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Carta Maior – Há um incêncio em marcha, mas seu nome não é islã

Um espaço de debates e ideias que se provam na ação. Esse é o propósito da revista digital cuja primeira edição Carta Maior envia hoje a seus leitores. Não é um produto diletante, mas uma ferramenta a serviço do ideário socialista e internacionalista que caracteriza nosso jornalismo engajado e crítico.

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S<strong>um</strong>ário<br />

Charlie Hebdo: Uma reflexão difícil<br />

Boaventura de Sousa Santos<br />

Somos todos o quê<br />

Saul Leblon<br />

Assange: ‘O serviço secreto francês t<strong>em</strong> muitas perguntas para responder’<br />

Marcelo Justo<br />

A extr<strong>em</strong>a-direita e o suicídio europeu<br />

Flávio Aguiar<br />

Je ne suis pas Charlie (Eu <strong>não</strong> sou Charlie)<br />

Jos<strong>é</strong> Antonio Guti<strong>é</strong>rrez D.<br />

Je ne suis pas Charlie, eu <strong>não</strong> sou Charlie<br />

Leonardo Boff<br />

Os outros Charlies<br />

Amy Goodman<br />

A mis<strong>é</strong>ria do terror islâmico<br />

Reginaldo Nasser<br />

ŽiŽek: pensar o atentado ao charlie hebdo<br />

Slavoj ŽiŽek<br />

Charlie Hebdo: Terror de Paris pode ter orig<strong>em</strong> na Arg<strong>é</strong>lia de 1954<br />

Robert Fisk<br />

Não <strong>é</strong> sobre o <strong>islã</strong>: Nunca foi<br />

Ramzy Baroud<br />

Charlie Hebdo: Ironia e trag<strong>é</strong>dia<br />

Alejandro Nadal<br />

França: O mais perigoso <strong>é</strong> a islamofobia<br />

Santiago Alba Rico<br />

O riso dos outros: <strong>Há</strong> limites para o h<strong>um</strong>or<br />

L<strong>é</strong>a Maria Aarão Reis<br />

Como pensar para al<strong>é</strong>m do medo<br />

Martín Granovsky<br />

Para se entender o terrorismo contra o Charlie Hebdo de paris<br />

Leonardo Boff<br />

A batalha de argel: Um fantasma s<strong>em</strong>pre presente<br />

L<strong>é</strong>a Maria Aarão Reis<br />

O que está acontecendo conosco<br />

Michel Plon<br />

06<br />

10<br />

14<br />

16<br />

18<br />

20<br />

24<br />

26<br />

29<br />

32<br />

35<br />

38<br />

40<br />

43<br />

45<br />

50<br />

52<br />

55


Editorial: <strong>Há</strong> <strong>um</strong> incêndio<br />

<strong>em</strong> <strong>marcha</strong>, <strong>mas</strong> o <strong>seu</strong><br />

<strong>nome</strong> <strong>não</strong> <strong>é</strong> Islã<br />

No mesmo dia do ataque ao Charlie Hebdo, 37 jovens<br />

foram mortos no I<strong>é</strong>men n<strong>um</strong> atentado a bomba. No verão<br />

passado, a invasão israelita causou a morte de 2000<br />

palestinos, dos quais cerca de 1500 civis e 500 crianças.<br />

No M<strong>é</strong>xico, desde 2000, foram assassinados 102<br />

jornalistas por defender<strong>em</strong> a liberdade de imprensa e,<br />

<strong>em</strong> Nov<strong>em</strong>bro de 2014, 43 jovens, <strong>em</strong> Ayotzinapa.<br />

Certamente que a diferença na nossa reação<br />

diante desses acontecimentos <strong>não</strong> pode estar baseada<br />

na ideia de que a vida de europeus brancos, de cultura<br />

cristã, vale mais que a vida de <strong>não</strong> europeus ou de europeus<br />

de outras cores e de culturas associadas a outras<br />

religiões.<br />

Será então porque estes últimos estão mais longe<br />

de nós ou conhec<strong>em</strong>o-los menos<br />

Será porque a grande mídia e os líderes políticos<br />

do Ocidente banalizaram o sofrimento causado a esses<br />

outros, quando <strong>não</strong> os d<strong>em</strong>onizam ao ponto de nos<br />

fazer<strong>em</strong> pensar que eles <strong>não</strong> merec<strong>em</strong> outra coisa<br />

“Esta análise <strong>é</strong> urgente, sob pena de continuarmos<br />

a alimentar <strong>um</strong> fogo que amanhã pode atingir as<br />

escolas dos nossos filhos, as nossas casas e as nossas<br />

instituições”.<br />

Com essas palavras carregadas de advertências<br />

ao consenso construído nos últimos dias, o sociólogo<br />

4 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


Boaventura Santos encerra <strong>um</strong> dos textos da revista<br />

que <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> oferece aos <strong>seu</strong>s leitores neste fim de<br />

s<strong>em</strong>ana, sobre o brutal atentado <strong>em</strong> Paris.<br />

O material reúne artigos e reflexões de autores renomados,<br />

como o próprio Boaventura de Sousa e Santos,<br />

Julian Assange, Flávio Aguiar, Slavoj ŽiŽek, Robert Fisk,<br />

Leonardo Boff, Jos<strong>é</strong> Antonio Gutierrez, Martín Granovsky,<br />

Marcelo Justo , entre outros.<br />

Esse mosaico de pontos de vista c<strong>um</strong>pre a função<br />

de <strong>um</strong> verdadeiro caleidoscópio da reflexão.<br />

Trata-se de arguir as certezas graníticas rapidamente<br />

convocadas a partir da justa comoção gerada<br />

pelo <strong>mas</strong>sacre à redação do Charlie.<br />

O objetivo aqui <strong>não</strong> <strong>é</strong> endossar a pauta do jornal,<br />

tampouco contestar a indignação justa, <strong>mas</strong> arguir a sua<br />

abrangência.<br />

O que se busca <strong>é</strong> a reflexão capaz de romper a<br />

camada p<strong>é</strong>trea de conveniências e interesses sobre a<br />

qual se assenta o veredito conservador <strong>em</strong> torno da<br />

brutalidade desse episódio.<br />

Ele anunciou o amanhecer de 2015 com <strong>um</strong> estrondo<br />

que sacudiu o novo normal diss<strong>em</strong>inado por <strong>um</strong><br />

capitalismo feito de deflação recessiva, des<strong>em</strong>prego<br />

estrutural e captura do Estado e da política pela internacional<br />

financeira.<br />

Sim, <strong>é</strong> certo, como diz Boaventura, que <strong>um</strong> incêndio<br />

arde nas entranhas do nosso t<strong>em</strong>po. Mas antes que<br />

ele se alastre de forma incontrolável sobre as nossas<br />

próprias consciências, <strong>é</strong> preciso afirmar per<strong>em</strong>ptoriamente:<br />

<strong>seu</strong> <strong>nome</strong> <strong>não</strong> <strong>é</strong> Islã.<br />

É para essa reflexão que <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> convida à<br />

leitura desta revista.<br />

5


Charlie Hebdo:<br />

Uma reflexão difícil<br />

Colunista<br />

Boaventura de<br />

Sousa Santos<br />

Esta análise <strong>é</strong> urgente, sob pena de<br />

continuarmos a atear <strong>um</strong> fogo que<br />

amanhã pode atingir as escolas dos<br />

nossos filhos, as nossas casas e as<br />

nossas instituições.<br />

O crime hediondo que foi cometido contra os<br />

jornalistas e cartoonistas do Charlie Hebdo torna<br />

muito difícil <strong>um</strong>a análise serena do que está<br />

envolvido neste ato bárbaro, do <strong>seu</strong> contexto e<br />

<strong>seu</strong>s precedentes e do <strong>seu</strong> impacto e repercussões<br />

futuras. No entanto, esta análise <strong>é</strong> urgente, sob<br />

pena de continuarmos a atear <strong>um</strong> fogo que amanhã<br />

pode atingir as escolas dos nossos filhos, as<br />

nossas casas, as nossas instituições e as nossas<br />

consciências. Eis alg<strong>um</strong>as das pistas para tal<br />

análise.<br />

A luta contra o terrorismo, tortura e d<strong>em</strong>ocracia.<br />

Não se pod<strong>em</strong> estabelecer ligações diretas<br />

entre a trag<strong>é</strong>dia do Charlie Hebdo e a luta contra<br />

o terrorismo que os EUA e <strong>seu</strong>s aliados têm vindo<br />

a travar desde o 11 de set<strong>em</strong>bro de 2001. Mas <strong>é</strong><br />

sabido que a extr<strong>em</strong>a agressividade do Ocidente<br />

t<strong>em</strong> causado a morte de muito milhares de civis<br />

inocentes (quase todos muçulmanos) e têm<br />

sujeitado a níveis de tortura de <strong>um</strong>a violência<br />

inacreditável jovens muçulmanos contra os quais<br />

as suspeitas são meramente especulativas, como<br />

consta do recente relatório presente ao Congresso<br />

norte-americano. E tamb<strong>é</strong>m <strong>é</strong> sabido que muitos<br />

jovens islâmicos radicais declaram que a sua<br />

radicalização nasceu da revolta contra tanta<br />

violência impune.<br />

Perante isto, dev<strong>em</strong>os refletir se o caminho<br />

para travar a espiral de violência <strong>é</strong> continuar a<br />

seguir as mes<strong>mas</strong> políticas que a têm alimentado<br />

como <strong>é</strong> agora d<strong>em</strong>asiado patente. A resposta<br />

francesa ao ataque mostra que a normalidade<br />

constitucional d<strong>em</strong>ocrática está suspensa e que<br />

<strong>um</strong> estado de sítio <strong>não</strong> declarado está <strong>em</strong> vigor,<br />

que os criminosos deste tipo, <strong>em</strong> vez de presos e<br />

julgados, dev<strong>em</strong> ser abatidos, que este fato <strong>não</strong><br />

representa aparent<strong>em</strong>ente nenh<strong>um</strong>a contradição<br />

com os valores ocidentais. Entramos n<strong>um</strong> clima<br />

de guerra civil de baixa intensidade. Qu<strong>em</strong> ganha<br />

com ela na Europa Certamente <strong>não</strong> o partido<br />

Pod<strong>em</strong>os <strong>em</strong> Espanha ou o Syriza na Gr<strong>é</strong>cia.<br />

A liberdade de expressão. É <strong>um</strong> b<strong>em</strong> precioso<br />

<strong>mas</strong> t<strong>em</strong> limites, e a verdade <strong>é</strong> que a esmagadora<br />

maioria deles são impostos por aqueles que defend<strong>em</strong><br />

a liberdade s<strong>em</strong> limites s<strong>em</strong>pre que <strong>é</strong> a<br />

“sua” liberdade a sofrê-los. Ex<strong>em</strong>plos de limites<br />

são imensos: se <strong>em</strong> Inglaterra <strong>um</strong> manifestante<br />

disser que David Cameron t<strong>em</strong> sangue nas mãos,<br />

pode ser preso; <strong>em</strong> Franças, as mulheres islâmicas<br />

<strong>não</strong> pod<strong>em</strong> usar o hijab; <strong>em</strong> 2008 o cartoonis-<br />

6 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


ta Maurice Sin<strong>é</strong> foi despedido do Charlie Hebdo<br />

por ter escrito <strong>um</strong>a crónica alegadamente antiss<strong>em</strong>ita.<br />

Isto significa que os limites exist<strong>em</strong>, <strong>mas</strong><br />

são diferentes para diferentes grupos de interesse.<br />

Por ex<strong>em</strong>plo, na Am<strong>é</strong>rica Latina, os grandes<br />

media, controlados por famílias oligárquicas e<br />

pelo grande capital, são os que mais clamam pela<br />

liberdade de expressão s<strong>em</strong> limites para insultar<br />

os governos progressistas e ocultar tudo o que de<br />

bom estes governos têm feito pelo b<strong>em</strong>-estar dos<br />

mais pobres.<br />

Aparent<strong>em</strong>ente, o Charlie Hebdo <strong>não</strong> reconhecia<br />

limites para insultar os muçulmanos,<br />

mesmo que muitos dos cartoons foss<strong>em</strong> propaganda<br />

racista e alimentass<strong>em</strong> a onda islamofóbica<br />

e anti-imigrante que avassala a França e a<br />

Europa <strong>em</strong> geral. Para al<strong>é</strong>m de muitos cartoons<br />

com o Profeta <strong>em</strong> poses pornográficas, <strong>um</strong> deles,<br />

b<strong>em</strong> aproveitado pela extr<strong>em</strong>a-direita, mostrava<br />

<strong>um</strong> conjunto de mulheres muçulmanas grávidas,<br />

apresentadas como escravas sexuais do Boko Haram,<br />

que, apontando para a barriga, pediam que<br />

<strong>não</strong> lhes fosse retirado o apoio social à gravidez.<br />

De <strong>um</strong> golpe, estigmatizava-se o <strong>islã</strong>o, as mulheres<br />

e o estado de b<strong>em</strong>-estar social. Obviamente,<br />

que, ao longo dos anos, a maior comunidade<br />

islâmica da Europa foi-se sentindo ofendida por<br />

esta linha editorial, <strong>mas</strong> foi igualmente imediato<br />

o <strong>seu</strong> repúdio por este crime bárbaro. Dev<strong>em</strong>os,<br />

pois, refletir sobre as contradições e assimetrias<br />

na vida vivida dos valores que alguns cre<strong>em</strong> ser<br />

universais.<br />

A tolerância e os “valores ocidentais”. O<br />

contexto <strong>em</strong> que o crime ocorreu <strong>é</strong> dominado<br />

por duas correntes de opinião, nenh<strong>um</strong>a delas<br />

favorável à construção de <strong>um</strong>a Europa inclusiva<br />

e intercultural. A mais radical <strong>é</strong> frontalmente<br />

islamofóbica e anti-imigrante. É a linha dura da<br />

extr<strong>em</strong>a direita <strong>em</strong> toda a Europa e da direita,<br />

s<strong>em</strong>pre que se vê ameaçada por eleições próxi<strong>mas</strong><br />

(o caso de Antonis Samara na Gr<strong>é</strong>cia). Para<br />

esta corrente, os inimigos da civilização europeia<br />

estão entre “nós”, odeiam-nos, têm os nossos passaportes,<br />

e a situação só se resolve vendo-nos nós<br />

livres deles. A pulsão anti-imigrante <strong>é</strong> evidente. A<br />

outra corrente <strong>é</strong> a da tolerância. Estas populações<br />

são muito distintas de nós, são <strong>um</strong> fardo, <strong>mas</strong><br />

t<strong>em</strong>os de as “aguentar”, at<strong>é</strong> porque nos são uteis;<br />

no entanto, só o dev<strong>em</strong>os fazer se elas for<strong>em</strong> moderadas<br />

e assimilar<strong>em</strong> os nossos valores. Mas o<br />

7


que são os “valores ocidentais”<br />

Depois de muitos s<strong>é</strong>culos de atrocidades<br />

cometidas <strong>em</strong> <strong>nome</strong> destes valores dentro e fora<br />

da Europa--da violência colonial às duas guerras<br />

mundiais--exige-se alg<strong>um</strong> cuidado e muita reflexão<br />

sobre o que são esses valores e por que razão,<br />

consoante os contextos, ora se afirmam uns ora<br />

se afirmam outros. Por ex<strong>em</strong>plo, ningu<strong>é</strong>m põe<br />

hoje <strong>em</strong> causa o valor da liberdade, <strong>mas</strong> já o mesmo<br />

<strong>não</strong> se pode dizer dos valores da igualdade e<br />

da fraternidade. Ora, foram estes dois valores que<br />

fundaram o Estado social de b<strong>em</strong>-estar que dominou<br />

a Europa d<strong>em</strong>ocrática depois de segunda<br />

guerra mundial. No entanto, nos últimos anos, a<br />

proteção social, que garantia níveis mais altos de<br />

integração social, começou a ser posta <strong>em</strong> causa<br />

pelos políticos conservadores e <strong>é</strong> hoje concebida<br />

como <strong>um</strong> luxo inacessível para os partidos do<br />

chamado “arco da governabilidade”. A crise social<br />

causada pela erosão da proteção social e pelo<br />

a<strong>um</strong>ento do des<strong>em</strong>prego, sobretudo entre jovens,<br />

<strong>não</strong> será lenha para o fogo do radicalismo por<br />

parte dos jovens que, al<strong>é</strong>m do des<strong>em</strong>prego, sofr<strong>em</strong><br />

a discriminação <strong>é</strong>tnico-religiosa<br />

O choque de fanatismos, <strong>não</strong> de civilizações.<br />

Não estamos perante <strong>um</strong> choque de civilizações,<br />

at<strong>é</strong> porque a cristã t<strong>em</strong> as mes<strong>mas</strong> raízes que a<br />

islâmica. Estamos perante <strong>um</strong> choque de fanatismos,<br />

mesmo que alguns deles <strong>não</strong> apareçam<br />

como tal por nos ser<strong>em</strong> mais próximos. A história<br />

mostra como muitos dos fanatismos e <strong>seu</strong>s<br />

choques estiveram relacionados com interesses<br />

económicos e políticos que, aliás, nunca beneficiaram<br />

os que mais sofreram com tais fanatismos.<br />

Na Europa e suas áreas de influência <strong>é</strong> o<br />

caso das cruzadas, da Inquisição, da evangelização<br />

das populações coloniais, das guerras religiosas<br />

e da Irlanda do Norte. Fora da Europa, <strong>um</strong>a<br />

religião tão pacífica como o budismo legitimou<br />

o <strong>mas</strong>sacre de muitos milhares de m<strong>em</strong>bros da<br />

minoria tamil do Sri Lanka; do mesmo modo, os<br />

fundamentalistas hindus <strong>mas</strong>sacraram as populações<br />

muçulmanas de Gujarat <strong>em</strong> 2003 e o eventual<br />

maior acesso ao poder que terão conquistado<br />

recent<strong>em</strong>ente com a vitória do Presidente Modi<br />

faz prever o pior; <strong>é</strong> tamb<strong>é</strong>m <strong>em</strong> <strong>nome</strong> da religião<br />

que Israel continua a impune limpeza <strong>é</strong>tnica da<br />

Palestina e que o chamado califado <strong>mas</strong>sacra<br />

populações muçulmanas na Síria e no Iraque.<br />

A defesa da laicidade s<strong>em</strong> limites n<strong>um</strong>a<br />

Europa intercultural, onde muitas populações<br />

<strong>não</strong> se reconhec<strong>em</strong> <strong>em</strong> tal valor, será afinal <strong>um</strong>a<br />

forma de extr<strong>em</strong>ismo Os diferentes extr<strong>em</strong>ismos<br />

opõ<strong>em</strong>-se ou articulam-se Quais as relações entre<br />

os jihadistas e os serviços secretos ocidentais<br />

Por que <strong>é</strong> que os jihadistas do Emirato Islâmico,<br />

que são agora terroristas, eram combatentes<br />

de liberdade quando lutavam contra Kadhafi e<br />

contra Assad Como se explica que o Emirato<br />

Islâmico seja financiado pela Arábia Saudita, Qatar,<br />

Kuwait e Turquia, todos aliados do Ocidente<br />

Uma coisa <strong>é</strong> certa, pelo menos na última d<strong>é</strong>cada,<br />

a esmagadora maioria das víti<strong>mas</strong> de todos os<br />

8 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


fanatismos (incluindo o islâmico) são populações<br />

muçulmanas <strong>não</strong> fanáticas.<br />

O valor da vida. A repulsa total e incondicional<br />

que os europeus sent<strong>em</strong> perante estas<br />

mortes dev<strong>em</strong>-nos fazer pensar por que razão<br />

<strong>não</strong> sent<strong>em</strong> a mesma repulsa perante <strong>um</strong> número<br />

igual ou muito superior de mortes inocentes<br />

<strong>em</strong> resultado de conflitos que, no fundo, talvez<br />

tenham algo a ver com a trag<strong>é</strong>dia do Charlie<br />

Hebdo No mesmo dia, 37 jovens foram mortos<br />

no Y<strong>em</strong>en n<strong>um</strong> atentado bombista. No verão passado,<br />

a invasão israelita causou a morte de 2000<br />

palestinianos, dos quais cerca de 1500 civis e 500<br />

crianças. No M<strong>é</strong>xico, desde 2000, foram assassinados<br />

102 jornalistas por defender<strong>em</strong> a liberdade<br />

de imprensa e, <strong>em</strong> Nov<strong>em</strong>bro de 2014, 43 jovens,<br />

<strong>em</strong> Ayotzinapa. Certamente que a diferença na<br />

reação <strong>não</strong> pode estar baseada na ideia de que a<br />

vida de europeus brancos, de cultura cristã, vale<br />

mais que a vida de <strong>não</strong> europeus ou de europeus<br />

de outras cores e de culturas assentes noutras religiões<br />

ou regiões. Será então porque estes últimos<br />

estão mais longe dos europeus ou são pior conhecidos<br />

por eles Mas o mandato cristão de amar o<br />

próximo permite tais distinções Será porque os<br />

grande media e os líderes políticos do Ocidente<br />

trivializam o sofrimento causado a esses outros,<br />

quando <strong>não</strong> os d<strong>em</strong>onizam ao ponto de fazer<strong>em</strong><br />

pensar que eles <strong>não</strong> merec<strong>em</strong> outra coisa<br />

9


Somos todos o quê<br />

Saul Leblon<br />

A nostalgia da guilhotina <strong>é</strong> só o primeiro degrau.<br />

O endurecimento contra imigrantes, na verdade, já<br />

avançava <strong>em</strong> <strong>marcha</strong> batida antes do <strong>mas</strong>sacre <strong>em</strong> Paris.<br />

O <strong>em</strong>bl<strong>em</strong>a totalizante, ‘somos todos Charlie’ teve<br />

curta unanimidade no ambiente trincado de <strong>um</strong>a<br />

Europa onde, de fato, <strong>não</strong> há lugar para todos ser<strong>em</strong><br />

a mesma coisa <strong>em</strong> parte alg<strong>um</strong>a. Os números da<br />

exclusão <strong>em</strong> <strong>marcha</strong> no continente são suficientes<br />

para esfarelar essas ‘uniões’ nascidas da <strong>em</strong>oção da<br />

trag<strong>é</strong>dia, como <strong>é</strong> o caso, <strong>mas</strong> que historicamente<br />

se mostram insuficientes para regenerar as partes<br />

de <strong>um</strong> todo que já <strong>não</strong> se encaixava mais. Como<br />

recompor o cristal da liberdade, da igualdade e da<br />

fraternidade, diante de <strong>um</strong>a Europa unificada pela<br />

lógica do mal estar social<br />

Com políticas públicas que hoje irradiam<br />

chantag<strong>em</strong>, regressão , niilismo, intolerância e<br />

medo diante do futuro rarefeito<br />

Somos todos o quê<br />

É justo perguntar quando o Estado a serviço dos<br />

mercados <strong>mas</strong>tigou todas as pontes para a construção<br />

de <strong>um</strong>a cidadania convergente e soberana.<br />

A polêmica linha de h<strong>um</strong>or do ‘Charlie Hebdo’<br />

deve <strong>seu</strong> sucesso, <strong>em</strong> grande parte, justamente<br />

à acentuação dessa rachadura <strong>em</strong> <strong>um</strong>a chave<br />

religiosa. Deve-se respeitar a sua liberdade. Mas a<br />

10 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


forma como escolheu exerce-la fez do jornal parte<br />

do estilhaçamento que procurava criticar; tornou-<br />

-se assim mais <strong>um</strong> referido do que referência.<br />

A Europa t<strong>em</strong> hoje 8 milhões de imigrantes<br />

s<strong>em</strong> pap<strong>é</strong>is; 120 milhões de pobres e 27 milhões<br />

de des<strong>em</strong>pregados. Após seis anos de arrocho<br />

neoliberal, o des<strong>em</strong>prego e o esfarelamento do<br />

padrão de vida dos trabalhadores e da classe<br />

m<strong>é</strong>dia <strong>–</strong>condensado <strong>em</strong> <strong>um</strong>a geração de jovens<br />

que dificilmente repetirá a faixa de renda dos<br />

país, turbinou a rejeição ao estrangeiro, criou o<br />

medo da ‘islamização da sociedade’, alimentou<br />

a extr<strong>em</strong>a direita e liberou a d<strong>em</strong>ência terrorista.<br />

Não necessariamente nessa ord<strong>em</strong>, <strong>mas</strong><br />

com essa octanag<strong>em</strong> abrangente. A imponente<br />

<strong>marcha</strong> <strong>em</strong> Paris neste domingo <strong>não</strong> escapou do<br />

liquidificador de nitroglicerina.<br />

Seria irônico , <strong>não</strong> fosse trágico.<br />

Na comissão de frente da principal coluna da<br />

manifestação, que reuniu <strong>um</strong> milhão de pessoas,<br />

ao lado do presidente François Hollande , e de<br />

Merkel, lá estava Benjamin Netanyahu.<br />

Sim, o pr<strong>em</strong>iê de Israel. Ele que acaba de se<br />

aliar à extr<strong>em</strong>a direita para transformar o Estado<br />

israelense <strong>em</strong> <strong>um</strong> estado religioso. Responsável<br />

por alguns dos mais impiedosos <strong>mas</strong>sacres do s<strong>é</strong>culo<br />

XXI, contra populações civis encurraladas por<br />

Israel na Faixa de Gaza, a presença de Netanyahu<br />

a engrossar o ‘somos todos Charlie’ convida a<br />

pensar sobre o alcance das unanimidades.<br />

É <strong>um</strong> silogismo barato afirmar que a recusa<br />

ao bordão dominante endossa o abismo ensandecido<br />

do terrorismo. N<strong>um</strong> texto de 1911, ‘Porque<br />

os marxistas se opõ<strong>em</strong> ao terrorismo individual’,<br />

e quando ainda n<strong>em</strong> desconfiava que ele próprio<br />

seria <strong>um</strong>a vítima futura, León Trostsky criticou<br />

ex<strong>em</strong>plarmente aquilo que, nas suas palavras,<br />

‘mesmo que obtenha “êxito” (e) crie confusão na<br />

classe dominante (...) terá vida curta; o estado<br />

capitalista <strong>não</strong> <strong>é</strong> eliminado; o mecanismo permanece<br />

intacto e <strong>em</strong> funcionamento. Todavia, a<br />

desord<strong>em</strong> que <strong>um</strong> atentado terrorista produz nas<br />

fileiras da classe operária <strong>é</strong> muito mais profunda.<br />

Se para alcançar os objetivos basta armar-se com<br />

<strong>um</strong>a pistola, para que serve esforçar-se na luta<br />

de classes Se <strong>um</strong> pouco de pólvora e <strong>um</strong> pedaço<br />

de ch<strong>um</strong>bo bastam para perfurar a cabeça de <strong>um</strong><br />

inimigo, que necessidade há de organizar a classe<br />

Se t<strong>em</strong> sentido aterrorizar os altos funcionários<br />

com o ruído das explosões, que necessidade<br />

há de <strong>um</strong> partido’, criticava o líder da Revolução<br />

de Outubro, banido e assassinado por Stálin, para<br />

concluir <strong>em</strong> seguida: ‘Para nós o terror individual<br />

<strong>é</strong> inadmissível precisamente porque apequena o<br />

papel das <strong>mas</strong>sas <strong>em</strong> sua própria consciência e<br />

(desvia) <strong>seu</strong>s olhos e esperanças para o grande<br />

vingador e libertador, que alg<strong>um</strong> dia virá c<strong>um</strong>prir<br />

sua missão’. Cento e quatro anos depois, o alerta<br />

ganha atualidade diante das medidas cogitadas<br />

após o <strong>mas</strong>sacre <strong>em</strong> Paris.<br />

Os indefectíveis Le Pen, pai e filha, ped<strong>em</strong>,<br />

nada menos que a restauração da pena de morte,<br />

abolida <strong>em</strong> 1981. A nostalgia da guilhotina <strong>é</strong> só o<br />

primeiro degrau do patíbulo. O endurecimento<br />

contra os imigrantes, na verdade, já avançava <strong>em</strong><br />

<strong>marcha</strong> batida antes do <strong>mas</strong>sacre da quarta-feira<br />

(07/01).<br />

Agora, por<strong>é</strong>m, que ‘somos todos Charlie’,<br />

qu<strong>em</strong> irá detê-lo <strong>–</strong> se at<strong>é</strong> Netanyahu aderiu<br />

Ofuscados habilmente pelo ‘consenso’, os antecedentes<br />

da tormenta esticam o elástico de <strong>um</strong>a<br />

gigantesca armadilha histórica.<br />

Des<strong>em</strong>prego com deflação e captura do Estado<br />

e da política pela alta finança. É disso que se<br />

trata a trag<strong>é</strong>dia europeia, vista de corpo inteiro.<br />

A zona do euro enfrenta deflação recessiva; a Itália<br />

t<strong>em</strong> des<strong>em</strong>prego recorde; Al<strong>em</strong>anha e França<br />

assist<strong>em</strong> a <strong>um</strong>a espiral de xenófobia; Gr<strong>é</strong>cia t<strong>em</strong><br />

59% da juventude fora do mercado; Portugal t<strong>em</strong><br />

500 mil des<strong>em</strong>pregados e Espanha devastou sua<br />

rede de proteção social.<br />

“A Europa t<strong>em</strong> hoje 8 milhões<br />

de imigrantes s<strong>em</strong> pap<strong>é</strong>is;<br />

120 milhões de pobres e 27<br />

milhões de des<strong>em</strong>pregados.<br />

Após seis anos de arrocho<br />

neoliberal, o des<strong>em</strong>prego e o<br />

esfarelamento do padrão de<br />

vida dos trabalhadores tomou<br />

conta do continente”<br />

11


Assim por diante.<br />

Foi preciso que <strong>um</strong> economista moderado,<br />

Tho<strong>mas</strong> Piketty, coligisse <strong>um</strong>a enciclop<strong>é</strong>dia estatística<br />

do avanço rentista sobre a riqueza da<br />

sociedade para que o t<strong>em</strong>a da desigualdade merecesse<br />

alg<strong>um</strong> espaço <strong>–</strong>fugaz— no debate econômico<br />

e midiático sobre a crise europeia. E mesmo<br />

assim colateral às decisões da troika, que estala o<br />

relho no lombo da cidadania e exige ord<strong>em</strong> unida<br />

ao abismo. É sobre essa base de rigidez que a<br />

alavanca da trag<strong>é</strong>dia move o curso da história.<br />

Não Maom<strong>é</strong>, <strong>não</strong> Charlie Hebdo, <strong>não</strong> a juventude<br />

niilista. Não os filhos de imigrantes pobres , que<br />

se convert<strong>em</strong> cada vez mais ao islamismo como<br />

ponto de fuga à meia cidadania da desord<strong>em</strong> neoliberal<br />

que nada t<strong>em</strong> a lhes propor hoje. E <strong>não</strong><br />

o fará amanhã tamb<strong>é</strong>m. Entregue aos ajustes fi<br />

scais, na ressaca dos mercados após o fastígio<br />

neoliberal, a Europa <strong>é</strong> hoje <strong>um</strong> mu<strong>seu</strong> de l<strong>em</strong>branças<br />

do acolhimento h<strong>um</strong>anitário e político,<br />

que a transformaria <strong>em</strong> legenda da civilização e<br />

da fraternidade.<br />

Na Itália, sob o afável Berlusconi, o Estado<br />

elevou para seis meses o t<strong>em</strong>po que imigrantes<br />

ilegais pod<strong>em</strong> ser detidos <strong>em</strong> ‘ centros especiais’ e<br />

autorizou a criação de falanges civis para “ajudar<br />

a polícia a combater o crime nas ruas”. Na Gr<strong>é</strong>cia,<br />

“Foi preciso que <strong>um</strong> economista<br />

moderado, Tho<strong>mas</strong> Piketty,<br />

coligisse <strong>um</strong>a enciclop<strong>é</strong>dia<br />

estatística do avanço<br />

rentista sobre a riqueza da<br />

sociedade para que o t<strong>em</strong>a<br />

da desigualdade merecesse<br />

alg<strong>um</strong> espaço”<br />

12 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


onde as taxas de des<strong>em</strong>prego triplicaram sob o<br />

chicote de Frau Merkel, os integrantes do partido<br />

Aurora Dourada sequer dissimulam a inspiração<br />

nazista: sua faxina <strong>é</strong>tnica avança contra árabes,<br />

africanos, ambulantes, ciganos e homossexuais.<br />

‘Somos todos Charlie’<br />

As notícias contraditórias que chegam dos<br />

EUA, surfando <strong>em</strong> <strong>um</strong>a recuperação feita de<br />

