institucional e o grau<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> nossas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
é s<strong>uma</strong>mente crítica. Em geral, a<br />
opinião pública indica que as instituições<br />
e os governantes não estão tendo um bom<br />
<strong>de</strong>sempenho. Uma razão para isso é que,<br />
com freqüência, os governos eleitos <strong>de</strong>mocraticamente<br />
às vezes parecem incapazes ou<br />
não dispostos a encarar questões básicas <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>senvolvimento, bem como <strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong><br />
e <strong>de</strong> insegurança. Acreditamos que a<br />
esta imagem subjaz outro fato ao qual não<br />
foi dada a <strong>de</strong>vida atenção nas recentes discussões:<br />
nas duas últimas décadas o Estado<br />
<strong>de</strong>bilitou-se enormemente e, em alg<strong>uma</strong>s<br />
zonas <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> nossos países, virtualmente<br />
evaporou-se.<br />
Crises econômicas, o fervoroso antiestatismo<br />
<strong>de</strong> muitos programas <strong>de</strong> reformas<br />
econômicas, a corrupção e o clientelismo<br />
amplamente difundidos em não poucos países,<br />
são alguns dos fatores que convergiram<br />
para gerar um Estado anêmico. Esta anemia<br />
também se manifesta no sistema legal. De<br />
fato, muitos <strong>de</strong> nossos países têm um regime<br />
<strong>de</strong>mocrático que coexiste com <strong>uma</strong><br />
legalida<strong>de</strong> intermitente e parcial. A legalida<strong>de</strong><br />
do Estado não alcança vastas regiões<br />
<strong>de</strong> nossos países (e parte <strong>de</strong> suas cida<strong>de</strong>s),<br />
on<strong>de</strong> outros tipos <strong>de</strong> legalida<strong>de</strong>, basicamente<br />
variações da legalida<strong>de</strong> mafiosa, são os<br />
que operam na prática.<br />
Até mesmo em regiões on<strong>de</strong> o sistema<br />
legal tem atuação, ele cost<strong>uma</strong> ser aplicado<br />
com características discriminatórias contra<br />
várias minorias e também maiorias, tais<br />
como as mulheres, certas etnias e os pobres.<br />
Esse sistema legal truncado gera o que<br />
se <strong>de</strong>nominou <strong>de</strong> <strong>uma</strong> cidadania <strong>de</strong> baixa<br />
intensida<strong>de</strong>. 38 Todos nós temos os direitos<br />
políticos e as liberda<strong>de</strong>s que correspon<strong>de</strong>m<br />
ao regime <strong>de</strong>mocrático, contudo, muitos<br />
não possuem os direitos sociais básicos. A<br />
esses setores também são negados <strong>de</strong> fato<br />
direitos civis não menos básicos. Não gozam<br />
<strong>de</strong> proteção contra a violência policial<br />
e contra várias formas <strong>de</strong> violência privada.<br />
Não conseguem acesso igualitário e respeitoso<br />
às burocracias do Estado, inclusive aos<br />
tribunais. Seus domicílios são invadidos<br />
arbitrariamente, e, em geral, são forçados<br />
a viver <strong>uma</strong> vida não só <strong>de</strong> pobreza, mas<br />
também <strong>de</strong> recorrente humilhação e medo<br />
da violência. 39 Esses setores não são apenas<br />
materialmente pobres, mas também legalmente<br />
pobres.<br />
Com déficits tão importantes na eficácia<br />
<strong>de</strong> suas instituições, na efetivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> seu<br />
sistema legal e, não menos importante, em<br />
sua credibilida<strong>de</strong> como Estado-para-a-<br />
Nação, com poucas e parciais exceções, o<br />
Estado latino-americano atual, ao mesmo<br />
tempo em que abriga regimes <strong>de</strong>mocráticos,<br />
tem gran<strong>de</strong> dificulda<strong>de</strong> em projetar um<br />
futuro que, embora não possa resolver rapidamente<br />
muitas das injustiças e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s<br />
existentes, apareça para a maioria da<br />
população como realizável e valioso.<br />
Este tipo <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> baixa capacida<strong>de</strong><br />
é um velho problema da América Latina.<br />
No entanto, nos últimos anos, transformou-se<br />
em um problema ainda mais sério<br />
e, em vários casos, isso ocorreu sob um<br />
regime <strong>de</strong>mocrático. O déficit <strong>de</strong> credibilida<strong>de</strong><br />
do Estado é resultado da ineficácia<br />
operacional <strong>de</strong> suas instituições e, às vezes,<br />
<strong>de</strong> sua ostensiva colonização por parte <strong>de</strong><br />
interesses privados que, dificilmente po<strong>de</strong>se<br />
argumentar que sejam coerentes com<br />
algum tipo <strong>de</strong> interesse geral. Esse déficit<br />
torna-se ainda mais agudo se parte <strong>de</strong>sses<br />
Nas duas<br />
últimas décadas,<br />
o Estado<br />
<strong>de</strong>bilitou-se<br />
enormemente<br />
e, em alg<strong>uma</strong>s<br />
zonas <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong><br />
nossos países,<br />
virtualmente<br />
evaporou-se.<br />
38 Ver O’Donnell (1993) on<strong>de</strong> se traça um mapa metafórico <strong>de</strong> “zonas azuis, ver<strong>de</strong>s e marrons”, das quais a marrom<br />
se refere a zonas em que a legalida<strong>de</strong> do Estado é apenas satisfatória.<br />
39 Os relatórios <strong>de</strong> vários organismos <strong>de</strong> direitos h<strong>uma</strong>nos repetida e abundantemente documentam a ameaça<br />
permanente <strong>de</strong> violência a que as pessoas estão submetidas. Para o caso do Brasil, ver, entre outros, Dellasoppa et<br />
al. (1999) que documentam que a incidência <strong>de</strong> mortes violentas nas regiões mais pobres da cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> São Paulo é<br />
<strong>de</strong>zesseis vezes maior que nas regiões mais ricas; para dados sobre a Argentina, ver, entre outros, CELS 2001. Mas,<br />
em geral, um estudo que analisa vários conjuntos <strong>de</strong> dados sobre crime violento encontrou em todos eles <strong>uma</strong> correlação<br />
positiva, forte e persistente, da violência com a pobreza e a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> <strong>de</strong> renda (Hsieh e Pugh, 1993).<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
65
Como os ventos<br />
da globalização<br />
são tão fortes, os<br />
países precisam<br />
mais do que nunca<br />
<strong>de</strong> Estados-parasuas-nações.<br />
interesses não for, em absoluto, <strong>de</strong> caráter<br />
nacional; na verda<strong>de</strong>, eles são parte <strong>de</strong> interesses<br />
extraterritoriais – públicos e privados<br />
– e das tendências relativamente anônimas<br />
da globalização econômica.<br />
É por todas essas razões que acreditamos<br />
ser tão importante inscrever a discussão sobre<br />
o Estado (incluindo por quê, para quê<br />
e com quem reformá-lo) na perspectiva<br />
estratégica, eminentemente política, do <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
No entanto, é preciso ressaltar que não<br />
existe Estado neutro. Em suas três dimensões,<br />
o Estado é um espaço <strong>de</strong> con<strong>de</strong>nsação<br />
complexa e <strong>de</strong> mediação <strong>de</strong> forças sociais.<br />
Na verda<strong>de</strong>, a visão neutra é <strong>uma</strong> maneira<br />
<strong>de</strong> argumentar a favor <strong>de</strong> um tipo <strong>de</strong> Estado<br />
que, por meio <strong>de</strong> suas políticas e, certamente,<br />
<strong>de</strong> suas omissões, é um ativo reprodutor<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> e <strong>uma</strong> gran<strong>de</strong> barreira à<br />
expansão <strong>de</strong> direitos civis e sociais.<br />
Alguns tentaram explicar o enfraquecimento<br />
dos Estados na América Latina<br />
como <strong>uma</strong> conseqüência inevitável da globalização,<br />
diante da qual só seria possível e<br />
<strong>de</strong>sejável <strong>uma</strong> adaptação passiva. Isso não é<br />
verda<strong>de</strong> e, em certas ocasiões, é até interesseiro.<br />
Como os ventos da globalização são<br />
tão fortes, os países precisam mais do que<br />
nunca <strong>de</strong> Estados-para-suas-nações. Esse<br />
Estado não <strong>de</strong>ve ser gran<strong>de</strong> ou pesado. Deve<br />
ser um Estado forte, capaz <strong>de</strong> processar os<br />
impactos da globalização, adaptando-se<br />
seletivamente aos mais irresistíveis e assimilando<br />
e reorientando outros.<br />
Nesse sentido, a observação dos Estados<br />
<strong>de</strong> países centrais que contam com arraigadas<br />
instituições e práticas <strong>de</strong>mocráticas<br />
mostra quão ativamente eles procuram<br />
processar, assimilar e reorientar muitos<br />
aspectos e conseqüências da globalização.<br />
No entanto, <strong>uma</strong> condição necessária para<br />
um Estado capaz <strong>de</strong> construir <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e<br />
eqüida<strong>de</strong> social é que alcance níveis razoáveis<br />
<strong>de</strong> eficácia, efetivida<strong>de</strong> e credibilida<strong>de</strong>.<br />
Na América Latina, esse objetivo está travado<br />
por fatores que, embora já mencionados<br />
na discussão prece<strong>de</strong>nte, requerem especial<br />
consi<strong>de</strong>ração.<br />
Especificida<strong>de</strong> histórica das<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s latino-americanas<br />
Os problemas que discutimos até agora<br />
são comuns a muitas das novas e não tão<br />
novas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s no mundo contemporâneo.<br />
O que a teoria <strong>de</strong>mocrática tem a<br />
dizer em relação a isso Infelizmente, não<br />
muito. Em gran<strong>de</strong> parte, isso se <strong>de</strong>ve a que<br />
a maioria das teorias sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
foi formulada no marco da experiência<br />
histórica dos países europeus e dos Estados<br />
Unidos. Essas teorias <strong>de</strong>ixam implícito<br />
que, nesses países, os direitos civis eram<br />
razoavelmente satisfatórios e atingiam<br />
praticamente a toda a socieda<strong>de</strong> antes da<br />
adoção da inclusivida<strong>de</strong> e da universalização<br />
dos direitos políticos. Além disso,<br />
pressupõem que a legalida<strong>de</strong> do Estado se<br />
esten<strong>de</strong> homogeneamente a todo o território<br />
e que, conseqüentemente, não apenas<br />
os regimes nacionais, como também os<br />
subnacionais são <strong>de</strong>mocráticos. 40 Deveria<br />
ser óbvio, a esta altura, que essas suposições<br />
não se ajustam à trajetória histórica e<br />
à situação atual da América Latina.<br />
Em termos das trajetórias históricas da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, a América Latina apresenta<br />
um padrão bastante único. Por isso, <strong>uma</strong><br />
conceitualização da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> restrita ao<br />
regime po<strong>de</strong> ser aceitável <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que pressuponha<br />
que as cidadanias civil e social não<br />
são problemáticas. No entanto, quando<br />
essas dimensões da cidadania são intermitentes<br />
ou estão distribuídas irregularmente<br />
pelos diversos setores sociais ou até pelo<br />
próprio território do Estado, é crucial consi<strong>de</strong>rá-las<br />
cuidadosamente, se o objetivo for<br />
enten<strong>de</strong>r o funcionamento das respectivas<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s e dos principais <strong>de</strong>safios para<br />
seu <strong>de</strong>senvolvimento.<br />
“Ninguém […] po<strong>de</strong> gozar completamente<br />
<strong>de</strong> nenhum direito, que supostamente<br />
possui, se não conta com os elementos<br />
essenciais para <strong>uma</strong> vida razoavelmente<br />
40 Na realida<strong>de</strong>, os Estados Unidos são <strong>uma</strong> exceção parcial, embora importante, a esta afirmação. Mas não<br />
po<strong>de</strong>mos nos <strong>de</strong>ter neste aspecto no presente Relatório.<br />
66 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
saudável e ativa.” 41 Como conseqüência, “seria<br />
inconsistente reconhecer direitos referentes<br />
à vida ou à integrida<strong>de</strong> física quando<br />
os meios necessários para o exercício e gozo<br />
<strong>de</strong>sses direitos são omitidos”. 42 Essas afirmações<br />
se referem às capacida<strong>de</strong>s que facilitam<br />
ou dificultam o exercício dos direitos inerentes<br />
à condição <strong>de</strong> cidadãos. On<strong>de</strong>, e baseado<br />
em que critério, po<strong>de</strong>ríamos traçar <strong>uma</strong><br />
linha firme e clara acima da qual a cidadania<br />
po<strong>de</strong>ria ser razoavelmente exercida em termos<br />
<strong>de</strong> direitos e capacida<strong>de</strong>s Que direitos<br />
e capacida<strong>de</strong>s seriam imprescindíveis para<br />
gozar plenamente da cidadania<br />
Essas questões <strong>de</strong>ram lugar a longos<br />
<strong>de</strong>bates. 43 Nesse ponto é necessário voltar a<br />
um aspecto <strong>de</strong>ssas discussões, o que se refere<br />
às liberda<strong>de</strong>s políticas. Sobre esse tema, sustentamos<br />
duas afirmações: primeiramente,<br />
que é impossível <strong>de</strong>finir teoricamente <strong>de</strong><br />
modo geral e universal o conjunto mínimo<br />
e suficiente <strong>de</strong>sses direitos; e em segundo<br />
lugar, que essas liberda<strong>de</strong>s (<strong>de</strong> expressão,<br />
associação, movimento e similares) são, na<br />
realida<strong>de</strong>, segmentos <strong>de</strong> direitos civis mais<br />
amplos – e antigos. 44 Já argumentamos que<br />
esses direitos correspon<strong>de</strong>m a todos os seres<br />
h<strong>uma</strong>nos, e que os direitos <strong>de</strong> cidadania na<br />
esfera política, dificilmente po<strong>de</strong>m ser realizados<br />
se os indivíduos não possuem direitos<br />
sociais e civis “básicos”. 45<br />
Um indivíduo, pelo fato <strong>de</strong> ser um cidadão,<br />
tem direito a ser respeitado em sua<br />
dignida<strong>de</strong>, e também tem direito à provisão<br />
social das condições necessárias para exercer<br />
livremente todos os aspectos e as ativida<strong>de</strong>s<br />
<strong>de</strong> sua sociabilida<strong>de</strong>. Submeter esse indivíduo<br />
à violência física ou a privação <strong>de</strong><br />
necessida<strong>de</strong>s materiais básicas, ou ainda,<br />
suprimir seus direitos políticos, são atos<br />
que negam severamente sua condição <strong>de</strong><br />
cidadão, sujeito-ator da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Essa<br />
visão das condições mínimas que facultam<br />
a capacida<strong>de</strong> para escolher entre diversas<br />
opções, assumindo responsavelmente as<br />
conseqüências <strong>de</strong> tais escolhas, é clara já nas<br />
origens da tradição dos direitos h<strong>uma</strong>nos<br />
e, mais recentemente, também se tornou<br />
explícita no pensamento sobre o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
h<strong>uma</strong>no. Como afirma Amartya Sen<br />
no Relatório do Desenvolvimento H<strong>uma</strong>no<br />
<strong>de</strong> 2000: “Os direitos h<strong>uma</strong>nos e o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
h<strong>uma</strong>no compartilham <strong>uma</strong> visão<br />
comum e um propósito comum: assegurar<br />
a liberda<strong>de</strong>, o bem-estar e a dignida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
todas as pessoas em todos os lugares”. 46<br />
Embora as constituições da América Latina<br />
consagrem os direitos à educação, à saú<strong>de</strong><br />
e ao trabalho, outras dimensões como a<br />
satisfação das necessida<strong>de</strong>s básicas – alimentação<br />
e moradia, segurida<strong>de</strong> social e meioambiente<br />
– recebem tratamentos <strong>de</strong>siguais,<br />
tanto reais quanto formais, nos diferentes<br />
países. Precisamente, esta priorização acompanha<br />
os Objetivos <strong>de</strong> Desenvolvimento<br />
do Milênio que emanam da Declaração do<br />
Milênio, adotada pela Assembléia Geral das<br />
Nações Unidas em 2000.<br />
Atingir os Objetivos do Milênio na<br />
região Latino-americana significa levar<br />
adiante <strong>uma</strong> série <strong>de</strong> políticas públicas<br />
muito precisas, tais como: investir na infra-estrutura<br />
básica, aumentar a produtivida<strong>de</strong><br />
agrícola, promover a pequena e média<br />
empresa, fomentar a indústria, investir na<br />
saú<strong>de</strong> e na educação, dar continuida<strong>de</strong> a<br />
“Os direitos<br />
h<strong>uma</strong>nos e o<br />
<strong>de</strong>senvolvimento<br />
h<strong>uma</strong>no<br />
compartilham<br />
<strong>uma</strong> visão comum<br />
e um propósito<br />
comum:<br />
assegurar a<br />
liberda<strong>de</strong>, o<br />
bem-estar e a<br />
dignida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
todas as pessoas<br />
em todos os<br />
lugares.”<br />
41 Shue, 1996, p. 7 (itálico no original).<br />
42 Vázquez, 2001, p. 102.<br />
43 Ver Shue, 1996; Nussbaum, 2000b.<br />
44 Nos países europeus e nos Estados Unidos, esses direitos foram realizados como direitos civis muito antes <strong>de</strong> serem<br />
“promovidos” à condição <strong>de</strong> direitos políticos. Esses direitos também são exercidos em espaços sociais muito<br />
distintos, além do âmbito do regime.<br />
45 Como escreve Habermas (1999, p. 332),“sem direitos básicos que garantam a autonomia privada dos cidadãos,<br />
também não haveria meio algum para a institucionalização legal das condições sob as quais esses cidadãos fizessem<br />
uso <strong>de</strong> sua autonomia pública”. Esse autor (1998, p. 261) afirma que: “Portanto, a autonomia pública e privada<br />
pressupõem-se mutuamente, <strong>de</strong> tal maneira que nem os direitos h<strong>uma</strong>nos nem a soberania popular po<strong>de</strong>m exigir<br />
primazia sobre sua contraparte”.<br />
46 PNUD, 2000c, p. 1.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
67
<strong>uma</strong> política pública <strong>de</strong> sustentabilida<strong>de</strong><br />
ambiental. Essas políticas requerem um<br />
Estado com capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ação, o que significa<br />
a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> chegar a consensos<br />
políticos, manter a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong>ntro do<br />
estado <strong>de</strong> direito e aprofundá-la, tendo<br />
como meta chegar a <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong> em que<br />
a cidadania seja integral, em que os direitos<br />
e as obrigações não se limitem apenas ao<br />
campo político e civil, mas incluam também<br />
a área social. Essas políticas pressupõem<br />
a ação do cidadão como indivíduo,<br />
como ator político que se expressa por meio<br />
<strong>de</strong> representantes e – nas circunstâncias<br />
previstas – diretamente, e como integrante<br />
da socieda<strong>de</strong>, atuando em sua comunida<strong>de</strong><br />
e nas associações voluntárias que formam a<br />
rica trama da socieda<strong>de</strong> civil.<br />
Essa é a mesma visão que, como vimos,<br />
subjaz a nossa concepção <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Todos estes direitos – os direitos civis e<br />
sua conexão com os direitos h<strong>uma</strong>nos, os<br />
quadro 17<br />
Os Objetivos <strong>de</strong> Desenvolvimento do Milênio (ODMs)<br />
1. ERRADICAR A EXTREMA POBREZA E FOME<br />
■ Reduzir à meta<strong>de</strong>, entre 1990 a 2015, a<br />
proporção <strong>de</strong> pessoas com renda inferior a<br />
1 dólar por dia, assim como a proporção <strong>de</strong><br />
pessoas que passam fome.<br />
2. ATINGIR O ENSINO BÁSICO UNIVERSAL<br />
■ Assegurar que, até 2015, as meninas e os<br />
meninos <strong>de</strong> todo o mundo possam completar<br />
um ciclo completo <strong>de</strong> educação primária.<br />
3. PROMOVER A IGUALDADE DE GÊNEROS E A<br />
AUTONOMIA DAS MULHERES<br />
■ Eliminar as disparida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> gênero na educação<br />
primária e secundária, preferencialmente<br />
até 2005, e em todos os níveis <strong>de</strong> educação<br />
antes do fim <strong>de</strong> 2015.<br />
4. REDUZIR A MORTALIDADE INFANTIL<br />
■ Reduzir em dois terços, entre 1990 e 2015,<br />
a taxa <strong>de</strong> mortalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> crianças menores <strong>de</strong><br />
5 anos.<br />
5. MELHORAR A SAÚDE MATERNA<br />
■ Reduzir em três quartos a taxa <strong>de</strong> mortalida<strong>de</strong><br />
materna, entre 1990 e 2015.<br />
6. COMBATER O HIV/AIDS, A MALÁRIA E OU-<br />
TRAS DOENÇAS<br />
■ Deter e começar a reduzir, até 2015 , a propagação<br />
do HIV/AIDS, a incidência <strong>de</strong> malária<br />
e outras doenças graves.<br />
7. GARANTIR A SUSTENTABILIDADE DO MEIO<br />
AMBIENTE<br />
■ Integrar os princípios <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
sustentável nos programas e políticas<br />
nacionais e reverter a perda <strong>de</strong> recursos<br />
ambientais.<br />
■ Reduzir à meta<strong>de</strong>, até 2015, a proporção<br />
<strong>de</strong> pessoas sem acesso sustentável à água<br />
potável.<br />
■ Ter atingido, até 2020, significativa melhoria<br />
nas condições <strong>de</strong> vida <strong>de</strong> pelo menos 100<br />
milhões <strong>de</strong> moradores dos bairros mais<br />
precários.<br />
8. ESTABELECER UMA PARCERIA MUNDIAL PARA<br />
O DESENVOLVIMENTO<br />
■ Desenvolver ainda mais um sistema comercial<br />
e financeiro aberto, baseado em normas,<br />
previsível e não-discriminatório.<br />
■ Aten<strong>de</strong>r às necessida<strong>de</strong>s especiais dos<br />
países menos <strong>de</strong>senvolvidos e dos países<br />
sem acesso ao mar ou dos pequenos Estados<br />
insulares em <strong>de</strong>senvolvimento.<br />
■ Encarar por um prisma geral os problemas<br />
relativos a dívidas <strong>de</strong> países em <strong>de</strong>senvolvimento,<br />
elaborar e aplicar estratégias que<br />
proporcionem aos jovens trabalho digno e<br />
produtivo.<br />
■ Em cooperação com a indústria farmacêutica,<br />
proporcionar acesso aos medicamentos<br />
essenciais nos países em <strong>de</strong>senvolvimento.<br />
■ Em cooperação com o setor privado,<br />
empenhar-se para que possam ser aproveitados<br />
os benefícios <strong>de</strong> novas tecnologias,<br />
e especialmente as da informação e das<br />
comunicações.<br />
68 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
direitos sociais e sua conexão com o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
h<strong>uma</strong>no, e os direitos políticos<br />
e sua conexão com a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> – facilitam<br />
e promovem o exercício da cidadania. Isso<br />
ocorre assim, precisamente, porque cada<br />
um, ou alg<strong>uma</strong> combinação <strong>de</strong>les, “empurra”<br />
em direção ao êxito dos outros ou, ao<br />
menos, cria oportunida<strong>de</strong>s favoráveis para<br />
sua conquista. Como veremos adiante, o<br />
critério relevante para a atribuição <strong>de</strong> direitos<br />
civis, sociais e políticos mudou ao longo<br />
do tempo. Por exemplo, até países centrais<br />
conviveram por longo tempo com enormes<br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s, que eram justificadas com<br />
o argumento <strong>de</strong> que os trabalhadores, as<br />
mulheres e outros eram, por alg<strong>uma</strong> razão,<br />
intrinsecamente “inferiores”. Apesar do<br />
gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> horrores e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s<br />
ainda existentes, a crescente aceitação <strong>de</strong> que<br />
todos nós, os seres h<strong>uma</strong>nos, somos, em algum<br />
sentido essencial, iguais, é <strong>uma</strong> gran<strong>de</strong><br />
conquista da h<strong>uma</strong>nida<strong>de</strong>.<br />
De quanta cidadania<br />
<strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> precisa<br />
As afirmações do item anterior não se<br />
<strong>de</strong>têm em várias discussões filosóficas e éticas<br />
que estão centradas na questão do equilíbrio<br />
entre liberda<strong>de</strong> e igualda<strong>de</strong>. Essas são<br />
questões extremamente importantes que<br />
exce<strong>de</strong>m o âmbito do presente Relatório.<br />
Nos países centrais, discute-se sobre os<br />
princípios <strong>de</strong> liberda<strong>de</strong> e/ou <strong>de</strong> eqüida<strong>de</strong><br />
que <strong>de</strong>veriam regular a atribuição dos bens<br />
sociais, quando todos os cidadãos, ou <strong>uma</strong><br />
gran<strong>de</strong> maioria, alcançaram um nível básico<br />
<strong>de</strong> direitos e capacida<strong>de</strong>s. 47 Na América Latina,<br />
a questão principal refere-se aos cidadãos<br />
que não gozam <strong>de</strong>sses direitos e capacida<strong>de</strong>s<br />
básicas. Isso suscita a pergunta sobre<br />
se existem boas razões para afirmar um<br />
direito universal para chegar a um nível, ou<br />
conjunto básico <strong>de</strong> direitos e capacida<strong>de</strong>s.<br />
Sustentamos que essas razões existem e que<br />
o fundamento <strong>de</strong>las é ver os cidadãos e, em<br />
geral, os indivíduos como seres autônomos,<br />
razoáveis e responsáveis. Essas razões fazem<br />
referência a um aspecto primário da eqüida<strong>de</strong>:<br />
não igualda<strong>de</strong> plena, mas igualda<strong>de</strong><br />
básica. Por igualamento básico enten<strong>de</strong>mos<br />
o direito <strong>de</strong> cada um a, pelo menos, duas<br />
coisas: ser tratado com eqüida<strong>de</strong> e consi<strong>de</strong>ração,<br />
<strong>de</strong>vido a sua condição <strong>de</strong> ser h<strong>uma</strong>no;<br />
obter, se necessário, por meio do Estado ou<br />
da previdência social, um patamar básico <strong>de</strong><br />
direitos e capacida<strong>de</strong>s que eliminem, ao menos,<br />
as privações que impe<strong>de</strong>m o exercício<br />
das opções responsáveis e das liberda<strong>de</strong>s que<br />
elas implicam.<br />
Reconhecemos que nesse plano existem<br />
complexas e árduas disputas. Contudo, nos<br />
parece inevitável a pergunta sobre se existe<br />
ou não obrigação moral, e também direitos<br />
acionáveis, para <strong>de</strong>mandar capacida<strong>de</strong>s e<br />
direitos básicos que facilitem a todos os<br />
cidadãos o exercício <strong>de</strong> sua cidadania. Seja<br />
qualquer for a resposta a essa questão, parece<br />
inegável que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> possibilita o<br />
melhor contexto possível para a sua discussão.<br />
Com respeito a isso, Sen argumenta que<br />
“a participação [<strong>de</strong>mocrática] política e social<br />
tem valor intrínseco para a vida h<strong>uma</strong>na<br />
e o bem-estar, [e também,] valor instrumental<br />
ao melhorar a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> as pessoas<br />
serem escutadas […] em suas reivindicações<br />
<strong>de</strong> atenção política [incluindo <strong>de</strong>mandas<br />
sobre necessida<strong>de</strong>s econômicas]”. Esse autor,<br />
além disso, sustenta 48 que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> tem<br />
valor construtivo, pois “mesmo a idéia <strong>de</strong><br />
‘necessida<strong>de</strong>s’, incluindo o entendimento <strong>de</strong><br />
‘necessida<strong>de</strong>s econômicas’, requer discussão<br />
47 Dasgupta (1993, p. 45, nota <strong>de</strong> rodapé) comenta corretamente: “A maior parte da teoria ética contemporânea<br />
assume no começo da indagação que essas necessida<strong>de</strong>s [básicas] foram realizadas”. Esta suposição é explícita nos<br />
trabalhos <strong>de</strong> filosofia política que, po<strong>de</strong>-se dizer, foram os que tiveram mais influência nas últimas décadas, pelo<br />
menos no mundo anglo-saxão (Rawls, 1971, pp. 152, 542-543; sua teoria da justiça é consi<strong>de</strong>rada aplicável em<br />
países on<strong>de</strong> “apenas as necessida<strong>de</strong>s materiais menos urgentes ainda não foram satisfeitas”; para <strong>uma</strong> reafirmação<br />
explícita <strong>de</strong>ssa suposição, ver Rawls, 2001). Por sua vez, apesar <strong>de</strong> menos explícita, a mesma suposição está claramente<br />
contida no trabalho <strong>de</strong> Habermas. A questão pen<strong>de</strong>nte é o que po<strong>de</strong> ser dito <strong>de</strong> países, inclusive os que<br />
incluem um regime <strong>de</strong>mocrático, que não cumprem com esta suposição.<br />
48 Sen, 1999a, p. 10 (itálico no original).<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
69
É por isso que<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é<br />
e admite ser um<br />
horizonte aberto,<br />
no qual ocorrem<br />
incessantemente<br />
as lutas pela<br />
<strong>de</strong>finição e<br />
re<strong>de</strong>finição<br />
<strong>de</strong> direitos e<br />
obrigações.<br />
quadro 18<br />
pública e intercâmbio <strong>de</strong> informação, visões<br />
e análises […]. Os direitos políticos, incluindo<br />
a liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> expressão e discussão,<br />
não são fundamentais apenas para induzir<br />
respostas sociais a necessida<strong>de</strong>s econômicas,<br />
são também centrais para a conceituação das<br />
necessida<strong>de</strong>s econômicas em si mesmas”. 49<br />
Portanto, o conteúdo dos direitos, seu<br />
grau <strong>de</strong> especificida<strong>de</strong>, seu alcance, a priorida<strong>de</strong><br />
relativa <strong>de</strong> uns sobre outros e outras<br />
questões <strong>de</strong>sse tipo, são, e sempre serão,<br />
objeto <strong>de</strong> disputas. Existem <strong>de</strong>masiadas<br />
preferências contrapostas, teorias sobre o<br />
que é justo ou eqüitativo, e interesses sociais<br />
e posições, para que qualquer <strong>uma</strong> <strong>de</strong>ssas<br />
questões possa ser clara e completamente<br />
resolvida. Este é um fato da vida social, <strong>uma</strong><br />
conseqüência da liberda<strong>de</strong> e da diversida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> projetos <strong>de</strong> vida, pontos <strong>de</strong> vista, interesses<br />
e espaços sociais que ela sustenta. Correspon<strong>de</strong><br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, e especificamente à<br />
política <strong>de</strong>mocrática, celebrar e promover as<br />
disputas e os acordos que tal pluralida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
vozes e interesses admite. É por isso também<br />
que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é e admite ser um horizonte<br />
aberto, no qual ocorrem incessantemente<br />
as lutas pela <strong>de</strong>finição e re<strong>de</strong>finição<br />
<strong>de</strong> direitos e obrigações. 50<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: <strong>uma</strong> tensão entre fatos<br />
e valores<br />
O que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é não po<strong>de</strong> ser separado do que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong>veria<br />
ser. […] Em <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, a tensão entre fatos e valores alcança o ponto<br />
mais alto.<br />
Giovanni Sartori, 1967, p. 4.<br />
Qual é a resposta para esses problemas,<br />
restrições e incertezas Simplesmente, mais<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. A questão crucial é quem <strong>de</strong>ci<strong>de</strong>,<br />
como e sobre que base, que direitos<br />
são sancionados e implementados, e com<br />
que intensida<strong>de</strong> e alcance, e quais não são<br />
inscritos no sistema legal ou permanecem<br />
como letra morta. Mesmo quando estiverem<br />
embasados em características universais do<br />
ser h<strong>uma</strong>no, <strong>de</strong>terminar quais são as reivindicações<br />
e as necessida<strong>de</strong>s que <strong>de</strong>vem ser<br />
transformadas em direitos, em que medida<br />
<strong>de</strong>vem ser implementadas e qual é o equilíbrio<br />
que se estabelece com os outros direitos<br />
e obrigações, é <strong>uma</strong> construção social <strong>de</strong>corrente<br />
da política, pelo menos da política em<br />
suas melhores expressões.<br />
É importante para nós, ressaltar o que foi<br />
dito anteriormente porque, paradoxalmente,<br />
nos países on<strong>de</strong> mais se precisa discutir<br />
amplamente sobre necessida<strong>de</strong>s e <strong>de</strong>mandas<br />
e sua possível conversão em direitos acionáveis,<br />
é on<strong>de</strong> há mais dificulda<strong>de</strong> <strong>de</strong> incorporar<br />
essas questões à agenda pública. O<br />
que seria “um mínimo social <strong>de</strong>cente”, 51 em<br />
termos <strong>de</strong> um conjunto básico <strong>de</strong> direitos civis<br />
e sociais para todos os habitantes Desse<br />
modo, se um país é pobre, tem um Estado<br />
anêmico e um sistema legal truncado, quais<br />
seriam as seqüências e trajetórias a<strong>de</strong>quadas<br />
para alcançar esse mínimo 52<br />
As necessida<strong>de</strong>s e respectivas privações<br />
não são apenas o sofrimento <strong>de</strong> indivíduos<br />
isolados; são questões sociais, que <strong>de</strong>vem<br />
ser tratadas em termos do reconhecimento<br />
<strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong>s estatais e coletivas. São<br />
questões políticas, imbuídas <strong>de</strong> diferentes<br />
valores e i<strong>de</strong>ologias, <strong>de</strong> teorias mais ou<br />
menos implícitas sobre o funcionamento<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong>de</strong>terminada socieda<strong>de</strong> e, hoje em<br />
dia, cada vez mais também sobre o funcionamento<br />
do sistema global. É preciso<br />
49 Ibid., p. 11.<br />
50 Ver Tille, 1990, 1996, 1998b. O autor (1998b, p. 55) conclui que “os direitos [são] produtos históricos, resultados<br />
das lutas”.<br />
51 Nussbaum, 2000a, p. 125.<br />
52 Como Tavares <strong>de</strong> Almeida (2002) argumenta, mesmo <strong>de</strong>ntro da América Latina há variações importantes nessa<br />
questão, que <strong>de</strong>veriam ser consi<strong>de</strong>radas ao traçar possíveis seqüências e trajetórias. Uma discussão <strong>de</strong>talhada<br />
<strong>de</strong>ssa questão <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>uma</strong> avaliação país por país, que é <strong>uma</strong> tarefa que exce<strong>de</strong> as possibilida<strong>de</strong>s do presente<br />
Relatório.<br />
70 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
promover a abordagem <strong>de</strong>sses temas na<br />
agenda pública porque é aí que são <strong>de</strong>finidas<br />
as necessida<strong>de</strong>s “reais” que um país enfrenta,<br />
ignora ou reprime.<br />
Na experiência histórica da h<strong>uma</strong>nida<strong>de</strong>,<br />
os avanços nos direitos civis e sociais dos<br />
setores populares tornaram muito difícil<br />
resistir aos pedidos <strong>de</strong> cidadania política;<br />
sua extensão <strong>de</strong>u às mulheres e a alg<strong>uma</strong>s<br />
minorias um trampolim importante para<br />
adquirir outros direitos civis e sociais; a<br />
extensão dos direitos civis impulsionou a<br />
conquista <strong>de</strong> direitos sociais e políticos; 53 a<br />
disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> direitos políticos preveniu<br />
a fome. 54 Estes e muitos outros processos<br />
mostram como diversos direitos ten<strong>de</strong>m<br />
a ser invocados e reforçados entre si; há <strong>uma</strong><br />
clara afinida<strong>de</strong> eletiva entre os direitos civis,<br />
sociais e políticos. A força que impulsiona<br />
essas relações é finalmente moral: o reconhecimento<br />
<strong>de</strong> que <strong>uma</strong> pessoa não <strong>de</strong>ve ser<br />
privada <strong>de</strong> nenhum dos direitos e capacida<strong>de</strong>s<br />
que normalmente a habilitam a atuar <strong>de</strong><br />
modo livre e responsável.<br />
No que diz respeito à América Latina,<br />
agora que contamos com <strong>uma</strong> notável extensão<br />
dos direitos políticos, <strong>de</strong>veríamos usá-los<br />
não apenas no que se refere ao regime, mas<br />
também, como alavanca para a indispensável<br />
extensão <strong>de</strong> direitos civis e sociais.<br />
O próximo passo consiste na observação<br />
empírica do regime <strong>de</strong>mocrático, do <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da cidadania e do po<strong>de</strong>r.<br />
Explicitamos até aqui o fio condutor que<br />
guia este Relatório. Exploramos <strong>de</strong> modo<br />
sucinto as bases conceituais nas quais se<br />
alicerça a afirmação <strong>de</strong> que o <strong>de</strong>safio global<br />
do relançamento <strong>de</strong>mocrático é a passagem<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
<strong>de</strong> cidadania, e foram <strong>de</strong>senvolvidos os<br />
principais argumentos da íntima vinculação<br />
entre a idéia <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, cidadania<br />
e Estado. Essas idéias serviram <strong>de</strong> base, por<br />
sua vez, a <strong>uma</strong> busca empírica. Sem elas,<br />
a observação <strong>de</strong> dados seria <strong>de</strong>sarticulada<br />
e provavelmente não nos guiaria em nossa<br />
busca. De modo que indagar como os<br />
Nessa análise, a noção <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> baseia-se em um pressuposto<br />
fundamental: a existência <strong>de</strong> um regime<br />
<strong>de</strong>mocrático. Nesse regime encontramos o<br />
cidadão legalmente respaldado e reconhecido<br />
como sujeito na <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> política.<br />
Por outro lado, a noção <strong>de</strong> cidadania nos indicou<br />
que o caráter <strong>de</strong>mocrático é também<br />
um atributo do Estado. Prosseguindo nessa<br />
busca, encontramos as características e<br />
raízes comuns dos direitos políticos, civis e<br />
sociais. Essa tese foi baseada na afirmação<br />
<strong>de</strong> que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> significa não apenas<br />
cidadania política, mas também civil e social.<br />
Afirmamos também que a existência<br />
<strong>de</strong> um contexto diverso e plural, respaldado<br />
por um sistema legal consoante com<br />
o mesmo, é outro aspecto fundamental da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, especialmente como sustento<br />
das liberda<strong>de</strong>s que são a cara social dos<br />
direitos individuais <strong>de</strong> cidadania.<br />
Na maioria <strong>de</strong>sses aspectos observamos<br />
que as <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s da América Latina contemporânea<br />
apresentam <strong>de</strong>ficiências. Por<br />
outro lado, porém, mostramos as potencialida<strong>de</strong>s<br />
políticas e normativas da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
mesmo <strong>de</strong>ntro do marco das restrições<br />
existentes na atualida<strong>de</strong>. Sob este ângulo,<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> po<strong>de</strong> ser concebida como um<br />
conjunto <strong>de</strong> princípios gerais <strong>de</strong> organização<br />
da socieda<strong>de</strong>. Ela é, também, a princiquadro<br />
19<br />
A informação: <strong>uma</strong> necessida<strong>de</strong> básica<br />
A idéia <strong>de</strong> necessida<strong>de</strong>s, incluindo o entendimento <strong>de</strong> necessida<strong>de</strong>s<br />
econômicas, requer informação pública e intercâmbio <strong>de</strong> informação,<br />
visões e análises. […] Os direitos políticos, incluindo a liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
expressão e discussão, não são somente fundamentais para induzir<br />
respostas sociais a necessida<strong>de</strong>s econômicas, eles são fundamentais para<br />
a conceitualização das necessida<strong>de</strong>s econômicas em si mesmas.<br />
Amartya Sen, 1999a.<br />
53 Por exemplo, Touraine (1994) <strong>de</strong>staca que os trabalhadores europeus obtiveram seus direitos sociais lutando<br />
por princípios gerais, como a liberda<strong>de</strong> e a justiça.<br />
54 Como argumenta Sen em sua op. cit., 1999a.<br />
O <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
71
O <strong>de</strong>safio global<br />
do relançamento<br />
<strong>de</strong>mocrático<br />
é a passagem<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
eleitoral à<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong><br />
cidadania.<br />
pal alavanca para tentar superar injustiças<br />
e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s. A possibilida<strong>de</strong> que, com<br />
suas liberda<strong>de</strong>s, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> cria para lutar<br />
contra essas injustiças e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s<br />
faz <strong>de</strong>la um horizonte sempre aberto. Essa<br />
abertura e a dinâmica que permite, fazem<br />
com que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, mesmo as que<br />
sofrem sérias <strong>de</strong>ficiências, seja um bem<br />
imensamente valioso pelo qual vale a pena<br />
esforçar-se para preservar e expandir.<br />
cidadãos percebem a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> em suas<br />
vidas, construir os indicadores do regime<br />
político e do <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> cidadania<br />
e, finalmente, consultar os que conhecem o<br />
po<strong>de</strong>r, os limites do Estado e os governos,<br />
são os eixos da pesquisa empírica que se<br />
<strong>de</strong>senvolve no próximo capítulo. Aí encontraremos<br />
a matéria das teses que foram<br />
levantadas até aqui.<br />
Finalmente, o leitor po<strong>de</strong>rá apreciar as<br />
idéias <strong>de</strong>ssas primeiras páginas, juntamente<br />
com os resultados empíricos da segunda<br />
seção, na terceira parte <strong>de</strong>ste Relatório, on<strong>de</strong><br />
serão elaboradas as idéias centrais dos dois<br />
principais <strong>de</strong>safios da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> latinoamericana:<br />
garantir a liberda<strong>de</strong> e ampliar a<br />
cidadania <strong>de</strong> seus habitantes.<br />
72 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
segunda seção<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
A partir da apresentação dos fundamentos teóricos do Relatório e da caracterização da<br />
singularida<strong>de</strong> das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s latino-americanas, indaga-se e analisa-se seu correlato<br />
empírico. Esta seção contém:<br />
a. Um olhar dirigido ao regime <strong>de</strong>mocrático no sentido estrito (regras, procedimentos e<br />
instituições que <strong>de</strong>terminam as formas <strong>de</strong> acesso à cúpula do Estado). Inclui um índice<br />
<strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral (IDE), que indica que a América Latina progrediu visivelmente<br />
quanto à eleição <strong>de</strong>mocrática <strong>de</strong> governos, e inclui também um estudo <strong>de</strong> outros indicadores<br />
<strong>de</strong> cidadania política.<br />
b. Um conjunto <strong>de</strong> indicadores <strong>de</strong> cidadania civil que revela que o progresso representado<br />
pelo reconhecimento formal dos direitos não está necessariamente acompanhado<br />
por sua vigência real, e um conjunto <strong>de</strong> indicadores <strong>de</strong> cidadania social em que se observam<br />
apenas pequenos avanços em alguns temas e agudas <strong>de</strong>ficiências em outros.<br />
c. Uma análise da visão dos latino-americanos sobre sua <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, com base em<br />
<strong>uma</strong> pesquisa <strong>de</strong> opinião <strong>de</strong> 19.508 pessoas interessadas nos <strong>de</strong>zoito países consi<strong>de</strong>rados.<br />
A análise revela <strong>uma</strong> clara preferência pela <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> em relação a outras<br />
formas <strong>de</strong> governo, embora esta preferência não implique um claro e sustentado apoio,<br />
tal como o índice <strong>de</strong> apoio cidadão à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> (IAD) e os perfis <strong>de</strong> intensida<strong>de</strong> cidadã<br />
evi<strong>de</strong>nciam.<br />
d. Uma análise da rodada <strong>de</strong> consultas sobre aspectos centrais da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, realizadas<br />
com 231 dirigentes políticos e sociais latino-americanos, <strong>de</strong>ntre eles, um grupo<br />
<strong>de</strong>stacado <strong>de</strong> presi<strong>de</strong>ntes e vice-presi<strong>de</strong>ntes. As consultas incluíram temas como a<br />
participação política, os controles ao exercício do po<strong>de</strong>r, o papel dos partidos políticos,<br />
os po<strong>de</strong>res fáticos, os po<strong>de</strong>res ilegais, os po<strong>de</strong>res políticos formais e a construção <strong>de</strong><br />
<strong>uma</strong> agenda para o fortalecimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
73
74 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
■ Indicadores <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Cidadania política, civil e social<br />
Foi construído para esta seção um conjunto<br />
<strong>de</strong> indicadores para <strong>de</strong>screver a atual<br />
situação da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina.<br />
O alcance, a interpretação e o uso <strong>de</strong>sses indicadores<br />
<strong>de</strong>vem basear-se nas notas metodológicas<br />
incluídas ao final do Relatório.<br />
É importante fazer alguns esclarecimentos<br />
a respeito dos dados aqui apresentados:<br />
a. Não proporcionam um sistema <strong>de</strong><br />
qualificação dos governos latino-americanos.<br />
Os indicadores tentam iluminar o amplo<br />
cenário em que os representantes eleitos<br />
e outros atores atuam, e por isso não <strong>de</strong>vem<br />
ser interpretados como qualificações das autorida<strong>de</strong>s<br />
eleitas. Tampouco se trata <strong>de</strong> comparar<br />
os diferentes países entre si.<br />
b. Não constroem um índice ou ranking<br />
único <strong>de</strong> países. O marco teórico propõe, como<br />
tese fundamental, que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> inclui<br />
o regime político, porém não se esgota<br />
nele. Levando em consi<strong>de</strong>ração esse ponto<br />
<strong>de</strong> partida, os indicadores apontam vários<br />
aspectos ou dimensões da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, mediante<br />
diversos direitos políticos, civis e sociais.<br />
Esta realida<strong>de</strong> complexa não po<strong>de</strong> se<br />
resumir a<strong>de</strong>quadamente em um único índice.<br />
Além disso, como os indicadores sempre<br />
captam a realida<strong>de</strong> com um certo grau <strong>de</strong> incerteza,<br />
não são apresentadas classificações<br />
precisas, que pressupõem a inexistência <strong>de</strong><br />
erros. Por razões metodológicas básicas não<br />
se apresenta um índice único nem <strong>uma</strong> classificação<br />
<strong>de</strong> países.<br />
c. Apresentam medições parciais <strong>de</strong><br />
<strong>uma</strong> realida<strong>de</strong> complexa. Para captar essa<br />
complexida<strong>de</strong> foram reunidos diferentes<br />
indicadores, alguns com o foco em processos,<br />
outros em políticas e outros em resultados.<br />
Embora eles possam, em seu conjunto,<br />
<strong>de</strong>linear um panorama <strong>de</strong>talhado, oferecem<br />
<strong>uma</strong> visão parcial da realida<strong>de</strong> e não<br />
esgotam o significado dos conceitos medidos.<br />
Além disso, em mais <strong>de</strong> um caso, a informação<br />
disponível diz respeito apenas a<br />
<strong>uma</strong> conjuntura e não a um período longo<br />
sobre o qual po<strong>de</strong>m ser i<strong>de</strong>ntificadas tendências.<br />
Certos aspectos, alguns realmente<br />
essenciais para captar a singularida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
cada país, dificilmente po<strong>de</strong>m ser incorporados<br />
por meio <strong>de</strong> medições quantitativas e<br />
são melhor compreendidos com um enfoque<br />
qualitativo.<br />
d. Fazem referência ao momento em<br />
que a medição foi realizada e não <strong>de</strong>vem<br />
ser consi<strong>de</strong>rados como <strong>uma</strong> qualificação<br />
da situação atual. Existe um lapso normal<br />
entre o momento da medição e sua posterior<br />
análise e publicação, que <strong>de</strong>ve ser levado<br />
em conta no momento <strong>de</strong> interpretar<br />
os dados. Esse fenômeno adquire particular<br />
relevância quando ocorrem medições<br />
únicas ou iniciais, e essa relevância diminui<br />
quando se conta com séries históricas<br />
ou medições reiteradas ao longo <strong>de</strong> períodos<br />
prolongados.<br />
e. Os novos índices apresentados neste<br />
Relatório significam <strong>uma</strong> primeira aproximação<br />
qualitativa e quantitativa a fenômenos<br />
sociais e políticos complexos. Os dados<br />
selecionados que compõem os diversos indicadores<br />
obe<strong>de</strong>cem ao processo <strong>de</strong> construção<br />
do índice. Uma mudança nos componentes<br />
que constituem o índice po<strong>de</strong>ria<br />
modificar o seu valor. Os valores atribuídos<br />
às variáveis que compõem os índices fundamentam-se<br />
em um processo <strong>de</strong> codificação<br />
realizado por analistas. Apesar do cuidado<br />
ao atribuir valores semelhantes a situações<br />
semelhantes, existe <strong>uma</strong> margem <strong>de</strong> variabilida<strong>de</strong><br />
vinculada à apreciação <strong>de</strong> cada analista<br />
acerca da realida<strong>de</strong> em questão.<br />
Conseqüentemente, na leitura dos resultados,<br />
esse complexo processo <strong>de</strong> construção<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
75
<strong>de</strong>ve ser levado em conta.<br />
Cidadania política<br />
Índice <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral<br />
A análise do regime eleitoral é feita inicialmente<br />
a partir do índice <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
eleitoral (IDE), construído para o Relatório.<br />
Este índice reúne medições que respon<strong>de</strong>m<br />
quadro 20<br />
O índice <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral (IDE)<br />
Uma contribuição à discussão sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
O Índice <strong>de</strong> Democracia Eleitoral (IDE) é <strong>uma</strong><br />
nova medida do regime eleitoral <strong>de</strong>mocrático<br />
produzida para este Relatório. Este tipo <strong>de</strong><br />
medição tem <strong>uma</strong> evolução prolongada no<br />
mundo acadêmico. Um passo importante<br />
na discussão <strong>de</strong>ssa metodologia foi dado<br />
na publicação do PNUD, Relatório do<br />
Desenvolvimento H<strong>uma</strong>no 2002, “Aprofundar<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> em um mundo fragmentado”.<br />
A construção do IDE apóia-se nos últimos<br />
avanços na matéria, cuja explicação encontrase<br />
na nota técnica do compêndio estatístico.<br />
O IDE apresenta <strong>uma</strong> agregação <strong>de</strong> quatro<br />
componentes consi<strong>de</strong>rados essenciais em um<br />
regime <strong>de</strong>mocrático, tal como está refletido na<br />
seguinte árvore conceitual:<br />
Índice <strong>de</strong> Democracia Eleitoral (IDE)<br />
Direito <strong>de</strong> voto Eleições limpas Eleições livres Cargos públicos eleitos<br />
Todos os adultos<br />
em um país têm<br />
direito <strong>de</strong> voto <br />
O processo eleitoral<br />
<strong>de</strong>senvolve-se sem<br />
irregularida<strong>de</strong>s que<br />
possam influir na<br />
expressão autônoma<br />
das preferências<br />
dos votantes<br />
por candidatos e<br />
alterem a contagem<br />
fi<strong>de</strong>digna dos votos<br />
emitidos<br />
É oferecido<br />
ao eleitorado<br />
um leque <strong>de</strong><br />
alternativas<br />
que não são<br />
influenciadas por<br />
restrições legais<br />
ou <strong>de</strong> fato<br />
As eleições são o meio<br />
<strong>de</strong> acesso aos principais<br />
cargos públicos <strong>de</strong> um<br />
país, isto é, o Executivo<br />
e o Legislativo nacional,<br />
e os que ganham as<br />
eleições assumem e<br />
permanecem nesses<br />
cargos públicos durante<br />
os prazos estipulados<br />
por lei<br />
Por sua vez, a regra <strong>de</strong> agregação está<br />
expressa formalmente na seguinte fórmula:<br />
Índice <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral (IDE)<br />
= Direito <strong>de</strong> voto x Eleições limpas<br />
x Eleições livres x Cargos públicos eleitos<br />
O IDE é um insumo para o processo <strong>de</strong><br />
discussão e análise da realida<strong>de</strong> latinoamericana<br />
e não <strong>de</strong>ve ser consi<strong>de</strong>rado<br />
como <strong>uma</strong> medida completa da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Recentemente, iniciou-se um <strong>de</strong>bate sobre<br />
o possível uso <strong>de</strong> medições da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
como um dos critérios para i<strong>de</strong>ntificar países<br />
que seriam receptores <strong>de</strong> fundos <strong>de</strong>stinados<br />
à promoção do <strong>de</strong>senvolvimento. Um<br />
exemplo é o Millenium Challenge Accoumt<br />
(MCA) do Governo dos Estados Unidos, que<br />
utiliza, junto com outros dados, medidas <strong>de</strong><br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e <strong>de</strong> estado <strong>de</strong> direito elaboradas<br />
pela Freedom House e pelo Banco Mundial.<br />
O PRODDAL consi<strong>de</strong>ra que ainda não existe<br />
suficiente consenso e <strong>uma</strong> metodologia<br />
comprovada e a<strong>de</strong>quada para justificar a<br />
tomada <strong>de</strong>sse tipo <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões sobre a base<br />
<strong>de</strong> medidas <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
76 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
às seguintes perguntas (para <strong>uma</strong> explicação<br />
mais <strong>de</strong>talhada, ver quadro 20):<br />
■ O direito ao voto é reconhecido<br />
■ As eleições são limpas<br />
■ As eleições são livres<br />
■ As eleições são o meio <strong>de</strong> acesso a<br />
cargos públicos<br />
O IDE capta informação sobre alguns<br />
dos componentes mais básicos e necessários<br />
do regime <strong>de</strong>mocrático. Violações, mesmo<br />
parciais, <strong>de</strong> qualquer um <strong>de</strong>sses direitos<br />
cidadãos políticos indicam restrições muito<br />
importantes do regime <strong>de</strong>mocrático. No<br />
entanto, é necessário enfatizar que o IDE é<br />
<strong>uma</strong> medida relativamente minimalista da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. A conquista <strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
eleitoral plena, medida <strong>de</strong> acordo com os<br />
critérios usados pelo IDE, representa um<br />
avanço significativo dos direitos cidadãos.<br />
O estabelecimento <strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
eleitoral, porém, é apenas um passo que<br />
<strong>de</strong>termina um piso mínimo na luta mais<br />
ampla pela expansão dos direitos cidadãos.<br />
A conclusão mais evi<strong>de</strong>nte que surge do<br />
IDE é que a América Latina progrediu notavelmente<br />
no que se refere à <strong>de</strong>mocratização<br />
do regime <strong>de</strong> acesso ao governo. A América<br />
Latina nunca teve regimes eleitorais tão<br />
<strong>de</strong>mocráticos e duráveis quanto os do início<br />
do século XXI.<br />
Antes <strong>de</strong> começar a onda <strong>de</strong> transições,<br />
no fim da década <strong>de</strong> 70, a maioria dos países<br />
na região tinha regimes autoritários. A<br />
partir daí, o progresso foi muito marcante.<br />
A média do IDE (cujo valor varia entre 0 e<br />
1) para a América Latina passou rapidamente<br />
<strong>de</strong> 0,28 em 1977 para 0,69 em 1985, e para<br />
0,86 em 1990; continuou melhorando e terminou<br />
2002 com 0,93.<br />
As experiências variam bastante, como<br />
se po<strong>de</strong> ver no gráfico 1. Por volta <strong>de</strong> 1990,<br />
os países do Mercosul e Chile, com exceção<br />
do Paraguai, já haviam rompido com os regimes<br />
militares. A partir <strong>de</strong>ssa época mantiveram<br />
regimes <strong>de</strong>mocráticos.<br />
Outra situação é a da sub-região América<br />
Central e República Dominicana que,<br />
com exceção da Costa Rica e da República<br />
Dominicana, nos anos noventa ainda<br />
estava resolvendo conflitos armados. A<br />
<strong>de</strong>mocratização coincidiu com a resolução<br />
pacífica <strong>de</strong>sses conflitos e avançou a passos<br />
firmes. Em 2002, essa sub-região era<br />
eleitoralmente a mais <strong>de</strong>mocrática.<br />
Outra situação é a dos países andinos,<br />
que no início da década <strong>de</strong> 90 tinham regimes<br />
<strong>de</strong>mocráticos <strong>de</strong> longa data (Colômbia,<br />
Venezuela) ou foram os primeiros casos <strong>de</strong><br />
transição <strong>de</strong> regimes militares na América<br />
do Sul, no final dos anos setenta e início dos<br />
anos oitenta (Equador, Peru, Bolívia). Entretanto,<br />
durante a década <strong>de</strong> noventa, essa<br />
sub-região começou a enfrentar sérios problemas<br />
que chegaram, inclusive, a colocar<br />
em risco seus regimes políticos.<br />
Por último, o México registrou <strong>uma</strong><br />
transição para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, lenta, porém<br />
constante, que culminou com a presidência<br />
<strong>de</strong> Ernesto Zedillo. Outras conclusões, mais<br />
específicas, surgem <strong>de</strong> <strong>uma</strong> observação mais<br />
minuciosa dos quatro indicadores utilizados<br />
pelo IDE: direito ao voto, eleições limpas,<br />
eleições livres e as eleições como o meio <strong>de</strong><br />
acesso a cargos públicos.<br />
O primeiro componente-chave do regime<br />
<strong>de</strong>mocrático é o direito ao voto: sem<br />
esse direito, as outras conquistas per<strong>de</strong>m o<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
77
ELEIÇÕES LIMPAS, 1990-2002<br />
TABELA 4<br />
País 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002<br />
Argentina 2 2 2 2 2 2<br />
Bolívia 2 2 2<br />
Brasil 2 2 2 2<br />
Chile 2 2 2 2<br />
Colômbia 1 1 1 1 2-<br />
Costa Rica 2 2 2 2<br />
Equador 2 2 2 2 2<br />
El Salvador 2 2 2 2 2<br />
Guatemala 1 1 1 2<br />
Honduras 2 2 2<br />
México 2- 2 2 2<br />
Nicarágua 2 2 2<br />
Panamá 2 2<br />
Paraguai 1 2<br />
Peru 2 2 1 0 * 2<br />
República Dominicana 1-* 0 * 2 2 2 2<br />
Uruguai 2 2<br />
Venezuela 2 2 2<br />
Número <strong>de</strong> casos <strong>de</strong> eleições com irregularida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> alg<strong>uma</strong> significação<br />
América Latina (**) 3 1 0 1 3 2 0 0 1 0 1 0 0<br />
Notas: As eleições são consi<strong>de</strong>radas “limpas” quando o processo eleitoral ocorre sem irregularida<strong>de</strong>s que limitem os<br />
eleitores a expressar autônoma e fielmente suas preferências por algum candidato. Não inclui questões relacionadas<br />
com a competitivida<strong>de</strong> do processo eleitoral nem se é permitido ao ganhador das eleições assumir seu cargo público,<br />
nem se todos os cargos públicos são eletivos.<br />
Valores: 0 = graves irregularida<strong>de</strong>s no processo eleitoral que têm um efeito <strong>de</strong>terminante sobre os resultados das<br />
eleições (por exemplo, alteram o resultado <strong>de</strong> <strong>uma</strong> eleição presi<strong>de</strong>ncial e/ou do equilíbrio <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>ntro do Parlamento);<br />
1= irregularida<strong>de</strong>s significativas no processo eleitoral (por exemplo, intimidação dos eleitores, violência contra<br />
os eleitores, frau<strong>de</strong> eleitoral); 2 = falta <strong>de</strong> irregularida<strong>de</strong>s significativas no processo eleitoral (por exemplo, eleições que<br />
po<strong>de</strong>m incluir irregularida<strong>de</strong>s “técnicas”, mas que não possuem um viés sistemático <strong>de</strong> peso significativo).<br />
Sinais <strong>de</strong> mais e menos são usados para indicar situações intermediárias. Quando em um ano há eleições tanto para o<br />
Executivo quanto para o Parlamento e as irregularida<strong>de</strong>s se aplicam apenas às eleições para o Executivo, indica-se esta<br />
situação com um asterisco (*). Nesses casos o valor para as eleições parlamentares é 2.<br />
(**) Os dados para a região abarcam o número total <strong>de</strong> eleições realizadas em um <strong>de</strong>terminado ano com irregularida<strong>de</strong>s<br />
significativas ou maiores, isto é, que não recebem <strong>uma</strong> pontuação <strong>de</strong> 2 ou 2-.<br />
Fontes: Cerdas-Cruz, Rial e Zovatto 1992, Rial e Zovatto 1998, Middlebrook 1998, Montgomery 1999, Pastor 1999, Hartlyn,<br />
McCoy e Mustillo 2003, relatórios da Organização dos Estados Americanos (OEA), da União Européia (UE), do Centro<br />
Carter e do Instituto Nacional Democrático; diversos artigos do Journal of Democracy; e consultas com especialistas.<br />
seu conteúdo. Em relação a esse componente,<br />
existe pouca variação na América Latina.<br />
Hoje em dia, em todos os países se reconhece<br />
o direito universal ao voto. Cabe observar<br />
que, mesmo nos casos em que existe o<br />
que geralmente é chamado <strong>de</strong> direito ao voto<br />
universal, po<strong>de</strong>m subsistir restrições que<br />
afetam o direito ao voto <strong>de</strong> militares e policiais,<br />
do clero, <strong>de</strong> resi<strong>de</strong>ntes estrangeiros<br />
55 e <strong>de</strong> cidadãos vivendo no estrangeiro.<br />
Além disso, em alguns países existem barreiras<br />
que dificultam a prática real do direito<br />
55 Ver Paxton et al., 2003.<br />
56 Ver, por exemplo, o estudo <strong>de</strong> Boeno e Torres Vivas, 2001.<br />
78 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
ELEIÇÕES LIVRES, 1990-2002<br />
TABELA 5<br />
País 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002<br />
Argentina 4 4 4 4 4 4<br />
Bolívia 4 4 4<br />
Brasil 4 4 4 4<br />
Chile 4 4 4 4<br />
Colômbia 3 3 3 3 3<br />
Costa Rica 4 4 4 4<br />
Equador 4 4 4 4 4<br />
El Salvador 3 4 4 4 4<br />
Guatemala 3 3 3 4<br />
Honduras 4 4 4<br />
México 4 4 4 4<br />
Nicarágua 4 4 4-<br />
Panamá 4 4<br />
Paraguai 4 4<br />
Peru 4 3 4 3 4<br />
República Dominicana 4 4 4 4 4 4<br />
Uruguai 4 4<br />
Venezuela 4 4 4<br />
Número <strong>de</strong> casos <strong>de</strong> eleições com restrições <strong>de</strong> alg<strong>uma</strong> significação<br />
América Latina (*) 2 2 1 0 2 1 0 0 1 0 0 0 1<br />
Notas: As eleições são consi<strong>de</strong>radas “livres” quando o eleitorado tem <strong>uma</strong> varieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> opções que não está limitada nem<br />
por restrições legais nem pela força. Essa medida não inclui fatores que possam afetar a capacida<strong>de</strong> dos partidos e candidados<br />
para competir em igualda<strong>de</strong> <strong>de</strong> condições, tais como: financiamento público, acesso aos meios <strong>de</strong> comunicação<br />
e uso dos recursos públicos.<br />
Valores: 0= sistemas <strong>de</strong> partido único; 1= proscrição <strong>de</strong> um partido importante; 2 = proscrição <strong>de</strong> um partido menor;<br />
3 = restrições <strong>de</strong> natureza legal ou prática que afetam significativamente a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> candidatos potenciais a se<br />
apresentarem para eleições e/ou a formação <strong>de</strong> partidos políticos (por exemplo, assasinatos sistemáticos e intimidação<br />
<strong>de</strong> candidados, proscrições <strong>de</strong> candidatos populares, restrições <strong>de</strong> natureza legal ou prática que impe<strong>de</strong>m a formação <strong>de</strong><br />
partidos ou que levam certos partidos a boicotar as eleições); 4=condições essencialmente irrestritas para a postulação<br />
<strong>de</strong> candidatos e a formação <strong>de</strong> partidos.<br />
Sinais <strong>de</strong> mais e menos são usados para indicar situações intermediárias.<br />
(*) Os dados para a região abarcam o número total <strong>de</strong> eleições realizadas em um <strong>de</strong>terminado ano com restrições significativas,<br />
isto é, que não recebam <strong>uma</strong> pontuação <strong>de</strong> 4 ou 4-.<br />
Fontes: Cerdas-Cruz, Rial e Zovatto 1992; Rial e Zovatto 1998, Middlebrook 1998, Montgomery 1999, Pastor 1999; diversos<br />
artigos no Journal of Democracy; e consulta com especialistas.<br />
ao voto. 56 No entanto, o reconhecimento do<br />
direito universal ao voto é, sem dúvida, <strong>uma</strong><br />
conquista importante, que vale a pena ressaltar.<br />
Alg<strong>uma</strong>s das lutas políticas mais <strong>de</strong>stacadas<br />
da primeira meta<strong>de</strong> do século XX<br />
centraram-se em esten<strong>de</strong>r o sufrágio às classes<br />
trabalhadoras, aos setores populares e às<br />
mulheres.<br />
O IDE também capta em que medida as<br />
preferências dos votantes são registradas fielmente<br />
por meio do processo eleitoral. Como<br />
se po<strong>de</strong> ver na tabela 4, entre 1990 e 2002 foram<br />
realizadas setenta eleições nacionais, no<br />
total, e em treze casos houve problemas significativos.<br />
Em duas oportunida<strong>de</strong>s (República<br />
Dominicana 1994 e Peru 2000), a comunida<strong>de</strong><br />
internacional consi<strong>de</strong>rou que os<br />
problemas foram <strong>de</strong> tal magnitu<strong>de</strong> que colo-<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
79
cavam em questão o caráter <strong>de</strong>mocrático do<br />
procedimento eleitoral. Na maioria dos casos,<br />
porém, as irregularida<strong>de</strong>s não parecem<br />
ter sido <strong>de</strong>cisivas para o resultado das eleições.<br />
Além disso, o número <strong>de</strong> atos eleitorais<br />
problemáticos diminuiu consi<strong>de</strong>ravelmente:<br />
no período 1900-1996, em um total <strong>de</strong> trinta<br />
e cinco eleições, houve <strong>de</strong>z casos, enquanto<br />
no período 1997-2002, esse número caiu<br />
para dois sobre o mesmo total.<br />
O terceiro componente do IDE, as eleições<br />
livres, introduz um elemento que não é<br />
captado diretamente pelos conceitos <strong>de</strong> direito<br />
ao voto e <strong>de</strong> eleições limpas: a liberda<strong>de</strong><br />
do eleitor <strong>de</strong> escolher entre várias alternativas.<br />
Nessa matéria subsistem alguns<br />
problemas, tal como mostra a tabela 5. Do<br />
total <strong>de</strong> setenta eleições nacionais, realizadas<br />
entre 1990 e 2002, houve <strong>de</strong>z casos em<br />
que a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> competir livremente<br />
em eleições foi restringida <strong>de</strong> maneira significativa.<br />
Apesar disso, a tendência é positiva.<br />
Enquanto no período 1990-1996 houve oito<br />
casos <strong>de</strong> eleições com restrições significativas<br />
em um total <strong>de</strong> trinta e cinco eleições,<br />
esse número caiu para dois sobre o mesmo<br />
total no período 1997-2002.<br />
Visto em perspectiva, a melhoria é<br />
notável. Já não existem as proscrições legais<br />
que em outras épocas atingiram partidos<br />
majoritários como o Partido Justicialista<br />
(PJ) na Argentina ou a Aliança Popular<br />
Revolucionária Americana (APRA) no Peru,<br />
e partidos <strong>de</strong> menor peso eleitoral, como os<br />
partidos comunistas do Brasil, do Chile e da<br />
Costa Rica. Essas restrições – <strong>de</strong> uso reiterado<br />
do final da década <strong>de</strong> 40 até a <strong>de</strong> 60 na<br />
maioria dos casos, mas até 1985 no caso do<br />
Brasil – foram superadas. Da mesma forma,<br />
com a resolução dos conflitos armados na<br />
América Central, durante a década <strong>de</strong> 90,<br />
as restrições <strong>de</strong>vido à falta <strong>de</strong> capacida<strong>de</strong><br />
estatal para garantir a integrida<strong>de</strong> física dos<br />
candidatos, também foram superadas, com<br />
exceção da Colômbia.<br />
O quarto componente do regime <strong>de</strong>mocrático<br />
gira em torno das eleições como o<br />
meio <strong>de</strong> acesso a cargos públicos. Aqui surgem<br />
duas questões básicas. Uma é saber se<br />
os cargos públicos principais (presi<strong>de</strong>ntes<br />
e parlamentares) são ocupados ou não pelos<br />
que ganham as eleições. A outra é saber<br />
se os que têm acesso a esses cargos permanecem<br />
neles durante os prazos estipulados<br />
por lei ou, no caso <strong>de</strong> serem substituídos, se<br />
isso ocorre <strong>de</strong> acordo com as normas constitucionais.<br />
Esse componente complementa<br />
a visão do processo eleitoral ao introduzir<br />
<strong>uma</strong> consi<strong>de</strong>ração acerca do que realmente<br />
está em jogo nas eleições. Foi introduzido<br />
porque sua violação <strong>de</strong>termina que o regime<br />
<strong>de</strong>ixa <strong>de</strong> ser <strong>de</strong>mocrático, embora as eleições<br />
em si mesmas tenham sido limpas.<br />
Como se observa na tabela 6, nessa questão<br />
a situação atual da América Latina é<br />
muito positiva. Estabeleceu-se como critério<br />
amplamente aceito que todos os cargos<br />
públicos principais (presi<strong>de</strong>ntes e parlamentares)<br />
sejam atribuídos por meio <strong>de</strong><br />
eleições e que os governantes eleitos permaneçam<br />
em seus cargos durante o período <strong>de</strong><br />
seus mandatos. A transferência do mandato<br />
presi<strong>de</strong>ncial tornou-se <strong>uma</strong> prática normal.<br />
Isso significa um contraste com a situação<br />
da América Latina durante o período<br />
1950-1980, e é um dos sinais mais claros dos<br />
gran<strong>de</strong>s avanços <strong>de</strong>mocráticos que transformaram<br />
o marco político da região.<br />
Existem, porém, duas exceções que merecem<br />
atenção. Uma <strong>de</strong>las po<strong>de</strong> ser observada<br />
no Chile, em virtu<strong>de</strong> da criação dos<br />
senadores <strong>de</strong>signados, fato que limita a possibilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> as preferências da maioria cidadã<br />
se verem representadas no Parlamento.<br />
A outra exceção, <strong>de</strong> maior relevância, refere-se<br />
às tentativas <strong>de</strong> utilizar formas que não<br />
seguem, rigorosamente, as regras constitucionais,<br />
para afastar do po<strong>de</strong>r os governantes<br />
eleitos. São exemplos: em 1992, no Peru,<br />
o fechamento do Parlamento pelo presi<strong>de</strong>nte<br />
Fujimori; em 1993, na Guatemala, a tentativa<br />
falida do presi<strong>de</strong>nte Serrano <strong>de</strong> imitar<br />
Fujimori; em 1997, no Equador, a <strong>de</strong>stituição<br />
do presi<strong>de</strong>nte Bucaram; em 1999, no Paraguai,<br />
o assassinato do vice-presi<strong>de</strong>nte Argaña;<br />
em 2000, no Equador, o afastamento<br />
do presi<strong>de</strong>nte Mahuad; em 2001, na Argentina,<br />
a queda do presi<strong>de</strong>nte De la Rúa; e em<br />
abril <strong>de</strong> 2002, na Venezuela, a crise suscitada<br />
pela tentativa <strong>de</strong> <strong>de</strong>stituir o presi<strong>de</strong>nte<br />
Chávez. Essas situações não resultaram em<br />
clássicos golpes militares, como os que fre-<br />
80 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
ELEIÇÕES COMO O MEIO DE ACESSO A CARGOS PÚBLICOS, 1990-2002<br />
TABELA 6<br />
País 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002<br />
Argentina 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4- 4<br />
Bolívia 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4<br />
Brasil 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4<br />
Chile 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3<br />
Colômbia 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4<br />
Costa Rica 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4<br />
Equador 4 4 4 4 4 4 4 3+ 4 4 3 3 3<br />
El Salvador 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4<br />
Guatemala 4 4 4 3 4 4 4 4 4 4 4 4 4<br />
Honduras 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4<br />
México 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4<br />
Nicarágua 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4<br />
Panamá 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4<br />
Paraguai 4 4 4 4 4 4 4 4 4 2+ 4 4 4<br />
Peru 4 4 2 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4<br />
Rep. Dominicana 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4<br />
Uruguai 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4<br />
Venezuela 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 4 3-<br />
Número <strong>de</strong> casos com restrições <strong>de</strong> alg<strong>uma</strong> significação<br />
América Latina (*) 1 1 2 2 1 1 1 2 1 2 2 2 3<br />
Notas: As eleições são consi<strong>de</strong>radas o meio <strong>de</strong> acesso aos principais cargos públicos <strong>de</strong> um país, isto é, o Executivo e o<br />
Legislativo nacional, se os que ganham as eleições assumem seus cargos públicos e permanecem nos cargos durante os<br />
prazos estipulados pela lei. No caso <strong>de</strong> os ocupantes <strong>de</strong> cargos públicos serem substituídos, avalia-se a forma <strong>de</strong> remoção<br />
do cargo e <strong>de</strong> seleção <strong>de</strong> substitutos.<br />
Valores: 0 = nenhum dos cargos públicos principais é ocupado por meio <strong>de</strong> eleições, ou os que ocupam todos os principais<br />
cargos políticos são removidos pela força por governantes inconstitucionais; 1 = somente alguns dos principais cargos<br />
públicos são ocupados por ganhadores <strong>de</strong> eleições, ou a maioria dos ocupantes <strong>de</strong> cargos públicos são removidos <strong>de</strong> seus<br />
cargos pela força e substituídos por governantes inconstitucionais; 2 =o presi<strong>de</strong>nte ou o Parlamento não são eleitos ou<br />
são removidos do cargo pela força e substituídos por governantes inconstitucionais; 3 = o presi<strong>de</strong>nte ou o Parlamento são<br />
eleitos, mas o presi<strong>de</strong>nte é removido do cargo e/ou substituído por meios inconstitucionais, ou um número significativo<br />
<strong>de</strong> parlamentares não são eleitos ou são removidos dos cargos pela força; 4 = todos os cargos políticos principais são<br />
preenchidos por meio <strong>de</strong> eleições e nenhum dos ocupantes <strong>de</strong>sses cargos políticos principais é removido do cargo a menos<br />
que sua remoção e substituição esteja baseada em fundamentos constitucionais estritos.<br />
Sinais <strong>de</strong> mais e menos são usados para indicar situações intermediárias.<br />
(*) Os dados para a região abarcam o número total <strong>de</strong> eleições realizadas em um <strong>de</strong>terminado ano com restrições significativas,<br />
isto é, que não recebem <strong>uma</strong> pontuação <strong>de</strong> 4 ou 4-.<br />
Fontes: Domínguez e Lowenthal 1996, Domínguez 1998, Diamond et al.1999, Walker e Armony 2000, Pérez-Liñán 2001 e<br />
2003, e consulta com especialistas.<br />
qüentemente aconteceram com a ruptura <strong>de</strong><br />
regimes <strong>de</strong>mocráticos, em um passado não<br />
muito distante da América Latina. Essas tentativas<br />
encerram, no entanto, outra modalida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> interromper o exercício do po<strong>de</strong>r.<br />
Os casos <strong>de</strong> restrição ao princípio <strong>de</strong><br />
acesso <strong>de</strong>mocrático a cargos públicos não<br />
são poucos. Entre 1990 e 2002, em seis dos<br />
<strong>de</strong>zoito países consi<strong>de</strong>rados houve algum tipo<br />
<strong>de</strong> restrição <strong>de</strong> peso a esse princípio. A<br />
tendência não é positiva, pois os casos passaram<br />
<strong>de</strong> um, em 1990 para três, em 2002.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
81
Outros indicadores do regime<br />
<strong>de</strong>mocrático <strong>de</strong> acesso ao governo<br />
Além dos aspectos do regime <strong>de</strong>mocrático<br />
incluídos no IDE, existem outros indicadores<br />
relevantes.<br />
Participação eleitoral<br />
A participação cidadã no processo<br />
eleitoral na América Latina, mesmo com<br />
diferenças significativas entre países, é<br />
positiva (tabela 8). No nível regional, 89,3<br />
por cento dos eleitores em potencial estão<br />
inscritos nos registros eleitorais, 62,7 por<br />
cento votam e 56,1 por cento emitem um<br />
voto válido. Essas cifras indicam que é<br />
possível ganhar eleições sem que o candidato<br />
vencedor consiga o respaldo da maioria dos<br />
cidadãos. Esses percentuais <strong>de</strong> participação<br />
eleitoral estão abaixo dos da Europa<br />
oci<strong>de</strong>ntal, mas estão acima dos percentuais<br />
dos Estados Unidos. Os níveis latinoamericanos<br />
também mostram tendências<br />
estáveis durante períodos prolongados.<br />
Alguns países da América Latina têm<br />
<strong>uma</strong> participação eleitoral muito baixa.<br />
A porcentagem <strong>de</strong> eleitores na Venezuela<br />
(45,7), em El Salvador (38,7), na Guatemala<br />
(36,2) e na Colômbia (33,3) é baixa e é<br />
motivo <strong>de</strong> preocupação. A participação nas<br />
eleições da Bolívia, da República Dominicana<br />
e do Paraguai, mesmo sendo maior, também<br />
é baixa. Embora o absenteísmo não seja<br />
um problema regional, certamente é um<br />
problema em alguns países.<br />
Concorrência eleitoral e seleção<br />
<strong>de</strong> candidatos<br />
Outros indicadores oferecem informação<br />
mais <strong>de</strong>talhada sobre o processo <strong>de</strong> seleção<br />
dos candidatos, <strong>uma</strong> questão que influi<br />
na concorrência eleitoral. Trata-se <strong>de</strong> um<br />
processo complexo, que gira em torno dos<br />
partidos políticos que são, em toda a região,<br />
o veículo privilegiado por meio do qual<br />
os candidatos se apresentam para cargos<br />
públicos. Em relação a esse tema, entre os<br />
países latino-americanos existem diferenças<br />
significativas a respeito <strong>de</strong> três questões<br />
importantes:<br />
■ o monopólio dos partidos sobre as<br />
candidaturas a cargos públicos e a possibilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> apresentação <strong>de</strong> candidatos in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes;<br />
■ os requisitos para a formação <strong>de</strong> partidos<br />
nacionais;<br />
■ a exigência legal <strong>de</strong> realizar eleições<br />
internas nos partidos para a escolha <strong>de</strong><br />
candidatos.<br />
Como se observa na tabela 9, um<br />
primeiro grupo <strong>de</strong> países apresenta<br />
frágeis barreiras para a entrada <strong>de</strong> novos<br />
atores na concorrência eleitoral e certo<br />
<strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> <strong>uma</strong> normativa e/ou<br />
prática <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> partidária interna.<br />
São eles: Colômbia, Costa Rica, Honduras,<br />
México, Paraguai, Uruguai e Venezuela.<br />
Um grupo intermediário está formado por<br />
Argentina, Brasil, Chile, Equador, Panamá<br />
e República Dominicana, on<strong>de</strong> barreiras<br />
<strong>de</strong> entrada mais altas coexistem com<br />
alguns requisitos legais para a indicação <strong>de</strong><br />
candidatos ou com o pouco uso das primárias<br />
para escolher os candidatos partidários.<br />
Em um terceiro grupo <strong>de</strong> países, a seleção<br />
<strong>de</strong> candidatos está altamente centralizada<br />
nas mãos das elites partidárias: Bolívia, El<br />
Salvador, Guatemala, Nicarágua e Peru.<br />
Certamente, os temas <strong>de</strong> barreiras <strong>de</strong> entrada<br />
no processo eleitoral e <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
interna são complexos. Antes <strong>de</strong> apresentar<br />
<strong>uma</strong> avaliação abrangente, é necessário obter<br />
mais informação do que a atualmente<br />
disponível sobre candidaturas in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes,<br />
formação <strong>de</strong> partidos e procedimentos<br />
para eleger seus candidatos, condições<br />
em que concorrem os pré-candidatos <strong>de</strong>ntro<br />
dos partidos e formas <strong>de</strong> fiscalização das<br />
eleições internas.<br />
Um tema relevante que inci<strong>de</strong> sobre<br />
a concorrência eleitoral é a existência <strong>de</strong><br />
legislação que abra espaços políticos para<br />
as mulheres mediante a reserva <strong>de</strong> cotas<br />
nas listas partidárias para o Parlamento.<br />
Na última década, muitos países da região<br />
aprovaram esse tipo <strong>de</strong> legislação (tabela<br />
10). De 1991 a 2003, doze dos <strong>de</strong>zoito países<br />
da América Latina introduziram leis <strong>de</strong> cotas<br />
que, em geral, requerem que entre 20 e 40<br />
por cento <strong>de</strong> lugares nas listas parlamentares<br />
partidárias sejam atribuídos a mulheres.<br />
82 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Esse mecanismo é <strong>uma</strong> melhora importante,<br />
pois expressa um reconhecimento formal da<br />
necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> criar mais oportunida<strong>de</strong>s para<br />
a inclusão das mulheres. No entanto, esse é<br />
apenas um passo inicial no tratamento das<br />
múltiplas barreiras que ainda as impe<strong>de</strong>m<br />
<strong>de</strong> competir na política, em igualda<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
oportunida<strong>de</strong>s.<br />
Outra questão relevante que se reflete<br />
na concorrência eleitoral são as regras para<br />
o financiamento político. Esse tema tem<br />
um impacto cada vez maior sobre a natureza<br />
da competição eleitoral, porque <strong>de</strong>fine<br />
se as eleições são, além <strong>de</strong> livres, justas, com<br />
igualda<strong>de</strong> <strong>de</strong> oportunida<strong>de</strong>s para todos.<br />
Os dados <strong>de</strong> financiamento estatal<br />
revelam <strong>uma</strong> situação muito variada (tabela<br />
11). Para assegurar que o dinheiro não se<br />
converta em um fator <strong>de</strong> <strong>de</strong>svirtuação do<br />
processo eleitoral, alguns países recorrem<br />
ao financiamento público <strong>de</strong> parte da<br />
campanha eleitoral, pagando por voto<br />
emitido ou facilitando o acesso aos meios<br />
<strong>de</strong> comunicação, substancialmente a TV. A<br />
maioria dos países utiliza um sistema misto<br />
<strong>de</strong> financiamento, mas a tendência é no<br />
sentido <strong>de</strong> maiores controles, sendo ainda<br />
difícil sua instrumentação.<br />
Representação eleitoral<br />
É importante também observar as<br />
características das pessoas e dos partidos<br />
que têm acesso a cargos públicos eleitos. No<br />
que diz respeito às mulheres, o número <strong>de</strong><br />
parlamentares aumentou (tabela 12). Em<br />
pouco mais <strong>de</strong> <strong>uma</strong> década, as mulheres<br />
aumentaram seu nível <strong>de</strong> representação,<br />
<strong>de</strong> 8 para 15,5 por cento, ainda que com<br />
variações consi<strong>de</strong>ráveis entre os países.<br />
O número <strong>de</strong> indígenas nas câmaras<br />
baixas ou únicas do Po<strong>de</strong>r Legislativo,<br />
durante o período 2001-2002, foi <strong>de</strong> 0,8 por<br />
cento (1 sobre o total <strong>de</strong> 120) no Peru; 3,3<br />
por cento (4 sobre 121) no Equador; 12,4 por<br />
cento (14 sobre 113) na Guatemala; e 26,2 por<br />
cento (34 sobre 130) na Bolívia. 57 Essas cifras<br />
contrastam com as <strong>de</strong> 43, 34, 60 e 61 por<br />
cento que representam aproximadamente<br />
as populações indígenas nesses países,<br />
respectivamente. 58<br />
Por último, o número <strong>de</strong> afro<strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes<br />
na câmara baixa do Parlamento<br />
do Brasil foi <strong>de</strong> 0,8 por cento (4 sobre<br />
o total <strong>de</strong> 479) entre 1983 e 1987; <strong>de</strong> 2,1<br />
por cento (10 sobre 487) entre 1987 e 1991;<br />
3,2 por cento (16 sobre 503) entre 1991 e<br />
1995, e <strong>de</strong> 2,8 por cento (15 sobre o total <strong>de</strong><br />
513) entre 1995 e 1999, 59 enquanto os afro<strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes<br />
são aproximadamente 44 por<br />
cento da população total do Brasil. 60<br />
A representação po<strong>de</strong> ser examinada<br />
também sob a perspectiva dos partidos<br />
políticos, sobre os quais apresentamos<br />
vários indicadores relevantes (ver tabela 13).<br />
Uma medida simples é o percentual <strong>de</strong> votos<br />
recebidos pelos partidos políticos que não<br />
chegam a obter representação na câmara<br />
baixa ou única do Parlamento. A média<br />
regional <strong>de</strong> 4,3 por cento é relativamente<br />
baixa e, em vários países – Honduras,<br />
Uruguai, Paraguai e Brasil, o percentual <strong>de</strong><br />
votos válidos dos partidos sem representação<br />
parlamentar é s<strong>uma</strong>mente baixo. Já em<br />
outros países – Costa Rica, Chile e Guatemala<br />
– esse percentual é alto, oscilando entre 7,8 e<br />
12,3 por cento. Da mesma forma, o índice <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>sproporcionalida<strong>de</strong> – <strong>uma</strong> medida mais<br />
complexa, que capta a relação entre votos<br />
emitidos por partido e as ca<strong>de</strong>iras ocupadas<br />
por esses partidos na câmara baixa ou<br />
única do Parlamento – mostra um panorama<br />
bastante positivo. A média regional<br />
<strong>de</strong> 5,6 por cento é bastante mo<strong>de</strong>rada,<br />
indicando que existe um grau consi<strong>de</strong>rável<br />
<strong>de</strong> correspondência ou proporcionalida<strong>de</strong><br />
entre o número <strong>de</strong> votos e as ca<strong>de</strong>iras <strong>de</strong><br />
57 Estas cifras po<strong>de</strong>m mudar mesmo <strong>de</strong>ntro do período indicado, segundo o critério <strong>de</strong> apreciação dos observadores<br />
que forem consultados. Comunicação pessoal, Luis Enrique López Hurtado, 2002, e Simón Pachano, FLACSO-<br />
Equador, 2003; e Estado Unidos, Departamento <strong>de</strong> Estado, 2001.<br />
58 Estas cifras são <strong>uma</strong> média das estimativas mais altas e baixas que oferecem Mato Mar, 1993, pp. 232-233; e<br />
Meentzen, 2002, p.12.<br />
59 Johnson, 1998, pp. 103-105.<br />
60 Torres, 2001, p. 94.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
83
cada partido. Além disso, em vários países<br />
– Uruguai, Honduras, Nicarágua e Colômbia<br />
–, esse índice é particularmente baixo. Já<br />
em outros países – Guatemala e Panamá –,<br />
o percentual é bastante alto, oscilando entre<br />
11,9 e 13,9 por cento.<br />
Balanço do regime <strong>de</strong> acesso<br />
<strong>de</strong>mocrático ao governo<br />
De acordo com os componentes do IDE<br />
observa-se que na América Latina:<br />
■ O direito ao voto é reconhecido sem<br />
restrições aos cidadãos resi<strong>de</strong>ntes em cada<br />
país.<br />
■ A prática <strong>de</strong> eleições limpas foi estabelecida<br />
como padrão geral. É clara a tendência<br />
no sentido <strong>de</strong> <strong>uma</strong> melhoria no componente<br />
<strong>de</strong> eleições livres. São isolados os<br />
episódios <strong>de</strong> irregularida<strong>de</strong>s, frau<strong>de</strong> eleitoral<br />
e intimidação a votantes.<br />
■ Produziram-se notáveis avanços no<br />
que diz respeito às eleições como o meio <strong>de</strong><br />
acesso a cargos públicos. O normal é que os<br />
cargos principais da área executiva e legislativa<br />
do Estado (em nível nacional) sejam<br />
ocupados por meio <strong>de</strong> eleições, e que a sucessão<br />
entre governos obe<strong>de</strong>ça a normas<br />
constitucionais, mesmo nos casos <strong>de</strong> crises<br />
políticas ou político-sociais que incluíram<br />
casos <strong>de</strong> renúncia dos primeiros mandatários<br />
eleitos. No entanto, existem exceções a<br />
essa situação, especialmente alg<strong>uma</strong>s tentativas<br />
<strong>de</strong> afastamento <strong>de</strong> governantes eleitos<br />
por meios não constitucionais.<br />
Entre os aspectos do regime <strong>de</strong>mocrático<br />
não incluídos no IDE observamos que:<br />
■ O nível <strong>de</strong> participação dos cidadãos<br />
em processos eleitorais é mo<strong>de</strong>radamente<br />
alto na região, embora em alguns países se<br />
<strong>de</strong>tecte <strong>uma</strong> tendência no sentido <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
menor participação eleitoral.<br />
■ Não existem tendências marcantes<br />
quanto às barreiras para entrar na competição<br />
eleitoral, nem sobre a participação dos<br />
cidadãos na seleção dos candidatos. Entretanto,<br />
em vários países, as elites partidárias<br />
centralizam as <strong>de</strong>cisões sobre a indicação <strong>de</strong><br />
candidatos.<br />
■ Existe <strong>uma</strong> tendência a introduzir normas<br />
legais ten<strong>de</strong>ntes a criar maiores oportunida<strong>de</strong>s<br />
<strong>de</strong> inclusão cidadã. Esse é o caso <strong>de</strong><br />
leis promulgadas na maioria dos países latino-americanos,<br />
que estabelecem um número<br />
mínimo para a representação feminina<br />
nas listas parlamentares.<br />
■ Entre o fim da década <strong>de</strong> oitenta e hoje,<br />
as mulheres aumentaram seu nível <strong>de</strong> representação<br />
nos Parlamentos da América<br />
Latina, mas o nível atual ainda é muito inferior<br />
ao peso <strong>de</strong>mográfico feminino. As <strong>de</strong>ficiências<br />
são ainda mais significativas na representação<br />
parlamentar dos indígenas e<br />
afro-<strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes.<br />
■ Os sistemas eleitorais possibilitam um<br />
grau consi<strong>de</strong>rável <strong>de</strong> proporcionalida<strong>de</strong> entre<br />
a força eleitoral e a representação parlamentar<br />
dos partidos políticos.<br />
■ Poucos países aprovaram <strong>uma</strong> legislação<br />
sobre financiamento <strong>de</strong> partidos políticos<br />
e campanhas eleitorais que contemple<br />
um fácil acesso a fundos públicos e <strong>uma</strong> regulação<br />
eficaz do dinheiro na política.<br />
Outras dimensões da Cidadania Política<br />
A cidadania política não apenas está<br />
relacionada com o vínculo entre eleitores<br />
e os que tomam as <strong>de</strong>cisões públicas, mas<br />
também com a orientação dos que tomam<br />
essas <strong>de</strong>cisões – eleitos ou não: para o bem<br />
público ou para fins privados. Por isso, um<br />
aspecto importante a consi<strong>de</strong>rar é o do<br />
controle da gestão <strong>de</strong> funcionários públicos<br />
e sua obrigação <strong>de</strong> prestar contas na forma<br />
e prazo <strong>de</strong>vidos. Nesta parte analisamos,<br />
em primeiro lugar, os po<strong>de</strong>res constitucionais<br />
clássicos (Executivo, Legislativo e<br />
Judiciário), em seguida os organismos<br />
públicos especializados no controle<br />
horizontal das ativida<strong>de</strong>s do Estado e, por<br />
último, alguns mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
direta que po<strong>de</strong>m oferecer oportunida<strong>de</strong>s<br />
<strong>de</strong> participação cidadã no controle e na<br />
formulação <strong>de</strong> políticas.<br />
Po<strong>de</strong>res constitucionais clássicos<br />
Um primeiro aspecto do tema do controle<br />
da política é a relação entre os po<strong>de</strong>res<br />
84 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
quadro 21<br />
A petição cidadã perante as instituições públicas<br />
Embora <strong>uma</strong> petição cidadã seja negada, o<br />
tratamento dispensado pelos funcionários<br />
públicos <strong>de</strong>ve cumprir duas condições:<br />
respeitar os direitos e a dignida<strong>de</strong> das<br />
pessoas e amparar suas resoluções <strong>de</strong>ntro<br />
<strong>de</strong> um mandado legal aprovado mediante<br />
normas <strong>de</strong>mocráticas. O contrário é o maltrato<br />
ao cidadão. Uma proporção dos casos <strong>de</strong><br />
maltrato po<strong>de</strong> estar relacionada com razões<br />
contingentes, mas elas dificilmente explicam<br />
a existência <strong>de</strong> padrões <strong>de</strong> maltrato nas<br />
interações entre cidadãos e Estado. Por isso,<br />
o Relatório explora se existem padrões <strong>de</strong><br />
maltrato para indagar se isso obe<strong>de</strong>ce a<br />
<strong>uma</strong> razão mais estrutural: a persistência<br />
<strong>de</strong> modalida<strong>de</strong>s pouco <strong>de</strong>mocráticas na<br />
organização e no funcionamento <strong>de</strong> um Estado.<br />
Uma primeira constatação do Relatório é<br />
que, em 2002, <strong>uma</strong> proporção minoritária <strong>de</strong><br />
pessoas <strong>de</strong>clarou ter entrado em contato com<br />
<strong>uma</strong> instituição pública para realizar algum<br />
tipo <strong>de</strong> trâmite (39,9%). Dentre elas, <strong>uma</strong> alta<br />
porcentagem <strong>de</strong>clarou ter recebido algum<br />
tipo <strong>de</strong> maltrato por parte dos funcionários<br />
públicos (78%). Na maioria dos casos, tratou-se<br />
<strong>de</strong> experiências <strong>de</strong> maltrato leves (espera em<br />
longas filas, trâmites <strong>de</strong>snecessários, negação<br />
<strong>de</strong> informação ou problemas para obtê-la).<br />
Nessas experiências po<strong>de</strong>m existir fatores como<br />
a falta <strong>de</strong> instalações a<strong>de</strong>quadas e a saturação<br />
dos serviços.<br />
Um assunto preocupante é a quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
relatos <strong>de</strong> experiências <strong>de</strong> maltrato “duro”:<br />
<strong>uma</strong> <strong>de</strong> cada quatro pessoas que interagiram<br />
com as instituições públicas <strong>de</strong>clarou ter<br />
sido humilhada, ter recebido tratamento<br />
<strong>de</strong>srespeitoso ou que lhe solicitaram <strong>uma</strong><br />
gorjeta ou propina (22,3%). Nesses casos, o<br />
direito ao tratamento eqüitativo e o respeito<br />
à dignida<strong>de</strong> pessoal foram, aos olhos dos<br />
entrevistados, vulnerados pelos funcionários<br />
públicos que os aten<strong>de</strong>ram.<br />
TABELA 7<br />
EXPERIÊNCIAS NO TRATAMENTO DADO A PESSOAS QUE PROCURARAM<br />
UMA ENTIDADE PÚBLICA NOS ÚLTIMOS 12 MESES, 2002<br />
Situação Experiência no tratamento (1)<br />
Porcentagem<br />
do total<br />
Porcentagem<br />
dos que<br />
procuraram<br />
Procuraram Más experiências graves e leves 6,1 15,4<br />
Más experiências graves 2,8 6,9<br />
Más experiências leves 22,2 55,7<br />
Sem más experiências (2) 8,8 22,0<br />
Total 39,9 100,0<br />
Não Procuraram 60,1<br />
Total 100,0<br />
A coluna “porcentagem do total” está baseada nas 19.536 entrevistados que indicaram ter procurado ou não ter procurado<br />
<strong>uma</strong> instituição pública nos últimos doze meses. Na coluna “Porcentagem dos que procuraram” se baseia unicamente<br />
nos 7.790 entrevistados que <strong>de</strong>clararam ter procurado nos últimos 12 meses <strong>uma</strong> instituição pública e portanto são quem<br />
tem experiência no trato recebido.<br />
(1) Más experiências leves: longas filas, trâmites <strong>de</strong>snecessários, <strong>de</strong>mora na obtenção da informação ou negaram informação.<br />
Más experiências graves: pedido <strong>de</strong> gratificação, sentiu-se humilhado ou foram <strong>de</strong>scorteses ou falta <strong>de</strong> respeito<br />
no tratamento.<br />
(2)Enten<strong>de</strong>-se que não tiveram más experiências se, em p12u respon<strong>de</strong>ram que tinham procurado <strong>uma</strong> instituição pública<br />
e em p13u não respon<strong>de</strong>m. Isto é porque a pergunta p13u somente apresenta alternativas negativas.<br />
Fonte: Processamento da pergunta p13u, da Seção Proprietária do PNUD no Latinobarômetro 2002.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
85
constitucionais clássicos. O controle da política<br />
é mais eficaz quando existe <strong>uma</strong> verda<strong>de</strong>ira<br />
divisão <strong>de</strong> po<strong>de</strong>res, cada um <strong>de</strong>les<br />
legalmente dotado <strong>de</strong> faculda<strong>de</strong>s para controlar<br />
e sancionar a conduta dos outros.<br />
A relação entre os po<strong>de</strong>res Executivo e<br />
Legislativo é, talvez, a peça mais importante<br />
da relação entre os po<strong>de</strong>res do Estado. Isso<br />
é particularmente certo na América Latina<br />
<strong>de</strong>vido a sua tradição <strong>de</strong> presi<strong>de</strong>ncialismo,<br />
autoritário ou não, e a sua tendência a impor-se<br />
sobre o Congresso.<br />
Registramos que os po<strong>de</strong>res formais dos<br />
presi<strong>de</strong>ntes latino-americanos continuam<br />
sendo relativamente altos comparados com<br />
o sistema presi<strong>de</strong>ncialista clássico, o dos Estados<br />
Unidos (tabela 14).<br />
Outro aspecto-chave é o po<strong>de</strong>r da área<br />
judiciária do governo e seu grau <strong>de</strong> in<strong>de</strong>pendência<br />
em relação aos outros po<strong>de</strong>res.<br />
Muitos países latino-americanos realizaram<br />
reformas constitucionais e legais dirigidas a<br />
fortalecer a in<strong>de</strong>pendência do Po<strong>de</strong>r Judiciário<br />
(tabela 15). Apesar <strong>de</strong>ssas reformas, em<br />
vários países, o Executivo ainda possui importantes<br />
po<strong>de</strong>res no processo <strong>de</strong> indicação<br />
dos magistrados da Corte Suprema. No entanto,<br />
o critério cada vez mais generalizado<br />
é que os magistrados <strong>de</strong>vem ser i<strong>de</strong>ntificados<br />
inicialmente por Conselhos da Judicatura,<br />
ou Magistratura, um mecanismo que<br />
tem o potencial – na verda<strong>de</strong> ainda não totalmente<br />
<strong>de</strong>monstrado – <strong>de</strong> reduzir a politização<br />
do processo <strong>de</strong> seleção e <strong>de</strong> aumentar<br />
o profissionalismo e in<strong>de</strong>pendência <strong>de</strong>sse<br />
po<strong>de</strong>r. Em quase todos os países existe outro<br />
órgão, geralmente no âmbito do Congresso,<br />
encarregado <strong>de</strong> selecionar os candidatos<br />
<strong>de</strong>ntre <strong>uma</strong> relação <strong>de</strong> indicados e <strong>de</strong> ratificar<br />
essas indicações por maioria simples ou<br />
qualificada.<br />
Em resumo, os indicadores da tabela<br />
14 sugerem que, pelo menos formalmente,<br />
a área judiciária do Estado conta com<br />
um grau consi<strong>de</strong>rável <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r e in<strong>de</strong>pendência<br />
em suas funções. Entretanto, a informação<br />
disponível não nos permite chegar a<br />
um conceito preciso sobre a in<strong>de</strong>pendência<br />
real dos po<strong>de</strong>res judiciários na América<br />
Latina, pois esses indicadores captam apenas<br />
aspectos formais e, freqüentemente, ignoram<br />
alg<strong>uma</strong>s realida<strong>de</strong>s. Ainda não existe<br />
<strong>uma</strong> boa medida, amplamente aceita, em<br />
relação ao grau <strong>de</strong> in<strong>de</strong>pendência do Po<strong>de</strong>r<br />
Judiciário. De acordo com diversas pesquisas<br />
<strong>de</strong> opinião e opiniões <strong>de</strong> especialistas, alguns<br />
avanços notáveis foram alcançados em<br />
matéria <strong>de</strong> in<strong>de</strong>pendência do Po<strong>de</strong>r Judiciário,<br />
mas ainda subsistem graves problemas<br />
na América Latina. 61<br />
Outro tema que <strong>de</strong>verá merecer consi<strong>de</strong>ração,<br />
quando houver informação a<strong>de</strong>quada,<br />
refere-se à forma em que, ao menos em<br />
alguns países, o Po<strong>de</strong>r Judiciário utiliza sua<br />
crescente in<strong>de</strong>pendência. Essa in<strong>de</strong>pendência,<br />
por si mesma, não previne (e, em várias<br />
hipóteses, po<strong>de</strong> facilitar) tentações corporativas<br />
<strong>de</strong> interesse setorial e até a corrupção<br />
<strong>de</strong>sse po<strong>de</strong>r. Esperamos que os enormes esforços<br />
e as volumosas quantias <strong>de</strong> ajuda internacional<br />
<strong>de</strong>stinada à reforma do Po<strong>de</strong>r Judiciário<br />
consi<strong>de</strong>rem nossa preocupação com<br />
mais cuidado do que o até agora dispensado.<br />
A in<strong>de</strong>pendência, o crescente profissionalismo<br />
e um a<strong>de</strong>quado po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>ssa área do<br />
Estado adquirem pleno sentido quando colaboram<br />
generosamente na instauração, não<br />
<strong>de</strong> um estado <strong>de</strong> direito, mas sim <strong>de</strong> um estado<br />
<strong>de</strong>mocrático <strong>de</strong> direito.<br />
Agências especializadas <strong>de</strong> controle<br />
Outras entida<strong>de</strong>s estatais que contribuem<br />
para o controle político são aquelas<br />
especializadas no controle horizontal das<br />
ativida<strong>de</strong>s do Estado. 62 Esses organismos<br />
se distinguem dos po<strong>de</strong>res constitucionais<br />
clássicos por suas funções mais <strong>de</strong>limitadas<br />
e específicas (tabela 16).<br />
Existem os organismos encarregados do<br />
controle da receita pública, isto é, <strong>de</strong> que<br />
os fundos públicos sejam empregados <strong>de</strong><br />
acordo com as normas e os procedimentos<br />
legais: controladorias gerais, auditorias e<br />
tribunais <strong>de</strong> contas. Todos os países latino-<br />
61 Jarquín e Carrillo, 1998; Domingo, 1999; Prillaman, 2000; Popkin, 2001; e Hammergren, 2002.<br />
62 Peruzzotti e Smulovitz, 2002a.<br />
86 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
americanos contam com instituições que<br />
<strong>de</strong>sempenham essas funções. No entanto,<br />
existem importantes diferenças quanto à<br />
in<strong>de</strong>pendência entre esses organismos e o<br />
Po<strong>de</strong>r Executivo (o po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> Estado que é<br />
objeto principal <strong>de</strong> seu controle) e ao peso<br />
real da fiscalização. Na maioria dos países<br />
da região, as máximas autorida<strong>de</strong>s das<br />
controladorias são <strong>de</strong>signadas pelo Po<strong>de</strong>r<br />
Legislativo, com condições específicas, tais<br />
como: votação qualificada, recomendação<br />
prévia da Corte Suprema e, em certos<br />
casos, recomendação <strong>de</strong> organismos não<br />
governamentais. Em três países – Bolívia,<br />
Chile e Equador –, o Po<strong>de</strong>r Executivo nomeia<br />
diretamente essas autorida<strong>de</strong>s. Em<br />
doze dos <strong>de</strong>zoito países estudados, os<br />
po<strong>de</strong>res das controladorias são poucos ou<br />
fracos, suas resoluções não são vinculatórias<br />
ou, se são, não possuem potesta<strong>de</strong> legal para<br />
forçar seu cumprimento.<br />
Outros organismos são as promotorias,<br />
procuradorias ou ministérios públicos , que se<br />
<strong>de</strong>dicam à representação legal do Estado e, em<br />
vários países, se encarregam da ação penal pública.<br />
Sobre eles, conta-se com menos informação.<br />
Todos os países têm controladorias,<br />
mas nem todos têm promotorias. O Po<strong>de</strong>r<br />
Executivo intervém tanto na <strong>de</strong>signação como<br />
na remoção <strong>de</strong> seu principal responsável.<br />
Por último, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1990 foram criadas <strong>de</strong>fensorias<br />
do povo em quase toda a região,<br />
com exceção do Brasil, Chile e Uruguai. Esses<br />
novos órgãos <strong>de</strong> controle distinguem-se<br />
dos <strong>de</strong>scritos acima por receberem <strong>de</strong>núncias<br />
cidadãs que potencialmente operam<br />
não apenas como agentes <strong>de</strong> controle horizontal<br />
como também <strong>de</strong> controle vertical.<br />
Em geral, a <strong>de</strong>signação e remoção <strong>de</strong> seus<br />
