UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA - SciELO Proceedings

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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA - SciELO Proceedings

3º Encontro Nacional ABRI – Associação Brasileira de Relações Internacionais

Painel: ANTIAMERICANISMO NO BRASIL

Artigo completo:

ANTIAMERICANISMO E POLÍTICA EXTERNA:

O CASO DO BRASIL SOB O PARADIGMA DESENVOLVIMENTISTA.

Nome: Seme Taleb Fares

Filiação institucional: Universidade de Brasília – UnB

Endereço postal eletrônico: seme.fares@gmail.com

Área temática: História das Relações Internacionais - HRIS

Resumo: O conceito de antiamericanismo varia tanto em relação a países e regiões

como a períodos históricos. O antiamericanismo no Brasil ao longo do paradigma

desenvolvimentista (1930-1989) é mais bem explicado pelos próprios princípios da

política externa brasileira, quais sejam, busca do desenvolvimento econômico do

país, maior grau de autonomia e de inversões de capitais estrangeiros. Ainda que

envolva uma variedade de comportamentos, o fator que mais relação e impacto

possui para a condução da política externa brasileira se fundamenta mais numa

reação de desconfiança dos Estados Unidos (do tipo “me mostre que você está

certo”) como ameaçadores em potencial dos interesses e da autonomia nacionais e

menos uma atitude basicamente preconceituosa (antiamericanismo do tipo mais

agudo, em que há uma profunda inclinação a atribuir ações e motivos negativos aos

Estados Unidos em qualquer situação, sem se preocupar em analisar as

especificidades da ocasião ou dos atores envolvidos, fechado, portanto, a

informações positivas sobre as ações norte-americanas). O antiamericanismo do tipo

preconceituoso poderia obstaculizar qualquer tipo de aproximação com os Estados

Unidos, ainda que essa aproximação significasse vantagens para o Brasil. O

antiamericanismo predominante no caso brasileiro, por outro lado, trouxe dividendos

para o país justamente por representar uma defesa de seus princípios eleitos como


nucleares para a busca do interesse nacional. Para demonstrar isso, este estudo

procura cotejar as principais linhas disponibilizadas pela historiografia da política

externa brasileira ao longo do paradigma desenvolvimentista frente aos conceitos

apresentados acerca do antiamericanismo, indicando, também, que o grande

estoque de argumentos antiamericanos presente na sociedade brasileira facilitou a

sua institucionalização. Legitimado pela sociedade, o Brasil adotou atitudes

antiamericanas como defesa natural de seus interesses.

Palavras-chave: Política Externa Brasileira; Antiamericanismo; Paradigma

Desenvolvimentista; Brasil.

1. INTRODUÇÃO

Esta apresentação possui duplo objetivo. O primeiro é analisar o fenômeno

do antiamericanismo no Brasil no período que abrange o paradigma

desenvolvimentista da política externa. O segundo, as conexões e os possíveis

impactos concretos na Política Externa Brasileira (PEB) no que tange ao

relacionamento com os Estados Unidos.

De fato, as relações dos Estados Unidos com o Brasil não caberiam em

conceitos simples do tipo aliança não-escrita, alinhamento, rivalidade emergente,

dependência, relações perigosas, relações triangulares, assimetria ou relações

especiais, muito menos antiamericanismo, todos veiculados ora pelo discurso

diplomático e político, ora pelo acadêmico. 1 Pretende-se demonstrar, contudo, que a

tentativa de se conceitualizar o antiamericanismo pode contribuir para entender a

complexidade que envolve as relações do Brasil e a grande potência do norte, tanto

nos seus aspectos sociais como, principalmente, políticos e econômicos. Para tanto,

demonstrar-se-á que o antiamericanismo no caso do Brasil pode ser mais bem

explicado pelos próprios princípios da PEB, ao invés de um simples sentimento

preconceituoso e difuso na sociedade.

Metodologicamente, há um sério obstáculo em se mensurar o

antiamericanismo numa sociedade e avaliar o seu impacto concreto na condução da

política externa de um determinado país. Grosso modo, as pesquisas de opinião ou

as análises dos conteúdos de discursos são duas das formas mais amplamente

2


utilizadas. Para os propósitos desta apresentação, no entanto, procurar-se-á apenas

cotejar as principais linhas da história da PEB frente aos conceitos apresentados

acerca do antiamericanismo. Sem embargo, um estudo conclusivo sobre a matéria

demandará maior pesquisa histórica, ou seja, algum grau relevante de empiria.

Apesar disso, acreditamos que seja possível anteciparmos algumas hipóteses de

trabalho e, juntamente, algumas conclusões temporárias.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1. Conceitualização de antiamericanismos.

