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Engenharia de Pesca - Uema

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Revista Brasileira <strong>de</strong><br />

R E P E S C A<br />

ISSN<br />

1980-587X<br />

<strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong><br />

Volume 3, número 2 - julho <strong>de</strong> 2008<br />

<strong>Pesca</strong>, Aqüicultura, Tecnologia do <strong>Pesca</strong>do e Ecologia Aquática<br />

Expediente<br />

Catalografia<br />

Editorial<br />

Resenhas<br />

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE PESCA<br />

VOLUME 3, NÚMERO 1, 2008<br />

Normas para<br />

Eds.: José Milton Barbosa e Haroldo Gomes Barroso<br />

EXPEDIENTE<br />

Artigos<br />

Científicos<br />

Técnicos<br />

Publicação<br />

Foto Haroldo Barroso<br />

Contatos<br />

Veja:<br />

Carpintaria Naval do Maranhão


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

DIRETOR<br />

Haroldo Gomes Barroso - UEMA<br />

EDITORES<br />

José Milton Barbosa - UFRPE<br />

Haroldo Gomes Barroso - UEMA<br />

EDITORES ADJUNTOS<br />

Adierson Erasmo <strong>de</strong> Azevedo -<br />

UFRPE<br />

Emerson Soares - UFAL<br />

ASSISTENTES DE EDIÇÃO<br />

Manlio Ponzi Junior - UFRPE<br />

Rogério Bellini - Netuno<br />

Webmaster<br />

Junior Bal<strong>de</strong>z - UEMA<br />

Revisão do texto<br />

Adierson Erasmo <strong>de</strong> Avezedo -<br />

UFRPE<br />

José Milton Barbosa - UFRPE<br />

COMISSÃO EDITORIAL<br />

Alex Augusto Gonçalves - Dalhousie University, Canadá<br />

Angelo Brás Callou - UFRPE<br />

Athiê Jorge Guerra dos Santos - UFRPE<br />

Fábio Diniz - Embrapa/PI<br />

Fábio Hazin - UFRPE<br />

Fernando Porto - UFRPE<br />

Eurípe<strong>de</strong>s Alves da Silva Filho - UFAL<br />

Heiko Brunken - Hochschule Bremen, Alemanha<br />

Israel Hi<strong>de</strong>nburgo Aniceto Cintra - UFRA<br />

Joachim Carolsfeld - World Fisheries Trust, Canadá<br />

Leonardo Teixeira <strong>de</strong> Sales - UFPI<br />

Maria do Carmo Figueredo Soares - UFRPE<br />

Maria do Carmo Gominho Rosa - Unioeste<br />

Maria Elisabeth <strong>de</strong> Araújo - UFPE<br />

Maria Nasaré Bona - UFPI<br />

Maria Raquel Coimbra - UFRPE<br />

Neiva Maria <strong>de</strong> Almeida - UFPB<br />

Paula Gênova <strong>de</strong> Castro - Instituto <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>/SP<br />

Paulo <strong>de</strong> Paula Men<strong>de</strong>s – UFRPE<br />

Petrônio Alves Coelho Filho - UFAL<br />

Raimundo Nonato <strong>de</strong> Lima Conceição - UFC<br />

Rosângela Lessa - UFRPE<br />

Sérgio Macedo Gomes <strong>de</strong> Mattos - SEAP/PE<br />

Sérgio Makrakis - Unioeste<br />

Sigrid Neumann Leitão - UFPE<br />

Vanildo Souza <strong>de</strong> Oliveira - UFRPE<br />

Walter Maia Junior - UFPB<br />

__________________________________________________________________________________<br />

Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong><br />

Universida<strong>de</strong> Estadual do Maranhão<br />

Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura<br />

Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco<br />

2


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

A RE<strong>Pesca</strong> está in<strong>de</strong>xada à base <strong>de</strong> dados: SUMARIOS.ORG (www.sumarios.org)<br />

© Publicada em julho <strong>de</strong> 2008<br />

Todos os direitos reservados aos Editores.<br />

Proibida a reprodução, por qualquer meio,<br />

sem autorização dos Editores.<br />

Impresso no Brasil<br />

Printed in Brazil<br />

Ficha catalográfica<br />

Setor <strong>de</strong> Processos Técnicos da Biblioteca Central – UFRPE<br />

R454<br />

Revista Brasileira <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong><br />

