astroPT magazine

naldoaleixo

Volume 2 Edição 3

Março 2012

astroPT magazine


ESPECIAL

Março 2012

Neil no Daily Show

É sempre uma delicia ver e ouvir o astrofísico Neil

deGrasse Tyson, com a sua lucidez e forma cativante

de explicar a ciência, os seus princípios e

metas.

Por isso não resisto a partilhar aqui mais uma

entrevista com este grande comunicador e defensor

da ciência, com um carinho muito especial

pela exploração espacial.

Esse é o tema principal desta entrevista, da passada

segunda-feira (27 de Março) no excelente programa

dirigido por Jon Stewart, The Daily

Show (que eu recomendo vivamente).

Nesta entrevista o Neil defende uma vez mais a

origem e importância que a exploração espacial

teve para o avanço da ciência e da tecnologia

só).

americanas nos

anos da década

de 1960. Como

cativou as mentes

dos mais jovens e

fê-los querer,

também eles,

serem astronautas

ou físicos ou

astrónomos…

como se criou a

“cultura do futuro”…e

como o

abandono dos

programas de

investigação

espacial estão a

contribuir para a

decadência científica

e cultural

americana (e não

Muitas pessoas questionam o gasto feito com a

exploração espacial, mas o Neil não se cansa de

explicar que o dinheiro destinado à NASA representa

apenas meio cêntimo de cada dólar que os

americanos pagam de impostos. Uma percentagem

ínfima e cujas repercussões para a sociedade

em muito superam o investido.

“Este investimento no futuro, feito no séc. XXI,

representa os alicerces das economia do amanhã.

E, sem isso, mais vale voltar às cavernas, por que

é para lá que estamos a ir,…falidos!”

Enjoy!

[Veja o vídeo aqui]

Diana Barbosa

Página 2


Volume 2 Edição 3

ESPECIAL

Memoriais lunares ao dia da mulher

Memorial ao dia da mulher criado em 1971 pelo Lunokhod 1. Esta é uma parte do panorama fotografado pelo robot

soviético pouco depois de ter criado a figura.

Crédito: Laboratory of Comparative Planetology.

O Dia Internacional da Mulher é assinalado em

muitos países, há já várias décadas, no dia 8 de

Março. A data ganhou particular relevância na

União Soviética como símbolo político de exaltação

da mulher soviética como peça fundamental

na construção do regime comunista e na defesa

da pátria durante a Grande Guerra Patriótica (II

Grande Guerra Mundial).

Em 1971, os controladores da missão soviética

Lunokhod 1 comemoraram a data de uma forma

muito original. Ordenaram ao sofisticado robot

que desenhásse com as suas rodas no regolito de

Mare Imbrium um memorial ao dia da mulher.

Depois de completar uma figura em forma de 8, o

Lunokhod 1 reposicionou-se para criar um panorama

que incluísse o memorial.

Dois anos mais tarde, o seu sucessor Lunokhod 2

criaria um memorial semelhante, desta vez na

orla da cratera Le Monnier, no extremo leste de

Mare Serenitatis.

Este segundo

memorial tem a

particularidade

de ser facilmente

reconhecível em

imagens recentemente

obtidas

pela sonda americana

Lunar

Reconnaissance

Orbiter.

Sérgio Paulino

O mesmo memorial fotografado quatro

décadas mais tarde pela sonda

Lunar Reconnaissance Orbiter. É

visível a escassos metros a Luna 21,

a sonda que transportou o Lunokhod

2 até à superfície da Lua.

Crédito: NASA/GSFC/ Arizona State

University.

Parte de um panorama obtido em 1973 pelo robot soviético Lunokhod 2 mostrando o memorial ao dia da mulher por

si criado. Crédito: Laboratory of Comparative Planetology.

Página 3


ASTROFOTOGRAFIA

Março 2012

ASTROFOTOGRAFIA de… Miguel Claro

Página 4


Volume 2 Edição 3

ASTROFOTOGRAFIA

Página 5


EDUCAÇÃO Março 2012

Atlântida desapareceu

A lenda

de Atlantis nasceu com

Platão, há mais de 2000

anos atrás.

No meu entender, é

uma lenda sobre um

sítio com muitas virtudes,

mas que mesmo

assim foi destruído por

forças naturais.

A história é similar a

muitas histórias de ficção

científica, passadas

em planetas distantes.

É uma história sobre

ideais e precauções.

Nada mais. Daqui por

2000 anos, se alguém

pegar nos episódios de

Star Trek e imaginar

que são documentos

históricos sobre a realidade

desta altura, iríamos

nos rir bastante

dessa interpretação.

O mesmo se passa aqui

sobre a Atlântida. É

para rir.

O Google Earth usa

sonares, que por vezes

têm problemas, falham

na leitura de dados ou

sobrepõem dados, e

por isso não se vêm as

imagens claras, mas vêse

“ruído”.

Em 2009, uma dessas

zonas com “ruído”,

devido ao processamento

digital das imagens

e da sobreposição

de conjuntos de dados,

era no fundo do mar.

Página 6


Volume 2 Edição 3

EDUCAÇÃO

Segundo os conspiradores, esta “grelha” só podia

ser explicada como sendo a Atlântida (da mesma

forma que o aparecimento de prendas de Natal

só pode ser explicado pelo Pai Natal).

3 anos depois, com equipamentos melhores que

permitiram a actualização do Google Earth,

algum do “ruído” desapareceu.

E, com isso, desapareceu a suposta Atlantida.

Carlos Oliveira

PUB

AstroPT

alojado por: Grifin

http://www.grifin.pt/

Página 7


EDUCAÇÃO Março 2012

Procyon, por que te chamam

assim

Uma das estrelas

de brilho notável

que nesta época,

nas latitudes

equatoriais, tem

aparecido próxima

do zênite nas

primeiras horas

da noite, é o

astro principal

da constelação

do Cão Menor,

Procyon. Além

de figurar entre

as estrelas mais

brilhantes do

céu, Procyon é

também uma

das estrelas mais

próximas do Sistema

Solar,

estando a cerca de 11 anos-luz de distância.

Procyon é mais uma das estrelas cujo nome

vem dos gregos. Seu nome significa “antes do

Cão” ou “a que precede o Cão”, porque anuncia

o surgimento da constelação do Cão Maior,

onde está a estrela mais brilhante de todo o

céu, Sírius. O interessante é que os observadores

situados abaixo da linha do equador estranham

essa estrela ser chamada assim. Se a

observarmos em qualquer época do ano nas

latitudes austrais, veremos que Sírius e não

Procyon nasce primeiro. Acontece o contrário:

Sírius é que anuncia a chegada de Procyon. Esse

efeito só vale para as latitudes boreais, onde

regiões como a Grécia se situa. Procyon tem

uma variante em latim, pouco utilizada: Antecanis

Saulo Machado

Página 8


Volume 2 Edição 3

EDUCAÇÃO

NASA – Nazista

Na “caminhada” pelos blogs pseudocientíficos do

mundo percebemos, em alguns artigos, um pensamento

que lhes são recorrentes: o apelido que

a NASA, carinhosamente, lhe fora atribuído neste

“meio”: NASA “nazi”.

Evidentemente, para um bom entendedor, meia

palavra basta: refere-se que a NASA seria, er…

digamos, “Nazista”.

Já ouvi isso, outrora, de um grande colega do convívio

pessoal.

Entretanto, antes de entrarmos no “X” da questão,

vamos relembrar o que significa a palavra

NASA.

impactos benéficos no nosso dia-a-dia são inquestionáveis.

Mas por que essa alusão à NASA com os nazistas

do passado

Simples. Antes de tudo, falta de conhecimento no

assunto. O cidadão já não gosta muito da NASA e

desconfia desta. Acredita que esta agência enrola

todo mundo todos os dias e já agora ela não quer

dizer-nos que existem etzinhos por aí dando

tchauzinho quando apontam seus telescópios. Ou

que extraterrestres reptilianos estão conversando

em reuniões secretas com líderes globais. Ou que

Nibiru tá chegando por aí. A NASA também esconde

que existe, já agora, um asteróide em rota de

NASA é abreviação

colisão com a Terra. A

para National Aeronautics

“Um pequeno passo para o homem, um grande salto pobre coitada não pode

para a humanidade (Neil Armstrong).”

and Space Administration

esconder esse segredo da

ou, em outras palavras,

Administração Nacional da

Aeronáutica e do Espaço.

Fundada oficialmente em

29 de julho de 1958 – quando

muitos sequer haviam

nascido -, esta agência norte-americana

população que – muito provavelmente,

criaria pânico

em escala global – e tentar

desenvolver, a princípio,

uma tecnologia que possa

destruir ou ao menos desviar

este objeto perigoso.

tem como

Os pseudos preferem que

objetivos principais a exploração espacial, detecção

de NEO’s e uma melhor compreensão do Universo.

seja colocada a boca-no-trombone e salve-se

quem puder. Os Illuminatti’s, como não podiam

Claro que possa existir objetivos deixar de ser, também mandam por lá. A partir

“secundários”, tais como desenvolvimentos dessa “impressão”, é natural quando esse mesmo

secretos de tecnologia militar e outras coisas

[inserir aqui outros objetivos ocultos a gosto].

Acredito que segredos tudo e todos têm. Desenvolvimento

de tecnologia militar, por exemplo,

são mantidos por quase todos os países. Não é

crédito exclusivo dos EUA, tampouco da NASA.

Mas os benefícios que esta nos proporciona e os

cidadão começa a pesquisar em sítios na internet

e se depara com uma informação (verdadeira,

diga-se de passagem) que a NASA já contratou exnazistas

(antes mesmo do fim da II Guerra Mundial).

Pronto, vai ser chamada, a partir de agora,

de “NASA nazi [completando e inserindo alguma

ofensa aqui]”.

Página 9


EDUCAÇÃO Março 2012

Retornamos à II Grande Guerra. Em 1945, cerca

de 500 dos melhores pesquisadores e cientistas

(engenheiros , médicos, etc.), percebendo

que a Alemanha nazista perderia a guerra, começaram

a negociar suas rendições para os EUA.

Escaparam, por sorte, do julgamento de Nuremberg.

Entretanto, uma coisa

que vale a pena destacar:

apesar de serem nazistas,

muitos destes eram notáveis

na área de Ciências Exatas

que, por infelicidade do destino,

estavam pondo seus serviços

de maneira completamente

desumana. Um dos

maiores exemplos do poder

de se utilizar desses

“notáveis” beneficamente (claro, não somos tolos

em acreditar que os EUA estavam solidários com

eles e cá quiseram convertê-los, transformandoos

em monges tibetanos ) foi o ex-nazista e

engenheiro alemão Wernher von Braun, uma das

ferramentas mais importantes para o sucesso da

Apollo 11. O von Braun trabalhou na NASA até

meados de 1970 – quando decidiu pedir demissão.

Contudo, já não estou de acordo quando o assunto

são os médicos nazistas. Apesar dos experimentos

horrorosos da medicina nazista com

humanos ter contribuido substancialmente para o

avanço da medicina contemporânea, preferia ter

este campo da ciência menos avançado – em

algumas de suas subáreas -, pois esta contribuição

foi à custa do sofrimento terrível de milhões

de crianças, jovens, adultos e idosos – que nós

não temos ideia do pavor que eles passaram. Os

relatos destas experiências que os próprios médicos

alemães deixaram são um verdadeiro livro de

terror.

Todavia, os benefícios do aperfeiçoamento das

descobertas das explorações espaciais projetadas

e executadas pelos cientistas e especialistas que

fizeram e fazem parte desta são inúmeros. Faz-se

recomendável a leitura desteartigo do Carlos Oliveira

sobre o tema. Aqui você pode encontrar

aplicações mais “corriqueiras”

do nosso dia-a-dia.

Portanto, um convite à reflexão:

será que a NASA deve ser

chamada de Nazi pelo fato de

alguns de seus membros em

épocas passadas terem sido

ex-nazistas Ou será que ainda

existem cientistas-zumbis a

serviço da NASA Ou seus

membros atuais se influenciaram

pelos membros antigos e se renderam ao

antigo nazismo

(…)

Outra coisa interessante que se faz notar: a zombaria

e o deboche que alguns fazem quando

algum integrante da NASA vem a público prestar

esclarecimentos. É fácil ter sítios que atacam a

agência norte-americana, mas colocam link’s para

seus leitores acompanharem suas sondas, tais

como a SOHO e STEREO. Ou atalhos para a Estação

Espacial Internacional (ISS). É fácil ter sítios

fazendo alusões de que a NASA não seria confiável,

zombando dos esclarecimentos de sua equipe

acerca de determinados assuntos quando esta

vem a público – porém mesclam seu logotipo com

o nome do seu sítio eletrônico, por exemplo.

Antes de estes criticarem e/ou zombarem dessa

agência, dando total descrédito à quase tudo que

se refere, seria bom que os pseudos pudessem

observar se não estão utilizando algumas de suas

tecnologias no seu dia-a-dia…

Cavalcanti

Página 10


Volume 2 Edição 3

EDUCAÇÃO

Dia da poesia

No dia da poesia a astroPT deixa-vos aqui dois poemas um de António

Gedeão (pseudónimo de Rómulo de Carvalho, professor de Física e Química e investigador da História da Ciência em Portugal,

que nos deixou em 1997) e outro de Olavo Bilac (Jornalista e poeta Brasileiro, que nos deixou em 1918):

António Gedão

Este líquido é água.

