Um outro olhar sobre a soja

commodityplatform.org

Um outro olhar sobre a soja

um outro

olhar sobre a

soja

O lado sombrio

do grão milagroso

Articulação Soja Holanda


Um outro olhar

sobre a soja

O lado sombrio do grão milagroso

Articulação Soja Holanda


Agradecimento

Esta publicação pôde ser realizada graças à colaboração entre

membros da Articulação Soja Holanda e foi viabilizada com o

apoio do Regulamento para Subsídios a Organizações Não-

Governamentais e de Meio Ambiente do Ministério de Habitação,

Ordenamento Territorial e Gestão Ambiental (VROM-

SMOM). A Articulação Soja Holanda agradece aos autores das

fotos por colocar à disposição as imagens e à Fundação Natuur

em Milieu, Profundo, NEVEDI, ASEED, e à Federação Holandesa

de Agricultores (NAV), Jacques Seegers, Mauricio Galinkin e a

todos os outros que contribuíram com este documento.

Créditos

Textos: Articulação Soja Holanda, AIDEnvironment

Diagramação: Ruparo (Ivo Sikkema)

Impressão: PrimaveraQuint, Amsterdã

Tradução: Marianne Scheffer

© AIDEnvironment e membros da Articulação Soja Holanda,

fevereiro de 2006

ISBN-10: 90-77648-07-0

ISBN-13: 978-90-77648-07-0


Um outro olhar sobre a soja

Sumário

Prólogo 7

1. Soja e a cadeia produtiva 10

O que é soja? 10

Para que a soja é utilizada? 11

A origem da soja 12

O crescimento da soja enquanto produto de exportação 13

Soja e os acordos internacionais de comércio 16

Os atores no mercado e o processo de produção 16

2. As conseqüências negativas do cultivo da soja 20

Introdução 20

Problemas ambientais 21

Erosão e degradação do solo 23

Problemas sociais 25

Manipulação genética, o domínio das multinacionais

agrícolas e o uso de agrotóxicos 29

3. O papel da Holanda 32

Introdução 32

O consumidor 32

Empresas da Holanda na cadeia produtiva da soja 34

As granjas de criação intensiva na Holanda 34

4. A sustentabilidade da cadeia produtiva da soja:

uma perspectiva para os países produtores 38

Introdução 38

Interromper a expansão da soja 38

Melhoria das técnicas agrícolas

1

Agricultura agroecológica

3

5. A sustentabilidade da cadeia produtiva de soja:

uma perspectiva para a Holanda e a Europa 46

Introdução

6

Papel dos cidadãos e consumidores

6

Papel do setor empresarial

8

Papel do governo

2

6. Conclusão 56

Fontes

8


Um outro olhar sobre a soja

Prólogo

Em Europa, ao ouvir falar em soja a maioria das pessoas pensa na culinária asiática

ou na soja enquanto substituta de carne. No Brasil, a primeira associação é provavelmente

óleo de cozinha. Menos conhecido é que a soja é utilizada na produção

de 60% a 70% de todos os produtos que estão nas prateleiras dos supermercados

– de molhos e petiscos a carne e laticínios. Depois de arroz, trigo e milho, soja é a

cultura agrícola mais cultivada no mundo e sua produção aumenta rapidamente.

Que a produção de soja na América do Sul leva a desmatamentos em grande escala

e a uma série de problemas para a população local é praticamente desconhecido.

Para buscar, conjuntamente, soluções para estes problemas foi criada a Articulação

Soja Holanda.

Soja não é a única “cultura problema” num mundo globalizado. Na América do

Sul e em outros lugares do mundo são encontrados problemas semelhantes na

produção de açúcar, celulose, algodão, óleo de palma e outras matérias-primas que

são produzidas para satisfazer a crescente demanda mundial por alimentos, ração

animal, fibras e energia.

No setor de soja, a Holanda desempenha um papel central como segundo maior

importador e centro de distribuição para a Europa Ocidental – e tem, portanto, uma

responsabilidade especial. Com esta publicação a Articulação Soja Holanda quer

mostrar por que a produção, comércio e processamento da soja devem mudar. As

conseqüências negativas nos países produtores na América do Sul são grandes

demais para serem ignoradas. Além disso, há meios para reduzir o impacto negativo.

Mas, para isso, é necessário que todas as partes envolvidas – da lavoura de soja

até o supermercado – assumam sua responsabilidade.

Como a problemática da soja é global, a Articulação Soja Holanda trabalha junto

com organizações não-governamentais na América do Sul, Europa, Estados Unidos,

Índia e China. Os contatos são feitos com agricultores grandes e pequenos, com

grupos de pessoas que foram expulsos pela expansão da soja, com organizações

internacionais que lutam pela reforma agrária e grupos que têm como foco a discussão

da soja transgênica.

A Articulação Soja Holanda conclama os consumidores, empresas e políticos

para contribuir na contenção das conseqüências negativas da produção, transporte,

processamento e consumo de soja. Por um lado, insistindo numa produção socialmente

responsável e na sustentabilidade da cadeia produtiva. Por outro lado, iniciando

uma discussão sobre o papel das granjas de criação intensiva e dos efeitos

de nosso consumo de carne.

Articulação Soja Holanda

7


Um outro olhar sobre a soja

1

Soja e a

cadeia produtiva

9


1. Soja e a cadeia produtiva

Qual é a aparência da soja, onde ela cresce e como é cultivada? Como chega à

Holanda e para que é utilizada? Este capítulo responde a estas perguntas e trata

também do consumo de carne na Holanda e dos diversos elos da cadeia produtiva:

“do grão à costela”.

O que é a soja?

Soja é uma cultura anual que produz um grão alimentício com elevado teor de proteínas

e óleo. As variedades modernas chegam a um metro de altura num ciclo de desenvolvimento

de 90 a 120 dias. A produtividade varia entre 1,5 a 3 toneladas por hectare.

O preço histórico da soja em grão situa-se em torno de 200 dólares por tonelada.

Atualmente, em 2006, a soja é cultivada tanto em pequena escala (agricultura

familiar) quanto em grande escala (propriedades mecanizadas). A safra é armazenada

de maneira centralizada em grandes silos. Nestes, as diferentes variedades,

fornecidas por diferentes agricultores, são misturadas. Esta mistura faz da soja um

produto de venda a granel, onde a identidade da variedade e a do agricultor se perdem

logo no início da cadeia produtiva.

De todas as culturas, a soja é a que fornece a maior quantidade de proteínas por

hectare: cerca de mil quilos. A soja é originária do nordeste da China e, inicialmente,

era cultivada somente em regiões temperadas.

Graças ao melhoramento gené-

1.1

14%

70

tico convencional (não confundir com

40%

60

3%

soja geneticamente modificada), agora a

18%

Eiwitten Proteínas

Koolhydraten

Carboidratos

Vetten Gorduras

Vezels Fibras

Vocht Água

50

soja também pode ser cultivada em regiões

subtropicais e tropicais.

40

30

As plantas de soja formam uma relação

simbiótica com a bactéria Rhizo-

20

bium e fixam na terra parte do

10nitrogênio

25%

Figura 1.1 Composição do grão de soja

absorvido do ar; devido a isso,

0

exigem

uma quantidade relativamente pequena

de adubação nitrogenada.

10

18%

3%

1.3

miljoen

5

4

1980 1991

rm


1.1

18%

3%

14%

25%

Soja e a cadeia produtiva

14%

40%

40%

3%

Eiwitten

Eiwitten

Koolhydraten

Koolhydraten

Vetten

18%

Vetten

Vezels

Vezels

Vocht

Vocht

25%

1.1

14%

40%

3%

Figura 1.2 Uma 3% planta de soja (Glycine max), vagens secas de soja e 3% grãos de soja

18%

Para que a soja é utilizada?

18%

Eiwitten

18%

Koolhydraten

Vetten

50

40

30

Vezels

Sojaschroot

20

Devido ao elevado teor protéico e a uma composição Vocht favorável de aminoácidos, a soja é Sojaschroot

Sojaolie

10

uma boa fonte de proteínas para a alimentação humana como, por exemplo, um substituto

de carne. Principalmente a culinária asiática utiliza 79% muita soja – pense em tofu, Sojahullen

Sojaolie

25%

Sojahullen

0

79%

tempeh e molho de soja. O óleo de soja é o óleo vegetal mais consumido no mundo,

mas a maior parte da soja produzida Wereldwijdmundialmente é utilizada para ração animal.

Wereldwijd 1.3

Nos últimos 15 anos, o consumo de soja sofreu um grande aumento em todo o

3%

14%

planeta, de aproximadamente 100 milhões de toneladas,

20% 14% em 1990, para mais de 200

18%

20%

milhões de toneladas em 2005. Este crescimento foi causado pelo aumento mundial

no consumo de carne e pela crescente participação da soja nas rações animais, em

especial na Europa e na Ásia.

Devido ao elevado teor protéico, o farelo

Sojaschroot

de soja e os grãos de soja torrados são

excelentes para fabricar de ração animal

Sojaolie

para aves, suínos, gado de corte e leiteiro.

66%

Quando, na União Européia, foi proibido o Sojahullen uso de farinha 66% de ossos como componente

de ração animal, após a epidemia 79% da “vaca louca” na década de 90, houve um grande

1.3

miljoen

70

60

overschrijding norm

5

4

3

2

1

0

Mundo Wereldwijd (223 milh. ton.) Nederland 3% 3% Holanda (3,7 milh. ton.)

Nederland 3% 3%

14%

20%

93%

93%

66%

Alimento Ração

Voeding Veevoer Industrie Indústria

animal

Voeding Veevoer Industrie

Figura Nederland 1.3 Consumo

3% 3%

de soja no mundo e na Holanda. Fonte: ISTA Mielke.

100%

90%

80%

70%

60%

50%

40%

30%

20%

10%

0%

11

250

250


25%

Um outro olhar sobre a soja

0

1980 1991

Wereldwijd

93%

3%

aumento na demanda de soja.

18%

O crescimento populacional e a prosperidade

registrada em alguns países estimu-

4

3

laram o consumo desse vegetal. A população

mundial dobrou entre 1950 e 2000,

2

Farelo Sojaschroot de soja

Óleo Sojaolie de soja enquanto a produção de carne quintuplicou.

1

Fibras Sojahullen de soja Estima-se que, em 2050, nove bilhões de

79%

0

pessoas habitarão o planeta e a produção

Figura 1.4 Produtos derivados do atual de carnes, de 233 bilhões de quilos por

esmagamento de soja.

ano, dobrará novamente.

14%

A tendência de aumento no consumo de

20%

carne é bem visível numa potência econômica emergente como a China. Em seis 100% anos,

90%

o consumo de carne pelos chineses aumentou mais de 85%. Conseqüência: há

80%

menos

de dez anos, a China exportava soja; agora, ela é a maior importadora deste grão. 70%

60%

A maior parte da soja importada pela Europa é processada para produzir ração

50%

animal. Cerca de metade da soja é importada em grão, a outra parte vem na 40% forma

30%

de farelo de soja (também chamada de farinha de soja ou pellets). A maior parte

20%

dos grãos é esmagada (para esse processo utiliza-se o termo em inglês crushing). 10% O

0%

crushing resulta em 79% de farelo de soja, 18% de óleo de soja bruto e 3% de fibras

(cascas). O refinamento do óleo bruto resulta em óleo de soja e lecitina, um emulsificante

muito utilizado nas indústrias.

3% 3%

Uma pequena parte da soja importada pela Europa é destinada diretamente ao

consumo humano, que ocorre principalmente na forma de óleo. Em escala mundial,

o óleo de soja representa um quarto do consumo total de óleos comestíveis.

Na Europa, este óleo é utilizado principalmente como matéria-prima de margarina,

petiscos, bolachas e molhos. A lecitina é um emulsificante muito utilizado em chocolates,

molhos, e também na margarina e em petiscos.

66%

Nederland

A origem da soja

Voeding Veevoer Industrie

miljoen ton

Embora a soja seja originária da Ásia, após a Segunda Guerra Mundial os Estados

Unidos alcançaram, rapidamente, o posto de maior produtor de soja. A partir da

década de 60, a produção de soja também cresceu na América do Sul – e, nos últimos

anos, de maneira explosiva, em resposta à crescente demanda de carne e ovos

250

na Europa e Ásia Oriental. O Brasil e a Argentina já são 1.6 sérios concorrentes do líder

200 do mercado, os Estados Unidos. A produção mundial de soja esperada para a safra

de 2005-2006 é de 233 milhões de toneladas.