Como ocorre com os demais conceitos históricos, o antiamericanismo varia

ao longo do tempo. Existem tantas variações entre países e regiões que o mais

correto é se referir a antiamericanismos (no plural) ao invés de antiamericanismo (no

singular).

O termo antiamericanismo abrange uma variedade de comportamentos. Dito

de outra forma, o fenômeno do antiamericanismo não pode ser explicado de maneira

única, homogênea. Varia, portanto, de acordo com o tempo e o país, e até mesmo

em relação a grupos e indivíduos, se considerarem diferentes aspectos da

sociedade e da política norte-americanos. O antiamericanismo, grosso modo,

significa a expressão de atitudes negativas em relação aos Estados Unidos.

Contudo, não se trata de uma excepcionalidade norte-americana. Afinal,

sentimentos antiimperialistas ou anti determinada nação têm uma longa história. O

Império Romano certamente suscitou medo, inveja e inimizade entre aqueles povos

sujeitos ou ameaçados pelo seu poder. O antiamericanismo, apesar de ser capaz de

conter características únicas, é apenas um exemplo de um fenômeno social mais

abrangente e genérico, que pode englobar o “antibrasileirismo”, o “antiniponismo”,

etc. 2

Os Estados Unidos, como é usual ocorrer em qualquer país de grandes

dimensões, rica história e variada composição étnica, são uma nação heterogênea.

Essa heterogeneidade, ou polivalência, pode ser a própria causa da

heterogeneidade do americanismo e de sua antítese, o antiamericanismo. Daí a

razão de, na maior parte dos casos, os sentimentos em relação aos Estados Unidos

3


serem expressos de forma ambivalente: respeito e ressentimento, ao mesmo tempo,

ou seja, admira certos aspectos e rejeita outros. Nisso, é possível, sem haver uma

contradição inerente, admirar sua cultura de massa, ciência e tecnologia e deter

posições amplamente antiamericanas. Um dos primeiros passos ao analisarmos o

conceito é distinguir se o antiamericanismo é baseado “no que os EUA são” (valores

fundamentais e atitudes da sociedade norte-americana) ou “no que os EUA fazem”

(suas políticas, especialmente a externa). 3

Katzenstein e Keohane 4 classificam o antiamericanismo em três categorias:

opinião, desconfiança e preconceito. A opinião (opinion) representa a forma mais

branda de antiamericanismo e acompanha a evolução dos fatos independente de

sua origem serem os Estados Unidos ou o povo norte-americano, um julgamento,

portanto, sem qualquer tipo de predisposição, e aberto a novas informações. A

desconfiança (distrust) significa oposição ou falta de apoio aos Estados Unidos, uma

predisposição para o ceticismo (“me mostre que você está certo” ou “me mostre que

você se comportará bem aqui”). O preconceito (bias), por fim, indica uma profunda

inclinação a atribuir ações e motivos negativos aos Estados Unidos em qualquer

situação (ou na maior parte de situações), sem se preocupar em analisar as

especificidades da ocasião ou dos atores envolvidos. Tanto a desconfiança como o

preconceito tendem a subestimar as informações potencialmente favoráveis e fazer

das informações negativas em relação aos Estados Unidos mais salientes, ficando o

preconceito com um grau de abertura a novas informações bastante mais reduzido.

O papel do antiamericanismo , portanto, na maior parte das vezes, não fica restrito

apenas a uma simples oposição a determinado movimento ou proposta dos Estados

Unidos (opinião), mas principalmente numa predisposição fortemente negativa para

os EUA, mesmo diante de atitudes claramente positivas de sua política externa

(desconfiança e preconceito).

Além disso, é possível identificar diferentes graus de antiamericanismo (que

num continuum vai desde americanófilo até antiamericanismo radical). Nesse

sentido, o antiamericanismo liberal critica o lado hipócrita da política externa norteamericana,

de não seguirem, eles próprios, os ideais liberais. Nisso incluem o apoio

a ditaduras (em que a história da América Latina é rica de exemplos), a proteção ao

comércio internacional de sua agricultura, a procura pela proteção extensiva de suas

patentes farmacêuticas, etc. Esse é um dos pontos que afetam bastante o Brasil e

4


pode suscitar posturas antiamericanas de fato inclusive naquelas figuras tidas como

americanófilas (isto é, defesa de fiel e estreita relação com os Estados Unidos). Em

segundo lugar, o antiamericanismo social representa o conflito de visões e valores, o

ressentimento da ideia política guiada pelo mercado pura e simplesmente, da

injustiça de políticas que privilegiam os ricos em detrimento dos menos favorecidos,

da manutenção da pena de morte, da preferência por ações unilaterais no cenário

internacional, da desobediência a tratados e organizações internacionais. O

antiamericanismo nacionalista-soberano, por seu turno, tem o seu foco no poder

político, em especial nos valores de não perder o grau de soberania do país e de

proteger os valores da identidade e cultura nacionais. Por fim, o antiamericanismo

em seu formato radical sustenta que a identidade política e econômica dos Estados