Quando pura

é inodora, insípida e incolor.

Reduzida a vapor,

sob tensão e a alta temperatura,

move os êmbolos das máquinas que, por isso,

se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.

Embora com excepções mas de um modo geral,

dissolve tudo bem, bases e sais.

Congela a zero graus centesimais

e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,

sob um luar gomoso e branco de camélia,

apareceu a boiar o cadáver de Ofélia

com um nenúfar na mão.

Olavo Bilac

Ora direis ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso”! E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto

A via láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora! “Tresloucado amigo!

Que conversas com elas Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las:

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

José Gonçalves

Página 11


EDUCAÇÃO Março 2012

A Química das Coisas

Universidade de Aveiro lança programa de divulgação

de ciência na RTP2


alguma

vez

pensou

que

é graças

à

química

que

pode

beber

café

descafeinado,

trabalhar num computador portátil ou usar

post-its para apontar um recado

A nova série «A Química das Coisas» vai desmascarar

a química escondida no dia a dia e mostrar

como os desenvolvimentos recentes desta ciência

contribuem para o nosso bem-estar.

Com estreia agendada para o dia 16 de março, às

13h55, na RTP2, o novo programa televisivo tem

autoria do Departamento de Química da Universidade

de Aveiro (DQ), produção da Science Office

e Duvideo e apresentação de Cláudia Semedo.

Os episódios, de cerca de três minutos cada,

foram produzidos a pensar no grande público,

com uma linguagem acessível e explicações

visuais apelativas. Cláudia Semedo conduz o

espectador pelos meandros da química que nos

rodeia, ao longo dos 13 programas desta primeira

série, em exibição de segunda a sexta-feira, às

13h55, até 3 de abril.

Carlos Oliveira

[NR: veja os vídeos aqui]

Página 12


Volume 2 Edição 3

EDUCAÇÃO

Alphard, por que te chamam assim

Após o equinócio de Março, a

maior das 88 constelações pode

ser observada nas primeiras horas

da noite. Trata-se da Hidra

(Hydra), constelação originalmente

chamada de Serpente no tempo

dos babilônios. O nome atual

deve-se aos gregos, eternizando

um dos adversários de Hércules

durante seus famosos Trabalhos,

a Hidra de Lerna.

Apesar da constelação ser a mais

extensa de todas as oficiais, não

há tantas estrelas em destaque, a

não ser uma: Alphard.

Alphard está entre as 50 estrelas

mais brilhantes do céu. Seu nome,

de origem árabe, significa “a Solitária”,

porque bem próximo dela

não existem estrelas que rivalizem

em brilho. Vista de locais com

poluição luminosa, Alphard se

destaca em meio a um aparente

vazio de estrelas.

Existe um nome latino para

Alphard menos usual: “Cor

Hydræ“, que quer dizer “Coração

da Hydra”, devido à posição da

estrela no imaginário corpo da

criatura mitológica.

Saulo Machado

Página 13


DIVULGAÇÃO Março 2012

Ciência 2.0

Ciência 2.0 é um projecto de divulgação

científica desenvolvido na Universidade do Porto.

O site desenvolverá conteúdos das mais diversas

áreas científicas, incluindo da astronomia.

É um projecto que pretende dar a conhecer a

Ciência com rigor e ao mesmo tempo de forma

acessível e explicativa. Informalmente, vão sendo

explicadas as várias ciências e o que elas têm de

melhor e o que se vai fazendo nesta área.

Um dos primeiros textos é sobre supernovas, e

podem lê-lo aqui.

“Somos “filhos” das estrelas e ajudados pelas

supernovas. (…)

“As estrelas massivas produzem [núcleos de] carbono,

azoto, oxigénio e também o ferro”, explica

Carlos Oliveira, astrónomo e coordenador do blogue

AstroPT. (…)

Contudo, são facas de dois gumes. Se por um lado

nos dão vida, pois produzem o carbono de que

somos constituídos e de que o planeta Terra é

composto e também o ferro e o oxigénio, elementos

que nos são essenciais, por outro, caso

aconteça alguma “num raio de 100 anos-luz, pode

matar-nos em segundos”, salienta Carlos Oliveira.

Estes conceitos foram defendidos, por exemplo,

por Carl Sagan, cientista americano, que afirmou

sermos “star stuff”, ou seja, tudo o que nos constitui

é feito nas estrelas.”

Carlos Oliveira

Calendário Astronómico

A Sociedade Portuguesa de Astronomia

(SPA) criou um google calendar, público,

para funcionar como agenda de eventos

relacionados com a Astronomia, como

sucessor da Agenda do AIA2009.

Assim, sempre que alguém organizar um

evento no âmbito da Astronomia, cujo destinatário

seja o público em geral, pode colocar

o mesmo na agenda/calendário. Para

isso, basta enviarem um e-mail com essa

informação para o endereço da SPA

[spa@sp-astronomia.pt].

Para verem o calendário, cliquem aqui, e

podem subscrever os feeds, aqui.

Carlos Oliveira

Página 14


Volume 2 Edição 3

DIVULGAÇÃO

Ciência com Todos

Ciência com Todos é um interessante projecto, do

qual faço parte da comissão científica.

Esta foi a informação recebida de João Pedro

Calafate:

Ciência com Todos é um projeto de educação/

divulgação de Ciência, que apresenta como principal

finalidade melhorar a literacia científica dos

cidadãos portugueses e outros interessados.

Este projeto apresenta um sítio na Web – http://

cienciapatodos.webnode.pt – onde o utilizador

poderá “dar asas” à sua curiosidade e imaginação

(acerca da vida, do mundo e do universo que nos

rodeia) colocando questões, relacionadas com a

Ciência e a Tecnologia, para as quais não encontra

uma resposta ou não encontra uma resposta cientificamente

adequada e acessível e vê-las respondidas

por especialistas de diversas áreas da Ciência

e da Tecnologia.

O projeto conta atualmente com 167 colaboradores

de várias áreas da Ciência, que constituem a

sua comissão científica, sendo maioritariamente

docentes doutorados de instituições universitárias

portuguesas e/ou investigadores das mesmas

ou de centros de investigação científica. Alguns

destes colaboradores pertencem a instituições

universitárias estrangeiras.

Um dos objetivos chave deste projeto é a indagação

científica tanto por parte de alunos, de todos

os níveis de ensino, como por parte dos professores

de Ciências destes níveis.

Neste momento, o leitor poderá encontrar no

sítio do CcT uma quantidade razoável de questões/respostas,

de uma variedade de áreas científicas

e temas, que apelam à curiosidade de cada

um.

Carlos Oliveira

Página 15


LITERACIA CIENTÍFICA Março 2012

O Vento… Dentro e Fora da Cabeça

Como cientista amo a ciência e não gosto que

falem mal dela quando não a compreendem ou

que digam bem de algo que é contrário à ciência.

Quando se trata de um leigo desconhecido posso

debater de forma mais rígida. Contudo, quando

se trata de uma pessoa que conheço é-me difícil

dizer que aquilo é uma aldrabice. Digo apenas

que não é assim. É escusado ensinar ciência a

alguém que quer, à força, que as ideias esotéricas

sejam verdadeiras.

A conversa teve início nas dores de garganta. A

causa, disse esse amigo, é devido a uma entrada

de ar que existe na

parte de trás do pescoço.

Imediatamente

coloquei a mão a

pensar que tinha um

buraco que nunca

tinha notado! Felizmente

não encontrei

nenhum buraco.

Segundo esse meu

amigo o vento entra

por esse local e provoca

as doenças e

que, por isso, as pessoas

usam cachecol.

Eu respondi que se

usa cachecol, não para não entrar frio mas para

aquecer a garganta porque o vírus da gripe replica

-se a 4ºC. Notem que, em ciência somos ensinados

a indicar bibliografia e características concretas

(como o exemplo dos 4ºC, pode-se ver no

comentário deste post).

Ao pesquisar um pouco encontrei coisas horríveis!

Encontrei num site de medicina tradicional

chinesa que “O frio faz os objetos se contraírem”

(até aqui está certo), que “causa calafrios, e

os tremores provocam o enrijecimento dos músculos.”

E que “O vento-frio é tradicionalmente

tratado com ervas quentes e diaforéticas

(indutoras de suor) para dissipar o frio e repelir o

vento.” Aqui já está tudo mal. Mas isso sou eu e a

Física que estamos errados. Ora, todos sabemos

que o suor aparece quando estamos quentes e

temos febre, não para dissipar o frio mas para

resfriar o corpo para que este baixe a temperatura

. O suor não permite o corpo atingir a temperatura

de 42ºC, temperatura de degeneração das

proteínas. Mas todos

sabemos que a Bioquímica

é uma farsa e

que o tradicionalismo

chines de mais de

2000 anos, baseado

em dragões (que

todos sabemos existir)

e energias mágicas

(que obviamente existem),

é o correcto.

Mais um desastre de

senso comum é que o

vento quente

é “causado por uma

combinação de agentes patogênicos, essa síndrome

é vista normalmente no resfriado comum (em

inglês) ou gripe.” Acho que nem é preciso referir

que a gripe é característica de ambientes frios,

cerca de 4ºC e que o vento não é composto por

agentes patogénicos mas é, por definição, massas

de ar em movimento.

Mais uma série de barbaridades existem neste

Página 16


Volume 2 Edição 3

FÍSICA

site. Fico com medo que comecem a ensinar às

pessoas que existem civilizações a morar num planeta

que vai bater com o nosso este ano, que a 3ª

dimensão vai desaparecer e que vamos passar

para uma 5ª dimensão. Que vai haver mudanças

de energias e coisas do género… esperem… mas

isso já é ensinado! E as esponjinhas já absorvem

tudo isso. Pesquisei nas sebentas das cadeiras de

fisiologia e anatomia da faculdade e não encontrei

nenhuma entrada de ar no pescoço.

Na mesma linha veio-me parar às mãos um folheto

interessante de uma astróloga vidente especializada

em coisas de energia (não, não é especializada

em física das altas energias. Isso é treta). É

diplomada por um centro Umbandístico (que

quer dizer seita). Esta especialista séria lê mãos,

búzios e, agora, velas!

Se a vela não acende podia ser por falta de jeito,

por estar vento ou chuva. Mas não, quer dizer

que um anjo tem dificuldade para ancorar. É tão

triste que não consigo reproduzir mais. Tenho

dificuldade em escolher qual a pior análise de

chamas de velas.

Para pessoas sérias as ideias vão em direcção ao

bem-estar e ao conhecimento verdadeiro. Para os

charlatães as ideias vão na direcção oposta e,

obviamente, oposta ao conhecimento e ao senso

comum. Muita gente não repara porque é esponjinha,

absorvem tudo.

Dário Codinha

Nova partícula subatómica

Depois de

ter sido

descoberta

a partícula

Chi b

(3P), eis

que surge

o E(38).

A descoberta

foi

comunicada

ontem Crédito: http://cft.fis.uc.pt/eef/stronghiggs.htm

pela Universidade

de Coimbra e que podem ler

no Público.

O investigador holandês Eef van Beveren, físico

teórico da Universidade de Coimbra, analisou os

dados obtidos com as experiências dos aceleradores

de partículas em Bona (Alemanha) e no Laboratório

Europeu de Física de Partículas (CERN, na

Suíça), entre outras instituições. Nessa análise, o

físico “‘varreu” todos os eventos registados nas

experiências, mesmo os considerados irrelevantes,

e num ínfimo espaço registou uma quantidade

de 46 mil eventos com 13 sigma de significância

(mais que suficiente, superior a 5 sigma, para

declarar-se a existência de uma partícula), que é

um indicador de relevância estatística.

Esta partícula com propriedades pouco conhecidas

(sabe-se que é 25 vezes mais leve do que um

protão e três vezes mais leve que um pião), que

existe numa zona de energia tão baixa e apresenta

uma extrema leveza, poderá ter grandes implicações

na física de partículas, na física das altas

energias e na cosmologia. Por exemplo, poderá

ser utilizada como uma fonte de energia nuclear

mais limpa, dado que se desintegra totalmente

sem deixar resíduos, onde “um miligrama desta

matéria dará para um megawatt durante um

ano”, segundo o cientista.

[podem ver o vídeo aqui]

José Gonçalves

Página 17


ASTROBIOLOGIA Março 2012

Mito Moderno

Um aluno

do mini-curso

de astrobiologia

dos Açores,

decidiu desenhar

uma imagem

que

abrangesse o

curso.

Segundo as

suas palavras:

“A figura é

uma expressão

de um mito

moderno: o do

extraterrestre.

Esse é uma

inteligência

superior,

esquiva, que

se mantém

para além do

tempo e espaço,

tomando

assim o lugar

dos deuses ou

espiritualidade

na consciência

do Homem. A

figura do

extraterrestre

revela-se, portanto,

como

um símbolo

antropomórfico

moderno

do desconhecido.”