Overig

150

Argentinië

Depois de colhidos, 83% da produção global de grãos são esmagados e o farelo e

Brazilië

100 o óleo de soja são separados por processos VS mecânicos e químicos. O farelo de soja

China

é o produto principal, tanto em relação ao volume (79%) quanto em relação ao valor

50

econômico (70%). O crushing ocorre, em grande parte, nos países produtores. Em

Rotterdã 0 e em Amsterdã também estão instaladas duas grandes plantas industriais

1976 1981 1986 1991 1996 2001 2006

de esmagamento, com uma capacidade total de 2,7 milhões de toneladas de soja em

1.3

overschrijding norm

5

1985 1990 19

overig

areaal

bruto wa

produc

grootgrondb

40

12

2.1


Voeding Veevoer Industrie

Soja e a cadeia produtiva

grão por ano.

250

A maior parte da soja produzida na

200

América do Sul é exportada, principalmente,

Outros Overig

para a Europa e a China. De

Brasil Brazilië

150

Argentina Argentinië

outubro de 2003 até setembro de 2004,

100

EUA VS

a Argentina exportou 94% de sua produção

50

China

total; destes, 78% na forma de

0

farelo de soja e óleo. No mesmo período,

1976 1981 1986 1991 1996 2001 2006

o Brasil exportou 76% da produção

total; da qual 46% na forma de farelo.

Figura 1.5 Produção mundial de soja.

40

Fonte: FAO e ISTA Mielke.

Na Europa, a Holanda é a maior importadora,

35

com 11 milhões de toneladas de grão 25 e farelo, das quais 3,7 milhões de tone-

30

20

ladas consumadas neste país, e o resto em paises vizinhos.

5

O crescimento da soja enquanto produto 0 de exportação

Nos dois países produtores de soja mais importantes da América do Sul, o cultivo

teve início na década 60. Na Argentina, a soja era cultivada em pequena escala nas

províncias do norte do país e, no Brasil, principalmente nos estados do Sul: Rio

Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Na época, o cultivo era feito em rotação

com outras culturas.

No início da década de 70, a demanda por culturas oleaginosas e ricas em proteínas

aumentou rapidamente. Isto ocorreu devido às frustrações de safra de amendoim

nos países da região do Sahel, na África, à diminuição nas safras dos Estados

Unidos e ao aumento da demanda de soja da União Soviética. Devido a isso, e com

o embargo do governo norte-americano à exportação de grãos, em 1973, seu preço

aumentou em 150% num período de apenas seis meses.

Em razão disso, os governos brasileiro e argentino estimularam seus agricultores

miljoen hectares

Milhões de miljoen toneladas

15

10

1951

1961

1966

1971

1976

1981

1986

1991

1992

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

1.6

Bolivia

Paraguay

Argentinië

Brazilië

Figura 1.6 A soja é utilizada em um grande número de produtos: de carne a tintas, de

margarina a detergentes, de molhos para salada a bolachas. © Milieudefensie & AIDEnvironment

13


Um outro olhar sobre a soja

Área de produção de soja

em 2001 (x 1000 ha)

Área de produção de soja

em 2003 (x 1.000 ha)

Área de produção de soja

em 2003 (x 1.000 ha)

Área de produção de soja

em 2003 (x 1.000 ha)

Figura 1.7 Área cultivada com soja na Argentina, Bolívia e Brasil em 2003 e Paraguai

em 2001. © AIDEnvironment

a plantar soja. A área ocupada na Argentina e no Brasil cresceu de 6,8 milhões de

hectares, em 1976, para 36,7 milhões de hectares em 2005, equivalente a dez vezes

a superfície da Holanda. Também o Paraguai e a Bolívia viram na soja uma oportunidade

econômica. A demanda continuou e, em 15 anos, a soja passou a ser o

principal produto de exportação para estes quatro países.

O aumento na produção e na exportação exigia uma boa infra-estrutura para

o transporte dos grãos até portos bem equipados, indústrias de processamento,

armazéns e enormes navios para levar a soja até a Europa e a Ásia.

Além dos investimentos em infraestrutura, os agricultores brasileiros tinham fácil

acesso a crédito com juros subsidiados para financiar a abertura de novas terras para

plantio no Cerrado (região Centro-Oeste do Brasil) e a aquisição de máquinas, adubos

químicos e agrotóxicos. O cultivo mecanizado de soja tornou-se um dos setores mais

importantes da agricultura na América do Sul. Grandes empresas agrícolas, o comércio

14


Soja e a cadeia produtiva

e os governos nacionais aproveitavam-se do aumento da demanda no exterior. Por meio

de investimentos em melhoramento genético, a produtividade por hectare aumentou

e a cultura subtropical foi adaptada às condições de clima e solo tropicais, permitindo

que a área cultivada se expandisse até as regiões tropicais da Bolívia e do Brasil.

Para os pequenos agricultores do sul do Brasil, a introdução da monocultura de

soja mecanizada foi menos positiva. Após um curto boom econômico, houve um

excesso de produção e o preço caiu. Por causa disso, os agricultores não conseguiam

pagar os empréstimos feitos para custear o cultivo. Os produtores haviam se

dedicado exclusivamente a esta cultura e não dispunham de capital suficiente para

se manter num período de preços baixos. Muitos precisaram vender suas terras

– eles partiram para as cidades ou para áreas de colonização no Cerrado, nas fronteiras

da floresta amazônica ou para o Paraguai, para ali iniciar uma nova vida, muitas

vezes em condições deploráveis. Alguns adquiriram áreas muito maiores devido ao

baixo preço da terra e conseguiram

tornar-se grandes produtores graças

às facilidades do crédito subsidiado.

Uma nova mudança foi provocada

na produção em larga escala

com a introdução da soja geneticamente

manipulada (transgênica) na

Argentina, em 1996. Naquele ano,

a multinacional Monsanto introduziu

a assim chamada soja RoundUp

Ready, que é resistente ao herbicida

RoundUp (glifosato), também produzido

pela Monsanto. Como esta soja

transgênica é resistente àquele agrotóxico

que mata todas as outras espécies

de plantas “daninhas”, o agricultor

não precisava mais capinar tanto.

Atualmente, quase toda a produção

argentina é de soja geneticamente

manipulada.

No final do século passado ocorreu,

em toda a América do Sul, uma

crise econômica. Sob pressão de,

entre outros, o Fundo Monetário Internacional

(FMI), os países sul-americanos

optaram por um modelo agrícola

exportador, o que deveria possibilitar

o pagamento da considerável dívida

externa. A soja desempenha um papel

importante neste modelo.

Financiamento da

infraestrutura da soja

Estradas, portos e indústrias de esmagamento

são financiados por bancos,

governos e empresas da cadeia produtiva

da soja. Uma das maiores iniciativas para

a infra-estrutura é a Initiative for the Integration

of Regional Infrastructure in South

America (IIRSA) [Iniciativa para Integração

da Infra-estrutura Regional na América do

Sul], apoiada por governos latino-americanos,

pelo Banco de Desenvolvimento Interamericano

e bancos de desenvolvimento

nacionais da região. Um dos projetos da

IIRSA é a hidrovia Paraguai-Paraná, que

já recebeu investimento de 400 milhões

de dólares em portos ao longo da mesma.

Além disso, Cargill – uma das maiores

esmagadoras de soja na província argentina

de Santa Fé – já investiu 200 milhões de

dólares na construção de uma indústria

de processamento, incluindo um porto

próprio. Este será o maior porto ao longo

dessa hidrovia. Estas obras de infra-estrutura

somente serão rentáveis se a Argentina

aumentar sua produção de soja em grão

para 100 milhões de toneladas por ano.

15


Um outro olhar sobre a soja

Soja e os acordos comerciais internacionais

A demanda de soja na Europa é estimulada por vários acordos comerciais firmados

sob pressão dos Estados Unidos e que deveriam garantir o acesso da soja norteamericana

ao mercado europeu. O primeiro acordo foi o assim chamado Europese

gebonden nultarief op oliezaden (Compromisso europeu de tarifa zero para grãos oleaginosas),

que inclui a soja. Este acordo significa que, ao contrário de outros produtos

agrícolas, como o açúcar, não é cobrada a taxa de importação para a soja. Devido a

esta “tarifa zero”, a soja tornou-se uma alternativa barata para os grãos caros produzidos

na Europa. O segundo acordo, o Blair House Agreement [Acordo Blair House],

envolve a restrição da auto-suficiência da Europa com relação a sementes oleaginosas.

Neste acordo, a Comunidade Européia se comprometia em limitar a produção

subsidiada de sementes de oleaginosas na Europa a uma área de 5 milhões de hectares.

Além disso, foi fixado um teto de 15 milhões de toneladas para o volume total de

produção de oleaginosas – muito menos do que o consumo europeu.

Ambos os acordos comerciais tiveram grande influência sobre a produção de oleaginosas

na Europa. Os acordos pressionaram os preços da soja e limitaram suas

possibilidades de substituição. Enquanto a Europa mantinha sua auto-suficiência

em cereais, açúcar e leite, ela se tornava cada vez mais dependente da importação

de gorduras e proteínas vegetais. Porém, estas importações vêm – cada vez mais

– da América do Sul, e não dos Estados Unidos.

Os atores no mercado e o processo de produção

A soja é uma commodity clássica. Isto quer dizer que é comercializada a granel e

que há somente um mercado mundial, onde o preço é formado exclusivamente com

base em características mensuráveis do produto (por exemplo, teor de proteínas)

e é fixado na Bolsa de Chicago, o Chicago Board of Trade (CBOT). Para garantir um

volume suficiente, o número de “qualidades” comercializáveis também é limitado.

Isto significa que muitos aspectos relacionados com sustentabilidade e qualidade

não são características distintivas, como também ocorre com outras matérias-primas

comercializadas a granel ou commodities.

A produção, comercialização e processamento de soja formam uma cadeia com

muitos elos. Há muitos atores envolvidos, mas, em alguns elos, há uma forte concentração.

Nestes, um pequeno número de empresas controla grande parte do

“fluxo da soja”. A cadeia de comercialização da soja tem uma estrutura em forma de

ampulheta, tanto para alimentos e produtos industrializados quanto para derivados

de carne e laticínios. Há uma ampla camada formada por muitos produtores de soja,

um “gargalo” composto de poucas empresas multinacionais na comercialização,

algumas indústrias que transformam a soja em produtos alimentícios e cosméticos,

redes de supermercado dominantes e, novamente, uma ampla camada com milhões

de consumidores. Na cadeia produtiva de carne, encontramos – no meio da ampulheta

– os criadores de aves e suínos. Eles são abastecidos por um pequeno número

16


Soja e a cadeia produtiva

de fabricantes de ração

animal e entregam sua

produção a um número

limitado de indústrias de

laticínios e abatedouros.

Pode-se concluir que as

empresas de comercialização,

processadoras e

supermercados detêm

grande parcela do poder

na cadeia. Se eles alterarem

sua política, o

restante da cadeia será

obrigado a segui-los.

Uma breve descrição

dos principais atores na

cadeia produtiva da soja

é apresentada a seguir.

• Produtores

Alimentos e não-alimentos

Muitos produtores de soja

Alguns atacadistas

Poucos processadores (indústrias)

Pouquíssimos varejistas

Muitos consumidores

Pecuária

Muitos produtores de soja

Alguns atacadistas

Poucos fabricantes de ração animal

Muitos criadores

Poucas indústrias de

processamento de carne e laticínios

Pouquíssimos varejistas

Muitos consumidores

Figura 1.8 A ampulheta da cadeia produtiva da soja

mostra quantos atores atuam nas diversas partes da

cadeia da soja voltadas para alimentos, produtos nãoalimentícios

e as cadeias produtivas da pecuária.

© AIDEnvironment, adaptado por Daan van Beek.

Cerca de 80% da produção mundial tem origem em apenas três países: Estados

Unidos, Brasil e Argentina. A maior parte da produção sul-americana vem de grandes

propriedades agrícolas. O tamanho médio de uma propriedade produtora de

soja na Argentina ou no Centro-Oeste brasileiro é de mil hectares, mas também há

propriedades com até 50 mil hectares. No Brasil, na Bolívia, na Índia e na China a

soja também é cultivada em pequenas propriedades familiares, com cerca de 2 a 50

hectares, normalmente em combinação com outras culturas.

• Comércio internacional

Empresas multinacionais desempenham um importante papel no comércio de soja.

As empresas comerciais norte-americanas Archer Daniels Midland (ADM), Bunge e

Cargill e a francesa Dreyfuss controlam grande parte da cadeia de produção e processamento,

tanto nos países exportadores quanto nos importadores. Eles também

são conhecidos como “os ABCD”, devido às iniciais dos nomes, ou “os quatro grandes”

da cadeia produtiva da soja. Estas empresas estão entre as maiores do mundo.