<strong>em</strong>pregos com salários aviltados, e da Europa<br />

s<strong>em</strong> Estado à altura para reagir, evidenciam a<br />

profundidade de <strong>um</strong>a desord<strong>em</strong> que <strong>não</strong> cederá<br />

tão cedo, n<strong>em</strong> tão facilmente.<br />

A consciência dessa longa travessia <strong>é</strong> <strong>um</strong><br />

dado fundamental para renovar a ação política<br />

<strong>em</strong> nosso t<strong>em</strong>po. Recuos e derrotas ac<strong>um</strong>ulados<br />

pela esquerda mundial desde os anos 70,<br />

sobretudo a colonização de <strong>seu</strong> arcabouço pelos<br />

interditos neoliberais, alargaram os vertedouros<br />

ao espraiamento de <strong>um</strong>a dominância financeira<br />

que agora produz manifestações mórbidas <strong>em</strong><br />

todas as esferas da vida.<br />

Quando a economia se avoca <strong>um</strong> t<strong>em</strong>plo<br />

sagrado, dotado de leis próprias, revestido de<br />

esf<strong>é</strong>rica coerência endógena, avessa ao ruído<br />

das ruas, das urnas e das aspirações por cidadania<br />

plena, o que sobra à d<strong>em</strong>ocracia A pauta<br />

dos mercados autorregulados revelou- -se <strong>um</strong>a<br />

fraude. Gigantesca.<br />

Era o fim da história, replicava o colunismo<br />

áulico.<br />

Não era, mostrou set<strong>em</strong>bro de 2008. Pior<br />

que isso. O sete de janeiro francês avisa que se a<br />

sociedade continuar apartada do <strong>seu</strong> destino, os<br />

próximos capítulos serão dramáticos. No Brasil,<br />

os que incitavam o governo a jogar o país ao mar<br />

<strong>em</strong> 2008, retrucam que o custo de <strong>não</strong> tê-lo afogado<br />

na hora certa acarretou custos insustentáveis.<br />

E eles terão que ser pagos agora. Na forma de<br />

<strong>um</strong> afogamento incondicional. Recomenda-se<br />

vivamente beber a cota do dilúvio desdenhada<br />

<strong>em</strong> 2008 <strong>em</strong> <strong>um</strong>a talagada única.<br />

Não há alternativa, diria Margareth Tatcher.<br />

As escolhas intrínsecas a <strong>um</strong>a repactuação do<br />

desenvolvimento brasileiro, de fato, <strong>não</strong> são singelas.<br />

Nada que se harmonize do dia para a noite.<br />

Por isso, o crucial <strong>é</strong> erguer linhas de passag<strong>em</strong>,<br />

repactuar metas, ganhos, perdas, salvaguardas<br />

e prazos. Mas há <strong>um</strong> requisito para isso: tirar a<br />

economia do altar sagrado da ortodoxia e expô-la<br />

ao debate d<strong>em</strong>ocrático do qual particip<strong>em</strong> todas<br />

as forças sociais.<br />

Quando a mídia conservadora tenta tropicalizar<br />

o bordão ‘somos todos Charlie’, <strong>seu</strong> objetivo<br />

mal disfarçado vai no sentido oposto. Tenta-se<br />

reduzir <strong>um</strong>a trag<strong>é</strong>dia ciclópica a <strong>um</strong> atentado à<br />

liberdade de expressão. E de forma rudimentar<br />

desdobrar a comoção aqui <strong>em</strong> <strong>um</strong> veto ao projeto<br />

de regulação da mídia brasileira. Para quê Justamente<br />

para interditar o debate sobre o passo<br />

seguinte do desenvolvimento do país.<br />

O apego da <strong>em</strong>issão conservadora à liberdade<br />

de expressão, como se sabe, <strong>é</strong> relativo. No dia<br />

seguinte ao <strong>mas</strong>sacre <strong>em</strong> Paris, a Folha de São<br />

Paulo, por ex<strong>em</strong>plo, dedicou 256 palavras, <strong>um</strong>a<br />

nota de rodap<strong>é</strong>, para tratar do caso do blogueiro<br />

saudita, Raif Baddawi. Baddawi dirigia o fór<strong>um</strong><br />

on-line ‘Liberais Sauditas Livres’; foi condenado<br />

por isso a dez anos de prisão e multa de US$ 260<br />

mil. Seu caso <strong>é</strong> <strong>um</strong>a referência do padrão de justiça<br />

que impera na d<strong>em</strong>ocrática sociedade saudita,<br />

principal aliada dos EUA no mundo árabe, onde<br />

mulheres <strong>não</strong> pod<strong>em</strong> dirigir sequer automóveis e<br />

inexiste judiciário independente da vontade dos<br />

mandatários.<br />

Al<strong>é</strong>m de dez anos de prisão, Baddawi<br />

tamb<strong>é</strong>m será punido com mil chibatadas por<br />

“insultar o Islã” <strong>–</strong> 50 por s<strong>em</strong>ana, durante 20<br />

s<strong>em</strong>anas. A primeira cota foi aplicada na última<br />

sexta-feira. Uma nota com 256 palavras foi tudo o<br />

que o liberal Baddawi obteve de <strong>um</strong> dos principais<br />

veículos de informação do país. Compare-se com<br />

as cataratas de tinta, imag<strong>em</strong> e som dedicadas à<br />

blogueira cubana Yoani Sánchez que, livre, leve e<br />

solta, viajando pelo mundo, mereceu da mesma<br />

Folha de SP mais de 90 mil citações; 155 mil no<br />

Globo e 110 mil no Estadão.<br />

É difícil imaginar algo do tipo ‘somos todos<br />

Baddawi’ alastrando-se pelo colunismo pátrio que<br />

dispensou às visitas de Yoani <strong>um</strong> tratamento de<br />

chefe de Estado.<br />

São dois pesos e mil chibatadas. Uma diferença<br />

sugestiva. Que recomenda cautela com as<br />

unanimidades produzidas pela mesma fonte.<br />

Aqui ou <strong>em</strong> Paris.<br />

13


Assange: ‘O serviço<br />

secreto francês t<strong>em</strong><br />

muitas perguntas para<br />

responder’<br />

Marcelo Justo - exclusivo para <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong><br />

Em entrevista à carta maior, julian assange falou sobre<br />

vigilância <strong>mas</strong>siva e as relações dos serviços secretos<br />

internacionais com os atentados de paris.<br />

Londres <strong>–</strong> A interpretação do <strong>mas</strong>sacre da Charlie<br />

Hebdo se transformou <strong>em</strong> <strong>um</strong> território <strong>em</strong><br />

disputa. A liberdade de expressão e a relação com<br />

a minoria muçulmana, a dicotomia entre multiculturalismo<br />

à britânica ou integração secular à<br />

francesa, a luta antiterrorista e privacidade são<br />

alguns dos eixos do debate.<br />

No Reino Unido, o diretor do MI5 Andrew<br />

Parker propôs <strong>um</strong>a nova lei antiterrorista que<br />

concede mais poderes de vigilância eletrônica aos<br />

serviços secretos. Um importante editor e historiador<br />

conservador, Mark Hastings, <strong>não</strong> hesitou<br />

<strong>em</strong> acusar como corresponsáveis do que aconteceu<br />

o fundador do Wikileaks Julian Assange e o<br />

ex-agente da CIA Edward Snowden. Da Embaixada<br />

do Equador <strong>em</strong> Londres, onde está há dois anos<br />

e meio esperando <strong>um</strong>a autorização para deixar o<br />

país, Julian Assange falou à <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong>.<br />

14 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


Qual <strong>é</strong> sua interpretação do <strong>mas</strong>sacre da Charlie<br />

Hebdo<br />

Como editor, foi <strong>um</strong> fato extr<strong>em</strong>amente<br />

triste que aconteceu com <strong>um</strong>a publicação que<br />

representa a grande tradição francesa da caricatura.<br />

Mas agora t<strong>em</strong>os que olhar adiante e pensar<br />

o que ocorreu e qual deve ser a reação. É preciso<br />

entender que a cada dia acontece <strong>um</strong> <strong>mas</strong>sacre<br />

dessa magnitude no Iraque e <strong>em</strong> outros países<br />

do mundo árabe. E isto aconteceu graças aos<br />

esforços desestabilizadores dos Estados Unidos,<br />

do Reino Unido e da França. A França participou<br />

do fornecimento de ar<strong>mas</strong> para a Síria, Líbia e<br />

da recolonização do Estado africano de Mali. Isto<br />

estimulou o ataque neste caso, usando <strong>um</strong> alvo<br />

fácil como a Charlie Hebdo. Mas a realidade <strong>é</strong> que<br />

o serviço secreto francês t<strong>em</strong> muitas perguntas<br />

para responder sobre o acontecido.<br />

Acredita que houve <strong>um</strong> fracasso dos serviços<br />

secretos franceses<br />

É o que estão tentando esconder. Os serviços<br />

de segurança da França sabiam das atividades<br />

dos responsáveis pelo <strong>mas</strong>sacre e, no entanto,<br />

deixaram de vigiá-los. Por que os irmãos Kouachi,<br />

conhecidos por <strong>seu</strong>s laços com extr<strong>em</strong>istas, <strong>não</strong><br />

estavam sob vigilância Cherif Kouachi havia<br />

sido condenado por crimes terroristas. Longe de<br />

estar enviando mensagens criptografadas, eles se<br />

comunicaram centenas de vezes antes e durante<br />

os ataques com celulares comuns. <strong>Há</strong> muitas<br />

perguntas. Por ex<strong>em</strong>plo, por que os escritórios<br />

da Charlie Hebdo <strong>não</strong> estavam mais protegidos<br />

dadas as duras críticas da revista ao Islã Como<br />

os conhecidos jihadistas conseguiram ar<strong>mas</strong><br />

s<strong>em</strong>iautomáticas na França Apresentaram<br />

os assassinos como supervilões para ocultar a<br />

própria incompetência dos serviços. A verdade <strong>é</strong><br />

que os terroristas eram amadores bastante incompetentes<br />

que bateram o carro, deixaram suas<br />

c<strong>é</strong>dulas de identidade à vista e coordenaram <strong>seu</strong>s<br />

movimentos por telefone. Não era preciso <strong>um</strong>a<br />

vigilância <strong>mas</strong>siva da internet para evitar este<br />

fato: era necessária <strong>um</strong>a vigilância específica.<br />

Uma percepção bastante ampla <strong>é</strong> que você e<br />

o Wikileaks se opõ<strong>em</strong> à vigilância eletrônica.<br />

Na verdade, você faz <strong>um</strong>a clara distinção entre<br />

vigilância <strong>mas</strong>siva e vigilância com objetivos<br />

definidos.<br />

A vigilância <strong>mas</strong>siva <strong>é</strong> <strong>um</strong>a ameaça à d<strong>em</strong>ocracia<br />

e à segurança da população, pois outorga<br />

<strong>um</strong> poder excessivo aos serviços secretos. O arg<strong>um</strong>ento<br />

para defendê- la <strong>é</strong> que assim se pode encontrar<br />

gente que <strong>não</strong> se conhecia de ant<strong>em</strong>ão. O que<br />

v<strong>em</strong>os, no caso de Paris, <strong>é</strong> que os protagonistas foram<br />

identificados. Deveria haver <strong>um</strong>a investigação<br />

profunda de como foram cometidos esses erros,<br />

apesar de minha experiência ser que isto <strong>não</strong> vá<br />

acontecer porque estes serviços são corruptos e são<br />

assim por ser<strong>em</strong> secretos. A vigilância <strong>mas</strong>siva<br />

<strong>não</strong> <strong>é</strong> gratuita e, neste sentido, <strong>é</strong> <strong>um</strong>a das causas<br />

do que aconteceu, porque restaram recursos e<br />

pessoal para o que teria de ter sido a vigilância<br />

específi - ca contra <strong>um</strong>a ameaça terrorista.<br />

Uma das reações mais virulentas na imprensa<br />

britânica foi a do historiador e jornalista Max<br />

Hastings que acusou você e Edward Snowden de<br />

responsabilidade nestes fatos. Hastings <strong>não</strong> está<br />

sozinho. <strong>Há</strong> muitas vozes que ped<strong>em</strong> que fech<strong>em</strong><br />

ainda mais o certo sobre o Wikileaks. Percebe que<br />

o Wikileaks está ameaçado pela atual situação<br />

<strong>Há</strong> <strong>um</strong> ano que os setores vinculados a este<br />

modo de ver as coisas propõ<strong>em</strong> <strong>um</strong> a<strong>um</strong>ento da<br />

vigilância <strong>mas</strong>siva e <strong>um</strong> corte das liberdades.<br />

Estão <strong>em</strong> retrocesso por todas as denúncias que<br />

houve sobre os excessos de espionag<strong>em</strong> cometidos<br />

pelos governos, inclusive com <strong>seu</strong>s próprios<br />

aliados. O que estão tentando fazer <strong>é</strong> aproveitar<br />

esta situação para recuperar o território perdido.<br />

O Wikileaks publicou as caricaturas da Charlie<br />

Hebdo utilizadas como pretexto para o atentado,<br />

algo que <strong>não</strong> fi zeram vários jornais como o<br />

Guardian ou o Times porque têm muito medo.<br />

Mas <strong>um</strong>a das coisas positivas que surgiram nos<br />

últimos dias <strong>é</strong> a defesa da liberdade de expressão.<br />

Digo isto apesar de, na manifestação de domingo,<br />

estar<strong>em</strong> presentes figuras que são os piores<br />

inimigos da liberdade de expressão, como Arábia<br />

Saudita e Turquia. Mas, por mais que estejam tentando<br />

aproveitar a situação, o Wikileaks funciona<br />

há bastante t<strong>em</strong>po e desenvolv<strong>em</strong>os t<strong>é</strong>cnicas para<br />

lidar com este tipo de ameaças. Não vão nos intimidar.<br />

Esper<strong>em</strong>os que outras mídias <strong>em</strong> nível<br />

mundial tamb<strong>é</strong>m <strong>não</strong> se deix<strong>em</strong> intimidar.<br />

15


A extr<strong>em</strong>a-direita<br />

e o suicídio europeu<br />

Colunista<br />

Flávio Aguiar<br />

O ato terrorista contra os jornalistas<br />

do charlie hebdo <strong>é</strong> apenas a ponta<br />

do iceberg. A europa inteira está<br />

assentada sobre <strong>um</strong>a bomba-relógio.<br />

O ato terrorista contra os jornalistas do Charlie<br />

Hebdo francês, <strong>em</strong> Paris, que tamb<strong>é</strong>m provocou<br />

a morte de <strong>um</strong> funcionário da revista, de dois<br />

policiais no ato e possivelmente de mais <strong>um</strong> <strong>em</strong><br />

tiroteio posterior, <strong>é</strong> apenas a ponta de <strong>um</strong> iceberg.<br />

A Europa inteira está assentada sobre <strong>um</strong>a<br />

bomba-relógio. Não <strong>é</strong> <strong>um</strong>a bomba com<strong>um</strong>, porque<br />

casos como o do Charlie Hebdo mostram que ela<br />

já está explodindo. Nas pontas da bomba estão<br />

duas forças antagônicas, com práticas diferentes,<br />

por<strong>é</strong>m com <strong>um</strong> traço <strong>em</strong> com<strong>um</strong>: a intolerância<br />

herdeira dos m<strong>é</strong>todos fascistas de antanho. De<br />

<strong>um</strong> lado, estão pessoas e grupos fanatizados que<br />

reivindicam <strong>um</strong>a versão do islamismo incompatível<br />

com o próprio Islã e o Corão, <strong>mas</strong> que ag<strong>em</strong><br />

<strong>em</strong> <strong>nome</strong> de ambos. Os contornos e o perfil destes<br />

grupos estão passando por <strong>um</strong>a transformação <strong>–</strong><br />

o que aconteceu tamb<strong>é</strong>m nos Estados Unidos, no<br />

atentado <strong>em</strong> Boston, durante a maratona, e no<br />

Canadá, no ataque ao Parlamento, <strong>em</strong> Ottawa.<br />

Cada vez mais aparec<strong>em</strong> “iniciativas individuais”<br />

nas ações perpetradas. Este tipo de<br />

terrorismo se fragmentou <strong>em</strong> pequenos grupos<br />

<strong>–</strong> muitas vezes de familiares <strong>–</strong> que ag<strong>em</strong> “à la<br />

cria”, como se dizia, <strong>em</strong> ações que parec<strong>em</strong><br />

“espontâneas” e at<strong>é</strong> “amalucadas”, <strong>mas</strong> que<br />

obedec<strong>em</strong> a princípios e <strong>um</strong>a lógica cuja versão<br />

mais elaborada, para al<strong>é</strong>m da “franquia” <strong>em</strong> que<br />

a Al-Qaïda se transformou, <strong>é</strong> o Estado Islâmico<br />

que se estruturou graças à desestruturação do<br />

Iraque e da Síria. São fanáticos que negam a política<br />

consuetudinária como meio de expressão<br />

de reivindicações e direitos: negam, no fundo,<br />

a própria ideia de “direitos”, inclusive o direito<br />

à vida, como fica claro no gesto assassino que<br />

vitimou o Charlie Hebdo.<br />

Do outro, estão os neofascistas <strong>–</strong> ou antigos<br />

redivivos <strong>–</strong> que se agarram à bandeira do anti-<br />

-islamismo tamb<strong>é</strong>m fanático como meio de arregimentar<br />

“as <strong>mas</strong>sas” <strong>em</strong> torno de si e de suas<br />

propostas. Ag<strong>em</strong> de acordo com as características<br />

próprias dos países <strong>em</strong> que atuam, mobilizando,<br />

de acordo com as circunstâncias, as palavras<br />

adequadas. No Reino Unido, criaram o United<br />

Kingdom Independence Party <strong>–</strong> UKIP, Partido da<br />

Independência do Reino Unido, <strong>nome</strong> malandro<br />

que oculta e ao mesmo t<strong>em</strong>po carrega a ojeriza<br />

pela União Europeia. Na França têm a Front Nationale<br />

da família Le Pen, que mobiliza o velho<br />

chauvinismo francês que lateja o t<strong>em</strong>po todo desde<br />

o caso Dreyfus, ainda no s<strong>é</strong>culo XIX. Na Al<strong>em</strong>anha<br />

<strong>é</strong> feio ser nacionalista al<strong>em</strong>ão, desde o fi m da<br />

Segunda Guerra. Então criou-se <strong>um</strong> movimento<br />

<strong>–</strong> PEGIDA <strong>–</strong> que se declara de “Patriotas Europeus<br />

contra a Islamização do Ocidente”, procurando<br />

<strong>um</strong>a fachada p<strong>seu</strong>damente universalista para <strong>seu</strong>s<br />

preconceitos anti-Islã e anti-imigrantes.<br />

Esta, aliás, <strong>é</strong> a bandeira com<strong>um</strong> destes movimentos:<br />

fazer do imigrante ou do refugiado político<br />

ou econômico o bode-expiatório da situação de crise<br />

16 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


que o continente vive, assim como no passado se<br />

fez com o judeu e ainda hoje se faz com os roma e<br />

sinti(ditos ciganos). Na Itália este fascismo latente<br />

se organiza com o <strong>nome</strong> de “Liga Norte”, mobilizando<br />

o preconceito social contra o sul italiano, tradicionalmente<br />

mais <strong>em</strong>pobrecido. São movimentos<br />

que, <strong>em</strong>bora busqu<strong>em</strong> por vezes o espaço da política<br />

partidária, como <strong>é</strong> o caso do UKIP e da Front Nationale,<br />

ou mesmo da Liga Norte, têm como cosmovisão<br />

a negação da política como espaço universal de<br />

manifestação de direitos e reivindicações. Negam a<br />

política como campo de manifestação das diferenças,<br />

barrando ao que consideram como alteridade o<br />

direito à expressão ou mesmo aos direitos comuns<br />

da cidadania. O ex<strong>em</strong>plo histórico mais acabado<br />

disto foi o próprio nazismo que, chegando ao poder<br />

pelas urnas, fechou-as <strong>em</strong> seguida.<br />

O caldo de cultura <strong>em</strong> que vicejam tais pinças<br />

contrárias à vigência dos princípios d<strong>em</strong>ocráticos<br />

<strong>é</strong> o de <strong>um</strong>a crise econômico-financeira que se institucionalizou<br />

como paisag<strong>em</strong> social. Na Europa a<br />

tradição <strong>é</strong> a de que crises deste tipo levam a saídas<br />

pela direita. O crescimento do UKIP e da Front<br />

Nationale, partidos mais votados nas respectivas<br />

eleições para o Parlamento Europeu, <strong>em</strong> maio de<br />

2013, <strong>é</strong> eloquente neste sentido. Na Al<strong>em</strong>anha as<br />

manifestações de rua do PEGIDA vêm crescendo<br />

sist<strong>em</strong>aticamente, atingindo o número de 18 mil<br />

pessoas na última delas, na cidade de Dresden, reduto<br />

tradicional de manifestações nostálgicas <strong>em</strong><br />

relação ao passado nazismo devido a <strong>seu</strong> (tamb<strong>é</strong>m<br />

criminoso) bombardeio ao fim da Segunda Guerra<br />

pelos britânicos. Deve-se notar, como fator de esperança,<br />

que manifestações contra estas for<strong>mas</strong><br />

de intolerância <strong>–</strong> o terrorismo que reinvindica o<br />

Islã como inspiração e os movimentos de extr<strong>em</strong>a-<br />

-direita <strong>–</strong> têm tomado corpo tamb<strong>é</strong>m. Houve manifestações<br />

de solidariedade aos mortos na França<br />

<strong>em</strong> várias cidades europeias e na Al<strong>em</strong>anha manifestações<br />

contra o PEGIDA reuniram milhares de<br />

pessoas <strong>em</strong> diferentes cidades. Mas pelo lado da<br />

expr<strong>em</strong>a-direita cresce a aceitação de suas palavras<br />

de ord<strong>em</strong> na frente institucional (líderes do<br />

novo partido al<strong>em</strong>ão Alternative für Deutschland<br />

têm acolhido reivindicações do PEGIDA) e junto à<br />

opinião pública. Na Al<strong>em</strong>anha recente pesquisa<br />

trouxe à baila o dado preocupante de que 61% dos<br />

entrevistados se declararam “anti-islâmicos”.<br />

Como ficou feio alegar motivos racistas, o<br />

que se alega agora no lado intolerante <strong>é</strong> a “defesa<br />

da religião” ou a “incompatibilidade cultural”. Os<br />

assassinos do Charlie Hebdo gritavam <strong>–</strong> segundo<br />

test<strong>em</strong>unhas <strong>–</strong> estar<strong>em</strong> “vingando o profeta”,<br />

referência a caricaturas de Maom<strong>é</strong> consideradas<br />

ofensivas. Na outra ponta jovens da Front Nationale,<br />

tamb<strong>é</strong>m no ano passado, recusavam a<br />

pecha de racistas e declaravam aceitar o mundo<br />

muçulmano <strong>–</strong> <strong>em</strong> “<strong>seu</strong>s territórios”, <strong>não</strong> na Europa<br />

agora dita “judaico-cristã”, puxando para <strong>seu</strong><br />

aprisco a etnia ou religião que a extr<strong>em</strong>a-direita<br />

europeia antes condenava ao ostracismo, ao campo<br />

de concentração e ao extermínio.<br />

Os partidos e políticos tradicionais, <strong>em</strong> sua<br />

maioria, estão brincando com fogo, s<strong>em</strong> se dar<br />

conta, talvez. Não aceitam o reconhecimento, por<br />

ex<strong>em</strong>plo, que grupos por eles apoiados na Ucrânia<br />

são declaradamente fascistas, homofóbicos e at<strong>é</strong><br />

antiss<strong>em</strong>itas. Prefer<strong>em</strong> exacerbar o sentimento<br />

antirrusso e anti-Putin. Durante mais de <strong>um</strong>a d<strong>é</strong>cada<br />

as duas agências do serviço secreto al<strong>em</strong>ão<br />

concentraram-se <strong>em</strong> esmiuçar a vida dos partidos<br />

e grupos de esquerda (al<strong>é</strong>m dos possíveis terroristas<br />

islâmicos) e negligenciaram criminosamente<br />

o controle sobre os grupos e terroristas al<strong>em</strong>ães.<br />

No momento o “grande terror” que se alastra no<br />

establishment europeu <strong>não</strong> <strong>é</strong> o de que a extr<strong>em</strong>a-<br />

-direita esteja <strong>em</strong> ascensão, <strong>em</strong>bora isto tamb<strong>é</strong>m<br />

preocupe, <strong>mas</strong> <strong>é</strong> o provocado pela possibilidade<br />

de que <strong>um</strong> partido de esquerda, o Syriza, vença as<br />

eleições na Gr<strong>é</strong>cia (marcadas para 25 de janeiro),<br />

forme <strong>um</strong> governo, e assim ponha <strong>em</strong> risco os<br />

sacrossantos pilares dos planos de austeridade.<br />

Nega-se o pilar da d<strong>em</strong>ocracia: contra o<br />

Syriza agitam- -se as ameaças de expulsão da<br />

Gr<strong>é</strong>cia da zona do euro e at<strong>é</strong> da União Europeia;<br />

ou seja, procura-se castrar a livre manifestação<br />

do povo grego atrav<strong>é</strong>s da chantag<strong>em</strong> política e<br />

econômica. Se as coisas continuar<strong>em</strong> como estão,<br />

poder<strong>em</strong>os estar assistindo o suicídio da Europa<br />

que conhec<strong>em</strong>os. O que nascerá destes escombros<br />

ainda se está por ver, <strong>mas</strong> boa coisa <strong>não</strong> será,<br />

n<strong>em</strong> para a Europa, n<strong>em</strong> para o mundo.<br />

17


Je ne suis pas Charlie<br />

(Eu <strong>não</strong> sou Charlie)<br />

Jos<strong>é</strong> Antonio Guti<strong>é</strong>rrez D. - s<strong>em</strong>anariovoz.com<br />

Não me identifico com a representação degradante e<br />

‘caricatural’ que charlie hebdo faz do mundo islâmico<br />

com toda a carga racista e colonialista.<br />

Começo esclarecendo, antes de mais nada,<br />

que considero <strong>um</strong>a atrocidade o ataque às redações<br />

da revista satírica Charlie Hebdo <strong>em</strong> Paris e que<br />

<strong>não</strong> acredito, <strong>em</strong> qualquer circunstância, ser justificável<br />

transformar <strong>um</strong> jornalista, por mais duvidosa<br />

que seja sua qualidade profissional, <strong>em</strong> <strong>um</strong><br />

objetivo militar. O mesmo <strong>é</strong> válido na França, assim<br />

como na Colômbia ou na Palestina. Tampouco<br />

me identifico com qualquer fundamentalismo,<br />

n<strong>em</strong> cristão, n<strong>em</strong> judeu, n<strong>em</strong> muçulmano, n<strong>em</strong><br />

tampouco com o bobo-secularismo afrancesado,<br />

que considera a sagrada “R<strong>é</strong>publique” <strong>um</strong>a deusa.<br />

Faço esses esclarecimentos necessários porque,<br />

por mais que insistam os gurus da alta polí-<br />

tica que na Europa viv<strong>em</strong>os <strong>em</strong> <strong>um</strong>a “d<strong>em</strong>ocracia<br />

ex<strong>em</strong>plar” com “grandes liberdades”, sab<strong>em</strong>os que<br />

o Grande Irmão nos vigia e que qualquer discurso<br />

que fuja à cartilha <strong>é</strong> castigado duramente. Mas<br />

<strong>não</strong> acredito que censurar o ataque contra a Charlie<br />

Hebdo seja sinônimo de celebrar <strong>um</strong>a revista<br />

que <strong>é</strong>, fundamentalmente, <strong>um</strong> mon<strong>um</strong>ento à<br />

intolerância, ao racismo e à arrogância colonial.<br />

Milhares de pessoas, compreensivelmente<br />

afetadas por esse atentado, fizeram circular<br />

mensagens <strong>em</strong> francês dizendo “Je suis Charlie”<br />

(Eu sou Charlie), como se esta mensag<strong>em</strong> fosse<br />

o último grito <strong>em</strong> defesa da liberdade. Pois então,<br />

eu <strong>não</strong> sou Charlie. Não me identifico com<br />

18 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


a representação degradante e “caricatural” faz<br />

do mundo islâmico <strong>em</strong> plena <strong>é</strong>poca da chamada<br />

“guerra contra o terror”, com toda a carga racista<br />

e colonialista que isso traz. Não posso ver com<br />

bons olhos essa constante agressão simbólica<br />

que t<strong>em</strong> como contrapartida <strong>um</strong>a agressão física<br />

e real, mediante os bombardeios e ocupações<br />

militares a países pertencentes a esse horizonte<br />

cultural.<br />

Tampouco posso ver com bons olhos essas<br />

caricaturas e <strong>seu</strong>s textos ofensivos quando os<br />

árabes são <strong>um</strong> dos setores mais marginalizados,<br />

<strong>em</strong>pobrecidos e explorados da sociedade francesa,<br />

tendo recebido historicamente <strong>um</strong> trato brutal:<br />

<strong>não</strong> me esqueço de que no metrô de Paris, no começo<br />

dos anos 60, a polícia <strong>mas</strong>sacrou a pauladas<br />

200 argelinos por d<strong>em</strong>andar o fim da ocupação<br />

francesa <strong>em</strong> <strong>seu</strong> país, algo que já havia deixado<br />

<strong>um</strong> saldo estimado de <strong>um</strong> milhão de “incivilizados”<br />

árabes mortos.<br />

Não se trata de inocentes caricaturas feitas<br />

por livres pensadores, <strong>mas</strong> sim de mensagens<br />

produzidas pelos meios de comunicação de <strong>mas</strong>sas<br />

(sim, ainda que se coloque como alternativa,<br />

Charlie Hebdo pertence aos meios de <strong>mas</strong>sas) carregadas<br />

de estereótipos e ódios, que reforçam <strong>um</strong><br />

discurso que entende os árabes como bárbaros<br />

aos quais <strong>é</strong> preciso conter, desaraigar, controlar,<br />

reprimir, oprimir e exterminar.<br />

Mensagens cujo propósito implícito <strong>é</strong> justificar<br />

as invasões a países do Oriente M<strong>é</strong>dio assim<br />

como as múltiplas intervenções e bombardeios<br />

que, pelo o Ocidente, são orquestradas <strong>em</strong> defesa<br />

da nova partilha imperial. O ator espanhol Willy<br />

Toledo disse, <strong>em</strong> <strong>um</strong>a declaração pol<strong>é</strong>mica <strong>–</strong> por<br />

apenas evidenciar o óbvio <strong>–</strong>, que “O Ocidente mata<br />

todos os dias. S<strong>em</strong> fazer barulho”. E isso <strong>é</strong> o que<br />

Charlie e <strong>seu</strong> h<strong>um</strong>or negro ocultam sob a forma<br />

de sátira.<br />

Não me esqueço do número 1099 da Charlie<br />

Hebdo, na qual se banalizava o <strong>mas</strong>sacre de<br />

mais de mil egípcios por <strong>um</strong>a brutal ditadura<br />

militar, que t<strong>em</strong> o consentimento da França e<br />

dos EUA, mediante <strong>um</strong>a <strong>um</strong>a capa que diz algo<br />

como: “Matança no Egito. O Corão <strong>é</strong> <strong>um</strong>a merda:<br />

<strong>não</strong> det<strong>é</strong>m as balas”. A caricatura era a de <strong>um</strong><br />

hom<strong>em</strong> muçulmano todo furado, enquanto se<br />

protegia com o Corão. Haverá qu<strong>em</strong> ache isso<br />

engraçado. Tamb<strong>é</strong>m, na sua <strong>é</strong>poca, os colonos<br />

ingleses na Terra do Fogo acreditavam que era<br />

engraçado tirar fotografias junto com indígenas<br />

que eles haviam “caçado”, com amplos sorrisos,<br />

espingarda na mão, e com o p<strong>é</strong> sobre o cadáver<br />

sangrento ainda quente.<br />

Em vez de engraçada, essa caricatura me parece<br />

violenta e colonial, <strong>um</strong> abuso da tão fictícia<br />

como manipulada liberdade de imprensa ocidental.<br />

O que aconteceria se eu fizesse agora <strong>um</strong>a<br />

revista cuja capa dissesse o seguinte: “Matança<br />

<strong>em</strong> Paris. Charlie Hebdo <strong>é</strong> <strong>um</strong>a merda: <strong>não</strong> det<strong>é</strong>m<br />

as balas” e fizesse <strong>um</strong>a caricatura do falecido<br />

Jean Cabut perfurado com <strong>um</strong>a cópia da revista<br />

<strong>em</strong> suas mãos É claro que seria <strong>um</strong> escândalo: a<br />

vida de <strong>um</strong> francês <strong>é</strong> sagrada. A de <strong>um</strong> egípcio (ou<br />

a de <strong>um</strong> palestino, iraquiano, sírio etc.) <strong>é</strong> material<br />