Unidos assegura que suas ações serão necessariamente prejudiciais aos bons

valores, práticas e instituições do resto do mundo ou de um determinado país ou

região apenas. O variante radical prega, portanto, a necessidade de transformar o

mundo, ou pelo menos a sociedade e a política norte-americanas. Isso não significa,

necessariamente, o recurso à violência, mas é nesse grupo que incluem os

defensores da destruição da sociedade norte-americana, por considerá-la

incorrigível na sua essência.

É importante salientar que, no geral, é possível afirmar que o

antiamericanismo no Brasil é mais bem explicado pelos próprios princípios da PEB

do que de um sentimento basicamente preconceituoso (bias). Desse modo, existiu

mais uma desconfiança (distrust) dos Estados Unidos como ameaçadores em

potencial dos interesses e da autonomia nacionais que simples opinião (isenta) e

preconceito (absolutamente fechado a informações positivas sobre as ações dos

Estados Unidos).

Com efeito, concorrem para o antiamericanismo brasileiro outros fatores que

não apenas aqueles ligados aos ditames de sua política externa. Nesse aspecto,

motivos de ordem econômica e política misturam-se a críticas ao apoio norteamericano

às ditaduras, sua ação indireta por meio de organismos internacionais

que controlam, sua cultura, seus valores. Contudo, o argumento principal traçado

neste estudo é que o fator que mais relação e impacto possui para a condução da

PEB se fundamenta justamente em uma reação de desconfiança gerada pelos

Estados Unidos de séria ameaça a seus valores mais caros. 5

5


2.2. O antiamericanismo brasileiro durante o paradigma desenvolvimentista.

O paradigma desenvolvimentista da política externa brasileira (1930-1989)

tinha na autonomia de atuação um de seus principais pilares. A consciência a

respeito do subdesenvolvimento econômico do país demandava a liberdade de ação

de sua política externa como um instrumento necessário para a promoção de sua

prosperidade. O desenvolvimentismo pressupunha crescente grau de autonomia das

políticas exteriores, entendida esta autonomia como conformação das decisões

externas, em primeiro lugar, à percepção de interesses próprios. A dizer isso, sem

autonomia decisória não haveria projeto nacional. Tanto que o modelo autonomista

de desenvolvimento latino-americano confrontava, com freqüência, com a

hegemonia dominadora da economia norte-americana, de restringir a margem de

manobra das economias desses países a uma lógica em que os principais ganhos

eram ditados pela grande potência do norte. 6

Desse modo, para obter os melhores resultados possíveis, de forma

eficiente, era indispensável liberdade (mesmo que relativa) de ação, ou então,

autonomia política no que se refere aos movimentos do país no sistema

internacional. Soberania com autonomia decisória vinculados ao projeto de

desenvolvimento-industrialização foram ideias-força de todo o paradigma

desenvolvimentista, alcançando sua definição conceitual mais elaborada a partir dos

anos 1960. Essa visão paradigmática da política externa brasileira encontrou grande

respaldo tanto nos meios decisórios quanto na opinião pública brasileiras, acima de

partidos e regimes políticos, por ser considerada como tendo uma percepção correta

dos interesses nacionais. Tal legitimidade, representada por um verdadeiro

consenso (dos seus pontos principais, ao menos) é o que dificultaria a ruptura do

paradigma e o levaria a perdurar até 1989. O fim dessa política, em suma, tinha forte

apelo popular: o desenvolvimento (econômico e social) do Brasil. 7

Nesse sentido, a partir de 1935, o contexto de guerra internacional modificou

o sistema de competição das potências na América Latina, a favor do incremento da

autonomia da política externa desses países. O cenário internacional, portanto,

6


contribuía para a implementação das principais diretrizes do desenvolvimentismo,

tendo a política externa, autônoma, como meio supletivo do grande projeto de

desenvolvimento econômico do Brasil. É nesse contexto que se inserem as

iniciativas de comércio compensado com a Alemanha e a Itália, como meio

alternativo de relançar e fortalecer as trocas comerciais do país. O motor dessas

ações era alcançar os maiores ganhos possíveis nos relacionamentos internacionais

do país, de forma pragmática.