Cargill tem um faturamento de 71 bilhões de dólares anuais, ADM do 35 bilhões. Elas

fornecem adiantamentos aos produtores na forma de crédito, sementes, adubos

químicos e agrotóxicos. Esta venda casada faz com que as empresas exerçam um

grande controle sobre toda a cadeia produtiva. Com isso, um pequeno número de

empresas multinacionais determina o que será semeado, quem fará a produção,

onde e como será produzido. Oferta e demanda não são mais independentes e, com

isso, a influência de terceiros (política e consumidores) sobre a cadeia é reduzida.

• As indústrias de alimentos e de ração animal

A indústria de ração animal transforma farelo de soja em ração animal para o gado

17


Um outro olhar sobre a soja

BRASIL

HOLANDA

AGRICULTORES

FAMILIARES

ÓLEO DE SOJA

INDÚSTRIA DE ALIMENTOS

GRÃO DE SOJA

GRANDES

EMPRESAS

COMERCIANTES

INTERNACIONAIS

FARELO

DE SOJA

INDÚSTRIA

DE RAÇÃO

ANIMAL

PECUA-

RISTA

FRIGORÍFICO

SUPERMERCADO

CONSUMIDOR

Figura 1.9 O longo percurso da lavoura de soja até o consumidor. © Solidaridad

europeu. As empresas Nutreco, Cehave e Provimi são os grandes atores da Holanda

neste mercado. Elas são fornecedoras dos agricultores que escoam sua produção

(carne, leite, ovos) via abatedouros, como Vion e Plukon, e conglomerados de laticínios,

como Friesland Foods e Campina. O óleo de soja é transformado pela indústria

de alimentos e diversas outras em vários produtos, como margarina, maionese,

salgadinhos, detergentes, cosméticos e tintas. Nas indústrias de alimentos e de cosméticos

também há um número pequeno de atores dominantes, como Unilever,

Procter and Gamble, Kraft e Nestlé.

• Supermercados

A maioria dos produtos alimentícios chega ao consumidor via supermercados. As

redes de supermercados também têm, cada vez mais, sua base de operação internacionalizada,

fortalecendo sua posição de poder na cadeia. As duas maiores redes de

supermercados – Ahold e Laurus – dominam o mercado holandês.

• Consumidores

Finalmente, a soja chega ao nosso prato na forma de, por exemplo, uma deliciosa bisteca,

no molho da salada ou em um bombom acompanhando o cafezinho. A soja é utilizada

na produção de cerca de 60% a 70% dos produtos nas prateleiras do supermercado.

• O setor financeiro

Os bancos também desempenham um papel importante na produção de soja.

O cultivo mecanizado e em grande escala exige muitos investimentos em terras,

máquinas, sementes, adubos químicos e agrotóxicos. Os bancos fornecem créditos

aos produtores e empresas comerciais. A garantia dos empréstimos é o valor de

exportação da soja. Na Holanda são, entre outros, o Rabobank, Fortis Bank, ABN

AMRO e ING Bank os financiadores das empresas de soja. Os bancos de desenvolvimento

também fornecem este tipo de empréstimos. Como os juros no mercado

internacional de capitais são menores do que os juros internos em países como o

Brasil e a Argentina, é muito mais vantajoso fazer empréstimos para a exportação no

exterior. Afinal, a soja é vendida na Europa e é comercializada em dólares.

18


2

As conseqüências

negativas do cultivo

da soja


2. As conseqüências negativas

do cultivo da soja

Introdução

A produção de soja em grande escala e sua expansão na América do Sul têm grandes

conseqüências econômicas e sociais. A soja contribui para o superávit comercial

nos países sul-americanos e o fornecimento mundial de óleos vegetais e proteínas

para alimentos e ração animal. Entretanto, a soja provoca também graves problemas

sociais e ambientais. Neste capítulo serão explicados diversos impactos negativos

do cultivo da soja.

País Superfície (mi Área de florestas, Desmatamento 1990-2000

(milhões ljoe 2000

de n ha) ha)

Total % miljoen Milhões ha de % por % per ano

/ jaar ha/ano jaar

Argentina 274 35 13 0,28 0,8

Bolívia 108 53 49 0,16 0,3

Brasil 846 544 64 2,31 0,4

Paraguai 0 23 59 1,23 0,5

América

do Sul 1.755 886 51 3,71 0,4

Terra 13.064 3.869 30 9,39 0,2

Tabela 2.1 Desmatamento na América do Sul. Fonte: FAO, Global Forest Resources Assessment, 2005.

20


0

1976 1981 1986 1991 1996 2001 2006

As conseqüências negativas do cultivo da soja

Milhões miljoen de toneladas hectares

40

35

30

25

20

15

10

5

0

1951

1961

1966

1971

1976

1981

1986

1991

1992

1993

1994

1995

1996

1997

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

Bolivia Bolívia

Paraguay Paraguai

Argentinië Argentina

Brazilië Brasil

Figura 2.1 A expansão da área ocupada pelo plantio de soja na América do Sul (1951

– 2004). © AIDEnvironment

Problemas ambientais

Desmatamento e perda de

biodiversidade

O desmatamento é uma das principais

causas da perda de biodiversidade. O

desmatamento na América do Sul é

duas vezes maior do que a média mundial

e os países produtores de soja são

os que apresentam porcentagens ainda

maiores. Na Argentina, Bolívia, Brasil

e Paraguai desaparecem, anualmente,

cerca de 3,7 milhões de hectares de

florestas – uma área equivalente à da

Holanda.

A área ocupada por soja na América

do Sul aumentou de 18 milhões

de hectares, em 1996, para 38 milhões

de hectares, em 2004. Desde 2000, a

área ocupada com soja, na Argentina,

Brasil e Paraguai, cresce mais de 10%

anualmente. Este crescimento ocorre

às custas de valiosas áreas de cerrado e

de florestas. Às vezes o dano é indireto.

Quando a expansão ocorre em regiões

que já praticam a agricultura e a pecuária,

a soja desloca estas atividades para

as florestas vizinhas.

Figura 2.2 A expansão da área de

plantio de soja na América do Sul,

no período de 1995 a 2003. As setas

indicam a tendência da expansão.

© AIDEnvironment

2.1

21


Um outro olhar sobre a soja

O Cerrado (figura 2.3) é uma savana

arborizada, com uma biodiversidade

extremamente grande. Este ecossistema,

ou bioma, é o hábitat da metade das

espécies de aves e de 40% dos mamíferos,

répteis e peixes do Brasil. No Cerrado

ocorrem mais de 10 mil espécies de

plantas, muitas delas endêmicas (exclusivas

deste bioma). Menos de 2% do Cerrado

possui o status de área protegida e,

segundo estimativas, somente 20% se

encontram no seu estado natural.

A Bacia Amazônica ocupa cerca de 5

milhões de quilômetros quadrados. De

acordo com as estimativas dos pesquisadores,

vivem na Floresta Amazônica

5 milhões de espécies plantas e animais

(figura 2.4) e muitas ainda nem foram

descritas. Mais da metade da área total

de florestas tropicais encontra-se na

Bacia Amazônica. Além disso, a diversidade

de plantas da Floresta Amazônica é

a maior do mundo.

A Floresta Atlântica da América do Sul é

uma das florestas que apresenta maior

diversidade de espécies vegetais tropicais

do mundo. Muitas espécies vegetais

e animais ocorrem somente nestas regiões.

A maior área contínua de Floresta

Atlântica remanescente encontra-se na

província argentina de Misiones. No

Brasil e no Paraguai, os remanescentes

florestais estão muito fragmentados.

O Chaco (figura 2.5) é formado por

savanas secas e úmidas. Este ecossistema

ocupa 70 milhões de hectares no

Centro-Norte argentino e grande parte

da Bolívia e Paraguai. Tal como ocorre

com o Cerrado, o Chaco também é pouco

protegido e está seriamente ameaçado

pela expansão da agricultura.

22


As conseqüências negativas do cultivo da soja

Figura 2.6 Um método muito utilizado para desmatamento é praticado arrastando

dezenas de metros correntes de aço com dois tratores. © Ulrike Bickel

As regiões mais ameaçadas são o Cerrado (savana arborizada), no Centro-Oeste

brasileiro, as margens da Floresta Amazônica no Brasil, a Floresta Atlântica no norte

de Argentina e Paraguai e o Chaco (savana) na Argentina, Bolívia e Paraguai. Estas

regiões possuem grande diversidade biológica e cumprem um importante papel no

ciclo hidrológico e na regulação do clima. Somente uma pequena parcela destas

regiões está oficialmente protegida.

A expansão desordenada das áreas de cultivo de soja também ameaça a biodiversidade

na América do Sul, porque fragmenta as áreas naturais remanescentes.

Além disso, os agricultores infringem – em grande escala – as leis que visam preservar

as reservas florestais legais e matas

ciliares em suas propriedades. Se a soja

continuar no ritmo de expansão atual,

estima-se que até 2020 serão perdidos

mais 20 milhões de hectares de florestas

e savanas na América do Sul.

Erosão e degradação do solo

Ecossistemas naturais, como florestas e

savanas, retêm água na vegetação e no

solo. Sem vegetação, o sistema fica desequilibrado

e o solo fica sujeito à erosão,

perdendo rapidamente sua fertilidade.

Devido ao desmatamento e ao subse-

Figura 2.7 Queimadas realizadas para

implantar uma lavoura de soja no

Brasil. © Brent Millikan

23


Um outro olhar sobre a soja

Figura 2.8 Erosão ao longo de uma lavoura de soja no Cerrado degradado, Brasil.

© Jan Maarten Dros

qüente plantio de soja, a taxa de evaporação é quadruplicada quando se compara

com a vegetação nativa. Além disso, o solo se aquece e perde umidade mais rapidamente.

Isto leva, localmente, a uma baixa umidade relativa do ar e elevadas temperaturas

e, por fim, um rebaixamento do lençol freático e a seca de nascentes de água.

Isto torna necessária a irrigação, o que rebaixa ainda mais o lençol freático.

Os impactos são agravados porque não se utilizam técnicas agrícolas que preservem

o meio ambiente, como o plantio direito (zero-tillage) ou o plantio em nível.

Para cada quilo de soja são perdidos de seis a dez quilos de solo. Rios e barragens

são assoreados com os sedimentos transportados pela água. Isto tem um impacto

negativo sobre a vida aquática, as centrais hidrelétricas e a navegabilidade dos rios.

A água das chuvas leva agrotóxicos até os rios, o que ameaça a vida aquática e a

saúde de pessoas e animais rio abaixo.

O efeito do desmatamento em grande escala pode se tornar perceptível não só

localmente, mas também regionalmente. A desertificação é uma grave ameaça nestas

regiões que, por si, já apresentam uma estação seca prolongada. O desmatamento

em grande escala, a erosão e a poluição fazem com que o solo, uma vez

degradado, tenha poucas chances de ser recuperado.

24


As conseqüências negativas do cultivo da soja

Problemas sociais

Violência no Paraguai

Conflitos agrários e violação dos direitos

humanos

A busca por novas áreas agrícolas para

plantio de soja leva, regularmente, a violentos

conflitos com comunidades locais

e povos tradicionais, nos quais ocorrem

até mortes. Os latifundiários e as grandes

empresas procuram, de várias maneiras,

obter mais terras por meio de, por exemplo,

desmatamento ilegal e apropriação

Em junho de 2005, uma comunidade

de agricultores em Vaqueria, Paraguai,

foi expulsa de suas terras com violência

pela polícia. Na ocasião, duas pessoas

morreram e 140 foram presas.

Mais de 50 casas foram derrubadas e

a maioria das pessoas perdeu tudo o

que possuía.

das terras, utilizando para isso documentos falsos – a assim chamada “grilagem”.

As instâncias governamentais quase não dispõem de recursos para controlar o

uso da terra. Por isso, os produtores de soja invadem também áreas de preservação

ambiental e reservas indígenas. Para arrendatários ou comunidades – com ou sem

documentos de propriedade formais – é quase impossível defender seus direitos

quando um especulador ou um latifundiário resolve ocupar a terra para o plantio de

soja. Em todo o Brasil, o número de conflitos agrários aumentou 12% no período

entre 1997 e 2002.

Figura 2.9 Em muitos casos, os conflitos agrários são acompanhados de ameaças e

violência como aqui, no Brasil. © CPT

25


Um outro olhar sobre a soja

Grilagem

“Grilagem” é um termo utilizado no

Brasil para descrever a prática de falsificação

de documentos de propriedade

de terras. Os documentos falsos são

guardados com um ou mais grilos vivos

em uma caixa de sapatos. Após algum

tempo os documentos têm a aparência

de documentos antigos e autênticos.