responsáveis correspon<strong>de</strong>m ao Po<strong>de</strong>r Legislativo.<br />
A consolidação e o resultado das <strong>de</strong>fensorias<br />
do povo na América Latina variam<br />
segundo o país. 63<br />
A existência <strong>de</strong>sses órgãos expressa <strong>uma</strong><br />
tendência positiva. Suas tarefas incluem,<br />
formalmente, o controle e, em alguns casos,<br />
quadro 22<br />
Experiências <strong>de</strong> participação<br />
em governos locais<br />
Durante a década <strong>de</strong> 90, houve um processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>scentralização que<br />
abriu novos canais para a participação cidadã. Alguns dos exemplos<br />
mais notáveis são as experiências <strong>de</strong> participação popular da Bolívia,<br />
<strong>de</strong> orçamento participativo em Porto Alegre e Villa El Salvador, e <strong>de</strong><br />
promoção da cultura cívica em Bogotá. Essas experiências têm elementos<br />
comuns e resultam <strong>de</strong> movimentos sociais fortes. Têm como objetivo a<br />
melhoria da qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vida, das capacida<strong>de</strong>s e da autonomia <strong>de</strong> seus<br />
participantes. E, embora se <strong>de</strong>senvolvam em um contexto <strong>de</strong> cultura<br />
patrimonialista, representam <strong>uma</strong> clara ruptura com os mecanismos <strong>de</strong><br />
distribuição populista, <strong>uma</strong> prática comum na América Latina, que leva à<br />
cooptação política. Como parte <strong>de</strong> um projeto, do Programa das Nações<br />
Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), orientado para a promoção<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> agenda <strong>de</strong> governabilida<strong>de</strong> local na América Latina, foram<br />
i<strong>de</strong>ntificadas e documentadas muitas <strong>de</strong>ssas experiências <strong>de</strong> sucesso <strong>de</strong><br />
participação em governos locais, que po<strong>de</strong>m ser consultadas na Internet<br />
em: www.logos.undp.org.<br />
a sanção <strong>de</strong> funcionários públicos. Oferecem<br />
aos po<strong>de</strong>res constitucionais clássicos, canais<br />
adicionais para o controle da gestão política,<br />
muito embora em alguns países careçam<br />
dos recursos necessários para cumprir suas<br />
funções a<strong>de</strong>quadamente e/ou suas ativida<strong>de</strong>s<br />
sejam, na prática, controladas pelo Po<strong>de</strong>r<br />
Executivo. É por isso que a existência <strong>de</strong>sses<br />
órgãos, por si só, não po<strong>de</strong> ser interpretada<br />
necessariamente como evidência <strong>de</strong> maior<br />
controle real da gestão pública.<br />
Mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> direta<br />
Os mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> direta<br />
oferecem aos cidadãos, oportunida<strong>de</strong>s para<br />
contribuir com a fiscalização e gestão dos<br />
assuntos políticos. 64 Po<strong>de</strong>m ser classificados<br />
em dois tipos. O primeiro compreen<strong>de</strong> processos<br />
ativados “<strong>de</strong> cima” isto é, por agentes<br />
do Estado, tais como os plebiscitos vinculatórios<br />
e não vinculatórios. O segundo tipo<br />
inclui processos ativados “<strong>de</strong> baixo”, pe-<br />
63 Uggla, 2003.<br />
64 Como indicamos, os cidadãos também po<strong>de</strong>m contribuir indiretamente para o controle político, por exemplo,<br />
quando apresentam <strong>de</strong>núncias sobre a conduta <strong>de</strong> agentes estatais e ativam, <strong>de</strong>ssa forma, investigações por parte<br />
dos respectivos organismos.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
87
los próprios cidadãos, tais como iniciativas<br />
vinculatórias e não vinculatórias, referendos<br />
e petições <strong>de</strong> revogação <strong>de</strong> mandato.<br />
Quanto à existência legal e ao uso <strong>de</strong>sses<br />
mecanismos, os dados permitem distinguir<br />
três grupos <strong>de</strong> países (ver tabelas 17 e 18):<br />
■ Aqueles em que os mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
direta simplesmente não existem,<br />
como Bolívia, Honduras, México e República<br />
Dominicana.<br />
■ Aqueles em que existem alguns <strong>de</strong>sses<br />
mecanismos, mas até agora não foram empregados,<br />
como Chile, Costa Rica, El Salvador,<br />
Nicarágua e Paraguai.<br />
■ Países em que esses mecanismos são<br />
reconhecidos legalmente e on<strong>de</strong> se registram<br />
experiências <strong>de</strong> uso. Aqui encontramos nove<br />
casos, na maioria dos quais – Brasil, Equador,<br />
Guatemala, Panamá, Peru e Venezuela – só<br />
foram utilizados mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
direta “<strong>de</strong> cima”.<br />
A corrupção na função pública<br />
Um tema-chave é o controle da corrupção<br />
na função pública. A pouca informação<br />
disponível torna difícil saber sua dimensão<br />
real, mas mostra certa evidência sobre<br />
a gravida<strong>de</strong> do problema. Existem disponíveis<br />
duas fontes <strong>de</strong> informação complementares<br />
sobre as percepções do nível <strong>de</strong> corrupção<br />
(tabela 19).<br />
A persistência e a extensão da corrupção<br />
no exercício da função pública encontram<br />
um terreno fértil quando os cidadãos se resignam<br />
a ela ou ajudam a praticá-la. Uma<br />
gran<strong>de</strong> rejeição cidadã às práticas corruptas<br />
é <strong>uma</strong> valiosa ferramenta <strong>de</strong> fiscalização<br />
e favorece o funcionamento <strong>de</strong> mecanismos<br />
eficazes <strong>de</strong> prevenção, controle e sanção.<br />
Nos <strong>de</strong>zoito países latino-americanos<br />
consi<strong>de</strong>rados, 41,9 por cento dos consultados<br />
estão <strong>de</strong> acordo em pagar o preço <strong>de</strong> certo<br />
grau <strong>de</strong> corrupção contanto que “as coisas<br />
funcionem” (tabela 20).<br />
Uma análise do perfil social e político<br />
das pessoas que toleram a corrupção indica<br />
que, para a América Latina em seu conjunto,<br />
esta atitu<strong>de</strong> po<strong>de</strong> ser encontrada <strong>de</strong> maneira<br />
similar em todos os estratos sociais e<br />
<strong>de</strong>mográficos.<br />
Clientelismo<br />
O clientelismo gera privilégios e envolve<br />
<strong>uma</strong> utilização discricionária dos recursos<br />
públicos. Na pesquisa Latinobarômetro<br />
2002, indagou-se aos consultados se<br />
conheciam casos <strong>de</strong> pessoas que tivessem<br />
recebido privilégios por serem simpatizantes<br />
do partido do governo. 31,4 por cento<br />
<strong>de</strong>clararam conhecer um ou mais casos <strong>de</strong><br />
clientelismo (tabela 21).<br />
Conclusões sobre a cidadania<br />
política: conquistas e <strong>de</strong>ficiências<br />
■ A informação que apresentamos sobre<br />
cidadania política, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente<br />
dos processos eleitorais, indica que foram<br />
obtidas alg<strong>uma</strong>s conquistas significativas na<br />
América Latina.<br />
■ As bases institucionais da in<strong>de</strong>pendência<br />
e profissionalização do Po<strong>de</strong>r Judiciário<br />
se fortaleceram por meio <strong>de</strong> <strong>uma</strong> série<br />
<strong>de</strong> reformas recentes. No entanto, ainda não<br />
se sabe qual será a contribuição que elas darão<br />
para a plena instauração <strong>de</strong> um estado<br />
<strong>de</strong>mocrático <strong>de</strong> direito.<br />
■ Os organismos especializados no controle<br />
da gestão dos funcionários públicos,<br />
eleitos ou não – alguns <strong>de</strong>les criados na última<br />
década –, oferecem novos canais para<br />
exercer esse controle que complementa<br />
a função controladora que <strong>de</strong>ve ser exercida<br />
pelos po<strong>de</strong>res constitucionais clássicos. Entretanto,<br />
ainda existem <strong>de</strong>ficiências que condicionam<br />
alg<strong>uma</strong>s das conquistas obtidas.<br />
Em particular, observam-se dificulda<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
diversos <strong>de</strong>sses organismos para exercer o<br />
controle na prática e, para coibir abusos cometidos<br />
por outras entida<strong>de</strong>s do Estado.<br />
■ O uso <strong>de</strong> mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
direta ainda é limitado.<br />
■ Mesmo quando existem alguns mecanismos<br />
<strong>de</strong> controle, a informação <strong>de</strong> que se<br />
dispõe sugere que ainda se observam práticas<br />
<strong>de</strong> corrupção e clientelismo na gestão<br />
dos assuntos públicos.<br />
88 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
A PARTICIPAÇÃO ELEITORAL, 1990-2002<br />
TABELA 8<br />
País Deveres cidadãos Participação cidadã (porcentagens)<br />
Voto<br />
obrigatório<br />
(2002)<br />
Procedimentos<br />
para o registro<br />
<strong>de</strong> eleitores<br />
(2000)<br />
Eleitores<br />
registrados (referente<br />
à população com<br />
direito a voto)<br />
(média 1990-2002)<br />
Votantes<br />
(referente à população<br />
com direito<br />
a voto)<br />
(média 1990-2002)<br />
Votos válidos<br />
(referente à população<br />
com direito<br />
a voto)<br />
(média 1990-2002)<br />
Argentina Sim Automático 98,3 78,0 70,9<br />
Bolívia Sim Não automático 76,8 55,2 51,8<br />
Brasil Sim Não automático 92,4 75,9 54,6<br />
Chile Sim Não automático 83,6 74,4 66,6<br />
Colômbia Não Automático 78,2 33,3 30,0<br />
Costa Rica Sim Automático 90,9 68,8 66,5<br />
Equador Sim Automático 98,1 65,8 52,5<br />
El Salvador Sim Não automático 88,3 38,7 36,6<br />
Guatemala Sim Não automático 78,0 36,2 31,5<br />
Honduras Sim Automático 101,2(*) 68,3 63,7<br />
México Sim Não automático 90,2 59,3 57,3<br />
Nicarágua Não Não automático 95,8 77,9 73,7<br />
Panamá Sim Automático 98,0 72,3 68,2<br />
Paraguai Sim Não automático 72,7 53,9 51,9<br />
Peru Sim Não automático 87,0 66,6 49,2<br />
Rep. Dominicana Sim Não automático 85,1 53,6 55,2<br />
Uruguai Sim Não automático 103,8(*) 94,8 91,6<br />
Venezuela Não Automático 80,9 45,7 35,6<br />
América Latina (**) 89,3 62,7 56,1<br />
Referentes extra-regionais<br />
Europa Oci<strong>de</strong>ntal 96,2 73,6<br />
Estados Unidos 69,5 43,3<br />
Notas:<br />
(*) Os números sobre eleitores registrados que exce<strong>de</strong>m 100 por cento indicam que o número <strong>de</strong> pessoas nos padrões eleitorais é maior do que o número <strong>de</strong><br />
pessoas com direito a voto. Essa situação geralmente ocorre quando os padrões eleitorais não foram <strong>de</strong>purados a<strong>de</strong>quadamente.<br />
(**) Os dados para a região são a média <strong>de</strong> todos os países.<br />
Fontes: Baeza 1998, EPIC 2002; Gratschew 2001 e 2002; International IDEA 2002b, León-Rosch 1998, Reyes 1998, várias Constituições nacionais, e cálculos<br />
sobre a base <strong>de</strong> dados no CD-ROM em Payne et al.2002, e dados sobre as eleições <strong>de</strong> 2001 e 2002 obtidos <strong>de</strong> fontes oficiais.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
89
OS PARTIDOS POLÍTICOS E A DEMOCRACIA INTERNA, 1990-2001*<br />
TABELA 9<br />
Uso <strong>de</strong> primárias<br />
para a indicação<br />
<strong>de</strong> candidatos<br />
presi<strong>de</strong>nciais dos<br />
principais partidos,<br />
eleição <strong>de</strong> 2001<br />
ou imediatamente<br />
anterior(4)<br />
Controle dos partidos<br />
sobre a seleção <strong>de</strong><br />
candidatos, 1990-2001<br />
País<br />
Monopólio dos<br />
partidos sobre as<br />
candidaturas<br />
Permite-se a<br />
postulação <strong>de</strong><br />
candidatos<br />
in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes<br />
Restrições para a<br />
formação dos<br />
partidos nacionais, 2002<br />
Requisitos legais para a<br />
indicação <strong>de</strong> candidatos<br />
presi<strong>de</strong>nciais, 1990-2001 (2)<br />
Nenhum<br />
Alguns<br />
Argentina 1990-01 Medianamente restritivo 1990-01 Pelo menos um<br />
Bolívia 1990-01 Medianamente restritivo 1990-99 Nenhum<br />
1999-2001 (3)<br />
Brasil 1990-01 Pouco restritivo 1990-2001 Nenhum<br />
Chile 1990-01 Medianamente restritivo 1990-2001 Pelo menos um<br />
Colômbia 1990-01 Pouco restritivo 1990-2001 Pelo menos um<br />
Costa Rica 1990-01 Pouco restritivo 1990-2001 Todos<br />
Equador 1990-95 Medianamente restritivo 1990-2001 Nenhum<br />
1995-01<br />
El Salvador 1990-01 Muito restritivo 1990-2001 Pelo menos um<br />
Guatemala 1990-01 Medianamente restritivo 1990-2001 Nenhum<br />
Honduras 1990-01 Pouco restritivo 1990-2001 Todos<br />
México 1990-01 Pouco restritivo 1990-2001 Todos<br />
Nicarágua 1990-01 Muito restritivo 1990-2001 Pelo menos um<br />
Panamá 1990-01 Muito restritivo 1990-2001 Todos<br />
Paraguai 1990-01 Pouco restritivo 1990-2001 Todos<br />
Peru 1990-01 Medianamente restritivo 1990-2001 Nenhum<br />
Rep. Dominicana 1990-01(1) Medianamente restritivo 1990-2001 Todos<br />
Uruguai 1990-01 Pouco restritivo 1990-1997 Todos<br />
1997-2001<br />
Venezuela 1990-01 Pouco restritivo 1990-1999 Nenhum<br />
1999-2001<br />
Notas:<br />
(*) Reformas relevantes introduzidas <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o final <strong>de</strong> 2001 incluem: na Argentina a Lei Nº 25.611, <strong>de</strong> junho <strong>de</strong> 2002, e no Peru a Lei <strong>de</strong> Partidos Políticos <strong>de</strong><br />
novembro <strong>de</strong> 2003.<br />
(1) Embora a legislação na República Dominicana permita a postulação <strong>de</strong> candidatos in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes, os requisitos para postular-se como candidato in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte<br />
são similares aos que <strong>de</strong>vem ser seguidos para formar um partido político.<br />
(2) Em “requisitos legais para a indicação <strong>de</strong> candidatos presi<strong>de</strong>nciais ”, consi<strong>de</strong>ra-se se a Constituição ou as leis eleitorais requererem que os candidatos<br />
sejam indicados por meio <strong>de</strong> <strong>uma</strong> primária ou <strong>uma</strong> convenção.<br />
(3) A Lei <strong>de</strong> Reforma dos Partidos Políticos <strong>de</strong> junho <strong>de</strong> 1999 na Bolívia ainda não foi aplicada na prática.<br />
(4) Define-se “primárias ”como um processo no qual os candidatos a presi<strong>de</strong>nte são eleitos <strong>de</strong> <strong>uma</strong> maneira livre e direta, por meio <strong>de</strong> um voto secreto, seja<br />
pelos membros <strong>de</strong> um partido ou pelos cidadãos registrados para votar em eleições nacionais.<br />
Fontes: Alcántara Sáez 2002, pp.20-34; Payne et al.2002, pp.156-166;Constituições nacionais e legislação sobre os partidos políticos, e consultas a especialistas<br />
associados – atualmente ou no passado – aos tribunais eleitorais em cada país.<br />
90 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
COTAS PARA CANDIDATAS A CARGOS<br />
PARLAMENTARES, 2003<br />
País<br />
Câmara baixa<br />
ou única<br />
Senado<br />
Ano<br />
adotado<br />
TABELA 10<br />
Argentina 30 30 1991<br />
Bolívia 30 25 1997<br />
Brasil 30 0 1997<br />
Chile 0 0 -<br />
Colômbia 0 0 -<br />
Costa Rica 40 - 1996<br />
Equador 20 - 1997<br />
El Salvador 0 - -<br />
Guatemala 0 - -<br />
Honduras 30 - 2000<br />
México 30 30 2002<br />
Nicarágua 0 - -<br />
Panamá 30 - 1997<br />
Paraguai 20 20 1996<br />
Peru 30 - 1997<br />
Rep. Dominicana 25 - 1997<br />
Uruguai 0 0 -<br />
Venezuela 0 - -<br />
Notas: Os números são as porcentagens das listas parlamentares que cada partido <strong>de</strong>ve <strong>de</strong>stinar às mulheres. A informação<br />
inclui somente as cotas mencionadas na legislação sobre partidos políticos e parlamentos, e exclui cotas adotadas nos<br />
regulamentos internos dos partidos. O sinal menos indica que a informação não se aplica.<br />
Fontes: CEPAL 1999, p.69; Mén<strong>de</strong>z-Montalvo e Ballington 2002, OEA-Comissão Interamericana <strong>de</strong> Mulheres 2002, e Internacional<br />
IDEA 2003.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
91
FINANCIAMENTO DE PARTIDOS E CAMPANHAS ELEITORAIS, 2003<br />
TABELA 11<br />
Acesso a fontes privadas<br />
Acesso à televisão<br />
País<br />
Financiamento<br />
público direto<br />
Limites<br />
sobre<br />
doações<br />
particulares<br />
aos partidos<br />
Limites<br />
sobre<br />
doações<br />
anônimas<br />
aos partidos<br />
Limites<br />
sobre<br />
doações<br />
por<br />
contratados<br />
do Estado<br />
aos partidos<br />
Leis sobre divulgação pública<br />
Acesso à<br />
televisão gratuita<br />
Gasto <strong>de</strong> partidos<br />
<strong>de</strong>stinado à<br />
televisão privada<br />
Argentina Sim, patamar baixo Sim Sim Sim Medianamente fortes Sim Limitado<br />
Bolívia Sim, patamar alto Sim Sim Sim Medianamente fortes Sim Limitado<br />
Brasil Sim, patamar baixo Sim Sim Sim Fortes Sim Proibido<br />
Chile Sim, patamar baixo Sim Sim Sim Medianamente fortes Sim Proibido<br />
Colômbia Sim, patamar alto Não Sim Não Medianamente fortes Sim Limitado<br />
Costa Rica Sim, patamar alto Sim Sim Não Fracas Não Limitado<br />
Equador Sim, patamar baixo Não Sim Sim Muito fracos Não Ilimitado<br />
El Salvador Sim, patamar baixo Não Não Não Não Não Ilimitado<br />
Guatemala Sim, patamar alto Não Não Não Não Sim Ilimitado<br />
Honduras Sim, patamar baixo Não Sim Sim Não Não Limitado<br />
México Sim, patamar baixo Sim Sim Sim Muito fracos Sim Limitado<br />
Nicarágua Sim, patamar alto Não Sim Não Fracas Sim Limitado<br />
Panamá Sim, patamar baixo Não Não Não Não Sim Ilimitado<br />
Paraguai Sim, patamar baixo Sim Sim Sim Muito fracos Sim Limitado<br />
Peru Sim, patamar baixo Sim Não Não Fracos Sim Limitado<br />
Rep. Dominicana Sim, patamar baixo Não Não Sim Não Não Ilimitado<br />
Uruguai (*) Sim, patamar baixo Não Não Não Não Sim Ilimitado<br />
Venezuela Não Sim Sim Sim Não Não Limitado<br />
Notas: A expressão “financiamento público direto ”refere-se à provisão direta <strong>de</strong> recursos financeiros aos partidos e se contrasta usualmente com as formas<br />
indiretas <strong>de</strong> financiamento, como a provisão <strong>de</strong> serviços e benefícios tributários.<br />
(*) No Uruguai há financiamento público <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1928 por meio <strong>de</strong> leis ad hoc votadas antes <strong>de</strong> cada eleição.<br />
Fontes:Del Castillo e Zovatto 1998; Payne et al.2002, pp.169-172; Pinto-Duschinsky 2002a, pp.76-77, e 2002b;Ward 2002; Zovatto 2003; consulta a especialistas<br />
associados –atualmente ou no passado – aos tribunais eleitorais em cada país, e a várias Constituições e leis eleitorais nacionais.<br />
92 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
CADEIRAS NO CONGRESSO GANHAS POR MULHERES, 1990-2003<br />
TABELA 12<br />
Fim da década <strong>de</strong> 80 Meados da década 90 Última eleição<br />
País Ano % mulheres Ano % mulheres Ano %mulheres<br />
Argentina 1989 6,3 1995 21,8 2003 34,1<br />
Bolívia 1989 9,2 1997 11,5 2002 18,5<br />
Brasil 1986 5,3 1994 7,0 2002 8,6<br />
Chile 1989 5,8 1997 10,8 2001 12,5<br />
Colômbia 1986 4,5 1994 10,8 2002 12,0<br />
Costa Rica 1986 10,5 1994 14,0 2002 35,1<br />
Equador 1988 4,5 1994 4,5 2002 16,0<br />
El Salvador 1988 11,7 1994 10,7 2003 10,7<br />
Guatemala 1985 7,0 1994 7,5 2003 8,2<br />
Honduras 1989 10,2 1997 9,4 2001 5,5<br />
México 1988 12,0 1994 14,2 2003 22,6<br />
Nicarágua 1984 14,8 1996 9,7 2001 20,7<br />
Panamá 1989 7,5 1994 8,3 1999 9,9<br />
Paraguai 1989 5,6 1993 2,5 2003 8,8<br />
Peru 1985 5,6 1995 10,0 2001 17,5<br />
Rep. Dominicana 1986 7,5 1994 11,7 2002 17,3<br />
Uruguai 1989 6,1 1994 7,1 1999 12,1<br />
Venezuela 1988 10,0 1993 5,9 2000 9,7<br />
América Latina (*) 8,0 9,9 15,4<br />
Notas: Os números são porcentagens <strong>de</strong> ca<strong>de</strong>iras obtidas por mulheres na Câmara baixa ou única do Parlamento. Os dados correspon<strong>de</strong>m ao resultado da<br />
eleição do ano mencionado e po<strong>de</strong>m variar entre eleições.<br />
(*) Os dados para a região são a média <strong>de</strong> todos os países.<br />
Fonte: IPU 1995, 2003.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
93
PROPORCIONALIDADE NA REPRESENTAÇÃO<br />
VIA PARTIDOS POLÍTICOS, 1990-2002<br />
País<br />
Porcentagem <strong>de</strong> votos ganhos<br />
por partidos sem<br />
representação parlamentar<br />
(média 1990-2002)<br />
Argentina 3,8 6,7<br />
Bolívia 4,2 5,0<br />
Brasil 1,4 3,8<br />
Chile 8,9 7,2<br />
Colômbia 4,8 3,0<br />
Costa Rica 7,8 5,0<br />
Equador 4,2 5,9<br />
El Salvador 2,2 4,7<br />
Guatemala 12,3 11,9<br />
Honduras 0,4 2,5<br />
México 3,7 5,7<br />
Nicarágua 2,4 2,7<br />
Panamá 4,9 13,9<br />
Paraguai 0,7 6,1<br />
Peru 3,5 5,2<br />
Rep. Dominicana 5,4 6,3<br />
Uruguai 0,5 0,6<br />
Venezuela 6,2 5,3<br />
América Latina (*) 4,3 5,6<br />
TABELA 13<br />
Índice <strong>de</strong> <strong>de</strong>sproporcionalida<strong>de</strong><br />
eleitoral<br />
(média 1990-2002)<br />
Notas: A expressão “porcentagens <strong>de</strong> votos ganhos por partidos sem representação parlamentar ”refere-se aos votos<br />
emitidos em eleições para a Câmara baixa ou única. A expressão “<strong>de</strong>sproporcionalida<strong>de</strong> eleitoral ” refere-se à diferença<br />
entre a quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ca<strong>de</strong>iras e votos obtidos por partido. O índice <strong>de</strong> <strong>de</strong>sproporcionalida<strong>de</strong> eleitoral refere-se à Câmara<br />
baixa ou única, e é o resultado do método <strong>de</strong> mínimos quadrados, que se calcula mediante a somatória das diferenças<br />
entre os votos e as ca<strong>de</strong>iras obtidas por cada partido, elevadas ao quadrado, e o total dividido por dois. Finalmente, extrai-se<br />
a raiz quadrada <strong>de</strong>sse resultado. Uma qualificação baixa indica que o número <strong>de</strong> ca<strong>de</strong>iras que os partidos obtêm<br />
é bastante proporcional ao número <strong>de</strong> votos recebidos, enquanto que <strong>uma</strong> qualificação alta indica que a relação entre<br />
ca<strong>de</strong>iras e votos é <strong>de</strong>sproporcional.<br />
(*) Os dados para a região são a média <strong>de</strong> todos os países.<br />
Fontes: Cálculos sobre a base <strong>de</strong> dados no CD-ROM em Payne et al.2002, e dados sobre as eleições <strong>de</strong> 2001 e 2002 obtidos<br />
<strong>de</strong> fontes oficiais.<br />
94 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
PODERES FORMAIS PRESIDENCIAIS, 2002<br />
TABELA 14<br />
Índice <strong>de</strong> po<strong>de</strong>res<br />
País Po<strong>de</strong>res não legislativos (1) Po<strong>de</strong>res legislativos (2) presi<strong>de</strong>nciais formais (3)<br />
Argentina 0,38 Médio baixo (*) 0,44 Médio alto (*) 0,41 Médio alto (*)<br />
Bolívia 0,50 Médio alto 0,23 Médio baixo 0,37 Médio baixo<br />
Brasil 0,50 Médio alto 0,62 Muito alto 0,56 Muito alto<br />
Chile 0,50 Médio alto 0,66 Muito alto 0,58 Muito alto<br />
Colômbia 0,00 Muito baixo 0,59 Muito alto 0,29 Muito baixo<br />
Costa Rica 0,50 Médio alto 0,23 Médio baixo 0,36 Médio baixo<br />
Equador 0,50 Médio alto 0,59 Muito alto 0,55 Muito alto<br />
El Salvador 0,50 Médio alto 0,33 Médio baixo 0,42 Médio alto<br />
Guatemala 0,25 Médio baixo 0,29 Médio baixo 0,27 Muito baixo<br />
Honduras 0,50 Médio alto 0,25 Médio baixo 0,38 Médio baixo<br />
México 0,50 Médio alto 0,24 Médio baixo 0,37 Médio alto<br />
Nicarágua 0,50 Médio alto 0,25 Médio baixo 0,38 Médio baixo<br />
Panamá 0,50 Médio alto 0,43 Médio alto 0,46 Médio alto<br />
Paraguai 0,50 Médio alto 0,19 Muito baixo 0,34 Médio baixo<br />
Peru 0,13 Muito baixo 0,50 Médio alto 0,31 Médio baixo<br />
República Dominicana 0,50 Médio alto 0,37 Médio baixo 0,44 Médio alto<br />
Uruguai 0,38 Médio baixo 0,38 Médio 0,38 Médio baixo<br />
Venezuela 0,19 Muito baixo 0,30 Médio baixo 0,25 Muito baixo<br />
América Latina 0,41 0,38 0,40<br />
Referente extra-regional<br />
Estados Unidos 0,48 Médio alto 0,15 Muito baixo 0,31 Médio baixo<br />
Notas:<br />
(1) Esta medida é a média entre as pontuações atribuídas segundo a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> censura legislativa sobre o gabinete e a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> dissolução do Congresso<br />
por parte do Po<strong>de</strong>r Executivo. As escalas foram padronizadas entre 0 e 1 para possibilitar sua comparação.<br />
(2) Média pon<strong>de</strong>rada dos po<strong>de</strong>res legislativos do presi<strong>de</strong>nte.<br />
(3) O índice geral dos po<strong>de</strong>res presi<strong>de</strong>nciais formais é <strong>uma</strong> média dos po<strong>de</strong>res presi<strong>de</strong>nciais não-legislativos e legislativos.<br />
(*) O nível <strong>de</strong>sses po<strong>de</strong>res é consi<strong>de</strong>rado sob <strong>uma</strong> perspectiva regional comparada. Um nível “muito alto ”em qualquer <strong>uma</strong> das dimensões dos po<strong>de</strong>res significa<br />
que esse país está acima do <strong>de</strong>svio padrão da média regional. “Médio alto” significa que sua qualificação [score] cai entre a média regional e o <strong>de</strong>svio<br />
padrão positivo. O mesmo método é utilizado para qualificar os níveis “médio baixo ”e “muito baixo ”.<br />
Fontes: Shugart e Carey 1992, Mainwaring e Shugart 1997, Carey e Shugart 1998, Samuels 2000; Altman 2001 e 2002; Payne et al.2002, e Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
Georgetown e OEA 2002.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
95
PODERES JUDICIÁRIOS, 2002<br />
TABELA 15<br />
Condições para a nomeação <strong>de</strong> magistrados<br />
País Textos constitucionais<br />
I<strong>de</strong>ntificação inicial <strong>de</strong> candidatos Seleção e nomeação Período <strong>de</strong> nomeação Controle <strong>de</strong> constitucionalida<strong>de</strong><br />
Argentina Constituição 1853, reforma Executivo indica candidatos (*) Senado nomeia (2/3 <strong>de</strong> votos) Vitalício (aposentadoria Corte Suprema<br />
<strong>de</strong> 1994 obrigatória aos 75 anos)<br />
Bolívia Constituição 1967, reforma Conselho Judicial apresenta Congresso em pleno seleciona 10 anos, reeleição alterna Tribunal Constitucional<br />
<strong>de</strong> 1994 “Terna” (listado <strong>de</strong> 3 pessoas) da lista e nomeia <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> um período<br />
(2/3 <strong>de</strong> votos)<br />
Brasil Constituição 1988, reforma Executivo indica candidatos Senado nomeia (maioria Vitalício (aposentadoria Tribunal Supremo Fe<strong>de</strong>ral<br />
<strong>de</strong> 1998 absoluta) obrigatória aos 70 anos)<br />
Chile Constituição 1980, reforma Corte Suprema apresenta Presi<strong>de</strong>nte seleciona da lista Vitalício (aposentadoria Tribunal Constitucional<br />
<strong>de</strong> 1997 “Quinária” (listado <strong>de</strong> 5 pessoas) e Senado nomeia (2/3 votos) obrigatória aos 75 anos)<br />
Colômbia Constituição 1991, reforma Conselho Superior da Corte Suprema seleciona da 8 anos, sem reeleição Corte Constitucional<br />
<strong>de</strong> 1997 Judicatura apresenta lista lista e nomeia (maioria<br />
absoluta)<br />
Costa Rica Constituição 1949, reforma Congresso i<strong>de</strong>ntifica Congresso seleciona da lista 8 anos, reeleição permitida Sala especializada <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> 1954 e 1993 candidatos e nomeia Corte Suprema<br />
Equador Constituição 1978, reforma Corte Suprema indica Corte Suprema nomeia Vitalício Tribunal Constitucional<br />
<strong>de</strong> 1986, 1993, 1996 e 1997 candidatos (2/3 <strong>de</strong> votos)<br />
El Salvador Constituição 1983, reforma Conselho Nacional Judicial e as Congresso seleciona da lista 9 anos, reeleição sucessiva Sala especializada <strong>de</strong> Corte<br />
<strong>de</strong> 1996 Associações <strong>de</strong> Advogados <strong>de</strong> e nomeia (2/3 <strong>de</strong> votos) Suprema<br />
El Salvador, apresentan lista<br />
Guatemala Constituição 1985, reforma Comissão <strong>de</strong> postulação, <strong>de</strong> Congresso seleciona da lista 5 anos, reeleição permitida Corte Constitucional<br />
<strong>de</strong> 1994 composição governamental e nomeia (2/3 <strong>de</strong> votos)<br />
e não governamental,<br />
apresenta lista<br />
Honduras Constituição 1982, reforma Junta Nomeadora, com Congresso seleciona da lista 7 anos, reeleição sucessiva Sala Constitucional<br />
<strong>de</strong> 2000 presença não governamental, e nomeia (2/3 <strong>de</strong> votos)<br />
apresenta lista<br />
México Constituição 1917, reforma Executivo apresenta lista Senado seleciona da 15 anos, sem reeleição Corte Suprema<br />
<strong>de</strong> 1992, 1993 e 1994 lista e nomeia (2/3 <strong>de</strong><br />
votos presentes)<br />
Nicarágua Constituição 1987, reforma Executivo e Congresso Congresso seleciona da 5 anos, reeleição permitida Corte Suprema<br />
<strong>de</strong> 1995 apresentam lista lista e nomeia (6/10 dos votos)<br />
96 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
PODERES JUDICIÁRIOS, 2002<br />
CONTINUAÇÃO TABELA 15<br />
Condições para a nomeação <strong>de</strong> magistrados<br />
País Textos constitucionais<br />
I<strong>de</strong>ntificação inicial <strong>de</strong> candidatos Seleção e nomeação Período <strong>de</strong> nomeação Controle <strong>de</strong> constitucionalida<strong>de</strong><br />
Panamá Constituição 1972, reformas Presi<strong>de</strong>nte e gabinete Congresso nomeia (maioria 10 anos, reeleição permitida Corte Suprema<br />
<strong>de</strong> 1978, 1983 e 1984 apresentam lista absoluta)<br />
Paraguai Constituição 1992 Conselho <strong>de</strong> Magistrados Senado nomeia com 5 anos, a reeleição implica Corte Suprema<br />
apresenta lista consentimento do Executivo período vitalício (aposentadoria<br />
obrigatória aos 75 anos)<br />
Peru Constituição 1993 Conselho Nacional da Conselho Nacional <strong>de</strong> Aposentadoria obrigatória Tribunal Constitucional<br />
Magistratura aprova Magistrados nomeia aos 70 anos<br />
(2/3 votos) (2/3 <strong>de</strong> votos)<br />
República Dominicana Constituição 1966, reforma Conselho Nacional da Conselho Nacional da Vitalício (aposentadoria Corte Suprema<br />
<strong>de</strong> 1995 Judicatura i<strong>de</strong>ntifica Judicatura nomeia obrigatória aos 75 anos)<br />
candidatos (maioria absoluta)<br />
Uruguai Constituição 1967 Congresso i<strong>de</strong>ntifica Congresso em pleno 10 anos, reeleição alterna Corte Suprema<br />
candidatos (ambas as câmaras) 5 anos após a conclusão do<br />
aprova (2/3 <strong>de</strong> votos) período (aposentadoria<br />
obrigatória aos 75 anos)<br />
Venezuela Constituição 1999 Comité <strong>de</strong> Postulações Congresso seleciona da 12 anos, sem reeleição Tribunal Supremo<br />
Judiciais apresenta lista lista e nomeia <strong>de</strong> Justiça<br />
Nota:<br />
(*) Na Argentina, o processo <strong>de</strong> nomeação <strong>de</strong> magistrados da Corte Suprema foi modificado pelo Decreto N º222, <strong>de</strong> 19 <strong>de</strong> junho <strong>de</strong> 2003.<br />
Fontes: Projeto Estado da Nação 1999, p. 199; Skaar 2001, Apêndice 1; PNUD 2002b, 78, 81; OEA- CIDH 2003; Instituto <strong>de</strong> Direito Público<br />
Comparado 2003; Comissão Andina <strong>de</strong> Juristas 2003, e várias Constituições nacionais.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
97
ORGANISMOS ESPECIALIZADOS DE CONTROLE, 2002<br />
Controladoria (1)<br />
Promotoria (2) Ombudsman (3)<br />
TABELA 16<br />
País<br />
Nomeação 4/ Destituição 4/ Po<strong>de</strong>r 5/ Nomeação 4/ Destituição 4/ Criação Nomeação 4/ Destituição 4/<br />
Argentina Legislativo .. Fraco Ejecutivo++ No se <strong>de</strong>fine 1993 Legislativo+ Legislativo+<br />
Bolívia Executivo+ Legislativo++ Fraco Legislativo Legislativo 1994 Legislativo Legislativo<br />
Brasil Legislativo- Po<strong>de</strong>r Judiciário Forte Executivo++ Legislativo - - -<br />
Chile Executivo++ Legislativo+ Forte Executivo++ Legislativo++ - - -<br />
Colômbia Legislativo++ Po<strong>de</strong>r Judiciário Forte Legislativo- Corte Suprema 1991 Legislativo- Sin especificar<br />
Costa Rica Legislativo Legislativo Intermediário Corte Suprema Não se <strong>de</strong>fine 1992 Legislativo Legislativo<br />
Equador Executivo+ Legislativo Fraco Legislativo- Legislativo 1998 Legislativo++ Legislativo<br />
El Salvador Legislativo Legislativo Forte Legislativo Legislativo 1991 Legislativo Legislativo<br />
Guatemala Legislativo Legislativo Forte Executivo Executivo 1985 Legislativo++ Legislativo<br />
Honduras Legislativo Legislativo Fraco Legislativo Legislativo 1992 Legislativo Sin especificar<br />
México Legislativo- Legislativo- Fraco Executivo ++ Executivo 1990 Legislativo Legislativo<br />
Nicarágua Legislativo- Legislativo++ Intermediário Legislativo- Legislativo 1995 Legislativo++ Legislativo<br />
Panamá Legislativo Po<strong>de</strong>r Judiciário Forte Executivo++ Corte Suprema 1997 Executivo+ Corte Suprema<br />
Paraguai Legislativo+ Executivo++ Intermediário Executivo++ Legislativo+ 1992 Legislativo Legislativo+<br />
Peru Legislativo- Legislativo Fraco Junta <strong>de</strong> Fiscais Legislativo 1993 Legislativo Legislativo<br />
Supremos<br />
Rep. Dominicana Legislativo- .. Fraco Executivo Executivo 2001 Legislativo Corte Suprema<br />
Uruguai Legislativo Legislativo Intermediário Executivo++ Executivo++ - - -<br />
Venezuela Legislativo++ Legislativo++ Fraco Legislativo++ Legislativo++ 1999 Legislativo++ Legislativo+<br />
Notas: O dois pontos seguidos ( . . ) indicam que a informação não está disponível. ( 1) Inclui os órgãos encarregados <strong>de</strong> fiscalizar as contas públicas: Tribunais <strong>de</strong> Contas, Auditorias nacionais e Controladoria Geral da República.<br />
( 2) Inclui os órgãos encarregados da acusação penal do Estado: promotorias, procuradorias, ministérios públicos. ( 3) Inclui os órgãos encarregados <strong>de</strong> <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r os direitos dos habitantes perante o Estado: Defensorias,<br />
procuradorias <strong>de</strong> direitos h<strong>uma</strong>nos. ( 4) Executivo: a nomeação ou remoção é <strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong> exclusiva do Executivo. Executivo+ : a nomeação ou remoção é feita pelo Executivo, com base na lista <strong>de</strong> candidatos<br />
confeccionada pelo Parlamento. Executivo+ + : a nomeação ou remoção é feita pelo Executivo, mas requer aprovação ou ratificação legislativa. Legislativo- : a nomeação é feita pelo Po<strong>de</strong>r Legislativo, a partir <strong>de</strong> <strong>uma</strong> lista<br />
enviada pelo Executivo ou existe um sistema misto <strong>de</strong> nomeação com potesta<strong>de</strong>s do Executivo e do Legislativo para a nomeação ou remoção. Legislativo: a nomeação ou remoção é responsabilida<strong>de</strong> exclusiva da câmara baixa.<br />
Legislativo+ : a nomeação ou remoção é <strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong> do Parlamento, mas requer procedimento bicameral. Legislativo+ + : a nomeação ou remoção é feita pelo Po<strong>de</strong>r Legislativo com a participação <strong>de</strong> entida<strong>de</strong>s da<br />
socieda<strong>de</strong> civil ou do Po<strong>de</strong>r Judiciário. ( 5) Fraco: as resoluções não são vinculatórias. Intermediário: as resoluções são vinculatórias, mas não possuem potesta<strong>de</strong>s legais para forçar seu cumprimento. Forte: as resoluções são<br />
vinculatórias e, além disso possuem potesta<strong>de</strong>s legais para forçar seu cumprimento.<br />
Fontes: Groisman e Lerner 2000, Maiorano 2000; Payne et al. 2002, cap. 9, Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Georgetown e OEA 2002, e Uggla 2003.<br />
98 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
MECANISMOS DE DEMOCRACIA DIRETA DE CIMA PARA BAIXO, 1978-2002<br />
Plebiscito Plebiscito não vinculatório<br />
País Existência Uso Vezes usado Êxito no uso Existência Uso Vezes usado Êxito no uso<br />
TABELA 17<br />
Argentina Sim Não - - Sim Sim 1 1<br />
Bolívia Não - - - Não - - -<br />
Brasil Sim Sim 2 0 .. .. .. ..<br />
Chile Sim Não - - .. .. .. ..<br />
Colômbia Sim Sim 1 1 .. .. .. ..<br />
Costa Rica Sim Não - - .. .. .. ..<br />
Equador Sim Sim 17 (2) 14 Sim Sim 16 (3) 6<br />
El Salvador Sim (1) Não - - .. .. .. ..<br />
Guatemala Sim Sim 5 1 .. .. .. ..<br />
Honduras Não - - - .. .. .. ..<br />
México Não - - - .. .. .. ..<br />
Nicarágua Não - - - .. .. .. ..<br />
Panamá Sim Sim 2 0 .. .. .. ..<br />
Paraguai Sim Não - - .. .. .. ..<br />
Peru Sim Sim 1 1 .. .. .. ..<br />
República Dominicana Não - - - .. .. .. ..<br />
Uruguai Sim Sim 2 1 Não - - -<br />
Venezuela Sim Sim 3 3 .. .. .. ..<br />
América Latina (*) 13 8 33 21 2 2 17 7<br />
Notas: A informação se refere somente a mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> direta oficiais e no âmbito nacional. As datas são <strong>de</strong> 1978 em diante ou <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que esses<br />
mecanismos foram criados, mas só registra seu uso <strong>de</strong>ntro do contexto <strong>de</strong> regimes <strong>de</strong>mocráticos. O hífen ( - ) indica que a informação não é relevante; os dois<br />
pontos seguidos ( . . ) , que a informação não está disponível.<br />
( 1) Somente em relação à integração centro-americana.<br />
( 2) Quatorze <strong>de</strong>sses foram realizados em <strong>uma</strong> <strong>de</strong>terminada data: maio <strong>de</strong> 1997.<br />
( 3) Quinze <strong>de</strong>sses foram realizados em duas ocasiões: agosto <strong>de</strong> 1994 e novembro <strong>de</strong> 1995.<br />
( * ) Os dados para a região referem-se ao total <strong>de</strong> países que permitem o uso <strong>de</strong> mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> direta e, também, ao total <strong>de</strong> vezes que esses<br />
mecanismos foram usados.<br />
Fontes: Altman 2002, p. 8, e várias Constituições e leis eleitorais nacionais.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
99
MECANISMOS DE DEMOCRACIA DIRETA DE BAIXO PARA CIMA, 1978-2002<br />
TABELA 18<br />
Iniciativa vinculatória Iniciativa Não-vinculatória Referendo<br />
Revogação <strong>de</strong> mandato<br />
País<br />
Exis- Vezes Êxito Exis- Vezes Êxito Exis- Vezes Êxito Exis- Vezes Êxito<br />
tência Uso usado no uso tência Uso usado no uso tência Uso usado no uso tência Uso usado em uso<br />
Argentina Sim Não - - Sim Não - - Não - - - Não - - -<br />
Bolívia Não - - - .. .. .. .. Não - - - Não - - -<br />
Brasil Sim Não - - .. .. .. .. Sim Não - - Não - - -<br />
Chile Não - - - .. .. .. .. Não - - - Não - - -<br />
Colômbia Sim Não - - Sim Sim 2 2 Sim Não - - Sim Não - -<br />
Costa Rica Sim Não - - .. .. .. .. Sim Não - - Não - - -<br />
Equador Sim Não - - .. .. .. .. Não - - - Não - - -<br />
El Salvador Não - - - .. .. .. .. Não - - - Não - - -<br />
Guatemala Sim Não - - .. .. .. .. Não - - - Não - - -<br />
Honduras Não - - - .. .. .. .. Não - - - Não - - -<br />
México Não - - - .. .. .. .. Não - - - Não - - -<br />
Nicarágua Sim Não - - .. .. .. .. Não - - - Não - - -<br />
Panamá Não - - - .. .. .. .. Não - - - Não - - -<br />
Paraguai Sim Não - - .. .. .. .. Sim Não - - Não - - -<br />
Peru Sim Não - - .. .. .. .. Sim Não - - Sim Não - -<br />
Rep. Dominicana Não - - - .. .. .. .. Não - - - Não - - -<br />
Uruguai Sim Sim 5 2 Não - - - Sim Sim 6 2 Não - - -<br />
Venezuela Sim Não - - Sim Não - - Sim Não - - Sim Não - -<br />
América Latina(*) 11 1 5 2 3 1 2 2 7 1 6 2 3 0 0 0<br />
Notas: A informação se refere apenas a mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> direta oficiais e no âmbito nacional. As datas são <strong>de</strong> 1978 em diante ou <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que esses<br />
mecanismos foram criados, mas somente registra seu uso <strong>de</strong>ntro do contexto <strong>de</strong> regimes <strong>de</strong>mocráticos. O hífen ( - ) indica que a informação não é relevante;<br />
os dois pontos seguidos ( . . ) , que a informação não está disponível.<br />
( * ) Os dados para a região referem-se ao total <strong>de</strong> países que permitem o uso <strong>de</strong> mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> direta e, também, ao total <strong>de</strong> vezes que esses<br />
mecanismos foram usados.<br />
Fontes:Altman 2002, p.8,e várias Constituições e leis eleitorais nacionais.<br />
100 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
INDICADORES DE PERCEPÇÕES SOBRE CORRUPÇÃO, 2002<br />
Transparência Internacional<br />
Argentina 3,5 2,8 4,28 4,42<br />
Bolívia 2,0 2,2 4,26 3,56<br />
Brasil 4,0 4,0 4,45 4,82<br />
Chile 7,5 7,5 6,35 6,34<br />
TABELA 19<br />
Fórum Econômico Mundial<br />
País 1999-2001 2002 2001 2002<br />
Colômbia 3,8 3,6 4,73 5,14<br />
Costa Rica 4,5 4,5 4,60 4,41<br />
Equador 2,3 2,2 3,91 3,67<br />
El Salvador 3,6 3,4 4,47 5,16<br />
Guatemala 2,9 2,5 4,12 3,81<br />
Honduras 2,7 2,7 3,64 3,84<br />
México 3,7 3,6 4,40 4,82<br />
Nicarágua 2,4 2,5 3,76 4,31<br />
Panamá 3,7 3,0 4,26 4,52<br />
Paraguai .. 1,7 2,77 3,55<br />
Peru 4,1 4,0 2,31 5,21<br />
República Dominicana 3,1 3,5 4,46 4,43<br />
Uruguai 5,1 5,1 4,78 5,88<br />
Venezuela 2,8 2,5 4,05 3,85<br />
REGIÃO<br />
América Latina 3,6 3,4 4,37 4,52<br />
Europa oci<strong>de</strong>ntal 7,1 7,8 6,07 6,08<br />
Notas: Os dois pontos seguidos (..) indicam que a informação não está disponível. Ambas as organizações constroem<br />
seu índice entrevistando grupos <strong>de</strong> especialistas selecionados por cada <strong>uma</strong> <strong>de</strong>las. Obviamente, o resultado não tem<br />
significação estatística numéricamente. Os dados da Transparência Internacional consistem em <strong>uma</strong> escala <strong>de</strong> 11 pontos,<br />
com números mais altos indicando menos corrupção. A escala do Fórum Econômico Mundial é <strong>de</strong> 7 pontos, com números<br />
mais altos indicando menor corrupção.<br />
Fontes: Lambsdorff 2001, pp. 234-236 e TI 2002.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
101
TABELA 20<br />
PERFIL DAS PESSOAS COM DIFERENTES ATITUDES EM RELAÇÃO À CORRUPÇÃO, 2002<br />
Categorias<br />
Estrutura<br />
da amostra<br />
Po<strong>de</strong>-se pagar o preço <strong>de</strong> certo grau<br />
<strong>de</strong> corrupção no governo <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que os<br />
problemas do país sejam solucionados<br />
Significância<br />
(3)<br />
Totalmente De Em Totalmente<br />
<strong>de</strong> acordo acordo <strong>de</strong>sacordo em <strong>de</strong>sacordo<br />
América Central e México (1) % <strong>de</strong> pessoas n=7,424 16,1 31,4 31,5 21,0 ..<br />
Região Andina % <strong>de</strong> pessoas n=5,238 11,3 32,2 37,6 18,9 ..<br />
Mercosul e Chile % <strong>de</strong> pessoas n=5,351 6,8 25,5 39,4 28,3 ..<br />
América Latina % <strong>de</strong> pessoas n=18,013 12,0 29,9 35,6 22,6 ..<br />
Sexo % Homens 49,6 50,3 49,9 49,0 49,9 ns<br />
% Mulheres 50,4 49,7 50,1 51,0 50,1<br />
Ida<strong>de</strong> % 16 a 29 anos 37,0 43,0 38,5 35,7 34,0 **<br />
% 30 a 64 anos 54,6 50,2 53,7 55,4 56,7<br />
% 65 a 99 anos 8,4 6,7 7,9 8,9 9,3<br />
Média <strong>de</strong> ida<strong>de</strong> 38,43 36,17 37,71 39,03 39,63 **<br />
Nível educativo % Sem estudos 8,1 11,9 8,4 7,2 7,2 **<br />
% 1 a 6 anos 33,8 34,7 35,8 31,8 33,8<br />
% 7 a 12 anos 41,6 38,4 42,0 43,3 40,3<br />
% Superior completa ou incompleta 16,4 14,9 13,7 17,7 18,7<br />
Média <strong>de</strong> anos <strong>de</strong> estudo 9,04 8,52 8,79 9,31 9,22 **<br />
Nível ecomômico (2) % Baixo 43,9 50,7 46,6 40,1 42,9 **<br />
% Médio 47,5 41,5 46,1 50,7 47,4<br />
% Alto 8,6 7,8 7,3 9,2 9,7<br />
Média <strong>de</strong> índice ecomômico 3,92 3,68 3,80 4,04 4,00 **<br />
Orientação Democrática % Democratas 42,8 29,7 31,9 48,8 55,0 **<br />
% Ambivalentes 30,5 47,9 38,6 23,8 21,1<br />
% Não <strong>de</strong>mocratas 26,7 22,4 29,5 27,4 23,8<br />
Notas:<br />
(1) Inclui República Dominicana.<br />
(2) Com base no índice econômico construído a partir da proprieda<strong>de</strong> artefatos e da educação do chefe <strong>de</strong> família. Este índice po<strong>de</strong> variar entre 0 e 10. Se o<br />
índice estiver entre 0 e 3,33 consi<strong>de</strong>ra-se nível econômico baixo, se estiver entre 3,34 e 6,66 consi<strong>de</strong>ra-se nível econômico médio e se estiver entre 6,67 e 10<br />
consi<strong>de</strong>ra-se nível econômico alto.<br />
(3) Indica-se com um “*”quando a medida <strong>de</strong> associação utilizada ou a Análise <strong>de</strong> Variância (ANOVA sigla em inglês) resultar significativa a 5%. Indica-se com<br />
“**”quando o resultado for significativo a 1%. Indica-se “ns “quando a prova não resultar significativa nem a 1% nem a 5%. Quando não for pertinente o cálculo<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> medida <strong>de</strong> associação ou da ANOVA, indica-se com “..”. Sobre provas realizadas em cada caso, consulte o compêndio estatístico.<br />
Fontes: Processamento <strong>de</strong> pergunta P23UF da Seção Proprietária do PNUD (pergunta p23uf: O/A senhor/a está totalmente <strong>de</strong> acordo, <strong>de</strong> acordo, em <strong>de</strong>sacordo<br />
ou totalmente em <strong>de</strong>sacordo com a seguinte afirmação “Po<strong>de</strong>-se pagar o preço <strong>de</strong> certo grau <strong>de</strong> corrupção no governo <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que os problemas do país sejam<br />
solucionados”), e <strong>de</strong> outras perguntas <strong>de</strong> caráter socioeconômico no Latinobarômetro 2002.<br />
102 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
REDES CLIENTELISTAS, 2002<br />
Nível <strong>de</strong> conhecimento (1) País (2)<br />
TABELA 21<br />
Baixo conhecimento <strong>de</strong> casos <strong>de</strong> clientelismo Brasil (23,9); Colômbia (16,3); Chile (16,0);<br />
Equador (24,4); El Salvador (23,3)<br />
Conhecimento intermediário <strong>de</strong> casos <strong>de</strong><br />
Argentina (32, 4); Bolívia (33,9); Costa Rica<br />
clientelismo (27,2); Honduras (36,7); Nicarágua (35,2);<br />
Panamá (27,4); Paraguai (34,0); Peru (32,2);<br />
Uruguai (32,3); Venezuela (31,8)<br />
Alto conhecimento <strong>de</strong> casos <strong>de</strong> clientelismo Guatemala (42,3); México (43,4);<br />
República Dominicana (53,1)<br />
Tradição <strong>de</strong>mocrática<br />
Proporção <strong>de</strong> pessoas que conhecem um ou<br />
mais casos <strong>de</strong> clientelismo<br />
Democracias mais velhas (3) 24,7<br />
Democracias mais novas 34,0<br />
Média América Latina 31,4<br />
Notas: n =19.366.<br />
(1) Pouco conhecimento: 25% ou menos dos consultados afirmaram conhecer um ou mais casos <strong>de</strong> privilégios.<br />
Conhecimento intermediário: entre 25% e 40% das pessoas afirmam conhecer um ou mais casos <strong>de</strong> privilégios. Alto<br />
conhecimento: mais <strong>de</strong> 40% das pessoas têm conhecimento.<br />
(2) A cifra entre parênteses <strong>de</strong>pois do país indica a proporção <strong>de</strong> pessoas que afirmaram conhecer um ou mais casos <strong>de</strong><br />
privilégios.<br />
(3) Democracias mais velhas: inclui Colômbia, Costa Rica e Venezuela.<br />
Fonte: Processamento da pergunta p7u da Seção Proprietária do PNUD (pergunta p7u:”O/A senhor/a conhece<br />
pessoalmente um caso <strong>de</strong> <strong>uma</strong> pessoa que tenha recebido privilégios por ser simpatizante do partido do governo”), no<br />
Latinobarômetro 2002.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
103
TRATADOS DA ONU, DA OIT E DA OEA: DIREITOS GERAIS E DIREITOS DE CATEGORIAS DE CIDADÃOS, 2002<br />
Número <strong>de</strong><br />
países sem<br />
Direito Tratado Ano ratificar Países sem ratificar<br />
TABELA 24<br />
Direitos gerais Pacto Internacional da ONU sobre Direitos Civis e Políticos 1966 0 -<br />
Pacto Internacional da ONU sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais 1966 0 -<br />
Convenção Americana sobre Direitos H<strong>uma</strong>nos, “Pacto <strong>de</strong> San José <strong>de</strong> Costa Rica” 1969 0 -<br />
Direitos trabalhistas Convenção 29 da OIT: Eliminação do Trabalho Forçado e Compulsivo 1930 1 Bolívia<br />
Convenção 87 da OIT: Liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> Associação e Proteção do Direito <strong>de</strong> Organização 1948 2 Brasil, El Salvador<br />
Convenção 98 da OIT: Direito à Organização e à Negociação Coletiva 1949 2 El Salvador, México<br />
Convenção 105 da OIT: Abolição do Trabalho Forçado 1957 0 -<br />
Direitos <strong>de</strong> mulheres Convenção 100 da OIT: Igualda<strong>de</strong> nas Remunerações 1951 0 -<br />
Convenção 111 da OIT: Discriminação no Emprego e no Trabalho 1958 0 -<br />
Convenção da ONU sobre a Eliminação <strong>de</strong> Todas as Formas <strong>de</strong> Discriminação contra as Mulheres 1979 0 -<br />
Convenção Interamericana <strong>de</strong> Prevenção, Castigo e Erradicação da Violência contra as Mulheres,<br />
“Convenção <strong>de</strong> Belém do Pará” 1994 0 -<br />
Direitos <strong>de</strong> indígenas Convenção Internacional sobre a Eliminação <strong>de</strong> Todas as Formas <strong>de</strong> Discriminação Racial (1965) 1965 1 Panamá<br />
e grupos étnicos Convenção da OIT 169 sobre Povos Indígenas e Tribais 1989 6 Chile, El Salvador,<br />
Nicarágua, Panamá,<br />
República Dominicana,<br />
Uruguai<br />
Direitos <strong>de</strong> menores Convenção da OIT 138 sobre Ida<strong>de</strong> Mínima 1973 2 México, Paraguai<br />
Convenção da ONU dos Direitos da Criança 1989 0 -<br />
Convenção da OIT 182 sobre Piores Formas do Trabalho Infantil 1999 3 Bolívia, Colômbia,<br />
Venezuela<br />
Notas: O hífen ( - ) indica que o dado não é aplicável. A informação sobre os direitos <strong>de</strong> indígenas e minorias étnicas está atualizada até 24 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 2002. O restante da informação está atualizado até 1 º <strong>de</strong> abril <strong>de</strong><br />
2003.<br />
Fontes: ONU 2003a, OIT 2003, e OEA 2003.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
113
DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS, 2000<br />
TABELA 25<br />
Direitos constitucionais<br />
País<br />
Constituição<br />
Direitos multiculturais<br />
Existência <strong>de</strong> direitos relacionados com o uso do idioma<br />
Argentina 1853/1994 Fracos Não, mas não existe idioma oficial<br />
Bolívia 1967/1994 Sim Não, mas não existe idioma oficial<br />
Brasil 1988 Não Não, o português é o idioma oficial<br />
Chile (*) 1980 Não Não, mas não existe idioma oficial<br />
Colômbia 1991 Sim Sim, o espanhol é o idioma oficial, mas as línguas<br />
indígenas e os dialetos são oficiais em seus territórios<br />
Costa Rica 1949 Não Não, o espanhol é o idioma oficial<br />
Equador 1998 Sim Sim, o espanhol é o idioma oficial, mas as línguas<br />
indígenas são para uso oficial restrito<br />
El Salvador 1983/1992 Não Não, mas as “línguas autóctones” são respeitadas<br />
Guatemala 1985 Sim Sim, as línguas indígenas têm status oficial<br />
nas áreas on<strong>de</strong> são faladas<br />
Honduras 1982 Não Não, o espanhol é o idioma oficial<br />
México 1917/1992 Sim Não, mas as línguas indígenas são fomentadas<br />
Nicarágua 1987/1995 Sim Sim, os idiomas das comunida<strong>de</strong>s da costa<br />
atlântica são oficiais nessas regiões<br />
Panamá 1972/78/83/93/94 Sim Não, mas as “línguas aborígenes” são<br />
conservadas e difundidas<br />
Paraguai 1992 Sim Sim, o guarani é um idioma oficial<br />
Peru 1993 Sim Sim, o espanhol é o idioma oficial, mas as línguas<br />
indígenas são <strong>de</strong> uso oficial nas áreas on<strong>de</strong><br />
predominam<br />
República Dominicana .. .. ..<br />
Uruguai 1967/97 Não Não<br />
Venezuela 1999 Sim Sim, as línguas indígenas são <strong>de</strong> uso oficial para<br />
os indígenas e <strong>de</strong>vem ser respeitadas em todo o território<br />
Notas: As datas das constituições se referem aos documentos originais e à última reforma ou emenda. Os direitos multiculturais referem-se ao fato <strong>de</strong> as<br />
múltiplas i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>s étnicas serem ou não reconhecidas pelo Estado. Os direitos apresentados neste quadro são consi<strong>de</strong>rados, às vezes, como direitos<br />
coletivos, e não estritamente direitos civis.<br />
(*) No Chile, a Lei Indígena N º19.253, <strong>de</strong> outubro <strong>de</strong> 1993, estabelece a promoção das culturas e idiomas indígenas e dos sistemas <strong>de</strong> educação intercultural<br />
bilíngüe (art.39), e garante o uso <strong>de</strong> línguas indígenas em processos judiciais (art.74).<br />
Fontes :OIT 2002b;Barié 2000,pp.42,572-574;Van Cott 2003,e Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Georgetown e OEA 2002.<br />
114 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO 1990-2000<br />
Participação na ativida<strong>de</strong> econômica<br />
1990 1995 2000<br />
TABELA 26<br />
Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres<br />
49,37 70,30 28,81 50,77 70,55 31,32 52,23 70,86 33,93<br />
Disparida<strong>de</strong> salarial por gênero<br />
(renda média nas áreas urbanas)<br />
Início dos anos 90 Meados dos anos 90 Fim dos anos 90<br />
PEA assalariados PEA assalariados PEA assalariados<br />
61,99 70,89 64,90 72,23 67,34 77,89<br />
Notas: Os dados sobre disparida<strong>de</strong> salarial por gênero representam a porcentagem da renda masculina recebida pelas mulheres. A coluna PEA (População<br />
Economicamente Ativa) compara diferenças da renda entre homens e mulheres no contexto da PEA global. A coluna “assalariados “compara as diferenças<br />
salariais entre homens e mulheres unicamente no contexto da população assalariada. As cifras regionais são a média ou termo médio <strong>de</strong> todos os casos em<br />
que existem dados para qualquer ano.<br />
Fontes: CEPAL 2001a, pp. 201-202, quadro 8; 2002b, pp. 201-202, quadro 8; e 2003, pp. 20-21, quadro 15.<br />
INCIDÊNCIA DO ABUSO DE MENORES NAS DIFERENTES REGIÕES DO MUNDO, 2000<br />
Região<br />
Crianças economicamente<br />
ativas (5-14 anos)<br />
número <strong>de</strong><br />
crianças<br />
(em milhões)<br />
proporção<br />
que trabalha<br />
(%)<br />
Crianças implicadas nas piores formas<br />
<strong>de</strong> trabalho infantil<br />
tráfico<br />
(em milhares)<br />
trabalho<br />
forçado e servil<br />
(em milhares)<br />
conflito<br />
armado (em<br />
milhares)<br />
prostituição<br />
e pornografia<br />
(em milhares)<br />
Economias <strong>de</strong>senvolvidas 2,5 2 .. .. 1 420 110<br />
Ásia e Pacífico 127,3 19 250 5.500 120 590 220<br />
África subsaariana 48,0 29 .. .. .. .. ..<br />
Oriente Médio e Norte da África 13,4 15 .. .. .. .. ..<br />
África .. .. 200 210 120 50 ..<br />
América Latina e Caribe 17,4 16 550 3 30 750 260<br />
TABELA 27<br />
ativida<strong>de</strong>s<br />
ilícitas (em<br />
milhares)<br />
Notas: A “proporção que trabalha” refere-se ao número <strong>de</strong> crianças que trabalham em relação ao número total <strong>de</strong> crianças. As cifras sobre crianças<br />
implicadas nas “piores formas <strong>de</strong> trabalho” são estimativas.<br />
Fontes: IPEC-SIMPOC 2002, p. 17, quadro 2, e p. 27, quadro 10.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
115
TRATADOS DA ONU E DA OEA SOBRE DIREITOS CIVIS<br />
FUNDAMENTAIS, 2003<br />
Número <strong>de</strong> países<br />
Tratado<br />
Ano sem ratificar<br />
TABELA 28<br />
Países<br />
sem ratificar<br />
Convenção da ONU contra 1984 2 Nicarágua,<br />
a tortura e outras formas<br />
República<br />
<strong>de</strong> tratamento e castigo cruéis,<br />
Dominicana<br />
in<strong>uma</strong>nos ou <strong>de</strong>gradantes<br />
Convenção Interamericana 1995 3 Bolívia,<br />
da OEA para prevenir e<br />
Honduras,<br />
castigar a tortura<br />
Nicarágua<br />
Protocolo da Convenção 1990 10 Argentina,<br />
Interamericana <strong>de</strong> Direitos H<strong>uma</strong>nos<br />
Bolívia,<br />
para abolir a pena <strong>de</strong> morte<br />
Chile,<br />
Colômbia,<br />
El Salvador,<br />
Guatemala,<br />
Honduras,<br />
México, Peru,<br />
República<br />
Dominicana<br />
Convenção Interamericana 1994 9 Brasil,<br />
sobre o Desaparecimento<br />
Colômbia,<br />
Forçoso <strong>de</strong> Pessoas<br />
Equador,<br />
El Salvador,<br />
Honduras,<br />
México,<br />
Nicarágua,<br />
Peru,<br />
República<br />
Dominicana<br />
Nota: A informação está atualizada a 1º <strong>de</strong> abril <strong>de</strong> 2003.<br />
Fontes: ONU 2003, e OEA 2003.<br />
116 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
TABELA 29<br />
HOMICÍDIOS DOLOSOS NA AMÉRICA LATINA E EM OUTRAS<br />
PARTES DO MUNDO, C.2000<br />
País<br />
Ano<br />
Argentina 2001 3.048 8,2<br />
Bolívia 2000 2.558 32,0<br />
Brasil 2001 39.618 23,0<br />
Chile 2001 699 4,5<br />
Colômbia 2000 29.555 70,0<br />
Costa Rica 1999 245 6,2<br />
Equador 1999 3.217 25,9<br />
El Salvador 2001 2.196 34,3<br />
Guatemala 1994 3.239 33,3<br />
Honduras 1998 9.241 154,0<br />
México 2000 13.829 14,0<br />
Nicarágua 1998 1.157 24,1<br />
Panamá 1998 54 2,0<br />
Paraguai 2001 890 15,6<br />
Peru 2001 1.298 5,0<br />
República Dominicana 1998 1.121 15,8<br />
Uruguai 2000 154 4,6<br />
Venezuela 2000 8.022 33,2<br />
América Latina c. 1997 109.135 25,1<br />
Referentes extra-regionais<br />
N° <strong>de</strong> mortes<br />
N° <strong>de</strong> mortes<br />
por 100.000<br />
habitantes<br />
Europa Oci<strong>de</strong>ntal c. 2000 4.519 1,4<br />
Mediterrâneo Oriental c. 1995-99 31.000 7,1<br />
Ásia do Sul e Oriental c. 1995-99 78.000 5,8<br />
África c. 1995-99 116.000 22,2<br />
Pacífico Oci<strong>de</strong>ntal c. 1995-99 59.000 5,1<br />
Total mundial c. 1995-99 521.000 8,8<br />
Nota: As cifras regionais são a soma <strong>de</strong> todos os casos em que existem dados disponíveis, e refletem <strong>uma</strong> média nãopon<strong>de</strong>rada,<br />
para América Latina correspon<strong>de</strong> o ano 1997. O número <strong>de</strong> homicídios para El Salvador e Honduras é estimado.<br />
A Europa Oci<strong>de</strong>ntal não inclui Luxemburgo nem o Reino Unido.<br />
Fontes: Interpol 2004, UNODC 2002; Krug 2002, pp. 274, 308-312. ONU, e ONU, Divisão <strong>de</strong> População, Departamento <strong>de</strong><br />
Assuntos Econômicos e Sociais 2001 e 2002.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
117
RECURSOS FINANCEIROS E HUMANOS DEDICADOS AO SISTEMA<br />
DE ADMINISTRAÇÃO DE JUSTIÇA, 2001<br />
Recursos financeiros<br />
Número <strong>de</strong> juízes<br />
Número <strong>de</strong> <strong>de</strong>fensores públicos<br />
TABELA 30<br />
País<br />
Ano<br />
% orçamento<br />
nacional<br />
Ano<br />
Número <strong>de</strong> juízes<br />
por 100.000<br />
habitantes<br />
Ano<br />
Número <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>fensores<br />
públicos<br />
Número <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>fensores públicos<br />
por 100.000<br />
habitantes<br />
Argentina 2000 3,2 2000 11,1 2001 857 2,3<br />
Bolívia 2001 1,5 2002 9,1 2001 82 0,9<br />
Brasil 2000 2,1 2000 3,6 2001 3000 1,7<br />
Chile 2002 0,9 2002 5,0 2004 417 2,7<br />
Colômbia 2002 1,2 2002 7,4 2000 1.126 2,7<br />
Costa Rica 2001 5,2 2001 16,0 2001 128 3,2<br />
Equador 2001 1,5 2002 5,6 2001 33 0,3<br />
El Salvador 2002 4,5 2002 9,2 2001 274 4,3<br />
Guatemala 2002 3,4 2002 6,0 2001 92 0,8<br />
Honduras 2002 7,2 2002 8,2 2002 200 3,0<br />
México 2000 1,0 2000 0,7 2001 686 0,7<br />
Nicarágua 2001 2,9 2001 6,0 2001 15 0,3<br />
Panamá 2000 2,6 2002 8,0 2001 48 1,7<br />
Paraguai 2001 1,6 2001 10,5 2001 200 3,6<br />
Peru 2002 1,5 2002 6,0 2001 263 1,0<br />
Rep. Dominicana 2001 1,4 2001 7,0 2001 39 0,5<br />
Uruguai 2001 1,6 2000 15,5 2001 74 2,2<br />
Venezuela 2002 1,4 2000 6,1 1998 159 0,7<br />
América Latina 2,5 4,9 1,5<br />
Notas: O número <strong>de</strong> juízes para o México refere-se unicamente ao nível fe<strong>de</strong>ral. Os dados sobre advogados públicos para a Argentina referem-se ao total <strong>de</strong><br />
funcionários e para o Brasil são estimados. Os dados regionais para a porcentagem do orçamento não são pon<strong>de</strong>rados; para o número <strong>de</strong> Juízes e Defesores<br />
públicos a média é pon<strong>de</strong>rada.<br />
Fontes: CEJA,2003a e 2003b; Banco Mundial, Legal and Judicial Reform Practice Group 2003;<br />
118 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
TABELA 31<br />
POPULAÇÃO CARCERÁRIA, PRESOS SEM CONDENAÇÃO E SUPERLOTAÇÃO, 2002<br />
Total <strong>de</strong> população<br />
Presos sem<br />
carcerária<br />
processo e presos<br />
(inclui presos<br />
sem con<strong>de</strong>nação<br />
processados<br />
Taxa <strong>de</strong> população<br />
(porcentagem<br />
Nível <strong>de</strong> ocupação<br />
País<br />
Ano<br />
e presos sem<br />
con<strong>de</strong>nação)<br />
carcerária (por<br />
100.000 habitantes)<br />
da população<br />
carcerária)<br />
(sobre a base da<br />
capacida<strong>de</strong> oficial)<br />
Argentina 1999 38.604 107 55,2 119,9<br />
Bolívia 1999 8.315 102 36,0 162,5<br />
Brasil 2002 240.107 137 33,7 132,0<br />
Chile 2002 33.098 204 40,4 134,3<br />
Colômbia 2001 54.034 126 41,1 136,5<br />
Costa Rica 1999 8.526 229 39,5 109,6<br />
Equador 2002 7.716 59 69,9 115,0<br />
El Salvador 2002 10.278 158 49,7 167,5<br />
Guatemala 1999 8.460 71 60,9 112,9<br />
Honduras 2002 11.502 172 78,5 207,6<br />
México 2000 154.765 156 41,2 127,8<br />
Nicarágua 1999 7.198 143 30,8 113,0<br />
Panamá 2002 10.423 359 55,3 136,5<br />
Paraguai 1999 4.088 75 92,7 151,0<br />
Peru 2002 27.493 104 67,2 137,8<br />
República Dominicana 2001 15.341 178 64,5 175,3<br />
Uruguai 2002 5.629 166 72,5 150,8<br />
Venezuela 2000 15.107 62 57,5 97,2<br />
América Latina c. 2002 36.705 145 54,8 138,2<br />
Referente extra-regional<br />
Estados Unidos 2001 1.962.220 686 18,8 106,4<br />
Nota: As cifras regionais são a média dos casos.A populación presa total para América Latina é <strong>de</strong> 660.684, a populaçao regional <strong>de</strong> 508 milhoes para 2002.<br />
Fontes: Centro Internacional para Estudos Penitenciários,2003. Os dados sobre o nível <strong>de</strong> ocupação para a Argentina foram retirados <strong>de</strong> CELS<br />
2001,cap.2,fig.2.4,e correspon<strong>de</strong>m ao ano 2000.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
119
TABELA 32<br />
LIBERDADE DE IMPRENSA,<br />
2001-2002<br />
País<br />
Freedom<br />
House<br />
2001<br />
Repórteres<br />
sem Fronteiras<br />
2001/2002<br />
Argentina 39 12,0<br />
Bolívia 30 14,5<br />
Brasil 38 18,8<br />
Chile 22 6,5<br />
Colômbia 63 40,8<br />
Costa Rica 14 4,3<br />
Equador 41 5,5<br />
El Salvador 38 8,8<br />
Guatemala 58 27,3<br />
Honduras 51 ..<br />
México 38 24,8<br />
Nicarágua 40 ..<br />
Panamá 34 15,5<br />
Paraguai 55 8,5<br />
Peru 35 9,5<br />
Rep. Dominicana 33 ..<br />
Uruguai 30 6,0<br />
Venezuela 68 25,0<br />
América Latina 40,4 15,2<br />
MORTE DE JORNALISTAS,<br />
1993-2002<br />
TABELA 33<br />
País 1993-1997 1998-2002<br />
Argentina 1 1<br />
Bolívia 0 1<br />
Brasil 6 4<br />
Chile 0 0<br />
Colômbia 13 18<br />
Costa Rica 0 1<br />
Equador 0 0<br />
El Salvador 1 0<br />
Guatemala 2 2<br />
Honduras 1 0<br />
México 5 3<br />
Nicarágua 0 0<br />
Panamá 0 0<br />
Paraguai 0 1<br />
Peru 1 0<br />
Rep. Dominicana 1 0<br />
Uruguai 0 1<br />
Venezuela 1 1<br />
Região<br />
América Latina 32 33<br />
Europa Oci<strong>de</strong>ntal 1 2<br />
Notas: As escalas <strong>de</strong> liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> imprensa da Freedom<br />
House e <strong>de</strong> Repórteres sem Fronteiras vão <strong>de</strong> 0 a 100, as<br />
cifras mais baixas indicam maior grau <strong>de</strong> liberda<strong>de</strong>. A informação<br />
<strong>de</strong> Repórteres sem Fronteiras refere-se ao período<br />
setembro 2001-outubro 2002.Os dois pontos seguidos<br />
(..) indicam que a informação não está disponível.<br />
Fontes: Karlekar 2003, e Repórteres sem Fronteiras 2003.<br />
Nota: Os índices me<strong>de</strong>m unicamente o número <strong>de</strong> casos<br />
claramente confirmados <strong>de</strong> jornalistas assassinados no<br />
cumprimento do <strong>de</strong>ver, seja por represália direta por seu<br />
trabalho ou por fogo cruzado.<br />
Fonte: CPI 2003.<br />
120 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
DIREITO AO ACESSO À INFORMAÇÃO<br />
PÚBLICA E HABEAS DATA, 2002<br />
Habeas data<br />
TABELA 34<br />
País<br />
Direito ao acesso à<br />
informação pública<br />
Opção<br />
legal<br />
Ano <strong>de</strong> adoção<br />
Argentina Sim Sim 1994<br />
Bolívia Não Não -<br />
Brasil Sim Sim 1988<br />
Chile Sim, mas ambígua Não -<br />
Colômbia Sim Sim 1997<br />
Costa Rica Não Não -<br />
Equador Não Sim 1996<br />
El Salvador Não Não -<br />
Guatemala Sim Sim 1995<br />
Honduras Sim Não -<br />
México Sim Sim 2002<br />
Nicarágua Sim, mas ambígua Sim 1995<br />
Panamá Sim Sim 2002<br />
Paraguai Não Sim 1992<br />
Peru Sim Sim 1993<br />
Rep. Dominicana Sim Não -<br />
Uruguai Não Não -<br />
Venezuela Sim Sim 1999<br />
Notas: A expressão “direito ao acesso à informação pública” refere-se ao direito a obter informação <strong>de</strong> fontes estatais<br />
sobre a administração dos assuntos públicos. A expressão “Habeas data” refere-se a <strong>uma</strong> ação que garanta o acesso<br />
<strong>de</strong> qualquer indivíduo à informação existente em bases <strong>de</strong> dados públicas ou privadas, referente à sua pessoa ou à<br />
sua proprieda<strong>de</strong> e, caso seja necessário, a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> atualizar, corrigir, remover ou preservar tal informação<br />
com o objetivo <strong>de</strong> proteger certos direitos fundamentais. Fontes: OEA-CIDH, Relatório para a Liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> Expressão<br />
2001,cap.3,quadro 1; e Guadamuz 2000 e 2001.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
121
TRATADOS DA ONU, DA OIT E DA OEA: DIREITOS GERAIS E DIREITOS DE CATEGORIAS DE CIDADÃOS, 2002<br />
Número <strong>de</strong><br />
países sem<br />
Direito Tratado Ano ratificar Países sem ratificar<br />
TABELA 24<br />
Direitos gerais Pacto Internacional da ONU sobre Direitos Civis e Políticos 1966 0 -<br />
Pacto Internacional da ONU sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais 1966 0 -<br />
Convenção Americana sobre Direitos H<strong>uma</strong>nos, “Pacto <strong>de</strong> San José <strong>de</strong> Costa Rica” 1969 0 -<br />
Direitos trabalhistas Convenção 29 da OIT: Eliminação do Trabalho Forçado e Compulsivo 1930 1 Bolívia<br />
Convenção 87 da OIT: Liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> Associação e Proteção do Direito <strong>de</strong> Organização 1948 2 Brasil, El Salvador<br />
Convenção 98 da OIT: Direito à Organização e à Negociação Coletiva 1949 2 El Salvador, México<br />
Convenção 105 da OIT: Abolição do Trabalho Forçado 1957 0 -<br />
Direitos <strong>de</strong> mulheres Convenção 100 da OIT: Igualda<strong>de</strong> nas Remunerações 1951 0 -<br />
Convenção 111 da OIT: Discriminação no Emprego e no Trabalho 1958 0 -<br />
Convenção da ONU sobre a Eliminação <strong>de</strong> Todas as Formas <strong>de</strong> Discriminação contra as Mulheres 1979 0 -<br />
Convenção Interamericana <strong>de</strong> Prevenção, Castigo e Erradicação da Violência contra as Mulheres,<br />
“Convenção <strong>de</strong> Belém do Pará” 1994 0 -<br />
Direitos <strong>de</strong> indígenas Convenção Internacional sobre a Eliminação <strong>de</strong> Todas as Formas <strong>de</strong> Discriminação Racial (1965) 1965 1 Panamá<br />
e grupos étnicos Convenção da OIT 169 sobre Povos Indígenas e Tribais 1989 6 Chile, El Salvador,<br />
Nicarágua, Panamá,<br />
República Dominicana,<br />
Uruguai<br />
Direitos <strong>de</strong> menores Convenção da OIT 138 sobre Ida<strong>de</strong> Mínima 1973 2 México, Paraguai<br />
Convenção da ONU dos Direitos da Criança 1989 0 -<br />
Convenção da OIT 182 sobre Piores Formas do Trabalho Infantil 1999 3 Bolívia, Colômbia,<br />
Venezuela<br />
Notas: O hífen ( - ) indica que o dado não é aplicável. A informação sobre os direitos <strong>de</strong> indígenas e minorias étnicas está atualizada até 24 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 2002. O restante da informação está atualizado até 1 º <strong>de</strong> abril <strong>de</strong><br />
2003.<br />
Fontes: ONU 2003a, OIT 2003, e OEA 2003.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
113
DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS, 2000<br />
TABELA 25<br />
Direitos constitucionais<br />
País<br />
Constituição<br />
Direitos multiculturais<br />
Existência <strong>de</strong> direitos relacionados com o uso do idioma<br />
Argentina 1853/1994 Fracos Não, mas não existe idioma oficial<br />
Bolívia 1967/1994 Sim Não, mas não existe idioma oficial<br />
Brasil 1988 Não Não, o português é o idioma oficial<br />
Chile (*) 1980 Não Não, mas não existe idioma oficial<br />
Colômbia 1991 Sim Sim, o espanhol é o idioma oficial, mas as línguas<br />
indígenas e os dialetos são oficiais em seus territórios<br />
Costa Rica 1949 Não Não, o espanhol é o idioma oficial<br />
Equador 1998 Sim Sim, o espanhol é o idioma oficial, mas as línguas<br />
indígenas são para uso oficial restrito<br />
El Salvador 1983/1992 Não Não, mas as “línguas autóctones” são respeitadas<br />
Guatemala 1985 Sim Sim, as línguas indígenas têm status oficial<br />
nas áreas on<strong>de</strong> são faladas<br />
Honduras 1982 Não Não, o espanhol é o idioma oficial<br />
México 1917/1992 Sim Não, mas as línguas indígenas são fomentadas<br />
Nicarágua 1987/1995 Sim Sim, os idiomas das comunida<strong>de</strong>s da costa<br />
atlântica são oficiais nessas regiões<br />
Panamá 1972/78/83/93/94 Sim Não, mas as “línguas aborígenes” são<br />
conservadas e difundidas<br />
Paraguai 1992 Sim Sim, o guarani é um idioma oficial<br />
Peru 1993 Sim Sim, o espanhol é o idioma oficial, mas as línguas<br />
indígenas são <strong>de</strong> uso oficial nas áreas on<strong>de</strong><br />
predominam<br />
República Dominicana .. .. ..<br />
Uruguai 1967/97 Não Não<br />
Venezuela 1999 Sim Sim, as línguas indígenas são <strong>de</strong> uso oficial para<br />
os indígenas e <strong>de</strong>vem ser respeitadas em todo o território<br />
Notas: As datas das constituições se referem aos documentos originais e à última reforma ou emenda. Os direitos multiculturais referem-se ao fato <strong>de</strong> as<br />
múltiplas i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>s étnicas serem ou não reconhecidas pelo Estado. Os direitos apresentados neste quadro são consi<strong>de</strong>rados, às vezes, como direitos<br />
coletivos, e não estritamente direitos civis.<br />
(*) No Chile, a Lei Indígena N º19.253, <strong>de</strong> outubro <strong>de</strong> 1993, estabelece a promoção das culturas e idiomas indígenas e dos sistemas <strong>de</strong> educação intercultural<br />
bilíngüe (art.39), e garante o uso <strong>de</strong> línguas indígenas em processos judiciais (art.74).<br />
Fontes :OIT 2002b;Barié 2000,pp.42,572-574;Van Cott 2003,e Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Georgetown e OEA 2002.<br />
114 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO 1990-2000<br />
Participação na ativida<strong>de</strong> econômica<br />
1990 1995 2000<br />
TABELA 26<br />
Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres Total Homens Mulheres<br />
49,37 70,30 28,81 50,77 70,55 31,32 52,23 70,86 33,93<br />
Disparida<strong>de</strong> salarial por gênero<br />
(renda média nas áreas urbanas)<br />
Início dos anos 90 Meados dos anos 90 Fim dos anos 90<br />
PEA assalariados PEA assalariados PEA assalariados<br />
61,99 70,89 64,90 72,23 67,34 77,89<br />
Notas: Os dados sobre disparida<strong>de</strong> salarial por gênero representam a porcentagem da renda masculina recebida pelas mulheres. A coluna PEA (População<br />
Economicamente Ativa) compara diferenças da renda entre homens e mulheres no contexto da PEA global. A coluna “assalariados “compara as diferenças<br />
salariais entre homens e mulheres unicamente no contexto da população assalariada. As cifras regionais são a média ou termo médio <strong>de</strong> todos os casos em<br />
que existem dados para qualquer ano.<br />
Fontes: CEPAL 2001a, pp. 201-202, quadro 8; 2002b, pp. 201-202, quadro 8; e 2003, pp. 20-21, quadro 15.<br />
INCIDÊNCIA DO ABUSO DE MENORES NAS DIFERENTES REGIÕES DO MUNDO, 2000<br />
Região<br />
Crianças economicamente<br />
ativas (5-14 anos)<br />
número <strong>de</strong><br />
crianças<br />
(em milhões)<br />
proporção<br />
que trabalha<br />
(%)<br />
Crianças implicadas nas piores formas<br />
<strong>de</strong> trabalho infantil<br />
tráfico<br />
(em milhares)<br />
trabalho<br />
forçado e servil<br />
(em milhares)<br />
conflito<br />
armado (em<br />
milhares)<br />
prostituição<br />
e pornografia<br />
(em milhares)<br />
Economias <strong>de</strong>senvolvidas 2,5 2 .. .. 1 420 110<br />
Ásia e Pacífico 127,3 19 250 5.500 120 590 220<br />
África subsaariana 48,0 29 .. .. .. .. ..<br />
Oriente Médio e Norte da África 13,4 15 .. .. .. .. ..<br />
África .. .. 200 210 120 50 ..<br />
América Latina e Caribe 17,4 16 550 3 30 750 260<br />
TABELA 27<br />
ativida<strong>de</strong>s<br />
ilícitas (em<br />
milhares)<br />
Notas: A “proporção que trabalha” refere-se ao número <strong>de</strong> crianças que trabalham em relação ao número total <strong>de</strong> crianças. As cifras sobre crianças<br />
implicadas nas “piores formas <strong>de</strong> trabalho” são estimativas.<br />
Fontes: IPEC-SIMPOC 2002, p. 17, quadro 2, e p. 27, quadro 10.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
115
TRATADOS DA ONU E DA OEA SOBRE DIREITOS CIVIS<br />
FUNDAMENTAIS, 2003<br />
Número <strong>de</strong> países<br />
Tratado<br />
Ano sem ratificar<br />
TABELA 28<br />
Países<br />
sem ratificar<br />
Convenção da ONU contra 1984 2 Nicarágua,<br />
a tortura e outras formas<br />
República<br />
<strong>de</strong> tratamento e castigo cruéis,<br />
Dominicana<br />
in<strong>uma</strong>nos ou <strong>de</strong>gradantes<br />
Convenção Interamericana 1995 3 Bolívia,<br />
da OEA para prevenir e<br />
Honduras,<br />
castigar a tortura<br />
Nicarágua<br />
Protocolo da Convenção 1990 10 Argentina,<br />
Interamericana <strong>de</strong> Direitos H<strong>uma</strong>nos<br />
Bolívia,<br />
para abolir a pena <strong>de</strong> morte<br />
Chile,<br />
Colômbia,<br />
El Salvador,<br />
Guatemala,<br />
Honduras,<br />
México, Peru,<br />
República<br />
Dominicana<br />
Convenção Interamericana 1994 9 Brasil,<br />
sobre o Desaparecimento<br />
Colômbia,<br />
Forçoso <strong>de</strong> Pessoas<br />
Equador,<br />
El Salvador,<br />
Honduras,<br />
México,<br />
Nicarágua,<br />
Peru,<br />
República<br />
Dominicana<br />
Nota: A informação está atualizada a 1º <strong>de</strong> abril <strong>de</strong> 2003.<br />
Fontes: ONU 2003, e OEA 2003.<br />
116 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
TABELA 29<br />
HOMICÍDIOS DOLOSOS NA AMÉRICA LATINA E EM OUTRAS<br />
PARTES DO MUNDO, C.2000<br />
País<br />
Ano<br />
Argentina 2001 3.048 8,2<br />
Bolívia 2000 2.558 32,0<br />
Brasil 2001 39.618 23,0<br />
Chile 2001 699 4,5<br />
Colômbia 2000 29.555 70,0<br />
Costa Rica 1999 245 6,2<br />
Equador 1999 3.217 25,9<br />
El Salvador 2001 2.196 34,3<br />
Guatemala 1994 3.239 33,3<br />
Honduras 1998 9.241 154,0<br />
México 2000 13.829 14,0<br />
Nicarágua 1998 1.157 24,1<br />
Panamá 1998 54 2,0<br />
Paraguai 2001 890 15,6<br />
Peru 2001 1.298 5,0<br />
República Dominicana 1998 1.121 15,8<br />
Uruguai 2000 154 4,6<br />
Venezuela 2000 8.022 33,2<br />
América Latina c. 1997 109.135 25,1<br />
Referentes extra-regionais<br />
N° <strong>de</strong> mortes<br />
N° <strong>de</strong> mortes<br />
por 100.000<br />
habitantes<br />
Europa Oci<strong>de</strong>ntal c. 2000 4.519 1,4<br />
Mediterrâneo Oriental c. 1995-99 31.000 7,1<br />
Ásia do Sul e Oriental c. 1995-99 78.000 5,8<br />
África c. 1995-99 116.000 22,2<br />
Pacífico Oci<strong>de</strong>ntal c. 1995-99 59.000 5,1<br />
Total mundial c. 1995-99 521.000 8,8<br />
Nota: As cifras regionais são a soma <strong>de</strong> todos os casos em que existem dados disponíveis, e refletem <strong>uma</strong> média nãopon<strong>de</strong>rada,<br />
para América Latina correspon<strong>de</strong> o ano 1997. O número <strong>de</strong> homicídios para El Salvador e Honduras é estimado.<br />
A Europa Oci<strong>de</strong>ntal não inclui Luxemburgo nem o Reino Unido.<br />
Fontes: Interpol 2004, UNODC 2002; Krug 2002, pp. 274, 308-312. ONU, e ONU, Divisão <strong>de</strong> População, Departamento <strong>de</strong><br />
Assuntos Econômicos e Sociais 2001 e 2002.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
117
RECURSOS FINANCEIROS E HUMANOS DEDICADOS AO SISTEMA<br />
DE ADMINISTRAÇÃO DE JUSTIÇA, 2001<br />
Recursos financeiros<br />
Número <strong>de</strong> juízes<br />
Número <strong>de</strong> <strong>de</strong>fensores públicos<br />
TABELA 30<br />
País<br />
Ano<br />
% orçamento<br />
nacional<br />
Ano<br />
Número <strong>de</strong> juízes<br />
por 100.000<br />
habitantes<br />
Ano<br />
Número <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>fensores<br />
públicos<br />
Número <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>fensores públicos<br />
por 100.000<br />
habitantes<br />
Argentina 2000 3,2 2000 11,1 2001 857 2,3<br />
Bolívia 2001 1,5 2002 9,1 2001 82 0,9<br />
Brasil 2000 2,1 2000 3,6 2001 3000 1,7<br />
Chile 2002 0,9 2002 5,0 2004 417 2,7<br />
Colômbia 2002 1,2 2002 7,4 2000 1.126 2,7<br />
Costa Rica 2001 5,2 2001 16,0 2001 128 3,2<br />
Equador 2001 1,5 2002 5,6 2001 33 0,3<br />
El Salvador 2002 4,5 2002 9,2 2001 274 4,3<br />
Guatemala 2002 3,4 2002 6,0 2001 92 0,8<br />
Honduras 2002 7,2 2002 8,2 2002 200 3,0<br />
México 2000 1,0 2000 0,7 2001 686 0,7<br />
Nicarágua 2001 2,9 2001 6,0 2001 15 0,3<br />
Panamá 2000 2,6 2002 8,0 2001 48 1,7<br />
Paraguai 2001 1,6 2001 10,5 2001 200 3,6<br />
Peru 2002 1,5 2002 6,0 2001 263 1,0<br />
Rep. Dominicana 2001 1,4 2001 7,0 2001 39 0,5<br />
Uruguai 2001 1,6 2000 15,5 2001 74 2,2<br />
Venezuela 2002 1,4 2000 6,1 1998 159 0,7<br />
América Latina 2,5 4,9 1,5<br />
Notas: O número <strong>de</strong> juízes para o México refere-se unicamente ao nível fe<strong>de</strong>ral. Os dados sobre advogados públicos para a Argentina referem-se ao total <strong>de</strong><br />
funcionários e para o Brasil são estimados. Os dados regionais para a porcentagem do orçamento não são pon<strong>de</strong>rados; para o número <strong>de</strong> Juízes e Defesores<br />
públicos a média é pon<strong>de</strong>rada.<br />
Fontes: CEJA,2003a e 2003b; Banco Mundial, Legal and Judicial Reform Practice Group 2003;<br />
118 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
TABELA 31<br />
POPULAÇÃO CARCERÁRIA, PRESOS SEM CONDENAÇÃO E SUPERLOTAÇÃO, 2002<br />
Total <strong>de</strong> população<br />
Presos sem<br />
carcerária<br />
processo e presos<br />
(inclui presos<br />
sem con<strong>de</strong>nação<br />
processados<br />
Taxa <strong>de</strong> população<br />
(porcentagem<br />
Nível <strong>de</strong> ocupação<br />
País<br />
Ano<br />
e presos sem<br />
con<strong>de</strong>nação)<br />
carcerária (por<br />
100.000 habitantes)<br />
da população<br />
carcerária)<br />
(sobre a base da<br />
capacida<strong>de</strong> oficial)<br />
Argentina 1999 38.604 107 55,2 119,9<br />
Bolívia 1999 8.315 102 36,0 162,5<br />
Brasil 2002 240.107 137 33,7 132,0<br />
Chile 2002 33.098 204 40,4 134,3<br />
Colômbia 2001 54.034 126 41,1 136,5<br />
Costa Rica 1999 8.526 229 39,5 109,6<br />
Equador 2002 7.716 59 69,9 115,0<br />
El Salvador 2002 10.278 158 49,7 167,5<br />
Guatemala 1999 8.460 71 60,9 112,9<br />
Honduras 2002 11.502 172 78,5 207,6<br />
México 2000 154.765 156 41,2 127,8<br />
Nicarágua 1999 7.198 143 30,8 113,0<br />
Panamá 2002 10.423 359 55,3 136,5<br />
Paraguai 1999 4.088 75 92,7 151,0<br />
Peru 2002 27.493 104 67,2 137,8<br />
República Dominicana 2001 15.341 178 64,5 175,3<br />
Uruguai 2002 5.629 166 72,5 150,8<br />
Venezuela 2000 15.107 62 57,5 97,2<br />
América Latina c. 2002 36.705 145 54,8 138,2<br />
Referente extra-regional<br />
Estados Unidos 2001 1.962.220 686 18,8 106,4<br />
Nota: As cifras regionais são a média dos casos.A populación presa total para América Latina é <strong>de</strong> 660.684, a populaçao regional <strong>de</strong> 508 milhoes para 2002.<br />
Fontes: Centro Internacional para Estudos Penitenciários,2003. Os dados sobre o nível <strong>de</strong> ocupação para a Argentina foram retirados <strong>de</strong> CELS<br />
2001,cap.2,fig.2.4,e correspon<strong>de</strong>m ao ano 2000.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
119
TABELA 32<br />
LIBERDADE DE IMPRENSA,<br />
2001-2002<br />
País<br />
Freedom<br />
House<br />
2001<br />
Repórteres<br />
sem Fronteiras<br />
2001/2002<br />
Argentina 39 12,0<br />
Bolívia 30 14,5<br />
Brasil 38 18,8<br />
Chile 22 6,5<br />
Colômbia 63 40,8<br />
Costa Rica 14 4,3<br />
Equador 41 5,5<br />
El Salvador 38 8,8<br />
Guatemala 58 27,3<br />
Honduras 51 ..<br />
México 38 24,8<br />
Nicarágua 40 ..<br />
Panamá 34 15,5<br />
Paraguai 55 8,5<br />
Peru 35 9,5<br />
Rep. Dominicana 33 ..<br />
Uruguai 30 6,0<br />
Venezuela 68 25,0<br />
América Latina 40,4 15,2<br />
MORTE DE JORNALISTAS,<br />
1993-2002<br />
TABELA 33<br />
País 1993-1997 1998-2002<br />
Argentina 1 1<br />
Bolívia 0 1<br />
Brasil 6 4<br />
Chile 0 0<br />
Colômbia 13 18<br />
Costa Rica 0 1<br />
Equador 0 0<br />
El Salvador 1 0<br />
Guatemala 2 2<br />
Honduras 1 0<br />
México 5 3<br />
Nicarágua 0 0<br />
Panamá 0 0<br />
Paraguai 0 1<br />
Peru 1 0<br />
Rep. Dominicana 1 0<br />
Uruguai 0 1<br />
Venezuela 1 1<br />
Região<br />
América Latina 32 33<br />
Europa Oci<strong>de</strong>ntal 1 2<br />
Notas: As escalas <strong>de</strong> liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> imprensa da Freedom<br />
House e <strong>de</strong> Repórteres sem Fronteiras vão <strong>de</strong> 0 a 100, as<br />
cifras mais baixas indicam maior grau <strong>de</strong> liberda<strong>de</strong>. A informação<br />
<strong>de</strong> Repórteres sem Fronteiras refere-se ao período<br />
setembro 2001-outubro 2002.Os dois pontos seguidos<br />
(..) indicam que a informação não está disponível.<br />
Fontes: Karlekar 2003, e Repórteres sem Fronteiras 2003.<br />
Nota: Os índices me<strong>de</strong>m unicamente o número <strong>de</strong> casos<br />
claramente confirmados <strong>de</strong> jornalistas assassinados no<br />
cumprimento do <strong>de</strong>ver, seja por represália direta por seu<br />
trabalho ou por fogo cruzado.<br />
Fonte: CPI 2003.<br />
120 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
DIREITO AO ACESSO À INFORMAÇÃO<br />
PÚBLICA E HABEAS DATA, 2002<br />
Habeas data<br />
TABELA 34<br />
País<br />
Direito ao acesso à<br />
informação pública<br />
Opção<br />
legal<br />
Ano <strong>de</strong> adoção<br />
Argentina Sim Sim 1994<br />
Bolívia Não Não -<br />
Brasil Sim Sim 1988<br />
Chile Sim, mas ambígua Não -<br />
Colômbia Sim Sim 1997<br />
Costa Rica Não Não -<br />
Equador Não Sim 1996<br />
El Salvador Não Não -<br />
Guatemala Sim Sim 1995<br />
Honduras Sim Não -<br />
México Sim Sim 2002<br />
Nicarágua Sim, mas ambígua Sim 1995<br />
Panamá Sim Sim 2002<br />
Paraguai Não Sim 1992<br />
Peru Sim Sim 1993<br />
Rep. Dominicana Sim Não -<br />
Uruguai Não Não -<br />
Venezuela Sim Sim 1999<br />
Notas: A expressão “direito ao acesso à informação pública” refere-se ao direito a obter informação <strong>de</strong> fontes estatais<br />
sobre a administração dos assuntos públicos. A expressão “Habeas data” refere-se a <strong>uma</strong> ação que garanta o acesso<br />
<strong>de</strong> qualquer indivíduo à informação existente em bases <strong>de</strong> dados públicas ou privadas, referente à sua pessoa ou à<br />
sua proprieda<strong>de</strong> e, caso seja necessário, a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> atualizar, corrigir, remover ou preservar tal informação<br />
com o objetivo <strong>de</strong> proteger certos direitos fundamentais. Fontes: OEA-CIDH, Relatório para a Liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> Expressão<br />
2001,cap.3,quadro 1; e Guadamuz 2000 e 2001.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
121
quadro 29<br />
Cidadania social<br />
Cidadãos pobres e <strong>de</strong>siguais<br />
Este é um problema em todos os lugares. Vimos que é inerente à dimensão<br />
burocrática do Estado. É mais severo e sistemático quando o “sujeito” <strong>de</strong>ssas<br />
relações está em situação <strong>de</strong> pobreza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> ampla e severa. Esses<br />
males cultivam o autoritarismo social, amplamente praticado na América<br />
Latina por ricos e po<strong>de</strong>rosos, e repercutem na maneira em que as burocracias<br />
do Estado tratam muitos indivíduos. Essa é, acredito, outra dimensão crucial<br />
da qualida<strong>de</strong> da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>; na América Latina, com suas profundas e persistentes<br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s, essa dimensão é <strong>uma</strong> das mais <strong>de</strong>ficientes.<br />
Guillermo O’Donnell, texto elaborado para o PRODDAL, 2002c.<br />
A cidadania social refere-se aos aspectos<br />
da vida dos cidadãos relacionados com<br />
o potencial para <strong>de</strong>senvolver suas capacida<strong>de</strong>s<br />
básicas. Diferentemente dos outros tipos<br />
<strong>de</strong> cidadania, a cidadania social nem sempre<br />
tem <strong>uma</strong> clara base legal nas constituições<br />
e legislações nacionais, e sua aceitação internacional,<br />
mediante convenções ou tratados,<br />
é menos difundida. 66 No entanto, a ação<br />
constante da socieda<strong>de</strong> civil possibilitou<br />
avançar não apenas no <strong>de</strong>bate como também<br />
na permanente mobilização para conseguir<br />
que a cidadania social seja um efetivo<br />
componente da cidadania integral.<br />
Debate-se, em âmbitos acadêmicos e políticos,<br />
acerca dos conteúdos da cidadania<br />
social. Surgiu <strong>de</strong>sses <strong>de</strong>bates um certo consenso<br />
a respeito dos componentes básicos<br />
<strong>de</strong>ssa cidadania. Nesse sentido, a contribuição<br />
dada pelos relatórios <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
h<strong>uma</strong>no 67 foi importante.<br />
Os direitos à saú<strong>de</strong> e à educação são consi<strong>de</strong>rados<br />
componentes básicos da cidadania<br />
social. Por sua vez, a falta <strong>de</strong> emprego, a<br />
pobreza e a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> foram amplamente<br />
reconhecidas como aspectos que obstaculizam<br />
a integração dos indivíduos na socieda<strong>de</strong>.<br />
Em condições <strong>de</strong> extrema pobreza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>,<br />
torna-se difícil a realização <strong>de</strong> um<br />
pressuposto chave da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: que os indivíduos<br />
são cidadãos plenos que atuam em<br />
<strong>uma</strong> esfera pública em que se relacionam em<br />
condição <strong>de</strong> iguais.<br />
A seguir, apresentamos alguns indicadores<br />
centrais da cidadania social: saú<strong>de</strong>,<br />
educação, emprego, pobreza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>,<br />
agrupados nas duas dimensões indicadas<br />
no quadro 30. A leitura <strong>de</strong>sses indicadores<br />
nos dará <strong>uma</strong> aproximação da capacida<strong>de</strong><br />
real <strong>de</strong> exercício da cidadania na América<br />
Latina.<br />
Os dados sobre a cidadania social mostram<br />
que a maioria dos países da América<br />
Latina possui severas <strong>de</strong>ficiências com<br />
conseqüências para gran<strong>de</strong>s e, alg<strong>uma</strong>s vezes,<br />
majoritários segmentos <strong>de</strong> suas populações.<br />
Todos os países da região são mais <strong>de</strong>siguais<br />
do que a média mundial e <strong>de</strong>zesseis,<br />
<strong>de</strong> um total <strong>de</strong> <strong>de</strong>zoito, po<strong>de</strong>m ser catalogados<br />
como s<strong>uma</strong>mente <strong>de</strong>siguais. Em 2002,<br />
em quinze casos, mais <strong>de</strong> 25 por cento da<br />
população vivia abaixo da linha <strong>de</strong> pobreza,<br />
e em sete, a proporção <strong>de</strong> pobres era superior<br />
a 50 por cento.<br />
Necessida<strong>de</strong>s básicas<br />
Nessa dimensão registram-se alguns<br />
avanços embora os indicadores ainda continuem<br />
distantes do que seria <strong>de</strong>sejável.<br />
Observam-se, na região, melhoras nos indicadores<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>snutrição infantil e analfabetismo,<br />
e três países – Chile, Costa Rica e<br />
Uruguai – <strong>de</strong>stacam-se por apresentar níveis<br />
relativamente baixos <strong>de</strong>sses problemas.<br />
Especificamente, a <strong>de</strong>snutrição infantil<br />
diminuiu em treze países e, <strong>de</strong> maneira notável,<br />
no Brasil, na Guatemala e na Bolívia.<br />
No entanto, ela ainda atinge mais <strong>de</strong> 5 por<br />
cento das crianças em <strong>de</strong>zesseis dos <strong>de</strong>zoito<br />
países consi<strong>de</strong>rados e, em sete, pelo menos<br />
<strong>uma</strong> <strong>de</strong> cada cinco (tabela 35).<br />
O índice <strong>de</strong> analfabetismo reduziu-se em<br />
todos os países da região, registrando-se os<br />
66 Por exemplo, o Protocolo Adicional da Convenção Interamericana dos Direitos H<strong>uma</strong>nos na área dos direitos<br />
econômicos, sociais e culturais, <strong>de</strong>nominado Protocolo <strong>de</strong> San Salvador foi assinado só em 1988.<br />
67 Em relação ao impacto da <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> e da pobreza sobre as capacida<strong>de</strong>s dos cidadãos, ver Sen, 1999b, pp.20-<br />
24 e capítulo 4. Sobre a saú<strong>de</strong> e a educação como duas necessida<strong>de</strong>s básicas, ver PNUD, 2002c, pp.252-253.<br />
122 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
maiores avanços na Guatemala, na Bolívia,<br />
em El Salvador e em Honduras. Entretanto,<br />
em quatorze dos <strong>de</strong>zoito países, o analfabetismo<br />
ainda atinge mais <strong>de</strong> 5 por cento<br />
da população <strong>de</strong> mais <strong>de</strong> quinze anos, e<br />
em quatro atinge 20 por cento ou mais (tabela<br />
36).<br />
As conquistas em matéria <strong>de</strong> redução da<br />
<strong>de</strong>snutrição infantil e do analfabetismo evi<strong>de</strong>nciam<br />
que, nos últimos anos, em muitos<br />
casos, essas <strong>de</strong>ficiências relacionadas com a<br />
cidadania social pu<strong>de</strong>ram ser atendidas com<br />
resultados positivos.<br />
Outros indicadores, como mortalida<strong>de</strong><br />
infantil (tabela 37), expectativa <strong>de</strong> vida (tabela<br />
38) e nível <strong>de</strong> escolarização (tabela 39),<br />
também permitem observar alguns avanços,<br />
embora alg<strong>uma</strong>s vezes o nível <strong>de</strong> melhoria<br />
resulte baixo diante da extensão e profundida<strong>de</strong><br />
dos déficits existentes.<br />
Em matéria <strong>de</strong> indicadores <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e<br />
educação existe, na região, <strong>uma</strong> tendência<br />
geral positiva. No entanto, é necessário ser<br />
pru<strong>de</strong>nte na valorização <strong>de</strong>sses indicadores.<br />
Há outros dados disponíveis que colocam<br />
em dúvida alguns dos indicadores aqui utilizados.<br />
Nesse sentido, o estudo “Aptidões lingüísticas<br />
para o mundo <strong>de</strong> amanhã”, realizado<br />
pela OCDE e pela UNESCO, que abarcou<br />
quarenta e um países, mostra que, mesmo<br />
alfabetizados, um número enorme – mais da<br />
meta<strong>de</strong> – dos alunos da América Latina, não<br />
tem real capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ler e enten<strong>de</strong>r o que<br />
lê (tabela 40). Os seis países latino-americanos<br />
incluídos no estudo encontram-se entre<br />
os últimos lugares nos índices <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong><br />
educativa e <strong>de</strong> <strong>de</strong>sempenho dos alunos.<br />
Integração social<br />
Nessa dimensão, evi<strong>de</strong>nciam-se as mais<br />
graves carências <strong>de</strong> cidadania social na América<br />
Latina. Os problemas <strong>de</strong> emprego, pobreza<br />
e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> registram níveis muito<br />
altos. Tanto é assim que até quando é possível<br />
notar certas melhorias, como no caso<br />
da pobreza, isso não é suficiente para <strong>de</strong>ixar<br />
quadro 30<br />
Dimensões da cidadania social<br />
Dimensão<br />
Necessida<strong>de</strong>s básicas<br />
Integração social<br />
<strong>de</strong> caracterizar a situação como s<strong>uma</strong>mente<br />
grave. A situação do emprego piorou e os níveis<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> mantiveram-se estacionários<br />
ou aumentaram. O nível <strong>de</strong> <strong>de</strong>semprego<br />
da América Latina situa-se entre os<br />
mais altos do mundo e o <strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> é o<br />
mais alto do mundo.<br />
Como a cidadania social possui um componente<br />
econômico, para a maioria da população,<br />
o emprego significa um pilar básico<br />
<strong>de</strong> sua cidadania. O trabalho é o aporte dos<br />
cidadãos para a produção da socieda<strong>de</strong>, e é<br />
a forma por meio da qual obtêm os meios<br />
que lhes permitem gozar <strong>de</strong> seus direitos.<br />
Para a enorme maioria dos latino-americanos,<br />
o emprego é a via para enfrentar a pobreza,<br />
e para <strong>de</strong>la sair. No entanto, com freqüência,<br />
essa expectativa não se satisfaz, o<br />
que significa um enorme <strong>de</strong>safio para a política<br />
e para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na região.<br />
Tudo indica que, na América Latina, o<br />
emprego per<strong>de</strong>u qualida<strong>de</strong> e força como<br />
meio <strong>de</strong> inserção social. Como <strong>de</strong>staca a Comissão<br />
Econômica para a América Latina<br />
e Caribe (CEPAL): “O emprego é o vínculo<br />
mais importante entre <strong>de</strong>senvolvimento<br />
econômico e <strong>de</strong>senvolvimento social, pois é<br />
a principal fonte <strong>de</strong> renda dos lares (gera 80<br />
por cento do total). A exclusão e a segmentação<br />
<strong>de</strong>rivadas da falta <strong>de</strong> acesso a empregos<br />
<strong>de</strong> qualida<strong>de</strong> são, por isso, fatores <strong>de</strong>terminantes<br />
da pobreza e das <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s sociais<br />
que se reproduzem no tempo, manifestadas<br />
na elevada e persistente concentração<br />
<strong>de</strong> renda que prevalece na região”. 68<br />
Questões relevantes<br />
Saú<strong>de</strong> e educação<br />
Trabalho, pobreza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong><br />
68 “Globalização e <strong>de</strong>senvolvimento social”, discurso do secretário executivo da CEPAL, José Antonio Ocampo, no<br />
II Encontro <strong>de</strong> ex-Presi<strong>de</strong>ntes Latino-americanos, Santiago, Chile, 22-23 <strong>de</strong> abril <strong>de</strong> 2002.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
123
quadro 31<br />
Inserção genuína para os “supranumerários”<br />
Quase todo mundo recusa abertamente o mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> “socieda<strong>de</strong> dual”.<br />
Mas muitos lhe abrem as portas festejando qualquer realização – do<br />
<strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> um setor <strong>de</strong> “utilida<strong>de</strong> social” à abertura <strong>de</strong> “novas<br />
fontes <strong>de</strong> trabalho” – <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que proporcione alg<strong>uma</strong> ativida<strong>de</strong> para os<br />
supranumerários. Porém, do ponto <strong>de</strong> vista da problemática da integração<br />
social, não se trata apenas <strong>de</strong> conseguir ocupação para todos, mas<br />
também <strong>de</strong> conseguir um estatuto.<br />
Robert Castel , 1995, pp. 454-455.<br />
Como já indicamos, a situação do emprego<br />
agravou-se na América Latina. 69 A taxa<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>socupação aberta (pon<strong>de</strong>rada) em<br />
2002 foi <strong>de</strong> 10,8 por cento, o nível mais alto<br />
<strong>de</strong>s<strong>de</strong> que se dispõe <strong>de</strong> cifras confiáveis (tabela<br />
41).<br />
O índice <strong>de</strong> <strong>de</strong>semprego urbano caiu<br />
no Equador e, mais levemente, na Colômbia,<br />
em El Salvador, e no Chile, ao passo que<br />
na Argentina, no Panamá, na Venezuela, no<br />
Brasil, na Costa Rica, no México e no Uruguai,<br />
esse índice aumentou.<br />
Entre os jovens latino-americanos, na<br />
maioria dos países da região, o índice <strong>de</strong> <strong>de</strong>semprego<br />
duplica ou quase duplica a média<br />
nacional <strong>de</strong> <strong>de</strong>socupação (tabela 42).<br />
Por sua vez, a cobertura social dos trabalhadores<br />
diminuiu e o emprego informal<br />
cresceu: sete <strong>de</strong> cada <strong>de</strong>z novos empregos<br />
criados na região <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1990 correspon<strong>de</strong>m<br />
ao setor informal. Além disso, <strong>de</strong> cada<br />
<strong>de</strong>z novos empregos gerados no setor formal<br />
<strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1990, apenas seis têm acesso a algum<br />
tipo <strong>de</strong> cobertura social. Esta situação motiva<br />
um sério alarme sobre o futuro <strong>de</strong> nossas<br />
socieda<strong>de</strong>s: muitos dos latino-americanos,<br />
além das carências que sofrem atualmente,<br />
correm o risco <strong>de</strong> <strong>de</strong>sproteção ao chegar à<br />
ida<strong>de</strong> <strong>de</strong> retiro (tabelas 43 e 44).<br />
A expansão da informalida<strong>de</strong> é um eloqüente<br />
indicador da crise <strong>de</strong> emprego. Além<br />
disso, é <strong>uma</strong> resposta ina<strong>de</strong>quada para atenuar<br />
o <strong>de</strong>semprego, pois cria ocupações <strong>de</strong><br />
baixa qualida<strong>de</strong> e baixa utilida<strong>de</strong> social, que<br />
são geralmente insuficientes como forma <strong>de</strong><br />
integração social que garanta mínimos níveis<br />
<strong>de</strong> bem-estar.<br />
Segundo dados da OIT, em 1990, o déficit<br />
primário <strong>de</strong> trabalho <strong>de</strong>cente 70 atingia<br />
49,5 por cento da força <strong>de</strong> trabalho urbana<br />
da América Latina. Em 2002, subiu para<br />
50,5 por cento. O aumento do déficit atinge<br />
15,7 por cento da força <strong>de</strong> trabalho. Em<br />
2002, o déficit primário <strong>de</strong> trabalho <strong>de</strong>cente<br />
atingia 93 milhões <strong>de</strong> trabalhadores na região,<br />
30 milhões a mais do que em 1990. A<br />
brecha <strong>de</strong> emprego ampliou-se, alcançando<br />
21 milhões <strong>de</strong> trabalhadores, entre <strong>de</strong>sempregados<br />
e informais, e a brecha <strong>de</strong> proteção<br />
social cresceu atingindo nove milhões <strong>de</strong><br />
novos trabalhadores ocupados (basicamente<br />
informais). 71<br />
Entre 1990 e 2002, a pobreza diminuiu<br />
em doze países, especialmente no Chile, no<br />
Equador, no México, no Panamá e no Brasil.<br />
Entretanto, em quinze dos <strong>de</strong>zoito países<br />
consi<strong>de</strong>rados, um quarto da população vive<br />
abaixo da linha <strong>de</strong> pobreza, e em sete, mais<br />
<strong>de</strong> cinqüenta por cento da população é pobre<br />
(tabela 45).<br />
No entanto, como afirma José Nun, “o<br />
problema não se reduz ao acesso marginal<br />
dos ‘pobres estruturais’ aos direitos <strong>de</strong> cidadania.<br />
Atualmente, nas áreas mais mo<strong>de</strong>rnizadas<br />
da América Latina, abundam mu-<br />
69 OIT, Escritório Regional para as Américas, 2002.<br />
70 O déficit primário <strong>de</strong> trabalho <strong>de</strong>cente é um indicador elaborado e calculado pela OIT. Para isso examina a<br />
evolução das brechas <strong>de</strong> emprego e previdência social. Para fazer <strong>uma</strong> estimativa da brecha <strong>de</strong> emprego usa dois<br />
componentes: <strong>de</strong>semprego e informalida<strong>de</strong>. O primeiro correspon<strong>de</strong> à diferença entre a taxa <strong>de</strong> <strong>de</strong>semprego real<br />
e a média <strong>de</strong> um período <strong>de</strong> trinta anos (1950-1980), que dá como resultado a <strong>de</strong>nominada taxa <strong>de</strong> <strong>de</strong>semprego<br />
“histórica”. O segundo componente leva em conta as pessoas ocupadas em ativida<strong>de</strong>s informais <strong>de</strong> baixa qualida<strong>de</strong><br />
(baixa produtivida<strong>de</strong>, níveis <strong>de</strong> renda voláteis e próximos à linha da pobreza, instabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> trabalho). Para o cálculo<br />
da brecha <strong>de</strong> proteção social, são consi<strong>de</strong>rados, <strong>de</strong>ntre os empregados nos setores formais e informais, aqueles<br />
que não contribuem para a previdência social. O somatório das brechas <strong>de</strong> emprego e proteção social <strong>de</strong>termina o<br />
déficit primário <strong>de</strong> trabalho <strong>de</strong>cente. OIT, Escritório Regional para as Américas, 2002., pp. 30-31.<br />
71 OIT, Escritório Regional para as Américas, 2002.<br />
124 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
quadro 32<br />
O papel da socieda<strong>de</strong> civil<br />
Os invisíveis nas socieda<strong>de</strong>s latinoamericanas<br />
[são] aqueles que não formam<br />
parte das socieda<strong>de</strong>s civis, simplesmente<br />
porque não têm i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>, projeto,<br />
organização social e forma <strong>de</strong> luta para<br />
afirmar-se, <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r-se, para conquistar<br />
direitos e reconhecimento público. São os<br />
politicamente <strong>de</strong>stituídos <strong>de</strong> todo po<strong>de</strong>r<br />
real. Em nome da verda<strong>de</strong>, é necessário<br />
reconhecer o avanço da cidadania formal,<br />
aquela com direito a voto, particularmente<br />
no período <strong>de</strong> recente <strong>de</strong>mocratização. Mas<br />
ter o direito político <strong>de</strong> voto não é o mesmo<br />
que ser cidadão, exatamente em função do<br />
que mencionei acima, quanto à inclusão e à<br />
garantia prática <strong>de</strong> direitos fundamentais,<br />
não apenas civis e políticos, mas também<br />
o direito ao trabalho e à renda, a comida, a<br />
casa, a saú<strong>de</strong>, a educação, etc. Entre 30% e<br />
60% da população <strong>de</strong> nossos países sofre<br />
alg<strong>uma</strong> forma <strong>de</strong> exclusão social, negadora<br />
<strong>de</strong> sua cidadania.Essa população, quando<br />
não consegue se organizar e lutar, para voltar<br />
a incluir-se politicamente e a ter alg<strong>uma</strong><br />
perspectiva <strong>de</strong> mudança na situação geradora<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>, pobreza e exclusão social,<br />
constitui o enorme contingente <strong>de</strong> invisíveis<br />
<strong>de</strong> nossas socieda<strong>de</strong>s. Per<strong>de</strong>m as socieda<strong>de</strong>s<br />
civis e per<strong>de</strong> a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Mas se, por<br />
alg<strong>uma</strong> razão, os grupos <strong>de</strong> invisíveis se<br />
organizam, ganha a socieda<strong>de</strong> civil e ganha a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, pois sua presença como atores<br />
concretos é a condição indispensável <strong>de</strong> sua<br />
inclusão sustentável na cidadania. […]<br />
[A] garantia da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> […] passa<br />
necessária e indispensavelmente<br />
pela socieda<strong>de</strong> civil, sobretudo pelas<br />
possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> tornar visíveis os invisíveis.<br />
Simplesmente porque não po<strong>de</strong>m existir<br />
direitos <strong>de</strong> cidadania se não são para todos.<br />
Direitos para alg<strong>uma</strong>s pessoas, por mais<br />
numerosas que sejam, não são direitos,<br />
são privilégios. Cidadania é expressão <strong>de</strong><br />
<strong>uma</strong> relação social que tem a todos como<br />
premissa, sem exceção. Como se incluir na<br />
relação <strong>de</strong> cidadania Pensando em nossa<br />
realida<strong>de</strong> <strong>de</strong> milhões e milhões que ainda<br />
permanecem fora do sistema, sem que sua<br />
cidadania tenha sido reconhecida; tentando<br />
ver como e em que condições po<strong>de</strong>m se<br />
transformar em sujeitos históricos <strong>de</strong> sua<br />
própria inclusão, iniciando um processo<br />
virtuoso <strong>de</strong> rupturas e <strong>de</strong> reorganização<br />
social, econômica, política e cultural, <strong>de</strong><br />