“h<strong>um</strong>orístico”. Por isso, <strong>não</strong> sou Charlie, pois para<br />

mim a vida de cada <strong>um</strong> dos egípcios perfurados<br />

<strong>é</strong> tão sagrada como a de qualquer desses caricaturistas<br />

hoje assassinados.<br />

Já sab<strong>em</strong>os o que v<strong>em</strong> de agora <strong>em</strong> diante:<br />

haverá discursos para defender a liberdade de<br />

imprensa por parte dos mesmos países que <strong>em</strong><br />

1999 deram a bênção ao bombardeio da OTAN,<br />

<strong>em</strong> Belgrado, da estação de TV Pública s<strong>é</strong>rvia<br />

por chamá-la de “o minist<strong>é</strong>rio de mentiras”;<br />

que se calaram quando israel bombardeou <strong>em</strong><br />

Beirute a estação de TV AL-Manar <strong>em</strong> 2006; que<br />

se calam diante dos assassinatos de jornalistas<br />

críticos colombianos e palestinos. Logo, da bela<br />

retórica pró-liberdade virá a ação liberticida:<br />

mais macartismo dito “antiterrorismo”, mais<br />

intervenções coloniais, mais restrições a essas<br />

“garantias d<strong>em</strong>ocráticas” <strong>em</strong> vias de extinção, e,<br />

<strong>é</strong> claro, mais racismo.<br />

A Europa se consome <strong>em</strong> <strong>um</strong>a espiral de<br />

ódio xenófobo, de islamofobia, de antiss<strong>em</strong>itismo<br />

(os palestinos são s<strong>em</strong>itas, de fato) e este<br />

ambiente se faz cada vez mais irrespirável. Os<br />

muçulmanos já são os judeus do s<strong>é</strong>culo XXI na<br />

Europa, e os partidos neonazistas estão se fazendo<br />

novamente respeitáveis 80 anos depois graças<br />

a este repugnante sentimento. Por tudo isso, <strong>em</strong><br />

que pese a repulsa que me causam os ataques de<br />

Paris, Je ne suis pas Charlie.<br />

Tradução de Daniella Cambauva<br />

19


Je ne suis pas Charlie,<br />

eu <strong>não</strong> sou Charlie<br />

Colunista<br />

Leonardo Boff<br />

As charges polêmicas do charlie<br />

hebdo, como os comentários<br />

políticos de colunistas da veja, são<br />

perigosas e de p<strong>é</strong>ssimo gosto.<br />

Nos envios anteriores este artigo saiu s<strong>em</strong> o<br />

<strong>nome</strong> do autor, por distração minha. Vinha n<strong>um</strong><br />

e-mail quatr<strong>em</strong>ains@uol.com.br e era atribuido<br />

ao Pe. Antonio Piber. Posteriormente coloquei o<br />

<strong>nome</strong> do Pe. Antonio Piber. Por fim vim a saber<br />

que o verdadeiro autor <strong>é</strong> o jornalista Rafo Saldanha.<br />

Encontra-se no <strong>seu</strong> blog:<strong>em</strong>tomd<strong>em</strong>imi.<br />

blogspot.com.br/2015/01 je-ne-suis-pas-charlie.<br />

html Aqui vai o texto original s<strong>em</strong> os acr<strong>é</strong>scimos<br />

feitos pelo Pe. Antonio Piber.<br />

El Rafo Saldanha<br />

Je ne suis pas Charlie<br />

Em primeiro lugar, eu condeno os atentados do<br />

dia do 7 de janeiro. Apesar de muitas vezes xingar<br />

e esbravejar no meio de discussões, sou <strong>um</strong> cara<br />

pacífico. A última vez que me envolvi <strong>em</strong> <strong>um</strong>a briga<br />

foi aos 13 anos (e apanhei feito <strong>um</strong> bicho). Não<br />

acho que a violência seja a melhor solução para<br />

nada. Um dos meus l<strong>em</strong>as <strong>é</strong> a frase de John Donne:<br />

“A morte de cada hom<strong>em</strong> diminui-me, pois<br />

faço parte da h<strong>um</strong>anidade; eis porque nunca me<br />

pergunto por qu<strong>em</strong> dobramos sinos: <strong>é</strong> por mim”.<br />

Não acho que nenh<strong>um</strong> dos cartunistas “mereceu”<br />

levar <strong>um</strong> tiro. Ningu<strong>é</strong>m merece. A morte <strong>é</strong> a<br />

sentença final, <strong>não</strong> permite que o sujeito evolua,<br />

mude. Em momento nenh<strong>um</strong>, eu quis que os<br />

cartunistas da Charlie Hebdo morress<strong>em</strong>. Mas<br />

eu queria que eles evoluíss<strong>em</strong>, que mudass<strong>em</strong>.<br />

Após o atentado, milhares de pessoas se<br />

levantaram no mundo todo para protestar contra<br />

os atentados. Eu tamb<strong>é</strong>m fiquei assustado, e<br />

comovido, com isso tudo. Na internet, surgiu o<br />

refrão para essas manifestações: Je Suis Charlie.<br />

E aí a coisa começou a me incomodar. A Charlie<br />

Hebdo <strong>é</strong> <strong>um</strong>a revista importante na França,<br />

fundada <strong>em</strong> 1970 e identificada com a esquerda<br />

pós- 68. Não vou falar de toda a trajetória do s<strong>em</strong>anário.<br />

Basta dizer que <strong>é</strong> mais ou menos o que<br />

foi o nosso Pasquim. Isso lá na França. 90% do<br />

mundo (eu inclusive) só foi conhecer a Charlie<br />

Hebdo <strong>em</strong> 2006, e já de <strong>um</strong>a forma bastante negativa:<br />

a revista republicou as charges do jornal<br />

dinamarquês Jyllands-Posten (identificado como<br />

“Liberal-Conservador”, ou seja, a direita europ<strong>é</strong>ia).<br />

E porque fez isso Oficialmente, <strong>em</strong> <strong>nome</strong> da “Liberdade<br />

de Expressão”, <strong>mas</strong> t<strong>em</strong> mais…<br />

O editor da revista na <strong>é</strong>poca era Philippe<br />

Val. O mesmo que escreveu <strong>um</strong> texto <strong>em</strong> 2000<br />

chamando os palestinos (sim! O povo todo) de<br />

“<strong>não</strong>-civilizados” (o que gerou críticas da colega<br />

de revista Mona Chollet <strong>–</strong> críticas que foram resolvidas<br />

com a saída dela). Ele ficou no comando<br />

at<strong>é</strong> 2009, quando foi substituído por St<strong>é</strong>phane<br />

Charbonnier, conhecido só como Charb. Foi sob<br />

20 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


o comando dele que a revista intensificou suas<br />

charges relacionadas ao Islã <strong>–</strong> ainda mais após o<br />

atentado que a revista sofreu <strong>em</strong> 2011.<br />

Uma pausa para o contexto. A França t<strong>em</strong><br />

6,2 milhões de muçulmanos. São, na maioria,<br />

imigrantes das ex-colônias francesas. Esses<br />

muçulmanos <strong>não</strong> estão inseridos igualmente na<br />

sociedade francesa. A grande maioria <strong>é</strong> pobre,<br />

legada à condição de “cidadão de segunda classe”.<br />

Após os atentados do World Trade Center, a<br />

situação piorou. Já ouvi de pessoas que saíram<br />

de <strong>um</strong> restaurante “com medo de atentado” só<br />

porque <strong>um</strong> árabe entrou. L<strong>em</strong>bro de ter lido <strong>um</strong>a<br />

pesquisa feita há alguns anos (desculp<strong>em</strong>, <strong>não</strong><br />

consegui achar a fonte) <strong>em</strong> que 20 currículos<br />

iguais eram distribuídos por <strong>em</strong>presas francesas.<br />

Eles eram praticamente iguais. A única diferença<br />

era o <strong>nome</strong> dos candidatos. Dez eram de homens<br />

com sobre<strong>nome</strong>s franceses, ou outros dez eram<br />

de homens com sobre<strong>nome</strong>s árabes. O currículo<br />

do francês teve mais que o dobro de contatos positivos<br />

do que os do candidato árabe. Isso foi há<br />

alguns anos. Antes da Frente Nacional, partido<br />

de ultra-direita de Marine Le Pen, conquistar 24<br />

cadeiras no parlamento europeu…<br />

De volta à Charlie Hebdo: Ont<strong>é</strong>m vi Ziraldo<br />

chamando os cartunistas mortos de “heróis”. O<br />

Diário do Centro do Mundo (DCM) os chamou de<br />

“gigantes do h<strong>um</strong>or politicamente incorreto”.<br />

No Twitter, muitos chamaram de “mártires da<br />

liberdade de expressão”. Vou colocar na conta do<br />

momento, da <strong>em</strong>oção. As charges polêmicas do<br />

Charlie Hebdo são de p<strong>é</strong>ssimo gosto, <strong>mas</strong> isso <strong>não</strong><br />

está <strong>em</strong> questão. O fato <strong>é</strong> que elas são perigosas,<br />

criminosas at<strong>é</strong>, por dois motivos.<br />

O primeiro <strong>é</strong> a intolerância. Na religião muçulmana,<br />

há <strong>um</strong> princípio que diz que o profeta<br />

Maom<strong>é</strong> <strong>não</strong> pode ser retratado, de forma alg<strong>um</strong>a.<br />

(Isso gera situações interessantes, como o filme<br />

A Mensag<strong>em</strong> <strong>–</strong> Ar Risalah, de 1976 <strong>–</strong> que conta a<br />

história do profeta s<strong>em</strong> desrespeitar esse dogma<br />

<strong>–</strong> as soluções encontradas são geniais!). Esse <strong>é</strong> <strong>um</strong><br />

preceito central da crença Islâmica, e desrespeitar<br />

isso desrespeita todos os muçulmanos. Fazendo<br />

<strong>um</strong> paralelo, <strong>é</strong> como se <strong>um</strong> pastor evang<strong>é</strong>lico<br />

chutasse a estátua de Nossa Senhora para atacar<br />

os católicos.<br />

Qual <strong>é</strong> o objetivo disso O próprio Charb<br />

“No Twitter, muitos chamaram<br />

de “mártires da liberdade<br />

de expressão”. Vou colocar<br />

na conta do momento,<br />

da <strong>em</strong>oção. As charges<br />

polêmicas do Charlie Hebdo<br />

são de p<strong>é</strong>ssimo gosto, <strong>mas</strong><br />

isso <strong>não</strong> está <strong>em</strong> questão. O<br />

fato <strong>é</strong> que elas são perigosas,<br />

criminosas at<strong>é</strong>”<br />

falou: “É preciso que o Islã esteja tão banalizado<br />

quanto o catolicismo”. Ok, o catolicismo foi banalizado.<br />

Mas isso aconteceu de dentro pra fora.<br />

Não nos foi imposto externamente. Note que ele<br />

<strong>não</strong> está falando <strong>em</strong> atacar alguns indivíduos<br />

radicais, alguns pontos específicos da doutrina<br />

islâmica, ou o fanatismo religioso. O alvo <strong>é</strong> o Islã,<br />

por si só. <strong>Há</strong> d<strong>é</strong>cadas os culturalistas já falavam<br />

da tentativa de impor os valores ocidentais ao<br />

mundo todo. Atacar a cultura alheia s<strong>em</strong>pre <strong>é</strong> <strong>um</strong><br />

ato imperialista. Na <strong>é</strong>poca das primeiras publicações,<br />

diversas associações islâmicas se sentiram<br />

ofendidas e decidiram processar a revista. Os<br />

tribunais franceses <strong>–</strong> famosos há mais de <strong>um</strong><br />

s<strong>é</strong>culo pela xenofobia e intolerâmcia (ver Caso<br />

Dreyfus) <strong>–</strong> deram ganho de causa para a revista.<br />

Foi como <strong>um</strong> incentivo. E a Charlie Hebdo abraçou<br />

esse incentivo e intensificou as charges e textos<br />

contra o Islã.<br />

Mas existe outro probl<strong>em</strong>a, ainda mais<br />

grave. A maneira como o jornal retratava os muçulmanos<br />

era s<strong>em</strong>pre ofensiva. Os adeptos do Islã<br />

s<strong>em</strong>pre estavam caracterizados por suas roupas<br />

típicas, e s<strong>em</strong>pre portando ar<strong>mas</strong> ou fazendo<br />

alusões à violência (quantos trocadilhos com<br />

“matar” e “explodir”…). Alguns arg<strong>um</strong>entam que<br />

o alvo era somente “os indivíduos radicais”, <strong>mas</strong><br />

a partir do momento que somente esses indivíduos<br />

são mostrados, cria-se <strong>um</strong>a generalização.<br />

N<strong>em</strong> s<strong>em</strong>pre existe <strong>um</strong> signo claro que indique<br />

que aquele muçulmano <strong>é</strong> <strong>um</strong> desviante, já que na<br />

maioria dos casos <strong>é</strong> só o desviante que aparece.<br />

É como se fiz<strong>é</strong>ss<strong>em</strong>os no Brasil <strong>um</strong>a charge de<br />

<strong>um</strong> negro assaltante e diss<strong>é</strong>ss<strong>em</strong>os que ela <strong>não</strong><br />

21


critica/estereotipa os negros, somente aqueles<br />

negros que assaltam…<br />

E aí colocamos esse tipo de mensag<strong>em</strong> na<br />

sociedade francesa, com <strong>seu</strong>s 10% de muçulmanos<br />

já marginalizados. O poeta satírico francês<br />

Jean de Santeul cunhou a frase: “Castigat ridendo<br />

mores” (cost<strong>um</strong>es são corrigidos rindo-se deles). A<br />

piada t<strong>em</strong> esse poder. Se a piada <strong>é</strong> preconceituosa,<br />

ela transmite o preconceito. Se ela s<strong>em</strong>pre retrata<br />

o árabe como terrorista, as pessoas começam a<br />

acreditar que todo árabe <strong>é</strong> terrorista. Se esse árabe<br />

terrorista dos quadrinhos se veste exatamente<br />

da mesma forma que <strong>seu</strong> vizinho muçulmano, a<br />

relação de identificação-projeção <strong>é</strong> criada mesmo<br />

que inconscient<strong>em</strong>ente. Os quadrinhos, capas e<br />

textos da Charlie Hebdo promoviam a Islamofobia.<br />

Como toda população marginalizada, os<br />

muçulmanos franceses são alvo de ataques de<br />

grupos de extr<strong>em</strong>a-direita. Esses ataques matam<br />

pessoas. Falar que “Com <strong>um</strong>a caneta eu <strong>não</strong> degolo<br />

ningu<strong>é</strong>m”, como disse Charb, <strong>é</strong> hipócrita. Com<br />

<strong>um</strong>a caneta se prega o ódio que mata pessoas.<br />

No artigo do Diário do Centro do Mundo,<br />

Paulo Nogueira diz: “Exist<strong>em</strong> dois tipos de h<strong>um</strong>or<br />

politicamente incorreto. Um <strong>é</strong> dest<strong>em</strong>ido, porque<br />

enfrenta perigos reais. O outro <strong>é</strong> covarde, porque<br />

pisa nos fracos. Os cartunistas do jornal francês<br />

Charlie Hebdo pertenciam ao primeiro grupo. Hu-<br />

moristas como Danilo Gentili e derivados estão no<br />

segundo.” Errado. Bater na população islâmica da<br />

França <strong>é</strong> covarde. É bater no mais fraco.<br />

Uma das defesas comuns ao estilo do Charlie<br />

Hebdo <strong>é</strong> dizer que eles tamb<strong>é</strong>m criticavam católicos<br />

e judeus. Isso me l<strong>em</strong>bra o já citado gênio do<br />

h<strong>um</strong>or (sqn) Danilo Gentilli, que dizia ser alvo de<br />

racismo ao ser chamado de Palmito (por ser alto<br />

e branco). Isso <strong>é</strong> canalha. Em nossa sociedade,<br />

ser alto e branco <strong>não</strong> <strong>é</strong> visto como ofensa, pelo<br />

contrário. E <strong>–</strong> mesmo que isso fosse racismo <strong>–</strong><br />

isso <strong>não</strong> daria direito a ele de ser racista com<br />

os outros. O fato do Charlie Hebdo desrespeitar<br />

outras religiões <strong>não</strong> <strong>é</strong> atenuante, <strong>é</strong> agravante. Se<br />

as outras religiões <strong>não</strong> reagiram a ofensa, isso<br />

<strong>é</strong> <strong>um</strong> probl<strong>em</strong>a delas. Ningu<strong>é</strong>m <strong>é</strong> obrigado a ser<br />

ofendido calado.<br />

“Mas isso <strong>é</strong> motivo para matar<strong>em</strong> os caras!”.<br />

Não. Claro que <strong>não</strong>. Ningu<strong>é</strong>m <strong>em</strong> sã consciência<br />

apoia os atentados. Os três atiradores<br />

representam o que há de pior na h<strong>um</strong>anidade:<br />

gente incapaz de dialogar. Mas <strong>é</strong> fato que o<br />

atentado poderia ter sido evitado. Bastava que a<br />

justiça francesa tivesse punido a Charlie Hebdo<br />

no primeiro excesso. Traçasse <strong>um</strong>a linha dizendo:<br />

“Desse ponto vocês <strong>não</strong> dev<strong>em</strong> passar”.<br />

“Mas isso <strong>é</strong> censura”, algu<strong>é</strong>m arg<strong>um</strong>entará.<br />

E eu direi, sim, <strong>é</strong> censura. Um dos significados<br />

22 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


da palavra “Censura” <strong>é</strong> repreender. A censura já<br />

existe. Quando se decide que você <strong>não</strong> pode sair<br />

simplesmente inventando histórias caluniosas<br />

sobre outra pessoa, isso <strong>é</strong> censura. Quando se diz<br />

que determinados discursos fomentam o ódio e<br />

por isso dev<strong>em</strong> ser evitados <strong>–</strong> como o racismo<br />

ou a homofobia <strong>–</strong> isso <strong>é</strong> censura. Ou mesmo<br />

situações mais banais: quando diz<strong>em</strong> que você<br />

<strong>não</strong> pode usar determinado personag<strong>em</strong> porque<br />

ele <strong>é</strong> propriedade de outra pessoa, isso tamb<strong>é</strong>m <strong>é</strong><br />

censura. N<strong>em</strong> toda censura <strong>é</strong> ruim.<br />

Por coincidência, <strong>um</strong> dos assuntos mais comentados<br />

do dia 6 de janeiro <strong>–</strong> v<strong>é</strong>spera dos atentados<br />

<strong>–</strong> foi a declaração do comediante Renato<br />

Aragão à revista Playboy. Ao falar das piadas preconceituosas<br />

dos anos 70 e 80, Didi disse: “Mas,<br />

naquela <strong>é</strong>poca, essas classes dos feios, dos negros<br />

e dos homossexuais, elas <strong>não</strong> se ofendiam.”. Errado.<br />

Muitos se ofendiam. Eles só <strong>não</strong> tinham<br />

meios de manifestar o descontentamento. Naquela<br />

<strong>é</strong>poca, tão cheia de censuras absurdas, essa seria<br />

<strong>um</strong>a censura positiva. Se algu<strong>é</strong>m tivesse dado<br />

esse toque nos Trapalhões lá atrás, talvez <strong>não</strong><br />

teríamos a minha geração achando normal fazer<br />

piada com negros e gays. Perderíamos alg<strong>um</strong>as<br />

risadas Talvez (duvido, os caras <strong>não</strong> precisavam<br />

disso para ser<strong>em</strong> engraçados). Mas se esse fosse o<br />

preço para se ter <strong>um</strong>a sociedade menos racista e<br />

homofóbica, eu escolheria s<strong>em</strong> dó. Renato Aragão<br />

parece ter entendido isso.<br />

Deixo claro que <strong>não</strong> estou defendendo a censura<br />

pr<strong>é</strong>via, s<strong>em</strong>pre burra. Não estou dizendo que<br />

deveria ter <strong>um</strong>a lista de palavras/situações que<br />

deveriam ser banidas do h<strong>um</strong>or. Estou dizendo<br />

que cada caso deveria ser julgado. Excessos dev<strong>em</strong><br />

ser punidos. Não <strong>é</strong> “Não fale”. É “Fale, <strong>mas</strong><br />

aguente as consequências”. E <strong>é</strong> melhor que as<br />

consequências venham na forma de processos<br />

judiciais do que balas de fuzis.<br />

Voltando à França, hoje t<strong>em</strong>os <strong>um</strong> país de<br />

luto. Por<strong>é</strong>m, alguns urubus são mais espertos do<br />

que outros, e já começamos a ver no que o atentado<br />

vai dar. Em discurso, Marine Le Pen declarou:<br />

“a nação foi atacada, a nossa cultura, o nosso<br />

modo de vida. Foi a eles que a guerra foi declarada”<br />

(grifo meu). Essa fala mostra exatamente as<br />

raízes da islamofobia. Para os setores nacionalistas<br />

franceses (de direita, centro ou esquerda),<br />

“Muitos se ofendiam.<br />

Eles só <strong>não</strong> tinham<br />

meios de manifestar o<br />

descontentamento. Naquela<br />

<strong>é</strong>poca, tão cheia de censuras<br />

absurdas, essa seria <strong>um</strong>a<br />

censura positiva. Se algu<strong>é</strong>m<br />

tivesse dado esse toque nos<br />

Trapalhões lá atrás, talvez <strong>não</strong><br />

teríamos a minha geração<br />

achando normal fazer piada<br />

com negros e gays.”<br />

<strong>é</strong> inadmissível que 10% da população do país <strong>não</strong><br />

tenha interesse <strong>em</strong> seguir “o modo de vida francês”.<br />

Essa colônia, que <strong>não</strong> se mistura, que <strong>não</strong><br />

abandona sua identidade, <strong>é</strong> extr<strong>em</strong>amente incômoda.<br />

Contra isso, todo tipo de medida <strong>é</strong> tomada.<br />

Desde leis que proíb<strong>em</strong> imigrantes de expressar<br />

sua religião at<strong>é</strong>… charges ridicularizando o estilo<br />

de vida dos muçulmanos! Muitos chargistas<br />

do mundo todo desenharam ar<strong>mas</strong> feitas com<br />

canetas para homenagear as víti<strong>mas</strong>. De longe,<br />

a homenag<strong>em</strong> parece válida. Quando chegam as<br />

notícias de que locais de culto islâmico na França<br />

foram atacados <strong>–</strong> <strong>um</strong> deles com granadas! <strong>–</strong> nessa<br />

madrugada, a coisa perde <strong>um</strong> pouco a beleza.<br />

É a resposta ao discurso de Le Pen, que pedia para<br />

a França declarar “guerra ao fundamentalismo”<br />

(<strong>mas</strong> que nos ouvidos dos xenófobos ecoa como<br />

“guerra aos muçulmanos” <strong>–</strong> e ela sabe disso).<br />

Por isso tudo, apesar de lamentar e repudiar<br />

o ato bárbaro de ont<strong>em</strong>, eu <strong>não</strong> sou Charlie. No<br />

twitter, <strong>um</strong> movimento <strong>–</strong> muito menor do que<br />

o #JeSuisCharlie <strong>–</strong> começa a surgir. Ele fala do<br />

policial, muçulmano, que morreu defendendo a<br />

“liberdade de expressão” para os cartunistas do<br />

Charlie Hebdo ofender<strong>em</strong>-no. Ele representa a<br />

enorme maioria da comunidade islâmica, que<br />

mesmo sofrendo ataques dos cartunistas franceses,<br />

mesmo sofrendo o ódio diário dos xenófobos<br />

e islamófobos, repudiaram o ataque. Je ne suis<br />

pas Charlie. Je suis Ahmed.<br />

23


Os outros Charlies<br />

Amy Goodman <strong>–</strong> Truthdig<br />

Entre os líderes mundiais que foram a paris condenar<br />

os ataques encontravam- se alguns dos maiores<br />

responsáveis pela repressão contra jornalistas do mundo.<br />

O <strong>mas</strong>sacre da Charlie Hebdo, o posterior assassinato<br />

de <strong>um</strong> policial e a matança no supermercado<br />

kosher Hyper Cachet comoveram o<br />

mundo. Jovens fanáticos com ar<strong>mas</strong> automáticas<br />

desencadearam <strong>um</strong>a torrente de violência e morte,<br />

alimentada por <strong>um</strong>a fervorosa intolerância.<br />

Na redação da revista satírica Charlie Hebdo <strong>em</strong><br />

Paris, doze pessoas foram assassinadas e onze<br />

ficaram feridas. A única culpa que as víti<strong>mas</strong><br />

podiam ter era a de expressar as suas ideias.<br />

S<strong>em</strong> dúvida, fi<strong>é</strong>is à sátira, várias das ideias eram<br />

muito ofensivas para muitas pessoas; neste caso,<br />

as caricaturas do profeta Maom<strong>é</strong>.<br />

Depois do <strong>mas</strong>sacre, pessoas de todo mundo<br />

expressaram a sua solidariedade com as víti<strong>mas</strong><br />

e com o povo de França. Entre os líderes mundiais<br />

que foram a Paris condenar os ataques<br />

encontravam-se alguns dos maiores responsáveis<br />

pela repressão contra jornalistas do mundo, <strong>em</strong><br />

particular de jornalistas árabes e muçulmanos.<br />

A Repórteres S<strong>em</strong> Fronteiras t<strong>em</strong> a sua sede<br />

central <strong>em</strong> Paris, <strong>não</strong> muito longe da redação da<br />

Charlie Hebdo. A notícia do ataque chegou rapidamente<br />

à sua sede. Lucie Morillon, diretora de<br />

progra<strong>mas</strong> da RSF, foi <strong>um</strong>a das primeiras pessoas<br />

a chegar ao local após o <strong>mas</strong>sacre contra os jornalistas<br />

da Charlie Hebdo. Entrevistei-a na cidade<br />

de Nova York, no dia seguinte à sua participação<br />

na <strong>marcha</strong> solidária de domingo 11 de janeiro <strong>em</strong><br />

Paris, que juntou mais de <strong>um</strong> milhão de pessoas.<br />

Ela recordou assim os acontecimentos da quarta-<br />

-feira sete de janeiro: “Estávamos n<strong>um</strong>a reunião<br />

a tratar de questões importantes, quando <strong>um</strong><br />

colega meu entrou na sede gesticulando como<br />

se se passasse algo importante e nos quisesse<br />

interromper. Eu fiz-lhe <strong>um</strong> olhar severo como<br />

que a dizer-lhe ‘Espero que seja importante’. E ele<br />

disse: ‘Passou-se algo de grave. Parece que houve<br />

disparos contra a Charlie Hebdo e poderá haver<br />

mortos’. Foi completamente comovente, totalmente<br />

surrealista. Agarramos nas nossas malas,<br />

cadernos e telefones e corr<strong>em</strong>os para a sede da<br />

Charlie Hebdo. Fica a cinco estações de metro da<br />

nossa sede, pelo que chegámos depressa. Não havia<br />

ningu<strong>é</strong>m, exceto os vizinhos juntos nas áreas<br />

restritas, at<strong>é</strong> que chegaram o Ministro do Interior,<br />

o presidente da Câmara de Paris e <strong>um</strong> conjunto de<br />

oficiais. Um dos oficiais reconheceu-nos, a mim e<br />

ao secretário-geral da Repórteres S<strong>em</strong> Fronteiras,<br />

Christophe Deloire, e pud<strong>em</strong>os entrar com eles<br />

na área restrita. Terminamos à frente da sede.<br />

Não entrámos porque era a cena do crime, <strong>mas</strong><br />

podíamos ver as balas no solo e pessoas a chorar.<br />

24 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


Um hom<strong>em</strong> saiu da sede e lançou-se nos braços<br />

do Presidente [François] Hollande, que já tinha<br />

chegado, e disse entre lágri<strong>mas</strong>, ‘Charb est mort’,<br />

‘Charb está morto’”. Referia-se a Stephane Charbonnier,<br />

caricaturista principal e diretor editorial<br />

da Charlie Hebdo.<br />

No domingo, dia das <strong>marcha</strong>s de solidariedade<br />

<strong>em</strong> toda a França, onde se juntaram cerca<br />

de quatro milhões de pessoas, o grupo declarou<br />

n<strong>um</strong> comunicado de imprensa: “A Repórteres S<strong>em</strong><br />

Fronteiras saúda a participação de muitos líderes<br />

estrangeiros na <strong>marcha</strong> de hoje <strong>em</strong> Paris, <strong>em</strong><br />

homenag<strong>em</strong> às víti<strong>mas</strong> dos ataques terroristas<br />

da s<strong>em</strong>ana passada e <strong>em</strong> defesa dos valores da<br />

república francesa; <strong>mas</strong> está indignada com a<br />

presença de autoridades de países que restring<strong>em</strong><br />

a liberdade de informação”. O grupo declarou que<br />

estava “consternado pela presença dos líderes de<br />

países onde jornalistas e blogers são perseguidos<br />

sist<strong>em</strong>aticamente, como Egito, Rússia, Turquia e<br />

Emiratos Árabes Unidos”.<br />

Em todo o planeta foram difundidas fotos e<br />

vídeos dos líderes mundiais de p<strong>é</strong>, de braços dados,<br />

encabeçando a grande manifestação. Houve muito<br />

barulho nos Estados Unidos devido à ausência<br />

de autoridades de alto nível do governo Obama.<br />

Apesar de o promotor geral Eric Holder estar <strong>em</strong><br />

Paris nesse dia, inexplicavelmente <strong>não</strong> assistiu à<br />

<strong>marcha</strong>. Por outro lado, assistiu o Ministro dos<br />

Negócios Estrangeiros do Egito, Sameh Shoukry,<br />

cujo governo encarcerou muitos jornalistas; particularmente<br />

três jornalistas da Al Jazeera, que<br />

permanec<strong>em</strong> detidos há mais de <strong>um</strong> ano: Peter<br />

Greste, Mohamed Fahmy e Baher Mohamed.<br />

O <strong>em</strong>baixador da Arábia Saudita na França<br />

tamb<strong>é</strong>m participou na manifestação. Dois dias antes,<br />

o <strong>seu</strong> governo tinha chicoteado o blogger Raif<br />

Badawi, que foi condenado a mil chicotadas que<br />

a monarquia saudita administra a <strong>um</strong> ritmo de<br />

cinquenta por s<strong>em</strong>ana. Delphine Hagland, diretora<br />

da Repórteres S<strong>em</strong> Fronteiras nos Estados Unidos,<br />

explicou: “Decidiram dividir as mil chicotadas <strong>em</strong><br />

várias sessões porque tinham medo de matá-lo”.<br />

Agora foi informado que os líderes mundiais<br />

<strong>não</strong> estavam na <strong>marcha</strong>, <strong>mas</strong> que se reuniram<br />

n<strong>um</strong>a rua fechada, longe da manifestação e sob<br />

vigilância para fazer a sessão de fotos, da qual saiu<br />

a imag<strong>em</strong> que o mundo viu. Em poucas palavras,<br />

foi o povo que tomou a liderança nesse dia, <strong>não</strong> os<br />

líderes. “Je Suis Charlie” ou “Eu sou Charlie”, foi o<br />

l<strong>em</strong>a de muitos. Outros publicaram no Twitter fotos<br />

ou transportaram cartazes que diziam “Eu <strong>não</strong><br />

sou Charlie”, condenando a violência s<strong>em</strong> apoiar<br />

as caricaturas da Charlie Hebdo. Uma muçulmana<br />

tinha <strong>um</strong> cartaz que dizia “Je Suis Juif” (“Eu sou<br />

judia”, <strong>em</strong> espanhol), <strong>em</strong> solidariedade com as<br />

víti<strong>mas</strong> judias. Outras pessoas tinham cartazes<br />

que diziam “Eu sou Ahmed” por Ahmed Merabet,<br />

o polícia francês muçulmano que foi assassinado<br />

<strong>em</strong> frente à sede da revista.<br />

Cerca de quatro milhões de pessoas saíram<br />

às ruas de França no passado domingo exigindo<br />

<strong>um</strong>a sociedade mais pacífica, na qual a liberdade<br />

de imprensa e a tolerância religiosa sejam mais<br />

fortes que a violência e o ódio.<br />

Artigo publicado <strong>em</strong> Truthdig <strong>em</strong><br />

14 de janeiro de 2015.<br />

Denis Moynihan colaborou na produção<br />

jornalística desta coluna.<br />

Texto <strong>em</strong> inglês traduzido por In<strong>é</strong>s Coira para<br />

espanhol para D<strong>em</strong>ocracy Now. Tradução para<br />

português de Carlos Santos para Esquerda.net<br />

25


A mis<strong>é</strong>ria do terror islâmico<br />

Reginaldo Nasser<br />

Nos EUA, desde 11/09/01, extr<strong>em</strong>istas de extr<strong>em</strong>adireita<br />

mataram mais do que extr<strong>em</strong>istas islâmicos.<br />

Veja outros dados que desment<strong>em</strong> teorias sobre o <strong>islã</strong>.<br />