Outra característica do desenvolvimentismo brasileiro é de que sua política

de comércio exterior era baseada na oportunidade e no pragmatismo. Ao mesmo

tempo, havia a percepção na diplomacia brasileira de que tanto a América Latina, no

geral, como o Brasil, no particular, eram objeto de interesse das potências, em

especial dos Estados Unidos. O desenvolvimentismo, por outro lado, sintetizava a

ideia de que a industrialização resolveria todos os principais problemas do país –

renda para as massas urbanas, meios para as forças armadas. A industrialização

representava o objetivo-síntese da política externa.

A busca por maior autonomia, naturalmente, criava rivalidades no

relacionamento Brasil-EUA e, apesar de não representar o tipo mais agudo

(preconceito), tratava-se, ainda assim, de antiamericanismo (desconfiança). Para

muitos analistas e políticos, esse não seria o caso, como o chanceler Azeredo da

Silveira, in verbis:

No passado, a balança das relações políticas entre os dois países [Estados Unidos

e Brasil] tendia a apresentar desequilíbrios em detrimento do Brasil. É natural que

numa fase de reequilíbrio sejam mais necessários os reasseguramentos de

independência e de igualdade. Isso os Estados Unidos da América precisam

entender que não representa, necessariamente, como frequentemente supõem,

uma atitude “antiamericana”. 8

O paradigma desenvolvimentista agregava componentes teóricos tais como:

percepção de interesses que alimentariam o processo decisório, negociação de

ganhos recíprocos nas relações internacionais, determinação de superar

desigualdades entre as nações, visão cooperativa e não confrontacionista. As

relações entre o Brasil e os Estados Unidos não foram, ao longo desses anos (assim

7


como nos demais, no geral), tranqüilas e, em parte, podem ser explicadas com base

na desconfiança do Brasil das intenções dos Estados Unidos. 9

De certo modo, é verdadeiro dizer que, durante a ditadura militar brasileira

(1964-1985), os órgãos de repressão percebiam qualquer crítica aos EUA como

propaganda em favor da União Soviética e do comunismo. Contudo, havia, em

paralelo, a institucionalização do antiamericanismo, ou seja, adoção de práticas

críticas aos Estados Unidos também pelo próprio governo militar. A administração de

Ernesto Geisel (principalmente após 1977) tomou grande distância com relação aos

Estados Unidos. O que explicaria isso, afinal Provavelmente o fato de que o

antiamericanismo institucionalizado e levado aos meios de ação do Estado brasileiro

era baseado, em grande parte, na percepção de que estavam sendo atingidos os

valores-base do paradigma desenvolvimentista (e, portanto, da política externa

brasileira), por meio de uma política de dominação desenfreada e sem reciprocidade

que os Estados Unidos implantavam tanto no Brasil como na América Latina de

forma indistinta. 10

Mas esse sistema ideacional tem suas raízes muito tempo antes do

surgimento do paradigma desenvolvimentista no Brasil e que, por conseqüência,

contribuiu para avolumar um expressivo estoque de antiamericanismo no país. O

lema “a América para os americanos”, proposto pelo presidente James Monroe em

1823, reiterava a neutralidade dos EUA em questões que envolviam as nações

européias para, em seguida, declarar qualquer intromissão no continente americano

como um passo perigoso para sua paz e segurança. Aos Estados Unidos cabia todo

um continente para seu exercício de poder. Enfim, não precisavam atravessar os

mares para estender seu império. Mais tarde, à doutrina Monroe seria acrescentado

o corolário de Theodore Roosevelt, o “big stick” – exercício do poder internacional de

polícia com o intuito de impedir a intrusão de outra potência em sua esfera de

influência, se necessário com o uso da força. O processo de enriquecimento material

do país exacerbou o seu expansionismo e a sua belicosidade, amplificado por uma

tendência ao messianismo nacional, da ideia de povo eleito, resumido no conceito

de destino manifesto. Décadas depois, durante a Guerra Fria, a América Latina

continuava sendo tratada de forma semelhante, por meio da doutrina da reserva

estratégica na zona de influência global dos Estados Unidos frente à União

Soviética.