Nacional / editores José Milton Barbosa, Haroldo Gomes<br />

Barroso -- São Luís, Ed. UEMA, 2008.<br />

V.3, n.2 : 175p. : il.<br />

Semestral<br />

1. <strong>Pesca</strong> 2. Aqüicultura 3. Ecossistemas Aquáticos,<br />

4. <strong>Pesca</strong>dos – Tecnologia I. Barbosa, José Milton II. Barroso<br />

Haroldo Gomes III. Universida<strong>de</strong> Estadual do Maranhão<br />

CDD 639<br />

3


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

ISSN-1980-587X<br />

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE PESCA<br />

Volume 3 julho, 2008 Número 2<br />

EDITORIAL<br />

O<br />

almejada criação do um ministério capaz <strong>de</strong> unificar e avalancar a ativida<strong>de</strong><br />

setor pesqueiro nacional vive um momento <strong>de</strong> euforia, com a<br />

pesqueira. Setor que a dispeito dos <strong>de</strong>smazelos instutuionais, passados <strong>de</strong>s<strong>de</strong><br />

a extinção da SUDEPE, mostra sua pujança e consolidação como ativida<strong>de</strong><br />

produtiva <strong>de</strong> forte apelo econômico e social.<br />

Neste contexto, se fortalece também a <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, que<br />

tanto clamou por este ministério, e que agora se sente recompensada, não por<br />

uma vitória, mas pela certeza que a luta começa agora.<br />

A<strong>de</strong>mais, outro fato marcante é a realização da nossa I Semana<br />

Nor<strong>de</strong>stina <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>. Assim, na primeira semana <strong>de</strong> setembro<br />

estaremos em São Luis para discutir nossa profissão e os seus rumos na<br />

certeza que o Engenheiro <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> enquanto profissional e retrata a<br />

importância do setor pesqueiro para o crescimento <strong>de</strong> nosso país.<br />

NOSSOS JAPONESES<br />

No momento em que se comemora os 100 anos da imigração<br />

japonesa para o Brasil, não po<strong>de</strong>mos esquecer aqueles que tanto fizeram pelo<br />

setor pesqueiro nacional e em especial pela no <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>. Nomes<br />

como Johei Koike (in memoriam), Masayoshi Ogawa, Yasunobu Matsura<br />

(in memoriam), Yoshito Motohashi (in memoriam) e Hitoshi Nomura,<br />

<strong>de</strong>ntre outros, marcam sua passagem entre nós e <strong>de</strong>ixam seus nomes<br />

gravados nas ciências pesqueiras do Brasil.<br />

José Milton Barbosa<br />

Editor Chefe<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

ARTIGOS CIENTÍFICOS<br />

Sumário<br />

Atenção: Para abrir click em “”<br />

Aproveitamento da carne da carcaça <strong>de</strong> rã-touro gigante no <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> hambúrguer<br />

Alex Augusto GONÇALVES, Maria Cristina Montin OTTA.......................................................7<br />

Purificação e ativida<strong>de</strong> anticoagulante in vitro <strong>de</strong> galactanas sulfatadas extraídas da alga marinha<br />

vermelha Halymenia pseudofloresia<br />

José Ariévilo Gurgel RODRIGUES, Wladimir Ronald Lobo FARIAS.......................................16<br />

Variação nictemeral do macrozooplâncton na Barra Orange - Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, Estado <strong>de</strong><br />

Pernambuco (Brasil)<br />

Pedro Augusto Men<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Castro MELO; Sigrid NEUMANN-LEITÃO; Lucia Maria <strong>de</strong><br />

Oliveira GUSMÃO; Fernando <strong>de</strong> Figueiredo PORTO-NETO....................................................30<br />

Polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados da alga Caulerpa sertularioi<strong>de</strong>s (Gmel.) Howe análise <strong>de</strong> metodologias<br />

<strong>de</strong> precipitação<br />

José Tarcísio Borges Bezerra NETO; José Ariévilo Gurgel RODRIGUES; Grazielle da Costa<br />

PONTES; Wladimir Ronald Lobo FARIAS.................................................................................50<br />

Agregando valor ao pescado <strong>de</strong> água doce: <strong>de</strong>fumação <strong>de</strong> filés <strong>de</strong> jundiá (Rhamdia quelen)<br />

Alex Augusto GONÇALVES; Renata CEZARINI.....................................................................63<br />

Avaliação dos efeitos da imersão das pós-larvas do camarão Litopenaeus vannamei em águas <strong>de</strong><br />

cultivo com polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados<br />

José Ariévilo Gurgel RODRIGUES; José <strong>de</strong> Sousa Junior JÚNIOR; Perla Lorena MOREIRA;<br />