O recente atentado terrorista <strong>em</strong> Paris, praticado<br />

por homens fort<strong>em</strong>ente armados e determinados,<br />

trouxe, novamente à tona, a nefasta conexão entre<br />

terrorismo e islamismo. Tanto o terrorismo<br />

como a religião, no caso o islamismo, são fenômenos<br />

sociais e, portanto, são passíveis de ser<br />

entendidos como tais a partir de pesquisas que se<br />

inser<strong>em</strong> dentro do campo das ciências h<strong>um</strong>anas.<br />

Não que os números sejam suficientes para nos<br />

fazer compreender o fenômeno, <strong>mas</strong> s<strong>em</strong> eles o<br />

acontecimento presente, ainda mais quando se<br />

trata de <strong>um</strong> pais como a França, se sobrepõe sobre<br />

o processo histórico atrapalhando nossa visão<br />

sobre o fenômeno.<br />

No dia 24 de set<strong>em</strong>bro de 2013 militantes<br />

argelinos, ligados ao ISIS, executaram <strong>um</strong> ref<strong>é</strong>m<br />

francês, após ter<strong>em</strong> solicitado ao governo frances<br />

que interrompesse <strong>seu</strong>s ataques a<strong>é</strong>reos no Iraque.<br />

No vídeo divulgado, os militantes denunciavam a<br />

intervenção dos “cruzados criminosos franceses”<br />

contra os muçulmanos na Arg<strong>é</strong>lia, no Mali e no<br />

Iraque. Naquele contexto, o governo de Hollande<br />

já havia declarado guerra ao ISIS, meses antes,<br />

sendo, inclusive, o único pais a autorizar envio<br />

de ar<strong>mas</strong> aos “rebeldes” na Siria.<br />

Após os ataques terroristas <strong>em</strong> Paris, foi a<br />

vez do primeiro ministro francês, Manuel Valls,<br />

declarar guerra contra o “terrorismo e o islamismo<br />

radical”, sinalizando que a França seguirá<br />

o roteiro traçado pelo presidente George Bush,<br />

após os ataques do dia 11 de Set<strong>em</strong>bro, quando<br />

conclamou os EUA e <strong>seu</strong>s aliados a <strong>em</strong>preender<br />

<strong>um</strong>a longa guerra global contra o terror. São<br />

declarações de guerra que produz<strong>em</strong> <strong>um</strong> duplo<br />

efeito. Ao mesmo t<strong>em</strong>po <strong>em</strong> que confer<strong>em</strong> <strong>um</strong><br />

estatuto de “quase estado” a essas organizações, a<br />

declaração de guerra vai mais al<strong>é</strong>m se dirigindo,<br />

mais especificamente, contra fenômenos tais<br />

como: “islamismo radical e “terrorismo”. Ora,<br />

<strong>um</strong>a das primeiras consequências desse tipo de<br />

guerra <strong>é</strong> que ela tende a ass<strong>um</strong>ir característica de<br />

ser perp<strong>é</strong>tua, pois será impossível eliminar por<br />

completo o terrorismo ou, mais ainda, o chamado<br />

islamismo radical. Al<strong>é</strong>m, disso à medida que a<br />

guerra <strong>é</strong> <strong>em</strong>preendida <strong>um</strong>a sucessão de outras<br />

“guerras” vai aparecendo, gradativamente, revelando<br />

os mais diversos inimigos e objetivos a<br />

ser<strong>em</strong> alcançados.<br />

Como s<strong>em</strong>pre acontece após atentados terroristas,<br />

que ganham notoriedade internacional,<br />

os políticos, pressionados pela sociedade que se<br />

sente insegura e fragilizada, faz<strong>em</strong> questão de<br />

dizer que serão tomadas novas medidas de segurança.<br />

Sendo que o destaque para o novo procura<br />

se justificar tentando mostrar que a ameaça atual<br />

seja s<strong>em</strong>pre percebida como pior que a anterior.<br />

“Ao mesmo t<strong>em</strong>po <strong>em</strong> que<br />

confer<strong>em</strong> <strong>um</strong> estatuto<br />

de ‘quase estado’ a<br />

essas organizações, a<br />

declaração de guerra vai<br />

mais al<strong>é</strong>m se dirigindo,<br />

mais especificamente,<br />

contra fenômenos tais<br />

como: “islamismo radical e<br />

“terrorismo”. Ora, <strong>um</strong>a das<br />

primeiras consequências desse<br />

tipo de guerra <strong>é</strong> que ela tende<br />

a ass<strong>um</strong>ir característica de ser<br />

perp<strong>é</strong>tua”<br />

26 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


Já notaram que os europeus se esqueceram dos<br />

atentados <strong>em</strong> Madrid e Londres <strong>em</strong> 2005<br />

Mas como esquecer que foram gastos pelos<br />

EUA e aliados trilhões de dólares para promover<br />

ações contra-terroristas Como esquecer os<br />

milhares de inocentes mortos nas invasões do<br />

Afeganistão e Iraque sob o arg<strong>um</strong>ento do combate<br />

ao terrorismo, al<strong>é</strong>m de milhares inocentes<br />

detidos Como esquecer que a tortura passou a ser<br />

praticada de forma sist<strong>em</strong>ática e a vigilância das<br />

pessoas se tornou algo permanente com significativa<br />

restrição dos direitos individuais Não se<br />

pode esquecer tamb<strong>é</strong>m que as forças armadas dos<br />

EUA já invadiram, ocuparam ou bombardearam<br />

13 paises islâmicos desde 1980. Os EUA possu<strong>em</strong><br />

mais de 20 bases militares <strong>em</strong> 6 países da região<br />

(Afeganistão, Bahrein, Djibuti, Emirados Árabes<br />

Unidos, Omã e Turquia) e destacamentos militares<br />

de larga escala <strong>em</strong> muitos outros, incluindo o<br />

Egito, Kuwait, Qatar, e Arábia Saudita. Não se pode<br />

esquecer que a partir do Governo Sarkozy a França<br />

triplicou <strong>seu</strong> orçamento de Defesa e Segurança,<br />

liderou as intervenções militares na Líbia e Mali<br />

e pressiona os EUA e aliados para intervir na Siria.<br />

27


Todas essas ações se justificam <strong>em</strong> torno da<br />

guerra contra o terror. B<strong>em</strong>, qual o resultado de<br />

tudo isso Vamos aos dados. No ano 2000, portanto,<br />

antes dos atentados do 11 de Set<strong>em</strong>bro de<br />

2001, por volta de 3800 foram mortas por ações<br />

terroristas no mundo. Já <strong>em</strong> 2013 foram cerca de<br />

18 mil pessoas assassinadas por ataques terroristas,<br />

ou seja, cinco vezes mais do que <strong>em</strong> 2000.<br />

Durante o mesmo período, a<strong>um</strong>entou o número<br />

de países que sofreram mais de 50 mortes por<br />

terrorismo, subindo de 15 para 24. Ou seja, <strong>não</strong><br />

só a intensidade do terrorismo <strong>é</strong> crescente, <strong>mas</strong>,<br />

sobretudo, sua amplitude.<br />

Por outro lado, apesar de ser <strong>um</strong> fenômeno<br />

globalmente distribuído, apenas 5% das mortes<br />

atribuídas ao terrorismo ocorreu <strong>em</strong> nações que<br />

faz<strong>em</strong> parte da OCDE que inclui alg<strong>um</strong>as das<br />

mais ricas economias do mundo. Já 85 % das 18<br />

mil mortes se concentram <strong>em</strong> 5 paises (Afeganistão,<br />

Iraque, Nig<strong>é</strong>ria, Paquistão e Síria). Não precisamos<br />

elaborar muito esses dados para constatar<br />

que, <strong>não</strong> por acaso, esses paises são cenários de<br />

conflitos, que contam com a participação (direta<br />

ou indireta) das chamadas potencias ocidentais<br />

(incluindo a Rússia no caso da Síria); e que a<br />

grande maioria das viti<strong>mas</strong> do terrorismo no<br />

mundo são islâmicos.<br />

Cabe destacar que o Iraque <strong>é</strong> o pais com o<br />

maior n<strong>um</strong>ero de mortos por terrorismo. Sendo<br />

que <strong>não</strong> há referencia a respeito de <strong>um</strong> único<br />

atentado terrorista se quer, nesse pais, antes<br />

da invasão militar <strong>em</strong> 2002. No que se refere<br />

aos EUA, durante o período 1991- 2000 foram 217<br />

mortes por atentados, e 50 apenas no período<br />

2002-2013. A exposição dos norte-americanos às<br />

ameaças terroristas no exterior <strong>em</strong> 2013 permaneceu<br />

baixa: 16 cidadãos norte-americanos foram<br />

mortos n<strong>um</strong> universo de 18 mil mortos no mundo<br />

inteiro e 7 foram feridos dentre os 32 mil no total.<br />

Em relação à Comunidade Europeia: 7 pessoas<br />

foram mortas <strong>em</strong> ataques terroristas <strong>em</strong> 2013:<br />

<strong>um</strong> soldado do ex<strong>é</strong>rcito Britânico e <strong>um</strong> muçulmano<br />

no Reino Unido; 2 m<strong>em</strong>bros de <strong>um</strong> partido de<br />

extr<strong>em</strong>a-direita na Gr<strong>é</strong>cia e 3 m<strong>em</strong>bros do (PKK, o<br />

Partido dos Trabalhadores do Curdistão) <strong>em</strong> Paris<br />

(França).<br />

Com todos os possíveis probl<strong>em</strong>as que esses<br />

dados possam ter, será que pod<strong>em</strong>os aceitar<br />

“Em 2013, <strong>em</strong> toda Europa,<br />

apenas 1 pessoa foi vitima de<br />

ataque terrorista jihadista”<br />

aquilo que t<strong>em</strong> sido divulgado, à exaustão, que o<br />

“Ocidente” <strong>é</strong> a maior vitima dos atentados terroristas<br />

no mundo Com esses dados e possível afi<br />

rmar que a guerra contra o terror t<strong>em</strong> tido sucesso<br />

Algu<strong>é</strong>m poderia responder afi rmativamente,<br />

cinicamente ou <strong>não</strong>, dado o pequeno n<strong>um</strong>ero de<br />

mortos na Europa e EUA; <strong>mas</strong> seria difícil <strong>não</strong> imputar<br />

responsabilidade as intervenções militares<br />

nos países islâmicos.<br />

Em 2013, 4 grupos terroristas (Taleban,<br />

Taleban do Paquistão, Isis e Boko Haram) foram<br />

responsáveis por 66% de todas as mortes<br />

provocadas por atos terroristas no mundo e,<br />

pelo menos, 25 mil pessoas, <strong>em</strong> <strong>um</strong>a d<strong>é</strong>cada.<br />

As origens da al-Qaeda e do Taliban pod<strong>em</strong> ser<br />

encontradas na guerra sovi<strong>é</strong>tica no Afeganistão,<br />

quando foram apoiados e armados pelos<br />

EUA e Arábia Saudita, assim como foi criado o<br />

Isis com o objetivo de derrotar Assad na Síria.<br />

Em relação à autoria dos atentados <strong>em</strong> países<br />

ocidentais, consta que nos EUA, desde 11/09,<br />

extr<strong>em</strong>istas afiliados com <strong>um</strong>a variedade de<br />

ideologias de extr<strong>em</strong>a-direita, incluindo supr<strong>em</strong>acistas<br />

brancos, extr<strong>em</strong>istas antiaborto<br />

e militantes anti-governo, mataram mais pessoas<br />

(34 pessoas) do que extr<strong>em</strong>istas motivados<br />

pela ideologia islâmica ( 21 pessoas). Em 2013,<br />

<strong>em</strong> toda Europa, apenas 1 pessoa foi vitima de<br />

ataque terrorista jihadista.<br />

Mas, apesar de <strong>seu</strong> caráter fantasioso, contrariando<br />

todos os dados mencionados acima, o<br />

mito do terror islâmico <strong>é</strong> realimentado a cada<br />

episódio de ataque terrorista que acontece no<br />

Ocidente. T<strong>em</strong>os que admitir que <strong>não</strong> há, at<strong>é</strong> o<br />

momento, <strong>um</strong>a falácia tão útil como essa que<br />

permite a<strong>um</strong>entar a produção de ar<strong>mas</strong>, fazer<br />

mais guerras, restringir cada vez mais a liberdade<br />

das pessoas, praticar a tortura e, no final de<br />

tudo isso, ter a corag<strong>em</strong> de dizer que essas ações<br />

são feitas para proteger-nos do mal que assola o<br />

mundo civilizado: o “islamismo radical”<br />

Fonte: Global Terrorism Database<br />

28 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


ŽiŽek: pensar o atentado<br />

ao charlie hebdo<br />

Slavoj ŽiŽek <strong>–</strong> Blog da Boit<strong>em</strong>po<br />

Qu<strong>em</strong> <strong>não</strong> estiver disposto a falar criticamente sobre<br />

a d<strong>em</strong>ocracia liberal deve tamb<strong>é</strong>m se calar sobre o<br />

fundamentalismo religioso.<br />

É agora <strong>–</strong> quando estamos todos <strong>em</strong> estado<br />

de choque depois da carnificina na sede do Charlie<br />

Hebdo <strong>–</strong> o momento certo para encontrar corag<strong>em</strong><br />

para pensar. Agora, e <strong>não</strong> depois, quando as<br />

coisas acalmar<strong>em</strong>, como tentam nos convencer<br />

os proponentes da sabedoria barata: o difícil <strong>é</strong> justamente<br />

combinar o calor do momento com o ato<br />

de pensar. Pensar quando o rescaldo dos eventos<br />

esfriar <strong>não</strong> gera <strong>um</strong>a verdade mais balanceada,<br />

ela na verdade normaliza a situação de forma<br />

a nos permitir evitar as verdades mais afiadas.<br />

Pensar significa ir adiante do pathos da solidariedade<br />

universal que explodiu nos dias que<br />

sucederam o evento e culminaram no espetáculo<br />

de domingo, 11 de janeiro de 2015, com grandes<br />

<strong>nome</strong>s políticos ao redor do globo de mãos dadas,<br />

de Cameron a Lavrov, de Netanyahu a Abbas <strong>–</strong><br />

talvez a imag<strong>em</strong> mais b<strong>em</strong> acabada da falsidade<br />

hipócrita. O verdadeiro gesto Charlie Hebdo seria<br />

ter publicado na capa do s<strong>em</strong>anário <strong>um</strong>a grande<br />

caricatura brutalmente e grosseiramente tirando<br />

sarro desse evento, com cartuns de Netanyahu e<br />

Abbas, Lavrov e Cameron, e outros casais se abra-<br />

çando e beijando intensamente enquanto afiam<br />

facas por trás de suas costas.<br />

Dev<strong>em</strong>os, <strong>é</strong> claro, condenar s<strong>em</strong> ambiguidade<br />

os homicídios como <strong>um</strong> ataque contra a<br />

essência de nossas liberdades, e condená-los<br />

s<strong>em</strong> nenh<strong>um</strong>a ressalva oculta (como qu<strong>em</strong> diria<br />

“Charlie Hebdo estava todavia provocando e<br />

h<strong>um</strong>ilhando os muçulmanos d<strong>em</strong>ais da conta”).<br />

Dev<strong>em</strong>os tamb<strong>é</strong>m rejeitar toda abordag<strong>em</strong> calcada<br />

no efeito mitigante do apelo ao “contexto<br />

mais amplo”: algo como “os irmãos terroristas<br />

eram profundamente afetados pelos horrores<br />

da ocupação estadunidense do Iraque” (OK, <strong>mas</strong><br />

então por que <strong>não</strong> simplesmente atacaram alg<strong>um</strong>a<br />

instalação militar norte-americana ao<br />

inv<strong>é</strong>s de <strong>um</strong> s<strong>em</strong>anário satírico francês), ou<br />

como “muçulmanos são de fato <strong>um</strong>a minoria<br />

explorada e escassamente tolerada” (OK, <strong>mas</strong><br />

negros afro-descendentes são tudo isso e mais e<br />

no entanto <strong>não</strong> praticam atentados a bomba ou<br />

chacinas), etc. etc. O probl<strong>em</strong>a com tal evocação<br />

da complexidade do pano de fundo <strong>é</strong> que ele pode<br />

muito b<strong>em</strong> ser usado a propósito de Hitler: ele<br />

29


O que <strong>é</strong> muito mais necessário que a d<strong>em</strong>onização<br />

dos terroristas como fanáticos suicidas<br />

heroicos <strong>é</strong> <strong>um</strong> des<strong>mas</strong>caramento desse mito d<strong>em</strong>oníaco.<br />

Muito t<strong>em</strong>po atrás, Friedrich Nietzsche<br />

percebeu como a civilização ocidental estava se<br />

movendo na direção do “último hom<strong>em</strong>”, <strong>um</strong>a<br />

criatura apática com nenh<strong>um</strong>a grande paixão ou<br />

comprometimento. Incapaz de sonhar, cansado<br />

da vida, ele <strong>não</strong> ass<strong>um</strong>e nenh<strong>um</strong> risco, buscando<br />

apenas o conforto e a segurança, <strong>um</strong>a expressão<br />

de tolerância com os outros: “Um pouquinho de<br />

veneno de t<strong>em</strong>pos <strong>em</strong> t<strong>em</strong>pos: que garante sonhos<br />

agradáveis. E muito veneno no final, para<br />

<strong>um</strong>a morte agradável. Eles têm <strong>seu</strong>s pequenos<br />

prazeres de dia, e <strong>seu</strong>s pequenos prazeres de noite,<br />

<strong>mas</strong> têm <strong>um</strong> zelo pela saúde. ‘Descobrimos a<br />

felicidade,’ diz<strong>em</strong> os últimos homens, e piscam.”<br />

Pode efetivamente parecer que a cisão entre<br />

o Primeiro Mundo permissivo e a reação fundamentalista<br />

a ele passa mais ou menos nas linhas<br />

da oposição entre levar <strong>um</strong>a longa e gratificante<br />

vida cheia de riquezas materiais e culturais, e<br />

dedicar sua vida a alg<strong>um</strong>a Causa transcendente.<br />

Não <strong>é</strong> esse o antagonismo entre o que Nietzsche<br />

denominava niilismo “passivo” e “ativo” Nós<br />

no ocidente somos os “últimos homens” nietzschianos,<br />

imersos <strong>em</strong> prazeres cotidianos banais,<br />

enquanto os radicais muçulmanos estão prontos<br />

a arriscar tudo, comprometidos com a luta at<strong>é</strong><br />

sua própria autodestruição. O po<strong>em</strong>a “The Second<br />

Comming” [O segundo advento], de William Butler<br />

Yeats parece perfeitamente res<strong>um</strong>ir nosso<br />

predicamento atual: “Os melhores carec<strong>em</strong> de<br />

toda convicção, enquanto os piores são cheios de<br />

intensidade apaixonada”. Esta <strong>é</strong> <strong>um</strong>a excelente<br />

descrição da atual cisão entre liberais anêmicos<br />

e fundamentalistas apaixonados. “Os melhores”<br />

<strong>não</strong> são mais capazes de se <strong>em</strong>penhar inteiramente,<br />

enquanto “os piores” se <strong>em</strong>penham <strong>em</strong><br />

fanatismo racista, religioso e machista.<br />

No entanto, será que os terroristas fundamentalistas<br />

realmente se encaixam nessa descrição<br />

O que obviamente lhes carece <strong>é</strong> <strong>um</strong> el<strong>em</strong>ento<br />

que <strong>é</strong> fácil identificar <strong>em</strong> todos os autênticos<br />

fundamentalistas, dos budistas tibetanos aos<br />

amistas nos EUA: a ausência de ressentimento<br />

e inveja, a profunda indiferença perante o modo<br />

de vida dos <strong>não</strong>-crentes. Se os ditos fundamentamb<strong>é</strong>m<br />

coordenou <strong>um</strong>a mobilização diante da<br />

injustiça do tratado de Versalhes, <strong>mas</strong> no entanto<br />

era completamente justificável combater<br />

o regime nazista com todos os meios à nossa<br />

disposição. A questão <strong>não</strong> <strong>é</strong> se os antecedentes,<br />

agravos e ressentimentos que condicionam atos<br />

terroristas são verdadeiros ou <strong>não</strong>, o importante<br />

<strong>é</strong> o projeto político-ideológico que <strong>em</strong>erge como<br />

reação contra injustiças.<br />

Nada disso <strong>é</strong> suficiente <strong>–</strong> t<strong>em</strong>os que pensar<br />

adiante. E o pensar de que falo <strong>não</strong> t<strong>em</strong> absolutamente<br />

nada a ver com <strong>um</strong>a relativização<br />

fácil do crime (o mantra do “qu<strong>em</strong> somos nós<br />

ocidentais, que comet<strong>em</strong>os <strong>mas</strong>sacres terríveis<br />

no terceiro mundo, para condenar atos como<br />

estes”). E t<strong>em</strong> menos ainda a ver com o medo<br />

patológico de tantos esquerdistas liberais ocidentais<br />

de sentir<strong>em</strong>-se culpados de islamofobia. Para<br />

estes falsos esquerdistas, qualquer crítica ao Islã <strong>é</strong><br />

rechaçada como expressão da islamofobia ocidental:<br />

Salman Rushdie foi acusado de ter provocado<br />

desnecessariamente os muçulmanos, e <strong>é</strong> portanto<br />

responsável (ao menos <strong>em</strong> parte) pelo fatwa que<br />

o condenou à morte etc.<br />

O resultado de tal postura só pode ser esse:<br />

o quanto mais os esquerdistas liberais ocidentais<br />

mergulham <strong>em</strong> <strong>seu</strong> sentimento de culpa, mais<br />

são acusados por fundamentalistas muçulmanos<br />

de ser<strong>em</strong> hipócritas tentando ocultar <strong>seu</strong> ódio ao<br />

Islã. Esta constelação perfeitamente reproduz o<br />

paradoxo do superego: o quanto mais você obedece<br />

o que o outro exige de você, mais culpa sentirá.<br />

É como se o quanto mais você tolerar o Islã, tanto<br />

mais forte será sua pressão <strong>em</strong> você…<br />

É por isso que tamb<strong>é</strong>m me parec<strong>em</strong> insuficientes<br />

os pedidos de moderação que surgiram<br />

na linha da alegação de Simon Jenkins (no The<br />

Guardian de 7 de janeiro) de que nossa tarefa seria<br />

a de “<strong>não</strong> exagerar a reação, <strong>não</strong> sobre-publicizar<br />

o impacto do acontecimento. É tratar cada evento<br />

como <strong>um</strong> acidente passageiro do horror” <strong>–</strong> o atentado<br />

ao Charlie Hebdo <strong>não</strong> foi <strong>um</strong> mero “acidente<br />

passageiro do horror”. Ele seguiu <strong>um</strong>a agenda religiosa<br />

e política precisa e foi como tal claramente<br />

parte de <strong>um</strong> padrão muito mais amplo. É claro que<br />

<strong>não</strong> dev<strong>em</strong>os nos exaltar <strong>–</strong> se por isso compreendermos<br />

<strong>não</strong> suc<strong>um</strong>bir à islamofobia cega <strong>–</strong> <strong>mas</strong><br />

dev<strong>em</strong>os implacavelmente analisar este padrão.<br />

30 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


talistas de hoje realmente acreditam que encontraram<br />

<strong>seu</strong> caminho à Verdade, por que deveriam<br />

se sentir ameaçados por <strong>não</strong>-crentes, por que deveriam<br />

invejá-los Quando <strong>um</strong> budista encontra<br />

<strong>um</strong> hedonista ocidental, ele dificilmente o condena.<br />

Ele só benevolent<strong>em</strong>ente nota que a busca do<br />

hedonista pela felicidade <strong>é</strong> auto- -derrotante. Em<br />

contraste com os verdadeiros fundamentalistas,<br />

os p<strong>seu</strong>do-fundamentalistas terroristas são profundamente<br />

incomodados, intrigados, fascinados<br />

pela vida pecaminosa dos <strong>não</strong>-crentes. T<strong>em</strong>-se a<br />

sensação de que, ao lutar contra o outro pecador,<br />

eles estão lutando contra sua própria tentação.<br />

É aqui que o diagnóstico de Yeats escapa ao<br />

atual predicamento: a intensidade apaixonada<br />

dos terroristas evidencia <strong>um</strong>a falta de verdadeira<br />

convicção. O quão frágil <strong>não</strong> t<strong>em</strong> de ser a crença<br />

de <strong>um</strong> muçulmano para que ele se sinta ameaçado<br />

por <strong>um</strong>a caricatura besta <strong>em</strong> <strong>um</strong> s<strong>em</strong>anário<br />

satírico O terror islâmico fundamentalista <strong>não</strong> <strong>é</strong><br />

fundado na convicção dos terroristas de sua superioridade<br />

e <strong>em</strong> <strong>seu</strong> desejo de salvaguardar sua<br />

identidade cultural-religiosa diante da investida<br />

da civilização global cons<strong>um</strong>ista.<br />

O probl<strong>em</strong>a com fundamentalistas <strong>não</strong> <strong>é</strong><br />

que consideramos eles inferiores a nós, <strong>mas</strong> sim<br />

que eles próprios secretamente se consideram<br />

inferiores. É por isso que nossas reafirmações<br />

politicamente corretas condescendentes de que<br />

<strong>não</strong> sentimos superioridade alg<strong>um</strong>a perante a<br />

eles só os faz<strong>em</strong> mais furiosos, alimentando <strong>seu</strong><br />

ressentimento. O probl<strong>em</strong>a <strong>não</strong> <strong>é</strong> a diferença cultural<br />

(<strong>seu</strong> <strong>em</strong>penho <strong>em</strong> preservar sua identidade),<br />

<strong>mas</strong> o fato inverso de que os fundamentalistas já<br />

são como nós, que eles secretamente já internalizaram<br />

nossas nor<strong>mas</strong> e se med<strong>em</strong> a partir delas.<br />

Paradoxalmente, o que os fundamentalistas verdadeiramente<br />

carec<strong>em</strong> <strong>é</strong> precisamente <strong>um</strong>a dose<br />

daquela convicção verdadeiramente “racista” de<br />

sua própria superioridade.<br />

As recentes vicissitudes do fundamentalismo<br />

muçulmano confirmam o velho insight<br />

benjaminiano de que “toda ascensão do fascismo<br />

evidencia <strong>um</strong>a revolução fracassada”: a ascensão<br />

do fascismo <strong>é</strong> a falência da esquerda, <strong>mas</strong> simultaneamente<br />

<strong>um</strong>a prova de que havia potencial<br />

revolucionário, descontentamento, que a esquerda<br />

<strong>não</strong> foi capaz de mobilizar.<br />

E o mesmo <strong>não</strong> vale para o dito “islamo-fascismo”<br />

de hoje A ascensão do islamismo radical<br />

<strong>não</strong> <strong>é</strong> exatamente correlativa à desaparição da esquerda<br />

secular nos países muçulmanos Quando,<br />

lá na primavera de 2009, o Taliban tomou o vale<br />

do Swat no Paquistão, o New York Times publicou<br />

que eles arquitetaram <strong>um</strong>a “revolta de classe que<br />

explora profundas fi ssuras entre <strong>um</strong> pequeno<br />

grupo de proprietários abastados e <strong>seu</strong>s inquilinos<br />

s<strong>em</strong> terra”. Se, no entanto, ao “tirar vantag<strong>em</strong>”<br />

da condição dos camponeses, o Taliban está<br />

“chamando atenção para os riscos ao Paquistão,<br />

que permanece <strong>em</strong> grande parte feudal”, o que<br />

garante que os d<strong>em</strong>ocratas liberais no Paquistão,<br />

b<strong>em</strong> como os EUA, tamb<strong>é</strong>m <strong>não</strong> “tir<strong>em</strong> vantag<strong>em</strong>”<br />

dessa condição e procur<strong>em</strong> ajudar os camponeses<br />

s<strong>em</strong> terra A triste implicação deste fato <strong>é</strong> que as<br />

forças feudais no Paquistão são os “aliados naturais”<br />

da d<strong>em</strong>ocracia liberal… Mas como ficam<br />

então os valores fundamentais do liberalismo<br />

(liberdade, igualdade, etc.) O paradoxo <strong>é</strong> que o<br />

próprio liberalismo <strong>não</strong> <strong>é</strong> forte o suficiente para<br />

salvá-los contra a investida fundamentalista. O<br />

fundamentalismo <strong>é</strong> <strong>um</strong>a reação <strong>–</strong> <strong>um</strong>a reação<br />

falsa, mistificadora, <strong>é</strong> claro <strong>–</strong> contra <strong>um</strong>a falha<br />

real do liberalismo, e <strong>é</strong> por isso que ele <strong>é</strong> repetidamente<br />

gerado pelo liberalismo. Deixado à própria<br />

sorte, o liberalismo lentamente minará a si próprio<br />

<strong>–</strong> a única coisa que pode salvar <strong>seu</strong>s valores<br />

originais <strong>é</strong> <strong>um</strong>a esquerda renovada. Para que esse<br />

legado fundamental sobreviva, o liberalismo precisa<br />

da ajuda fraterna da esquerda radical. Essa<br />

<strong>é</strong> a única forma de derrotar o fundamentalismo,<br />

varrer o chão sobre <strong>seu</strong>s p<strong>é</strong>s.<br />

Pensar os assassinatos de Paris significa abrir<br />

mão da auto-satisfação presunçosa de <strong>um</strong> liberal<br />

permissivo e aceitar que o conflito entre a permissividade<br />

liberal e o fundamentalismo <strong>é</strong> essencialmente<br />

<strong>um</strong> falso conflito <strong>–</strong> <strong>um</strong> círculo vicioso de<br />

dois polos gerando e pressupondo <strong>um</strong> ao outro. O<br />

que Max Horkheimer havia dito sobre o fascismo<br />

e o capitalismo já nos anos 1930 <strong>–</strong> que aqueles que<br />

<strong>não</strong> estiver<strong>em</strong> dispostos a falar criticamente sobre<br />

o capitalismo dev<strong>em</strong> se calar sobre o fascismo <strong>–</strong><br />

deve ser aplicada tamb<strong>é</strong>m ao fundamentalismo<br />

de hoje: qu<strong>em</strong> <strong>não</strong> estiver disposto a falar criticamente<br />

sobre a d<strong>em</strong>ocracia liberal deve tamb<strong>é</strong>m se<br />

calar sobre o fundamentalismo religioso.<br />

31


Charlie Hebdo: Terror de<br />

Paris pode ter orig<strong>em</strong> na<br />

Arg<strong>é</strong>lia de 1954<br />

Robert Fisk<br />

Nada ocorre s<strong>em</strong> <strong>um</strong> passado. A arg<strong>é</strong>lia <strong>é</strong> a ferida póscolonial<br />

que ainda sangra na frança, e o terrorismo de<br />

hoje t<strong>em</strong> claras ligações com estas chagas.<br />

Muito antes da polícia francesa revelar a identidade<br />

dos suspeitos do assassinato <strong>–</strong> inclusive, antes<br />

de eu ter ouvido os <strong>nome</strong>s de Cherif e Said Kouachi<br />

<strong>–</strong>, murmurei a palavra “Arg<strong>é</strong>lia” a mim mesmo.<br />