No Mato Grosso, onde ocorreu a mais

forte expansão do cultivo de soja, o número

de conflitos aumentou em 139% neste

mesmo período. O número de incidentes

com violência aumentou ainda mais; de 39

casos, em 1997, para 149, em 2003.

Trabalho escravo

Nos desmatamentos para implantação

de novas lavouras de soja, as condições

de trabalho são péssimas. Os trabalhadores

são mal remunerados, as condições

de alojamento são precárias e não há assistência médica. Também ocorre o trabalho

escravo moderno. Os trabalhadores são forçados a trabalhar para pagar os “adiantamentos”

recebidos na forma de transporte, alimentos, vestuário, bebidas e cigarros.

Aqueles que tentam fugir são severamente punidos e até mortos a tiros. O número

de casos de trabalho escravo registrado no Brasil aumentou de 19, em 1997, para 238,

em 2003, quando foram libertadas, respectivamente, 872 e 8.385 pessoas, a maioria

no setor de pecuária. Atualmente, dezenas de denúncias de trabalho escravo no setor

sojeiro estão sendo investigadas pelo Ministério do Trabalho brasileiro.

Oportunidade de trabalho

No mundo todo, devido ao elevado grau de mecanização na agricultura e à Revolução

Verde, cada vez menos agricultores cultivam cada vez mais terras. Assim, entre

1970 e 1996, a população rural no Brasil diminuiu de 41 milhões para 33 milhões de

pessoas, enquanto a população total do país quase dobrou neste mesmo período.

70

60

50

Milhões miljoen

40

30

20

População rurale bevolking rural

Área landbouwareaal ocupada com in ha

agricultura, em ha

10

0

1980 1991 1996

Figura 2.10 Redução da população rural e aumento na área ocupada com agricultura

no Brasil, de 1980 a 1996. Fonte: IPEA e IBGE

5

3.4

26

norm

4

3

N-Rijn


As conseqüências negativas do cultivo da soja

Este modelo agrícola dá grande

ênfase ao aumento da produção de

um número restrito de espécies agrícolas

em monocultura, tendo como

conseqüência uma redução nas diversidades

cultural e (agro)biológica.

A soja é um exemplo didático desta

situação. Uma propriedade moderna

de plantio de soja ocupa de mil a 10

mil hectares, com algumas chegando

a 50 mil hectares. Quanto maior a

área, menor o custo por hectare.

Isto ocorre, entre outros, porque há

pouca necessidade de mão-de-obra.

A cultura, com uso de colhedeiras e

aplicação de agrotóxicos via aérea,

gera de um a dois empregos a cada 400 hectares.

Falsas promessas de emprego

O cultivo mecanizado de soja exige, em

média, um trabalhador para cada 200

hectares. Quando a multinacional Bunge

construiu sua indústria de processamento de

soja no município de Uruçuí, Brasil, também

prometeu que o empreendimento geraria

500 empregos diretos e 10 mil indiretos. Na

realidade, foram apenas 70, principalmente

para técnicos e engenheiros que vieram de

outras regiões do país. A população local só

encontrou empregos temporários e nãoespecializados

na fase de implantação.

Em contraste, na agricultura familiar os mesmos 400 hectares geram, no norte

do Brasil, trabalho para 80 pessoas. Além disso, a soja substitui produtos que exigem

muita mão-de-obra como algodão e cana-de-açúcar. Como a soja é exportada

principalmente na forma de matéria-prima bruta, o setor gera poucos empregos

Figura 2.11 Devido à intensa mecanização, as oportunidades de trabalho nas grandes

empresas plantadoras de soja são muito reduzidas. Fonte: www.koeller.com

27


Um outro olhar sobre a soja

na indústria de processamento e, devido à isenção de impostos para produtos de

exportação (no Brasil), a soja também não traz benefícios para os governos locais.

Ao fim, o número de empregos é reduzido nas regiões onde avança o cultivo de

soja. Os agricultores e trabalhadores rurais que perdem seu trabalho geralmente

seguem para as grandes cidades; a zona rural se esvazia. Porém, para estes migrantes

com baixa escolaridade praticamente não há empregos nos centros urbanos. O

desemprego e a pobreza fazem aumentar a criminalidade e a prostituição. O crescimento

explosivo da produção de soja não reduziu a pobreza. Entre 1970 e 2002,

a porcentagem da população abaixo da linha de pobreza cresceu de 5 para 51 por

cento, na Argentina.

Segurança alimentar e fome

A soja não é cultivada somente em novas áreas, mas também em localidades onde

antes se produziam alimentos para o mercado local. Cada vez mais agricultores arrendam

ou vendem, forçados ou não, suas terras para produtores de soja. Com isto, o

abastecimento alimentar local fica ameaçado. Na Argentina, a área ocupada com soja

Soja solidária como ajuda alimentar

Em reação à crise econômica na Argentina, no início de 2002, a soja começou a ser

apresentada como a solução para o problema da fome. A Associação Argentina de

Produtores em Plantio Direto (de soja) – AAPRESID, da qual são membros principalmente

os grandes produtores, lançou

uma campanha chamada de “soja solidária”.

De cada tonelada de soja exportada,

um quilo era doado para alimentar a

população faminta, especialmente crianças.

Não foi informado que se tratava

de soja geneticamente modificada. Na

Europa, esta soja é utilizada para ração

animal. Porém, foi recomendado que

Figura 2.12 Devido à campanha de

“ajuda alimentar”, crianças argentinas

se alimentam da soja transgênica que

seria destinada ao gado europeu.

© ICARO producciónes.

a soja não fosse oferecida a crianças

menores de cinco anos. Uma tarefa

difícil, porque é exatamente esse grupo

que mais necessitava de alimentos. O

preparo de soja para consumo humano

não é fácil – primeiro deve ficar de molho

na água durante muito tempo, e depois

deve ser cozida ou torrada. Os argentinos desconheciam estas técnicas, razão pela

qual freqüentemente a soja chegava às mesas sem o preparo adequado. Além disso,

uma dieta à base de soja não é suficientemente equilibrada. Ela somente pode contribuir

para a solução do problema da fome quando está associada a outros alimentos.

28


As conseqüências negativas do cultivo da soja

O longo braço da Monsanto

A empresa norte-americana Monsanto desenvolveu uma variedade de soja na qual

foi introduzido um gene que confere à planta resistência ao herbicida – também fabricado

pela Monsanto – RoundUp (glifosato). Com isso, todas as ervas daninhas na

lavoura podem ser exterminadas, enquanto a soja continua a se desenvolver. Desde a

introdução da soja transgênica na Argentina, as vendas do RoundUp aumentaram de

maneira espetacular, de 0,8 milhão de quilos, em 1997, para 45,9 milhões de quilos,

em 2004. As sementes de soja transgênica são patenteadas e, para garantir o faturamento

oriundo do direito de patente,

a empresa move processos jurídicos

acirrados contra os agricultores. Para

isso, a Monsanto conta com 75 advogados

que trabalham em tempo integral.

Até agricultores que não cultivam as

sementes da Monsanto são processados.

Um agricultor foi condenado porque em

sua lavoura foram encontradas sementes

transgênicas de colza da Monsanto.

Porém, isto era resultado da polinização

cruzada de lavouras vizinhas.

Figura 2.13 Soja transgênica (soja

RoundUp Ready) no Rio Grande do Sul,

Brasil. © Greenpeace/Baléia

aumentou 141%, entre 1995 e 2004, enquanto as áreas cultivadas com milho, arroz,

aveia e feijão diminuíram, respectivamente, em 16%, 19%, 27% e 52%. Enquanto em

outros lugares do mundo, aumenta o consumo de carne de porco, a porcentagem de

crianças argentinas subnutridas aumentou de 11% para 17% na última década.

Modificação genética, o domínio das multinacionais agrícolas e o

uso de agrotóxicos

Nos últimos dez anos, a soja geneticamente modificada (transgênica) apresentou

uma expansão extraordinária na América do Sul. Trata-se de uma variedade transgênica

que é resistente ao herbicida RoundUp.

A modificação genética é uma técnica que ainda se encontra nos estágios iniciais

de desenvolvimento. Os efeitos sobre a saúde e a biodiversidade, em longo prazo,

são praticamente desconhecidos. Por isso, é importante manter o princípio da precaução,

ou seja, a planta só poderia ser introduzida quando fosse comprovado que

não oferece riscos.

Por esse motivo, consumidores e fabricantes de produtos alimentícios tendem a

optar, portanto, por alimentos isentos de transgênicos. Mas, devido à ausência de

um sistema à prova de falhas para manter a soja transgênica separada da soja convencional,

a liberdade de escolha do consumidor e do agricultor está ameaçada.

29


Um outro olhar sobre a soja

Figura 2.14 Poluição devido ao uso inadequado de agrotóxicos. © Ulrike Bickel

Deve-se destacar que a soja transgênica não apresenta produtividade maior do

que a soja convencional. A vantagem estaria, principalmente, na maior facilidade no

trato da lavoura, porque a soja é resistente a herbicidas – que matam as ervas daninhas

e, assim, dispensam a capina – o que provocou um grande aumento no uso

destes produtos. Além disso, os agricultores tornam-se cada vez mais dependentes

devido à “venda casada” de sementes transgênicas e agrotóxicos. Ademais, parece

que as plantas daninhas estão se tornando gradativamente resistentes ao RoundUp.

Isto obriga os agricultores a utilizar, também, outros herbicidas, fazendo com que

desapareçam as vantagens ambientais propagandeadas. O plantio de soja transgênica

está fortemente associado a grandes lavouras em monocultura, que levam à

exaustão e à degradação do solo.

Na Argentina, quase toda soja é geneticamente manipulada. A participação da

soja transgênica na safra mundial de 2005/2006 é estimada em 55%, e originária,

principalmente, da Argentina e dos Estados Unidos. Para o Brasil, onde o plantio

de soja transgênica era proibido até pouco tempo atrás e onde faltam estatísticas

confiáveis, as estimativas variam de 8% a 44%.

Tanto na soja convencional quanto na soja transgênica, é utilizada grande quantidade

de herbicidas. Além disso, são aplicados inseticidas e fungicidas. Todos estes

agrotóxicos poluem o ar e a água, o que pode levar a problemas de saúde agudos e

crônicos nas pessoas. Devido à pulverização com aviões, os agrotóxicos atingem as

florestas e lavouras dos agricultores vizinhos, onde são cultivados produtos alimentícios

e também poluem rios e lagos. Quase semanalmente são registrados casos de

intoxicação nas regiões produtoras de soja da Argentina, Brasil e Paraguai. O sindicato

rural FETAG-Piauí, no Brasil, registrou, só em 2005, 65 casos de intoxicação no

Piauí, dos quais 15 resultaram em morte.

30


3

O papel da Holanda


3. O papel da Holanda

Introdução

Com os portos de Roterdã e Amsterdã e seus criadouros intensivos fortemente

desenvolvidos, a Holanda é o centro europeu de importação de soja. De toda a soja

que a União Européia importou em 2004, quase um terço foi destinado á Holanda. A

soja transformada na Holanda – em margarina, ração animal, carne e ovos – é destinada,

em grande parte, para exportação. Este capítulo trata da posição e do papel da

Holanda no comércio e no consumo

A soja em números: importação

e consumo na Holanda

internacional de soja. Em seguida, são

descritos os papéis do consumidor, do

setor industrial e do governo.

A Holanda recebeu, em 2004, pouco mais

de 11 milhões de toneladas de soja: cerca

de quatro milhões de toneladas na forma

de grãos e mais sete milhões de toneladas

na forma de farelo, quase um terço

do total das importações de soja pela

Europa. Destes 11 milhões de toneladas,

uns sete milhões foram repassadas para

outros países. O restante (3,7 milhões de

toneladas) foi processado na Holanda, a

maior parte pelas fábricas de ração animal.

A área ocupada pela soja consumida

na Holanda é de quase meio milhão de

hectares, cerca de 40% de sua superfície.

O consumidor

O consumo médio de carne do holandês

é elevado e, indiretamente, o

consumo de soja também. Com o

aumento da prosperidade, também

aumenta o consumo de produtos de

origem animal. Por exemplo, o holandês

consome hoje quase o dobro de

carne que consumia em 1960. Em

média, são necessários seis quilos de

ração animal para produzir um quilo

de carne.