E com o consentimento

dele, Paulo Pacheco, cá fica a imagem.

Carlos Oliveira

Página 18


Volume 2 Edição 3

ASTROBIOLOGIA

Anfípodes extraterrestres

No curso de astrobiologia que leccionei nos Açores,

um dos alunos disse-me uma coisa deveras

interessante: que o extraterrestre do filme

Alien afinal não é assim tão extraterrestre.

Há quem diga que é baseado numa pintura de H.

R. Giger chamada Necronom IV.

Mas este ser estranho poderá ter sido inspirado

por um animal bem

terrestre:

um anfípode,

pequeno crustáceo

sem carapaça, mais

precisamente

um Phronima. Vejam as semelhanças:

[veja o vídeo aqui]

Carlos Oliveira

Página 19


COSMOLOGIA Março 2012

Colisão entre Anãs Brancas na Origem

das Supernovas de Tipo Ia

Em Agosto do ano passado,

neste artigo, descrevi

como ocorre uma supernova

de tipo Ia. Na altura a motivação

foi o aparecimento de

uma supernova deste tipo na

galáxia M101. Com um pico

de brilho de magnitude +9.9,

no dia 13 de Setembro, foi

uma das supernovas extragalácticas

mais brilhantes das

últimas décadas. No artigo,

expliquei que, ao contrário

do que acontece com supernovas

de tipo II (e Ib e Ic),

para as quais várias estrelas

progenitoras (as estrelas que

explodiram dando origem à

supernova) foram já identificadas

em imagens de arquivo,

para as supernovas de

tipo Ia não foi identificada

nenhuma estrela ou sistema

de estrelas progenitor. Estudos

teóricos deixam no

entanto poucas dúvidas de

que as supernas de tipo Ia Cenário 1. Uma anã branca em órbita de uma companheira normal. O gás da companheira

resultam da explosão termonuclear

de uma anã branca,

é lentamente capturado pela anã branca até que a fusão explosiva do carbono é desencadeada,

dando origem à supernova. Crédito: NASA/CXC/M. Weiss

resultado do despoletar da

fusão descontrolada de carbono no seu interior.

companheira. Existem dois cenários possíveis:

Este processo não pode ocorrer em anãs brancas Cenário 1. A companheira é uma estrela normal,

isoladas, por isso é também consensual que são

semelhante ao Sol ou uma gigante vermelha,

sistemas binários contendo pelo menos uma anã

branca que dão origem a este tipo de supernova. mais evoluída. Neste cenário, o material da estrela

companheira escapa do seu lobo de Roche, e O que não é consensual é a natureza da estrela

é

Página 20


Volume 2 Edição 3

COSMOLOGIA

Cenário 2. Duas anãs brancas num sistema binário perdem gradualmente energia orbital e acabam por colidir. A fusão explosiva

do carbono é despoletada rapidamente no interior da estrela que se forma brevemente após a colisão. Crédito: NASA/GSFC/D.

Berry

capturado pelo campo gravitacional da anã branca,

acabando por colidir com a superfície da mesma.

Este material adiciona peso às camadas exteriores

da estrela e aumenta a pressão no seu interior.

Ultrapassado um limite crítico de pressão e

temperatura interna, inicia-se a fusão explosiva

do carbono e forma-se a consequente supernova

de tipo Ia, destruindo completamente a anã branca.

Um pormenor importante: a anã branca tem

de ser suficientemente maciça à partida para

incrementar numa escala de tempo razoável a sua

massa até próximo do limite de Chandrasekhar

(1.4 massas solares), pois só para este regime de

massa é que a pressão e temperatura internas é

suficiente para desencadear a fusão explosiva do

carbono. Um problema notado consiste no facto

de poderem não existir anãs brancas maciças suficientes

para explicarem a frequência das supernovas

de tipo Ia.

Cenário 2. A companheira é outra anã branca.

Neste cenário, as estrelas orbitam cada vez mais

próximo e acabam por colidir (vejam mais abaixo).

De acordo com simulações a colisão dá origem,

por breves instantes, a uma estrela única,

mais maciça, rodeada de um disco de material

que rapidamente é capturado. Estes estudos

apontam para que o aquecimento e aumento de

pressão provocados pela queda desse material na

estrela provoquem a ignição do carbono e a sua

fusão explosiva, dando origem à supernova. De

notar que neste cenário as anãs brancas em causa

podem ser menos maciças do que no caso anterior,

o que aumenta significativamente o número

de sistemas passíveis de dar origem a uma supernova

de tipo Ia.

Durante muitos anos, o cenário preferido (por

razões cientificas obviamente) dos astrofísicos foi

o primeiro. No entanto, recentemente várias

linhas de investigação parecem apontar na direcção

oposta de forma muito convincente. De facto,

o cenário 2 poderá estar na origem da grande

maioria das supernovas de tipo Ia ao passo que o

cenário I poderá explicar algumas supernovas

deste tipo com características atípicas, por exemplo,

luminosidades anormalmente elevadas. Os

trabalhos recentes que descrevo em seguida são

um bom exemplo desta provável mudança de

paradigma.

Os astrofísicos Carles Badenes (Universidade de

Pittsburgh) e Dan Maoz (Universidade de Tel-

Página 21


COSMOLOGIA Março 2012

Aviv), tentaram responder

a uma questão

aparentemente

simples – “Será que

existem sistemas

binários em que

ambas as estrelas são

anãs brancas em

número suficiente

para explicar a frequência

observada de

supernovas de tipo

Ia”. A resposta que

obtiveram foi positiva.

Os autores estimaram

que, na nossa

galáxia, o número de

tais sistemas binários

é suficiente para dar

origem, em média, a

uma colisão por século.

Este número é

semelhante à frequência

de supernovas

de tipo Ia observada

para galáxias

semelhantes à nossa.

Mas como é que os

autores estimaram

este número O processo,

apesar de conceptualmente

simples,

é extremamente

trabalhoso. A ideia

consiste em contar

quantos destes sistemas

binários existem numa vizinhança do Sol e

extrapolar o seu número para a totalidade da

galáxia. Depois é necessário determinar para

estes sistemas, em média, quanto tempo decorre

desde a sua formação até à colisão das estrelas.

O número de sistemas e o tempo necessário para

a ocorrência de uma colisão permitem então

Na imagem vêem-se 99 das 4000 anãs brancas estudadas por Badenes e Maoz – os objectos azuis

no centro das imagens. Crédito: Carles Badenes e equipa do SDSS-III

estimar a frequência das colisões na nossa galáxia.

Para determinarem o número de sistemas na

vizinhança do Sol, os autores utilizaram dados

provenientes do Sloan Digital Sky Survey (SDSS),

um projecto que procedeu a um censo do céu

inteiro recolhendo informação básica e espectros

Página 22


Volume 2 Edição 3

COSMOLOGIA

de milhões de

objectos astronómicos.

No

meio deste mar

de informação

os autores identificaram

cerca

de 4000 anãs

brancas próximas.

Para cada

uma delas, usaram

espectros

para detectar

variações na

sua velocidade

radial (ao longo

da nossa linha

de visão) que

indiciassem a

presença de

uma estrela

companheira e

permitissem O observatório SWIFT da NASA. Crédito: NASA/Goddard Space Flight Center/Swift

determinar as

suas características.

centro de gravidade comum cada vez com maior

Nos casos em que a companheira era também

uma anã branca, os autores utilizaram a Teoria da

Relatividade Geral para determinar quanto tempo

passaria até as estrelas do sistema colidirem. De

facto, devido à elevada velocidade orbital e fortes

campos gravitacionais das anãs brancas, um tal

sistema binário dissipa energia sob a forma de

ondas gravitacionais. Isto não é ficção, foi

demonstrado experimentalmente com observações

de um sistema binário com dois pulsares

(estrelas de neutrões). Este trabalho resultou, em

1993, num prémio Nobel atribuído aos investigadores

da Universidade de Princeton, Russell Hulse

e Joseph Taylor. O resultado dessa dissipação é a

perda gradual de energia orbital das estrelas. As

estrelas ficam cada vez mais próximas e orbitam o

velocidade. Isto aumenta a emissão de ondas gravitacionais,

resultando numa aproximação ainda

maior, … , um ciclo vicioso que termina com a

colisão das duas estrelas numa escala de tempo

relativamente curta (dezenas de milhões de anos)

após a formação do sistema. Com os dados do

SDSS e observações subsequentes, os autores

confirmaram a presença de 15 sistemas binários

formados por duas anãs brancas na amostra original

de 4000, traduzindo-se este número na frequência

referida de uma colisão por século.

Podem ver a notícia e o artigo aqui e aqui, respectivamente.

Brock Russell, da Universidade de Maryland, College

Park, é o autor principal de um outro estudo

que explora outra particularidade destes sistemas

Página 23


COSMOLOGIA Março 2012

binários para determinar a natureza da estrela

companheira. No cenário I, se a estrela companheira

for uma estrela normal, é de esperar que

esta emita para o espaço material através de um

vento estelar. Estes ventos estelares são particularmente

densos (transportam muito material)

em estrelas mais evoluídas como gigantes vermelhas,

ou em supergigantes. Ora, quando a anã

branca explode, o material em expansão deveria

colidir a alta velocidade com este material que

circunda a estrela companheira, na realidade o

sistema completo, e fazê-lo emitir brevemente

raios X. Russell e os colegas utilizaram observações

de 53 supernovas de tipo Ia realizadas com o

telescópio de raios X (designado por XRT) a bordo

do observatório SWIFT (originalmente desenhado

para observar explosões de raios gama) para tentar

detectar a dita emissão de raios X. O resultado

foi negativo, implicando que as estrelas companheiras

das anãs brancas que explodiram nestas

supernovas não poderiam ser supergigantes ou

mesmo gigantes vermelhas de tamanho mais

modesto.

Um estudo complementar, liderado por Peter

Brown da Universidade do Utah, Salt Lake City,

utilizou também dados obtidos com o SWIFT, desta

vez com outro instrumento sensível no ultravioleta

(designado por UVOT), que observou 12

supernovas de tipo Ia menos de 10 dias depois da

explosão, numa fase muito precoce da supernova

portanto. Nesta fase, se a companheira for uma

estrela normal de maior dimensão, a onda de

choque da supernova deve comprimir fortemente

as camadas exteriores da estrela, aquecendo-as e

fazendo-as emitir radiação ultravioleta. Os autores

não detectaram este tipo de emissão em

nenhuma das 12 supernovas observadas, reforçando

a ideia de que as estrelas companheiras

são pequenas, semelhantes ao Sol ou de menor

dimensão. Os artigos de Russel e Brown serão

publicados no início de Abril, respectivamente nas

revistas, The Astrophysical Journal Letters e The

Astrophysical Journal. Entretanto podem ver a

notícia aqui.

Paralelamente a estes estudos, a descoberta da

supernova SN 2011fe na M101, referida no início

deste artigo, numa fase muito inicial da explosão,

permitiu realizar observações com uma sensibilidade

sem precedentes, dada a proximidade relativa

da galáxia. Observações realizadas com o

UVOT do SWIFT não detectaram qualquer excedente

de radiação no ultravioleta, tal como

Brown tinha observado nas suas 12 supernovas, e

reforçando as conclusões do seu estudo. De facto,

neste caso, as observações têm qualidade suficiente

para concluir que a estrela companheira

será forçosamente mais pequena do que o Sol.

Um outro trabalho ainda não publicado, liderado

por Alicia Soderberg do Harvard-Smithsonian Center

for Astrophysics, e utilizando dados também

obtidos com o SWIFT, sugere mesmo que a explosão

só poderia ter sido causada pela colisão de

duas anãs brancas.

A identificação dos sistemas progenitores das

supernovas de tipo Ia não é simplesmente um

problema interessante em astrofísica. As suas

implicações são importantíssimas, por exemplo,

para a cosmologia. De notar que foi com base na

assumpção de que a luminosidade máxima das

supernovas de tipo Ia é constante (a menos de

pequenas correcções entretanto compreendidas)

que foi possível determinar que o Universo está a

acelerar a sua expansão e deduzir a existência da

chamada “energia negra”.

Luís Lopes

Página 24


Volume 2 Edição 3

COSMOLOGIA

Hubble Observa a Espiral Barrada NGC2683

Crédito: ESA/Hubble & NASA

O telescópio Hubble obteve esta imagem espectacular

da galáxia NGC2683, situada na constelação

do Lince, com a Advanced Camera for Surveys

(ACS), um dos seus instrumentos mais versáteis e

sensíveis. Apesar de não ser aparente na imagem,

NGC2683 é uma galáxia espiral barrada, em que

os braços espirais terminam numa estrutura

linear (a barra) centrada no núcleo e contendo

uma grande densidade de estrelas. A barra não é

visível na imagem pois a galáxia está a ser vista

“de lado” e os braços espirais mais exteriores e as

poeiras neles existentes encobrem as suas zonas

mais interiores. Os astrónomos deduziram a

estrutura barrada para NGC2683 com base no

estudo do movimento das estrelas em torno do

núcleo da galáxia. Esse estudo é realizado medindo

o efeito de Doppler provocado por esse movimento

na luz emitida pelas estrelas da galáxia em

diferentes pontos do disco. A imagem que se

segue, da galáxia designada de UGC12158, mostra

o aspecto típico de uma galáxia espiral barrada

vista “de cima”.

