40ª Edição_28_ pag.qxd - Canal : O jornal da bioenergia

canalbioenergia.com.br

40ª Edição_28_ pag.qxd - Canal : O jornal da bioenergia

Carta do editor

Mirian Tomé

editor@canalbioenergia.com.br

18 SAFRA

Levantamento realizado pela Conab aponta mais uma safra recorde. Indústria canavieira

terá à disposição 612,21 milhões de toneladas de cana-de-açúcar para moer.

fotos: divulgação

08 CRÉDITO DE CARBONO

Ainda recente, a comercialização de créditos de carbono no

setor sucroenergético se mostra incerta em alguns aspectos,

principalmente no desenrolar do processo de aprovação do

projeto. No entanto, há grande possibilidade de expansão.

10 PESQUISA

Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor

Sucroalcooleiro (Ridesa) completa 20 anos em 2010 e anuncia

lançamento de setes novas variedades de cana-de-açúcar

como um dos eventos comemorativos da data.

20 EFLUENTES

Experimentos conduzidos pela Esalq/USP, em Lins (SP),

revelam a viabilidade da utilização de efluentes de

esgoto doméstico na irrigação da lavoura de cana-deaçúcar.

divulgação

O País do presente

Ao fim de mais um ano de trabalho

voltado para a bionergia, renovamos nossa

confiança de que o Brasil continuará sua

trajetória de desenvolvimento baseado em

uma matriz energética cada vez mais limpa,

projetando em outros países o exemplo de

que é possível encontrar alternativas

concretas para ajudar o mundo a enfrentar o

desafio de minimizar os efeitos das

mudanças climáticas.

Nesta edição, damos destaque ao

grande potencial do Brasil para produzir

alimentos e biocombustíveis sem

comprometer os valiosos recursos naturais

existentes no País. Em reportagem especial

sobre o tema, abordamos o desafio de

produzir mais e de forma sustentável.

Em entrevista exclusiva, Antônio Cesar

Salibe, presidente executivo da Udop, fala

com exclusividade ao CANAL sobre a

necessidade de qualificar a mão-de-obra que

atua no setor de produção de

biocombustíveis e açúcar e os principais

projetos desenvolvidos pelas entidade.

A edição traz, ainda, diversos outros

assuntos de relevância, como a

reportagem que mostra a eficiência da

pesquisa agropecuária brasileira no

desenvolvimento de variedades de

cana-de-açúcar de elevado desempenho.

Não faltam exemplos de trabalho

focado no aprimoramento dos processos

produtivos. É essa a atitude que devemos

ter para consolidarmos o Brasil como o

País do presente e não mais uma

promessa para o futuro.

Boa leitura e um feliz 2010 !

Espaço onde se

conta a evolução do

planeta e a história

da humanidade, o

Memorial do

Cerrado, em Goiânia

(GO), agrega lazer,

educação ambiental

e o resgate do

contato entre o ser

humano e a

natureza.

22

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(salmo 111, 4)


ENTREVISTA - Antônio Cesar Salibe, presidente executivo da UDOP

Foco na qualificação

A QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL, INVESTIMENTO DIRETAMENTE RELACIONADO À

PRODUTIVIDADE DAS USINAS, É MAIS UM DESAFIO AO SETOR SUCROENERGÉTICO

Evandro Bittencourt

AAntônio Cesar Salibe é engenheiro

agrônomo, formado

pela Escola Superior de

Agricultura Luiz de Queiroz

(Esalq/USP), e mestre em Comunicação

pela Universidade Paulista

(Unip). Atualmente ocupa o cargo de

presidente executivo da União dos

Produtores de Bioenergia (Udop); coordenador

do Escritório Regional de

Araçatuba e chefe da estação experimental

de cana-de-açúcar de Valparaíso,

da Universidade Federal de São

Carlos (UFSCar). É, também, membro

do Conselho Industrial do Centro das

Indústrias do Estado de São Paulo

(Ciesp). Antônio Salibe se destaca,

ainda, por sua contribuição para a

implantação do Programa Brasileiro

de Álcool (PróAlcool) na região de

Araçatuba (SP).

Qual o objetivo da Udop ao focar

sua atuação na qualificação de

profissionais para atuação no segmento

de bioenergia

A Udop, desde sua fundação,

sempre trabalhou forte na qualificação

de profissionais para o setor

da bioenergia por entender

que a profissionalização das usinas

traria um ótimo retorno, não

apenas financeiro, mas, principalmente,

na qualidade de vida do

enorme contingente de profissionais

que trabalham neste segmento.

Sendo assim, desde sua

fundação, a entidade já qualificou

mais de 80 mil profissionais em

cursos que hoje são realizados em

seis cidades de cinco Estados que

formam a principal região produtora

de cana, açúcar e etanol do

Brasil, o Centro-Sul.

Quais novos projetos devem ser

realizados pela entidade em 2010

Em 2010, a UDOP dará continuidade

à sua grade de cursos nas

áreas agrícola, industrial e administrativo/financeiro,

além de realizar

projetos de novas turmas

de pós-graduação em novos centros

e do projeto Profissional do

Sem uma política de comunicação o setor

não teria ganhado a notoriedade que hoje

possui, tanto dentro quanto fora do País

Futuro em Bioenergia, que visa

aproximar alunos do último ano

de cursos voltados ao setor com

as usinas e destilarias, ofertando,

assim, mais mão-de-obra qualificada.

Por meio do Projeto Profissional

do Futuro em Bioenergia,

em 2009 a UDOP conseguiu aproximar

das empresas cerca de 600

estudantes de mais de 20 universidades

dos Estados de São Paulo,

Minas Gerais, Mato Grosso do

Sul, Goiás e Paraná.

Quais são as prioridades da Udop

no que se refere à formação e

qualificação de profissionais que

atuam no setor sucroenergético

Trabalhando com o slogan Expandindo

Conhecimento - Unindo

Forças, a entidade almeja a melhora

constante dos cursos oferecidos

e satisfação de seus participantes,

contribuindo assim para o

progresso desse segmento, pois

consideramos ser uma das molas

propulsoras do desenvolvimento

do Brasil.

Quais são os profissionais mais demandados,

atualmente, para atuar

no setor sucroalcooleiro

Nossos levantamentos apontam

para uma deficiência, principalmente,

de operadores de máquinas

(colhedoras de cana-de-açúcar),

chão de fábrica, desde soldador,

eletricista e mecânico de manutenção,

até mão-de-obra especializada,

como caldeireiro, etc. A

gama de profissionais demandados

hoje é muito grande.

divulgaão

Qual tem sido a estratégia da entidade

para atender a recente demanda

por profissionais qualificados

nas novas regiões de produção

canavieira, a exemplo dos Estados

de Goiás, Mato Grosso e Mato

Grosso do Sul

A UDOP tem firmado parceria

com os Sindicatos desses Estados

e, num trabalho conjunto, oferece

cursos nestas novas fronteiras,

atendendo os profissionais que

vivem em comunidades próximas

das usinas.

Como os cursos à distância podem

contribuir com a formação de

profissionais espalhados em um

País de dimensões continentais

como o Brasil

Temos investido bastante nesta

área. Acreditamos que, agregando

tecnologia ao trabalho de

capacitar e qualificar profissionais,

estamos contribuindo para

a disseminação do conhecimento

em larga escala. A UDOP já

implementou dois módulos de

seus cursos à distância, trazendo

aos internautas aulas/palestras

em diversas áreas. O projeto,

hoje aguardando uma melhora

da situação financeira do

setor, deve ser concluído já nos

próximos anos.

Qual o perfil do profissional que as

empresas sucroenergéticas querem

contratar

Profissionais altamente capacitados

e especializados, com uma

gama de conhecimento de grande

espectro e multifuncional.

A Udop desenvolve atividades de

qualificação profissional em parceria

com as usinas

Sim, temos turmas in company

com alguns cursos específicos,

como é o caso de um MBA que

oferecemos no Mato Grosso do

Sul, numa parceria com o Grupo

ETH Bioenergia, que almeja

ser um dos grandes grupos sucroenergéticos

do País nos próximos

anos.

04 CANAL, Jornal da Bioenergia


A necessidade de mecanização das

lavouras de cana tem exigido crescente

número de profissionais qualificados,

para lidar com máquinas

equipadas com modernos recursos

de tecnologia embarcados. Há iniciativas

e tempo suficiente para

atender a essa demanda

Faltam profissionais para operar

estas máquinas e a disponibilidade

de cursos neste segmento ainda é

deficitária. Todavia, a mecanização

é um processo irreversível, até pelo

caráter sustentável que o setor

quer incorporar a seus produtos.

Por esse motivo, acreditamos que a

união de forças das usinas, da

UDOP e dos fabricantes destes

equipamentos dará conta do processo

de qualificação de profissionais

para este segmento. A UDOP

possui parceria com o Sest/Senat e

já conseguiu qualificar muitos profissionais

que, antes, trabalhavam

no corte da cana e, hoje, operam

máquinas colhedoras de cana.

A Udop foi a primeira entidade do

setor a ter um site na Web. Qual é,

na opinião do senhor, a importância

da presença da entidade na internet

Trabalhamos o trinômio: representatividade

de nossas associadas;

qualificação profissional e a imagem

do setor. Neste último quesito,

a UDOP tem focado boa parte

de seus recursos na manutenção

de seu website, com informações

diversas que visam deixar seu público

leitor cada vez melhor informado.

Além disso, o site é importante

ferramenta para divulgar os

trabalhos positivos de nossas associadas

e, de forma indireta, trabalhar

a imagem do setor. Hoje nos

orgulhamos de ser o portal mais

visitado do setor, com mais de 10

mil acessos/dia de mais de 100

países. Ainda agregamos mais e

mais recursos audiovisuais, para

continuar trabalhando esse trinômio,

e fundamos, em 2007, a TV

UDOP, a primeira emissora de Web

TV do setor.

Qual a importância de uma política

de comunicação bem planejada para

o setor de bioenergia, especialmente

o setor sucroenergético

A importância é infinita. Sem uma

política de comunicação o setor

não teria ganhado a notoriedade

que hoje possui, tanto dentro

quanto fora do País. Sem uma comunicação

eficaz não teríamos nos

tornado, por exemplo, a principal

alternativa energética do mundo,

baseada numa energia limpa e renovável.

Aluna de Goiás está entre os vencedores do Desafio

Mudanças Climáticas 2009 do Projeto Agora

O desafio do Projeto Agora: Mudanças

Climáticas 2009 recebeu trabalhos de 3,6 mil

estudantes de escolas do ensino fundamental

de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Minas

Gerais, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do

Sul, Bahia e Distrito Federal. O Estado de

Goiás ficou em segundo lugar em número de

participantes e a estudante Michele Renata

Silva, de Iporá, foi uma das ganhadoras do

projeto. Marcos Jank, presidente da Unica e

integrante do conselho do Projeto Agora, disse

ter ficado surpreso com o interesse

demonstrado por parte dos alunos e dos

professores. "Em um momento em que há

uma mobilização mundial sobre o tema

Mudanças Climáticas, a criatividade exposta

foi admirável e a qualidade dos trabalhos

exigiu muito dos jurados", observou Jank.