modo <strong>de</strong>mocrático e sustentável. É sempre<br />
bom recordar que os grupos populares em<br />
situação <strong>de</strong> pobreza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>, quase<br />
na exclusão social, não são ontológica ou<br />
necessariamente <strong>de</strong>mocráticos. Do mesmo<br />
modo que todos os sujeitos sociais, eles<br />
precisam tornar-se <strong>de</strong>mocráticos ao longo<br />
do próprio processo pelo qual tornam-se<br />
sujeitos. A questão crucial é o entrelaçamento<br />
social organizativo, em que se baseia um<br />
grupo – <strong>de</strong> membros <strong>de</strong> favelas ou <strong>de</strong><br />
camponeses sem terra, por exemplo – para<br />
<strong>de</strong>senvolver sua i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>, construir sua<br />
visão do mundo, tomar consciência dos<br />
direitos e da importância <strong>de</strong> sua participação,<br />
formular propostas e estratégias. No<br />
processo, literalmente, adquirem po<strong>de</strong>r <strong>de</strong><br />
cidadania, mesmo estando longe <strong>de</strong> mudar<br />
efetivamente o conjunto <strong>de</strong> relações que os<br />
excluem. Enten<strong>de</strong>ndo o empo<strong>de</strong>ramento como<br />
conquista <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r cidadão – <strong>de</strong> visibilida<strong>de</strong><br />
dos até então invisíveis nas relações<br />
constitutivas do po<strong>de</strong>r – estamos falando do<br />
que o grupo, a socieda<strong>de</strong> civil e a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
ganham. O processo <strong>de</strong> “empo<strong>de</strong>ramento”<br />
traz consigo novas organizações, <strong>uma</strong><br />
cultura <strong>de</strong>mocrática <strong>de</strong> direitos e <strong>uma</strong> real<br />
capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> incidência na luta política.<br />
O que se constata na América Latina é que<br />
o atropelamento da <strong>de</strong>mocratização por<br />
parte da globalização neoliberal estancou<br />
e, inclusive, fez retroce<strong>de</strong>r processos<br />
consistentes <strong>de</strong> emergência <strong>de</strong> novos<br />
sujeitos. A luta contra essa globalização, ao<br />
contrário, está revelando as contradições<br />
que permitem novamente a emergência<br />
<strong>de</strong>sses setores. No entanto, o quadro é novo<br />
e <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> <strong>de</strong> como a maior segmentação<br />
produzida entre incluídos e excluídos é vista e<br />
vivida nas diferentes socieda<strong>de</strong>s. As gran<strong>de</strong>s<br />
cida<strong>de</strong>s da América Latina não são apenas<br />
<strong>uma</strong> soma <strong>de</strong> partes, como o Rio <strong>de</strong> Janeiro<br />
do asfalto e das favelas. Uma parte não<br />
po<strong>de</strong> dar as costas para a outra, ignorando e<br />
<strong>de</strong>sprezando-a.<br />
Cândido Grzebowsky, texto elaborado para o<br />
PRODDAL, 2002.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
125
tações muito profundas nos sistemas <strong>de</strong><br />
produção e <strong>de</strong> emprego, que conduzem ao<br />
aumento da <strong>de</strong>socupação e da sub-ocupação,<br />
e a <strong>uma</strong> gran<strong>de</strong> crise dos laços sociais e<br />
políticos. Tudo isso gera outra classe <strong>de</strong> baixa<br />
qualida<strong>de</strong>, a dos ‘novos pobres’, 72 provocada,<br />
na verda<strong>de</strong>, por um tipo <strong>de</strong> <strong>de</strong>sfiliação<br />
cidadã dos que já estiveram integrados”.<br />
De 1991 a 2002, quinze dos <strong>de</strong>zoito países<br />
avançaram em seu crescimento econômico<br />
per capita. E doze países obtiveram<br />
<strong>uma</strong> redução no nível da pobreza (<strong>de</strong> fato, só<br />
Argentina, Bolívia, Paraguai, Peru, República<br />
Dominicana e Venezuela pioraram). Por<br />
outro lado, ao chegar a 2002 apenas Guatemala,<br />
Honduras, México, Nicarágua, Panamá<br />
e Uruguai tinham conseguido reduzir a<br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>. 73 Há razões para afirmar que<br />
somente reduzindo a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> será possível<br />
fazer com que a pobreza continue diminuindo,<br />
e também que a diminuição da<br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> ten<strong>de</strong> a melhorar a possibilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> crescimento econômico em ritmos<br />
aceitáveis (gráfico 4).<br />
A possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> maior igualda<strong>de</strong> vincula-se<br />
a força da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. O cumprimento<br />
dos objetivos sociais do <strong>de</strong>senvolvimento,<br />
especialmente do <strong>de</strong>senvolvimento<br />
h<strong>uma</strong>no, não po<strong>de</strong> ser alcançado unicamente<br />
por meio do funcionamento dos mercados.<br />
O impulso <strong>de</strong> igualda<strong>de</strong> não vem do<br />
mercado e sim da promessa implícita na <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
A igualda<strong>de</strong> dos cidadãos fortalece<br />
e consolida a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
A socieda<strong>de</strong> civil como promotora da<br />
cidadania social<br />
Os problemas e dificulda<strong>de</strong>s encontrados<br />
pelos estados <strong>de</strong> bem-estar para manter<br />
a proteção <strong>de</strong> seus cidadãos, assim como<br />
a difusão da ação das gran<strong>de</strong>s organizações<br />
não governamentais (ONG’s) que procuram<br />
atenuar os efeitos da pobreza, possibilitaram<br />
inicialmente a expansão <strong>de</strong> organizações voluntárias<br />
que, aos poucos, esten<strong>de</strong>ram seu<br />
campo <strong>de</strong> ação a um gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> áreas<br />
preocupantes no que se refere ao bem-estar<br />
dos cidadãos.<br />
O crescimento da socieda<strong>de</strong> civil recebeu<br />
maior impulso nos países on<strong>de</strong> houve<br />
ditaduras, em que os partidos políticos<br />
não podiam expressar as <strong>de</strong>mandas dos cidadãos,<br />
ou nas zonas, tanto urbanas quanto<br />
rurais, on<strong>de</strong> o Estado <strong>de</strong>ixou <strong>de</strong> aten<strong>de</strong>r a<strong>de</strong>quadamente<br />
às necessida<strong>de</strong>s básicas em saú<strong>de</strong>,<br />
educação, apoio a setores em risco, entre<br />
outros.<br />
Contudo, também floresceu um número<br />
importante <strong>de</strong> organizações <strong>de</strong>dicadas à<br />
promoção dos valores cívicos que velam pe-<br />
72 Nun, José, texto produzido para o PRODDAL, 2002.<br />
73 Reduzir o nível <strong>de</strong> pobreza significa diminuir a porcentagem da população com renda abaixo da linha <strong>de</strong> pobreza<br />
(baseado na medida da pesquisa <strong>de</strong> domicílios). A <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> é medida pelo coeficiente <strong>de</strong> Gini. Ambas as<br />
medidas referem-se à 1999 (o ano mais próximo) e são contrastadas com as <strong>de</strong> 2002.<br />
126 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
quadro 33<br />
A <strong>de</strong>cência como valor coletivo<br />
O que vou sugerir é vincular a superação da<br />
pobreza e da <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> com algo que se<br />
po<strong>de</strong>ria argumentar que constitui um interesse<br />
público geral: a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Então, por que a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> interessaria aos privilegiados […]<br />
O argumento moral e político válido é que a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> funda-se em valores que exigem<br />
<strong>uma</strong> atitu<strong>de</strong> respeitosa para com a dignida<strong>de</strong> e<br />
a autonomia <strong>de</strong> cada ser h<strong>uma</strong>no; nada mais e<br />
nada menos […] o principal aglutinador só po<strong>de</strong><br />
ser um motivo ético: o tratamento <strong>de</strong>cente que<br />
todo ser h<strong>uma</strong>no merece. Um motivo adicional<br />
é <strong>de</strong> interesse público: a melhoria da qualida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> nossas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s equivale a avançar em<br />
direção a essa <strong>de</strong>cência como um valor coletivo<br />
<strong>de</strong> toda a socieda<strong>de</strong>.<br />
Guillermo O’Donnell, 1999c. p. 82.<br />
la inscrição dos cidadãos nos registros eleitorais,<br />
pela realização <strong>de</strong> eleições limpas e<br />
trabalham para melhorar a ação dos partidos,<br />
dos movimentos políticos e das instituições<br />
representativas.<br />
No campo da ação prática para reduzir a<br />
pobreza, muitas ONGs (em rigor, diríamos<br />
não estatais) assumem funções que até então,<br />
conforme se supunha, eram <strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong><br />
do Estado. Atualmente, <strong>uma</strong> parte<br />
relevante das políticas públicas sociais é<br />
conduzida por ONGs em acordo com as instituições<br />
estatais.<br />
A ação <strong>de</strong>ssas organizações aumentou o<br />
nível participativo dos habitantes. Em muitos<br />
casos, a organização da socieda<strong>de</strong> civil<br />
visa a promover valores <strong>de</strong>mocráticos em<br />
sua prática corrente e atinge também a forma<br />
com que se tomam <strong>de</strong>cisões.<br />
Embora seja preciso <strong>uma</strong> vigorosa ação<br />
estatal para recuperar políticas sociais universais,<br />
que abarquem a totalida<strong>de</strong> da cidadania<br />
e que atendam às necessida<strong>de</strong>s básicas<br />
da população, essas políticas <strong>de</strong>veriam ser<br />
executadas incluindo a dimensão participativa<br />
originária das diversas organizações da<br />
socieda<strong>de</strong> civil, e promover a transparência.<br />
Conclusões sobre a cidadania social:<br />
conquistas e <strong>de</strong>ficiências<br />
As <strong>de</strong>ficiências no campo da cidadania<br />
social são um dos <strong>de</strong>safios mais importantes<br />
que a região enfrenta. Em nenhum outro<br />
plano da cidadania, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> está<br />
mais comprometida do que no da cidadania<br />
social. Por último, existem boas razões<br />
para afirmar que os cidadãos que sofrem exclusões<br />
em <strong>uma</strong> dimensão da cidadania são<br />
os mesmos que sofrem exclusões em outras<br />
dimensões. A pobreza material dos cidadãos<br />
inci<strong>de</strong> negativamente nas oportunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
educação, nas questões <strong>de</strong> nutrição e <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>,<br />
nas oportunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> emprego, na capacida<strong>de</strong><br />
para exercer e fazer valer os direitos civis,<br />
políticos, sociais, etc. A educação, a saú<strong>de</strong><br />
e o emprego requerem alimentação, moradia<br />
e vestimenta. Estas, por sua vez, conduzem à<br />
liberda<strong>de</strong>, ao progresso e à justiça. Abaixo <strong>de</strong><br />
certos níveis mínimos <strong>de</strong> direitos sociais, o<br />
próprio conceito <strong>de</strong> cidadania é questionado<br />
pela realida<strong>de</strong>. O panorama fica ainda mais<br />
complexo quando se consi<strong>de</strong>ra que a expectativa<br />
<strong>de</strong> melhoria em algum <strong>de</strong>sses temas<br />
cost<strong>uma</strong> estar vinculada à evolução <strong>de</strong> algum<br />
ou <strong>de</strong> alguns dos outros aspectos.<br />
quadro 34<br />
Disfunções da economia mundial<br />
Se o capitalismo, ao excluir o político, se tornasse totalitário, correria o<br />
risco <strong>de</strong> <strong>de</strong>smoronar-se […]. Porque em nenhum outro período <strong>de</strong> nossa<br />
história, com a exceção muito transitória dos anos trinta, as disfunções<br />
da economia mundial (<strong>de</strong>socupação em massa, formidável incremento<br />
das <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s e da pobreza nos países ricos) foram tão graves como<br />
hoje; miséria insustentável e crises recorrentes em numerosos países<br />
em <strong>de</strong>senvolvimento, e exacerbação da <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> <strong>de</strong> renda por<br />
habitante entre os diferentes países. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não po<strong>de</strong> permanecer<br />
indiferente a tudo isso.<br />
Jean-Paul Fitoussi, texto elaborado para o PRODDAL, 2003.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
127
quadro 35<br />
Pobreza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>: pouca variação significativa<br />
[Constatam-se], em várias oportunida<strong>de</strong>s, as<br />
relações que existem entre a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong><br />
e a pobreza econômicas, por um lado, e a<br />
qualida<strong>de</strong> da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, por outro. […] Nesse<br />
sentido, convém ler atentamente resultados<br />
como os <strong>de</strong> um trabalho econométrico que<br />
acaba <strong>de</strong> ser difundido: “A conclusão mais<br />
importante a que se po<strong>de</strong> chegar com o presente<br />
estudo é que o principal obstáculo que<br />
se interpõe no caminho do êxito dos esforços<br />
para reduzir a pobreza na América Latina e<br />
no Caribe consiste em que o melhor remédio<br />
para tratar a pobreza que aflige a região – a<br />
redução da <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>– parece ser um que<br />
é muito difícil <strong>de</strong> receitar. Uma leve diminuição<br />
da <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> contribuiria muito para<br />
reduzir as privações extremas que ocorrem<br />
na região. No entanto, parece que são muito<br />
poucas as economias da região que foram<br />
capazes <strong>de</strong> conseguir esse resultado, ainda<br />
que em pequena medida”.<br />
José Num, texto elaborado para o PRODDAL,<br />
2002.<br />
Em síntese, o <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
na América Latina requer abordar<br />
<strong>de</strong>cididamente os problemas que impe<strong>de</strong>m<br />
a vigência e a expansão da cidadania<br />
social. Para isso, parece necessário centrarse<br />
no ataque à pobreza e na geração <strong>de</strong> empregos<br />
<strong>de</strong> boa qualida<strong>de</strong>, tendo presente que<br />
isso será muito difícil <strong>de</strong> conseguir sem reduzir<br />
também os enormes níveis <strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong><br />
existentes na região.<br />
Um dos <strong>de</strong>safios mais urgentes que a região<br />
enfrenta são as <strong>de</strong>ficiências no campo<br />
da cidadania social.<br />
■ Os dados, em sua maior parte, refletem<br />
<strong>uma</strong> grave situação. A América Latina se caracteriza<br />
por sofrer gran<strong>de</strong>s carências em<br />
múltiplos aspectos da cidadania social. Os<br />
avanços <strong>de</strong> alguns países nesse plano, embora<br />
significativos em si mesmos, são pequenos<br />
em comparação com a escala dos problemas.<br />
■ Existem exclusões sociais superpostas.<br />
As privações em um componente da<br />
cidadania social cost<strong>uma</strong>m coincidir com<br />
privações em outros campos. Esta situação<br />
sugere a idéia <strong>de</strong> déficits estruturais em matéria<br />
<strong>de</strong> cidadania social.<br />
■ O panorama social regional é, portanto,<br />
insuficiente; a busca <strong>de</strong> <strong>uma</strong> maior<br />
e melhor cidadania social, começando pela<br />
satisfação das necessida<strong>de</strong>s básicas da população,<br />
representa um <strong>de</strong>safio central para<br />
a América Latina.<br />
74 CEPAL, IDEA, PNUD, 2003, p. 49<br />
128 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
DESNUTRIÇÃO INFANTIL ENTRE<br />
1980 E 2000<br />
Último ano<br />
Tendência recente<br />
TABELA 35<br />
País<br />
Ano Porcentagem Anos <strong>de</strong> comparação Mudança percentual<br />
Argentina 1995/96 12,4 1994-95/96 7,7<br />
Bolívia 1998 26,8 1989-98 -10,9<br />
Brasil 1996 10,5 1989-96 -15,4<br />
Chile 1999 1,9 1986-99 -7,7<br />
Colômbia 2000 13,5 1989-00 -3,1<br />
Costa Rica 1996 6,1 1989-96 -3,1<br />
Equador 1998 26,4 1986-98 -7,6<br />
El Salvador 1998 23,3 1993-98 0,2<br />
Guatemala 1999 46,4 1987-99 -11,3<br />
Honduras 1996 38,9 1991/92-96 2,6<br />
México 1999 17,7 1988-99 -5,1<br />
Nicarágua 1998 24,9 1993-98 2,4<br />
Panamá 1997 18,2 1985-97 -0,6<br />
Paraguai 1990 13,9 .. ..<br />
Peru 2000 25,4 1991/92-00 -6,4<br />
Rep. Dominicana 1996 10,7 1991-96 -5,8<br />
Uruguai 1992/93 9,5 1987-92/93 -6,4<br />
Venezuela 2000 12,8 1990-00 -1,0<br />
América Latina 18,9 -4,2<br />
Notas: A baixa estatura para a ida<strong>de</strong> é <strong>uma</strong> medida que compara a estatura <strong>de</strong> <strong>uma</strong> criança <strong>de</strong> acordo com sua ida<strong>de</strong> em<br />
relação à média da população <strong>de</strong> referência. Este indicador reflete um crescimento acumulado <strong>de</strong>ficiente e constitui <strong>uma</strong><br />
medida <strong>de</strong> <strong>de</strong>ficiências prévias no crescimento físico. Está associado a um conjunto <strong>de</strong> fatores <strong>de</strong> longo prazo tais como:<br />
<strong>uma</strong> alimentação cronicamente insuficiente, infecções freqüentes, persistentes más condutas <strong>de</strong> alimentação e um baixo<br />
nível econômico do lar.<br />
Fonte: Cálculo baseado em dados da OMS, Departamento <strong>de</strong> Nutrição para a Saú<strong>de</strong> e o Desenvolvimento 2002.<br />
Bases empíricas do Relatório 129
ANALFABETISMO EM MAIORES DE 15 ANOS, 1970-2001<br />
TABELA 36<br />
País 1970 1980 1990 2000<br />
Argentina 7,0 5,6 4,3 3,2<br />
Bolívia 42,3 31,2 21,8 14,5<br />
Brasil 31,9 24,5 19,1 14,8<br />
Chile 12,2 8,5 5,9 4,2<br />
Colômbia 22,1 15,9 11,5 8,3<br />
Costa Rica 11,8 8,3 6,1 4,4<br />
Equador 25,7 18,1 12,3 8,4<br />
El Salvador 42,0 34,1 27,5 21,3<br />
Guatemala 54,8 46,9 38,9 31,4<br />
Honduras 46,7 38,6 31,5 25,4<br />
México 25,1 17,7 12,1 8,6<br />
Nicarágua 45,5 41,2 37,2 33,5<br />
Panamá 20,8 15,2 11,0 8,1<br />
Paraguai 20,2 14,1 9,7 6,7<br />
Peru 28,5 20,5 14,5 10,1<br />
República Dominicana 32,8 26,1 20,6 16,4<br />
Uruguai 7,0 5,1 3,4 2,3<br />
Venezuela 23,6 16,0 11,0 7,4<br />
América Latina 27,8 21,5 16,6 12,7<br />
Nota: Os dados representam a proporção da população adulta que é analfabeta. Referem-se à população <strong>de</strong> mais <strong>de</strong> 15<br />
anos <strong>de</strong> ida<strong>de</strong> que não é capaz <strong>de</strong> ler ou escrever <strong>uma</strong> pequena frase em sua vida cotidiana. Os dados para a Região são a<br />
média <strong>de</strong> todos os casos.<br />
Fonte: UNESCO, Instituto <strong>de</strong> Estatísticas 2002a.<br />
130 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
MORTALIDADE INFANTIL, 1970-2000<br />
TABELA 37<br />
País 1970-75 1975-80 1980-85 1985-90 1990-95 1995-2000<br />
Argentina 48,1 39,1 32,2 27,1 24,3 21,8<br />
Bolívia 151,3 131,2 109,2 90,1 75,1 65,6<br />
Brasil 90,5 78,8 65,3 55,3 46,8 42,1<br />
Chile 68,6 45,2 23,7 18,4 14,0 12,8<br />
Colômbia 73,0 56,7 48,4 41,4 35,2 30,0<br />
Costa Rica 52,5 30,4 19,2 16,0 13,7 12,1<br />
Equador 95,0 82,4 68,4 57,1 49,7 45,6<br />
El Salvador 105,0 95,0 77,0 54,0 40,2 32,0<br />
Guatemala 102,5 90,9 78,8 65,0 51,1 46,0<br />
Honduras 103,7 81,0 65,5 53,3 45,4 37,1<br />
México 69,0 56,8 47,0 39,5 34,0 31,0<br />
Nicarágua 97,9 90,1 79,8 65,0 48,0 39,5<br />
Panamá 43,4 35,4 30,4 28,4 25,1 21,4<br />
Paraguai 53,1 51,0 48,9 46,7 43,3 39,2<br />
Peru 110,3 99,1 81,6 68,0 55,5 45,0<br />
República Dominicana 93,5 84,3 63,9 54,6 46,5 40,6<br />
Uruguai 46,3 42,4 33,5 22,6 20,1 17,5<br />
Venezuela 48,7 39,3 33,6 26,9 23,2 20,9<br />
América Latina 80,69 68,28 55,91 46,08 38,40 33,34<br />
Nota: A mortalida<strong>de</strong> infantil é medida em termos da probabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> morte entre o nascimento e o primeiro ano <strong>de</strong> vida.<br />
Expressa-se em termos <strong>de</strong> mortes para cada 1.000 nascimentos. Os dados da região são a média <strong>de</strong> todos os casos.<br />
Fonte: Nações Unidas, Departamento <strong>de</strong> Assuntos Econômicos e Sociais, Divisão <strong>de</strong> População, 2001.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
131
ESPERENÇA DE VIDA AO NASCER, 1970-2000<br />
País 1970-75 1975-80 1980-85 1985-90 1990-95 1995-2000<br />
Argentina 67,1 68,5 70,0 70,8 71,9 72,9<br />
Bolívia 46,7 50,0 53,7 56,8 59,3 61,4<br />
Brasil 59,5 61,5 63,1 64,6 66,0 67,2<br />
Chile 63,4 67,1 70,6 72,5 74,2 74,9<br />
Colômbia 61,6 63,8 66,6 67,6 68,2 70,4<br />
Costa Rica 67,9 70,8 73,5 74,5 75,3 76,0<br />
Equador 58,8 61,3 64,3 66,8 68,5 69,5<br />
El Salvador 58,2 56,7 56,6 63,2 66,8 69,1<br />
Guatemala 53,7 56,0 58,0 59,6 62,5 64,0<br />
Honduras 53,8 57,3 60,9 64,3 65,0 65,6<br />
México 62,4 65,1 67,5 69,6 71,2 72,2<br />
Nicarágua 55,1 57,5 59,3 62,0 65,9 67,7<br />
Panamá 66,2 68,8 70,5 71,4 72,5 73,6<br />
Paraguai 65,9 66,5 67,1 67,6 68,5 69,6<br />
Peru 55,4 58,4 61,4 64,1 66,5 68,0<br />
República Dominicana 59,7 61,8 62,8 64,7 66,5 67,3<br />
Uruguai 68,7 69,5 70,8 71,9 72,8 73,9<br />
Venezuela 65,7 67,5 68,6 70,3 71,4 72,4<br />
América Latina 60,54 62,67 64,74 66,79 68,50 69,76<br />
Nota: Este indicador expressa, em anos, a esperança <strong>de</strong> vida ao nascer. Os dados para a região são médias <strong>de</strong> todos os casos.<br />
Fonte: Nações Unidas, Departamento <strong>de</strong> Assuntos Econômicos e Sociais, Divisão <strong>de</strong> População, 2001.<br />
TABELA 38<br />
132 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
ESCOLARIZAÇÃO PRIMÁRIA, SECUNDÁRIA E TERCIÁRIA, 1999<br />
TABELA 39<br />
Taxa <strong>de</strong> Escolarização<br />
Primária<br />
Taxa <strong>de</strong> Escolarização<br />
Secundária<br />
Taxa <strong>de</strong> Escolarização<br />
Terciária<br />
País<br />
Argentina 100,0 76,0 48,0<br />
Bolívia 99,1 .. 32,9<br />
Brasil 96,5 68,5 14,8<br />
Chile 88,9 71,8 37,5<br />
Colômbia 88,1 54,3 22,2<br />
Costa Rica 91,3 43,4 ..<br />
Equador 97,7 46,9 ..<br />
El Salvador 80,6 .. 18,2<br />
Guatemala 81,0 18,4 ..<br />
Honduras .. .. 13,0<br />
México 100,0 57,4 19,8<br />
Nicarágua 79,4 .. ..<br />
Panamá 98,0 60,9 ..<br />
Paraguai 91,5 45,0 ..<br />
Peru 100,0 61,5 28,8<br />
Rep. Dominicana 90,6 40,0 ..<br />
Uruguai 93,6 77,4 33,6<br />
Venezuela 88,0 50,4 29,2<br />
América Latina 92,0 55,1 27,1<br />
Notas: Os dois pontos seguidos (..) indicam que a informação não está disponível. A taxa <strong>de</strong> escolarização primária e secundária é a porcentagem <strong>de</strong> crianças<br />
em ida<strong>de</strong> escolar (segundo a <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> cada país) efetivamente inscritos na escola. As taxas <strong>de</strong> escolarização terciária não estão disponíveis.<br />
Os dados para El Salvador (todas as categorias) e para o Peru (secundária e terciária) são <strong>de</strong> 1998/1999, o restante está baseado em informações <strong>de</strong> 1999/<br />
2000. Os dados para a região são a média <strong>de</strong> todos os casos disponíveis.<br />
Fonte: UNESCO, Instituto <strong>de</strong> Estatísticas,2002b,2002c e 2002d.<br />
QUALIDADE EDUCATIVA E PERFORMANCE DO ALUNO, 2002<br />
Porcentagem <strong>de</strong> alunos em cada nível<br />
País<br />
Baixo Médio Alto<br />
TABELA 40<br />
Argentina 43,9 45,8 10,3<br />
Brasil 55,8 40,6 4,7<br />
Chile 48,2 46,6 5,3<br />
México 44,2 48,8 6,9<br />
Peru 79,6 19,4 1,1<br />
Finlândia 6,9 43 50,1<br />
Coréia do Sul 5,7 55,4 36,8<br />
Estados Unidos 17,9 48,4 33,7<br />
Notas: Porcentagem <strong>de</strong> estudantes em cada nível <strong>de</strong> rendimento na escala combinada <strong>de</strong> capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> leitura. O conceito <strong>de</strong> alfabetismo empregado no<br />
Programa para Avaliação <strong>de</strong> Estudantes Internacionais (PISA) é mais amplo do que a noção tradicional, ou seja, “po<strong>de</strong>r ler e escrever”. Aqui o alfabetismo<br />
é medido sobre um contínuo, não como algo que um indivíduo possui ou não possui, inclusive em casos em que é necessário ou <strong>de</strong>sejável para alguns<br />
propósitos <strong>de</strong>finir um ponto no contínuo do alfabetismo abaixo do qual os níveis <strong>de</strong> competência são consi<strong>de</strong>rados ina<strong>de</strong>quados. Na verda<strong>de</strong>, não existe <strong>uma</strong><br />
linha que distinga <strong>uma</strong> pessoa completamente alfabetizada <strong>de</strong> outra que não é. O PISA – teste <strong>de</strong> capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> leitura – foi realizado com alunos <strong>de</strong> 15 anos.<br />
O estudante tinha que procurar a informação, enten<strong>de</strong>r e interpretar os textos, refletir sobre os conteúdos e avaliá-los.<br />
Fontes: OCDE e UNESCO 2003, p.274.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
133
DESEMPREGO ABERTO URBANO<br />
(TAXAS ANUAIS MÉDIAS), 1985-2002<br />
TABELA 41<br />
País 1985 1990 1995 2000 2002<br />
Argentina 6,1 6,1 16,4 15,1 19,7<br />
Bolívia 5,7 7,2 3,6 7,5 8,7<br />
Brasil 5,3 4,3 4,6 7,1 7,1<br />
Chile 17,0 7,4 6,6 9,2 9,0<br />
Colômbia 13,8 10,5 8,8 20,2 16,2<br />
Costa Rica 7,2 5,4 5,2 5,2 6,8<br />
Equador 10,4 6,1 7,7 9,7 6,3<br />
El Salvador .... 10,0 7,0 6,5 6,2<br />
Honduras 11,7 6,9 6,6 .... 5,9<br />
México 4,4 2,8 6,2 2,2 2,7<br />
Nicarágua 3,2 7,6 16,9 9,8 12,1<br />
Panamá 15,7 20,0 16,4 15,3 16,4<br />
Paraguay 5,1 6,6 5,3 10,0 14,7<br />
Peru 10,1 8,3 7,9 7,0 9,4<br />
República Dominicana .... .... 15,8 13,9 17,2<br />
Uruguai 13,1 9,2 10,8 13,6 17,0<br />
Venezuela 14,3 11,0 10,3 13,9 15,9<br />
América Latina 8,3 5,7 7,4 8,5 10,8<br />
Notas: Os dois pontos seguidos (..) indicam que a informação não está disponível. Para Argentina, Bolívia, Costa Rica,<br />
El Salvador, Honduras, Nicarágua, Panamá, Uruguai e Venezuela a pesquisa é nacional urbana. No Brasil consi<strong>de</strong>ramse<br />
seis regiões metropolitanas (não se inclui aqui <strong>uma</strong> série nova para o Brasil). No Chile cobre o total do país. Para<br />
Colômbia só se po<strong>de</strong> consi<strong>de</strong>rá-los sob sete áreas metropolitanas; <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 2000 o universo se expandiu, incluindo treze<br />
áreas metropolitanas. No Equador, toma-se o total do país até 1997; a partir <strong>de</strong> 1998 só Quito, Guaiaquil e Cuenca estão<br />
incluídos. No México, observam-se 39 áreas urbanas. A OIT não inclui dados para Guatemala. No Paraguai apenas se<br />
realizou a pesquisa em Assunção. Os dados da República Dominicana incluem <strong>de</strong>semprego oculto. Finalmente, para o<br />
Peru, leva-se em conta a Lima metropolitana, <strong>de</strong> 1996 a 2000 correspon<strong>de</strong> ao nacional urbano. As cifras, a partir <strong>de</strong> 2001,<br />
correspon<strong>de</strong>m a Lima metropolitana. Para América Latina as médias foram pon<strong>de</strong>radas pela OIT.<br />
Fontes: Elaboração com base na informação das Pesquisas <strong>de</strong> Domicílios dos países, OIT, Panorama Trabalhista 2003,<br />
anexo estatístico. Atenção: os dados <strong>de</strong>sta tabela não coinci<strong>de</strong>m necessariamente com os da Tabela 2, que utiliza os dados<br />
da CEPAL (2003).<br />
134 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
DESEMPREGO JUVENIL<br />
(TAXAS ANUAIS), 1990-2002<br />
TABELA 42<br />
País Ida<strong>de</strong> 1990 1995 2000 2002<br />
Argentina 15-19 21,7 46,8 39,5 45,4<br />
15-24 15,2 30,1 .. ..<br />
Bolívia 10-19 13,3 5,0 14,7 20,0<br />
20-29 9,5 5,4 10,8 10,7<br />
Brasil 15-17 .. 11,0 17,8 34,5<br />
18-24 .. 9,3 14,7 21,4<br />
Chile 15-19 15,9 15,8 26,1 28,4<br />
20-24 12,0 10,1 20,1 20,0<br />
Colômbia 12-17 .. 21,0 33,3 32,7<br />
18-24 .. 16,6 32,4 32,0<br />
Costa Rica 12-24 10,4 13,5 10,9 16,3<br />
Equador 15-24 13,5 15,3 17,4 17,4<br />
El Salvador 15-24 18,6 13,3 14,3 ..<br />
Honduras 10-24 10,7 10,2 .. 8,8<br />
México 12-19 7,0 13,1 5,4 6,5<br />
20-24 .. 9,9 4,0 5,2<br />
Panamá 15-24 .. 31,9 32,6 34,1<br />
Paraguai 15-19 18,4 10,8 .. 20,6<br />
20-24 14,1 7,8 .. 16,7<br />
Peru 14-24 15,4 11,2 17,1 15,1<br />
Uruguai 14-24 26,6 25,5 31,7 40,0<br />
Venezuela 15-24 18,0 19,9 25,3 27,2<br />
Notas: Os dois pontos seguidos (..) indicam que a informação não está disponível. Na Argentina a Pesquisa <strong>de</strong> Lares<br />
se realiza na Gran<strong>de</strong> Buenos Aires; na Bolívia, em áreas urbanas nacionais 1996 (15-25 anos); no Brasil, em seis áreas<br />
metropolitanas (novas séries a partir <strong>de</strong> 2001);no Chile, é o total nacional; na Colômbia, em sete áreas metropolitanas, em<br />
setembro <strong>de</strong> cada ano, e, a partir <strong>de</strong> 2001, em treze áreas metropolitanas. Na Costa Rica, Equador, El Salvador e Honduras<br />
os dados cobrem o total nacional (urbano). No México a pesquisa se realiza em 41 áreas urbanas; no Panamá, na região<br />
metropolitana; e no Paraguai, em Assunção. Para o Peru, a partir <strong>de</strong> 1996, os dados cobrem o total nacional (urbano); e, a<br />
partir <strong>de</strong> 2001, a Lima metropolitana. No Uruguai a pesquisa cobre Montevidéo; e, os dados da Venezuela são nacionais<br />
urbanos. Não há dados da República Dominicana, Guatemala nem Nicarágua.<br />
Fontes: Elaboração com base em informação das Pesquisas <strong>de</strong> Domicílios dos países, OIT, Panorama Trabalhista 2003,<br />
Anexo Estatístico.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
135
AMÉRICA LATINA: ESTRUTURA DO TRABALHO<br />
NÃO AGRÍCOLA (PORCENTAGENS) 1990-2002<br />
Setor Informal<br />
Setor Formal<br />
TABELA 43<br />
Ano<br />
Total<br />
Total<br />
1990 Total 42,8 57,2<br />
Homens 39,4 60,6<br />
Mulheres 47,4 52,6<br />
1995 Total 46,1 53,9<br />
Homens 42,7 57,3<br />
Mulheres 51,0 49,0<br />
2000 Total 46,9 53,1<br />
Homens 44,5 55,5<br />
Mulheres 50,3 49,7<br />
2002 Total 46,5 53,5<br />
Homens 44,3 55,7<br />
Mulheres 49,4 50,6<br />
Nota: Só há informação para quinze países. Os países cobertos são: Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, Equador,<br />
Honduras, México, Panamá, Peru (Lima metropolitana), Uruguai (cobre Montevidéo) e Venezuela.<br />
Fonte: Baseado na informação das Pesquisas <strong>de</strong> Domicílios em cada país, em conjunto com outros dados <strong>de</strong> fontes<br />
oficiais OIT, Panorama Trabalhista 2003, anexo estatístico, 2003.<br />
TABELA 44<br />
AMÉRICA LATINA: ASSALARIADOS QUE CONTRIBUEM PARA A<br />
PREVIDÊNCIA SOCIAL, (PORCENTAGENS) 1990-2002<br />
Ano<br />
Setor Informal<br />
Setor Formal<br />
Total<br />
1990 Total 29,2 80,6 66,6<br />
Homens 32,5 79,1 68,4<br />
Mulheres 27,0 82,8 65,1<br />
1995 Total 24,2 79,3 65,2<br />
Homens 25,4 78,2 66,6<br />
Mulheres 24,0 81,1 65,7<br />
2000 Total 27,2 79,6 64,6<br />
Homens 26,6 78,4 66,0<br />
Mulheres 27,9 81,5 62,9<br />
2002 Total 26,2 78,9 63,7<br />
Homens 25,5 77,9 64,9<br />
Mulheres 27,0 80,6 62,3<br />
Notas: As Pesquisas <strong>de</strong> Domicílios cobrem as seguintes áreas: Argentina (nacional urbano), Brasil (área urbana), Chile<br />
(total do país), Colômbia (10 áreas metropolitanas), Costa Rica (total do país), Equador (área urbana), México (área<br />
urbana), Panamá (total do país), Peru (Lima metropolitana), Uruguai (total do país) e Venezuela (área urbana).<br />
Fonte: Elaboração com base nas informações das Pesquisas <strong>de</strong> Domicílios dos países, OIT, Escritório Regional para as<br />
Américas 2003.<br />
136 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
CIDADANIA SOCIAL: DESIGUALDADE E POBREZA, 2002<br />
TABELA 45<br />
Desigualda<strong>de</strong>:<br />
Pobreza: porcentagem abaixo<br />
País<br />
coeficiente <strong>de</strong> Gini, c.2002<br />
da linha <strong>de</strong> pobreza, 2002<br />
Argentina 0,590 45,4<br />
Bolívia 0,614 62,4<br />
Brasil 0,639 37,5<br />
Chile 0,559 20,6<br />
Colômbia 0,575 50,6<br />
Costa Rica 0,488 20,3<br />
Equador 0,513 49,0<br />
El Salvador 0,525 48,9<br />
Guatemala 0,543 59,9<br />
Honduras 0,588 77,3<br />
México 0,514 39,4<br />
Nicarágua 0,579 69,3<br />
Panamá 0,515 34,0<br />
Paraguai 0,570 61,0<br />
Peru 0,525 54,8<br />
Rep. Dominicana 0,544 44,9<br />
Uruguai 0,455 15,4<br />
Venezuela 0,500 48,6<br />
Nota: As cifras mais altas do coeficiente <strong>de</strong> Gini correspon<strong>de</strong>m a um grau mais alto <strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>. A informação para<br />
Argentina, Bolívia, Equador, Paraguai e Uruguai é das áreas urbanas. Os valores para os outros países correspon<strong>de</strong>m à<br />
média nacional. A média mundial do coeficiente <strong>de</strong> Gini para 1999 é <strong>de</strong> 0,381. Pobreza: as cifras indicam a porcentagem <strong>de</strong><br />
indivíduos abaixo da linha <strong>de</strong> pobreza. Os indivíduos pobres são aqueles cuja renda é menor do que o dobro do custo da<br />
cesta básica <strong>de</strong> alimentos.<br />
Fontes: CEPAL, 2004.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
137
138 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
■ Como os latino-americanos vêem<br />
a sua <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
O apoio dado pelos cidadãos à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
é um componente-chave <strong>de</strong> sua sustentabilida<strong>de</strong>.<br />
A experiência histórica nos ensina<br />
que as <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s foram <strong>de</strong>rrubadas por<br />
forças políticas que contavam com o apoio<br />
(ou, pelo menos, com a passivida<strong>de</strong>) <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
gran<strong>de</strong> parte, às vezes majoritária, da cidadania.<br />
As <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s se tornam vulneráveis<br />
quando, entre outros fatores, as forças<br />
políticas autoritárias encontram, nas atitu<strong>de</strong>s<br />
cidadãs, terreno fértil para atuar. Daí a<br />
importância <strong>de</strong> conhecer e analisar os níveis<br />
<strong>de</strong> apoio com que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> conta<br />
na América Latina.<br />
Com esse propósito, em maio <strong>de</strong> 2002, realizou-se<br />
<strong>uma</strong> pesquisa sobre as opiniões cidadãos<br />
acerca da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> com 19.508 pessoas<br />
entrevistadas, abrangendo <strong>uma</strong> população<br />
<strong>de</strong> mais <strong>de</strong> 400 milhões <strong>de</strong> habitantes, nos <strong>de</strong>zoito<br />
países consi<strong>de</strong>rados no Relatório.<br />
Uma primeira leitura das opiniões cidadãos,<br />
comparada com as pesquisas anteriores<br />
<strong>de</strong> Latinobarômetro, indica que por volta<br />
<strong>de</strong> 1996, 61 por cento dos entrevistados, no<br />
âmbito da região, preferiam a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> a<br />
qualquer outro regime; por volta <strong>de</strong> 2002,<br />
esse percentual era <strong>de</strong> 57 por cento. Essa preferência<br />
pela <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não implica necessariamente<br />
um sólido apoio. Na realida<strong>de</strong>,<br />
muitas pessoas que dizem preferir a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
a outros regimes têm atitu<strong>de</strong>s pouco<br />
<strong>de</strong>mocráticas em relação a diversas questões<br />
sociais. Em 2002, quase meta<strong>de</strong> (48,1 por<br />
cento) dos entrevistados que diziam preferir<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> a qualquer outro regime, preferia<br />
igualmente o <strong>de</strong>senvolvimento econômico<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, e um percentual semelhante<br />
(44,9 por cento), que dizia preferir<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, estava disposto a apoiar um<br />
governo autoritário, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que resolvesse os<br />
problemas econômicos do seu país.<br />
Gran<strong>de</strong> parte das pessoas que manifes-<br />
FRAGILIDADES DA PREFERÊNCIA PELA DEMOCRACIA<br />
EM RELAÇÃO A OUTROS SISTEMAS DE GOVERNO, 2002<br />
Atitu<strong>de</strong>s específicas relacionadas com a vigência e importância da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Porcentagem da<br />
amostragem total<br />
dos 18 países<br />
TABELA 46<br />
Porcentagem dos<br />
que preferem<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> a<br />
qualquer outra<br />
forma <strong>de</strong> governo<br />
Estão <strong>de</strong> acordo com que o Presi<strong>de</strong>nte passe além do âmbito das leis 42,8 38,6<br />
Acreditam que o <strong>de</strong>senvolvimento econômico é mais importante que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> 56,3 48,1<br />
Apoiariam um governo autoritário se resolvesse os problemas econômicos 54,7 44,9<br />
Não acreditam que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> solucione os problemas do país 43,9 35,8<br />
Acreditam que po<strong>de</strong> haver <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> sem partidos 40,0 34,2<br />
Acreditam que po<strong>de</strong> haver <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> sem um Congresso Nacional 38,2 32,2<br />
Estão <strong>de</strong> acordo com que o presi<strong>de</strong>nte imponha or<strong>de</strong>m pela força 37,2 32,3<br />
Estão <strong>de</strong> acordo com que o presi<strong>de</strong>nte controle os meios <strong>de</strong> comunicação 36,1 32,4<br />
Estão <strong>de</strong> acordo com que o presi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong>ixe <strong>de</strong> lado o Congresso e os partidos 38,1 32,9<br />
Não acreditam que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> seja indispensável para alcançar o <strong>de</strong>senvolvimento 25,1 14,2<br />
Nota: n varia entre 16.183 (po<strong>de</strong> haver <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> sem congresso) e 17.194 (<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> vrs <strong>de</strong>senvolvimento econômico).<br />
Fontes: Elaboração própria com base no Latinobarômetro 2002.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
139
tam sua preferência pela <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> tem<br />
atitu<strong>de</strong>s contrárias a alg<strong>uma</strong>s regras básicas<br />
<strong>de</strong>sse regime. Aproximadamente, <strong>de</strong> três<br />
pessoas, <strong>uma</strong> opina que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> po<strong>de</strong><br />
funcionar sem instituições como o Parlamento<br />
e os partidos políticos. Essas respostas<br />
são um chamado <strong>de</strong> atenção: <strong>uma</strong><br />
proporção significativa <strong>de</strong> latino-americanos<br />
dá mais valor ao <strong>de</strong>senvolvimento econômico<br />
do que à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, e estaria disposta<br />
a <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> lado a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> por um<br />
governo não-<strong>de</strong>mocrático que pu<strong>de</strong>sse solucionar<br />
seus problemas econômicos.<br />
Para avançar na compreensão <strong>de</strong>ssa situação,<br />
realizamos <strong>uma</strong> análise das respostas<br />
a onze perguntas que refletem não apenas<br />
preferência pela <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, mas também<br />
atitu<strong>de</strong>s em relação à forma <strong>de</strong> exercer o po<strong>de</strong>r<br />
em <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, a suas instituições básicas<br />
e a diversos temas sociais. 75<br />
Três tendências em relação à<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: <strong>de</strong>mocrática,<br />
ambivalente e não-<strong>de</strong>mocrática<br />
I<strong>de</strong>ntificamos três tendências ou perfis<br />
principais em que se agrupam as opiniões<br />
e atitu<strong>de</strong>s dos latino-americanos em relação<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: <strong>de</strong>mocrática, ambivalente<br />
e não-<strong>de</strong>mocrática (gráfico 5).<br />
Os <strong>de</strong>mocratas são pessoas que dão respostas<br />
favoráveis à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> em todos os<br />
assuntos consultados. Preferem a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
a qualquer “outra forma <strong>de</strong> governo” e<br />
apóiam a aplicação das regras <strong>de</strong>mocráticas<br />
na gestão <strong>de</strong> governo, até mesmo em épocas<br />
<strong>de</strong> dificulda<strong>de</strong>s. Colocados na situação <strong>de</strong><br />
escolher entre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e o <strong>de</strong>senvolvimento,<br />
os <strong>de</strong>mocratas respon<strong>de</strong>m que preferem<br />
a primeira ou que ambas as metas são<br />
igualmente importantes. E ainda mais, con-<br />
75 Ver metodologia <strong>de</strong> elaboração do IAD. As seguintes são as perguntas-chave que guiaram este componente do<br />
estudo: (1) Com qual das seguintes frases o/a senhor(a) está mais <strong>de</strong> acordo: a) a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é preferível a qualquer<br />
outra forma <strong>de</strong> governo; b) em alg<strong>uma</strong>s circunstâncias, um governo autoritário po<strong>de</strong> ser preferível; c) para<br />
pessoas como nós, dá no mesmo um regime <strong>de</strong>mocrático ou um não <strong>de</strong>mocrático. (2) Se o/a senhor(a) tivesse<br />
que escolher entre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e o <strong>de</strong>senvolvimento econômico: a) o <strong>de</strong>senvolvimento econômico é o mais importante;<br />
b) a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é o mais importante; c) ambos são iguais. (3) O/A senhor(a) acredita que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
é indispensável para um país ser <strong>de</strong>senvolvido: a) a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é indispensável para um país ser <strong>de</strong>senvolvido;<br />
b) não é indispensável, po<strong>de</strong>-se chegar a ser um país <strong>de</strong>senvolvido com outro sistema <strong>de</strong> governo que não seja a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. (4) Não me importaria que um governo não-<strong>de</strong>mocrático chegasse ao po<strong>de</strong>r se pu<strong>de</strong>sse resolver os<br />
problemas econômicos: a) totalmente <strong>de</strong> acordo; b) <strong>de</strong> acordo; c) em <strong>de</strong>sacordo; d) totalmente em <strong>de</strong>sacordo. (5)<br />
Alg<strong>uma</strong>s pessoas dizem que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> permite que se solucionem os problemas: a) a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> soluciona os<br />
problemas; b) a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não soluciona os problemas.<br />
Apoio às instituições <strong>de</strong>mocráticas : (6) a) Sem Congresso Nacional não po<strong>de</strong> haver <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>; b) a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
po<strong>de</strong> funcionar sem Congresso Nacional. (7) a) Sem partidos políticos não po<strong>de</strong> haver <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>; b) A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
po<strong>de</strong> funcionar sem partidos.<br />
Dimensão <strong>de</strong>legativa : Se o país está com sérias dificulda<strong>de</strong>s, o/a senhor(a) está totalmente <strong>de</strong> acordo, <strong>de</strong> acordo,<br />
em <strong>de</strong>sacordo ou totalmente em <strong>de</strong>sacordo com que o presi<strong>de</strong>nte (8) a) não se limite ao que dizem as leis; (9) b)<br />
imponha a or<strong>de</strong>m pela força; (10) c) controle os meios <strong>de</strong> comunicação; (11) d) <strong>de</strong>ixe <strong>de</strong> lado o Congresso e os<br />
partidos.<br />
76 O conceito <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong>legativa foi construído por O’Donnell (1994) para referirse a países on<strong>de</strong> são realizadas<br />
eleições livres e limpas, mas nos quais os governantes (especialmente presi<strong>de</strong>ntes) sentem-se autorizados<br />
a atuar sem restrições institucionais. Nessa concepção fortemente majoritária e plebiscitária do po<strong>de</strong>r político, o<br />
governante não <strong>de</strong>ixa <strong>de</strong> ser <strong>de</strong>mocrático, no sentido <strong>de</strong> que surge <strong>de</strong> eleições livres e limpas, e não tenta suprimilas<br />
no futuro. Mas, por outro lado, não se sente obrigado a aceitar as restrições e os controles <strong>de</strong> outras instituições<br />
constitucionais (Parlamento e Po<strong>de</strong>r Judiciário) nem <strong>de</strong> diversos organismos estatais ou sociais <strong>de</strong> controle; ao<br />
contrário, cost<strong>uma</strong> <strong>de</strong>dicar-se a ignorar, anular ou cooptar essas instâncias. A idéia básica <strong>de</strong>ssa concepção é que os<br />
eleitores vêem o presi<strong>de</strong>nte como o <strong>de</strong>positário exclusivo da legitimida<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática, a quem conseqüentemente<br />
<strong>de</strong>legam o direito e a obrigação <strong>de</strong> resolver os problemas do país como bem enten<strong>de</strong>r. Essa idéia (que não exclui<br />
a <strong>de</strong> futuras eleições livres e limpas em que o presi<strong>de</strong>nte e seu partido po<strong>de</strong>rão ser mudados) autoriza ações antiinstitucionais<br />
do presi<strong>de</strong>nte e também, como se verá mais adiante, <strong>de</strong>cisões “para pôr or<strong>de</strong>m” ou “resolver crises”<br />
140 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
si<strong>de</strong>ram que “a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é indispensável<br />
para um país ser consi<strong>de</strong>rado <strong>de</strong>senvolvido”.<br />
Os <strong>de</strong>mocratas não estão <strong>de</strong> acordo com posições<br />
do tipo <strong>de</strong>legatório 76 para resolver os<br />
problemas do país: opõem-se a que o presi<strong>de</strong>nte<br />
prescinda do Parlamento, controle os<br />
meios <strong>de</strong> comunicação e imponha or<strong>de</strong>m<br />
pela força, mesmo em tempos <strong>de</strong> crise.<br />
Os não-<strong>de</strong>mocratas são pessoas que, em<br />
todos os assuntos consultados, expressam<br />
opiniões contrárias à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Prefe-<br />
rem um regime autoritário a um <strong>de</strong>mocrático.<br />
São da opinião que atingir o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
do país é <strong>uma</strong> meta mais importante<br />
do que a <strong>de</strong> preservar a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, e não<br />
acreditam que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> seja indispensável<br />
para atingir esse objetivo. Quando colocados<br />
na situação <strong>de</strong> ter que escolher entre<br />
essas metas, optam pelo <strong>de</strong>senvolvimento.<br />
Estão <strong>de</strong> acordo com as seguintes posições:<br />
que “um governo não-<strong>de</strong>mocrático chegue<br />
ao po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que possa resolver os proble<strong>de</strong><br />
nítido cunho autoritário. Isto não implica, claro está, que o presi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong>legativo seja onipotente, pois choca<br />
com os Ressaibos <strong>de</strong> institucionalida<strong>de</strong> subsistentes, com diversas relações fáticas <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r e, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo das<br />
conjunturas, com movimentos opositores, principalmente <strong>de</strong> prestação <strong>de</strong> contas à socieda<strong>de</strong>.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
141
Na maior parte<br />
dos países latinoamericanos,<br />
a<br />
existência <strong>de</strong><br />
<strong>uma</strong> maioria<br />
que respal<strong>de</strong><br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
<strong>de</strong>pen<strong>de</strong> da<br />
capacida<strong>de</strong> dos<br />
<strong>de</strong>mocratas<br />
para atrair os<br />
ambivalentes<br />
para suas<br />
posições.<br />
mas econômicos” e que “o presi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong>ixe<br />
<strong>de</strong> lado o Congresso e os partidos políticos,<br />
se o país estiver em sérias dificulda<strong>de</strong>s”.<br />
Finalmente, não parecem dar muita chance<br />
para que a solução dos problemas do país<br />
seja encontrada <strong>de</strong>ntro da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, mesmo<br />
que se trate <strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> tipo<br />
<strong>de</strong>legatório. Em síntese, inclinam-se a preferir<br />
a substituição <strong>de</strong> qualquer tipo <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
por outro sistema <strong>de</strong> governo.<br />
Os ambivalentes são pessoas com opiniões<br />
ambíguas, para não dizer contraditórias.<br />
As opiniões que expressam, em geral, concordam<br />
com concepções <strong>de</strong>legatórias da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Eles estão, a priori, <strong>de</strong> acordo com<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, mas consi<strong>de</strong>ram válido tomar<br />
<strong>de</strong>cisões anti<strong>de</strong>mocráticas na gestão <strong>de</strong> governo<br />
se, na sua opinião, as circunstâncias<br />
assim exigirem. Conseqüentemente, em alguns<br />
temas, eles estão <strong>de</strong> acordo com as opiniões<br />
dos <strong>de</strong>mocratas e em outros, com as<br />
dos não-<strong>de</strong>mocratas. Assim como os <strong>de</strong>mocratas,<br />
eles manifestam preferir um governo<br />
<strong>de</strong>mocrático a um autoritário, consi<strong>de</strong>ram<br />
que “a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> soluciona problemas” e<br />
que é indispensável para o <strong>de</strong>senvolvimento.<br />
Mas, por outro lado, estão <strong>de</strong> acordo com os<br />
não-<strong>de</strong>mocratas quando opinam que atingir<br />
o <strong>de</strong>senvolvimento do país é mais importante<br />
do que preservar a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, e não<br />
objetariam que um governo não-<strong>de</strong>mocrático<br />
chegasse ao po<strong>de</strong>r, se pu<strong>de</strong>sse resolver os<br />
problemas econômicos. Além disso, os ambivalentes<br />
se distinguem dos outros dois<br />
grupos por aceitar que, em tempos <strong>de</strong> crise,<br />
o presi<strong>de</strong>nte imponha or<strong>de</strong>m pela força,<br />
controle os meios <strong>de</strong> comunicação e prescinda<br />
do Parlamento e dos partidos.<br />
Po<strong>de</strong> parecer paradoxal que os ambivalentes,<br />
que expressam preferir a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
manifestem acordo com medidas <strong>de</strong> governo<br />
<strong>de</strong> clara tendência autoritária. Consi<strong>de</strong>ramos<br />
que essas opiniões <strong>de</strong>rivam da concepção<br />
<strong>de</strong>legatória da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> adotada<br />
por esses consultados. Esta comprovação é<br />
importante: a preferência dos ambivalentes<br />
por <strong>uma</strong> li<strong>de</strong>rança <strong>de</strong> base <strong>de</strong>mocrática, mas<br />
com traços que, embora autoritários, aumentem<br />
a eficácia da sua gestão, po<strong>de</strong>ria ser<br />
eventualmente capitalizada pelos adversários<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Magnitu<strong>de</strong> das tendências em relação à<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Em 2002, os <strong>de</strong>mocratas pertenciam à<br />
tendência mais difundida entre os latinoamericanos,<br />
não chegando, porém, a formar<br />
<strong>uma</strong> maioria (gráfico 6). Somaram 43<br />
por cento dos consultados nos <strong>de</strong>zoito países<br />
da América Latina. Entretanto, o apoio<br />
majoritário à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> dos ambivalentes,<br />
que são a segunda tendência<br />
mais difundida (30,5 por cento). Finalmente,<br />
os não-<strong>de</strong>mocratas pertenciam à tendência<br />
menos difundida: 26,5 por cento dos<br />
consultados.<br />
Cada sub-região apresenta <strong>uma</strong> situação<br />
diferente: vantagem para os <strong>de</strong>mocratas,<br />
equilíbrio e polarização. Na América Central<br />
e no México, os <strong>de</strong>mocratas são quase a<br />
meta<strong>de</strong> da população, representam mais do<br />
que o dobro dos não-<strong>de</strong>mocratas e têm ampla<br />
vantagem sobre os ambivalentes. Nos países<br />
do Mercosul e no Chile há <strong>uma</strong> situação<br />
polarizada: as tendências mais difundidas<br />
são as opostas, os <strong>de</strong>mocratas e os não-<strong>de</strong>mocratas.<br />
Além disso, a diferença <strong>de</strong> magnitu<strong>de</strong><br />
entre ambos é estreita. Finalmente, na<br />
Região Andina existe um equilíbrio entre as<br />
três tendências: a diferença entre os <strong>de</strong>mocratas<br />
e os ambivalentes é pequena, e nenh<strong>uma</strong><br />
consegue <strong>uma</strong> vantagem ampla sobre os<br />
não-<strong>de</strong>mocratas.<br />
Distância entre as tendências em relação<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
De que tendência os ambivalentes estão<br />
mais próximos Na maior parte dos países<br />
latino-americanos, a existência <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
maioria que respal<strong>de</strong> a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong>pen<strong>de</strong><br />
da capacida<strong>de</strong> dos <strong>de</strong>mocratas para atrair os<br />
ambivalentes para suas posições. A distância<br />
entre as atitu<strong>de</strong>s <strong>de</strong>ssas duas tendências é relevante<br />
para consi<strong>de</strong>rar o efeito da dimensão<br />
da tendência <strong>de</strong>mocrática.<br />
Nas perguntas relativas ao apoio às instituições<br />
representativas (Congresso Nacional<br />
e partidos políticos), preferência pela <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
consi<strong>de</strong>ração <strong>de</strong>sta como indispensável<br />
para o <strong>de</strong>senvolvimento, e expectativa<br />
<strong>de</strong> que com a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> os problemas do<br />
país possam ser resolvidos, as opiniões dos<br />
ambivalentes e dos <strong>de</strong>mocratas são signifi-<br />
142 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
cativamente mais próximas do que entre os<br />
não-<strong>de</strong>mocratas e os ambivalentes. Em dois<br />
temas em particular, “A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> soluciona<br />
problemas” e “A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é indispensável<br />
para o <strong>de</strong>senvolvimento”, praticamente<br />
não há diferenças entre os ambivalentes e<br />
os <strong>de</strong>mocratas. Além disso, em todos esses<br />
casos, os ambivalentes se encontram na zona<br />
<strong>de</strong> atitu<strong>de</strong>s <strong>de</strong>mocráticas (tabela 47), com<br />
um elevado número <strong>de</strong> pontos nas respectivas<br />
escalas.<br />
No entanto, tratando-se <strong>de</strong> atitu<strong>de</strong>s <strong>de</strong>legatórias<br />
e da tendência a apoiar um governo<br />
não-<strong>de</strong>mocrático se “assim os problemas<br />
do país pu<strong>de</strong>rem ser resolvidos”, a situação<br />
se inverte.<br />
A distância entre os não-<strong>de</strong>mocratas e<br />
os ambivalentes é significativamente menor<br />
do que a existente entre <strong>de</strong>mocratas e ambivalentes.<br />
Em dois temas, particularmente, a<br />
distância entre os ambivalentes e os <strong>de</strong>mocratas<br />
é muito evi<strong>de</strong>nte: no apoio a um presi<strong>de</strong>nte<br />
que <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> lado o Congresso e os<br />
partidos, e no apoio a um eventual governo<br />
não-<strong>de</strong>mocrático.<br />
Finalmente, a respeito da opção entre<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e <strong>de</strong>senvolvimento, observamos<br />
que as três tendências se <strong>de</strong>slocaram “para<br />
baixo”: os <strong>de</strong>mocratas se encontram na zona<br />
<strong>de</strong> atitu<strong>de</strong>s intermediárias (média <strong>de</strong> pontos<br />
= 2,47), os ambivalentes beiram a zona <strong>de</strong><br />
atitu<strong>de</strong>s não <strong>de</strong>mocráticas (média <strong>de</strong> pontos<br />
= 2) e os não-<strong>de</strong>mocratas assumem <strong>uma</strong> posição<br />
fechada (média <strong>de</strong> pontos = 1,47).<br />
Embora as diferenças entre tendências se<br />
mantenham em relação a essa opção, o fato<br />
<strong>de</strong> o número <strong>de</strong> pontos ser menor nos três<br />
casos é um chamado <strong>de</strong> atenção: é na opção<br />
entre <strong>de</strong>senvolvimento econômico e <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
que se evi<strong>de</strong>ncia <strong>uma</strong> maior tensão<br />
entre as preferências dos latino-americanos.<br />
De um ponto <strong>de</strong> vista geral, a distância<br />
entre as atitu<strong>de</strong>s dos ambivalentes e as dos<br />
<strong>de</strong>mocratas é quase igual à existente entre os<br />
ambivalentes e os não-<strong>de</strong>mocratas. Os ambivalentes<br />
não se inclinam, por enquanto,<br />
para um ou para outro lado.<br />
Em resumo, a relativa eqüidistância entre<br />
<strong>de</strong>mocratas, ambivalentes e não-<strong>de</strong>mocratas<br />
parece ser resultado <strong>de</strong> <strong>uma</strong> tensão:<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
143
quadro 36<br />
Quantos <strong>de</strong>mocratas e não-<strong>de</strong>mocratas “puros” existem na América Latina<br />
Em toda a população entrevistada nos 18 países da América<br />
Latina, foram <strong>de</strong>tectados, somente 7 não-<strong>de</strong>mocratas “puros”<br />
e 142 <strong>de</strong>mocratas “puros” (os dois somam apenas 1 porcento<br />
das pessoas). Um não-<strong>de</strong>mocrata “puro” é <strong>uma</strong> pessoa que<br />
em todos os aspectos incluídos na pesquisa das tendências<br />
sempre escolheu a resposta mais hostil à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Devido<br />
ao fato <strong>de</strong> que a escala <strong>de</strong> medição empregada varia entre 1<br />
(atitu<strong>de</strong> mais hostil) e 4 (atitu<strong>de</strong> mais pró-<strong>de</strong>mocrática), essas<br />
pessoas obtiveram <strong>uma</strong> pontuação média igual a 1. Como era<br />
<strong>de</strong> se esperar, esses 7 recalcitrantes pertencem à tendência<br />
não <strong>de</strong>mocrática. Pelo contrário, um <strong>de</strong>mocrata “puro” é <strong>uma</strong><br />
pessoa que, em todos os casos, escolheu a resposta mais favorável<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: sua pontuação média foi a máxima (4).<br />
A imensa maioria dos entrevistados tem pontos <strong>de</strong> vista um<br />
pouco mais misturados, menos extremos, embora com tendências<br />
claramente discerníveis. Como foi indicado, os <strong>de</strong>mocratas<br />
ten<strong>de</strong>m a pontuar na zona alta das escalas para medir as<br />
atitu<strong>de</strong>s <strong>de</strong>mocráticas em todos os temas consi<strong>de</strong>rados: 70%<br />
dos assim classificados têm pontuações médias entre 3,01 e 4<br />
pontos, enquanto poucos ambivalentes – 9,8% do total – e nenhum<br />
não-<strong>de</strong>mocrata obtêm essa pontuação. Em contrapartida,<br />
na zona <strong>de</strong> atitu<strong>de</strong>s não-<strong>de</strong>mocráticas, em que a pontuação<br />
média varia entre 1 e 2 pontos, predominam os não-<strong>de</strong>mocratas:<br />
constituem 75% das pessoas que estão nessa zona.<br />
Na zona intermediária (pontuação média entre 2 e 3 pontos)<br />
po<strong>de</strong> ser verificada <strong>uma</strong> situação menos <strong>de</strong>finida, pois nela<br />
coexistem importantes segmentos das três tendências. No<br />
entanto, mesmo assim é possível i<strong>de</strong>ntificar tendências. Em<br />
primeiro lugar, quase todos os ambivalentes estão localizados<br />
nessa zona (84,2% do total). Em segundo lugar, há <strong>uma</strong> presença<br />
importante <strong>de</strong> não-<strong>de</strong>mocratas na faixa entre 2,01 e 2,50,<br />
abaixo do ponto médio da escala, e alg<strong>uma</strong> concentração <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mocratas na faixa entre 2,51 a 3,0, <strong>uma</strong> área acima do ponto<br />
médio. Em ambos os casos, trata-se <strong>de</strong> áreas adjacentes a suas<br />
respectivas “zonas naturais”.<br />
Em resumo, embora na realida<strong>de</strong> haja poucos “tipos puros”,<br />
as tendências conseguem agrupar as pessoas <strong>de</strong> acordo com<br />
padrões <strong>de</strong> apoio à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Elaboração própria com base no Latinobarômetro, 2002.<br />
144 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
DISTÂNCIA ENTRE AS TENDÊNCIAS EM RELAÇÃO À DEMOCRACIA<br />
NOS DIVERSOS TEMAS ESTUDADOS, AMÉRICA LATINA, 2002<br />
TABELA 47<br />
Pontuação na escala <strong>de</strong> atitu<strong>de</strong>s<br />
<strong>de</strong>mocráticas (1)<br />
Maior proximida<strong>de</strong> entre <strong>de</strong>mocratas<br />
e ambivalentes<br />
Distância entre tendências (2)<br />
Di<br />
Maior proximida<strong>de</strong> entre não<br />
<strong>de</strong>mocratas e ambivalentes<br />
Di<br />
Zona <strong>de</strong> atitu<strong>de</strong>s <strong>de</strong>mocráticas Preferência <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> 0,45<br />
(3 a 4 pontos) Democracia indispensável<br />
para o <strong>de</strong>senvolvimento 0,04<br />
Democracia soluciona<br />
problemas 0,05<br />
Apoio ao Congresso 0,57<br />
Apoio aos partidos 0,52<br />
Zona intermediária Democracia vs. <strong>de</strong>senvolvimento 0,90 Apoio a governo <strong>de</strong>mocrático<br />
(2 a 3 pontos) para resolver problemas 4,61<br />
Presi<strong>de</strong>nte respeite leis 1,76<br />
Presi<strong>de</strong>nte não use força 1,80<br />
Presi<strong>de</strong>nte não controle meios 1,65<br />
Presi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong>ixe <strong>de</strong> lado<br />
Congresso e partidos 2,13<br />
Zona <strong>de</strong> atitu<strong>de</strong>s não <strong>de</strong>mocráticas<br />
(1 a 2 pontos)<br />
Notas: Os n variam entre 14.532(p41st) e 15.216 (p39st e p40st).<br />
(1) O intervalo <strong>de</strong> variação das escalas <strong>de</strong> medição das atitu<strong>de</strong>s <strong>de</strong>mocráticas nas perguntas empregadas para o estudo<br />
das tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> foi padronizado. Um valor <strong>de</strong> 4 foi estipulado para as atitu<strong>de</strong>s mais favoráveis em<br />
relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e o valor <strong>de</strong> 1, para as atitu<strong>de</strong>s mais negativas em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
(2) Consulte explicação sobre o conceito <strong>de</strong> distância e seu respectivo indicador sob o título “Terceira dimensão: distância<br />
entre as tendências” da Nota Técnica do IAD que aparece em Anexos (p.225).<br />
Fonte: Elaboração própria com base no Latinobarômetro 2002.<br />
a maior proximida<strong>de</strong> entre ambivalentes e<br />
<strong>de</strong>mocratas no tema do apoio à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
e suas instituições compensa a maior proximida<strong>de</strong><br />
entre os ambivalentes e os não-<strong>de</strong>mocratas<br />
no que se refere a atitu<strong>de</strong>s <strong>de</strong>legatórias.<br />
Tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>:<br />
perfil social<br />
No que se refere às tendências em relação<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, a base social que as sustenta<br />
é heterogênea; as pessoas que apóiam<br />
<strong>uma</strong> tendência <strong>de</strong>terminada não pertencem<br />
majoritariamente a um grupo ou classe social.<br />
Em particular, a composição social dos<br />
<strong>de</strong>mocratas revela que o apoio à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
está arraigado <strong>de</strong> um modo bastante semelhante<br />
nos distintos setores da socieda<strong>de</strong>.<br />
Mesmo assim, observam-se as seguintes relações<br />
(tabela 48):<br />
■ Pessoas com educação superior (completa<br />
ou incompleta) ten<strong>de</strong>m a ser <strong>de</strong>mocratas.<br />
■ Não há, em compensação, maiores diferenças<br />
entre pessoas com educação primária<br />
e secundária.<br />
■ Os <strong>de</strong>mocratas tiveram maior mobilida<strong>de</strong><br />
educativa em relação aos pais.<br />
■ Há <strong>uma</strong> maior presença relativa <strong>de</strong> jovens<br />
entre os não-<strong>de</strong>mocratas.<br />
■ Os não-<strong>de</strong>mocratas são, em média, pessoas<br />
que percebem que tiveram <strong>uma</strong> mobilida<strong>de</strong><br />
econômica <strong>de</strong>scen<strong>de</strong>nte mais intensa do<br />
que os outros grupos em relação aos pais.<br />
■ Os não-<strong>de</strong>mocratas são os que mais<br />
ten<strong>de</strong>m a pensar que os filhos terão <strong>uma</strong><br />
menor mobilida<strong>de</strong> econômica ascen<strong>de</strong>nte.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
145
PERFIL SOCIOECONÔMICO DAS PESSOAS SEGUNDO SUA<br />
TENDÊNCIA EM RELAÇÃO À DEMOCRACIA, 2002<br />
TABELA 48<br />
Categorias<br />
Estrutura da<br />
amostragem<br />
Tendência em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Democratas Ambivalantes Não <strong>de</strong>mocratas<br />
Significância<br />
(4)<br />
América Central e México (1) % <strong>de</strong> pessoas n=6.402 46,6 33,8 19,7 ..<br />
Região Andina % <strong>de</strong> pessoas n=4.377 37,3 34,4 28,3 ..<br />
Mercosul e Chile % <strong>de</strong> pessoas n=4.438 43,6 21,9 34,5 ..<br />
América Latina % <strong>de</strong> pessoas n=15.217 43 30,5 26,5 ..<br />
Sexo % Homens 51,5 52,9 50,8 50 **<br />
% Mulheres 48,5 47,1 49,2 50<br />
Ida<strong>de</strong> % 16 a 29 anos 37,6 35,1 38,5 40,8 **<br />
% 30 a 64 anos 54,3 56,3 53,3 52,2<br />
% 65 a 99 anos 8 8,6 8,1 7<br />
Média <strong>de</strong> ida<strong>de</strong> 38,16 39,24 37,83 46,8 **<br />
Nível educativo % sem estudos 7,2 6,3 8,5 7,2 **<br />
% 1 a 6 anos 32 30,4 34,2 31,8<br />
% 7 a 12 anos 43,1 41,9 43,2 45<br />
% Superior completa ou incompleta 17,7 21,4 14,1 16<br />
Média <strong>de</strong> anos <strong>de</strong> estudo 9,33 9,69 8,84 9,29 **<br />
Nível econômico (2) % Baixo 41,5 40 44,8 40,2 *<br />
% Médio 49,2 49,5 47,3 50,9<br />
% Alto 9,3 10,5 7,9 8,9<br />
Média do índice econômico 4,01 4,12 3,84 4,05 **<br />
Média <strong>de</strong> mobilida<strong>de</strong> econômica -0,44 -0,42 -0,38 -0,52<br />
acontecida (4)<br />
Corte (3) % Socializado em regime autoritário 51,8 48,8 53,3 55,1 **<br />
% Socializado em período <strong>de</strong> transição 11,6 11,9 11 11,9<br />
% Socializado em <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> 36,6 39,4 35,7 33<br />
Média <strong>de</strong> anos <strong>de</strong> socialização<br />
em não <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> 6,36 6,04 6,49 6,74 **<br />
Notas:<br />
(1) Inclui República Dominicana.<br />
(2) Com base no índice econômico elaborado a partir da posse <strong>de</strong> artefatos e da educação do chefe <strong>de</strong> família. Esse índice<br />
po<strong>de</strong> variar entre 0 e 10. Se o índice encontra-se entre 0 e 3,33 consi<strong>de</strong>ra-se nível econômico baixo, se encontra-se entre<br />
3,34 e 6,66 consi<strong>de</strong>ra-se nível econômico médio e se encontra-se entre 6,67 e 10 consi<strong>de</strong>ra-se nível econômico alto.<br />
(3) De acordo ao número <strong>de</strong> anos <strong>de</strong> socialização nos que se viveu sob um regime autoritário, se <strong>de</strong>termina se <strong>uma</strong> pessoa<br />
foi socializada em <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, num período <strong>de</strong> transição ou em um regime autoritário. Consi<strong>de</strong>ra-se que o número <strong>de</strong><br />
anos <strong>de</strong> socialização <strong>de</strong> <strong>uma</strong> pessoa é <strong>de</strong> onze anos (entre os 7 e os 17 anos).<br />
(4) O índice <strong>de</strong> mobilida<strong>de</strong> econômica é elaborado segundo a avaliação que os entrevistados fazem sobre a situação<br />
econômica dos seus pais e a comparação <strong>de</strong> esta em relação com a situação atual própria.<br />
Fonte: Processamento <strong>de</strong> várias perguntas do Latinobarômetro 2002.<br />
146 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Um pouco mais da meta<strong>de</strong> dos habitantes<br />
da América Latina foi socializada sob regimes<br />
autoritários (52,8 por cento). No caso<br />
dos <strong>de</strong>mocratas, esta proporção cai para<br />
48,8 por cento; entre os não-<strong>de</strong>mocratas a<br />
proporção se eleva a 55,1 por cento.<br />
Heterogeneida<strong>de</strong><br />
O estudo <strong>de</strong> opiniões em outros âmbitos<br />
<strong>de</strong> interesse permite analisar se pessoas<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> mesma tendência em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
compartilham, também, opiniões<br />
a respeito do que <strong>de</strong>veria ser feito e <strong>de</strong><br />
quem <strong>de</strong>veria ser apoiado eleitoralmente em<br />
um país.<br />
Os dados levantados indicam que as tendências<br />
são politicamente heterogêneas. Em<br />
particular, as pessoas que compartilham<br />
<strong>uma</strong> tendência positiva em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
não se concentram em forças políticas<br />
<strong>de</strong>terminadas, nem manifestam opiniões<br />
muito diferentes das opiniões do resto dos<br />
consultados (tabela 49). Entretanto, há alg<strong>uma</strong>s<br />
diferenças interessantes:<br />
■ Os não-<strong>de</strong>mocratas ten<strong>de</strong>m a opinar,<br />
com maior freqüência do que os outros, que<br />
o problema para eles prioritário não está<br />
sendo solucionado ou que existe um retrocesso<br />
na sua solução.<br />
■ Os não-<strong>de</strong>mocratas ten<strong>de</strong>m a notar,<br />
com maior freqüência, que o setor político<br />
ao qual pertencem não tem igualda<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
oportunida<strong>de</strong>s no que se refere a acesso ao<br />
po<strong>de</strong>r.<br />
■ Os não-<strong>de</strong>mocratas ten<strong>de</strong>m a estar<br />
menos satisfeitos com a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> do que<br />
os <strong>de</strong>mocratas e os ambivalentes (apenas 19<br />
por cento, comparados com 40 e 43,9 por<br />
cento, respectivamente).<br />
■ Os não-<strong>de</strong>mocratas ten<strong>de</strong>m a confiar<br />
menos do que os outros nas instituições e<br />
nos políticos.<br />
■ Os não-<strong>de</strong>mocratas acreditam com<br />
maior freqüência do que os outros que, se<br />
for preciso, os políticos mentem para ganhar<br />
as eleições.<br />
■ Os <strong>de</strong>mocratas, mais do que os não<strong>de</strong>mocratas<br />
e os ambivalentes, ten<strong>de</strong>m a favorecer<br />
um maior protagonismo do Estado<br />
no <strong>de</strong>senvolvimento do país.<br />
■ Não há maiores diferenças <strong>de</strong> opinião<br />
acerca dos problemas prioritários que <strong>de</strong>vem<br />
ser solucionados no país: <strong>de</strong>mocratas,<br />
ambivalentes e não <strong>de</strong>mocratas coinci<strong>de</strong>m<br />
em apontar os problemas <strong>de</strong> pobreza e <strong>de</strong>semprego<br />
como os mais importantes.<br />
Pela análise do perfil dos não-<strong>de</strong>mocratas<br />
e <strong>de</strong> suas opiniões sobre a realida<strong>de</strong> política<br />
e econômica, é possível também comprovar<br />
que essa tendência está associada a menor<br />
educação, socialização em períodos autoritários,<br />
baixa mobilida<strong>de</strong> social em relação aos<br />
pais, menores perspectivas positivas quanto<br />
ao futuro dos filhos e à solução <strong>de</strong> seus problemas<br />
públicos, e a <strong>uma</strong> gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>sconfiança<br />
nas instituições e nos políticos.<br />
Formas <strong>de</strong> participação dos cidadãos<br />
na vida política<br />
Embora não seja possível <strong>de</strong>terminar<br />
<strong>de</strong> maneira geral o nível ótimo <strong>de</strong> participação<br />
que <strong>de</strong>veria existir em <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
toda <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> precisa <strong>de</strong> algum nível<br />
<strong>de</strong> participação dos cidadãos. Nas mais dinâmicas,<br />
as pessoas encontram <strong>uma</strong> série <strong>de</strong><br />
caminhos para exercer esse direito.<br />
Mediante o exame da participação cidadã,<br />
po<strong>de</strong>-se <strong>de</strong>terminar qual das tendências<br />
já examinadas é a mais ativa e, <strong>de</strong>ssa forma,<br />
acrescentar um novo elemento <strong>de</strong> juízo para<br />
o estudo sobre o apoio – e a vulnerabilida<strong>de</strong> –<br />
das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s na região (tabela 50).<br />
A maioria dos cidadãos na América Latina<br />
não está <strong>de</strong>sconectada da vida política<br />
e social dos seus países. Só <strong>uma</strong> pequena<br />
minoria dos consultados, 7,3 por cento<br />
do total, não a<strong>de</strong>riu a nenhum ato <strong>de</strong> participação<br />
cidadã nos anos recentes. Adicionais<br />
22,1 por cento se limitaram a exercer o voto<br />
na última eleição presi<strong>de</strong>ncial do seu país.<br />
No total, em torno <strong>de</strong> 30 por cento das pessoas<br />
po<strong>de</strong>m ser classificadas como cidadãos<br />
<strong>de</strong>smobilizados: ou não exercem seus direitos<br />
<strong>de</strong> participação ou exercem <strong>de</strong> maneira<br />
intermitente, na modalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> participação<br />
política que menos esforço pessoal requer:<br />
o voto.<br />
Em cada <strong>de</strong>z pessoas entrevistadas, quase<br />
quatro (37,6 por cento) intervêm na vida<br />
pública do seu país, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
147
PERFIL POLÍTICO DAS PESSOAS SEGUNDO SUA TENDÊNCIA<br />
EM RELAÇÃO À DEMOCRACIA, 2002<br />
TABELA 49<br />
Categorias<br />
Estrutura da<br />
amostragem<br />
Tendência em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Democratas Ambivalantes Não <strong>de</strong>mocratas<br />
Significância<br />
(2)<br />
América Central e México (1) % <strong>de</strong> pessoas n=6.402 46,6 33,8 19,7 ..<br />
Região Andina % <strong>de</strong> pessoas n=4.377 37,3 34,4 28,3 ..<br />
Mercosul e Chile % <strong>de</strong> pessoas n=4.438 43,6 21,9 34,5 ..<br />
América Latina % <strong>de</strong> pessoas n=15.217 43,0 30,5 26,5 ..<br />
Voto % votou na última eleição 78,3 82,3 76,9 73,6 **<br />
% não votou por <strong>de</strong>sencanto<br />
ou <strong>de</strong>sinteresse 8,9 7,2 10,2 10,2 **<br />
% manifesta ter um partido 47,5 51,7 46,6 41,7 **<br />
Média do índice <strong>de</strong><br />
eficácia do voto 3,01 3,03 3,13 2,84 **<br />
Democracia<br />
Outras atitu<strong>de</strong>s políticas<br />
% dá significado<br />
negativo <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> 5,4 2,4 3,8 12,8 **<br />
% satisfeito com o funciona<br />
mento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> 35,6 40,0 43,9 19,0 **<br />
% opina não ter igualda<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> oportunida<strong>de</strong>s políticas 32,5 29,5 31,0 39,3 **<br />
% opina que é preciso ser<br />
cuidadoso ao tratar com os <strong>de</strong>mais 80,7 79,0 78,9 85,5 **<br />
Média na escala esquerda-direita 5,93 5,77 6,33 5,75 **<br />
Média <strong>de</strong> índice <strong>de</strong> confiança em<br />
instituições e atores políticos 1,93 1,97 2,03 1,77 **<br />
Estratégias <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento % opina: instituições públicas<br />
sem solução ou privatizar 5,0 3,8 5,1 6,8 **<br />
% a favor <strong>de</strong> medidas<br />
administrativas <strong>de</strong> reforma 42,0 41,8 43,6 40,7<br />
% a favor <strong>de</strong> melhoramento <strong>de</strong><br />
“accountability” no Estado 53,0 54,4 51,3 52,6<br />
Média índice <strong>de</strong> intervenção<br />
econômica do Estado 3,82 4,05 3,55 3,76 **<br />
Problemas prioritários<br />
% menciona emprego, pobreza,<br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> e renda insuficiente 60,2 62,6 58,2 58,6 **<br />
% menciona corrupção 12,0 12,3 11,6 12,0 ns<br />
% menciona violência política 7,4 5,7 7,8 9,6 **<br />
Resposta a problemas % opina que está retroce<strong>de</strong>ndo na<br />
prioritários solução ou não tem solução 32,0 31,9 27,4 37,8 **<br />
% opina que o problema prioritário<br />
está sendo solucionado 7,5 6,9 9,5 6,3 **<br />
% menciona um tema prioritário<br />
não tratado em campanha 82,9 84,2 80,3 83,6 ns<br />
% opina que políticos<br />
não cumprem promessas <strong>de</strong><br />
campanha porque mentem 64,4 65,3 58,3 69,7 **<br />
Notas:<br />
(1) Inclui República Dominicana.<br />
(2) Indica-se com um (*) quando a medida <strong>de</strong> associação utilizada ou a Análise <strong>de</strong> Variância (ANOVA por sua sigla em inglês) resulta significativa a 5%. Indicase<br />
com (**) quando o resultado é significativo a 1%. Quando não é pertinente o cálculo <strong>de</strong> <strong>uma</strong> medida <strong>de</strong> associação ou da ANOVA indica-se com dois pontos<br />
seguidos (..). Sobre as provas realizadas em cada caso, consulte o Compêndio Estatístico.<br />
Fonte: Processamento <strong>de</strong> várias perguntas do Latinobarômetro 2002.<br />
148 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
da participação eleitoral. Além <strong>de</strong> votar, entram<br />
em contato com autorida<strong>de</strong>s públicas<br />
quando há problemas que afetam suas comunida<strong>de</strong>s,<br />
participam <strong>de</strong> manifestações<br />
públicas e colaboram com tempo, trabalho<br />
ou dinheiro na resolução dos problemas<br />
da comunida<strong>de</strong>. São cidadãos que exercitam<br />
ativamente seus direitos. Dentre eles,<br />
distinguem-se dois grupos. Em primeiro lugar,<br />
existe um setor altamente participativo,<br />
composto por pessoas que, literalmente,<br />
“fazem <strong>de</strong> tudo”. Registrou-se ativida<strong>de</strong><br />
em todos os âmbitos <strong>de</strong> participação cidadã<br />
pesquisados (participação eleitoral, em manifestações<br />
coletivas, em instituições sociais,<br />
e contatando autorida<strong>de</strong>s). Na América Latina,<br />
são aproximadamente 25 por cento do<br />
total, um número ligeiramente inferior ao<br />
dos cidadãos <strong>de</strong>smobilizados.<br />
O segundo setor, composto aproximadamente<br />
por <strong>uma</strong> <strong>de</strong> cada oito pessoas (13,3<br />
por cento), também realiza ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
participação política in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente da<br />
eleitoral, mas sem atingir o nível e a diversida<strong>de</strong><br />
das ações dos cidadãos altamente participativos.<br />
Combinam o exercício do sufrágio<br />
com pelo menos <strong>uma</strong> outra modalida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> participação política: votam e entram em<br />
contato com autorida<strong>de</strong>s; votam e participam<br />
<strong>de</strong> manifestações públicas; em alguns<br />
casos, po<strong>de</strong>m também colaborar com a comunida<strong>de</strong>.<br />
Não estão, porém, ativas em todas<br />
as frentes. Existe um setor que <strong>de</strong>senvolve<br />
ativida<strong>de</strong>s políticas não eleitorais <strong>de</strong><br />
participação cidadã: abstém-se <strong>de</strong> votar, porém<br />
entra em contato com autorida<strong>de</strong>s públicas<br />
e participa <strong>de</strong> manifestações públicas<br />
(4,9 por cento).<br />
Finalmente, um terço (33,2 por cento)<br />
dos latino-americanos são pessoas socialmente<br />
ativas, a maioria das quais tem, no<br />
mínimo, <strong>uma</strong> intervenção esporádica na política<br />
por meio do voto. Neste grupo, as pessoas<br />
se encontram em <strong>uma</strong> posição intermediária<br />
entre os cidadãos <strong>de</strong>smobilizados<br />
e os politicamente ativos. Por um lado, colaboram<br />
com organizações da sua comunida<strong>de</strong><br />
e, nesse sentido, exercitam seu direito<br />
<strong>de</strong> participar <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> seu interesse.<br />
Por outro lado, essa ativida<strong>de</strong> se <strong>de</strong>senvolve<br />
principalmente em um âmbito não político.<br />
Participação cidadã e tendências em relação<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
O último aspecto na análise da participação<br />
é seu vínculo com as opiniões em relação<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Na América Latina, os<br />
<strong>de</strong>mocratas ten<strong>de</strong>m levemente a participar<br />
mais ativamente na vida política <strong>de</strong> seus países<br />
do que os ambivalentes e os não- <strong>de</strong>mocratas.<br />
43 por cento dos <strong>de</strong>mocratas realizam<br />
outras ativida<strong>de</strong>s políticas, tais como, entrar<br />
em contato com autorida<strong>de</strong>s e funcionários<br />
públicos e manifestar-se publicamente, além<br />
<strong>de</strong> que quase todos votam; 37 por cento dos<br />
não-<strong>de</strong>mocratas po<strong>de</strong>m ser classificados como<br />
ativos, assim como 39 por cento dos ambivalentes.<br />
Uma comprovação importante é<br />
que nem sempre os <strong>de</strong>mocratas são os mais<br />
participativos.<br />
Perfis <strong>de</strong> intensida<strong>de</strong> da cidadania<br />
A análise integrada da dimensão, da distância<br />
e do ativismo das tendências em relação<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> ajuda a proporcionar<br />
<strong>uma</strong> estimativa do grau <strong>de</strong> respaldo cidadão<br />
com que ela conta. Com esse propósito<br />
preparamos o índice <strong>de</strong> apoio à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
(IAD), que oferece <strong>uma</strong> visão sintética sobre<br />
o apoio e a possível vulnerabilida<strong>de</strong> das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
latino-americanas.<br />
Esse índice permite avaliar o atual equilíbrio<br />
<strong>de</strong> forças e o potencial para criar coalizões<br />
cidadãs amplas <strong>de</strong> apoio à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
incluindo os setores ambivalentes. É <strong>uma</strong><br />
ferramenta que distingue as situações políticas<br />
favoráveis das <strong>de</strong>sfavoráveis e arriscadas.<br />
Nas situações favoráveis, há um balanço<br />
<strong>de</strong> forças positivo para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, pois os<br />
<strong>de</strong>mocratas são maioria, são os politicamente<br />
mais ativos, e os ambivalentes estão relativamente<br />
próximos <strong>de</strong> suas posições. No caso<br />
oposto, quando o balanço <strong>de</strong> forças é negativo,<br />
os não-<strong>de</strong>mocratas são maioria, são mais<br />
ativos e têm os ambivalentes mais próximos.<br />
Com o IAD será possível, mediante futuras<br />
medições, examinar as variações na situação<br />
política e na suposta soli<strong>de</strong>z das bases <strong>de</strong> estabilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mocrática na cidadania.<br />
As fontes <strong>de</strong> informação do IAD também<br />
po<strong>de</strong>m ser empregadas para estudar a intensida<strong>de</strong><br />
da cidadania, isto é, como as pessoas<br />
exercitam, se é que o fazem, seu status <strong>de</strong> ci-<br />
Bases empíricas do Relatório 149
PERFIL SOCIOECONÔMICO DAS PESSOAS SEGUNDO MODOS DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ, 2002.<br />
TABELA 50<br />
Estrutura da<br />
Categorias amostragem Modos <strong>de</strong> participação cidadã<br />
Significância (2)<br />
Não faz nada<br />
Só vota<br />
Colabora com ou<br />
sem voto<br />
Ação política com<br />
ou sem voto<br />
Colabora e ação<br />
política sem voto<br />
Colabora e ação<br />
política com voto<br />
(As provas<br />
são realizadas<br />
comparando as<br />
pessoas que<br />
participam nos<br />
seis modos)<br />
(As provas<br />
são realizadas<br />
comparando as<br />
pessoas que não<br />
fazem nada ou<br />
que só votam com<br />
as que realizam<br />
ação política só ou<br />
combinada)<br />
América Central e México (1) % <strong>de</strong> pessoas n=7.387 7,3 20,2 35,2 6,9 5,0 25,4 .. ..<br />
Região Andina % <strong>de</strong> pessoas n=5.178 7,9 23,1 34,3 8,0 4,3 22,6 .. ..<br />
Mercosul e Chile % <strong>de</strong> pessoas n=5.330 6,6 23,8 29,2 11,1 5,2 24,0 .. ..<br />
América Latina % <strong>de</strong> pessoas n=17.895 7,3 22,1 33,2 8,5 4,8 24,2 .. ..<br />
Sexo % Homens 48,5 41,8 45,5 46,3 49,0 52,1 55,4 ** **<br />
% Mulheres 51,5 58,2 54,5 53,7 51,0 47,9 44,6<br />
Ida<strong>de</strong> % 16 a 29 anos 33,1 51,0 28,3 34,9 31,7 49,7 26,8 ** ns<br />
% 30 a 64 anos 57,8 38,4 59,8 57,3 58,4 44,6 65,1<br />
% 65 a 99 anos 9,0 10,6 11,9 7,8 9,8 5,8 8,1<br />
Média <strong>de</strong> ida<strong>de</strong> 39,68 35,78 42,06 38,72 40,58 33,96 40,83 ** *<br />
Nível educativo % Sem estudos 9,2 14,1 11,7 9,3 6,9 9,2 6,3 ** **<br />
% 1 a 6 anos 35,4 38,5 37,4 37,6 33,2 30,6 31,2<br />
% 7 a 12 anos 39,5 39,8 38,4 39,9 43,2 43,7 37,7<br />
% Superior completo<br />
ou incompleto 15,9 7,6 12,6 13,2 16,6 16,5 24,8<br />
Média <strong>de</strong> anos <strong>de</strong><br />
estudo 8,79 7,64 8,23 8,58 9,18 8,97 9,77 ** **<br />
150 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
PERFIL SOCIOECONÔMICO DAS PESSOAS SEGUNDO MODOS DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ, 2002.<br />
CONTINUAÇÃO TABELA 50<br />
Estrutura da<br />
Categorias amostragem Modos <strong>de</strong> participação cidadã<br />
Significância (2)<br />
Não faz nada<br />
Só vota<br />
Colabora com ou<br />
sem voto<br />
Ação política com<br />
ou sem voto<br />
Colabora e ação<br />
política sem voto<br />
Colabora e ação<br />
política com voto<br />
(As provas<br />
são realizadas<br />
comparando as<br />
pessoas que<br />
participam nos<br />
seis modos)<br />
(As provas<br />
são realizadas<br />
comparando as<br />
pessoas que não<br />
fazem nada ou<br />
que só votam com<br />
as que realizam<br />
ação política só ou<br />
combinada)<br />
Nível econômico (3) % Baixo 45,4 52,8 51,3 47,6 42,9 44,1 35,8 ** **<br />
% Médio 46,5 43,2 42,7 45,7 49,3 45,8 51,3<br />
% Alto 8,1 4,0 6,0 6,7 7,8 10,2 12,9<br />
Média <strong>de</strong> índice<br />
econômico 3,85 3,45 3,60 3,73 3,95 4,02 4,29 ** **<br />
Agenda não tratada (4) % Menciona um<br />
tema sem tratar 18,4 31,4 27,2 14,5 21,7 11,2 13,8 ** **<br />
% Não menciona um<br />
tema sem tratar 81,6 68,6 72,8 85,5 78,3 88,8 86,2<br />
Confiança (5) Média <strong>de</strong> confiança<br />
em instituições<br />
e atores 1,91 1,84 1,88 1,90 1,96 1,89 1,97 ** **<br />
Notas:<br />
( 1) Inclui República Dominicana.<br />
(2) Indica-se com um (*) quando a medida <strong>de</strong> associação utilizada ou a Análise <strong>de</strong> Variância (ANOVA por sua sigla em inglês) resulta significativa a 5%. Indica-se com (**) quando o resultado é significativo a 1%. Quando não é<br />
pertinente o cálculo <strong>de</strong> <strong>uma</strong> medida <strong>de</strong> associação ou da ANOVA indica-se com dois pontos seguidos (..). Sobre as provas realizadas em cada caso, consulte o Compêndio Estatístico.<br />
( 3) Com base no índice econômico construído a partir da posse <strong>de</strong> utensílios e da educação do chefe <strong>de</strong> família. Esse índice po<strong>de</strong> variar entre 0 e 10. Se o índice encontra-se entre 0 e 3,33 consi<strong>de</strong>ra-se nível econômico baixo,<br />
se encontra-se entre 3,34 e 6,66 consi<strong>de</strong>ra-se nível econômico médio e se encontra-se entre 6,67 e 10 consi<strong>de</strong>ra-se nível econômico alto.<br />
( 4) Com base na pergunta p27u: “Qual é o tema que lhe interessa e que os candidatos na última eleição não se atreveram a abordar “.<br />
( 5) Com base no índice <strong>de</strong> confiança em instituições e atores, construído a partir <strong>de</strong> perguntas sobre confiança em “ “Po<strong>de</strong>r judiciário “, “Governo “, “Municípios “, “Congresso “, “Partidos políticos “ e “Pessoas que dirigem<br />
o país “.<br />
Cidadão não ativo: Não tem participação política ou realiza a que, além <strong>de</strong> esporádica, requer menor esforço: votar). Po<strong>de</strong> colaborar em ativida<strong>de</strong>s sociais.<br />
Cidadão ativo: Contacta autorida<strong>de</strong>s e participa <strong>de</strong> manifestações públicas, mas sem ativida<strong>de</strong> em todos os âmbitos da participação cidadã.<br />
Cidadão altamente participativo. Está ativo em todos os âmbitos da participação cidadã.<br />
Fonte: Processamento <strong>de</strong> perguntas da Seção Proprietária do PNUD e <strong>de</strong> outras perguntas no Latinobarômetro 2002.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
151
dadão ou cidadã.<br />
O conceito <strong>de</strong> intensida<strong>de</strong> cidadã vem do<br />
termo cidadania <strong>de</strong> baixa intensida<strong>de</strong>, criado<br />
por O’Donnell. 77 Enten<strong>de</strong>-se por intensida<strong>de</strong><br />
cidadã o livre e ativo exercício dos<br />
direitos e o cumprimento dos <strong>de</strong>veres genéricos<br />
próprios do status <strong>de</strong> cidadania. A ferramenta<br />
utilizada para se aproximar <strong>de</strong>sse<br />
tema é <strong>uma</strong> tipologia <strong>de</strong> perfis <strong>de</strong> intensida<strong>de</strong><br />
cidadã que permite classificar as pessoas<br />
conforme a maneira <strong>de</strong> exercitar seu status<br />
<strong>de</strong> cidadão (tabela 47).<br />
Com base na informação das tendências<br />
em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e nas formas <strong>de</strong><br />
participação cidadã na América Latina, existem<br />
quatro perfis <strong>de</strong> intensida<strong>de</strong> cidadã:<br />
■ os <strong>de</strong>mocratas participativos;<br />
■ os <strong>de</strong>mocratas <strong>de</strong>smobilizados;<br />
■ os ambivalentes e não-<strong>de</strong>mocratas <strong>de</strong>smobilizados;<br />
■ os ambivalentes e não-<strong>de</strong>mocratas<br />
participativos.<br />
Os dois primeiros grupos compartilham<br />
<strong>uma</strong> tendência <strong>de</strong>mocrática, mas diferem<br />
em seu nível <strong>de</strong> participação na vida política.<br />
Os dois últimos grupos compartilham<br />
sua ausência <strong>de</strong> compromisso com a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
e também diferem em seu nível <strong>de</strong><br />
participação política.<br />
Aproximadamente, <strong>uma</strong> <strong>de</strong> cada cinco<br />
pessoas na América Latina (18,9 por cento)<br />
po<strong>de</strong> ser classificada como <strong>de</strong>mocrata participativa.<br />
Pouco mais <strong>de</strong> um terço dos consultados<br />
(34,9 por cento) são ambivalentes<br />
ou não-<strong>de</strong>mocratas <strong>de</strong>smobilizados. Essas<br />
pessoas têm dúvidas ou se opõem à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
mas estão retiradas da vida política.<br />
Os ambivalentes e não-<strong>de</strong>mocratas participativos<br />
representam <strong>uma</strong> proporção muito<br />
similar à dos <strong>de</strong>mocratas participativos.<br />
quadro 37<br />
Cidadania <strong>de</strong> baixa intensida<strong>de</strong><br />
Em 1993, O’Donnell <strong>de</strong>finiu que, na América<br />
Latina, <strong>uma</strong> proporção consi<strong>de</strong>rável das cidadãs<br />
e dos cidadãos não po<strong>de</strong> exercer seus direitos<br />
civis e é discriminada, embora seus direitos<br />
políticos estejam razoavelmente protegidos. Ele<br />
<strong>de</strong>nominou esse fenômeno “cidadania <strong>de</strong> baixa<br />
intensida<strong>de</strong>”, e o atribuiu a barreiras objetivas<br />
como a <strong>de</strong>bilida<strong>de</strong> do Estado <strong>de</strong>mocrático <strong>de</strong><br />
direito e o efeito das <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s sociais<br />
extremas. Um estudo da cidadania <strong>de</strong> baixa<br />
intensida<strong>de</strong> requer, então, a utilização <strong>de</strong><br />
diversas fontes <strong>de</strong> informação, tanto percepções<br />
quanto registros institucionais.<br />
Além <strong>de</strong>sses obstáculos, a intensida<strong>de</strong> no<br />
exercício da cidadania po<strong>de</strong> ser influenciada<br />
pelo grau em que as pessoas se sintam<br />
obrigadas a cumprir seus <strong>de</strong>veres e a<br />
exercer seus direitos. Esta é precisamente a<br />
perspectiva estudada neste capítulo, com a<br />
informação do Latinobarômetro. Trata-se <strong>de</strong><br />
<strong>uma</strong> perspectiva inspirada no pensamento<br />
<strong>de</strong> O’Donnell, embora diferente, pois está<br />
centrada no estudo das ativida<strong>de</strong>s e dos<br />
comportamentos dos indivíduos.<br />
Uma <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na qual <strong>uma</strong> proporção<br />
significativa da cidadania <strong>de</strong>ci<strong>de</strong> não exercer<br />
seus direitos nem cumprir seus <strong>de</strong>veres,<br />
encontra-se com problemas.<br />
Para avançar no estudo <strong>de</strong>sse tema, preparouse<br />
<strong>uma</strong> tipologia <strong>de</strong> perfis <strong>de</strong> intensida<strong>de</strong><br />
cidadã, que classifica as pessoas combinando<br />
os seguintes critérios:<br />
■ Sob a perspectiva dos <strong>de</strong>veres cidadãos,<br />
o <strong>de</strong>ver <strong>de</strong> aceitar a vigência das normas<br />
<strong>de</strong>mocráticas. Para isso utilizou-se o estudo<br />
das tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
■ Sob a perspectiva dos direitos cidadãos, o<br />
grau em que as pessoas participam na vida<br />
política, para o qual foi utilizado o estudo<br />
sobre os modos <strong>de</strong> participação cidadã.<br />
77 O’Donnell, 1993.<br />
152 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
quadro 38<br />
O Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD)<br />
A elaboração do IAD baseia-se:<br />
■ Nas tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
■ No tamanho <strong>de</strong> cada tendência e, <strong>de</strong>pois,<br />
na proporção entre <strong>de</strong>mocratas e não<strong>de</strong>mocratas.<br />
■ Na distância média nas atitu<strong>de</strong>s entre<br />
cada tendência, se os <strong>de</strong>mocratas ou os<br />
não-<strong>de</strong>mocratas estão mais próximos dos<br />
ambivalentes.<br />
■ No nível <strong>de</strong> ativismo político das pessoas<br />
que apóiam as tendências e na situação dos<br />
<strong>de</strong>mocratas e dos não-<strong>de</strong>mocratas.<br />
O IAD, então, pon<strong>de</strong>ra o tamanho das<br />
orientações com a distância e o ativismo.<br />
Uma explicação mais <strong>de</strong>talhada po<strong>de</strong><br />
ser encontrada na nota técnica sobre a<br />
pesquisa, no Compêndio Estatístico.<br />
Nas situações favoráveis à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, o<br />
IAD chega a um valor bastante superior a<br />
1. Quando o IAD tem um valor próximo a<br />
1, resume situações <strong>de</strong> equilíbrio político<br />
entre as tendências <strong>de</strong>mocrática e não<strong>de</strong>mocrática.<br />
São situações com um<br />
potencial <strong>de</strong> instabilida<strong>de</strong>, pois o apoio<br />
cidadão à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não está garantido.<br />
Quando o IAD assume valores muito<br />
inferiores a 1 e próximos a zero, o apoio<br />
cidadão à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é precário. Caso<br />
haja <strong>uma</strong> crise política severa, o futuro<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> po<strong>de</strong>ria estar facilmente<br />
comprometido pela precarieda<strong>de</strong> do apoio<br />
cidadão.<br />
Segundo nossos dados, na América Latina,<br />
aproximadamente <strong>uma</strong> <strong>de</strong> cada cinco pessoas<br />
(21,6 por cento) po<strong>de</strong> ser classificada<br />
com este perfil: pessoas que têm dúvidas ou<br />
se opõem à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e são politicamente<br />
ativas.<br />
As características sociais das pessoas que<br />
compõem cada um dos perfis <strong>de</strong> intensida<strong>de</strong><br />
cidadã são similares às <strong>de</strong>scritas para a<br />
base social das tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
mas sob a presente perspectiva, o<br />
panorama po<strong>de</strong> ser observado com maior<br />
precisão. Em termos gerais, po<strong>de</strong>m ser formuladas<br />
duas conclusões: os dois grupos socialmente<br />
mais parecidos entre si são, paradoxalmente,<br />
os que po<strong>de</strong>riam chegar a<br />
enfrentar-se no caso <strong>de</strong> <strong>uma</strong> crise que ameace<br />
a estabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, os<br />
<strong>de</strong>mocratas participativos e os ambivalentes<br />
ou não-<strong>de</strong>mocratas participativos. Ambos<br />
os grupos têm estruturas <strong>de</strong> ida<strong>de</strong>, nível<br />
<strong>de</strong> instrução e nível econômico mais parecidos<br />
entre si do que em relação aos outros<br />
dois grupos.<br />
A segunda conclusão é que os ambivalentes<br />
ou não-<strong>de</strong>mocratas <strong>de</strong>smobilizados<br />
parecem concentrar, em maior proporção<br />
do que os outros grupos, as pessoas mais jovens<br />
e <strong>de</strong> menor nível econômico. Os jovens<br />
são mais numerosos neste grupo do que entre<br />
os <strong>de</strong>mocratas participativos (38,4 por<br />
cento dos primeiros e 30 por cento dos segundos).<br />
As pessoas sem estudos ou com escola<br />
primária completa ou incompleta (1 a 6<br />
anos <strong>de</strong> escolarida<strong>de</strong>) têm <strong>uma</strong> distribuição<br />
similar: proporcionalmente ten<strong>de</strong>m a agrupar-se<br />
mais entre os ambivalentes ou não<strong>de</strong>mocratas<br />
<strong>de</strong>smobilizados, ao passo que as<br />
pessoas com educação superior completa ou<br />
incompleta são mais numerosas entre os <strong>de</strong>mocratas<br />
participativos.<br />
O Índice <strong>de</strong> Apoio Cidadão à<br />
Democracia<br />
O resultado do IAD para a região ten<strong>de</strong>u<br />
a ser positivo para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Os <strong>de</strong>mocratas,<br />
em termos <strong>de</strong> correlação <strong>de</strong> forças,<br />
estão em melhor posição do que seus<br />
contrários, os não-<strong>de</strong>mocratas. Na verda<strong>de</strong>,<br />
os <strong>de</strong>mocratas constituem a tendência<br />
em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> mais difundida e<br />
ten<strong>de</strong>ram (embora levemente) a participar<br />
mais na vida política e social dos seus países<br />
do que as pessoas com outras tendências.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
153
De qualquer<br />
maneira, os<br />
ambivalentes<br />
são um grupochave<br />
para ser<br />
observado,<br />
pois na maioria<br />
dos países, os<br />
<strong>de</strong>mocratas<br />
requerem seu<br />
apoio para<br />
formar grupos<br />
majoritários <strong>de</strong><br />
cidadãos.<br />
Tamanho<br />
das<br />
tendências<br />
Índice <strong>de</strong><br />
apoio à<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Distância<br />
média entre as<br />
tendências<br />
Ativismo<br />
político das<br />
orientações<br />
Eles também tiveram os ambivalentes ligeiramente<br />
mais próximos <strong>de</strong> suas posições do<br />
que das posições dos não-<strong>de</strong>mocratas (gráfico<br />
8). O IAD agregado para a região revelou<br />
um valor <strong>de</strong> 2,03.<br />
De qualquer maneira, os ambivalentes<br />
são um grupo-chave para ser observado,<br />
pois na maioria dos países, os <strong>de</strong>mocratas<br />
requerem seu apoio para formar grupos<br />
majoritários <strong>de</strong> cidadãos. É preciso também<br />
tomar nota dos fatores associados mais fortemente<br />
aos não-<strong>de</strong>mocratas, pois esses fatores<br />
estão relacionados com carências da cidadania<br />
social e com baixas perspectivas <strong>de</strong><br />
mobilida<strong>de</strong> econômica e educativa, questões<br />
em que, como já vimos, a região ainda tem<br />
sérios déficits.<br />
Resumindo os resultados <strong>de</strong>sta análise,<br />
encontramos:<br />
■ Processando dados da pesquisa <strong>de</strong> Latinobarômetro<br />
<strong>de</strong> 2002, 43% dos entrevistados<br />
tinham <strong>uma</strong> tendência pró-<strong>de</strong>mocrática,<br />
sendo esta a mais difundida.<br />
■ Evi<strong>de</strong>ncia-se <strong>uma</strong> tensão quando se<br />
pergunta sobre a alternativa entre <strong>de</strong>sen-<br />
154 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
volvimento econômico e <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Parece<br />
que muitos preferem a primeira.<br />
■ Os entrevistados pertencentes a países<br />
on<strong>de</strong> há menores níveis <strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong><br />
social ten<strong>de</strong>m a ser mais favoráveis à<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
■ Da análise do perfil dos <strong>de</strong>nominados<br />
“não-<strong>de</strong>mocratas”, surge que esta tendência<br />
tem maiores a<strong>de</strong>ptos nos setores com menos<br />
educação, nos que têm <strong>uma</strong> socialização<br />
proveniente <strong>de</strong> períodos autoritários, nos<br />
que têm <strong>uma</strong> percepção <strong>de</strong> baixa mobilida<strong>de</strong><br />
social em relação aos pais e baixas expectativas<br />
quanto a <strong>uma</strong> futura melhoria para<br />
os filhos, e naqueles que têm maior <strong>de</strong>sconfiança<br />
nas instituições.<br />
■ A maioria dos cidadãos não está <strong>de</strong>sconectada<br />
da vida política e social <strong>de</strong> seus<br />
países.<br />
■ Em média, os <strong>de</strong>mocratas ten<strong>de</strong>m levemente<br />
a participar mais ativamente na vida<br />
política <strong>de</strong> seus países.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
155
156 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
■ A percepção dos dirigentes<br />
latino-americanos<br />
A indagação sobre o <strong>de</strong>senvolvimento da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina se enriquece<br />
com as percepções e opiniões dos que tomam<br />
as <strong>de</strong>cisões <strong>de</strong> mais impacto na vida<br />
política da região.<br />
Esta parte expõe e sistematiza as opiniões<br />
que surgem da rodada <strong>de</strong> consultas a 231 lí<strong>de</strong>res<br />
latino-americanos, que inclui 41 presi<strong>de</strong>ntes<br />
e vice-presi<strong>de</strong>ntes atuais e anteriores.<br />
Analisamos aqui suas opiniões sobre<br />
o grau <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> nossas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s,<br />
colocando ênfase na participação<br />
dos cidadãos, nos limites do po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>mocrático,<br />
na confiança nas instituições<br />
– particularmente nos partidos políticos –<br />
e nas relações com os po<strong>de</strong>res fáticos novos<br />
ou tradicionais. Foram observados também<br />
a tensão entre pobreza/<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>/<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, os problemas em torno da elaboração<br />
da agenda pública e os <strong>de</strong>safios enfrentados<br />
pelas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s.<br />
Expressamos nosso agra<strong>de</strong>cimento às<br />
231 personalida<strong>de</strong>s que se dispuseram a<br />
contribuir generosamente para que pudéssemos<br />