A nossa própria galáxia, a Via Láctea, é uma espiral

barrada, uma descoberta relativamente recente

dos astrónomos que estudam a sua estrutura e

evolução. A imagem que se segue mostra o

aspecto que a Via Láctea poderá ter vista de uma

perspectiva semelhante da UGC12158, com base

nos estudos mais recentes da estrutura galáctica,

em particular no que diz respeito à localização da

barra e dos vários braços espirais.

Podem ver mais detalhes sobre esta imagem

aqui e mais pormenores sobre a imagem de

NGC2683 aqui.

Luís Lopes

Crédito: NASA/

JPL-Caltech

Crédito: ESA/Hubble & NASA

Página 25


PUB

SISTEMA SOLAR Março 2012

Oposição de Marte

Hoje (3 de Março) é dia de

oposição de Marte.

Uma oposição ocorre quanto

Marte, a Terra e o Sol estão

perfeitamente alinhados e os

dois planetas estão “do mesmo

lado” da órbita, algo que ocorre

de 26 em 26 meses.

No entanto, como as órbitas

não estão exatamente no mesmo

plano e a órbita de Marte é

mais excêntrica que a da Terra,

a distância entre os dois planetas

em oposição não é sempre

a mesma.

A 27 agosto de 2003 ocorreu a

última oposição em que os planetas

estiveram mais próximos

(a apenas 56 milhões de km).

Esta foi uma oposição periélica

(de periélio, o ponto de maior

aproximação ao Sol).

Na oposição de hoje, os dois

planetas estão na oposição

mais distante (cerca de 101

milhões de km). Esta é uma

oposição afélica (de afélio, o

ponto de maior afastamento

do Sol).

A próxima oposição periélica

será em 27 julho 2018, com os

dois planetas a cerca de 57,6

milhões km de distância.

Na imagem, os objetos NÃO

estão representados à escala

de tamanho, embora a escala

da distância (isto é, o desenho

das órbitas), seja aproximadamente

o correto.

CAUP

Página 26


Volume 2 Edição 3

SISTEMA SOLAR

Dione tem atmosfera de oxigénio

A lua Dione fotografada pela sonda Cassini a 11 de Outubro de 2005.

Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

A sonda Cassini detectou pela

primeira vez iões de oxigénio

molecular (O 2 + ) junto à superfície

de Dione, confirmando a

presença de uma ténue atmosfera

em redor desta lua de

Saturno. A descoberta foi divulgada

num artigo recentemente

publicado na revista Geophysical

Research Letters (ver aqui).

Há já algum tempo que os cientistas

suspeitavam da presença

de O 2 + em Dione. Nos anos 90,

o telescópio espacialHubble

tinha detectado

nesta lua saturniana a assinatura

espectral de ozono (O 3 ), o

que sugeria a existência de

quantidades apreciáveis de oxigénio

molecular junto à sua

superfície. A confirmação da

existência de uma ténue

atmosfera (ou exosfera) de

O 2 + em Dione surgiu a 7 de

Abril de 2010, durante uma

passagem próxima da sondaCassini,

a apenas 503 quilómetros

de altitude. Com o seu

instrumento INMS (Ion and

Neutral Mass Spectrometer), a

sonda da NASA mediu densidades

de iões situadas entre 0,01

e 0,09 O 2 + .m -3 ,o equivalente ao

encontrado a 480 quilómetros

acima da superfície terrestre.

Terá a exosfera de Dione origem

biogénica É muito improvável

que tal ocorra. Como

explicam os autores do artigo,

o oxigénio molecular de Dione

deverá ser libertado da sua

superfície pelo intenso bombardeamento

do gelo de água

superfícial com protões solares

ou outras partículas energéticas.

Os cientistas da missão

vão, no entanto, continuar a

procurar outros processos responsáveis

pelo O 2 + da exosfera

dioniana, incluindo mecanismos

geológicos.

Sérgio Paulino

Templo de Diana

by Miguel Claro

Mais imagens em: http://

www.astrosurf.com/astroarte/

skyscapes.htm#148

Visita http://

miguelclaro.com

Miguel Claro

Página 27


SISTEMA SOLAR Março 2012

Tesouros da missão Voyager:

ciclones jovianos

Tempestades na Cintura Temperada do hemisfério norte de Júpiter. Mosaico de imagens obtidas pela sonda Voyager 2 a 9 de

Julho de 1979. O retrato final foi colorizado, usando como modelo uma outra imagem de contexto (em baixo).

Crédito: NASA/JPL/Daniel Macháček.

É impressionante a quantidade de imagens obtidas

pelas duas sondas Voyager que nunca foram

tornadas públicas. Tudo isso aconteceu não porque

a NASA as quisesse esconder, mas porque

simplesmente é um vasto material em bruto, até

agora apenas usado por cientistas. E digo até agora

porque felizmente começam a proliferar amadores

com a paciência e a habilidade necessárias

para mergulharem nesse imenso tesouro e trazerem

a público belíssimos retratos dos gigantes

gasosos e das suas luas. Relembro que todo esse

vasto material está disponível a quem o quiser

Página 28


Volume 2 Edição 3

SISTEMA SOLAR

Imagem de contexto em cores aproximadamente naturais, mostrado a região retratada na imagem de cima e comparando-a com

as dimensões da Terra.

Crédito: NASA/JPL/Daniel Macháček.

observar (e utilizar) aqui.

Daniel Macháček é um dos entusiastas desta actividade.

Recentemente, desenterrou dos arquivos

de dados da NASAimagens do planeta Júpiter

obtidas pela sonda Voyager 2 em 1979. Com

a mestria com que já nos habituou, compôs um

magnífico retrato da atmosfera turbulenta do

gigante gasoso. Os pormenores visíveis são

impressionantes. Numa extensão de cerca de 12

mil quilómetros, desfilam grandes ciclones, cada

uma com o seu respectivo olho bem delineado.

Vejam: a imagem.

Espectacular, não E que tal ao som deste tema

Sérgio Paulino

Página 29


SISTEMA SOLAR

Março 2012

Cometa Garradd aproxima-se

hoje

Crédito: Olivier Sedan

O Cometa Garradd estará hoje o mais próximo da

Terra, a somente 10 minutos-luz, a cerca de 180

milhões de kms de distância da Terra.

Com uma magnitude no limite da visibilidade

a olho nú, em lugares escuros, o cometa está a

passar na direcção da constelação Ursa Menor.

Carlos Oliveira

Página 30


Volume 2 Edição 3

SISTEMA SOLAR

Redemoinho em Marte Visto de

Órbita !

Crédito: NASA/JPL/University of Arizona

O Mars Reconnaissance Orbiter inclui uma câmara

de alta resolução designada por HiRISE (High

Resolution Imaging Science Experiment) que é

responsável por algumas das mais belas imagens

de Marte até à data. A operação da câmara está a

cargo da Universidade do Arizona que mantém

uma página na Internet com um arquivo a

não perder. Nesta pequena nota gostava apenas

de chamar a vossa atenção para uma imagem

recente particularmente espectacular. No dia 16

de Fevereiro passado, a HiRISE fotografou um

“dust devil”, em português – redemoinho de

poeira, numa região de Marte conhecida por

Amazonis Planitia. A imagem é impressionante,

especialmente quando pensamos que foi obtida a

partir de órbita.

A partir do tamanho da sombra projectada no

solo foi possível calcular que a pluma de poeira

libertada pelo redemoinho teria mais de 800

metros de altura e uma espessura de cerca de 30

metros. A forma ondulada da pluma resulta da

trajectória do redemoinho na superfície e da interacção

com o vento na atmosfera. Podem ver a

imagem noutros formatos e mais informação

aqui.

Luís Lopes

Página 31


SISTEMA SOLAR

Março 2012

Cratera listrada em Arabia Terra

Listras radiais numa pequena cratera situada nos planaltos de Arabia Terra, em Marte. Imagem obtida a 05 de Fevereiro de 2012

pela câmara HiRISE da sonda Mars Reconnaissance Orbiter.

Crédito: NASA/JPL/University of Arizona.

Algumas regiões de Marte ostentam verdadeiras

obras de arte. Vejam, por exemplo, o caso desta

cratera fotografada recentemente pela Mars

Reconnaissance Orbiter.

As listras que decoram o interior desta cratera

são estruturas vulgarmente encontradas em

encostas por toda a superfície poeirenta de Marte.

Pensa-se que são constituídas por material

finamente granulado que se precipita ao longo de

declives acentuados, formando bandas escuras

que se desvanecem com o tempo.

A cratera da imagem destaca-se pela beleza do

padrão radial de listras que exibe, certamente fruto

de episódios repetidos de queda de material

granulado do cimo das suas encostas.

Sérgio Paulino

Página 32


Volume 2 Edição 3

SISTEMA SOLAR

Estranho material negro em Vibídia

A cratera Vibídia, em Vesta. Imagem obtida pela sonda Dawn a 21 de Outubro de 2011 (resolução: 70

metros/pixel).

Crédito: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA.

Vibídia é uma

pequena cratera

vestiana

que se destaca

pela distribuição

diferencial

de

materiais de

aspecto e cor

distintos em

seu redor. Os

materiais mais

brilhantes formam

um

padrão circular

que se

estende a

mais de 15

quilómetros

da orla da cratera.

A curta

distância e no

seu interior

distingue-se

um outro

material mais

escuro, curiosamente

também visível na vertente de uma cratera

vizinha (em baixo).

A origem e natureza deste material é ainda desconhecida,

mas um levantamento preliminar da sua

presença na superfície de Vesta sugere uma distribuição

heterogénea (ver aqui). Em Vibídia parece

localizar-se preferencialmente numa camada

bem delimitada, que denuncia a presença de um

estrato subsuperficial nesta região, escondido por

um fino manto de regolito.

Vejam mais imagens de Vesta aqui.

Sérgio Paulino

Página 33


SISTEMA SOLAR

Março 2012

Sol aponta um gigantesco buraco

coronal na direcção da Terra

Buraco coronal observado ontem pelo Solar Dynamics Observatory na banda do ultravioleta

extremo (193 Å). Estão representadas as linhas do campo magnético da coroa solar

(representação obtida a partir de cálculos realizados com base no modelo PFSS).

Crédito: SDO(NASA)/AIA consortium/Helioviewer.

O Solar Dynamics Observatory

tem estado a assistir nos

últimos dias à lenta deslocação

de um enorme buraco coronal

acima da superfície do Sol. A

gigantesca abertura deve a sua

presença a uma lacuna na

estrutura do campo magnético

da coroa, que permite a fuga

de um rápido e denso fluxo de

partículas carregadas para o

espaço interplanetário. Neste

momento, o buraco coronal

está voltado na direcção da

Terra, pelo que se espera um

aumento da actividade geomagnética

nos próximos dias

devido à interacção do campo

magnético terrestre com o

intenso vento solar gerado na

região.

A densidade de plasma no

interior dos buracos coronais

é tipicamente 100

vezes inferior à observada

noutras regiões da coroa.

Normalmente, os gases da

coroa são superaquecidos

a temperaturas superiores

a 1.000.000 ºC, facto que

os torna particularmente

brilhantes em imagens

captadas na banda do

ultravioleta extremo. Devido

à sua baixa densidade,

os buracos coronais são

relativamente mais frios e,

consequentemente, mais

escuros nessa zona do

espectro electromagnético.

Durante os períodos de

actividade solar mínima, os

buracos coronais tendem a

ficar confinados às regiões

polares do Sol. A sua ocorrência

em latitudes inferiores vaise

tornando mais comum à

medida que o ciclo solar se

aproxima do seu auge, pelo

que a sua presença nestas

regiões do disco solar nesta

fase do actual ciclo é um fenómeno

perfeitamente normal.

Sérgio Paulino

Página 34


Volume 2 Edição 3

SISTEMA SOLAR

Astronauta da missão

Apollo 12 colhendo uma

amostra de rocha lunar.

Crédito: NASA.

Estará o impacto de um asteróide na

origem das anomalias magnéticas da

Lua

Os cientistas têm-se intrigado

com as anomalias magnéticas

encontradas em algumas

regiões da Lua desde que os

astronautas da missão Apollo

12 descobriram, pela primeira

vez, rochas fortemente magnetizadas

nas planícies de Mare

Cognitum, no sul de Oceanus

Procellarum. Tipicamente, as

rochas recolhidas nas missões

Apollo são pobres em ferro, o

que lhes confere um fraco

potencial de magnetização. Por

outro lado, a distribuição de

regiões fortemente magnetizadas

na superfície lunar nem

sempre se correlaciona com

estruturas geológicas que possam

fornecer pistas sobre a sua

origem, como por exemplo,

bacias de impacto, vulcões ou

fluxos de lava. Um trio de

investigadores acreditam agora

ter encontrado na antiga bacia

de impacto de Pólo Sul-Aitken

a chave para a solução deste

enigma.