Tão logo escutei os <strong>nome</strong>s e vi as faces, disse outra<br />

vez a palavra “Arg<strong>é</strong>lia”. E então a polícia francesa<br />

disse que os homens eram de “orig<strong>em</strong> argelina”.<br />

Pois a Arg<strong>é</strong>lia continua sendo a mais dolorosa<br />

ferida no corpo político da República <strong>–</strong> exceto,<br />

talvez, por sua contínua autoanálise da ocupação<br />

nazista <strong>–</strong> e proporciona <strong>um</strong> contexto t<strong>em</strong>eroso<br />

para cada ato de violência árabe contra a França.<br />

A guerra argelina pela independência, que durou<br />

seis anos, e na qual talvez 1 milhão de muçulmanos<br />

árabes e muitas milhares de mulheres<br />

e homens franceses morreram, continua sendo<br />

<strong>um</strong>a agonia s<strong>em</strong> fim e s<strong>em</strong> resolução para ambos<br />

os povos. <strong>Há</strong> pouco mais de meio s<strong>é</strong>culo, quase<br />

teve início <strong>um</strong>a guerra civil francesa.<br />

Talvez todos os informes jornalísticos e televisivos<br />

devess<strong>em</strong> conter <strong>um</strong> “pedaço de história”,<br />

<strong>um</strong>a pequena recordação de que nada <strong>–</strong> absolutamente<br />

nada <strong>–</strong> ocorre s<strong>em</strong> <strong>um</strong> passado. Massacres,<br />

derramamento de sangue, fúria, tristeza, caçadas<br />

policiais (“a<strong>um</strong>entando” ou “diminuindo”, como<br />

subeditores gostam) ganham manchetes. S<strong>em</strong>pre<br />

<strong>é</strong> o “qu<strong>em</strong>” e o “como” <strong>–</strong> <strong>mas</strong> raramente o “porquê”.<br />

Pegu<strong>em</strong> o crime de lesa-h<strong>um</strong>anidade <strong>em</strong><br />

Paris esta s<strong>em</strong>ana <strong>–</strong> as palavras “atrocidade” e<br />

“barbárie” de alg<strong>um</strong>a forma diminu<strong>em</strong> a selvageria<br />

deste ano <strong>–</strong> e suas consequências imediatas.<br />

Nós conhec<strong>em</strong>os as víti<strong>mas</strong>: jornalistas,<br />

caricaturistas e policiais. E como morreram. Homens<br />

armados e encapuzados, fuzis automáticos<br />

Kalashnikov, indiferença cruel, quase profissional.<br />

E a resposta ao “porquê” foi proveitosamente<br />

dita pelos assassinos. Queriam vingar “o Profeta”<br />

pelas irreverentes (para os muçulmanos) e altamente<br />

ofensivas caricaturas. E, <strong>é</strong> claro, dev<strong>em</strong>os<br />

repetir o mantra: nada <strong>–</strong> nada mesmo <strong>–</strong> poderia<br />

justificar esses atos cru<strong>é</strong>is de assassinato <strong>em</strong><br />

<strong>mas</strong>sa. E <strong>não</strong>, os assassinos <strong>não</strong> pod<strong>em</strong> recorrer<br />

à história para justificar <strong>seu</strong>s crimes.<br />

Mas há <strong>um</strong> contexto importante que, de alg<strong>um</strong>a<br />

forma, esteve fora da história desta s<strong>em</strong>ana,<br />

o “pedaço de história” que muitos franceses e<br />

argelinos prefer<strong>em</strong> ignorar: a batalha (1954-1962)<br />

32 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


de <strong>um</strong> povo inteiro por liberdade contra <strong>um</strong> regime<br />

imperial brutal, <strong>um</strong>a guerra prolongada que<br />

continua sendo a briga fundacional de árabes e<br />

franceses at<strong>é</strong> os dias de hoje. A crise desesperada<br />

e permanente nas relações franco- -argelinas,<br />

como a recusa de <strong>um</strong> casal divorciado <strong>em</strong> aceitar<br />

<strong>um</strong>a narrativa acordada de sua tristeza, envenena<br />

a convivência desses dois povos na França. No<br />

entanto, Cherif e Said Kouachi justificaram suas<br />

ações, eles que nasceram <strong>em</strong> <strong>um</strong> t<strong>em</strong>po no qual<br />

a Arg<strong>é</strong>lia havia sido invisivelmente mutilada por<br />

132 anos de ocupação. Talvez 5 milhões dos 6,5<br />

milhões de muçulmanos na França sejam argelinos.<br />

A maioria <strong>é</strong> pobre e muitos se consideram<br />

cidadãos de segunda classe na terra da igualdade.<br />

Como <strong>em</strong> todas as trag<strong>é</strong>dias, a Arg<strong>é</strong>lia ilude<br />

a explicação de <strong>um</strong> só parágrafo dos despachos<br />

das agências de notícias e inclusive as histórias<br />

mais curtas escritas por ambos os lados após os<br />

franceses ter<strong>em</strong> abandonado a Arg<strong>é</strong>lia, <strong>em</strong> 1962.<br />

Diferente de outras importantes colônias<br />

francesas, a Arg<strong>é</strong>lia foi considerada como <strong>um</strong>a<br />

parte integrante da França metropolitana, enviando<br />

representantes ao parlamento francês <strong>em</strong><br />

Paris e at<strong>é</strong> mesmo fornecendo a Charles de Gaulle<br />

e aos aliados <strong>um</strong>a “capital” francesa por meio da<br />

qual invadir o Norte da África e a Sicília, então<br />

ocupados pelos nazistas.<br />

Mais de 100 anos antes, a França havia<br />

ela própria invadido a Arg<strong>é</strong>lia, subjugando sua<br />

população muçulmana nativa, construindo pequenas<br />

cidades francesas e castelos no interior e<br />

at<strong>é</strong> mesmo (<strong>em</strong> <strong>um</strong> s<strong>é</strong>culo XIX de Renascimento<br />

católico, que deveria “recristianizar” o Norte da<br />

África) transformando mesquitas <strong>em</strong> igrejas.<br />

A resposta argelina ao que hoje parece <strong>um</strong><br />

monstruoso anacronismo histórico variou no<br />

curso das d<strong>é</strong>cadas entre a lassidão, a colaboração<br />

e a insurreição. Uma manifestação pela independência<br />

na população nacionalista e de maioria<br />

muçulmana de Setif, o Dia da Vitória <strong>–</strong> quando<br />

os aliados haviam liberado as nações europeias<br />

<strong>–</strong>, des<strong>em</strong>bocou na morte de 103 civis europeus.<br />

A vingança do governo francês foi impiedosa:<br />

at<strong>é</strong> 700 civis muçulmanos <strong>–</strong> talvez muito<br />

mais <strong>–</strong> foram mortos por enfurecidos “colonos”<br />

franceses com <strong>um</strong> bombardeio das cidades próxi<strong>mas</strong><br />

com aviões e tamb<strong>é</strong>m por <strong>um</strong> cruzeiro naval<br />

da França. O mundo prestou pouca atenção.<br />

Mas quando <strong>um</strong>a insurreição <strong>em</strong> grande<br />

escala se iniciou <strong>em</strong> 1954 <strong>–</strong> a princípio, <strong>é</strong> claro,<br />

com poucas perdas de vidas francesas e logo<br />

ataques ao ex<strong>é</strong>rcito francês <strong>–</strong>, a sombria guerra<br />

de libertação argelina foi quase predeterminada.<br />

Vencido nessa clássica batalha anticolonial<br />

do pós-guerra <strong>em</strong> Dien Bien Phu, o ex<strong>é</strong>rcito<br />

francês, logo após <strong>seu</strong> desastre <strong>em</strong> 1940, parecia<br />

vulnerável aos mais românticos nacionalistas<br />

argelinos, que notaram a nova h<strong>um</strong>ilhação da<br />

França <strong>em</strong> Suez, <strong>em</strong> 1956.<br />

O que o historiador Alistair Horne descreveu<br />

com justeza <strong>em</strong> sua magnífica história da luta<br />

argelina como “<strong>um</strong>a selvag<strong>em</strong> guerra de paz”<br />

custou a vida de centenas de milhares. Bombas,<br />

minas, <strong>mas</strong>sacres por forças governamentais e<br />

guerrilheiros da Frente de Libertação Nacional<br />

(FLN) no bled <strong>–</strong> a campina no sul do Mediterrâneo<br />

<strong>–</strong> conduziram à brutal supressão de setores<br />

muçulmanos <strong>em</strong> Argel e ao assassinato, tortura<br />

e execução de líderes guerrilheiros por paraquedistas<br />

franceses, soldados, pessoal da Legião<br />

Estrangeira <strong>–</strong> entre eles, ex-nazistas al<strong>em</strong>ães<br />

<strong>–</strong> e policiais paramilitares. Inclusive, franceses<br />

brancos simpatizantes dos argelinos foram “desaparecidos”.<br />

Albert Camus se pronunciou contra<br />

a tortura e funcionários civis franceses ficaram<br />

com asco da brutalidade <strong>em</strong>pregada para manter<br />

a Arg<strong>é</strong>lia como território francês.<br />

De Gaulle parecia apoiar a população branca,<br />

e disse isso <strong>em</strong> Argel: “Je vous ai compris”, ele<br />

lhes disse, e logo começou a negociar com representantes<br />

da FLN na França. Os argelinos compunham<br />

a maioria dos habitantes muçulmanos<br />

franceses e, <strong>em</strong> outubro de 1961, at<strong>é</strong> 30 mil deles fi<br />

zeram <strong>um</strong>a <strong>marcha</strong> proibida pela independência<br />

<strong>em</strong> Paris <strong>–</strong> de fato, a apenas 1,5 km do cenário<br />

da recente matança <strong>–</strong>, atacada por unidades da<br />

“a França havia ela própria<br />

invadido a Arg<strong>é</strong>lia, subjugando<br />

sua população muçulmana<br />

nativa, construindo pequenas<br />

cidades francesas e castelos<br />

no interior”<br />

33


“Argelinos foram mortos a<br />

pancadas <strong>em</strong> quart<strong>é</strong>is da<br />

polícia ou arr<strong>em</strong>essados ao<br />

Sena. O chefe da polícia que<br />

supervisionou as operações<br />

de segurança e que, ao que<br />

parece, dirigiu o <strong>mas</strong>sacre<br />

<strong>em</strong> 1961 <strong>não</strong> foi outro<br />

se<strong>não</strong> Maurice Papon, que,<br />

quase 40 anos depois, foi<br />

condenado por crimes de<br />

lesa-h<strong>um</strong>anidade”<br />

polícia francesa que assassinaram, como agora<br />

se sabe, at<strong>é</strong> 600 manifestantes.<br />

Argelinos foram mortos a pancadas <strong>em</strong><br />

quart<strong>é</strong>is da polícia ou arr<strong>em</strong>essados ao Sena. O<br />

chefe da polícia que supervisionou as operações de<br />

segurança e que, ao que parece, dirigiu o <strong>mas</strong>sacre<br />

<strong>em</strong> 1961 <strong>não</strong> foi outro se<strong>não</strong> Maurice Papon, que,<br />

quase 40 anos depois, foi condenado por crimes<br />

de lesa-h<strong>um</strong>anidade cometidos durante o regime<br />

de Petain, <strong>em</strong> Vichy, durante a ocupação nazista.<br />

O conflito argelino terminou com <strong>um</strong> banho<br />

de sangue. Colonos franceses pied-noirs se negaram<br />

a aceitar a retirada, apoiaram os ataques da<br />

Organização do Ex<strong>é</strong>rcito Secreto (OAS, <strong>em</strong> sua sigla<br />

<strong>em</strong> francês) a muçulmanos argelinos e encorajaram<br />

unidades militares francesas a se amotinar.<br />

Houve <strong>um</strong> momento <strong>em</strong> que De Gaulle t<strong>em</strong>eu que<br />

paraquedistas franceses tentass<strong>em</strong> tomar Paris.<br />

Quando chegou o fim, <strong>em</strong> que pes<strong>em</strong> as promessas<br />

da FLN de proteger cidadãos franceses que<br />

haviam escolhido permanecer na Arg<strong>é</strong>lia, houve<br />

assassinatos <strong>em</strong> <strong>mas</strong>sa <strong>em</strong> Orã. At<strong>é</strong> <strong>um</strong> milhão e<br />

meio de homens, mulheres e crianças franceses<br />

<strong>–</strong> diante da opção de “maleta ou caixão” <strong>–</strong> fugiram<br />

para a França, junto com milhares de leais<br />

combatentes harki argelinos que lutaram com o<br />

ex<strong>é</strong>rcito, <strong>mas</strong> que <strong>em</strong> sua maioria foram depois<br />

abandonados a sua própria sorte por De Gaulle.<br />

Alguns foram obrigados a engolir suas medalhas<br />

francesas e foram jogados <strong>em</strong> valas comuns.<br />

Mas os antigos colonos franceses, que ainda<br />

consideravam a Arg<strong>é</strong>lia parte do território da<br />

França <strong>–</strong> junto com <strong>um</strong>a exausta ditadura da FLN,<br />

que tomou conta da nação independente <strong>–</strong>, instituíram<br />

<strong>um</strong>a fria paz na qual a raiva residual dos<br />

argelinos, na França e igualmente na sua pátria,<br />

se assentou <strong>em</strong> <strong>um</strong> ressentimento de muitos anos.<br />

Na Arg<strong>é</strong>lia, a nova elite nacionalista <strong>em</strong>barcou <strong>em</strong><br />

<strong>um</strong>a inviável industrialização de estilo sovi<strong>é</strong>tico<br />

<strong>em</strong> <strong>seu</strong> país. Ex-cidadãos franceses d<strong>em</strong>andaram<br />

copiosas reparações; de fato, durante d<strong>é</strong>cadas, os<br />

franceses detiveram todos os mapas do deságue<br />

das cidades argelinas, de modo que os novos donos<br />

do país tinham que escavar quilômetros quadrados<br />

de ruas a cada vez que arrebentava <strong>um</strong>a tubulação.<br />

E quando começou a guerra civil argelina<br />

da d<strong>é</strong>cada de 1980 <strong>–</strong> logo que o ex<strong>é</strong>rcito argelino<br />

cancelou <strong>um</strong> segundo turno de eleições na qual<br />

era certa a vitória dos islâmicos <strong>–</strong>, o corrupto<br />

poder da FLN e os rebeldes muçulmanos se envolveram<br />

<strong>em</strong> <strong>um</strong> confl ito tão espantoso como a<br />

guerra com a França das d<strong>é</strong>cadas de 1950 e 1960.<br />

As torturas, os desaparecimentos e as matanças<br />

haviam voltado. A França apoiou discretamente<br />

<strong>um</strong>a ditadura cujos líderes militares ac<strong>um</strong>ularam<br />

milhões de dólares <strong>em</strong> bancos suíços.<br />

Uma nova causa Muçulmanos argelinos que<br />

voltavam da guerra contra os sovi<strong>é</strong>ticos no Afeganistão<br />

se uniram aos islâmicos nas montanhas e<br />

mataram alguns dos poucos cidadãos franceses<br />

que restavam no país. E muitos partiram depois<br />

para combater nas guerras islâmicas, no Iraque<br />

e mais tarde na Síria. Entram <strong>em</strong> cena os irmãos<br />

Kouachi, <strong>em</strong> especial Ch<strong>é</strong>rif, que esteve na prisão<br />

por recrutar franceses para combater norte-<br />

-americanos no Iraque. E os Estados Unidos, com<br />

o apoio francês, agora respalda o regime da FLN<br />

<strong>em</strong> sua contínua batalha contra os islâmicos nos<br />

desertos e nos bosques das montanhas da Arg<strong>é</strong>lia,<br />

armando <strong>um</strong> ex<strong>é</strong>rcito que torturou e assassinou<br />

milhares de homens na d<strong>é</strong>cada de 1990.<br />

Como disse <strong>um</strong> diplomata norte-americano<br />

pouco antes da invasão ao Iraque, <strong>em</strong> 2003, os Estados<br />

Unidos “têm muito o que aprender” com as<br />

autoridades argelinas. Pode-se ver por que alguns<br />

argelinos foram lutar pela resistência iraquiana.<br />

E encontraram <strong>um</strong>a nova casa...<br />

Tradução de Daniella Cambauva<br />

34 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


Não <strong>é</strong> sobre o <strong>islã</strong>:<br />

Nunca foi<br />

Ramzy Baroud <strong>–</strong> Counterpunch<br />

Por que quando acontec<strong>em</strong> ataques como os de Paris<br />

começamos a discutir o <strong>islã</strong> e <strong>não</strong> nos referimos às<br />

verdadeiras raízes da violência<br />

Ainda <strong>não</strong> <strong>é</strong> sobre o Islã, mesmo que a mídia e os<br />

militantes atacando alvos ocidentais digam que<br />

sim. Na realidade, nunca foi. Mas foi importante<br />

para muitos fundir política com religião, pois <strong>é</strong><br />

conveniente.<br />

Primeiro, sejamos claros <strong>em</strong> alguns pontos.<br />

O Islã botou <strong>em</strong> ação <strong>um</strong> sist<strong>em</strong>a para abolir a escravidão<br />

mais de 1200 anos antes de o tratado de<br />

abolição chegar ao <strong>seu</strong> pico no mundo ocidental.<br />

Libertar os escravos, que pertenciam a tribos<br />

árabes pagãs, foi <strong>um</strong> t<strong>em</strong>a recorrente no Alcorão,<br />

s<strong>em</strong>pre ligado aos sinais mais básicos de piedade<br />

e virtude: “As caridades vão para os pobres, aos<br />

necessitados, aos que trabalham para coletá-las,<br />

àqueles cujos corações se uniram, aos escravos<br />

livres, aos <strong>em</strong> dívidas, aos unidos com Deus e aos<br />

viajantes. Uma tarefa de Deus, e Deus <strong>é</strong> Conhecedor,<br />

Sábio.” [Alcorão. 9:60]<br />

Infelizmente, l<strong>em</strong>bretes como esse dev<strong>em</strong><br />

ser regularmente rel<strong>em</strong>brados, graças à constante<br />

propaganda anti-Islã <strong>em</strong> muitos países<br />

ocidentais. O comportamento estranho e frequent<strong>em</strong>ente<br />

bárbaro do então chamado Estado Islãmico<br />

(EI) forneceu maior impulso às propagandas<br />

35


e aos preconceitos existentes.<br />

Segundo, a igualdade de gênero no Islã t<strong>em</strong><br />

sido consagrada na linguag<strong>em</strong> do Alcorão e no<br />

legado do Profeta Mohammed.<br />

“Para os homens e mulheres muçulmanos,<br />

para os homens e mulheres crentes, para homens<br />

e mulheres devotos, para homens e mulheres honestos,<br />

para homens e mulheres pacientes, para<br />

homens e mulheres h<strong>um</strong>ildes, para homens e<br />

mulheres caridosos, para homens e mulheres que<br />

realizam o jej<strong>um</strong>, para homens e mulheres castos<br />

e para homens e mulheres que frequent<strong>em</strong>ente<br />

se l<strong>em</strong>bram de Deus - para eles Alá preparou o<br />

perdão e <strong>um</strong>a grande recompensa.” [33:35]<br />

Terceiro, a santidade da vida <strong>é</strong> supr<strong>em</strong>a no<br />

Islã à medida que “…se qualquer <strong>um</strong> mata <strong>um</strong>a<br />

pessoa (...) seria como se ele tivesse matado todas<br />

as pessoas: e se qualquer <strong>um</strong> salvar <strong>um</strong>a vida, seria<br />

como se ele tivesse salvado a vida de todos.” [5:32]<br />

Ainda assim, isso <strong>não</strong> <strong>é</strong> sobre o Islã. Isso <strong>é</strong><br />

sobre o porque de o Islã ser o sujeito dessa discussão<br />

<strong>em</strong> primeiro lugar, quando deveríamos estar<br />

nos referindo às verdadeiras raízes da violência.<br />

Quando o Islã foi introduzido à Arábia muitos<br />

s<strong>é</strong>culos atrás, era, e de fato continua a ser,<br />

<strong>um</strong>a religião revolucionária. Era e se mant<strong>é</strong>m<br />

radical, certamente o tipo de radicalismo que, se<br />

visto objetivamente, seria considerado <strong>um</strong> verdadeiro<br />

desafio à divisão de classes na sociedade,<br />

à desigualdade <strong>em</strong> todas as suas for<strong>mas</strong>, e mais<br />

importante, ao capitalismo e sua insaciabilidade,<br />

ganância e insensibilidade.<br />

Para evitar <strong>um</strong>a discussão racional sobre<br />

probl<strong>em</strong>as reais, muitos transformam os <strong>não</strong>-assuntos<br />

na cruz do debate. Então o Islã <strong>é</strong> discutido<br />

juntamente com o Estado Islâmico, conflitos tribais<br />

e sectários nigerianos, resistência palestina<br />

à ocupação israelense, probl<strong>em</strong>as de imigração<br />

na Europa e muito mais.<br />

Enquanto muita violência se propaga ao redor<br />

do mundo no <strong>nome</strong> do cristianismo, judaísmo,<br />

at<strong>é</strong> budismo <strong>em</strong> Burma e Sri Lanka, raramente coletivos<br />

inteiros são estigmatizados pela mídia. Ainda<br />

assim, todos os muçulmanos são diretamente<br />

tidos como responsáveis por muitos, mesmo se<br />

<strong>um</strong> criminoso que por <strong>um</strong> acaso era muçulmano<br />

iniciou <strong>um</strong> t<strong>um</strong>ulto violento. Sim, ele ainda pode<br />

ser designado como “lobo solitário”, <strong>mas</strong> pode-se<br />

“Porque a mídia faz com que<br />

os muçulmanos se sintam<br />

responsáveis por qualquer<br />

coisa feita <strong>em</strong> <strong>nome</strong> do Islã,<br />

at<strong>é</strong> mesmo por <strong>um</strong>a pessoa<br />

desequilibrada Porque os<br />

m<strong>em</strong>bros de outras religiões<br />

<strong>não</strong> são responsabilizados<br />

pelos mesmos padrões<br />

Porque os cristãos suecos<br />

<strong>não</strong> são questionados para<br />

explicar e se desculpar sobre<br />

o comportamento do Ex<strong>é</strong>rcito<br />

de Resistência Senhor de<br />

Uganda”<br />

ter quase certeza de que os muçulmanos e o Islã<br />

de alg<strong>um</strong>a forma se tornarão relevantes ao debate<br />

da mídia no desenrolar dos eventos.<br />

Em sua forma desesperada de rechaçar<br />

acusações, muitos muçulmanos, frequent<strong>em</strong>ente<br />

liderados por intelectuais e jornalistas têm, por<br />

quase duas d<strong>é</strong>cadas, se esforçado para distanciar<br />

o Islã da violência e para lutar contra o estereótipo<br />

persistente. Com o t<strong>em</strong>po, esses esforços<br />

culminaram <strong>em</strong> <strong>um</strong> fluxo constante de desculpas<br />

coletivas <strong>em</strong> <strong>nome</strong> do Islã.<br />

Quando <strong>um</strong> muçulmano no Brasil ou na Líbia<br />

reage a <strong>um</strong>a crise de ref<strong>é</strong>ns <strong>em</strong> Sidney na Austrália,<br />

condenando a violência <strong>em</strong> <strong>nome</strong> do Islã, e<br />

tentando defender o Islã e negando a militância,<br />

a pergunta <strong>é</strong>, por que Porque a mídia faz com<br />

que os muçulmanos se sintam responsáveis por<br />

qualquer coisa feita <strong>em</strong> <strong>nome</strong> do Islã, at<strong>é</strong> mesmo<br />

por <strong>um</strong>a pessoa desequilibrada Porque os m<strong>em</strong>bros<br />

de outras religiões <strong>não</strong> são responsabilizados<br />

pelos mesmos padrões Porque os cristãos suecos<br />

<strong>não</strong> são questionados para explicar e se desculpar<br />

sobre o comportamento do Ex<strong>é</strong>rcito de Resistência<br />

Senhor de Uganda, ou os judeus argentinos a<br />

explicar<strong>em</strong> diariamente a violência sist<strong>em</strong>ática<br />

e o terror continuados por judeus extr<strong>em</strong>istas <strong>em</strong><br />

jerusal<strong>é</strong>m e na Cisjordânia<br />

36 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


Desde que Francis Fukuyama declarou o<br />

“Fim da História” <strong>em</strong> 1992 - revelando que os<br />

livres mercados e as “d<strong>em</strong>ocracias liberais” reinariam<br />

supr<strong>em</strong>os para s<strong>em</strong>pre - seguido pela<br />

suposta visão contrastante de Samuel Huntington,<br />

<strong>mas</strong> ainda assim igualmente pretensiosa,<br />

do “<strong>em</strong>bate das civilizações e a necessidade de<br />

“refazer a ord<strong>em</strong> mundial”, <strong>um</strong>a nova indústria<br />

intelectual envolveu muitos <strong>em</strong> Washington,<br />

Londres e outros lugares. Uma vez que a Guerra<br />

Fria havia terminado triunfante com <strong>um</strong> senso<br />

inflado de validação política, o Oriente M<strong>é</strong>dio se<br />

tornou o novo quintal para ideias sobre domínio<br />

e aparatos militares.<br />

Desde então, t<strong>em</strong> sido <strong>um</strong>a guerra aberta,<br />

instigada por ou envolvendo vários poderes<br />

ocidentais. Foi <strong>um</strong>a guerra prolongada e multi-<br />

-dimensional: <strong>um</strong>a guerra destrutiva no chão,<br />

<strong>um</strong>a guerra econômica (bloqueios <strong>em</strong> <strong>um</strong>a mão<br />

e globalização e exploração do livre mercado na<br />

outra), invasão cultural (que tornou o ocidentalismo<br />

equivalente à modernidade); concluída com<br />

<strong>um</strong>a propaganda de guerra <strong>mas</strong>siva mirando a<br />

religião principal do Oriente M<strong>é</strong>dio: o Islã.<br />

A guerra ao Islã foi particularmente vital,<br />

pois parecia unificar <strong>um</strong>a gama de intelectuais<br />

ocidentais, conservadores, liberais, religiosos e<br />

seculares. Tudo feito por boas razões:<br />

<strong>–</strong> Islã <strong>não</strong> <strong>é</strong> somente <strong>um</strong>a religião, <strong>mas</strong><br />

<strong>um</strong> modo de vida. D<strong>em</strong>onizando o Islã, você d<strong>em</strong>oniza<br />

tudo ligado à ele, incluindo <strong>é</strong> claro, os<br />

muçulmanos.<br />

<strong>–</strong> A vilificação do Islã a qual levou a <strong>um</strong>a<br />

<strong>mas</strong>siva Islamofobia liderada pelo ocidente, ajudou<br />

a validar as ações dos governos ocidentais,<br />

violentos e abusivos. A des<strong>um</strong>anização dos muçulmanos<br />

se tornou <strong>um</strong>a arma essencial na guerra.<br />

<strong>–</strong> Tamb<strong>é</strong>m foi estrat<strong>é</strong>gico: odiar o Islã e todos<br />

os muçulmanos <strong>é</strong> <strong>um</strong>a ferramenta b<strong>em</strong> flexível<br />

que tornaria as sanções e intervenções militares<br />

possíveis <strong>em</strong> qualquer lugar onde o ocidente tenha<br />

interesses políticos ou econômicos. Odiar o<br />

Islã se tornou <strong>um</strong> grito uníssono desde advogados<br />

de sanções no Sudão a grupos neo-nazis anti imigrantes<br />

na Al<strong>em</strong>anha e <strong>em</strong> vários outros lugares.<br />

O probl<strong>em</strong>a <strong>não</strong> <strong>é</strong> mais os meios violentos usados<br />

para alcançar dominação política e controle<br />

dos recursos naturais, <strong>mas</strong>, magicamente, tudo<br />

foi reduzido a <strong>um</strong>a única palavra: Islã; ou, no<br />

melhor, Islã e mais alg<strong>um</strong>a coisa: liberdade de<br />

expressão, direitos das mulheres, e por aí vai.<br />

Portanto, <strong>não</strong> foi surpresa ver os likes de<br />

Ian Black comentando no Guardian, horas depois<br />

do atentado contra Charlie Hebdo <strong>em</strong> Paris,<br />

com a linha de inicio: “Sátira e Islã <strong>não</strong> sentam<br />

b<strong>em</strong> juntos..”<br />

Nenh<strong>um</strong>a palavra sobre o ex<strong>é</strong>rcito francês<br />

e as intervenções militares no Oriente M<strong>é</strong>dio;<br />

<strong>seu</strong> papel destrutivo na Síria; sua liderança na<br />

guerra na Líbia; sua guerra no Mali, e por aí vai.<br />

Nenh<strong>um</strong>a palavra sobre a declaração recente de<br />

Hollande sobre estar “pronto” para bombardear os<br />

rebeldes na Líbia, mesmo tendo sido feita alguns<br />

dias antes do atentado.<br />

Claro, a sátira pornográfica de Charlie Hebdo<br />

e <strong>seu</strong> alvo no Profeta Mohammed foi mencionado,<br />

<strong>mas</strong> pouco foi dito, por Black, ou pelos muitos<br />

outros que foram rápidos <strong>em</strong> ligar o assunto ao<br />

“Islã do s<strong>é</strong>culo 7”, às guerras hediondas e suas<br />

manifestacoes pornográficas de tortura, estupro<br />

e outros atos; atos que vitimaram milhões de<br />

pessoas; muçulmanos. Ao inv<strong>é</strong>s, <strong>é</strong> sobre a arte<br />

ocidental e a intolerância muçulmana. A linha fi<br />

na foi: sim, de fato, <strong>é</strong> <strong>um</strong> “<strong>em</strong>bate de civilizações.”<br />

Alg<strong>um</strong> desses intelectuais parou para pensar<br />

que talvez, só talvez, as respostas violentas aos<br />

símbolos islâmicos degradados refl et<strong>em</strong> <strong>um</strong><br />

sentimento politico real, por ex<strong>em</strong>plo, <strong>um</strong> sentimento<br />

coletivo de h<strong>um</strong>ilhação, dor e racismo que<br />

se estende a todos os cantos do globo<br />

E que <strong>é</strong> natural que a guerra que <strong>é</strong> constant<strong>em</strong>ente<br />

exportada do ocidente para o resto<br />

do mundo, possa ser ultimamente exportada de<br />

volta para as cidades do ocidente<br />

Não <strong>é</strong> possível que os muçulmanos estejam<br />

com raiva de algo muito mais profundo do que a<br />

arte s<strong>em</strong> gosto de Charlie Hebdo<br />

Evitar a resposta irá atrasar a tentativa de<br />

achar <strong>um</strong>a solução, a qual deve começar com o fi<br />

m do intervencionismo ocidental no Oriente M<strong>é</strong>dio.<br />

Tradução de Isabela Palhares<br />

37


Charlie Hebdo:<br />

Ironia e trag<strong>é</strong>dia<br />

Alejandro Nadal <strong>–</strong> La Jornada<br />

Aqueles que promov<strong>em</strong> a guerra contra o terror e os que<br />

s<strong>em</strong>earam o terrorismo por todos os cantos do mundo<br />

estão tentando se apropriar dos ataques.<br />

A luta para se apropriar de <strong>um</strong> duelo político<br />

t<strong>em</strong> longa trajetória, sobretudo quando o luto<br />

t<strong>em</strong> orig<strong>em</strong> <strong>em</strong> <strong>um</strong> crime. Plutarco narra, <strong>em</strong><br />

Vidas paralelas, como, depois do assassinato de<br />

C<strong>é</strong>sar, no Senado romano, as distintas facções<br />

batalharam para ocupar o vazio que engendra o<br />

desolamento público para se consolidar no poder.<br />

Cássio e Brutus disputam a aflição popular com<br />

Antônio, <strong>mas</strong> este conseguiu com sua elegia fúnebre<br />

colocar o povo de Roma contra os assassinos<br />

de C<strong>é</strong>sar e desencadear <strong>um</strong>a guerra civil.<br />

Um paralelismo pode ser traçado com os<br />

esforços para recuperar espaços públicos após o<br />

ataque contra a Charlie Hebdo. Esta s<strong>em</strong>pre foi<br />

<strong>um</strong>a revista irreverente com o poder, militar ou<br />

econômico, iconoclasta com todos os símbolos de<br />

hierarquias, laicas ou religiosas. É e foi inimiga<br />

do racismo e da discriminação <strong>em</strong> todas suas<br />

manifestações. S<strong>em</strong>pre lutou contra as ditaduras<br />

e a arbitrariedade, o poderio militar e o interven-<br />

38 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


“A blasfêmia <strong>não</strong> <strong>é</strong> <strong>um</strong>a das<br />

restrições, como deixa claro<br />

a Declaração dos Direitos do<br />

Hom<strong>em</strong> e do Cidadão<br />

de 1789”<br />

cionismo neocolonial. Mas agora, <strong>em</strong> pleno duelo<br />

social, buscam de todas as for<strong>mas</strong> se apropriar<br />

dos símbolos e bandeiras que acompanharam a<br />

Charlie <strong>em</strong> sua luta. Estão buscando instr<strong>um</strong>entalizar<br />

a trag<strong>é</strong>dia para promover o terrorismo de<br />

Estado. Hoje, corre-se o risco de transformar tudo<br />

isto <strong>em</strong> <strong>um</strong> episódio mais da luta contra o terror<br />

e do suposto choque entre civilizações.<br />

A concentração <strong>em</strong> Paris, no domingo passado,<br />

teve dois públicos. No primeiro, o povo e<br />

suas organizações, sindicatos, associações civis,<br />

manifestando repúdio ao covarde assassinato<br />

dos redatores da Charlie Hebdo e dos ref<strong>é</strong>ns do<br />

metrô de Paris. Muitos deles seguiram de perto<br />

a <strong>é</strong>pica luta do s<strong>em</strong>anário e de <strong>seu</strong> predecessor,<br />