8


Nesse contexto, ainda na primeira metade do século XIX, as atenções norteamericanas

se voltaram para o Amazonas, seja pela abertura à navegação, seja

pela colonização direta de seu território, por meio da transplantação de parte de sua

população negra e, consequentemente, constituir a República Amazônica. A

desconfiança do governo brasileiro fazia sentido pelo histórico expansionista dos

Estados Unidos nos territórios do México – primeiro ocupar pela população, depois

anexar formalmente. Provável que datam dessa época os primeiros esquemas

ideacionais de criação e consolidação do antiamericanismo no Brasil. O próprio

ministro americano Robert C. Schenk admitia que “a atividade e o espírito

aventureiro do povo e do governo dos Estados Unidos somente excita, no Brasil de

modo geral, o medo de que o mais pacífico empreendimento possa ocultar algum

desígnio mau contra a sua prosperidade e possessões”. Outro diplomata norteamericano,

Richard Meade, constatou, em 1858, que “nossas ameaças oficiais, ou

por outras formas, têm criado preconceitos contra nós na comunidade” brasileira. As

expressões “confiança” e “respeito” conviviam, agora, com as de “desconfiança”,

“ódio”, “ressentimento” e “ceticismo” na gramática do relacionamento bilateral entre

os dois países. 11

As ações norte-americanas, então, eram vistas, primeiro, como motivadas

por um interesse egoístico, ambicioso e tendente a prejudicar os interesses

brasileiros. Eduardo Prado considerava “deletéria e perniciosa” a influência dos

Estados Unidos no Brasil, afirmando que os laços que uniam os dois países não

passavam de ficção, com ganhos apenas para um lado (os Estados Unidos) e que, a

todo momento, ameaçavam a autonomia e a soberania brasileiras. O fantasma de

uma intervenção armada dos Estados Unidos em cidades brasileiras em decorrência

de crises políticas (Revolta da Armada, suicídio de Getúlio Vargas, planos de

invasão de 1963, golpe militar de 1964 12 ) encontra exemplos abundantes no

subconsciente coletivo da sociedade e dos homens de Estado brasileiros. No fim,

isso não ocorreu, mas as interferências concretas no processo político brasileiro

(redemocratização de 1944, participação ativa da embaixada dos Estados Unidos

nos acontecimentos que culminaram no golpe de 1964) foram frequentes.

Essas ideias serviriam como matéria-prima para o antiamericanismo no

Brasil (ou as causas do ressentimento contra os Estados Unidos 13 ), disseminandose,

ao mesmo tempo, na sociedade e na elite política do país. O estoque de

9


antiamericanismo pode ser, por meio de um mecanismo social e histórico, legado de

geração a geração (“legacy anti-americanism”), mantido por memórias do passado,

ainda que longínquo. A partir daí, as opiniões da população podem ser

institucionalizadas em um período de grande antagonismo pelas elites políticas (ou

homens e mulheres de Estado), que então criam uma barreira para relações mais

profícuas com os Estados Unidos. A memória coletiva e o legado existente

condicionam substancialmente a probabilidade de conflitos futuros. 14

O grande estoque de argumentos antiamericanos observado no caso

brasileiro 15 , de certo modo, facilitava a sua institucionalização. Ao longo de quase

dois séculos, o antiamericanismo encontrou justificativas históricas robustas no

Brasil. Além disso, como coexistiam no país todos os tipos de antiamericanismos,

ficava bastante facilitado o recurso a esse tipo de retórica, sem nenhum custo, como

ferramenta para benefício político. Os homens de Estado do Brasil tinham, então,

poucos incentivos para defender os Estados Unidos, ou mesmo criticar posições ou

pronunciamentos antiamericanos.

De modo geral, a política externa brasileira que não defendesse a soberania

e o espaço de autonomia do país frente aos Estados Unidos era denominada por

grande parte da historiografia e segmentos políticos como entreguista, servil e

aduladora. Cabia ao Brasil um espaço isonômico nesse relacionamento, e não

apenas caudatário e que não permitisse um avanço econômico e social do país.

Mais lógico, portanto, era “procurarmos ser nós mesmos, da mesma forma que eles

procuram ser eles mesmos” 16 . O uso do termo “americanófilo” servia para designar,

muitas vezes, como um rótulo e um instrumento deslegitimador das credenciais de

oponentes políticos na dinâmica do embate entre grupos domésticos.

O antiamericanismo, com isso, foi institucionalizado com o respaldo e a

legitimação da sociedade brasileira. As relações entre o Brasil e os Estados Unidos

mereceram atenção especial de todos os governos brasileiros desde Rio Branco

pelo menos. Essa parceria chegou a criar certo ciúme nos vizinhos da América do

Sul. Com Vargas, o Brasil soube estabelecer essa relação de maneira altiva,

soberana e com independência do processo decisório. Muitos outros países, e

alguns governos brasileiros, tentaram, mas de forma servil. Posturas de Getúlio

Vargas de defesa dos interesses nacionais e da margem de autonomia do país

tinham grande receptividade no grande público. Vargas entendeu que as relações

10


entre o Brasil e os Estados Unidos poderiam acelerar a industrialização, por meio de