32


O papel da Holanda

Transporte marítimo

Transbordo

Importador

Indústria de esmagamento

ou produção de óleo

Exportação

Indústria de ração animal

Indústria de

alimentos

Pecuária

Indústria de não-alimentos

Abatedouros

Açougues

Supermercados

Lojas de material

de construção e

drogarias

Consumidores

Legenda Tipo Volume

Soja em grão

> 4 milhões de toneladas por ano

Farelo de soja

1 a 4 milhões de toneladas por ano

Óleo de soja

0,2 a 1 milhão de toneladas por ano

Ração animal

< 200 mil toneladas por ano

Outros produtos

(somente para as setas coloridas)

Figura 3.1 Destino da soja importada pela Holanda. As setas pontilhadas indicam

estimativas.

33


Um outro olhar sobre a soja

Empresas da Holanda na cadeia produtiva da soja

Os maiores importadores de soja com sede na Holanda são Cefetra, Cargill, Archer

Daniels Midland (ADM), Bunge e Glencore. ADM e Cargill também possuem indústrias

de esmagamento de grãos de soja. As indústrias mais importantes de produtos

de soja são as fabricantes de ração animal – como o grupo Nutreco (controladora,

entre outros, da Hendrix UTD), Cehave, Schouten e Provimi, e fabricantes de produtos

alimentícios – como Unilever, Procter & Gamble, Mars e Remia. Unilever e

Procter & Gamble também utilizam a soja em cosméticos e detergentes.

Os fabricantes de ração animal da Holanda produzem, anualmente, cerca de

11 milhões de toneladas de ração animal balanceada e estima-se que a metade disso

é exportada. A outra metade é destinada ao setor de pecuária, principalmente para

as granjas de criação intensiva de suínos e aves. Em seguida, as granjas fornecem

carne e ovos aos abatedouros e embaladores de ovos. A cadeia produtiva de carne

suína, em especial, apresenta grande concentração. Vion é o maior abatedouro de

suínos da Europa e é responsável pelo abate de cerca de 80% dos suínos na Holanda.

O setor de frangos de corte também apresenta forte concentração. Os cinco maiores

abatedouros – Astenhof, Esbro, Plukon, Storteboom e Van den Bor – possuem, em

conjunto, uma participação de cerca de 50% no mercado.

As granjas de criação intensiva na Holanda

Granjas de criação intensiva concentram a maior parte do rebanho de animais para

a produção de carnes e ovos. Este sistema de criação industrial tem por objetivo

fornecer um produto o mais uniforme possível, por meio de produção em escala,

O consumo holandês de carne e a problemática mundial

de alimentos

Cada holandês consome, em média, 86 quilos de carne, 138 ovos e 312 litros de

leite por ano. Com isso, a Holanda ocupa a sétima posição no ranking mundial de

consumo de carne, ovos e laticínios. Para atender a esta demanda, anualmente

são abatidos 250 milhões de animais – mais ou menos 15 animais por pessoa. O

consumo holandês de carne e laticínios exige muita área. Para colocar na mesa o

total consumido na Holanda, é necessária uma área de 3 milhões de hectares, o que

equivale a 91% da superfície do país.

É importante destacar aqui o contraste entre este grande consumo de carne e a

distribuição injusta de alimentos no mundo, onde 852 milhões de pessoas sofrem

de fome crônica e onde, a cada cinco segundos, uma pessoa morre de seqüelas da

desnutrição. Simultaneamente, metade da produção mundial de grãos e 70% da

produção de soja são destinadas a consumo animal.

34


O papel da Holanda

Figura 3.2 A Holanda produz principalmente carne de suínos e de aves, grande parte

dela destinada à exportação.

intensificação, mecanização e seleção genética.

Trata-se, principalmente, de frangos de corte, aves poedeiras em gaiolas, suínos

para corte, novilhos e machos bovinos para engorda. Também na pecuária de leite a

industrialização avança. Os pecuaristas deste setor encontram-se espremidos entre,

por um lado, os fabricantes de ração animal e, por outro lado, os abatedouros e

redes de supermercados. As margens são mínimas e a ampliação de escala é, muitas

vezes, a única solução para o equilíbrio econômico.

A criação intensiva de animais na Holanda está sendo, cada vez mais, o alvo

de críticas. A persistência dos problemas envolvendo o bem-estar dos animais, a

recorrência das doenças, a problemática do excesso de produção de esterco, a frágil

posição financeira dos pecuaristas e o aumento da concorrência da Ásia e da

América do Sul fizeram com que o setor e os dirigentes políticos compreendessem

a necessidade de mudanças. O governo

sinaliza com um aumento da escala de

produção em granjas de criação intensiva

e estimula a criação de “parques de bioprodução

agroindustriais”, conhecidos

popularmente como “edifícios de criação

de suínos”. Mas o exagero na ampliação

de escala de produção da pecuária intensiva

não resolve os problemas. Estimase

que os custos ambientais não cobertos

Galinha poedeira Frango de corte

pelo setor alcancem dois bilhões de

6 1/2 semanas

euros anuais, que acabam sendo pagos

pela sociedade. Pode-se demonstrar

que uma parte da problemática tem sua

Figura 3.3 Frango de corte: até 2,5

quilos no abate, em seis semanas.

causa na disponibilidade de soja importada

a baixo preço.

35


10

0

Um outro 1980 olhar 1991 sobre a 1996 soja

5

3.4 Conforme já foi dito, o baixo

4

preço da soja foi um impulso

N-Rio N-RijnReno

importante para o desenvolvimento

da criação intensiva

3

N-Rio N-Maas Maas

P-Rio P-RijnReno

2

P-Rio P-Maas Maas de animais na Holanda e na

norma

Europa. As despesas com ração

1

representam, em média, de

0

40% a 50% dos custos totais de

1985 1990 1995 2000 2005

criação de gado, suínos e aves.

Figura 3.4 As concentrações de nitrogênio Atualmente, um sexto da ração

(N) e de fosfato (P) nas águas superficiais animal na Holanda é composta

100%

da Holanda apresentam tendência de

de soja.

90%

80% queda. Entretanto, o limite máximo ainda é A importação de soja em

70%

60%

ultrapassado. Fonte: RIVM

grande escala também traz graves

50%

conseqüências para o meio

40%

30%

ambiente na Holanda. Um

dos

20%

problemas mais importantes é a poluição ambiental provocada por esterco.

10%

Enquanto 0% na América do Sul os nutrientes extraídos têm de ser repostos com grandes

quantidades productie de adubos químicos, a Holanda se depara com um enorme excesso

areaal bruto waarde aantal bedrijven

de dejetos.

overschrijding norm

Acima do limite máximo

overig grootgrondbezit gezinslandbouw

O excesso de dejetos

O plantel pecuário da Holanda produz, anualmente, 75 milhões de toneladas de dejetos,

mais do que nossas culturas agrícolas têm condições de absorver. A adubação excessiva

libera amônia, nitratos e fosfatos que causam acidificação e poluição do solo, ar e

água. Muitas áreas naturais na Holanda sofrem com isso. Árvores e plantas tornam-se

suscetíveis a doenças, estiagens e outros impactos negativos. As grandes quantidades

de nutrientes liberadas causam a proliferação de lentilha-d’água e algas, que “asfixiam”

as águas de superfície. A conseqüência é uma redução tanto na qualidade da água

quanto na biodiversidade. Entre 1950 e 1995, metade das espécies vegetais da Holanda

desapareceu ou ficou seriamente ameaçada, devido, entre outros fatores, à acidificação,

à adubação e drenagem excessiva. Já foram tomadas medidas para reduzir o impacto

ambiental, mas estas ainda não permitiram que o país alcançasse as normas relativas

à qualidade da água na União Européia (Figura 3.4). A Holanda também está sendo

pressionada para reduzir ainda mais a criação suína, a fim de diminuir o excesso de

nitrogênio.

“Nós importamos ração, exportamos porcos e ficamos com a sujeira aqui. Este sistema

emperrou”. Cees Veerman, ministro da Agricultura, Natureza e Segurança de Alimentos.

1

36


4

Uma perspectiva

para os países

produtores


4. A sustentabilidade da cadeia

produtiva da soja:

uma perspectiva para os países

produtores

Introdução

Nos dois capítulos anteriores verificou-se que o cultivo e a expansão da soja trazem

conseqüências negativas para o homem e o meio ambiente, e que algumas delas são

irreversíveis. O conceito de sustentabilidade é definido como atender a necessidade

da geração atual sem comprometer a da geração futura. Portanto, a situação atual

não é sustentável. Por outro lado, há uma demanda por soja e nenhuma outra cultura

produz tanta proteína por hectare. Fontes de proteínas alternativas ocupariam,

portanto, uma área ainda maior, o que não significa, necessariamente, maior dano

ambiental. No final, precisamos caminhar para uma redução da demanda e uma

utilização mais sustentável dos recursos naturais em todo o mundo. Mas, enquanto

o consumo e a demanda continuarem a crescer, a realidade é que no futuro será

produzida ainda mais soja. A próxima pergunta é “onde e como”? Este capítulo trata

de possibilidades e medidas concretas e práticas nos países produtores. O quinto

capítulo trata de soluções para a Holanda.

Interromper a expansão da soja

Uma grande parte dos problemas na cadeia produtiva da soja é causada pela rápida

e descontrolada expansão do cultivo. Há necessidade urgente de, em curto prazo,

interromper a expansão da área cultivada com soja nas regiões das florestas. Isto

pode ser alcançado adotando-se quatro medidas:

• identificar áreas de proteção onde não podem ser desenvolvidas atividades

agrícolas;

• delimitação e proteção efetiva das reservas naturais indicadas, iniciando com as

38


A sustentabilidade da cadeia produtiva: os países produtores

regiões que desempenham funções ecológicas ou culturais essenciais;

• desenvolvimento de gestão sustentável de florestas e outros recursos naturais

nas áreas fora das reservas e oferta de alternativas econômicas à população

local;

• expansão da cultura da soja somente em áreas já desmatadas, estabelecendo,

por exemplo, condições para a concessão de créditos agrícolas ou fazendo uso

de instrumentos fiscais.

Tanto empresas quanto governos têm responsabilidade nesse processo. Os governos,

no planejamento espacial e manutenção, e as empresas recusando-se a comprar

soja de regiões onde a floresta foi desmatada recentemente. Organizações da

sociedade civil já oferecem apoio a povos nativos, governantes e comunidades locais

no planejamento do uso da terra.

A concentração do plantio de soja em áreas agrícolas já existentes reduz também

a necessidade de continuar incorporando novas terras para a agricultura e combate

ainda a fragmentação de áreas naturais. Na Argentina e no Brasil são utilizados 300

milhões de hectares para a pecuária extensiva, dos quais uma parte está ociosa.

Desta, algumas dezenas de milhões de hectares poderiam ser destinadas à soja ou

outras culturas.

Figura 4.2 Pecuária extensiva no Brasil. © Jan Maarten Dros

39


Um outro olhar sobre a soja

Planejamento e gestão participativa no entorno

do Parque Xingu

O Parque Xingu – um território indígena criado pelo governo brasileiro em meados do

século passado, para o qual transferiu inúmeros povos indígenas a pretexto de protegê-los,

com uma área equivalente à da Bélgica, situado no norte do Mato Grosso – é

a última área contínua de floresta intocada deste estado brasileiro. No parque moram

cerca de 4.700 pessoas, distribuídas em 14 comunidades tradicionais. O parque é

cercado por grandes propriedades de criação de gado extensiva e monocultura de soja e

áreas colonizadas por ex-agricultores sem-terra. Em torno deste parque desapareceram

– entre 2000 e 2003 – cerca de 1,3 milhão de hectares de floresta, uma área equivalente

a um terço da superfície da Holanda. Em todo o Mato Grosso são desmatados, em

média, um milhão de hectares por ano.

Os grupos indígenas do parque estão reunidos na Associação Terra Indígena do Xingu

(ATIX), que gerencia o parque. A ATIX mantém vigilância em locais estratégicos ao

longo de estradas e rios para manter

os invasores (latifundiários, mas

também pequenos agricultores semterra)

fora dos limites. Esta prática é

bem-sucedida, mas as florestas fora

do parque formam uma “terra sem lei”

e estão sendo rapidamente derrubadas

e convertidas em área agrícola.

Figura 4.1 Um morador do Parque Xingu

mostra até onde avançou o plantio da soja.