Hebdo HaraKiri, desde 1969. Luta a partir da esquerda<br />

contra o despotismo, exploração, engano<br />

e intimidação.<br />

Mas, naquele dia, <strong>marcha</strong>ram <strong>em</strong> Paris<br />

tamb<strong>é</strong>m chefes de Estado e líderes políticos de<br />

partidos e organizações que s<strong>em</strong>pre abriram as<br />

portas para a guerra, para o com<strong>é</strong>rcio de ar<strong>mas</strong><br />

e para o capital financeiro. Marcharam lado a<br />

lado Merkel, Rajoy e Renzi, chefes da austeridade<br />

neoliberal que atualmente destrói a Europa.<br />

Não faltaram Netanyahu e outros amigos do<br />

militarismo. Tamb<strong>é</strong>m se somaram a eles alguns<br />

notáveis como guardiões da ord<strong>em</strong> moral burguesa<br />

e da obesa hipocrisia dos bons cost<strong>um</strong>es,<br />

amigos do racismo e da descriminação. Faltaram<br />

somente Marine Le Pen e os neonazistas<br />

para completar o quadro.<br />

Outros, n<strong>em</strong> sequer tiveram que viajar a<br />

Paris para explorar o momento. Em Atenas, o<br />

primeiro-ministro aproveitou a oportunidade<br />

para fazer investidas contra o Syriza por sua<br />

postura sobre a imigração. Do M<strong>é</strong>xico, o governo<br />

manifestou <strong>seu</strong> pesar: deve saber que isso <strong>não</strong><br />

anula sua grave responsabilidade nos assassinatos<br />

(Tlatlaya) e desaparecimentos (Ayotzinapa).<br />

A ironia <strong>é</strong> brutal: os inimigos da Charlie Hebdo<br />

estão lutando para disputar o duelo, os que<br />

promov<strong>em</strong> a guerra contra o terror e os que s<strong>em</strong>earam<br />

esta praga por todos os cantos do mundo.<br />

Criticou-se a imprudência dos caricaturistas<br />

da Charlie Hebdo. Mas <strong>é</strong> preciso responder<br />

com <strong>um</strong>a reflexão política, porque <strong>é</strong> disso que<br />

estamos falando, de política, <strong>não</strong> de bons cost<strong>um</strong>es<br />

ou de etiqueta. Por que <strong>é</strong> tão importante<br />

a liberdade de expressão A resposta <strong>é</strong> clara: a<br />

liberdade de expressão <strong>é</strong> irmã gêmea da liberdade<br />

de consciência, e as d<strong>em</strong>ais liberdades carec<strong>em</strong><br />

de sentido s<strong>em</strong> elas. Em particular, s<strong>em</strong> liberdade<br />

de expressão, a liberdade de associação política<br />

fica s<strong>em</strong> sentido.<br />

Não <strong>é</strong> exagero afirmar que a liberdade de<br />

consciência e a liberdade de expressão são as<br />

mais importantes do catálogo de liberdades<br />

republicanas. Por isso, os limites da liberdade<br />

de expressão são apenas três: a <strong>não</strong> incitação à<br />

violência ou <strong>um</strong> crime e a difamação. A blasfêmia<br />

<strong>não</strong> <strong>é</strong> <strong>um</strong>a das restrições, como deixa claro a<br />

Declaração dos Direitos do Hom<strong>em</strong> e do Cidadão<br />

de 1789.<br />

Na imprensa internacional, sobretudo no<br />

mundo anglo-saxão, a Charlie Hebdo t<strong>em</strong> sido<br />

apresentada como <strong>um</strong> veículo obstinado <strong>em</strong> ridicularizar<br />

o fundamentalismo islâmico, como se<br />

este tivesse sido <strong>seu</strong> único trabalho. Nada mais<br />

afastado da verdade. Os primeiros inimigos da<br />

Charlie foram o fascismo, o racismo, o neocolonialismo,<br />

o militarismo e a pena de morte.<br />

O fanatismo religioso e <strong>seu</strong> apoio hipócrita a<br />

estruturas de exploração esteve s<strong>em</strong>pre <strong>em</strong> <strong>seu</strong><br />

catálogo de inimigos a vencer, <strong>mas</strong> <strong>não</strong> <strong>é</strong> o único<br />

nesta lista.<br />

O luto público <strong>é</strong> a parteira de <strong>um</strong>a análise<br />

política fraca porque a dor e a sede de vingança<br />

escurec<strong>em</strong> o raciocínio e tornam a racionalização<br />

difícil. Por isso, o oportunismo encontra nas<br />

lamentações <strong>um</strong> terreno f<strong>é</strong>rtil para <strong>seu</strong>s estratag<strong>em</strong>as.<br />

Hoje, mais do que nunca, <strong>é</strong> necessária<br />

<strong>um</strong>a análise política cuidadosa. A trag<strong>é</strong>dia <strong>em</strong><br />

Charlie Hebdo <strong>não</strong> <strong>é</strong> parte dessa farsa chamada<br />

guerra contra o terror, n<strong>em</strong> de <strong>um</strong> suposto choque<br />

de civilizações.<br />

Tradução de Daniella Cambauva<br />

39


França: O mais perigoso <strong>é</strong><br />

a islamofobia<br />

Santiago Alba Rico <strong>–</strong> Rebelión<br />

Somente os fascistas matam para impor seriedade.<br />

Por isso <strong>é</strong> urgente alertar contra a islamofobia, para<br />

evitar a vitória do que os assassinos quer<strong>em</strong>.<br />

O atentado fascista <strong>em</strong> Paris contra a redação<br />

da revista s<strong>em</strong>anal “Charlie Hebdo”, que arrebatou<br />

a vida de 12 pessoas, entre elas as de quatro<br />

cartunistas, Charb, Cabú, Wolinsky e Tignous,<br />

deixa <strong>um</strong>a dupla ou tripla sensação de horror.<br />

Ela <strong>é</strong> agravada por <strong>um</strong>a esp<strong>é</strong>cie de eco amargo e<br />

sujo, al<strong>é</strong>m de <strong>um</strong>a sombra de ameaça iminente e<br />

geral. <strong>Há</strong>, s<strong>em</strong> dúvidas, o horror da matança por<br />

parte de assassinos que, independent<strong>em</strong>ente de<br />

suas motivações ideológicas, situaram a si próprios<br />

à marg<strong>em</strong> de qualquer <strong>é</strong>tica com<strong>um</strong>, e por<br />

isso mesmo fora de todo marco religioso <strong>em</strong> <strong>seu</strong><br />

sentido mais rigoroso e preciso.<br />

Mas há tamb<strong>é</strong>m o horror pelo fato de suas<br />

víti<strong>mas</strong> se dedicar<strong>em</strong> a escrever e a desenhar.<br />

Não <strong>é</strong> que algu<strong>é</strong>m <strong>não</strong> posso prejudicar escrevendo<br />

e desenhando <strong>–</strong> <strong>em</strong> seguida falar<strong>em</strong>os<br />

disso <strong>–</strong>; <strong>é</strong> que escrever e desenhar são tarefas<br />

de <strong>um</strong>a longa tradição histórica compartilhada<br />

que se situa no extr<strong>em</strong>o oposto da violência; <strong>em</strong><br />

se tratando da sátira e do h<strong>um</strong>or, ningu<strong>é</strong>m nos<br />

parece mais protegido do que aquele que nos faz<br />

rir. Em termos h<strong>um</strong>anos, s<strong>em</strong>pre <strong>é</strong> mais grave<br />

matar o bobo da corte do que o rei, porque o bobo<br />

da corte diz o que todos quer<strong>em</strong>os ouvir <strong>–</strong> ainda<br />

que seja improcedente ou at<strong>é</strong> mesmo hiperbólico<br />

<strong>–</strong> enquanto os reis falam somente de si mesmos<br />

e de <strong>seu</strong> poder. Qu<strong>em</strong> mata <strong>um</strong> bufão mata a<br />

própria h<strong>um</strong>anidade. Tamb<strong>é</strong>m por isso os assassinos<br />

de Paris são fascistas. Somente os fascistas<br />

acreditam que exist<strong>em</strong> objetos <strong>não</strong> cômicos ou<br />

<strong>não</strong> ridicularizáveis. Somente os fascistas matam<br />

para impor seriedade.<br />

Por<strong>é</strong>m, há ainda <strong>um</strong> terceiro el<strong>em</strong>ento de<br />

horror que t<strong>em</strong> menos a ver ainda com o ato do<br />

que com suas consequências. Agora mesmo <strong>–</strong><br />

confesso <strong>–</strong> <strong>é</strong> o que mais medo me dá. E <strong>é</strong> urgente<br />

advertir. A urgência <strong>não</strong> <strong>é</strong> <strong>em</strong> impedir <strong>um</strong> crime<br />

40 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


que já <strong>não</strong> pod<strong>em</strong>os impedir; tamb<strong>é</strong>m <strong>não</strong> <strong>é</strong> condenar<br />

os assassinos. Isso <strong>é</strong> normal e decente, <strong>mas</strong><br />

<strong>não</strong> <strong>é</strong> urgente. Tamb<strong>é</strong>m <strong>não</strong> <strong>é</strong>, claro, esbravejar<br />

contra o Islã. Pelo contrário. O que <strong>é</strong> verdadeiramente<br />

urgente <strong>é</strong> alertar contra a islamofobia,<br />

exatamente para evitar o que os assassinos<br />

quer<strong>em</strong> <strong>–</strong> e já estão conseguindo <strong>–</strong> provocar: a<br />

identificação ontológica entre o Islã e o fascismo<br />

criminoso. A grande eficácia da violência extr<strong>em</strong>a<br />

t<strong>em</strong> a ver com o fato de que se apaga o passado, o<br />

que <strong>não</strong> pode ser evocado s<strong>em</strong> justificar de alg<strong>um</strong>a<br />

maneira o crime; t<strong>em</strong> a ver com o fato de que<br />

a violência <strong>é</strong> atualidade pura, e a atualidade pura<br />

está s<strong>em</strong>pre carregada do pior futuro imaginável.<br />

Os assassinos de Paris sabiam muito b<strong>em</strong> <strong>em</strong> que<br />

contexto estavam perpetrando sua infâmia e que<br />

efeitos produziriam.<br />

O probl<strong>em</strong>a do fascismo e de sua violência<br />

atualizadora <strong>é</strong> que se trata s<strong>em</strong>pre de <strong>um</strong>a resposta.<br />

O fascismo está s<strong>em</strong>pre respondendo; todo<br />

fascismo se alimenta de sua legitimação reativa<br />

<strong>em</strong> <strong>um</strong> marco social e ideológico no qual tudo <strong>é</strong><br />

resposta e tudo <strong>é</strong>, portanto, fascismo. O contexto<br />

europeu (pens<strong>em</strong>os na Al<strong>em</strong>anha anti-islâmica<br />

destes dias) <strong>é</strong> a de <strong>um</strong> fascismo ascedente. Na<br />

França, concretamente, este fascismo branco e<br />

laico t<strong>em</strong> alguns protetores intelectuais de muito<br />

prestígio que, à sombra da Frente Nacional de Le<br />

Pen, agitam o ambiente a partir de púlpitos privilegiados<br />

com base no pressuposto, anunciado<br />

com falso <strong>em</strong>pirismo e autoridade midiática, de<br />

que o Islã <strong>é</strong> <strong>um</strong> perigo para a França.<br />

Pens<strong>em</strong>os, por ex<strong>em</strong>plo, no último romance<br />

do grande escritor Houellebecq, “Submissão” (tradução<br />

literal do termo árabe “<strong>islã</strong>”), <strong>em</strong> que <strong>um</strong><br />

partido islâmico ganha da Frente Nacional nas<br />

eleições de 2021 e impõe a “charia” na pátria das<br />

luzes. Ou pens<strong>em</strong>os no grande êxito das obras do<br />

ultradireitista Renaud Camus e do jornalista político<br />

do jornal “Le Figaro” Eric Z<strong>em</strong>our. O primeiro<br />

<strong>é</strong> autor de “Le grand r<strong>em</strong>plac<strong>em</strong>ent”, <strong>em</strong> que se<br />

defende a tese de que o povo francês está sendo<br />

“substituído” por outro, neste caso <strong>–</strong> obviamente<br />

<strong>–</strong> composto por muçulmanos alheios à história<br />

da França. O segundo, por sua vez, escreveu “O<br />

suicídio francês”, <strong>um</strong> grande sucesso de vendas<br />

que reabilita o general Petain e descreve a decadência<br />

do estado- nação, ameaçado pela traição<br />

“O probl<strong>em</strong>a do fascismo e de<br />

sua violência atualizadora <strong>é</strong><br />

que se trata s<strong>em</strong>pre de <strong>um</strong>a<br />

resposta. O fascismo está<br />

s<strong>em</strong>pre respondendo”<br />

das elites e pela imigração. Faz alguns dias que<br />

o escritor Edwy Plenel, no “Le Monde”, referia-se<br />

a estas obras como depósito de <strong>um</strong>a “ideologia<br />

assassina” que “está preparando a França e a Europa<br />

para <strong>um</strong>a guerra”: <strong>um</strong>a guerra civil, diz - “da<br />

França e da Europa contra elas mes<strong>mas</strong>, contra<br />

<strong>um</strong>a parte de <strong>seu</strong>s povos, contra esses homens,<br />

essas mulheres, essas crianças que viv<strong>em</strong> e trabalham<br />

aqui e que, graças às ar<strong>mas</strong> do preconceito<br />

e da ignorância, foram previamente construídos<br />

como estrangeiros <strong>em</strong> razão de <strong>seu</strong> nascimento,<br />

sua aparência ou suas crenças”.<br />

Este <strong>é</strong> o fascismo que estava já presente na<br />

França e que agora “reage” - puro e presente <strong>–</strong><br />

diante da “reação” - pura atualidade assassina<br />

<strong>–</strong> dos islâmicos fascistas de Paris. Dá muito medo<br />

pensar que, às 7 da noite, enquanto escrevo estas<br />

linhas, o trending tipic mundial no Twitter, após<br />

o tranquilizador e <strong>em</strong>ocionante “Je suis Charlie”,<br />

<strong>é</strong> o aterrorizante “matar todos os muçulmanos”.<br />

A islamofobia t<strong>em</strong> tanto fundamento <strong>em</strong>pírico<br />

<strong>–</strong> n<strong>em</strong> mais n<strong>em</strong> menos <strong>–</strong> do que o islamismo<br />

jihadista; os dois, de fato, são fascistas reativos<br />

que se ativam reciprocamente, incapazes de fazer<br />

essas distinções que caracterizam a <strong>é</strong>tica, a civilização,<br />

o direito: entre crianças e adultos, entre<br />

civis e militares, entre reis e bobos da corte, entre<br />

indivíduos e comunidades. “Mate todos os infi<br />

<strong>é</strong>is” <strong>é</strong> contestado e precedido por “mate todos os<br />

muçulmanos”.<br />

Mas há <strong>um</strong>a diferença. Enquanto se exige<br />

que todos os muçulmanos do mundo conden<strong>em</strong> a<br />

atrocidade de Paris e todos os dirigentes políticos<br />

e religiosos do mundo muçulmanos conden<strong>em</strong>,<br />

s<strong>em</strong> exceções, o ocorrido, o “mate todos os muçulmanos”<br />

<strong>é</strong> justificado de alg<strong>um</strong>a forma por<br />

intelectuais e políticos que legitimam com sua<br />

autoridade institucional e midiática a criminalização<br />

de cinco milhões de franceses muçulmanos<br />

41


(e de outros milhões mais <strong>em</strong> toda a Europa).<br />

Essa <strong>é</strong> a diferença <strong>–</strong> sab<strong>em</strong>os isso historicamente<br />

<strong>–</strong> entre o totalitarismo e o delírio marginal:<br />

o totalitarismo <strong>é</strong> o delírio naturalizado,<br />

institucionalizado, compartilhado ao mesmo<br />

t<strong>em</strong>po pela sociedade e pelo poder. Se, al<strong>é</strong>m disso,<br />

nos l<strong>em</strong>brarmos de que a maior parte das víti<strong>mas</strong><br />

do fascismo jihadista no mundo tamb<strong>é</strong>m são<br />

muçulmanas <strong>–</strong> e <strong>não</strong> ocidentais <strong>–</strong>, deveríamos<br />

talvez medir melhor nosso senso de responsabilidade<br />

e de solidariedade. Pinçados entre dois<br />

fascismos reativos, os perdedores são os de s<strong>em</strong>pre:<br />

os imigrantes, os esquerdistas, os bobos da<br />

corte, as populações dos países colonizados. Uma<br />

das víti<strong>mas</strong> dos islâmicos, por certo, era policial.<br />

Chamava-se Ahmed Mrabet e era muçulmano.<br />

Do jihadismo fascista, <strong>não</strong> espero se<strong>não</strong><br />

fanatismo, violência e morte. Ele me repugna,<br />

<strong>mas</strong> me dá menos medo do que a reação que<br />

precede <strong>–</strong> valha o paradoxo einsteniano <strong>–</strong> <strong>seu</strong>s<br />

crimes. O “matai todos os muçulmanos” está,<br />

de alg<strong>um</strong>a forma, justificado pelos intelectuais<br />

que “preparam a guerra civil europeia” e pelos<br />

próprios políticos que respond<strong>em</strong> aos crimes com<br />

discursos populistas religiosos laicos.<br />

Quando Hollande e Sarkozy falam de “<strong>um</strong><br />

atentado aos valores sagrados da França” para<br />

se referir à liberdade de expressão, estão raciocinando<br />

da mesma forma que os assassinos dos<br />

caricaturistas da “Charlie Hebdo”. Não aceito<br />

que <strong>um</strong> francês me diga que defender os valores<br />

da França implica necessariamente defender<br />

a liberdade de expressão. Por mais laica que se<br />

pretenda, essa lógica <strong>é</strong> s<strong>em</strong>pre religiosa. Não<br />

t<strong>em</strong>os que defender a França; t<strong>em</strong>os que defender<br />

a liberdade de expressão. Porque defender os<br />

valores da França <strong>é</strong> talvez defender a revolução<br />

francesa, <strong>mas</strong> tamb<strong>é</strong>m o Termidor; <strong>é</strong> defender a<br />

Comuna, <strong>mas</strong> tamb<strong>é</strong>m os fuzilamentos de Thiers;<br />

<strong>é</strong> defender Zola, <strong>mas</strong> tamb<strong>é</strong>m o tribunal que condenou<br />

Dreyfus; <strong>é</strong> defender Simone Weil e Ren<strong>é</strong><br />

Char, <strong>mas</strong> tamb<strong>é</strong>m o colaboracionismo de Vichy;<br />

<strong>é</strong> defender Sartre, <strong>mas</strong> tamb<strong>é</strong>m as torturas da<br />

OAS e o genocídio colonial; <strong>é</strong> defender maio de 68,<br />

<strong>mas</strong> tamb<strong>é</strong>m os bombardeios de Argel, Da<strong>mas</strong>co,<br />

Indochina e, mais recent<strong>em</strong>ente, Líbia e Mali. É<br />

defender agora, frente ao fascismo islâmico, a<br />

igualdade diante da lei, a d<strong>em</strong>ocracia, a liberdade<br />

de expressão, a tolerância e a <strong>é</strong>tica, <strong>mas</strong> tamb<strong>é</strong>m<br />

defender a destruição de tudo isso <strong>em</strong> <strong>nome</strong> dos<br />

valores da França.<br />

Dá muito medo ouvir falar dos “valores da<br />

França”, “da grandeza da França”, da “defesa da<br />

França”. Ou defend<strong>em</strong>os a liberdade de expressão<br />

ou defend<strong>em</strong>os os valores da França. Defender a<br />

liberdade de expressão <strong>–</strong> e a igualdade, a fraternidade<br />

e a liberdade <strong>–</strong> <strong>é</strong> defender a h<strong>um</strong>anidade<br />

inteira, viva onde viver ou acredite no Deus <strong>em</strong><br />

que acreditar. A frase “os valores da França”,<br />

pronunciada por Le Pen, Hollande, Sarkozy ou<br />

Renaud Camus <strong>não</strong> se distingue <strong>em</strong> nada da frase<br />

“os valores do Islã”, pronunciada por Abu Bakr<br />

Al-Baghdadi. São, na realidade, o mesmo discurso<br />

frente a frente, legitimado por sua própria reação<br />

assassina, que bombardeia inocentes de <strong>um</strong> lado<br />

e metralha inocentes do outro. Perd<strong>em</strong> os de s<strong>em</strong>pre,<br />

os que perd<strong>em</strong> quando dois fascismos <strong>não</strong><br />

deixam n<strong>em</strong> o menor resquício para o direito, a<br />

<strong>é</strong>tica e a d<strong>em</strong>ocracia: os de baixo, os do lado, os<br />

pequenos, os sensatos. Disso sab<strong>em</strong>os muito na<br />

Europa, cujos grandes “valores” produziram o colonialismo,<br />

o nazismo, o stalinismo, o sionismo<br />

e o bombardeio h<strong>um</strong>anitário.<br />

Dois mil e quinze mal começa. Em 1953,<br />

“refugiado” na França, o grande escritor negro<br />

Richard Wright escrevia contra o fascismo que<br />

“t<strong>em</strong>ia que as instituições d<strong>em</strong>ocráticas e abertas<br />

<strong>não</strong> sejam mais do que <strong>um</strong> intervalo sentimental<br />

que precede o estabelecimento de regimes inclusive<br />

mais bárbaros, absolutistas e pós-políticos”.<br />

Proteger-nos do fascismo islâmico <strong>é</strong> proteger<br />

nossas instituições abetas e d<strong>em</strong>ocráticas <strong>–</strong> ou<br />

o que sobrou delas <strong>–</strong> do fascismo europeu. A islamofobia<br />

fascista, na Europa e nas “colônias”,<br />

<strong>é</strong> agrande fábrica de islâmicos fascistas e tanto<br />

<strong>um</strong>a como outra são incompatíveis com o direito<br />

e a d<strong>em</strong>ocracia, os únicos princípios <strong>–</strong> e <strong>não</strong> “valores”<br />

<strong>–</strong> que ainda poderiam nos salvar. Boa parte<br />

de nossas elites políticas e intelectuais estão mais<br />

interessadas no contrário.<br />

Descans<strong>em</strong> <strong>em</strong> paz nossos alegres e valentes<br />

companheiros bufões da “Charlie Hebdo”. E que<br />

ningu<strong>é</strong>m <strong>em</strong> <strong>seu</strong> <strong>nome</strong> levante a mão contra<br />

<strong>um</strong> muçulmano n<strong>em</strong> contra o direito e a <strong>é</strong>tica<br />

comuns. Essa sim seria a verdadeira vitória dos<br />

fascismos dos dois lados.<br />

42 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


O riso dos outros:<br />

<strong>Há</strong> limites para o h<strong>um</strong>or<br />

L<strong>é</strong>a Maria Aarão Reis<br />

O doc<strong>um</strong>entário ‘o riso dos outros’ foi feito sob medida<br />

para ser visto, revisto e pensado neste momento pósatentado<br />

ao charlie hebdo.<br />

Um filme doc<strong>um</strong>entário brasileiro chamado<br />

O riso dos outros, de Pedro Arantes, realizado há<br />

dois anos, foi feito sob medida para ser visto,<br />

revisto e pensado neste momento pós-atentado<br />

ao Charlie Hebdo. Ideologias se desfaz<strong>em</strong> <strong>em</strong> tons<br />

de cinza, ou se enfraquec<strong>em</strong>, e debates tensos<br />

divid<strong>em</strong> opiniões infl amadas - às vezes at<strong>é</strong> surpreendentes<br />

- discutindo o direito da liberdade<br />

de expressão h<strong>um</strong>orística irrestrita e absoluta de<br />

<strong>um</strong> lado, e, do outro, o dever de respeitar limites<br />

<strong>–</strong> <strong>mas</strong> quais - para fazer h<strong>um</strong>or, caricaturar,<br />

ironizar, desconstruir e, no nível mais pesado,<br />

insultar o outro: o ‘diferente’.<br />

O filme do h<strong>um</strong>orista Arantes, que v<strong>em</strong> de<br />

trabalhos no Canal Brasil e no Multishow, parece<br />

pr<strong>em</strong>onitório dos debates que viriam depois e<br />

estão aí agora, nas ruas encharcadas de medo,<br />

protestos e passeatas dos cidadãos e nos discursos<br />

cínicos de dirigentes de governos. Aqui, por<br />

motivos diversos daqueles europeus; <strong>mas</strong> medo <strong>é</strong><br />

medo - de terroristas, assaltantes, estupradores,<br />

assassinos. E há tamb<strong>é</strong>m os terroristas de estado<br />

sobre os quais pouco, na mídia daqui, se fala.<br />

Produzido pela TV Câmara, O riso dos outros<br />

43


fez enorme sucesso nas redes sociais, na <strong>é</strong>poca<br />

<strong>em</strong> que foi lançado. Ele traz entrevistas com<br />

comediantes, h<strong>um</strong>oristas, quadrinistas, acadêmicos,<br />

<strong>um</strong> deputado e escritores. O <strong>seu</strong> recorte <strong>é</strong><br />

a com<strong>é</strong>dia stand up, a que v<strong>em</strong> atraindo muitos<br />

da jov<strong>em</strong> nova geração de h<strong>um</strong>oristas, nos rastros<br />

do trabalho inicial de Woody Allen.<br />

O doc foi o vencedor de licitação da TV Câmara<br />

para produção de trabalhos sobre <strong>é</strong>tica. E<br />

acabou sendo <strong>um</strong> trabalho que reacende o debate<br />

sobre os limites do h<strong>um</strong>or. Como t<strong>em</strong>a central, a<br />

profissão do h<strong>um</strong>orista e, dentro dela, o que seria o<br />

polìticamente correto. Os t<strong>em</strong>as que se segu<strong>em</strong>, no<br />

filme, são consequência, <strong>mas</strong> n<strong>em</strong> por isto menos<br />

importantes. É o olhar do h<strong>um</strong>orista dirigido à trag<strong>é</strong>dia.<br />

O diálogo do h<strong>um</strong>or com os preconceitos. E<br />

talvez o que mais provoca: “<strong>Há</strong> s<strong>em</strong>pre <strong>um</strong>a dose<br />

de crueldade no h<strong>um</strong>or” como diz o cartunista Laerte,<br />

dos mais brilhantes h<strong>um</strong>oristas brasileiros,<br />

teórico e analista do <strong>seu</strong> ofício.<br />

“Olhar para a trag<strong>é</strong>dia e fazer h<strong>um</strong>or depende<br />

da ausência de compaixão,” ele diz. O colega<br />

Andr<strong>é</strong> Dahmer t<strong>em</strong> outra visão: “Como <strong>não</strong> ser<br />

ofensivo fazendo h<strong>um</strong>or”<br />

“Exist<strong>em</strong> maneiras de fazer h<strong>um</strong>or s<strong>em</strong><br />

h<strong>um</strong>ilhar os outros,” diz <strong>um</strong>. E outro: “O h<strong>um</strong>or<br />

s<strong>em</strong>pre namorou com a truculência e com a<br />

violência.”<br />

Em <strong>nome</strong> do h<strong>um</strong>or toda piada será válida<br />

“Chamar <strong>um</strong> negro de macaco <strong>não</strong> <strong>é</strong> e n<strong>em</strong><br />

nunca foi engraçado”, replica <strong>um</strong> entrevistado. Na<br />

<strong>é</strong>poca, Pedro Arantes declarou, <strong>em</strong> entrevista, que<br />

tinha consciência de que estava mexendo <strong>em</strong> <strong>um</strong><br />

vespeiro ao levantar esta questão: at<strong>é</strong> onde vai a<br />

liberdade <strong>–</strong> ou o direito - de expressão atrav<strong>é</strong>s do<br />

h<strong>um</strong>or No filme, ele conversa com a blogueira<br />

f<strong>em</strong>inista Lola Aronovich e Rafinha Bastos. Com<br />

Laerte, Andr<strong>é</strong> Dahmer e Arnaldo Branco, o comediante<br />

Danilo Gentilli, deputado Jean Wyllis,<br />

escritor Antonio Prata, com Fernando Caruso, Ben<br />

Ladmer, Nancy People, Marília Meirelles, Hugo<br />

Possolo, e vários outros.<br />

“Eu acho,” disse ele, nessa entrevista de 2012:<br />

“que <strong>não</strong> existe t<strong>em</strong>a proibido no h<strong>um</strong>or. Agora,<br />

você t<strong>em</strong> que se cercar de cuidados para poder<br />

trabalhar com determinados assuntos.” A observação<br />

pode ser estendida e ampliada, do nível<br />

intelectual para o da segurança física, no caso<br />

do Charlie Hebdo, atingido pela trag<strong>é</strong>dia e pela<br />

violência talvez evitadas caso medidas de proteção<br />

mais rígidas tivess<strong>em</strong> sido adotadas para<br />

proteger e monitorar <strong>um</strong>a equipe de h<strong>um</strong>oristas<br />

que trabalhavam com personagens de assunto<br />

altamente explosivo <strong>–</strong> os islamitas.<br />

“O que eu acho <strong>é</strong> que t<strong>em</strong> setores da sociedade<br />

que são mais organizados que outros,” observa<br />

Arantes.<br />

“Então, parece que fazer piada de a<strong>não</strong> <strong>é</strong> menos<br />

ofensivo do que fazer piada com negros. Mas<br />

a verdade <strong>é</strong> que os negros são <strong>um</strong> grupo muito<br />

melhor organizado historicamente do que o grupo<br />

dos anões. É só isso.”<br />

Al<strong>é</strong>m do fato de os primeiros contar<strong>em</strong> com<br />

recursos legais mais à mão para exigir retratação<br />

e punição, na justiça, do que os outros.<br />

“Em determinado momento, tal grupo histórico<br />

pode estar mais ou menos organizado, o que<br />

muda o quanto você pode falar dele. Por ex<strong>em</strong>plo:<br />

hoje <strong>em</strong> dia, fazer piada de judeu <strong>é</strong> muito complicado.<br />

Mas 50 anos atrás era banal fazer piada<br />

com judeus, por mais pesada que fosse a piada.<br />

Então, se construiu <strong>um</strong>a questão que impediu as<br />

pessoas de fazer esse tipo de piada. Mas <strong>é</strong> tudo<br />

<strong>um</strong>a construção e só depende do t<strong>em</strong>po.”<br />

No mar de ofendidos, de intolerantes, de<br />

muita raiva e ódio, como agora, “s<strong>em</strong>pre vai haver<br />

algu<strong>é</strong>m ofendido quando se faz <strong>um</strong>a piada. A questão<br />

<strong>é</strong> como a gente negocia essa ofensa historicamente,”<br />

diz Laerte. S<strong>em</strong>pre haverá ofendidos nas<br />

multidões de crentes porque, afinal, t<strong>em</strong>os todos,<br />

religiosos ou <strong>não</strong>; iconoclastas, blasf<strong>em</strong>os, c<strong>é</strong>ticos,<br />

progressistas, ateus, reacionários e conservadores,<br />

cínicos ou indiferentes, t<strong>em</strong>os todos <strong>um</strong>a f<strong>é</strong>.<br />