Com um diâmetro médio de

2.200 km e com cerca de 13 km

de profundidade, a gigantesca

depressão é a maior estrutura

de impacto do Sistema Solar. A

sua forma elíptica é uma clara

evidência de que terá sido

esculpida pelo impacto de um

grande objecto numa trajectória

oblíqua. A norte de Pólo Sul

-Aitken concentra-se o mais

proeminente grupo de anomalias

magnéticas de toda a

superfície lunar.

Mark Wieczorek do Institut de

Physique du Globe de Paris e

os seus dois colegas do Massachusetts

Institute of Technology

publicaram um artigo na

revista Science onde especulam

que esta coincidência é

uma forte evidência de que a

gigantesca bacia foi esculpida

por um grande asteróide com

10 a 30% de ferro na sua composição

e cerca de 100 vezes

mais magnetizado que os

materiais da crusta lunar. Para

testar a sua hipótese, os investigadores

realizaram várias

simulações de impacto em

computador, onde fizeram

variar as dimensões do projéctil,

a sua velocidade e o ângulo

da sua trajectória. Descobriram

que o impacto de um asteróide

rico em ferro, com 200 km de

diâmetro, num ângulo de 45º e

a uma velocidade de 15 km.s -

1 provocaria a distribuição dos

seus materiais num padrão

semelhante ao observado para

as anomalias magnéticas lunares.

Curiosamente, as simulações

reproduzem inclusive a

presença de fortes anomalias

isoladas no lado mais próximo

da Terra, como é o caso

de Reiner Gama e Descartes.

Os fragmentos metálicos do

asteróide teriam condições

para ser magnetizados durante

o seu arrefecimento, caso existisse

um campo magnético global

na Lua quando a bacia de

Pólo Sul-Aitken se formou, há

cerca de 4,3 mil milhões de

anos – uma distinta possibilidade,

de acordo com os autores.

Depois do dínamo lunar cessar

a sua actividade, essas regiões

poderiam permanecer magnetizadas,

criando o estranho

retalho observado nos dias de

hoje.

Podem consultar o artigo original

deste trabalho aqui.

Sérgio Paulino

A bacia de impacto de Pólo Sul-Aitken.

Estão evidenciados a vermelho na metade

esquerda da imagem os grupos de

anomalias magnéticas situadas no limite

norte da depressão.

Crédito: NASA/LRO/Science/AAAS.

Página 35


SISTEMA SOLAR

Março 2012

Dois mundos surpreendentes

Encélado e Titã numa composição em cores naturais construída com imagens obtidas pela sonda Cassini a 12 de Março de 2012.

Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

Na semana passada, a sonda

Cassini realizou uma sessão

de monitorização de nuvens no

hemisfério subsaturniano de

Titã. Durante a sessão, partes

do disco difuso da maior lua de

Saturno foram momentaneamente

ocultadas pela lua Encélado

e por uma porção do sistema

de anéis.

O encontro entre os dois surpreendentes

mundos foi registado

pela Cassini através de

filtros para a banda do visível,

o que permitiu a construção

deste retrato em cores naturais.

Na altura Titã encontravase

muito distante, a cerca de

2,45 milhões de quilómetros

de distância. Encélado estava

muito mais próxima, distando

apenas cerca de 1,05 milhões

de quilómetros da sonda

da NASA.

Sérgio Paulino

Página 36


Volume 2 Edição 3

SISTEMA SOLAR

O que escondem as áreas permanentemente

sombrias das regiões polares de Mercúrio

Foi com grande entusiasmo

que, no início dos anos 90,

a NASA anunciou uma inesperada

descoberta em Mercúrio.

Munidos do sistema de

radar Goldstone-VLA, cientistas

planetários americanos

identificaram nas

regiões polares do planeta

superfícies com elevada

reflectividade radar, que

sugeriam a presença de

depósitos de gelo de água

no interior das crateras

mais profundas. Esta

extraordinária descoberta

viria a ser confirmada nos

anos seguintes em sucessivos

mapeamentos da

região realizados pelo

Radiotelescópio de Arecibo.

Gelo na superfície de Mercúrio

Como poderia sobreviver

gelo de água num planeta

tão próximo do Sol A

resposta está na inclinação

do eixo de rotação do tórrido

planeta. De acordo com

as mais recentes medições

realizadas pela sonda

MESSENGER, o eixo de

rotação de Mercúrio tem

uma inclinação inferior a 1º,

o que permite a existência de

pequenas áreas permanentemente

sombrias no interior das

crateras mais profundas das

Imagens de radar da região do pólo norte de

Mercúrio, obtidas a partir do observatório de

Arecibo em Julho de 1999 (a) e em Agosto

de 2004 (b) (resolução: 1,5 km/pixel). As

zonas mais claras correspondem a superfícies

com elevada reflectividade radar. A seta

indica a direcção de incidência média do

radar.

Crédito: John Harmon, Martin Slade e Melissa

Rice (imagem publicada na revista Icarus,

no artigo de 2011 Radar imagery of Mercury’s

putative polar ice: 1999–2005 Arecibo

results).

regiões polares. Como nunca

são aquecidas pelo Sol, estas

superfícies mantêm-se a temperaturas

suficientemente baixas

para aí aprisionar gelo de

água por longos períodos de

tempo.

Um dos principais objectivos

da missão primária

da MESSENGER (concluída no

passado dia 18 de Março) era

recolher dados que permitissem

determinar a natureza dos

misteriosos depósitos polares.

Anteontem, membros da equipa

científica da missão apresentaram

na 43ª Lunar and Planetary

Science Conference (a

decorrer durante esta semana)

os primeiros resultados dessas

observações.

Nancy Chabot, membro da

equipa responsável pelo Mercury

Dual Imaging System

(MDIS), mostrou a localização

das superfícies com elevada

reflectividade radar em imagens

da região do pólo norte

de Mercúrio obtidas

pelaMESSENGER. Nas imagens

foi possível verificar que todas

as zonas brilhantes se encontram

em áreas permanentemente

abrigadas da luz solar.

Chabot revelou ainda que quase

todas as crateras com mais

de 10 quilómetros de diâmetro

situadas acima dos 80º de latitude

(crateras profundas e

complexas) contêm os misteriosos

depósitos. Estas observações

são consistentes com a

hipótese dos depósitos serem

constituídos por gelo de água.

Greg Neumann apresentou

resultados obtidos pelo

Página 37


SISTEMA SOLAR

Março 2012

instrumento Mercury Laser

Altimeter (MLA) que complicam,

no entanto, as conclusões

de Chabot. Apesar do MLA ser

usado essencialmente para

medir a topografia de Mercúrio,

a intensidade do brilho do

pulso de luz devolvido pela

superfície mercuriana pode

fornecer interessantes informações

relativas à sua composição.

Se existisse gelo de água

nas zonas permanentemente

sombrias das crateras polares

de Mercúrio seria de esperar a

detecção de um intenso pulso

de retorno no altímetro

da MESSENGER. Na verdade,

não foi isso aconteceu. Sempre

que o laser do MLA incidia nessas

superfícies, o pulso de

retorno detectado era muito

menos brilhante que o das

regiões iluminadas pelo Sol. E

isto acontece apesar da superfície

de Mercúrio ser das mais

escuras do Sistema Solar (mais

escura ainda que a superfície

da Lua)!

Então qual é afinal a natureza

deste bizarro material escuro

A solução para este enigma

O pólo norte de Mercúrio numa projecção estereográfica construída com imagens obtidas

pela sonda MESSENGER. Estão desenhadas a cada 5º as linhas de latitude e a cada 30º as

linhas de longitude (os 0º de longitude correspondem à linha vertical de baixo). As superfícies

brilhantes ao radar mapeadas pelo Radiotelescópio de Arecibo estão assinaladas a

amarelo.

Crédito: NASA/Johns Hopkins University Applied Physics Laboratory/Carnegie Institution

of Washington.

poderá estar nas temperaturas

destas áreas permanentemente

obscuras. Baseados nos perfis

topográficos obtidos pelo

MLA, cientistas da missão criaram

um modelo que mostra as

temperaturas médias e extremas

das regiões polares de

Mercúrio. O que descobriram é

verdadeiramente curioso.

Como seria de esperar, no

modelo as zonas mais frias

encontram-se nas áreas inacessíveis

à luz solar, os mesmos

locais onde se acumulam os

depósitos com alta reflectividade

radar. No entanto, estas

superfícies não são suficientemente

frias para que o gelo de

água se mantenha estável por

longos períodos de tempo. A

situação altera-se porém a profundidades

de 10 a 20 cm,

regiões onde a temperatura

desce aos 100 K (-173º C). É

aqui (numa profundidade

acessível ao radar) que os

depósitos de gelo subsistem.

Mas então o que se encontra

na superfície Como explicou

David Paige na sua apresentação,

existem muitos materiais

com as características

observadas. Os melhores

candidatos são, no entanto,

compostos orgânicos complexos

semelhantes aos

encontrados nos meteoritos

condritos carbonáceos. Estes

compostos seriam voláteis

noutras regiões de Mercúrio,

mas nas áreas permanentemente

escondidas da luz

solar encontram condições

ideais para se consolidarem

numa fina camada negra acima

do gelo.

Os cientistas da missão aguardam

agora a conclusão da análise

dos dados obtidos pelo

espectrómetro de neutrões

para poderem determinar com

maior precisão a natureza destes

compostos. Esperam-se

assim nos próximos meses

novos segredos revelados nestes

locais recônditos do Sistema

Solar.

Sérgio Paulino

Página 38


Volume 2 Edição 3

SISTEMA SOLAR

Cientistas observam a dança de um gigantesco

tornado solar

Sequência de imagens obtidas a 25 de Setembro de 2011 pelo Solar Dynamics Observatory (AIA, canal de 171 Å), mostrando

um monstruoso tornado em rotação na atmosfera solar.

Crédito: NASA/Dr. Xing Li, Dr. Huw Morgan and Mr. Drew Leonard.

Os tornados solares são fenómenos

relativamente frequentes

na superfície do Sol, que

muitas vezes precedem a libertação

de violentas ejecções de

massa coronal. Recentemente,

o Solar Dynamics Observatory

registou imagens de uma

destas magníficas estruturas

elevando-se a uma altitude

equivalente a 5 vezes o diâmetro

da Terra!

Investigadores da Universidade

de Aberystwyth, País de Gales,

analisaram em detalhe as imagens

e descobriram algumas

particularidades interessantes

que poderão ajudar a compreender

os mecanismos que

mobilizam as ejecções de massa

coronal. Durante um período

de algumas horas, o Solar

Dynamics Observatory

observou gases superaquecidos

a temperaturas na

ordem dos 50.000 a 2.000.000º

C a serem sugados de uma

densa proeminência e a moverem-se

em espiral até às camadas

mais exteriores da atmosfera

solar. Estes gases moviamse

a velocidades que atingiram

os 300 mil quilómetros por

hora!

Aparentemente, os tornados

solares arrastam consigo

dobras do campo magnético

solar, moldando-as numa

estrutura em hélice por onde é

ejectado material da superfície.

É este movimento ascendente

de gás superaquecido que,

segundo Xing Li e colegas,

poderá desempenhar um papel

fundamental na formação de

uma ejecção de massa coronal.

A equipa espera poder estudar

mais destes tornados durante

o actual ciclo solar. Entretanto,

podem apreciar o vídeo apresentado

ontem pelos investigadores

na UK-Germany National

Astronomy Meeting 2012.

Vejam também este outro

vídeo captado pelo Solar Dynamics

Observatory em Fevereiro

passado, mostrando três

outros tornados mais pequenos

em rotação.

[Para ver os vídeos ir aqui]

Sérgio Paulino

Página 39


SISTEMA SOLAR

Março 2012

Missão Cassini: espectaculares

imagens de Encélado, Jano,

Dione e Reia

Evander, uma cratera com 350 km de diâmetro

situada na região do pólo sul de Dione.

Imagem obtida pela sonda Cassini a 28

de Março de 2012.

Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

Encélado e as suas espectaculares plumas, numa imagem obtida pela sonda

Cassini a 27 de Março de 2012.

Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

Na passada terça-feira, a sonda

Cassini concretizou uma

passagem a apenas 74 km da

superfície de Encélado. O

encontro teve como objectivo

principal o estudo da composição

química dos jactos de

vapor e de partículas de gelo

de água em actividade na

região do pólo sul, pelo que

grande parte das observações

estiveram reservadas aos

espectrómetros

INMS, CAPS e CIRS. Durante

a aproximação,

a câmara de

ângulo fechado

da Cassini focou o

lado nocturno da

lua e fotografou

as plumas em

contra-luz através

de diversos filtros

de cor. Aqui está

a mais bela imagem

desse conjunto.

Após o encontro

PUB

com Encélado,

a Cassini navegou pelas proximidades

de Jano, Dione e Reia.

A equipa de imagem da missão

aproveitou estas passagens

Página 40


Volume 2 Edição 3

SISTEMA SOLAR

Reia pairando sobre os anéis de Saturno. São visíveis ainda duas

pequenas luas passando a grande velocidade junto aos anéis (a

segunda está parcialmente oculta pelos anéis no lado esquerdo

da imagem). Imagem obtida pela câmara de ângulo fechado da

Cassini a 29 de Março de 2012.

Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

Jano vista pela Cassini a 27 de Março de 2012.

Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

não programadas para aumentar

o acervo de retratos da

superfície gelada destes

pequenos mundos. Eis alguns

magníficos exemplares.

Sérgio Paulino

Jano em frente da Saturno numa composição em cores aproximadamente naturais

construída com imagens obtidas pela Cassini a 27 de Março de 2012, através de

filtros para o ultravioleta próximo, o verde e o infravermelho próximo.

Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute/composição a cores de Sérgio Paulino.

Imagem de contexto mostrando o mesmo

cenário da imagem de cima. É visível

entre Saturno e Reia a pequena lua

Mimas.

Crédito: NASA/JPL/Space Science Institute.

Página 41


TERRA

Março 2012

Hora do Planeta

Tal como aconteceu em anos anteriores

(2009, 2010, 2011), este ano também se

comemora a Hora do Planeta.

Este ano a Hora do Planeta será hoje, sábado, 31

de Março, às 20h30m locais.

Durante 1 hora deve-se desligar todas as luzes de

casa.

Este é um evento simbólico que visa a

sensibilização para a eficiência energética.

Segundo a WWF, organizadora do evento, irão

participar 5.411 cidades e vilas, de 147 países. É

um número recorde: em 2011 participaram 5.251

localidades, de 135 países.

Alguns monumentos internacionais que ficarão às

escuras: Torre Eiffel, Ópera de Sydney, Acrópole,

igrejas e conventos em Goa e Angkor,

Buckingham Palece, Big Ben, etc.

As iniciativas a favor da defesa do planeta vão

além do apagão e, em Portugal, incluem a parada

de

velas,

na

Praça

do

Município, em Lisboa, uma caminhada com

candeias a azeite, em Góis, entre outras

iniciativas.

Carlos Oliveira

Página 42


A bacia de Sudbury. A rosa está representada a área metropolit

zado a leste, é uma segunda cratera de impacto, formada poste

Volume 2 Edição 3

TERRA

Cosmos, rugidos e silêncios

(...)

Esta é uma imagem já bem

conhecida de todos os amantes

de Astronomia, captada em

infravermelhos pelo telescópio

espacial Spitzer, as lentes

apontadas mesmo ao coração

da nossa galáxia, a Via Láctea.

O que observam encontra-se a

26 mil anos-luz e é por isso – só

por isso – que subitamente o

monumental rugido dos

motores principais do vaivém

parece agora tão insignificante

perante a imensidão de todo

este silêncio.

O Universo é silencioso porque

o som não se propaga no vácuo

e é silencioso por nos esconder

ainda tantos mistérios… Mas

comunica de muitas formas,

muitas das quais invisíveis ao

limitado olhar terrestre.

E é por termos instrumentos

cada vez mais sofisticados para

descodificar o significado das

mensagens que o Universo nos

envia que um grupo de

cientistas da Universidade

Grenoble, em França, pôde

partilhar uma conclusão que

até há poucas décadas seria

impensável de obter: milhares

de planetas potencialmente

habitáveis devem existir na

nossa galáxia.

100 estrelas anãs, 40 Super-

Terras

Observem a foto outra vez.

Haverá algum ser inteligente

extraterrestre (para

conveniência do post e da fraca

imaginação do autor, não

vamos caracterizá-lo

radicalmente diferente de nós)

observando uma foto

semelhante à nossa, uma

esplendorosa imagem do braço

da galáxia por onde andamos

Caso exista e for ingénuo como

nós, que problemas poderá

esperar que os misteriosos

extraterrestres do terceiro

planeta a contar do Sol tenham

resolvido Será o Universo um

gigantesco «espelho» onde

pudemos observar o que

fomos ou o que poderemos vir

a ser como espécie

Do que temos quase a certeza,

a julgar pelos resultados

obtidos pelos investigadores, é

que ao número considerável de

estrelas anãs na nossa galáxia –

160 milhares de milhões,

conta o estudo agora divulgado

– deverão corresponder

milhões de planetas

«potencialmente habitáveis».

Pelo menos uma centena

desses planetas – chamamoslhe

«Super-Terras», por serem

rochosos e massivos – estará a

menos de 30 anos-luz do nosso

planeta. À escala cósmica, é

malta vizinha.

Os cientistas chegaram a esta

conclusão devido à premissa

segundo a qual pelo menos 40

por cento das estrelas anãs

possuem um planeta rochoso

semelhante à Terra a orbitar na

chamada «zona habitável».

Mas é preciso ter atenção a

estas notícias e à forma como

rapidamente os media

associam conclusões baseadas

em premissas à existência de

vida extraterrestre e, pior

ainda, a homenzinhos verdes

em naves espaciais: quando

um cientista diz

«potencialmente habitável»

refere-se a duas perspetivas

diferentes: primeiro, pode ser

habitável de acordo com as

únicas condições que

conhecemos para a existência

de vida, ou seja, as condições

terrestres; segundo, pouco

sabemos de planetas terrestres

na galáxia (muito menos ET’s)

mas, tal como vós, leigos,

adorávamos saber.

E é então que a poderosa e

inspiradora muralha de sons à

Stockhausen sugerida pelos

motores do vídeo me deixa a

pensar o que poderá acontecer

quando, num futuro longínquo,

a nossa engenharia desvendar

os mistérios deste silêncio

cósmico e pudermos espreitar

para o outro lado do espelho…

Marco Santos

Página 43


EXOPLANETAS Março 2012

Novo Software revê em alta lista de candidatos do

Kepler

A equipa da missão Kepler disponibilizou recentemente

um novo artigo que apresenta a análise

dos primeiros 16

meses de dados recolhidos

pelo telescópio

pela nova versão do

software de processamento

de dados, designada

de SOC 7.0 (SOC =

Science Operations

Center). O artigo, que

tem como primeira

autora a investigadora

de origem brasileira

Natalie Batalha, descreve

a detecção de

um número muito significativo

de novos

candidatos que se vêm

juntar aos já listados

nos dois catálogos de

candidatos elaborados

previamente pela equipa.

O primeiro destes

catálogos data de

Junho de 2010 e identifica

312 candidatos,

detectados em apenas

43 dias de observações.

O segundo catálogo,

apresentado em

Fevereiro de 2011 lista

1235 candidatos, identificados

através da

análise de 13 meses de

observações

(trimestres Q1 a Q5,

em inglês (Q) de

“quarter”). Mais de 60

candidatos provenientes

deste segundo catálogo

foram já confirmados, incluindo por exemplo:

Kepler-10b (primeira Super-Terra do Kepler),

Kepler-16ABb, o primeiro exoplaneta em órbita de um sistema binário, afectuosamente chamado

de Tatooine. Crédito: Karl Tate, SPACE.com

Página 44


Volume 2 Edição 3

EXOPLANETAS

Kepler-16ABb (Tatooine), Kepler-

20e e -20f (primeiros planetas mais

pequenos que a Terra), e Kepler-

22b (primeira Super-Terra ou sub-

Neptuno na zona habitável).

Durante um trimestre, o telescópio

mantém-se fixo apontando para o

seu campo de visão em Cisne. No

final desse período, e para manter

os painéis solares virados para o

Sol, o telescópio tem de rodar 90

graus mantendo-se apontado para

o mesmo campo em Cisne. Isto faz

com que a mesma estrela seja

observada em píxeis diferentes do

CCD em trimestres diferentes. Ao

fim de 4 trimestres, o telescópio

volta à posição original (fez uma

rotação de 360 graus). A nova versão

do software de processamento

de dados, disponível desde o Verão

de 2011, é particularmente importante

pois permite pela primeira

vez à equipa “colar” observações

de uma mesma estrela obtidas em trimestres dis-

As rotações trimestrais do telescópio Kepler tendo em vista manter os painéis solares

voltados para o Sol. Crédito: DKG / Wikipedia

tintos, corrigindo fielmente o ruído introduzido

pelo hardware do telescópio, e

corrigindo em particular o brilho

da estrela em função da sensibilidade

dos píxeis usados para a

observar.

Apesar de ter disponível apenas

mais um trimestre (Q6) de dados,

A curva de luz de Kepler-18, com três

planetas detectados com trânsitos, em

bruto (vermelho, em cima) e corrigida

(azul, em baixo). Notem-se as descontinuidades

dos valores em bruto no final de

cada trimestre – a curva de luz parece

recomeçar numa posição nova na vertical,

o que corresponderia a uma variação

grande de brilho da estrela. Na realidade

isto deve-se a efeitos instrumentais,

nomeadamente ao facto de a estrela ser

observada por píxeis com sensibilidades

diferentes em diferentes trimestres. O

novo software permite eliminar estes efeitos

de forma muito precisa. Crédito: missão

Kepler

Página 45


EXOPLANETAS Março 2012

no momento em que o novo software se tornou

disponível, a equipa decidiu re-processar os dados

de todos os trimestres Q1 a Q6 beneficiando da

precisão extra das curvas de luz que certamente

iriam ser geradas. Em particular, a maior precisão

permitiria detectar: planetas com períodos orbitais

maiores (observamos mais tempo sem interrupções)

e portanto trânsitos mais espaçados;

planetas mais pequenos, colecionando múltiplos

trânsitos de pequena amplitude e aumentando a

precisão das observações (relação sinal-ruído).

Para cada estrela, a pipeline de software recebe

como input todas as observações realizadas ao

longo dos trimestres Q1 a Q6. O resultado final

consiste, para cada estrela, numa curva de luz

muito precisa corrigida para os efeitos instrumentais

referidos. Isto constitui uma tarefa computacional

bastante intensiva. As curvas obtidas passam

depois por um software que tenta detectar

sinais de trânsitos de forma automática, elaborando

uma lista de possíveis candidatos. As curvas

de luz para esta lista preliminar são depois analizadas

por um outro software que tenta avaliar a

qualidade dos candidatos, i.e., se os sinais detectados

só podem ser explicados por trânsitos planetários

ou por efeitos alternativos. Só são incluídos

no catálogo candidatos para os quais os testes

realizados apontam com uma probabilidade

muito elevada (>90%) para uma origem planetária.

Os resultados obtidos com esta nova análise

foram impressionantes, resultando na identificação

de 1091 novos candidatos planetários, um

ganho de 88% relativamente ao número total de

Os candidatos do Kepler detectados no catálogo de 2010 (azul), no catálogo de 2011 (vermelho) e os novos candidatos

(amarelo). As linhas horizontais marcam os raios da Terra, Neptuno e Júpiter para referência. De notar que a maioria dos novos

candidatos são menores do que Neptuno e com períodos orbitais mais longos. Crédito: Batalha et al.

Página 46


Volume 2 Edição 3

EXOPLANETAS

candidatos (1235) do catálogo de 2011. Os candidatos

observados têm raios entre um terço o da

Terra e três vezes o de Júpiter, correspondendo a

profundidades de trânsito entre 20 partes por

milhão e 20 partes por milhar no brilho da estrela

hospedeira. Os períodos orbitais variam entre

meio dia até quase um ano, correspondendo a

temperaturas de equilíbrio (sem assumir o efeito

de eventuais atmosferas) entre 3800 e 200 Kelvin.

Os novos candidatos têm a seguinte distribuição

por tamanhos (Rp – raio do planeta, Rt – raio da

Terra): 196 (Rp < 1.25Rt, aprox. tamanho da Terra),

416 (1.25Rt < Rp < 2Rt, Super-Terras), 421

(2Rt < Rp < 6Rt, Neptunos), e 41 (6Rt < Rp < 15Rt,

Júpiteres). Para além destes, existem ainda 17

candidatos incluídos no catálogo com raios superiores

a 15Rt, dos quais uma pequena parte são 3

vezes maiores do que Júpiter e provavelmente

não são planetas.

Facto notável, dos novos candidatos, mais de 91%

são mais pequenos que Neptuno! O número de

candidatos com Rp > 2Rt cresceu apenas 52%.

Isto é, o Kepler está cada vez mais eficiente a

detectar planetas pequenos. Para além disto, o

número de candidatos com período orbital maior

do que 50 dias aumentou 123% relativamente ao

catálogo de 2011 ao passo que os candidatos com

períodos inferiores a 50 dias subiu apenas 85%.

Com o passar do tempo o Kepler está a tornar-se

mais eficiente a detectar planetas com períodos

mais longos.

O número total de candidatos, os novos mais os

do catálogo de 2011, passa agora a ser de 2321,

associados a 1790 estrelas hospedeiras, o que

implica que há muitos candidatos em sistemas

múltiplos. De facto, das 1790 estrelas, 365 têm

mais de um candidato planetário, correspondendo

a 896 candidatos no total em sistemas múltiplos

(com 2, 3, 4, 5 ou 6 planetas).

Podem ver o artigo aqui.