Os alunos foram premiados com câmeras

fotográficas digitais. Os professores que

orientaram os trabalhos dos estudantes

receberam computadores do tipo notebook e as

escolas nas quais esses alunos estudam

também ganharam equipamentos de projeção

multimídia. Os trabalhos apresentados eram

compostos por textos manuscritos e fotos,

explorando as formas de combater o

aquecimento global nas comunidades de

São Martinho anuncia joint

venture com Amyris

O Grupo São Martinho, um dos maiores

produtores de açúcar e etanol do Brasil, vai

começar a operar no mercado de especialidades

químicas, produzidas a partir do caldo da cana

de açúcar. A tecnologia virá por meio de uma

joint venture firmada com a norte-americana

Amyris Biotechnologies e sua subsidiária

brasileira Amyris do Brasil.

Com previsão de início na safra 2011/2012,

a Usina Boa Vista, em Quirinópolis (GO),

utilizará a tecnologia da Amyris – que se

baseia na modificação de leveduras, capazes de

converter a sacarose da cana – na elaboração

de especialidades químicas e biocombustíveis,

tendo a cana de açúcar como base. O Grupo

São Martinho aportará sua experiência em

processos de fermentação e em toda a cadeia de

produção da indústria sucroalcooleira. A joint

venture destinará US$ 50 milhões para

instalar uma nova planta industrial na Usina

Boa Vista, além de consolidar um

investimento de R$ 90 milhões em

equipamentos para elevar o processamento de

cana-de-açúcar da unidade, dos atuais 2,25

milhões, para 3,4 milhões de toneladas. Entre

os produtos que poderão ser gerados com a

parceria destacam-se químicos renováveis,

para uma variedade de bens de consumo e

aplicações industriais que hoje dependem de

componentes petroquímicos, entre eles

lubrificantes, polímeros, preservantes e

cosméticos. Também será possível a produção

de diesel renovável e combustível para aviação.

acordo com o olhar do estudante. O Desafio

Mudanças Climáticas foi idealizado para ser

um canal de informação entre professores e

estudantes a respeito das causas do

aquecimento global, bem como a importância

do papel das energias renováveis nesse

contexto. O Projeto Agora faz parte de uma

das maiores ações de marketing e comunicação

institucionais já implantadas no Brasil, unindo

empresas e entidades ligadas ao setor

sucroenergético. Os membros fundadores são

os sindicatos estaduais dos produtores de

açúcar e etanol de Goiás, Minas Gerais, Mato

Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná; a União

da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica); e as

empresas Itaú-Unibanco, Monsanto, Basf,

Dedini e SEW Eurodrive.

Tocantins terá maior usina de

cana do Norte e Nordeste

O Tocantins terá, em junho de 2010, a maior

usina de cana-de-açúcar do Norte e Nordeste

do País. A Bunge investe no Estado na

implantação de um moderno sistema de

produção sucroalcooleira e de energia elétrica.

Com 800 pessoas contratadas, a empresa está

na fase de produção de matéria-prima. Com

um projeto moderno, a usina vai investir em

álcool, açúcar e em eletricidade. Quando a

usina estiver em funcionamento produzirá,

inicialmente, 126 milhões de litros de álcool

por ano. A produção de açúcar começará em

2013, com 180 mil toneladas anuais.

Novas variedades de

cana-de-açúcar

Conseguir novas variedades da cana-deaçúcar

que aumentem ainda mais a

produtividade da cultura é o grande desafio

que a biotecnologia tem buscado vencer.

Segundo o pesquisador da Embrapa,

Eduardo Romano, cientistas brasileiros já

estudam novos gens para melhorar a

produtividade da planta, obter mais

sacarose, menor vulnerabilidade à seca,

níveis mais baixos de estresse hídrico e

combater pragas. "Já temos resultados

preliminares de pesquisas e a tendência é

que, nos próximos cinco anos, o Brasil já

tenha variedades transgênicas de cana-deaçúcar",

disse o pesquisador.

divulgaão

06 CANAL, Jornal da Bioenergia


OPINIÃO

ADRIANO LIMA é diretor

da área de inovação

da Altran Technologies

divulgação

Empresas responsáveis

preservam para o futuro

OO Brasil está entre os quatro

países que mais emitem gases

do efeito estufa no mundo.

Nossas fábricas emitem 5,4% do gás

carbônico e dos gases causadores desse

efeito, que aquece o planeta e já começa

a derreter polos e intensificar catástrofes

ambientais, como enchentes,

secas e geadas intensas.

Os vilões desse processo de deterioração

do meio ambiente são muitos.

No Brasil, o mais cruel e devastador

deles é, com certeza, o desmatamento,

quase sempre associado a queimadas.

Os especialistas calculam que esses

agentes de destruição respondem por,

aproximadamente, 75% da emissão

total. Os outros 25% são produzidos

pelas indústrias, em especial as que se

ocupam da geração de energia.

A gravidade da situação inspirou os

representantes do Brasil na 14ª Conferência

do Clima da Organização das

Nações Unidas (ONU) a estabelecerem,

através da Política Nacional de

Mudanças Climáticas, meta de redução

de 73% dos níveis de emissão dos

gases do efeito estufa (principalmente

carbono e metano). Em outras palavras,

o que eles querem é que se adote

uma política eficaz, que combine

esforços da iniciativa privada e do poder

público, extremamente necessária

em um país que é um dos principais

emissores da atualidade.

Essa política busca atacar no primeiro

momento o grande vilão das

emissões nacionais, o desmatamento.

Porém, seguindo o exemplo do que

acontece na Europa, o Brasil deve em

breve estabelecer metas de redução para

os setores de produção mais emissores:

geração de energia, produção de

ferro, aço, vidro, cimento e cerâmica.

Na indústria, no que se refere, especificamente,

à emissão de carbono, a gestão

responsável, com processos de produção

limpos, somada ao uso da mais

moderna tecnologia, é o bastante para

resolver o problema. E, seguramente,

com o mínimo de investimento. Um

criterioso trabalho de consultoria especializada

pode, num curto espaço de

tempo, identificar as fontes de emissão,

fazer o diagnóstico da situação, dimensionar

a solução a ser adotada e, ainda,

acompanhar a implantação do projeto,

de modo a garantir os resultados.

Trata-se do Inventário Carbono,

que identifica, com a máxima precisão,

as emissões de gás do efeito estufa,

geradas no processo industrial. A

ferramenta, que segue a norma ISO

14064 e o protocolo de gás do efeito

estufa (Greenhouse Gas Protocol), desenvolvido

pelo WRI (World Resources

Institute) e o WBCSD (World Business

Council for Sustainable Development),

quantifica e registra os volumes

da emissão. Desse modo, permite

à empresa gerenciar o processo e

intervir para efeito de correção, caso

seja necessário, de maneira absolutamente

preventiva.

Ao adotar a ferramenta de controle,

a empresa faz muito mais do que, simplesmente,

se ajustar à lei, que, em escalas

nacional e internacional, muito

em breve, a obrigará a assumir posição

de total respeito ao meio ambiente

e combate a esse problema global.

O Inventário de Carbono quantifica

de forma transparente as emissões, registrando-as,

identificando os principais

pontos de ação e permitindo a

implementação de medidas como a

de eficiência em termos energéticos

de fato. Mas não é só. Ele, realmente,

permite a redução das emissões dos

gases determinantes do efeito estufa,

o que pode originar um projeto MDL

(mecanismo de desenvolvimento limpo)

de créditos de carbono. O fato de

ter um inventário que segue norma e

padrão internacional permite que as

empresas tenham suas emissões iniciais

registradas e reconhecidas globalmente,

não sendo assim punidas por

terem se adiantado e iniciado o processo

de redução no momento em que

o Brasil adotar metas para os diferentes

setores. Além disso, a empresa adere

ao esforço mundial, no sentido de

combater a degradação do meio ambiente,

o que significa ganho em termos

de imagem.

Não há para onde correr. A iniciativa

privada, a indústria, tem mais esse

papel a cumprir. Assumir o desempenho

ambiental como estratégia de desenvolvimento.

Coloboração de ETIENNE VERNET,

responsável pela área de carbono

da Voltalia do Brasil

CANAL, Jornal da Bioenergia 07


CRÉDITO DE CARBONO

Que se torne regra

e não exceção

APESAR DO GRANDE POTENCIAL, PELA SUA CAPACIDADE DE REDUÇÃO DAS EMISSÕES DE CO2,

INSERÇÃO DO SETOR SUCROENERGÉTICO NO MERCADO DE CARBONO CAMINHA A PASSOS LENTOS

Maiara Dourado

Aresponsabilidade com o meio-ambiente

nunca esteve tão em voga no setor

sucroenergético. Com isso, estão surgindo

também novas possibilidades de

inserção da agroindústria canavieira no mercado

de créditos de carbono. No entanto, faltam

estímulos para o setor responder ao mais novo

filão de mercado. Ainda recente, a comercialização

de créditos de carbono no contexto sucroenergético

se mostra incerta em alguns aspectos,

principalmente no desenrolar do processo

de aprovação do projeto. A negociação

dos créditos ainda é restrita, instalando-se apenas

no âmbito da cogeração de energia. Há

enorme possibilidade de expansão de mercado,

sobretudo, pela sua capacidade de redução de

até 90% das emissões de CO2.

São 26 projetos registrados no Brasil, cerca de

30 em processo de validação e 12 entre rejeitados

e desistentes, o correspondente a quase 20 % dos

projetos apresentados no País. O entrave, segundo

Eduardo Leão, diretor executivo da União da

Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), está nas falhas

apresentadas nos critérios do Mecanismo de

Desenvolvimento Limpo (MDL).

O dispositivo criado pelo Tratado de Kyoto

permite que países assinantes do protocolo compensem

a emissão de gases poluentes por meio

do desenvolvimento de projetos de energia limpa,

instalados em países em desenvolvimento.

Porém, a metodologia aplicada pelo MDL parece

não motivar o setor sucroenergético. "O

MDL é um mecanismo importante, mas tem muitas

falhas. Hoje, ele gera créditos inferiores a 1%

no mundo. Muito aquém do que se esperaria de

um mecanismo dessa característica", critica o diretor

da Unica.

CRITÉRIOS DE ADICIONALIDADE

O grande problema da relação setor sucroenergético

e o mercado de carbono gira em torno

do critério de adicionalidade, previsto pelo

MDL. Ele tem por objetivo determinar se os

fundos provenientes do financiamento de carbono

realmente resultam em reduções ou se

elas ocorreriam mesmo sem este dinheiro.