Diego Silva MELO; Jullyermes Araújo LOURENÇO; Paula Cristina Walger <strong>de</strong> Camargo<br />

LIMA; Valeska Martins TORRES; Grazielle da Costa PONTES; Wladimir Ronald Lobo<br />

FARIAS........................................................................................................................................80<br />

Efeitos do fotoperíodo e temperatura no crescimento <strong>de</strong> girinos da rã-touro gigante, Rana<br />

catesbeiana (Shaw, 1802)......................................................................................................................92<br />

ARTIGOS TÉCNICOS<br />

Cultivo intensivo <strong>de</strong> espécies carnivores<br />

Emerson Carlos SOARES..........................................................................................................100<br />

Influência da profundida<strong>de</strong> dos lagos do Complexo Hidrelétrico <strong>de</strong> Paulo Afonso, BA e sua<br />

limitação ao cultivo <strong>de</strong> peixes em tanques-re<strong>de</strong><br />

José Patrocínio LOPES * Luiz Carlos Farias DANTAS; Eloi CERQUEIRA..............................106<br />

“Fui no mangue catar lixo, pegar caranguejo, conversar com o urubu”: estudo socioeconômico<br />

dos catadores <strong>de</strong> caranguejo no litoral norte <strong>de</strong> Pernambuco<br />

Roberta Sá Leitão BARBOZA; Sigrid NEUMANN-LEITÃO; Myrian Sá Leitão BARBOZA ; Luciana <strong>de</strong><br />

Matos Andra<strong>de</strong> BATISTA-LEITE...................................................................................................................117<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Digestibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ingredientes alternativos para tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus): revisão<br />

Elton Lima SANTOS; Waleska <strong>de</strong> Melo Costa WINTERLE; Maria do Carmo M. M. LUDKE<br />

José Milton BARBOSA..............................................................................................................135<br />

Desarrollo tecnológico <strong>de</strong> carne ahumada <strong>de</strong> esturión (Acispenser spp. )<br />

Bertullo, E.; Campot J.; Fernán<strong>de</strong>z, S.; Gómez, F. y Pollak, A. ................................................150<br />

RESENHAS<br />

Carpintaria artesanal no Estado do Maranhão<br />

Luiz Phelipe <strong>de</strong> Carvalho Castro ANDRÈS................................................................................163<br />

Tilapicultura Industrial<br />

Rogério Bellini............................................................................................................................170<br />

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO..........................................................................................................172<br />

CONTATOS....................................................................................................................................................175<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

ARTIGOS CIENTÍFICOS<br />

APROVEITAMENTO DA CARNE DA CARCAÇA DE RÃ-TOURO GIGANTE<br />

NO DESENVOLVIMENTO DE HAMBÚRGUER<br />

USE THE BULLFROG CARCASS MEAT TO DEVELOP HAMBURGUER<br />

Alex Augusto GONÇALVES 1* ; Maria Cristina Montin OTTA 2<br />

1 Instituto <strong>de</strong> Ciência e Tecnologia <strong>de</strong> Alimentos, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Rio Gran<strong>de</strong> do Sul<br />

2 Engenheira <strong>de</strong> Alimentos, Universida<strong>de</strong> do Vale do Rio dos Sinos.<br />

* Email: alaugo@gmail.com<br />

Recebido em: 8 <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 2008<br />

Resumo - O objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi aproveitar a carne da carcaça da rã-touro gigante (Rana<br />

catesbeiana) no <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> um produto com valor nutricional e sensorial. Na<br />

avaliação físico-química da carne in natura obtiveram-se os seguintes valores: umida<strong>de</strong><br />

(79,2%), cinzas (0,2%), proteínas (16,6%), lipídios (0,33%) e cálcio (0,01%); enquanto<br />

que no produto <strong>de</strong>senvolvido (hambúrguer) obtiveram-se os seguintes valores: umida<strong>de</strong><br />

(76,3%), cinzas (2,8%), proteínas (12,6%), lipídios (0,1%) e cálcio (0,02%). Todos os<br />

parâmetros analisados na avaliação microbiológica foram negativos, <strong>de</strong>monstrando que<br />

o procedimento higiênico foi satisfatório durante a manipulação e <strong>de</strong>senvolvimento do<br />

produto final. O índice <strong>de</strong> aceitabilida<strong>de</strong> do hambúrguer na análise sensorial foi <strong>de</strong><br />

88,4%.<br />

Palavras-chave: Rana catesbeiana, carne <strong>de</strong> rã, <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> produto.<br />