Luís Lopes

EchO

EChO, um acrónimo para Exoplanet

Characterization Observatory,

é uma missão de tipo

M (classe média em termos de

recursos necessários aos seu

planeamento, desenvolvimento

e funcionamento) proposta

em 2010 no âmbito do programa

Cosmic Vision 2015-2025

da ESA. Em Fevereiro de 2011

a missão foi uma de 5 seleccionadas

para o prosseguimento

dos estudos sobre a sua viabilidade

e implementação. A

ideia da missão é simples: tirar

proveito das condições de

observação únicas no espaço

A assinatura espectral dos átomos e moléculas na atmosfera de um exoplaneta fica gravada

no espectro da estrela hospedeira durante um trânsito. O EChO quer tirar partido deste

facto. Crédito: ESA / David Sing

Página 47


EXOPLANETAS Março 2012

para detectar no infravermelho

as assinaturas espectrais

das atmosferas de planetas

que realizam trânsitos em

frente das respectivas estrelas

hospedeiras quando vistos a

partir da Terra. Durante o

trânsito, parte da luz da estrela

passa através da atmosfera

do planeta antes de continuar

a sua viagem na nossa direcção.

Essa travessia introduz no

espectro infravermelho da

estrela novas linhas espectrais

devidas a átomos e moléculas

que ocorrem na atmosfera

planetária.

Os espectros obtidos com o

EChO permitirão determinar a

composição e estrutura

atmosférica de vários exoplanetas

permitindo o seu estudo

comparativo. A observação

dos exoplanetas em diferentes

comprimentos de onda no

infravermelho permite também

calcular com mais precisão

a sua real dimensão e

densidade fornecendo pistas

importantes sobre os seus

interiores e processos de formação.

Estas observações já

foram feitas para alguns, poucos,

exoplanetas pelos telescópios

Hubble e Spitzer. O

EchO, no entanto, seria um

telescópio optimizado especificamente para este

tipo de observação e não faria outra coisa.

O instrumento central da missão é um telescópio

de 1.5 metros de abertura que será colocado em

órbita do Sol no ponto L2 de Lagrange, um ponto

no espaço em que a gravidade da Terra e do Sol

têm igual intensidade. Esta localização garante

estabilidade à órbita do telescópio, proximidade à

Terra para transferência de dados e recepção de

comandos e uma visão desobstruída do espaço

(algo que, por exemplo, o Hubble não tem). Se

tudo correr bem, o EChO será lançado entre 2020

e 2022 e observará trânsitos durante pelo menos

5 anos.

Podem ver mais informação aqui.

Luís Lopes

Infografia descrevendo a missão EChO. Crédito: ESA

Página 48


Volume 2 Edição 3

EXOPLANETAS

LBTAO Observa Sistema Planetário de HR8799

Situado no Monte Graham, no Arizona,

o Large Binocular Telescope é

um dos maiores telescópios do

mundo. É composto por dois telescópios

de 8.4 metros de diâmetro

montados lado a lado a uma distância

de 14.4 metros (entre os

respectivos eixos ópticos). O objectivo

final do projecto consiste em

utilizar os dois telescópios como

um só utilizando interferometria

para combinar imagens dos dois

espelhos. A resolução assim atingida,

associada ao tamanho dos

espelhos primários, tornarão o LBT

um dos instrumentos mais poderosos

do mundo. Entretanto, num

dos telescópios foi instalado um

novo sistema de óptica adaptativa,

designado de LBTAO, particularmente

sofisticado que permite

obter imagens no infravermelho

próximo com uma resolução sem

precedentes. O LBTAO está acoplado

a câmaras CCD muito sensíveis

como a PISCES e a LMIRCam, que

cobrem bandas distintas do espectro.

Um dos primeiros alvos deste

sistema, literalmente a sua

“primeira luz”, foi o sistema planetário

em torno de HR8799. As

observações vêm descritas em

dois artigos disponibilizados

ontem na Internet.

A figura que se segue mostra duas

imagens do sistema obtidas com a

PISCES e com a LMIRCam em duas

Os dois telescópios gigantes do Large Binocular Telescope. Crédito: Marc-Andre

Besel e Wiphu Rujopakarn

O sistema planetário de HR8799, uma estrela jovem na constelação do Pégaso. Crédito:

NASA, ESA, and A. Feild (STScI)

Página 49


EXOPLANETAS Março 2012

bandas distintas do infravermelho próximo centradas

em 1.65 e 3.3 micrometros, respectivamente.

A observação do sistema nestas bandas é

importante pois a luminosidade dos planetas nestes

comprimentos de onda é um forte indicador

das composições e condições físicas das suas

atmosferas. Por exemplo, os modelos teóricos

camadas mais interiores e quentes das atmosferas

dos planetas e são consequentemente mais

brilhantes no infravermelho. Parece assim que os

planetas em torno de HR8799 poderão ter atmosferas

complexas com nuvens.

Num outro artigo, a dinâmica do sistema planetário

foi analisada à luz da nova informação obtida

Os planetas do sistema de HR8799 vistos com o LBTAO. Crédito: Skemer et al.

prevêm que os planetas como os de HR8799

devem ser pouco luminosos na região dos 3.3

micrometros devido à presença de metano na

atmosfera.

Um dos artigos refere que as observações agora

obtidas com o LBTAO e a LMIRCam mostram que,

na realidade, os quatro planetas do sistema são

mais brilhantes do que seria de esperar nesta

banda, contrariando os modelos. Os autores afirmam,

com as devidas cautelas, que as observações

são consistentes com modelos das atmosferas

dos planetas que incluem nuvens com opacidade

variável. Num tal cenário, regiões com

nuvens bastante densas são pouco brilhantes nas

bandas observadas pois não permitem observar

camadas mais interiores e quentes da atmosfera.

Reciprocamente, regiões desprovidas de nuvens

ou com nuvens menos densas permitem observar

com o LBTAO e a câmara PISCES, combinada com

observações dos planetas já publicadas. Os autores

concluem que as estimativas existentes para

as massas dos planetas – 5 Mj para o planeta “b”

e aproximadamente 7Mj para os restantes (Mj =

massa de Júpiter), são demasiado elevadas e tornariam

o sistema gravitacionalmente instável a

curto prazo. A análise dos autores favorece massas

menos elevadas, por exemplo 3.5 Mj para “b”

e aproximadamente 5Mj para os restantes. Uma

tal distribuição de massa tornaria o sistema estável

a longo prazo. Estas massas são significativamente

inferiores às estimadas a partir dos modelos

mais aceites actualmente para objectos planetários

com idades comparáveis à da estrela, estimada

em 30 milhões de anos. Claramente, ainda

há muito trabalho a fazer na compreensão da formação

e evolução destes planetas gigantes.

Luís Lopes

Página 50


Volume 2 Edição 3

EXOPLANETAS

Planetas rochosos à volta de anãs vermelhas são

muito comuns

O Astrónomo do CAUP Nuno

Santos pertence à equipa que

descobriu que super terras a

orbitarem anãs vermelhas, o

tipo de estrelas que compõem

80% da nossa galáxia, devem

ser muito frequentes.

Uma equipa internacional de

astrónomos, da qual faz parte

Nuno Cardoso Santos (Centro

de Astrofísica e Faculdade de

Ciências, Universidade do Porto),

fez a primeira estimativa

do número de planetas rochosos

que orbitam anãs vermelhas.

Segundo o primeiro autor deste

artigo, Xavier Bonfils (IPAG/

Observatório de Genebra), “As

novas observações que fizemos

com o HARPS indicam que 40%

de todas as anãs vermelhas

terão super-terras a orbitá-las

na sua zona de habitabilidade.

Como as anãs vermelhas são

muito comuns — há cerca de

160 mil milhões delas na Via

Láctea — isto dá-nos o surpreendente

resultado que há

dezenas de milhares de

milhões destes planetas, só na

nossa galáxia.”

A equipa usou o espectrógrafo

HARPS (ESO) para observar

uma amostra de 102 anãs vermelhas,

durante um período

de 6 anos. Nesta amostra

foram detetadas nove super

terras, incluindo duas na zona

de habitabilidade (Gliese

581d e Gliese 667Cc).

Ao combinar todos os dados,

incluindo as estrelas que não

apresentam planetas, a equipa

conseguiu determinar que a

frequência de super terras a

orbitar dentro da zona de habitabilidade

é de 41%. Considerando

apenas as anãs vermelhas

na vizinhança do Sol, o

número de super terras num

raio de 30 anos-luz do Sistema

Solar deverá rondar os 100.

Um destes planetas é o Gliese

667Cc, o segundo planeta descoberto

neste sistema triplo.

Apesar de ser 4 vezes mais

massivo que a Terra, é o planeta

mais parecido com a Terra

até hoje descoberto. Situandose

mesmo no centro da zona

de habitabilidade, este planeta

rochoso quase de certeza que

terá as condições necessárias

para a existência de água líquida

na sua superfície.

A deteção de planetas semelhantes

à Terra a orbitar outras

estrelas semelhantes ao Sol é

justamente um dos objetivos

mais importantes do projeto

ESPRESSO. “Os resultados

agora publicados sugerem que

o ESPRESSO terá muitos planetas

para descobrir”, comenta

Nuno Cardoso Santos.

O mesmo estudo concluiu ainda

que planetas maiores, do

tamanho de Saturno ou Júpiter,

são bastante raros em anãs

vermelhas, com frequências a

rondar apenas os 12%.

Mais informações:

Astronotícia do CAUP

Comunicado de imprensa ESO

Artigo Científico (Bonfils et al.)

CAUP

Página 51


ASTRONÁUTICA Março 2012

Notícias sobre a Shenzhou-9

A China prepara cuidadosamente o lançamento

da sua próxima missão espacial tripulada, a SZ-9

Shenzhou-9. Depois de uma série de rumores

sobre adiamentos e sobre a possibilidade de a

missão ser lançada sem tripulação a bordo, a China

tem deixado fugir alguma informação sobre

esta missão.

O voo da

Shenzhou-9

é mais um

passo

importante

no desenvolvimento

do programa

espacial

tripulado da

China. Após

a colocação

em órbita

do módulo

TG-1 Tiangong-1

e da

sua acoplagem

automática

com a cápsula SZ-8 Shenzhou-8 em 2011,

a China prepara-se agora para executar a sua primeira

acoplagem tripulada sendo esta a principal

missão da Shenzhou-9 cujo lançamento deverá

ter lugar em Junho de 2012.

É agora amplamente aceite que a missão levará

uma tripulação de três elementos a bordo e

novos dados indicam que poderemos assistir ao

lançamento da primeira chinesa para o espaço já

nesta missão, algo que só era esperado para a

missão da SZ-10 Shenzhou-10 adiada para 2013.

Sabe-se também que a tripulação principal estará

já seleccionada, mas que a presença da primeira

yuangyuan a bordo irá depender de mais exames

e será tomada no último momento.

O foguetão CZ-2F/G Chang Zheng-2F/G estará já

pronto para o lançamento, mas não há a confirmação

da sua chegada ao Centro de Lançamento

de Satélites de Jiuquan. Entretanto, sabe-se também

que a missão da Shenzhou-9 terá uma duração

de 13

dias, sendo

3 dias em

voo independente

e

10 dias acoplada

ao

módulo

Tiangong-1.

Foi revelado

que durante

esta permanência

pelo

menos um

dos tripulantes

estará

sempre a

bordo da

Shenzhou-

9. Não sabe

qual a razão por detrás desta decisão, podendo

esta estar relacionada com a incapacidade do sistema

de manutenção de vida não ter a capacidade

de manter três tripulantes ao mesmo tempo a

bordo do módulo espacial ou então será apenas

uma razão de segurança.

Esta é uma missão ansiosamente aguardada e

certamente que as próximas semanas trarão mais

novidades sobre os seus preparativos.

Rui Barbosa

Página 52


Volume 2 Edição 3

ASTRONÁUTICA

X-37B, um ano em órbita

O vaivém espacial não tripulado

X-37B (OTV-2) encontra

-se há um ano em órbita terrestre

após ter lido lançado

a 5 de Março de 2011 desde

Cabo Canaveral.

A verdadeira missão do OTV

-2 nunca foi divulgada pela

Força Aérea dos Estados

Unidos, mas responsáveis

militares norte-americanos

indicaram que o veículo está

a desempenhar as suas funções

em órbita sem problemas.

Equipado com painéis solares

e com um volume de

carga semelhante à de um

pequeno carro de transporte,

o X-37B deverá estar

equipado com sistema de

observação óptica e electrónica,

levando a cabo missões

de vigilância e observação

sobre países tais como o

Irão ou a China.

Com uma missão originalmente

prevista para ter uma

duração de 270 dias, os responsáveis

militares decidiram

prolongar o voo não

havendo de momento qualquer

indicação sobre a data

do seu regresso à Terra.

O artigo publicado no Boletim

Em Órbita sobre esta missão pode ser lido no

n.º 109 de Abril de 2011.

Imagem: USAF

Rui Barbosa

Página 53


ASTRONÁUTICA

Março 2012

Primeira taikonauta na Shenzhou-9

Segundo adiantou o Boletim Em Órbita citando a

agência de notícias oficial chinesa Xinhua, as

autoridades espaciais chinesas completaram a

selecção inicial dos membros da tripulação para a

primeira acoplagem tripulada da China e no grupo

de elementos seleccionados encontram-se duas

taikonautas.

No entanto, a selecção dos três tripulantes que

serão lançados a bordo da SZ-9 Shenzhou-9 será

feita nos últimos momentos.