© Rosely Sanchez, Instituto Socioambiental

40

O rio Xingu, artéria vital do parque,

é alimentado por inúmeros riachos,

pequenos afluentes e lagos, cujas

nascentes se situam nas áreas de

pecuária e agrícolas. O desmatamento

das matas ciliares, a erosão e o uso

de agrotóxicos provocam a seca e

poluição do rio Xingu e ameaçam o

modo de vida dos povos desta região. Eles dependem do rio para sua alimentação, água

potável e para consumo doméstico. Mas os agricultores e pecuaristas no entorno do

parque também sofrem com a seca. Com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), uma

organização brasileira que promove o desenvolvimento sustentável, a ATIX tenta reverter

o processo de degradação e destruição ambiental. As prefeituras, plantadores de

soja, criadores de gado, pequenos agricultores, sindicatos e organizações da sociedade

civil também estão envolvidos nesse trabalho. É um processo lento porque, freqüentemente,

os interesses são opostos. Numa conferência regional, realizada no final de

2004, o governo, os agricultores e os povos nativos concordaram que a prioridade é

a recuperação das matas ao longo do rio. Já estão sendo realizados um programa de

treinamento para recuperação de mata ciliar e uma série de projetos-piloto.


A sustentabilidade da cadeia produtiva: os países produtores

Melhoria das técnicas agrícolas

Há diversas maneiras de evitar a perda de qualidade das terras agrícolas e a poluição

do solo com agrotóxicos. Praticando o plantio direto pode-se prevenir ou reverter

a degradação do solo e a erosão. O plantio direto protege o solo da perda de umidade

e mantém o conteúdo de matéria orgânica. Com isso, se conserva a fertilidade

do solo e a resistência à erosão. O plantio direto, porém, tem algumas desvantagens.

Fontes de doenças, ervas e insetos daninhos conseguem sobreviver com mais

facilidade nos resíduos das culturas que permanecem no campo. Estes problemas

podem ser evitados aplicando-se a rotação de culturas.

Na Argentina, o plantio direto é praticado, principalmente, em combinação com a

monocultura de soja transgênica. Mesmo neste caso, as vantagens do plantio direto

não compensam as desvantagens do monocultivo de transgênicos.

A aplicação do manejo integrado ou controle biológico de pragas também pode limitar

os impactos negativos dos agrotóxicos sobre os trabalhadores e o meio ambiente.

Além disso, essas medidas representam uma economia direta para os agricultores

porque os produtos para controle biológico são mais baratos do que os químicos.

Controle biológico na Bolívia

Na Bolívia, aumenta o cultivo de soja com controle biológico de pragas. Em 2003,

tratou-se de 40 mil dos 640 mil hectares. Os produtos aplicados são mais baratos,

menos nocivos ao meio ambiente e foram desenvolvidos na própria Bolívia, tornando

os produtores menos dependentes de produtos químicos importados em dólar. A

conversão do controle de pragas convencional para o biológico é acompanhada pelo

instituto independente boliviano Probioma, que também fornece orientações sobre

legislação ambiental, manejo e recuperação de florestas e métodos de produção

sustentáveis.

Figura 4.3 O laboratório do Probioma (à esquerda); soja cultivada com controle

biológico de pragas (à direita). © Probioma

1


Um outro olhar sobre a soja

Figura 4.4 Lavouras de soja formam um mosaico com capões de pinheiros e

pastagens para gado de leite. Santa Catarina, Brasil. © Jan Maarten Dros

Isto compensa o custo adicional do controle de ervas daninhas manual ou mecanizado.

No Brasil, a Associação de Plantio Direto no Cerrado pesquisa métodos de

controle biológico para seus 5.000 associados que, em conjunto, cultivam sete

milhões de hectares, cerca de duas vezes a superfície da Holanda.

A rotação de culturas e a combinação de agricultura com pecuária, numa mesma

propriedade, tornam o processo de produção mais sustentável de diversas maneiras.

Por um lado, a rotação faz com que o solo continue fértil e mantém as pragas

e doenças sob controle. Por outro lado, a diversidade de culturas e produtos é uma

proteção contra as variações de preços no mercado internacional. Com a rotação de

soja e pecuária num único sistema, o nitrogênio fixado pela soja no solo é liberado

para o pastagem. Com isso, é possível criar mais cabeças de gado por hectare do

que num sistema sem soja. Estes métodos exigem mais conhecimento técnico e,

também, a transposição de barreiras culturais, pois pecuaristas têm tradições distintas

daqueles que só se dedicam a lavouras.

Para evitar a erosão e a poluição, é importante manter a vegetação natural nas

encostas e ao longo dos rios e, se necessário, recuperá-la. Em grandes propriedades,

é importante ainda manter a zonas de ligação ecológica. Fragmentos de florestas ao

longo dos rios, ou em outras áreas, tornam possível o trânsito dos animais, auxiliam

na retenção de água, previnem erosão e formam um refúgio para os predadores dos

animais nocivos.

42


A sustentabilidade da cadeia produtiva: os países produtores

Agricultura agroecológica

Apesar da elevada e crescente urbanização, ainda há milhões de famílias de agricultores

que vivem na zona rural na América do Sul. Aos poucos, os governantes

sul-americanos estão se dando conta da importância de manter a viabilidade das

comunidades rurais. No Brasil, milhões de hectares foram entregues a agricultores

sem-terra e foi criado um Ministério de Desenvolvimento Agrário.

A agricultura familiar ainda é a maior fornecedora de alimentos para os mercados

locais e regionais, isto porque a agricultura empresarial se concentra no plantio de

produtos para exportação e para fabricação de ração animal. No Brasil, a agricultura

familiar é responsável por cerca de dois terços da produção de alimentos para o

mercado interno.

De acordo com o último censo, de 1996, a agricultura familiar é responsável por

85% da mandioca brasileira, dois terços do feijão, 58% da carne suína, metade do

Soja na agricultura familiar

A família Prediger, do Brasil, tem uma

propriedade mista, com dez hectares, na

qual cultivam frutas (uvas e bananas) e

soja. Além disso, eles criam gado de leite

e colhem palmito, mel e frutas nativas

da reserva florestal em sua propriedade.

No passado, cultivavam quase exclusivamente

soja e milho mas, desde 1997, a

propriedade produz cada vez mais frutas,

atualmente num sistema totalmente orgânico.

A produção de soja, que ocupa um

terço da área, também é orgânica. As frutas

são comercializadas no mercado local no

Paraná; a soja orgânica destina-se à exportação

e os produtores recebem por ela um

preço superior ao da soja convencional. Os custos de produção da soja orgânica são

menores, porque não são utilizados agrotóxicos nem adubos químicos.

© Jan Maarten Dros

A família Prediger é membro do sindicato rural de do município de Capanema,

Paraná, que organizou uma feira regional de produtos orgânicos. O compartilhamento

de máquinas e mão-de-obra (no sistema de “mutirão”) permite que as pequenas

propriedades sejam exploradas de maneira eficiente e, graças à diversidade

de produtos e mercados, os riscos são distribuídos. Além disso, a família Prediger

precisa comprar poucos alimentos, pois eles produzem sua própria carne, verduras,

milho e leite.

3


Sojahullen

Um outro olhar sobre a soja

0

1985 1990 1995 2000 2005

1996 2001 2006

1994

1995

1996

1997

milho, do trigo e do leite, e um terço do

arroz. O faturamento bruto por hectare

na agricultura familiar foi 38% maior do

que aquele na agricultura empresarial.

Em 1996, a agricultura familiar também

gerou mais empregos: 12,5 postos de trabalho

a cada 100 hectares, contra 1,5 na

agricultura empresarial. O cultivo mecanizado

de soja é, dentro da agricultura

empresarial, um dos mais extensivos,

gerando apenas um emprego para cada

200 hectares. Para os pequenos agricultores,

optar pela monocultura de soja

oferece um grande risco. Eles não conseguem

competir com os grandes em

termos de volume de produção e não dispõem

de reservas financeiras suficientes

para sobreviver aos anos de frustração de safra ou de preços baixos.

A agricultura familiar moderna conta com uma mescla de produtos para consumo

próprio e local, pecuária de leite, cash crops (culturas para venda) como soja

ou café, e processamento da produção própria na propriedade. Das 900 mil famílias

de agricultores nos estados do sul do Brasil – Rio Grande do Sul, Santa Catarina

e Paraná – cerca de 230 mil plantam soja. A diversidade proporciona segurança

alimentar aos pequenos produtores e aos mercados locais. Os agricultores aproveitam

quando os preços das commodities estão, temporariamente, elevados – como

ocorreu com a soja 1.6 em 2003 – mas não dependem delas. Pela distribuição do risco

e pela relativa independência de crédito, este sistema é considerado como a forma

mais sustentável

Overig

de produção de soja do ponto de vista ecológico e econômico.

Argentinië

Organizações de agricultores, como Fetraf-Sul – a Federação de Agricultores

Brazilië

Familiares VS no Sul do Brasil – empenham-se na continuidade do desenvolvimento

de sistemas China agrícolas sustentáveis, chamados de agroecológicos. Nestes sistemas,

emprega-se um mínimo de insumos, como adubos químicos e agrotóxicos, e o

emprego de mão-de-obra disponível na família e na comunidade é otimizado.

Uma parte das propriedades familiares já fez a conversão para a agricultura orgânica

e recebem preços maiores. Um número cada vez maior de pequenas propriedades

produz soja orgânica e algumas cooperativas se especializaram neste produto. O

preço da soja orgânica é 30% superior, enquanto os custos de produção – após o perí-

2.1

odo de conversão – são menores do que no plantio de soja convencional ou transgênica.

Também é pago um bônus pela soja convencional (não-transgênica) certificada,

e o mercado para soja produzida com critérios de comércio justo – em pequenas

propriedades e com um Paraguay preço melhor para o produtor – está em ascensão.

Argentinië

O acesso a crédito e a mercados consumidores internos e externos são as principais

condições limitantes para o crescimento da agricultura

Brazilië

familiar.

44

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

Bolivia

100%

90%

80%

70%

60%

50%

40%

30%

20%

10%

0%

Área areaal ocupada

Faturamento bruto waarde bruto aantal Número bedrijven de

da produção estabelecimentos

productie

Outros overig Grandes grootgrondbezit estabelecimentos

gezinslandbouw

Propriedades

agropecuários

familiares

Figura 4.6 Distribuição entre a

agricultura familiar e os grandes

estabelecimentos agropecuários,

Brasil, 1995/1996. Fonte: IBGE


5

Uma perspectiva

para a Holanda

e a Europa


5. A sustentabilidade da cadeia

produtiva de soja:

uma perspectiva para a

Holanda e a Europa

Introdução

Produção sustentável de soja somente é possível se houver demanda de soja produzida

com critérios de responsabilidade ecológica e social e, portanto, carne produzida

com critérios de responsabilidade. Na qualidade de grandes importadores e

processadores de soja, a Holanda e a Europa são co-responsáveis pelas injustiças

na cadeia produtiva da soja. Para a pecuária na Europa, implicará no longo prazo o

uso de matérias-primas para ração animal produzidas regionalmente, de modo que

os ciclos ecológicos e econômicos se fechem. Enquanto os produtores europeus

não podem fornecer tanto proteina vegetal, o opção de curto prazo e utilizar soja

sustentável importada da América do Sul. Ao mesmo tempo, o padrão de consumo

europeu deve mudar no sentido de um consumo de carne – e outras fontes de

proteínas animais – menor e mais consciente. Para reduzir, parar e até reverter os

atuais impactos negativos do plantio de soja, é importante que o setor mundial de

soja – em colaboração com as organizações não-governamentais – desenvolva uma

norma com critérios de sustentabilidade. Neste capítulo, são esboçados os papéis

que podem ser desempenhados pelos consumidores, empresas e governantes.

Papel dos cidadãos e consumidores

O consumidor desempenha um papel-chave. Ao consumir de modo consciente,

as empresas e produtores são estimulados a produzir de forma responsável. Os

consumidores também podem, em organizações não-governamentais ou individu-

46


A sustentabilidade da cadeia produtiva: Holanda e a Europa

Requisitos da ração

animal para suínos

e aves

% de matériasprimas

orgânicas

Origem da ração

animal

Permite uso de soja

transgênica

Selos de qualidade e carne originária de pecuária extensiva

Biodinâmico

(Demeter)

Orgânico (EKO) Carne originária de

pecuária extensiva

100% 85%

50% produção na

propriedade

Sem requisitos

Não Não Sim

Sem requisitos

Tabela 5.1 Requisitos da ração animal para diversos selos de qualidade e carne

originária de pecuária extensiva. Fontes: www.skal.nl; www.demeter-bd.nl; www.scharrelvlees.net

almente, exercer pressão sobre as empresas e governantes para que estes busquem

soluções para a cadeia produtiva da soja.