.<br />

Abstract - This objective of this work was use of carcass meat from bullfrog (Rana catesbeiana) in<br />

<strong>de</strong>velopment of a product with nutritional and sensorial value. The physical-chemical<br />

analysis of in natura meat obtained the following values: moisture (79.2%), ash (0.2%),<br />

protein (16.6%), lipids (0.33%) and calcium (0.01%); while the product <strong>de</strong>veloped<br />

(hamburger) obtained the following values: moisture (76.3%), ash (2.8%), protein<br />

(12.6%), lipids (0.1 %) and calcium (0.02%). All parameters examined in<br />

microbiological analysis were negative, showing that the procedure hygiene was<br />

satisfactory during handling and final product <strong>de</strong>velopment. The in<strong>de</strong>x of acceptability<br />

of the hamburger in sensory analysis was 88.4%.<br />

Key-words: Rana catesbeiana, frog meat, product <strong>de</strong>velopment.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

INTRODUÇÃO<br />

A rã-touro, Rana catesbeiana (Figura 1) é nativa da América do Norte e foi introduzida no<br />

Brasil em 1935. Sua criação em cativeiro vem cada vez mais se firmando como uma ativida<strong>de</strong><br />

viável e <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> potencial. Isto se <strong>de</strong>ve, entre outros fatores, à qualida<strong>de</strong> nutricional da carne <strong>de</strong><br />

rãs, que possui um a<strong>de</strong>quado balanceamento <strong>de</strong> aminoácidos e baixo nível <strong>de</strong> gordura e colesterol, o<br />

que se apresenta como uma importante ferramenta <strong>de</strong> publicida<strong>de</strong> (Casali, Moura & Lima, 2005;<br />

Nóbrega et al., 2007).<br />

Figura 1 - Rã-touro (Rana catesbeiana).<br />

O <strong>de</strong>senvolvimento tecnológico do abate <strong>de</strong> rãs e seu processamento posterior para consumo<br />

humano têm atraído cada vez mais atenção. Em virtu<strong>de</strong> disso, as recomendações do Co<strong>de</strong>x<br />

Alimentarius estão sendo adotadas como critério <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong> da carne da rã, seguindo um padrão<br />

internacional (Ramos et al., 2005; Nóbrega et al., 2007).<br />

Os principais produtos comerciais da rã-touro (Rana catesbiana) são: a carne e o couro,<br />

segundo Lima & Agostinho (1992) existe potencialida<strong>de</strong> <strong>de</strong> aproveitamento do ovário e do fígado<br />

para preparação <strong>de</strong> caviar e patê, respectivamente. No entanto, Lima, Cruz & Moura (1999)<br />

constataram que o aproveitamento <strong>de</strong> subprodutos da rã-touro ainda é inexpressivo, sendo<br />

fracamente representado pelo aproveitamento <strong>de</strong> pele e corpo gorduroso, prevalecendo ainda a<br />

comercialização dos produtos principais, carcaças inteiras e coxas.<br />

A carne <strong>de</strong> rã é apreciada não só pelo seu sabor requintado e textura, mas também como<br />

fonte <strong>de</strong> proteína <strong>de</strong> alto valor biológico. Embora, no Brasil, as rãs sejam comercializadas inteiras, a<br />

carne <strong>de</strong> rã é usualmente comercializada internacionalmente na forma <strong>de</strong> coxas frescas ou<br />

congeladas, obtendo preços mais elevados (Ramos et al., 2004; Mello et al., 2006).<br />

A carne <strong>de</strong> rã <strong>de</strong>staca-se nutricionalmente por sua gran<strong>de</strong> quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> proteínas <strong>de</strong> alto<br />

valor biológico e por seu baixo teor em gorduras, inferiores a 1% (Tabela 1) e, por estas<br />

características, é indicada para dietas hipocalóricas. É recomendada para dietas com o objetivo <strong>de</strong><br />

combater o colesterol, a obesida<strong>de</strong> a hipertensão arterial e também para tratamento <strong>de</strong> distúrbios<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

gastrointestinais, na dieta <strong>de</strong> atletas, convalescentes e crianças em fase <strong>de</strong> crescimento e alérgicas a<br />

proteína animal. No entanto, as qualida<strong>de</strong>s sensoriais da carne da rã-touro são raramente estudadas<br />

(Conceição, 2000; Mello et al., 2006; Nóbrega et al., 2007).<br />

Tabela 1 - Composição da carne <strong>de</strong> rã-touro: comparação com outras carnes.<br />