recursos advindos das exportações para o mercado norte-americano, de créditos e

de inversões diretas. Nisso se incluem afirmações como “não preciso buscar

exemplos nem lições no estrangeiro”. Nos acontecimentos que se sucederam ao

suicídio de Vargas, as manifestações antiamericanas se exacerbaram. Na própria

carta-testamento, o presidente do Brasil denunciava que uma “campanha

subterrânea dos grupos internacionais” exercia pressão contra os direitos do

trabalhador – elemento fundamental do governo varguista – e, portanto, contra a

soberania do País. A reação do povo à notícia da morte do presidente ensejou um

quebra-quebra contra estabelecimentos que, pela sua denominação, dessem a mais

leve ideia de origem norte-americana, e a embaixada dos Estados Unidos sofreu

ataques. Havia um consenso nos meios políticos e na população em geral de que os

“grupos internacionais” referidos na carta-testamento e em tantas outras ocasiões se

compunham principalmente por norte-americanos e seu governo. A carta de

renúncia de Jânio Quadros, de 1961, na mesma linha, desejava “um Brasil para os

brasileiros” e que “forças terríveis” haviam se levantado contra o ex-presidente.

O governo Dutra, por outro lado, ficou estigmatizado por uma postura de

submissão diante dos Estados Unidos, talvez em razão de uma menor propensão à

adoção de atitudes antiamericanas (desconfiança). Nesses anos, o servilismo

apenas contribuía para reduzir a margem de autonomia da política externa brasileira,

pois tranquilizava o governo de Washington, desobrigando-o de qualquer

investimento para comprar lealdade e segurança, na retaguarda. A diplomacia

submissa de Eurico Gaspar Dutra aumentava a dominação econômica e ideológica

dos Estados Unidos no Brasil e, ao mesmo tempo, diminuía a capacidade de o país

barganhar ganhos para o seu projeto desenvolvimentista. A aceitação inerte e

automática da hegemonia norte-americana produziu profundas frustrações no meio

político brasileiro, por não alcançar recompensas econômicas nem pela cooperação

de guerra, nem pelo concurso que prestou à implantação da nova ordem

internacional. 17

Alguns anos mais tarde, a suspensão do Brasil de negociações com o FMI

(Fundo Monetário Internacional, 1959) pelo governo Kubitschek foi amplamente

aplaudida pela população. Na campanha presidencial de 1960, os dois candidatos,

Jânio Quadros e General Henrique Lott, adotaram um discurso nacionalista,

11


tomando o sentido de contestação aos Estados Unidos. Do mesmo modo, a mídia

exaltava atitudes independentes do Brasil em relação aos Estados Unidos.

Na América Latina, os anos seguintes foram marcados pelo recrudescimento

do grau de antiamericanismo, como reação à subserviência e à vassalagem. Como

se não bastasse, misturava ao caldeirão de argumentos antiamericanos os ideais

comunistas. A lógica pró-soviética, durante a Guerra Fria, gerava incentivos

adicionais ao antiamericanismo, e os Estados Unidos representavam basicamente

tudo aquilo que era negativo e que se deveria lutar contra: imperialista, capitalista,

uma sociedade orientada apenas ao lucro. Durante a década de 1950, a luta contra

o comunismo ascendeu ao tema primordial da agenda bilateral Estados Unidos-

Brasil. Episódios como o da Baía dos Porcos de 1961, com o apoio norte-americano,

contribuíram para a consolidação do antiamericanismo na região. A confusão de um

tema com o outro levava muitas vezes, de forma errônea, a tratar uma posição

antiamericana (com base apenas na desconfiança e na defesa dos princípios da

política externa brasileira) como um “perigo comunista”. 18

O que diferencia um grau latente para um ativo de antiamericanismo é o

medo das ações dos Estados Unidos prejudicarem interesses de seu país. Quando a

percepção de medo do ambiente aumenta, a dimensão antiamericana se torna mais

proeminente. Do contrário, quando o ambiente analisado não produz sinais de

ameaça, o nível e os ânimos antiamericanos diminuem. Por isso é que o grau de

antiamericanismo oscilou ao longo do período do paradigma desenvolvimentista da

PEB, não existindo uma linha ascendente no longo prazo; existiram “ondas” de

antiamericanismo, portanto, que recorriam aos estoques existentes na história

acionados por eventos novos. 19

No decurso desse período, os interesses capitalistas internacionais eram

quase que totalmente confundidos com os interesses eminentemente norteamericanos.