Segundo Eduardo Leão, o Brasil tem uma legislação

ambiental avançada e, de certa forma,

o setor acaba sendo penalizado por ela ao tentar

participar do mercado de carbono. "Temos

uma matriz energética extremamente limpa,

mas pouco se considera do que foi feito hoje. O

MDL exige um esforço a mais", explica Leão.

O debate da adicionalidade se torna claro se

tomarmos como exemplo a mecanização das

colheitas de cana. A legislação brasileira estabelece

prazo até 2020 para dar fim às queimadas,

método antigo, usado durante a colheita

da matéria-prima. "No entanto, o setor não recebe

benefício algum por isso", afirma Leão. Na

Índia, onde a legislação é menos restritiva, a

SETOR SUCROENERGÉTICO NO

MERCADO DE CARBONO

O que é a adicionalidade

Característica de iniciativa (projetos,

ações, políticas públicas etc.) onde a

redução de emissões de gases do efeito

estufa (GEE) ou a maior capacidade de

remoção de CO2 da atmosfera é

adicional ao que ocorreria na ausência

desta iniciativa. Trata-se de um dos

principais critérios para a aprovação de

projetos de MDL (Mecanismos de

Desenvolvimento Limpo), uma vez que

comprova a eficácia do mecanismo

proposto. Pode-se dizer que a diferença

entre o cenário observado na ausência

de um projeto de MDL (concentração

atmosférica de CO2) e o cenário após a

execução da atividade do projeto

(concentração de CO2 atmosférico

reduzido ou CO2 removido) representa a

adicionalidade do projeto.

Fonte: http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/

08 CANAL, Jornal da Bioenergia


possibilidade de se ganhar com a redução das

queimadas durante o processo de colheita seria

muito maior.

Shigueo Watanabe Júnior, diretor da Associação

Brasileira das Empresas do Mercado de

Carbono (Abemc) explica que só se ganha crédito

quando se demonstra diferencial no projeto.

O desafio é demonstrar as possibilidades de

se ganhar créditos em carbono. "A demonstração

da adicionalidade é técnica e controversa e

as regras mudam constantemente. Ela possui

aspectos técnicos complicados, mas tem a intenção

de buscar os projetos puramente adicionais"

argumenta Watanabe.

OUTRAS FALHAS

A morosidade do processo de aprovação e

validação do projeto também tem sido alvo de

críticas, tanto por parte de quem vende como

de quem compra os créditos de carbono. "A

burocracia é enorme, tem que passar pelo governo

brasileiro até chegar à ONU. É difícil de

ser reprovado, mas o processo é lento. Leva-se

até um ano para o projeto ser validado e um

gasto de cerca de 30 mil euros" reclama

Eduardo Leão.

Segundo Watanabe, o governo brasileiro demorava

três meses para aprovar o projeto. Hoje,

a demora chega a seis meses, em média.

Segundo ele, são poucos os profissionais na

área, além da complicada metodologia do MDL

que retardam o processo. O pequeno número

de empresas de auditoria externa é outro fator

que estende o tempo de aprovação.

POTENCIAL DO MERCADO

Para Eduardo Leão, o mercado de carbono

ainda é pequeno, mas com enorme potencial de

expansão. No entanto, ele diz que a Unica considera

prioridade a revisão do Mecanismo de

Desenvolvimento Limpo.

A cogeração é apenas uma das possibilidades

do setor sucroenergético. Segundo Shigueo

Watanabe, diretor da Abemc, pequenas

ações podem aumentar a possibilidade de venda

de créditos de carbono. Uma delas seria a

incorporação da palha e da ponteira de cana

junto ao bagaço no processo de produção de

energia elétrica, além da geração de biogás, a

partir da vinhaça, e etanol, a partir da palha e

da ponteira.

Um aspecto especialmente positivo do mercado

de carbono é que não há risco para o produtor,

isso porque não é preciso investir. Mesmo

assim, a inserção do setor produtivo no mercado

ainda não se tornou prática bem difundida.

"Mas a tendência é que se torne regra e não exceção"

avalia Watanabe.

fotos: arquivo canal unica

CANAL, Jornal da Bioenergia 09


PESQUISA

Ridesa prepara o lançamento

de novas variedades

de cana-de-açúcar

PESQUISAS FOCAM OBTENÇÃO

DE VARIEDADES MAIS RÚSTICAS,

ADAPTÁVEIS A DIFERENTES

AMBIENTES E RESISTENTES A

PRAGAS E DOENÇAS

Elisa Gonçalves

Quem passa por uma lavoura de canade-açúcar,

muitas vezes, nem imagina

o longo e minucioso processo

necessário para que aquela plantação

se desenvolva gerando os melhores resultados

agronômicos possíveis. A Rede Interuniversitária

para o Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro

(Ridesa) é uma das responsáveis por esse trabalho

e desempenha um papel de fundamental

importância no melhoramento genético da

planta. Em 19 anos, a rede lançou 43 variedades,

que ocupam a metade da área cultivada com cana

no Brasil. No próximo ano, a rede pretende

lançar mais sete novas variedades.

"Em 2010 a Rede Interuniversitária estará

completando 20 anos de atividade e estamos

planejando um evento nacional, em que serão liberadas

novas cultivares desenvolvidas nas Universidades:

UFPR, UFSCar, UFV, UFAL e UFRPE.

Essas variedades, com certeza, trarão grande

contribuição ao setor produtivo", afirma o professor

e pesquisador Marcos Antonio Sanches Vieira,

diretor executivo da Rede. Segundo o diretor,

a Ridesa tem centrado suas pesquisas na obtenção

de novas variedades, com maior rusticidade,

tanto no que se refere à maior adaptabilidade

a diferentes ambientes, como resistência a

pragas e doenças, mantendo elevados teores de

açúcar. Esses estudos tentam atender às demandas

provenientes do novo ciclo de crescimento

vivenciado pelo setor sucroenergético.

ORIGEM

A Ridesa foi constituída com o objetivo de

dar continuidade às pesquisas de melhoramento

do setor sucroenergético desenvolvidas pelo

extinto Planasulcar. Inicialmente formada pelo

convênio de sete Universidades Federais: UFPR

(Paraná), UFSCAR (São Carlos-SP), UFV (Minas

Gerais), UFRRJ (Rio de Janeiro), UFAL (Alagoas),

UFS (Sergipe) e UFRPE (Paraná), localizadas na

antiga área de atuação do Planalsucar, do qual

foi aproveitado o corpo técnico e a infraestrutura

das sedes das coordenadorias e estações experimentais.

Hoje, a rede está consolidada em mais

de dez universidades, entre elas a Universidade

Federal de Goiás (UFG), que faz parte do Programa

de Melhoramento Genético da Cana-de-

Açúcar no Brasil (PMGCA), tendo como alicerce

de pesquisa 31 estações experimentais estrategicamente

localizadas nos Estados onde a cultura

da cana-de-açúcar tem maior expressão.

A instituição é responsável pelo desenvolvimento

das variedades conhecidas como República

do Brasil (RBs). "A parceria das universidades

com as empresas explica o sucesso das variedades

RBs, responsáveis por 58% da área cultivada

com cana-de-açúcar no País", complementa

Marco Antônio Sanches.

"A expansão do setor sucroenergético tem potencializado

a produtividade da cana-de-açúcar

nas regiões tradicionais. Ao mesmo tempo, a produção

tem avançado para novas regiões que, em

muitos casos, apresentam ambientes desfavoráveis,

abrindo novos desafios às empresas de pesquisas",

afirma Sanches. Como resultado desses

desafios, os pesquisadores estudam, cada vez

mais, variedades direcionadas cientificamente

para as condições de solo e clima de cada região

produtora. "O clima e o solo representam o ambiente

de produção e este é fundamental na integração

com os genótipos desenvolvidos nos programas

de melhoramento genético. Trata-se do

grande desafio para conseguirmos desenvolver

variedades superiores àquelas presentes em cultivos

nas diversas regiões", explica o pesquisador.

10 CANAL, Jornal da Bioenergia


ENERGIA

Melhoramento clássico

Aneel realiza leilão

de transmissão

Na linguagem dos pesquisadores, o método clássico é

chamado de seleção recorrente e, por meio dele, é possível

aumentar a frequência de genes e de seus alelos (cada

uma das cópias de um mesmo gene presentes em um cromossomo),

relacionados a características que interessam à

agricultura. Outra observação feita por Marcos é a importância

do método de melhoramento genético utilizado

pelos pesquisadores da instituição, feito por meio da hibridização,

em função da característica genética da planta.

"O método de melhoramento clássico ou convencional

da cana-de-açúcar ainda tem apresentado grande variabilidade

nas descendências dos cruzamentos planejados,

o que vêm proporcionando ganhos significativos de produtividade

e qualidade, sendo a genética responsável por

50% desse incremento", informa.

Os melhoristas produzem clones da planta, selecionando

os que apresentam melhores resultados, e fazem cruzamentos

entre eles. Das plantas resultantes desse cruzamento

são selecionadas aquelas que apresentam características

superiores. Que tenham, por exemplo, maior teor

de sacarose. E as cruzam novamente, repetindo esse processo

por milhares de vezes, até obter uma nova geração

comercial da planta, que será colocada no mercado.

"A cana-de-açúcar tem características que dificultam,

sobremaneira, o direcionamento dos genes nas hibridizações

planejadas, por tratar-se de espécie semiperene.

E para que se analisem todas as características

de importância econômica, nos diferentes ciclos da cana

planta, soca, ressoca e demais cortes fazem com que

o desenvolvimento de novas variedades seja demorado",

explica o pesquisador.

O investimento em melhoramento genético tem um

alto custo, estimado em 10 milhões por ano. O resultado

pode demorar de 10 a 12 anos em função das características

botânicas da espécie, por isso se faz cada vez mais

necessária a parceria entre empresas privadas, governos e

universidades. Além da maior resistência a pragas e doenças,

o melhoramento genético da cana-de-açúcar tem se

mostrado especialmente importante para a obtenção de

variedades mais produtivas e com maior tolerância ao

estresse hídrico e melhor adaptação aos processos de colheita

mecanizada. Por meio do melhoramento genético,

defende Marco Antônio Sanches, será possível chegar a

um equilíbrio entre produtividade e sustentabilidade.

unica

Foi realizado no Rio de Janeiro,

em novembro, pela Agência

Nacional de Energia Elétrica (Aneel)

o leilão de 11 novas linhas de

transmissão e oito subestações,

que foram arrematadas por empresas

e consórcios do Brasil e da

Espanha. A sessão pública foi conduzida

pela BM&F Bovespa e as

propostas apresentadas tiveram

deságios que variaram de 0,01% a

32,44%. A média dos deságios foi

de 28,43%.