Espécie<br />

Proteínas<br />

(g/100g)<br />

Gorduras<br />

(g/100g)<br />

Calorias<br />

(kcal/100g)<br />

Rã 16,4 0,3 68<br />

Frango 18,1 18,7 264<br />

Bovino 19,4 15,8 225<br />

Suíno 16,7 22,7 276<br />

Coelho 21,0 8,0 162<br />

Revista da Terra (2006).<br />

No mercado internacional, o consumo <strong>de</strong> rã é essencialmente voltado para as pernas (coxas)<br />

que representam a maior parte comestível da rã (52,7%) e são consi<strong>de</strong>radas por muitos como uma<br />

“<strong>de</strong>licatessen”. No Brasil os ranicultores oferecem a carcaça inteira ao mercado interno como forma<br />

<strong>de</strong> ampliar sua receita. O dianteiro ou “dorso”, composto do tórax e braços geralmente é <strong>de</strong>sprezado<br />

pelos consumidores, pelo gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> pequenos ossos (baixo rendimento <strong>de</strong> carne). Com<br />

objetivo <strong>de</strong> agregar valor ao segmento, várias alternativas estão sendo estudadas, para o melhor<br />

aproveitamento da carne <strong>de</strong>sta parte do corpo das rãs, particularmente utilizando a <strong>de</strong>sossadora<br />

mecânica (Conceição, 2000; Moura, 2003; Lima; Teixeira & Costa, 2006a; 2006b; Mello et al.,<br />

2006; Nóbrega et al., 2007).<br />

Segundo Lima, Teixeira & Costa (2006a), apesar <strong>de</strong> existir vários consumidores efetivos, a<br />

carne <strong>de</strong> rã ainda é um produto cercado <strong>de</strong> preconceito por parte do consumidor doméstico. Além<br />

do aspecto físico nada atraente, o <strong>de</strong>sconhecimento da forma <strong>de</strong> se preparar esta carne, é um dos<br />

itens que mais <strong>de</strong>sestimula a compra. O aumento do consumo da carne <strong>de</strong> rã vai continuar restrito,<br />

enquanto não se encontrar formas <strong>de</strong> aten<strong>de</strong>r às facilida<strong>de</strong>s que o mundo mo<strong>de</strong>rno oferece.<br />

O objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi aproveitar a carne da carcaça da rã-touro gigante (Rana<br />

catesbeiana) no <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> um produto com valor nutricional e sensorial.<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

Amostras congeladas <strong>de</strong> rã-touro (Rana catesbeiana) foram recebidas na Mini-usina <strong>de</strong><br />

Carne e Derivados (UNISINOS, São Leopoldo, RS) e mantidas em freezer a -18°C até o momento<br />

do <strong>de</strong>senvolvimento do hambúrguer.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Após serem <strong>de</strong>scongeladas em refrigerador à temperatura <strong>de</strong> 4ºC, foram <strong>de</strong>sossadas<br />

manualmente. Foi <strong>de</strong>senvolvida uma formulação <strong>de</strong> hambúrguer e seus ingredientes foram<br />

utilizados nas quantida<strong>de</strong>s convencionais para este tipo <strong>de</strong> produto, conforme Tabela 2.<br />

Tabela 2 - Formulação do hambúrguer <strong>de</strong> rã-touro.<br />

Matéria-prima<br />

Quantida<strong>de</strong> (g)<br />

Carne <strong>de</strong> rã 1000*<br />

Ingredientes Quantida<strong>de</strong> (%)<br />

Gelo moído 10,0<br />

Proteína Texturizada <strong>de</strong> Soja granulado 5,0<br />

Amido <strong>de</strong> milho 5,0<br />

Farinha <strong>de</strong> trigo 5,0<br />

Alho em pó 0,2<br />

Coentro 0,2<br />

NaCl 1,5<br />

Pimenta do reino em pó 0,2<br />

Glutamato monossódico 1,0<br />

Tripolifosfato <strong>de</strong> sódio 0,3<br />

Sorbitol 4,0<br />

* Para cada 1.000 g <strong>de</strong> carne utiliza-se o percentual dos ingredientes<br />

Em seguida, a carne, parte do gelo e todo sal foram transferidos para o misturador por cerca<br />