O lançamento da Shenzhou-9 está previsto

para ter lugar entre Junho e Agosto,

havendo um consenso que este poderá

ter lugar em Junho.

Os seleccionados para a missão encontram-se

na fase final de treino e a montagem

da cápsula espacial e do seu foguetão

lançador CZ-2F/G Chang Zheng-2F/G

está já terminada.

Rui Barbosa

Coreia do Norte irá lançar novo satélite

O Comité Coreano para a Tecnologia

Espacial, a organização

da Coreia do Norte que dirige

os esforços espaciais deste

país, anunciou que se prepara

para levar a cabo o lançamento

do satélite Kwangmyongsong-3

entre os dias 12 e 16 de Abril.

Esta será a terceira tentativa

da Coreia do Norte para colocar

em órbita um satélite artificial

depois dos dois desaires

anteriores registados a 31 de

Agosto de 1998 e 5 de Abril de

2009.

O Kwangmyongsong-3 deverá

ser lançado por um foguetão

Unha-3 a partir de uma nova

base de lançamento localizada

na costa Oeste da Coreia do

Norte, em Pongdong-ri (os lançamentos

anteriores bem

como vários testes de mísseis

balísticos intercontinentais

tiveram lugar desde Musudanri).

Este lançamento irá servir para

comemorar o 100º aniversário

do nascimento de Kim Il-sung e

certamente irá elevar os ânimos

nos outros países da

região que não vêem com bons

olhos o facto de a Coreia do

Norte possuir esta capacidade

estratégica.

Rui Barbosa

Página 54


Volume 2 Edição 3

ASTRONÁUTICA

China testou o Dragão Divino

O Boletim Em Órbita já havia aqui adiantado a

possível ocorrência de um lançamento orbital no

dia 17 de Março a partir do Centro de Lançamento

de Satélites de Jiuquan.

No dia 16 de Março os observadores internacionais

foram surpreendidos com o aparecimento de

um conjunto dos denominados NOTAM,

ou NOTice To AirMan, que delimitavam várias

zonas localizadas ao longo de uma trajectória originária

do Centro de Lançamento de Satélites de

Jiuquan. Um desses NOTAM excluía uma zona de

impacto situada a cerca de 160 km do local de

lançamento, uma distância muito curta para os

actuais lançadores orbitais chineses. Este facto

acabaria por intrigar os observadores do programa

espacial chinês, surgindo várias especulações

sobre o que a China iria levar a cabo.

Os primeiros estágios dos lançadores utilizados

para as missões não tripuladas lançadas desde

Jiuquan acabam por cair em zonas mais afastadas,

não se explicando assim a existência da zona de

impacto criada por um dos NOTAM. Um outro

NOTAM excluía um corredor aéreo geralmente

utilizado por aviões de transporte comerciais.

Vários observadores avançaram a hipótese de a

China vir a testar um novo foguetão de combustível

sólido ou então levar a cabo o teste de um

míssil balístico de combustível sólido, explicando

assim o primeiro NOTAM o local de impacto de

um primeiro estágio.

Surgem agora rumores que a China poderá ter

realizado um teste de reentrada do seu avião

aeroespacial Shenlong, ou Dragão Divino. As primeiras

imagens deste avião surgiram em Dezembro

de 2007 (imagem em cima) quando várias

fotografias mostravam o Shenlong montado na

fuselagem inferior de um bombardeiro H-6K.

Até ao momento não surgiu qualquer informação

oficial sobre o que ocorreu em Jiuquan a 17 de

Março, mas o autor sabe que muitos oficiais militares

se deslocaram aquele polígono para observarem

um teste de algo importante. Este teste

poderá ter sido um teste de reentrada do Shenlong.

Rui Barbosa

Edoardo Amaldi a caminho da ISS

Assumindo um papel fundamental

no abastecimento da

estação espacial internacional

e complementando esse transporte

com os veículos de carga

russos (Progress-M) e japoneses

(HTV), o Automated Transfer

Vehicle (ATV) europeu tem

um papel fundamental neste

tipo de missão só anteriormente

comparável à capacidade do

antigo vaivém espacial norteamericano.

O veículo mais recente da

série, o ATV-3, foi lançado

às 0434UTC do dia 23 de

Março de 2012 pelo foguetão

Ariane-5ES (L553/

VA205) a partir do Complexo

de Lançamento ELA3 do

CSG Kourou, Guiana Francesa.

Com um volume de carga

semelhante ao volume de

um autocarro de dois andares,

o ATV-3 leva mantimen-

PUB

A sua

revista

mensal de

astronáutica

[clica na

imagem

para saber

mais]

Página 55


ASTRONÁUTICA

Março 2012

tos importantes

para os seis membros

da Expedição

30 que actualmente

se encontra a boro

da ISS (Daniel Burbank,

Anatoli Ivanishin,

Anton Shkaplerov,

Oleg Kononenko,

Donald Pettit

e André Kuipers).

A bordo seguem

outras cargas científicas,

equipamentos

experimentais,

equipamentos

sobressalentes, ar,

oxigénio e propolente,

além de artigos

pessoais para a

tripulação.

A acoplagem com o

módulo Zvezda

deverá ter lugar a

28 de Março e o

Edoardo Amaldi

deverá permanecer

acoplado até 3 de

Setembro. Até lá

deverá realizar

manobras de elevação

da altitude orbital

da estação espacial

internacional.

Este ATV foi baptizado

com o nome

de ‘Edoardo Amaldi’

continuando assim

a tradição da agência

espacial europeia

de baptizar

estes veículos com

nomes de cientistas ou personalidades europeias

que deram grandes contribuições para o avanço

cientifico no velho continente. Edoardo Amaldi foi

um físico italiano que levou a cabo investigações

na área da espectroscopia atómica , física nuclear,

física das partículas e gravitação experimental.

Rui Barbosa

Página 56


Volume 2 Edição 3

ASTRONÁUTICA

Proton-M/Briz-M lança Intelsat-22

O foguetão Proton-M/Briz-M foi lançado às

1210:32UTC do dia 25 de Março de 2012 para iniciar

uma missão de cerca de 15 horas e 30 minutos

com o objectivo

de colocar em

órbita o satélite

de telecomunicações

Intelsat-22.

Com um céu pontilhado

de nuvens

sobre a Plataforma

de Lançamento

PU-39 do Complexo

de Lançamento

LC200 do

Cosmódromo de

Baikonur, Cazaquistão,

a contagem

decrescente

decorreu sem

qualquer problema

e o foguetão

foi lançado à hora

prevista. Todas as

fases iniciais da missão (separação dos três estágios

iniciais, separação da carenagem de protecção

e separação do estágio Briz-M) decorreram

sem problemas. O estágio Briz-M levou a cabo a

sua primeira ignição entre as 1221:48UTC e as

1226:07UTC, sendo realizadas mais quatro queimas

antes da separação do Intelsat-22.

O satélite Intelsat-22 foi construído pela Boeing

Satellite Systems e é baseado no modelo BSS-

702MO, tendo uma massa de 6.199 kg no lançamento

e um período de vida útil de 18 anos. Está

equipado com 22 repetidores de banda C, 18

repetidores de banda Ku e 18 repetidores UHF

que irão fornecer serviços para a África, Ásia,

Europa, Médio Oriente e Oceano Índico. As forças

de defesa australianas compraram a carga UHF

que será utilizada durante 15 anos.

Esta é a primeira missão da ILS (International

Launch Services) que irá utilizar uma órbita supersincronizada

com os primeiros três estágios a utilizar

uma ascensão standard para colocar o Briz-M

numa trajectória suborbital. A partir daqui o Briz-

M realiza várias manobras colocando-se primeira

numa órbita preliminar, seguindo-se uma órbita

intermédia, uma órbita de transferência e finalmente

uma órbita de transferência para a órbita

geossincrona. Na separação o Intelsat-22 estava

colocado numa órbita com um apogeu a 65.000

km de altitude, perigeu a 3.791 km de altitude e

inclinação orbital de 28,5º.

Imagem: Khrunichev

Rui Barbosa

Página 57


ASTRONÁUTICA

Março 2012

Novo lançamento comercial da

China

A China levou a cabo um novo lançamento orbital

bem sucedido ao colocar em órbita o satélite de

telecomunicações Apstar-7. O lançamento teve

lugar às 1027UTC do dia 31 de Março de 2012 e

foi levado a cabo por um foguetão Chang Zheng-

3B/E desde a Plataforma de Lançamento LC2 do

Centro de Lançamento de Satélites de Xichang,

província de Sichuan. A separação do satélite terá

ocorrido pelas 1053UTC.

O satélite Apstar-7 foi construído pela Thales Alenia

Space e é baseado no modelo Spacebus-

4000C2, tendo uma massa de 5.054 kg no lançamento.

Está equipado com 28 repetidores de banda

C que serão utilizado para serviços de transmissão

para a Ásia, Austrália, Europa e África, e

28 repetidores de banda Ku que serão utilizados

para serviços de transmissão para a China

(incluindo Hong Kong, Macau e Taiwan), Médio

Oriente e África. O Apstar-7 irá substituir o satélite

Apstar-2R.

Este foi o 50º lançamento de um foguetão da

família de lançadores CZ-3A Chang Zheng-3A do

qual deriva o CZ-3B, BZ-3B/E e CZ-3C.

Rui Barbosa

Página 58


Volume 2 Edição 3

ASTRONÁUTICA

Coreia do Norte prepara

Kwangmyongsong-3

Aparentemente a Coreia do Norte já colocou na

plataforma de lançamento o primeiro estágio do

foguetão Unha-3 que deverá colocar em órbita o

satélite Kwangmyongsong-3 no dia 15 de Abril de

2012. O segundo estágio deverá ser transportado

para a plataforma a 2 ou 3 de Abril.

Entretanto as autoridades norte-coreanas revelaram

que o satélite deverá ser colocado numa

órbita com uma altitude de 500 km com uma

inclinação de 97,40º.

Na Estação de Lançamento de Sohae (mais usualmente

conhecida como Centro Espacial de Tongchang-dong)

decorrem os preparativos para o lançamento

que

foram fotografados

a 29 de

Março. As imagens

mostram

a posição relativa

da torre móvel de serviço ao lado da estrutura

de acesso ao foguetão. Várias pessoas podem

ser vistas a cortar os arbustos próximos da plataforma

de lançamento para evitar um possível

incêndio originado pelas chamas dos motores.

São também visíveis camiões de abastecimento

de propolentes.

Imagem: DigitalGlobe Inc.

Rui Barbosa

Rússia lança Cosmos 2479

A Rússia levou a cabo às

0549UTC do dia 30 de Março

de 2012 o lançamento do satélite

militar Cosmos 2479 utilizando

um foguetão Proton-K/

DM-2 lançado desde a Plataforma

de Lançamento PU-24 do

Complexo de Lançamento LC81

do Cosmódromo de Baikonur,

Cazaquistão.

Este foi o último Proton-K a ser

lançado, terminando assim uma

história de 45 anos de serviço,

com o seu primeiro lançamento

a ter lugar a 10 de Março de

1967.

Utilizando um estágio superior

Blok DM-2, esta missão colocou

em órbita o último satélite de

observação militar Oko. Estes

satélites Oko (US-KMO) são satélites

de aviso antecipado de lançamento

de mísseis balísticos que

operam em órbita geossíncrona,

ao contrário dos satélites US-K

que operam em órbitas Molniya,

isto é com um apogeu extremamente

elevado sobre os locais de

observação.

Imagem: Roscosmos

Rui Barbosa

Página 59


astroPT

O Boletim Em Órbita está no meo

O Boletim Em Órbita inaugura

hoje as emissões regulares

do seu canal no meo.

Neste canal serão colocados

todos os vídeos dos lançamentos

orbitais que forem

sendo realizados ao longo do

ano.

Para acederem ao

Canal Em Órbita

basta pressionar a

tecla verde do seu

comando meo e

introduzir o n.º

355507.

Bem-vindos ao Canal Em

Órbita!

Rui Barbosa

O astroPT está agora também disponível no G+.

Poderá consultar-nos através da sua conta do Gmail clicando no link

superior direito (+SeuNome). Ou então poderá seguir esta ligação (ou

ver posts).

Passem por lá, adicione aos seus círculos e divulgue pelos seus amigos.

José Gonçalves

ESTAMOS NA WEB!

http://astropt.org

PUB

ESTE ESPAÇO PODE SER SEU!

QUER ANUNCIAR NA NOSSA PUBLICAÇÃO OU

WEBSITE

CONTACTE-NOS!

O astroPT, no mês de fevereiro, obteve: mais de 98 000 visitas.

INFO

A TODOS OS INTERESSADOS:

As revistas estão disponíveis para download

em: http://issuu.com/astroPT

Clicar na revista que quer descarregar, ao abrir a

nova página e em baixo encontrará uma caixa

com uma setinha que irá permitir fazer o download

(é necessário ter conta no issuu, mas pode

fazer o registo com a conta do facebook.

astroPT magazine, revista mensal da astroPT

Textos dos autores, Design: José Gonçalves

More magazines by this user
Similar magazines