Nelson Hübner, diretor geral da

Aneel, afirmou que o resultado do

leilão foi positivo: todos os lotes

foram vendidos. Apesar de um dos

lotes ter obtido um deságio pequeno,

o diretor disse que já esperava

esse resultado. "A Aneel ajusta

a Receita Anual Permitida

(RAP) a cada leilão, reduzindo os

valores para cada certame. Na

medida em que vimos os altos deságios,

nós mesmos tratamos de

reavaliar os valores", explica.

Os empreendimentos vão gerar

6,8 mil empregos diretos e deverão

entrar em operação entre 15 e 24

meses após a assinatura dos contratos

de concessão. Os investimentos

totais para a construção das linhas

estão estimados em R$ 1,3 bilhão.

As empresas e consórcios que

ofereceram a menor tarifa, ou seja,

a menor receita anual permitida

(RAP) para prestação do serviço,

foram as vencedoras do leilão.

"A disputa pelos empreendimentos

resulta em benefício ao consumidor

final de energia elétrica",

ressalta Hübner. Isso porque os

deságios registrados entre a RAP

prevista no edital e os lances no

leilão resultarão em benefícios ao

consumidor, uma vez que a tarifa

de uso dos sistemas de transmissão

é um dos componentes de

custo da tarifa paga pelo consumidor

final às distribuidoras.

O prazo das concessões de

transmissão é de 30 anos e destinam-se

à construção, operação e

manutenção de 1.079 quilômetros

de 11 linhas e oito subestações da

Rede Básica que serão construídos

nos Estados do Amazonas, Bahia,

Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão,

Mato Grosso e Minas Gerais.

O maior lote do certame, com

259 quilômetros de linhas de

transmissão, foi arrematado pelo

Consórcio Goiás Transmissão, composto

pela J. Malucelli Construtora

de Obras S.A. (31%), Furnas Centrais

Elétricas S.A. (49%) e Engevix

Engenharia S.A. (20%), ao ofertar

o lance de R$ 33.750.000,00, que

representou um deságio de

32,44% em relação à RAP inicial.

Com a instalação das linhas de

transmissão estima-se a criação direta

de 1900 vagas somente no Estado

de Goiás.

CANAL, Jornal da Bioenergia 11


MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Cúpula do clima

termina sem acordo

CONFERÊNCIA RESULTA EM APENAS UM TEXTO QUE

SERVIRÁ COMO DECLARAÇÃO POLÍTICA DOS CONFERENCISTAS

fotos: divulgação

Em seu discurso na COP-15, o

presidente Barack Obama frustou

expectativas ao anunciar o compromisso

norte-americano de reduzir as emissões

de gases de efeito estufa em 17% até

2020 e em mais de 80% até 2050.

PRINCIPAIS TRECHOS

- Redução de emissões dos emergentes: não há

detalhamento. O texto fala que as ações de

mitigação deverão ser refletidas nos inventários

nacionais de gases-estufa, a serem produzidos de

dois em dois anos. "Esclarecimentos podem, a

pedido, ser fornecidos pela parte a que diz

respeito". A auditagem do cumprimento será

doméstica, para acomodar o interesse dos

emergentes.

- Financiamento: há números, US$ 30

bilhões para ações entre 2010 e 2012,

US$ 100 bilhões em 2020, vindos de

"uma ampla variedade de fontes."

- Implementação: o acordo deve

entrar em vigor em 2016.

ricardo stuckert pr

A15ª Conferência do Clima da ONU

(COP-15) terminou sem um acordo, para

a decepção de ambientalistas, governantes

e parte da população mundial

que depositavam na reunião de chefes de Estado

um compromisso sério com as metas para a melhoria

do clima. Um “acordão”, que ignorou completamente

as necessidades já diagnosticadas,

propôs um limite de 2 ºC de aquecimento e investimento

de US$ 100 bilhões, na última e definitiva

reunião do COP-15, realizada em dezembro,

em Copenhague, na Dinamarca. Com a frustração

da falta de um resultado concreto, a Organização

das Nações Unidas (ONU) ventilou a

possibilidade de acontecer uma nova edição da

Conferência ainda em 2010.

A reunião contou com a presença dos líderes de

193 países, entre eles Estados Unidos, Austrália,

Reino Unido, França, China, Rússia, Alemanha e Japão,

além do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula

da Silva. O presidente americano, Barack Obama,

mostrou impaciência com o impasse formado entre

os países que defendiam uma redução de emissões

com supervisão internacional. "Nenhum país

vai conseguir tudo o que quiser", disse Obama, em

um breve discurso aos 193 países reunidos na conferência,

após duas semanas de negociações.

A Conferência terminou apenas com um texto

que servirá como declaração política dos conferencistas

e não com um acordo que substituísse

o Protocolo de Kyoto, como era esperado. Os

principais pontos da declaração apontam que a

redução de emissões dos gases de efeito estufa

nos países ricos serão estabelecidos de acordo

com os dados de dois anos-base: 1990 e 2005, o

que acomodou os interesses dos Estados Unidos.

O texto não fala em porcentagem para a redução

de emissões nos países emergentes, apenas

cita ações de mitigação que deverão fazer parte

dos inventários nacionais de gases-estufa.

O resultado de horas de reunião entre os principais

líderes mundiais não estabeleceu metas de

corte de gases-estufa para 2020. Fala-se, apenas,

em uma redução de 50% das emissões até 2050

e, genericamente, de um fundo de US$ 100 bilhões

para o mesmo ano, sem dizer de onde vem

o dinheiro nem como ele será usado. Os recursos,

segundo o documento, serão originários de “uma

ampla variedade de fontes”.

OFERTA BRASILEIRA

O presidente Lula, um dos mais empenhados

no acordo, fez, durante a Conferência, uma oferta

de doação para um fundo global de combate

à mudança climática e aproveitou seus discursos

para mostrar o compromisso brasileiro com as

questões ambientais. Longamente aplaudido, Lula

enumerou as ações do Brasil e disse que “o País

estaria disposto a contribuir para um fundo, se

isso salvar a conferência.”

Sobre a formação do fundo global, o presidente

disse que ”é importante que nós, os países

em desenvolvimento e os países ricos, quando

pensarmos no dinheiro, não pensemos que estamos

fazendo um favor, não pensemos que estamos

dando uma esmola, porque o dinheiro que

vai ser colocado na mesa é o pagamento pela

emissão de gases de efeito estufa feita durante

dois séculos por quem teve o privilégio de se

industrializar primeiro.”

12 CANAL, Jornal da Bioenergia


SEMINÁRIO

André Rocha conduz seminário, ao lado do secretário de Planejamento de Goiás, Oton Nascimento e do presidente da Assembleia Legislativa, Hélder Valin

Benefícios do

etanol em debate

BIOCOMBUSTÍVEL AJUDA A MINIMIZAR

EFEITOS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Oseminário “O Setor Sucroenergético

e a Assembleia

Legislativa do

Estado de Goiás”, realizado

no último mês de dezembro,

reuniu representantes da

indústria sucroenergética e autoridades

para debater os benefícios

da produção e utilização

do etanol. O evento, organizado

pelo Sindicato das Indústrias de

Etanol de Goiás (Sifaeg), teve a

participação de pesquisadores

renomados, que apresentaram

estudos que atestam a eficácia

do etanol no combate ao aquecimento

global. Os estudos comprovam,

também, os efeitos positivos

do uso diário do etanol

para a saúde pública nas grandes

cidades.

O executivo do Sifaeg, André

Rocha, afirma que o encontro é

uma demonstração de maturidade

e de comprometimento do setor

sucroenergético com a sustentabilidade,

principalmente em

um momento em que a agenda

mundial discute formas de se

produzir energia com baixa emissão

de carbono. "Foi muito positiva

a realização do evento em

Goiás, que teve a presença de 14

deputados e 7 prefeitos, além de

vários representantes da indústria

canavieira goiana. Seminários

como estes são uma ótima

oportunidade para se apresentar

e discutir com a sociedade os benefícios

que o uso do etanol oferece

para a saúde, o meio ambiente

e para a economia brasileira",

afirma o executivo.

De acordo com o pesquisador

Luis Gylvan Meira Filho, da Universidade

de São Paulo, que ministrou

palestra no seminário, o

etanol tem papel fundamental

na minimização das mudanças

climáticas. “As emissões em transportes

continuarão aumentando

até 2030, mesmo usando todas

as opções de mitigação em análise

e, por isso, biocombustíveis

com bom desempenho na redução

de gases de efeito estufa

(GEE) serão muito importantes.”

Segundo Gylvan, por causa do

etanol brasileiro, as emissões de

gases no mundo em 2006 foram

0,1% menores e serão 0,25% menores

em 2020.

O seminário é uma ação do

Projeto Agora, iniciativa que reúne

entidades e empresas da cadeia

produtiva da cana-de-açúcar,

como a Unica, as organizações

Orplana e Fórum Nacional

Sucroenergético, os principais

sindicatos da Região Centro-Sul

do Brasil, além das empresas Itaú-

Unibanco, Monsanto, Basf, Dedini

e SEW Eurodrive. O Projeto Agora

foi lançado em 1º de junho de

2009 e representa uma das maiores

iniciativas institucionais já implantadas

no Brasil, unindo empresas

e entidades ligadas ao setor

sucroenergético. O objetivo é

unir forças em torno de um esforço

dedicado ao Marketing e à Comunicação

em prol das energias

renováveis geradas a partir da cana-de-açúcar.

fotos: divulgação

CANAL, Jornal da Bioenergia 13


AGRICULTURA

Produzir mais de

forma sustentável

EXPANDIR A ATIVIDADE

AGRÍCOLA SEM AVANÇAR

EM ÁREAS INTOCÁVEIS NO

CERRADO E FLORESTA

AMAZÔNICA. ESSE É O

DESAFIO QUE A

AGRICULTURA,

PRINCIPALMENTE O SETOR

SUCROENERGÉTICO,

PRECISA ENFRENTAR NOS

PRÓXIMOS ANOS

Fernando Dantas

OBrasil é um dos principais produtores

de grãos, com previsão de colheita de

135 milhões de toneladas até o final de

2009, representando pouco mais de 6%

da produção mundial. Quando o assunto é etanol,

o País é responsável pela produção de cerca

de 27 bilhões de litros, além de ser o maior produtor

e exportador de açúcar. O País se destaca,

ainda, pelas condições favoráveis que dispõe para

o seu desenvolvimento: domínio de 13% da

água doce do mundo, clima favorável, tecnologia

de ponta na agricultura e agroindústria

avançada.

Esses fatores colocam o Brasil em posição privilegiada

no cenário agrícola mundial e atribuem

ao País um grande desafio para a próxima

década: produzir mais alimentos e biocombustíveis

para atender os mercados interno e externo

sem aumentar áreas de plantio que impliquem

desmatamento. Dados da Organização das Nações

Unidas para Agricultura e Alimentação

(FAO) e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

(IBGE) revelam que o País possui potencial

de área agricultável de 133 milhões de hectares,

sendo que 77% são resultados da conversão

de pastagens e distribuídos em diferentes Estados,

principalmente Minas Gerais, Goiás, Mato

Grosso, Maranhão e Tocantins.