<strong>de</strong> 5 minutos, seguido da adição dos <strong>de</strong>mais ingredientes, que permaneceram no misturador por<br />

mais 3 minutos, até a completa homogeneização. A massa resultante foi retirada do misturador e,<br />

posteriormente, dividida em porções <strong>de</strong> 70 g. Os hambúrgueres foram formatados, embalados<br />

individualmente em filme <strong>de</strong> PVC, congelados a –18ºC e armazenados nesta temperatura até o<br />

momento das análises (Figura 2).<br />

ANÁLISES MICROBIOLÓGICAS<br />

As análises microbiológicas foram realizadas <strong>de</strong> acordo com metodologia <strong>de</strong>scrita por Silva<br />

et al. (2007), seguindo os parâmetros microbiológicos estabelecidos pela legislação (Brasil, 2001)<br />

para produtos à base <strong>de</strong> pescado refrigerados ou congelados (hambúrgueres e similares), como:<br />

Salmonella, Coliformes e Staphylococcus aureus.<br />

ANÁLISE SENSORIAL<br />

Para verificar a aceitabilida<strong>de</strong> do hambúrguer <strong>de</strong> rã e medir o nível <strong>de</strong> satisfação do consumidor, a<br />

avaliação sensorial foi efetuada por painelistas não treinados (n = 30) do curso <strong>de</strong> Gastronomia da<br />

UNISINOS on<strong>de</strong> foi utilizado o método afetivo mediante escala hedônica <strong>de</strong> nove pontos, que<br />

10


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Figura 2 - Processamento do hambúrguer <strong>de</strong> rã-touro.<br />

variava <strong>de</strong> gostei muitíssimo (9 pontos) a <strong>de</strong>sgostei muitíssimo (1 ponto) seguindo a metodologia <strong>de</strong><br />

Dutcosky (1996).<br />

O índice <strong>de</strong> aceitabilida<strong>de</strong> (IA) foi calculado consi<strong>de</strong>rando-se a nota máxima alcançada, pelo<br />

produto que está sendo analisado, como 100% e a pontuação média, em %, será o IA. O produto<br />

atingindo um percentual maior ou igual a 70% será consi<strong>de</strong>rado aceito pelos provadores (Teixeira;<br />

Meinert & Barbetta, 1987).<br />

Os hambúrgueres congelados foram preparados em chapa quente, com pouco óleo vegetal,<br />

por cerca <strong>de</strong> 2 minutos <strong>de</strong> cada lado e, servidos ainda quentes aos painelistas.<br />

RESULTADOS E DISCUSSÃO<br />

O consumo nacional e internacional <strong>de</strong> carne <strong>de</strong> rã vem aumentado dia a dia, não só pelo seu<br />

paladar, como também por seu valor nutritivo (Ramos et al., 2004). Dessa forma, acredita-se que a<br />

disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> diferentes alimentos elaborados com carne <strong>de</strong> rã <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong> contribuirá ainda<br />

mais para o consumo. Os empreen<strong>de</strong>dores que fazem a ranicultura comercial precisam estar atentos<br />

às várias possibilida<strong>de</strong>s que a carne <strong>de</strong> rã apresenta e a partir <strong>de</strong>las, diversificar o leque <strong>de</strong> ofertas <strong>de</strong><br />

produtos pré-elaborados <strong>de</strong> fácil preparo pelo consumidor.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

ANÁLISE FÍSICO-QUÍMICA<br />

Os aspectos físico-químicos (gordura, proteína, umida<strong>de</strong>, etc) são muito importantes, pois<br />

todas essas características <strong>de</strong>vem ter um mínimo <strong>de</strong> perdas durante o processamento da carne e<br />

produtos cárneos (Canhos & Dias, 1983).<br />

O resultado das análises físico-químicas, realizadas nas amostras da carne <strong>de</strong> rã in natura e<br />

dos hambúrgueres, encontra-se na Tabela 3.<br />

Tabela 3 - Resultados das análises físico-químicas da carne <strong>de</strong> rã-touro in natura e do<br />

hambúrguer<br />

Parâmetro analítico Carne rã in natura (%) Hambúrguer <strong>de</strong> rã (%)<br />

Umida<strong>de</strong> 79,20 76,30<br />

Cinzas 0,20 2,80<br />

Proteínas 16,60 12,60<br />

Lipídios 0,33 0,10<br />

Carboidratos* 3,67 8,20<br />

Cálcio 0,01 0,02<br />

*Calculado por diferença<br />

O conteúdo <strong>de</strong> proteína, gordura e cinzas foram abaixo aos valores encontrados por Nóbrega<br />

et al. (2007), para a carne <strong>de</strong> rã-touro in natura (proteínas: 19,4%; gordura: 0,6% e cinzas: 1%),<br />

provavelmente pela influência do tipo <strong>de</strong> manejo e alimentação administrada. No entanto, o<br />

conteúdo <strong>de</strong> gordura está <strong>de</strong>ntro da faixa <strong>de</strong> 0,3-0,8% encontrada por outros autores para a mesma<br />

espécie (Azevedo & Oliveira, 1988; Corrêa, 1988; Lemos & Antunes, 1993; Lindau & Noll, 1988;<br />