Duas observações de Arantes permanec<strong>em</strong>,<br />

a propósito de O riso dos outros, <strong>um</strong> filme (50<br />

minutos de duração) que <strong>não</strong> deve deixar de ser<br />

(re)visto. Primeira: “Ningu<strong>é</strong>m deve ficar sentindo<br />

culpa porque riu de alg<strong>um</strong>a coisa.” Segunda: “Às<br />

vezes você vai rir de alg<strong>um</strong>a coisa e depois vai<br />

pensar que <strong>não</strong> deveria ter feito isso. (Mas) <strong>não</strong> <strong>é</strong><br />

para ningu<strong>é</strong>m ficar sentindo culpa porque riu de<br />

alg<strong>um</strong>a coisa. Não precisa se culpar; basta refletir.”<br />

A observação da comediante stand up Marcela<br />

Leal pode ser <strong>um</strong>a boa conclusão: “As pessoas<br />

quer<strong>em</strong> rir e liberar endorfina porque a vida delas<br />

<strong>é</strong> <strong>um</strong> saco”.<br />

44 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


Como pensar para<br />

al<strong>é</strong>m do medo<br />

Martín Granovsky<br />

Em meio à dor, à incerteza e à angústia produzidas pelo<br />

atentado contra a Charlie Hebdo e outros assassinatos,<br />

surg<strong>em</strong> reflexões. Reproduzimos alg<strong>um</strong>as delas<br />

Formular probl<strong>em</strong>as s<strong>em</strong> desespero para encontrar<br />

respostas fáceis e rápidas <strong>é</strong> <strong>um</strong> exercício que<br />

pode ser feito revisando a imprensa internacional,<br />

com <strong>seu</strong>s dados e <strong>seu</strong>s matizes.<br />

O que <strong>é</strong> o terrorismo. O brasileiro Leonardo<br />

Boff escreveu <strong>um</strong>a coluna <strong>em</strong> <strong>seu</strong> site. Após<br />

l<strong>em</strong>brar que “os Estados Unidos e <strong>seu</strong>s aliados<br />

ocidentais fizeram no Iraque <strong>um</strong>a guerra preventiva<br />

com <strong>um</strong>a incontável mortandade de civis”,<br />

analisa o atentado de Paris “como resultado dessa<br />

violência e <strong>não</strong> como causa originária”. De fato,<br />

segundo Boff, consiste <strong>em</strong> instalar o medo <strong>em</strong><br />

toda a França e na Europa <strong>em</strong> geral. O objetivo do<br />

terrorismo seria “ocupar as mentes das pessoas e<br />

mantê-las ref<strong>é</strong>ns do medo”. Para o teólogo brasileiro,<br />

“o significado principal do terrorismo <strong>não</strong> <strong>é</strong><br />

ocupar territórios, como fizeram os ocidentais no<br />

Afeganistão e no Iraque, <strong>mas</strong> ocupar as mentes”.<br />

45


Se eles conseguir<strong>em</strong>, esta será sua vitória sinistra.<br />

Quer “ocupar as mentes das pessoas, mantê-las<br />

desestabilizadas <strong>em</strong>ocionalmente, obrigá-las a<br />

desconfiar de qualquer gesto ou de pessoas estranhas”.<br />

Isso se faz segundo a estrat<strong>é</strong>gia por<br />

meio da qual “os atos têm que ser espetaculares,<br />

porque se <strong>não</strong>, <strong>não</strong> causariam comoção generalizada”<br />

<strong>–</strong> ainda que sejam odiados, dev<strong>em</strong> provocar<br />

admiração pela sagacidade, “dev<strong>em</strong> sugerir que<br />

foram minuciosamente preparados”, dev<strong>em</strong> ser<br />

imprevisíveis para dar a impressão de que são<br />

incontroláveis, dev<strong>em</strong> provocar medo e distorcer<br />

a percepção da realidade. A definição sint<strong>é</strong>tica de<br />

terrorismo por Boff <strong>é</strong> esta: “Toda violência espetacular,<br />

praticada com o propósito de ocupar as<br />

mentes com o medo e o pavor”.<br />

A compreensão como dever. A coluna leva<br />

este título: “Entender <strong>é</strong> o mínimo que pod<strong>em</strong>os<br />

fazer pelos mortos”. É assinada por Hari Kunzru<br />

e foi publicada no The Guardian <strong>em</strong> 8 de janeiro.<br />

Kunzru disse que <strong>não</strong> espera o fim da atual<br />

situação antes de <strong>um</strong>a geração e de <strong>um</strong>a grande<br />

mudança geopolítica, s<strong>em</strong>pre, claro, que haja a<br />

decisão de interromper a escalada. Fará falta, no<br />

mínimo, que os jovens que hoje prefer<strong>em</strong> a abstração<br />

da morte a <strong>um</strong>a vida com sentido mud<strong>em</strong>,<br />

e que os poderosos que financiam as ações dos<br />

poderosos acab<strong>em</strong>; que <strong>não</strong> haja mais imigrantes<br />

encurralados e que os supostos “realistas” deix<strong>em</strong><br />

de a<strong>um</strong>entar a intensidade do enfrentamento b<strong>é</strong>lico.<br />

O colunista escreve: “Sobretudo, <strong>não</strong> quero<br />

escutar qualquer coisa sobre a barbárie. A caricatura<br />

de <strong>um</strong> jihadista como hom<strong>em</strong> medieval<br />

animado por antigas paixões pode ser confortável<br />

para os que colocam a si mesmos na civilização<br />

e pousam com <strong>um</strong> Voltaire, <strong>mas</strong> <strong>é</strong> pouco para<br />

entender qualquer coisa”, e “entender <strong>é</strong> o mínimo<br />

que pod<strong>em</strong>os fazer para honrar os mortos”. Para<br />

Kunzru, <strong>em</strong> parte o ataque à Charlie Hebdo tenta<br />

a<strong>um</strong>entar o preço por exercer a liberdade de expressão,<br />

e <strong>é</strong> preciso ter <strong>em</strong> conta que desde a condenação<br />

de Salman Rushdi<strong>em</strong>, a sátira religiosa<br />

passou a se tornar rara, “<strong>mas</strong> o ataque tamb<strong>é</strong>m<br />

procurou aprofundar contradições, endurecer<br />

posições e polarizar opiniões, <strong>em</strong>purrando a França<br />

e o resto do mundo para fora do cenário das<br />

complexidades e dos matizes e <strong>em</strong> direção à sequência<br />

binária da guerra”. Nesse âmbito binário,<br />

“Fará falta, no mínimo, que os<br />

jovens que hoje prefer<strong>em</strong> a<br />

abstração da morte a <strong>um</strong>a vida<br />

com sentido mud<strong>em</strong>, e que<br />

os poderosos que financiam<br />

as ações dos poderosos<br />

acab<strong>em</strong>; que <strong>não</strong> haja mais<br />

imigrantes encurralados e que<br />

os supostos “realistas” deix<strong>em</strong><br />

de a<strong>um</strong>entar a intensidade do<br />

enfrentamento b<strong>é</strong>lico”<br />

para o autor, a autorização de George Bush para<br />

torturar <strong>não</strong> apenas <strong>não</strong> garantiu a segurança de<br />

ningu<strong>é</strong>m como se transformou “na fonte mais<br />

eficiente para recrutar militantes da jihad”. S<strong>em</strong><br />

<strong>seu</strong> olhar absoluto, o jihadismo resultaria <strong>em</strong><br />

nada. O risco <strong>é</strong> atuar no espelho.<br />

Burocratas antilibertários. No The Guardian,<br />

Simon Jenkins pediu para se abandonar o medo.<br />

Escreveu que o terrorismo <strong>é</strong> <strong>um</strong>a t<strong>é</strong>cnica de conflito,<br />

<strong>não</strong> <strong>um</strong> objetivo. É <strong>um</strong>a arma, <strong>não</strong> <strong>um</strong>a<br />

ideologia. O terrorismo contra a Charlie Hebdo<br />

buscou aterrorizar os d<strong>em</strong>ais e reduzir o Estado<br />

francês a <strong>um</strong>a condição de paranoia. “Quiseram<br />

fazer com que gente comprometida com as liberdades<br />

cometesse ações contra elas”. Jenkins disse<br />

que, nos últimos 25 anos, o Ocidente interpretou<br />

mal o significado do crescimento do sentimento<br />

fundamentalista no mundo muçulmano e <strong>não</strong><br />

entendeu o que estava por trás dos movimentos<br />

como a Irmandade Muçulmana, no Egito, os<br />

talibãs, no Afeganistão, os Aiatolás, no Irã, Bin<br />

Laden e a Al Qaeda e, mais recent<strong>em</strong>ente, o ISIS<br />

no Iraque e na Síria. Alguns desses movimentos<br />

substituíram com califados regimes seculares<br />

tradicionalmente sólidos, como os baathistas. De<br />

início, a dinâmica gerada por esses movimentos,<br />

e inclusive as ameaças contra os interesses<br />

comerciais ocidentais, ficaram circunscritas ao<br />

território regional. Mas logo tudo mudou, e <strong>em</strong><br />

grande medida porque o petróleo s<strong>em</strong>pre precisa<br />

ser vendido. Logo após o ataque às torres gêmeas,<br />

a caracterização da retaliação como “guerra”<br />

46 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


piorou as coisas. Tal como advertiu Tom Paine:<br />

“O castigo sanguinário corrompe o ser h<strong>um</strong>ano”.<br />

Agora, os terroristas buscam a<strong>um</strong>entar a histeria,<br />

algo que compartilham com “os burocratas da indústria<br />

antilibertária”. No entanto, para Jenkins,<br />

<strong>é</strong> importante o fato de que “o terrorismo <strong>não</strong> <strong>é</strong> <strong>um</strong><br />

crime com<strong>um</strong>”, <strong>mas</strong> que sua efetividade depende<br />

das consequências. “Pode matar pessoas e danificar<br />

a propriedade. Pode impor <strong>um</strong> custo. Mas<br />

<strong>não</strong> pode ocupar <strong>um</strong> território ou derrubar <strong>um</strong><br />

governo. Inclusive para provocar o medo, requer<br />

a colaboração do resto, desde os meios de comunicação<br />

at<strong>é</strong> os políticos”. Por isso, a saída seria<br />

<strong>não</strong> exagerar no tom, <strong>não</strong> mostrar medo, e tirar<br />

a satisfação dos terroristas. “É a única maneira<br />

de derrotar o terrorismo”.<br />

Guantánamo. L’Obs e Rue 89, duas publicações<br />

francesas, publicaram <strong>um</strong>a nota sobre<br />

o que defin<strong>em</strong> como “c<strong>um</strong>plicidade francesa”<br />

com a prisão norte-americana de Guantânamo,<br />

onde os Estados Unidos <strong>não</strong> apenas torturaram<br />

prisioneiros como mantiveram sob custódia<br />

muitos detidos que haviam sido declarados<br />

inocentes nos tribunais. Citando telegra<strong>mas</strong><br />

revelados pelo Wikileaks, informaram que, inclusive,<br />

interrogadores franceses participaram<br />

das sessões. Barack Obama havia prometido<br />

fechar a prisão quando ass<strong>um</strong>iu <strong>seu</strong> primeiro<br />

mandato, <strong>em</strong> janeiro de 2009.<br />

Não existe <strong>um</strong>a “comunidade muçulmana”.<br />

No Huffington Post, o acadêmico especialista <strong>em</strong><br />

t<strong>em</strong>as islâmicos Oliver Roy constata que exist<strong>em</strong><br />

duas narrativas. Uma sustenta que o probl<strong>em</strong>a <strong>é</strong><br />

o <strong>islã</strong> da França, com sua doutrina sobre a pre<strong>em</strong>inência<br />

da adesão à f<strong>é</strong> sobre a adesão à nacionalidade<br />

francesa. Outra sustenta que o probl<strong>em</strong>a<br />

são as condições de marginalidade de muitos dos<br />

imigrantes ou filhos de imigrantes. Roy diz que<br />

ambas as narrativas part<strong>em</strong> de <strong>um</strong>a limitação:<br />

pressupõ<strong>em</strong> a existência de <strong>um</strong>a “comunidade<br />

muçulmana” na França da qual os terroristas seriam<br />

<strong>um</strong>a esp<strong>é</strong>cie de “vanguarda”. Ele coloca <strong>em</strong><br />

dúvida essa suposta verdade. Defende que muitos<br />

dos jovens radicalizados <strong>não</strong> apenas <strong>não</strong> são <strong>um</strong>a<br />

vanguarda do restante, <strong>mas</strong> tamb<strong>é</strong>m se opõ<strong>em</strong> ao<br />

<strong>islã</strong> professado por <strong>seu</strong>s pais e acreditam <strong>em</strong> <strong>um</strong><br />

<strong>islã</strong> a partir da periferia do mundo muçulmano.<br />

Não estão relacionados às mesquitas locais e, quando<br />

viajam à Síria, vão escondidos da família. Praticam<br />

<strong>um</strong>a radicalização mutualmente estimulada<br />

pela internet <strong>em</strong> busca de <strong>um</strong>a jihad global. “Não<br />

estão interessados nas preocupações concretas do<br />

mundo muçulmano, como a Palestina”, opina Roy.<br />

“Não buscam a islamização da sociedade <strong>em</strong> que<br />

viv<strong>em</strong>, <strong>mas</strong> a realização de sua fantasia doente de<br />

heroísmo, como os assassinatos na Charlie Hebdo,<br />

47


quando disseram ter sido convocados pelo profeta<br />

Mohammed”. Os muçulmanos estão mais integrados<br />

do que se supõe, fato que parece comprovado<br />

at<strong>é</strong> pela identidade de Imad Ibn Ziaten, o soldado<br />

francês morto por Mohamed Merh <strong>em</strong> 2012, ou a<br />

do oficial Ahmed Merabet, assassinado pelos terroristas<br />

na Charlie Hebdo. Para Roy, o ruim <strong>é</strong> que “no<br />

lugar de ser<strong>em</strong> citados como ex<strong>em</strong>plos, esses casos<br />

aparec<strong>em</strong> como contraex<strong>em</strong>plos”, o que seria falso:<br />

“Na França, exist<strong>em</strong> mais muçulmanos no ex<strong>é</strong>rcito,<br />

na polícia e na gendarmaria do que na Al Qaeda, e<br />

isso s<strong>em</strong> mencionar a administração pública, os<br />

hospitais, a justiça ou o sist<strong>em</strong>a educacional”. O<br />

outro el<strong>em</strong>ento que, para Roy, <strong>é</strong> subestimado, <strong>é</strong> o<br />

nível <strong>mas</strong>sivo de rechaço dos atentados por parte<br />

dos muçulmanos nas redes sociais. Ao mesmo t<strong>em</strong>po,<br />

<strong>não</strong> existe <strong>um</strong> “voto muçulmano”, <strong>não</strong> existe <strong>um</strong><br />

lobby muçulmano e <strong>não</strong> há <strong>um</strong> partido muçulmano.<br />

As escolas muçulmanas <strong>não</strong> passam de <strong>um</strong>a<br />

dezena. Não há <strong>um</strong>a “comunidade muçulmana”,<br />

<strong>mas</strong> sim <strong>um</strong>a população muçulmana. Segundo<br />

Oliver Roy, “admitir esta simples verdade seria <strong>um</strong><br />

grande antídoto contra a histeria, a atual e a que<br />

virá”. O lepenismo.<br />

No Le Nouvel Observateur, Renaud D<strong>é</strong>ly<br />

arg<strong>um</strong>enta que qualquer cidadão deve ser b<strong>em</strong><br />

recebido se participar da manifestação convocada<br />

<strong>em</strong> Paris, <strong>mas</strong> que a Frente Nacional de Marine Le<br />

Pen <strong>não</strong> t<strong>em</strong> direito a participar como tal porque<br />

<strong>não</strong> <strong>é</strong> republicana. “Desde sua orig<strong>em</strong>, e ainda<br />

hoje, a Frente Nacional vai contra o universalismo<br />

dos ideais republicanos”, escreve. “Categoriza<br />

e hierarquiza as populações segundo suas origens,<br />

distingue entre os que chama de ‘franceses de<br />

papel’ e os que estariam por cima <strong>em</strong> razão de<br />

sua ascendência e de sua ‘preferência nacional’,<br />

recent<strong>em</strong>ente rebatizada ‘prioridade nacional’,<br />

<strong>um</strong> princípio discriminatório que abarca ajudas<br />

sociais, moradia e <strong>em</strong>prego. Isso <strong>é</strong> claramente<br />

antirrepublicano”.<br />

As raízes do terrorismo. Uma pessoa conhecida<br />

como Hermano Rachid subiu no YouTube <strong>um</strong><br />

chamado público a Obama. Foi visto por 500 mil<br />

pessoas. Já <strong>não</strong> está disponível por probl<strong>em</strong>as de<br />

direito autoral, <strong>mas</strong> o colunista do The New York<br />

Times Tho<strong>mas</strong> Friedman o citou <strong>em</strong> <strong>um</strong>a nota<br />

sobre a organização Estado Islâmico, tamb<strong>é</strong>m<br />

conhecida como ISIS ou ISIL, escrita antes do<br />

“Val pediu <strong>um</strong>a carta de<br />

desculpas, <strong>mas</strong> Sin<strong>é</strong> disse:<br />

‘Antes disso, eu corto meu<br />

saco’. Não precisou fazê-lo<br />

porque ficou fora da Charlie<br />

Hebdo. A nota de Lalami<br />

termina assim: ‘Não sei qual<br />

dos relatos <strong>em</strong> torno da<br />

Charlie Hebdo <strong>é</strong> verdadeiro.<br />

Talvez nenh<strong>um</strong>, ou talvez<br />

todos. Estou cansada. Cansada<br />

do fato de que desenhar <strong>um</strong>a<br />

caricatura de Mohammed<br />

causa mais ira do que o<br />

derramamento de sangue’”<br />

atentado contra a Charlie Hebdo. Rachid dizia:<br />

“Senhor presidente, se o senhor quer de verdade<br />

combater o terrorismo, então combata suas<br />

raízes. Quantos xeiques da Arábia Saudita estão<br />

pregando o ódio Quantos canais islâmicos estão<br />

doutrinando as pessoas e as ensinando o valor<br />

da violência Quantas escolas islâmicas estão<br />

produzindo gerações de docentes e estudantes que<br />

acreditam na jihad e no martírio como forma de<br />

combater os infi<strong>é</strong>is”. Segundo Friedman, o ISIS<br />

tenta encabeçar o <strong>islã</strong> recorrendo às distintas<br />

frustrações do mundo muçulmano e defendendo<br />

a visão puritana imperante nas madrassas, as<br />

escolas confessionais da Arábia Saudita. Mas, ao<br />

mesmo t<strong>em</strong>po, as redes sociais mostram o surgimento<br />

de <strong>um</strong> grande debate de ideias sobre o ISIS,<br />

sobre sua doutrina e inclusive sobre o <strong>islã</strong> <strong>em</strong><br />

geral, e <strong>em</strong> torno do direito secular a <strong>não</strong> seguir<br />

as leis de orig<strong>em</strong> religiosa.<br />

Sauditas. A Anistia Internacional informou<br />

que o blogueiro Raif Badawi, acusado de insultar<br />

o <strong>islã</strong>, foi sentenciado a mil chibatadas e recebeu<br />

as primeiras cinquenta na última sexta-feira. A<br />

rigor, o que Badawi havia feito foi abrir <strong>um</strong> site<br />

chamado Free Saudi Liberals <strong>–</strong> Progressistas Sauditas<br />

Livres. A página foi fechada.<br />

Os professores sab<strong>em</strong> pouco sobre o <strong>islã</strong>.<br />

48 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


O Rue 89 entrevistou o sociólogo das religiões<br />

Olivier Bobineau. “O probl<strong>em</strong>a <strong>não</strong> <strong>é</strong> o choque<br />

de civilizações, <strong>mas</strong> o choque de ignorâncias”,<br />

provocou o especialista, que acaba de publicar o<br />

livro A laicidade e as religiões no espaço público.<br />

Bobineau disse que, para lutar contra a cruz de<br />

ignorâncias, existe <strong>um</strong> conteúdo, o laicismo, e <strong>um</strong><br />

m<strong>é</strong>todo, falar colocando-se no lugar do outro. Na<br />

opinião do sociólogo, <strong>é</strong> incorreto pensar a escola<br />

como <strong>um</strong> espaço no qual cada aluno deixa de<br />

fora sua identidade, <strong>seu</strong> corpo, suas ideias e <strong>seu</strong>s<br />

sentimentos. Nesse caso, qualquer adolescente<br />

poderá ir atrás de qu<strong>em</strong> quer que ofereça <strong>um</strong><br />

sentido a sua vida <strong>em</strong> <strong>um</strong> espaço diferente da<br />

sala de aula. Bobineau opinou que os adolescentes<br />

sab<strong>em</strong> muito pouco do <strong>islã</strong> e que, al<strong>é</strong>m disso, a<br />

socialização depende de <strong>um</strong>a política escolar,<br />

<strong>um</strong>a política familiar e <strong>um</strong>a política para as ruas.<br />

Nas ruas, <strong>é</strong> preciso garantir espaços de encontro<br />

e locais públicos abertos a todos. Nas famílias, <strong>é</strong><br />

fundamental o probl<strong>em</strong>a de garantir moradias<br />

s<strong>em</strong> aglomerações. “A Igreja Católica t<strong>em</strong> <strong>em</strong> sua<br />

tradição acompanhar os casais. É preciso pegar<br />

essa tradição e transformá-la <strong>em</strong> <strong>um</strong>a prática<br />

laica”. Em todos os âmbitos, <strong>é</strong> preciso ajudar para<br />

que a violência simbólica tenha sua catarse e sua<br />

racionalidade, para que <strong>não</strong> se transforme <strong>em</strong><br />

violência física. Cansaço.<br />

A romancista norte-americana nascida no<br />

Marrocos Laila Lalami, <strong>em</strong> <strong>um</strong>a polêmica nota<br />

publicada pelo The Nation, o s<strong>em</strong>anário progressista<br />

dos EUA, disse que resiste às absolutizações<br />

observadas depois do atentado à Charlie Hebdo.<br />

Lê que tudo <strong>é</strong> produto do choque de civilizações.<br />

Que se trata de <strong>um</strong> ataque ao último bastião da<br />

expressão livre. Que os líderes das populações<br />

muçulmanas ficaram calados. Que a França<br />

falhou na integração dos filhos dos imigrantes<br />

do Magreb. Que tudo <strong>é</strong> porque a França enviou<br />

tropas a países muçulmanos. Que há dois pesos<br />

e duas medidas. Disposta a colocar os t<strong>em</strong>as <strong>em</strong><br />

discussão, <strong>não</strong> t<strong>em</strong>e <strong>em</strong> dizer, por ex<strong>em</strong>plo, que<br />

no passado a Charlie Hebdo publicava desenhos<br />

satíricos de todo mundo, desde Jesus a Mois<strong>é</strong>s,<br />

passando por Mohammed, pelo Papa, François<br />

Hollande, Nicolas Sarkozy e Marine Le Pen, <strong>mas</strong><br />

nos últimos anos a<strong>um</strong>entou a frequência das sátiras<br />

com personagens muçulmanos ou situações<br />

como as quais viveram as estudantes sequestradas<br />

<strong>em</strong> 2014 na Nig<strong>é</strong>ria pela organização islâmica<br />

violenta Boko Har<strong>um</strong>. Ainda que <strong>não</strong> repare na<br />

presença atual dos 1200 soldados franceses no<br />

contingente internacional que combate o Estado<br />

Islâmico, Lalamio observa que, quando Cherif<br />

Kouachi, <strong>um</strong> dos terroristas da Charlie Hebdo,<br />

entrou para as fileiras dos islâmicos radicais, a<br />

França se opôs à intervenção norte-americana<br />

no Iraque e <strong>não</strong> enviou tropas, apesar do pedido<br />

norte-americano. Simplesmente como <strong>um</strong> dado<br />

<strong>em</strong> meio à polêmica, a escritora l<strong>em</strong>bra que satirizar<br />

figuras individualizadas ou gerais do <strong>islã</strong><br />

<strong>não</strong> leva a qualquer condenação, <strong>mas</strong> que, para<br />

a legislação francesa, a sátira sobre o Holocausto<br />

levaria à condenação. O famoso desenhista Sin<strong>é</strong><br />

foi acusado pelo então diretor da Charlie Hebdo<br />

Philippe Val de ironizar quando o filho de Sarkozy<br />

se casou com Jessica Sebaoun-Darty, de orig<strong>em</strong><br />

judia, e diante dos r<strong>um</strong>ores de que Sarkozy Jr.<br />

tivesse se convertido ao judaísmo, pressagiou<br />

para ele <strong>um</strong> futuro de b<strong>em</strong>-estar. Val pediu <strong>um</strong>a<br />

carta de desculpas, <strong>mas</strong> Sin<strong>é</strong> disse: “Antes disso,<br />

eu corto meu saco”. Não precisou fazê-lo porque<br />

ficou fora da Charlie Hebdo. A nota de Lalamitermina<br />

assim: “Não sei qual dos relatos <strong>em</strong> torno<br />

da Charlie Hebdo <strong>é</strong> verdadeiro. Talvez nenh<strong>um</strong>,<br />

ou talvez todos. Estou cansada. Cansada do fato<br />

de que desenhar <strong>um</strong>a caricatura de Mohammed<br />

causa mais ira do que o derramamento de sangue.<br />

Cansada de que a intolerância leviana seja<br />

equiparada à crítica s<strong>é</strong>ria. Cansada do fato de que<br />

prover <strong>um</strong> contexto seja visto como dar desculpas.<br />

Tamb<strong>é</strong>m tenho medo pelos direitos de escritores<br />

e artistas. Medo pelos inocentes que sofrerão.<br />

Medo da legislação restritiva que virá. Tudo o que<br />

sei <strong>é</strong> que estamos todos juntos nessa. Dev<strong>em</strong>os<br />

aceitar que <strong>não</strong> pod<strong>em</strong>os andar pela vida s<strong>em</strong> ser<br />

ofendidos. Dev<strong>em</strong>os aceitar que o direito à ofensa<br />

<strong>é</strong> <strong>um</strong>a parte fundamental do direito à liberdade<br />

de expressão. Mas tamb<strong>é</strong>m t<strong>em</strong>os que aceitar que<br />

dev<strong>em</strong>os ass<strong>um</strong>ir responsabilidades diante dos<br />

d<strong>em</strong>ais. Dev<strong>em</strong>os falar contra o racismo, o sexismo<br />

e a intolerância <strong>em</strong> todas as suas for<strong>mas</strong>.<br />

Us<strong>em</strong>os a razão, <strong>mas</strong> tamb<strong>é</strong>m nossos corações”.<br />

49


Para se entender o<br />

terrorismo contra o<br />

Charlie Hebdo de paris<br />

Colunista<br />

Leonardo Boff<br />

O efeito deste atentado <strong>é</strong> instalar<br />

<strong>um</strong> medo generalizado. esse efeito<br />

<strong>é</strong> visado pelo terrorismo: ocupar<br />

as mentes das pessoas e mantê-las<br />

ref<strong>é</strong>ns do medo.<br />

Uma coisa <strong>é</strong> se indignar, com toda razão,<br />

contra o ato terrorista que dizimou os melhores<br />

chargistas franceses. Trata-se de ato abominável<br />

e criminoso, impossível de ser apoiado por qu<strong>em</strong><br />

quer que seja.<br />

Outra coisa <strong>é</strong> procurar analiticamente entender<br />

porquê tais eventos terroristas acontec<strong>em</strong>.<br />

Eles <strong>não</strong> ca<strong>em</strong> do c<strong>é</strong>u azul. Atrás deles há <strong>um</strong><br />

c<strong>é</strong>u escuro, feito de histórias trágicas, matanças<br />

<strong>mas</strong>sivas, h<strong>um</strong>ilhações e discriminações, quando<br />

<strong>não</strong>, de verdadeiras guerras como as do Iraque e<br />

Afegasnistão que sacrificaram vidas de milhares<br />

e milhares de pessoas ou as obrigaram a ir para<br />

o exílio.<br />

Os USA e países europeus estavam presentes<br />

nesta guerra. Na França viv<strong>em</strong> alguns milhões<br />

de muçulmanos, a maioria nas periferias <strong>em</strong><br />

condições precárias. Muitos, mesmo nascidos na<br />

França, são altamente discriminados a ponto de<br />

surgir <strong>um</strong>a verdadeira islamofobia. Logo após o<br />

atentado aos escritórios do Charlie Hebdo, <strong>um</strong>a<br />

mesquita foi atacada com tiros, <strong>um</strong> restaurante<br />

muçulmano foi incendiado e <strong>um</strong>a casa de oração<br />

islâmica foi atingida tamb<strong>é</strong>m por tiros.<br />

Trata-se de superar o espírito de vingança e<br />

“Os USA e países europeus<br />

estavam presentes nesta<br />

guerra. Na França viv<strong>em</strong> alguns<br />

milhões de muçulmanos, a<br />

maioria nas periferias <strong>em</strong><br />

condições precárias. Muitos,<br />

mesmo nascidos na França,<br />

são altamente discriminados<br />

a ponto de surgir <strong>um</strong>a<br />

verdadeira islamofobia.<br />

Logo após o atentado aos<br />

escritórios do Charlie Hebdo,<br />

<strong>um</strong>a mesquita foi atacada<br />

com tiros, <strong>um</strong> restaurante<br />

muçulmano foi incendiado e<br />

<strong>um</strong>a casa de oração islâmica<br />

foi atingida tamb<strong>é</strong>m por tiros”<br />

50 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


de renunciar à estrat<strong>é</strong>gia de enfrentar a violência<br />

com mais violência ainda. Ela cria <strong>um</strong>a espiral<br />

de violência interminável, fazendo víti<strong>mas</strong> s<strong>em</strong><br />

conta, a maioria delas inocentes. E nunca se<br />

chegará à paz. Se queres a paz prepara meios de<br />

paz, fruto do diálogo e da convivência respeitosa<br />

entre todos.<br />

Paradigmático foi o atentado terrorista de 11<br />

de set<strong>em</strong>bro de 2001 contra os Estados Unidos. A<br />

reação do Presidente Bush foi declarar a “guerra<br />

infinita” contra o terror e instituir o “ato patriótico”<br />

que viola direitos fundamentais dos cidadãos.<br />

O que os USA e aliados ocidentais fizeram no<br />

Iraque e no Afeganistão foi <strong>um</strong>a guerra moderna<br />

com <strong>um</strong>a mortandade de civis incontável. Se<br />

nestes países houvesse somente ampla plantação<br />

de tâmaras e de figos, nada disso ocorreria.<br />

Mas lá há muitas reservas de petróleo, sangue<br />

do sist<strong>em</strong>a mundial de produção. Tal violência<br />

deixou <strong>um</strong> rastro de raiva, de ódio e de vontade<br />

de vingança <strong>em</strong> muitos muçulmanos vivendo <strong>em</strong><br />

<strong>seu</strong>s países ou pelo mundo afora.<br />

A partir deste transfundo, se pode entende<br />

que o atentado abominável <strong>em</strong> Paris <strong>é</strong> resultado<br />

desta violência primeira e <strong>não</strong> causa originária.<br />

N<strong>em</strong> por isso se justifica.<br />

O efeito deste atentado <strong>é</strong> instalar <strong>um</strong> medo<br />

generalizado. Esse efeito <strong>é</strong> visado pelo terrorismo:<br />

ocupar as mentes das pessoas e mantê-las ref<strong>é</strong>ns<br />

do medo. O significado principal do terrorismo<br />

<strong>não</strong> <strong>é</strong> ocupar territórios, como o fizeram os ocidentais<br />

no Afeganistão e no Iraque, <strong>mas</strong> ocupar<br />

as mentes. A profecia do autor intelectual dos<br />

atentados de 11 de set<strong>em</strong>bro, Osama Bin Laden,<br />

feita no dia 8 de outubro de 2001, infelizmente,<br />

se realizou: “Os EUA nunca mais terão segurança,<br />

nunca mais terão paz”. Ocupar as mentes das<br />

pessoas, mantê-las desestabilizadas <strong>em</strong>ocionalmente,<br />

obrigá-las a desconfiar de qualquer gesto<br />

ou de pessoas estranhas, eis o objetivo essencial<br />

do terrorismo.<br />

Para alcançar <strong>seu</strong> objetivo de dominação<br />

das mentes, o terrorismo persegue a seguinte<br />

estrat<strong>é</strong>gia:<br />

1 <strong>–</strong> os atos de terror têm de ser espetaculares,<br />

caso contrário, <strong>não</strong> causam comoção<br />

generalizada;<br />

“Formaliz<strong>em</strong>os <strong>um</strong> conceito do<br />

terrorismo: <strong>é</strong> toda violência<br />

espetacular, praticada com o<br />

propósito de ocupar as mentes<br />

com medo e pavor.<br />

O importante <strong>não</strong> <strong>é</strong> a violência<br />

<strong>em</strong> si, <strong>mas</strong> <strong>seu</strong> caráter de<br />

espetáculo, capaz de dominar<br />

as mentes de todos”.<br />

2 <strong>–</strong> os atos, apesar de odiados, dev<strong>em</strong> provocar<br />

admiração pela sagacidade <strong>em</strong>pregada;<br />

3 <strong>–</strong> os atos dev<strong>em</strong> sugerir que foram minuciosamente<br />

preparados;<br />

4 <strong>–</strong> os atos dev<strong>em</strong> ser imprevistos para dar<strong>em</strong> a<br />

impressão de ser<strong>em</strong> incontroláveis;<br />

5 <strong>–</strong> os atos dev<strong>em</strong> ficar no anonimato dos autores<br />