realizar as entrevistas, e lamentamos<br />
a impossibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> realizar todas as que<br />
pretendíamos, o que resultou na omissão <strong>de</strong><br />
importantes dirigentes.<br />
Perfil dos atores consultados<br />
Para a realização das consultas – que tiveram<br />
lugar entre julho <strong>de</strong> 2002 e junho <strong>de</strong><br />
2003 – seguimos dois critérios: a) fazer um<br />
mínimo <strong>de</strong> seis consultas por país, e b) fazer<br />
um número maior <strong>de</strong> consultas nos países<br />
maiores (os dois grupos mais numerosos<br />
são os brasileiros, com trinta e quatro lí<strong>de</strong>res<br />
consultados, e os mexicanos, com vinte<br />
e cinco).<br />
Esta não é <strong>uma</strong> amostra aleatória e, portanto,<br />
os dados não têm valor estatístico. A<br />
meta é levantar opiniões fundamentais <strong>de</strong><br />
um conjunto relevante <strong>de</strong> lí<strong>de</strong>res sobre as<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s da região. Procuramos <strong>de</strong>tectar<br />
as formas <strong>de</strong> ver e <strong>de</strong> pensar manifestadas<br />
nas respostas dos lí<strong>de</strong>res, em <strong>uma</strong> entrevista<br />
cuja agenda era previamente <strong>de</strong>sconhecida.<br />
Na parte final do Relatório, oferecemos<br />
mais informação sobre a metodologia e os<br />
critérios <strong>de</strong> processamento empregados. É<br />
importante levar em conta que o estudo não<br />
preten<strong>de</strong> substituir e, sim, complementar<br />
outros tipos <strong>de</strong> estudos <strong>de</strong> opinião. A pergunta<br />
que merece resposta é: quais são as<br />
opiniões e formas <strong>de</strong> pensar <strong>de</strong> um grupo <strong>de</strong><br />
231 pessoas que exercem funções <strong>de</strong> li<strong>de</strong>rança<br />
na América Latina Trata-se <strong>de</strong> importantes<br />
protagonistas da vida política, econômica,<br />
social e cultural latino-americana, que<br />
integram <strong>uma</strong> amostragem cuja significação<br />
<strong>de</strong>corre da relevância <strong>de</strong> suas trajetórias:<br />
a) lí<strong>de</strong>res políticos que <strong>de</strong>têm ou <strong>de</strong>tiveram<br />
o po<strong>de</strong>r em seu máximo nível institucional,<br />
em chefias partidárias, parlamentares, funcionários<br />
<strong>de</strong> alto escalão ou prefeitos; b)<br />
protagonistas sociais em um amplo espectro<br />
que inclui lí<strong>de</strong>res sindicais, empresários,<br />
acadêmicos, jornalistas, religiosos e dirigentes<br />
<strong>de</strong> movimentos ou organizações sociais;<br />
e c) membros das Forças Armadas. 51 por<br />
cento dos consultados são políticos. Entre os<br />
restantes, observa-se um número significativo<br />
<strong>de</strong> empresários (11 por cento) e intelectuais<br />
(14 por cento). As restantes categorias<br />
se distribuem em: sindicalistas (7 por cento),<br />
jornalistas (6 por cento), lí<strong>de</strong>res da socieda<strong>de</strong><br />
civil (7 por cento), religiosos (2,5<br />
por cento) e militares (1,5 por cento).<br />
O ponto <strong>de</strong> partida conceitual<br />
As <strong>de</strong>clarações coinci<strong>de</strong>m em ressaltar<br />
um diagnóstico que po<strong>de</strong> ser assim resumido:<br />
nunca antes houve tanta <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na<br />
América Latina nem esteve tão controlado o<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
157
Há coincidência<br />
em que maior<br />
participação<br />
através dos<br />
partidos políticos<br />
é saudável para a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
perigo <strong>de</strong> golpe <strong>de</strong> Estado, mas, mesmo assim,<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> está exposta a fragilida<strong>de</strong>s,<br />
como as que <strong>de</strong>rivam do baixo prestígio<br />
dos partidos políticos e da chamada crise da<br />
socieda<strong>de</strong> política. 78 Na atualida<strong>de</strong>, todos os<br />
países cumprem os requisitos do regime <strong>de</strong>mocrático,<br />
que são especialmente valorizados<br />
pelos consultados, em contraste com o<br />
passado autoritário. Sob essa perspectiva, a<br />
conquista e afirmação dos atributos básicos<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> são consi<strong>de</strong>radas <strong>uma</strong> etapa<br />
necessária e um progresso significativo. Esta<br />
visão <strong>de</strong>ixa em aberto <strong>uma</strong> gama <strong>de</strong> questões<br />
a serem abordadas e <strong>de</strong> objetivos não<br />
atingidos, <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> um acordo generalizado<br />
em apontar o caráter inacabado da construção<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina,<br />
inclusive on<strong>de</strong> dito processo histórico tem<br />
duração mais longa.<br />
Condições necessárias<br />
para a Democracia<br />
Embora não as interpretem exatamente<br />
da mesma forma, os lí<strong>de</strong>res latino-americanos<br />
consi<strong>de</strong>ram que a participação política<br />
e os controles sobre o exercício do po<strong>de</strong>r<br />
são duas condições básicas da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, e<br />
que ambas se fortaleceram ao longo da última<br />
década.<br />
A expansão da participação política<br />
Por mais que a palavra participação tenha<br />
diferentes significados políticos, em um<br />
sentido mais estreito, sua abrangência cost<strong>uma</strong><br />
se restringir à participação eleitoral. Em<br />
seu sentido mais amplo, pressupõe alg<strong>uma</strong><br />
forma estável <strong>de</strong> conexão com a tomada <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>cisões públicas, principalmente através da<br />
mediação dos partidos políticos ou das organizações<br />
da socieda<strong>de</strong> civil. Alguns sentidos<br />
intermediários alu<strong>de</strong>m a formas mais<br />
ou menos ativas <strong>de</strong> exercício da cidadania,<br />
tais como a participação em consultas populares<br />
ou em âmbitos <strong>de</strong>liberativos a nível<br />
local.<br />
A quase unanimida<strong>de</strong> das pessoas consultadas<br />
pensa que <strong>uma</strong> maior participação<br />
em qualquer <strong>uma</strong> <strong>de</strong> suas formas ten<strong>de</strong> a<br />
fortalecer o funcionamento das instituições<br />
<strong>de</strong>mocráticas. Nesse sentido amplo, em geral,<br />
mais participação aparece como preferível<br />
a menos participação. Entretanto, como<br />
veremos mais abaixo, esta opinião genérica<br />
se relativiza quando boa parte dos consultados<br />
se refere a formas mais específicas <strong>de</strong><br />
participação. Também há coincidência em<br />
que maior participação através dos partidos<br />
políticos é saudável para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Os<br />
lí<strong>de</strong>res consultados ten<strong>de</strong>m a compartilhar<br />
essa idéia, mesmo quando são céticos quanto<br />
ao funcionamento a<strong>de</strong>quado dos partidos<br />
como canais <strong>de</strong> participação ou à possibilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> recuperação <strong>de</strong> protagonismo nesse<br />
terreno.<br />
Para a maioria dos consultados, a participação<br />
da população no sentido amplo (isto<br />
é, tanto no que se refere à eleição dos governos<br />
quanto à <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> suas políticas)<br />
aumentou significativamente durante a última<br />
década.<br />
No momento <strong>de</strong> consi<strong>de</strong>rar o ato eleitoral<br />
como <strong>uma</strong> expressão da participação<br />
política, existem duas tendências. Nos países<br />
com menor tradição <strong>de</strong>mocrática, o voto<br />
é visto como um ato que concretiza a participação,<br />
pois permite expressar <strong>uma</strong> posição<br />
crítica em relação a velhas estruturas patrimonialistas<br />
e, eventualmente, um prêmio<br />
ou um castigo aos governantes. I<strong>de</strong>ntifica-se<br />
o crescimento da participação eleitoral com<br />
o progresso da participação. Em compensação,<br />
nas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s <strong>de</strong> maior continuida<strong>de</strong>,<br />
o fato <strong>de</strong> votar é visto como algo habitual,<br />
que não é consi<strong>de</strong>rado no momento <strong>de</strong><br />
avaliar o nível <strong>de</strong> participação, pois, para os<br />
consultados nesses países, a participação implica<br />
formas mais ativas <strong>de</strong> exercer os direitos<br />
cidadãos.<br />
Em quase toda a América Latina, o aumento<br />
da participação é interpretado como<br />
<strong>uma</strong> das caras mais visíveis do processo <strong>de</strong><br />
construção <strong>de</strong>mocrática. Já a diminuição ou<br />
o estancamento da participação apontado<br />
pelos lí<strong>de</strong>res chilenos, uruguaios e costarri-<br />
78 Garretón, documento elaborado para o PRODDAL, 2003.<br />
158 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
quenhos parece próprio <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s que<br />
se sentem profundamente arraigadas historicamente.<br />
Isso não significa que esses países<br />
estejam livres <strong>de</strong> dificulda<strong>de</strong>s (<strong>de</strong> fato,<br />
dois <strong>de</strong>les pa<strong>de</strong>ceram <strong>de</strong> duras experiências<br />
<strong>de</strong> regimes autoritários); mesmo assim, trata-se<br />
<strong>de</strong> um problema diferente dos problemas<br />
enfrentados por países on<strong>de</strong> esse envolvimento<br />
é menor ou mais recente.<br />
Um dirigente consultado no Chile acrescenta<br />
<strong>de</strong>talhes: “A participação que caracteriza<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> era mais institucionalizada<br />
[<strong>de</strong> meados do século passado até o golpe<br />
<strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> 1973], fundamentalmente através<br />
das organizações políticas e sociais. [...]<br />
Hoje em dia, a realida<strong>de</strong> chilena é muito<br />
preocupante: [...] nas votações e nas eleições,<br />
o interesse da cidadania vem diminuindo<br />
progressivamente enquanto a abstenção<br />
eleitoral vem aumentando. [...] [Agora] há<br />
<strong>uma</strong> participação mais <strong>de</strong>sorganizada, mais<br />
circunstancial [...]. Os partidos per<strong>de</strong>ram<br />
presença e representativida<strong>de</strong>”.<br />
Por sua vez, um lí<strong>de</strong>r brasileiro <strong>de</strong>staca a<br />
expansão da participação: “A pobreza é difusa,<br />
não organizada [...]. Quanto mais se<br />
aperfeiçoa o po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>mocrático, mais aumentam<br />
as pressões <strong>de</strong> baixo para cima [para<br />
que seus problemas sejam levados em<br />
conta]. E isso é o que ocorre [...], [há] mais<br />
organizações <strong>de</strong>mocráticas, mais organizações<br />
da socieda<strong>de</strong> e mais pressão <strong>de</strong> baixo<br />
para cima. Essa é a prova pela qual temos<br />
que passar agora”.<br />
Uma diferença significativa entre os países<br />
com <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s historicamente mais<br />
arraigadas e os outros são os canais por meio<br />
dos quais se exerce a participação. Os consultados<br />
dos países do primeiro caso ten<strong>de</strong>m<br />
a pressupor que os partidos são um dos<br />
canais naturais (não o único, mas um dos<br />
mais importantes). Mas em vários países<br />
com tradições <strong>de</strong>mocráticas menos arraigadas,<br />
alguns consultados opinam que a maior<br />
participação se produz quando os cidadãos<br />
atuam fora dos partidos, quer seja porque<br />
tomam a distância suficiente para fazer um<br />
exercício in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte do voto (por exemplo,<br />
apoiando candidatos in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes)<br />
ou porque se incorporam a organizações<br />
da socieda<strong>de</strong> civil que se apresentam como<br />
alternativa para os partidos. Segundo esses<br />
consultados, não se trata apenas da imagem<br />
negativa dos partidos, mas também do fato<br />
<strong>de</strong> que são vistos como um obstáculo para a<br />
participação.<br />
Sempre, segundo os consultados, esse fenômeno<br />
<strong>de</strong> maior participação por canais<br />
alternativos às estruturas partidárias aparece<br />
freqüentemente associado à outra tendência<br />
vigorosa, o fortalecimento das instâncias <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>liberação e <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão no âmbito local. É a<br />
essa escala (a al<strong>de</strong>ia, o distrito rural, a cida<strong>de</strong>,<br />
o estado) em que apareceriam dirigentes<br />
capazes <strong>de</strong> gerar níveis importantes <strong>de</strong> a<strong>de</strong>são<br />
e em que melhor funcionariam as organizações<br />
da socieda<strong>de</strong> civil que conseguem<br />
atrair os cidadãos com mais facilida<strong>de</strong>.<br />
Em quase toda a<br />
América Latina,<br />
o aumento da<br />
participação é<br />
interpretado como<br />
<strong>uma</strong> das caras<br />
mais visíveis<br />
do processo<br />
<strong>de</strong> construção<br />
<strong>de</strong>mocrática.<br />
AUMENTOU A PARTICIPAÇÃO NA AMÉRICA LATINA<br />
TABELA 51<br />
A participação aumentou<br />
A participação não aumentou nem diminuiu<br />
A participação diminuiu<br />
Honduras, México, Bolívia, Brasil, Paraguai<br />
Colômbia, República Dominicana, Venezuela,<br />
El Salvador, Panamá, Equador, Guatemala,<br />
Nicarágua, Peru, Argentina.<br />
Costa Rica<br />
Uruguai, Chile<br />
Nota: Os países estão classificados segundo “resultados <strong>de</strong> opinião”, ou seja, a diferença entre os que dizem que a<br />
participação aumentou e os que dizem que a participação diminuiu. O primeiro país é o que tem um maior balanço<br />
positivo, ou seja, aquele em que a diferença é mais favorável para os que pensam que a participação aumentou. Depois a<br />
classificação é feita por or<strong>de</strong>m <strong>de</strong>crescente <strong>de</strong>sse resultado.<br />
Fonte: PRODDAL, Rodada <strong>de</strong> consultas com lí<strong>de</strong>res da América Latina, 2002.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
159
De maneira geral,<br />
a existência<br />
<strong>de</strong> meios <strong>de</strong><br />
comunicação<br />
in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes<br />
é vista como<br />
um fator que<br />
contribuiu<br />
<strong>de</strong>cisivamente<br />
para o aumento<br />
dos controles.<br />
Assim <strong>de</strong>screve um dos lí<strong>de</strong>res consultados<br />
na Colômbia: “Em Bogotá, [...] governos sucessivos<br />
[...] geraram <strong>uma</strong> transformação<br />
radical da cida<strong>de</strong>: [...] as políticas públicas<br />
tornaram-se <strong>uma</strong> essência vital, [...] o público<br />
passou a ter priorida<strong>de</strong> em relação ao<br />
privado, que não era como se via antes, [...]<br />
as conseqüências para os cidadãos geraram<br />
um convencimento e <strong>uma</strong> continuida<strong>de</strong> em<br />
política, [mas] quase nada em relação aos<br />
partidos, porque os últimos três candidatos<br />
eleitos são in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes”.<br />
Entre os consultados, a percepção sobre<br />
a participação social é heterogênea. Os novos<br />
movimentos sociais e o crescimento da<br />
participação fora dos partidos levam esses<br />
movimentos a serem vistos, por muitos dos<br />
consultados, como <strong>uma</strong> ameaça à governabilida<strong>de</strong>.<br />
Existe também <strong>de</strong>sacordo sobre a<br />
institucionalização da participação social.<br />
Certos países contam com canais institucionais<br />
através dos quais as <strong>de</strong>mandas po<strong>de</strong>m<br />
ser viabilizadas e negociadas. Para alguns<br />
consultados, a resistência a <strong>de</strong>senvolver mecanismos<br />
<strong>de</strong> participação institucionalizada<br />
influi negativamente no <strong>de</strong>senvolvimento da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>; outros objetam esses processos<br />
por consi<strong>de</strong>rá-los particularistas e por gerar<br />
consensos contingentes que limitam o pluralismo<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
A expansão dos controles<br />
sobre o exercício do po<strong>de</strong>r<br />
Na maioria dos países latino-americanos,<br />
a idéia predominante é a <strong>de</strong> que os governos<br />
estão mais controlados e limitados do que<br />
no passado. Isso é tido, em geral, como um<br />
fato positivo, porque implica a presença <strong>de</strong><br />
<strong>uma</strong> cidadania mais atenta e <strong>de</strong>cidida a fazer<br />
valer seus direitos (o que é coerente com<br />
a percepção <strong>de</strong> <strong>uma</strong> maior participação). A<br />
idéia <strong>de</strong> que os controles sobre o exercício<br />
do po<strong>de</strong>r se aperfeiçoaram predomina entre<br />
os lí<strong>de</strong>res <strong>de</strong> doze dos <strong>de</strong>zoito países estudados.<br />
Os políticos e funcionários <strong>de</strong> governo<br />
são os que mais freqüentemente consi<strong>de</strong>ram<br />
que os controles aumentaram.<br />
Vários lí<strong>de</strong>res consultados também mencionam<br />
a presença <strong>de</strong> tradições <strong>de</strong>sfavoráveis<br />
aos controles do exercício do po<strong>de</strong>r em<br />
alguns países centro-americanos, on<strong>de</strong> a ausência<br />
<strong>de</strong> controles eficazes aparece associada<br />
a problemas <strong>de</strong> longa data.<br />
Por outro lado, os consultados relacionam<br />
o exercício do controle com o fortalecimento<br />
da socieda<strong>de</strong> civil (sobretudo a partir<br />
do papel assumido pelas ONGs) e dos meios<br />
<strong>de</strong> comunicação. Estes são consi<strong>de</strong>rados, simultaneamente,<br />
um controle e um grupo <strong>de</strong><br />
pressão, o que permite compreen<strong>de</strong>r sua paradoxal<br />
percepção: ser <strong>uma</strong> condição sine<br />
qua non da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e, ao mesmo tempo,<br />
um instrumento <strong>de</strong> grupos <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r que<br />
exercem in<strong>de</strong>vida influência na tomada <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>cisões públicas.<br />
De maneira geral, a existência <strong>de</strong> meios<br />
<strong>de</strong> comunicação in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes é vista como<br />
um fator que contribuiu <strong>de</strong>cisivamente<br />
para o aumento dos controles. Numerosos<br />
lí<strong>de</strong>res consultados insistem na capacida<strong>de</strong><br />
dos meios <strong>de</strong> <strong>de</strong>tectar irregularida<strong>de</strong>s e excessos<br />
(ou simples erros e dificulda<strong>de</strong>s) e <strong>de</strong><br />
dar-lhes difusão pública. Mas esta mesma<br />
relevância dos meios é vista como um perigo<br />
pela maioria dos lí<strong>de</strong>res consultados:<br />
apoiados na popularida<strong>de</strong> que as <strong>de</strong>núncias<br />
lhes proporcionam, certos meios terminam<br />
por construir sua própria agenda e por<br />
perseguir interesses particulares (os do grupo<br />
econômico a que pertencem ou os <strong>de</strong> certos<br />
setores <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r a que estão associados).<br />
Para muitos <strong>de</strong> nossos consultados, um grave<br />
problema é que não existem mecanismos<br />
eficazes para controlar os eventuais excessos,<br />
sem com isso atentar contra a liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
imprensa. Contudo, tanto em suas melhores<br />
como nas piores versões, os meios são vistos<br />
pelos lí<strong>de</strong>res como um dos principais contrapesos<br />
do po<strong>de</strong>r político.<br />
Opiniões sobre o caráter da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Os lí<strong>de</strong>res latino-americanos acreditam<br />
que as condições políticas necessárias para<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> avançaram significativamente<br />
durante a última década. Consi<strong>de</strong>remos<br />
a <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> um entrevistado<br />
na Guatemala: “Se em 1986 nós tivéssemos<br />
perguntado aos guatemaltecos o que<br />
era para eles a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, teriam nos respondido<br />
‘um regime cujo governo seja civil<br />
e seja eleito popularmente’, e isso é basicamente<br />
o que <strong>de</strong>ve suce<strong>de</strong>r em toda a Améri-<br />
160 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
TABELA 52<br />
AUMENTARAM OS CONTROLES SOBRE O PODER NA AMÉRICA LATINA<br />
Os controles aumentaram<br />
Os controles não aumentaram nem diminuíram<br />
Os controles diminuíram<br />
El Salvador, México, Peru, Brasil, Colômbia,<br />
República Dominicana, Guatemala, Chile,<br />
Honduras, Costa Rica, Bolívia, Paraguai<br />
Uruguai, Nicarágua<br />
Equador, Panamá, Argentina, Venezuela<br />
Nota: Os países estão classificados segundo “resultados <strong>de</strong> opinião”, ou seja, a diferença entre os que dizem que os<br />
controles aumentaram e os que dizem que diminuíram. O primeiro país no primeiro lugar é o que tem o balanço mais<br />
positivo, ou seja, aquele em que a diferença é mais favorável para os que pensam que os controles aumentaram. Os<br />
restantes são classificados à medida que o balanço diminui.<br />
Fonte: PRODDAL, Rodada <strong>de</strong> consultas com lí<strong>de</strong>res da América Latina, 2002.<br />
ca Latina”. Partindo do princípio <strong>de</strong> que esta<br />
<strong>de</strong>finição seja aceitável, não há dúvida <strong>de</strong><br />
que a gran<strong>de</strong> maioria dos consultados coincidiria<br />
em que seus países são <strong>de</strong>mocráticos.<br />
A pauta das consultas previa que, ao término<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> conversa extensa, os consultados<br />
fossem convidados a respon<strong>de</strong>r sobre a presença<br />
ou ausência <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> em seu país<br />
(“Levando tudo isso em conta, o senhor<br />
diria que seu país é hoje <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>”).<br />
Só 14 por cento dos consultados respon<strong>de</strong>ram<br />
<strong>de</strong> maneira inequívoca (6 por cento que<br />
sim, 8 por cento que não). Para os outros, foi<br />
necessário precisar e <strong>de</strong>compor o conceito.<br />
Precisamos então explorar o sentido <strong>de</strong>sses<br />
condicionamentos e relativizações. Para<br />
6 por cento, como foi mencionado, existe<br />
<strong>uma</strong> “<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> plena” em seu país; para<br />
um robusto percentual <strong>de</strong> 66 por cento, em<br />
seu país existe <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> com poucas<br />
ou alg<strong>uma</strong>s limitações; 17 por cento consi<strong>de</strong>ram<br />
que há numerosas limitações em seu<br />
país, e 8 por cento opinam que seu país não<br />
é <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Portanto, pelo menos como <strong>uma</strong> primeira<br />
aproximação, a gran<strong>de</strong> maioria dos consultados<br />
(quase nove em cada <strong>de</strong>z) aceita o<br />
termo “<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>” para <strong>de</strong>screver suas respectivas<br />
situações nacionais, ainda que faça<br />
isso complementando com várias especificações<br />
adicionais.<br />
Esta observação po<strong>de</strong> parecer trivial, mas<br />
ratifica todos os avanços dos últimos anos.<br />
Pela primeira vez na história do continente,<br />
os lí<strong>de</strong>res <strong>de</strong> todos os países incluídos no estudo<br />
vêem que seus países satisfazem a <strong>de</strong>finição<br />
mínima <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: há concorrência<br />
genuína, os governos têm pelo menos<br />
alg<strong>uma</strong>s limitações ao seu po<strong>de</strong>r e os consultados<br />
acreditam que houve um progresso<br />
significativo nesses dois planos. A resposta<br />
predominante po<strong>de</strong>ria ser sintetizada<br />
<strong>de</strong>sse modo: “Po<strong>de</strong>-se falar <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
sim, sobretudo comparando com o passado,<br />
mas...”. Por outro lado, para 25 por cento<br />
dos consultados, em seu país “ainda falta<br />
muito” para que se possa dizer que se vive<br />
em <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Em alguns casos, as pessoas consultadas<br />
insistem em que a <strong>de</strong>bilida<strong>de</strong> da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
não tem tanta relação com bloqueios políticos,<br />
problemas <strong>de</strong> legitimida<strong>de</strong> ou questões<br />
<strong>de</strong> projeto institucional (embora estes problemas<br />
também sejam mencionados), mas<br />
sim com as condições <strong>de</strong> vida da população:<br />
“Do ponto <strong>de</strong> vista econômico e social,<br />
realmente temos gravíssimos problemas <strong>de</strong><br />
distribuição da riqueza, <strong>de</strong> participação dos<br />
panamenhos [...]. Como po<strong>de</strong> haver <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
nessas condições”.<br />
A idéia da <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> e da segmentação<br />
social como impedimento para a construção<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> plena aparece<br />
com muita freqüência associada às opiniões<br />
mais pessimistas. No conjunto <strong>de</strong> consultas,<br />
o comentário mais freqüentemente ligado a<br />
<strong>uma</strong> opinião cética sobre o grau <strong>de</strong> força ou<br />
<strong>de</strong> realização da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> refere-se, usualmente,<br />
às condições <strong>de</strong> vida da população.<br />
Um dos consultados na Nicarágua afir-<br />
Pela primeira<br />
vez na história<br />
do continente,<br />
os lí<strong>de</strong>res <strong>de</strong><br />
todos os países<br />
incluídos no<br />
estudo vêem<br />
que seus países<br />
satisfazem a<br />
<strong>de</strong>finição mínima<br />
<strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
161
A tensão<br />
entre po<strong>de</strong>res<br />
institucionais<br />
e po<strong>de</strong>res<br />
fáticos continua<br />
presente na<br />
realida<strong>de</strong> latinoamericana.<br />
ma, por exemplo: “Para nós, foi muito difícil<br />
chegar aon<strong>de</strong> chegamos: mortos, lutas intestinas<br />
[...]. Avançamos mais do que muitos<br />
países no que se refere à consolidação da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
mas ainda há muito para ser feito,<br />
pois não é possível conceber <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
plena em <strong>uma</strong> situação <strong>de</strong> pobreza e miséria.<br />
Enquanto a única liberda<strong>de</strong> existente for<br />
a <strong>de</strong> morrer [...] fica difícil”. A mesma idéia<br />
aparece neste resumo formulada por um dos<br />
lí<strong>de</strong>res consultados no Peru: “54 por cento<br />
da população vive abaixo da linha <strong>de</strong> pobreza<br />
extrema e 23 por cento abaixo da linha<br />
<strong>de</strong> pobreza extrema-extrema [...]. A participação<br />
<strong>de</strong>ssa gente em política resume-se a ir<br />
votar no dia da eleição, porque é obrigatório<br />
e quem não vota tem que pagar <strong>uma</strong> multa,<br />
mas isso não é <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
não é um ato político eleitoral. Quem vai<br />
dormir esta noite sem saber se amanhã terá<br />
algo para comer não é livre”.<br />
No outro extremo, as respostas mais positivas<br />
são encontradas especialmente entre<br />
personalida<strong>de</strong>s provenientes das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
mais arraigadas e nos países maiores.<br />
Como <strong>de</strong>staca um dos consultados no Brasil,<br />
as recentes eleições contribuem para um<br />
clima <strong>de</strong> confiança na <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: “Estamos<br />
vendo um momento em que <strong>uma</strong> pessoa<br />
[Luiz Inácio Lula da Silva] sai da extrema<br />
pobreza nor<strong>de</strong>stina e chega ao po<strong>de</strong>r máximo<br />
do país; [...] a mobilida<strong>de</strong> social é um<br />
dos ingredientes da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: [...] quanto<br />
mais possibilida<strong>de</strong>s houver <strong>de</strong> se atravessar<br />
as barreiras [entre as classes sociais], acho<br />
que mais <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> haverá”.<br />
Estes casos indicam que, na América<br />
Latina, o vínculo entre condições socioeconômicas<br />
e atitu<strong>de</strong>s em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
não é automático nem necessariamente<br />
<strong>de</strong>terminante. O que distingue as<br />
atitu<strong>de</strong>s das li<strong>de</strong>ranças <strong>de</strong>sses países não radica,<br />
então, nas condições socioeconômicas<br />
“objetivas” <strong>de</strong> seus países, mas sim em seu<br />
grau <strong>de</strong> confiança na capacida<strong>de</strong> das instituições<br />
<strong>de</strong>mocráticas <strong>de</strong> conviver com, e <strong>de</strong><br />
modificar, em médio prazo, essas situações<br />
<strong>de</strong> pobreza e exclusão. Para os que vêem as<br />
coisas sob esse prisma, a pobreza e a exclusão<br />
são problemas que <strong>de</strong>vem ser solucionados<br />
por um sistema político claramente<br />
<strong>de</strong>mocrático. “Chegamos à república e ainda<br />
temos que construir a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. A república<br />
é a que preserva as liberda<strong>de</strong>s individuais,<br />
evita que um governo <strong>de</strong>spótico<br />
nos mate, que nos leve preso [...], mas além<br />
<strong>de</strong>ssas liberda<strong>de</strong>s chamadas negativas, estão<br />
as outras liberda<strong>de</strong>s, as positivas da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
concentradas nos direitos sociais”<br />
(ex-presi<strong>de</strong>nte).<br />
Causas das limitações das<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s latino-americanas<br />
Po<strong>de</strong>res institucionais e po<strong>de</strong>res fáticos<br />
Um problema tradicional dos países latino-americanos<br />
foi o divórcio entre os po<strong>de</strong>res<br />
institucionais e os po<strong>de</strong>res fáticos: embora<br />
os textos constitucionais outorguem<br />
gran<strong>de</strong> peso ao Po<strong>de</strong>r Executivo e <strong>uma</strong> importante<br />
capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ação ao Legislativo<br />
e ao Judiciário, o po<strong>de</strong>r real cost<strong>uma</strong> residir<br />
em instituições às quais as normas <strong>de</strong>legam<br />
outras funções (como foi o caso, no passado<br />
recente, das Forças Armadas) ou em grupos<br />
que não fazem parte da or<strong>de</strong>m político-institucional<br />
(famílias tradicionais, grupos econômicos<br />
e outros).<br />
A tensão entre po<strong>de</strong>res institucionais e<br />
po<strong>de</strong>res fáticos continua presente na realida<strong>de</strong><br />
latino-americana. Há informação que<br />
sugere, e as consultas realizadas confirmam,<br />
que nas últimas décadas, apesar do fortalecimento<br />
das instituições <strong>de</strong>mocráticas, os po<strong>de</strong>res<br />
fáticos continuam assumindo um papel<br />
muito importante.<br />
As Forças Armadas são vistas como o fator<br />
<strong>de</strong> po<strong>de</strong>r mais importante para alguns<br />
consultados na Guatemala e na República<br />
Dominicana e, em menor medida, no Equador,<br />
no Chile e na Venezuela. Mas as Forças<br />
Armadas não são mencionadas nos países<br />
restantes, incluindo os que viveram recentemente<br />
crises políticas agudas (Argentina,<br />
Colômbia e Paraguai). Esse forte <strong>de</strong>bilitamento<br />
das Forças Armadas como fator político<br />
é <strong>uma</strong> novida<strong>de</strong> importante para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
latino-americana.<br />
No entanto, alguns lí<strong>de</strong>res consultados<br />
i<strong>de</strong>ntificam três riscos principais que po<strong>de</strong>riam<br />
ameaçar o bom funcionamento da or<strong>de</strong>m<br />
<strong>de</strong>mocrática:<br />
162 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
QUEM EXERCE O PODER NA AMÉRICA LATINA<br />
SEGUNDO O PONTO DE VISTA DOS LÍDERES CONSULTADOS<br />
Quantida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> menções<br />
Po<strong>de</strong>res fáticos Os grupos econômicos/ empresários/ O setor financeiro 150 (79,8%)<br />
Os meios <strong>de</strong> comunicação 122 (64,9%)<br />
Po<strong>de</strong>res constitucionais Po<strong>de</strong>r Executivo 68 (36,2%)<br />
Po<strong>de</strong>r Legislativo 24 (12,8%)<br />
Po<strong>de</strong>r Judiciário 16 (8,5%)<br />
Forças <strong>de</strong> segurança As Forças Armadas 40 (21,3%)<br />
A Polícia 5 (2,7%)<br />
Instituições políticas e Partidos políticos 56 (29,8%)<br />
lí<strong>de</strong>res políticos Os políticos/ operadores políticos/ lí<strong>de</strong>res políticos 13 (6,9%)<br />
Fatores EUA/ A embaixada norte-americana 43 (22,9%)<br />
extraterritoriais Organismos multilaterais <strong>de</strong> crédito 31 (16,5%)<br />
O fator internacional/ o fator externo 13 (6,9%)<br />
Empresas transnacionais 9 (4,8%)<br />
TABELA 53<br />
% <strong>de</strong> Lí<strong>de</strong>res que<br />
fazem a menção<br />
Nota: n=188. O total não soma 100% porque foram permitidas respostas múltiplas.<br />
Fonte: PRODDAL, Rodada <strong>de</strong> Consultas com Lí<strong>de</strong>res da América Latina, 2002.<br />
1. Segundo os lí<strong>de</strong>res dos países maiores<br />
e dos que têm tradições <strong>de</strong>mocráticas mais<br />
arraigadas, as limitações têm duas origens.<br />
As limitações internas provêm da proliferação<br />
<strong>de</strong> controles institucionais ina<strong>de</strong>quados,<br />
assim como da multiplicação <strong>de</strong> grupos<br />
<strong>de</strong> interesses (em especial empresariais)<br />
que funcionam como po<strong>de</strong>rosos lobbies. As<br />
limitações externas provêm, basicamente,<br />
do comportamento dos mercados internacionais<br />
(em especial, mas não exclusivamente,<br />
dos financeiros), da vigilância das<br />
avaliadoras <strong>de</strong> risco e do papel dos organismos<br />
internacionais <strong>de</strong> crédito.<br />
Por sua vez, em países menores ou com<br />
tradições <strong>de</strong>mocráticas menos arraigadas,<br />
os consultados também <strong>de</strong>stacam limitações<br />
externas e internas, mas as <strong>de</strong>screvem<br />
<strong>de</strong> maneira diferente. No âmbito interno,<br />
mencionam os grupos <strong>de</strong> interesses (particularmente<br />
empresários e gran<strong>de</strong>s latifundiários),<br />
mas os métodos empregados já<br />
não são só lobbies, e sim práticas tais como<br />
a compra <strong>de</strong> votos e a “fabricação” <strong>de</strong> candidatos.<br />
No externo, mencionam a <strong>de</strong>pendência<br />
<strong>de</strong> organismos internacionais <strong>de</strong> crédito,<br />
e acrescentam a <strong>de</strong>smesurada influência<br />
<strong>de</strong> empresas estrangeiras instaladas nos próprios<br />
países.<br />
2. O segundo tema consi<strong>de</strong>rado é a ameaça<br />
do narcotráfico. Como é natural, a importância<br />
atribuída pelos lí<strong>de</strong>res latinoamericanos<br />
a esse fator está diretamente<br />
ligada ao grau <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> tal<br />
fenômeno em seus respectivos países. Entretanto,<br />
quase todas as opiniões recolhidas<br />
convergem em indicar que o narcotráfico<br />
implica um duplo <strong>de</strong>safio. É um <strong>de</strong>safio<br />
direto porque tenta controlar parte do aparelho<br />
estatal e partes significativas do território,<br />
enquanto cria fortes incentivos para<br />
a passagem da economia formal à informal.<br />
Além disso, o narcotráfico cria <strong>de</strong>safios indiretos,<br />
dois dos quais são <strong>de</strong>stacados pelos<br />
consultados. O primeiro é que, ao atrair a<br />
atenção do governo dos Estados Unidos, gera<br />
novas formas <strong>de</strong> pressão externa que limitam<br />
ainda mais a esfera <strong>de</strong> ação dos governos<br />
nacionais. O segundo tem relação com a<br />
corrupção: o “dinheiro sujo” tem efeitos <strong>de</strong>vastadores<br />
sobre o comportamento <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
parte dos dirigentes políticos e sobre o funcionamento<br />
das instituições.<br />
3. O terceiro fator, ao qual atribuem capacida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> limitar o po<strong>de</strong>r das instituições<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
163
De maneira<br />
geral, po<strong>de</strong>-se<br />
dizer que, com<br />
alg<strong>uma</strong>s<br />
exceções, o<br />
ceticismo em<br />
relação aos<br />
partidos é<br />
muito amplo e a<br />
disposição para<br />
se vincular a<br />
eles ten<strong>de</strong> a<br />
diminuir em toda<br />
a América Latina.<br />
políticas, são os meios <strong>de</strong> comunicação. Essa<br />
gran<strong>de</strong> influência dos meios é vista como<br />
parte do aumento dos controles que permitiram<br />
<strong>de</strong>mocratizar o exercício do governo,<br />
e também, como <strong>uma</strong> restrição ao processo<br />
<strong>de</strong>mocrático, segundo, principalmente, os<br />
políticos consultados. Os meios têm a capacida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> gerar agenda, <strong>de</strong> predispor a opinião<br />
pública a favor ou contra diferentes<br />
iniciativas e <strong>de</strong> <strong>de</strong>teriorar a imagem <strong>de</strong> figuras<br />
públicas mediante a manipulação <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>núncias.<br />
Existe amplo consenso entre os consultados<br />
quanto ao fato <strong>de</strong> que a gran<strong>de</strong> influência<br />
da mídia limita o po<strong>de</strong>r das instituições<br />
políticas. Em realida<strong>de</strong>, sempre tiveram<br />
muita influência e os políticos tentaram servir-se<br />
<strong>de</strong>la. A novida<strong>de</strong>, além da maior exposição<br />
do público à mídia, é que anteriormente<br />
estavam em gran<strong>de</strong> parte vinculados<br />
aos partidos políticos que, em alguns casos,<br />
exerciam certo controle sobre eles; atualmente<br />
muitos meios <strong>de</strong> comunicação tornaram-se<br />
in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes das estruturas partidárias<br />
e passaram a fazer parte <strong>de</strong> grupos<br />
econômicos não subordinados ao po<strong>de</strong>r político<br />
e com interesses muito diversificados.<br />
O papel dos partidos políticos<br />
Segundo os lí<strong>de</strong>res consultados, os partidos<br />
políticos, atores fundamentais para o<br />
funcionamento das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s contemporâneas,<br />
sofrem <strong>uma</strong> séria crise. Um dado revelador<br />
é que não apenas a maior parte dos<br />
lí<strong>de</strong>res consultados acha que os partidos não<br />
estão cumprindo a<strong>de</strong>quadamente sua função,<br />
como também, esta opinião é predominante,<br />
(59 por cento) entre os próprios políticos<br />
consultados. Nesse caso, as opiniões<br />
favoráveis (“evi<strong>de</strong>ntemente sim”) representam<br />
18 por cento e as opiniões neutras (“por<br />
um lado sim, por outro não”), 16 por cento.<br />
Esse ceticismo generalizado oculta diferenças<br />
significativas <strong>de</strong> país para país. Em<br />
alguns casos (Argentina e Equador), o <strong>de</strong>sprestígio<br />
dos partidos atinge um grau extremo.<br />
Em outros casos (Honduras, Uruguai e,<br />
ainda que em menor medida, Chile), os partidos<br />
aparecem em condições bastante melhores.<br />
De maneira geral, po<strong>de</strong>-se dizer que,<br />
com alg<strong>uma</strong>s exceções, o ceticismo em relação<br />
aos partidos é muito amplo e a disposição<br />
para se vincular a eles ten<strong>de</strong> a diminuir<br />
em toda a América Latina. Estas opiniões referem-se<br />
à conjuntura política <strong>de</strong> 2002 e início<br />
<strong>de</strong> 2003. Uma nova rodada <strong>de</strong> consultas<br />
daria presumivelmente novos resultados.<br />
Quais são as razões que fundamentam<br />
essa opinião Como acusação mais freqüente<br />
temos o personalismo e a ausência<br />
<strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> interna. Nas palavras <strong>de</strong> um<br />
lí<strong>de</strong>r costarriquenho: “São as mesmas caras,<br />
as mesmas pessoas nos últimos quarenta<br />
anos, é bater na mesma tecla, o que hoje<br />
é <strong>de</strong>putado, amanhã é embaixador, e recebe<br />
um ministério outra vez [e <strong>de</strong>pois] será sua<br />
vez novamente”.<br />
Essa rejeição às oligarquias partidárias<br />
po<strong>de</strong> ser atribuída, parcialmente, a <strong>uma</strong> mo<strong>de</strong>rnização<br />
das expectativas dos cidadãos (o<br />
OS PARTIDOS ESTÃO CUMPRINDO SEU PAPEL<br />
Sim, ou na verda<strong>de</strong>, sim<br />
Uruguai, Honduras<br />
TABELA 54<br />
Não, ou na verda<strong>de</strong>, não<br />
Chile, Peru, México, República Dominicana,<br />
El Salvador, Bolívia, Panamá, Brasil,<br />
Guatemala, Paraguai, Venezuela, Argentina,<br />
Colômbia, Equador, Nicarágua, Costa Rica<br />
Nota: Os países estão classificados segundo “balanços <strong>de</strong> opinião”, ou seja, a diferença entre os que dizem que os<br />
partidos estão cumprindo seu papel e os que dizem que não. O primeiro país no primeiro lugar é o que tem o balanço mais<br />
positivo, ou seja, aquele em que a diferença é mais favorável para os que pensam que os partidos cumprem seu papel<br />
a<strong>de</strong>quadamente. Em seguida, são classificados à medida que o resultado diminui.<br />
Fonte: PRODDAL, Rodada <strong>de</strong> consultas com lí<strong>de</strong>res da América Latina,2002.<br />
164 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
velho caudilhismo e o velho estilo patrimonialista<br />
têm mais dificulda<strong>de</strong>s em ser aceitos).<br />
Além disso, a aguda <strong>de</strong>terioração sofrida<br />
pelo Estado, por várias razões, em boa<br />
parte <strong>de</strong> nossos países, levou ao enfraquecimento<br />
<strong>de</strong> um dos atrativos que os partidos<br />
podiam ter no passado: ao menos para<br />
<strong>uma</strong> parte significativa da cidadania, os partidos<br />
já não conseguem, mediante sua influência<br />
em diversos segmentos do Estado, “resolver<br />
os problemas da população”. Mas, ao<br />
mesmo tempo em que o atrativo clientelista<br />
se <strong>de</strong>bilitou, os partidos também não foram<br />
capazes <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>rnizar-se em grau suficiente<br />
para <strong>de</strong>stacar-se nem por sua capacida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> proposta nem pela consistência <strong>de</strong> suas<br />
equipes <strong>de</strong> governo. Nas palavras <strong>de</strong> um<br />
entrevistado peruano: “Os partidos políticos<br />
não foram capazes <strong>de</strong> sentir o ritmo da<br />
América Latina”.<br />
Os partidos políticos atravessam <strong>uma</strong><br />
forte crise <strong>de</strong> representação que inci<strong>de</strong> na diminuição<br />
da participação eleitoral e em sua<br />
canalização por outras vias (em geral, organizações<br />
da socieda<strong>de</strong> civil). No entanto,<br />
quase todos os lí<strong>de</strong>res reconhecem a centralida<strong>de</strong><br />
dos partidos políticos e a necessida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> que ass<strong>uma</strong>m um papel <strong>de</strong> maior responsabilida<strong>de</strong>.<br />
“Nossas socieda<strong>de</strong>s passaram por<br />
<strong>uma</strong> rápida metamorfose e nós, os políticos,<br />
não a monitoramos <strong>de</strong> perto, por isso existe<br />
um gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>sencontro” (presi<strong>de</strong>nte). “O<br />
povo quer participar e sente que o formalismo<br />
do voto nas urnas, por mais transparentes<br />
que sejam as eleições, não lhe dá esse sentimento<br />
<strong>de</strong> participação [...]. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
precisa dos partidos políticos, mas eu não<br />
posso fazer parte <strong>de</strong> um partido, porque todos<br />
têm dono” (empresário).<br />
Nossos consultados vinculam essa crise<br />
<strong>de</strong> representação à ausência <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
interna nos partidos, à lógica clientelista<br />
<strong>de</strong> manipulação do eleitorado que incentiva<br />
os personalismos, ao esquecimento das plataformas<br />
político-partidárias (falta <strong>de</strong> diferenciação<br />
i<strong>de</strong>ológica, carência <strong>de</strong> programas),<br />
à geração <strong>de</strong> dissidências personalistas<br />
e não i<strong>de</strong>ológicas, a sua vinculação a po<strong>de</strong>res<br />
fáticos e a alianças em que se confun<strong>de</strong>m<br />
as i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>s políticas.<br />
Por essas razões, a maioria dos consultados<br />
enten<strong>de</strong> que os partidos – em particular<br />
os tradicionais – não tiveram êxito como<br />
canalizadores das <strong>de</strong>mandas da cidadania.<br />
Por sua vez, as oposições políticas aparecem<br />
fragmentadas e seu discurso se configura<br />
mais contra figuras políticas controvertidas<br />
do que a partir <strong>de</strong> propostas programáticas.<br />
Em geral, longe <strong>de</strong> expressar <strong>uma</strong> vonta<strong>de</strong><br />
majoritária da população, segundo essas<br />
opiniões, os partidos atuam em função<br />
<strong>de</strong> interesses particularistas e sofrem <strong>de</strong>masiadas<br />
pressões dos grupos <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r, tanto<br />
legais quanto ilegais.<br />
“[Os partidos] têm muitas dificulda<strong>de</strong>s<br />
para manter-se em contato com as <strong>de</strong>mandas<br />
da população porque a carreira política<br />
<strong>de</strong>pen<strong>de</strong> acima <strong>de</strong> tudo dos dirigentes dos<br />
partidos e não tanto dos cidadãos. É curioso,<br />
há <strong>uma</strong> partidocracia mais ou menos sólida<br />
e os partidos têm um bom percentual <strong>de</strong> votos,<br />
embora as pessoas não tenham <strong>uma</strong> boa<br />
opinião a respeito <strong>de</strong>les” (acadêmico).<br />
Certos atores, particularmente os jornalistas,<br />
vêem os partidos políticos como instituições<br />
frágeis, divorciadas das necessida<strong>de</strong>s<br />
cidadãs, submetidas a caudilhismos, que se<br />
ocupam apenas da socieda<strong>de</strong> incluída e per<strong>de</strong>m<br />
contato com suas bases sociais – atuam,<br />
às vezes, como verda<strong>de</strong>iras máfias –.<br />
Por sua vez, os acadêmicos ten<strong>de</strong>m a vincular<br />
a crise <strong>de</strong> representação dos partidos<br />
políticos aos déficits institucionais que cada<br />
país apresenta. A revisão do sistema <strong>de</strong> proporcionalida<strong>de</strong><br />
em alguns países, das forças<br />
que aparecem representadas no Parlamento<br />
e dos mecanismos <strong>de</strong> promoção <strong>de</strong> candidaturas<br />
intra ou extrapartidárias, é a dimensão<br />
mais ressaltada. Sob esse ponto <strong>de</strong> vista, os<br />
problemas da representação política <strong>de</strong>scansariam<br />
mais na forma institucional <strong>de</strong> funcionamento<br />
do sistema <strong>de</strong> representação, do<br />
que na credibilida<strong>de</strong> dos partidos políticos<br />
diante da cidadania.<br />
Por sua vez, segundo nossos consultados,<br />
o <strong>de</strong>scrédito da população em relação<br />
aos partidos políticos favoreceu a expansão e<br />
a diversificação <strong>de</strong> organizações da socieda<strong>de</strong><br />
civil, assim como a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong>stas <strong>de</strong><br />
encaminhar as <strong>de</strong>mandas. O <strong>de</strong>sequilíbrio<br />
entre os níveis <strong>de</strong> participação alcançados<br />
pelos partidos e pelas organizações da socie-<br />
Os partidos<br />
políticos<br />
atravessam <strong>uma</strong><br />
forte crise <strong>de</strong><br />
representação<br />
que inci<strong>de</strong> na<br />
diminuição da<br />
participação<br />
eleitoral e em sua<br />
canalização por<br />
outras vias.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
165
da<strong>de</strong> civil gera olhares críticos a respeito do<br />
papel que ambos <strong>de</strong>sempenham no processo<br />
<strong>de</strong>mocrático.<br />
Os consultados das ONG´s expressam<br />
fortes críticas aos partidos, baseadas fundamentalmente<br />
em sua corrupção, em seu distanciamento<br />
em relação aos interesses sociais<br />
e em sua busca do po<strong>de</strong>r como aval <strong>de</strong><br />
interesses particularistas.<br />
No entanto, para alguns dos consultados<br />
mais próximos dos partidos, o problema<br />
não está no fato <strong>de</strong> eles não terem se mo<strong>de</strong>rnizado<br />
plenamente, mas sim <strong>de</strong> não terem<br />
conseguido que isso fosse percebido. Um lí<strong>de</strong>r<br />
consultado no Chile expressou-se <strong>de</strong>sta<br />
forma: “Acho que aqui é preciso fazer um<br />
mea culpa. Acho que os partidos não tiveram<br />
a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> clarificar ante a opinião pública<br />
suas proposições, a alternativa que representam,<br />
o caminho que oferecem”. Explicações<br />
<strong>de</strong>sse tipo não são suficientes para os<br />
consultados <strong>de</strong> países que enfrentam crises<br />
muito severas. Entre eles, <strong>uma</strong> idéia recorrente<br />
é que não foi a cidadania que <strong>de</strong>u as<br />
costas aos partidos, mas sim os partidos que<br />
<strong>de</strong>ram as costas ao povo. Nas palavras <strong>de</strong> um<br />
entrevistado argentino: “Os políticos falam<br />
muito mais <strong>de</strong> candidaturas, <strong>de</strong> internas, <strong>de</strong><br />
eleições, <strong>de</strong> mecanismos eleitorais, e falam<br />
muito pouco <strong>de</strong> <strong>de</strong>semprego, <strong>de</strong> pobreza, <strong>de</strong><br />
marginalização, <strong>de</strong> insegurança pública, que<br />
são os temas que preocupam a população.<br />
[...] Essa crise teve origem basicamente em<br />
<strong>uma</strong> classe política dirigente que se negou a<br />
aceitar responsabilida<strong>de</strong>s e esforços. O único<br />
objetivo foi durar o maior tempo possível”.<br />
Das consultas também surgem elementos<br />
para avaliar a situação <strong>de</strong> outras instituições<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. A baixa confiança nessas<br />
instituições manifestada pela cidadania<br />
(ver o capítulo prece<strong>de</strong>nte) é percebida pelos<br />
lí<strong>de</strong>res. Alguns apontam um esgotamento<br />
da capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> representação e o vinculam<br />
à elevada influência dos po<strong>de</strong>res não<br />
eleitos. Ao mesmo tempo em que reconhecem,<br />
com diferentes matizes, o caráter central<br />
dos partidos políticos como instrumentos<br />
<strong>de</strong> representação em <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong><br />
boa qualida<strong>de</strong>, os consultados ressaltam que<br />
os partidos sofrem <strong>de</strong> modo particular a influência<br />
dos po<strong>de</strong>res fáticos.<br />
Existe gran<strong>de</strong> coincidência entre os consultados<br />
no que diz respeito ao po<strong>de</strong>r acumulado<br />
na última década pelos gran<strong>de</strong>s empresários,<br />
pelo setor financeiro e pelos meios<br />
<strong>de</strong> comunicação que constituem, segundo<br />
eles, o principal fator <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r nas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
da região. Além disso, ressaltam a influência<br />
exercida pelos organismos multilaterais<br />
<strong>de</strong> crédito. Existe amplo consenso <strong>de</strong><br />
que a agenda dos governos é <strong>de</strong>terminada<br />
centralmente pelos temas e pelas perspectivas<br />
promovidas por esses atores.<br />
Os po<strong>de</strong>res fáticos<br />
Empresas<br />
Dos consultados da América Latina, 80%<br />
ressaltam o po<strong>de</strong>r acumulado, na última década,<br />
pelos empresários, pelo setor financeiro<br />
e pelos meios. 79 Eles são o principal grupo<br />
<strong>de</strong> po<strong>de</strong>r que limita o po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão<br />
dos governos.<br />
O condicionamento imposto pelos po<strong>de</strong>res<br />
fáticos aos regimes <strong>de</strong>mocráticos favorece<br />
a noção <strong>de</strong> que se conta com governos<br />
e partidos políticos que não po<strong>de</strong>m respon<strong>de</strong>r<br />
às <strong>de</strong>mandas da cidadania. “O gran<strong>de</strong><br />
po<strong>de</strong>r fático da incipiente <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é<br />
o po<strong>de</strong>r econômico privado. Integrado por<br />
grupos <strong>de</strong> pressão que condicionam a conduta<br />
do presi<strong>de</strong>nte, <strong>de</strong> legisladores, juízes e<br />
outros funcionários do governo e da administração<br />
pública” (ex-presi<strong>de</strong>nte). “Nós temos<br />
<strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong>svinculada do interesse<br />
geral e, fundamentalmente, vinculada<br />
a fatores fáticos que acabam por oligarquizar<br />
a economia do país e transformar o governo<br />
<strong>de</strong>mocrático em um governo plutocrático”<br />
(político).<br />
Os lí<strong>de</strong>res <strong>de</strong>stacam que a relevância do<br />
setor empresarial repousa na sua capacida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> lobby diante dos governos, <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>n-<br />
79 Diferentemente do restante dos países da América Latina, no Brasil não se faz menção à vinculação entre o<br />
setor econômico financeiro e os meios <strong>de</strong> comunicação. No entanto, é reconhecida sua gran<strong>de</strong> incidência sobre a<br />
opinião pública.<br />
166 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
do e promovendo seus interesses e direcionando<br />
ações políticas em seu benefício. “O<br />
governo está a serviço da empresa privada<br />
e dos que tomam as <strong>de</strong>cisões [...], os multimilionários<br />
são os que <strong>de</strong>ci<strong>de</strong>m o que se faz<br />
ou se <strong>de</strong>ixa <strong>de</strong> fazer no país” (religioso).“ O<br />
po<strong>de</strong>r do dinheiro se converte rapidamente<br />
em po<strong>de</strong>r político, com capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> limitar<br />
o po<strong>de</strong>r político <strong>de</strong>mocrático” (presi<strong>de</strong>nte).<br />
“Sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> influência se baseia<br />
[...] no fato <strong>de</strong> que financiam as campanhas<br />
eleitorais” (político). “O mundo empresarial<br />
tem um po<strong>de</strong>r muito forte. Como os empresários<br />
tomam as <strong>de</strong>cisões <strong>de</strong> investimento, e<br />
sem investimento não há <strong>de</strong>senvolvimento<br />
nem crescimento, eles têm assim um po<strong>de</strong>r<br />
<strong>de</strong> veto. [...] O po<strong>de</strong>r da direção empresarial<br />
com seus capitais e com o po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> veto que<br />
conduz ao <strong>de</strong>semprego, não cabe dúvida <strong>de</strong><br />
que é muito forte” (político).<br />
Na opinião <strong>de</strong> alguns presi<strong>de</strong>ntes consultados,<br />
no Cone Sul é preocupante o peso <strong>de</strong><br />
corporações que aparecem como um obstáculo<br />
para <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> mais ampla, porque<br />
são outorgados privilégios a certos grupos,<br />
em um contexto <strong>de</strong> partidos frágeis e <strong>de</strong><br />
um Estado que <strong>de</strong>veria ser mais republicano.<br />
Em países menores, como os da América<br />
Central, aponta-se a pressão exercida pelo<br />
setor privado –ligado a <strong>uma</strong> estrutura oligárquica<br />
<strong>de</strong> po<strong>de</strong>r– sobre o presi<strong>de</strong>nte, e a<br />
cooptação <strong>de</strong> altos funcionários, o que permite<br />
a alguns dos consultados falar <strong>de</strong> um<br />
processo <strong>de</strong> captura do Estado.<br />
A estreita vinculação entre grupos econômicos<br />
e meios <strong>de</strong> comunicação é <strong>de</strong>stacada<br />
pela maioria dos consultados. Mediante<br />
os meios, os empresários concentram mais<br />
po<strong>de</strong>r ainda, quer seja porque são seus proprietários<br />
ou porque impõem condições<br />
por meio do controle das pautas publicitárias.<br />
Essa aliança lhes confere gran<strong>de</strong> capacida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> gerar opinião, <strong>de</strong>terminar temas<br />
<strong>de</strong> agenda e incidir sobre a imagem pública<br />
dos funcionários, dos partidos políticos<br />
e das instituições.<br />
Os meios <strong>de</strong> comunicação<br />
Os meios <strong>de</strong> comunicação são caracterizados<br />
como um controle sem controle, que<br />
cumpre funções que exce<strong>de</strong>m o direito à informação.<br />
“Formam a opinião pública, <strong>de</strong>ci<strong>de</strong>m<br />
as pesquisas <strong>de</strong> opinião e, conseqüentemente,<br />
são os que mais têm influência na<br />
governabilida<strong>de</strong>” (político). “Atuam como<br />
suprapo<strong>de</strong>res, [...] passaram a ter um po<strong>de</strong>r<br />
que exce<strong>de</strong> o Executivo e os po<strong>de</strong>res legitimamente<br />
constituídos, [...] substituíram totalmente<br />
os partidos políticos” (político).<br />
A maioria dos jornalistas consultados vê<br />
o setor econômico-financeiro e os meios <strong>de</strong><br />
comunicação como os principais grupos <strong>de</strong><br />
po<strong>de</strong>r. Os meios <strong>de</strong> comunicação têm a peculiarida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> operar como mecanismo <strong>de</strong><br />
controle e/ou limitação às ações dos três po<strong>de</strong>res<br />
constitucionais e dos partidos políticos,<br />
sejam quais forem os proprietários <strong>de</strong>sses<br />
meios. “A verda<strong>de</strong>ira vigilância que se<br />
exerce é a da imprensa” (jornalista). Além<br />
disso, reconhecem que atuam como <strong>uma</strong><br />
corporação que <strong>de</strong>fine os temas da agenda<br />
pública e que até traça a agenda presi<strong>de</strong>ncial.<br />
Em geral, os consultados consi<strong>de</strong>ram<br />
problemática a relação entre os meios <strong>de</strong><br />
comunicação e os políticos. “Aqui a classe<br />
política os teme. Porque po<strong>de</strong>m fazer <strong>de</strong>smoronar<br />
<strong>uma</strong> figura pública a qualquer momento”<br />
(sindicalista). “A forma através da<br />
qual se construíram as concessões e os interesses<br />
com os quais se teceu toda a estrutura<br />
dos meios <strong>de</strong> comunicação os converteram<br />
em um po<strong>de</strong>r” (político).<br />
Para alguns, no entanto, a influência<br />
exercida pelos meios <strong>de</strong> comunicação é positiva:<br />
“Graças aos meios, ainda po<strong>de</strong>mos estar<br />
falando <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>” (empresário).<br />
Valorizam seu papel fiscalizador: “Está claro<br />
que se não fosse pela vigília da imprensa, as<br />
coisas seriam muito piores”. “[A imprensa]<br />
sofistica os mecanismos <strong>de</strong> engano, mas, por<br />
outro lado, opera como limite” (jornalista).<br />
Os fatores extraterritoriais<br />
O papel dos Estados Unidos e dos organismos<br />
multilaterais <strong>de</strong> crédito (Banco<br />
Mundial, BIRD; Fundo Monetário Internacional,<br />
FMI; Banco Interamericano <strong>de</strong> Desenvolvimento,<br />
BID) como fatores <strong>de</strong> gran<strong>de</strong><br />
influência são mencionados pela meta<strong>de</strong><br />
dos consultados, aproximadamente. Eles<br />
apontam a ingerência dos organismos nas<br />
“[A imprensa]<br />
sofistica os<br />
mecanismos<br />
<strong>de</strong> engano,<br />
mas, por outro<br />
lado, opera<br />
como limite”<br />
(jornalista).<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
167
questões internas e a perda <strong>de</strong> autonomia. A<br />
<strong>de</strong>pendência se vê expressa nas priorida<strong>de</strong>s<br />
da agenda pública, particularmente na coincidência<br />
entre as sugestões oferecidas por esses<br />
organismos e as pautas <strong>de</strong> reformas econômicas,<br />
fiscais e estatais, previstas a curto e<br />
médio prazo.<br />
“O rumo, a direção, os ritmos da coisa estão<br />
pre<strong>de</strong>terminados por condicionamentos<br />
externos [...] com o FMI, com os bancos, com<br />
o BID” (jornalista). “A aprovação do governo<br />
dos Estados Unidos perante os organismos<br />
multilaterais é essencial. Sem <strong>uma</strong> visão favorável<br />
do FMI, do BIRD e do BID, a economia<br />
do país entraria em colapso em curto prazo,<br />
pela situação <strong>de</strong> endividamento [...]. A ajuda<br />
norte-americana é vital para a correlação <strong>de</strong><br />
forças internas neste período” (político).<br />
“A política econômica não é dirigida <strong>de</strong>mocraticamente<br />
[...].Existe <strong>uma</strong> pauta única<br />
para a região. E quem quiser seguir outro<br />
caminho, ou vai se enfrentar com a impossibilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> concretizá-lo ou, se o fizer, terá<br />
que assumir todos os riscos. [Esta é a] limitação<br />
do caráter internacional e global dos<br />
vetores econômicos” (alto funcionário).“O<br />
povo vota e as instituições que surgem <strong>de</strong>sse<br />
voto são facilitadores <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões que foram<br />
tomadas em outro lugar [...]. Gradualmente,<br />
as fronteiras vão caindo <strong>de</strong>vido a esses po<strong>de</strong>res<br />
fáticos que fazem com que as <strong>de</strong>cisões do<br />
Parlamento, do Po<strong>de</strong>r Executivo, da Justiça,<br />
<strong>de</strong> cada jurisdição sejam, na verda<strong>de</strong>, só <strong>de</strong><br />
fachada” (jornalista).<br />
Embora os consultados reconheçam a<br />
influência <strong>de</strong>sses po<strong>de</strong>res, alguns consi<strong>de</strong>ram<br />
que o po<strong>de</strong>r político mantém capacida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> autonomia. “O <strong>de</strong>safio é como adaptar<br />
as instituições <strong>de</strong>mocráticas à existência dos<br />
po<strong>de</strong>res fáticos. Provavelmente não haja nenh<strong>uma</strong><br />
forma <strong>de</strong> institucionalizá-los, porém<br />
é preciso saber que existem, que influenciam<br />
e que essas influências pesam” (político).<br />
Nesse contexto e sob um ponto <strong>de</strong> vista<br />
<strong>de</strong> futuro, um presi<strong>de</strong>nte i<strong>de</strong>ntifica o <strong>de</strong>safio<br />
que significa dirimir o vínculo entre os fatores<br />
extraterritoriais e as priorida<strong>de</strong>s nacionais,<br />
que incluem a superação da pobreza e o<br />
conseqüente fortalecimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>:<br />
“Este quadro nos coloca perante um enorme<br />
<strong>de</strong>safio: se nós, os governantes da região, somos<br />
ou não capazes <strong>de</strong> fazer com que o controle<br />
responsável das políticas econômicas<br />
funcione com eficácia e visão <strong>de</strong> futuro.”<br />
As igrejas<br />
A meta<strong>de</strong> dos consultados consi<strong>de</strong>ra que<br />
as igrejas continuam tendo influência, ainda<br />
que <strong>de</strong>crescente em relação ao passado.<br />
Menciona-se que a expansão das igrejas<br />
evangélicas está minando o po<strong>de</strong>r das católicas.<br />
“Acho que a Igreja Católica ainda continua<br />
sendo a hegemônica. [...] Os setores<br />
mais conservadores se fortaleceram, [...] os<br />
que mais avançaram são alguns grupos pentecostais,<br />
evangélicos que hoje têm gran<strong>de</strong><br />
influência, porque controlam os meios<br />
<strong>de</strong> comunicação, [...] têm um discurso que<br />
atrai as pessoas como solução para seus problemas<br />
e que é extremamente alienante do<br />
ponto <strong>de</strong> vista da consciência <strong>de</strong>mocrática<br />
[...]. As pessoas não precisam participar para<br />
construir a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, têm que ir lá rezar<br />
e Deus sabe o que faz. Além disso, essas<br />
igrejas estão se transformando em um po<strong>de</strong>r<br />
econômico extraordinário” (lí<strong>de</strong>r da socieda<strong>de</strong><br />
civil). Em alguns casos mencionam-se<br />
autorida<strong>de</strong>s da Igreja Católica que em épocas<br />
<strong>de</strong> campanha eleitoral manifestam opiniões<br />
políticas em suas homilias. “Eles são<br />
os que na campanha eleitoral, lá do púlpito,<br />
vão influenciar ou insinuar em quem votar”<br />
(política). “Isso traz como conseqüência que<br />
a Igreja Católica exerça não só <strong>uma</strong> função<br />
estritamente pastoral, mas que adicionalmente<br />
exerça <strong>uma</strong> influência real no processo<br />
<strong>de</strong> tomada <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões políticas” (funcionário<br />
<strong>de</strong> alto escalão).<br />
O sindicalismo<br />
O sindicalismo é reconhecido por aproximadamente<br />
um terço dos consultados como<br />
fator <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r, particularmente por sua<br />
capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> veto através <strong>de</strong> pressões e<br />
mobilizações, bem como por sua influência<br />
na construção da agenda pública relativa<br />
a temas trabalhistas. Mencionam-se, em<br />
especial, os sindicatos do setor público, ressaltando<br />
sua vinculação com o po<strong>de</strong>r político,<br />
ao mesmo tempo em que se faz alusão<br />
aos do setor privado como fator <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r<br />
<strong>de</strong>crescente.<br />
168 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Os po<strong>de</strong>res ilegais<br />
O peso dos po<strong>de</strong>res ilegais constitui <strong>uma</strong><br />
especial preocupação em alguns países. São<br />
grupos relacionados com todo tipo <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s<br />
ilícitas: tráfico <strong>de</strong> drogas, contrabando,<br />
prostituição, jogo clan<strong>de</strong>stino etc.<br />
“Alguns setores do crime organizado são<br />
um po<strong>de</strong>r em crescimento. Em gran<strong>de</strong>s centros<br />
urbanos muito vinculados com o tráfico<br />
<strong>de</strong> drogas, contam com o braço policial e<br />
com outros recursos como o dinheiro abundante.<br />
Então, esse po<strong>de</strong>r é realmente <strong>uma</strong><br />
ameaça à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>” (empresário).<br />
“Na próxima eleição, vão se apresentar<br />
pela primeira vez, em forma direta, representantes<br />
diretos <strong>de</strong>sses grupos mafiosos.<br />
Antigamente, tinham seus contatos com o<br />
po<strong>de</strong>r político, agora têm seus próprios representantes.<br />
Nas listas <strong>de</strong> candidatos a senadores<br />
e <strong>de</strong>putados po<strong>de</strong>mos reconhecer,<br />
por exemplo, o filho, o genro, o cunhado e<br />
em alguns casos, até o próprio lí<strong>de</strong>r do grupo<br />
mafioso [...]. São os grupos <strong>de</strong> maior influência<br />
e <strong>de</strong> maior capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> manobra<br />
em operações à margem da lei relacionadas<br />
com a falsificação, isto é, todo o comércio <strong>de</strong><br />
fronteira e esse tipo <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s que são as<br />
que dão maior lucro atualmente em nosso<br />
país” (prefeito).<br />
Destaca-se a influência que esses grupos<br />
exercem sobre os po<strong>de</strong>res do Estado e<br />
sobre as empresas. “[Em certas zonas] on<strong>de</strong><br />
há <strong>uma</strong> produção importante <strong>de</strong> coca,<br />
o narcotráfico tem influências, obviamente<br />
obscuras, secretas, através da corrupção das<br />
autorida<strong>de</strong>s” (presi<strong>de</strong>nte). “Trata-se <strong>de</strong> um<br />
po<strong>de</strong>r agressivo, anti<strong>de</strong>mocrático e terrível<br />
[...]: compra tudo, juízes, fronteiras, policiais,<br />
instituições inteiras” (funcionário <strong>de</strong><br />
alto escalão).<br />
A influência dos grupos ilegais foi favorecida<br />
pelas mudanças na economia e por<br />
um Estado frágil e permeável: “Esses grupos<br />
extralegais têm o po<strong>de</strong>r que têm porque<br />
existe um Estado débil, instituições<br />
<strong>de</strong>sprestigiadas como o Congresso [...]. Em<br />
<strong>uma</strong> alta porcentagem, o narcotráfico foi<br />
capaz <strong>de</strong> corrompê-las, e continuam corrompidas<br />
[...]. No Congresso continua existindo<br />
gente paga pelo narcotráfico [que]<br />
chegou a corromper a cúpula dos partidos<br />
tradicionais [...]. São as fontes <strong>de</strong> financiamento<br />
da insurgência e dos paramilitares”<br />
(sindicalista).<br />
Os po<strong>de</strong>res políticos formais<br />
O Po<strong>de</strong>r Executivo<br />
Um forte presi<strong>de</strong>ncialismo caracteriza<br />
a maioria dos regimes <strong>de</strong>mocráticos na<br />
América Latina. É interessante ver que os<br />
presi<strong>de</strong>ntes da América Central e do Caribe<br />
reforçam essa caracterização incluindo o<br />
Executivo na i<strong>de</strong>ntificação dos grupos com<br />
maior po<strong>de</strong>r.<br />
Aproximadamente um terço dos consultados<br />
consi<strong>de</strong>ra que o Executivo é um po<strong>de</strong>r<br />
forte na América Latina. Entretanto, esta<br />
avaliação assume diferentes matizes. Por<br />
um lado, é consi<strong>de</strong>rado um po<strong>de</strong>r positivo,<br />
que favorece a construção <strong>de</strong> acordos e possibilita<br />
a governabilida<strong>de</strong>. Por outro, <strong>de</strong>staca-se<br />
que, apesar <strong>de</strong> sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> iniciativa,<br />
está condicionado e subordinado a<br />
fatores extraterritoriais e fáticos. In<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente<br />
<strong>de</strong> suas atribuições e restrições<br />
constitucionais, os presi<strong>de</strong>ntes tentam manter<br />
a primazia sobre o Congresso e o Po<strong>de</strong>r<br />
Judiciário. “Tentaram ter mais ingerência<br />
na Corte e na Assembléia […]. Este é um<br />
regime presi<strong>de</strong>ncialista e se faz o que o presi<strong>de</strong>nte<br />
diz […]. Ele tem um po<strong>de</strong>r que está<br />
muito acima dos po<strong>de</strong>res muito fortes que a<br />
Constituição lhe dá” (presi<strong>de</strong>nte).“Quando<br />
alguém tem <strong>uma</strong> li<strong>de</strong>rança forte e ganha<br />
as eleições arrasadoramente [...], o Congresso<br />
não controla o presi<strong>de</strong>nte em nada”<br />
(presi<strong>de</strong>nte).<br />
As Forças Armadas<br />
Aproximadamente um quinto dos consultados<br />
atribui às Forças Armadas <strong>uma</strong><br />
importante influência. Apesar disso, ten<strong>de</strong>m<br />
a consi<strong>de</strong>rar que per<strong>de</strong>ram peso, <strong>de</strong>vido<br />
a que se encontram em um processo <strong>de</strong><br />
institucionalização e, em alguns casos, <strong>de</strong>vido<br />
às conseqüências <strong>de</strong> disputas internas,<br />
que também minaram o gran<strong>de</strong> po<strong>de</strong>r que<br />
tiveram em épocas passadas. Em apenas<br />
dois países –Equador e Venezuela – comenta-se<br />
que atuam como controle da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
contam com forte reconhecimento<br />
A influência dos<br />
grupos ilegais<br />
foi favorecida<br />
pelas mudanças<br />
na economia<br />
e por um<br />
Estado frágil e<br />
permeável.<br />
Bases empíricas do Relatório 169
público, construíram bases <strong>de</strong> apoio vinculadas<br />
às organizações sociais e à política social,<br />
e estão relacionadas com o movimento<br />
indígena. Nesse contexto, as Forças Armadas<br />
aparecem politizadas. Aponta-se como<br />
indicador relevante a militarização da<br />
administração pública, mediante a incorporação<br />
<strong>de</strong> pessoal militar em serviço ativo.<br />
“Quando há alg<strong>uma</strong> ameaça, esse po<strong>de</strong>r<br />
militar vai para as ruas” (jornalista).<br />
A visão dos presi<strong>de</strong>ntes e<br />
vice-presi<strong>de</strong>ntes<br />
Os testemunhos dos que foram ou são<br />
presi<strong>de</strong>ntes e vice-presi<strong>de</strong>ntes (<strong>de</strong> agora em<br />
diante, “os mandatários”) da América Latina<br />
têm <strong>uma</strong> importância particular: suas reflexões<br />
estão intimamente ligadas ao exercício<br />
concreto do po<strong>de</strong>r político em sua máxima<br />
expressão institucional.<br />
Avaliação da figura do presi<strong>de</strong>nte no<br />
mapa <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> cada região<br />
Como já vimos, há ampla coincidência<br />
em que um presi<strong>de</strong>ncialismo forte caracteriza<br />
os regimes <strong>de</strong>mocráticos na América<br />
Latina. Os mandatários da América<br />
Central e do Caribe reforçam esta caracterização<br />
incluindo o Executivo na i<strong>de</strong>ntificação<br />
dos grupos com maior po<strong>de</strong>r. Segundo<br />
um <strong>de</strong>les: “A presidência ainda tem um po<strong>de</strong>r<br />
muito forte [que se manifesta em] as atitu<strong>de</strong>s<br />
do presi<strong>de</strong>nte, em sua missão, em seu<br />
comportamento, em sua maneira <strong>de</strong> enten<strong>de</strong>r<br />
as coisas”.<br />
Em alguns países aparecem críticas ao<br />
<strong>de</strong>sempenho presi<strong>de</strong>ncial: <strong>de</strong>tectam-se práticas<br />
personalistas que confun<strong>de</strong>m a i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong><br />
dos partidos com a figura presi<strong>de</strong>ncial.<br />
Outros mandatários reconhecem o po<strong>de</strong>r<br />
presi<strong>de</strong>ncial, mas não o consi<strong>de</strong>ram irrefutável,<br />
i<strong>de</strong>ntificando nele certas fissuras; esse<br />
<strong>de</strong>bilitamento lhes parece preocupante.<br />
Outros mandatários observam que o regime<br />
eleitoral distorce sua base <strong>de</strong> apoio<br />
político. E o contexto do exercício do po<strong>de</strong>r<br />
também impõe condicionamentos. Entre<br />
os mandatários do Cone Sul, <strong>de</strong>tecta-se<br />
<strong>uma</strong> disparida<strong>de</strong> entre o po<strong>de</strong>r formal do<br />
presi<strong>de</strong>nte e sua efetiva capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> exercê-lo.<br />
Segundo eles, a imagem do presi<strong>de</strong>nte<br />
como “caudilho” ou “monarca criollo” dista<br />
em gran<strong>de</strong> medida da realida<strong>de</strong>. “O presi<strong>de</strong>nte<br />
é <strong>uma</strong> pessoa cuja capacida<strong>de</strong> está, em<br />
geral, bastante limitada.”<br />
Outro mandatário <strong>de</strong> um país do Mercosul<br />
agrega que o maior número <strong>de</strong> controles<br />
a partir <strong>de</strong> mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> direta<br />
e da criação <strong>de</strong> novas instituições, <strong>de</strong>vido<br />
a reformas constitucionais, gera maior legitimida<strong>de</strong><br />
no exercício do papel presi<strong>de</strong>ncial<br />
e um conseqüente fortalecimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
“Eu governei em um marco institucional<br />
que me permitiu legislar.” O <strong>de</strong>safio<br />
principal se centra na capacida<strong>de</strong> presi<strong>de</strong>ncial<br />
<strong>de</strong> dirigir ou não o processo político: “O<br />
problema é quando não se tem a capacida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> propor <strong>uma</strong> direção”.<br />
Pressões dos po<strong>de</strong>res fáticos sobre<br />
a autorida<strong>de</strong> presi<strong>de</strong>ncial<br />
Os mandatários consultados analisam o<br />
exercício da presidência diante da pressão <strong>de</strong><br />
diversos po<strong>de</strong>res fáticos. Nessa abordagem,<br />
aparecem referências e reflexões <strong>de</strong> caráter<br />
pessoal no tocante à capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> impor<br />
<strong>de</strong>cisões. “Ao exercer a presidência não me<br />
senti muito pressionado. Talvez porque estávamos<br />
começando, porque a base <strong>de</strong> sustentação<br />
do governo <strong>de</strong>mocrático tinha muita<br />
força; talvez porque, sem falsa modéstia, as<br />
pessoas me conhecem, e sabiam que não iam<br />
po<strong>de</strong>r me pressionar.”<br />
Mas, por outro lado, a pressão exercida<br />
por po<strong>de</strong>res extraterritoriais, centrados<br />
fundamentalmente no governo dos Estados<br />
Unidos e nos organismos multilaterais<br />
<strong>de</strong> crédito, é <strong>uma</strong> característica da experiência<br />
<strong>de</strong> governo dos mandatários.<br />
As pressões sobre a autonomia das <strong>de</strong>cisões<br />
presi<strong>de</strong>nciais são avaliadas negativamente<br />
em todos os casos. Segundo vários<br />
mandatários consultados, “é um po<strong>de</strong>r exercido<br />
<strong>de</strong> maneira negativa, é mais um po<strong>de</strong>r<br />
<strong>de</strong> perturbação do que <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão”. “Estamos<br />
totalmente condicionados, eles nos impõem<br />
as regras […]. Os governos soberanos estão<br />
<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo da avaliação <strong>de</strong> <strong>uma</strong> agência<br />
particular <strong>de</strong> risco, da <strong>de</strong>cisão <strong>de</strong> um organismo<br />
internacional, ‘te ajudo ou não te aju-<br />
170 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
do’.” “Os governos têm mais limitações para<br />
exercer o po<strong>de</strong>r. Per<strong>de</strong>mos capacida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão nacional, posto que os organismos<br />
internacionais <strong>de</strong> crédito estabelecem<br />
condições que atentam contra o próprio<br />
crescimento e, enfim, contra a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
quando direitos h<strong>uma</strong>nos fundamentais são<br />
lesados.” “Tu tens então um presi<strong>de</strong>nte da<br />
República, com <strong>uma</strong> pressão bilateral brutal<br />
e com <strong>uma</strong> influência da cooperação internacional,<br />
não direi brutal, mas muito significativa.”<br />
“Os organismos bilaterais, com suas<br />
exigências <strong>de</strong> seguir mo<strong>de</strong>los e programas<br />
<strong>de</strong>terminados com condições politicamente<br />
inviáveis, não são os responsáveis pelo resultado<br />
político que essas obrigações acarretam,<br />
que te impõem [...]. Ou seja, vem um<br />
burocrata internacional e, seguindo as diretivas<br />
<strong>de</strong> seu organismo, marca <strong>uma</strong> diretriz<br />
e <strong>de</strong>pois esse senhor cumpre sua missão<br />
e vai embora.”<br />
O papel dos meios <strong>de</strong> comunicação<br />
Os mandatários i<strong>de</strong>ntificam a intervenção<br />
onipresente dos meios <strong>de</strong> comunicação<br />
como um contrapeso a seu po<strong>de</strong>r, na medida<br />
em que a opinião pública ten<strong>de</strong> a orientar-se<br />
a respeito das ações governamentais,<br />
basicamente pela opinião e avaliação realizadas<br />
pelos meios. “O meio <strong>de</strong> comunicação<br />
informa, opina, julga e con<strong>de</strong>na […].<br />
É um fator <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r que po<strong>de</strong> ser bem ou<br />
mal exercido, e que está influenciado por<br />
interesses econômicos, paixões, sentimentos<br />
e idéias, e por sua vez não está submetido<br />
a nenhum controle. […] Então, é por isso<br />
que o governante se sente hostilizado pela<br />
imprensa […].Não interessa a tendência do<br />
governo, sempre vai se sentir hostilizado.”<br />
Reconhece-se também <strong>uma</strong> enorme capacida<strong>de</strong><br />
dos meios para incidir no <strong>de</strong>stino<br />
<strong>de</strong> um governo: “A incidência midiática po<strong>de</strong><br />
tornar inútil <strong>uma</strong> sólida formulação institucional<br />
se tiver ataques ou rivais <strong>de</strong>sse<br />
setor” .“A imprensa tem <strong>uma</strong> influência <strong>de</strong>cisiva<br />
sobre o Congresso […]. Se a imprensa<br />
se move contra <strong>uma</strong> lei, é muito difícil que<br />
ela saia.”<br />
Apesar <strong>de</strong> valorizarem o papel dos meios<br />
<strong>de</strong> comunicação como controle do po<strong>de</strong>r, os<br />
mandatários avaliam com certa apreensão o<br />
crescente papel que os meios assumiram como<br />
expressão <strong>de</strong> interesses <strong>de</strong> grupos econômicos,<br />
sem estar submetidos a nenhum<br />
controle. “Não po<strong>de</strong>mos <strong>de</strong>scartar nessa<br />
paisagem o papel que os meios <strong>de</strong> comunicação<br />
mais <strong>de</strong>senvolvidos, mais profissionalizados<br />
cumpriram no que se refere a tarefas<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>núncia e controle, […] mas, há também<br />
maior interferência no livre <strong>de</strong>correr da<br />
vida <strong>de</strong>mocrática. [...] O gran<strong>de</strong> capital é um<br />
fator <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r muito mais real hoje, porque<br />
veio se apo<strong>de</strong>rando dos instrumentos midiáticos,<br />
então isso lhes permite não só ter po<strong>de</strong>r<br />
mas também exercê-lo.”<br />
A falta <strong>de</strong> controles estatais sobre a imprensa,<br />
que como vimos é um elemento<br />
próprio da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, po<strong>de</strong> se transformar<br />
em <strong>uma</strong> ameaça ao <strong>de</strong>sempenho dos mandatários.<br />
A crítica dos mandatários centrase<br />
na falta <strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong> com que os<br />
meios <strong>de</strong> comunicação difun<strong>de</strong>m informação,<br />
com aval <strong>de</strong> seu posicionamento no mapa<br />
<strong>de</strong> po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> cada país. “Os meios são <strong>de</strong><br />
<strong>uma</strong> influência enorme, talvez os mais fortes<br />
e consistentes. […] Caem na estratégia<br />
do sensacionalismo fácil e dificultam a governabilida<strong>de</strong><br />
e a consistência <strong>de</strong> gestão. […<br />
] Não creio que esteja claro para a socieda<strong>de</strong><br />
o que isso implica. Estive conversando com<br />
mandatários da região e todos nós sentimos<br />
o mesmo problema.”<br />
A pressão exercida pelos meios <strong>de</strong> comunicação<br />
se reflete também no gran<strong>de</strong><br />
peso que eles têm na construção da agenda<br />
pública. “Os meios <strong>de</strong> comunicação estão<br />
atravessando um processo <strong>de</strong> evolução<br />
em que temos <strong>uma</strong> confusão <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r como<br />
nunca jamais eles tiveram em sua história,<br />
que é o po<strong>de</strong>r total e a responsabilida<strong>de</strong> zero<br />
[…]. Os meios hoje têm um po<strong>de</strong>r que po<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>rrubar um ministro, que po<strong>de</strong> influir em<br />
<strong>uma</strong> política e que está <strong>de</strong>finindo a agenda,<br />
às vezes em <strong>uma</strong> superdimensão injusta.”<br />
Os elementos resultantes do que já foi<br />
exposto aparecem conjugados por um lí<strong>de</strong>r<br />
que resume as percepções <strong>de</strong> muitos mandatários<br />
da América Latina: “Os meios <strong>de</strong><br />
comunicação passaram a ser suprapo<strong>de</strong>res<br />
[...], vinculados aos setores econômicos, evi<strong>de</strong>ntemente,<br />
têm mais po<strong>de</strong>r do que o po<strong>de</strong>r<br />
militar, do que o Executivo, do que a pró-<br />
“Este quadro<br />
nos coloca<br />
perante um<br />
enorme <strong>de</strong>safio:<br />
se nós, os<br />
governantes da<br />
região, somos<br />
ou não capazes<br />
<strong>de</strong> fazer com<br />
que o controle<br />
responsável<br />
das políticas<br />
econômicas<br />
funcione com<br />
eficácia e visão<br />
<strong>de</strong> futuro.”<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
171
pria Igreja e do que os partidos políticos.<br />
Substituíram totalmente os partidos políticos.<br />
Instalaram-se no centro da socieda<strong>de</strong>, o<br />
que é bom para o controle dos outros po<strong>de</strong>res,<br />
mas, ao mesmo tempo, se existe um controle,<br />
esse po<strong>de</strong>r po<strong>de</strong> se tornar <strong>uma</strong> inquietante<br />
perversão”.<br />
Valoração das organizações sociais na<br />
vida política do país<br />
No momento <strong>de</strong> avaliar o papel <strong>de</strong>ssas<br />
organizações sociais, vários mandatários<br />
vêem os partidos em <strong>uma</strong> relação <strong>de</strong> competição<br />
e até oposição com diversas organizações<br />
da socieda<strong>de</strong> civil. A tensão é manifestada<br />
por um mandatário ao mencionar<br />
que: “ Foram criadas muitas ONGs que são<br />
úteis e geram participação, que realizam assembléias<br />
e escutam as pessoas, que incrementam,<br />
<strong>de</strong>ntro do possível, <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
representativa […], mas em geral existe<br />
<strong>uma</strong> certa posição antipolítica e isso não é<br />
bom, do mesmo modo que na política existe<br />
<strong>uma</strong> certa tensão com as ONGs. Isso tem<br />
que ser superado com o avanço <strong>de</strong> <strong>uma</strong> tarefa<br />
comum que será difícil levar adiante”.<br />
Outro mandatário se manifesta com<br />
mais firmeza sobre este tema: “Nós nos encontramos<br />
com um fenômeno que é <strong>de</strong> toda<br />
a América, que é perigoso se não o soubermos<br />
organizar, que é o das ONGs e da<br />
mal <strong>de</strong>nominada socieda<strong>de</strong> civil. […] Os<br />
partidos estão enfrentando a concorrência<br />
<strong>de</strong> ONGs e <strong>de</strong> organizações intermediárias<br />
que não têm a legitimida<strong>de</strong> que os partidos<br />
têm. Então, temos que fortalecer essa<br />
legitimida<strong>de</strong> porque os partidos são a única<br />
organização que, através do exercício do<br />
po<strong>de</strong>r, po<strong>de</strong> aprovar normas, atos, regras,<br />
obrigatórios para a socieda<strong>de</strong>”.<br />
O conjunto <strong>de</strong> organizações sociais é um<br />
espectro amplo e diverso, não claramente<br />
<strong>de</strong>finido, segundo os consultados. Isso inclina<br />
alguns mandatários a consi<strong>de</strong>rá-las preocupantes<br />
fatores <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r. “A importância<br />
da socieda<strong>de</strong> civil está aumentando. Ninguém<br />
sabe ainda quem são e o que representam,<br />
e essa é <strong>uma</strong> das preocupações.”<br />
Para outro mandatário, esse po<strong>de</strong>r está<br />
incluído no âmbito da globalização. “Veio<br />
<strong>uma</strong> onda das gran<strong>de</strong>s potências e houve<br />
<strong>uma</strong> onda <strong>de</strong> exigências do po<strong>de</strong>r mundial;<br />
era preciso minimizar os governos, era preciso<br />
<strong>de</strong>limitar o Estado e era preciso fortalecer<br />
as ONGs.”<br />
O papel das ONGs também é questionado<br />
quanto à representação dos interesses populares<br />
que preten<strong>de</strong>m assumir. “As ONGs<br />
são privilegiadas, mas não se colocam questões.<br />
Falam em nome do povo, mas fazem<br />
isso contra reformas que são para o bem do<br />
povo.”<br />
Na visão <strong>de</strong>sses mandatários, as controvérsias<br />
entre partidos políticos e organizações<br />
da socieda<strong>de</strong> civil se refletem nas concepções<br />
sobre <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> representativa e<br />
participativa. Junto a elas se entrelaçam os<br />
questionamentos sobre os alcances da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
em sentido institucional e/ou seu<br />
fortalecimento a partir <strong>de</strong> seu conteúdo <strong>de</strong><br />
eqüida<strong>de</strong> social. “Para recuperar a base <strong>de</strong>mocrática,<br />
não basta dizer às pessoas que se<br />
organizem, que participem. É preciso incluílas<br />
e a inclusão não é só um problema <strong>de</strong> canais<br />
para que as pessoas falem ou protestem,<br />
é ir ao conceito <strong>de</strong> liberda<strong>de</strong> sobre a base da<br />
solução da necessida<strong>de</strong> […], é o investimento<br />
social, é ampliar a cobertura, a qualida<strong>de</strong><br />
da educação […]. Participação significa que<br />
as pessoas se sintam parte do Estado.” “O<br />
gran<strong>de</strong> segredo para que haja participação é<br />
aproximar-se o máximo possível dos problemas<br />
das pessoas, que são basicamente saú<strong>de</strong>,<br />
educação, cultura e esporte.”<br />
O fortalecimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Após termos apresentado alg<strong>uma</strong>s opiniões<br />
dos mandatários, voltamos agora ao<br />
conjunto dos consultados. Nós lhes perguntamos<br />
quais os passos a seguir para fortalecer<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> nos próximos anos. Esta<br />
pergunta <strong>de</strong>u lugar a <strong>uma</strong> dispersão relativamente<br />
importante <strong>de</strong> respostas. No entanto,<br />
um grupo <strong>de</strong> respostas, agrupável em três<br />
gran<strong>de</strong>s blocos, foi mencionado por dois<br />
terços dos consultados.<br />
O primeiro bloco reúne a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
realizar <strong>uma</strong> reforma política para fortalecer<br />
as instituições, inclusive os partidos políti-<br />
172 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
cos. As características <strong>de</strong>ssa reforma variam<br />
<strong>de</strong> país para país: alguns falam <strong>de</strong> reforma<br />
eleitoral, outros <strong>de</strong> reforma do Congresso,<br />
outros <strong>de</strong> reforma do Estado ou <strong>de</strong> fortalecimento<br />
geral das instituições. A idéia comum,<br />
porém, é que um melhor projeto dos<br />
dispositivos e incentivos institucionais po<strong>de</strong>ria<br />
melhorar, e muito, o funcionamento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Uma proporção importante<br />
<strong>de</strong>ssas respostas indica que a reforma política<br />
<strong>de</strong>veria construir novos canais que facilitassem<br />
a participação da socieda<strong>de</strong> civil<br />
organizada. Para muitos dos lí<strong>de</strong>res consultados,<br />
a apatia cidadã e a <strong>de</strong>sconfiança em<br />
relação às instituições se revertem melhorando<br />
os canais <strong>de</strong> participação e ampliando<br />
seu número e seus alcances.<br />
Este primeiro grupo <strong>de</strong> respostas é o mais<br />
freqüentemente mencionado pelos consultados<br />
e sugere que, diferentemente do que<br />
ocorria há alg<strong>uma</strong>s décadas, as instituições<br />
não são vistas como um reflexo secundário<br />
do essencial, mas sim como parte do essencial.<br />
O mesmo ocorre em relação aos partidos<br />
políticos. Embora muitos consultados<br />
coincidam em que os partidos não estão <strong>de</strong>sempenhando<br />
seu papel <strong>de</strong> maneira a<strong>de</strong>quada,<br />
<strong>uma</strong> quantida<strong>de</strong> semelhante indica a necessida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> fortalecê-los. O interesse <strong>de</strong>ssa<br />
resposta resi<strong>de</strong> em que a constatação das dificulda<strong>de</strong>s<br />
que os partidos enfrentam não<br />
leva à adoção <strong>de</strong> posturas <strong>de</strong> rejeição ou à<br />
busca <strong>de</strong> canais alternativos: os partidos vão<br />
mal, mas é preciso melhorá-los.<br />
O segundo bloco <strong>de</strong> respostas inclui a<br />
necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> tomar medidas significativas<br />
(não “puramente institucionais”) que aju<strong>de</strong>m<br />
a enfrentar as profundas iniqüida<strong>de</strong>s<br />
das socieda<strong>de</strong>s latino-americanas. Elas conspiram<br />
contra o fortalecimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
e são <strong>de</strong>tectadas tanto em termos econômicos<br />
(pobreza extrema e falta <strong>de</strong> recursos<br />
mínimos, como a alimentação) quanto em<br />
aspectos culturais (marginalização <strong>de</strong> setores<br />
camponeses e urbanos, marginalização<br />
<strong>de</strong> indígenas). Incorporar genuinamente<br />
toda a população à política <strong>de</strong>mocrática<br />
requer <strong>de</strong>rrotar essas formas <strong>de</strong> exclusão.<br />
Para isso é necessário <strong>de</strong>senvolver políticas<br />
sociais e econômicas que conduzam a <strong>uma</strong><br />
melhoria generalizada dos níveis <strong>de</strong> vida.<br />
PROBLEMAS A ENFRENTAR PARA<br />
FORTALECER A DEMOCRACIA<br />
Reforma política 45<br />
Aumentar participação 13<br />
Institucionais, partidárias 32<br />
Combater <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> 18<br />
Políticas sociais 8<br />
Políticas econômicas 10<br />
Educar para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> 11<br />
Combater a corrupção 9<br />
Outros 17<br />
Todos 100<br />
O terceiro bloco refere-se à necessida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> fortalecer a educação em geral (não só o<br />
acesso a ela, mas também sua qualida<strong>de</strong>) e a<br />
cultura <strong>de</strong>mocrática em particular. Pelo menos<br />
parte dos problemas políticos enfrentados<br />
pelas socieda<strong>de</strong>s latino-americanas <strong>de</strong>ve-se<br />
ao pouco conhecimento das regras do<br />
jogo <strong>de</strong>mocrático ou, mais freqüentemente,<br />
a um conhecimento superficial <strong>de</strong>ssas regras,<br />
que não leva a <strong>uma</strong> a<strong>de</strong>são suficientemente<br />
firme aos valores <strong>de</strong>mocráticos. Os<br />
consultados acreditam que um esforço <strong>de</strong>liberado<br />
para <strong>de</strong>senvolver a educação, em<br />
particular a educação para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
po<strong>de</strong>ria melhorar ou reverter essa situação.<br />
Um último ponto em que coincidiram<br />
vários consultados foi a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> intensificar<br />
a luta contra a corrupção. Isso é<br />
coerente com seu próprio diagnóstico. Se<br />
a corrupção é um dos problemas que mais<br />
afeta a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e a <strong>de</strong>slegitimiza perante<br />
a cidadania, a luta contra ela <strong>de</strong>ve ser <strong>uma</strong><br />
das metas fundamentais.<br />
Convém acrescentar que as opiniões dos<br />
consultados sobre os principais problemas a<br />
enfrentar, para fortalecer a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, diferem<br />
segundo sua visão acerca do estado atual<br />
<strong>de</strong> seus respectivos países. Os consultados<br />
que afirmam que seu país é <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
ou <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> com poucas limitações<br />
dão mais ênfase à necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> reformas<br />
institucionais e partidárias. Essa ênfase<br />
diminui entre os que <strong>de</strong>tectam várias limitações<br />
e diminui ainda mais entre os que vêem<br />
muitas limitações a suas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s (ou,<br />
TABELA 55<br />
% dos consultados<br />
Nota: Os valores são a proporção dos consultados que fazem menção no primeiro lugar a<br />
este problema<br />
Fonte: PRODDAL, Rodada <strong>de</strong> consultas com lí<strong>de</strong>res da América Latina, 2002.<br />
Para muitos<br />
dos lí<strong>de</strong>res<br />
consultados,<br />
a apatia dos<br />
cidadãos e a<br />
<strong>de</strong>sconfiança<br />
em relação às<br />
instituições<br />
se revertem<br />
melhorando<br />
os canais <strong>de</strong><br />
participação e<br />
ampliando seu<br />
número e seus<br />
alcances.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
173
PROBLEMAS A ENFRENTAR PARA FORTALECER A DEMOCRACIA<br />
SEGUNDO OPINIÃO SOBRE O ESTADO DA DEMOCRACIA EM SEU PAÍS<br />
Democracia plena,<br />
ou <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> com<br />
poucas limitações<br />
Democracias<br />
com várias<br />
limitações<br />
Reforma política 45 46 45<br />
Aumentar participação 3 14 19<br />
Institucionais, partidárias 42 32 26<br />
Combater <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> 22 16 20<br />
Educar para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> 12 13 7<br />
Combater corrupção 10 8 10<br />
Outros 11 17 18<br />
Todos 100 100 100<br />
Nota: Os valores são a proporção dos consultados que fazem menção no primeiro lugar a este problema<br />
Fonte: PRODDAL, Rodada <strong>de</strong> consultas com lí<strong>de</strong>res da América Latina, 2002.<br />
TABELA 56<br />
Democracia com muitas<br />
limitações, ou não é<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
simplesmente, acham que não existe <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>).<br />
Com as opiniões favoráveis a <strong>uma</strong><br />
maior participação, ocorre o contrário: são<br />
mais freqüentes on<strong>de</strong> não se vê <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
ou on<strong>de</strong> é consi<strong>de</strong>rada muito limitada, e<br />
muito menos no extremo oposto.<br />
A construção da agenda pública na<br />
América Latina<br />
As opiniões dos consultados a respeito<br />
da agenda política atual apresentam significativas<br />
variações. A corrupção é o tema<br />
mais mencionado (36 por cento). O papel<br />
<strong>de</strong>ficiente dos partidos políticos e sua reforma<br />
são referidos por 20 por cento dos<br />
consultados.<br />
Em relação à agenda econômica, o tema<br />
da reativação – incluindo o uso <strong>de</strong> recursos<br />
produtivos, as privatizações e as reformas financeiras<br />
– aparece como o mais mencionado<br />
(53 por cento). A dívida externa e a integração<br />
regional são apontadas por 23 por<br />
cento dos lí<strong>de</strong>res consultados.<br />
Na agenda social, o <strong>de</strong>semprego e a violência<br />
(34 por cento) <strong>de</strong>finem as priorida<strong>de</strong>s.<br />
Observa-se também <strong>uma</strong> quebra na<br />
homogeneida<strong>de</strong> das opiniões acerca dos<br />
grupos influentes e dos temas da agenda.<br />
Os consultados convergem amplamente em<br />
indicar os grupos empresariais (80 por cento)<br />
e os meios <strong>de</strong> comunicação (65 por cento)<br />
como os grupos com maior capacida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> mo<strong>de</strong>lar e impor a agenda. Por sua vez,<br />
os consensos mais freqüentes aparecem no<br />
que diz respeito à necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> reativação<br />
econômica.<br />
As priorida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> agenda dos lí<strong>de</strong>res não<br />
políticos não se distanciam das do conjunto<br />
dos consultados; para eles o tema central<br />
da agenda é também a reativação econômica<br />
(57 por cento), mas o restante das questões<br />
econômicas recebe poucas menções. Quanto<br />
à agenda social, questões tais como a violência<br />
e a segurança cidadã, assim como as<br />
reformas setoriais em saú<strong>de</strong> e educação, são<br />
mencionadas principalmente pelos acadêmicos,<br />
enquanto o <strong>de</strong>semprego e a pobreza<br />
aparecem como problemas prioritários para<br />
os jornalistas.<br />
Se consi<strong>de</strong>rarmos a perspectiva das mulheres<br />
lí<strong>de</strong>res, a reforma fiscal atinge os mesmos<br />
níveis <strong>de</strong> importância que a reativação<br />
econômica (45 por cento). No caso da agenda<br />
social, a pobreza ascen<strong>de</strong> ao segundo lugar<br />
(27 por cento) e diminuem as menções acerca<br />
da violência (21 por cento), com valores<br />
iguais aos das reformas <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e educação<br />
(21 por cento). A agenda política, no entanto,<br />
mantém a mesma or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> priorida<strong>de</strong>s<br />
que a do conjunto <strong>de</strong> consultados, embora<br />
as mulheres lí<strong>de</strong>res mencionem com menos<br />
freqüência a corrupção (22 por cento).<br />
A agenda futura<br />
A agenda futura que se i<strong>de</strong>ntifica com os<br />
interesses e as preocupações dos consultados<br />
não apresenta variações significativas em relação<br />
à agenda atual.<br />
174 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
AGENDA ATUAL SEGUNDO TEMA 80 TABELA 57<br />
Temas<br />
N° <strong>de</strong> atores<br />
que mencionam<br />
Agenda econômica<br />
A reativação econômica (<strong>de</strong>bate sobre uso <strong>de</strong> recursos produtivos<br />
(gás, petróleo, coca; privatizações, reforma financeira) 80 (53%)<br />
Questão fiscal 24 (16%)<br />
Dívida externa 9 (6%)<br />
Integração regional andina/Mercosul/ALCA 9 (6%)<br />
Tratados <strong>de</strong> livre comércio 8 (5%)<br />
Acordo com o FMI 3 (2%)<br />
Agenda social<br />
Desemprego 52 (34%)<br />
Violência, <strong>de</strong>linqüência, segurança cidadã 51 (34%)<br />
Reforma da educação/Saú<strong>de</strong> 40 (26%)<br />
Pobreza 37 (24%)<br />
Agenda política<br />
A corrupção 55 (36%)<br />
Reforma política/ Papel dos partidos/ Descentralização 30 (20%)<br />
Reforma do Estado (abertura, mo<strong>de</strong>rnização) 23 (15%)<br />
Solução do conflito político institucional/ Reconstrução institucional/<br />
Fragilida<strong>de</strong> institucional 12 (8%)<br />
Lavagem <strong>de</strong> dinheiro e narcotráfico. A questão/O tema da coca 12 (8%)<br />
Reforma do sistema judiciário. Estado <strong>de</strong> direito. Segurança jurídica 11 (7%)<br />
Reforma constitucional 9 (6%)<br />
Relação governo-socieda<strong>de</strong>, conciliação nacional 6 (4%)<br />
Fonte: PRODDAL, Rodada <strong>de</strong> consultas com lí<strong>de</strong>res da América Latina,2002.<br />
No plano econômico, a reativação concentra<br />
42 por cento das respostas e as problemáticas<br />
ligadas à integração regional, 24<br />
por cento, valores semelhantes aos da agenda<br />
atual.<br />
Quanto à agenda social, a dispersão <strong>de</strong><br />
respostas se mantém, mesmo quando se<br />
perfilam com mais priorida<strong>de</strong> as reformas<br />
setoriais <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> e educação, e os temas <strong>de</strong><br />
pobreza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>, mencionados por<br />
aproximadamente um terço dos lí<strong>de</strong>res. O<br />
<strong>de</strong>semprego e a violência per<strong>de</strong>m importância<br />
relativa.<br />
A agenda política se centra em um conjunto<br />
amplo <strong>de</strong> temas. O tema prioritário é<br />
a reforma política, mas só é mencionada por<br />