Mello et al., 2006).<br />

ANÁLISES MICROBIOLÓGICAS<br />

Os resultados das análises microbiológicas do hambúrguer <strong>de</strong> carne <strong>de</strong> rã estão apresentados<br />

na Tabela 4.<br />

Tabela 4 - Resultado da análise microbiológica <strong>de</strong> hambúrguer <strong>de</strong> carne <strong>de</strong> rã-touro.<br />

Análise<br />

Hambúrguer <strong>de</strong> rã<br />

Limites da<br />

Legislação*<br />

Coliformes a 45°C/g


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

De acordo com os resultados das análises microbiológicas, verificou-se que o hambúrguer<br />

produzido aten<strong>de</strong> aos padrões microbiológicos exigidos pela legislação (Brasil, 2001). Analisando<br />

todos os procedimentos para a elaboração do hambúrguer, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a aquisição da carne, correto uso<br />

do frio para preservação e emprego dos aditivos, bem como as boas práticas <strong>de</strong> fabricação, vimos<br />

que os procedimentos adotados possibilitaram a obtenção <strong>de</strong> um produto cárneo saudável e seguro.<br />

AVALIAÇÃO SENSORIAL<br />

O índice <strong>de</strong> aceitabilida<strong>de</strong> do hambúrguer <strong>de</strong> carne <strong>de</strong> rã foi <strong>de</strong> 88,4%, o que reflete a alta<br />

aceitabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>sse produto pelos provadores, visto que o produto é consi<strong>de</strong>rado aceito<br />

sensorialmente quando o IA ≥ 70% (Teixeira; Meinert & Barbetta, 1987).<br />

CONCLUSÕES<br />

Com a realização do presente trabalho, obteve-se um hambúrguer <strong>de</strong> carne <strong>de</strong> rã com<br />

características a<strong>de</strong>quadas para o consumo, tanto no aspecto sensorial, como microbiológico,<br />

confirmando a qualida<strong>de</strong> do produto, com possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> inserção no mercado consumidor.<br />

De acordo com as características finais do produto em relação ao valor nutricional,<br />

microbiológico e sensorial, recomenda-se a produção <strong>de</strong> hambúrguer a partir da carne da carcaça <strong>de</strong><br />

rã-touro gigante, porém recomendam-se futuros estudos <strong>de</strong> viabilida<strong>de</strong> econômica.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

PURIFICAÇÃO E ATIVIDADE ANTICOAGULANTE IN VITRO DE GALACTANAS SULFATADAS<br />

EXTRAÍDAS DA ALGA MARINHA VERMELHA Halymenia pseudofloresia<br />

PURIFICATION AND IN VITRO ANTICOAGULANT ACTIVITY OF SULFATED GALACTANS EXTRACTED<br />

FROM THE RED MARINE ALGAE Halymenia pseudofloresia<br />

José Ariévilo Gurgel RODRIGUES * ; Wladimir Ronald Lobo FARIAS<br />

Departamento <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, Laboratório <strong>de</strong> Bioquímica Marinha,<br />

Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Ceará<br />

*Email: arieviloengpesca@yahoo.com.br<br />

Recebido em: 7 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 2007<br />

Resumo - A bioprospecção <strong>de</strong> novos agentes anticoagulantes é justificada <strong>de</strong>vido aos efeitos adversos da<br />

heparinoterapia. O objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi purificar e avaliar a ativida<strong>de</strong> anticoagulante <strong>de</strong><br />

galactanas sulfatadas da alga marinha vermelha Halymenia pseudofloresia pelo uso da técnica<br />

das extrações sucessivas. Inicialmente, os polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados totais foram extraídos<br />

através <strong>de</strong> digestão enzimática, sendo realizadas três extrações durante o processo (1 → 3 a,ext. ).<br />