Em setembro de 2009, o Ministério da Agricultura,

Pecuária e Abastecimento (Mapa) divulgou

o Zoneamento Agroecológico da Cana-de-Açúcar

para a produção de etanol e açúcar. O objetivo

do governo federal é fornecer subsídios técnicos

para formulação de políticas públicas, visando

a expansão e produção sustentável de canade-açúcar

no território brasileiro. As estimativas

obtidas demonstram que o País dispõe de cerca

de 64,7 milhões de hectares de áreas aptas à expansão

do cultivo com cana-de-açúcar.

As áreas aptas à expansão cultivadas com

pastagens representam cerca de 37,2 milhões de

hectares. São valores considerados grandes, já

que a atual área plantada da cultura é de 8,2 milhões

de hectares. Essas estimativas demonstram

que o País não necessita incorporar áreas novas

e com cobertura nativa ao processo produtivo,

podendo expandir ainda a área de cultivo com

cana sem afetar diretamente as terras utilizadas

para a produção de alimentos.

A expansão da área agrícola no Brasil, seja para

a cana ou grãos, se justifica pela crescente demanda

mundial por alimentos, devido à diminuição

da população abaixo da linha de pobreza e a

busca por fontes renováveis de energia, como o

etanol. Para que o País consiga atender a demanda

interna e externa de cana-de-açúcar e grãos –

soja, milho, trigo, arroz e algodão até 2020, serão

necessários 70 milhões de hectares de terras, um

crescimento de 19 milhões de hectares se comparado

aos atuais 51 milhões já em cultivo. Segundo

pesquisa da WWF Brasil e Seguradora Allianz,

é possível dobrar a área agrícola nacional sem

causar desmatamento ao Bioma Amazônico ou

regiões intocadas do Cerrado, apenas com a recuperação

das pastagens degradadas. Para especialistas

e representantes de entidades ligadas ao setor

sucroalcooleiro, a expansão agrícola, principalmente

da cultura da cana-de-açúcar, terá que

ocorrer de forma planejada e sustentável, exatamente

em áreas degradadas ou subutilizadas por

niels andreas

14 CANAL, Jornal da Bioenergia


pastagens e respeitando as legislações federais

e estaduais em vigor, como reserva

permanente e legal, além dos acordos individuais

firmados com os Ministérios Públicos

nos Estados.

Segundo o CEO da Kleffmann Brasil,

Lars Schobinger, nas últimas cinco safras

o agricultor brasileiro conseguiu obter

maior produtividade sem aumentar a área

plantada que representasse risco de desmatamento

aos biomas brasileiros. "Para

não desmatar, é preciso usar as terras disponíveis,

e as melhores que se têm são

áreas preparadas para pastagem ou áreas

já ativas. O desafio é aumentar a eficiência

na pecuária. Com um pequeno ganho

nisso, passaremos a ter muita terra disponível",

revela. O diretor técnico da União

da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica),

Antônio de Pádua Rodrigues, garante que

investir em pesquisa e novas variedades

poderá ser o caminho para o aumento da

produtividade na cultura da cana-deaçúcar,

sem expandir a área agricultável

que possa causar desmatamento. "É possível

aumentar em 30% a 40% a produção

de etanol no Brasil sem que isso represente

o desmatamento de áreas intocáveis.

O desenvolvimento e lançamento

de variedades, melhor logística e utilização

de áreas de recuperação são fatores

primordiais para que a cultura da cana

mantenha sua expansão sem agredir o

meio ambiente", reforça.

Já o diretor superintendente da Cooperativa

dos Plantadores de Cana do Oeste

do Estado de São Paulo (Copercana), Manoel

Ortolan, afirma que o setor canavieiro

precisa continuar cumprindo a legislação

ambiental e investir no aumento de

tecnologia e infraestrutura em campo para

obter maior produtividade. No Estado

de São Paulo, onde a cana deverá ocupar

5,46 milhões de hectares no próximo ano,

com aumento de 1% em relação a 2009, a

expansão tem ocorrido em áreas de pastagens

degradadas e com investimentos na

capacitação de mão-de-obra e aprimoramento

da mecanização da lavoura. "Não

há dúvidas de que o maior gargalo do setor

é a questão da infraestrutura. Com a

cana se interiorizando, rumo ao Centro-

Oeste do País, o Estado de São Paulo se

torna cada vez mais competitivo, devido a

sua localização e o seu custo de produção

vantajoso", ressalta. Para o ambientalista e

jornalista Washington Novaes, como a cana-de-açúcar

está em plena expansão,

principalmente para o interior do País, o

desafio é avaliar como será o crescimento

das áreas de plantio nesses locais. "Não faz

sentido desmatar o Cerrado e o Pantanal

para a expansão da cultura, por exemplo,

se 50% das áreas de pastagem em Goiás

estão em locais de degradação. É preciso

fazer uso dessas possibilidades", destaca.

Washington alerta para a necessidade

de preservar o Cerrado, já que é o bioma

mais ameaçado pelo desmatamento,

com pouco mais de 3% de áres protegidas.

"Por isso reforço a importância da

expansão de forma sustentável, em áreas

que já estão disponíveis para conversão

de pastagens e outras terras degradadas",

informa Novaes.

A pesquisa da WWF Brasil e Seguradora

Allianz mostra que, nos próximos dez anos,

a abertura de novas áreas de produção poderá

representar a expansão agrícola de 9,8

milhões de hectares, ou 18% das áreas de

Cerrado potencialmente agrícolas, de acordo

com o Código Florestal vigente. As maiores

aberturas ocorreriam no Mato Grosso,

Bahia, Piauí, Maranhão e Tocantins.

O estudo aponta a necessidade de criação,

promoção e implementação de sistemas

de certificação voluntários, como a

RTRS (soja) e o BSI (cana), com normas socioambientais

que incluem a expansão

agrícola sobre áreas já abertas, sem desmatar

o Cerrado.

A conversão de terras degradadas poderá

contribuir para a expansão agrícola e,

consequetemente, para o aumento de volume

e receita obtidos pelos produtos

agrícolas nacionais

ÁREAS PARA EXPANSÃO AGRÍCOLA NO BRASIL EM HECTARES

(MILHÕES), CONSIDERANDO A LEGISLAÇÃO EM VIGOR

Região

Mato Grosso

Mato Grosso do Sul

Goiás

Maranhão

Bahia

Tocantins

Minas Gerais

São Paulo

Paraná

Santa Catarina

Área de pastagem

apta à agricultura

1.524.811,00

4.377.003,00

4.727.000,00

101.700,00

300.670,00

999.850,00

2.251.089,00

1.048.020,00

928.611,00 (mil ha)

12.780,00

Área potencial para

exploração agrícola

9.314.316,00

5.189.676,00

13.342.829,00

6.938.049,00

6.899.369,00

14.886.051,00

6.291,474,00

1.048.020,00

928.611,00 (mil ha)

12.780,00

Fonte: Céleres Ambiental

fotos: stock.xhng

CANAL, Jornal da Bioenergia 15


Barreiras e investimentos

Carências de

infraestrutura e

logística dificultam

escoamento da

produção

Para acompanhar a expansão agrícola,

o Brasil terá que se preocupar,

além do desmatamento, com problemas

que já afetam a agricultura, principalmente

o setor sucroalcooleiro.

Dados da WWF Brasil e Seguradora

Allianz revelam que uma das principais

barreiras para a expansão agrícola

brasileira é a carência de infraestrutura

e logística que, além de dificultar o

escoamento da produção agrícola, encarece

o produto nacional.

Para o presidente do Sindicato da

Indústria do Açúcar e Álcool no Estado

de Pernambuco (Sindaçúcar), Renato

Cunha, é preciso investir no

aperfeiçoamento da logística de

transporte, com a implementação de

sistemas informatizados, alcooldutos

em áreas de grande produção e demanda,

navios de maior capacidade,

com alternativas mais completas, e

permanente melhoria da gestão de

transportes de matéria-prima do

campo para a indústria. "No que se

refere à cogeração, investimentos terão

que ser feitos na aquisição de

caldeiras e outros equipamentos mais

eficientes, visando maior competitividade

de preços no fornecimento da

energia às distribuidoras", relata.

O governo federal já está investindo,

por meio do Programa de Aceleração

do Crescimento (PAC), em infraestrutura

logística. Os estados que

serão beneficiados com mais recursos

são Minas Gerais, com R$ 14,7 bilhões

até o próximo ano, São Paulo,

com a quantia de R$ 13,8 bilhões,

Bahia com R$ 12,6 bilhões, Goiás

com R$ 8,1 bilhões e Tocantins, com

recursos de R$ 7,4 bilhões. Na Bahia,

os investimentos estão sendo feitos

na construção da ferrovia de integração

Oeste-Leste e, no Estado do Tocantins,

destaca-se a construção de

diversos trechos da porção Norte da

Ferrovia Norte-Sul. Em Goiás, os recursos

de R$ 8,1 bilhões até 2010 serão

destinados à construção do trecho

Sul da Ferrovia Norte-Sul e à

construção e pavimentação da BR-

080, que ligará os municípios goianos

de Uruaçu e São Miguel do Araguaia.

16 CANAL, Jornal da Bioenergia


Cenários para o Brasil na próxima década

A introdução de medidas para redução

de emissão de gases de efeito estufa em

todo o mundo e a crescente venda de carros

flex têm aumentado a demanda por

biocombustíveis e, consequentemente,

maior necessidade de matérias-primas

para a produção do combustível limpo. A

WWF Brasil revela que a cana-de-açúcar

será a principal matéria-prima utilizada

na produção de biocombustíveis no País. A

produção mundial de etanol deverá se

aproximar de 141 bilhões de litros em

2020, sendo que, do total, 49,9 bilhões de

litros a partir da cana.

O Brasil responderá por 32% do volume

total de etanol produzido e por 89% da

produção de etanol a partir da cana-deaçúcar.

Os dados mostram que, para atender

ao crescimento da demanda interna e as

exportações, a produção brasileira de cana

terá que registrar um crescimento de 217

milhões de toneladas, passando de 624 milhões

de toneladas em 2009 para 842 milhões

em 2020. Isso resultará no aumento da

área plantada, que saltará de 8,2 milhões de

hectares em 2009 para 10,4 milhões de

hectares em 2020. O avanço da expansão da

cana-de-açúcar se concentrará na região

Centro-Sul, principalmente nos Estados de

Goiás e Mato Grosso, com a instalação de

novas usinas. As projeções indicam um

crescimento de 42 mil hectares no Mato

Grosso, 572 mil no Mato Grosso do Sul e

626 mil hectares em Goiás.