35 por cento dos consultados. Os temas que<br />
envolvem a <strong>de</strong>fesa das liberda<strong>de</strong>s e os direitos<br />
h<strong>uma</strong>nos são consi<strong>de</strong>rados como temas<br />
<strong>de</strong> agenda por 10 por cento dos consultados.<br />
Chama a atenção que a menção às reformas<br />
– tanto na agenda social como na política –<br />
não faz alusão ao conteúdo das mesmas.<br />
Os acadêmicos coinci<strong>de</strong>m majoritariamente<br />
com os percentuais gerais em relação<br />
aos temas da agenda futura. No entanto,<br />
enquanto 32 por cento dos consultados<br />
consi<strong>de</strong>ram que a reforma educativa e a<br />
saú<strong>de</strong> <strong>de</strong>veriam ingressar na agenda futura,<br />
só 17 por cento dos acadêmicos se expressa<br />
nesse sentido. Estes ten<strong>de</strong>m a priorizar<br />
<strong>uma</strong> estratégia vinculada à estabilida<strong>de</strong><br />
do regime <strong>de</strong>mocrático e suas instituições.<br />
Por essas razões, a reforma política, o questionamento<br />
do papel dos partidos políticos<br />
e a <strong>de</strong>scentralização concentram suas<br />
priorida<strong>de</strong>s, que chegam a 48 por cento das<br />
menções contra 36 por cento que os consul-<br />
80 A tabela referente à agenda atual foi elaborada sobre a base dos 152 entrevistados que efetivamente respon<strong>de</strong>ram<br />
às perguntas sobre o tema.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
175
AGENDA FUTURA SEGUNDO TEMA<br />
Temas<br />
TABELA 58<br />
N° <strong>de</strong> atores<br />
mencionados<br />
Agenda econômica<br />
A reativação econômica, <strong>de</strong>bate sobre o uso <strong>de</strong> recursos produtivos<br />
(gás, petróleo, coca; privatizações, reforma financeira) 66 (42,3%)<br />
Questão fiscal 28 (17,9%)<br />
Integração regional andina/ Mercosul/ ALCA 22 (14,1%)<br />
Dívida externa 13 (8,3%)<br />
Tratados <strong>de</strong> livre comércio 4 (2,5%)<br />
Papel do FMI, Banco Mundial, BID 1 (0,6%)<br />
Agenda social<br />
Reforma da educação/Saú<strong>de</strong> 45 (28.8%)<br />
Pobreza e Desigualda<strong>de</strong> 44 (28,2%)<br />
Desemprego 26 (16,6%)<br />
Violência, <strong>de</strong>linqüência, segurança cidadã 13 (8,3%)<br />
Agenda política<br />
Reforma política/ Papel dos partidos/ Descentralização 55 (35,2%)<br />
Reforma do Estado (abertura, mo<strong>de</strong>rnização, reforma administrativa) 33 (21,1%)<br />
Reforma constitucional 9 (16,0%)<br />
Reforma do sistema judiciário. Estado <strong>de</strong> direito. Segurança jurídica 15 (9,6%)<br />
Segurança <strong>de</strong>mocrática (<strong>de</strong>fesa <strong>de</strong> liberda<strong>de</strong>s <strong>de</strong>mocráticas, direitos<br />
h<strong>uma</strong>nos, paz) 15 (9,6%)<br />
A corrupção 10 (6,4%)<br />
Solução do conflito político institucional/ Reconstrução institucional/<br />
Fragilida<strong>de</strong> institucional 9 (5,8%)<br />
Lavagem <strong>de</strong> dinheiro e narcotráfico. A questão da coca 5 (3,2%)<br />
Relação governo-socieda<strong>de</strong>; conciliação nacional 2 (1,2%)<br />
Total 156<br />
Nota: n=156<br />
Fonte: PRODDAL, Rodada <strong>de</strong> consultas com lí<strong>de</strong>res da América Latina,2002.<br />
tados em geral atribuem a esse ponto. Um<br />
panorama similar é apresentado pela reforma<br />
judicial, pelo funcionamento do estado<br />
<strong>de</strong> direito e pela segurança jurídica, que<br />
concentram 22 por cento das menções dos<br />
atores acadêmicos contra 15 por cento das<br />
menções gerais.<br />
No caso dos presi<strong>de</strong>ntes e ex-presi<strong>de</strong>ntes,<br />
a centralida<strong>de</strong> da questão da reativação econômica<br />
na região se <strong>de</strong>staca tanto na agenda<br />
atual quanto na futura. Outros temas como<br />
a questão do <strong>de</strong>semprego e a violência,<br />
que concentram suas opiniões sobre os temas<br />
da agenda atual, sustenta-se <strong>de</strong> maneira<br />
frágil na agenda futura. A agenda política,<br />
levando em conta o número <strong>de</strong> menções,<br />
aparece como a menos relevante para esses<br />
mandatários.<br />
Os <strong>de</strong>safios<br />
Quais <strong>de</strong>veriam ser os passos para fortalecer<br />
o <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
nos próximos anos Um grupo <strong>de</strong> respostas,<br />
agrupáveis em três blocos, foi mencionado<br />
por dois terços dos consultados. A seguir,<br />
resumimos as opiniões dos consultados<br />
acerca dos passos futuros; isso implica certa<br />
repetição a respeito <strong>de</strong> suas posições sobre a<br />
situação atual.<br />
O primeiro bloco se refere à necessida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> realizar <strong>uma</strong> reforma política que fortaleça<br />
as instituições, inclusive os partidos políticos.<br />
As características das reformas propostas<br />
variam <strong>de</strong> país para país: alguns falam<br />
do sistema eleitoral, outros, do Congresso e<br />
outros, do Estado. Mas, <strong>de</strong> maneira geral, a<br />
idéia é que um melhor projeto dos dispositivos<br />
e incentivos institucionais <strong>de</strong>veria me-<br />
176 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
lhorar o funcionamento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Novamente,<br />
as instituições não são vistas como<br />
um reflexo secundário do essencial, mas sim<br />
como parte essencial da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
O segundo bloco inclui a necessida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> fortalecer a educação em geral e a cultura<br />
<strong>de</strong>mocrática em particular, assim como<br />
a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> enfrentar as profundas<br />
iniqüida<strong>de</strong>s das socieda<strong>de</strong>s latino-americanas.<br />
O primeiro aspecto <strong>de</strong>veria ser encarado<br />
mediante um esforço <strong>de</strong> educação cívica<br />
e, em termos mais gerais, elevando o<br />
nível educativo da população. Os consultados<br />
acreditam que um esforço <strong>de</strong>liberado<br />
para <strong>de</strong>senvolver a educação, em particular<br />
a educação para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, po<strong>de</strong>ria melhorar<br />
ou reverter essa situação. A <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong><br />
educativa, em particular, é <strong>uma</strong> das caras<br />
mais visíveis e importantes do problema.<br />
Para incorporar genuinamente toda a população<br />
à socieda<strong>de</strong> e à <strong>de</strong>fesa da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é<br />
necessário enfrentar essas <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s.<br />
O terceiro bloco ressalta a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
construir novos canais que facilitem a participação<br />
da socieda<strong>de</strong> civil organizada. Para<br />
muitos dos lí<strong>de</strong>res consultados, a apatia<br />
cidadã e a <strong>de</strong>sconfiança em relação às instituições<br />
se revertem melhorando os canais<br />
<strong>de</strong> participação e ampliando seu número e<br />
seus alcances.<br />
Um último aspecto <strong>de</strong> coincidência, mais<br />
pontual do que os anteriores, é a necessida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> intensificar a luta contra a corrupção como<br />
<strong>uma</strong> priorida<strong>de</strong> para fortalecer a or<strong>de</strong>m<br />
<strong>de</strong>mocrática.<br />
Alcances da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América<br />
Latina. Um balanço<br />
Qual é a visão da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> que prevalece<br />
Todos os consultados valorizam altamente<br />
a sustentabilida<strong>de</strong> e expansão da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina. Essa visão<br />
reconhece a vigência das liberda<strong>de</strong>s e a regularida<strong>de</strong><br />
das eleições (em alguns casos, com<br />
alternância no po<strong>de</strong>r entre situação e oposição),<br />
como gran<strong>de</strong>s conquistas dos processos<br />
<strong>de</strong>mocráticos em curso. Reconhece<br />
também as reformas constitucionais que<br />
habilitaram mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> direta<br />
e reformularam e/ou criaram mecanismos<br />
<strong>de</strong> controle.<br />
Entretanto, observa-se <strong>uma</strong> forte tensão<br />
entre os alcances da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e os níveis<br />
<strong>de</strong> pobreza e exclusão social. Entre os consultados<br />
aparece como tema central a capacida<strong>de</strong><br />
– ou incapacida<strong>de</strong> – das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
para atingir níveis aceitáveis <strong>de</strong> integração<br />
social. Instituições políticas que per<strong>de</strong>m credibilida<strong>de</strong><br />
e a persistência das situações <strong>de</strong><br />
pobreza e exclusão social constituem um cenário<br />
complexo que torna as <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
vulneráveis diante da ingerência dos po<strong>de</strong>res<br />
fáticos.<br />
As dificulda<strong>de</strong>s para atingir um nível<br />
aceitável <strong>de</strong> integração social são visíveis no<br />
divórcio entre o diagnóstico feito pelos consultados<br />
sobre o funcionamento e as <strong>de</strong>bilida<strong>de</strong>s<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, por um lado, e por<br />
outro, nos temas atualmente vigentes na<br />
agenda pública. As restrições para formular<br />
<strong>uma</strong> agenda em longo prazo dão conta das<br />
dificulda<strong>de</strong>s para pensar um “projeto <strong>de</strong> país”<br />
– e também <strong>de</strong> região – que possa prever<br />
respostas programáticas para os graves problemas<br />
existentes. As limitações para formular<br />
<strong>uma</strong> agenda socialmente compartilhada<br />
também suscitam o risco <strong>de</strong> que essas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
se tornem “irrelevantes”.<br />
Como se exerce o po<strong>de</strong>r nessas<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
Como vimos, na opinião <strong>de</strong> muitos <strong>de</strong><br />
nossos consultados, o Po<strong>de</strong>r Executivo cost<strong>uma</strong><br />
encontrar limitações ao exercício <strong>de</strong><br />
suas funções que se <strong>de</strong>vem, principalmente,<br />
à ingerência <strong>de</strong> po<strong>de</strong>res fáticos. O Po<strong>de</strong>r<br />
Executivo não conta com partidos políticos<br />
sólidos que o sustentem, nem com<br />
<strong>uma</strong> oposição que contribua para fortalecer<br />
a institucionalida<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática.<br />
No mapa do po<strong>de</strong>r traçado por nossos<br />
consultados, <strong>de</strong>staca-se o gran<strong>de</strong> peso <strong>de</strong><br />
certos po<strong>de</strong>res fáticos, em particular do setor<br />
econômico-financeiro e dos meios <strong>de</strong> comunicação.<br />
Entre nossos consultados existe<br />
a percepção <strong>de</strong> que os condicionamentos<br />
impostos por esses po<strong>de</strong>res conduzem à<br />
existência <strong>de</strong> governos com sérias limitações<br />
para respon<strong>de</strong>r às <strong>de</strong>mandas da cidadania.<br />
Eles também enfatizam que os partidos não<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
177
conseguem formular projetos coletivos que<br />
possam convertê-los em expressão autêntica<br />
da cidadania. Dão ênfase também à influência<br />
<strong>de</strong> po<strong>de</strong>res extraterritoriais que, entre<br />
outros aspectos, se expressa na importância<br />
relativamente baixa que se atribui, na agenda,<br />
à integração entre países da região.<br />
Por outro lado, a institucionalização dos<br />
processos <strong>de</strong> participação social é vista como<br />
débil ou incipiente. Muitos dos consultados<br />
afirmam a importância <strong>de</strong> fortalecer a<br />
participação social; no entanto, quando esta<br />
se materializa, são poucos os que apontam<br />
os benefícios <strong>de</strong>la <strong>de</strong>correntes. Isso parece<br />
estar vinculado à falta <strong>de</strong> canais institucionais<br />
a<strong>de</strong>quados a essa participação.<br />
Síntese da rodada <strong>de</strong> consultas<br />
O resumo que apresentamos permite<br />
enunciar alg<strong>uma</strong>s conclusões sobre as opiniões<br />
predominantes entre os lí<strong>de</strong>res latinoamericanos,<br />
em relação ao <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na região.<br />
1. Uma primeira constatação é que a<br />
América Latina <strong>de</strong>u passos muito importantes<br />
no caminho da <strong>de</strong>mocratização. O aumento<br />
da participação e dos controles institucionais<br />
é reconhecido como um passo<br />
<strong>de</strong>cisivo nesse sentido.<br />
2. Para os lí<strong>de</strong>res consultados, toda a região<br />
é, ao menos formalmente, <strong>de</strong>mocrática.<br />
Esta segunda constatação indica algo<br />
que antes nunca existiu na região e que está<br />
associado a <strong>uma</strong> idéia muito importante:<br />
apesar <strong>de</strong> os lí<strong>de</strong>res latino-americanos opinarem<br />
majoritariamente que os aspectos<br />
institucionais não são suficientes para afirmar<br />
que existe <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, também opinam<br />
que eles são necessários. A dimensão institucional<br />
não é vista como um epifenômeno do<br />
que realmente importa, mas sim como parte<br />
constitutiva da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
3. Alg<strong>uma</strong>s das ameaças tradicionais às<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s latino-americanas <strong>de</strong>sapareceram<br />
ou enfraqueceram significativamente.<br />
O quase <strong>de</strong>saparecimento dos riscos <strong>de</strong> insubordinação<br />
militar é o caso mais notável,<br />
mas também é importante o enfraquecimento<br />
das práticas patrimonialistas e dos personalismos,<br />
mencionados pelos consultados.<br />
4. Embora as ameaças tradicionais tenham<br />
se <strong>de</strong>svanecido ou atenuado, apareceram<br />
outras que continuam colocando em<br />
questão a continuida<strong>de</strong> e a expansão da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
A mais ostensiva <strong>de</strong>ssas ameaças é<br />
o narcotráfico, com suas seqüelas <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r<br />
paralelo, violência, corrupção e <strong>de</strong>struição<br />
da economia formal.<br />
5. Outras ameaças que pesam sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
latino-americana são políticas. As<br />
mais importantes estão interrelacionadas: a<br />
reduzida autonomia <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão dos po<strong>de</strong>res<br />
institucionais e o <strong>de</strong>bilitamento dos partidos<br />
políticos.<br />
6. A crise dos partidos não ocorre <strong>de</strong>vido<br />
a <strong>uma</strong> perda do <strong>de</strong>sejo dos cidadãos <strong>de</strong><br />
participação, ao contrário, ela se dá em um<br />
contexto <strong>de</strong> aumento <strong>de</strong>sse <strong>de</strong>sejo. Os partidos<br />
latino-americanos não enfrentam a versão<br />
regional <strong>de</strong> um problema mais geral (como<br />
a fuga em direção ao privado que ocorre<br />
em outras regiões); enfrentam um problema<br />
novo e, em certa medida, específico, que<br />
combina três elementos distintos: um <strong>de</strong>sejo<br />
<strong>de</strong> maior participação e controle do po<strong>de</strong>r<br />
político, <strong>uma</strong> rejeição bastante generalizada<br />
aos partidos como canais <strong>de</strong> participação, e<br />
um <strong>de</strong>slocamento da participação e do exercício<br />
<strong>de</strong> controles para outros tipos <strong>de</strong> organizações,<br />
em geral pertencentes à socieda<strong>de</strong><br />
civil.<br />
7. Os lí<strong>de</strong>res consultados, apesar <strong>de</strong> verem<br />
esses problemas com clareza, não estão<br />
buscando soluções fora da política, mas sim<br />
<strong>de</strong>ntro <strong>de</strong>la. Estão persuadidos <strong>de</strong> que é importante<br />
ter partidos fortes e governos com<br />
capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão, e se perguntam sobre<br />
os caminhos que permitirão atingir ambas<br />
as metas.<br />
8. Esses resultados gerais não ocultam,<br />
é claro, alg<strong>uma</strong>s diferenças entre os países.<br />
Uma <strong>de</strong>las é a que separa as opiniões das li-<br />
178 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
<strong>de</strong>ranças dos maiores países da região (Brasil<br />
e México), das opiniões dos consultados<br />
em outras <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s jovens. Tanto<br />
no Brasil como no México se encontra mais<br />
otimismo sobre o progresso das condições<br />
necessárias para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e mais satisfação<br />
com as conquistas já obtidas.<br />
9. Do que foi dito po<strong>de</strong>-se concluir que,<br />
segundo nossos consultados, o primeiro <strong>de</strong>safio<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> latino-americana é encontrar<br />
soluções políticas para seus problemas<br />
políticos. Isso pressupõe buscar novas<br />
maneiras <strong>de</strong> canalizar a participação, o controle,<br />
a gestão <strong>de</strong> agendas e a construção <strong>de</strong><br />
acordos políticos, no âmbito <strong>de</strong> <strong>uma</strong> situação<br />
caracterizada por <strong>uma</strong> crescente “globalização<br />
das influências” e por <strong>uma</strong> transnacionalização<br />
dos problemas”. Em parte, esse<br />
é um problema universal, mas adquire matizes<br />
específicos na América Latina.<br />
10. O segundo <strong>de</strong>safio da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> latino-americana<br />
é encontrar soluções para a<br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>, para a pobreza e para a atual<br />
impossibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> acesso <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> parte<br />
da população aos níveis <strong>de</strong> bem-estar necessários<br />
para o pleno exercício dos direitos.<br />
No passado, esses lamentáveis problemas foram<br />
esgrimidos como razão para justificar<br />
a busca <strong>de</strong> caminhos alternativos para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Hoje são tomados como os gran<strong>de</strong>s<br />
<strong>de</strong>safios que a própria <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong>ve<br />
resolver.<br />
Bases empíricas do Relatório<br />
179
180 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
terceira seção<br />
<strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
<strong>de</strong> cidadania<br />
Durante quase duas décadas, mas particularmente nos anos noventa, a agenda<br />
latino-americana incluiu o fortalecimento <strong>de</strong>mocrático, a crise da política, as reformas<br />
do Estado, as reformas estruturais da economia e o impacto da globalização na região.<br />
No entanto, embora tenham sido abordados aspectos substantivos <strong>de</strong>ssas questões,<br />
o <strong>de</strong>bate <strong>de</strong>ixou <strong>de</strong> lado outros que, à luz da análise realizada, <strong>de</strong>vem ser colocados<br />
novamente no centro da discussão.<br />
O Relatório chega à conclusão <strong>de</strong> que o <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> está intimamente<br />
vinculado à busca <strong>de</strong> maior igualda<strong>de</strong> social, à luta eficaz contra a pobreza e<br />
à expansão dos direitos dos cidadãos. Desse modo, é essencial revisar as políticas e as<br />
ações implementadas até o presente, apren<strong>de</strong>r das experiências históricas recentes,<br />
auscultar as realida<strong>de</strong>s sociais emergentes e explorar novos caminhos. Isso possibilitará<br />
abrir o horizonte para fórmulas que permitam recriar o <strong>de</strong>bate sobre a política e<br />
seu lugar na América Latina, por exemplo, por meio dos seguintes temas:<br />
■ A necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>uma</strong> nova “estatalidad”: qual é o papel do Estado no fortalecimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
■ A economia do ponto <strong>de</strong> vista da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: quais são as políticas econômicas<br />
que favorecem o <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
■ As <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s latino-americanas no contexto da globalização atual: que espaços<br />
<strong>de</strong> autonomia requerem para sua expansão<br />
<strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania<br />
181
182 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
■ Quatro temas para <strong>uma</strong> agenda<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>bate<br />
Nesta seção, abordamos as consi<strong>de</strong>rações<br />
necessárias para elaborar <strong>uma</strong> agenda<br />
ampliada para o <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Enten<strong>de</strong>mos por agenda, para os<br />
fins <strong>de</strong>ste Relatório, a apresentação dos temas<br />
que precisam ser <strong>de</strong>batidos. Não é, portanto,<br />
<strong>uma</strong> enumeração <strong>de</strong> ações ou políticas<br />
públicas.<br />
O significado e o alcance <strong>de</strong>ssas contribuições<br />
são o resultado <strong>de</strong> três caminhos<br />
convergentes: <strong>uma</strong> certa concepção da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
o reconhecimento da singularida<strong>de</strong><br />
latino-americana e o conjunto <strong>de</strong> dados<br />
resultantes <strong>de</strong> nossa pesquisa empírica.<br />
Trata-se <strong>de</strong> temas que constituem preocupações<br />
comuns à região latino-americana.<br />
Entretanto, as políticas que possam <strong>de</strong>les <strong>de</strong>rivar<br />
<strong>de</strong>vem expressar o que há <strong>de</strong> original e<br />
singular em cada situação nacional.<br />
Na seção anterior tratamos do estado da<br />
cidadania na região. Em face <strong>de</strong>ssa realida<strong>de</strong>,<br />
foram propostos, muitas vezes, receitas,<br />
princípios técnicos e programas ambiciosos<br />
<strong>de</strong> reforma. Alguns foram implementados<br />
com certo êxito e obtiveram resultados<br />
significativos. No entanto, após <strong>uma</strong> década<br />
<strong>de</strong> reformas, as carências <strong>de</strong> cidadania não<br />
foram resolvidas. É preciso encontrar outros<br />
critérios <strong>de</strong> ação que permitam avançar no<br />
caminho das soluções que nossas socieda<strong>de</strong>s<br />
esperam.<br />
Toda <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> encerra a promessa <strong>de</strong><br />
liberda<strong>de</strong>, justiça e progresso para seus cidadãos<br />
e, como afirma Rosanvallon, “é preciso<br />
consi<strong>de</strong>rar o não cumprido, as fraturas, as<br />
tensões, os limites e as <strong>de</strong>negações que <strong>de</strong>svirtuam<br />
a experiência da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>”. Na<br />
distância existente entre essa promessa e a<br />
realida<strong>de</strong> <strong>de</strong>scrita na segunda seção, surgem<br />
com força os gran<strong>de</strong>s temas que compõem a<br />
agenda do <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Mas, o que restaria da liberda<strong>de</strong> exercida<br />
ao eleger <strong>de</strong>mocraticamente os governos,<br />
se gran<strong>de</strong>s esferas da vida social relacionadas<br />
com os mais básicos direitos cidadãos conti-<br />
nuam fora do alcance da <strong>de</strong>liberação pública<br />
e da vonta<strong>de</strong> cidadã, se os governos não<br />
po<strong>de</strong>m executar as políticas <strong>de</strong>cididas <strong>de</strong>mocraticamente<br />
Ou se, mesmo contando<br />
com governos e Estados eficientes e eficazes,<br />
não é possível exercer o mandato eleitoral<br />
porque outros po<strong>de</strong>res internos ou externos<br />
não permitem<br />
Para enfrentar os déficits <strong>de</strong> nossas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s,<br />
é preciso po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>mocrático, isto<br />
é, capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> agir <strong>de</strong> modo efetivo diante<br />
dos problemas para expandir a cidadania.<br />
Para construir esse po<strong>de</strong>r, a política é indispensável.<br />
Mas é preciso que a política seja<br />
relevante, que proponha caminhos para<br />
abordar os temas-chave da socieda<strong>de</strong>, que os<br />
empreenda com a firmeza da <strong>de</strong>terminação<br />
dos lí<strong>de</strong>res e dos cidadãos e os sustente com<br />
a idoneida<strong>de</strong> dos instrumentos para a ação<br />
coletiva, <strong>de</strong>ntre os quais os partidos políticos<br />
são atores centrais, mas não únicos.<br />
As propostas <strong>de</strong> ação dos partidos políticos<br />
têm, nas instituições representativas e <strong>de</strong><br />
governo do Estado, o principal instrumento<br />
para sua execução. O po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>mocrático<br />
também se constrói a partir da “e statalidad”.<br />
Ao mesmo tempo, a socieda<strong>de</strong> civil,<br />
constante criadora <strong>de</strong> novas organizações <strong>de</strong><br />
voluntários que aumentam a participação, é<br />
outro dos instrumentos substanciais para a<br />
expansão da cidadania e, conseqüentemente,<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Por trás <strong>de</strong> todo direito há um Estado<br />
que o garante. E por trás <strong>de</strong> todo direito<br />
truncado há um Estado que não chega a torná-lo<br />
efetivo. Essa inoperância do Estado está<br />
relacionada com a qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> suas instituições<br />
e, fundamentalmente, com o po<strong>de</strong>r<br />
que flui por meio <strong>de</strong>las e com a conseqüente<br />
capacida<strong>de</strong> – ou incapacida<strong>de</strong> – do Estado<br />
para atingir suas metas.<br />
Dessa forma, os problemas do <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> vistos nas seções anteriores<br />
aparecem em um amálgama em que<br />
os limites do Estado se conjugam com as<br />
Para enfrentar os<br />
déficits <strong>de</strong> nossas<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s, é<br />
preciso po<strong>de</strong>r<br />
<strong>de</strong>mocrático, isto<br />
é, capacida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> agir <strong>de</strong> modo<br />
efetivo diante<br />
dos problemas<br />
para expandir a<br />
cidadania.<br />
<strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania 183
Trata-se, enfim, <strong>de</strong><br />
encher a socieda<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> política e,<br />
conseqüentemente,<br />
a política <strong>de</strong><br />
socieda<strong>de</strong>.<br />
exigências do crescimento econômico e seus<br />
resultados freqüentemente geradores <strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s,<br />
com a impotência da política<br />
para encarnar as aspirações da cidadania em<br />
po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>mocrático, com as tensões <strong>de</strong> socieda<strong>de</strong>s<br />
fraturadas, com a existência <strong>de</strong> po<strong>de</strong>res<br />
fáticos que eva<strong>de</strong>m a legalida<strong>de</strong>, traficam<br />
influências e permeiam as mais altas instâncias<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão, com a evidência <strong>de</strong> <strong>uma</strong> globalização<br />
que limita o espaço próprio da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> ao escamotear do campo da escolha<br />
dos cidadãos, os temas centrais que dizem<br />
respeito ao futuro da socieda<strong>de</strong>.<br />
Em outros termos, a agenda que estamos<br />
tratando está relacionada com os complexos<br />
caminhos que habilitam e obstruem<br />
a expansão da cidadania e a reconstrução<br />
da socieda<strong>de</strong> política no marco das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
latino-americanas. Trata-se <strong>de</strong> abordar<br />
a discussão das condições que permitam<br />
a nossas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s encarar a solução dos<br />
problemas que registramos, por meio da expansão<br />
dos instrumentos que a própria <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
oferece.<br />
Em síntese, os problemas evi<strong>de</strong>nciados,<br />
que constituem os <strong>de</strong>safios para o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina,<br />
manifestam-se nessas quatro esferas centrais<br />
(a política, o Estado, a economia e a globalização),<br />
todas elas atravessadas pela questão<br />
do po<strong>de</strong>r, condição indispensável para que a<br />
vonta<strong>de</strong> da maioria se traduza em políticas<br />
que transformem a realida<strong>de</strong>.<br />
Os critérios aqui apresentados constituem<br />
um ponto <strong>de</strong> partida, procuram <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ar<br />
um <strong>de</strong>bate, são o início e não<br />
o final <strong>de</strong>sse processo. Propomos que essa<br />
agenda inclua: como passar <strong>de</strong> <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
cujo sujeito é o eleitor para outra cujo<br />
sujeito é o cidadão que tem direitos e <strong>de</strong>veres<br />
ampliados, no campo político, civil e social;<br />
como passar <strong>de</strong> um Estado <strong>de</strong> legalida<strong>de</strong><br />
truncada para um Estado com alcance universal<br />
em todo o território, e cujo principal<br />
objetivo seja garantir e promover os direitos<br />
– um Estado <strong>de</strong> e para <strong>uma</strong> Nação <strong>de</strong> cidadãos<br />
–; como passar <strong>de</strong> <strong>uma</strong> economia concebida<br />
segundo os dogmatismos do pensamento<br />
único para outra com diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
opções, e como construir um espaço <strong>de</strong> autonomia<br />
na globalização. Trata-se, enfim, <strong>de</strong><br />
preencher a socieda<strong>de</strong> com política e, conseqüentemente,<br />
a política com socieda<strong>de</strong>.<br />
A política, primeira condição<br />
A política cumpre <strong>uma</strong> função vital no<br />
processo <strong>de</strong>mocrático: concebe as políticas<br />
públicas para atacar os problemas que consi<strong>de</strong>ra<br />
centrais e as concretiza em projetos<br />
que são parte essencial das opções básicas<br />
da socieda<strong>de</strong>; proporciona os dirigentes para<br />
executar esses projetos; agrupa a enorme<br />
quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vocações cidadãs em <strong>de</strong>nominadores<br />
comuns que permitem escolher<br />
entre um número razoável <strong>de</strong> alternativas<br />
eleitorais; e finalmente constrói o po<strong>de</strong>r público<br />
necessário para executar os projetos<br />
que apresenta à socieda<strong>de</strong>.<br />
Em s<strong>uma</strong>, a política encarna as opções,<br />
agrupa as vocaçõ es e cria po<strong>de</strong>r. Estas são três<br />
condições indispensáveis para o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Uma política que<br />
não as cumpra põe em perigo a sustentabilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mocrática. Na América Latina,<br />
há crise da política e crise <strong>de</strong> representação<br />
porque essas três condições são cumpridas<br />
apenas parcialmente e, em certas ocasiões,<br />
nem existem. O <strong>de</strong>bate sobre a política <strong>de</strong>ve<br />
estar centrado em como superar essa situação,<br />
da qual se <strong>de</strong>riva não só <strong>uma</strong> crise<br />
<strong>de</strong> representação, como também um perigo<br />
para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Para isso, é preciso que existam instituições<br />
eficazes, partidos políticos e práticas<br />
transparentes e responsáveis. Essas condições<br />
estão longe <strong>de</strong> ser cumpridas em<br />
muitos países da região, o que <strong>de</strong>bilita perigosamente<br />
a função dos partidos como<br />
principais construtores da política para a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Sobre essa carência, notória e difundida,<br />
centrou-se a maior parte do <strong>de</strong>bate público<br />
sobre a política. No entanto, mesmo<br />
sendo central, esse <strong>de</strong>bate ocupou o lugar<br />
da discussão sobre outras questões que parecem<br />
mais <strong>de</strong>cisivas do que as <strong>de</strong>bilida<strong>de</strong>s<br />
institucionais: a crise <strong>de</strong> conteúdo da política<br />
e a dificulda<strong>de</strong> para construir po<strong>de</strong>r<br />
<strong>de</strong>mocrático.<br />
Mesmo na hipótese <strong>de</strong> contarmos com<br />
excelentes instrumentos institucionais, se a<br />
capacida<strong>de</strong> da política para construir opções<br />
184 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
substantivas e po<strong>de</strong>r não for recuperada, tanto<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral quanto a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
<strong>de</strong> cidadania ten<strong>de</strong>rão a ser não sustentáveis<br />
e irrelevantes para os cidadãos. Uma política<br />
que não nutre a socieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> opções e <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r,<br />
não tem representativida<strong>de</strong>.<br />
Na análise realizada na segunda seção<br />
do Relatório, chama muita atenção o fato<br />
<strong>de</strong> que os diversos instrumentos <strong>de</strong> estudo<br />
empírico tenham levado a coincidir em um<br />
conjunto similar <strong>de</strong> déficit em nossas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s.<br />
Esses déficits <strong>de</strong>vem estar no centro<br />
dos esforços para a renovação dos conteúdos<br />
da política. Nesse sentido, foram apontadas<br />
as seguintes questões:<br />
■ Os problemas <strong>de</strong> expressão da cidadania<br />
política são os menos marcantes. Embora<br />
em alguns países a participação eleitoral<br />
ainda seja baixa, estudam-se mecanismos<br />
para incrementar essa participação, por<br />
meio da melhora nos procedimentos <strong>de</strong> cadastramento<br />
eleitoral, e da incorporação <strong>de</strong><br />
facilida<strong>de</strong>s para o acesso aos lugares <strong>de</strong> votação.<br />
Praticamente não há casos <strong>de</strong> frau<strong>de</strong><br />
flagrante e a intimidação <strong>de</strong> votantes diminuiu<br />
notoriamente. Como em todo país,<br />
sempre há margens para a manipulação <strong>de</strong><br />
certo número <strong>de</strong> eleitores. Em muitos casos,<br />
ainda, as cúpulas partidárias continuam dominando<br />
o esquema <strong>de</strong> indicação <strong>de</strong> candidatos.<br />
A normativa que permite a discriminação<br />
positiva <strong>de</strong> gênero para ter acesso a<br />
cargos representativos melhorou. Pouco a<br />
pouco, aprovam-se normas para controlar o<br />
efeito das doações privadas sobre a ação política,<br />
embora, em muitos casos, esse controle<br />
ainda não tenha relevância prática.<br />
■ Em toda a América Latina a fórmula<br />
política está centrada na figura do presi<strong>de</strong>nte<br />
constitucional e a instituição presi<strong>de</strong>ncial<br />
cost<strong>uma</strong> ter po<strong>de</strong>res formais relativamente<br />
altos. Isso nem sempre se traduz em<br />
eficácia na ação <strong>de</strong> governar, o que cria outra<br />
fonte <strong>de</strong> <strong>de</strong>scontentamento da cidadania<br />
e <strong>de</strong> frustração para os políticos. O Parlamento,<br />
por sua vez, não possui muito prestígio<br />
entre a massa cidadã e é consi<strong>de</strong>rado<br />
como <strong>uma</strong> instância pouco eficaz para representar<br />
e <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r os interesses da maioria.<br />
Embora a área judiciária do Estado goze<br />
<strong>de</strong> in<strong>de</strong>pendência formal, em vários países<br />
subsistem severas limitações para seu pleno<br />
<strong>de</strong>sempenho cotidiano. Os organismos especializados<br />
<strong>de</strong> controle da gestão pública,<br />
tais como as controladorias <strong>de</strong> contas, ou os<br />
organismos <strong>de</strong> promoção ou <strong>de</strong>fesa <strong>de</strong> direitos<br />
cidadãos, como as promotorias especiais<br />
ou as <strong>de</strong>fensorias do povo, às vezes não têm<br />
a in<strong>de</strong>pendência necessária e em outras, não<br />
possuem po<strong>de</strong>r para exercer suas funções.<br />
Como se sabe, as <strong>de</strong>fensorias públicas do<br />
povo não po<strong>de</strong>m ter po<strong>de</strong>r próprio no campo<br />
judiciário ou administrativo, pois invadiriam<br />
a área <strong>de</strong> competência <strong>de</strong> outros po<strong>de</strong>res<br />
estatais. Os mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
direta, embora tenham ampliado o campo<br />
da participação política da cidadania, em<br />
alguns casos, contribuíram para a <strong>de</strong>sestabilização<br />
política, e não fica claro se representaram<br />
um instrumento eficaz para o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
■ Apesar dos avanços fundamentais em<br />
matéria <strong>de</strong> direitos h<strong>uma</strong>nos, cuja violação<br />
sistemática caracterizou a região nos períodos<br />
autoritários e <strong>de</strong> guerra civil, continuam<br />
registrando-se abusos no que se refere<br />
aos direitos à vida e à integrida<strong>de</strong> física, provenientes,<br />
particularmente, da incapacida<strong>de</strong><br />
do Estado <strong>de</strong> controlar a violência e o uso da<br />
força pública. A liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> imprensa melhorou<br />
notoriamente e apesar <strong>de</strong> os primeiros<br />
passos no sentido <strong>de</strong> assegurar o direito<br />
<strong>de</strong> acesso à informação em po<strong>de</strong>r do Estado<br />
estarem sendo dados, esse é um <strong>de</strong>safio no<br />
qual é preciso avançar.<br />
■ Os déficits da cidadania sociais relacionados<br />
com a “ estatalidad” e a economia são<br />
os mais notórios: subsistem altos níveis <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> e pobreza e, em muitos países,<br />
as <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s sociais não diminuíram,<br />
mas, ao contrário, aumentaram. Em um número<br />
consi<strong>de</strong>rável <strong>de</strong> países persistem os níveis<br />
<strong>de</strong> necessida<strong>de</strong>s básicas não satisfeitas.<br />
Essas comprovações coinci<strong>de</strong>m com a<br />
percepção da cidadania que, no estudo <strong>de</strong><br />
opinião, indicou como problemas principais:<br />
<strong>de</strong>semprego, pobreza, <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> e<br />
renda insuficiente, <strong>de</strong>linqüência e drogas,<br />
corrupção, e serviços e infra-estrutura insuficientes.<br />
<strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania 185
A política,<br />
especialmente<br />
a política<br />
<strong>de</strong>mocrática, é o<br />
âmbito on<strong>de</strong> são<br />
concebidos os<br />
diferentes projetos<br />
e alternativas <strong>de</strong><br />
<strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong>.<br />
Coinci<strong>de</strong>ntemente também, os lí<strong>de</strong>res<br />
consultados mencionam como problemas<br />
da agenda: reativação econômica, corrupção,<br />
<strong>de</strong>semprego, violência e <strong>de</strong>linqüência,<br />
saú<strong>de</strong> e educação.<br />
Dar um conteúdo à política significa não<br />
apenas tornar “visíveis” os déficits indicados:<br />
também é indispensável construir um leque<br />
<strong>de</strong> opções substantivas para solucioná-los <strong>de</strong><br />
modo efetivo, e colocar essa opções no eixo<br />
da discussão pública. Resumimos alguns temas<br />
<strong>de</strong>sse <strong>de</strong>bate nos seguintes enunciados:<br />
1. A política, especialmente a política <strong>de</strong>mocrática,<br />
é o âmbito on<strong>de</strong> são concebidos<br />
os diferentes projetos e alternativas <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
socieda<strong>de</strong>. A política é representação, reivindicação<br />
social e busca coletiva <strong>de</strong> sentido.<br />
No entanto, hoje observamos <strong>uma</strong> séria<br />
incapacida<strong>de</strong> da política para articular projetos<br />
coletivos. Ela passou a ser, quase exclusivamente,<br />
<strong>uma</strong> ativida<strong>de</strong> pouco vinculada<br />
às i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>s, aos interesses e às aspirações<br />
da socieda<strong>de</strong>.<br />
2. A crise da política manifesta-se na<br />
ruptura que existe entre os problemas para<br />
os quais a cidadania requer <strong>uma</strong> solução<br />
e a capacida<strong>de</strong> da política para enfrentá-los.<br />
A política ten<strong>de</strong> então a esvaziar-se, sem ser<br />
capaz <strong>de</strong> construir o po<strong>de</strong>r e os instrumentos<br />
para enfrentar os principais <strong>de</strong>safios <strong>de</strong><br />
nossos países. Aí resi<strong>de</strong> boa parte dos problemas<br />
<strong>de</strong> confiança e legitimida<strong>de</strong> que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
a política, suas instituições básicas<br />
e seus lí<strong>de</strong>res enfrentam na América Latina.<br />
3. É preciso então, perguntar-se qual <strong>de</strong>veria<br />
ser o lugar da política em <strong>uma</strong> América<br />
Latina que, ao mesmo tempo em que<br />
conquistou o importante direito <strong>de</strong> gozar <strong>de</strong><br />
eleições livres, limpas e periódicas, está atravessando<br />
o processo <strong>de</strong> globalização, apresenta<br />
graves problemas sociais e tem Estados<br />
<strong>de</strong>ficitários para garantir e expandir a cidadania.<br />
Po<strong>de</strong> a política encarnar as aspirações<br />
cidadãs <strong>de</strong> redução da pobreza e da <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>,<br />
<strong>de</strong> expansão do emprego e da solidarieda<strong>de</strong><br />
Po<strong>de</strong> a política ajudar a construir<br />
um horizonte <strong>de</strong> progresso para nossos países<br />
e nossos cidadãos<br />
4. Muitos dos temas que antes eram próprios<br />
da política e dos Estados nacionais hoje<br />
são tratados e <strong>de</strong>cididos em outras esferas.<br />
A economia, os po<strong>de</strong>res fáticos e alguns<br />
meios <strong>de</strong> comunicação ocuparam boa parte<br />
<strong>de</strong>sse lugar. A política ten<strong>de</strong> a per<strong>de</strong>r conteúdo<br />
por três vias vinculadas entre si:<br />
■ Os Estados nacionais per<strong>de</strong>m soberania<br />
interior. Por um lado, em face dos po<strong>de</strong>res<br />
fáticos e ilegais, e, por outro, como<br />
conseqüência dos déficits que limitam a capacida<strong>de</strong><br />
estatal, por ineficiência e ineficácia<br />
<strong>de</strong> suas organizações burocráticas.<br />
■ Há um <strong>de</strong>sequilíbrio na relação entre<br />
política e mercado, que ten<strong>de</strong> a reduzir o<br />
espaço da primeira e limitá-la a âmbitos <strong>de</strong><br />
menor relevância, excluindo, por exemplo,<br />
importantes problemas econômicos do seu<br />
âmbito <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão e <strong>de</strong>liberação. Esta situação<br />
não é coerente com a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e com<br />
os direitos <strong>de</strong> cidadania <strong>de</strong>la <strong>de</strong>correntes.<br />
■ Uma or<strong>de</strong>m internacional que limita a<br />
capacida<strong>de</strong> dos Estados para atuar com razoáveis<br />
graus <strong>de</strong> autonomia e que, portanto,<br />
restringe as opções nacionais.<br />
Esses problemas <strong>de</strong>bilitam a vocação<br />
transformadora da política, e tornam especialmente<br />
grave a situação na América Latina.<br />
Neste contexto, às privações materiais<br />
atuais se une <strong>uma</strong> certa perda da noção <strong>de</strong><br />
progresso, da própria possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> projetos<br />
coletivos viáveis. A aparente impotência<br />
da política enfraquece seriamente a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
não apenas no que se refere às<br />
suas possibi lida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> expansão, como também<br />
– talvez – à sua sustentabilida<strong>de</strong>.<br />
5. Na América Latina, as instituições <strong>de</strong>mocráticas<br />
básicas, principalmente os partidos<br />
e o Parlamento, gozam <strong>de</strong> um baixo<br />
conceito. Aproximadamente 36% dos latino-americanos<br />
(Latinobarômetro 2002)<br />
concordam em aceitar que, se for necessário,<br />
o presi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong>ixe <strong>de</strong> lado os partidos<br />
políticos e o Parlamento na hora <strong>de</strong> governar.<br />
A maior parte dos latino-americanos<br />
opina que não há <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> sem partidos<br />
e Parlamento, mas seu funcionamento gera<br />
insatisfação.<br />
186 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
6. Os meios <strong>de</strong> comunicação, às vezes,<br />
aparecem ocupando o vazio <strong>de</strong> representação<br />
originado na crise da política e suas instituições;<br />
esse vazio subsistirá enquanto a<br />
política não assumir suas faculda<strong>de</strong>s diante<br />
<strong>de</strong> temas relevantes e enquanto os partidos<br />
se mostrarem incapazes <strong>de</strong> articular<br />
projetos coletivos e <strong>de</strong> alcançar a condução<br />
do Estado.<br />
7. Quando a política se esvazia <strong>de</strong> conteúdos,<br />
quando o Estado ignora as gran<strong>de</strong>s<br />
questões da cidadania, a socieda<strong>de</strong> os recupera.<br />
Nos últimos anos, paralelamente à crise<br />
<strong>de</strong> representação e à <strong>de</strong>serção do Estado,<br />
surgiram, <strong>de</strong> maneira crescente e nas formas<br />
mais diversas, organizações da socieda<strong>de</strong><br />
que ocuparam o espaço das questões não<br />
resolvidas ou ignoradas. Trata-se <strong>de</strong> um sistema<br />
auto-organizado <strong>de</strong> grupos intermediários<br />
relativamente in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes do Estado<br />
e das empresas privadas, que é capaz <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>liberar e levar adiante ações coletivas em<br />
<strong>de</strong>fesa e promoção <strong>de</strong> seus interesses e opiniões,<br />
respeitando a estrutura legal e civil<br />
existente. 81<br />
8. O cidadão e as organizações da socieda<strong>de</strong><br />
civil <strong>de</strong>sempenham um papel essencial<br />
na construção <strong>de</strong>mocrática, no controle<br />
da gestão governamental, na expressão <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mandas e no fortalecimento do pluralismo<br />
que toda <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> promove e precisa.<br />
Eles são atores relevantes da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
<strong>de</strong> cidadania. Seu papel é complementar ao<br />
dos atores políticos tradicionais da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Apesar das dificulda<strong>de</strong>s e dos obstáculos<br />
inerentes à aceitação da socieda<strong>de</strong><br />
civil como âmbito <strong>de</strong> participação e fortalecimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, sua importância<br />
na <strong>de</strong>mocratização da América Latina <strong>de</strong>ve<br />
ser claramente reconhecida. Assim, para viabilizar<br />
a passagem à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania,<br />
a política <strong>de</strong>ve recuperar seus conteúdos<br />
essenciais e também rever cuidadosamente<br />
sua tarefa incompleta, assumindo as <strong>de</strong>manquadro<br />
39<br />
O po<strong>de</strong>r dos meios <strong>de</strong> comunicação<br />
Evi<strong>de</strong>ntemente, em todos os gran<strong>de</strong>s grupos sobre os quais temos<br />
alguns dados, o controle sobre a comunicação encontra-se distribuído<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> maneira tão <strong>de</strong>sigual, que alguns indivíduos possuem <strong>uma</strong> influência<br />
consi<strong>de</strong>ravelmente maior que outros… aqui temos um problema<br />
enorme… o número <strong>de</strong> indivíduos que exerce um controle importante<br />
sobre as alternativas programadas correspon<strong>de</strong> somente, na maioria das<br />
organizações, a <strong>uma</strong> fração muito reduzida do total dos membros. Parece<br />
que esse é o caso, inclusive, nas organizações mais <strong>de</strong>mocráticas, se<br />
o número <strong>de</strong> membros é consi<strong>de</strong>rável.<br />
Robert Dahl, 1987, pp. 97-98.<br />
quadro 40<br />
Socieda<strong>de</strong> civil, política e participação<br />
As pessoas que se organizam por meio <strong>de</strong> entida<strong>de</strong>s in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes<br />
da socieda<strong>de</strong> civil superam a dicotomia entre autonomia pública e<br />
privada. Elas exercem a cidadania civil, não apenas para proteger seus<br />
próprios interesses, mas também para ampliar as possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
proteção dos interesses <strong>de</strong> outros menos afortunados. Essas pessoas<br />
exercem também a cidadania política, não apenas ao votar e <strong>de</strong>cidir<br />
em função <strong>de</strong> seus interesses pessoais, mas também quando ampliam<br />
as possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> acesso e participação dos relegados pelo sistema<br />
político. Por isso, eles encarnam em si mesmos toda a potencialida<strong>de</strong><br />
do ser h<strong>uma</strong>no como agente, porque abarcam tanto a dimensão pessoal<br />
quanto a dimensão social da cidadania.<br />
Na América Latina há um crescimento impressionante das organizações<br />
in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes da socieda<strong>de</strong> civil. Especialmente no âmbito dos direitos<br />
h<strong>uma</strong>nos, a transição <strong>de</strong>mocrática trouxe <strong>uma</strong> nova geração para os<br />
organismos nascidos para lutar contra a repressão ilegal das ditaduras,<br />
e propiciou também o surgimento <strong>de</strong> novas entida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>dicadas<br />
aos direitos da mulher, das crianças, dos povos indígenas, dos afro<strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes<br />
e <strong>de</strong> diversos setores excluídos. […] A socieda<strong>de</strong> enten<strong>de</strong><br />
a política em um sentido mais amplo e mais rico que o da concorrência<br />
eleitoral.<br />
Juan Mén<strong>de</strong>z, texto elaborado para o PRODDAL, 2002.<br />
81 Conseqüentemente, não po<strong>de</strong>m incluir organizações que ten<strong>de</strong>m à ilegalida<strong>de</strong> para atingir seus objetivos, sejam<br />
elas “máfias” ou organizações políticas subversivas, nem atores com fins mais precisos, que são parte da socieda<strong>de</strong>,<br />
como: os sindicatos; os meios <strong>de</strong> comunicação, que são organismos <strong>de</strong> informação e entretenimento; os partidos;<br />
as associações, ou as Igrejas formais, mas sim inclui os organismos colaterais que entram na <strong>de</strong>finição adotada.<br />
<strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania<br />
187
quadro 41<br />
A dimensão associativa da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
A qualida<strong>de</strong> da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> está <strong>de</strong>terminada tanto pelos que estão<br />
envolvidos em práticas associativas quanto pelos que estão excluídos<br />
<strong>de</strong>las. Cost<strong>uma</strong> suce<strong>de</strong>r, em toda a América Latina, que um mundo<br />
hobbesiano <strong>de</strong> segmentos totalmente <strong>de</strong>sorganizados da população<br />
convive com um mundo muito menor inspirado em Tocqueville. Nesse<br />
sentido, apresentam-se dois problemas: um, que tem a ver com a<br />
<strong>de</strong>finição do espaço público mediante a silenciosa ação cotidiana<br />
dos que administram o acesso ao aparato estatal. Daí a necessida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocratizar a cultura <strong>de</strong> elites e seus resultados vinculados à<br />
apropriação do espaço público por parte <strong>de</strong> interesses especiais<br />
organizados. O segundo problema refere-se a <strong>uma</strong> avaliação dos padrões<br />
associativos em si mesmos, tanto em termos <strong>de</strong> sua difusão quanto <strong>de</strong><br />
seu conteúdo e qualida<strong>de</strong>. Supondo que sejam produzidas conseqüências<br />
institucionais positivas do capital social, a dinâmica <strong>de</strong> associação <strong>de</strong>ve<br />
ser consi<strong>de</strong>rada como um ingrediente essencial da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Renato Boschi, texto elaborado para o PRODDAL, 2002.<br />
das <strong>de</strong> <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong> que se organizou para<br />
reivindicar, controlar e propor.<br />
9. Na América Latina, os espaços conquistados<br />
pela socieda<strong>de</strong> civil foram fundamentais<br />
para abrir caminhos políticos<br />
que estavam fechados para a construção <strong>de</strong>mocrática.<br />
Dessa forma, a socieda<strong>de</strong> civil<br />
amplia o espaço público por meio da participação,<br />
da expressão <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>s e<br />
<strong>de</strong>mandas, e da organização cidadã. Atualmente,<br />
há necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> formas alternativas<br />
<strong>de</strong> representação que, sem substituir<br />
as tradicionais (partidos políticos, eleições,<br />
Parlamentos), as complementem e fortaleçam,<br />
respon<strong>de</strong>ndo a novas necessida<strong>de</strong>s, às<br />
particularida<strong>de</strong>s dos setores excluídos ou<br />
sub-representados, à necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> agregação<br />
política gerada pela saudável e crescente<br />
expressão da diversida<strong>de</strong>, e à imprescindível<br />
reapropriação cidadã dos espaços <strong>de</strong> construção<br />
<strong>de</strong> vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática.<br />
10. Esta questão está vinculada a certos<br />
âmbitos <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r on<strong>de</strong> se tomam <strong>de</strong>cisões<br />
que afetam gravemente a socieda<strong>de</strong>, sem que<br />
ela possa participar <strong>de</strong>ssas discussões. Esses<br />
claustros cerrados <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão econômica e<br />
os po<strong>de</strong>res fáticos legais e ilegais, nacionais<br />
ou extraterritoriais, contribuem para esvaziar<br />
a política. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> abre caminho<br />
e convida à participação cidadã; no entanto,<br />
se os âmbitos em que essa participação ocorre<br />
têm pouco peso nas gran<strong>de</strong>s <strong>de</strong>cisões nacionais,<br />
a conseqüência ten<strong>de</strong> a ser a apatia e<br />
a <strong>de</strong>sconfiança generalizadas.<br />
quadro 42<br />
Política, partidos e <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
Ao falar <strong>de</strong> <strong>uma</strong> transformação das relações entre<br />
Estado e socieda<strong>de</strong> estamos nos referindo<br />
a <strong>uma</strong> transformação da política. Se a crise da<br />
política, que influi na qualida<strong>de</strong> e relevância<br />
das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s novas, repercute na socieda<strong>de</strong><br />
inteira, com mais intensida<strong>de</strong> isso acontece<br />
em relação aos atores principalmente políticos,<br />
isto é, aos partidos, que são julgados severamente<br />
pela opinião pública.<br />
No novo cenário gerado pelas transformações<br />
sociais, estruturais e culturais das últimas<br />
décadas que <strong>de</strong>compõem a unida<strong>de</strong> da socieda<strong>de</strong>-polis,<br />
ten<strong>de</strong> a <strong>de</strong>saparecer a centralida<strong>de</strong><br />
exclusiva da política como expressão da ação<br />
coletiva. Mas ela adquire <strong>uma</strong> nova centralida<strong>de</strong>,<br />
mais abstrata, pois é seu papel abordar<br />
e articular as diversas esferas da vida social,<br />
sem <strong>de</strong>struir sua autonomia. Desse modo, há<br />
menos espaço para políticas altamente i<strong>de</strong>ologizadas,<br />
voluntaristas ou globalizantes, mas<br />
há <strong>uma</strong> exigência <strong>de</strong> política por “sentido”, que<br />
as forças do mercado, o universo mediático,<br />
os particularismos ou os meros cálculos <strong>de</strong><br />
interesses individuais ou corporativos, não são<br />
capazes <strong>de</strong> dar.<br />
A gran<strong>de</strong> tarefa do futuro é a reconstrução do<br />
espaço institucional, a polis, em que a política<br />
volte a ter sentido como articulação entre<br />
atores sociais autônomos e fortes e um Estado<br />
que recupere seu papel <strong>de</strong> agente <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
em um mundo que ameaça <strong>de</strong>struir as<br />
comunida<strong>de</strong>s nacionais.<br />
A opção é o fortalecimento, autonomia e complementarida<strong>de</strong><br />
entre o Estado, o regime, os<br />
partidos e os atores sociais autônomos, isto é,<br />
<strong>uma</strong> nova matriz sociopolítica.<br />
Manuel Antonio Garretón, texto elaborado<br />
para o PRODDAL, 2002.<br />
188 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
A necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>uma</strong> nova<br />
“estatalidad”<br />
É indispensável ampliar o <strong>de</strong>bate sobre o<br />
Estado na América Latina. Enquanto a ênfase,<br />
durante os últimos vinte anos, foi dada<br />
a questões como privatizações, tamanho e<br />
gasto do Estado e mo<strong>de</strong>rnização <strong>de</strong> suas burocracias,<br />
dois temas principais foram <strong>de</strong>ixados<br />
<strong>de</strong> lado: o po<strong>de</strong>r real do Estado para<br />
pôr em prática o mandato eleitoral e o po<strong>de</strong>r<br />
para <strong>de</strong>mocratizar, isto é, sua capacida<strong>de</strong><br />
para chegar, <strong>de</strong> maneira universal, a todas<br />
as classes sociais, em todo seu território. Esta<br />
última questão é condição necessária para<br />
que os direitos e as obrigações tenham vigência<br />
real para todos, em todos os lugares.<br />
Se estas condições não forem cumpridas, o<br />
resultado será um déficit <strong>de</strong> “estatalidad” :<br />
sérias falhas na vigência do estado <strong>de</strong> direito<br />
afetarão diretamente a sustentabilida<strong>de</strong> e<br />
o <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Com o pretexto da aplicação <strong>de</strong> reformas<br />
institucionais que possibilitariam um<br />
melhor funcionamento dos mercados, essas<br />
questões foram ignoradas ou ocultas.<br />
Um Estado para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> busca igualar<br />
a aplicação <strong>de</strong> direitos e <strong>de</strong>veres, o qual<br />
– inexoravelmente – modifica as relações <strong>de</strong><br />
po<strong>de</strong>r, particularmente em regiões como a<br />
América Latina, on<strong>de</strong> a gran<strong>de</strong> concentração<br />
<strong>de</strong> rendas leva à concentração <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r.<br />
Este é um <strong>de</strong>bate urgente, porque na<br />
América Latina existe <strong>uma</strong> crise <strong>de</strong> “ estatalidad”<br />
, entendida como a capacida<strong>de</strong> do<br />
Estado para cumprir suas funções e objetivos,<br />
in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente do tamanho e da<br />
forma <strong>de</strong> organização <strong>de</strong> suas burocracias.<br />
Em muitos casos, os Estados latino-americanos<br />
per<strong>de</strong>ram capacida<strong>de</strong> como centro <strong>de</strong><br />
tomada <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões legítimas, eficazes e eficientes,<br />
orientadas para a resolução dos problemas<br />
que as socieda<strong>de</strong>s reconhecem como<br />
relevantes.<br />
É imperioso recuperar essa capacida<strong>de</strong><br />
para promover as <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s. Não existe<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> sem Estado e não existe <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> sem um Estado<br />
para todos, capaz <strong>de</strong> garantir e promover<br />
universalmente a cidadania. Se esta condição<br />
não for cumprida, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong>ixa<br />
<strong>de</strong> ser <strong>uma</strong> forma <strong>de</strong> organização do po<strong>de</strong>r,<br />
capaz <strong>de</strong> resolver as relações <strong>de</strong> cooperação e<br />
conflito. O po<strong>de</strong>r escapa da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e ela<br />
per<strong>de</strong> substância.<br />
Recuperar um Estado para a cidadania é<br />
um <strong>de</strong>safio central do <strong>de</strong>senvolvimento da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina. Com Estados<br />
frágeis e mínimos, po<strong>de</strong>-se aspirar unicamente<br />
a conservar <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s eleitorais.<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania precisa <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
“ estatalidad” que assegure a universalida<strong>de</strong><br />
dos direitos. 82<br />
É necessário um Estado capaz <strong>de</strong> conduzir<br />
o rumo geral da socieda<strong>de</strong>, administrar<br />
os conflitos <strong>de</strong> acordo com princípios<br />
<strong>de</strong>mocráticos, garantir eficazmente o funcionamento<br />
do sistema legal (direitos <strong>de</strong><br />
proprieda<strong>de</strong> e direitos <strong>de</strong> cidadania, simultaneamente),<br />
regular os mercados, estabelecer<br />
equilíbrios macroeconômicos, estabelecer<br />
sistemas <strong>de</strong> proteção social baseados no<br />
princípio <strong>de</strong> universalida<strong>de</strong> da cidadania, e<br />
quadro 43<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> como princípio<br />
<strong>de</strong> organização da socieda<strong>de</strong><br />
A or<strong>de</strong>m social já não po<strong>de</strong> <strong>de</strong>scansar sobre <strong>uma</strong> regulação<br />
exclusivamente estatal da convivência, mas tampouco opera como um<br />
sistema auto-regulado. O problema <strong>de</strong> fundo consiste em re<strong>de</strong>finir a<br />
coor<strong>de</strong>nação social em <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong> em que o Estado e a política<br />
<strong>de</strong>ixaram <strong>de</strong> ser as principais instâncias <strong>de</strong> coor<strong>de</strong>nação.<br />
Nesse contexto, do meu ponto <strong>de</strong> vista, <strong>de</strong>ve estar situada a<br />
discussão sobre a “questão <strong>de</strong>mocrática” na América Latina.<br />
Enquanto a tendência atual aponta para <strong>uma</strong> “<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral”,<br />
cabe perguntar, ao contrário, sobre o papel da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> como um<br />
âmbito privilegiado <strong>de</strong> coor<strong>de</strong>nação social. Em lugar <strong>de</strong> restringi-la<br />
a um princípio <strong>de</strong> legitimação, <strong>de</strong>veria ser explorado seu potencial<br />
como princípio <strong>de</strong> organização. Na verda<strong>de</strong>, as instituições e os<br />
procedimentos <strong>de</strong>mocráticos sempre tiveram a função <strong>de</strong> mediação<br />
<strong>de</strong> interesses e opiniões plurais com o objetivo <strong>de</strong> <strong>de</strong>cidir “aon<strong>de</strong><br />
vamos”.<br />
Norbert Lechner, 1996.<br />
Recuperar um<br />
Estado para<br />
a cidadania<br />
é um <strong>de</strong>safio<br />
central do<br />
<strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na<br />
América Latina.<br />
82 Seja qual for a <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> cidadania que adotemos, o vínculo entre cidadania e <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> comporta sempre<br />
a idéia <strong>de</strong> universalida<strong>de</strong>.<br />
<strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania 189
assumir a preeminência da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> como<br />
princípio <strong>de</strong> organização da socieda<strong>de</strong>.<br />
A “e statalidad” é <strong>uma</strong> condição indispensável<br />
para que <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> aspire<br />
a <strong>de</strong>senvolver-se além do plano eleitoral,<br />
para que seja capaz <strong>de</strong> enfrentar, <strong>de</strong> maneira<br />
efetiva, os <strong>de</strong>safios <strong>de</strong>mocráticos. A partir<br />
<strong>de</strong>ssa proposição, enunciamos os temas que,<br />
em nossa opinião, <strong>de</strong>veriam ser contemplados<br />
em <strong>uma</strong> agenda abrangente sobre a expansão<br />
da “e statalidad” <strong>de</strong>mocrática:<br />
1. A agenda <strong>de</strong> reformas <strong>de</strong>mocráticas<br />
<strong>de</strong>ve consi<strong>de</strong>rar o Estado em suas três dimensões:<br />
como conjunto <strong>de</strong> entes burocráticos,<br />
como sistema legal e como âmbito <strong>de</strong><br />
i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> coletiva. Estas três dimensões variam<br />
historicamente. Na maior parte da<br />
América Latina, elas exibem <strong>de</strong>ficiências.<br />
As burocracias estatais freqüentemente não<br />
têm po<strong>de</strong>r nem eficácia; a efetivida<strong>de</strong> do sistema<br />
legal é social e territorialmente limitada;<br />
e, para muitos <strong>de</strong> seus cidadãos, as pretensões<br />
<strong>de</strong> ser um Estado-para-a-Nação,<br />
<strong>de</strong>dicado seriamente a resolver problemas<br />
<strong>de</strong> interesse geral, não são dignas <strong>de</strong> crédito.<br />
Essas <strong>de</strong>ficiências estão na origem do reduzido<br />
po<strong>de</strong>r dos governos latino-americanos<br />
para <strong>de</strong>mocratizar.<br />
2. Cada país da região tem suas peculiarida<strong>de</strong>s,<br />
mas em quase todos há <strong>uma</strong> ampla<br />
proporção da população que se encontra<br />
abaixo <strong>de</strong> um nível mínimo <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
h<strong>uma</strong>no, em termos não apenas <strong>de</strong><br />
bens materiais e <strong>de</strong> acesso a serviços públicos,<br />
como também <strong>de</strong> direitos básicos. A solução<br />
<strong>de</strong>sses lamentáveis problemas não<br />
exige – obviamente – apenas a<strong>de</strong>quadas políticas<br />
econômicas e sociais, mas também reclama<br />
um Estado abrangente e abarcador,<br />
além <strong>de</strong> razoavelmente eficaz, efetivo e confiável.<br />
Requer também <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong> civil<br />
pujante, que pela via da participação vise a<br />
complementar a implementação <strong>de</strong> políticas<br />
públicas.<br />
3. O problema do Estado latino-americano<br />
não é apenas o tamanho <strong>de</strong> suas burocracias,<br />
mas sua ineficiência e ineficácia,<br />
além da falta <strong>de</strong> efetivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> seu sistema<br />
legal e da pouca credibilida<strong>de</strong> do Estado<br />
e dos governos. Isso contrasta com a forte<br />
reivindicação cidadã <strong>de</strong> presença estatal,<br />
que surge, entre outros elementos, da pesquisa<br />
apresentada na segunda seção <strong>de</strong>ste<br />
Relatório.<br />
4. Além da eliminação <strong>de</strong> burocracias<br />
<strong>de</strong>snecessárias e, em geral, da racionalização<br />
<strong>de</strong> processos administrativos, um problema<br />
que alguns Estados latino-americanos evi<strong>de</strong>nciam<br />
é o alto grau <strong>de</strong> fragmentação e a<br />
freqüente falta <strong>de</strong> diferenciação entre o interesse<br />
público e o privado. Quando isso ocorre,<br />
o Estado se <strong>de</strong>svirtua e se transforma em<br />
<strong>uma</strong> série <strong>de</strong> agências <strong>de</strong>sconexas com funcionários<br />
e políticos ocupados na busca <strong>de</strong><br />
benefícios.<br />
5. Existe um problema particularmente<br />
inquietante: a legalida<strong>de</strong> do Estado não<br />
alcança, ou alcança <strong>de</strong> modo intermitente,<br />
gran<strong>de</strong>s, e em alguns casos crescentes, áreas<br />
da região. Chama a atenção o fato <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
questão <strong>de</strong>ssa natureza ser freqüentemente<br />
ignorada nos programas <strong>de</strong> reforma do Estado.<br />
O problema central do Estado na América<br />
Latina é o <strong>de</strong> um Estado inconcluso, débil,<br />
com pouca capacida<strong>de</strong> para ser efetivo<br />
<strong>de</strong> modo universal.<br />
6. Outra dimensão <strong>de</strong>sse problema é a<br />
presença <strong>de</strong> vários tipos <strong>de</strong> “legalida<strong>de</strong>” real,<br />
<strong>de</strong> caráter informal, patrimonial e <strong>de</strong>lituoso.<br />
Às vezes, essas “legalida<strong>de</strong>s” originamse<br />
em regimes discricionários subnacionais<br />
que coexistem com regimes que, a nível<br />
nacional, são <strong>de</strong>mocráticos. Os atores <strong>de</strong>sempenham-se<br />
sobre a base <strong>de</strong> instituições<br />
informais tais como o personalismo, parentesco,<br />
sinecurismo, caciquismo e similares.<br />
Esses circuitos <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r baseiam-se no <strong>de</strong>saparecimento<br />
da fronteira entre o privado<br />
e o público, e no truncamento da legalida<strong>de</strong><br />
do Estado.<br />
Por outro lado, o clientelismo – <strong>uma</strong> trama<br />
<strong>de</strong> relações por meio do qual um “patrão”<br />
consegue o apoio <strong>de</strong> outros em troca<br />
<strong>de</strong> certos benefícios – gera privilégios e exclusões,<br />
e cost<strong>uma</strong> envolver um tratamento<br />
discricionário <strong>de</strong> recursos públicos.<br />
190 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
7. Uma função fundamental do Estado<br />
é proteger as pessoas da violência privada.<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> pressupõe a existência <strong>de</strong> um<br />
Estado que obteve o controle sobre a violência<br />
em seu território. No entanto, esse não é<br />
o caso em alg<strong>uma</strong>s regiões da América Latina.<br />
Nelas operam grupos terroristas, organizações<br />
<strong>de</strong>lituosas, “paramilitares” e outros<br />
fenômenos similares. Esses grupos têm seus<br />
códigos legais, cobram seus próprios “impostos”<br />
e, alg<strong>uma</strong>s vezes, chegam a ter quase<br />
o monopólio da coerção em “seu” território.<br />
Esse tipo <strong>de</strong> violência privada, não controlada<br />
pelo Estado, é <strong>uma</strong> das principais fontes<br />
<strong>de</strong> violação <strong>de</strong> direitos fundamentais da<br />
população.<br />
8. A proteção dos cidadãos, por parte<br />
do Estado <strong>de</strong>mocrático, está comprometida<br />
também pela violência associada aos <strong>de</strong>litos<br />
contra as pessoas e a proprieda<strong>de</strong>. Seu nível<br />
e persistência colocam em evidência a fragilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> um Estado incapaz <strong>de</strong> cumprir suas<br />
funções <strong>de</strong> modo universal. Essa situação<br />
é ainda mais grave no ambiente social da região,<br />
marcado pela pobreza e pela <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>,<br />
em que os cidadãos mais pobres são os<br />
que mais sofrem a violência.<br />
9. Entre outras conseqüências do que<br />
vem sendo abordado é preciso mencionar<br />
a crítica redução da autonomia do Estado;<br />
<strong>de</strong> fato, existe um conjunto muito restrito <strong>de</strong><br />
políticas que po<strong>de</strong>m ser <strong>de</strong>finidas e implementadas<br />
à margem <strong>de</strong> po<strong>de</strong>res fáticos locais<br />
e internacionais, que influem <strong>de</strong>cisivamente<br />
sobre o aparelho estatal.<br />
10. Uma agenda <strong>de</strong> um Estado para a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong>veria construir-se a partir da<br />
idéia <strong>de</strong> Nação para a qual preten<strong>de</strong>-se que o<br />
Estado atue. Deveria enten<strong>de</strong>r o Estado como<br />
centro <strong>de</strong> tomada <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões legítimas,<br />
eficazes e eficientes, orientadas no sentido<br />
<strong>de</strong> enfrentar os problemas que as socieda<strong>de</strong>s<br />
reconhecem como mais relevantes.<br />
11. Para isso, é preciso <strong>de</strong>bater as questões<br />
que, na América Latina, colocam em<br />
dúvida a eficiência e eficácia <strong>de</strong> suas burocracias,<br />
a efetivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> seu sistema legal e a<br />
quadro 44<br />
Privatização perversa do Estado<br />
Um meticuloso diagnóstico do <strong>de</strong>senvolvimento da região po<strong>de</strong> evi<strong>de</strong>nciar<br />
um crônico déficit <strong>de</strong>mocrático que, freqüentemente, traduziu-se em<br />
fenômenos <strong>de</strong> autoritarismo, clientelismo, amiguismo e, em casos<br />
extremos, <strong>de</strong> nepotismo, que foram a expressão, em termos <strong>de</strong> regime<br />
político, <strong>de</strong> <strong>uma</strong> “captura” das instituições e políticas públicas por<br />
interesses particulares (<strong>de</strong> um partido político ou sindicato ou grupo<br />
econômico ou <strong>uma</strong> família, ou interesses regionais e locais). Essa espécie<br />
<strong>de</strong> “privatização perversa” do Estado, presente na base dos fenômenos<br />
<strong>de</strong> corrupção, conduziu a intervenções estatais <strong>de</strong>sencorajadoras <strong>de</strong> um<br />
funcionamento eficiente do mercado e promotoras da busca <strong>de</strong> rendas e da<br />
especulação.<br />
Enrique V. Iglesias, texto elaborado para o PRODDAL, 2003.<br />
própria credibilida<strong>de</strong> do Estado. São elas:<br />
■ Ineficiência da ação do Estado e a redução<br />
<strong>de</strong> sua autonomia, que <strong>de</strong>riva <strong>de</strong> sua<br />
colonização por interesses particularistas<br />
(corrupção).<br />
■ Falta <strong>de</strong> efetivida<strong>de</strong> do sistema legal<br />
como conseqüência da presença <strong>de</strong> sistemas<br />
legais patrimonialistas.<br />
■ Incapacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> alguns Estados para<br />
abranger o conjunto <strong>de</strong> seu território e todos<br />
os seus habitantes, o que gera <strong>uma</strong> legalida<strong>de</strong><br />
truncada (<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> perante a lei,<br />
vigência assimétrica dos direitos cidadãos).<br />
■ Falta <strong>de</strong> um real monopólio da força<br />
por parte <strong>de</strong> alguns Estados, que se traduziu,<br />
entre outros efeitos, na persistência do nível<br />
<strong>de</strong> violação dos direitos h<strong>uma</strong>nos.<br />
■ Incapacida<strong>de</strong> estatal para assumir a representação<br />
da diversida<strong>de</strong> no interior da<br />
socieda<strong>de</strong>.<br />
■ Perda <strong>de</strong> credibilida<strong>de</strong> que provém da<br />
falta <strong>de</strong> transparência e responsabilida<strong>de</strong><br />
(prestação <strong>de</strong> contas) do Estado perante os<br />
cidadãos.<br />
■ A questão política, mais abrangente, da<br />
capacida<strong>de</strong> estatal <strong>de</strong> construir seu próprio<br />
po<strong>de</strong>r, <strong>de</strong> maneira a exercer soberanamente<br />
o mandato popular.<br />
O Estado é <strong>uma</strong> das caras da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>:<br />
um Estado sem po<strong>de</strong>r é <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
sem po<strong>de</strong>r.<br />
<strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania<br />
191
Uma economia para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Os problemas da cidadania social atentam<br />
diretamente contra a perduração da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
na América Latina. A sustentabilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mocrática <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>, em gran<strong>de</strong><br />
parte, da solução <strong>de</strong>ssa questão. Para isso, o<br />
<strong>de</strong>bate sobre a economia e a diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
formas <strong>de</strong> organização do mercado <strong>de</strong>ve estar<br />
presente na agenda pública e na opção<br />
cidadã, porque é na economia que resi<strong>de</strong> a<br />
solução <strong>de</strong> boa parte dos déficits <strong>de</strong> cidadania<br />
social.<br />
No início <strong>de</strong>ste Relatório, afirmamos que<br />
um aspecto singular e historicamente novo<br />
da América Latina é o <strong>de</strong> ser a primeira<br />
região inteiramente <strong>de</strong>mocrática composta<br />
por socieda<strong>de</strong>s com níveis muito altos <strong>de</strong><br />
pobreza e com a maior <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> social<br />
do mundo. Dessa forma, referimo-nos ao<br />
triângulo: <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral, pobreza e<br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>, para sintetizar a natureza <strong>de</strong>ssas<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s e a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> impulsionar<br />
um novo pensamento que refletisse<br />
essa realida<strong>de</strong>. Não obteremos respostas<br />
úteis para os questionamentos sobre sustentabilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mocrática latino-americana<br />
se forem ignorados os <strong>de</strong>safios peculiares<br />
que nascem da coexistência <strong>de</strong>sses três<br />
fenômenos.<br />
Quando <strong>de</strong>screvemos os resultados das<br />
indagações empíricas na segunda seção do<br />
Relatório, a questão das condições materiais<br />
<strong>de</strong> vida dos latino-americanos aparecia claramente<br />
como o maior déficit da “<strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
<strong>de</strong> cidadania”. Tamanha é a dimensão<br />
dos problemas da cidadania social, que várias<br />
vezes reiteramos <strong>uma</strong> pergunta dramática:<br />
A quanta pobreza resiste a liberda<strong>de</strong><br />
No entanto, o <strong>de</strong>bate sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
omite a questão econômica e é realizado,<br />
freqüentemente, em termos das restrições<br />
institucionais que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> significa para<br />
o crescimento econômico. O <strong>de</strong>bate sobre<br />
a economia, com o pretexto <strong>de</strong> sua complexida<strong>de</strong><br />
técnica, está cada vez mais ausente da<br />
discussão pública e das opções reais dos cidadãos<br />
no momento <strong>de</strong> votar. À luz <strong>de</strong>ssas<br />
realida<strong>de</strong>s, parece útil opormos à conhecida<br />
frase “as questões técnicas não se votam”, a<br />
<strong>de</strong> que “o bem-estar <strong>de</strong> <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong> não<br />
se <strong>de</strong>ci<strong>de</strong> em um laboratório <strong>de</strong> técnicos”,<br />
por mais ilustrados que eles sejam.<br />
Esse não é um problema exclusivo <strong>de</strong><br />
nossa região. Em certos países centrais, a<br />
tendência crescente no sentido do <strong>de</strong>senvolvimento<br />
<strong>de</strong> instituições econômicas com níveis<br />
<strong>de</strong> autonomia quase total, influi diretamente<br />
na sua transparência e, portanto, na<br />
sua responsabilida<strong>de</strong> (accountability) perante<br />
a socieda<strong>de</strong>, o que <strong>de</strong>riva na perda <strong>de</strong> sua<br />
credibilida<strong>de</strong> perante a opinião pública. Decisões<br />
econômicas substantivas distanciadas<br />
da vonta<strong>de</strong> geral pressagiam, na visão <strong>de</strong> Jean-Paul<br />
Fitoussi, um século em que a crise<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> será dominante. 83 Na América<br />
Latina, on<strong>de</strong> os déficits <strong>de</strong> cidadania sociais<br />
atingem a dimensão que indicamos, essa<br />
questão assume <strong>uma</strong> importância e <strong>uma</strong><br />
urgência ainda maiores, a tal ponto que<br />
questões como o nível <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, a sustentabilida<strong>de</strong> do sistequadro<br />
45<br />
A economia e a política<br />
Sem <strong>de</strong>scartar a importância <strong>de</strong> instâncias<br />
técnicas em todo bom or<strong>de</strong>namento do Estado<br />
e sem <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> reconhecer o aspecto científico<br />
da análise econômica, a economia <strong>de</strong>ve estar<br />
sujeita à política e, em particular, a processos<br />
políticos <strong>de</strong>mocráticos, porque essa é a forma<br />
em que a socieda<strong>de</strong> dirime suas controvérsias.[...]<br />
É necessário contar com partidos<br />
políticos sólidos que ofereçam à cidadania<br />
opções alternativas <strong>de</strong> or<strong>de</strong>namento econômico<br />
e social.<br />
José Antonio Ocampo, texto elaborado para o<br />
PRODDAL, 2003.<br />
83 Ver Fitoussi, 2002.<br />
192 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
quadro 46<br />
Uma economia para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
A economia política clássica criou um mundo econômico que não existe,<br />
um Guterwelt, um mundo isolado que é sempre idêntico a si mesmo, e<br />
no qual os conflitos entre forças puramente individuais solucionam-se<br />
<strong>de</strong> acordo com leis econômicas imutáveis. Na realida<strong>de</strong>, é no interior <strong>de</strong><br />
coletivida<strong>de</strong>s bastante diferentes <strong>uma</strong>s das outras que os indivíduos<br />
tratam <strong>de</strong> enriquecer, e tanto a natureza quanto o sucesso <strong>de</strong>sses esforços<br />
variam <strong>de</strong> acordo com a natureza da coletivida<strong>de</strong> em que aparecem [...] isso<br />
torna sempre indispensável a ação do Estado para organizar os mercados,<br />
garantir os contratos, fixar os padrões <strong>de</strong> moeda e crédito, a oferta <strong>de</strong> mão<strong>de</strong>-obra,<br />
as relações trabalhistas, os serviços <strong>de</strong> infra-estrutura, o comércio<br />
exterior, as pautas <strong>de</strong> distribuição da renda, as cargas tributárias, etc.<br />
José Nun, texto elaborado para o PRODDAL, 2002.<br />
ma e a resolução da crise <strong>de</strong> representação<br />
política, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m <strong>de</strong> nossa capacida<strong>de</strong> para<br />
incorporar a economia e suas opções como<br />
um tema da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e da socieda<strong>de</strong>.<br />
A economia é <strong>uma</strong> questão-chave para<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Esta afirmação não implica<br />
confundir duas formas <strong>de</strong> organização social<br />
claramente diferenciadas: a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
que organiza relações <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r; a economia,<br />
que organiza relações <strong>de</strong> produção, reprodução<br />
e troca. No entanto, o resultado da<br />
organização econômica é <strong>uma</strong> questão <strong>de</strong>cisiva<br />
para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, especialmente para<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania, como foi <strong>de</strong>finida<br />
neste Relatório.<br />
A economia é <strong>uma</strong> questão da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
porque <strong>de</strong>la <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da cidadania social e porque é ela que gera e<br />
altera as relações <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r. Portanto, a agenda<br />
da sustentabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática <strong>de</strong>ve incluir<br />
o <strong>de</strong>bate sobre a diversida<strong>de</strong> possível <strong>de</strong><br />
políticas e <strong>de</strong> organização do mercado, e a<br />
questão do papel regulador do Estado.<br />
Na América Latina apren<strong>de</strong>u-se que o<br />
Estado não po<strong>de</strong> tratar a economia com levianda<strong>de</strong>:<br />
o Estado (<strong>de</strong>mocrático) tem um<br />
irrefutável papel orientador sobre a economia,<br />
o que implica <strong>uma</strong> forte capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
fazer política econômica.<br />
Existem “cinco funções que as instituições<br />
públicas <strong>de</strong>vem oferecer para que os<br />
mercados funcionem a<strong>de</strong>quadamente: a<br />
proteção <strong>de</strong> direitos <strong>de</strong> proprieda<strong>de</strong>, a regulação<br />
do mercado, a estabilização macroeconômica,<br />
o seguro social e a administração <strong>de</strong><br />
conflitos <strong>de</strong> interesses” 84 . O Estado e o mercado<br />
são suscetíveis <strong>de</strong> serem combinados<br />
<strong>de</strong> modos diferentes dando origem à diversida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> formas que a economia <strong>de</strong> mercado<br />
po<strong>de</strong> adotar.<br />
Uma concepção dos mercados como um<br />
conjunto <strong>de</strong> instituições “existentes na natureza”<br />
leva à aceitação do funcionamento<br />
da economia <strong>de</strong> modo totalmente autônomo<br />
das <strong>de</strong>cisões tomadas <strong>de</strong>mocraticamente.<br />
Do ponto <strong>de</strong> vista <strong>de</strong>mocrático, porém,<br />
as políticas econômicas são parte dos instrumentos<br />
utilizados pelas socieda<strong>de</strong>s para<br />
atingir a cidadania plena. Por isso, a economia<br />
<strong>de</strong>ve ser um dos temas do <strong>de</strong>bate político,<br />
e não ser excluída sob o pretexto <strong>de</strong> ser<br />
<strong>uma</strong> questão que “contextualiza” a organização<br />
do Estado. Isso se dá porque:<br />
■ A eventual eliminação da <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong><br />
não é um problema econômico marginal,<br />
resultante (ou residual) <strong>de</strong> <strong>uma</strong> boa política<br />
econômica. Pelo contrário, a distribuição<br />
tem conseqüências sobre a eficiência e a própria<br />
sobrevivência do sistema econômico.<br />
■ O Estado tem um papel s<strong>uma</strong>mente<br />
importante na distribuição da renda via fisco,<br />
regulação dos mercados, e subsídios ou<br />
promoção <strong>de</strong> certos setores ou políticas <strong>de</strong><br />
longo prazo. Esse papel requer um Estado<br />
forte e capaz, não raquítico. Fazer o Estado<br />
dar um passo atrás, a palavra <strong>de</strong> or<strong>de</strong>m dominante<br />
nos anos noventa, que significava<br />
que seu papel não passava <strong>de</strong> manter a estabilida<strong>de</strong><br />
econômica e <strong>de</strong> prover alguns bens<br />
públicos, foi um erro grave cujos resultados<br />
são visíveis.<br />
■ Quando esse papel estatal não é assumido,<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> torna-se irrelevante<br />
e não fiável para <strong>de</strong>senvolver a cidadania<br />
social.<br />
■ A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> oferece a garantia mais<br />
efetiva <strong>de</strong> boa governabilida<strong>de</strong>, tanto na es-<br />
A economia é<br />
<strong>uma</strong> questão da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> porque<br />
<strong>de</strong>la <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> o<br />
<strong>de</strong>senvolvimento<br />
da cidadania social<br />
e porque é ela que<br />
gera e altera as<br />
relações <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r.<br />
84 D. Rodrik, 2000.<br />
<strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania<br />
193
1. Em nenhum outro período da história<br />
mundial – com a exceção transitória da<br />
década <strong>de</strong> 30 – os problemas da economia<br />
mundial foram tão graves como hoje: <strong>de</strong>quadro<br />
47<br />
Democracia e Mercado<br />
O avanço da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e o estabelecimento <strong>de</strong> regras macroeconômicos<br />
claras e fortes não <strong>de</strong>vem ser vistos como situações antagônicas, mas sim<br />
complementares.<br />
José Antonio Ocampo, texto elaborado para o PRODDAL, 2003.<br />
fera econômica quanto na política. Os direitos<br />
civis, a liberda<strong>de</strong> política e os procedimentos<br />
participativos são a melhor maneira<br />
<strong>de</strong> assegurar padrões <strong>de</strong> trabalho, sustentabilida<strong>de</strong><br />
do meio ambiente e estabilida<strong>de</strong><br />
econômica. O <strong>de</strong>sempenho das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
em todas essas áreas foi superior ao dos regimes<br />
com participação política restritiva.<br />
■ Quanto mais amplo for o domínio da<br />
disciplina <strong>de</strong> mercado, maior será o espaço<br />
para a governabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática. Em<br />
princípio, e na medida em que a disciplina<br />
<strong>de</strong> mercado estiver baseada no que se <strong>de</strong>nomina<br />
os fundamentais (economic fundamentals)<br />
e em consi<strong>de</strong>rações <strong>de</strong> longo prazo,<br />
não existe razão para haver conflito entre<br />
os mercados e a governabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática.<br />
Mas a realida<strong>de</strong> está longe <strong>de</strong>sse i<strong>de</strong>al. O<br />
tra<strong>de</strong>-off é autêntico, não apenas porque os<br />
mercados se orientam por razões puramente<br />
financeiras, mas porque são excessivamente<br />
voláteis e dominados por consi<strong>de</strong>rações <strong>de</strong><br />
curto prazo. Nessa situação, a reafirmação<br />
da primazia da disciplina <strong>de</strong>mocrática sobre<br />
a disciplina dos mercados <strong>de</strong>veria ser clara e<br />
freqüente.<br />
■ Os mercados necessitam <strong>de</strong> governabilida<strong>de</strong><br />
e regras. A boa governabilida<strong>de</strong> só<br />
é assegurada por via da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. E a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
continua sendo co-extensiva com<br />
o Estado-Nação. 85<br />
Por isso, a agenda da sustentabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática<br />
<strong>de</strong>ve incluir, sob pena <strong>de</strong> per<strong>de</strong>r o<br />
conteúdo, essas questões da economia, suas<br />
opções e sua diversida<strong>de</strong>.<br />
As opções econômicas <strong>de</strong>vem ser parte<br />
do conteúdo renovado da política, elas são<br />
um componente substancial da agenda pública,<br />
assim como o <strong>de</strong>bate sobre a diversida<strong>de</strong><br />
é <strong>uma</strong> necessida<strong>de</strong> imperiosa para reunir<br />
a melhor combinação entre o papel do mercado,<br />
o Estado e o contexto histórico <strong>de</strong> cada<br />
um <strong>de</strong> nossos países. Pelo contrário, o pensamento<br />
único, as receitas universal e atemporal<br />
atentam contra o <strong>de</strong>senvolvimento da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e da própria economia.<br />
A seguir, indicamos os temas que, sob o<br />
ponto <strong>de</strong> vista adotado neste Relatório, <strong>de</strong>vem<br />
fazer parte <strong>de</strong> <strong>uma</strong> agenda centrada em<br />
<strong>uma</strong> visão da economia a partir das necessida<strong>de</strong>s<br />
do <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
da América Latina:<br />
quadro 48<br />
Mo<strong>de</strong>lo único <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
O “fetichismo” das reformas implantadas<br />
pelo “fundamentalismo <strong>de</strong> mercado”, que<br />
teve como <strong>uma</strong> das expressões o “Consenso<br />
<strong>de</strong> Washington”, nega-se a reconhecer a<br />
diversida<strong>de</strong> existente na <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> [...].<br />
Por trás do discurso do chamado “Consenso<br />
<strong>de</strong> Washington”, encontra-se o pressuposto<br />
da existência <strong>de</strong> um mo<strong>de</strong>lo único <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>senvolvimento, aplicável a todos os países<br />
sejam quais forem suas circunstâncias, e<br />
<strong>uma</strong> visão da “economia <strong>de</strong> mercado” como<br />
antagônica ao intervencionismo estatal. Essa<br />
idéia, compartilhada pelos organismos <strong>de</strong><br />
crédito internacionais, é “a-histórica”, nociva e<br />
contrária à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
José Antonio Ocampo, texto elaborado para o<br />
PRODDAL, 2003.<br />
85 Para estas citações ver Rodrik, 2001.<br />
194 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
semprego em massa, aumento das <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s<br />
e da pobreza nos países ricos, extensa<br />
miséria e crises recorrentes em numerosos<br />
países em <strong>de</strong>senvolvimento, exacerbação da<br />
<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> entre países.<br />
2. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não po<strong>de</strong> permanecer<br />
indiferente a essa situação. Não <strong>de</strong>vemos esquecer<br />
que vivemos simultaneamente em<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s e em economias <strong>de</strong> mercado.<br />
Por isso, é inelutável que exista tensão entre<br />
duas dimensões: <strong>de</strong> um lado, o individualismo,<br />
e a <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> que ten<strong>de</strong> a ser resultado<br />
do funcionamento do mercado; do<br />
outro, as igualda<strong>de</strong>s consagradas pela cidadania<br />
<strong>de</strong>mocrática, e a conseqüente necessida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> existência <strong>de</strong> um espaço público<br />
para a tomada <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões, agora não individuais,<br />
mas coletivas. Isso obriga a buscar<br />
<strong>uma</strong> conciliação entre ambas as esferas.<br />
3. A tensão entre ambos os princípios é<br />
dinâmica, porque permite que o sistema se<br />
adapte, em vez <strong>de</strong> romper-se, como acontece,<br />
geralmente, em sistemas regidos por um<br />
único princípio <strong>de</strong> organização (por exemplo,<br />
o sistema soviético). Somente as formas<br />
em movimento conseguem sobreviver; as<br />
outras, sucumbem à esclerose. Ou melhor, o<br />
capitalismo não sobreviveu como forma dominante<br />
<strong>de</strong> organização econômica apesar<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, mas sim graças a ela.<br />
4. Existem duas correntes que se enfrentam<br />
no <strong>de</strong>bate sobre as relações entre<br />
o mercado e a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. De acordo com<br />
a primeira corrente, hoje dominante, a ampliação<br />
da esfera do mercado exigiria a limitação<br />
do campo da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. A segunda<br />
corrente postula que a tensão sempre existente<br />
entre mercado e <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, no que se<br />
<strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania<br />
195
quadro 49<br />
Quatro vantagens econômicas da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Além do mais, quem sustenta a primeira posição cost<strong>uma</strong> consi<strong>de</strong>rar<br />
indiferente para a economia o tipo <strong>de</strong> regime político existente em<br />
cada caso. No entanto, [Dani Rodrik] coloca a hipótese <strong>de</strong> que a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> possui pelo menos quatro vantagens em relação aos<br />
regimes autoritários: a variância do crescimento em longo prazo é<br />
menor; a estabilida<strong>de</strong> macroeconômica <strong>de</strong> curto e médio prazo é<br />
maior; as crises exógenas são mais bem controladas e o nível dos<br />
salários (e <strong>de</strong> sua participação na renda nacional) é mais elevado.<br />
Dani Rodrik, 1997, p. 15.<br />
quadro 50<br />
refere a sua aspiração <strong>de</strong> igualda<strong>de</strong>, <strong>de</strong>veria<br />
ser resolvida mediante a busca <strong>de</strong> sua complementarida<strong>de</strong>.<br />
5. Muitas das teorias hoje prevalecentes<br />
sustentam que as intervenções do Estado<br />
cost<strong>uma</strong>m reduzir a eficácia da economia. O<br />
discurso dos que advogam por mais e mais<br />
mercado é claramente antiestatal: “O Estado<br />
é um mal necessário, é preciso limitar radicalmente<br />
sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> intervenção”.<br />
Este Relatório sustenta, pelo contrário, que<br />
um Estado ajustado à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> – eficaz,<br />
eficiente e fiável – é um componente indispensável<br />
do <strong>de</strong>senvolvimento.<br />
Complementarida<strong>de</strong> entre <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
e mercado<br />
As relações entre <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e mercado são então mais complementares<br />
do que conflitantes. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, ao impedir a exclusão por razões <strong>de</strong><br />
mercado, aumenta a legitimida<strong>de</strong> do sistema econômico, e o mercado, ao<br />
limitar o po<strong>de</strong>r da política sobre a vida das pessoas, possibilita <strong>uma</strong> maior<br />
a<strong>de</strong>são à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Desse modo, cada um dos princípios que regem as<br />
esferas política e econômica encontra sua limitação, e, ao mesmo tempo,<br />
sua legitimação, no outro.<br />
Jean-Paul Fitoussi, texto elaborado para o PRODDAL, 2003.<br />
6. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> pressupõe <strong>uma</strong> hierarquia<br />
entre a política e o sistema econômico<br />
e, por conseguinte, autonomia da socieda<strong>de</strong><br />
na escolha das formas em que organiza<br />
seu mercado.<br />
7. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, em sua busca por limitar<br />
as exclusões provocadas pelo mercado,<br />
aumenta a legitimida<strong>de</strong> do sistema econômico;<br />
o mercado, ao limitar o po<strong>de</strong>r do Estado<br />
e da política sobre a vida dos cidadãos,<br />
possibilita <strong>uma</strong> maior a<strong>de</strong>são à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
A liberda<strong>de</strong> coletiva precisa apoiar-se sobre<br />
as liberda<strong>de</strong>s individuais, e vice-versa. Tanto<br />
<strong>uma</strong> quanto as outras estão em relação iterativa,<br />
mostrando que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é <strong>uma</strong><br />
forma em movimento. “A história prova que<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> realizada nunca é mais que um<br />
momento do movimento <strong>de</strong>mocrático. Um<br />
movimento que não se <strong>de</strong>tém jamais”. 86<br />
8. As socieda<strong>de</strong>s nacionais – inclusive,<br />
claro, as dos países centrais – não têm os<br />
mesmos sistemas <strong>de</strong> eqüida<strong>de</strong> social; existe,<br />
<strong>de</strong> fato, gran<strong>de</strong> diversida<strong>de</strong> nesses sistemas.<br />
Isso não <strong>de</strong>ve nos surpreen<strong>de</strong>r: a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
implica diversida<strong>de</strong>; existem diferentes “varieda<strong>de</strong>s<br />
<strong>de</strong> capitalismo”, diferentes combinações<br />
entre Estado e mercado, e nas formas<br />
<strong>de</strong> acionar do Estado. Esta é <strong>uma</strong> importante<br />
verda<strong>de</strong> que, contra toda evidência, o pensamento<br />
único nega.<br />
9. A abertura das economias favorece os<br />
fatores mais móveis, não apenas o capital financeiro<br />
como também alguns tipos <strong>de</strong> conhecimentos.<br />
O aumento da mobilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>sses fatores tem, como efeito, transferir<br />
aos fatores menos móveis – ou seja, principalmente<br />
ao trabalho – o peso da insegurança<br />
econômica. Isso encerra o risco <strong>de</strong> reduzir<br />
a a<strong>de</strong>são das populações à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e<br />
ao próprio mercado.<br />
10. Diante <strong>de</strong>ssa situação, convém rever<br />
com atenção alguns critérios sobre políticas<br />
econômicas e sua relação com a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
tal como surgem das experiências latino-americanas<br />
das últimas décadas:<br />
■ É necessário um <strong>de</strong>bate que i<strong>de</strong>ntifique<br />
políticas que redistribuam a renda sem<br />
86 Bur<strong>de</strong>au, 1985.<br />
196 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
distorcer severamente o funcionamento dos<br />
mercados, evitando assim o “populismo” ou<br />
o “facilismo” tão presentes na história da<br />
América Latina.<br />
■ A busca <strong>de</strong> maiores níveis <strong>de</strong> bem-estar<br />
para a população exige um crescimento<br />
econômico sustentado que se revela, porém,<br />
insuficiente, quando vem acompanhado <strong>de</strong><br />
conseqüências redistributivas <strong>de</strong>sfavoráveis.<br />
■ A experiência internacional <strong>de</strong>monstra<br />
que as vantagens competitivas baseadas<br />
em baixos salários são frágeis e instáveis. Para<br />
competir no mundo atual, é fundamental<br />
a produção eficiente, a inovação <strong>de</strong> processos,<br />
o projeto e a diferenciação <strong>de</strong> produtos,<br />
e o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> serviços <strong>de</strong> apoio<br />
a<strong>de</strong>quados. Para isso, é essencial contar com<br />
um capital h<strong>uma</strong>no qualificado. Por sua vez,<br />
a política social <strong>de</strong>ve guiar-se por quatro<br />
princípios básicos: universalida<strong>de</strong>, solidarieda<strong>de</strong>,<br />
eficiência e integralida<strong>de</strong>.<br />
■ Os limites à gran<strong>de</strong> proprieda<strong>de</strong> e à<br />
empresa privada estão relacionados com<br />
os níveis <strong>de</strong> <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> que <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong><br />
está disposta a tolerar, e também com as<br />
modalida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> sua tributação. Um segundo<br />
tipo <strong>de</strong> limite está relacionado com o possível<br />
abuso do po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> mercado que os gran<strong>de</strong>s<br />
proprietários e empresas po<strong>de</strong>m chegar<br />
a conseguir. O terceiro refere-se à capacida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>sses proprietários e empresas <strong>de</strong> expandir<br />
sua influência além dos mercados, graças<br />
a sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> lobby e à ampliação <strong>de</strong><br />
seu controle a outras esferas <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r, típicas<br />