Ora, e os interesses capitalistas europeus, japoneses, enfim, de outras

partes do mundo, não atuavam É evidente que a presença norte-americana era

preponderante, mas não absoluta. A percepção da população e da classe dirigente,

apesar disso, não refletia essa equação.

No que concerne à análise do antiamericanismo no Brasil ao longo da

política externa desenvolvimentista, portanto, talvez os principais conceitos

12


explicativos residam na busca do desenvolvimento econômico e de um maior grau

de autonomia para se atingir esse objetivo. O conceito de antiamericanismo

conjugava-se com a noção de dominação e despojo dos interesses nacionais. Nesse

período, avanços dos interesses norte-americanos eram percebidos como o outro

lado da mesma moeda da drenagem dos recursos nacionais, que por meio de

remessas de lucros, juros, royalties e dividendos, causavam um déficit estrutural do

balanço de pagamentos e eram considerados a principal causa da inflação. Em

outros termos, a simples presença dos Estados Unidos no Brasil atingia aquilo que

havia de mais caro entre os objetivos da política externa brasileira: desenvolvimento

econômico e autonomia política. Natural, portanto, uma reação de desconfiança

contra os Estados Unidos, tanto por parte da diplomacia como do grande público

brasileiros.

O mesmo tipo de antiamericanismo não foi observado em todos os países

latino-americanos durante o período desenvolvimentista. Na Argentina, por exemplo,

elementos do neutralismo, da terceira via, dos não-alinhados, do cultivo de ambições

desmesuradas (desequilíbrio entre fins e meios da política externa) e da “empáfia

política” (nações que não têm substância real e pretendem, apesar disso, exercer

um papel acima de seus meios) geraram o substrato para uma postura fortemente

antiamericana. A condução da política externa brasileira, como dito acima, buscava

espaços de autonomia frente aos Estados Unidos. Com a Argentina isso também

ocorria, só que de forma mais saliente e aguda. Por isso, os impactos do

antiamericanismo na Argentina podem ser considerados significativos, acentuando

em períodos específicos de sua história, e a explicação talvez esteja em seu grau

mais elevado, com forte viés preconceituoso.

Por fim, e ao que parece, as conseqüências concretas do antiamericanismo

na política externa brasileira, apesar de reais, provavelmente não chegaram a

prejudicar o aspecto geral do relacionamento bilateral Brasil-Estados Unidos. Nesse

sentido, a desconfiança política gerada pelo antiamericanismo não contaminou as

relações econômico-comerciais entre os dois países, apesar da enorme quantidade

retórica de seu uso pelos diferentes representantes da diplomacia e da presidência

do Brasil. É verdade que, sem o componente antiamericano, a política externa

brasileira poderia ter aprofundado, em especial na agenda política, o seu

relacionamento com os Estados Unidos, mas às custas da abdicação de alguns dos

13


princípios nucleares de sua conformação. Mesmo governos considerados alinhados

automáticos (Dutra, Castello Branco) como aqueles que buscavam uma política

externa mais independente continham elementos de antiamericanismo em sua

conformação mental, ainda que os do primeiro grupo com graus menos acentuados.

De acordo com a historiografia, o maior sucesso em política externa veio com a

busca de uma maior autonomia, de forma pragmática e, consequentemente, com

atitudes mais e mais antiamericanas no sentido de desconfiança, sem um

predomínio daquele de tipo preconceituoso, que obstaculizaria qualquer tipo de

aproximação, ainda que pudesse significar vantagens para o país. Em suma, o

antiamericanismo (desconfiança) trouxe, grosso modo, dividendos para a política

externa do Brasil.

3. CONCLUSÃO

As relações do Brasil com os Estados Unidos, tomando como parâmetro

apenas o período desenvolvimentista, foram bastante complexas, ricas em detalhes

e sofreram fortes oscilações, tanto que não poderiam ser abarcadas por análises

que pretendessem reduzi-las a uma ou outra categoria conceitual. O

antiamericanismo, da mesma forma, não seria capaz de cumprir esse papel

isoladamente.

No entanto, como buscamos demonstrar, a utilização das diferentes

categorias de antiamericanismo (opinião, desconfiança e preconceito) podem

esclarecer certas reações e movimentos da diplomacia brasileira no que tange ao

relacionamento com os Estados Unidos. Dessa forma, uma das possíveis conexões

entre antiamericanismo e política externa pode estar assentada nos próprios

princípios estabelecidos para a inserção internacional de um determinado país.