A WWF Brasil projeta, ainda, que o consumo

de biodiesel no Brasil deverá saltar de

689 milhões de litros - estimados para 2009

- para 999 milhões de litros em 2020, representando

um crescimento de 310 milhões

de litros no período. Para atender a demanda,

o consumo de óleo de soja – matériaprima

responsável por 80% da produção de

biodiesel – passará de 613 mil toneladas até

o final de 2009 para 887 mil toneladas em

2020. Será preciso um crescimento de 14

milhões de hectares de área plantada de

soja para abastecer o mercado. O estudo

mostra que o Brasil terá áreas para suportar

o crescimento da agricultura sem precisar

expandir a produção para Amazônia e sem

desrespeitar a legislação ambiental vigente,

principalmente no bioma Cerrado.

SAIBA MAIS

Código Florestal - Lei nº 4.771/65, alterada pela Lei nº

7.803/89 e Medida Provisória nº 2.166/67/01. Define que as

florestas e outras formas de vegetação nativa, ressalvadas

as situadas em área de preservação permanente, assim

como aquelas não sujeitas ao regime de utilização limitada

ou objeto de legislação específica, são suscetíveis de

supressão, desde que sejam mantidas, a título de Reserva

Legal, no mínimo:

- 80%, na propriedade rural situada em área de floresta

localizada na Amazônia Legal - Acre, Pará, Amazonas,

Roraima, Rondônia, Amapá e Mato Grosso, e parte de

Tocantins, Goiás e Maranhão;

- 35%, na propriedade rural situada em área de Cerrado

localizada na Amazônia Legal, sendo no mínimo 20% na

propriedade e 15% na forma de compensação em outra

área, desde que esteja localizada na mesma microbacia;

- 20%, na propriedade rural situada em área

de floresta ou outras formas de vegetação

nativa localizada nas demais

regiões do país;

- 20%, na propriedade rural em

área de campos gerais

localizada em qualquer

região do país.

CANAL, Jornal da Bioenergia 17


SAFRA

Produção de cana

mantém crescimento

CONAB ESTIMA SAFRA DE 612,21 MILHÕES DE TONELADAS

DE CANA, AUMENTO DE 7% EM RELAÇÃO À ANTERIOR

De acordo com dados fornecidos pelo

terceiro levantamento da safra de cana-de-açúcar,

divulgado pela Companhia

Nacional de Abastecimento (Conab),

a estimativa da área de cana colhida na safra

2009/2010, destinada ao mercado sucroenergético,

é de 7.531 mil hectares, distribuída entre

os Estados produtores. São Paulo tem a maior

concentração, com 4, 1 milhão de hectares, seguido

por Paraná com 590,1 mil ha, Minas Gerais

com 587,1 mil ha, Goiás com 520,3 mil ha e

Alagoas, com 448 mil hectares.

A indústria canavieira terá uma produção total

de 612,21 milhões de toneladas de cana para ser

moída, o que representa um recorde nacional.

Esses números revelam um crescimento de 7%

em relação à safra 2008/2009. A média de produtividade

do País está avaliada em 81.293 Kg/hectare,

4% a mais do que a temporada anterior,

mantendo um equilíbrio nas duas safras. A região

Centro-Sul elevou as médias obtidas devido às

condições de produção, área de lavoura, tipo de

solo, topografia e tecnologia aplicada.

Porém, o excesso de chuvas nas principais regiões

produtoras do Centro-Sul afeta diretamente

a colheita da lavoura, gerando uma previsão

de que 20 milhões de toneladas de cana ficarão

no campo para próxima safra. Além de

atrapalhar a colheita, o excesso de umidade prejudica

a maturação da cana e a concentração de

sacarose. "Em termos práticos, eu preciso moer

um volume maior de cana para ter a mesma

quantidade de produto (açúcar e álcool)", explica

Carlos Roberto Bestétti, Gerente de Levantamento

e Avaliação de Safra da Companhia Nacional

de Abastecimento (Conab).

MIX DA PRODUÇÃO

Do total de cana esmagada, 276 mil toneladas,

aproximadamente 45,08%, foram destinadas

à produção de açúcar, que chegou a 34,6 mil

toneladas. Já para a produção do etanol foram

destinados 55% da produção, gerando um volume

total de 25,8 bilhões de litros. Deste total, 7,6

bilhões de litros são de álcool anidro e 18,2 bilhões

de litros são do tipo hidratado.

O etanol hidratado teve uma redução expressiva

nas exportações, em torno de 1,5 bilhão

de litros, quando comparado com a safra

anterior, que foi de 4,9 bilhões de litros. Para

Carlos Bestétti isso ocorreu devido às mudanças

políticas nos Estados Unidos, que reduziram

a quantidade de importação do produto.

Em contrapartida, o mercado interno dá sinais

de crescimento de consumo, em razão do

aumento da frota de veículos flex-fuel, representando,

atualmente, 90% das vendas de veículos

leves. "Quanto ao abastecimento do mercado

com etanol, as pessoas podem ficar tranquilas,

não tem perigo de faltar o combustível

nas bombas, temos estoque suficiente para enfrentar

a entressafra", ressalta Carlos Bestétti.

unica

Fonte: Conab - 3º levantamento: dezembro de 2009.

18 CANAL, Jornal da Bioenergia


Veículo flex polui menos

Estudo divulgado pelo Ministério do Meio

Ambiente sobre veículos menos poluentes

no país destaca que os carros flex são os

únicos com pontuação máxima, de cinco

estrelas, independentemente de usarem

álcool ou gasolina.

Dos 500 modelos novos de carros vendidos

no país, apenas 22 (4,4%) receberam cinco

estrelas -todos são nacionais e flex e seus

motores têm potência de até 1,8 cilindrada.

Entre os mais poluentes, com apenas uma

estrela, estão 20 modelos nacionais e 17

importados. Nenhum dos 104 modelos

importados avaliados recebeu mais do que

três estrelas. Modelos a gasolina tiveram, no

máximo, quatro estrelas.

Novos agentes de

comercialização para etanol

A Agencia Nacional de Petróleo, Gás

Natural e Biocombustíveis divulgou nova

resolução que altera a regulamentação da

comercialização do etanol no território

nacional e traz duas inovações: a criação

das figuras da "empresa de

comercialização de etanol" e do "agente

operador de bolsas de mercadorias e

futuros." Na opinião do Diretor Técnico

da Unica, Antonio Padua Rodrigues, a

resolução demonstra o empenho da ANP

no sentido de garantir uma oferta estável

do etanol no mercado interno.

Exportações de etanol

podem dobrar em 2011

As exportações brasileiras de etanol

podem dobrar a partir de 2011. É o que

espera a União da Indústria de cana-deaçúcar

(Unica). É que o Programa de

Etanol Brasileiro, lançado inicialmente

para substituir o petróleo, é visto como

uma das principais formas de amenizar

os efeitos do aquecimento global. Para a

Unica, as discussões mundiais sobre o

clima, como a Conferência da ONU

sobre Mudanças Climáticas, que

ocorreram em Copenhague, devem

definir o futuro do setor.

Cosan vai construir Centro

Coletor de Etanol

A Cosan Combustíveis e Lubrificantes,

detentora do direito de uso das marcas

ESSO e Mobil no Brasil, anuncia a

construção de um Centro Coletor de

Etanol, localizado em Ourinhos (SP).

Cedido pela prefeitura da cidade, o terreno,

com aproximadamente 80 mil m², será um

importante polo receptor de etanol das

usinas da região. O objetivo é atender

pelos modais ferroviários e rodoviários

toda a Região Sul, ampliando ainda mais a

atuação da Cosan no mercado que é um dos

grandes centros de consumo no Brasil.

O início das operações do Centro Coletor

de Etanol está previsto para o final de 2010.

O combustível será recebido por caminhões

para depois ser distribuído em vagõestanque

para o transporte ferroviário e

também será entregue por meio do modal

rodoviário. A companhia movimentará

cerca de 1 milhão de litros de etanol por dia,

que abastecerão cerca de 500 vagões por

mês. O terminal será capaz de receber

grande parte dos 420 mil m³ de etanol que a

companhia produz na região, com usinas

localizadas nas cidades de Paraguaçu

Paulista, Tarumã, Maracai e Ipaussu, todas

no Estado de São Paulo.

Biocombustíveis na Dinamarca

O Brasil fornecerá biocombustíveis

sustentáveis para a Dinamarca em 2010,

quando a legislação para a mistura

obrigatória entrar em vigor. A Dinamarca

e a Alemanha serão os primeiros países

membros da UE a iniciarem a

implementação da Diretiva de 2009 sobre

fontes de energia renováveis. A legislação

exige que os biocombustíveis colocados no

mercado cumpram com determinados

critérios de sustentabilidade. Isto inclui

restrições ao uso da terra e níveis

mínimos de redução nas emissões de

gases de efeito estufa.

Petrobras adquire participação

em usina de etanol

A Petrobras Biocombustível ingressou

no capital social da Total Agroindústria

Canavieira S. A, empresa que possui uma

usina de etanol localizada no município de

Bambuí (MG), com capacidade para

produzir 100 milhões de litros de

etanol/ano.A Petrobras pretende adquirir

mais duas ou três participações em usinas

de etanol em 2010. Em 2011 a previsão é de

que a produção da empresa atinja 1,392

bilhão de litros e, em 2012, 2,319 bilhões.

CANAL, Jornal da Bioenergia 19


PESQUISA

fotos: rafael leal

Efluente pode aumentar

produtividade da Cana

EXPERIMENTO AINDA É RECENTE NO BRASIL, MAS UTILIZAÇÃO DE

EFLUENTES JÁ É BEM DIFUNDIDA EM VÁRIOS OUTROS PAÍSES

Bárbara Lauria

AEscola Superior de Agricultura Luiz de

Queiroz (Esalq), da Universidade de São

Paulo (USP), em Piracicaba, desenvolve

experimentos que mostram a viabilidade

de utilização de efluentes de esgoto doméstico na

irrigação da cana-de-açúcar. O objetivo principal

é estudar a viabilidade técnica da aplicação de

efluente de esgoto tratado (EET) nesta cultura,

avaliando-se, para tal, o impacto desta aplicação

em diversos parâmetros indicadores de qualidade

do solo, das plantas e do ambiente, afirma o engenheiro

agrônomo Rafael Marques Pereira Leal,

da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz

(Esalq), da USP de Piracicaba. "Neste estudo, em

particular, a aplicação de efluente foi feita de

modo a suprir integralmente a demanda hídrica

da cultura. Os resultados da cana irrigada com

efluente foram comparados com o tratamento

controle, que consiste em cana cultivada sem irrigação

e com manejo convencional," explica.

PESQUISAS

As primeiras pesquisas conduzidas no campo experimental

de Lins (SP) envolveram diversas outras

culturas, a exemplo de café, milho, girassol e capim

tifton. Os trabalhos foram iniciados em 2002.

O experimento com cana-de-açúcar, especificamente,

teve início em 2005 e agora sua

continuidade está sob a responsabilidade do

pesquisador Julius Blum.