da socieda<strong>de</strong> contemporânea – em particular,<br />
os meios <strong>de</strong> comunicação –.<br />
■ Um acordo político dos distintos setores<br />
sociais sobre o que o Estado <strong>de</strong>ve fazer<br />
ajuda a legitimar o nível, a composição e a<br />
tendência do gasto público e da carga tributária<br />
necessária para seu financiamento.<br />
Finalmente, ressaltamos que nossos dados<br />
mostram dois aspectos <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> importância<br />
prática. O primeiro <strong>de</strong>les é que<br />
muitos latino-americanos têm em comum<br />
<strong>uma</strong> visão extremamente crítica sobre o<br />
funcionamento da economia <strong>de</strong> mercado. O<br />
segundo aspecto – <strong>de</strong>certo em contraposição<br />
à frustração – é a majoritária opinião favorá-<br />
A política social<br />
<strong>de</strong>ve guiar-se por<br />
quatro princípios<br />
básicos:<br />
universalida<strong>de</strong>,<br />
solidarieda<strong>de</strong>,<br />
eficiência e<br />
integralida<strong>de</strong>.<br />
<strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania<br />
197
A globalização<br />
trouxe o mundo<br />
exterior para<br />
o interior<br />
<strong>de</strong> nossas<br />
socieda<strong>de</strong>s. O<br />
mundo está em<br />
todos os lugares.<br />
Mas o po<strong>de</strong>r do<br />
mundo, não.<br />
vel à intervenção do Estado na economia.<br />
Po<strong>de</strong>r e políticas <strong>de</strong>mocráticas na<br />
globalização<br />
Uma agenda mais ampla sobre a globalização<br />
<strong>de</strong>ve incluir um <strong>de</strong>bate sobre sua natureza<br />
política e militar, sua restrição à diversida<strong>de</strong>,<br />
e as fortes limitações ao po<strong>de</strong>r estatal.<br />
A globalização coloca cruamente as questões<br />
do po<strong>de</strong>r dos Estados nacionais e do po<strong>de</strong>r<br />
<strong>de</strong>ntro dos Estados. Expressa-se aqui, <strong>de</strong> outra<br />
maneira, novamente o problema vital da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: a existência ou não <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r<br />
para executar a vonta<strong>de</strong> da maioria.<br />
O <strong>de</strong>bate que naturalmente existiu até<br />
agora <strong>de</strong>u ênfase aos assuntos financeiros e<br />
comerciais da globalização e <strong>de</strong>ixou relativamente<br />
à margem, seu dado dominante: os<br />
po<strong>de</strong>res exteriores <strong>de</strong>ixaram <strong>de</strong> ser exteriores,<br />
são tão interiores quanto os locais. Condicionam<br />
ou <strong>de</strong>terminam as <strong>de</strong>cisões do Estado<br />
e seu campo não se limita às finanças<br />
ou ao comércio. Abrangem, cada vez mais,<br />
as questões políticas, <strong>de</strong> segurança e organização<br />
interior, dos sistemas educativos, <strong>de</strong><br />
saú<strong>de</strong> e <strong>de</strong> previdência social. Conseqüentemente,<br />
é preciso ampliar o <strong>de</strong>bate sobre a<br />
globalização em duas áreas para:<br />
dimensionar o impacto real da soberania<br />
interior dos Estados; e conceber as estratégias<br />
possíveis para aumentar as capacida<strong>de</strong>s<br />
nacionais e regionais, para que o po<strong>de</strong>r nacional<br />
não <strong>de</strong>sapareça em nome <strong>de</strong> um incontrolável<br />
po<strong>de</strong>r global.<br />
A globalização trouxe o mundo exterior<br />
para o interior <strong>de</strong> nossas socieda<strong>de</strong>s. O<br />
mundo está em todos os lugares. Mas o po<strong>de</strong>r<br />
do mundo, não. No entanto, e ao mesmo<br />
tempo em que isso acontece, reconhecer<br />
a natureza das relações que regem o mundo<br />
em que vivemos não <strong>de</strong>veria nos fazer abandonar<br />
a idéia <strong>de</strong> <strong>uma</strong> or<strong>de</strong>m mundial regida<br />
por normas. Uma coisa é a realida<strong>de</strong> que nos<br />
ro<strong>de</strong>ia; outra coisa são nossas aspirações,<br />
utopias talvez, mas não fantasias.<br />
A luta por um sistema internacional <strong>de</strong>mocrático<br />
<strong>de</strong> direito não <strong>de</strong>veria <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> ser<br />
<strong>uma</strong> reivindicação permanente <strong>de</strong> <strong>uma</strong> civilização<br />
que apresenta, como <strong>uma</strong> <strong>de</strong> suas<br />
conquistas, a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e a idéia <strong>de</strong> que as<br />
condutas são regidas por normas <strong>de</strong>stinadas<br />
a preservar o direito igualitário <strong>de</strong> todos, indivíduos<br />
e Estados.<br />
Com efeito, no mundo que surgiu após<br />
o término do pós-guerra fria, as relações <strong>de</strong><br />
po<strong>de</strong>r, basicamente militares e econômicas,<br />
regulam o sistema internacional. Nessas<br />
condições, o tema que emerge como priorida<strong>de</strong><br />
é a contradição entre a necessida<strong>de</strong> da<br />
diversida<strong>de</strong> – que reclama um importante<br />
grau <strong>de</strong> autonomia dos países e um sistema<br />
mundial baseado em normas claras e<br />
comuns – e um mundo homogeneizado por<br />
relações <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r que <strong>de</strong>ixam aos atores nacionais<br />
a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> regulação normativa<br />
apenas em questões relativamente marginais.<br />
Nessas condições, que escolha sobre<br />
questões substantivas os cidadãos po<strong>de</strong>m fazer<br />
Qual é a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> que seja cumprido<br />
o que <strong>de</strong>cidiram<br />
Em relação a essa questão central, o Relatório<br />
apresenta, a seguir, um conjunto <strong>de</strong> reflexões<br />
e temas que <strong>de</strong>veriam nutrir o <strong>de</strong>bate<br />
sobre a globalização e o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>:<br />
1. Ao mesmo tempo em que favoreceu o<br />
progresso da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, a globalização impôs<br />
restrições, inclusive aos Estados mais fortes<br />
e <strong>de</strong>senvolvidos. Na América Latina, essas<br />
restrições questionam a credibilida<strong>de</strong> do Estado<br />
como construtor <strong>de</strong> socieda<strong>de</strong> e promotor<br />
<strong>de</strong> cidadania; além disso, trazem consigo<br />
gran<strong>de</strong>s conseqüências sobre o tipo <strong>de</strong> políticas<br />
possíveis para os governos da região. A<br />
ação isolada da maior parte dos Estados nacionais<br />
latino-americanos revela-se insuficiente<br />
para influir, controlar e regular esse<br />
processo, ou beneficiar-se com ele, ou ainda<br />
para opor resistência a suas tendências.<br />
2. Paradoxalmente, a globalização, enquanto<br />
<strong>de</strong>sgastou a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ação dos<br />
governos, particularmente a eficácia <strong>de</strong> seus<br />
instrumentos <strong>de</strong> regulação econômica, <strong>de</strong>ixou<br />
nas mãos dos Estados nacionais a complexa<br />
tarefa <strong>de</strong> manter a coesão social, mas<br />
com menores margens <strong>de</strong> ação. E ainda<br />
mais, como resultado do peso crescente da<br />
condicionalida<strong>de</strong> imposta pelos organismos<br />
internacionais <strong>de</strong> crédito e, em geral, pe-<br />
198 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
la mobilida<strong>de</strong> do capital financeiro, vêm se<br />
reduzindo os espaços para a diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> organização social e econômica<br />
próprios da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
3. Entretanto, há <strong>uma</strong> gran<strong>de</strong> distância<br />
entre essa constatação e a passivida<strong>de</strong> governamental.<br />
O reconhecimento das restrições<br />
existentes não obriga necessariamente<br />
a aceitar o statu quo. A construção <strong>de</strong> um<br />
espaço <strong>de</strong> autonomia dos Estados nacionais<br />
face à globalização constitui um <strong>de</strong>safio próprio<br />
da política <strong>de</strong>mocrática que, como afirmamos<br />
ao longo <strong>de</strong>ste Relatório, <strong>de</strong>ve ser<br />
proposto como meta central para a construção<br />
e expansão <strong>de</strong> diversas cidadanias.<br />
4. É perigoso cair no fatalismo face à<br />
globalização, sustentando que a assimetria<br />
<strong>de</strong> forças é tal que não há lugar para políticas<br />
autônomas. Esse fatalismo, infelizmente<br />
muito difundido, ignora os espaços reais<br />
<strong>de</strong> negociação que existem no mundo, bem<br />
como que esses espaços po<strong>de</strong>m ser ampliados<br />
se houver <strong>uma</strong> vonta<strong>de</strong> política, consistente<br />
e sustentada, <strong>de</strong> construção <strong>de</strong> instâncias<br />
regionais.<br />
5. Os lugares institucionais <strong>de</strong> realização<br />
da cidadania política continuam sendo<br />
essencialmente nacionais. Isso significa<br />
que o reconhecimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> como<br />
valor universal só adquire pleno sentido se<br />
os processos nacionais <strong>de</strong> representação, <strong>de</strong><br />
participação e <strong>de</strong> tomada <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões pu<strong>de</strong>rem<br />
<strong>de</strong>terminar as estratégias <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
econômico e social, e exercer <strong>uma</strong><br />
mediação eficaz com as tensões próprias da<br />
globalização.<br />
6. Por sua vez, sob a perspectiva do <strong>de</strong>senvolvimento<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> também é<br />
preciso <strong>de</strong>bater a construção dos espaços <strong>de</strong><br />
autonomia mencionados no ponto anterior;<br />
eles são necessários para que as <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
latino-americanas possam adquirir sólida<br />
sustentação e expandir-se.<br />
7. A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> se vê severamente prejudicada<br />
pela crescente transferência <strong>de</strong> importantes<br />
<strong>de</strong>cisões para âmbitos que estão<br />
10. Isso não significa necessariamente a<br />
criação <strong>de</strong> novas organizações para assumir<br />
essas tarefas nem, muito menos, que tenham<br />
caráter supranacional. O fundamental é que<br />
os Estados da região <strong>de</strong>cidam abordar o tratamento<br />
<strong>de</strong>sses temas no plano político. Para<br />
isso, as atuais instituições regionais e subquadro<br />
51<br />
Globalização e impotência da política<br />
A globalização não apenas aumenta a participação do mercado no sistema<br />
<strong>de</strong> eqüida<strong>de</strong> e reduz a participação da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, mas o faz em nome da<br />
eficácia do mercado e <strong>de</strong> <strong>uma</strong> or<strong>de</strong>m superior à da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. É o que se<br />
<strong>de</strong>nomina atualmente impotência do político.<br />
Jean-Paul Fitoussi, texto elaborado para o PRODDAL, 2003.<br />
fora do alcance do controle dos cidadãos. Isso<br />
ten<strong>de</strong> a colocar em questão nada menos<br />
que a relevância real da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> para os<br />
cidadãos e, conseqüentemente, a sua lealda<strong>de</strong><br />
em relação a ela. Esta preocupação <strong>de</strong>ve<br />
ser enfatizada porque po<strong>de</strong>mos estar nos dirigindo<br />
a <strong>uma</strong> política que maneja agendas<br />
especificamente limitadas que, mais cedo ou<br />
mais tar<strong>de</strong>, po<strong>de</strong>m nos conduzir a agendas<br />
irrelevantes ou negadoras da diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
caminhos e critérios que a especificida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
cada um <strong>de</strong> nossos países <strong>de</strong>veria refletir.<br />
8. Como conseqüência do que foi colocado<br />
anteriormente, enten<strong>de</strong>-se que, encontrar<br />
a maneira <strong>de</strong> aumentar a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
autonomia na <strong>de</strong>finição e solução dos gran<strong>de</strong>s<br />
problemas que nos afetam, é <strong>uma</strong> questão<br />
que diz respeito não apenas a cada país,<br />
como também à região em seu conjunto.<br />
9. Isso implica <strong>de</strong>bater também políticas<br />
<strong>de</strong> alcance regional que possibilitem um aumento<br />
compartilhado <strong>de</strong>ssa autonomia. Por<br />
isso passa a ter sentido e urgência o renascimento<br />
político dos esforços regionais que,<br />
além <strong>de</strong> serem esforços meramente comerciais,<br />
recriem e aumentem os espaços políticos<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão própria, os nacionais e os dos<br />
cidadãos.<br />
<strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania 199
egionais possibilitam <strong>uma</strong> razoável base <strong>de</strong><br />
ação, com os ajustes <strong>de</strong> agenda e estrutura<br />
que serão indispensáveis.<br />
11. Assim colocada, a tarefa da integração<br />
política é a construção da Nação e a<br />
construção da região, <strong>uma</strong> região <strong>de</strong> nações<br />
em que <strong>uma</strong>s e outras se complementam e<br />
reforçam. Isto é, <strong>uma</strong> associação política <strong>de</strong><br />
Estados soberanos.<br />
12. O or<strong>de</strong>namento internacional <strong>de</strong>veria<br />
respeitar a diversida<strong>de</strong> dos países (entre<br />
eles e em cada um <strong>de</strong>les), <strong>de</strong>ntro dos limites<br />
da inter<strong>de</strong>pendência. No entanto, as práticas<br />
<strong>de</strong> po<strong>de</strong>r imperantes nas relações internacionais<br />
não ten<strong>de</strong>m a levar em conta essa<br />
necessida<strong>de</strong>.<br />
13. A capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> construção autônoma<br />
em um mundo globalizado, com <strong>uma</strong><br />
única potência hegemônica, envolve novos<br />
<strong>de</strong>safios. Não se trata apenas dos problemas<br />
clássicos da relação centro-periferia, o império<br />
e suas zonas <strong>de</strong> controle, mas, além <strong>de</strong><br />
tudo, trata-se <strong>de</strong>ssas relações no contexto<br />
da globalização atual. Nela, os fenômenos<br />
exteriores são tão imediatos e cotidianos<br />
quanto os produzidos no próprio território<br />
das nações.<br />
14. O pós-guerra fria terminou em 11<br />
<strong>de</strong> setembro <strong>de</strong> 2001, com o ataque terrorista<br />
aos Estados Unidos. A questão da segurança<br />
voltou ao centro do cenário, transformando-se<br />
na matéria prioritária da política<br />
mundial. Por sua vez, a partir <strong>de</strong>sse momento,<br />
os acontecimentos marcaram <strong>uma</strong> mudança<br />
substancial nas relações mundiais,<br />
com forte impacto sobre os sistemas multilaterais<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>fesa coletiva.<br />
15. A centralida<strong>de</strong> da questão da segurança<br />
na agenda internacional suscita <strong>uma</strong><br />
tensão com a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e as liberda<strong>de</strong>s. Os<br />
países centrais têm melhores contrapartidas<br />
que os nossos para resolver essa tensão.<br />
16. A experiência que tivemos na América<br />
Latina, nas décadas anteriores ao fim da<br />
guerra fria, é um bom exemplo do que suce<strong>de</strong><br />
quando a questão da segurança torna-se<br />
o prisma central sob o qual a política e as relações<br />
internacionais são observadas.<br />
17. Por sua vez, a região tem <strong>uma</strong> forte<br />
carga <strong>de</strong> antece<strong>de</strong>ntes nessa matéria. Em um<br />
passado recente, foi objeto <strong>de</strong> vários atentados<br />
terroristas graves. Além disso, durante<br />
várias décadas alguns países latino-americanos<br />
sofreram gran<strong>de</strong> violência, tanto <strong>de</strong><br />
grupos insurgentes quanto do próprio Estado.<br />
Portanto, o perigo da violência terrorista<br />
não é <strong>uma</strong> hipótese abstrata para a região.<br />
18. Recentemente, as relações <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r<br />
militar marcaram <strong>de</strong> maneira <strong>de</strong>cisiva os<br />
vínculos mundiais. A idéia <strong>de</strong> que a globalização<br />
havia transferido o centro das relações<br />
internacionais das questões militares<br />
e <strong>de</strong> segurança para as financeiras, <strong>de</strong> que<br />
a economia substituía a política, dissipouse.<br />
A preeminência da questão do terrorismo<br />
traz para a análise, por um lado, o impacto<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> potencial agressão terrorista<br />
sobre as capacida<strong>de</strong>s estatais e, por outro,<br />
as conseqüências <strong>de</strong> respostas inapropriadas<br />
sobre essas capacida<strong>de</strong>s e sobre a própria <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
A resposta apropriada refere-se à<br />
capacida<strong>de</strong> estatal <strong>de</strong> respon<strong>de</strong>r eficazmente<br />
ao perigo <strong>de</strong> agressão e, ao mesmo tempo,<br />
evitar que essa resposta enfraqueça sua<br />
capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocratizar ou diminua a<br />
qualida<strong>de</strong> da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
19. É fundamental para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
que os problemas <strong>de</strong> segurança não figurem<br />
como parte <strong>de</strong> <strong>uma</strong> agenda imposta, mas<br />
que sejam assumidos com soluções próprias.<br />
Nesse sentido, a questão da segurança<br />
adquire centralida<strong>de</strong>. Uma posição passiva<br />
nessa matéria po<strong>de</strong> nos tornar altamente<br />
vulneráveis a estratégias exteriores, <strong>de</strong>finidas<br />
sem levar em consi<strong>de</strong>ração importantes interesses,<br />
próprios <strong>de</strong> nossa região.<br />
20. Os países da região <strong>de</strong>vem formular,<br />
à luz do que ocorreu em 11 <strong>de</strong> setembro e<br />
suas conseqüências, bem como da singularida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> suas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s, critérios próprios<br />
para inspirar suas opções <strong>de</strong> resposta ao perigo<br />
instaurado pelo terrorismo.<br />
200 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Em síntese<br />
O Relatório propôs que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
entendida <strong>de</strong> maneira minimalista, como a<br />
possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> exercer o direito <strong>de</strong> voto periodicamente<br />
para eleger governantes, <strong>de</strong>ntro<br />
<strong>de</strong> um marco <strong>de</strong> plena vigência do estado<br />
<strong>de</strong> direito, não apenas é importante como é<br />
<strong>uma</strong> condição sine qua non para po<strong>de</strong>r qualificar<br />
um regime <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrático. O Relatório,<br />
porém, vai mais além. Consi<strong>de</strong>ra que<br />
se <strong>de</strong>ve ampliar o horizonte da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
não apenas aperfeiçoando os mecanismos<br />
institucionais da política e a implementação<br />
efetiva dos direitos civis para todos os cidadãos,<br />
como também aten<strong>de</strong>ndo à expansão<br />
efetiva da cidadania social.<br />
Trata-se <strong>de</strong> discutir como se po<strong>de</strong> avançar<br />
no caminho <strong>de</strong> <strong>uma</strong> cidadania integral,<br />
colocando a política no centro, <strong>de</strong> maneira<br />
que o cidadão, e mais precisamente a comunida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> cidadãos, possa participar em <strong>de</strong>cisões<br />
substanciais. A globalização é um dado,<br />
mas não se trata pura e exclusivamente<br />
<strong>de</strong> admitir que tudo o que suce<strong>de</strong> como<br />
conseqüência da transformação tecnológica<br />
e da expansão dos mercados <strong>de</strong>ve ser aceito<br />
sem reflexão e sem ação. É preciso enten<strong>de</strong>r<br />
a transformação constante e rápida que<br />
ocorre no mundo <strong>de</strong> hoje, é preciso conviver<br />
com incertezas, mas também é preciso<br />
atuar para modificar essas macrotendências<br />
na conjuntura <strong>de</strong> cada país. Trata-se <strong>de</strong> implementá-la<br />
regional e localmente com <strong>uma</strong><br />
atitu<strong>de</strong> pró-ativa e não meramente passiva,<br />
para que possa arraigar-se. Desse modo, a<br />
economia não é tampouco um dado a ser<br />
assumido passivamente; não existe <strong>uma</strong> maneira<br />
única <strong>de</strong> pensar e <strong>de</strong> fazer funcionar o<br />
mercado. Já se sabe que há diversas formas<br />
históricas bem-sucedidas que conviveram<br />
em marcos culturais diferentes.<br />
Essa comunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> cidadãos <strong>de</strong>ve, então,<br />
promover <strong>uma</strong> nova legitimida<strong>de</strong> para<br />
o Estado, esse organismo que <strong>de</strong>ve não apenas<br />
proporcionar a máquina burocrática administrativa<br />
<strong>de</strong> cada país, mas também respeitar<br />
e ampliar as instituições políticas e o<br />
estado <strong>de</strong> direito, e lançar as bases para assegurar<br />
a eqüida<strong>de</strong>, para po<strong>de</strong>r construir políticas<br />
sociais que visem à ampliação da cidadania<br />
social. Criar <strong>uma</strong> visão integral da<br />
cidadania e articular o funcionamento da<br />
economia com as <strong>de</strong>cisões políticas da comunida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> cidadãos são alguns dos temas<br />
que emergem <strong>de</strong>ste Relatório para suscitar<br />
<strong>uma</strong> nova forma <strong>de</strong> <strong>de</strong>bater a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na<br />
região latino-americana.<br />
<strong>Rumo</strong> a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadania 201
202 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Reflexões finais<br />
O eterno <strong>de</strong>safio<br />
Em um <strong>de</strong> seus célebres ensaios, Isaiah Berlin nos recorda que “há mais <strong>de</strong> cem<br />
anos, o poeta alemão Heine advertiu os franceses <strong>de</strong> que não <strong>de</strong>viam subestimar<br />
o po<strong>de</strong>r das idéias: os conceitos filosóficos alimentados no silêncio do escritório<br />
<strong>de</strong> um acadêmico podiam <strong>de</strong>struir toda <strong>uma</strong> civilização”.<br />
A América Latina foi filha <strong>de</strong> <strong>uma</strong> idéia, e essa idéia continua sendo o cerne<br />
<strong>de</strong> sua visão <strong>de</strong> futuro: construir <strong>uma</strong> socieda<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática. Seu processo <strong>de</strong><br />
in<strong>de</strong>pendência esteve indissoluvelmente ligado à concepção republicana e, para<br />
ela, os libertadores canalizaram seu esforço. O <strong>de</strong>vir histórico mostrou, no entanto,<br />
um estranho périplo, repleto <strong>de</strong> contradições, interrupções e retomadas,<br />
entar<strong>de</strong>ceres e alvoradas. Alg<strong>uma</strong>s vezes foram os fatos, sociais, econômicos,<br />
militares, que ultrapassaram as fronteiras dos princípios, mas as idéias também<br />
caíram em suas próprias armadilhas, pois todas as vezes que liberda<strong>de</strong> e justiça se<br />
conjugaram separadamente, ambas se viram em situação <strong>de</strong> risco. Foi assim que<br />
ocorreu, infelizmente, quando se sonhou em superar o núcleo central da idéia<br />
<strong>de</strong>mocrática, que não é outro senão o <strong>de</strong> assegurar as liberda<strong>de</strong>s e organizar um<br />
governo representativo do povo, capaz, portanto, <strong>de</strong> fazer com que essa liberda<strong>de</strong><br />
se concilie com o máximo possível <strong>de</strong> igualda<strong>de</strong> entre as pessoas.<br />
Quanto <strong>de</strong> construção <strong>de</strong>sse i<strong>de</strong>al foi, <strong>de</strong> fato alcançado Que <strong>de</strong>ve ser feito<br />
para assegurar o que foi alcançado e seguir avançando Desafiados por essas<br />
básicas interrogações é que este trabalho foi lançado há dois anos, consultando,<br />
perguntando, removendo, <strong>de</strong>spertando interesses, procurando encontrar alguns<br />
métodos objetivos para medir realida<strong>de</strong>s sempre mais complexas do que qualquer<br />
estatística. Idéia e realida<strong>de</strong> vivem <strong>uma</strong> constante tensão. Se nos mantemos<br />
exclusivamente no território da idéia, po<strong>de</strong>mos traí-la na ação. Se a per<strong>de</strong>mos <strong>de</strong><br />
vista em <strong>uma</strong> luta acirrada contra as realida<strong>de</strong>s injustas, arriscamos cair em um<br />
perigoso e <strong>de</strong>sconexo empirismo. É preciso, então, <strong>de</strong>finir conceitos e contrastálos,<br />
em passos aproximativos, com a realida<strong>de</strong>.<br />
Devemos recordar que se hoje isso é possível para o PNUD é porque a região<br />
atingiu um nível <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> como nunca antes. Nos<br />
anos setenta, qualquer caminho para um trabalho <strong>de</strong>ssa natureza estava interditado,<br />
porque o mapa latino-americano era sombrio, com tantas ditaduras que<br />
não existiam condições para que a organização internacional tentasse <strong>uma</strong> profunda<br />
reflexão sobre a questão. A partir <strong>de</strong>ssa premissa cheia <strong>de</strong> esperança abriuse,<br />
então, o trabalho que contou com a colaboração, sem exceção, <strong>de</strong> governos e<br />
partidos, atores políticos e civis, protagonistas econômicos e acadêmicos. Reuni-<br />
Reflexões finais 203
ões, seminários, entrevistas, relatórios, estudos, investigações estatísticas foram<br />
povoando um gran<strong>de</strong> conjunto que, além <strong>de</strong> seu valor intrínseco, gerou em toda<br />
a região um interesse no tema, <strong>uma</strong> convicção <strong>de</strong> que é necessário – e possível<br />
– atuar sobre nossa situação.<br />
O propósito inicial <strong>de</strong> gerar um clima estimulante à reflexão foi ganhando<br />
corpo. E hoje se chega a este Relatório sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> com a convicção <strong>de</strong><br />
que, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente <strong>de</strong> suas inevitáveis limitações e necessárias imperfeições,<br />
coloca-se à disposição <strong>de</strong> toda a socieda<strong>de</strong> latino-americana um instrumento<br />
<strong>de</strong> trabalho. Não está aqui a tomografia computadorizada <strong>de</strong> nenhum Estado<br />
concreto. Tampouco a análise específica <strong>de</strong> alg<strong>uma</strong> patologia <strong>de</strong>terminada. O que<br />
realmente se <strong>de</strong>fine é <strong>uma</strong> idéia geral da saú<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática, <strong>uma</strong> aproximação<br />
sobre realida<strong>de</strong>s que merecem preocupação e a configuração <strong>de</strong> alguns instrumentos<br />
para que a constante revisão permita a todos nós seguir construindo.<br />
Como nos disse Pierre Rosanvallon, “a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> formula <strong>uma</strong> pergunta<br />
que permanece continuamente aberta: é como se nenh<strong>uma</strong> resposta a<strong>de</strong>quada<br />
pu<strong>de</strong>sse lhe ser dada”. Esta incômoda sensação <strong>de</strong> que nunca nada está terminado<br />
constitui a própria idéia da liberda<strong>de</strong>, e com ela temos <strong>de</strong> conviver. Todas as<br />
vezes que se quis tentar, em nome da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, algum sistema com todas as<br />
respostas, construiu-se um totalitarismo. O século passado, talvez tenha sido o<br />
que gerou maiores tragédias nessa busca. Her<strong>de</strong>iros <strong>de</strong>ssa experiência, hoje, assumimos<br />
que a realida<strong>de</strong> nunca nos <strong>de</strong>ixará conformados porque, comparada com<br />
a i<strong>de</strong>alização pura, sempre será insatisfatória; mas também sabemos que sendo<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> “antes <strong>de</strong> tudo um i<strong>de</strong>al”, como nos diz Giovanni Sartori, <strong>de</strong>vemos<br />
procurar seu constante aperfeiçoamento, sempre e a toda hora, sem pressa, mas<br />
sem pausa.<br />
A pobreza, as <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>s sociais, o choque étnico, o divórcio entre as expectativas<br />
e as realida<strong>de</strong>s, em um momento histórico em que <strong>uma</strong> revolução<br />
científica transforma a nossa vida todos os dias, introduzem notas <strong>de</strong> instabilida<strong>de</strong>.<br />
Daí a necessida<strong>de</strong> constante <strong>de</strong> prevenir. Se este Relatório contribui para<br />
instalá-la na preocupação afirmativa <strong>de</strong> todos os seus atores, terá conseguido seu<br />
propósito fundamental, que não é julgar ninguém, mas sim estimular a todos. Foi<br />
o que o PNUD fez com o Índice <strong>de</strong> Desenvolvimento H<strong>uma</strong>no e assim conseguiu<br />
que esse modo <strong>de</strong> avaliar, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte do parcial e insuficiente PIB, fosse assumido<br />
na socieda<strong>de</strong>. Na mesma linha inovadora, hoje se preten<strong>de</strong> que a melhora<br />
<strong>de</strong>mocrática não seja simplesmente <strong>uma</strong> expressão retórica, sempre questionável,<br />
mas sim <strong>uma</strong> realida<strong>de</strong> sobre a qual se atua, registrando avanços e retrocessos<br />
que possam ser vistos com objetivida<strong>de</strong>. Esses avanços, essas buscas respon<strong>de</strong>m<br />
à idéia <strong>de</strong> que <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e <strong>de</strong>senvolvimento h<strong>uma</strong>no são apenas duas caras da<br />
mesma moeda.<br />
Subestimar o progresso atingido, colecionando déficits e carências, é <strong>de</strong>salentar<br />
a socieda<strong>de</strong> em seu necessário e constante aperfeiçoamento. Deleitar-se nele,<br />
caindo na ilusão <strong>de</strong> <strong>uma</strong> meta alcançada, seria colocar tudo em risco. Por isso<br />
204 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
aqui, simplesmente, abre-se <strong>uma</strong> nova etapa no caminho.<br />
O esforço das últimas duas décadas foi formidável e suas conquistas <strong>de</strong>vem ser<br />
apresentadas com toda plenitu<strong>de</strong>. Esse esforço <strong>de</strong>ve prosseguir e até po<strong>de</strong>-se abrir<br />
aqui, a partir <strong>de</strong>sses instrumentos elaborados, um procedimento permanente <strong>de</strong><br />
observação e análise e, ao mesmo tempo, <strong>de</strong> difusão <strong>de</strong> experiências e prevenção<br />
<strong>de</strong> riscos. A consciência alerta é o único estado <strong>de</strong> ânimo para que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
continue sua vida, adaptando-se aos tempos. Ela permanece, ainda, como a mais<br />
revolucionária das idéias e, por ser sempre inacabada, é a mais <strong>de</strong>safiante. Não<br />
haverá respostas <strong>de</strong>finitivas para suas interrogações, mas sempre haverá, como<br />
no <strong>de</strong>stino do homem, oportunida<strong>de</strong>s para fazer o bem aos semelhantes.<br />
Julio María Sanguinetti<br />
Ex-Presi<strong>de</strong>nte da República Oriental do Uruguai<br />
Presi<strong>de</strong>nte da Fundação Círculo <strong>de</strong> Montevidéu<br />
Reflexões finais 205
206 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
■ Agra<strong>de</strong>cimentos<br />
Este Relatório não po<strong>de</strong>ria ter sido elaborado<br />
sem a generosa colaboração <strong>de</strong> muitas<br />
pessoas e organizações às quais expressamos<br />
nosso agra<strong>de</strong>cimento.<br />
Gostaríamos <strong>de</strong> expressar um especial<br />
reconhecimento à União Européia, particularmente<br />
a Chris Patten, Comissário <strong>de</strong><br />
Relações Exteriores da Comissão Européia,<br />
Eneko Landaburu, Diretor Geral, Fernando<br />
Valenzuela, Diretor Geral Adjunto e Tomas<br />
Dupla <strong>de</strong>l Moral, Diretor da América Latina,<br />
Direção <strong>de</strong> Relações Exteriores, e Fernando<br />
Car<strong>de</strong>sa, Diretor da América Latina <strong>de</strong> EU-<br />
ROPEAID, bem como a todos os funcionários<br />
da Direção Geral <strong>de</strong> Relações Exteriores<br />
e do Escritório <strong>de</strong> Cooperação EuropeAid<br />
que colaboraram neste projeto, pelo respaldo<br />
e interesse <strong>de</strong>monstrado para a publicação<br />
e difusão <strong>de</strong>ste Relatório.<br />
Instituições que colaboraram na<br />
elaboração e discussão do Relatório<br />
Comissão Econômica para a América Latina<br />
e o Caribe (CEPAL), Banco Interamericano<br />
<strong>de</strong> Desenvolvimento (BID), Organização<br />
dos Estados Americanos (OEA), Clube<br />
<strong>de</strong> Madri, Círculo <strong>de</strong> Montevidéu, Corporação<br />
Latinobarômetro, Fundação Chile XXI,<br />
Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Bolonha, Centro <strong>de</strong> Estudos<br />
Sociais e Ambientais, Instituto para a<br />
Democracia e Assistência Eleitoral (IDEA) e<br />
Associação Civil Transparência (Peru).<br />
Autores <strong>de</strong> artigos sobre temas da agenda<br />
Manuel Alcántara, Raúl Alconada Sempé,<br />
Willem Assies, Natalio Botana, Fernando<br />
Cal<strong>de</strong>rón, Dante Caputo, Fernando Henrique<br />
Cardoso, Jean-Paul Fitoussi, Eduardo<br />
Gamarra, Marco Aurélio Garcia, Manuel<br />
Antonio Garretón, César Gaviria, Julio Godio,<br />
Felipe González, Rosario Green, Cândido<br />
Grzybowski, Osvaldo Hurtado, Enrique<br />
Iglesias, José Antonio Ocampo, Celi Pinto,<br />
Lour<strong>de</strong>s Sola, Augusto Ramírez Ocampo,<br />
Rubens Ricupero, Joseph Stiglitz, Car<strong>de</strong>nal<br />
Julio Terrazas e Francisco Thoumi.<br />
Participantes da Rodada <strong>de</strong> Consultas<br />
Argentina: Raúl Alfonsín, Jaime Campos,<br />
Elisa Carrió, Jorge Casaretto, Víctor<br />
De Genaro, Fernando <strong>de</strong> la Rúa, José Manuel<br />
De la Sota, Jorge Elías, Rosendo Fraga,<br />
Aníbal Ibarra, Ricardo López Murphy, Juan<br />
Carlos Maqueda, Joaquín Morales Solá,<br />
Hugo Moyano, Adolfo Rodríguez Saá, Rodolfo<br />
Terragno, Horacio Verbitsky e Oscar<br />
Vignart.<br />
Bolívia: Esther Balboa, Carlos Calvo,<br />
Carlos Mesa, Gustavo Fernán<strong>de</strong>z Saavedra,<br />
Martha García, Fernando Mayorga, Jaime<br />
Paz Zamora, Jorge Quiroga Ramírez, Edgar<br />
Ramírez, e Gonzalo Sánchez <strong>de</strong> Losada.<br />
Brasil: Luiz Gonzaga Belluzo, Frei Betto,<br />
Luiz Carlos Bresser-Pereira, José Márcio Camargo,<br />
Fernando Henrique Cardoso, Suely<br />
Carneiro, Marcos Coimbra, Fábio K. Comparato,<br />
Paulo Cunha, Antônio Delfim Neto,<br />
Joaquim Falcão, José Eduardo Faria, Ruben<br />
César Fernan<strong>de</strong>s, Argelina Figueiredo, O<strong>de</strong>d<br />
Grajew, Cândido Grzybowski, Luiz Suplicy<br />
Hafers, Helio Jaguaribe, Miriam Leitão, Maria<br />
Osmarina Marina Silva Vaz <strong>de</strong> Lima, Ives<br />
Martins, Filmar Mauro, Henrique Meirelles,<br />
Jarbas Passarinho, João C. Pena, Celso Pinto,<br />
Márcio Pochmann, Clóvis Rossi, Pedro<br />
Simon, Luiz E. Soares, João Paulo dos Reis<br />
Velloso, Vicentinho, Arthur Virgílio e Ségio<br />
Werlang.<br />
Chile: Andrés Allamand, Patricio Aylwin,<br />
Benito Baranda, Edgardo Boeninger, Eduardo<br />
Frei, Juan Pablo Illanes, Jorge Inzunza,<br />
Ricardo Lagos, Norbert Lechner, Arturo<br />
Martínez, Jovino Novoa, Ricardo Nuñez,<br />
Carlos Ominami, e Carolina Tohá.<br />
Colômbia: Ana Teresa Bernal, Belisa-<br />
Agra<strong>de</strong>cimentos 207
io Betancur, Héctor Fajardo, Guillermo<br />
Fernán<strong>de</strong>z <strong>de</strong> Soto, Luis Jorge Garay, Hernando<br />
Gómez Buendía, Julio Roberto Gómez,<br />
Carlos Holguín, Fernando Londoño,<br />
Antonio Navarro, Sabas Pretelt <strong>de</strong> la Vega,<br />
Jorge Rojas, Ernesto Samper, Francisco<br />
Santos,Horacio Serpa, Álvaro Valencia Tovar<br />
e Luis CarlosVillegas.<br />
Costa Rica: Oscar Arias, Leonardo Garnier,<br />
Eduardo Lizano, Elizabeth Odio Benito,<br />
Ottón Solis, Albino Vargas e Samuel<br />
Yankelewitz.<br />
Equador: Rodrigo Borja, Marena Briones,<br />
Joaquín Cevallos, José Eguiguren, Ramiro<br />
González, Susana González, Lucio<br />
Gutiérrez, Osvaldo Hurtado, Miguel Lluco,<br />
Alfredo Negrete, Jaime Nebot, Benjamín<br />
Ortiz, Alfredo Palacio, Rodrigo Paz, Gustavo<br />
Pinto, Mesías Tatamuez Moreno, Luis Ver<strong>de</strong>soto<br />
e Jorge Vivanco.<br />
República Dominicana: Manuel Esquea<br />
Guerrero, Leonel Fernán<strong>de</strong>z Reyna, Antonio<br />
Isa Con<strong>de</strong>, Carlos Guillermo León, Hipólito<br />
Mejía e Jacinto Peynado.<br />
El Salvador: Armando Cal<strong>de</strong>rón Sol,<br />
Gregorio Rosa Chávez, Humberto Corado,<br />
David Escobar Galindo,Mauricio Funes,<br />
Salvador Samayoa, Héctor Silva e Eduardo<br />
Zablah Touché.<br />
Guatemala: Marco Vinicio Cerezo, Marco<br />
Augusto García, Gustavo Porras, Alfonso<br />
Portillo, Rosalina Tuyuc e Raquel Zelaya.<br />
Honduras: Isaías Barahona, Rafael<br />
Leonardo Callejas,Miguel Facusse, Carlos<br />
Flores Facusse, Ricardo Maduro e Leticia<br />
Salomón.<br />
México: Lorenzo Meyer, José Wol<strong>de</strong>nberg,<br />
Carlos Elizondo, José Francisco Paoli<br />
Bolio, Luis Felipe Bravo Mena, Beatriz<br />
Pare<strong>de</strong>s, Francisco Hernán<strong>de</strong>z, Soledad Loaeza,<br />
César Verduga, Luis H. Álvarez, Amalia<br />
García, José Luis Reina, Raúl Benitez, Felipe<br />
Cal<strong>de</strong>rón Hinojosa, Felipe <strong>de</strong> Jesús Cantú,<br />
Cuauhtémoc Cár<strong>de</strong>nas, Sergio Aguayo, Eugenio<br />
Clariond, Arturo Montiel, Bernardo<br />
Sepúlveda, Juan Sánchez Navarro, Manuel<br />
Arango, Jorge G. Castañeda, Gilberto Borja<br />
Navarrete, Rolando Cor<strong>de</strong>ra, Santiago Creel,<br />
Juan Ramón <strong>de</strong> la Fuente, Vicente Fox,<br />
Santiago Levy, Andrés Manuel López Obrador,<br />
Roberto Madrazo, Arturo Núñez, Jesús<br />
Reyes Heroles, Rosario Robles, Luis Téllez,<br />
Ernesto Zedillo, Mariano Palacios Alcocer,<br />
Carmen Lira, Sergio Sarmiento.<br />
Nicarágua: Carlos Fernando Chamorro,<br />
Violeta Granera, Wilfredo Navarro Moreira,<br />
René Núñez Tellez, Sergio Ramírez Mercado<br />
e José Rizo Castellón.<br />
Panamá: Miguel Candanedo,Norma Cano,<br />
Guillermo Endara, Angélica Maytin,<br />
Martín Torrijos e Alberto Vallarino.<br />
Paraguai: Martín Almada, Nelson Argaña,<br />
Nicanor Duarte Frutos, Pedro Fadul,<br />
Ricardo Franco, Cristina Muñoz, Enrique<br />
Riera, Milda Rivarola, Humberto Rubin,<br />
Miguel Abdón Saguier e Aldo Zucolillo.<br />
Peru: Julio Cotler, Jorge Del Castillo,<br />
Carlos Ferrero Costa, Lour<strong>de</strong>s Flores Nano,<br />
Gastón Garatea Vori, Diego García-Sayán,<br />
Juan José Larrañeta, Roberto Nesta, Valentín<br />
Paniagua, Rafael Roncagliolo, Javier Silva<br />
Ruete, Luis Solari <strong>de</strong> la Fuente, Alejandro<br />
Toledo e Alan Wagner.<br />
Uruguai: Diego Balestra, Jorge Batlle,<br />
Héctor Florit, Luis Alberto Lacalle, José<br />
Mujica, Romeo Pérez, Juan José Ramos, Julio<br />
María Sanguinetti, Liber Seregni e Ricardo<br />
Zerbino.<br />
Venezuela: José Albornoz, Alejandro Armas,<br />
Carlos Fernán<strong>de</strong>z, Eduardo Fernán<strong>de</strong>z,<br />
Guillermo García Ponce, Alberto Garrido,<br />
Janet Kelly, Enrique Mendoza, Calixto Ortega,<br />
Teodoro Petkoff, Leonardo Pisani, José<br />
Vicente Rangel, Cecilia Sosa, Luis Ugal<strong>de</strong><br />
e Ramón Velásquez.<br />
Participações especiais<br />
Belisario Betancur, ex-Presi<strong>de</strong>nte da Colômbia;<br />
Rodrigo Borja, ex-Presi<strong>de</strong>nte do<br />
Equador; Kim Campbell, ex-Primeiro Ministro<br />
do Canadá e Presi<strong>de</strong>nte do Clube <strong>de</strong><br />
Madri; Aníbal Cavaco Silva, ex-Primeiro Ministro<br />
<strong>de</strong> Portugal; Fernando Henrique Cardoso,<br />
ex-Presi<strong>de</strong>nte do Brasil; Eduardo Frei,<br />
ex-Presi<strong>de</strong>nte do Chile; Felipe González, ex-<br />
Presi<strong>de</strong>nte do Governo Espanhol; Antonio<br />
Guterres, ex-Primeiro Ministro <strong>de</strong> Portugal;<br />
Osvaldo Hurtado, ex-Presi<strong>de</strong>nte do Equador;<br />
Valentín Paniagua, ex-Presi<strong>de</strong>nte do Peru;<br />
Jorge Quiroga Ramírez, ex-Presi<strong>de</strong>nte da<br />
Bolívia; Carlos Roberto Reina, ex-Presi<strong>de</strong>nte<br />
<strong>de</strong> Honduras; Miguel Ángel Rodríguez, ex-<br />
208 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Presi<strong>de</strong>nte da Costa Rica; Ernesto Zedillo,<br />
ex-Presi<strong>de</strong>nte do México; Julio María Sanguinetti,<br />
ex-Presi<strong>de</strong>nte do Uruguai e Presi<strong>de</strong>nte<br />
da Fundação Círculo <strong>de</strong> Montevidéu;<br />
César Gaviria, ex-Presi<strong>de</strong>nte da Comlômbia<br />
e Secretário Geral da OEA; Enrique Iglesias,<br />
Presi<strong>de</strong>nte do BID; José Antonio Ocampo,<br />
ex-Secretário Executivo da CEPAL e atual<br />
Subsecretário Geral da ONU para Assuntos<br />
Econômicos e Sociais; Fernando Valenzuela,<br />
Diretor Geral Adjunto <strong>de</strong> Relações Exteriores<br />
da União Européia; Guillermo <strong>de</strong> la<br />
Dehesa, ex-Secretário <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Economia<br />
da Espanha; Miguel Ángel Fernán<strong>de</strong>z-<br />
Ordoñez, ex-Secretário <strong>de</strong> Estado <strong>de</strong> Economia<br />
da Espanha; Ernesto Garzón Valdés,<br />
Presi<strong>de</strong>nte Clube <strong>de</strong> Tampere; Antonio Álvarez-Couceiro,<br />
Secretário Geral do Clube<br />
<strong>de</strong> Madri; Fernando Carrillo-Florez, Conselheiro<br />
Principal Escritório BID na Europa e<br />
Lucinio Muñoz, Adjunto ao Secretário Geral<br />
do Clube <strong>de</strong> Madri.<br />
Nossos agra<strong>de</strong>cimentos especiais a<br />
Jacques Le Pottier, Decano da Faculda<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> Ciências Econômicas da Universida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> Toulouse Le Mirail, que ofereceu seu<br />
apoio e facilitou o acesso aos recursos <strong>de</strong>ssa<br />
universida<strong>de</strong>.<br />
Funcionários do Escritório do<br />
Administrador do PNUD<br />
Nossos agra<strong>de</strong>cimentos aos funcionários<br />
do Escritório do Administrador do<br />
PNUD, especialmente a Marck Suzman,<br />
Jessica Faietta, William Orme e Victor<br />
Arango do Escritório <strong>de</strong> Comunicações do<br />
Administrador.<br />
Funcionários da Direção para América<br />
Latina e Caribe do PNUD<br />
A equipe do projeto agra<strong>de</strong>ce, particularmente,<br />
a estreita colaboração dos funcionários<br />
do PNUD, e em especial a Freddy Justiniano,<br />
Myriam Mén<strong>de</strong>z-Montalvo, Enrique<br />
Ganuza, Gilberto Flores, Jacqueline Carbajal,<br />
Isabel Chang, Elisabeth Díaz, Cristina<br />
Fasano, Elena García-Ramos, Lydia Legnani,<br />
Cielo Morales, Susana Pirez, Juan Manuel<br />
Salazar, Luis Francisco Thais, María-<br />
Noel Vaeza e Gemma Xarles.<br />
Funcionários do Escritório <strong>de</strong> Enlace do<br />
PNUD em Bruxelas<br />
Nossos agra<strong>de</strong>cimentos aos funcionários<br />
do Escritório <strong>de</strong> Enlace do PNUD em Bruxelas,<br />
Omar Baquet, María Noel Vaeza, e Susana<br />
Etcheverry.<br />
Funcionários do Escritório do PNUD na<br />
Argentina<br />
O Escritório do PNUD na Argentina, lugar<br />
Se<strong>de</strong> do projeto, ofereceu <strong>uma</strong> inestimável<br />
colaboração, e apoio organizativo e administrativo,<br />
especialmente Carmelo Angulo<br />
Barturén, Jessica Faieta, Silvia Rucks, Susana<br />
Gatto, Pablo Vinocur, José Ignacio López,<br />
Gerardo Noto, Liliana De Riz, Elba Luna, Sonia<br />
Urriza, Aldo García, Ana Inés Mulleady,<br />
María Angélica Wawrzyk, Ana Edmunds, Pablo<br />
Basz, Marcelo Bagnasco, Beatriz Martínez,<br />
Saioa Royo, Itziar Abad, Merce<strong>de</strong>s Ansotegui,<br />
Natalia Aquilino, Andrea Botbol,<br />
Cecilia Del Río, Daniela Del Río, Myriam Di<br />
Paolo, Claudio Flichman, Oscar González,<br />
Guillermo Iglesias, Beatriz López, María Inés<br />
Jezzi, Vivian Joensen, Juan Carlos Magnaghi,<br />
Marina Mansilla Hermann, Jorge Martínez,<br />
Santiago Re<strong>de</strong>cillas, Walter Ricciardi, Ricardo<br />
Salas e Geraldine Watson, aos quais expressamos<br />
nosso agra<strong>de</strong>cimento.<br />
Representantes Resi<strong>de</strong>ntes, Adjuntos e<br />
Auxiliares dos Escritórios do PNUD na<br />
América Latina<br />
Jeffrey Avina, Kim Bolduc, Katica Cekalovic,<br />
Renata Claros, Juan Pablo Corlazzoli,<br />
Jorge Chediek, Juan Carlos Crespi, Ligia Elizondo,<br />
Jafet Enríquez, Niki Fabiancic, Elisabeth<br />
Fong, Walter Franco, Roberto Galvez,<br />
Susana Gatto, Peter Grohmann, Elizabeth<br />
Hayek, José Manuel Hermida, Henry Jackelen,<br />
Lorenzo Jiménes <strong>de</strong> Luis, Thierry Lemaresquier,<br />
Carlos Lopes, Carlos Felipe Martínez,<br />
Pablo Martínez, Alfredo Marty, César<br />
Miquel,Antonio Molpeceres, Roberto Montever<strong>de</strong>,<br />
Bruno Moro, Clemencia Muñoz,<br />
Lucien Muñoz, A<strong>de</strong>lina Paiva, Barbara Pesce-Monterio,<br />
Irene Phillip, Benigno Rodríguez,<br />
Beat Rohr, Martín Santiago, Rosa Santizo,<br />
Ilona Szemzo, Aase Smedler, Claudio<br />
Tomasi, René Mauricio Valdés, Jan-Jilles Van<br />
<strong>de</strong>r Hoeven, Alfredo Witschi-Cestari.<br />
Agra<strong>de</strong>cimentos 209
Funcionários dos Escritórios do PNUD na<br />
América Latina<br />
Bolívia: Cecilia Le<strong>de</strong>sma, Christian Jetté<br />
e Patricia Cusicanqui.<br />
Brasil: Filipe Nasser, Gilberto Chaves, Johanna<br />
Clarke <strong>de</strong> Voest Silva, José Carlos Libânio<br />
e Wilson Pires Soares.<br />
Chile: Alejandra Cáceres, Carla Pietrantoni,<br />
Eugenio Ortega, Josefa Errázuriz, María<br />
Teresa Vergara e Oscar Muñoz.<br />
Colômbia: Adriana Anzola, Alice Ayala,<br />
Amalia Pare<strong>de</strong>s, Carlos Mauricio García,<br />
Daniel Igartua, Hernando Gómez Buendía,<br />
María <strong>de</strong>l Pilar Rojas, Mauricio Ramírez e<br />
Patricia Lizarazu.<br />
Costa Rica: Arlene Mén<strong>de</strong>z Solano, Henry<br />
González e Vera Brenes.<br />
Equador: José Balseca, Norma Guerrero<br />
e Santiago Burbano.<br />
El Salvador: Esther López e Morena Val<strong>de</strong>z.<br />
Honduras: Doris Rivas, Fátima Cruz,<br />
Karina Servellón e Lesly María Sierra.<br />
Guatemala: Carmen Morales, Cecilia<br />
Zúñiga, Ingrid Melgar, Juan Alberto Fuentes<br />
e Myriam <strong>de</strong> López.<br />
México: Arturo Fernán<strong>de</strong>z, Luz Patricia<br />
Herremann e Patricia Marrón.<br />
Nicarágua: Dina Garcia e Gloria Altamirano.<br />
Panamá: Marta Alvarado.<br />
Paraguai: Inés Brack e María Clavera.<br />
Peru: Carolina Aragón, Mario Solari e<br />
Pilar Airaldi.<br />
República Dominicana: Martha Elizabeth<br />
Martínez Correa e Solange Bordas.<br />
Uruguai: Mónica Voss e Verónica Nori.<br />
Venezuela: Alberto Fuenmayor e Mayra<br />
Cartaya.<br />
Participantes em seminários<br />
e reuniões<br />
No projeto do Compêndio Estatístico<br />
e na construção <strong>de</strong> índices contamos com<br />
comentários <strong>de</strong> Kenneth Bollen, Fernando<br />
Carrillo-Florez, Michael John Coppedge,<br />
Freddy Justiniano, Fernando Medina, John<br />
Mark Payne, Adam Przeworski, Arodys Robles<br />
Soto, Michael Smithson, Jay Verkuilen,<br />
Gemma Xarles e Daniel Zovatto.<br />
Em <strong>uma</strong> reunião para revisar o Índice<br />
<strong>de</strong> Democracia Eleitoral contribuíram com<br />
seus conhecimentos Horacio Boneo, Dante<br />
Caputo, Leandro Garcia Silva, Hernando<br />
Goméz Buendía, Freddy Justiniano, Juan<br />
Fernando Londoño, Myriam Men<strong>de</strong>z-Montalvo,<br />
Simón Pachano, Juan Rial, Elisabeth<br />
Spehar, Maria Hermínia Tavares <strong>de</strong> Almeida<br />
e José Wol<strong>de</strong>nberg.<br />
Na análise do estado atual e das perspectivas<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina participaram<br />
Héctor Aguilar Camín, Raúl Alconada<br />
Sempé, Soledad Alvear, Julio Angel,<br />
Sergio Bitar, Dante Caputo, Jorge Castañeda,<br />
Marcelo Contreras, Nicolás Eyzaguirre,<br />
Álvaro Díaz, Marco Aurélio Garcia, Manuel<br />
Antonio Garretón, Gabriel Gaspar, Rodolfo<br />
Gil, Alonso González, Eduardo Graeff, Katty<br />
Grez, Jorge Heine, José Miguel Insulza,<br />
Ricardo Lagos, Ester Levinsky, Thierry Lemaresquier,<br />
Edgardo Lepe, Rodolfo Mariani,<br />
Elena Martínez, Guttemberg Martínez,<br />
Gonzalo Martner, Jorge Levi Mattoso, Heraldo<br />
Muñoz, José Antonio Ocampo, Carlos<br />
Ominami, Verónica Oyarzún, Augusto Ramírez<br />
Ocampo, Juan Ramírez, Jorge Reyes,<br />
Camila Sanhueza, Julio María Sanguinetti,<br />
Joseph Stiglitz, Fe<strong>de</strong>rico Storani, Juan Gabriel<br />
Valdéz e Isabel Vásquez.<br />
Na discussão sobre a crise da política,<br />
juntamente com o Círculo <strong>de</strong> Montevidéu,<br />
participaram Carmelo Angulo Barturén, Danilo<br />
Arbilla, Dante Caputo, Antonio Álvarez<br />
Cruceiro, Joaquín Estefanía, Aníbal Fernán<strong>de</strong>z,<br />
Eduardo Frei, Felipe González, Osvaldo<br />
Hurtado, Elena Martínez, Bartolomé Mitre,<br />
Alfredo Negrete, Andrés Oppenheimer, Rodrigo<br />
Pardo, J.C. Pereyra, Rafael Poleo, Julio<br />
María Sanguinetti, Martín Santiago, Enrique<br />
Santos, Thomas Scheetz,Javier Solanas<br />
210 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
e Ernesto Tiffenberg.<br />
Na análise sobre <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e Estado<br />
contribuíram com sua participação Diego<br />
Achard, Giorgio Alberti, Raúl Alconada<br />
Sempé, Antonio Álvarez Couceiro, José<br />
Luis Barros, Rodrigo Borja, Dante Caputo,<br />
Fernando Henrique Cardoso, Elisa Carrió,<br />
Marcelo Contreras Nieto, Alberto Couriel,<br />
Sonia Draibe, Gilberto Dupas, Gustavo<br />
Fernán<strong>de</strong>z Saavedra, Walter Franco, Manuel<br />
Antonio Garretón, Rodolfo Gil, George Gray<br />
Molina, Edmundo Jarquín, José Carlos Libânio,<br />
Rodolfo Mariani, Elena Martínez, Marcus<br />
Melo, Augusto Ramírez Ocampo, Arturo<br />
O’Connell, Guillermo O’Donnell, Beatriz<br />
Pare<strong>de</strong>s, Celi Pinto, Eduardo Piragibe Graeff,<br />
Márcio Pochmann e Lour<strong>de</strong>s Sola.<br />
No <strong>de</strong>bate sobre socieda<strong>de</strong> civil e narcotráfico<br />
participaram Carlos Basombrío, Fernando<br />
Cal<strong>de</strong>rón, Eduardo Gamarra, Luis<br />
Jorge Garay, Gonzalo Perez <strong>de</strong>l Castillo, Elías<br />
Santana, E<strong>de</strong>lberto Torres Rivas, Franciso<br />
Thoumi e Luis Ver<strong>de</strong>soto.<br />
Na discussão sobre <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e multiculturalismo<br />
nos acompanharam Álvaro<br />
Artiga, Willem Assies, Santiago Bastos, Antonio<br />
Cañas, Julieta Castellanos, Isis Duarte,<br />
Galo Guardián, Francesca Jessup, Carlos<br />
Benjamín Lara, Carlos Mendoza, Arodys<br />
Robles Soto, Ignacio Rodríguez, Gonzalo<br />
Rojas, Manuel Rojas, Leticia Salomón,<br />
E<strong>de</strong>lberto Torres Rivas, Jorge Vargas e Agatha<br />
Williams.<br />
Na análise sobre <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e economia<br />
participaram Raúl Alconada Sempé, Alberto<br />
Alesina, Carlos Amat y León, José Luis<br />
Barros, María Elisa Bernal, Tim Besley, Dante<br />
Caputo, Alberto Couriel, Ricardo Ffrench-Davis,<br />
Enrique Ganuza, Innocenzo Gasparini,<br />
Rebeca Grynspan, Eugenio Lahera,<br />
Oscar Lan<strong>de</strong>rretche, Thierry Lemaresquier,<br />
Manuel Marfán, Juan Martín, Elena Martínez,<br />
Gonzalo Martner, Oscar Muñoz, Arturo<br />
O’Connell, José Antonio Ocampo, Carlos<br />
Ominami, Torsten Persson, Thomas Scheetz,<br />
Jorge Schvarzer, Andrés Solimano e Guido<br />
Tabellini.<br />
Na análise sobre <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e globalização,<br />
juntamente com o Clube <strong>de</strong> Madri,<br />
participaram Andrés Allamand, Antonio<br />
Alvarez- Couceiro, Rodrigo Borja,<br />
Dante Caputo, Fernando Henrique Cardoso,<br />
Fernando Carrillo- Florez, Aníbal Cavaco<br />
Silva, Tarcísio Costa, Miguel Darcy,<br />
Guillermo <strong>de</strong> la Dehesa, Miguel Ángel Fernán<strong>de</strong>z-Ordóñez,<br />
Eduardo Frei, Ernesto<br />
Garzón Valdés, Felipe González, Antonio<br />
Guterres, Carlos Lopes, Elena Martínez, Lucinio<br />
Muñoz,Carlos Ominami, Beatriz Pare<strong>de</strong>s,<br />
Jorge Quiroga Ramírez e Fernando Valenzuela.<br />
Na discussão sobre condições para a estabilida<strong>de</strong><br />
das instituições <strong>de</strong>mocráticas na<br />
América Central participaram: Alberto Arene,<br />
Miguel Angel Barcárcel, Rafael Guido<br />
Béjar, Marcia Bermú<strong>de</strong>z, Miguel Antonio<br />
Bernal, Roberto Cajina, Antonio Cañas, Zenayda<br />
Castro, Carlos Cazzali, Elvira Cuadra,<br />
Jorge Chediek, Francisco Díaz, Mirna Flores,<br />
Dina García, Jorge Giannareas, Ricardo Gómez,<br />
Valdrack Jaentschke, Francesca Jessup,<br />
Walter Lacayo, Semiramis López, José Raúl<br />
Mulino, Isabela Orellana , Alfonso Peña, Kees<br />
Ra<strong>de</strong>, Juan Carlos Rodríguez, María <strong>de</strong>l<br />
Carmen Sacasa, Gabriela Serrano, Héctor<br />
Hérmilo Soto, E<strong>de</strong>lberto Torres Rivas, Arnoldo<br />
Villagrán e Knut Walter.<br />
Reunião com o Secretário Geral da ONU<br />
Participaram da reunião com o Secretário<br />
Geral da ONU, Sr. Kofi Annan, em Nova<br />
York, em 12 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 2002, Belisario<br />
Betancur, ex-Presi<strong>de</strong>nte da Colômbia; Kim<br />
Campbell, Presi<strong>de</strong>nte do Clube <strong>de</strong> Madri<br />
(ex-Primeiro Ministro do Canadá); Eduardo<br />
Frei, ex-Presi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> Chile; Jorge Quiroga<br />
Ramírez, ex-Presi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> Bolívia; Carlos<br />
Roberto Reina, ex-Presi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> Honduras;<br />
Julio María Sanguinetti, ex-Presi<strong>de</strong>nte do<br />
Uruguai; Ernesto Zedillo, ex-Presi<strong>de</strong>nte do<br />
México; Zéphirin Diabré, Administrador Associado<br />
do PNUD; Shoji Nishimoto, Administrador<br />
Auxiliar e Diretor <strong>de</strong> Desenvolvimento<br />
<strong>de</strong> Políticas, PNUD; Elena Martínez,<br />
Administradora Auxiliar e Diretora Regional<br />
para América Latina e Caribe (DRALC)<br />
do PNUD; José Antonio Ocampo, ex-Secretário<br />
Executivo, Comissão Econômica para<br />
a América Latina e o Caribe (CEPAL) e atual<br />
Subsecretário Geral para Assuntos Econômicos<br />
e Sociais da ONU; Danilo Türk, Secretário<br />
Geral Assistente, Departamento <strong>de</strong><br />
Agra<strong>de</strong>cimentos<br />
211
Assuntos Políticos (DPA); Marta Maurás,<br />
Diretora do Escritório do Secretário Geral<br />
Adjunto (EOSG); Michael Moller, Diretor<br />
<strong>de</strong> Assuntos H<strong>uma</strong>nitários, Políticos e <strong>de</strong><br />
Manutenção da Paz (EOSG); Angela Kane,<br />
Diretora Divisão para as Américas e Europa<br />
(DPA); Freddy Justiniano, Coor<strong>de</strong>nador do<br />
Programa Regional, DRLAC/PNUD; e os seguintes<br />
participantes do Projeto: Dante Caputo,<br />
Gonzalo Pérez <strong>de</strong>l Castillo, E<strong>de</strong>lberto<br />
Torres Rivas, e Augusto Ramírez Ocampo.<br />
Reunião com o Administrador do PNUD<br />
Participaram da reunião com o Administrador<br />
do PNUD, Mark Malloch Brown,<br />
em 4 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 2003, Elena Martínez,<br />
Administradora Auxiliar e Diretora<br />
Regional para América Latina e Caribe do<br />
PNUD; Víctor Arango, Especialista em Comunicações<br />
para América Latina e Caribe,<br />
Escritório do Administrador; Magdy Martínez-Solimán,<br />
Chefe <strong>de</strong> Escritório, Prática <strong>de</strong><br />
Governabilida<strong>de</strong>, BDP/PNUD; William Orme,<br />
Chefe da Seção Meios, Escritório do Administrador;<br />
Stefano Pettinato, Assessor em<br />
Políticas, Escritório do Relatório <strong>de</strong> Desenvolvimento<br />
H<strong>uma</strong>no do PNUD; Carmelo<br />
Angulo Barturén, Representante Resi<strong>de</strong>nte<br />
do PNUD na Argentina; Dante Caputo,<br />
Diretor do Projeto; Freddy Justiniano, Coor<strong>de</strong>nador<br />
do Programa Regional, DRLAC,<br />
PNUD; Myriam Mén<strong>de</strong>z- Montalvo, Assessora<br />
<strong>de</strong> Governabilida<strong>de</strong> do Programa Regional,<br />
DRALC, PNUD; Leandro García<br />
Silva, Consultor Acompanhamento Técnico<br />
e Acadêmico do Projeto, e Luis Francisco<br />
Thais, Consultor do Programa Regional,<br />
DRALC, PNUD.<br />
Apoio na preparação <strong>de</strong> reuniões e<br />
seminários<br />
Agra<strong>de</strong>cemos a especial colaboração <strong>de</strong><br />
Isabel Vásquez, do Círculo <strong>de</strong> Montevidéu;<br />
Katty Grez e Verónica Oyarzún, da Fundação<br />
Chile XXI; Ángeles Martínez e Irene<br />
Fraguas, do Clube <strong>de</strong> Madri; Bernardita<br />
Baeza, Carolina Ries e Valerie Biggs da<br />
CEPAL.<br />
Produção e tradução<br />
Para a transcrição das entrevistas da Rodada<br />
<strong>de</strong> Consultas contou-se com a colaboração<br />
<strong>de</strong> Maximiliano Bourel, Marcelo Burello,<br />
María Eva Cangiani, Valentina Farrell,<br />
Virginia Gallo, Guadalupe Guzmán, Erika<br />
Moeykens, Josefina Pittaluga, Julia Ramos,<br />
Natalia Rosenberg, Gisela Urriza e Geraldine<br />
Watson. A <strong>de</strong>puração do som da gravação<br />
das consultas foi realizada por Fe<strong>de</strong>rico<br />
M. Guido Calvo.<br />
A tradução foi realizada por Marcelo<br />
Canosa, María Esperanza Clavell, Yvonne<br />
Fisher, Liliana Hecht, Gabriela Ippólito,<br />
Claudia Martínez e Merril Stevenson. A<br />
correção <strong>de</strong> estilo esteve a cargo <strong>de</strong> Hin<strong>de</strong><br />
Pomeraniec.<br />
Fizemos questão <strong>de</strong> expressar nosso agra<strong>de</strong>cimento a cada <strong>uma</strong> das pessoas que contribuíram<br />
para a realização <strong>de</strong>ste Relatório. Esperamos que saibam <strong>de</strong>sculpar qualquer possível<br />
omissão, totalmente involuntária, sem nenh<strong>uma</strong> dúvida.<br />
212 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
■ Nota técnica sobre o Índice<br />
<strong>de</strong> Democracia Eleitoral (IDE)<br />
Esta nota <strong>de</strong>screve os passos dados e as<br />
provas estatísticas realizadas para a construção<br />
do Índice <strong>de</strong> Democracia Eleitoral (IDE),<br />
<strong>uma</strong> medida composta sobre os direitos políticos<br />
relacionados com a eleição dos governos.<br />
Apresentam-se, também, esclarecimentos<br />
sobre sua interpretação e utilização.<br />
Construção do IDE<br />
A escolha dos componentes<br />
O primeiro passo para a construção do<br />
IDE, e provavelmente o mais importante,<br />
consistiu na escolha dos seus quatro componentes:<br />
sufrágio, eleições limpas, eleições<br />
livres e cargos públicos eleitos. Eles foram<br />
selecionados consi<strong>de</strong>rando os elementos<br />
centrais tradicionalmente invocados pelos<br />
teóricos sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> para a <strong>de</strong>finição<br />
<strong>de</strong> um regime <strong>de</strong>mocrático, e abarcam <strong>uma</strong><br />
série <strong>de</strong> temas que, em geral, foram consi<strong>de</strong>rados<br />
centrais, inclusive necessários, para<br />
qualquer avaliação sobre o caráter <strong>de</strong>mocrático<br />
<strong>de</strong> um regime político (figura 1).<br />
Em segundo lugar, esses elementos referem-se<br />
a direitos <strong>de</strong> cidadania, cuja vigência é<br />
responsabilida<strong>de</strong> do Estado, e que po<strong>de</strong>m ser<br />
interpretados claramente em termos da teoria<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> vigente. Desse modo, evitam-se<br />
problemas associados com elementos<br />
tais como o comparecimento dos eleitores às<br />
urnas ou a <strong>de</strong>sproporcionalida<strong>de</strong> eleitoral,<br />
que refletem tanto as ações estatais como as<br />
dos cidadãos. Isso permite garantir que o índice<br />
possa ser interpretado claramente como<br />
<strong>uma</strong> medida do grau em que o Estado garante<br />
os direitos da cidadania referentes ao regime<br />
político, <strong>de</strong> modo diferenciado da ação<br />
dos cidadãos. Da mesma maneira, evitam-se<br />
problemas relacionados com medidas <strong>de</strong> significação<br />
pouco claras com respeito ao grau<br />
<strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> um regime, tais como a diferença<br />
entre regulamentações eleitorais proporcionais<br />
e majoritárias, ou entre sistemas<br />
presi<strong>de</strong>ncialistas ou parlamentaristas. Esses<br />
FIGURA 1<br />
Índice <strong>de</strong> Democracia Eleitoral (IDE)<br />
Direito <strong>de</strong> voto<br />
Têm direito <strong>de</strong><br />
voto todos os<br />
adultos <strong>de</strong> um<br />
país<br />
Eleições limpas<br />
O processo<br />
eleitoral<br />
transcorre sem<br />
irregularida<strong>de</strong>s<br />
que<br />
constranjam<br />
a expressão<br />
autônoma das<br />
preferências<br />
dos eleitores<br />
pelos<br />
candidatos<br />
e alterem o<br />
conteúdo<br />
fi<strong>de</strong>digno dos<br />
votos emitidos<br />
Eleições livres<br />
É oferecido<br />
ao eleitorado<br />
um leque <strong>de</strong><br />
alternativas<br />
que não<br />
estejam<br />
constrangidas<br />
por restrições<br />
legais ou <strong>de</strong><br />
fato<br />
aspectos, certamente, têm importância, mas<br />
não estão tão claramente conectados com o<br />
grau <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> um regime como os<br />
quatro escolhidos.<br />
Em terceiro lugar, esses elementos possibilitam<br />
contar com dados válidos e confiáveis<br />
do último ano civil. Deu-se ênfase na<br />
medição <strong>de</strong> componentes estritamente observáveis,<br />
evitando o uso <strong>de</strong> pesquisas sobre<br />
percepções. Desse modo, alguns componentes<br />
que po<strong>de</strong>riam ter sido incluídos foram<br />
<strong>de</strong>ixados <strong>de</strong> lado por razões “práticas”.<br />
Por último, analisou-se um conjunto <strong>de</strong><br />
fatores que po<strong>de</strong>riam ter sido incluídos e não<br />
foram, em gran<strong>de</strong> parte <strong>de</strong>vido à dificulda<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolver medições apropriadas e a<br />
tempo para este primeiro Relatório. Isso inclui<br />
fatores associados ao exercício do direito<br />
ao voto, tais como o processo <strong>de</strong> obtenção<br />
<strong>de</strong> documentos <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>, a inscrição ou<br />
registro para votar e a própria votação, e as<br />
condições para a concorrência livre, em que<br />
influem fatores como: o financiamento dos<br />
partidos e das campanhas, o uso <strong>de</strong> recursos<br />
Cargos públicos<br />
eletivos<br />
As eleições são o<br />
meio <strong>de</strong> acesso<br />
aos principais<br />
cargos públicos<br />
<strong>de</strong> um país, ou<br />
seja, o Executivo<br />
e o Legislativo<br />
nacional; e os que<br />
ganham as eleições<br />
assumem seus<br />
cargos públicos e<br />
neles permanecem<br />
durante os prazos<br />
estipulados pela<br />
lei<br />
Nota técnica sobre o Índice <strong>de</strong> Democracia Electoral (IDE)<br />
213
públicos, o acesso aos meios <strong>de</strong> comunicação<br />
e a liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> imprensa. Outras questões<br />
importantes dizem respeito às práticas<br />
eleitorais a nível subnacional e à estabilida<strong>de</strong><br />
do regime. A conveniência da construção<br />
<strong>de</strong> novos índices fica como tema para futuras<br />
discussões.<br />
A medição dos componentes<br />
Para o segundo passo para a construção<br />
do IDE – a medição <strong>de</strong> seus quatro componentes<br />
– foi preciso tomar duas <strong>de</strong>cisõeschave.<br />
A primeira diz respeito às regras do<br />
processo <strong>de</strong> codificação e a segunda, ao processo<br />
<strong>de</strong> codificação propriamente dito.<br />
Quanto às regras do processo <strong>de</strong> codificação,<br />
as escalas – três ordinais <strong>de</strong> cinco pontos<br />
e um ordinal <strong>de</strong> três pontos – foram construídas<br />
<strong>de</strong>terminando primeiro os pontos finais<br />
teoricamente significativos e, em seguida,<br />
i<strong>de</strong>ntificando valores <strong>de</strong> escala, distanciados<br />
conceitualmente o máximo possível, começando<br />
com o ponto médio. Os valores da escala<br />
foram escolhidos para refletir diferenças<br />
relevantes da bibliografia, evitando pequenas<br />
variações entre casos, mesmo que fossem verificáveis.<br />
Nos casos que não correspondiam<br />
com precisão a nenhum dos pontos das escalas<br />
ordinais, introduziu-se o uso <strong>de</strong> sinais<br />
mais e menos, como forma <strong>de</strong> registrar valores<br />
intermediários. As escalas foram construídas<br />
também <strong>de</strong> modo que cada ponto correspon<strong>de</strong>sse<br />
a situações e acontecimentos<br />
relativamente concretos, e que as <strong>de</strong>cisões <strong>de</strong><br />
sua codificação pu<strong>de</strong>ssem ser tomadas, rigorosamente,<br />
sobre a base <strong>de</strong> fatores observáveis.<br />
Não foram incluídos no índice dados<br />
baseados em pesquisas sobre percepções.<br />
Além disso, como <strong>uma</strong> forma <strong>de</strong> garantir<br />
a replicabilida<strong>de</strong> do exercício <strong>de</strong> codificação,<br />
e em face <strong>de</strong> possíveis arbitrarieda<strong>de</strong>s,<br />
<strong>de</strong>stacou-se a importância <strong>de</strong> documentar<br />
as bases das <strong>de</strong>cisões <strong>de</strong> codificação por<br />
meio da referência a fontes <strong>de</strong> informação<br />
disponíveis publicamente. Não foram requeridas<br />
pontuações para cada caso em cada<br />
ano. Na verda<strong>de</strong>, só foram requeridas pontuações<br />
para três dos componentes – direito<br />
a voto, eleições limpas e eleições livres – para<br />
os anos em que foram realizadas eleições.<br />
As condições para as eleições <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m <strong>de</strong><br />
acontecimentos e <strong>de</strong>cisões tomadas entre as<br />
eleições, e a codificação coletou informação<br />
entre os períodos eletivos. Mas a significação<br />
<strong>de</strong>sses acontecimentos e <strong>de</strong>cisões, para o processo<br />
pelo qual os atores obtêm o acesso aos<br />
cargos governamentais, que é o interesse central<br />
do exercício <strong>de</strong> medição, cristaliza-se no<br />
acontecimento eleitoral em si. Desse modo,<br />
embora as pontuações tenham sido atribuídas<br />
a alguns componentes somente durante<br />
os anos <strong>de</strong> eleições, essas pontuações foram<br />
entendidas como a síntese <strong>de</strong> processos<br />
mais amplos.<br />
O segundo conjunto <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões referese<br />
ao processo <strong>de</strong> codificação propriamente<br />
dito. Nesse sentido, foram utilizados dois<br />
procedimentos complementares para codificar<br />
os casos. Um codificador particular realizou<br />
<strong>uma</strong> codificação baseando-se em <strong>uma</strong><br />
pesquisa extensa e em consultas com numerosos<br />
especialistas, durante muitos meses.<br />
As pontuações <strong>de</strong>finidas foram apresentadas<br />
e discutidas em profundida<strong>de</strong> em vários<br />
encontros, inclusive um, com um grupo <strong>de</strong><br />
participantes convidados que trabalhavam<br />
em diversos contextos (política, âmbito acadêmico,<br />
organizações internacionais), provenientes<br />
<strong>de</strong> diferentes países das Américas<br />
(Argentina, Brasil, Canadá, Colômbia, Equador,<br />
Estados Unidos, México e Uruguai). Essas<br />
discussões conduziram à i<strong>de</strong>ntificação <strong>de</strong><br />
discordâncias que levaram a sucessivas pesquisas<br />
e mais discussões grupais. Finalmente,<br />
após esse processo iterativo, chegou-se a um<br />
alto grau <strong>de</strong> consenso em relação à codificação<br />
das quatro dimensões do IDE.<br />
A geração <strong>de</strong> <strong>uma</strong> base <strong>de</strong> dados<br />
retangular com escalas normalizadas<br />
O terceiro passo na construção do IDE foi<br />
a transformação das pontuações nas escalas<br />
dos componentes em <strong>uma</strong> base <strong>de</strong> dados retangular,<br />
ou seja, <strong>uma</strong> base <strong>de</strong> dados que inclui<br />
pontuações numéricas para todos os casos,<br />
em todas as variáveis e em todos os anos,<br />
com escalas normalizadas.<br />
Esse passo envolveu <strong>uma</strong> série <strong>de</strong> procedimentos.<br />
Primeiro, enfrentaram-se aspectos<br />
bastante mecânicos. Os sinais mais e menos<br />
foram convertidos em números, somando<br />
e subtraindo 0,33 da pontuação base (por<br />
214 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
exemplo, um 3+ foi convertido em 3,33). Os<br />
hífens (-) utilizados para indicar que a atribuição<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> pontuação não era aplicável,<br />
<strong>de</strong>vido a que o governo não era proveniente<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> eleição, foram convertidos em zeros<br />
(0). Além disso, as pontuações <strong>de</strong> dois dos<br />
componentes que tinham pontuações apenas<br />
para os anos em que houve <strong>uma</strong> eleição<br />
– sufrágio e eleições livres – foram estendidas<br />
para os anos intermediários, simplesmente<br />
transferindo a pontuação <strong>de</strong> um <strong>de</strong>terminado<br />
ano para os anos subseqüentes, até ser<br />
atribuída <strong>uma</strong> nova pontuação (seja porque<br />
foi realizada <strong>uma</strong> eleição após um período <strong>de</strong><br />
um governo não eleito, ou porque se realizou<br />
<strong>uma</strong> nova eleição, ou porque o processo eleitoral<br />
foi interrompido). A justificativa para<br />
esse procedimento é que a forma em que um<br />
governo se origina continua sendo <strong>uma</strong> característica<br />
que afeta sua natureza mesmo<br />
<strong>de</strong>pois do momento <strong>de</strong> sua instalação.<br />
No caso das eleições limpas, seguiu-se<br />
um processo um pouco mais complexo. Na<br />
codificação <strong>de</strong>sse item foi utilizada <strong>uma</strong> escala<br />
<strong>de</strong> três pontos para facilitar a interpretação.<br />
Contudo, o 1 <strong>de</strong>ssa escala não representa<br />
na realida<strong>de</strong> um ponto médio; está<br />
muito mais próximo do 2. Desse modo, cada<br />
1 foi convertido em um 3 e cada 2 em um<br />
4. Além disso, <strong>de</strong>vido a que esse elemento<br />
distingue os valores atribuídos às eleições<br />
presi<strong>de</strong>nciais e parlamentares, as pontuações<br />
não foram simplesmente transferidas<br />
<strong>de</strong> eleição para eleição. As pontuações são<br />
<strong>uma</strong> média das pontuações das eleições presi<strong>de</strong>nciais<br />
e parlamentares.<br />
Um segundo aspecto consi<strong>de</strong>rado foi a<br />
atribuição <strong>de</strong> <strong>uma</strong> única pontuação por país<br />
e por ano. Essa prática habitual obe<strong>de</strong>ce a<br />
razões <strong>de</strong> parcimônia e está bem justificada,<br />
porque o objetivo <strong>de</strong> gerar um índice é<br />
oferecer <strong>uma</strong> síntese da situação <strong>de</strong> um país.<br />
Mas um índice único implica vários problemas,<br />
<strong>de</strong>vido a que a situação <strong>de</strong> um país<br />
muda no curso <strong>de</strong> um ano, e utiliza-se apenas<br />
<strong>uma</strong> pontuação para caracterizar todo o<br />
período anual. Em alguns casos, a solução é<br />
relativamente simples: quando um acontecimento-chave<br />
– como a realização <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
eleição – ocorria no fim do ano, a mudança<br />
<strong>de</strong> status em função <strong>de</strong>sse acontecimento<br />
foi registrada no ano seguinte. Por exemplo,<br />
quando em 1985 foram realizadas, na Guatemala,<br />
as eleições que terminaram com um<br />
período <strong>de</strong> governos dominados pelos militares,<br />
essas eleições foram realizadas no<br />
fim do ano, e a mudança <strong>de</strong> governo realizou-se<br />
em janeiro <strong>de</strong> 1986. Portanto, embora<br />
as pontuações para os elementos componentes<br />
tenham sido registradas em 1985, ao<br />
computar o IDE, essas pontuações foram ingressadas<br />
em 1986. Quando os acontecimentos<br />
ocorreram na primeira meta<strong>de</strong> do ano,<br />
foram computados para o mesmo ano. Por<br />
exemplo, as eleições <strong>de</strong> 1994 em El Salvador<br />
foram realizadas em março, e a mudança <strong>de</strong><br />
governo em junho, portanto a mudança foi<br />
registrada em 1994.<br />
Em outros casos, a solução foi mais complicada,<br />
pois quando um acontecimento<br />
ocorreu na segunda meta<strong>de</strong> do ano, foi registrado<br />
nesse mesmo ano. Esse é o caso, por<br />
exemplo, das eleições fraudulentas realizadas<br />
em maio na República Dominicana, e<br />
da nova presidência que assumiu em agosto.<br />
Foram também problemáticos os casos em<br />
que ocorreu mais <strong>de</strong> um acontecimento crítico<br />
no mesmo ano. Por exemplo, em 2000,<br />
no Peru, realizaram-se duas eleições fortemente<br />
questionadas, em abril e em maio,<br />
que levaram Fujimori, em julho, à presidência<br />
e, em seguida, à sua renúncia em novembro.<br />
Nesse caso, as eleições problemáticas foram<br />
registradas em 2000 e a retificação da<br />
situação, em 2001.<br />
Em terceiro lugar, as escalas dos componentes<br />
foram normalizadas, isto é, foram<br />
trasladadas a <strong>uma</strong> métrica comum, por<br />
meio <strong>de</strong> <strong>uma</strong> normalização linear simples<br />
do intervalo unida<strong>de</strong>:<br />
valor normalizado = valor <strong>de</strong> escala original /<br />
máximo valor possível em escala original<br />
Praticamente, qualquer opção que fosse<br />
tomada teria sido um pouco arbitrária,<br />
pois não existem unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> medida para<br />
a liberda<strong>de</strong> eleitoral amplamente aceitas<br />
e comparáveis com unida<strong>de</strong>s como quilogramas<br />
ou dólares. No entanto, a escolha do<br />
procedimento <strong>de</strong> normalização tal como foi<br />
aplicado às escalas ordinais <strong>de</strong> cinco pontos<br />
Nota técnica sobre o Índice <strong>de</strong> Democracia Electoral (IDE)<br />
215
– com a modificação introduzida no elemento<br />
eleições limpas, ao transformar as pontuações<br />
das escalas componentes em <strong>uma</strong> base<br />
<strong>de</strong> dados retangular, todas as escalas utilizadas<br />
para medir os quatro componentes são<br />
escalas ordinais <strong>de</strong> cinco pontos – é transparente<br />
e justificável.<br />
Por um lado, todas as escalas têm pontos<br />
finais com significação teórica, e po<strong>de</strong>se<br />
supor que caem no intervalo unida<strong>de</strong>, no<br />
qual 0 indica ausência total da proprieda<strong>de</strong><br />
e 1 indica presença total da proprieda<strong>de</strong>. O<br />
valor inferior da escala ordinal correspon<strong>de</strong><br />
à negação da proprieda<strong>de</strong> em questão, enquanto<br />
o valor superior correspon<strong>de</strong> à sua<br />
presença completa. Um caso com valor <strong>de</strong><br />
sufrágio 0 não apresenta direito a voto <strong>de</strong><br />
modo nenhum, enquanto um caso com valor<br />
<strong>de</strong> direito a voto 1 <strong>de</strong>pois da normalização<br />
tem direito a voto adulto completo,<br />
o padrão teoricamente estabelecido. Desse<br />
modo, o problema da distância se refere<br />
unicamente aos pontos compreendidos entre<br />
o ponto inicial e o ponto final.<br />
Por outro lado, a maior parte das escalas<br />
foi construída <strong>de</strong> modo que cada ponto<br />
da escala pu<strong>de</strong>sse ser interpretado teoricamente,<br />
e que os diferentes valores da escala<br />
estivessem, conceitualmente, o mais distante<br />
possível entre si. Os valores da escala foram<br />
escolhidos para refletir diferenças i<strong>de</strong>ntificadas<br />
como relevantes na bibliografia, evitando<br />
variações menores entre os casos verificáveis.<br />
Portanto, a probabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> introdução <strong>de</strong><br />
um erro importante é relativamente pequena.<br />
Embora pu<strong>de</strong>ssem ser utilizados outros<br />
métodos psicométricos mais sofisticados,<br />
eles seriam mais complicados, menos acessíveis,<br />
fortemente <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes dos dados e,<br />
freqüentemente, não funcionam muito melhor<br />
do que esse procedimento simples.<br />
A escolha <strong>de</strong> regras <strong>de</strong> agregação<br />
O quarto passo para a construção do IDE<br />
– a escolha <strong>de</strong> regras <strong>de</strong> agregação para formalizar<br />
a relação entre os elementos componentes<br />
do índice – foi resolvido por meio<br />
do uso <strong>de</strong> <strong>uma</strong> regra <strong>de</strong> agregação simples.<br />
A idéia central utilizada para isso é a opinião<br />
bem estabelecida <strong>de</strong> que os quatro elementos<br />
componentes do IDE são partes que constituem<br />
um sistema, em virtu<strong>de</strong> da forma em<br />
que estão combinados, e ainda mais, que esses<br />
quatro componentes são tão fundamentais<br />
para a caracterização global <strong>de</strong> um regime,<br />
que sua ausência o tornaria diretamente<br />
não-<strong>de</strong>mocrático. Por exemplo, como os teóricos<br />
argumentaram, amplamente, sobre a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, o fato <strong>de</strong> que os sistemas <strong>de</strong> tipo<br />
soviético tivessem eleições com direito a voto<br />
completo não tem significação do ponto<br />
<strong>de</strong> vista da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, <strong>de</strong>vido a que o eleitorado<br />
não tinha opção entre candidatos alternativos<br />
e a que essas eleições não levaram<br />
ao acesso a cargos que exercessem efetivamente<br />
po<strong>de</strong>r estatal.<br />
Os quatro elementos componentes do IDE<br />
são, portanto, postulados como condições individualmente<br />
necessárias, insubstituíveis e <strong>de</strong><br />
igual peso. Essa concepção se formaliza calculando<br />
o produto do valor <strong>de</strong> cada um dos elementos<br />
componentes. Em termos formais, o<br />
IDE é calculado seguindo a seguinte equação:<br />
Índice <strong>de</strong> Democracia Eleitoral = Direito a voto x<br />
Eleições Limpas x Eleições Livres x<br />
Cargos Públicos Eleitos<br />
Essa equação retoma <strong>uma</strong> idéia-chave da<br />
teoria sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: quando um elemento<br />
componente está completamente ausente,<br />
o regime <strong>de</strong>ve ser consi<strong>de</strong>rado como<br />
não-<strong>de</strong>mocrático. Na prática, essa operação<br />
garante que um valor zero em qualquer dos<br />
quatro elementos componentes leva a classificar<br />
o caso como não-<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Esse é um padrão “duro”, que po<strong>de</strong> ser<br />
visto como menos “perdoador” do que outras<br />
regras <strong>de</strong> agregação. A concepção <strong>de</strong> que<br />
os elementos componentes do IDE são condições<br />
individualmente necessárias é altamente<br />
exigente, por isso foi utilizada conjuntamente<br />
com um critério conservador<br />
na atribuição <strong>de</strong> zeros aos elementos componentes.<br />
Isso é assim, tanto para as escalas<br />
construídas <strong>de</strong> modo tal que um zero seja<br />
utilizado apenas em casos extremos, em<br />
que <strong>uma</strong> proprieda<strong>de</strong> amplamente consi<strong>de</strong>rada<br />
como vital para a existência da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
esteja totalmente ausente, quanto<br />
no sentido <strong>de</strong> que a evidência necessária<br />
para atribuir um zero <strong>de</strong>ve ser convincente.<br />
216 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Portanto, o IDE qualificará um país como<br />
não-<strong>de</strong>mocrático apenas quando as normas<br />
<strong>de</strong>mocráticas foram, indiscutivelmente, <strong>de</strong>ixadas<br />
<strong>de</strong> lado.<br />
Testando o IDE<br />
Confiabilida<strong>de</strong> entre codificadores e<br />
estimativa <strong>de</strong> erro<br />
Por razões <strong>de</strong> tempo, não foi realizada<br />
<strong>uma</strong> prova formal <strong>de</strong> confiabilida<strong>de</strong> entre<br />
os codificadores. No entanto, para saber se<br />
outros codificadores po<strong>de</strong>riam ter tido atribuição<br />
<strong>de</strong> valores diferentes dos elementos<br />
componentes do IDE, realizou-se <strong>uma</strong> análise<br />
<strong>de</strong> sensibilida<strong>de</strong>. Essa análise baseia-se<br />
em perturbações nas codificações, <strong>de</strong> acordo<br />
com um projeto experimental e com o<br />
exame do índice global “replicado” resultante.<br />
Desse modo, utiliza-se a matemática para<br />
criar codificadores “virtuais” <strong>de</strong>formados<br />
<strong>de</strong> diversos modos; por exemplo, com um viés<br />
em <strong>uma</strong> valoração inferior <strong>de</strong> um ou mais<br />
componentes.<br />
Os resultados <strong>de</strong>ssa prova <strong>de</strong>monstraram<br />
que o IDE é bastante estável – as correlações<br />
<strong>de</strong> intervalo <strong>de</strong> medição com todas as outras<br />
“réplicas” foram 0,99 ou maiores – e as mudanças<br />
na média e na dispersão foram bastante<br />
previsíveis, mostrando um viés negativo<br />
ou positivo, esperado <strong>de</strong> acordo com o<br />
projeto experimental. Essa prova também<br />
proporcionou alg<strong>uma</strong>s margens <strong>de</strong> erro básicas<br />
do IDE sobre a base das “réplicas”. Para<br />
valores do índice entre 0,25 e 0,75, <strong>uma</strong> amplitu<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> margem generosa é <strong>de</strong> aproximadamente<br />
±0,07, e <strong>uma</strong> amplitu<strong>de</strong> <strong>de</strong> margem<br />
razoavelmente conservadora é <strong>de</strong> ±0,1. De<br />
acordo com o padrão mais conservador possível,<br />
os valores do IDE estão <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> ±0,2.<br />
Essa amplitu<strong>de</strong> é razoavelmente constante ao<br />
longo do intervalo citado, mas os limites precisos<br />
<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m do valor do índice e, em geral,<br />
são mais estreitos perto dos pontos finais.<br />
Realizou-se um controle matemático<br />
utilizando a inversão da conhecida e muito<br />
conservadora prova <strong>de</strong> Kolmogorov- Smirnov<br />
para a função <strong>de</strong> distribuição – baseada<br />
em matemáticas completamente diferentes –<br />
e foram obtidos resultados semelhantes.<br />
A soli<strong>de</strong>z das regras <strong>de</strong> agregação<br />
Realizou-se <strong>uma</strong> prova <strong>de</strong> comparação<br />
<strong>de</strong> quatro possíveis regras <strong>de</strong> agregação para<br />
combinar os elementos componentes do<br />
IDE: o produto dos quatro componentes utilizados<br />
no IDE, o valor mínimo dos quatro<br />
componentes da escala, a média geométrica<br />
dos quatro componentes e a média aritmética<br />
dos quatro componentes. Os resultados<br />
mostraram que, sem importar a regra utilizada,<br />
as correlações <strong>de</strong> intervalo <strong>de</strong> medição<br />
são sempre muito altas, o que indica que se<br />
preserva o or<strong>de</strong>namento geral dos casos. Mas<br />
existem diferenças entre os índices, sendo<br />
por um lado, a média aritmética e a geométrica<br />
semelhantes entre si, e por outro lado,<br />
também semelhantes entre si o valor mínimo<br />
e o IDE. A diferença mais importante encontra-se<br />
entre as médias e os <strong>de</strong>svios padrão<br />
(DE). As médias geométrica e aritmética são<br />
<strong>de</strong> 0,92 e 0,91, respectivamente, e o DE <strong>de</strong><br />
0,20 e 0,21, respectivamente. Em compensação,<br />
o valor mínimo e o IDE têm médias <strong>de</strong><br />
0,84 e 0,82, respectivamente, e o DE <strong>de</strong> 0,26<br />
e 0,28, respectivamente. Isso sugere que aplicando<br />
essas últimas regras, é melhor a dispersão<br />
dos casos para evitar o conglomerado<br />
<strong>de</strong> casos que torna difícil interpretar suas diferenças<br />
com clareza.<br />
O caráter dimensional dos elementos<br />
componentes<br />
A prova <strong>de</strong> escalabilida<strong>de</strong> dos quatro elementos<br />
componentes do IDE <strong>de</strong>u como resultado<br />
um alfa <strong>de</strong> Cronbach <strong>de</strong> 0,92; o que<br />
sugere que o IDE é <strong>uma</strong> medida <strong>de</strong> um fenômeno<br />
unidimensional. Contudo, quando<br />
se realizou <strong>uma</strong> prova em dois períodos<br />
(1960-1985 e 1990-2002), os alfas <strong>de</strong> Cronbach<br />
resultantes foram <strong>de</strong> 0,95 e 0,23, respectivamente.<br />
Isso indica que, enquanto no<br />
primeiro período os componentes foram<br />
unidimensionais, isso já não era válido no<br />
período posterior a 1990. Esse resultado é<br />
consistente com a teoria utilizada para selecionar<br />
as regras <strong>de</strong> agregação para o IDE.<br />
Com efeito, é importante notar que os mo<strong>de</strong>los<br />
<strong>de</strong> medição aditivos padrão <strong>de</strong>scansam<br />
na presunção <strong>de</strong> que a agregação opera em<br />
múltiplas medições paralelas. Em oposição,<br />
dado que os componentes do IDE são, por<br />
Nota técnica sobre o Índice <strong>de</strong> Democracia Electoral (IDE)<br />
217
teoria, consi<strong>de</strong>rados insubstituíveis, a <strong>de</strong>cisão<br />
<strong>de</strong> agregá-los a <strong>uma</strong> pontuação única não é<br />
invalidada por nenhum <strong>de</strong>svio potencial da<br />
unidimensionalida<strong>de</strong>. Desse modo, a prova<br />
<strong>de</strong> escalabilida<strong>de</strong> torna ainda mais válida<br />
a escolha das regras <strong>de</strong> agregação propostas<br />
em lugar da muito habitual regra <strong>de</strong> adição.<br />
Interpretando e usando o IDE<br />
O IDE é <strong>uma</strong> escala <strong>de</strong> 0,00-1,00; na<br />
qual 0,00 indica um regime não <strong>de</strong>mocrático<br />
e qualquer número maior do que 0,00<br />
um grau <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, sendo que as pontuações<br />
mais altas indicam um maior grau<br />
<strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Para evitar confusões, é importante<br />
notar que o índice não <strong>de</strong>ve ser interpretado<br />
como <strong>uma</strong> avaliação das ações do<br />
governo. É <strong>uma</strong> medida do estado <strong>de</strong> um sistema,<br />
que se vê afetado pela ação ou inação<br />
<strong>de</strong> um governo, bem como por outros agentes<br />
estatais e atores sociais. Além disso, é preciso<br />
ressaltar que o conceito que está sendo<br />
medido é o <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral. Este conceito<br />
não é tão estreito como alguns o consi<strong>de</strong>ram.<br />
Portanto, ainda que esteja focalizado<br />
completamente na celebração <strong>de</strong> eleições inclusivas,<br />
livres e limpas, abarca mais do que<br />
“simples eleições”. O índice leva em consi<strong>de</strong>ração,<br />
também, o que ocorre com os próprios<br />
governos entre as eleições, e o que suce<strong>de</strong><br />
nesse período, que influi nas condições<br />
para realizar tais eleições.<br />
O IDE não é certamente <strong>uma</strong> medida<br />
ampla da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. É, na verda<strong>de</strong>, <strong>uma</strong><br />
medida <strong>de</strong> <strong>uma</strong> concepção do regime político<br />
<strong>de</strong>mocrático baseada nos postulados mais<br />
amplamente compartilhados no que se refere<br />
aos direitos políticos fundamentais. Isso<br />
é muito significativo. Por um lado, significa<br />
que qualquer <strong>de</strong>feito <strong>de</strong>tectado pelo IDE <strong>de</strong>ve<br />
ser consi<strong>de</strong>rado como <strong>uma</strong> restrição importante<br />
aos direitos políticos dos cidadãos.<br />
Por outro lado, o fato <strong>de</strong> que um país tenha<br />
recebido <strong>uma</strong> pontuação perfeita <strong>de</strong> 1,00 não<br />
<strong>de</strong>ve ser interpretado no sentido <strong>de</strong> que não<br />
possa melhorar, tanto as dimensões não incluídas<br />
no índice quanto os padrões mais exigentes<br />
dos elementos componentes do IDE.<br />
O IDE po<strong>de</strong> ser utilizado para propósitos<br />
comparativos, tanto para comparar um país<br />
consigo mesmo ou com outros países. Dessas<br />
duas formas, a comparação <strong>de</strong> um país consigo<br />
mesmo, em diferentes momentos é, em<br />
geral, a mais simples <strong>de</strong> interpretar. Afinal,<br />
um país po<strong>de</strong> até ter introduzido melhorias<br />
notáveis e, no entanto, ficar em inferiorida<strong>de</strong><br />
em comparação com outros países, se estes<br />
tiverem avançado mais. No entanto, é importante<br />
notar que qualquer comparação <strong>de</strong>vese<br />
basear em diferenças consi<strong>de</strong>ráveis e não<br />
menores. Porque o IDE, como qualquer índice,<br />
tem um certo grau <strong>de</strong> erro <strong>de</strong> medição<br />
e <strong>de</strong>ntro dos limites <strong>de</strong>sse erro não é aconselhável<br />
realizar qualquer afirmação categórica<br />
sobre diferenças. De fato, como foi estimado<br />
por meio da análise <strong>de</strong> sensibilida<strong>de</strong>, para os<br />
valores do IDE entre 0,25 e 0,75, <strong>uma</strong> amplitu<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> margem <strong>de</strong> erro generosa é <strong>de</strong> aproximadamente<br />
±0,07. Desse modo, os casos que<br />
difiram em menos <strong>de</strong>sse valor – por exemplo,<br />
um país com um IDE <strong>de</strong> 0,85 e outro com<br />
um <strong>de</strong> 0,92 – estão <strong>de</strong>masiado próximos para<br />
que seja possível distingui-los <strong>de</strong> maneira<br />
válida. Portanto, é metodologicamente injustificável<br />
oferecer um ranking excessivamente<br />
preciso <strong>de</strong> países, como é habitual no contexto<br />
<strong>de</strong> outros índices, que simplesmente<br />
transformam as pontuações do IDE em um<br />
ranking, sem levar em consi<strong>de</strong>ração os graus<br />
<strong>de</strong> incerteza associados a elas. A i<strong>de</strong>ntificação<br />
<strong>de</strong> casos <strong>de</strong> referência que sejam representações<br />
prototípicas dos traços associados com<br />
<strong>uma</strong> gama <strong>de</strong> pontuações po<strong>de</strong> ajudar a proporcionar<br />
maior concretu<strong>de</strong> ao significado<br />
<strong>de</strong> cada número.<br />
O IDE po<strong>de</strong> ser utilizado também como<br />
um sinal, pois as pontuações específicas<br />
<strong>de</strong> cada país convidam o leitor a voltar aos<br />
quadros dos elementos que o compõem, para<br />
i<strong>de</strong>ntificar precisamente que aspecto ou<br />
aspectos estão refletidos nessa pontuação.<br />
Desse modo, o IDE po<strong>de</strong> ser usado como<br />
<strong>uma</strong> ferramenta analítica valiosa, pois oferece<br />
<strong>uma</strong> pontuação resumida que ajuda os<br />
que a utilizam a i<strong>de</strong>ntificar o aspecto distintivo<br />
do regime político <strong>de</strong> cada país, não apenas<br />
em termos <strong>de</strong> seus elementos, mas também<br />
em termos da relação entre as partes<br />
constitutivas do regime e sua contribuição<br />
para o conjunto.<br />
218 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
■ Nota técnica sobre os índices<br />
<strong>de</strong>rivados na análise da pesquisa<br />
Latinobarômetro 2002 – A construção<br />
do Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD)<br />
Apresentação<br />
Esta nota técnica <strong>de</strong>screve a fonte <strong>de</strong><br />
informação, o <strong>de</strong>senho metodológico e os<br />
procedimentos estatísticos utilizados na elaboração<br />
dos principais índices e indicadores<br />
empregados para a análise das percepções e<br />
comportamentos das cidadãs e dos cidadãos<br />
na América Latina. Explica o sentido, utilida<strong>de</strong><br />
e alcance <strong>de</strong>stes índices e indicadores.<br />
As <strong>de</strong>scrições contidas neste documento<br />
complementam os quadros apresentados<br />
no compêndio estatístico. Para explicações<br />
mais <strong>de</strong>talhadas é conveniente consultar a<br />
memória do processo metodológico e estatístico<br />
aplicado, composta <strong>de</strong> 7 documentos<br />
mais extensos, disponível na página web do<br />
Relatório sobre A Democracia na América Latina:<br />
www.<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.undp.org (Benavi<strong>de</strong>s<br />
e Vargas Cullell, 2003; Gómez, 2003; Kikut,<br />
Gómez y Vargas Cullell, 2003ª, 2003b; Kikut<br />
e Vargas Cullell, 2003; Vargas Cullell,<br />
Benavi<strong>de</strong>s y Gómez, 2003a, 2003b; Vargas<br />
Cullell e Benevi<strong>de</strong>s, 2003; Vargas Cullell e<br />
Gómez, 2003).<br />
O documento contém duas seções. Na<br />
primeira, que introduz o estudo <strong>de</strong> opinião<br />
sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, é apresentada <strong>uma</strong><br />
valorização geral sobre a pesquisa Latinobarômetro<br />
como fonte <strong>de</strong> informação e<br />
<strong>uma</strong> indicação sobre os dados e métodos <strong>de</strong><br />
análise empregados no estudo. Na segunda<br />
seção se <strong>de</strong>screve, com <strong>de</strong>talhe, o processo<br />
metodológico para a elaboração do Índice<br />
<strong>de</strong> apoio à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> (IAD) e suas partes<br />
componentes, que constituem a principal<br />
inovação do estudo.<br />
I- Pesquisa <strong>de</strong> opinião sobre a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
A seção do Relatório “Como os Latinoamericanos<br />
vêem a sua <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>” está<br />
baseada no trabalho realizado por <strong>uma</strong><br />
equipe coor<strong>de</strong>nada por Jorge Vargas Cullell<br />
e integrada por Miguel Gómez, Lorena<br />
Kikut e Tatiana Benavi<strong>de</strong>s. Essa equipe elaborou<br />
o marco conceitual e metodológico a<br />
partir do qual foram <strong>de</strong>finidos os índices e<br />
indicadores respectivos e realizou a análise<br />
da informação cujo principal objetivo foi<br />
possibilitar um estudo comparativo sobre<br />
o exercício dos direitos e <strong>de</strong>veres cidadãos<br />
na América Latina e indagar sobre o apoio<br />
cidadão à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Esta seção <strong>de</strong>screve as fontes <strong>de</strong> dados<br />
em que a análise apresentada no Relatório<br />
se baseia. Convidamos o leitor especializado<br />
que <strong>de</strong>sejar mais informação a consultar a<br />
documentação <strong>de</strong>talhada sobre a <strong>de</strong>finição<br />
conceitual e as <strong>de</strong>cisões metodológicas<br />
da análise no site web do PRODDAL<br />
www.<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.undp.org.<br />
Os dados do PRODAL são elaborados a<br />
partir <strong>de</strong> <strong>de</strong>finições conceituais próprias e<br />
<strong>de</strong> procedimentos metodológicos e aplicações<br />
técnicas que permitem chegar a resulta-<br />
Latinobarômetro como fonte <strong>de</strong> informação<br />
Latinobarômetro é um estudo comparativo realizado periodicamente em<br />
todos os países da região. Em 2002 mediante um convênio entre PNUD<br />
e Latinobarômetro foram incorporadas à pesquisa 28 perguntas (62<br />
variáveis), aproximadamente um terço do questionário, <strong>de</strong>dicadas a temas<br />
<strong>de</strong>finidos pelo PRODDAL. A pesquisa foi feita em espanhol em 18 países<br />
(pela primeira vez foi realizada na República Dominicana), com o mesmo<br />
questionário e o mesmo livro <strong>de</strong> códigos. Foram entrevistadas 19.508<br />
pessoas. As amostras variam entre 1.000 e 1200 pessoas por país. Todos<br />
os esquemas empregam alg<strong>uma</strong> versão da amostragem polietápica e<br />
praticamente em todos a seleção final dos entrevistados foi realizada<br />
usando amostragem <strong>de</strong> quota. Em função disso, as amostras po<strong>de</strong>m estar<br />
afetadas pelos vieses e limitações conhecidos da amostragem <strong>de</strong> cota. (ver,<br />
CD/Compêndio Estatístico, Segunda Seção, “Estudo <strong>de</strong> Opinião sobre a<br />
Democracia”, p. 187 e ss.).<br />
Nota técnica sobre os índices <strong>de</strong>rivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD) 219
dos específicos que não são necessariamente<br />
coinci<strong>de</strong>ntes com os das fontes utilizadas.<br />
Os índices e indicadores sobre percepções<br />
e comportamentos cidadãos utilizam informação<br />
<strong>de</strong> três fontes, com base em um convênio<br />
entre o PNUD e o Latinobarômetro.<br />
■ A seção regular da pesquisa <strong>de</strong> opinião<br />
realizada pela Corporação Latinobarômetro<br />
em 2002.<br />
■ A seção proprietária do PNUD 1 .<br />
■ A série histórica <strong>de</strong> perguntas do Latinobarômetro,<br />
<strong>de</strong> modo secundário.<br />
A partir <strong>de</strong>ssas fontes e sobre a base<br />
conceitual e metodológica, foi elaborado<br />
o Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia. Para sua<br />
construção foi preciso analisar:<br />
■ A questão geral do apoio cidadão à<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, a maneira <strong>de</strong> medi-lo e as fragilida<strong>de</strong>s<br />
do método mais amplamente usado.<br />
■ As tendências dos cidadãos em relação<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, a maneira <strong>de</strong> <strong>de</strong>terminá-las e<br />
a classificação das opiniões.<br />
■ O tamanho <strong>de</strong> cada <strong>uma</strong> das tendências,<br />
seu ativismo político e distância relativa.<br />
■ A regra <strong>de</strong> agregação do Índice e sua<br />
validação estatística.<br />
Esses temas são apresentados a seguir.<br />
Dados e metodologia<br />
O objetivo principal da seção proprietária<br />
do PNUD foi possibilitar um estudo<br />
comparativo sobre o exercício dos direitos<br />
e <strong>de</strong>veres dos cidadãos na América Latina.<br />
Isso complementou a pergunta que a seção<br />
regular do Latinobarômetro faz sobre as<br />
atitu<strong>de</strong>s políticas em um amplo conjunto<br />
<strong>de</strong> temas. Os índices e indicadores sobre as<br />
percepções e comportamentos dos cidadãos<br />
utilizam informação <strong>de</strong> três fontes: a seção<br />
regular, a seção proprietária do PNUD e, <strong>de</strong><br />
forma suplementar, a série temporal. A informação<br />
proveniente da seção proprietária<br />
está refletida nos quadros do compêndio<br />
estatístico. Entretanto, a informação proveniente<br />
da seção regular unicamente se apresenta<br />
<strong>de</strong> forma já processada, como parte <strong>de</strong><br />
um <strong>de</strong>terminado indicador ou índice.<br />
Desenho das amostras<br />
O Relatório metodológico permite um<br />
comentário sobre as amostras utilizadas no<br />
Latinobarômetro 2002, com a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
i<strong>de</strong>ntificar aspectos relevantes para o uso<br />
a<strong>de</strong>quado da informação. Trata-se <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
avaliação simples, já que o texto não apresenta<br />
a informação necessária para <strong>uma</strong> auditoria<br />
técnica das amostras, o que impe<strong>de</strong><br />
dar atenção a alg<strong>uma</strong>s das eventuais fraquezas<br />
do projeto técnico (Gómez, 2003) 2 . Em<br />
conseqüência, as observações <strong>de</strong>sta seção<br />
são <strong>de</strong> caráter geral e inevitavelmente insuficientes.<br />
Mesmo assim, permitem i<strong>de</strong>ntificar<br />
as precauções para a manipulação dos dados<br />
no futuro.<br />
Do exame das principais características<br />
dos <strong>de</strong>senhos utilizados em cada um dos<br />
países. <strong>de</strong>ssa informação <strong>de</strong>rivam-se as seguintes<br />
conclusões gerais.<br />
■ Todos os <strong>de</strong>senhos empregam alg<strong>uma</strong><br />
versão da amostragem polietápica e praticamente<br />
em todos a seleção final dos entrevistados<br />
é realizada usando amostragem <strong>de</strong><br />
quota. Em um par <strong>de</strong> casos é empregada a<br />
técnica aleatória “último aniversário”, mas,<br />
na prática, se substitui o selecionado quando<br />
não está em sua casa ou não aparece em<br />
prazo curto. Por isso, todas as amostras são<br />
afetadas pelas limitações e viés conhecidos<br />
da amostragem da quota, particularmente<br />
por <strong>uma</strong> subestimação das pessoas que têm<br />
menor disponibilida<strong>de</strong> – especialmente<br />
aquelas que têm trabalhos <strong>de</strong> tempo integral<br />
– e <strong>uma</strong> superestimação das que trabalham<br />
por conta própria ou em casa.<br />
■ Praticamente todos os <strong>de</strong>senhos empregam<br />
estratificação geográfica e segundo<br />
o tamanho das localida<strong>de</strong>s e cida<strong>de</strong>s. A meta<strong>de</strong><br />
das amostras utiliza afixação <strong>de</strong>sproporcionada.<br />
Cabe assinalar que isso, em si,<br />
não representa um problema, porque logo<br />
são empregados fatores <strong>de</strong> pon<strong>de</strong>ração para<br />
obter resultados em proporção à população<br />
<strong>de</strong> referência.<br />
1 A seção proprietária do PNUD, <strong>de</strong> uso exclusivo, compreen<strong>de</strong> as perguntas P1U a P28U do questionário utilizado<br />
para o estudo.<br />
220 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
■ Para alguns dos países, existe um viés<br />
na amostra em relação à população urbana,<br />
o que supõe nestes casos <strong>uma</strong> super-representação<br />
das opiniões da população urbana<br />
nos promédios <strong>de</strong>stes paises.<br />
Em resumo, po<strong>de</strong>-se dizer que, embora<br />
o Latinobarômetro reflita para alguns dos<br />
paises fundamentalmente a opinião da população<br />
urbana – o que po<strong>de</strong> produzir <strong>uma</strong><br />
distorção nos dados finais – o Latinobarômetro<br />
é sem dúvida a fonte <strong>de</strong> informação<br />
que melhor apresenta as opiniões da população<br />
na região em conjunto. Portanto, neste<br />
Relatório, foi adotada esta base <strong>de</strong> dados<br />
para a análise <strong>de</strong> opinião sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
na América Latina.<br />
Análises estatísticas<br />
Na análise estatística realizada para o<br />
Relatório sobre A Democracia na América<br />
Latina, baseado no Latinobarômetro, foi<br />
utilizado o software SPSS versão 11. Os<br />
métodos <strong>de</strong> análises estatísticas empregados<br />
foram simples. Para estabelecer a associação<br />
entre duas variáveis numéricas é usado o<br />
coeficiente <strong>de</strong> correlação <strong>de</strong> Pearson, cujos<br />
valores oscilam entre 0 e 1. Para estabelecer a<br />
associação entre variáveis nominais empregou-se<br />