(usar máscaras) porque quanto mais suspeitos,<br />

maior <strong>é</strong> o medo;<br />

6 <strong>–</strong> os atos dev<strong>em</strong> provocar permanente medo;<br />

7 <strong>–</strong> os atos dev<strong>em</strong> distorcer a percepção da realidade:<br />

qualquer coisa diferente pode configurar<br />

o terror. Basta ver alguns rolezinhos<br />

entrando nos shoppings e já se projeta a<br />

imag<strong>em</strong> de <strong>um</strong> assaltante potencial.<br />

Formaliz<strong>em</strong>os <strong>um</strong> conceito do terrorismo:<br />

<strong>é</strong> toda violência espetacular, praticada com o<br />

propósito de ocupar as mentes com medo e pavor.<br />

O importante <strong>não</strong> <strong>é</strong> a violência <strong>em</strong> si, <strong>mas</strong><br />

<strong>seu</strong> caráter de espetáculo, capaz de dominar as<br />

mentes de todos.<br />

Um dos efeitos mais lamentáveis do terrorismo<br />

foi ter suscitado o Estado terrorista que são<br />

hoje os EUA. Noam Chomsky cita <strong>um</strong> funcionário<br />

dos órgãos de segurança norte-americano que<br />

confessou: “Os USA são <strong>um</strong> Estado terrorista e<br />

nos orgulhamos disso”.<br />

Oxalá <strong>não</strong> predomine no mundo, especialmente,<br />

no Ocidente, este espírito. Aí sim, ir<strong>em</strong>os<br />

ao encontro do pior. Somente meios pacíficos têm<br />

a força secreta de vencer a violência e as guerras.<br />

Essa <strong>é</strong> a lição da história e o conselho dos sábios<br />

como Gandhi, Luther King Jr. Francisco de Assis<br />

e Francisco de Roma.<br />

51


A batalha de argel: Um<br />

fantasma s<strong>em</strong>pre presente<br />

L<strong>é</strong>a Maria Aarão Reis<br />

A ‘batalha de argel’ mostra como muitos dos probl<strong>em</strong>as<br />

que a europa está precisando resolver hoje são<br />

consequência do <strong>seu</strong> passado colonial.<br />

Não há, praticamente, crítico de cin<strong>em</strong>a<br />

n<strong>em</strong> jornalista de editoria internacional que <strong>não</strong><br />

tenha escrito, ou ao menos <strong>não</strong> conheça o filme<br />

do italiano Gillo Pontecorvo, A Batalha de Argel<br />

(1966/Pr<strong>em</strong>io Leão de Veneza), <strong>um</strong> dos clássicos<br />

mais admirados do cin<strong>em</strong>a político.<br />

Do ponto de vista estrito, cin<strong>em</strong>atográfico,<br />

o filme de Pontecorvo <strong>é</strong> obra prima de agilidade,<br />

ritmo, clareza e beleza plástica. É resultado da<br />

admirável fotografi a rústica, preto-e-branco,<br />

utilizada propositadamente para sublinhar a<br />

natureza dos cine jornais da <strong>é</strong>poca, da trilha<br />

musical perfeita de Enio Morricone e do roteiro<br />

<strong>em</strong>ocionante que equilibra diálogos esclarecedores<br />

para o leigo com as cenas e sequências m<strong>em</strong>o-<br />

ráveis, das ações da Frente Nacional de Libertação<br />

da Argelia (a FLN) nas ruas, nos anos 50/60, e do<br />

povo árabe na luta para se libertar da opressão e<br />

da expropriação das suas terras. Uma colonização<br />

francesa que durou 130 anos.<br />

Tão contundente, volta e meia a situação mostrada<br />

pelo filme <strong>é</strong> evocada como consequência do<br />

mundo Sykes-Picot*, o período histórico da d<strong>é</strong>cada<br />

dos anos 30 do s<strong>é</strong>culo vinte, no qual as grandes potências<br />

ocidentais, França e Inglaterra, decidiram,<br />

n<strong>um</strong>a cruel e insolente ação entre amigos, dividir<br />

o Oriente árabe e a África entre si, ao bel prazer dos<br />

interesses econômicos das suas corporações.<br />

Aí, a orig<strong>em</strong> de todo tipo de terrorismo, seja de<br />

estado e das mais variadas for<strong>mas</strong> de fundamenta-<br />

52 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


Mesma estrat<strong>é</strong>gia usada pelos ingleses com as<br />

populações chinesas e <strong>seu</strong>s vizinhos durante a<br />

Guerra do Ópio.<br />

Sete atentados por dia era o saldo da violência<br />

na capital argelina. Bombas explodiam as<br />

residências de prisioneiros com suas famílias<br />

dormindo dentro delas. Cercos policiais montados<br />

com check points faziam a vida miserável<br />

no bairro transformado <strong>em</strong> gueto. Começava a<br />

chamada Operação Champanha. Em resposta, os<br />

da FLN retaliavam, fuzilavam e esfaqueavam policiais.<br />

Muitos dos apanhados eram guilhotinados.<br />

Pouco a pouco os árabes promov<strong>em</strong> <strong>um</strong>a<br />

limpeza entre habitantes da Casbah. Nesta segunlismo,<br />

reconhecida, dez anos atrás, at<strong>é</strong> por <strong>um</strong> ministro<br />

britânico reacionário, das Relações Exteriores,<br />

Jack Straw. Candidamente ele declarou: “Muitos dos<br />

probl<strong>em</strong>as que estamos precisando resolver, hoje,<br />

são consequência do nosso passado colonial”.<br />

La Batagllia dei Argeli mostra o confronto<br />

entre os árabes e as forças militares francesas.<br />

Entre elas, oito mil paraquedistas, os pará, com<br />

experiência na Indochina e na resistência aos<br />

nazistas, na Normandia e na Itália, como se vê<br />

no relato. Des<strong>em</strong>barcaram <strong>em</strong> Argel <strong>em</strong> 1957.<br />

“Entre eles, as brigadas dos t<strong>em</strong>íveis ‘leopardos’<br />

que lutariam para manter a ‘França africana”<br />

<strong>–</strong> ou como diziam os generais enviados para lá:<br />

‘Para proteger as pessoas e a propriedade privada’<br />

<strong>–</strong> ou seja, as terras roubadas dos árabes <strong>–</strong> e para<br />

isolar e destruir a Frente Nacional de Libertação.<br />

Mas a independência do país só ocorreu <strong>em</strong><br />

62. Apenas quatro anos depois, ainda sob o calor das<br />

lutas sangrentas, Pontecorvo fazia <strong>seu</strong> filme baseado<br />

no livro de Saadi Yacef, L<strong>em</strong>branças da Arg<strong>é</strong>lia.<br />

Robert Fisk, <strong>um</strong> dos mais respeitados jornalistas<br />

europeus, correspondente de experiência notável, que<br />

vive no Líbano e <strong>é</strong> <strong>um</strong> dos melhores conhecedores e<br />

analistas da história do mundo árabe, conta (inclusive,<br />

aqui, <strong>em</strong> <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong>) que quando ouviu as primeiras<br />

notícias sobre o <strong>mas</strong>sacre aos jornalistas do<br />

Charlie Hebdo, imediatamente murmurou para ele<br />

próprio: ”Arg<strong>é</strong>lia...” Horas depois foram divulgadas as<br />

identidades dos assassinos: os irmãos Ch<strong>é</strong>rif e Said<br />

Kouachi eram de orig<strong>em</strong> argelina. E mais: a pensar<br />

na idade da dupla, na casa dos 30 anos, deveriam<br />

ser filhos de cidadãos que presenciaram ou participaram<br />

das ferozes lutas pela independência argelina<br />

relatadas no filme, quando o terrorismo de ambas<br />

as partes era usado como recurso de dissuasão. Os<br />

pais dos Ch<strong>é</strong>rife poderiam, talvez, ter imigrado para<br />

a França por volta dessa <strong>é</strong>poca.<br />

Pouco ou nada se conhece sobre a orig<strong>em</strong><br />

mais r<strong>em</strong>ota dos dois, exceto informações sobre<br />

a infância <strong>em</strong> <strong>um</strong> orfanato francês.<br />

Parece, realmente, que <strong>um</strong>a ferida <strong>não</strong> fecha,<br />

53 anos depois da independência do país do<br />

norte da África, entre a França e a Arg<strong>é</strong>lia, como<br />

aponta Fisk. Um fantasma ronda, rel<strong>em</strong>brando<br />

o terror continuado das bombas carregadas <strong>em</strong><br />

suas sacolas pelas mulheres árabes da Casbah de<br />

Argel e detonadas nos caf<strong>é</strong>s franceses do bairro<br />

“Quando ouviu as primeiras<br />

notícias sobre o <strong>mas</strong>sacre aos<br />

jornalistas do Charlie Hebdo,<br />

imediatamente murmurou para<br />

ele próprio: ‘Arg<strong>é</strong>lia...’ Horas<br />

depois foram divulgadas as<br />

identidades dos assassinos: os<br />

irmãos Ch<strong>é</strong>rif e Said Kouachi<br />

eram de orig<strong>em</strong> argelina.”<br />

europeu - onde se dançava c<strong>um</strong>bias ao som das<br />

juke Box - e o terror de milícias e militares, at<strong>é</strong><br />

nas ruas de Paris <strong>não</strong> só contra argelinos, <strong>mas</strong><br />

contra os árabes <strong>em</strong> geral.<br />

Os alvos, às vezes, eram marroquinos, caso<br />

do c<strong>é</strong>lebre episódio <strong>em</strong> que o dirigente de esquerda<br />

Ben Barka foi sequestrado, anos depois, já <strong>em</strong><br />

65, defronte de <strong>um</strong> cin<strong>em</strong>a, <strong>em</strong> pleno dia, no<br />

Boulevard Saint Germain. Depois, foi assassinado.<br />

O corpo nunca foi encontrado. O atentado <strong>é</strong><br />

atribuído aos agentes secretos franceses com a<br />

colaboração do Mossad e da CIA.<br />

O vigor de A Batalha de Argel <strong>é</strong> tal que, atrav<strong>é</strong>s<br />

dele, as l<strong>em</strong>branças <strong>em</strong>erg<strong>em</strong>.<br />

O filme se inicia <strong>em</strong> 1954, primeiros t<strong>em</strong>pos<br />

da organização da FLN entre os moradores da<br />

Casbah. Mostra como ela ocorreu. O uso do álcool<br />

e das drogas era usado livr<strong>em</strong>ente e estimulado<br />

pelos colonizadores para controlar melhor a população<br />

dos 400 mil cidadãos árabes da cidade.<br />

53


da parte do filme, v<strong>em</strong>os como se formando forte<br />

e organizada resistência e consciência política.<br />

Alguns aspectos, s<strong>em</strong>pre oportunos, são<br />

sublinhados no filme de Pontecorvo:<br />

<strong>–</strong> O voto da ONU pela <strong>não</strong>-intervenção de<br />

forças de paz na Arg<strong>é</strong>lia. A guerra se prolongava<br />

e se tornava <strong>um</strong>a chacina. Discutiu-se a questão<br />

argelina e votou-se a favor dos franceses.<br />

<strong>–</strong> A importância do papel da imprensa de<br />

Paris escondendo ou deturpando fatos que <strong>não</strong><br />

eram de interesse do governo francês divulgar.<br />

“Muito depende do que vocês escrever<strong>em</strong>”, dizia<br />

o coronel Mathieu, o insolente comandante dos<br />

paraquedistas, <strong>nome</strong> fictício para o general Jacques<br />

Massu** (de triste m<strong>em</strong>ória), nas muitas<br />

entrevistas coletivas convocadas, se referindo<br />

à vitória. “Escrevam b<strong>em</strong>,” ele exortava. No dia<br />

seguinte as manchetes dos jornais franceses<br />

diziam: “Tudo calmo no bairro muçulmano.” Era<br />

mentira. Mathieu/Massu declarava: ”A palavra<br />

tortura <strong>não</strong> consta das nossas ordens...”<br />

<strong>–</strong> As t<strong>é</strong>cnicas sist<strong>em</strong>atizadas de torturas de<br />

prisioneiros depois exportadas para os Estados<br />

Unidos, Am<strong>é</strong>rica do Sul e para o Brasil. Afogamentos,<br />

choques el<strong>é</strong>tricos, queimaduras com maçaricos,<br />

pau-de-arara. Torturas promovidas nas<br />

residências dos árabes sob as vistas das famílias.<br />

<strong>–</strong> E a sequência fi nal de A Batalha de Argel<br />

com cenas antológicas de rebelião popular. Desde 11<br />

de dez<strong>em</strong>bro de 1960 at<strong>é</strong> o dia 29 do mesmo mês a<br />

população árabe <strong>não</strong> deixou as ruas <strong>em</strong>bora muitos<br />

tenham sido metralhados e esmagados pelos tanques.<br />

Milhares de bandeiras do país, com o símbolo<br />

da meia lua e da estrela foram feitas de retalhos,<br />

trapos, com qualquer pedaço de pano encontrado.<br />

“Tudo virou bandeira!” anunciavam os cine jornais<br />

e as <strong>em</strong>issões de rádio. Agitadas na brisa marinha<br />

do c<strong>é</strong>u da Casbah e, depois, de toda a cidade, elas<br />

são <strong>um</strong>a visão <strong>em</strong>ocionante no filme.<br />

Em 1962, foi, enfim, dada a resposta à pergunta<br />

que Mathieu/Massu cost<strong>um</strong>ava fazer aos<br />

jornalistas nas arrogantes entrevistas <strong>em</strong> que<br />

negava praticar a tortura: “A FLN quer nos ver<br />

fora da Arg<strong>é</strong>lia e nós quer<strong>em</strong>os ficar. E vocês” Os<br />

franceses tiveram que sair.<br />

Robert Fisk pode ter mesmo razão: há ainda<br />

contas a ajustar entre a França e a Arg<strong>é</strong>lia<br />

Quanto permanece de ressentimento pelo passado<br />

violento para ambas as partes Entre os<br />

pieds noirs,*** obrigados a devolver as terras que<br />

tinham sido confi scadas aos árabes e retornar<br />

à Europa, e os habitantes do interior, das montanhas<br />

argelinas, e os da Casbah de Argel que se<br />

viram obrigados a imigrar<br />

*Os diplomatas Mark Sykes e François Georges-<br />

-Picot arquitetaram <strong>um</strong> ‘novo’ Oriente M<strong>é</strong>dio,<br />

depois da I Guerra Mundial, desenhando linhas<br />

arbitrárias de fronteiras e criando vários países<br />

árabes que <strong>não</strong> existiam antes. Ver aventuras de<br />

T. E. Lawrence, o Lawrence da Arábia.<br />

**Massu declarou ao Le Monde <strong>em</strong> 2000: “ O<br />

mais duro de suportar foi o fato de meu <strong>nome</strong><br />

ficar para s<strong>em</strong>pre associado à tortura.” Ficou.<br />

***Descendentes de colonos europeus, <strong>em</strong> particular<br />

de franceses, que regressaram aos <strong>seu</strong>s<br />

países depois das guerras de independência do<br />

norte da África.<br />

54 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


O que está acontecendo<br />

conosco<br />

Michel Plon<br />

A consideração rigorosa do passado colonial francês,<br />

daquilo que foi reprimido por grande parte da sociedade<br />

francesa me parece <strong>um</strong>a tarefa incontornável.<br />

Para responder à proposta de amigos brasileiros<br />

de escrever sobre o que está acontecendo na França<br />

após o trágico início de 2015, gostaria, antes<br />

de responder sucintamente, de fazer alg<strong>um</strong>as<br />

observações.<br />

A primeira <strong>é</strong> que, <strong>em</strong>bora eu seja <strong>um</strong> psicanalista,<br />

<strong>não</strong> <strong>é</strong> enquanto tal que faço essa reflexão,<br />

pela razão fundamental de que a psicanálise <strong>não</strong><br />

<strong>é</strong> <strong>um</strong>a profissão ou <strong>é</strong>, como Freud observou diversas<br />

vezes, <strong>um</strong>a profissão impossível. Ser ou tentar<br />

ser psicanalista consiste <strong>em</strong> ocupar <strong>um</strong>a posição<br />

que permite escutar o sofrimento de <strong>um</strong>a pessoa,<br />

de algu<strong>é</strong>m com probl<strong>em</strong>as consigo mesmo,<br />

e tentar ajudá-la a resolver essas dificuldades.<br />

Portanto, pretender falar de <strong>um</strong>a situação política<br />

e social, aquela vivida pela França hoje ou por<br />

55


qualquer outro país, na condição de <strong>um</strong> analista<br />

que se utiliza das ferramentas teóricas que Freud<br />

e Lacan nos deixaram, consiste <strong>em</strong> incorrer neste<br />

engano que <strong>é</strong> geralmente chamado de “psicanálise<br />

aplicada”. A psicanálise só se aplica, como nos<br />

l<strong>em</strong>brou Lacan, a sujeitos aos quais nos dedicamos<br />

a escutar.<br />

A segunda observação consiste <strong>em</strong> estabelecer<br />

<strong>um</strong>a diferença fundamental entre <strong>um</strong>a<br />

abordag<strong>em</strong> que busca compreender e avançar<br />

alg<strong>um</strong>as explicações para <strong>um</strong> evento trágico e<br />

outra que procura justificar e desculpar atos que<br />

<strong>não</strong> são, de modo alg<strong>um</strong>, passíveis de justificativa<br />

e desculpa. Compreender ou tentar compreender,<br />

tentar explicar, <strong>não</strong> significa de modo alg<strong>um</strong><br />

desculpar, menos ainda diminuir ou relativizar<br />

o caráter atroz <strong>–</strong> evitarei aqui falar de barbárie<br />

<strong>–</strong> dos atos cometidos <strong>em</strong> Paris nos dias 6 e 7 de<br />

janeiro deste ano.<br />

Depois da <strong>em</strong>oção e da tristeza que se sentiram<br />

naqueles dias trágicos, após o entusiasmo<br />

provocado pela imensa manifestação de 11 de<br />

janeiro, quaisquer que sejam <strong>seu</strong>s limites, após<br />

a esp<strong>é</strong>cie de fadiga que se seguiu à escuta e à<br />

leitura de in<strong>um</strong>eráveis intervenções, entrevistas,<br />

artigos e debates nos jornais, rádios e canais de<br />

televisão, ficou o sentimento de <strong>um</strong> tipo de indecência<br />

diante da ânsia de acrescentar <strong>um</strong> “ponto<br />

de vista” próprio a essa sequência infindável de<br />

“opiniões”.<br />

Então, por que falar sobre isso A desculpa<br />

que consiste <strong>em</strong> l<strong>em</strong>brar a distância entre a<br />

França e o Brasil, <strong>um</strong>a distância <strong>não</strong> somente<br />

geográfica, <strong>não</strong> <strong>é</strong> suficiente. A razão que eu posso<br />

apresentar para justificar a enunciação de alg<strong>um</strong>as<br />

ideias a respeito t<strong>em</strong> a ver com a ausência<br />

notável e marcante nas análises propostas de<br />

qualquer consideração de dimensão histórica que<br />

me parece amplamente necessária <strong>–</strong> há outras,<br />

certamente <strong>–</strong> para lançar <strong>um</strong>a luz sobre esses<br />

eventos trágicos.<br />

<strong>Há</strong> cerca de 30 anos, Rossana Rossanda,<br />

grande figura intelectual do comunismo italiano,<br />

l<strong>em</strong>brou <strong>seu</strong>s compatriotas que, quaisquer<br />

tenham sidos os abusos, crimes e assassinatos<br />

praticados pelas Brigadas Vermelhas, esses jovens<br />

eram “nossos filhos”, que carregavam com<br />

eles, <strong>em</strong> <strong>seu</strong> pensamento e ação, as marcas de<br />

“Me parece que <strong>não</strong> pod<strong>em</strong>os<br />

dispensar <strong>um</strong> olhar sobre a<br />

história da França nesses dois<br />

últimos s<strong>é</strong>culos, o que implica<br />

levar <strong>em</strong> conta prioritariamente<br />

a história do colonialismo<br />

francês e dos crimes de toda<br />

ord<strong>em</strong> que ele cometeu”<br />

<strong>um</strong>a sociedade que <strong>não</strong> havia se confrontado com<br />

sua história, a história do fascismo de Mussolini.<br />

Considerando a França de hoje e os crimes<br />

antiss<strong>em</strong>itas, <strong>mas</strong> <strong>não</strong> somente eles, cometidos há<br />

alguns anos e que precederam aqueles desse triste<br />

mês de janeiro, me parece que <strong>não</strong> pod<strong>em</strong>os dispensar<br />

<strong>um</strong> olhar sobre a história da França nesses<br />

dois últimos s<strong>é</strong>culos, o que implica levar <strong>em</strong> conta<br />

prioritariamente a história do colonialismo francês<br />

e dos crimes de toda ord<strong>em</strong> que ele cometeu.<br />

Alg<strong>um</strong>as datas para nos limitarmos a <strong>um</strong><br />

período relativamente recente, que começa<br />

após o fim da segunda guerra mundial, do<br />

qual muitos pais, avós e bisavós daqueles que<br />

chamamos hoje de “jovens da periferia”, imigrantes<br />

africanos e norte-africanos (argelinos<br />

principalmente) participaram nas fileiras do<br />

ex<strong>é</strong>rcito francês. Em 1945, a França <strong>é</strong> libertada,<br />

o nazismo derrotado, e o país começa a se<br />

reconstruir. Em 1946, as Nações Unidas são<br />

criadas <strong>em</strong> São Francisco, estabelecendo entre<br />

suas primeiras resoluções o direito dos povos à<br />

autodeterminação. Na lógica dessa resolução,<br />

surg<strong>em</strong> movimentos de <strong>em</strong>ancipação na região<br />

então chamada de Indochina. Ao contrário de<br />

acolher esse desejo de independência, a França<br />

deslocou para a região <strong>um</strong> contingente militar<br />

para reprimir essa aspiração. Essa foi a primeira<br />

guerra da Indochina que terminará com<br />

os acordos de Genebra de 1954, após a derrota<br />

francesa <strong>em</strong> Diên Biên Phu.<br />

Em 1945, <strong>um</strong> número significativo de argelinos,<br />

entre eles muitos veteranos da luta contra<br />

o nazismo, se manifesta <strong>em</strong> Argel e nas grandes<br />

cidades da Arg<strong>é</strong>lia <strong>não</strong> pela independência do <strong>seu</strong><br />

país, <strong>mas</strong> para ter...o direito de voto! Um número<br />

56 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


importante deles, pelo menos 20 mil, foi <strong>mas</strong>sacrado<br />

pelo ex<strong>é</strong>rcito, especialmente <strong>em</strong> Setif. Este<br />

será o início oficial do que se tornará, a partir de<br />

1954, a guerra da Arg<strong>é</strong>lia, pudicamente chamada<br />

at<strong>é</strong>... 1999 de “operação de pacificação” ou ainda<br />

designada pelo euf<strong>em</strong>ismo “os acontecimentos<br />

da Arg<strong>é</strong>lia”, que serão marcados pelo lado francês<br />

pela prática da tortura, por assassinatos de todas<br />

as ordens e execuções de patriotas argelinos considerados<br />

criminosos. Esta guerra monstruosa<br />

que, por suas consequências, marcará a sociedade<br />

francesa, deixou entre 200 e 400 mil mortos no<br />

lado argelino, termina <strong>em</strong> 1962 com os acordos de<br />

Evian e com a independência da Arg<strong>é</strong>lia.<br />

Apesar dessa guerra e das turbulências políticas<br />

que ela provoca, a França viveu então o que<br />

chamamos de “30 anos gloriosos”, três d<strong>é</strong>cadas<br />

de crescimento, de modernização do país e de<br />

melhoria das condições de vida, especialmente<br />

das camadas m<strong>é</strong>dias da população. Mas tudo isso<br />

envolverá a vinda de <strong>um</strong>a força de trabalho <strong>em</strong><br />

grande parte... argelina, para a qual nenh<strong>um</strong>a<br />

moradia decente foi fornecida. Reside aí o nascimento<br />

e desenvolvimento de cidades de lata nos<br />

subúrbios, verdadeiras vilas de papelão e lata, que<br />

serão sucedidas por “cidades” s<strong>em</strong> serviços básicos<br />

de educação e de saúde. Esse será o cenário<br />

para gerações da população imigrante, “zonas”,<br />

como diz<strong>em</strong> alguns comentaristas (diziam antes<br />

dos recentes acontecimentos), onde a vida<br />

da maioria carece de qualquer horizonte, sendo<br />

marcado pelo des<strong>em</strong>prego, t<strong>é</strong>dio, tráfico de drogas<br />

e toda sorte de abandonos.<br />

Tudo isso <strong>é</strong> apenas <strong>um</strong> res<strong>um</strong>o, <strong>mas</strong> a falta<br />

de conhecimento ou ignorância desse contexto,<br />

ao mesmo t<strong>em</strong>po histórico e atual, torna impossível<br />

compreender a influência sobre muitos destes<br />

jovens euf<strong>em</strong>isticamente chamados “vindos da<br />

imigração” dos movimentos extr<strong>em</strong>istas que lhes<br />

apresentam a ilusão de ter <strong>um</strong> propósito, <strong>um</strong>a<br />

razão para viver... e morrer. O primeiro-ministro,<br />

que <strong>não</strong> se notabiliza por usar a palavra certa,<br />

desta vez <strong>não</strong> se enganou quando disse, <strong>em</strong> tom<br />

alto e claro, que a sociedade francesa <strong>é</strong> hoje palco<br />

de <strong>um</strong> apartheid econômico, social e racial, <strong>em</strong>bora<br />

este último <strong>não</strong> esteja inscrito na lei, como<br />

foi o caso na África do Sul.<br />

“<strong>Há</strong> certamente muitos outros<br />

fatores a considerar para<br />

esclarecer o que acaba de<br />

acontecer na França, <strong>mas</strong> a<br />

consideração rigorosa do<br />

passado colonial, da sua<br />

repercussão nas consciências,<br />

daquilo que foi reprimido<br />

por <strong>um</strong>a grande parte da<br />

sociedade francesa me parece<br />

<strong>um</strong>a tarefa incontornável se<br />

quisermos tentar entender<br />

“o que está acontecendo<br />

conosco”<br />

<strong>Há</strong> certamente muitos outros fatores a considerar<br />

para esclarecer o que acaba de acontecer<br />

na França, <strong>mas</strong> a consideração rigorosa do passado<br />

colonial, da sua repercussão nas consciências,<br />

daquilo que foi reprimido por <strong>um</strong>a grande parte<br />

da sociedade francesa me parece <strong>um</strong>a tarefa<br />

incontornável se quisermos tentar entender “o<br />

que está acontecendo conosco” - a fórmula <strong>é</strong> de<br />

Michel Foucault que a tomou <strong>em</strong>prestado de<br />

Kant - se quisermos curar, reparar e <strong>não</strong> apagar<br />

o desastre.<br />

* Michel Plon <strong>é</strong> psicanalista <strong>em</strong> Paris, co-autor,<br />

com Elisabeth Roudinesco, do Dicionario da<br />

Psicanàlise e co-autor do Manifesto pela Psicanalise,<br />

que serà lançado no Brasil no mês de<br />

maio pela Civilização Brasileira.<br />

Tradução: Marco Aur<strong>é</strong>lio Weissheimer<br />

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EXPEDIENTE<br />

<strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> Publicações,<br />

Promoções e Produções Ltda.<br />

DIRETOR GERAL<br />

Joaquim Ernesto Palhares<br />

REDAÇÃO<br />

Editor Chefe<br />

Joaquim Ernesto Palhares<br />

Sub-editores:<br />

Saul Leblon,<br />

Marco Aur<strong>é</strong>lio Weissheimer,<br />

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Assistente de Direção:<br />

Claudio Cerri;<br />

Repórteres Especiais:<br />

Maria Inês Nassif<br />

Dario Pignotti;<br />

Repórteres:<br />

Najla Passos,<br />

L<strong>é</strong>a Maria Aarão Reis,<br />

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Correspondentes Internacionais:<br />

Flavio Wolf Aguiar (Berlim);<br />

Martin Granovsky (Buenos Aires);<br />

Marcelo Justo (Londres);<br />

Luis Hernandez Navarro (M<strong>é</strong>xico);<br />

Estagiários:<br />

Isabela Palhares.<br />

COLABORADORES<br />

Antonio Lassance<br />

Doutor <strong>em</strong> Ciência Política - UNB/BR<br />

Boaventura de Souza Santos<br />

Doutor <strong>em</strong> Direito - YALE/USA<br />

Emir Sader<br />

Doutor <strong>em</strong> Sociologia - USP/SP),<br />

Eric Nepomuceno<br />

Escritor, Jornalista e Cineasta<br />

Ermínia Maricato<br />

Doutora <strong>em</strong> Arquitetura - USP/SP<br />

Fabiano Santos<br />

Doutor <strong>em</strong> Ciência Política - UFRJ/RJ<br />

Fábio de Sá e Silva<br />

Doutor <strong>em</strong> Direito - UNB/BR<br />

Francisco Carlos Teixeira da Silva<br />

Doutor <strong>em</strong> História - UFRJ/RJ<br />

Francisco Fonseca<br />

Doutor <strong>em</strong> Ciência Política - FGV/SP<br />

Gilberto Maringoni<br />

Doutor <strong>em</strong> História - USP/SP<br />

Ignacio Ramonet<br />

Doutor <strong>em</strong> Comunicação - Universidade de Paris<br />

Jos<strong>é</strong> Luís Fiori<br />

Doutor <strong>em</strong> Ciência Política - UFRJ/RJ),<br />

Jos<strong>é</strong> Roberto Torero<br />

USP/SP<br />

Juarez Guimarães<br />

Doutor <strong>em</strong> Ciência Política - UFMG/MG<br />

Ladislau Dowbor<br />

Doutor <strong>em</strong> Economia - Universidade de<br />

Lausanne - Suiça<br />

Larissa Ramina<br />

Doutora <strong>em</strong> Relações Internacionais - UNILA<br />

Laurindo Leal Filho<br />

Doutor <strong>em</strong> Comunicação - USP/SP<br />

Leda Paulani<br />

Doutora <strong>em</strong> Economia - USP/SP<br />

Leonardo Boff<br />

Doutor <strong>em</strong> Filosofia e Teologia - Universidade<br />

de Munique/AL<br />

Lincoln Secco<br />

Doutor <strong>em</strong> História - USP/SP<br />

58 Revista Digital <strong>Carta</strong> <strong>Maior</strong> <strong>–</strong> Jan 2015


Luiz Gonzaga Belluzzo<br />

Doutor <strong>em</strong> Direito - USP/SP<br />

Márcio Pochmann<br />

Doutor <strong>em</strong> Economia - UNICAMP/SP),<br />

Raquel Rolnik<br />

Doutora <strong>em</strong> Arquitetura - New York University<br />

Reginaldo Nasser<br />

Doutor <strong>em</strong> Ciências Sociais - PUC/SP<br />

Rodrigo Alves Teixeira<br />

Doutor <strong>em</strong> Economia - PUC/ SP<br />

Rosa Maria Marques<br />

Doutora <strong>em</strong> Economia - PUC/SP<br />

Samuel Pinheiro Guimarães<br />

Embaixador<br />

Sebastião Velasco Cruz<br />

Doutor <strong>em</strong> Ciência Política - UFRJ/RJ<br />

Theotonio dos Santos Júnior<br />

Pós-doutor <strong>em</strong> Teoria Antropológica - UFRJ/RJ)<br />

Venício Lima<br />

Doutor <strong>em</strong> Sociologia<br />

PROJETO GRÁFICO e diagramação<br />

Roman Atamanczuk<br />

Capa<br />

Roberto Brilhante<br />

ENDEREÇO<br />

Av. Paulista, nº 726, 15º andar, Bela vista<br />

CEP 01310-100 - São Paulo/SP<br />

www.cartamaior.com.br<br />

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