CRITÉRIOS PARA UTILIZAÇÃO

As culturas com potencial para receberem

efluentes devem satisfazer todos ou grande

parte das seguintes ccondições:

- Alta absorção de sódio

- Alto consumo de água

- Potencial de uso no processamento

quando necessário

- Potencial de mercado nacional e internacional

- Retorno econômico relativamente alto.

PERSPECTIVAS, VANTAGENS

E CUIDADOS

- Áreas sob cultivo de cana-de-açúcar possuem

elevado potencial para receberem irrigações com

efluente de esgoto tratado

- Muito ainda precisa ser feito, de modo que o uso

do efluente possa ser bem planejado e realizado

de modo criterioso, maximizando os benefícios e

minimizando os riscos envolvidos, garantindo com

isso a sustentabilidade da prática.

- A prática pode representar uma economia com a

redução das quantidades de fertilizantes minerais

aplicados, ocasionar ganhos de produtividade e

aumento da longevidade dos canaviais, benefícios

associados à prática da irrigação na cultura.

- Além de redução nos custos com a reforma

do canavial, o uso de efluentes epresenta um

destino mais apropriado a este resíduo que,

do contrário, seria lançado nos cursos d'água.

(Fonte: engenheiro agrônomo Rafael

Marques Pereira Leal)

20 CANAL, Jornal da Bioenergia


As pesquisas estão sendo conduzidas por

equipes multidisciplinares. O projeto geral

é coordenado pelo professor Adolpho José

Melfi (Esalq/USP), juntamente com a professora

Célia Regina Montes. As pesquisas

em Lins fazem parte de um projeto temático

financiado pela Fapesp denominado

Uso de Efluentes Esgotos Tratados por

Processos Biológicos (Lagoas de Estabilização

e reatores UASB/lodos ativados) em

Solos Agrícolas".

OUTROS PAÍSES

O engenheiro agrônomo Rafael Leal

ressalta que, no Brasil, ainda não se conhece

nenhum estudo anterior onde se

tenha utilizado e avaliado os efeitos da

irrigação com efluente secundário de esgoto

tratado (ESET) na cultura da canade-açúcar.

Embora esse tipo de estudo

ainda seja recente no Brasil, a utilização

de efluente de esgoto na agricultura é

prática comum em muitos outros países,

especialmente os que apresentam limitações

em termos de recursos hídricos disponíveis

como, por exemplo, Israel, Austrália

e Jordânia.

O aproveitamento agrícola do efluente

de esgoto tratado contribui para a preservação

da qualidade dos recursos hídricos,

evitando a deposição nos cursos d'água. A

prática proporciona o fornecimento de

nutrientes aos cultivos agrícolas e a economia

de água de boa qualidade, sendo,

portanto, uma alternativa econômica e

ambientalmente interessante. “Apesar dos

potenciais benefícios, não é uma prática

isenta de riscos, haja vista que a presença

de alguns constituintes, tais como o sódio,

metais pesados, organismos patogênicos

e contaminantes orgânicos podem

ocasionar prejuízos ao solo, às plantas e

ao ambiente, comprometendo a viabilidade

da prática do reúso agrícola”, destaca

engenheiro agrônomo Rafael Leal.

Durante os 16 meses em que o experimento

foi realizado houve aumento significativo

da produtividade da cana-deaçúcar.

"No meu entendimento, isso não

quer dizer que será sempre assim, mas sim

que o uso do efluente tem o potencial real

de trazer ganhos à cultura. No período

em questão, a produtividade média nas

parcelas controle (sem irrigação) foi de

150 toneladas/ha, enquanto que, na média,

as parcelas irrigadas com efluente

produziram em torno de 220 toneladas/ha",

compara Rafael.

CANAL, Jornal da Bioenergia 21


Memória

viva do

Bioma Cerrado

Clarissa Bezerra

Cerca de 200 metros separam o ir e vir dos carros e pessoas de

um mundo quase mágico e que remonta longínquos períodos

da história da terra. Tudo voltado para contar a origem e a

cultura do bioma Cerrado. São fósseis, plantas e estruturas

físicas seculares, que atraem pesquisadores renomados do

mundo todo, crianças, pais, alunos e outros tantos curiosos.

22 CANAL, Jornal da Bioenergia


Reprodução de casas e igreja em estilo

colonial, uma das diversas atrações

do Memorial do Cerrado

O Memorial do Cerrado fica localizado

no Jardim Olímpico, região sul de

Goiânia. O espaço, que completa 10

anos de existência, está inserido em um

programa maior, sob a responsabilidade

do Instituto do Trópico Subúmido (ITS),

órgão da Pontifícia Universidade Católica

de Goiás. Está abrigado em uma área

de 1 milhão e 452 mil metros quadrados,

onde estão o Centro de Biologia

Aquática, o próprio Memorial e a Estação

Ciência do ITS.

Por sua beleza e importância cultural,

em 2008 o Memorial do Cerrado foi escolhido

o ponto turístico mais bonito de

Goiânia, com um total de 74,7% dos votos,

em concurso realizado pela TV

Anhanguera, afiliada da Rede Globo na

Região. Venceu concorrentes de peso, que

dividem as atenções dos visitantes e dos

moradores da cidade, tais como o Parque

Flamboyant, Teatro Goiânia e Palácio das

Esmeraldas. A escolha se deu por ocasião

do aniversário da capital.

"Este é um ambiente de preservação da

memória, onde se conta a evolução do

planeta e a história da humanidade. O local

consegue agregar lazer, educação ambiental

e o resgate do contato com a natureza",

explica o diretor do local, Roberto

Malheiros, mestre em geografia e professor.

Um apaixonado, que trata o Memorial

como um filho que ajudou a criar.

"Trago no sangue essa paixão. Meu pai foi

diretor por muitos anos do Parque Nacional

das Emas e, vale ressaltar, em uma

época em que o meio ambiente não era

tratado com tanta preocupação."

MILHARES DE VISITANTES

“Venho aqui sempre que posso. Quando

entro, esqueço até em que século estou”,

afirma a professora Sílvia Caládria, de Palmeiras

de Goiás. Ela é um das 15 mil pessoas

que, todos os meses, visitam o local. São

500 por dia. É um número que nos engrandece,

mas também requer cada vez mais carinho

e investimentos, fala o diretor, lembrando

que, no mesmo dia em que a reportagem

esteve no local, passaram por lá 40

alunos russos que vieram a Goiás por meio

de um programa de intercâmbio.

Dependendo da ocasião, o número de visitantes

pode ser muito maior. Na semana do

Folclore deste ano, por exemplo, foram computadas

13 mil visitas em apenas três dias de

evento. O motivo Uma programação cultural

alusiva à data com um recheio gastronômico.

Foram realizadas oficinas de rapadura,

cachaça, farinha, melado, pintura e até de

confecção de bonecos medievais.

O Memorial do Cerrado exigiu investimentos

de, aproximadamente, R$ 2 milhões. É um

complexo que conta, atualmente, com o Museu

de História Natural, a Vila Cenográfica Santa

Luzia (com suas faces urbana e rural), Quilombo,

Aldeia Indígena, Espaço de Educação

Ambiental Professora Dalila Coelho Sales Barbosa

e ainda a Trilha da Semente Peregrina (para

estudo com fundos didáticos e científicos).

Hoje, o custo da manutenção extrapola a

arrecadação, que se dá por meio da venda de

ingressos (vendidos a 8 reais) e até com aluguel

do espaço para ensaios fotográficos ou

gravação de programas e comerciais. O espaço

recebe investimentos frequentes e há

projetos para expandir o local, fala Roberto.

fotos: divulgação

CANAL, Jornal da Bioenergia 23


fotos: divulgação

Novos investimentos

em expansão

Um lugar que tem como objetivo contar a história

plena de uma sociedade não pode parar. Nas contas do

diretor Roberto Malheiros é preciso ainda criar o

Abrigo Pré-Histórico, Espaço Garimpeiro e Olaria

(marombas). Para isso são necessários R$ 500 mil. Mas

o grande salto para o Memorial será mesmo a criação

do Museu de Zoologia José Hidasi, que foi lançado no

Palácio das Esmeraldas (sede do governo estadual),

durante café da manhã de homenagem ao

cinquentenário da Universidade Católica de Goiás e

seu reconhecimento como Pontifícia Universidade

Católica pelo Vaticano.

A obra física tem custo estimado em R$ 3,5 milhões.

Todo acervo de animais reunidos nos últimos

50 anos foi doado pelo professor e cientista José

Hidasi. "O que me motivou a fazer a doação do meu

acervo foi a moral da PUC. Ela cuidará dele daqui por

diante, frisa o cientista. A verba do Governo de

Goiás, cerca de R$ 2,5 milhões, é para construção do

museu, que deve contar com mais de 120 mil peças,

entre animais montados e seriados (coleção científica)

dentre as quais as do antigo Museu de

Ornitologia, um dos maiores do mundo e o maior da

América Latina.

O novo museu vai funcionar em uma área de três

mil metros quadrados, ao lado do Museu de História

Natural, que está instalado no Memorial. A administração

será feita pelo próprio (ITS), numa gestão conjunta

com a Secretaria de Ciência e Tecnologia do

Estado de Goiás, aberto à estudantes da Universidade

Estadual de Goiás, instituições de Ensino Superior

Municipais e pesquisadores fomentados por programas

e ações da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado

de Goiás (Fapeg). Roberto Malheiros acredita que a

obra esteja pronta em junho do próximo ano.

Vilas temáticas do Memorial recebem visitas constantes de estudantes

SERVIÇO

Horário de funcionamento

De segunda à sábado, das 8h às 22h;

domingos e feriados, das 8h às 12h e

das 13h às 17h

Endereço

Câmpus 2 da UCG, Avenida Bela Vista,

km 2, Jardim Olímpico.

Telefones

(62) 3946-1723

NÃO DEIXE DE VISITAR: Museu

fechado, Vila Cenográfica Santa

Luzia, Aldeia Timbira, o Quilombo e a

Fazenda Baraúnas.

Preço do ingresso:

8 reais inteira e 4 reais meia.

HERANÇA CULTURAL

O acervo de animais empalhados do professor José

Hidasi não tem preço. "É preciso ressaltar que um lugar

como o Memorial do Cerrado precisa contar com a

ajuda de toda sociedade para existir, pois o que ele

reúne precisa ter história. Doações, segundo o diretor,

sempre contribuem com o acervo existente." Ele

ressalta a doação de um Parque Tipográfico completo,

feito pelo escritor e sociólogo Clodomir Moraes.

"Também destaco a doação do Barão Wolf H. Von

Puttkamer (um nobre alemão que viveu por muitos

anos em Goiás), de parte da calda de um gliptodonte

pré-histórico, uma espécie de tatu gigante. Esse animal,

segundo pesquisas, teria vivido na região do

Cerrado há mais de 10 mil anos.