a medida V <strong>de</strong> Crammer e, quando se<br />
trata <strong>de</strong> <strong>uma</strong> variável ordinal e outra nominal<br />
utilizou-se Tau-c.<br />
Para integrar a informação <strong>de</strong> perguntas<br />
que, a primeira vista, parecem referir-se a<br />
um mesmo tema, em todos os casos foram<br />
feitas análises fatoriais com a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>terminar dimensões implícitas e foram<br />
elaboradas escalas por soma simples. Como<br />
indicador da consistência ou confiabilida<strong>de</strong><br />
interna das escalas assim construídas é<br />
utilizado o coeficiente Alfa <strong>de</strong> Crombach<br />
(coeficientes <strong>de</strong> 0,70 ou mais são consi<strong>de</strong>rados<br />
confiáveis e consistentes). Se não for<br />
alcançado este valor, <strong>de</strong>ve-se <strong>de</strong>scartar a<br />
respectiva escala. Quando isso ocorre, aplica-se<br />
cada <strong>uma</strong> das variáveis <strong>de</strong> maneira in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte<br />
(como se fez no Índice <strong>de</strong> apoio<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>).<br />
Durante o processo <strong>de</strong> análise da informação,<br />
foram utilizadas técnicas <strong>de</strong> análise<br />
<strong>de</strong> profiling (perfil), para examinar se os<br />
valores <strong>de</strong> <strong>uma</strong> variável <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte estão<br />
associadas a <strong>de</strong>terminados fatores sócio<strong>de</strong>mográficos<br />
e atitu<strong>de</strong>s políticas. Foram<br />
<strong>de</strong>stacadas aquelas que tivessem um nível<br />
<strong>de</strong> significação igual ou inferior a 1% (Ver<br />
Compêndio estatístico).<br />
Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> análise<br />
As unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> análise para o estudo do<br />
tema <strong>de</strong> apoio à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, em particular,<br />
o Índice <strong>de</strong> apoio à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> (IAD) e<br />
seus componentes, foram os países. Foram<br />
obtidos valores para América Latina em seu<br />
conjunto (18 países) e para três sub-regiões:<br />
(a) México, República Dominicana e<br />
América Central (que inclui Guatemala, El<br />
Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica<br />
e Panamá; (b) Região Andina (Venezuela,<br />
Colômbia, Equador, Peru e Bolívia); (c)<br />
Mercosul e Chile (Brasil, Uruguai, Argentina,<br />
Paraguai e Chile). Nesse caso os valores<br />
expressam médias do grupo <strong>de</strong> países <strong>de</strong>ntro<br />
da unida<strong>de</strong> maior, consi<strong>de</strong>rando cada país<br />
como <strong>uma</strong> unida<strong>de</strong> com um mesmo peso.<br />
Por isso, não foi pon<strong>de</strong>rada a amostra para<br />
chegar a conclusões sobre “América Latina”<br />
ou para <strong>uma</strong> das sub-regiões mencionadas<br />
anteriormente. As razões para não pon<strong>de</strong>rar<br />
são as seguintes:<br />
• As cidadãs e os cidadãos expõem opiniões<br />
e avaliações sobre o sistema político do<br />
qual fazem parte e não em relação com <strong>uma</strong><br />
“macrounida<strong>de</strong>” política latino-americana.<br />
A maioria dos assuntos aos que elas fazem<br />
referência são problemas <strong>de</strong> caráter nacional<br />
(por exemplo, o <strong>de</strong>sempenho da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>).<br />
Por isso as diferenças nacionais são importantes<br />
e, em princípio, todas são <strong>de</strong> igual<br />
importância. Se, para efeito <strong>de</strong> estudo, fosse<br />
pon<strong>de</strong>rada a amostra pela população para<br />
obter tendências a nível latino-americano,<br />
basicamente seriam refletidas as opiniões e<br />
avaliações <strong>de</strong> brasileiros e mexicanos (aproximadamente<br />
60% da população total). No<br />
entanto, tanto uns quanto outros fazem referência,<br />
apesar do peso que teriam <strong>de</strong>ntro<br />
2 Para <strong>uma</strong> análise critica do Latinobarômetro 2002 consultar o documento preparado por Miguel Gómez para<br />
o relatório A Democracia na América Latina (Gómez, 2003).<br />
Nota técnica sobre os índices <strong>de</strong>rivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD) 221
da amostra pon<strong>de</strong>rada, à experiência <strong>de</strong><br />
seus próprios países e não aos da América<br />
Latina.<br />
■ Os tamanhos originais da amostra<br />
para cada país não foram estabelecidos pela<br />
Corporação Latinobarômetro para facilitar<br />
<strong>uma</strong> análise posterior que, ao mesmo tempo<br />
que obtivesse resultados representativos<br />
para a população da América Latina em<br />
seu conjunto, proporcionasse resultados<br />
representativos para cada um dos países incluídos<br />
no estudo. Se pon<strong>de</strong>rássemos a base<br />
<strong>de</strong> dados consolidada atual por população,<br />
aos países pequenos (por exemplo, Uruguai,<br />
Nicarágua, Costa Rica) lhes correspon<strong>de</strong>ria<br />
<strong>uma</strong> quota muito pequena.<br />
■ Os <strong>de</strong>senhos das amostragens nos<br />
países incluídos no estudo são claramente<br />
diferentes. Como foi indicado em seções<br />
anteriores, <strong>uma</strong>s amostras são nacionais;<br />
outras são urbanas e, inclusive, em alguns<br />
países, cobrem só alguns centros urbanos.<br />
Por exemplo, o universo da amostra do Brasil<br />
são alg<strong>uma</strong>s cida<strong>de</strong>s e não toda a população;<br />
se pon<strong>de</strong>rássemos a amostra do Brasil<br />
por população, na realida<strong>de</strong> estaríamos<br />
dando um peso excessivo aos habitantes dos<br />
centros urbanos em relação aos habitantes<br />
<strong>de</strong> outros países on<strong>de</strong> as amostras parecem<br />
um pouco mais “nacionais”.<br />
Quando se fez o “profiling” das pessoas<br />
com diferentes tendências à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, foi<br />
utilizada a amostra em seu conjunto sem<br />
pon<strong>de</strong>rar. Nestes casos, os resultados refletem<br />
a situação da população entrevistada<br />
em seu conjunto, e não “das e dos latinoamericanos”.<br />
Precisão dos resultados 3<br />
Toda pesquisa por amostragem é afetada<br />
por dois tipos <strong>de</strong> erros: os erros <strong>de</strong> não<br />
amostragem 4 e <strong>de</strong> amostragem 5 . Como não<br />
são conhecidos os resultados <strong>de</strong> <strong>uma</strong> auditoria<br />
técnica do Latinobarômetro 2002,<br />
não é possível fazer referência aos erros <strong>de</strong><br />
não amostragem. Por outra parte, a análise<br />
dos erros <strong>de</strong> amostragem é muito limitada<br />
porque a informação contida no Relatório<br />
metodológico 2002 não permite apresentar<br />
os erros da amostragem (erros padrão, EP)<br />
e os efeitos <strong>de</strong> <strong>de</strong>senho (DEF) para índices e<br />
perguntas selecionadas. Não há informação<br />
a nível <strong>de</strong> unida<strong>de</strong> primária <strong>de</strong> observação.<br />
Em conseqüência, não se po<strong>de</strong> apresentar<br />
<strong>uma</strong> opinião sobre a precisão das estimativas.<br />
Em termos gerais, po<strong>de</strong>mos dizer que<br />
em casos como o da Costa Rica, as outras<br />
nações centro-americanas e o Brasil, on<strong>de</strong> o<br />
tamanho médio do conglomerado final não<br />
é muito alto – cerca <strong>de</strong> 13 entrevistados – se<br />
são supostos valores <strong>de</strong> roh usuais <strong>de</strong> 0,02 a<br />
0,04, o ED alcança no máximo 1,50, o que<br />
3 A explicação sobre os erros <strong>de</strong> amostragem e não amostragem é tomada literalmente da redação feita por Luis<br />
Rosero-Bixby para o estudo sobre Cultura <strong>de</strong>mocrática em Costa Rica 2004 do Projeto <strong>de</strong> Opinião Pública da<br />
Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Van<strong>de</strong>rbilt (Vargas Cullell e Rosero-Bixby, 2004).<br />
4 Os erros <strong>de</strong> não amostragem são os cometidos durante a coleta e processamento da informação, mas po<strong>de</strong>m<br />
ser controlados construindo um a<strong>de</strong>cuado instrumento <strong>de</strong> medição, treinando os pesquisadores para <strong>uma</strong> correta<br />
aplicação do instrumento, supervisionando o trabalho <strong>de</strong> campo, criando um programa <strong>de</strong> captura <strong>de</strong> dados<br />
eficiente, revisão <strong>de</strong> questionário e a<strong>de</strong>quada codificação, assim como <strong>uma</strong> limpeza do arquivo, entre outros.<br />
Esses erros po<strong>de</strong>m ser controlados mas não quantificados. A comparação dos resultados da amostra com os da<br />
população, porém, dá <strong>uma</strong> idéia sobre a possível geração <strong>de</strong> viés que diminui a representativida<strong>de</strong> da amostra.<br />
5 Os erros <strong>de</strong> amostragem são produtos do acaso e são resultado do fato <strong>de</strong> se entrevistar <strong>uma</strong> amostra e não a<br />
totalida<strong>de</strong> da população. Quando selecionamos <strong>uma</strong> amostra ela é <strong>uma</strong> das tantas amostras possíveis a serem selecionadas<br />
na população. A variabilida<strong>de</strong> existente entre todas essas possíveis amostras é o erro da amostragem,<br />
que po<strong>de</strong>ria ser medido se fosse possível dispor <strong>de</strong> todas essas amostras, situação obviamente irreal. Na prática,<br />
o que se faz é calcular esse erro sobre a variação obtida a partir da amostra. Para calcular o erro da amostragem<br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> estatística (médias, porcentagens, diferenças e totais), calcula-se o erro padrão que é a raiz quadrada da<br />
variação populacional da estatística. Isso permite medir o grau <strong>de</strong> precisão com que esse dado estatístico se aproxima<br />
ao resultado obtido nas entrevistas com todos os elementos da população sob as mesmas condições. Para o<br />
cálculo <strong>de</strong>ste erro é muito importante consi<strong>de</strong>rar o <strong>de</strong>senho com o qual foi selecionada a amostra.<br />
222 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
significa que a conglomeração aumenta a<br />
variância <strong>de</strong> p em um 50% e o erro <strong>de</strong> amostragem<br />
em 22%, magnitu<strong>de</strong>s totalmente toleráveis.<br />
Entretanto, em outros casos, como<br />
<strong>de</strong> Equador, o procedimento <strong>de</strong> selecionar<br />
cida<strong>de</strong>s ou municípios e logo <strong>de</strong>pois subamostrá-los,<br />
produz níveis <strong>de</strong> conglomeração<br />
elevados (50 ou mais entrevistados) e<br />
ED que po<strong>de</strong>m ser <strong>de</strong> 3 ou 4, o que implica<br />
erros <strong>de</strong> amostragem <strong>de</strong> 1,73 ou 2 vezes aos<br />
obtidos usando a fórmula usual.<br />
Amostras totais, amostras válidas e<br />
não-respostas<br />
O tamanho da amostra total consolidada<br />
do Latinobarômetro 2002 nos 18 países<br />
on<strong>de</strong> foi realizado o estudo é <strong>de</strong> 19.508 casos<br />
6 . Aos dados do Paraguai foram dados<br />
<strong>uma</strong> pon<strong>de</strong>ração dupla com a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
simular <strong>uma</strong> amostra <strong>de</strong> 1.200 pessoas nesse<br />
país. Isso aumentou o tamanho da mostra<br />
<strong>de</strong> 19.508 a 20.108 registros (Quadro 1).<br />
Todos os cálculos e estimativas foram realizados<br />
com base nessa amostra que inclui a<br />
dupla pon<strong>de</strong>ração do Paraguai.<br />
Os motivos que justificaram essa <strong>de</strong>cisão<br />
foram os seguintes:<br />
■ Permitir conferir ao Paraguai, no estudo,<br />
um peso similar ao dos outros 18 países;<br />
do contrário, pesaria como “meio país”<br />
quando se acrescenta informação para analisar<br />
a situação regional (América Latina) ou<br />
sub-regional (Mercosul e Chile).<br />
■ Se tivesse sido empregada <strong>uma</strong> amostra<br />
<strong>de</strong> 1.200 pessoas nas mesmas localida<strong>de</strong>s<br />
on<strong>de</strong> foi aplicada a amostra, os resultados<br />
não <strong>de</strong>veriam ser muito diferentes dos que<br />
efetivamente foram obtidos com o estudo <strong>de</strong><br />
600, se fossem utilizados os mesmos critérios<br />
e fossem aplicadas <strong>de</strong> forma apropriada<br />
as técnicas <strong>de</strong> amostragem estatística.<br />
Ao dar maior peso ao Paraguai mudam,<br />
muito levemente, os resultados médios do<br />
conjunto dos países da América Latina (em<br />
décimos <strong>de</strong> ponto percentual) e mudam<br />
um pouco os resultados médios dos países<br />
da sub-região do Mercosul e Chile (dois a<br />
três pontos percentuais), em relação aos que<br />
seriam obtidos se não houvesse pon<strong>de</strong>ração<br />
TAMANHO DA AMOSTRA DO ESTUDO<br />
Amostra<br />
da amostra. Por tudo que foi mencionado,<br />
supõe-se, que essas mudanças seriam as esperadas<br />
se tivesse sido realizado um estudo<br />
com 1.200 pessoas.<br />
Na prática, <strong>de</strong>vido às “não resposta”, as<br />
amostras válidas são menores do que o total<br />
e diferentes segundo a variável sob consi<strong>de</strong>ração.<br />
As tabelas do compêndio estatístico<br />
apresentam as amostras totais e as amostras<br />
válidas para a maioria das variáveis que foram<br />
empregadas na análise. Em alguns casos<br />
a porcentagem <strong>de</strong> não resposta é baixa – por<br />
exemplo, quando se trata <strong>de</strong> variáveis sócio<strong>de</strong>mográficas<br />
como a ida<strong>de</strong>, sexo ou o nível<br />
educacional do entrevistado. Em outros casos,<br />
porém, a porcentagem <strong>de</strong> não resposta é<br />
elevada, especialmente quando as perguntas<br />
foram agrupadas para formar os índices empregados<br />
na análise <strong>de</strong> resultados, o que leva<br />
ao tamanho <strong>de</strong> amostras válidas inferiores.<br />
O Quadro 2 apresenta essa diferença em relação<br />
ao Índice <strong>de</strong> Apoio a Democracia, que<br />
se analisara com <strong>de</strong>talhe na seção seguinte.<br />
A não consi<strong>de</strong>ração da “não resposta”<br />
Des<strong>de</strong> o início da análise <strong>de</strong>cidiu-se não<br />
consi<strong>de</strong>rar a “ não resposta”. Os “não sabe” e<br />
“não respon<strong>de</strong>” foram unidos e <strong>de</strong>clarados<br />
quadro 1<br />
# casos<br />
Número <strong>de</strong> entrevistas ou tamanho da amostra 18.508<br />
não pon<strong>de</strong>rada (17 países)<br />
Tamanho da amostra pon<strong>de</strong>rada (17 Países) 18.501<br />
Tamanho da amostra pon<strong>de</strong>rada (18 países após a 19.501<br />
inclusão da República Dominicana)<br />
Tamanho da amostra pon<strong>de</strong>rada (18 países após a dupla 20.101<br />
pon<strong>de</strong>ração do Paraguai)<br />
6 Quando o estudo cobria 17 países, o tamanho da amostra consolidada era <strong>de</strong> 18.508 casos. Incluindo República<br />
Dominicana acrescentaram-se mais 1.000 registros.<br />
Nota técnica sobre os índices <strong>de</strong>rivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD) 223
como missing (valores faltantes). Isso também<br />
foi feito no cálculo das tendências em<br />
relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> no cálculo do Índice<br />
<strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD). Nesse caso,<br />
para efeitos <strong>de</strong> análise, é necessário suprimir<br />
a “não resposta”, para não serem levantadas<br />
hipóteses sobre as atitu<strong>de</strong>s das pessoas que<br />
se encontram nessa categoria.<br />
A <strong>de</strong>cisão adotada é conseqüente e consistente<br />
com o conteúdo total dos textos.<br />
Para realizar as análises multivariadas e a<br />
construção <strong>de</strong> índices complexos, a não<br />
consi<strong>de</strong>ração da “não resposta” como alternativa<br />
foi sistemática.<br />
Para evitar a indução ao erro da não consi<strong>de</strong>ração<br />
da “não resposta”, para todos os<br />
resultados inclui-se o tamanho da amostra<br />
em que estão baseados, ou amostra efetiva<br />
AMOSTRAS TOTAIS E AMOSTRAS VÁLIDAS PARA O ÍNDICE<br />
DE APOIO A DEMOCRACIA EMPREGADO NA ANÁLISE DO<br />
LATINOBARÔMETRO<br />
País Amostra total Índice <strong>de</strong> apoio<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
quadro 2<br />
Amostra válida* % não resposta*<br />
Argentina 1.200 964 19,7<br />
Bolívia 1.242 886 28,7<br />
Brasil 1.000 663 33,7<br />
Colômbia 1.200 768 36,0<br />
Costa Rica 1.006 808 19,7<br />
Chile 1.188 873 26,5<br />
Equador 1.200 938 21,8<br />
El Salvador 1.014 577 43,1<br />
Guatemala 1.000 703 29,7<br />
Honduras 1.005 747 25,7<br />
México 1.210 1.031 14,8<br />
Nicarágua 1.016 833 18,0<br />
Panamá 1.010 794 21,4<br />
Paraguai 1.200 1.011 15,8<br />
Peru 1.224 856 30,1<br />
Rep.Dominicana 1.000 909 9,1<br />
Uruguai 1.187 926 22,0<br />
Venezuela 1.200 928 22,7<br />
América Latina 20.101 15.217 24,3<br />
* Após o resgate <strong>de</strong> casos através dos procedimentos indicados nos seguintes documentos: Kikut,<br />
Gómez e Vargas Cullell, 2003ª; 2003; Vargas Cullell e Kikut, 2003.<br />
** Os valores para a região são diferentes da soma dos totais por país, isto é <strong>de</strong>vido a necessida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> arredondar os totales pon<strong>de</strong>rados, feito automaticamente pelo programa estatístico<br />
Fonte: Compêndio estatístico<br />
(“n” <strong>de</strong> respostas válidas). Dessa maneira,<br />
sempre é possível a reconstrução dos valores<br />
originais e a <strong>de</strong>dução do volume <strong>de</strong> “não<br />
resposta”.<br />
Apresentação <strong>de</strong> resultados<br />
No texto principal do Relatório, as<br />
porcentagens <strong>de</strong> quadros e gráficos são das<br />
amostras válidas e não das amostras totais.<br />
Em todos os casos, foi incluído o tamanho<br />
da amostra na qual se basearam, ou amostra<br />
efetiva, e por isso sempre é possível a reconstrução<br />
dos valores originais e <strong>de</strong>duzir assim<br />
o volume da não resposta.<br />
No caso dos quadros e gráficos referidos<br />
ao IAD e aos modos <strong>de</strong> participação dos<br />
cidadãos, a amostra válida inclui os casos<br />
resgatados através do procedimento <strong>de</strong>scrito<br />
no texto metodológico respectivo (Kikut,<br />
Gómez y Vargas, 2003: 13-16). São excluídos<br />
os valores que faltam, ou não resposta (não<br />
sabe e não respon<strong>de</strong>). A exclusão da “não<br />
resposta” dos resultados na análise dos<br />
dados é necessária com a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> não<br />
fazer suposições sobre as atitu<strong>de</strong>s das pessoas<br />
que se encaixaram nessa categoria e que<br />
po<strong>de</strong>riam ter influência sobre os resultados<br />
das análises multivariadas e na construção<br />
<strong>de</strong> índices.<br />
O método <strong>de</strong> medição do apoio<br />
cidadão à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> mais<br />
amplamente utilizado e suas<br />
fragilida<strong>de</strong>s<br />
Na pesquisa Latinobarômetro foi usada<br />
<strong>uma</strong> pergunta para acompanhar a lealda<strong>de</strong><br />
das cidadãs e dos cidadãos latino-americanos<br />
em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> 7 . A pergunta<br />
diz:<br />
Com qual das seguintes frases o(a)<br />
senhor(a) está mais <strong>de</strong> acordo<br />
1.A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é preferível a qualquer<br />
outra forma <strong>de</strong> governo.<br />
2.Em alg<strong>uma</strong>s circunstâncias, um go-<br />
7 Em círculos acadêmicos, políticos e jornalísticos essa pergunta é tratada como <strong>uma</strong> medida-resumo do apoio<br />
cidadão à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e, indiretamente, da “saú<strong>de</strong>” da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>; ano após ano seus resultados são observados<br />
com especial atenção.<br />
224 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
verno autoritário po<strong>de</strong> ser preferível a um<br />
<strong>de</strong>mocrático.<br />
3.Para pessoas como nós, dá no mesmo<br />
um regime <strong>de</strong>mocrático e um não <strong>de</strong>mocrático.<br />
Assim, as pessoas que escolhem a resposta<br />
1 (“a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é preferível”) são as<br />
que apóiam a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>; as que escolhem<br />
a resposta 2 são as que apoiariam sua substituição<br />
por um sistema autoritário e as que<br />
selecionam a resposta 3 têm um comportamento<br />
ambivalente, potencialmente problemático.<br />
Se, ao longo do tempo, a freqüência<br />
da resposta 1 aumenta, supõe-se que o apoio<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> aumenta; se diminui, o apoio<br />
<strong>de</strong>clina. A melhor situação para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
<strong>de</strong> um país seria aquela em que quase<br />
todos os entrevistados escolhem a resposta 1<br />
e, por outro lado, a pior seria aquela em que<br />
a maioria se inclina pela resposta 2.<br />
A pergunta – codificada na pesquisa Latinobarômetro<br />
com a chave P32ST - foi criticada<br />
como medida do apoio à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> 8<br />
(Seligson, 2000). Não obstante, é útil como<br />
ponto <strong>de</strong> entrada no tema, pois as pessoas<br />
adotam <strong>uma</strong> posição, prima facie, em relação<br />
à sua idéia <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Embora a<br />
pergunta P32ST seja um ponto <strong>de</strong> entrada<br />
útil, como medida-resumo inicial, para o<br />
tema da lealda<strong>de</strong> cidadã em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
isso não significa que, por si só, seja<br />
suficiente para um tratamento mais profundo<br />
do apoio cidadão, ou <strong>uma</strong> boa medida<br />
indireta da “saú<strong>de</strong>” da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Quando se relaciona a pergunta P32ST<br />
com outras que me<strong>de</strong>m o apoio ou a aceitação<br />
<strong>de</strong> regras <strong>de</strong>mocráticas, surgem resultados<br />
que, à primeira vista, po<strong>de</strong>m parecer<br />
inesperados ou simplesmente inconsistentes.<br />
Uma significativa proporção das pessoas<br />
que dizem apoiar a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong>monstra,<br />
PROPORÇÃO DE PESSOAS QUE APÓIAM A DEMOCRACIA COM RESPOSTAS<br />
“INESPERADAS” EM RELAÇÃO AO APOIO A MEIOS AUTORITÁRIOS PARA RESOLVER<br />
PROBLEMAS<br />
P32ST<br />
quadro 3<br />
Pergunta O(A) senhor(a) está <strong>de</strong> acordo... Porcentagem que apóia<br />
sistema <strong>de</strong>mocrático e<br />
que está <strong>de</strong> acordo com…<br />
P28UA Com que o presi<strong>de</strong>nte não se limite às leis 38.6<br />
P28UB Com que o presi<strong>de</strong>nte imponha or<strong>de</strong>m pela força 32.3<br />
P28UC Com que o presi<strong>de</strong>nte controle os meios <strong>de</strong> comunicação 32.4<br />
P28UD Com que o presi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong>ixe <strong>de</strong> lado o Congresso e os partidos 32.9<br />
P38STB Não me importaria que um governo não <strong>de</strong>mocrático chegasse 44.9<br />
ao po<strong>de</strong>r, se resolvesse os problemas do país<br />
Notas:<br />
Não foram incluídas respostas NS/NR.<br />
No caso das pessoas que manifestam apoiar um sistema <strong>de</strong>mocrático, foram somadas as respostas “em <strong>de</strong>sacordo” e “muito em<br />
<strong>de</strong>sacordo” com cada <strong>uma</strong> das afirmações.<br />
8 Seligson argumenta que, ao não especificar a idéia <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> que as pessoas possuem, a pergunta P32ST<br />
tem um componente <strong>de</strong> in<strong>de</strong>terminação. Propõe explorar o apoio ao sistema mediante <strong>uma</strong> bateria alternativa<br />
<strong>de</strong> perguntas (Seligson, 2000). Embora sua observação coloque a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> manter <strong>uma</strong> atitu<strong>de</strong> cautelosa<br />
na interpretação dos resultados, sua crítica não invalida necessariamente a pergunta como ponto <strong>de</strong> entrada para<br />
o exame do apoio cidadão à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. A <strong>de</strong>bilida<strong>de</strong> indicada por Seligson po<strong>de</strong> ser resolvida examinando a<br />
pergunta P32ST em relação a outras do mesmo Latinobarômetro, em particular às perguntas P30ST (“Para o(a)<br />
senhor(a), o que significa <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>”) e P31ST (“As pessoas, freqüentemente, diferem em seus pontos <strong>de</strong> vista<br />
sobre as características mais importantes da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Da lista, escolha só <strong>uma</strong> característica que para o(a)<br />
senhor(a) seja a mais essencial em <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>”).<br />
Nota técnica sobre os índices <strong>de</strong>rivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD) 225
PROPORÇÃO DE PESSOAS QUE APÓIAM A DEMOCRACIA COM RESPOSTAS<br />
“INESPERADAS” EM RELAÇÃO A SUA AVALIAÇÃO SOBRE A OPÇÃO ENTRE<br />
DEMOCRACIA E DESENVOLVIMENTO<br />
Pergunta 35ST<br />
Democracia mais importante 32.8<br />
Ambas por igual 20.7<br />
Desenvolvimento mais importante 46.4<br />
Pergunta 32ST<br />
quadro 4<br />
Porcentagem que apóia<br />
sistema <strong>de</strong>mocrático e que<br />
está <strong>de</strong> acordo com…<br />
Nota:<br />
Não foram incluídas respostas NS/NR.<br />
ao mesmo tempo, atitu<strong>de</strong>s contrárias ao<br />
funcionamento <strong>de</strong> instituições básicas da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
(como o Congresso e os partidos)<br />
e apóia a governantes que utilizarem meios<br />
autoritários para resolver os problemas do<br />
país. Respostas igualmente “inesperadas”<br />
surgem quando se examina o apoio <strong>de</strong>clarado<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> em relação a, por exemplo,<br />
a avaliação da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> como um bom<br />
sistema <strong>de</strong> governo, ou sua priorida<strong>de</strong> diante<br />
<strong>de</strong> outros valores socialmente relevantes,<br />
como na alternativa entre <strong>de</strong>senvolvimento<br />
e <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> (quadros 3 e 4).<br />
Ante essas respostas inesperadas, po<strong>de</strong>m<br />
ser adotadas, basicamente, duas posições.<br />
Por um lado, po<strong>de</strong>m ser empregadas como<br />
evidência para argumentar a veleida<strong>de</strong> do<br />
apoio <strong>de</strong>clarado a um regime. Se a preferência<br />
pela <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é apenas retórica, a<br />
pergunta P32ST como medida da lealda<strong>de</strong><br />
cidadã ao regime teria que ser <strong>de</strong>sprezada,<br />
<strong>de</strong>vido a seu escasso interesse analítico. Seria<br />
preciso, então, procurar outras variáveis que<br />
evi<strong>de</strong>nciem comportamentos mais estáveis.<br />
Na opinião <strong>de</strong>ste estudo, tal posição é equivocada.<br />
Implica não apenas assumir que as<br />
respostas inesperadas são sempre o reflexo<br />
<strong>de</strong> atitu<strong>de</strong>s inconsistentes, o que não é, necessariamente,<br />
verda<strong>de</strong>iro, mas também que<br />
o inesperado não faz parte do nosso estudo.<br />
Em sentido contrário à posição anterior,<br />
as respostas inesperadas po<strong>de</strong>m ser empregadas<br />
como ponto <strong>de</strong> partida para um<br />
estudo das lealda<strong>de</strong>s cidadãs à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Se esse fosse o caso, a pergunta P32ST, que<br />
indaga sobre o apoio “em geral” à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
<strong>de</strong>veria ser analisada em relação a outras<br />
perguntas que exploram dimensões mais<br />
concretas <strong>de</strong>sse apoio, com o objetivo <strong>de</strong> <strong>de</strong>terminar<br />
se as respostas “inesperadas” obe<strong>de</strong>cem<br />
a atitu<strong>de</strong>s meramente inconsistentes<br />
das cidadãs e dos cidadãos ou se, vistas em<br />
seu conjunto, revelam padrões <strong>de</strong> opinião.<br />
Em princípio, a idéia seria examinar se é<br />
possível distinguir os setores que consistentemente<br />
têm atitu<strong>de</strong>s <strong>de</strong>mocráticas, tanto<br />
em termos gerais quanto em assuntos específicos,<br />
daqueles que <strong>de</strong>monstram atitu<strong>de</strong>s<br />
pró-autoritárias. Esta segunda posição é a<br />
adotada no Relatório.<br />
Do ponto <strong>de</strong> vista indutivo, explorar a<br />
inter-relação entre variáveis coloca a necessida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> contar com um conceito que<br />
permita estudar se as atitu<strong>de</strong>s <strong>de</strong> apoio ou<br />
rejeição ao regime <strong>de</strong>mocrático configuram<br />
posições <strong>de</strong>terminadas. Este conceito <strong>de</strong>veria<br />
ser também <strong>uma</strong> ferramenta que -adaptando<br />
o enfoque <strong>de</strong> Linz- possibilitasse a<br />
análise da vulnerabilida<strong>de</strong> das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s<br />
latino-americanas. Para cumprir ambos os<br />
fins, <strong>de</strong>fine-se o conceito <strong>de</strong> “tendências em<br />
relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>”.<br />
Cabe colocar um último comentário<br />
sobre a fonte <strong>de</strong> informação disponível. O<br />
estudo das tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
na América Latina utiliza informação<br />
proveniente <strong>de</strong> <strong>uma</strong> pesquisa <strong>de</strong> opinião<br />
pública. Embora trate-se <strong>de</strong> um material va-<br />
226 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
lioso, <strong>de</strong>ve-se lembrar que, às vezes, as opiniões<br />
refletem apenas <strong>de</strong> maneira aproximada<br />
o pensamento das pessoas. Os indivíduos<br />
po<strong>de</strong>m encobrir seus verda<strong>de</strong>iros pontos<br />
<strong>de</strong> vista; as perguntas e escalas <strong>de</strong> medição<br />
po<strong>de</strong>m ter <strong>de</strong>feitos que impe<strong>de</strong>m cumprir o<br />
fim para o qual foram elaboradas e, mesmo<br />
quando as e os entrevistados respon<strong>de</strong>m<br />
com honestida<strong>de</strong> e as perguntas funcionam<br />
bem, o que as pessoas respon<strong>de</strong>m não reflete<br />
necessariamente os valores e as crenças que<br />
guiarão suas reações diante <strong>de</strong> situações<br />
concretas.<br />
II- O IAD e as tendências em relação<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
O Índice <strong>de</strong> apoio à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> (IAD),<br />
elaborado para o Relatório, é a medida-resumo<br />
para estudar o respaldo dos cidadãos<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> 9 . Combina os indicadores <strong>de</strong><br />
tamanho, ativismo político e distância das<br />
tendências para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. É a alternativa<br />
metodológica á análise <strong>de</strong>ste tema baseado<br />
na leitura <strong>de</strong> variáveis separadamente 10 .<br />
Essa seção inicia-se com <strong>uma</strong> <strong>de</strong>scrição do<br />
procedimento e provas aplicadas para <strong>de</strong>terminar<br />
essas tendências e <strong>de</strong>pois <strong>de</strong>screve o<br />
IAD e seus componentes.<br />
As tendências para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> são<br />
posições <strong>de</strong> apoio ou rejeição à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
i<strong>de</strong>ntificadas a partir <strong>de</strong> um conjunto <strong>de</strong> atitu<strong>de</strong>s<br />
sobre a preferência pela <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e<br />
a aceitação das normas em que está baseada.<br />
Este conceito – e os indicadores e índices<br />
elaborados pelo Relatório – surgem <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
adaptação da teoria <strong>de</strong> Juan Linz sobre a<br />
falência das <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s (Linz, 1978).Linz<br />
diz que, em relação com a permanência ou<br />
substituição <strong>de</strong> um regime <strong>de</strong>mocrático,<br />
po<strong>de</strong>m ser encontrados entre os cidadãos<br />
três posicionamentos: as forças políticas<br />
leais ao sistema; as <strong>de</strong>sleais, que procuram<br />
<strong>de</strong>rrubá-lo, e as semi-leais, que têm atitu<strong>de</strong>s<br />
ambivalentes e contraditórias. Estabelece,<br />
também, as condições propícias para a quebra<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>; afirma que <strong>uma</strong> crise do<br />
regime <strong>de</strong>rruba <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> quando os<br />
<strong>de</strong>sleais são capazes <strong>de</strong> atrair para as suas<br />
posições os semi-<strong>de</strong>sleais. As tendências<br />
para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> conservam o significado<br />
dos posicionamentos <strong>de</strong> Linz (leal, semi-leal<br />
e <strong>de</strong>sleal). Para facilitar o entendimento da<br />
análise, por parte dos leitores não especializados,<br />
as tendências foram rebatizadas da<br />
seguinte maneira: os leais foram chamados<br />
“<strong>de</strong>mocratas”; os semi-leais, “ambivalentes”<br />
e os <strong>de</strong>sleais, “não-<strong>de</strong>mocratas”.<br />
A análise das tendências procura respon<strong>de</strong>r<br />
as seguintes perguntas: existe entre os<br />
cidadãos latino-americanos <strong>uma</strong> corrente<br />
<strong>de</strong> opinião contrária à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, que<br />
po<strong>de</strong> constituir base <strong>de</strong> apoio social <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
força política “<strong>de</strong>sleal” Qual é a extensão<br />
<strong>de</strong>ssa corrente <strong>de</strong> opinião frente à que apóia<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> Quem são os mais ativos na<br />
vida política do país: os que se opõem ao sistema<br />
ou os que o apóiam Qual a dimensão<br />
do segmento com atitu<strong>de</strong>s ambivalentes<br />
Do ponto <strong>de</strong> vista <strong>de</strong> suas atitu<strong>de</strong>s, estão os<br />
ambivalentes mais perto dos que se opõem<br />
ao sistema Como varia o tamanho da base<br />
social <strong>de</strong>stas correntes <strong>de</strong> opinião<br />
O conceito <strong>de</strong> tendências para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
não é, porém, idêntico ao dos posicionamentos<br />
políticos <strong>de</strong> Linz. Em primeiro<br />
lugar, Linz estuda situações históricas para<br />
tirar daí <strong>uma</strong> teoria comparativa. As tendências<br />
são <strong>uma</strong> ferramenta para chegar perto<br />
do tema da vulnerabilida<strong>de</strong> da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
diante da eventualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>uma</strong> crise do<br />
regime, e estuda o apoio que os cidadãos<br />
9 Na elaboração do IAD foi buscada a coerência com o conceito amplo <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong>fendido pelo Relatório (a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é muito mais que um regime político). De fato, as perguntas consi<strong>de</strong>radas para <strong>de</strong>terminar as tendências<br />
das pessoas sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, que é a base do IAD, incluem tanto atitu<strong>de</strong>s sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> como regime<br />
político e suas instituições políticas representativas, fazendo referência, segundo Mazzuca, à dimensão do exercício<br />
do po<strong>de</strong>r, como sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> além do regime político ou dimensão do exercício do po<strong>de</strong>r.<br />
A leitura <strong>de</strong> freqüências simples <strong>de</strong> variáveis foi o ponto <strong>de</strong> entrada para a análise, mas não são seu fundamento.<br />
Toda pergunta <strong>de</strong>ve ser contextualizada, examinada em relação a outras, para ter <strong>uma</strong> melhor aproximação ao<br />
significado dos dados. Do contrário, há o risco <strong>de</strong> formular interpretações baseadas na “espetacularida<strong>de</strong>” ou a<br />
conveniência <strong>de</strong> um dado. Evitar esse risco é justamente um dos propósitos da análise das tendências.<br />
Nota técnica sobre os índices <strong>de</strong>rivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD) 227
ONZE PERGUNTAS EMPREGADAS PARA IDENTIFICAR AS TENDÊNCIAS EM<br />
RELAÇÃO À DEMOCRACIA<br />
quadro 5<br />
Pergunta p32st:<br />
Com qual das seguintes frases o/a senhor(a) está mais <strong>de</strong> acordo<br />
“A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é preferível a qualquer outra forma <strong>de</strong> governo ”,“Em alg<strong>uma</strong>s<br />
circunstâncias, um governo autoritário po<strong>de</strong> ser preferível a um <strong>de</strong>mocrático<br />
”,“Para pessoas como nós, dá na mesma um regime <strong>de</strong>mocrático que um não<br />
<strong>de</strong>mocrático ”.<br />
Pergunta p35st:<br />
Se o/a senhor(a) tivesse que escolher entre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e o <strong>de</strong>senvolvimento<br />
econômico, qual diria que é o mais importante<br />
Pergunta p37no2: O/A senhor(a) acha que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é indispensável como sistema <strong>de</strong><br />
governo para que este país possa ser um país <strong>de</strong>senvolvido, ou O/A senhor(a)<br />
acha que não é indispensável; é possível chegar a ser um país <strong>de</strong>senvolvido<br />
com outro sistema <strong>de</strong> governo que não seja a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Pergunta p38stb:<br />
Está totalmente <strong>de</strong> acordo, <strong>de</strong> acordo, em <strong>de</strong>sacordo ou totalmente em<br />
<strong>de</strong>sacordo com a seguinte afirmação: “Não me importaria que um governo não<br />
<strong>de</strong>mocrático chegasse ao po<strong>de</strong>r, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que pu<strong>de</strong>sse resolver os problemas<br />
econômicos”.<br />
Pergunta p39st:<br />
Alg<strong>uma</strong>s pessoas dizem que sem Congresso Nacional não po<strong>de</strong> haver<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, enquanto outras dizem que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> po<strong>de</strong> funcionar sem<br />
Congresso Nacional. Qual frase está mais próxima <strong>de</strong> sua maneira <strong>de</strong> pensar<br />
Pergunta p40st:<br />
Alg<strong>uma</strong>s pessoas dizem que sem partidos políticos não po<strong>de</strong> haver<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, enquanto outras dizem que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> po<strong>de</strong> funcionar sem<br />
partidos. Qual <strong>de</strong>ssas frases está mais próxima <strong>de</strong> sua maneira <strong>de</strong> pensar<br />
Pergunta p41st:<br />
Alg<strong>uma</strong>s pessoas dizem que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> permite que os problemas que<br />
temos no país sejam solucionados. Outras pessoas dizem que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
não soluciona os problemas. Qual <strong>de</strong>ssas frases está mais próxima <strong>de</strong> sua<br />
maneira <strong>de</strong> pensar<br />
Pergunta p28ua:<br />
Se o país estiver em sérias dificulda<strong>de</strong>s, está totalmente <strong>de</strong> acordo, <strong>de</strong> acordo,<br />
em <strong>de</strong>sacordo ou totalmente em <strong>de</strong>sacordo com que o presi<strong>de</strong>nte …“não se<br />
limite ao que dizem as leis ”<br />
Pergunta p28ub:<br />
Se o país estiver em sérias dificulda<strong>de</strong>s, está totalmente <strong>de</strong> acordo, <strong>de</strong> acordo,<br />
em <strong>de</strong>sacordo ou totalmente em <strong>de</strong>sacordo com que o presi<strong>de</strong>nte …“imponha<br />
or<strong>de</strong>m por meio da força ”<br />
Pergunta p28uc:<br />
Se o país estiver em sérias dificulda<strong>de</strong>s, está totalmente <strong>de</strong> acordo, <strong>de</strong> acordo,<br />
em <strong>de</strong>sacordo ou totalmente em <strong>de</strong>sacordo com que o presi<strong>de</strong>nte …“controle<br />
os meios <strong>de</strong> comunicação ”<br />
Pergunta p28ud:<br />
Se o país estiver em sérias dificulda<strong>de</strong>s, está totalmente <strong>de</strong> acordo, <strong>de</strong> acordo,<br />
em <strong>de</strong>sacordo ou totalmente em <strong>de</strong>sacordo com que o presi<strong>de</strong>nte …“<strong>de</strong>ixe <strong>de</strong><br />
lado o Congresso e os partidos ”<br />
Fonte: Latinobarômetro 2002.<br />
228 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
lhe dão. Em segundo lugar, as tendências<br />
i<strong>de</strong>ntificam os padrões <strong>de</strong> atitu<strong>de</strong>s dos cidadãos<br />
e das cidadãs, mas não possibilitam<br />
<strong>uma</strong> observação direta do comportamento<br />
<strong>de</strong>sses atores.<br />
O ponto <strong>de</strong> partida para a i<strong>de</strong>ntificação<br />
das tendências para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> foi a revisão<br />
do questionário do Latinobarômetro<br />
2002. Foram aplicadas sucessivas análises<br />
fatoriais a um amplo conjunto <strong>de</strong> perguntas<br />
para medir, em princípio, atitu<strong>de</strong>s sobre a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, o <strong>de</strong>senvolvimento, os valores<br />
e a confiança interpessoal. O propósito foi<br />
i<strong>de</strong>ntificar as perguntas diretamente relacionadas<br />
com o tema das atitu<strong>de</strong>s <strong>de</strong> apoio à<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> 11 . Esse processo permitiu selecionar<br />
onze perguntas (quadro 5).<br />
Em todas as análises, as perguntas<br />
selecionadas foram agrupadas consistentemente<br />
em três fatores (Quadro 6). O fator<br />
1 forma a dimensão <strong>de</strong> atitu<strong>de</strong>s <strong>de</strong>legativas.<br />
Explica um 23.5% <strong>de</strong> variância. O fator 2<br />
compõe a dimensão <strong>de</strong> apoio à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
como sistema <strong>de</strong> governo (16.5% da<br />
variância), e o fator 3 está localizado em<br />
<strong>uma</strong> dimensão <strong>de</strong> apoio a instituições da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> representativa (13.8% da variância).<br />
A variância explicada acumulada<br />
foi <strong>de</strong> 53.8% 12 . As provas <strong>de</strong> confiabilida<strong>de</strong><br />
mostraram que não era conveniente usar<br />
índices <strong>de</strong> adição <strong>de</strong>rivados das dimensões<br />
geradas pela análise fatorial, e por isso foi<br />
usado <strong>de</strong> maneira in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte com cada<br />
<strong>uma</strong> das variáveis.<br />
A técnica selecionada para <strong>de</strong>terminar a<br />
localização dos entrevistados e entrevistadas<br />
em <strong>uma</strong> ou outra tendência para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>,<br />
foi a análise <strong>de</strong> conglomerados e clusters.<br />
quadro 6<br />
CARGAS FATORIAIS PARA ONZE PERGUNTAS DE INTERESSE NA DETERMINAÇÃO<br />
DE TENDÊNCIAS PARA A DEMOCRACIA.<br />
Dimensão Pergunta Fator 1 Fator 2 Fator 3<br />
Atitu<strong>de</strong>s Presi<strong>de</strong>nte além das leis 0.74<br />
<strong>de</strong>legativas Presi<strong>de</strong>nte imponha or<strong>de</strong>m pela força 0.81<br />
Presi<strong>de</strong>nte controle a mídia 0.80<br />
Presi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong>ixe <strong>de</strong> lado partidos e Congresso 0.77<br />
Apoio à Preferência por <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> 0.67<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> como Democracia ou <strong>de</strong>senvolvimento 0.58<br />
sistema <strong>de</strong> governo Democracia indispensável para <strong>de</strong>senvolvimento 0.69<br />
Não importa governo autoritário se resolver 0.48<br />
problemas<br />
Democracia soluciona problemas 0.57<br />
Apoio a Democracia sem Congresso 0.84<br />
instituições Democracia sem partidos 0.85<br />
representativas<br />
Variância explicada 23.5% 16.5% 13.8%<br />
Nota: Estão incluídas apenas cargas fatoriais maiores <strong>de</strong> 0.450.<br />
Fonte: Elaboração própria com base no Latinobarômetro 2002.<br />
11 O coeficiente <strong>de</strong> Kaiser-Meyer-Olkin <strong>de</strong> a<strong>de</strong>quação da amostra para as onze variáveis foi <strong>de</strong> 0,77, consi<strong>de</strong>rado<br />
apropriado para sua utilização em <strong>uma</strong> análise fatorial .<br />
12 A agrupação das onze variáveis <strong>de</strong> interesse nos três fatores indicados cumpre com o método Kaiser-Guttman<br />
(“eigenvalores” maiores que um), se bem que a variância explicada por eles não é particularmente alta. São<br />
<strong>de</strong>terminadas as porcentagens obtidas no fatorial aplicado com as variáveis <strong>de</strong> interesse –sem incluir o resto das<br />
variáveis inicialmente consi<strong>de</strong>radas.<br />
Nota técnica sobre os índices <strong>de</strong>rivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD) 229
Essa é <strong>uma</strong> ferramenta exploratória utilizada<br />
com a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> resolver problemas<br />
<strong>de</strong> classificação, já que contribui para revelar<br />
associações e estruturas presentes nos dados<br />
que não são observáveis previamente. Seu<br />
objetivo é atribuir os casos a grupos, <strong>de</strong>nominados<br />
clusters, <strong>de</strong> forma que os membros<br />
<strong>de</strong> um mesmo grupo sejam similares entre<br />
si quanto às características selecionadas,<br />
enquanto que os membros <strong>de</strong> diferentes<br />
grupos sejam relativamente diferentes.<br />
A análise <strong>de</strong> conglomerados po<strong>de</strong> ser<br />
realizada <strong>de</strong> diversas maneiras, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo<br />
da medida <strong>de</strong> similarida<strong>de</strong> e do método<br />
empregado. Neste caso, <strong>de</strong>vido à magnitu<strong>de</strong><br />
da base <strong>de</strong> dados disponível, foi calculada a<br />
distância euclidiana como medida <strong>de</strong> similarida<strong>de</strong><br />
e foi utilizado o método <strong>de</strong> partição<br />
<strong>de</strong> k-médias. Este procedimento requer que<br />
o pesquisador <strong>de</strong>termine a priori o número<br />
(k) <strong>de</strong> conglomerados que <strong>de</strong>seja obter 13 a<br />
teoria <strong>de</strong> Linz permitiu <strong>de</strong>finir k = 3. Em<br />
geral, é <strong>de</strong>sejável fundamentar o número<br />
<strong>de</strong> conglomerados em <strong>uma</strong> teoria existente,<br />
porque isso permite <strong>de</strong>screver cada um <strong>de</strong>les<br />
e, especialmente, contar com elementos <strong>de</strong><br />
juizo para enten<strong>de</strong>r suas implicações.<br />
O método selecionado <strong>de</strong> k-médias <strong>de</strong>ve<br />
estar orientado para a classificação <strong>de</strong> variáveis<br />
quantitativas. As onze perguntas utilizadas<br />
na <strong>de</strong>terminação das tendências para a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> têm <strong>uma</strong> escala <strong>de</strong> medição que<br />
não chega a alcançar o nível <strong>de</strong> intervalo.<br />
Entretanto, todas elas evi<strong>de</strong>nciam <strong>uma</strong> clara<br />
direcionalida<strong>de</strong> relacionada com a atitu<strong>de</strong><br />
para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> das pessoas entrevistadas.<br />
Por isso, julgou-se apropriado empregar este<br />
método. Com essa finalida<strong>de</strong>, as variáveis foram<br />
recodificadas para dar às suas escalas <strong>de</strong><br />
medição um mesmo nível e direção. Poste-<br />
CENTRÓIDES OBTIDOS PARA CADA UMA DAS VARIÁVEIS RELACIONADAS COM DEMOCRACIA, POR<br />
CLUSTER IDENTIFICADO<br />
quadro 7<br />
Dimensão Pergunta Centrói<strong>de</strong>s padronizados Centrói<strong>de</strong>s sem padronizar<br />
Cluster 1 Cluster 2 Cluster 3 Cluster 1 Cluster 2 Cluster 3<br />
Positivo Central Negativo Positivo Central Negativo<br />
Atitu<strong>de</strong>s Presi<strong>de</strong>nte além <strong>de</strong> leis .511 -0.707 -0.004 3.09 2.01 2.63<br />
<strong>de</strong>legativas Presi<strong>de</strong>nte imponha or<strong>de</strong>m pela força .609 -0.816 -0.010 3.25 1.97 2.68<br />
Presi<strong>de</strong>nte controle a mídia .582 -0.812 0.037 3.26 2.01 2.77<br />
Presi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong>ixe <strong>de</strong> lado partidos e Congresso .612 -0.755 -0.107 3.25 1.99 2.58<br />
Apoio à Preferência por <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> .464 0.080 -0.772 3.72 3.28 2.29<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> Democracia ou <strong>de</strong>senvolvimento .345 -0.017 -0.438 2.47 2.00 1.47<br />
como sistema Democracia indispensável para <strong>de</strong>senvolvimento .455 0.383 -1.090 3.83 3.75 1.78<br />
<strong>de</strong> governo Não importa governo autoritário se .514 -0.268 -0.416 2.88 2.17 2.02<br />
resolver problemas<br />
Democracia soluciona problemas .274 0.326 -0.691 3.07 3.15 1.64<br />
Apoio a instituições Democracia sem Congresso .379 0.006 -0.595 3.38 2.87 1.98<br />
representativas Democracia sem partidos .372 0.029 -0.572 3.32 2.85 1.94<br />
Nota: em todas as variáveis, o nível da escala é <strong>de</strong> 1 (atitu<strong>de</strong> mais contrária à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>) e 4 (atitu<strong>de</strong> mais favorável à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>). As perguntas da dimensão do apoio<br />
a instituições representativas são binárias e isso lhes diminui po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> discriminação.<br />
13 O algoritmo <strong>de</strong> análise <strong>de</strong> clusters encontrará grupos <strong>uma</strong> vez que tenham sido <strong>de</strong>finidas as variáveis que<br />
entrarão em jogo e se tenha estabelecido a instrução do número <strong>de</strong> clusters que se <strong>de</strong>seja obter. É importante,<br />
então, contar con um mo<strong>de</strong>lo que respal<strong>de</strong> a i<strong>de</strong>ntificação <strong>de</strong>sses grupos e <strong>de</strong>pois validar seus resultados teórica e<br />
empiricamente, <strong>de</strong> acordo com as características dos indivíduos atribuídos a cada um <strong>de</strong>les.<br />
230 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
iormente, as respostas recodificadas foram<br />
aplicadas na análise <strong>de</strong> conglomerados 14 .<br />
As provas <strong>de</strong> estabilida<strong>de</strong> e confiabilida<strong>de</strong><br />
dos clusters <strong>de</strong>ram resultados satisfatórios.<br />
Por <strong>uma</strong> parte, diferentes or<strong>de</strong>ns da base <strong>de</strong><br />
dados <strong>de</strong>ram variações muito pequenas nos<br />
centrói<strong>de</strong>s das onze variáveis: 50% tinham<br />
<strong>de</strong>svios padrão menores que 0,03. Por outra<br />
parte, para assegurar que os resultados<br />
sejam confiáveis, foi estimada a média <strong>de</strong><br />
42 resultados, com a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> utilizar<br />
essa informação como os “centrói<strong>de</strong>s” iniciais<br />
que se proporcionam ao algoritmo da<br />
análise <strong>de</strong> conglomerados 15 . Além disso, foi<br />
<strong>de</strong>senhada <strong>uma</strong> metodologia para resgatar<br />
os casos com <strong>uma</strong> ou duas respostas que<br />
faltavam, o que permitiu elevar <strong>de</strong> 12.020<br />
a 14.308 os casos habilitados para o estudo<br />
(74,9% da amostra total).<br />
O cluster 1 é consistentemente positivo<br />
em seus valores padronizados, por isso po<strong>de</strong>mos<br />
dizer que os indivíduos localizados<br />
neste grupo têm <strong>uma</strong> tendência <strong>de</strong>mocrata.<br />
O cluster 2 po<strong>de</strong> consi<strong>de</strong>rar*se como <strong>de</strong> pessoas<br />
ambivalentes, pois ten<strong>de</strong> a apresentar<br />
valores positivos nas dimensões <strong>de</strong> apoio<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e <strong>de</strong> apoio às instituições da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> representativa, mas valores<br />
negativos na dimensão <strong>de</strong> atitu<strong>de</strong>s <strong>de</strong>legativas.<br />
Por último, o cluster 3 apresenta<br />
centrói<strong>de</strong>s negativos em <strong>de</strong>z das variáveis,<br />
sendo o único valor positivo muito próximo<br />
<strong>de</strong> zero, por isso po<strong>de</strong>mos afirmar que<br />
as cidadãs e os cidadãos classificados neste<br />
grupo têm <strong>uma</strong> tendência não-<strong>de</strong>mocrata<br />
(Quadro 7).<br />
Com o propósito <strong>de</strong> verificar a importância<br />
das diferenças das médias dos conglomerados<br />
nas variáveis empregadas para <strong>de</strong>fini-los,<br />
foi usada <strong>uma</strong> análise <strong>de</strong> variância<br />
por cluster. Foi feito um estudo post hoc com<br />
a prova <strong>de</strong> Scheffé a 5% <strong>de</strong> significância 16 . O<br />
resultado foi que as diferenças são significativas<br />
para as onze variáveis nos três conglomerados.<br />
Isto é, todas as perguntas incluídas<br />
na análise são úteis para diferenciar os três<br />
grupos.<br />
O agrupamento da análise <strong>de</strong> conglomerados<br />
foi validado por meio da análise<br />
discriminante. Com este objetivo, tomouse<br />
<strong>uma</strong> amostra aleatória <strong>de</strong> aproximadamente<br />
30% dos dados, à qual foi dada informação<br />
sobre os grupos <strong>de</strong> pertinência dos<br />
casos, <strong>de</strong> acordo com o obtido nos clusters.<br />
Com base nisso, foram obtidas as funções<br />
discriminantes, as quais foram aplicadas<br />
aos <strong>de</strong>mais 70% dos casos para <strong>de</strong>terminar<br />
em que grupos se localizariam. Em 30%<br />
da amostra utilizada, 93,4% dos dados<br />
foram localizados corretamente no grupo<br />
<strong>de</strong>signado pela análise <strong>de</strong> conglomerados<br />
baseada nas funções discriminantes geradas.<br />
Em 70% dos dados empregados para<br />
validação, obteve-se que 92,6% dos casos<br />
foram atribuídos corretamente. Foi obtida<br />
<strong>uma</strong> atribuição certeira da amostra global<br />
<strong>de</strong> 92,9%. Po<strong>de</strong>-se dizer que tal percentual<br />
é alto e <strong>de</strong>termina a valida<strong>de</strong> da agrupação<br />
14 Zhexue Huang (1997) indica que “o procedimiento habitual <strong>de</strong> converter dados categóricos em valores<br />
numéricos não necessariamente produz resultados interpretáveis naqueles casos em que os domínios categóricos<br />
não estão or<strong>de</strong>nados”. Porém, tal como se ha mencionado, neste caso os dados têm um sentido e, como veremos<br />
posteriormente, os resultados são relevantes.<br />
15 É importante indicar que, <strong>uma</strong> vez introducidos os centroi<strong>de</strong>s iniciais, o resultado da análise <strong>de</strong> clusters não<br />
varia diante <strong>de</strong> diferentes or<strong>de</strong>ns da base <strong>de</strong> dados.<br />
16 Quando, ao fazer <strong>uma</strong> análise <strong>de</strong> variância, se rejeita a hipôtese nula, se aceita que pelo menos <strong>uma</strong> das<br />
médias dos grupos é diferente. Para conhecer a relação entre essas médias e <strong>de</strong>terminar qual o quais são<br />
diferentes e quais são iguais entre si, se utilizam os procedimentos post hoc. Este tipo <strong>de</strong> técnica é empregada<br />
para provar as diferentes entre os dados comparando todos os possíveis pares <strong>de</strong> médias, com a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>terminar aquelas que são diferentes.<br />
Existe <strong>uma</strong> ampla varieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> provas post hoc. A proposta por Scheffé é útil para provar a significancia <strong>de</strong> todos<br />
os possíveis pares <strong>de</strong> médias e é a recomendada quando se compara grupos com diferente número <strong>de</strong> casos,<br />
como ocorre neste exercício (Steel e Torrie, 1996).<br />
Nota técnica sobre os índices <strong>de</strong>rivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD)<br />
231
feita pela análise <strong>de</strong> conglomerados 17 .<br />
As três dimensões do IAD<br />
O Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD) é<br />
<strong>uma</strong> medida-resumo do apoio dos cidadãos<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. É elaborado a partir da atribuição<br />
das pessoas a cada um dos clusters<br />
que i<strong>de</strong>ntificam as três tendências em relação<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Combina três dimensões<br />
que respon<strong>de</strong>m às seguintes questões:<br />
■ Qual é o tamanho <strong>de</strong> cada <strong>uma</strong> das<br />
tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na<br />
cidadania. A melhor situação para <strong>uma</strong><br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é aquela em que a tendência<br />
<strong>de</strong>mocrata agrupa a maioria dos cidadãos e<br />
das cidadãs.<br />
■ Qual é o grau <strong>de</strong> ativismo político das<br />
tendências A melhor situação para <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
é aquela em que a orientação <strong>de</strong>mocrata<br />
é não apenas a <strong>de</strong> maior tamanho,<br />
mas, também, a mais ativa.<br />
■ Qual é a distância ou a magnitu<strong>de</strong> das<br />
diferenças <strong>de</strong> opinião entre as tendências. O<br />
ponto crítico é <strong>de</strong>terminar se, em termos<br />
gerais, os ambivalentes estão mais perto da<br />
tendência <strong>de</strong>mocrata ou da não-<strong>de</strong>mocrata.<br />
A melhor situação é aquela em que a distância<br />
entre os ambivalentes e os <strong>de</strong>mocratas é<br />
bem menor do que a existente entre os primeiros<br />
e os não-<strong>de</strong>mocratas.<br />
Os indicadores e índices <strong>de</strong> apoio dos<br />
PROCEDIMENTO APLICADO PARA DETERMINAR OS MODOS DE PARTICIPAÇÃO<br />
CIDADÃ<br />
quadro 8<br />
Dimensão<br />
Descrição<br />
Participação eleitoral PE 0 = Não vota<br />
1 = Vota<br />
Participação social PSO 0 Não colabora<br />
1 Colabora em ao menos 1 ativida<strong>de</strong><br />
Participação contatando autorida<strong>de</strong>s PCO 0 = Não contata<br />
1 = Contata ao menos a 1 autorida<strong>de</strong><br />
Participação em manifestações coletivas PMC 0 = Não participa<br />
1 = Participa em ao menos 1 manifestação<br />
coletiva<br />
Participação violenta PVI 0 = Não participa<br />
1 = Participa em ao menos 1 ato violento,<br />
in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente <strong>de</strong> 0<br />
ou 1 no resto<br />
Essas dimensões não po<strong>de</strong>m ser hierarquizadas sem recorrer a premissas adicionais. Os números 0 e 1 são empregados para<br />
<strong>de</strong>notar a presença ou ausência <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>.<br />
cidadãos são escalas <strong>de</strong> intervalo. Não têm<br />
zero absoluto; os valores expressam <strong>uma</strong><br />
maior ou menor proximida<strong>de</strong> em relação<br />
a <strong>uma</strong> situação, mas não expressam proporções.<br />
Por serem ferramentas em processo <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>puração, não há critérios para categorizálas<br />
e criar escalas <strong>de</strong> intensida<strong>de</strong>.<br />
17 A totalida<strong>de</strong> dos casos usados pela análise discriminante se reduz até 12.020 pessoas que respon<strong>de</strong>ram as<br />
onze perguntas <strong>de</strong> interesse , pelo que esta análise se materializa unicamente com aqueles casos que têm toda a<br />
informação. Não se esperariam gran<strong>de</strong>s diferenças na situação daqueles dados “resgatados” por ter <strong>uma</strong> ou duas<br />
perguntas sem resposta, em virtu<strong>de</strong> <strong>de</strong> se haver comprovado que o perfil <strong>de</strong>sses indivíduos não difere muito do<br />
das pessoas para as quais se tinham valores para as onze variáveis relevantes.<br />
232 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Primeira dimensão: tamanho <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
tendência<br />
Por tamanho <strong>de</strong> <strong>uma</strong> tendência em relação<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, enten<strong>de</strong>-se a quantida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> pessoas que pertencem a um cluster. Para<br />
medir essa dimensão, o IAD emprega o indicador<br />
<strong>de</strong> proporção <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocratas com<br />
relação aos não-<strong>de</strong>mocratas 18 . Este indicador<br />
ilustra <strong>uma</strong> situação crítica: se, mesmo<br />
sendo minoria, a tendência <strong>de</strong>mocrata é ou<br />
não <strong>de</strong> maior tamanho que a não-<strong>de</strong>mocrata,<br />
sua adversária “natural” 19 .<br />
CLASSIFICAÇÃO DE MODOS DE PARTICIPAÇÃO CIDADÃ<br />
Nome<br />
Não faz nada<br />
Só vota<br />
Vota e colabora<br />
Só ação política<br />
Vota e ação política<br />
Colabora e ação política<br />
Vota, colabora e ação política<br />
Participação violenta<br />
quadro 9<br />
Descrição<br />
Tem 0 em todas as dimensões <strong>de</strong><br />
participação cidadã<br />
1 em PEL e 0 em PSO, PCO e PMC<br />
1 em PEL e PSO; 0 em PCO e PMC.<br />
1 em PCO e PMC; 0 em PEL e PSO<br />
1 em PEL, PCO e PMC; 0 em PSO<br />
1 em PSO, PCO e PMC; 0 em PEL<br />
1 em todas as dimensões <strong>de</strong><br />
participação cidadã<br />
Qualquer combinação em que a<br />
participação violenta for 1<br />
(1) Proporção <strong>de</strong>mocratas para<br />
não-<strong>de</strong>mocratas = Qd / Qnd<br />
on<strong>de</strong> Qd = número <strong>de</strong> pessoas com tendência<br />
<strong>de</strong>mocrata; Qnd = número <strong>de</strong> pessoas<br />
com tendência não-<strong>de</strong>mocrata.<br />
Quando em um país ou sub-região os<br />
<strong>de</strong>mocratas são mais numerosos que os não<strong>de</strong>mocratas<br />
– <strong>uma</strong> condição minimamente<br />
<strong>de</strong>sejável – o indicador assume um valor<br />
superior a 1. A pior situação ocorre quando<br />
esses indicadores têm um valor inferior a<br />
1 e próximo <strong>de</strong> 0. Existem, por outro lado,<br />
diversas situações <strong>de</strong> equilíbrio político que<br />
apresentam valores próximos <strong>de</strong> 1.<br />
Segunda dimensão: ativismo político<br />
das tendências<br />
Por ativismo <strong>de</strong> <strong>uma</strong> tendência em relação<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, enten<strong>de</strong>-se a proporção<br />
<strong>de</strong> seus membros que participa ativamente<br />
na vida política do país. Uma tendência é<br />
mais ativa quanto maior for a proporção dos<br />
cidadãos participativos que a compõem.<br />
Nessa dimensão, foi aplicado um procedimento<br />
composto <strong>de</strong> dois passos. O primeiro<br />
é a <strong>de</strong>terminação do ativismo político <strong>de</strong><br />
cada tendência. O IAD toma essa informação<br />
da variável “Modo <strong>de</strong> participação dos<br />
cidadãos” (MPC). Essa variável distingue os<br />
diferentes tipos <strong>de</strong> intervenção das pessoas<br />
na vida social e política <strong>de</strong> um país e permite<br />
elaborar diversas classificações conforme<br />
o interesse do pesquisador.<br />
Os “Modos <strong>de</strong> participação dos cidadãos”<br />
(MPC) são os tipos <strong>de</strong> intervenção<br />
que os cidadãos e cidadãs praticam na<br />
vida social e política. Um modo <strong>de</strong>screve<br />
um perfil característico <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
um cidadão. Reconstrói-se examinando as<br />
coisas que as pessoas fazem nas diversas dimensões<br />
<strong>de</strong> participação cidadã. Esta é <strong>uma</strong><br />
classificação nominal cujas categorias não<br />
foram planejadas pensando em or<strong>de</strong>ná-las<br />
com base em um critério que permita hierarquizá-las;<br />
Dessa forma, a or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> sua<br />
18 Existem outros dois indicadores <strong>de</strong> tamanho cujos resultados são comentados no Relatório, mas que<br />
não foram empregados pelo IAD. O primeiro é o indicador <strong>de</strong> maioria <strong>de</strong>mocrática. Este indicador indica a<br />
proporção <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocratas em relação ao resto (ambivalentes e não-<strong>de</strong>mocratas) e <strong>de</strong>termina se os <strong>de</strong>mocratas<br />
constituem ou não <strong>uma</strong> maioria. O indicador é igual ou maior que 1 quando a proporção <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocratas é igual<br />
ou superior a 50% da cidadania. O segundo indicador é o tamanho relativo da tendência <strong>de</strong>mocrata em relação<br />
à tendência ambivalente. Quando tem valores maiores que 1, indica que os <strong>de</strong>mocratas são mais numerosos que<br />
os ambivalentes.<br />
19 Esta idéia foi adotada da análise financeira, na qual existe um indicador <strong>de</strong>nominado “prova ácida”. Este<br />
<strong>de</strong>termina, em curto prazo, a vulnerabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>uma</strong> empresa, ou seja, se ela tem capacida<strong>de</strong> para pagar suas<br />
dívidas <strong>de</strong> curto prazo. É <strong>de</strong>finida como a razão entre o ativo circulante e o passivo circulante.<br />
Nota técnica sobre os índices <strong>de</strong>rivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD) 233
apresentação expressa a aplicação flexível <strong>de</strong><br />
certos critérios 20 .<br />
Classificação <strong>de</strong> modos <strong>de</strong><br />
participação cidadã<br />
Desta maneira, Foram diferenciados 8<br />
modos <strong>de</strong> participação cidadã. Ver quadro 9.<br />
(2)Ativismo (OX) = (QmpcX)/QX<br />
on<strong>de</strong>: QmpcX = número <strong>de</strong> pessoas da<br />
tendência “X” que exercem a participação<br />
política além do voto: modos <strong>de</strong> participação<br />
dos cidadãos on<strong>de</strong> há estabelecimento<br />
<strong>de</strong> contatos com autorida<strong>de</strong>s e participação<br />
em manifestações públicas; Qx = número <strong>de</strong><br />
pessoas que apóiam a tendência “X”. X po<strong>de</strong><br />
ser a tendência <strong>de</strong>mocrata, a ambivalente ou<br />
a não-<strong>de</strong>mocrata.<br />
O segundo passo é comparar o ativismo<br />
das tendências adversárias – <strong>de</strong>mocrata e<br />
não-<strong>de</strong>mocrata – e saber qual <strong>de</strong>las é a mais<br />
ativa. Esse indicador, <strong>de</strong>nominado “ativismo<br />
<strong>de</strong>mocrático” (AC), é o utilizado para o IAD.<br />
É obtido dividindo o ativismo da tendência<br />
<strong>de</strong>mocrata pelo ativismo da tendência não<strong>de</strong>mocrata.<br />
(3)AC = ativismo D/ativismo ND<br />
on<strong>de</strong>:AC = ativismo <strong>de</strong>mocrático, D =<br />
<strong>de</strong>mocratas, ND = não-<strong>de</strong>mocratas.<br />
Se a divisão apresentar um valor maior<br />
que 1, os <strong>de</strong>mocratas são mais ativos que<br />
os não-<strong>de</strong>mocratas, <strong>uma</strong> situação favorável<br />
para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>; se o valor for inferior a<br />
1, os não-<strong>de</strong>mocratas são mais ativos do que<br />
os <strong>de</strong>mocratas, <strong>uma</strong> situação pouco conveniente;<br />
se o resultado for 1, o ativismo <strong>de</strong>ssas<br />
tendências é igual 21 .<br />
Terceira dimensão: distância entre as<br />
tendências<br />
Por distância, enten<strong>de</strong>-se a maior ou<br />
menor diferença <strong>de</strong> opinião nas atitu<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />
apoio ou rejeição à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, entre pessoas<br />
que pertencem a tendências diferentes.<br />
Em cada <strong>uma</strong> das variáveis que compõem<br />
<strong>uma</strong> tendência, o indicador examina a afinida<strong>de</strong><br />
média nas respostas dos membros <strong>de</strong><br />
duas tendências. Quanto maior a afinida<strong>de</strong>,<br />
menor é a distância, e vice-versa.<br />
O procedimento para incorporar a dimensão<br />
<strong>de</strong> distância ao IAD é semelhante<br />
ao empregado para a dimensão do ativismo.<br />
Primeiro calcula-se a distância dos ambivalentes<br />
em relação a cada <strong>uma</strong> das tendências<br />
adversárias. Para calcular a distância entre<br />
duas tendências <strong>de</strong>ve-se obter, para cada<br />
<strong>uma</strong> das variáveis, o valor absoluto das diferenças<br />
entre os centrói<strong>de</strong>s (valores médios<br />
padronizados conforme a análise <strong>de</strong> conglomerados)<br />
e, <strong>de</strong>pois, somá-los.<br />
(4)Di(Ox/A)=∑|Cxvi – Cavi|<br />
on<strong>de</strong>: Di=distância, Ox=tendência <strong>de</strong>mocrata<br />
ou não-<strong>de</strong>mocrata, A=tendência<br />
ambivalente. Cxi=centrói<strong>de</strong> da tendência<br />
<strong>de</strong>mocrata ou não-<strong>de</strong>mocrata na variável i;<br />
Cavi=centrói<strong>de</strong> da tendência ambivalente<br />
na variável i.<br />
Posteriormente, comparam-se os resultados<br />
dos <strong>de</strong>mocratas e dos não-<strong>de</strong>mocratas,<br />
por meio do indicador <strong>de</strong> distância<br />
(ID). Esse indicador expressa a distância<br />
média entre as tendências não-<strong>de</strong>mocrata<br />
20 Em termos gerais, a or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> apresentação se inicia com as categorias em que há menor custo pessoal<br />
(investimento <strong>de</strong> tempo, dinheiro), compromisso e li<strong>de</strong>rança, e se conclui com as categorias que implicam maior<br />
custo pessoal, compromisso e li<strong>de</strong>rança. Ao fim se acrescenta <strong>uma</strong> categoria que respon<strong>de</strong> a outros critérios.<br />
21 Existem outras duas situações que não são analisadas: (a) quando o ativismo é similar em todas as tendências<br />
(distribuição uniforme) e (b) quando o ativismo das tendências adversárias (<strong>de</strong>mocratas e não-<strong>de</strong>mocratas) é<br />
similar e muito superior ao dos ambivalentes. Ambas são situações políticas potencialmente instáveis para <strong>uma</strong><br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, pois os <strong>de</strong>mocratas não têm <strong>uma</strong> vantagem particular.<br />
234 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
e ambivalente como <strong>uma</strong> proporção da<br />
distância entre as tendências <strong>de</strong>mocrata e<br />
ambivalente.<br />
(5)IDD = Di(D/A) / Di(ND/A)<br />
on<strong>de</strong>: IDD = Distância dos <strong>de</strong>mocratas<br />
como proporção da distância dos não-<strong>de</strong>mocratas.<br />
Di(D/A) = distância entre tendências<br />
<strong>de</strong>mocrata e ambivalente; Di(ND/A) =<br />
distância entre tendências não-<strong>de</strong>mocrata e<br />
ambivalente.<br />
Se a divisão apresentar um valor superior<br />
a 1, os ambivalentes estão mais próximos<br />
das posições não-<strong>de</strong>mocratas; se o valor<br />
for inferior a 1, os ambivalentes estão mais<br />
próximos dos <strong>de</strong>mocratas; se o resultado for<br />
1, existe <strong>uma</strong> eqüidistância dos ambivalentes<br />
com relação às tendências contrárias. Ao<br />
contrário dos indicadores <strong>de</strong> tamanho e <strong>de</strong><br />
ativismo, nos quais os maiores valores a favor<br />
dos <strong>de</strong>mocratas apontam para situações<br />
excelentes para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, em matéria <strong>de</strong><br />
distância, o i<strong>de</strong>al é que, entre os ambivalentes<br />
e os <strong>de</strong>mocratas, a distância seja pequena<br />
(indica atitu<strong>de</strong>s mais afins).<br />
A regra <strong>de</strong> agregação do IAD<br />
O IAD combina o tamanho, o ativismo e<br />
a distância das tendências. No índice, todos<br />
os fatores têm peso igual. Há a necessida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> <strong>uma</strong> teoria que hierarquize estes elementos<br />
e <strong>de</strong> pesquisas prévias que ofereçam<br />
critérios para pon<strong>de</strong>rar a importância <strong>de</strong><br />
cada fator. Para não introduzir pressupostos<br />
dificilmente justificáveis, escolheu-se a<br />
opção que, <strong>de</strong> forma mais simples, expressa<br />
a proposta conceitual.<br />
(6) IAD = tamanho [AD] * (Ativismo [AC] /<br />
Distância [ID])<br />
Se em um país a maioria dos cidadãos é<br />
EXEMPLOS DE SITUAÇÕES E VALORES QUE O IAD ASSUME.<br />
Quando o IAD assume valores superiores ou próximos a 5, as condições são<br />
muito favoráveis à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, isto é, os <strong>de</strong>mocratas ten<strong>de</strong>m a ser maioria,<br />
a ser mais politicamente ativos que os adversários e a ter os ambivalentes<br />
muito mais próximos <strong>de</strong> suas posições.<br />
A situação contrária seria quando as condições ten<strong>de</strong>m a ser <strong>de</strong>sfavoráveis<br />
para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: os não <strong>de</strong>mocratas são maioria, estão politicamente<br />
mais ativos e têm os ambivalentes muito próximos <strong>de</strong> suas posições. Um<br />
valor <strong>de</strong> 0,15 do IAD correspon<strong>de</strong>ria a essa situação.<br />
Quando o IAD adota valores superiores a 1, mas não muito distante <strong>de</strong>ssa<br />
cifra, a situação ten<strong>de</strong> a ser favorável para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, porém mais<br />
atenuadamente. Em alg<strong>uma</strong> dimensão ou componente do índice, a situação<br />
é <strong>de</strong>sfavorável para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, mas isso é mais que compensado por<br />
resultados favoráveis nas outras dimensões; ou po<strong>de</strong> ser que nas três<br />
dimensões a situação seja favorável para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, ainda que por<br />
margens relativamente estreitas. Por exemplo, um valor <strong>de</strong> 1,43 do IAD<br />
resume <strong>uma</strong> situação na qual os <strong>de</strong>mocratas são os mais numerosos (mas<br />
não a maioria), têm os ambivalentes ligeiramente mais próximos <strong>de</strong> suas<br />
posições, mas são politicamente menos ativos que os não <strong>de</strong>mocratas.<br />
O IAD é <strong>uma</strong> ferramenta que precisa ser refinada. Seu algoritmo atual,<br />
baseado na hipótese <strong>de</strong> que os três componentes do IAD são in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes<br />
entre si e têm o mesmo peso, não funciona apropriadamente em certas<br />
situações 22 . Mais pesquisas são necessárias para encontrar respostas<br />
metodológicas válidas aos problemas que a simples formulação do IAD não<br />
po<strong>de</strong> resolver. Contudo, cabe ressaltar que a observação dos resultados do<br />
IAD em 2002, para os diversos países da América Latina, sugere que, apesar<br />
<strong>de</strong>ssas limitações, o índice não apontou resultados inesperados. Por outro<br />
lado, nenhum dos componentes do IAD teve um comportamento “anômalo”<br />
que pu<strong>de</strong>sse introduzir distorções no resultado global do índice.<br />
leal à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, e estes são mais participativos<br />
que o resto das pessoas e apresentam<br />
<strong>uma</strong> pequena distância em relação aos<br />
ambivalentes, po<strong>de</strong>-se concluir que a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
tem um respaldo dos cidadãos. Nestas<br />
situações, o IAD apresenta um valor bastante<br />
superior a 1. Ao contrário, se em um país<br />
a maioria dos cidadãos é não-<strong>de</strong>mocrata, os<br />
não-<strong>de</strong>mocratas são mais participativos do<br />
que o resto das pessoas e apresentam <strong>uma</strong><br />
pequena distância em relação aos ambivalentes,<br />
po<strong>de</strong>-se concluir que o respaldo<br />
à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> é frágil. Nestas situações, o<br />
índice assume valores muito inferiores a 1 e<br />
próximos <strong>de</strong> 0. A inferência é que um sistema<br />
político com estas características é mais<br />
quadro 10<br />
22 Por exemplo, num país em que a quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocratas seja quase a meta<strong>de</strong> dos não <strong>de</strong>mocratas (AD=<br />
0,5), os não <strong>de</strong>mocratas estejam politicamente mais ativos que os <strong>de</strong>mocratas (AC=0,5), mas os ambivalentes<br />
se situem majoritariamente mais perto das posições <strong>de</strong>mocratas do que as não <strong>de</strong>mocratas (ID=0,2), teria um<br />
IAD=12,5. Esta situação esta longe <strong>de</strong> ser favorável para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, como resultado do IAD parece sugerir .<br />
Po<strong>de</strong> que se trate <strong>de</strong> <strong>uma</strong> situação pouco provável , porém, certamente, <strong>uma</strong> que po<strong>de</strong> acontecer.<br />
Nota técnica sobre os índices <strong>de</strong>rivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD) 235
vulnerável a <strong>uma</strong> crise do que um que conte<br />
com um forte respaldo dos cidadãos. Po<strong>de</strong>m<br />
ocorrer diferentes combinações <strong>de</strong> tamanho,<br />
ativismo e distância, que configuram situações<br />
intermediárias <strong>de</strong> força e <strong>de</strong>bilida<strong>de</strong> da<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Em situações <strong>de</strong> equilíbrio, o<br />
valor do IAD está por volta do 1.<br />
A interpretação do IAD<br />
Dada a fórmula empregada para calcular<br />
o IAD, os valores do índice po<strong>de</strong>m oscilar<br />
entre 0 e um número extremamente alto<br />
(ten<strong>de</strong> a infinito em um país on<strong>de</strong> quase<br />
todos os <strong>de</strong>mocratas são participativos e os<br />
poucos ambivalentes estão muito próximos<br />
<strong>de</strong>ssas posições). Neste nível <strong>de</strong> conhecimento<br />
sobre o tema, não existem elementos<br />
suficientes para padronizar essa variação em<br />
um intervalo que varie, por exemplo, entre<br />
0 e 1, nem para categorizar os valores em<br />
<strong>uma</strong> escala <strong>de</strong> intensida<strong>de</strong>. A padronização<br />
exigiria aplicar procedimentos relativamente<br />
sofisticados sobre a base <strong>de</strong> pressupostos<br />
adicionais.<br />
A criação <strong>de</strong> <strong>uma</strong> escala <strong>de</strong> intensida<strong>de</strong>,<br />
além disso, implicaria justificar os pontos<br />
<strong>de</strong> corte entre as categorias <strong>de</strong>finidas, o que<br />
será possível <strong>de</strong> realizar quando se dispuser<br />
<strong>de</strong> mais observações do que as existentes<br />
na atualida<strong>de</strong> (medição <strong>de</strong> 18 países em<br />
um ano). Não obstante, a observação do<br />
comportamento do IAD diante <strong>de</strong> alg<strong>uma</strong>s<br />
situações hipotéticas permite realizar um<br />
primeiro exercício <strong>de</strong> interpretação (Quadro<br />
10)<br />
Validação e confiabilida<strong>de</strong> do IAD<br />
Não se conhecem estudos prévios que<br />
tenham aplicado esta metodologia para<br />
estudar o respaldo dos cidadãos à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
A análise das tendências em relação à<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não po<strong>de</strong> ser replicada na série<br />
<strong>de</strong> tempo do Latinobarômetro. Alg<strong>uma</strong>s<br />
das variáveis empregadas para a análise<br />
pertencem ao segmento regular do Latinobarômetro,<br />
mas não são incluidas todos os<br />
anos; outras perguntas foram elaboradas<br />
especificamente para o segmento proprietário<br />
do PNUD na pesquisa; por isso, não há<br />
observações prévias.<br />
Alg<strong>uma</strong>s perguntas empregadas para<br />
as tendências têm limitações que influem<br />
na medição. As perguntas com escalas <strong>de</strong><br />
resposta <strong>de</strong> duas ou três alternativas não se<br />
ajustam plenamente aos requisitos <strong>de</strong> <strong>uma</strong><br />
análise <strong>de</strong> conglomerados. Além disso, nessas<br />
variáveis, o <strong>de</strong>svio padrão foi superior ao<br />
das outras variáveis. Essas dificulda<strong>de</strong>s são<br />
particularmente palpáveis no caso das perguntas<br />
da dimensão <strong>de</strong> apoio às instituições<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> representativa, cujas escalas<br />
<strong>de</strong> resposta são binárias. Apesar <strong>de</strong>ssas limitações,<br />
como foi explicado, os resultados<br />
obtidos foram sólidos.<br />
Efetuou-se <strong>uma</strong> prova da valida<strong>de</strong> externa<br />
da análise das tendências. Utilizou-se<br />
a pergunta “Estaria disposto(a) a <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> se ela fosse ameaçada”, que foi<br />
incluída nos Latinobarômetro 1996 e 1998.<br />
Foram correlacionados os resultados obtidos<br />
por país com o tamanho das tendências<br />
em 2002. Em geral, em 1996 e 1998, os países<br />
on<strong>de</strong> mais pessoas estavam dispostas a <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> foram os países on<strong>de</strong>,<br />
em 2002, havia mais <strong>de</strong>mocratas (r = 0,27 e<br />
r = 0,25, respectivamente); a correlação com<br />
a porcentagem <strong>de</strong> não-<strong>de</strong>mocratas é inversa<br />
(r = -0,29 e r = -0,36).<br />
Pressupostos e limitações do IAD<br />
A metodologia proposta baseia-se em<br />
três pressupostos. O primeiro é que as<br />
tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> são<br />
23 A série <strong>de</strong> tempo do Latinobarômetro não permite medir a estabilida<strong>de</strong> das tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Comparações feitas entre a pergunta sobre a situação econômica do lar e as perguntas sobre a preferência<br />
pela <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e a satisfação com a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, em distintos anos (1996, 1997, 2001 e 2002), apontam que a<br />
preferência pela <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> não varia segundo a boa ou má situação econômica do lar, mas sim <strong>de</strong> acordo com a<br />
satisfação com seu funcionamento.<br />
236 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
elativamente estáveis no tempo. Não se<br />
<strong>de</strong>scartam as flutuações diante do efeito<br />
acumulado, por exemplo, da <strong>de</strong>terioração<br />
econômica <strong>de</strong> um país; porém, por tratar-se<br />
<strong>de</strong> atitu<strong>de</strong>s relacionadas com o apoio difuso<br />
(ou rejeição) à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, infere-se que as<br />
variações são menos explícitas do que as que<br />
exibiriam as percepções relacionadas com a<br />
satisfação em relação ao funcionamento das<br />
instituições ou aos resultados econômicos e<br />
sociais do sistema 23 .<br />
O segundo pressuposto consiste em<br />
que, embora as pessoas que pertencem a<br />
<strong>uma</strong> tendência não constituam, necessariamente,<br />
<strong>uma</strong> força política com capacida<strong>de</strong>s<br />
organizativas e condução i<strong>de</strong>ológica<br />
própria, po<strong>de</strong>m chegar a sê-lo no caso <strong>de</strong><br />
enfrentar um evento político polarizador 24 .<br />
É preciso lembrar que as tendências não<br />
ajudam a predizer o comportamento das<br />
pessoas em termos da subversão ou <strong>de</strong>fesa<br />
do sistema. Existe <strong>uma</strong> série <strong>de</strong> fatores, difíceis<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>terminar a priori, que influem<br />
sobre a transformação das atitu<strong>de</strong>s em<br />
comportamentos.<br />
Em terceiro lugar, pressupõe-se que,<br />
em matéria <strong>de</strong> <strong>de</strong>fesa ou oposição ao sistema<br />
<strong>de</strong>mocrático, os ambivalentes não têm<br />
iniciativa própria. São, portanto, objeto da<br />
disputa entre as tendências <strong>de</strong>mocrata e<br />
não-<strong>de</strong>mocrata. Além disso, presume-se que<br />
a resistência oferecida pelos ambivalentes,<br />
ainda que <strong>de</strong> magnitu<strong>de</strong> <strong>de</strong>sconhecida, é a<br />
mesma perante ambas as tendências. Esses<br />
dois pressupostos são <strong>uma</strong> herança e <strong>uma</strong><br />
implicação lógica da proposição <strong>de</strong> Linz,<br />
que é a fonte <strong>de</strong> inspiração <strong>de</strong>sta análise.<br />
Quando a questão política do dia é a sobrevivência<br />
da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, não há <strong>uma</strong> “terceira<br />
via”: ou <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>-se ou subverte-se o<br />
regime. No entanto, enquanto a vida política<br />
não enfrenta a alternativa da sobrevivência<br />
ou morte da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, esses pressupostos<br />
não serão necessariamente certos. Na prática,<br />
os ambivalentes po<strong>de</strong>m ter iniciativa<br />
política própria sobre um amplo leque <strong>de</strong><br />
assuntos, apesar <strong>de</strong> não formarem <strong>uma</strong> força<br />
política <strong>de</strong>terminada 25 .<br />
Por último, certas características das<br />
amostragens do Latinobarômetro aconselham<br />
prudência na avaliação do IAD, especialmente<br />
em certos países. São <strong>de</strong>sconhecidos<br />
os efeitos <strong>de</strong> <strong>uma</strong> eventual inclusão do<br />
“mundo rural” e dos segmentos urbanos<br />
mais empobrecidos sobre os resultados.<br />
Os dados da pesquisa <strong>de</strong> opinião utilizados<br />
neste Relatório foram fornecidos pelo<br />
Latinobarômetro, no marco <strong>de</strong> <strong>uma</strong> relação<br />
contratual <strong>de</strong> trabalho e <strong>de</strong> cooperação com<br />
o PNUD. Em 2002, o Latinobarômetro incrementou<br />
em um terço seu estudo anual,<br />
com perguntas específicas solicitadas pelo<br />
PNUD para o presente Relatório. Dentro do<br />
acordo interinstitucional, o Latinobarômetro<br />
colocou à disposição do PNUD as séries<br />
<strong>de</strong> tempo com dados <strong>de</strong> pesquisas prévias,<br />
que também foram utilizadas como um dos<br />
antece<strong>de</strong>ntes incluídos na base empírica do<br />
Relatório.<br />
24 Por evento político polarizador enten<strong>de</strong>-se <strong>uma</strong> crise econômica, social ou política, que gere a possibilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> substituição do sistema <strong>de</strong>mocrático por outro tipo <strong>de</strong> regime.<br />
25 Estabelecer o perfil político e social dos ambivalentes é um dos pontos mais importantes <strong>de</strong>ste estudo.<br />
Nota técnica sobre os índices <strong>de</strong>rivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 – A construção do Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD) 237
238 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
■ Bibliografia<br />
ACKERMAN, B. Social justice in the liberal State. Yale University<br />
Press, New Haven, 1980.<br />
–––––––––––. Texto preparado para o PRODDAL, 2002.<br />
ACUÑA, Carlos e SMULOVITZ, Catalina. “Adjusting the<br />
armed forces to <strong>de</strong>mocracy: successes, failures, and<br />
ambiguities in the Southern Cone”. In: JELIN, Elizabeth<br />
e HERSHBERG, Eric (comps.), Constructing <strong>de</strong>mocracy.<br />
H<strong>uma</strong>n rights, citizenship and society in Latin<br />
America. Westview Press, Boul<strong>de</strong>r, Colorado, 1996.<br />
ALMOND, G. “The intellectual history of the civic culture<br />
concept”. In: ALMOND, G. e VERBA, S. (comps.),<br />
The civic culture revisited. Little, Brown & Co., Boston,<br />
1980.<br />
ALMOND, G. e VERBA, S. The civic culture. Princeton University<br />
Press, 1963.<br />
ALTMAN, David. “The politics of coalition formation and<br />
survival in multiparty presi<strong>de</strong>ntial regimes”. Tese <strong>de</strong><br />
doutorado, Departamento <strong>de</strong> Estudos Governamentais<br />
e Internacionais, Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Notre Dame,<br />
Notre Dame, Indiana, 2001.<br />
–––––––––––. “Prospects for e-government in Latin America:<br />
satisfaction with <strong>de</strong>mocracy, social accountability,<br />
and direct <strong>de</strong>mocracy”. In International Review of<br />
Public Administration 7 (2), pp. 5-20, 2002.<br />
Amnesty International. “Amnesty International website<br />
against the <strong>de</strong>ath penalty. Abolitionist and retentionist<br />
Countries”. In http://web.amnesty.org/rmp/<br />
dplibrary.nshf/in<strong>de</strong>xopenview], 2002.<br />
ANDERSON, Benedict. Imagined communities. Verso, Londres,<br />
Nova York,1991.<br />
–––––––––––. Comunida<strong>de</strong>s imaginadas. Reflexiones<br />
sobre el origen y la difusión <strong>de</strong>l nacionalismo. Fondo<br />
<strong>de</strong> Cultura Económica, México, 1993.<br />
ANDERSON, Perry. Lineages of the absolutist State. New Left<br />
Books, Londres, 1974.<br />
ANDRADE, Vera Regina. Cidadania: do direito aos direitos<br />
h<strong>uma</strong>nos. Acadêmica, São Paulo, 1999.<br />
ANNAN, Kofi. Implementation of the United Nations Millennium<br />
Declaration. Report of the Secretary-General,<br />
A/58/323, 2003.<br />
ADRIANZEN, Alberto. Democracia, etnicidad y violencia<br />
política en los países andinos. Instituto <strong>de</strong> Estudios<br />
Peruanos, Lima, 1993.<br />
ARATO, Andrew. Civil society and political theory. MIT<br />
Press, Cambridge, 1993.<br />
–––––––––––. Texto preparado para o PRODDAL, 2003.<br />
ARBÓS, Xavier. La gobernabilidad: ciudadanía y <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
en la encrucijada mundial. Siglo XXI, 2ª edição, México,<br />
1996.<br />
ARDITI, Benjamín. “Elecciones municipales y <strong>de</strong>mocratización<br />
en Paraguay”. In Nueva Sociedad, n° 117, 1992.<br />
ARISTÓTELES. The politics. Edição <strong>de</strong> Ernest Baker, Oxford<br />
University Press, 1968 (Edição em espanhol: La política,<br />
Emecé, 5ª edição, Barcelona, 1975.).<br />
ARRIAGADA, Genaro. “Diez proposiciones para encarar la<br />
crisis <strong>de</strong> los Partidos”. In asuntospublicos.org (relatórios<br />
201 e 206), 2002.<br />
ASSIES, Willem. Texto preparado para o PRODDAL, 2003.<br />
BAEZA, Fernán<strong>de</strong>z. “El voto obligatorio”. In: NOHLEN,<br />
Dieter; PICADO, Sonia; e ZOVATTO, Daniel (comps.),<br />
Tratado <strong>de</strong> <strong>de</strong>recho electoral comparado <strong>de</strong> América Latina,<br />
Fondo <strong>de</strong> Cultura Econômica, México, 1998.<br />
Banco Mundial. Legal and Judicial Reform Practice Group.<br />
Worldwi<strong>de</strong> legal and judicial indicators database [http:<br />
//www4.worldbank.org/legal/database/Justice/], 2003.<br />
BARIÉ, Cletus Gregor. Pueblos indígenas y <strong>de</strong>rechos constitucionales<br />
en América Latina: un panorama. Instituto<br />
Indigenista Interamericano, México, 2000.<br />
BARRO, Robert J. e JONG-WHA, Lee. “International data<br />
on educational attainment: updates and implications”.<br />
CID working paper, 42 [http://www.cid.harvard.edu/<br />
ciddata/ciddata.html], 2000.<br />
BAZDRESCH, Carlos e LOAEZA, Soledad. México, auge,<br />
crisis y ajuste. Fondo <strong>de</strong> Cultura Económica, México,<br />
1993.<br />
BEITZ, C. R. Political equality. An essay in <strong>de</strong>mocratic theory.<br />
Princeton University Press, 1989.<br />
BELLO, Álvaro e RANGEL, Marta. “La equidad y la exclusión<br />
<strong>de</strong> los pueblos indígenas y afro<strong>de</strong>scendientes en<br />
América Latina y el Caribe”. In Revista da CEPAL, 76,<br />
pp. 39-54 (abril), 2002.<br />
BELLOMO, M. The common legal past of Europe, 1000-1800.<br />
Catholic University of America Press, Washington<br />
DC, 1995.<br />
BENAVIDES, T. e VARGAS-CULLELL, J. Nota conceitual<br />
sobre participação dos cidadãos. Documento preparado<br />
para o Projeto sobre Desenvolvimento Democrático<br />
na América Latina do PNUD. PRODDAL, San José,<br />
junho <strong>de</strong> 2003.<br />
BENDIX, R. Nation-building and citizenship. Studies of<br />
our changing social or<strong>de</strong>r. John Wiley & Sons, Nova<br />
York, 1964.<br />
Bibliografia 239
BERGER, Peter e LUCKMAN, T. The social construction of<br />
reality. A treatise in the sociology of knowledge. Doubleday,<br />
Nova York, 1966.<br />
BERLIN, Isaiah. Four essays on liberty. Oxford University<br />
Press, 1969.<br />
BERMAN, H. J. Law and revolution: the formation of the<br />
western legal tradition. Harvard University Press,<br />
Cambridge, 1993.<br />
BLONDET, Cecilia. La emergencia <strong>de</strong> las mujeres en el po<strong>de</strong>r.<br />
¿Hay cambios en Perú. IEP, Lima, 1998.<br />
BOBBIO, Norberto. Democracy and dictatorship. The nature<br />
and limits of State power. University of Minnesota<br />
Press, Minneapolis, 1989.<br />
–––––––––––. El futuro <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. FCE, Colômbia, 1992.<br />
BOBBIO, Norberto e MATTEUCCI, N. Diccionario <strong>de</strong> política.<br />
Siglo XXI, 5ª edição, México, 1988.<br />
BONEO, Horacio e RIVAS, E<strong>de</strong>lberto Torres. ¿Por qué no<br />
votan los guatemaltecos Estudio <strong>de</strong> participación y abstención<br />
electoral. IDEA/IFE/PNUD, Guatemala, 2001.<br />
BORÓN, Atilio A. Estado, capitalismo y <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> en<br />
América Latina. Oficina <strong>de</strong> Publicaciones do CBC, 3ª<br />
edição, Buenos Aires, 1997.<br />
–––––––––––. “América Latina: crisis sin fin o fin <strong>de</strong> la<br />
crisis”. In: LÓPEZ, Segrera e FILMUS, Daniel (comp.),<br />
América Latina 2020. Escenarios, alternativas, estrategias.<br />
Unesco-Flacso-Temas Grupo Editorial, Buenos<br />
Aires, 2000.<br />
BOSCHI, Renato. Texto preparado para o PRODDAL,<br />
2002.<br />
BOTANA, Natalio. Texto preparado para o PRODDAL,<br />
2003.<br />
BOURDIEU, Pierre. “Espíritus <strong>de</strong> Estado. Génesis y estructura<br />
<strong>de</strong>l campo burocrático”. In Sociedad 8, pp. 5-29,<br />
1996.<br />
BREUILLY, J. Nationalism and the State. Manchester University<br />
Press, 1993.<br />
BROWN, Mark Malloch. Deepening <strong>de</strong>mocracy in the <strong>de</strong>veloping<br />
world: An agenda for action in the new millennium.<br />
Center for Global Development, Washington<br />
DC, [http://www.undp.org/dpa/statements/administ/<br />
2002/october/21oct02.html], 21 <strong>de</strong> outubro <strong>de</strong> 2002.<br />
BRUBAKER, R. Citizenship and nationhood in France and<br />
Germany. Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts,<br />
1992.<br />
–––––––––––. Nationalism reframed. Nationhood and the<br />
national question in new Europe. Cambridge University<br />
Press, 1996.<br />
BURDEAU, Georges. “Democratie”. In Encyclopaedia Universalis,<br />
Paris, 1985.<br />
BURNS, N. et al. The private roots of public action. Harvard<br />
University Press, Cambridge, 2001.<br />
CALDERÓN, Fernando. Sociedad y globalización. PNUD,<br />
Cua<strong>de</strong>rnos <strong>de</strong>l Futuro, La Paz, 2000.<br />
––––––––––– (comp.). ¿Es sostenible la globalización en<br />
América Latina Debates com Manuel Castells. Fondo<br />
<strong>de</strong> Cultura Económica, Buenos Aires, 2003.<br />
–––––––––––. Texto preparado para o PRODDAL, 2003.<br />
CALVO, E. e ABAL MEDINA, J. M. (h) (comps.). El fe<strong>de</strong>ralismo<br />
electoral argentino. Sobrerrepresentación, reforma<br />
política y gobierno dividido en la Argentina. INAP/<br />
Eu<strong>de</strong>ba, Buenos Aires, 2001.<br />
CAMARGO, Pedro Pablo. Derechos h<strong>uma</strong>nos y <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
en América Latina. Grupo Editorial Leyer, Bogotá,<br />
1996.<br />
CAMÍN, Héctor Aguilar. Después <strong>de</strong>l milagro. Cal y Arena,<br />
México, 1996.<br />
–––––––––––. “El México vulnerable”. In Nexos, março,1999.<br />
CAMÍN, Héctor Aguilar e MEYER, Lorenzo. A la sombra <strong>de</strong><br />
la Revolución Mexicana. Un ensayo <strong>de</strong> historia contemporánea<br />
<strong>de</strong> México, 1910-1989. Cal y Arena, 3ª edição,<br />
México, 1990.<br />
CANOVAN, M. Nationhood and political theory. Edward<br />
Elgar, Londres, 1996.<br />
CAPUTO, Dante. Texto preparado para o PRODDAL, 2003.<br />
CARDOSO, Adalberto Moreira e EISENBERG, José. Texto<br />
preparado para o PRODDAL, 2002.<br />
CARDOSO, Fernando Henrique. A construção da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
Siciliano, São Paulo, 1993.<br />
–––––––––––. Texto preparado para o PRODDAL, 2003.<br />
CAREY, John M. e SHUGART, Matthew Soberg (comps.).<br />
Executive <strong>de</strong>cree authority. Cambridge University<br />
Press, Nova York, 1998.<br />
CAREY, John; AMORIM NETO, Octávio; e SHUGART,<br />
Matthew Soberg. “Appendix: Outlines of Constitutional<br />
Powers in Latin America”. In: MAINWARING,<br />
Scott e SHUGART, Matthew Soberg (comps.), Presi<strong>de</strong>ntialism<br />
and <strong>de</strong>mocracy in Latin America, Cambridge<br />
University Press, Cambridge, 1997.<br />
CARRANZA, Elías. “Sobrepoblación penitenciaria en América<br />
Latina y el Caribe: Situación y respuestas posibles”.<br />
Artigo apresentado no Seminário Técnico da Re<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
Programas <strong>de</strong> Institutos da ONU, Viena, Áustria, 10 <strong>de</strong><br />
maio <strong>de</strong> 2001.<br />
CARVALHO, José Murilo <strong>de</strong>. A cidadania no Brasil. O longo<br />
caminho. Civilização Brasileira, Rio <strong>de</strong> Janeiro, 1991,<br />
2001.<br />
CASANOVA, Pablo González e ROSENMANN, Marcos<br />
Roitman (coords.). Democracia y Estado multiétnico en<br />
América Latina. Coleção La <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> en México, La<br />
Jornada, Centro <strong>de</strong> Investigaciones Interdisciplinarias<br />
en Ciencias y H<strong>uma</strong>nida<strong>de</strong>s/UNAM, Madrid, 1996.<br />
CASTEL, Robert. La metamorfosis <strong>de</strong> la cuestión social. Paidós,<br />
Buenos Aires, 1995.<br />
CASTELLS, Manuel. La era <strong>de</strong> la información. Economía,<br />
sociedad y cultura. Alianza, Madrid, 1998.<br />
CAVAROZZI, M. e MEDINA, Juan Abal (comps.). El asedio<br />
a la política. Los partidos latinoamericanos en la era<br />
240 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
neoliberal. Homo Sapiens Ediciones, Konrad A<strong>de</strong>nauer<br />
Stiftung, Rosario, Argentina, 2002.<br />
CAVAROZZI, Marcelo e GARRETÓN, M. A. (comps.).<br />
Muerte y resurrección, los partidos políticos en el autoritarismo<br />
y la <strong>de</strong>mocratización en el Cono Sur. Flacso,<br />
Santiago <strong>de</strong> Chile, 1989.<br />
CEJA (Centro <strong>de</strong> Estudos <strong>de</strong> Justiça das Américas). “Reporte<br />
sobre el Estado <strong>de</strong> la Justicia en las Américas 2002-<br />
2003”, CEJA, Santiago <strong>de</strong> Chile, 2003a.<br />
–––––––––––. “Primer Encuentro Interamericano <strong>de</strong><br />
Defensorías Públicas”, [http://www.cejamericas.org/<br />
newsite/ingles/in<strong>de</strong>x_in.htm], 2003b.<br />
CELS (Centro <strong>de</strong> Estudios Legales y Sociales). Derechos<br />
h<strong>uma</strong>nos en Argentina: informe anual 2001. Eu<strong>de</strong>ba,<br />
Buenos Aires, 2001.<br />
Centro Internacional para Estudos Penitenciários. “World prison<br />
brief” [http://www.kcl.ac.uk/<strong>de</strong>psta/rel/icps/], 2003.<br />
CEPAL (Comissão Econômica para América Latina). Síntesis.<br />
Estudio económico <strong>de</strong> América Latina y el Caribe,<br />
1996-1997. Nações Unidas, Santiago do Chile, 1997.<br />
–––––––––––. Participation and lea<strong>de</strong>rship in Latin America<br />
and the Caribbean: gen<strong>de</strong>r indicators. CEPAL, Santiago<br />
do Chile, 1999.<br />
–––––––––––. The challenge of gen<strong>de</strong>r equity and h<strong>uma</strong>n<br />
rights on the threshold of the twenty-first century. Unida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong> Mulher e Desenvolvimento, Santiago do Chile,<br />
27, maio/2000.<br />
–––––––––––. Panorama social da América Latina 2000-<br />
2001. Nações Unidas, Santiago do Chile, 2001a.<br />
–––––––––––. Estudio económico para América Latina y el<br />
Caribe 2000-2001. Nações Unidas, Santiago <strong>de</strong> Chile,<br />
2001b.<br />
–––––––––––. Anuário estatístico da América Latina e Caribe<br />
2001. Nações Unidas, Santiago do Chile, 2002a.<br />
–––––––––––. Panorama social da América Latina 2001-<br />
2002. Nações Unidas, Santiago do Chile, 2002b.<br />
–––––––––––. Balance preliminar <strong>de</strong> las economías <strong>de</strong> América<br />
Latina y el Caribe 2002. Nações Unidas, Santiago<br />
<strong>de</strong> Chile, 2002c.<br />
–––––––––––. Estudio económico <strong>de</strong> América Latina y el<br />
Caribe, 2001-2002. Anexo estatístico em CD-ROM<br />
[http://www.eclac.cl/DE/proyectos/eee/eee2002/<br />
in<strong>de</strong>x.htm], 2002d.<br />
–––––––––––. Anuario estadístico <strong>de</strong> América Latina y el Caribe<br />
2002. Nações Unidas, Santiago <strong>de</strong> Chile, 2003.<br />
–––––––––––. Panorama Social da América Latina 2002-<br />
2003. Nações Unidas, Santiago do Chile, 2004.<br />
CEPAL, IPEA, PNUD. Hacia el objetivo <strong>de</strong>l milenio: Reducir<br />
la pobreza en América Latina y el Caribe. Santiago <strong>de</strong><br />
Chile, 2003.<br />
CERDAS-CRUZ, Rodolfo; RIAL, Juan; e ZOVATTO, Daniel<br />
(comps.). Elecciones y <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> en América Latina,<br />
1988-1991. Una tarea inconclusa. Instituto Interamericano<br />
<strong>de</strong> Direitos H<strong>uma</strong>nos – Centro Interamericano<br />
<strong>de</strong> Assessoria e Promoção Eleitoral, San José <strong>de</strong> Costa<br />
Rica, 1992.<br />
COLEMAN, D. Foundations of social theory. Cambridge<br />
University Press, Cambridge, 1990.<br />
COLLIER, David e LEVITSKY, Steven. “Democracy with<br />
adjectives: conceptual innovation in comparative<br />
research”. In Helen Kellogg Institute for International<br />
Studies working paper, 230, The Helen Kellogg Institute<br />
for International Studies at the University of Notre<br />
Dame, Indiana, 1996.<br />
–––––––––––. “Democracy with adjectives: conceptual innovation<br />
in comparative research”. In World Politics 49<br />
(3), pp. 430-451 (abril), 1997.<br />
Comisión Andina <strong>de</strong> Juristas. La reforma judicial en la región<br />
andina. ¿Qué se ha hecho, dón<strong>de</strong> estamos, adón<strong>de</strong> vamos.<br />
Comisión Andina <strong>de</strong> Juristas, Lima, 2000.<br />
–––––––––––. “Red <strong>de</strong> información jurídica. Sistemas judiciales”<br />
[http://www.cajpe.org.pe/rij/], 2003.<br />
COMPARATO, Fabio Kon<strong>de</strong>r. Para viver a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Brasiliense,<br />
São Paulo, 1989.<br />
CONAGHAN, Catherine. Texto preparado para o PRO-<br />
DDAL, 2002.<br />
CONWAY, M. Political participation in the United States.<br />
Congressional Quarterly Inc., Washington DC, 1985.<br />
CORNELIUS, Peter K. e SCHWAB, Klaus (comps.). The<br />
global competitiveness report 2002-2003. Oxford University<br />
Press, Nova York, 2003.<br />
CORNELIUS, W.; EISENSTADT, T.; e HINDLEY, J. Subnational<br />
politics and <strong>de</strong>mocratization in Mexico. Center<br />
for US-Mexican Studies, Universida<strong>de</strong> da Califórnia,<br />
San Diego, 1999.<br />
CORRIGAN, P. e SAYER, D. The great arch. English State<br />