Comprar produtos sustentáveis

Os consumidores podem verificar se os produtos que contêm soja ou, no caso de

carne, nos quais a soja é utilizada como matéria-prima, se nestes há um selo certificando

que o produto atende a determinados requisitos de sustentabilidade. No

momento, são apenas os selos EKO (orgânico) e Demeter (biodinâmico). A tabela

5.1 relaciona, para cada selo e para as carnes originárias de pecuária extensiva, quais

matérias-primas da ração animal devem ser de origem orgânica e se são feitas exigências

com relação à origem da mesma.

A carne originária de pecuária extensiva não oferece garantia em relação a sustentabilidade

da soja utilizada na ração animal. Isto se aplica, sim, para a carne

produzida no sistema biodinâmico (Demeter), pois a soja utilizada foi cultivada no

sistema orgânico. A carne com o selo EKO pode ser produzida com, no máximo,

15% de soja não-orgânica (mas deve ser totalmente isenta de transgênicos). Ambos

os selos oferecem vantagens na área de bem-estar animal e meio ambiente.

Redução do consumo de carne

Os consumidores podem optar por consumir menos – ou nenhuma – carne. Especialmente

uma redução no consumo de carne suína e de aves contribuiria para a

redução da demanda de soja. Mas não é preciso que todos se tornem vegetarianos;

comer carne com menos freqüência também faz muita diferença. Apesar de muitos

substitutos de carne também conterem soja, a demanda de soja diminuirá se muitas

pessoas passarem a consumi-los com mais freqüência. Isto porque a produção de

substitutos de carne requer uma quantidade muito menor de soja do que a produção

de carne. O Ministério holandês de Habitação, Ordenamento Territorial e

Gestão Ambiental afirma que:

7


Um outro olhar sobre a soja

• carne é o ingrediente da cesta básica de alimentos do consumidor holandês que

causa o maior impacto ambiental; e

• substitutos de carne são mais sustentáveis do que carne. O mesmo ocorre

quando o produto é obtido pelo sistema orgânico.

Pressão da sociedade

Os consumidores também podem fazer ouvir sua voz como cidadãos. Empresas e

governantes só entram em ação quando sofrem pressão social e política. Isto pode

ser conseguido realizando manifestações públicas em conjunto com organizações

ambientais e sociais e apoiando suas atividades, cobrando as empresas e exigindo

a atenção dos políticos, da mídia e também dos acionistas das empresas. E é claro

que levar informação e conscientizar amigos, familiares e colegas sobre o problema

e a necessidade de uma produção e consumo responsáveis também ajuda. Se não

houver produtos alternativos, o cidadão e o consumidor podem exigi-los. Afinal, “o

freguês manda”, mesmo quando se trata de demanda por produtos justos.

Papel do setor empresarial

O Empreendedorismo Socialmente Responsável deveria ser o ponto de partida para

cada empresa da cadeia produtiva da soja. As empresas não podem repassar para

a sociedade os danos decorrentes da produção e processamento da soja. O setor

deve prevenir estes danos e os custos gerados devem ser absorvidos pela empresa e

repassados para seu produto. Assim se cria um preço justo para um alimento justo.

Esta responsabilidade social dos produtores, processadores, comerciantes, bancos

e supermercados é válida tanto na produção, comércio e consumo de produtos de

soja, quanto em relação à transparência destes processos.

Implementação de critérios para aquisição de soja sustentável

As empresas que praticam a gestão com responsabilidade social devem estabelecer

condições para aquisição de soja e, assim, reverter os impactos negativos da produção

desse vegetal. Os bancos e acionistas também podem estabelecer requisitos de

sustentabilidade para as empresas às quais elas concedem créditos. Supermercados

e fabricantes de alimentos podem, por meio de sua política de compras, estimular

produtores e fornecedores a entregar soja sustentável. Com isso, a demanda por

soja produzida de forma não-sustentável será reduzida.

Uma ampla articulação de organizações não-governamentais brasileiras – denominada

Articulação Soja – Brasil – elaborou critérios mínimos para a produção de

soja com menor impacto negativo para o homem e o meio ambiente: ”Critérios de

Responsabilidade Social para Empresas que Compram Soja e Produtos Derivados

de Soja”. Os critérios são:

• a soja foi produzida com observância da legislação local relativa à propriedade da

terra, aos direitos trabalhistas, ao meio ambiente e à liberdade de organização;

• a produção e o transporte de soja não causaram impacto negativo em regiões ecologicamente

relevantes, tais como florestas tropicais, o Cerrado e o Pantanal;

48


A sustentabilidade da cadeia produtiva: Holanda e a Europa

• a produção de soja atende aos requisitos

ambientais internacionais e

nacionais relativos ao uso e gestão da

água e do solo;

• a soja foi produzida em talhões contínuos

com, no máximo, 200 hectares,

e separados por corredores de vegetação

nativa tendo em vista produzir

menor impacto na biodiversidade;

• a soja não pode ser oriunda de áreas

recentemente desmatadas ou onde

existam conflitos de propriedade com

comunidades tradicionais, ribeirinhos,

quilombolas ou indígenas;

• uma parte da soja é adquirida de agricultores

familiares;

• a soja não é geneticamente modificada

(transgênica).

Figura 5.1 Os critérios mínimos para

produção de soja no Brasil. © CEBRAC

Após o estabelecimento destes critérios mínimos, outros critérios foram propostos,

como os assim chamados ”Critérios de Basel para a Produção de Soja com

Responsabilidade Ecológica e Social”, elaborados pela iniciativa da cadeia de supermercados

suíça COOP junto com a Fundo Mundial para a Natureza. Estes critérios

A oferta de soja com responsabilidade ecológica e social

A empresa brasileira Importação, Exportação

e Indústria de Óleos Ltda (IMCOPA)

informou que, a partir de maio de 2006,

pode fornecer anualmente 2,5 milhões de

toneladas de soja com selo ‘Proterra’ que

atendam aos assim chamados “Critérios

de Basel”. IMCOPA garante, entre outros,

que não foi feito desmatamento para a

produção desta soja e que os direitos

trabalhistas foram respeitados. Genetic

ID, uma certificadora norte-americana,

realizou estudos de viabilidade econômica

e concluiu que o preço desta soja Proterra

é somente de 2% a 5% superior ao da soja

convencional não-transgênica.

Os fabricantes de alimentos fazem cada

vez mais exigências aos fornecedores

para garantir a seus consumidores que os

produtos não são transgênicos. IMCOPA

está consciente de que transparência

e conhecimento da origem e forma de

produção desta soja são cruciais para

manutenção da participação no mercado.

O sindicato rural Fetraf-Sul, no Sul do

Brasil, organiza pequenos produtores de

soja sustentável para, em conjunto, terem

acesso ao mercado europeu. Unindo-se na

produção e comercialização, os produtores

podem obter um preço maior por sua

soja produzida de maneira sustentável

que, atualmente, é vendida sem bônus

aos intermediários locais.

9


Um outro olhar sobre a soja

têm como eixo central a boa gestão dos solos agrícolas, preservação florestal, boas

condições de trabalho e produção de soja não-transgênica. Os sistemas de certificação

já existentes no setor privado podem oferecer mecanismos para implementação

dos critérios de sustentabilidade, tomando-se o cuidado para que estes não criem

barreiras ao mercado para os agricultores familiares e outras micro‐ e pequenas

empresas.

Transparência e rastreabilidade

Freqüentemente as empresas holandesas e européias que importam ou processam

soja não têm um envolvimento direto na produção. Entretanto, isto não as torna

impotentes. Elas podem, efetivamente, fazer exigências em relação à maneira pela

qual a soja é produzida. Aqui, também “o freguês manda”.

Para poder verificar e garantir que a soja atende aos requisitos estabelecidos, são

necessárias informações sobre a origem dos produtos. Geralmente, o consumidor

não faz idéia disso. Se as empresas e seus fornecedores aumentarem a transparência

de seus negócios em relação à origem dos ingredientes, os consumidores

poderão fazer uma opção consciente. A transparência também é importante para

investimentos no setor feitos pelos bancos e investidores. Quando a origem das

matérias-primas processadas por uma empresa for conhecida, será possível avaliar

melhor os riscos ambientais e para a reputação de tais investimentos.

Entretanto, garantir a transparência na cadeia produtiva nem sempre é simples.

Primeiro, a soja é um produto volumoso, é produzida, armazenada e comercializada

em grandes quantidades, e há pouca distinção entre a soja de um produtor ou outro.

A soja é armazenada em grandes silos e embarcada a partir destes. O segundo

desafio para a transparência é que a soja é utilizada na produção de uma gama

de produtos muito diversos, permanecendo, assim, praticamente invisível para o

consumidor. Estes obstáculos, porém, não são intransponíveis. Iniciativas de outros

setores, como os do café, provam que é possível garantir efetivamente a origem

dos produtos. Por exemplo, com a data de fabricação no pacote de café Perla – com

o selo de certificação da Utz-kapeh – é possível rastrear o produtor de origem do

café que se encontra no pacote em mãos do consumidor. No âmbito das normas

de rotulagem para ingredientes transgênicos e alergênicos, a rotulagem de soja

está mais avançada do que para outros ingredientes. Adiantando-se à normatização

de governos, as próprias empresas podem tomar a iniciativa de tornar sua cadeia

produtiva transparente.

Diálogo entre empresas, governantes e organizações não-governamentais

É importante que, além de medidas legais, também sejam firmados acordos ou pactos

claros entre os diversos atores do setor empresarial. O problema é que uma

empresa geralmente não quer tomar a iniciativa isoladamente, temendo o risco de

que, com a implementação de critérios de sustentabilidade, seus produtos acabem

fora do mercado devido ao preço. Mesmo assim, há cada vez mais empresas que

reconhecem a importância da sustentabilidade do setor como um todo a partir de

sua responsabilidade social ou pela pressão dos consumidores ou do governo. Por

50


A sustentabilidade da cadeia produtiva: Holanda e a Europa

isso aumenta o número de empresas que participam, voluntariamente, de rodadas

de diálogo e negociação para as quais convida-se o maior número possível de elos

da cadeia produtiva. Estas rodadas de negociação, também chamadas de negociações

multipartite, têm como objetivo firmar pactos vinculantes para uma produção

e comércio melhores e mais sustentáveis. Além das empresas, participam destes

processos também governantes, organizações não-governamentais e institutos de

pesquisa. Freqüentemente as iniciativas são tomadas pelas organizações não-governamentais,

mas, quando o processo caminha bem, são principalmente as empresas

que dão continuidade, pois são elas as responsáveis pela cadeia produtiva.

Para que seja efetiva, é importante que os critérios mínimos de sustentabilidade

sejam internacionalmente aceitos e implementados. Por exemplo, a rede de supermercados

COOP e o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), que elaboraram os

“Critérios de Basel”, organizaram e participaram da Mesa Redonda para Soja Sustentável

(Round Table on Responsible Soy), organizada pelo WWF, em 2005. Este

processo pode ser um grande impulso para que empresas do mundo todo assumam

o compromisso com a soja sustentável. Empresas como Unilever e o Banco

Real, participam ativamente na coordenação deste processo. Como a cadeia envolve

milhares de produtores e compradores mundialmente, é praticamente impossível

atacar o problema e frear a expansão da soja sem acordos com amplo apoio internacional.

A partir do momento em que os padrões tiverem sido desenvolvidos, devem

ser criados mecanismos que permitam a verificação de seu cumprimento e sanções

para aqueles que não os respeitarem.

Também há críticas a este processo de “mesa redonda”. Geralmente é um processo

lento e demorado. Algumas empresas se escondem atrás deste fato (“afinal,

estamos participando do diálogo”) e deixam de, simultaneamente, adotar medidas

concretas. Críticas mais fundamentais vêm de alguns movimentos de agricultores

da Argentina, Brasil e Paraguai. Eles afirmam que acordos com ou entre empresas

jamais levarão à solução dos problemas, como a ocupação de áreas extensas

com a cultura e a desigualdade entre grandes e pequenos produtores. Segundo eles,

os acordos são, na verdade, contraproducentes porque legitimam esta forma de

produção. Da perspectiva de agricultores sem-terra ou pequenos agricultores, esta

posição é compreensível. Para estes, a distribuição de terras e das riquezas é sua

maior prioridade e eles não participam ou participam pouco do lucro gerado pelas

exportações.

Além da Mesa Redonda Internacional, são conduzidos diálogos entre organizações

não-governamentais, empresas, governantes e institutos de pesquisa em diversos

países da Europa e América do Sul. Na Holanda, as organizações que participam

da Articulação Soja Holanda trabalham em conjunto para estimular as empresas da

cadeia produtiva a desenvolverem soluções concretas.