Outra herança que está sendo deixada é o know

how. O professor Roberto faz questão de ressaltar que

a mesma equipe que criou o Memorial do Cerrado

ajudou na criação do Museu de História Natural

Homem da Serra do Cafezal, em Serranópolis (GO),

Museu de História Natural Raimundo Sales, em

Correntina, na Bahia, Museu da Agropecuária de

Goiás, em Goiânia, e o Museu de Memória de Serra da

Mesa, em Uruaçu (GO).

24 CANAL, Jornal da Bioenergia


PALAVRA DO ESPECIALISTA

Biodiesel: planejamento

eficaz garante sucesso

ALEXANDRE DE AGUIAR

BRANTIS é engenheiro e

responsável pelo Departamento

de Projetos e Desenvolvimento

na América Latina da Shell e E

ARISMARIO P. PASSOS é

engenheiro e gerente de

Projetos da CH2MHill

Implantar instalações para armazenamento

e distribuição de

biodiesel, na maioria das regiões

brasileiras, num prazo extremamente

curto, foi o desafio lançado

pela Shell à CH2M Hill, empresa líder

global em engenharia, construção,

gerenciamento, operações e

meio ambiente. O resultado foi o

desenvolvimento de soluções de engenharia

que permitiram a implantação

de terminais muito eficientes,

sob todos os pontos de vista -técnico-econômico,

ambiental e de segurança

para operários e funcionários

da Shell. Foram instalados em 14 locais

estratégicos para a adição do biodiesel

ao óleodiesel convencional,

originário do petróleo. A CH2M Hill

trabalha no sistema EPCM (engineering,

procurement, construction

management – engenharia, suprimentos

e gerenciamento de construção).

A Shell implantou 21 terminais

desse tipo no País.

Todos os terminais foram executados

com o rigor necessário, em

obras nessa área nevrálgica, que envolve

produtos inflamáveis e, por isso,

exigema obediência a parâmetros

internacionais de segurança.

Assim, foi realizado um estudo de

análise prévia de risco de cada etapa

e estabelecidos procedimentos para

cada intervenção, como serviços realizado

sem alturas, espaços confinados

ou a quente (solda), visando a

garantir tanto a qualidade dos serviços

como a segurança dos profissionais

que trabalharam nas obras, em

todas as suas etapas.

Para atender ao prazo – todas as

unidades teriam de ser entreguesem

janeiro de 2008 – foi feito um

cronograma regressivo. O ciclo doprojeto,

da concepção à entrega das

instalações e testes do produto final,

foi de 11 meses. O planejamento

começou em fevereiro e a elaboração

do projeto durou quatro meses.

Em seguida, foram seis meses

de aquisição de equipamentos, contratação

de mão-de-obra e execução

dos serviços.

Um mês foi gasto no teste do

produto, que buscou assegurar a

qualidade da operação executada

pelos equipamentos. As diretrizes

gerais que nortearam todos os processos,

dos projetos de engenharia

à etapa final de obras, foram o respeito

e o foco nas pessoas, na preservação

do meio ambiente e nos

acionistas e ativos da companhia.

Essas diretrizes fazem parte das

práticas obrigatórias de desenvolvimento

de projetos da Shell.

As obras civis incluíram a construção

de oito tanques em oito terminais

diferentes. As instalações incluem

as seguintes áreas: descarga para

os caminhões-tanque que carregam

o biodiesel; tanques de armazenagem,

bombeamento e carregamento,

onde o biodiesel puro – chamado de

B100 – é adicionado ao diesel. E, na

etapa final, a expedição do caminhão-tanque

para os postos de combustível.

Foram realizadas obras civis e eletromecânicas.

Os materiais usadosforam

concreto, metal e tubulações

de aço e carbono, que são à prova defogo

e intempéries. Em todas as

obras foi aplicado o princípio da eficiência

energética por meio da inversão

de frequência que, além de economizar

energia, aumenta a vida útil

dos equipamentos, pois sua potência

só é ativada na medida da necessidade,

à semelhança das modernas

escadas rolantes que ganham velocidade

quando há usuários.

Foram 250 pessoas envolvidas no

processo, de operários a engenheiros.

As obras foram realizadas por empresas

terceirizadas que seguiam as

normas reguladoras do Ministério do

Trabalho e também as normas da

Shell, que há algum tempo eram consideradas

rigorosas, mas atualmente

são consideradas saudáveis, porque

preveem a máxima preservação ambiental

e o respeito às pessoas e à segurança

dos procedimentos, desde o

início das obras até a posterior operação

das instalações. Como resultado

desse rigor nos procedimentos, não

houve qualquer problema durante

todo esse processo, como acidentes

com pessoas ou ambientais, vazamento

de produto, perdas etc.

As unidades contam com tecnologia

de vanguarda desenvolvida pela

Shell. Os equipamentos importados

dos Estados Unidos adicionam porcentagens

do biodiesel puro ao diesel

de petróleo. Todo o processo é automático,

on-line e inteligente, controlado

por um software que faz a gestão

da adição do biodiesel no abastecimento

dos caminhões-tanque.

A análise de todo o processo de implantação

desses terminais, desde os

estudos iniciais ao desenvolvimento

dos projetos de engenharia e a execução

das obras civis e de montagem

eletromecânica, mostra que oplanejamento

e o know-how da CH2M Hill,

em estreita e afinada parceria como

setor de Projetos e Desenvolvimento

da Shell, permitiram manter a sustentabilidade

econômica do produto final,

que permite à distribuidora praticar

preços competitivos no mercado

de combustíveis. As palavras-chave

que definem esse conjunto de ações

de projeto, gerenciamento de obras e

execução das instalações são produtividade

e competitividade.

Desde o início da operação das

unidades, em janeiro de 2008, o Programa

Biodiesel continua trazendo

retorno positivo. São instalações confiáveis

que permitem realizar o blend

(a mistura de biodiesel e diesel de petróleo)

sem problemas, acidentes humanos

ou ambientais nem atrasos. A

comparação remete aos pit stops para

abastecimento dos carros da Fórmula

1: são 40 millitros de combustível

descarregados em 30 minutos.

O Programa Nacional de Produção

e Uso de Biodiesel (PNPB), estabelecido

pelo governo brasileiro pela Lei

nº 11.097, de 13 de janeiro de 2005,

previa a adição de um percentual mínimo

de 2% de biodiesel ao óleo diesel

comercializado ao consumidor,

nos primeiros três anos do programa

que, atualmente, está na chamada fase

B4 (adição de 4% de biodiesel ao

óleo diesel). A Lei prevê que, em

2013, esse percentual alcance 5%. À

medida que o governo federal elevar

a porcentagem de adição de B100 ao

diesel, as instalações serão revistas

para atender às novas normativas. A

Shell e CH2M HILL estão prontas

para fazer essa adequação, por meio

de soluções de engenharia, sempre

respeitando todos os requisitos de

segurança, ambientais e de eficiência

das instalações.

CANAL, Jornal da Bioenergia 25


Granol colhe lucros

com biodiesel

A Granol,processadora de grãos,

encontrou no crescente mercado brasileiro

de biodiesel uma oportunidade para,

praticamente,triplicar de tamanho.A

empresa se destacou como a maior

fornecedora de biodiesel para o programa

governamental de disseminação do uso do

combustível misturado ao diesel no país em

2008.A posição deve ser mantida em 2009,

e a estratégia para defender esta liderança

em 2010,quando a concorrência deverá

aumentar,já está definida.No 16º leilão de

compra de biodiesel da Agência Nacional do

Petróleo,Gás Natural e Biocombustíveis

(ANP),em 17 de novembro,a Granol foi

mais uma vez a vencedora. A companhia

estreou na área com o arrendamento de

uma unidade de oleoquímicos em

Campinas (SP),em 2006.Depois investiu

R$ 150 milhões em duas plantas - em

Anápolis (GO) e Cachoeira do Sul (RS).

Braskem e Novozymes:

plástico de cana

A Braskem e a Novozymes são

parceiras em pesquisa para

desenvolvimento de polipropileno (PP)

feito a partir de cana de açúcar. O objetivo

é desenvolver uma alternativa verde,

baseada na tecnologia de fermentação da

Novozymes e na experiência da Braskem

em processos químicos e termoplásticos.

Os resultados iniciais são esperados em

prazo mínimo de cinco anos.

Livro aborda estratégias sobre

a cana-de-açúcar no Brasil

Estratégias para Cana no Brasil - Um Negócio

Classe Mundial - livro lançado em dezembro

passado, pela editora Atlas, está alinhado ao trabalho

desenvolvido pela Basf nesse segmento brasileiro da

economia e agricultura. No estudo, os autores

Marcos Fava Neves e Marco Antonio Conejero

tratam dos negócios gerados na cadeia

sucroenergética. Em uma versão exclusiva, a obra

traz prefácio do engenheiro-agrônomo Eduardo

Leduc, diretor de Proteção de Cultivos da Basf no

Brasil. A Basf patrocina parte da tiragem de 3 mil

exemplares com o intuito de difundir informações

importantes e novidades da cultura para a cadeia

agroindustrial.

Syngenta pesquisa elevação

do teor de açúcares em cana

A Syngenta vai acelerar o desenvolvimento de

uma tecnologia que eleva significativamente o teor

de açúcares na cana. Esta nova tecnologia será

baseada na pesquisa em biotecnologia da própria

Syngenta, combinada com a tecnologia

SugarBoosterTM, que utiliza modificação genética

para introduzir uma enzima na planta, ajudando a

aumentar os teores de açúcares produzidos pela

cana. A Syngenta assinou um acordo exclusivo de

licenciamento de SugarBooster com a CSR Sugar,

uma empresa australiana produtora de açúcar e de

energia renovável.

Govesa Mahindra: revenda

de veículos 4x4 Turbo Diesel

O Grupo Govesa, um conjunto de

empresas dividido em vários setores,

em que se destaca a revenda de

veículos de marcas multinacionais,

amplia sua participação no mercado

com a Mahindra. Exemplos são o

Mahindra Cabine Simples, uma

solução para quem deseja força,

resistência e robustez. Outra boa

opção é a Mahindra Cabine Simples

somente no chassi, ficando a caráter do

cliente escolher entre colocar

carroceria de madeira ou baú.

O veículo, com 1.300 Kgs de

capacidade de carga,tem motor turbo

diesel de 110cv de potência, com

sistema de marcha 4X2, 4x4 e 4x4

reduzida, chegando a uma autonomia

de cerca de 11 Km port litro. A

Mahindra Cabina dupla, por sua vez,

tem o maior espaço interno da

categoria, capacidade de carga de 1.060

Kgs , motor turbo diesel de 110cv,

tração 4x4 com reduzida, ar

condicionado, direção hidráulica,

vidros, travas elétricos e som mp3 com

entrada USB. Com essas

características o carro representa o

melhor custo benefício do mercado

neste segmento.

Informações: (62) 3227-4100.

26 CANAL, Jornal da Bioenergia

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