Nisso, o paradigma desenvolvimentista (e que, em tese pode ser estendido aos

outros paradigmas) e suas principais características, quais sejam, busca do

desenvolvimento econômico do país, maior grau de autonomia e de inversões de

capitais estrangeiros, explicam as ações antiamericanas observadas na PEB. Ao

lado disso, o elevado estoque de antiamericanismo, baseado em uma longa tradição

histórica, facilitou a sua institucionalização ou adoção de suas práticas pelo Estado.

14


Em outros termos, a própria sociedade brasileira respaldou e legitimou atitudes

antiamericanas como defesa natural dos seus interesses.

BIBLIOGRAFIA

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World Politics. Nova York: Cornell Paperbacks, 2007.

SPEKTOR, Matias. Kissinger e o Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

VIDIGAL, Carlos Eduardo. Relações Brasil-Argentina: a construção do

entendimento (1958-1986). Curitiba: Juruá, 2009.

1 CERVO, Amado Luiz. Inserção Internacional: formação dos conceitos brasileiros. São Paulo:

Saraiva, 2008. p. 220.

2 KATZENSTEIN, Peter. J. e KEOHANE, Robert. O. Anti-Americanisms in World Politics. Nova

York: Cornell Paperbacks, 2007. p. 251.

3 KATZENSTEIN, Peter. J. e KEOHANE, Robert. Op. cit. pp. 2, 10, 103.

4 Idem. p. 21.

5 CERVO. Amado Luiz. Inserção Internacional: formação dos conceitos brasileiros. São Paulo:

Saraiva, 2008. p. 92.

6 CERVO. Amado Luiz. Op. cit. pp. 32, 71. “Embora admirasse os Estados Unidos e houvesse

morado lá na juventude, [Azeredo da] Silveira acreditava que o principal papel da diplomacia

brasileira era preservar algum grau de ‘autonomia’ diante do sistema capitalista internacional e do seu

principal motor, os Estados Unidos. Caso contrário, os desígnios de Washington poderiam tornar-se o

principal obstáculo à emancipação política e econômica do país.” In: SPEKTOR, Matias. Kissinger e

o Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009. p. 12.

7 CERVO, Amado Luiz. Inserção Internacional: formação dos conceitos brasileiros. São Paulo:

Saraiva, 2008. p. 232. ARINOS, Filho, Afonso. Diplomacia Independente: um legado de Afonso

Arinos. São Paulo: Paz e Terra, 2001. p 12.

8 SILVEIRA, Azeredo da. Apud. SPEKTOR, Matias. Op. cit. pp. 133 e 134.

15


9 CERVO. Amado Luiz. Inserção Internacional: formação dos conceitos brasileiros. São Paulo:

Saraiva, 2008. p. 35.

10 BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. A Presença dos Estados Unidos no Brasil. Ed. Civilização

Brasileira, Rio de Janeiro, 2007. p. 11. CERVO. Amado Luiz. Op. cit. p. 105.

11 BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Op. cit. pp. 137 e 247. CERVO. Amado Luiz. Inserção

Internacional: formação dos conceitos brasileiros. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 69.

12 Em 1964, por exemplo, uma frota naval norte-americana ficou de prontidão próximo à costa

brasileira, caso considerasse necessária uma intervenção armada. In: BANDEIRA, Luiz Alberto

Moniz. Op. cit. p. 634.

13 CERVO. Amado Luiz. Inserção Internacional: formação dos conceitos brasileiros. São Paulo:

Saraiva, 2008. p. 29.

14 KATZENSTEIN, Peter. J. e KEOHANE, Robert. O. Op. cit. pp. 21, 37, 129.

15 O que é observado no caso da França, também. A esse respeito, ver: MEUNIER, Sophie. The

Distinctiveness of French Anti-Americanism. In: KATZENSTEIN, Peter. J. e KEOHANE, Robert. O.

Op. cit.

16 Tristão de Ataíde. Apud. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Op. cit. p. 299.

17 CERVO. Amado Luiz. Relações Internacionais da América Latina: velhos e novos paradigmas.

São Paulo: Editora Saraiva, 2007. p. 82. CERVO, Amado Luiz. Inserção Internacional: formação dos

conceitos brasileiros. São Paulo: Saraiva, 2008. p. 45.

18 ARINOS, Filho, Afonso. Op. cit. pp. 17, 71. Para Afonso Arinos, durante a Guerra Fria, época em

que imperava o maniqueísmo, impunha-se a cooperação com os Estados Unidos, líder e defensor do

bloco ocidental, mas, nessa colaboração, a solidariedade continental precisava ajustar-se aos

interesses nacionais, sendo que essa colaboração estreita deveria se dar sem nenhuma forma de

automatismo.

19 KATZENSTEIN, Peter. J. e KEOHANE, Robert. O. Op. cit. p. 75.

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