formation as cultural revolution. Basil Blackwell, Londres,<br />
1985.<br />
CORTINA, A<strong>de</strong>la. Ciudadanos <strong>de</strong>l mundo: hacia una teoría<br />
<strong>de</strong> la ciudadanía. Alianza Editorial, Madrid, 1997.<br />
COTLER, Julio. Clases, Estado y nación en el Perú. IEP, Lima,<br />
1978.<br />
–––––––––––. Texto preparado para o PRODDAL, 2002.<br />
COTTERRELL, R. Law’s community. Legal theory in sociological<br />
perspective. Clarendon Press, Oxford, 1995.<br />
–––––––––––. “The rule of law in transition: revisiting<br />
Franz Ne<strong>uma</strong>nn’s sociology of legality”. In Social &<br />
Legal Studies 5 (4), pp. 451-470, 1996.<br />
CPJ (Comitê para a Proteção dos Jornalistas). “Journalists<br />
killed in the line of duty during the last ten<br />
years” [http://www.cpj.org/killed/Ten_Year_Killed/<br />
Intro.html], 2003.<br />
DAHL, R. Political oppositions in western <strong>de</strong>mocracies. Yale<br />
University Press, New Haven, 1966.<br />
–––––––––––. Poliarquía, participación y oposición. Rey,<br />
México, 1971 (Edição em espanhol <strong>de</strong> 1993).<br />
–––––––––––. Un prefacio a la teoría <strong>de</strong>mocrática. Ediciones<br />
Gernika, 1987.<br />
–––––––––––. Democracy and its critics. Yale University<br />
Press, New Haven, 1989.<br />
–––––––––––. La <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Taurus, Buenos Aires, 1999.<br />
DALTON, R. J. “Political support in advanced industrial<br />
<strong>de</strong>mocracies”. In: NORRIS, P. (comp.), Critical citizens.<br />
Global support for <strong>de</strong>mocratic governance, Oxford University<br />
Press, Oxford, 1996.<br />
DASGUPTA, P. An inquiry into well-being and <strong>de</strong>stitution,<br />
Clarendon Press, Oxford, 1993.<br />
Bibliografia 241
DE SOTO, Hernando. El otro sen<strong>de</strong>ro. El Barranco, Lima,<br />
1984.<br />
DE RIZ, Liliana. “El <strong>de</strong>bate sobre la reforma electoral en<br />
Argentina”. In Desarrollo Económico, 126, julho-setembro,<br />
1992.<br />
–––––––––––. Radicales y peronistas en el Congreso Nacional:<br />
1983-1989. Centro Editor, Buenos Aires, 1995.<br />
Defensoria Pública da União. “Relatório <strong>de</strong> Gestão” [http://<br />
www.mj.gov.br/<strong>de</strong>fensoria/<strong>de</strong>fault.htm], Brasil, 2001.<br />
DEININGER, Klaus e SQUIRE, Lyn. The Deininger and<br />
Squire data set. A new data set measuring income inequality.<br />
Banco Mundial, Washington DC, 1998.<br />
DEL CASTILLO, Pilar e ZOVATTO, Daniel G. (comps.). La<br />
financiación <strong>de</strong> la política en Iberoamérica. IIDH-CA-<br />
PEL, San José <strong>de</strong> Costa Rica, 1998.<br />
DELLASOPPA, E.; BERCOVICH, A., et al. “Violência,<br />
direitos civis e <strong>de</strong>mografia no Brasil na década <strong>de</strong><br />
80: o caso da área metropolitana do Rio <strong>de</strong> Janeiro”.<br />
In Revista Brasileira <strong>de</strong> Ciências Sociais, 14<br />
(39), pp. 155-176, 1999.<br />
DIAMINT, Rut (comp.). Control civil y fuerzas armadas en<br />
las nuevas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s latinoamericanas. Grupo Editor<br />
Latinoamericano, Buenos Aires, 1999.<br />
DIAMOND, Larry. Developing <strong>de</strong>mocracy. Toward consolidation.<br />
Johns Hopkins University Press, Baltimore, 1999.<br />
–––––––––––. Texto preparado para o PRODDAL, 2002.<br />
DIAMOND, Larry et al. (comps.). Consolidating the Third<br />
Wave <strong>de</strong>mocracies: themes and perspectives. Johns Hopkins<br />
University Press, Baltimore, 1997.<br />
DIAMOND, Larry; HARTLYN, Jonathan; LINZ, Juan; e<br />
LIPSET, Seymour Martin (comps.). Democracy in<br />
<strong>de</strong>veloping countries: Latin America. Lynne Rienner, 2ª<br />
edição, Boul<strong>de</strong>r, Colorado, 1999.<br />
DI TELLA, Torcuato (comp.). Crisis <strong>de</strong> representatividad<br />
y sistemas <strong>de</strong> partidos políticos. ISEN, Buenos Aires,<br />
1998.<br />
DORNBUSCH, Rudiger e EDWARDS, Sebastián. “La<br />
macroeconomía política <strong>de</strong>l populismo latinoamericano”.<br />
In: DORNBUSCH, Rudiger e EDWARDS,<br />
Sebastián (comps.), La macroeconomía <strong>de</strong>l populismo<br />
en América Latina, Fondo <strong>de</strong> Cultura Económica,<br />
México, 1994.<br />
DOMINGO, P. “Judicial in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nce and judicial reform<br />
in Latin America”. In: SCHEDLER, A.; DIAMOND, L.;<br />
e PLATTNER, M.(comps.), The self-restraining State.<br />
Power and accountability in new <strong>de</strong>mocracies, Lynne<br />
Rienner, Boul<strong>de</strong>r, Colorado, 1999.<br />
DOMÍNGUEZ, Jorge. Democratic politics in Latin<br />
America and the Caribbean. The Johns Hopkins<br />
University Press, Baltimore, 1998.<br />
DOMÍNGUEZ, Jorge e LOWENTHAL, Abraham (comps.).<br />
Constructing <strong>de</strong>mocratic governance. Latin America and<br />
the Caribbean in the 1990s. The Johns Hopkins University<br />
Press, Baltimore, 1996.<br />
DONGHI, Tulio Halperin. La larga agonía <strong>de</strong> la Argentina<br />
peronista. Espasa-Ariel, Buenos Aires, 1994.<br />
DURKHEIM, E. Professional ethics and civic morals. Routledge,<br />
Londres, 1983.<br />
DWORKIN, R. Law’s empire. Harvard University Press,<br />
Cambridge, Massachusetts, 1986.<br />
EASTON, D. A system analysis of political life. John Wiley &<br />
Sons, Nova York, 1965.<br />
–––––––––––. “The concept of political support”. In The<br />
British Journal of Political Science 5, Londres, 1975.<br />
EISENSTADT, S. N. Paradoxes of <strong>de</strong>mocracy. Fragility, continuity<br />
and change. Johns Hopkins University Press,<br />
Baltimore, 1999.<br />
–––––––––––. “Multiple mo<strong>de</strong>rnities”. In Daedalus, 129 (1),<br />
pp. 1-29, 2000.<br />
ELY, J. Democracy and mistrust. A theory of judicial review.<br />
Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts,<br />
1980,<br />
EPIC (Coleção Informativa sobre Processos Eleitorais).<br />
EPIC website [http://www.epicproject.org], 2002.<br />
EPP, C. The rights revolution. Lawyers, activists and supreme<br />
courts in comparative perspective. Chicago<br />
University Press, 1998.<br />
Estados Unidos, Departamento <strong>de</strong> Estado. Guatemala<br />
country report on h<strong>uma</strong>n rights practices 2001 [http:<br />
//www.state.gov/g/drl/rls/hrrpt/2001/wha/8344.htm],<br />
2001.<br />
Eurostat, PCM-BDU. PCM (Panel Communautaire <strong>de</strong> ménages),<br />
BDU (Base <strong>de</strong> données <strong>de</strong>s utilisateurs).<br />
EVANS, P.; RUESCHEMER, D.; e SKOCPOL, T. (comps.).<br />
Bringing the State back in. Cambridge University<br />
Press, Cambridge, 1985.<br />
FÁBRE, C. “Constitutionalising social rights”. In The Journal<br />
of Political Philosophy, 6 (3), pp. 263-284, 1998.<br />
FAJARDO, R. Yrigoyen. Pautas <strong>de</strong> coordinación entre el<br />
<strong>de</strong>recho indígena y el <strong>de</strong>recho estatal. Fundación<br />
Myrna Mack, Guatemala, 1999.<br />
FEINBERG, J. Social Philosophy. Prentice-Hall, Englewood<br />
Cliffs, 1973.<br />
–––––––––––. Harm to self. The moral limits of the criminal<br />
law. Oxford University Press, Nova York, 1986.<br />
FISHKIN, J. Democracy and <strong>de</strong>liberation. New directions for<br />
<strong>de</strong>mocratic reform. Yale University Press, New Haven,<br />
1991.<br />
FITCH, J. Samuel. The armed forces and <strong>de</strong>mocracy in Latin<br />
America. The Johns Hopkins University Press, Baltimore,<br />
1998.<br />
FITOUSSI, Jean-Paul. La règle et le choix. Colección La république<br />
<strong>de</strong>s idées, Editorial Le Seuil, Paris, 2002.<br />
–––––––––––. Texto preparado para o PRODDAL, 2003.<br />
FLATHMAN, R. “Citizenship and authority: a chastened<br />
view of citizenship”. In: BEINER, R., Theorizing citizenship,<br />
State University of New York Press, Nova<br />
York, 1995.<br />
FMI (Fundo Monetário Internacional). Government Financial<br />
Statistics Yearbook. FMI, Washington DC, vários anos.<br />
242 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
FOREWAKER, J. e LANDMAN, T. Social movements and<br />
citizenship rights. Oxford University Press, Oxford,<br />
1999.<br />
FOX, J. “The difficult transition from clientelism to <strong>de</strong>mocracy”.<br />
In World Politics 46 (2), pp. 154-184, 1994.<br />
FRANK, T. “Are h<strong>uma</strong>n rights universal”. In Foreign Affairs,<br />
80 (1), pp. 191-204, 2001.<br />
Freedom House. “Press Freedom Survey”<br />
[www.freedomhouse.org], 2002.<br />
FREIDENBERG, Flavia e LÓPEZ, Francisco Sanchez.<br />
“¿Cómo se elige un candidato a presi<strong>de</strong>nte Reglas<br />
y prácticas en los partidos políticos <strong>de</strong> América”. In<br />
Revista <strong>de</strong> Estudios Políticos 118, pp. 321-361, outubro<strong>de</strong>zembro<br />
2002.<br />
FROHLICH, N. e OPPENHEIMER, J. Choosing justice. An<br />
experimental approach to ethical theory. University of<br />
California Press, Berkeley, 1992.<br />
FUENTES, Carlos. Conferência Magistral, Faculda<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
Direito e Ciências Sociais da Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Buenos<br />
Aires, setembro 1998.<br />
FUENTES, Claudio. El discurso militar en la transición chilena.<br />
Flacso, Santiago do Chile, 1996.<br />
FUKUDA-PARR, Sakiko e KUMAR, A. K. Shiva (comps.).<br />
H<strong>uma</strong>n <strong>de</strong>velopment: concepts and measures. Essential<br />
readings. Oxford University Press, Nova York, 2002.<br />
FULLER, L. The morality of law. Yale University Press, New<br />
Haven, 1964.<br />
FURET, F. “Democracy and utopia”. Journal of Democracy, 9<br />
(1), pp. 65-81, 1998.<br />
GAMARRA, Eduardo. Texto preparado para o PRODDAL,<br />
2002.<br />
GARCÍA, Henry Pease (comp.). La autocracia fujimorista:<br />
<strong>de</strong>l Estado intervencionista al Estado mafioso. Pontifícia<br />
Universida<strong>de</strong> Católica do Peru, Fondo <strong>de</strong> Cultura Económica,<br />
Lima, 2003.<br />
GARCIA, Marco Aurélio. Texto preparado para o PRO-<br />
DDAL, 2003.<br />
GARRETÓN, M. A. Reconstruir la política. Transición y<br />
consolidación <strong>de</strong>mocrática en Chile. Editorial Andante,<br />
Santiago <strong>de</strong> Chile, 1987.<br />
–––––––––––. “Revisando las transiciones <strong>de</strong>mocráticas en<br />
América Latina”. In Nueva Sociedad, 148, pp. 20-29,<br />
1997.<br />
–––––––––––. Política y sociedad entre dos épocas. América<br />
Latina en el cambio <strong>de</strong>l siglo. Homo Sapiens, Rosario,<br />
2000.<br />
–––––––––––. Texto preparado para o PRODDAL, 2003.<br />
GAVÍRIA, César. Texto preparado para PRODDAL, 2003.<br />
GEERTZ, Clifford. Negara: The Theatre State in nineteenthcentury<br />
Bali. Princeton University Press, Princeton,<br />
1980.<br />
–––––––––––. “Centers, kings and charisma: reflections on<br />
the symbolics of power”. In: WILENTZ, S. (comp.),<br />
Rites of power. Symbolism, ritual and politics since the<br />
Middle Ages. University of Pennsylvania Press, Phila<strong>de</strong>lphia,<br />
1985.<br />
GEWIRTH, A. Reason and morality. University of Chicago<br />
Press, 1978.<br />
–––––––––––. The community of rights. University of Chicago<br />
Press, 1996.<br />
GIBSON, E. “The populist road to market reform: policy<br />
and electoral coalitions in Mexico and Argentina”. In<br />
World Politics, 49 (3), pp. 339-370, 1997.<br />
GIBSON, E.; CALVO, G.; e FALLETI, T. “Fe<strong>de</strong>ralismo redistributivo:<br />
sobrerrepresentación territorial y transferencia<br />
<strong>de</strong> ingresos en el hemisferio occi<strong>de</strong>ntal”. In<br />
Política y Gobierno, 6 (1), pp. 15-44, 1999.<br />
GODIO, Julio. Texto preparado para o PRODDAL, 2003.<br />
GOLDSTEIN, R. Political repression in Europe. Croom<br />
Helm, Londres, 1983.<br />
GÓMEZ, M. Observações gerais sobre as amostras dos países<br />
incluídos no Latinobarômetro 2002. Documento preparado<br />
para o Projeto sobre Desenvolvimento Democrático<br />
na América Latina do PNUD. PRODDAL, San<br />
José, junho <strong>de</strong> 2003.<br />
GONZÁLEZ, Felipe. Texto preparado para o PRODDAL,<br />
2003.<br />
GONZÁLEZ, Luis E. Polítical structure and <strong>de</strong>mocracy in<br />
Uruguay. NDU Press, Notre Dame, 1991.<br />
GRATSCHEW, María. “Compulsory voting” [http:<br />
//www.i<strong>de</strong>a.int/vt/analysis/Compulsory_Voting.cfm],<br />
2001.<br />
–––––––––––. “Compulsory voting”. In: LÓPEZ-PINTOR,<br />
Rafael; GRATSCHEW, María et al., Voter turnout since<br />
1945: a global report. IDEA Internacional, Estocolmo,<br />
2002.<br />
GRAY, J. The two faces of liberalism. Free Press, Nova York,<br />
2000.<br />
GREEN, Rosario. Texto preparado para o PRODDAL, 2003.<br />
GREENFELD, L. Nationalism. Five roads to mo<strong>de</strong>rnity. Harvard<br />
University Press, Cambridge, Massachusetts, 1992.<br />
GROISMAN, Enrique e LERNER, Emilia. “Responsabilización<br />
por los controles clásicos”. In La responsabilización<br />
en la nueva gestión pública latinoamericana, Centro<br />
Latino-americano <strong>de</strong> Administração para o Desenvolvimento<br />
(CLAD) e BID, Buenos Aires, 2000.<br />
GRZYBOWSKI, Cândido. Texto preparado para o PRODDAL,<br />
2003.<br />
GUADAMUZ, Andrés. “Habeas Data: the latin-american<br />
response to data protection”. In The Journal of<br />
Information, Law and Technology (JILT), 2 [http:<br />
//elj.warwick.ac.uk/jilt/00-2/guadamuz.html], 2000.<br />
–––––––––––. “Habeas Data vs. the European Data Protection<br />
Directive”. In The Journal of Information, Law and<br />
Technology (JILT), 3 [http://elj.warwick.ac.uk/jilt/01-<br />
3/guadamuz.html], 2001.<br />
GUTIÉRREZ, C. J. “Ciudadanía”. In Diccionario Electoral,<br />
Tomo I, IIDHCAPEL, San José <strong>de</strong> Costa Rica, 2000.<br />
Bibliografia 243
GWARTNEY, James; LAWSON, Robert; BLOCK, Walter;<br />
WAGH, Smita; EDWARDS, Chris; e DE RUBY, Veronique.<br />
Economic freedom of the world: 2002 annual<br />
report. Instituto Fraser, Vancouver, 2002.<br />
HABERMAS, Jurgen. Between facts and norms. MIT Press,<br />
Cambridge, Massachusetts, 1996.<br />
–––––––––––. “The european Nation-State: on the past and<br />
future of sovereignty and citizenship”. In: CRONIN,<br />
C. e GRIEFF, P. D. (comps.), The inclusion of the other.<br />
Studies in political theory, MIT Press, Cambridge, Massachusetts,<br />
1998a.<br />
–––––––––––. “On the relation between the nation, the rule<br />
of law, and <strong>de</strong>mocracy”. In: CRONIN, C. e GRIEFF, P. D.<br />
(comps.), The inclusion of the other. Studies in political<br />
theory, MIT Press, Cambridge, Massachusetts, 1998b.<br />
–––––––––––. “Individuation through socialization: on George<br />
Mead’s theory of subjectivity”. In: HABERMAS,<br />
J., Postmetaphysical thinking: philosophical essays, MIT<br />
Press, Cambridge, Massachusetts, 1998c.<br />
–––––––––––. “Introduction”. In: Ratio Juris, 12 (4), pp.<br />
329-335, 1999.<br />
HAGUE, R. et al. Comparative government and politics. Macmillan<br />
Press, 4ª edição, Londres, 1998.<br />
HAIR, J. et al. Multivariate data analysis with reading. Macmillan<br />
Publishing Company, Nova York, 1987.<br />
HAMBURGER, P. A. “The <strong>de</strong>velopment of the nineteenthcentury<br />
consensus Theory of Contract”. In: Law and<br />
History Review 7 (2), pp. 241-329, 1989.<br />
HAMMERGREN, Linn. “Quince años <strong>de</strong> reforma judicial<br />
en América Latina: Dón<strong>de</strong> estamos y por qué no hemos<br />
progresado más” [http://www.oas.org/Juridico/<br />
spanish/adjusti.htm], 2002.<br />
HAMPSHIRE, S. Justice is conflict. Princeton University<br />
Press, Princeton, 2000.<br />
HANSEN, M. H. The athenian <strong>de</strong>mocracy in the Age of Demosthenes.<br />
Oxford University Press, Oxford, 1991.<br />
HARDIN, R. “Why a Constitution”. In: GROF-MAN, B.<br />
e WITTMAN, D. (comps.). The fe<strong>de</strong>ralist papers and<br />
the new institutionalism. Agathon Press, pp. 100-120,<br />
Nova York, 1989.<br />
HARSANYI, J. “Can the Maximin Principle serve as a principle<br />
morality”. In American Political Science Review,<br />
69 (2), pp. 690-705, 1975.<br />
HART, H. L. A. The concept of law. Clarendon Press, Oxford,<br />
1961.<br />
HARTLYN, Jonathan e VALENZUELA, Arturo. “Democracy<br />
in Latin America since 1930”. In: BETHELL, Leslie<br />
(comp.), The Cambridge History of Latin America, Vol.<br />
VI: Latin America since 1930, parte 2: “Politics and Society”,<br />
Cambridge University Press, Nova York, 1994.<br />
HARTLYN, Jonathan; MCCOY, Jennifer; e MUSTILLO,<br />
Thomas J. “The ‘quality of elections’ in contemporary<br />
Latin America: issues in measurement and explanation”.<br />
Artigo apresentado no XXIV Congresso Internacional<br />
da Associação <strong>de</strong> Estudos Latino-americanos<br />
(LASA), Dallas, Texas, 27-29 <strong>de</strong> março 2003.<br />
HELD, David. Mo<strong>de</strong>ls of <strong>de</strong>mocracy. Stanford University<br />
Press, Stanford, 1987.<br />
–––––––––––. “Conclusions”. In: HELD, David; MCGREW,<br />
A. et al., Global transformations. Politics, economics and<br />
culture, Stanford University Press, Stanford, 1999.<br />
–––––––––––. Texto preparado para o PRODDAL, 2002.<br />
HELD, David e GUIBERNAU, M. “Cosmopolitan <strong>de</strong>mocracy.<br />
An interview with David Held”. In: Constellations,<br />
8 (4), pp. 427-440, 2001.<br />
HELD, David; HERMET,Guay; LOAEZA, Soledad;<br />
PRUD’HOMME, Jean-François (comps.). Del populismo<br />
<strong>de</strong> los antiguos al populismo <strong>de</strong> los mo<strong>de</strong>rnos.<br />
Colegio <strong>de</strong> México, Centro <strong>de</strong> Estudos Internacionais,<br />
México, 2001.<br />
HILL, C. Liberty against the law. Some seventeenth-century<br />
controversies. Penguin Books, Londres, 1997.<br />
HIRSCHMAN, A. Exit, voice, and loyalty. Responses to <strong>de</strong>cline<br />
in firms, organizations, and States. Harvard University<br />
Press, Cambridge, 1970.<br />
–––––––––––. The rethoric of reaction. Belknap Press of<br />
Harvard University Press, Cambridge, 1991.<br />
HODESS, Robin; BANFIELD, Jessie; e WOLFE, Toby<br />
(comps.). Global corruption report 2001. TI, Berlim,<br />
2001.<br />
HOFFMAN, M. Empathy and moral <strong>de</strong>velopment. Implications<br />
for caring and justice. Cambridge University<br />
Press, Cambridge, 2000.<br />
HOLMES, S. Passions & constraint. On the theory of liberal<br />
<strong>de</strong>mocracy. University of Chicago Press, Chicago,<br />
1995.<br />
HOLMES, S. e SUNSTEIN, C. R. The cost of rights. Why<br />
liberty <strong>de</strong>pends on taxes. W. W. Norton, Nova York,<br />
1999.<br />
HOOKER, M. B. Legal pluralism: an introduction to colonial<br />
and neo-colonial laws. Oxford University Press,<br />
Oxford, 1975.<br />
HOSLE, V. Objective i<strong>de</strong>alism, ethics, and politics. University<br />
of Notre Dame Press, Notre Dame, Indiana, 1998.<br />
HOUTZAGER, P. e CROOK, R. “We make the law and the<br />
law makes us. Some i<strong>de</strong>as on a law in <strong>de</strong>velopment research<br />
agenda”. In IDS Bulletin, 32 (1), pp. 8-18, 2001.<br />
HSIEH, C.-C. e PUGH, M. D. “Poverty, income inequality,<br />
and violent crime: a meta-analysis of recent aggregate<br />
data studies”. In Criminal Justice Review, 18 (2), pp.<br />
182-202, 1993.<br />
HUANG, Zhexue. “A fast clustering algorithm to cluster<br />
very large categorical data sets in data mining”<br />
[http://www.cmis.au/Graham.Williams/papers/<br />
sigmodfn.pdf], 1997.<br />
HUBER, E. e STEPHENS, J. D. “The bourgeoisie and <strong>de</strong>mocracy:<br />
historical and comparative perspectives”. In<br />
Social Research 66 (3), 1999.<br />
HUBER, E.; RUESCHEMEYER, D.; e STEPHENS, J. D.<br />
“The paradoxes of contemporary <strong>de</strong>mocracy: formal,<br />
participatory, and social <strong>de</strong>mocracy”. In Comparative<br />
Politics 29 (3), pp. 323-342, 1997.<br />
244 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
HUNTINGTON, S. The Third Wave: <strong>de</strong>mocratization in the<br />
late twentieth century. University of Oklahoma Press,<br />
Norman, 1991.<br />
HURTADO, Osvaldo. Texto preparado para o PRODDAL,<br />
2003.<br />
IAZZETTA, O. Estado y <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: una revisión sobre un<br />
vínculo necesario. Universida<strong>de</strong> Nacional <strong>de</strong> Rosario,<br />
Argentina, 2002.<br />
IDEA Internacional (Instituto para a Democracia e a<br />
Assistência Eleitoral). “Voter turnout from 1945<br />
to date. A global report on political participation”<br />
[http://www.i<strong>de</strong>a.int/vt/in<strong>de</strong>x.cfm], 2002a.<br />
–––––––––––. “Compulsory voting” [http://www.i<strong>de</strong>a.int/<br />
vt/analysis/Compulsory_Voting.cfm], 2002b.<br />
–––––––––––. “Global database of quotas for women” [http:<br />
//www.i<strong>de</strong>a.int/quota/in<strong>de</strong>x.cfm], 2003.<br />
IGLESIAS, Enrique. Texto preparado para o PRODDAL,<br />
2003.<br />
INGLEHART, R. Culture shift in advanced industrial society.<br />
Princeton University Press, Princeton, 1990.<br />
Instituto <strong>de</strong> Direito Público Comparado (Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
Carlos III <strong>de</strong> Madrid). Justiça constitucional na Iberoamerica<br />
[http://www.uc3m.es/uc3m/inst/MGP/JCI/<br />
00-portada.htm], 2003.<br />
INTERPOL. “Internacional Crime Statistics” [http:<br />
//www.interpol.int/Public/Statistics/ICS/<br />
downloadList.asp], 2004.<br />
Inter-American Dialogue. “Afro-<strong>de</strong>scendants in Latin<br />
America: how many”. In Race Report, Inter-American<br />
Dialogue, Washington DC, janeiro 2003.<br />
IPEC (Programa Internacional para a Erradicação do Trabalho<br />
Infantil) e SIMPOC (Programa Estatístico <strong>de</strong> Informação<br />
e Monitoramento sobre Trabalho Infantil).<br />
Every child counts: new global estimates on child labour.<br />
OIT, Genebra, 2002.<br />
IPU (União Interparlamentária). Women in parliaments<br />
1945-1995: a world statistical survey. União Interparlamentária,<br />
Genebra, 1995.<br />
–––––––––––. IPU. Women in national parliaments. Statistical<br />
archive website [http://www. ipu.org/wmne/classifarc.htm],<br />
2003.<br />
JARQUÍN, Edmundo e CARRILLO, Fernando (comps).<br />
Justice <strong>de</strong>layed: judicial reform in Latin America. Inter-<br />
American Development Bank, Washington DC, 1998.<br />
JELIN, Elizabeth e HERSHBERG, Eric. Construir la <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>:<br />
<strong>de</strong>rechos h<strong>uma</strong>nos, ciudadanía y sociedad en<br />
América Latina. Nueva Sociedad, Caracas, 1996.<br />
JESSOP, B. State theory. Putting capitalist States in their place.<br />
University Park, Pennsylvania State University Press,<br />
Pennsylvania, 1990.<br />
JIMÉNEZ, Sinesio López. Ciudadanía informada y <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>:<br />
el caso peruano. Comisión Andina <strong>de</strong> Juristas,<br />
Lima, 2002.<br />
JOHNSON III, Ollie A. “Racial representation and brazilian<br />
politics: black members of the National Congress,<br />
1983-1999”. In Journal of Inter-american Studies and<br />
World Affairs, Vol. 40, Nº 4 (inverno), pp. 97-118,<br />
1998.<br />
JONES, Mark P. “A gui<strong>de</strong> to the electoral systems of the<br />
Americas”. In Electoral Studies 14 (1), pp. 5-21, 1995.<br />
–––––––––––. “A gui<strong>de</strong> to the electoral systems of the<br />
Americas: an update”. In Electoral Studies 16 (1), pp.<br />
13-15, 1997.<br />
JONES, P. Rights. St.Martin’s Press, Nova York, 1994.<br />
KARLEKAR, Karin Deutsch. Freedom of the press 2003.<br />
A global survey of media in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nce. Nova York-<br />
Lanham, Freedom House e Rowman & Littlefield<br />
Publishers, Inc., 2003.<br />
KAVANAGH, D. Political science and political behaviour.<br />
Allen & Unwin, Londres, 1983.<br />
KELSEN, Hans. General theory of law and State. Harvard<br />
University Press, Cambridge, Massachusetts, 1945.<br />
–––––––––––. Pure theory of law. University of California<br />
Press, Berkeley, 1967.<br />
KEOHANE, N. O. Philosophy and the State in France. The<br />
Renaissance to the Enlightment. Princeton University<br />
Press, Princeton, 1980.<br />
KERTZER, D. Ritual, politics & power. Yale University Press,<br />
New Haven, 1988.<br />
KIKUT, L.; GÓMEZ, M.; e VARGAS-CULLELL, J. Metodologia<br />
empregada para <strong>de</strong>terminar as tendências para<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> das e dos cidadãos da América Latina.<br />
Documento preparado para o Projeto sobre Desenvolvimento<br />
Democrático na América Latina do PNUD.<br />
PRODDAL, San José, junho <strong>de</strong> 2003a.<br />
KIKUT, L.; GÓMEZ, M.; e VARGAS-CULLELL, J. Anexo:<br />
metodologia para <strong>de</strong>terminar as tendências para a<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> das e dos cidadãos da América Latina a<br />
partir <strong>de</strong> índices sumários. Documento preparado<br />
para o Projeto sobre Desenvolvimento Democrático<br />
na América Latina do PNUD. PRODDAL, San José,<br />
junho <strong>de</strong> 2003b.<br />
KIKUT, L. e VARGAS-CULLELL, J. Variáveis utilizadas<br />
na análise das tendências para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e outras<br />
atitu<strong>de</strong>s. Documento preparado para o Projeto sobre<br />
Desenvolvimento Democrático na América Latina do<br />
PNUD. PRODDAL, San José, junho <strong>de</strong> 2003.<br />
KINZO, Maria Dalva. PMDB: Partido do Movimento Democrático<br />
Brasileiro. Konrad A<strong>de</strong>nauer Stiftung, São<br />
Paulo, 1996.<br />
KORNBLITH, Miriam. “La crisis <strong>de</strong>l sistema político venezuelano”.<br />
In Nueva Sociedad n° 134, 1994.<br />
KRUG, E. G. et al. (comps.). World report on violence and health.<br />
Organização Mundial da Saú<strong>de</strong>, Genebra, 2002.<br />
KRYGIER, M. Between fear and hope. Hybrid thoughts on<br />
public values. ABC Books, Sidney, 1997.<br />
KUCERA, David. “The effect of core worker rights on labour<br />
costs and foreign direct investment: evaluating the<br />
‘conventional wisdom’”. In IILS Decent Work Research<br />
Programme Working Paper, Discussion Paper 130, 2001.<br />
Bibliografia 245
KYMLICKA, W. Multicultural citizenship. Oxford University<br />
Press, Nova York, 1996.<br />
LAAKSO, Markku e TAAGAPERA, Rein. “Effective number<br />
of parties: a measure with application to Western<br />
Europe”. In Comparative Political Studies 12 (1), pp.<br />
3-27, 1979.<br />
LACEY, N. “Responsibility and mo<strong>de</strong>rnity in criminal law”.<br />
In The Journal of Political Philosophy 2 (3), pp. 149-<br />
176, 2001.<br />
LAGOS, Ricardo; LECHENER, Norbert; e GERT, Rosenthal.<br />
Las Ciencias Sociales en el proceso <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocratización.<br />
Flacso, Cua<strong>de</strong>rnos <strong>de</strong> Difusión, Santiago <strong>de</strong> Chile,<br />
1991.<br />
LAGROYE, J. Sociologie politique. Presses da Fondation Nationale<br />
<strong>de</strong>s Sciences Politiques e Dalloz, Paris, 1993.<br />
LAMBSDORFF, Johann Graf. “Transparency International<br />
2001 corruption perceptions in<strong>de</strong>x”. In : HODESS,<br />
Robin; BANFIELD, Jessie ; e WOLFE, Toby (comps.),<br />
Global Corruption Report 2001, TI, Berlim, 2001.<br />
LAMOUNIER, Bolívar. Partidos e utopia. O Brasil no limiar<br />
dos anos 90. Loyola, São Paulo, 1989.<br />
––––––––––– (org.). De Geisel a Collor. O balanço da transição.<br />
IDESP/CNPq, São Paulo, 1990.<br />
LAMOUNIER, Bolivar e MENEGEGHELLO, Rachel. Partidos<br />
e consolidação <strong>de</strong>mocrática. Brasilense, São Paulo,<br />
1986.<br />
LAMOUNIER, Bolivar e SADEK, Maria Teresa. Depois<br />
da transição: <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e eleições no governo Collor.<br />
Loyola, São Paulo, 1991.<br />
LANDI, Oscar. Devórame otra vez. Qué hizo la TV con la<br />
gente. Qué hizo la gente con la TV. Planeta, Buenos<br />
Aires, 1992.<br />
LANE, R. “Procedural goods in a <strong>de</strong>mocracy: how one is<br />
treated versus what one gets”. In Social Justice Research<br />
2 (3), pp. 177-192, 1988.<br />
LANGTON, S. “What is citizen participation”. In: LANG-<br />
TON, S., Citizen participation in America. Lexington<br />
Books, Lexington, 1978.<br />
LECHNER, Norbert. “Epílogo”. In: LECHNER, Norbert<br />
(comp.), Estado y política en América Latina, Siglo<br />
XXI, México DF, 1981.<br />
–––––––––––. Capitalismo, <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> y reformas. Flacso,<br />
Santiago <strong>de</strong> Chile, 1991.<br />
–––––––––––. “Los nuevos perfiles <strong>de</strong> la política. Un bosquejo”.<br />
In Nueva Sociedad, nº 130 março-abril 1994.<br />
–––––––––––. “La problemática innovación <strong>de</strong> la sociedad<br />
civil”. In Espacios, SJCR-Flacso, n° 4, 1995.<br />
–––––––––––. “Estado y sociedad en una perspectiva <strong>de</strong>mocrática”.<br />
In Estudios Sociales 11, Universida<strong>de</strong> Nacional<br />
do Litoral, Rosario, Argentina, 1996.<br />
–––––––––––. “Desafios <strong>de</strong> un <strong>de</strong>sarrollo h<strong>uma</strong>no: individualización<br />
y capital social”. In Instituciones y Desarrollo<br />
7, pp. 7-34, 2000.<br />
LEÓN-ROSCH, Marta. “Los registros electorales”. In: NO-<br />
HLEN, Dieter; PICADO, Sonia; e ZOVATTO, Daniel<br />
(comps.), Tratado <strong>de</strong> <strong>de</strong>recho electoral comparado <strong>de</strong> América<br />
Latina, Fondo <strong>de</strong> Cultura Económica, México, 1998.<br />
LEVI, M. Consent, dissent, and patriotism. Cambridge University<br />
Press, Cambridge, 1997.<br />
LIJPHART, Arend. Democracies. Patterns of majoritarian<br />
and consensus government in twenty-one countries. Yale<br />
University Press, New Haven, 1984.<br />
–––––––––––. “Unequal participation: <strong>de</strong>mocracy’s unresolved<br />
dilemma”. In American Political Science Review<br />
91 (1), pp. 1-14, 1997.<br />
LINZ, Juan. The breakdown of <strong>de</strong>mocratic regimes. Crisis,<br />
breakdown & reequilibration. Johns Hopkins University<br />
Press, Baltimore, 1978.<br />
LINZ, Juan e STEPAN, A. Problems of <strong>de</strong>mocratic transition<br />
and consolidation. Southern Europe, South America,<br />
and post-communist Europe. Johns Hopkins University<br />
Press, Baltimore, 1996.<br />
LÓPEZ-PINTOR, Rafael. Electoral management bodies as<br />
institutions of governance. PNUD, Escritório <strong>de</strong> Políticas<br />
<strong>de</strong> Desenvolvimento, Nova York, 2000.<br />
LORA, Eduardo. Structural reforms in Latin America: what<br />
has been reformed and how to measure it. Inter-American<br />
Development Bank, <strong>de</strong>c. 2001.<br />
MACADAM, D.; TARROW, S.; e TILLY, C. Dynamics of contention.<br />
Cambridge University Press, Nova York, 2001.<br />
MACÍAS, Ricardo Córdova. Una propuesta para la reforma<br />
<strong>de</strong>l Estado en El Salvador. Fundación Dr. Guillermo<br />
Manuel Ungo, San Salvador, 2000.<br />
MAIER, C. Recasting bourgeois Europe. Stabilization in France,<br />
Germany, and Italy in the <strong>de</strong>ca<strong>de</strong> after World War I.<br />
Princeton University Press, Princeton, 1981.<br />
MAINWARING, Scott; BRINKS, Daniel; e PÉREZ-LIÑAN,<br />
Aníbal. “Classifying political regimes in Latin America,<br />
1945-1999”. In Studies in Comparative International<br />
Development 36 (1), pp. 37-65, primavera 2001.<br />
MAINWARING, Scott e SHUGART, Matthew Soberg<br />
(comps.). Presi<strong>de</strong>ntialism and <strong>de</strong>mocracy in Latin America.<br />
Cambridge University Press, Nova York, 1997.<br />
MAIORANO, Jorge Luis. “The <strong>de</strong>fensor <strong>de</strong>l pueblo in Latin<br />
America”. In: GREGORY, Roy e GIDDINGS, Philip<br />
(comps.), Righting wrongs. The ombudsman in six<br />
continents, IOS Press, Washington DC, 2000.<br />
MAÍZ, R. Nacionalismo y movilización política: hacia un<br />
análisis pluridimensional <strong>de</strong> la construcción <strong>de</strong> las<br />
naciones. Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Santiago <strong>de</strong> Compostela,<br />
Santiago <strong>de</strong> Compostela, 2002a.<br />
–––––––––––. “Nacionalismo, fe<strong>de</strong>ralismo y acomodación<br />
en Estados multinacionales”. In: SAFRAN, W. e MAÍZ,<br />
R. (comps.), I<strong>de</strong>ntidad y autogobierno en socieda<strong>de</strong>s<br />
multiculturales, Ariel, Barcelona, 2002b.<br />
MALLOY, J. M. “Política econômica e o problema <strong>de</strong> governabilida<strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>mocrática nos An<strong>de</strong>s Centrais”. In:<br />
SOLA, L. (comp.), Estado, mercado e <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>:<br />
política e economia comparada. Paz e Terra, São Paulo,<br />
1991.<br />
MANSBRIDGE, J. Beyond adversary <strong>de</strong>mocracy. Chicago<br />
University Press, Chicago, 1983.<br />
–––––––––––. “On the i<strong>de</strong>a that participation makes better<br />
246 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
choices”. In: ELKIN, S. e SOLTAN, K. E. (comps.), Citizen<br />
competence and <strong>de</strong>mocratic institutions, University<br />
Park, Pennsylvania State University Press, Pennsylvania,<br />
1999.<br />
MAR, José Matos. “Población y grupos étnicos <strong>de</strong> América,<br />
1994”. In América Indígena 53 (4), pp. 155-234, outubro-<strong>de</strong>zembro<br />
1993.<br />
MARGALIT, A. The <strong>de</strong>cent society. Harvard University Press,<br />
Cambridge, Massachusetts, 1996 (edição em espanhol:<br />
La sociedad <strong>de</strong>cente, Paidós, Barcelona, 1997).<br />
MARSHALL, T. H. “Citizenship and social class”. In MAR-<br />
SHALL, T. H. (comp.), Class, citizenship and social<br />
<strong>de</strong>velopment, Doubleday (1949), Nova York-Gar<strong>de</strong>n<br />
City, 1965.<br />
MARTÍNEZ, Néstor Humberto. “Estado <strong>de</strong> <strong>de</strong>recho y eficiencia<br />
económica”. In JARQUÍN, Edmundo e CAR-<br />
RILLO, Fernando (comps.), La economía política <strong>de</strong> la<br />
reforma judicial, BID, Washington DC, 1997.<br />
MARX, Karl. Early Writings. Edição <strong>de</strong> T. B. Bottomore,<br />
McGraw-Hill, Nova York,1963.<br />
MAYORGA, René Antonio. Democracia y gobernabilidad en<br />
América Latina. Nueva Sociedad, Caracas, 1992.<br />
MAZZUCA, S. “¿Qué es y no es la <strong>de</strong>mocratización”. In<br />
Estudios Políticos (19), pp. 73-122, 1998.<br />
–––––––––––. “Acceso al po<strong>de</strong>r versus ejercicio <strong>de</strong>l po<strong>de</strong>r”.<br />
Universida<strong>de</strong> da Califórnia, multicopiado, Berkeley,<br />
1999.<br />
–––––––––––. “Access to power versus exercise of power:<br />
<strong>de</strong>mocratization and bureaucratization in Latin<br />
America”. Documento mimeografado. Departamento<br />
<strong>de</strong> Ciência Política da Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Califórnia,<br />
Berkeley, 2000.<br />
MCCOY, Jennifer. Texto preparado para o PRODDAL,<br />
2002.<br />
MEAD, G. H. Mind, self, and society. From the standpoint of a<br />
social behaviorist. University of Chicago Press (1934),<br />
Chicago, 1967.<br />
MEENTZEN, Angela. Estrategies <strong>de</strong> <strong>de</strong>sarrollo culturalmente<br />
a<strong>de</strong>cuadas para mujeres indígenas. BID, Departamento<br />
<strong>de</strong> Desenvolvimento Sustentável, Unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Povos<br />
Indígenas e Desenvolvimento Comunitário, Washington<br />
DC, 2002.<br />
MÉNDEZ, J.; O’DONNELL, G.; e PINHEIRO, P. S.<br />
(comps.). The rule of law and the un<strong>de</strong>rprivileged in<br />
Latin America. University of Notre Dame Press, Notre<br />
Dame, Indiana, 1999.<br />
MÉNDEZ, Juan. Texto preparado para o PRODDAL, 2002.<br />
MÉNDEZ-MONTALVO, Myriam e BALLINGTON, Julie<br />
(comps.). Mujeres en el parlamento. Más allá <strong>de</strong>los<br />
números. IDEA Internacional, Estocolmo, 2002.<br />
MESA, Carlos. Presi<strong>de</strong>ntes <strong>de</strong> Bolivia: entre urnas y fusiles.<br />
Gisbert, La Paz, 1999.<br />
MIDDLEBROOK, Kevin J. (comp.). Electoral observation<br />
and <strong>de</strong>mocratic transitions in Latin America. Center<br />
for U.S.-Mexican Studies, Universida<strong>de</strong> da Califórnia,<br />
La Jolla, 1998.<br />
MILL, John Stuart. On liberty. Collins/Fontana, Glasgow,<br />
1962 (edição em espanhol: Sobre la libertad, Aguilar,<br />
Buenos Aires, 1954).<br />
MOISÉS, José Álvaro e ALBUQUERQUE, J. A. Guilhon<br />
(org.). Dilemas da consolidação da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Paz e<br />
Terra, Rio <strong>de</strong> Janeiro, 1989.<br />
MONTGOMERY, Tommie Sue (comp.). Peacemaking and<br />
<strong>de</strong>mocratization in Central America. Lynne Rienner,<br />
Boul<strong>de</strong>r, Colorado, 1999.<br />
MORA E ARAUJO, Manuel. Los actores sociales y políticos<br />
en los procesos <strong>de</strong> transformación en América Latina.<br />
CIEDLA, Buenos Aires, 1997.<br />
MORLEY, Samuel. The income distribution problem in Latin<br />
America and the Caribbean. Cepal, Santiago <strong>de</strong> Chile,<br />
2001.<br />
MORLEY, Samuel A.; MACHADO, Roberto; e PETTINATO,<br />
Stefano. “In<strong>de</strong>xes of structural reform in Latin America”.<br />
In Serie Reformas Económicas Nº 12, ECLAC,<br />
LC/L.1166/I, Santiago <strong>de</strong> Chile, janeiro 1999.<br />
MOSLEY, Layna e UNO, Saika. Dataset of labor rights violations,<br />
1981-2000. Universidad <strong>de</strong> Notre Dame, Notre<br />
Dame, Indiana, 2002.<br />
MOUFFE, Chantal. “Democracy, power, and the ‘political’”.<br />
In: BENHABIB, S. (comp.), Democracy and difference.<br />
Contesting the boundaries of the political. Princeton<br />
University Press, Princeton, 1996.<br />
–––––––––––. The <strong>de</strong>mocratic paradox. Verso, Londres,<br />
2000.<br />
MOULIÁN, Tomás. Democracia y socialismo en Chile. Flacso,<br />
Santiago <strong>de</strong> Chile, 1983.<br />
–––––––––––. En la brecha. Derechos h<strong>uma</strong>nos. Críticas y<br />
alternativas. Lom, Santiago <strong>de</strong> Chile, 2002.<br />
MUNCK, Gerardo L. Concepts, indicators, and indices. Methodological<br />
foundations of the statistical compendium<br />
of the report on <strong>de</strong>mocratic <strong>de</strong>velopment in Latin America.<br />
Manuscrito inédito, 2004.<br />
MUNCK, Gerardo L. e VERKUILEN, Jay. “Conceptualizing<br />
and measuring <strong>de</strong>mocracy: evaluating alternative indices”.<br />
In Comparative Political Studies 35 (1), pp. 5-34,<br />
fevereiro 2002.<br />
NANDA, Ved P.; SCARRITT, James; e SHEPHERD, George<br />
Jr. (comps.). Global h<strong>uma</strong>n rights: public policies comparative<br />
measures, and NGO strategies. Westview Press,<br />
Boul<strong>de</strong>r, Colorado, 1981.<br />
NEWEY, G. “Value-pluralism in contemporary liberalism”.<br />
In Dialogue 37, pp. 493-522, 1998.<br />
NOHLEN, Dieter e GROTZ, Florian. “External voting: legal<br />
framework and overview of electoral legislation”. In<br />
Boletín Mexicano <strong>de</strong> Derecho Comparado 99, pp. 1115-<br />
1145, setembro-<strong>de</strong>zembro 2000.<br />
NOHLEN, Dieter; PICADO, Sonia; e ZOVATTO, Daniel<br />
(comps.). Tratado <strong>de</strong> <strong>de</strong>recho electoral comparado <strong>de</strong><br />
América Latina. Fondo <strong>de</strong> Cultura Económica, México,<br />
1998.<br />
Bibliografia 247
NOZICK, Richard. Anarchy, State, and utopia. Basic Books,<br />
Nova York, 1974 (edição em espanhol: Anarquía, Estado<br />
y utopía, Fondo <strong>de</strong> Cultura Económica, México,<br />
1988)<br />
NUN, José. Democracia. ¿Gobierno <strong>de</strong>l pueblo o <strong>de</strong> los políticos.<br />
Fondo <strong>de</strong> Cultura Económica, Buenos Aires,<br />
2001.<br />
–––––––––––. Texto preparado para o PRODDAL, 2002.<br />
NUSSBAUM, M. “Capabilities and h<strong>uma</strong>n rights”. In Fordham<br />
Law Review 66 (2), pp. 273-300, 1997.<br />
–––––––––––. “Aristotle, politics, and h<strong>uma</strong>n capabilities:<br />
a response to Antony, Arneson, Charlesworth, and<br />
Mulgan”. In Ethics 111, pp. 102-140, 2000a.<br />
–––––––––––. Women and h<strong>uma</strong>n <strong>de</strong>velopment. The capabilities<br />
approach. Cambridge University Press, Cambridge,<br />
2000b.<br />
OCAMPO, Augusto Ramírez. Texto preparado para o PRO-<br />
DDAL, 2003.<br />
OCAMPO, José A. Texto preparado para o PRODDAL,<br />
2003.<br />
OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento<br />
Econômico) e UNESCO (Organização das Nações<br />
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Literacy<br />
skills for the world of tomorrow. OECD, UNESCO,<br />
Paris, 2003.<br />
O’DONNELL, Guillermo. El Estado burocráticoautoritario.<br />
1966-1973. Triunfos, <strong>de</strong>rrotas y crisis. Editorial <strong>de</strong> Belgrano,<br />
2ª edição, Buenos Aires, 1982.<br />
–––––––––––. “On the State, <strong>de</strong>mocratization and some<br />
conceptual problems: a latin american view with<br />
glances at some postcommunist countries”. In World<br />
Development 21 (8), pp. 1355-1369, 1993.<br />
–––––––––––. “Delegative <strong>de</strong>mocracy”. In Journal of Democracy<br />
5 (1), pp. 94-108, 1994.<br />
–––––––––––. Horizontal Accountability and New Polyarchies.<br />
The Helen Kellogg Institute for International<br />
Studies at the University of Notre Dame, Notre Dame,<br />
Indiana, 1997a.<br />
–––––––––––. Contrapuntos. Ensayos escogidos sobre autoritarismo<br />
y <strong>de</strong>mocratización. Paidós, Buenos Aires,<br />
1997b.<br />
–––––––––––. “Horizontal accountability and new polyarchies”.<br />
In: SCHEDLER, A.; DIAMOND, L.; e PLAT-<br />
TNER, M. (comps.), The self-restraining State: power<br />
and accountability in new <strong>de</strong>mocracies. Lynne Rienner,<br />
Boul<strong>de</strong>r, Colorado, 1998a.<br />
–––––––––––. Democratic theory and comparative politics.<br />
The Helen Kellogg Institute for International Studies<br />
at the University of Notre Dame, Notre Dame, Indiana,<br />
1999a.<br />
–––––––––––. “Polyarchies and the (un)rule of law in<br />
Latin America”. In: MÉNDEZ, J.; O’DONNELL, G.;<br />
e PINHEIRO, P. S. (comps.), The rule of law and the<br />
un<strong>de</strong>rprivileged in Latin America, University of Notre<br />
Dame Press, Notre Dame, Indiana, 1999b.<br />
–––––––––––. “Pobreza y <strong>de</strong>sigualdad en América Latina.<br />
Algunas reflexiones políticas”. In: TOKMAN,Víctor e<br />
O’DONNELL, Guillermo (eds.), Pobreza y <strong>de</strong>sigualdad<br />
en América Latina. Temas y nuevos <strong>de</strong>safíos, Paidós,<br />
Buenos Aires, 1999c.<br />
–––––––––––. “Democracy, Law, and Comparative Politics”.<br />
In Helen Kellogg Institute for International Studies<br />
working paper, 274, The Helen Kellogg Institute for<br />
International Studies at the University of Notre Dame,<br />
Notre Dame, Indiana, 2000. Versão resumida em Studies<br />
in International Comparative Development 36(1),<br />
pp. 5-36 (2001).<br />
–––––––––––. H<strong>uma</strong>n <strong>de</strong>velopment, h<strong>uma</strong>n rights, <strong>de</strong>mocracy.<br />
Documento preparado para o seminário “Calidad<br />
<strong>de</strong> la Democracia”, San José, Costa Rica, 2001a.<br />
–––––––––––. “Reflections on contemporary Latin American<br />
<strong>de</strong>mocracies”. In Journal of Latin American Studies,<br />
67-82, outono 2001b.<br />
–––––––––––. “H<strong>uma</strong>n <strong>de</strong>velopment / <strong>de</strong>mocracy / h<strong>uma</strong>n<br />
rights”. Palestra apresentada no seminário “Calidad<br />
<strong>de</strong> la Democracia y Desarrollo H<strong>uma</strong>no en América<br />
Latina”, realizado em Heredia, Costa Rica, 2002a. Disponível<br />
em www.estadonacion.org.cr.<br />
–––––––––––. “Notas sobre varias ‘accountabilities’ y sus<br />
interrelaciones”. In PERUZZOTTI, E. e SMULOVITZ,<br />
C. (comps.), Controlando la política. Ciudadanos y<br />
medios en las nuevas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s, Temas, Buenos<br />
Aires, 2002b.<br />
–––––––––––. Notes on the state of <strong>de</strong>mocracy in Latin América.<br />
Documento preparado para o projeto “El estado<br />
<strong>de</strong> la <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> en América Latina”, patrocinado pela<br />
Divisão Regional para a América Latina e o Caribe do<br />
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento,<br />
2002c.<br />
–––––––––––. “Horizontal accountability: the legal institutionalization<br />
of mistrust”. In: MAINWARING, S.<br />
e WELNA, C. (comps.), Accountability, <strong>de</strong>mocratic<br />
governance, and political institutions in Latin America,<br />
Oxford University Press, Oxford, 2003a.<br />
O’DONNELL, G. et al. Transitions from authoritarian rule:<br />
comparative perspectives. Johns Hopkins University<br />
Press, Baltimore, 1986.<br />
O’DONNELL, G. e SCHMITTER, P. Transitions from authoritarian<br />
rule: tentative conclusions about uncertain<br />
<strong>de</strong>mocracies. Johns Hopkins University Press, Baltimore,<br />
1986.<br />
O’DRISCOLL Jr., Gerald; FEULNER, J. Edwin; O’GRADY,<br />
Mary Anastasia; EIRAS, Ana; e SHAEFER, Brett<br />
(comps.). The 2003 in<strong>de</strong>x of economic freedom. Fundación<br />
Heritage e Dow Jones & Co., Inc., Washington<br />
DC, 2003.<br />
O’DRISCOLL Jr., Gerald; KIM, Holmes; e O’GRADY,<br />
Mary Anastasia (comps.). The 2002 in<strong>de</strong>x of economic<br />
freedom. Fundación Heritage e Dow Jones & Co. Inc.,<br />
Washington DC, 2002.<br />
OEA (Organização <strong>de</strong> Estados Americanos). “Appendix:<br />
inter-american treaties: status of signatures and<br />
ratifications classified by treaty, country and subject<br />
matter” [http://www.oas.org/juridico/english/study_<br />
appendix.doc], 2003.<br />
OEA – CIDH (Comissão Interamericana <strong>de</strong> Direitos H<strong>uma</strong>nos),<br />
Relatoría para la Libertad <strong>de</strong> Expresión. Annual<br />
report of the special rapporteur for freedom of expression<br />
2001 [http://www.cidh.org/Relatoria/English/<br />
AnnualReports.htm], 2001.<br />
–––––––––––. “Special reports/informes especiales” [http:<br />
//www.cidh.oas.org/countryrep/pais. esp.htm], 2003.<br />
OEA – Comissão Interamericana <strong>de</strong> Mulheres. “Quota<br />
Laws” [http://www.oas.org/cim/English/Laws-<br />
Cuota.htm], 2002.<br />
–––––––––––. “Violence Laws” [http://www.oas.org/cim/<br />
English/LawsViolence.htm], 2003.<br />
248 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
Office of the Comptroller and Auditor General of India.<br />
“Mandates of SAIs (Special Audit Agencies)” [http:<br />
//www.cagindia.org/mandates.htm], 2003.<br />
OIT (Organização Internacional do Trabalho), “ILOLEX<br />
database on international labour standards” [http:<br />
//www.ilo.org/ilolex/english/convdisp2.htm], 2002a.<br />
–––––––––––. “Pueblos Indígenas” [http://<br />
www.indigenas.oit.or.cr/], 2002b.<br />
–––––––––––. “ILOLEX database on international labour<br />
standards. Ratifications of the fundamental h<strong>uma</strong>n<br />
rights conventions by country” [http://ilolex.ilo.ch:<br />
1567/english/docs/<strong>de</strong>cl-world.htm], 2003.<br />
OIT – Escritório Regional para as Américas. 2001 labour<br />
overview. OIT – Escritório Regional para as Américas,<br />
Lima, 2001.<br />
–––––––––––. Panorama laboral 2002. OIT – Escritório<br />
Regional para as Américas, Lima, 2002.<br />
–––––––––––. Panorama laboral 2003. Anexo Estatístico, 2003.<br />
OMS (Organização Mundial da Saú<strong>de</strong>) – UNICEF (Fundo<br />
das Nações Unidas para a Infância). Global water<br />
supply and sanitation assessment 2000 report. OMS e<br />
UNICEF, Nova York, 2000.<br />
OMS, Departamento <strong>de</strong> Nutrição para a Saú<strong>de</strong> e o Desenvolvimento.<br />
WHO global database on child growth and<br />
malnutrition [http://www.who.int/nutgrowthdb/],<br />
Genebra, 2002.<br />
ONU (Organização das Nações Unidas). Declaração Universal<br />
dos Direitos H<strong>uma</strong>nos. Adotada e proclamada pela<br />
Assembléia Geral em sua resolução 217 A (III), 10 <strong>de</strong><br />
<strong>de</strong>zembro 1948.<br />
–––––––––––. “Multilateral treaties <strong>de</strong>posited with the Secretary<br />
General” [http://untreaty.un.org/], 2003a.<br />
–––––––––––. Implementation of the United Nations Millenium<br />
Declaration. Report of the Secretary General,<br />
A/58/323, 2003b.<br />
ONU (Organização das Nações Unidas), Comissão dos Direitos<br />
H<strong>uma</strong>nos. Resolução da Comissão <strong>de</strong> Direitos<br />
H<strong>uma</strong>nos 1999/57 sobre a “Promoção do direito à<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>”, 1999.<br />
ONU (Organização das Nações Unidas), Divisão <strong>de</strong> População,<br />
Departamento <strong>de</strong> Assuntos Econômicos e Sociais.<br />
World population prospects: the 2000 revision.<br />
Nações Unidas, Nova York, 2001.<br />
–––––––––––. World Urbanization Prospects The 2001 Revision.<br />
Nações Unidas, Nova York, 2002.<br />
ORTEGA R., Eugenio e MORENO, Carolina (comps.). ¿La<br />
concertación <strong>de</strong>sconcertada Reflexiones sobre su historia<br />
y su futuro. Lom, Santiago <strong>de</strong> Chile, 2002.<br />
OSTWALD, M. From popular sovereignty to the sovereignty.<br />
Law, society, and politics in fifth-century Athens. University<br />
of California Press, Berkeley, 1986.<br />
PACHANO, Simón (comp.). Mo<strong>de</strong>rnización <strong>de</strong> las instituciones<br />
<strong>de</strong>mocráticas: El Congreso. Flacso, Quito, 1998.<br />
––––––––––– (comp.). Ciudadanía e i<strong>de</strong>ntidad. Flacso,<br />
Quito, 2003.<br />
PANIAGUA, Vicente. “El frau<strong>de</strong> en marcha”. In Qué Hacer,<br />
N° 118, Lima, 2000.<br />
PASTOR, Robert A. “The role of electoral administration in<br />
<strong>de</strong>mocratic transitions: implications for policy and research”.<br />
In Democratization 6 (4), pp. 1-27, inverno 1999.<br />
PATTERSON, O. Freedom. Volume I. Freedom in the making<br />
of the Western World. Basic Books, Nova York, 1991.<br />
PAXTON, Pamela; BOLLEN, Kenneth; LEE, Deborah; e<br />
HYOJOUNG, Kim. “A half-century of suffrage: new<br />
data and a comparative analysis”. In Studies in Comparative<br />
International Development 38 (1), pp. 93-122, 2003.<br />
PAYNE, J.; ZOVATTO, Daniel; FLORÉZ, Fernando Carillo;<br />
e ZAVALA, Andrés Allamand. Democracies in <strong>de</strong>velopment.<br />
Politics and reform in Latin America. BID e IDEA<br />
Internacional, Washington DC, 2002.<br />
PAZ, Sergio Almaraz. Para abrir el diálogo. Los Amigos <strong>de</strong>l<br />
Libro, La Paz, 1979.<br />
PEDERSEN, Mogens N. “Changing patterns of electoral<br />
volatility in european party systems, 1948-1977:<br />
explorations in explanation”. In: DAALDER, Hans e<br />
MAIR, Peter (comps.), Western european party systems:<br />
continuity and change, Sage, Beverly Hills, 1983.<br />
PENNINGTON, K. The prince and law, 1200-1600. Sovereignty<br />
and rights in the western legal tradition. University<br />
of California Press, Berkeley, 1993.<br />
PÉREZ-LIÑÁN, Aníbal. “Crisis presi<strong>de</strong>nciales: Gobernabilidad<br />
y estabilidad <strong>de</strong>mocrática en América Latina,<br />
1950-1996”. In Instituciones y Desarrollo, Barcelona, 8 e<br />
9, pp. 281-298, 2001.<br />
–––––––––––. “Presi<strong>de</strong>ntial crises and political accountability<br />
in Latin America, 1990-1999”. In: ECKSTEIN,<br />
Susan e WICKHAM-CROWLEY, Timothy (comps.),<br />
What justice Whose justice Fighting for fairness in Latin<br />
America, capítulo 4, University of California Press,<br />
Berkeley, 2003.<br />
PERRY, Guillermo Francisco; FERREIRA, H. G.; WALTON,<br />
Michael et al. Inequality in Latin America and the<br />
Caribbean: breaking with History. Banco Mundial,<br />
Washington DC, 2004.<br />
PERUZZOTTI, Enrique e SMULOVITZ, Catalina. “Accountability<br />
social: la otra cara <strong>de</strong>l control”. In: PERU-<br />
ZZOTTI, E. e SMULOVITZ, C. (comps.), Controlando<br />
la política. Ciudadanos y medios en las nuevas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s,<br />
Temas, Buenos Aires, 2002a.<br />
––––––––––– (comps.). Controlando la política. Ciudadanos<br />
y medios en las nuevas <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s. Temas, Buenos<br />
Aires, 2002b.<br />
PESCHARD, Jacqueline. La cultura política <strong>de</strong>mocrática.<br />
Cua<strong>de</strong>rnos <strong>de</strong> divulgación <strong>de</strong> la cultura <strong>de</strong>mocrática,<br />
2, IFE, México, 1997.<br />
PINTO, Céli Regina Jardim. Texto preparado para o<br />
PRODDAL, 2003.<br />
PINTO-DUSCHINSKY, Michael. “Financing politics: a<br />
global view”. In Journal of Democracy, 13 (4), pp. 69-<br />
86, 2002a.<br />
–––––––––––. Money and politics handbook: a gui<strong>de</strong> to increasing<br />
transparency in emerging <strong>de</strong>mocracies. Office of<br />
Democracy and Governance, Technical Publications<br />
Series, Washington, 2002b.<br />
PION-BERLIN, David (comp.). Civil-military relations in<br />
Bibliografia 249
Latin America. New analytical perspectives. University<br />
of North Carolina Press, Chapel Hill, North Carolina,<br />
2001.<br />
PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).<br />
Integrating h<strong>uma</strong>n rights with sustainable h<strong>uma</strong>n<br />
<strong>de</strong>velopment. A UNDP policy document. PNUD,<br />
Nova York, 1998a.<br />
–––––––––––. UNDP poverty report 1998. Overcoming h<strong>uma</strong>n<br />
poverty. PNUD, Nova York, 1998b.<br />
–––––––––––. H<strong>uma</strong>n <strong>de</strong>velopment report 2000. H<strong>uma</strong>n rights<br />
and h<strong>uma</strong>n <strong>de</strong>velopment, Oxford University Press,<br />
Nova York, 2000a.<br />
–––––––––––. Poverty report 2000. Overcoming h<strong>uma</strong>n poverty.<br />
PNUD, Nova York, 2000b.<br />
–––––––––––. Informe sobre <strong>de</strong>sarrollo h<strong>uma</strong>no 2000. Mundi-Prensa,<br />
Madrid, 2000c.<br />
–––––––––––. H<strong>uma</strong>n <strong>de</strong>velopment report 2001. PNUD e<br />
Oxford University Press, Nova York, 2001.<br />
–––––––––––. Informe sobre <strong>de</strong>sarrollo h<strong>uma</strong>no 2002. Mundi-Prensa,<br />
Madrid, 2002.<br />
–––––––––––. Arab h<strong>uma</strong>n <strong>de</strong>velopment report 2002. Creating<br />
opportunity for future generations. PNUD, Escritório<br />
Regional dos Estados Árabes, Nova York, 2002a.<br />
–––––––––––. Informe sobre <strong>de</strong>sarrollo h<strong>uma</strong>no. Honduras<br />
2002. Por una <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> incluyente. PNUD, Tegucigalpa,<br />
2002b.<br />
–––––––––––. Informe sobre <strong>de</strong>sarrollo h<strong>uma</strong>no 2002.<br />
Profundizar la <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> en un mundo fragmentado.<br />
Mundi-Prensa, Madrid, 2002c.<br />
–––––––––––. Informe sobre <strong>de</strong>sarrollo h<strong>uma</strong>no 2003. Millenium<br />
Development Goals: a compact among nations<br />
to end h<strong>uma</strong>n poverty. Oxford University Press, Nova<br />
York, 2003.<br />
Po<strong>de</strong>r Judicial, República Oriental <strong>de</strong>l Uruguay, División <strong>de</strong><br />
Planeamiento y Presupuesto, Departamento <strong>de</strong> Estadísticas<br />
Judiciales. Actividad <strong>de</strong> Defensorías <strong>de</strong> Oficio en<br />
todo el país. 2001 [http://www.po<strong>de</strong>rjudicial.gub.uy/],<br />
2002.<br />
POPKIN, Margaret. “Informe comparativo sobre la in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ncia<br />
judicial en América Latina”. Trabalho<br />
apresentado na Conferência Internacional: Perspectiva<br />
Global, Regional e Nacional, Lima, Peru, 29-30 <strong>de</strong><br />
novembro 2001.<br />
PORTER, Michael; SACHS, Jeffrey; CORNELIUS, Peter;<br />
MCARTHUR, John; e SCHWAB, Klaus. The global<br />
competitiveness report 2001-2002. Oxford University<br />
Press, Nova York, 2002.<br />
PORTES, Alejandro. En torno a la informalidad. Ensayos<br />
sobre teoría y medición <strong>de</strong> la economía no regulada.<br />
Flacso, Quito, 1995.<br />
PREBISCH, Raúl. “La industrialización <strong>de</strong> América Latina”.<br />
In: SEGRERA, Francisco López (comp.), El pensamiento<br />
social latinoamericano en el siglo XX, Tomo I,<br />
UNESCO, Caracas, 1997.<br />
PREUSS, U. “The concept of rights and the Welfare State”.<br />
In: TEUBNER, G. (comp.), Dilemmas of law in the<br />
Welfare State, Gruyter, Nova York-Berlim, 1986.<br />
–––––––––––. “The political meaning of constitutionalism”.<br />
In: BELLAMY, R. (comp.), Constitutionalism,<br />
<strong>de</strong>mocracy, and sovereignty: american and european<br />
perspectives, Avebury, Al<strong>de</strong>rshot, 1996a.<br />
–––––––––––. “Two challenges to european citizenship”. In<br />
Political Studies 44 (3), pp. 534-552, 1996b.<br />
PRILLAMAN, William C. The Judiciary and <strong>de</strong>mocratic <strong>de</strong>cay<br />
in Latin America. Declining confi<strong>de</strong>nce in the rule of<br />
law. Praeger, Westport CT, 2000.<br />
Programa Integral <strong>de</strong> Reforma Judicial [http://www.reform<br />
ajudicial.jus.gov.ar/estadisticas/america.htm], 2003.<br />
Proyecto Estado <strong>de</strong> la Nación. Estado <strong>de</strong> la región. Un informe<br />
<strong>de</strong>s<strong>de</strong> Centroamérica y para Centroamérica. Proyecto<br />
Estado <strong>de</strong> la Nación, San José <strong>de</strong> Costa Rica, 1999.<br />
Proyecto Estado <strong>de</strong> la Nación. Estado <strong>de</strong> la región. II Informe<br />
<strong>de</strong> <strong>de</strong>sarrollo h<strong>uma</strong>no sustentable en Centroamérica.<br />
Proyecto Estado <strong>de</strong> la Nación, San José <strong>de</strong> Costa Rica<br />
(no prelo).<br />
Proyecto Estado <strong>de</strong> la Nación en Desarrollo H<strong>uma</strong>no Sustentable.<br />
Informe <strong>de</strong> la auditoría ciudadana sobre la calidad<br />
<strong>de</strong> la <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> en Costa Rica. Proyecto Estado<br />
<strong>de</strong> la Nación, San José <strong>de</strong> Costa Rica, 2001.<br />
–––––––––––. “Políticas públicas <strong>de</strong> combate al racismo y la<br />
discriminación en Centroamérica”. Proyecto Estado <strong>de</strong><br />
la Nación, San José <strong>de</strong> Costa Rica, 2002.<br />
PRZEWORSKI, Adam. Democracy and the market: the political<br />
and economical reforms in Eastern Europe and<br />
Latin America. Cambridge University Press, Nova<br />
York, 1991.<br />
PRZEWORSKI, Adam; ÁLVAREZ, Michael E.; CHEIBUB,<br />
José Antonio; e LIMONGI, Fernando. Democracy<br />
and <strong>de</strong>velopment: political institutions and well-being<br />
in the world, 1950-1990. Cambridge University Press,<br />
Cambridge, 2000.<br />
PRZEWORSKI, Adam e SPRAGUE, J. Paper stones. A history<br />
of electoral socialism. University of Chicago Press,<br />
Chicago, 1986.<br />
PRZEWORSKI, Adam; MANIN, B.; e STOKES, S. (comps.).<br />
Democracy, accountability, and representation. Cambridge<br />
University Press, Nova York, 1999.<br />
PUTNAM, R. Making <strong>de</strong>mocracy work. Princeton University<br />
Press, Princeton, 1993.<br />
–––––––––––. “Tunning in, tunning out: the strange disappearance<br />
of social capital in America”. In Political<br />
Science & Politics, N° 4, 1995.<br />
–––––––––––. Bowling alone: the collapse and revival of american<br />
community. Simon & Schuster, Nova York, 2000.<br />
RAWLS, John. A theory of justice. Harvard University Press,<br />
Cambridge, Massachusetts, 1971.<br />
–––––––––––. Justice as fairness. A restatement. Belknap<br />
Press of Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts,<br />
2001.<br />
RAZ, J. The morality of freedom. Clarendon Press, Oxford,<br />
1986.<br />
–––––––––––. Ethics in the public domain. Essays in the<br />
morality of law and politics. Clarendon Press, Oxford,<br />
1994.<br />
Repórteres sem Fronteiras. “Worldwi<strong>de</strong> Press Freedom<br />
In<strong>de</strong>x” [http://www.rsf.org/article.php3id_article=4116],<br />
2003.<br />
REYES, Manuel Aragón. “Derecho electoral: sufragio<br />
activo y pasivo”. In: NOHLEN, Dieter; PICADO,<br />
Sonia; e ZOVATTO, Daniel (comps.), Tratado <strong>de</strong> <strong>de</strong>recho<br />
electoral comparado <strong>de</strong> América Latina, Fondo<br />
<strong>de</strong> Cultura Econômica, México, 1998.<br />
250 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
REYNA, José Luis. América Latina a fines <strong>de</strong> siglo. Paidós,<br />
Buenos Aires-México, 1999.<br />
RIAL, Juan. “Instituciones <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> directa en América<br />
Latina” [www.ndipartidos.org/pdf/gobernando/<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>directa.pdf], 2000.<br />
RIAL, Juan e ZOVATTO, Daniel (comps.). Elecciones y<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> en América Latina, 1992-1996. Instituto<br />
Interamericano <strong>de</strong> Derechos H<strong>uma</strong>nos-Centro Interamericano<br />
<strong>de</strong> Asesoría y Promoción Electoral, San<br />
José <strong>de</strong> Costa Rica, 1998.<br />
RIBEIRAL, Tatiana B. e DANTAS, Humberto. Participação<br />
política e cidadania. Editora Lê, Belo Horizonte, 2003.<br />
RIVAROLA, Domingo. La sociedad conservadora. CPES,<br />
Assunção, 1993.<br />
RIVAS, E. Torres. “La nación: problemas teóricos e históricos”.<br />
In: LECHNER, Norberto (comp.), Estado y política<br />
en América Latina, Siglo XXI, México DF, 1981.<br />
RIVERO, Oswaldo <strong>de</strong>. El mito <strong>de</strong>l <strong>de</strong>sarrollo: los países inviables<br />
en el siglo XXI. Fondo <strong>de</strong> Cultura Económica,<br />
Lima, 2001.<br />
RICHARDS, D. A. “Autonomy in law”. In: CHRISTMAN, J.<br />
(comp.), The inner cita<strong>de</strong>l. Essays on individual autonomy.<br />
Oxford University Press, Oxford, 1996.<br />
RICUPERO, Rubens. Texto preparado para o PRODDAL,<br />
2003.<br />
RODRIK, Dani. “Democracy and economic performance”.<br />
Harvard University, <strong>de</strong>zembro 1997.<br />
–––––––––––. “Development strategies for the next century”.<br />
Harvard University, fevereiro 2000.<br />
–––––––––––. “Four simple principles for <strong>de</strong>mocratic governance<br />
of globalization”. Harvard University, maio<br />
2001.<br />
RONCAGLIOLO, Rafael. “Elecciones <strong>de</strong>l 2000: Caja <strong>de</strong><br />
sorpresas para una teoría <strong>de</strong>l frau<strong>de</strong> electoral”. In Qué<br />
hacer, N° 118, Lima, 2000.<br />
ROSANVALLON, Pierre. Le sacré du citoyen. Histoire du<br />
suffrage universel en France. Gallimard, Paris, 1992.<br />
–––––––––––. “The history of the word ‘<strong>de</strong>mocracy’ in<br />
France”. In Journal of Democracy 6 (4), pp. 140-154,<br />
1995.<br />
–––––––––––. Texto preparado para o PRODDAL, 2002.<br />
ROSE, Richard (comp.). International encyclopedia of elections.<br />
CQ Press, Washington DC, 2000.<br />
ROTHSTEIN, B. Just institutions matter. The moral and<br />
political logic of the universal Welfare State. Cambridge<br />
University Press, Cambridge, 1998.<br />
ROUQUIÉ, Alain; LAMOUNIER, Bolívar; e SCHVARZER,<br />
Jorge. Como renascem as <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>s. Brasiliense, São<br />
Paulo, 1985.<br />
RUESCHEMEYER, D. e EVANS, P. “The State and economic<br />
transformation: toward an analysis of the conditions<br />
un<strong>de</strong>rlying effective intervention”. In: EVANS, P.;<br />
RUESCHEMEYER, D.; e SKOCPOL, T. (comps.),<br />
Bringing the State back in, Cambridge University Press,<br />
Cambridge, Massachusetts, 1985.<br />
RUESCHEMEYER, D.; HUBER, E.; e STEPHENS, J. Capitalist<br />
<strong>de</strong>velopment & <strong>de</strong>mocracy. Polity Press, Cambridge, 1992.<br />
SÁEZ, Manuel Alcântara. “Experimentos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> interna:<br />
Las primarias <strong>de</strong> partidos en América Latina”. In<br />
Helen Kellogg Institute for International Studies working<br />
paper, 293, The Helen Kellogg Institute for International<br />
Studies at the University of Notre Dame, Notre<br />
Dame, Indiana, 2002.<br />
–––––––––––. Texto preparado para o PRODDAL, 2003.<br />
SAGASTI, Francisco; PATRÓN, Pepi; HERNÁNDEZ, Max; e<br />
LYNCH, Nicolás. Democracia y buen gobierno. Agenda<br />
Perú. Agenda Peru, Lima, 1999.<br />
SALOMÓN, Leticia. Democratización y sociedad civil en<br />
Honduras. Tegucigalpa, 1994.<br />
––––––––––– (comp.). Los retos <strong>de</strong> la <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Cedoh,<br />
Tegucigalpa, 1994.<br />
SAMPÉ, Raúl Alconada. Texto preparado para o PRODDAL,<br />
2003.<br />
SAMUELS, David. “Fiscal horizontal accountability Toward<br />
a theory of budgetary ‘checks and balances’ in presi<strong>de</strong>ntial<br />
systems”. Artigo apresentado na Conferência<br />
“Horizontal Accountability in New Democracies”, The<br />
Helen Kellogg Institute for International Studies at the<br />
University of Notre Dame, 2000.<br />
SANTOS, Wan<strong>de</strong>rley Guilherme dos. Cidadania e Justiça.<br />
Campus, Rio <strong>de</strong> Janeiro, 1979.<br />
SARTORI, Giovanni. Democratic theory. Praeger Publishers,<br />
Nova York, 1967.<br />
–––––––––––. The theory of <strong>de</strong>mocracy revisited I: the<br />
contemporary <strong>de</strong>bate. Chatham House Publishers,<br />
Chatham, 1987a.<br />
–––––––––––. The theory of <strong>de</strong>mocracy revisited II: the<br />
classical issues. Chatham House Publishers, Chatham,<br />
1987b.<br />
–––––––––––. “Democracia”. In Revista <strong>de</strong> Ciencia Política,<br />
Vol. XIII, nº 1 e 2, Instituto <strong>de</strong> Ciência Política – Pontificia<br />
Universidad Católica <strong>de</strong> Chile, 1991.<br />
SARTORIUS, R. Paternalism. University of Minnesota Press,<br />
Minneapolis, 1983.<br />
SAXE, Miguel Gutiérrez. Auditoría ciudadana sobre la calidad<br />
<strong>de</strong> la <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: propuesta para su ejecución en<br />
Costa Rica. Proyecto Estado <strong>de</strong> la Nación, San José <strong>de</strong><br />
Costa Rica, 1998.<br />
SCHEIBER, H. N. (comp.). The State and freedom of contract.<br />
Stanford University Press, Stanford, 1998.<br />
SCHLOZMAN, K. et al. “Civic participation and the equality<br />
problem”. In: SKOCPOL, T. e FIORINA, M., Civic<br />
engagement in american <strong>de</strong>mocracy. Brookings Institution<br />
Press, Washington DC, 1999.<br />
SCHMITTER, P. “The consolidation of <strong>de</strong>mocracy and representation<br />
of social groups”. In American Behavioral<br />
Scientist 35 (4 e 5), pp. 422-449, 1992.<br />
SCHNEEWIND, J. B. The invention of autonomy. A history of<br />
mo<strong>de</strong>rn moral philosophy. Cambridge University Press,<br />
Cambridge, 1998.<br />
SCOTT, J. C. Weapons of the weak. Everyday forms of peasant<br />
Bibliografia<br />
251
esistance. Yale University Press, New Haven, 1985.<br />
SEIDER, R. Legal pluralism and the politics of State formation<br />
in mesoamerica. Institute for Latin American Studies,<br />
Londres, 2000.<br />
SELIGSON, Mitchell e CÓRDOVA, P. Auditoría <strong>de</strong> la <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>:<br />
Ecuador. USAID-Projeto <strong>de</strong> Opinião Pública da<br />
Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Pittsburgh, Quito, 2000.<br />
SELIGSON, Mitchell; CONROY, Annabelle; MACÍAS, Ricardo<br />
Córdova; PÉREZ, Orlando; e STEIN, Andrew.<br />
“Who votes in Central America A comparative<br />
analysis”. In: BOOTH, John e SELIGSON, Mitchell<br />
(comps.), Elections and <strong>de</strong>mocracy in Central America,<br />
The University of North Carolina Press, edição revisada,<br />
Chapel Hill, North Carolina, 1995.<br />
SEN, Amartya. “Well-being, agency and freedom. The<br />
Dewey lectures 1984”. In The Journal of Philosophy, 82<br />
(4), pp. 169-221, 1985.<br />
–––––––––––. Inequality reexamined. Harvard University<br />
Press, Cambridge, Massachusetts, 1992.<br />
–––––––––––. “Democracy as a universal value”. In The<br />
Journal of Democracy 10 (3), pp. 3-17, 1999a.<br />
–––––––––––. Development as Freedom. Alfred Knopf, Nova<br />
York, 1999b, (edição em espanhol: Desarrollo y libertad,<br />
Planeta, Buenos Aires, 2000).<br />
–––––––––––. “East and West. The reach of reason”. In New<br />
York Review 47 (12), pp. 33-38, 2000.<br />
–––––––––––. La libertad individual como compromiso<br />
social. Introdução <strong>de</strong> Marc Saint-Upéry. Ildis, La Paz,<br />
2003.<br />
SERRANO, Claudia. “Pobreza, capital social e ciudadanía”<br />
[http://www.asesorias.tie.cl/documentos.htm], 2002.<br />
SHAPIRO, I. Democracy’s place. Cornell University Press,<br />
Ithaca, 1996.<br />
SHKLAR, J. N. “The liberalism of fear”. In: ROSENBLUM,<br />
N. L. (comp.), Liberalism and the moral life, pp. 21-38,<br />
Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts,<br />
1989.<br />
SHUE, H. Basic rights. Subsistence, affluence, and U.S. foreign<br />
policy. Princeton University Press, Princeton, 1996.<br />
SHUGART, Matthew Sobert e CAREY, John. Presi<strong>de</strong>nts and<br />
assemblies: constitutional <strong>de</strong>sign and electoral dynamics.<br />
Cambridge University Press, Nova York, 1992.<br />
SITGLITZ, Joseph. Texto preparado para o PRODDAL,<br />
2002.<br />
SKAAR, Elin. “Judicial reform in Latin America. Why”.<br />
Artigo apresentado na Conferência Anual <strong>de</strong> Ciência<br />
Política da Noruega, Hønesfoss, janeiro 2001.<br />
SKINNER, Quentin. “The i<strong>de</strong>a of negative liberty: philosophical<br />
and historical perspectives”. In: RORTY,<br />
Richard (comp.), Philosophy in History. Cambridge<br />
University Press, Cambridge, 1984.<br />
SMITH, A. D. National i<strong>de</strong>ntity. University of Nevada Press,<br />
Reno, 1991.<br />
SMULOVITZ, Catalina e PERUZZOTTI, E. “Social accountability<br />
in Latin America”. In Journal of Democracy 11<br />
(4), pp. 147-158, 2000.<br />
SNYDER, Richard. Politics after neoliberalism. The politics<br />
of reregulation in Mexico. Cambridge University Press,<br />
Cambridge, 2001.<br />
SNYDER, Richard e SAMUELS, David. “Devaluing the vote<br />
in Latin America”. In Journal of Democracy 12 (1), pp.<br />
146-159, janeiro 2001.<br />
SOLA, Lour<strong>de</strong>s. Texto preparado para o PRODDAL, 2002.<br />
SOROS, George. “Capitalismo frente a la <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>”. In El<br />
País, Madrid, 21 <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro 2001.<br />
STAVENHAGEN, R. Ethnic conflicts and the Nation-State.<br />
MacMillan Press, Londres, 1996.<br />
STEEL, R. e TORRIE, J. Principles and procedures of statistics: a<br />
biomedical approach. McGraw-Hill, Nova York, 1996.<br />
STEIN, P. Roman law in european history. Cambridge University<br />
Press, Cambridge, 1999.<br />
STEPAN, A. “Religion, <strong>de</strong>mocracy, and the twin tolerations”.<br />
In Journal of Democracy 11 (4),pp. 37-57, 2000.<br />
STOELTING, E. “Informal arrangements and the public<br />
space: structural obstacles to empirical research”. In:<br />
BRIE, M. (comp.), Formal institutions and informal<br />
institutional arrangements (no prelo).<br />
STOLCKE, V. “The ‘nature’ of nationality”. In: BLADER, V.<br />
(comp.), Citizenship and exclusion, MacMillan Press,<br />
Londres, 1997.<br />
STRASSER, Carlos. Democracia y <strong>de</strong>sigualdad. Sobre la<br />
“<strong><strong>de</strong>mocracia</strong> real” a fines <strong>de</strong>l siglo XX. Clacso-ASDI,<br />
Buenos Aires, 1999.<br />
SUNY, R. “Constructing primordialism: old histories for<br />
new nations”. In The Journal of Mo<strong>de</strong>rn History 73, pp.<br />
862-896, 2001.<br />
Suprema Corte <strong>de</strong> Justicia, República <strong>de</strong> El Salvador. Organization<br />
and responsabilities [http://www.csj.gob.sv/<br />
organiza.htm], 2003.<br />
SYPNOWICH, C. “The Culture of Citizenship”. In Politics &<br />
Society 28 (4), pp. 531-555, 2000.<br />
TAMAYO, Eduardo. Movimientos sociales: la riqueza <strong>de</strong> la<br />
diversidad. Agencia Latinoamericana <strong>de</strong> Información,<br />
Quito, 1996.<br />
TAMIR, Y. Liberal nationalism. Princeton University Press,<br />
Princeton, 1993.<br />
–––––––––––. “The enigma of nationalism”. In World Politics<br />
47, pp. 418-440, 1995.<br />
TANAKA, Martín. Los espejismos <strong>de</strong> la <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: el colapso<br />
<strong>de</strong> un sistema <strong>de</strong> partidos en el Perú, 1980-1995, en perspectiva<br />
comparada. IEP, Lima, 1998.<br />
–––––––––––. “Las relaciones entre Estado y sociedad en<br />
el Perú: <strong>de</strong>sestructuración sin reestructuración, un<br />
ensayo bibliográfico”. In América Latina Hoy 31, 189-<br />
218, agosto 2002.<br />
TARROW, Sidney. “National unification, national disintegration,<br />
and contention: a paired comparison of unlikely<br />
cases”. Centro <strong>de</strong> Estudios Avanzados en Ciencias<br />
Sociales, Madrid, 2000.<br />
252 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
TAYLOR, Charles. “What’s wrong with negative liberty”. In:<br />
TAYLOR, Charles, Philosophy and the H<strong>uma</strong>n Sciences.<br />
Philosophical papers 2, pp. 211-229, Cambridge University<br />
Press, Cambridge, 1985.<br />
TERRAZAS, Julio. Texto preparado para o PRODDAL,<br />
2003.<br />
THOMPSON, E. P. Whigs and hunters. The origins of the<br />
Black Act. Pantheon Books, Nova York, 1975.<br />
THOUMI, Francisco. Texto preparado para o PRODDAL,<br />
2002.<br />
TI (Transparência Internacional). “2002 corruption perceptions<br />
in<strong>de</strong>x” [http://www. transparency.org/surveys/<br />
in<strong>de</strong>x.html], 2002.<br />
TIERNEY, B. The i<strong>de</strong>a of natural rights. Studies on natural<br />
rights, natural law and church law, 1150-1625. Scholars<br />
Press, Atlanta, 1997.<br />
TILLY, Charles. The formation of national States in Western<br />
Europe. Princeton University Press, Princeton, 1975.<br />
–––––––––––. “War making and State making as organized<br />
crime”. In: EVANS, P. B.; RUESCHEMEYER, D.;<br />
e SKOCPOL, T. (comps.), Bringing the State back in.<br />
Cambridge University Press, Cambridge, Massachusetts,<br />
1985.<br />
–––––––––––. Coercion, capital and european States. Blackwell,<br />
Cambridge, 1990.<br />
–––––––––––. Citizenship, i<strong>de</strong>ntity and social history. Cambridge<br />
University Press, Cambridge, 1996.<br />
–––––––––––. Durable inequality. University of California<br />
Press, Berkeley, 1998a (edição em espanhol: La <strong>de</strong>sigualdad<br />
persistente, Manantial, Buenos Aires, 2000)<br />
–––––––––––. “Where do rights come from”. In: SKOC-<br />
POL, T. (comp.), Democracy, revolution, and History.<br />
Cornell University Press, Ithaca, 1998b.<br />
–––––––––––. “Now where”. In: STEINMETZ, George<br />
(comp.), State/culture. State formation after the cultural<br />
turn. Cornell University Press, Ithaca, 1999.<br />
TIRONI, Eugenio. La irrupción <strong>de</strong> las masas y el malestar <strong>de</strong><br />
las elites. Grijalbo, Santiago <strong>de</strong> Chile, 1999.<br />
TOKMAN, V. e O’DONNELL, G. (comps.). Poverty and<br />
inequality in Latin America. Issues and new challenges.<br />
University of Notre Dame Press, Notre Dame, Indiana,<br />
1998.<br />
TORRE, Juan Carlos. El proceso político <strong>de</strong> las reformas en<br />
América Latina. Paidós, Buenos Aires, 1998.<br />
TORRES, Cristina. “Ethnicity and health: another perspective<br />
toward equity”. In: Organização Panamericana<br />
da Saú<strong>de</strong>, Equity in health: from an ethnic perspective,<br />
OPS, Washington DC, 2001.<br />
TOURAINE, Alain. Qu’est-ce que la démocratie. Fayard,<br />
Paris, 1994.<br />
–––––––––––. Pourrons-nous vivre ensemble Égaux et<br />
differents. Fayard, Paris, 1997 (edição em espanhol:<br />
¿Podremos vivir juntos, Fundo <strong>de</strong> Cultura Econômica,<br />
São Paulo, 1999.)<br />
–––––––––––. “El Sistema y los Actores”. In Reforma y Democracia<br />
18, pp. 7-24, 2000.<br />
–––––––––––. Texto preparado para o PRODDAL, 2002.<br />
TURNER, B. S. Citizenship and capitalism. The <strong>de</strong>bate over<br />
reformism. Allen & Unwin, Londres, 1986.<br />
TYLER, T. Why people obey the law. Yale University Press,<br />
New Haven, 1990.<br />
–––––––––––. “Governing and diversity: the effect of fair<br />
<strong>de</strong>cision making procedures on the legitimacy of<br />
government”. In Law and Society Review 28 (4), pp.<br />
809-831, 1994.<br />
UGGLA, Fredrik. “The ombudsman in Latin America. (The<br />
uses of a toothless watchdog)”. Artigo apresentado na<br />
Conferência “Diagnosing Democracy: Methods of<br />
Analysis, Findings and Remedies”, Santiago <strong>de</strong> Chile,<br />
11-13 <strong>de</strong> abril 2003.<br />
UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação,<br />
a Ciência e a Cultura), Instituto <strong>de</strong> Estatísticas.<br />
Literacy and non formal education sector, estimates and<br />
projections of adult illiteracy for population aged 15 years<br />
old and above, by country and by gen<strong>de</strong>r 1970-2010,<br />
january 2002 assessment [http://www.uis.unesco.org/<br />
en/stats/stats0.htm], 2002a.<br />
–––––––––––. Education sector, gross and net enrolment<br />
ratio at primary level by country and by gen<strong>de</strong>r for the<br />
school years 1998/1999 and 1999/2000, october 2002<br />
[http://portal.unesco.org/uis/ev.phpurl_id=5187url_<br />
do=do_topicurl_section=201], 2002b.<br />
–––––––––––. Education sector, gross and net enrolment<br />
ratio at secondary level by country and by gen<strong>de</strong>r for<br />
the school years 1998/1999 and 1999/2000, october 2002<br />
[http://portal.unesco.org/uis/ev.phpurl_id=5187url_<br />
do=do_topicurl_section =201], 2002c.<br />
–––––––––––. Education sector, gross and net enrolment<br />
ratio at tertiary level by country and by gen<strong>de</strong>r for the<br />
school years 1998/1999 and 1999/2000, outubro 2002<br />
[http://portal.unesco.org/uis/ev.phpurl_id=5187url_<br />
do=do_topicurl_section=201], 2002d.<br />
Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Georgetown e Organização dos Estados<br />
Americanos (OEA). “Base <strong>de</strong> datos políticos <strong>de</strong><br />
las Américas” [http://www.georgetown.edu/pdba/<br />
spanish.html], 2002.<br />
UNODC (Escritório das Nações Unidas contra Drogas<br />
e Crime). United Nations surveys of crime trends<br />
and operation of criminal justice systems [http://<br />
www.unodc.org], 2002.<br />
VALDÉS, E. Garzón. “Acerca <strong>de</strong> los conceptos <strong>de</strong> publicidad,<br />
opinión pública, opinión <strong>de</strong> la mayoría y sus relaciones<br />
recíprocas”. In Doxa, 14, pp. 77-95, 1993a.<br />
–––––––––––. Derecho, ética y política. Centro <strong>de</strong> Estudios<br />
Constitucionales, Madrid, 1993b.<br />
–––––––––––. “Some remarks on the concept of toleration”.<br />
In Ratio Juris 10 (2), pp. 127-138, 1997.<br />
–––––––––––. “Derecho y <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> en América Latina”.<br />
In Anales <strong>de</strong> la Cátedra Francisco Suárez, 33, pp. 133-<br />
157, 1999.<br />
–––––––––––. “Prólogo”. In: VÁZQUEZ, Rodolfo, Liberalismo,<br />
estado <strong>de</strong> <strong>de</strong>recho y minorías, pp. 11-26, Paidós,<br />
México, 2001.<br />
VALENZUELA, J. S. “Democratic consolidation in posttransitional<br />
settings: notion, process, and facilitating<br />
conditions”. In: MAINWARING, S.; O’DONNELL, G.;<br />
e VALENZUELA, J. S. (comps.), Issues in <strong>de</strong>mocratic<br />
consolidation: the new South American <strong>de</strong>mocracies in<br />
comparative perspective, The Helen Kellogg Institute<br />
for International Studies at the University of Notre<br />
Dame, Notre Dame, Indiana, 1992.<br />
Bibliografia 253
VAN COTT, Donna Lee. “Latin american Constitutions and<br />
indigenous peoples” [http://web.utk.edu/~dvancott/<br />
constitu.html], 2003.<br />
VARGA, C. Codification as a socio-historical phenomenon.<br />
Akadémiai Kiadó, Budapeste, 1991.<br />
VARGAS-CULLELL, J.; BENAVIDES, T.; e GÓMEZ, M. Medição<br />
da participación ciudadana en América Latina.<br />
Documento preparado para o Projeto sobre Desenvolvimento<br />
Democrático na América Latina do PNUD.<br />
PRODDAL, San José, junho <strong>de</strong> 2003a.<br />
VARGAS-CULLELL, J.; BENAVIDES, T.; e GÓMEZ, M.<br />
Nota conceitual e exposição analítica sobre as tendências<br />
para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> das e dos cidadãos na América<br />
Latina. Documento preparado para o Projeto sobre<br />
Desenvolvimento Democrático na América Latina do<br />
PNUD. PRODDAL, San José, junho <strong>de</strong> 2003b.<br />
VARGAS-CULLELL, J. e BENAVIDES, T. Nota conceitual<br />
e metodológica sobre intensida<strong>de</strong> da cidadania. Documento<br />
preparado para o Projeto sobre Desenvolvimento<br />
Democrático na América Latina do PNUD.<br />
PRODDAL, San José, junho <strong>de</strong> 2003.<br />
VARGAS-CULLELL, J. e GÓMEZ, M. Medição das percepções<br />
sobre o seguimento das normas legais com base<br />
no Latinobarômetro 2002. Documento preparado<br />
para o Projeto sobre Desenvolvimento Democrático<br />
na América Latina do PNUD. PRODDAL, San José,<br />
junho <strong>de</strong> 2003.<br />
VARGAS-CULLELL, J. e ROSERO-BIXBY, L. A cultura<br />
<strong>de</strong>mocrática em Costa Rica: 2004. Relatório preparado<br />
para el Projeto <strong>de</strong> Opinião Pública da Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />
Van<strong>de</strong>rbilt, San José (no prelo).<br />
VARGAS-CULLEL, J. e SAXE, M. Gutiérrez. Auditoría ciudadana<br />
<strong>de</strong> la calidad <strong>de</strong> la <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Proyecto Estado<br />
<strong>de</strong> la Nación en Desarrollo H<strong>uma</strong>no Sustentable, San<br />
José <strong>de</strong> Costa Rica, 2001.<br />
VÁZQUEZ, R. Liberalismo, estado <strong>de</strong> <strong>de</strong>recho y minorías.<br />
Paidós, México DF, 2001.<br />
VERBA, S.; SCHLOZMAN, K. L.; e BRADY, H. Obice and<br />
equality. Civic voluntarism in american politics. Harvard<br />
University Press, Cambridge, Massachusetts, 1995.<br />
VERBA, S. et al. Participation and political equality. Cambridge<br />
University Press, Cambridge, 1978.<br />
VERDESOTO C., Luis F., “El sistema <strong>de</strong> partidos políticos y<br />
la sociedad civil en Ecuador”. In Los sistemas políticos<br />
en América Latina, coor<strong>de</strong>nação <strong>de</strong> Lorenzo Meyer e<br />
José Luis Reyna, Siglo XXI, México DF; Universida<strong>de</strong><br />
das Nações Unidas, Tóquio, 1989.<br />
VILLEY, M. La formation <strong>de</strong> la pensée juridique mo<strong>de</strong>rne.<br />
Montchrestien, Paris, 1968.<br />
WALDRON, J. Law and disagreement. Clarendon Press,<br />
Oxford, 1999.<br />
WALKER, Thomas e ARMONY, Ariel (comp.). Repression,<br />
resistance and <strong>de</strong>mocratic transition in Central America.<br />
Scholarly Resources, Wilmington, Delaware, 2000.<br />
WALLACK, Jessica; GAVIRIA, Alejandro; PANIZZA, Ugo;<br />
e STEIN, Ernesto. “Electoral systems data set” [http:<br />
//www.stanford.edu/~jseddon/], 2003.<br />
WARD, Gene. “Requisitos <strong>de</strong> divulgação no financiamento<br />
<strong>de</strong> partidos políticos e campanhas eleitorais”. Artigo<br />
apresentado no Fórum Interamericano sobre Partidos<br />
Políticos, Vancouver, 4-6 <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro 2002.<br />
WEALE, A. Political theory and social policy. St.Martin’s<br />
Press, Nova York, 1983.<br />
WEBER, M. Economy and society. An outline of interpretative<br />
sociology, 1. University of California Press, Berkeley,<br />
1978 (edição em espanhol: Economía y sociedad, Fondo<br />
<strong>de</strong> Cultura Económica, México, 1944.)<br />
–––––––––––. El político y el científico. Alianza, Madrid, 1997.<br />
WEFFORT, Francisco. Por que <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>. Brasiliense, São<br />
Paulo, 1981.<br />
WHITEHEAD, L. “Some significant recent <strong>de</strong>velopments in<br />
the field of <strong>de</strong>mocratization”. Trabalho apresentado<br />
no Congresso Mundial <strong>de</strong> Ciência Política, Quebec,<br />
Canadá, 2001.<br />
–––––––––––. Texto preparado para o PRODDAL, 2002.<br />
–––––––––––. Democratization. Theory and experience.<br />
Oxford University Press, Oxford, 2002a.<br />
–––––––––––. “Notes on h<strong>uma</strong>n <strong>de</strong>velopment, h<strong>uma</strong>n<br />
rights, and auditing the quality of <strong>de</strong>mocracy”. Comentários<br />
escritos apresentados no seminário sobre<br />
Qualida<strong>de</strong> da Democracia e Desevolvimento H<strong>uma</strong>no<br />
na América Latina, Heredia, Costa Rica, 2002b.<br />
WIGHTMAN, J. Contract: a critical commentary. Pluto<br />
Press, Londres, 1995.<br />
WILKIE, James W. (comp.). Statistical abstract of Latin<br />
America. Vol. 37. UCLA Latin American Center, Los<br />
Angeles, 2001.<br />
WILLIS, Eliza; GARMEN, Christopher; e HAGGARD,<br />
Stephan. “The politics of <strong>de</strong>centralization in Latin<br />
America”. In Latin American Research Review 34 (1),<br />
pp. 7-56, 1998.<br />
YOUNG, I. M. “Polity and group difference: a critique of the<br />
i<strong>de</strong>al of universal citizenship”. In: BEINER, R., Theorizing<br />
citizenship, State University of New York Press,<br />
Nova York, 1995.<br />
ZERMEÑO, Sergio. México, una <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> utópica. Siglo<br />
XXI, México, 1978.<br />
–––––––––––. La sociedad <strong>de</strong>rrotada. Centro <strong>de</strong> Investigaciones<br />
Interdisciplinarias en Ciencias y H<strong>uma</strong>nida<strong>de</strong>s/<br />
UNAM, 1998.<br />
ZOVATTO G., Daniel. “Dinero y política en América Latina:<br />
una visión comparada”. In: Instituto Fe<strong>de</strong>ral Electoral<br />
<strong>de</strong> México (comps.), Dinero contienda política electoral,<br />
Fondo <strong>de</strong> Cultura Económica, México, 2003.<br />
254 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
■ Abreviaturas<br />
BM<br />
BID<br />
CEJA<br />
Banco Mundial<br />
Banco Interamericano <strong>de</strong><br />
Desenvolvimento<br />
Centro <strong>de</strong> Estudos <strong>de</strong> Justiça das<br />
Américas<br />
LASA<br />
OCDE<br />
OEA<br />
Associação <strong>de</strong> Estudos Latino-<br />
Americanos<br />
Organização para a Cooperação e o<br />
Desenvolvimento Econômico<br />
Organização dos Estados Americanos<br />
CEPAL<br />
CELADE<br />
Comissão Econômica para a América<br />
Latina<br />
Centro Latino-Americano e Caribenho<br />
<strong>de</strong> Demografia<br />
OIT<br />
OMS<br />
ONU<br />
Organização Internacional do Trabalho<br />
Organização Mundial da Saú<strong>de</strong><br />
Organização das Nações Unidas<br />
CLAD<br />
EPIC<br />
FMI<br />
IDEA<br />
IPEC<br />
IPU<br />
Centro Latino-Americano<br />
<strong>de</strong> Administração para o<br />
Desenvolvimento<br />
Coleção Informativa sobre Processos<br />
Eleitorais<br />
Fundo Monetário Internacional<br />
Instituto para a Democracia e a<br />
Assistência Eleitoral<br />
Programa Internacional para a<br />
Erradicação do Trabalho Infantil<br />
União Interparlamentar<br />
PNUD<br />
SIMPOC<br />
TI<br />
Programa das Nações Unidas para o<br />
Desenvolvimento<br />
Programa <strong>de</strong> Informações Estatísticas e<br />
Monitoramento do Trabalho Infantil<br />
Transparência Internacional<br />
UNESCO Organização das Nações Unidas para a<br />
Educação, a Ciência e a Cultura<br />
UNICEF<br />
UNODC<br />
Fundo das Nações Unidas para a<br />
Infância<br />
Escritório das Nações Unidas contra a<br />
Droga e o Crime<br />
Abreviaturas<br />
255
Índice <strong>de</strong> quadros<br />
35 quadro 1<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: <strong>uma</strong> busca permanente<br />
36 quadro 2<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: um i<strong>de</strong>al<br />
44 quadro 3<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e a promessa dos direitos cidadãos<br />
45 quadro 4<br />
Declaração Universal <strong>de</strong> Direitos H<strong>uma</strong>nos<br />
46 quadro 5<br />
Os direitos <strong>de</strong>mocráticos<br />
46 quadro 6<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> requer mais do que eleições<br />
50 quadro 7<br />
Os alicerces da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
52 quadro 8<br />
Cidadania e comunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> cidadãos<br />
53 quadro 9<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: <strong>uma</strong> construção permanente<br />
54 quadro 10<br />
Democracia e igualda<strong>de</strong><br />
54 quadro 11<br />
Democracia e soberania<br />
55 quadro 12<br />
Uma <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> poliarquia<br />
58 quadro 13<br />
Democracia e responsabilida<strong>de</strong> dos governantes<br />
63 quadro 14<br />
Estado liberal e Estado <strong>de</strong>mocrático<br />
64 quadro 15<br />
O Estado: pressuposto da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
64 quadro 16<br />
Estado e globalização<br />
68 quadro 17<br />
Os Objetivos <strong>de</strong> Desenvolvimento do Milênio (ODMs)<br />
70 quadro 18<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>: <strong>uma</strong> tensão entre fatos e valores<br />
71 quadro 19<br />
A informação: <strong>uma</strong> necessida<strong>de</strong> básica<br />
76 quadro 20<br />
O índice <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral (IDE)<br />
Uma contribuição à discussão sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
85 quadro 21<br />
A petição cidadã perante as instituições públicas<br />
87 quadro 22<br />
Experiências <strong>de</strong> participação em governos locais<br />
Índice <strong>de</strong> quadros<br />
257
104 quadro 23<br />
Dimensões da cidadania civil<br />
106 quadro 24<br />
Legislação sobre violência contra a mulher, 2002<br />
107 quadro 25<br />
Povos Indígenas e cidadania<br />
107 quadro 26<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> étnica e o multiculturalismo<br />
108 quadro 27<br />
A percepção cidadã sobre a igualda<strong>de</strong> perante a Lei<br />
110 quadro 28<br />
A petição cidadã ao sistema <strong>de</strong> administração <strong>de</strong> justiça<br />
122 quadro 29<br />
Cidadãos pobres e <strong>de</strong>siguais<br />
123 quadro 30<br />
Dimensões da cidadania social<br />
124 quadro 31<br />
Inserção genuína para os “supranumerários ”<br />
125 quadro 32<br />
O papel da socieda<strong>de</strong> civil<br />
127 quadro 33<br />
A <strong>de</strong>cência como valor coletivo<br />
127 quadro 34<br />
Disfunções da economia mundial<br />
128 quadro 35<br />
Pobreza e <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>: pouca variação significativa<br />
144 quadro 36<br />
Quantos <strong>de</strong>mocratas e não-<strong>de</strong>mocratas “puros” existem na América Latina<br />
152 quadro 37<br />
Cidadania <strong>de</strong> baixa intensida<strong>de</strong><br />
153 quadro 38<br />
O Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD)<br />
187 quadro 39<br />
O po<strong>de</strong>r dos meios <strong>de</strong> comunicação<br />
187 quadro 40<br />
Socieda<strong>de</strong> civil, política e participação<br />
188 quadro 41<br />
A dimensão associativa da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
188 quadro 42<br />
Política, partidos e <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina<br />
189 quadro 43<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> como princípio <strong>de</strong> organização da socieda<strong>de</strong><br />
191 quadro 44<br />
Privatização perversa do Estado<br />
192 quadro 45<br />
A economia e a política<br />
193 quadro 46<br />
Uma economia para a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
194 quadro 47<br />
Democracia e Mercado<br />
194 quadro 48<br />
Mo<strong>de</strong>lo único <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento<br />
258<br />
A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
196 quadro 49<br />
Quatro vantagens econômicas da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
196 quadro 50<br />
Complementarida<strong>de</strong> entre <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e mercado<br />
199 quadro 51<br />
Globalização e impotência da política<br />
Índice <strong>de</strong> quadros da nota técnica sobre os índices<br />
<strong>de</strong>rivados na análise da pesquisa Latinobarômetro 2002 –<br />
A construção <strong>de</strong> um Índice <strong>de</strong> Apoio à Democracia (IAD)<br />
223 quadro 1<br />
Tamanho da amostra do estudo<br />
224 quadro 2<br />
Amostras totais e amostras válidas para o Índice <strong>de</strong> Apoio a Democracia empregado na<br />
análise do Latinobarômetro<br />
225 quadro 3<br />
Proporção <strong>de</strong> pessoas que apóiam a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> com respostas “inesperadas” em<br />
relação ao apoio a meios autoritários para resolver problemas<br />
226 quadro 4<br />
Proporção <strong>de</strong> pessoas que apóiam a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> com respostas “inesperadas” em<br />
relação a sua avaliação sobre a opção entre <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> e <strong>de</strong>senvolvimento<br />
228 quadro 5<br />
Onze perguntas empregadas para i<strong>de</strong>ntificar as tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
229 quadro 6<br />
Cargas fatoriais para onze perguntas <strong>de</strong> interesse na <strong>de</strong>terminação <strong>de</strong> tendências para<br />
a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>.<br />
230 quadro 7<br />
Centrói<strong>de</strong>s obtidos para cada <strong>uma</strong> das variáveis relacionadas com <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, por<br />
cluster i<strong>de</strong>ntificado.<br />
232 quadro 8<br />
Procedimento aplicado para <strong>de</strong>terminar os modos <strong>de</strong> participação cidadã<br />
233 quadro 9<br />
Classificação <strong>de</strong> modos <strong>de</strong> participação cidadã<br />
235 quadro 10<br />
Exemplos <strong>de</strong> situações e valores que o IAD assume<br />
Índice <strong>de</strong> quadros<br />
259
Índice <strong>de</strong> tabelas<br />
39 tabela 1<br />
Democracia, Pobreza e Desigualda<strong>de</strong><br />
42 tabela 2<br />
Reformas e Realida<strong>de</strong>s<br />
51 tabela 3<br />
Percepções sobre as razões <strong>de</strong> <strong>de</strong>scumprimento <strong>de</strong> promessas eleitorais por parte<br />
dos governantes, 2002.<br />
78 tabela 4<br />
Eleições limpas, 1990-2002<br />
79 tabela 5<br />
Eleições livres, 1990-2002<br />
81 tabela 6<br />
Eleições como meio <strong>de</strong> acesso a cargos públicos, 1990-2002<br />
85 tabela 7<br />
Experiências no tratamento dado a pessoas que procuraram <strong>uma</strong> entida<strong>de</strong> pública<br />
nos últimos 12 meses, 2002<br />
89 tabela 8<br />
A participação eleitoral, 1990-2002<br />
90 tabela 9<br />
Os partidos políticos e a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> interna, 1990-2001*<br />
91 tabela 10<br />
Cotas para candidatas a cargos parlamentares, 2003<br />
92 tabela 11<br />
Financiamento <strong>de</strong> partidos e campanhas eleitorais, 2003<br />
93 tabela 12<br />
Ca<strong>de</strong>iras no congresso ganhas por mulheres, 1990-2003<br />
94 tabela 13<br />
Proporcionalida<strong>de</strong> na representação via partidos políticos, 1990-2002<br />
95 tabela 14<br />
Po<strong>de</strong>res formais presi<strong>de</strong>nciais, 2002<br />
96 tabela 15<br />
Po<strong>de</strong>res judiciários, 2002<br />
98 tabela 16<br />
Organismos especializados <strong>de</strong> controle, 2002<br />
99 tabela 17<br />
Mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> direta <strong>de</strong> cima para baixo, 1978-2002<br />
100 tabela 18<br />
Mecanismos <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> direta <strong>de</strong> baixo para cima, 1978-2002<br />
101 tabela 19<br />
Indicadores <strong>de</strong> percepções sobre corrupção, 2002<br />
102 tabela 20<br />
Perfil das pessoas com diferentes atitu<strong>de</strong>s em relação à corrupção, 2002<br />
103 tabela 21<br />
Re<strong>de</strong>s clientelistas, 2002<br />
108 tabela 22<br />
Percepção sobre a igualda<strong>de</strong> legal <strong>de</strong> grupos específicos, 2002<br />
260 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
110 tabela 23<br />
Experiência dos cidadãos com o sistema <strong>de</strong> administração <strong>de</strong> justiça, 2002<br />
113 tabela 24<br />
Tratados da ONU, da OIT e da OEA: direitos gerais e direitos <strong>de</strong> categorias <strong>de</strong><br />
cidadãos, 2002<br />
114 tabela 25<br />
Direitos dos povos indígenas, 2000<br />
115 tabela 26<br />
Mulheres no mercado <strong>de</strong> trabalho 1990-2000<br />
115 tabela 27<br />
Incidência do abuso <strong>de</strong> menores nas diferentes regiões do mundo, 2000<br />
116 tabela 28<br />
Tratados da ONU e da OEA sobre direitos civis fundamentais, 2003<br />
117 tabela 29<br />
Homicídios dolosos na América Latina e em outras partes do mundo, c.2000<br />
118 tabela 30<br />
Recursos financeiros e h<strong>uma</strong>nos <strong>de</strong>dicados ao sistema <strong>de</strong> administração<br />
<strong>de</strong> justiça, 2001<br />
119 tabela 31<br />
População carcerária, presos sem con<strong>de</strong>nação e superlotação, 2002<br />
120 tabela 32<br />
Liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> imprensa, 2001-2002<br />
120 tabela 33<br />
Morte <strong>de</strong> jornalistas, 1993-2002<br />
121 tabela 34<br />
Direito ao acesso à informação pública e habeas data, 2002<br />
129 tabela 35<br />
Desnutrição infantil entre 1980 e 2000<br />
130 tabela 36<br />
Analfabetismo em maiores <strong>de</strong> 15 anos, 1970-2001<br />
131 tabela 37<br />
Mortalida<strong>de</strong> infantil, 1970-2000<br />
132 tabela 38<br />
Esperança <strong>de</strong> vida ao nascer, 1970-2000<br />
133 tabela 39<br />
Escolarização primária, secundária e terciária, 1999<br />
133 tabela 40<br />
Qualida<strong>de</strong> educativa e performance do aluno, 2002<br />
134 tabela 41<br />
Desemprego aberto urbano (taxas anuais médias), 1985-2002<br />
135 tabela 42<br />
Desemprego juvenil (taxas anuais), 1990-2002<br />
136 tabela 43<br />
América Latina: estrutura do trabalho não agrícola, (porcentagens) 1990-2002<br />
136 tabela 44<br />
América Latina: Assalariados que contribuem para a previdência social,<br />
(porcentagens) 1990-2002<br />
137 tabela 45<br />
Cidadania Social: Desigualda<strong>de</strong> e Pobreza, 2002<br />
139 tabela 46<br />
Fragilida<strong>de</strong>s da preferência pela <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> em relação a outros sistemas<br />
<strong>de</strong> governo, 2002<br />
Índice <strong>de</strong> tabelas 261
145 tabela 47<br />
Distância entre as tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> nos diversos temas estudados,<br />
américa latina, 2002<br />
146 tabela 48<br />
Perfil socioeconômico das pessoas segundo sua tendência em relação à<br />
<strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, 2002<br />
148 tabela 49<br />
Perfil político das pessoas segundo sua tendência em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, 2002<br />
150 tabela 50<br />
Perfil socioeconômico das pessoas segundo modos <strong>de</strong> participação cidadã, 2002.<br />
159 tabela 51<br />
Aumentou a participação na América Latina<br />
161 tabela 52<br />
Aumentaram os controles sobre o po<strong>de</strong>r na América Latina<br />
163 tabela 53<br />
Quem exerce o po<strong>de</strong>r na América Latina Segundo o ponto <strong>de</strong> vista dos lí<strong>de</strong>res consultados.<br />
164 tabela 54<br />
Os partidos estão cumprindo seu papel<br />
173 tabela 55<br />
Problemas a enfrentar para fortalecer a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
174 tabela 56<br />
Problemas a enfrentar para fortalecer a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, segundo<br />
opinião sobre o estado da <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> em seu país<br />
175 tabela 57<br />
Agenda atual segundo tema<br />
176 tabela 58<br />
Agenda futura segundo tema<br />
Índice <strong>de</strong> gráficos<br />
77 gráfico 1<br />
Índice <strong>de</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> eleitoral (IDE), 1977, 1985, 1990-2002<br />
105 gráfico 2<br />
Ambiente <strong>de</strong> negócios, América Latina e Europa Oci<strong>de</strong>ntal, 1990-2000<br />
105 gráfico 3<br />
Direitos dos trabalhadores, América Latina e Europa Oci<strong>de</strong>ntal, 1990-2000<br />
126 gráfico 4<br />
Distribuição da renda na América Latina, 2002<br />
141 gráfico 5<br />
Perfil das tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, 2002 (1)<br />
143 gráfico 6<br />
Proporção <strong>de</strong> pessoas que constituem as tendências em relação à <strong><strong>de</strong>mocracia</strong>, médias<br />
sub-regionais, 2002<br />
262 A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina
144 gráfico 7<br />
Democratas, ambivalentes e não <strong>de</strong>mocratas segundo sua posição nas escalas <strong>de</strong><br />
atitu<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocrática, América Latina, 2002<br />
154 gráfico 8<br />
Panorama regional do IAD, 2002<br />
195 gráfico 9<br />
A agenda dos cidadãos: principais problemas, 2002<br />
197 gráfico 10<br />
Posição face à intervenção do Estado na economia, 2002<br />
Conteúdo do CD-ROM incluído no<br />
relatório<br />
Relatório: A <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> na América Latina, rumo a <strong>uma</strong> <strong><strong>de</strong>mocracia</strong> <strong>de</strong> cidadãs e cidadãos.<br />
Anexo I: Compêndio Estatístico<br />
Anexo II: O <strong>de</strong>bate Conceitual sobre a <strong><strong>de</strong>mocracia</strong><br />
Livro: “Contribuiciones para el Debate”<br />
Resumo: Idéias e Contribuições.<br />
Conteúdo do CD-ROM (parte integrante do Relatório)<br />
263
Milhares <strong>de</strong> Livros para Download:<br />
Livros Grátis<br />
( http://www.livrosgratis.com.br )<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Administração<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Agronomia<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Arquitetura<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Artes<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Astronomia<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Biologia Geral<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Ciência da Computação<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Ciência da Informação<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Ciência Política<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Ciências da Saú<strong>de</strong><br />
Baixar livros <strong>de</strong> Comunicação<br />
Baixar livros do Conselho Nacional <strong>de</strong> Educação - CNE<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Defesa civil<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Direito<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Direitos h<strong>uma</strong>nos<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Economia<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Economia Doméstica<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Educação<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Educação - Trânsito<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Educação Física<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Engenharia Aeroespacial<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Farmácia<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Filosofia<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Física<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Geociências<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Geografia<br />
Baixar livros <strong>de</strong> História<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Línguas
Baixar livros <strong>de</strong> Literatura<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Literatura <strong>de</strong> Cor<strong>de</strong>l<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Literatura Infantil<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Matemática<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Medicina<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Medicina Veterinária<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Meio Ambiente<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Meteorologia<br />
Baixar Monografias e TCC<br />
Baixar livros Multidisciplinar<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Música<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Psicologia<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Química<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> Coletiva<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Serviço Social<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Sociologia<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Teologia<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Trabalho<br />
Baixar livros <strong>de</strong> Turismo