Existem também iniciativas para financiar iniciativas para stimular produção sustentável,

como a programa Óleo Puro da Fundação DOEN. Além de apoiar iniciativas

para uma produção mais sustentável, a programa financia desenvolvimento de

alternativas na fronteira de expansão de soja.

1


Um outro olhar sobre a soja

Papel do governo

A política do governo da Holanda é voltada para alcançar a sustentabilidade na produção

e no consumo e para a proteção da natureza, tanto nacionalmente quanto no

exterior. O governo atribui a responsabilidade, expressamente, aos consumidores e

empresas. Quando a responsabilidade não é assumida, faz-se necessária a normatização

pelo governo. O ponto de partida é que os custos sociais e ambientais de

toda a cadeia produtiva sejam repassados na forma de um preço justo. O papel do

governo em aumentar a sustentabilidade da cadeia poderia se voltar, por exemplo,

para os seguintes cinco pontos:

• elaborar critérios mínimos para a soja importada;

• estimular a pecuária sustentável;

• garantir a liberdade de escolha do consumidor e do agricultor, fornecendo informações

e estabelecendo normas em relação à transparência;

• apoiar a criação de áreas de conservação e proteção ambiental;

• estimular acordos internacionais sobre os temas descritos acima.

Para serem efetivas, estas medidas devem ser implantadas em nível europeu. Além

de estimular cadeias produtivas sustentáveis, há ainda outra tarefa a ser desenvolvida

pelo governo da Holanda: a de defender na União Européia (UE) e na

Organização Mundial do Comércio (OMC) a sustentabilidade de matérias-primas

comercializadas.

Critérios mínimos para a soja importada

Para acabar com atividades socialmente indesejáveis, como escravidão moderna,

desmatamento e expulsão de comunidade locais, a Holanda pode - de preferência

em conjunto com a UE - estabelecer requisitos mínimos para a importação de soja.

Com isso, os segmentos mais atrasados do setor – que geralmente são os responsáveis

pelas maiores injustiças – serão obrigados a ajustar seu comportamento sob

pena de redução do acesso ao mercado. Este princípio de ‘critérios iguais para todos’

é de importância vital, pois, na prática, somente poucas empresas holandesas são

capazes de repassar o custo adicional da soja sustentável para seus clientes.

Estimular a pecuária sustentável

Considerando o rápido crescimento da demanda de soja por países como a China e

Tailândia, uma redução no consumo de soja na Holanda e na Europa é crucial para

barrar a rápida expansão das plantações de soja às custas das florestas tropicais. O

governo pode desempenhar um importante papel nisso, estimulando fortemente a

conversão de granjas de criação intensiva para sistemas de criação sustentáveis. A

redução do número de cabeças de gado na Holanda e o aumento do uso de ração

animal cultivada regionalmente são condições importantes neste processo. O plantio

de espécies alternativas como fonte de proteínas já recebe apoio financeiro em

diversas regiões européias.

52


A sustentabilidade da cadeia produtiva: Holanda e a Europa

Figura 5.2 O uso direto de soja transgênica deve ser mencionado no rótulo, mas para

carne e laticínios originários de animais alimentados com este produto isto não é

obrigatório. © AIDEnvironment

Informação ao consumidor e ao agricultor sobre transparência

O governo deve dedicar mais atenção à normatização do fornecimento de informações

ao consumidor. Embora a soja entre, direta ou indiretamente, na composição

de cerca de 60% a 70% dos artigos no supermercado, ela é praticamente

invisível para o consumidor. Como as normas de rotulagem são flexíveis e voluntárias

(“óleo vegetal”, ao invés de “óleo de soja”), o consumidor é impedido de fazer

uma opção consciente. Somente para ingredientes derivados de organismos geneticamente

modificados (OGMs) está em vigor uma obrigação de rotulagem clara.

Porém, devido a misturas que ocorrem no transporte e no armazenamento, a maior

parte da soja importada pela Holanda não é rastreável. Lotes de soja transgênica

são misturados com soja convencional e chegam ao mercado como ração animal

transgênica.

Para oferecer liberdade de escolha aos consumidores no consumo, ou não, de

alimentos sem OGMs, é desejável que o rótulo informe se foram usadas matériasprimas

transgênicas nos produtos finais de soja de origem animal, particularmente

carne e laticínios.

Além da rotulagem, é importante estabelecer diretrizes para a transparência da

cadeia produtiva. Somente quando pudermos rastrear o fluxo das matérias-primas

até o local de produção, será possível verificar se os critérios de sustentabilidade

estão sendo atendidos.

3


Um outro olhar sobre a soja

Apoiar a criação de áreas de proteção e conservação ambiental

Em 2006, todos os países signatários da Convenção da Biodiversidade (CDB), das

Nações Unidas, devem ter elaborado um plano de ação para áreas de conservação

ambiental. O governo da Holanda pode dar apoio técnico e financeiro aos países

produtores de soja da América do Sul na elaboração, execução e monitoramento

destes planos.

Acordos internacionais

A maior parte das leis e normas envolvendo o comércio e importação de soja é

internacional. Em negociações em curso na Organização Mundial do Comércio

(OMC), mas também no futuro acordo entre a UE e o Mercosul, serão fixadas novas

regras para, entre outros, o comércio de soja e carnes. Embora, no momento, sejam

concedidos poucos subsídios para exportação aos produtos da pecuária intensiva,

este setor acaba sendo subsidiado indiretamente pela importação de soja com tarifa

zero. Além disso, há a prática de dumping de cortes de aves para os quais não há

mercado na UE em países do oeste africano, o que acaba comprometendo o mercado

de lá. A alteração de regras comerciais é, portanto, necessária e o governo da

Holanda pode exercer um papel de liderança neste processo.

Por exemplo, podem ser vinculados critérios de produção à isenção tarifária da

soja em negociação no âmbito da já mencionada OMC, ou entre a UE e o Mercosul,

do qual participam os países exportadores de soja mais importantes da América do

Sul. Em seguida, os recursos gerados pela taxação de soja não-sustentável podem

ser empregados na sustentabilidade da produção e na proteção de áreas ameaçadas

nos países produtores.

Dois terços da carne produzida na Holanda é exportada, principalmente para

outros países europeus. Por isso, a Holanda também deve se empenhar por uma

redução no consumo de carne dentro da UE.

54


6

Conclusão


6. Conclusão

É difícil imaginar que a soja deixe de ser uma matéria-prima. Graças ao elevado teor

de proteínas e óleo, é um ingrediente muito utilizado em nossos produtos alimentícios.

A maior parte da soja, entretanto, é utilizada como matéria-prima para ração

animal. Considerando que a população mundial está crescendo e está consumindo

cada vez mais carne, a demanda de soja continua aumentando. A maior parte da

soja é produzida na América do Sul – desde a década de 70, a área plantada com

soja neste subcontinente sofreu forte expansão.

O forte aumento na produção de soja na América do Sul representa uma grave

ameaça para a preservação das valiosas florestas tropicais e da população nativa.

A expansão do cultivo da soja está associada a conflitos agrários, desmatamento,

perda de biodiversidade, violação dos direitos humanos e também provoca desemprego

e aumento da concentração de terras e poder nas mãos das grandes empresas

do agronegócio. O uso de soja geneticamente modificada agrava uma série destes

problemas.

Cerca de 80% da soja sul-americana é exportada para, entre outros, a Holanda.

Depois da China, a Holanda é o maior importador de soja do mundo. Na Holanda,

a soja é utilizada para ração animal, principalmente para a pecuária intensiva. Dois

terços da carne que é produzida é destinada à exportação. Para a Holanda sobra o

excesso de dejetos, que provoca a poluição de águas subterrâneas e de superfície,

enquanto, na América do Sul, o solo é empobrecido e necessita ser adubado com

fertilizantes químicos importados. A situação atual não é sustentável. Uma série

de problemas urgentes precisa ser enfrentada em curto prazo, enquanto as causas

subjacentes requerem mudanças fundamentais na área de produção, comércio e

consumo.

Mudanças rápidas ocorreram na distribuição do poder dentro do setor de alimentos

nos últimos anos. São, principalmente, os grandes atores no centro da cadeia

produtiva de alimentos que determinam o que e como será produzido e consumido.

56


Conclusão

As redes de supermercados também têm, cada vez mais, sua base de operação

internacionalizada e fortalecem sua posição de poder na cadeia. Estas empresas

organizam a produção de alimentos observando princípios econômicos como otimização,

aumento de escala e redução de custos de produção. Sustentabilidade

social e ambiental não são ou são raramente consideradas. Instituições financeiras

privadas e públicas também desempenham um papel importante. De um lado, porque

colocam à disposição capital para investimentos no plantio de soja; de outro

lado, porque estimulam a exportação de soja para o pagamento de dívida externa.

São necessárias medidas em curto prazo para combater os efeitos negativos da

produção de soja em grande escala. Os consumidores podem optar por carne produzida

com responsabilidade ambiental e social ou por reduzir o consumo de carne.

Ao estabelecer critérios mínimos e desenvolver um padrão de sustentabilidade, os

compradores e financiadores podem contribuir na solução dos problemas nos países

produtores. Estes países dispõem de métodos de produção alternativos e sustentáveis,

que continuarão a ser estimulados por um aumento na demanda de soja

sustentável.

Na Holanda e no restante da Europa, a pecuária deve fazer uma mudança de

quantidade para qualidade e reduzir o consumo de carne e a importação de ração

animal. Onde empresas ou consumidores não puderem ou não quiserem assumir

sua responsabilidade, o governo deve – também em nível internacional – exigir a

sustentabilidade das cadeias produtivas internacionais de matérias-primas. Por um

lado, obrigando as empresas a assumirem suas responsabilidades e a não se envolverem

em práticas nocivas. Por outro, garantindo aos consumidores informações

confiáveis.

7


Fontes

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Um outro olhar sobre a soja

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IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e

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(Políticas sobre alimentos)

Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

Initiative for the Integration of Regional

Infrastructure in South América

Milieu en Natuurplanbureau

Milieudefensie (Amigos da Terra Holanda)

Milieuloket (Informações sobre meio ambiente

para o consumidor)

Non-GMO Soy Summit Brussel 2005 (soja

não-transgênica)

Noticias

Roundtable on Responsible Soy

Secretaria de Agricultura, Ganaderia, Pesca y

Alimentos (Estatísticas agrícolas da Argentina)

The hunger Project

UNDP (Agência para o Desenvolvimento da

ONU)

United States Department of Agriculture,

Foreign Agricultural Service (Estatísticas

agrícolas internacionais)

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www.commodityplatform.org

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www.mnp.nl

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www.milieuloket.nl

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de/soysummit2005/

www.noticias.nl

www.responsiblesoy.org

www.sagpya.mecon.gov.ar

www.thp.org

www.undp.org

www.fas.usda.gov

61


Um outro olhar sobre a soja

Para mais informações

Secretaria Executiva da Articulação Soja Holanda

Both ENDS

fone: +31 (0)20-6230823

e-mail: nsc@bothends.org

www.commodityplatform.org

62


Um outro olhar

sobre a soja

Soja é saudável. Soja é para vegetarianos. Soja, onde

é que se compra? A resposta é: em todo lugar. Soja

é um grão milagroso, com proteínas de elevada

qualidade e óleo, fácil de produzir e transformar em

alimentos, ração animal, cosméticos e detergentes.

É o ingrediente invisível de 60% a 70% de todos os

produtos nas prateleiras dos supermercados.

Um quarto de todo óleo vegetal consumido no

mundo é de soja. As granjas de criação de aves e

suínos na Europa e na Ásia dependem da soja e, como

consumimos cada vez mais carne, precisamos de uma

quantidade cada vez maior de soja. Esta vem da América

do Sul onde, a cada ano, são derrubados milhões

de hectares de florestas e cerrado para produzir mais

soja, onde os povos tradicionais e as comunidades

rurais são obrigados, literalmente, a abandonar suas

lavouras.

Nesta publicação, as injustiças que ocorrem na

produção, comércio e consumo de soja são reveladas

e é apresentado um esboço do que podemos fazer

e deixar de fazer, na Holanda, para contribuir para a

solução. Por exemplo, colocar a própria soja na mesa,

ao invés de carne. Estabelecer requisitos para a soja

que entra nos paises consumidores. Praticar uma agricultura

melhor, com menos criação de animais.

A produção de soja pode, e deve, melhorar!

Um outro olhar sobre a soja é uma iniciativa da

Articulação Soja Holanda.

ISBN-10: 90-776 8-07-0

ISBN-13: 978-90-776 8-07-0

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