Os PS foram purificados em coluna <strong>de</strong> troca iônica DEAE-celulose da qual foram obtidas<br />

frações (F n ) em diferentes concentrações <strong>de</strong> NaCl, sendo então dialisadas, concentradas por<br />

liofilização e submetidas à eletroforese em gel <strong>de</strong> agarose 0,5%. A ativida<strong>de</strong> anticoagulante foi<br />

avaliada pelo Tempo <strong>de</strong> Tromboplastina Parcial Ativada (TTPA) no mo<strong>de</strong>lo in vitro utilizando<br />

plasma <strong>de</strong> coelho, sendo os resultados expressos em unida<strong>de</strong>s internacionais (UI mg -1 )<br />

utilizando-se um padrão <strong>de</strong> heparina com 100 UI mg -1 . O rendimento total foi bastante<br />

significativo (63,94%) e a coluna <strong>de</strong> troca iônica foi eficiente no isolamento e purificação das<br />

frações, revelando diferenças entre as extrações. A ativida<strong>de</strong> anticoagulante das frações também<br />

diferiu entre as extrações da espécie, sendo seu efeito, pelo menos, 4,6 vezes maior na F 4 (1 a,ext ) e<br />

menor nas F 2 e F 3 da 3 a,ext , estas últimas com prolongamentos nos tempos <strong>de</strong> TTPA <strong>de</strong> apenas<br />

1,87 e 1,73, respectivamente, em relação ao padrão. Entretanto, estudos são necessários a fim <strong>de</strong><br />

esclarecer as alterações <strong>de</strong>ssa ativida<strong>de</strong> no <strong>de</strong>correr do processo <strong>de</strong> extrações sucessivas, bem<br />

como pesquisas referentes ao cultivo e à conservação <strong>de</strong>sses recursos são fundamentais para<br />

proteção dos bancos naturais <strong>de</strong> algas.<br />

Palavras-chave: halymeniaceae, halymeniales, polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados, ativida<strong>de</strong> biológica.<br />

Abstract - The bioprospection of new anticoagulant agents is justified due to adverse effects of<br />

heparinization. The aim of this study was to purify and evaluate anticoagulant activity of<br />

sulfated galactans of red marine alga Halymenia pseudofloresia by the using the technique of<br />

successive extractions. Initially, the cru<strong>de</strong> sulfated polysacchari<strong>de</strong>s were extracted by enzymatic<br />

digestion, and ma<strong>de</strong> three extractions during the process (1 → 3 a, ext. ). The PS were purified in an<br />

ionic exchange DEAE - cellulose column which were obtained fractions (F n ) in different<br />

concentrations of NaCl, and then they were dialyzed, concentrated by liofilization and subjected<br />

to electrophoresis agarose’s gel of 0.5%. The anticoagulant activity was evaluated by Activation<br />

Partial Thromboplastin Time (APTT) in in vitro mo<strong>de</strong>l using plasma from rabbits, and the<br />

results expressed in international units (IU mg -1 ) using a standard heparin with 100 IU mg -1 . The<br />

total yield was significant (63.94%) and the column of ion exchange was effective in the<br />

isolation and purification of fractions, revealing differences between the extractions. The<br />

anticoagulant activity of fractions also differed between among the extractions of the species,<br />

and its effect was at least 4.6 times higher in F 4 (1 a, ext ) and lowest in F 2 and F 3 of 3 a, ext , these last<br />

results with extensions in times of APTT of only 1.87 and 1.73, respectively, compared to the<br />

standard. However, studies are nee<strong>de</strong>d to clarify the changes of this activity during the process of<br />

successive extractions, and researches about the cultivation and conservation of resources are<br />

essential to protection of the natural banks of algae.<br />

Key words - halymeniaceae, halymeniales, sulfated polysacchari<strong>de</strong>s, biological activity.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

INTRODUÇÃO<br />

As algas marinhas são ricas em polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados (PS), principalmente, em muitas<br />

espécies da divisão Rhodophyta. Os PS são polímeros formados por unida<strong>de</strong>s repetitivas <strong>de</strong><br />

açúcares e dotados <strong>de</strong> carga negativa, <strong>de</strong>vido à presença <strong>de</strong> radicais sulfatos (Mathews, 1975).<br />

Entretanto, os PS não ocorrem isoladamente, os quais po<strong>de</strong>m formar compostos <strong>de</strong> maior<br />

complexida<strong>de</strong> <strong>de</strong>nominados <strong>de</strong> proteoglicanos (Kjellén & Lindahal, 1991). Dentre as formas <strong>de</strong> PS<br />

mais conhecidas <strong>de</strong>stacam-se as galactanas sulfatadas (GS), as quais ocorrem em invertebrados<br />

marinhos, algas marinhas vermelhas e gramíneas marinhas, este último representado por um grupo<br />

<strong>de</strong> plantas vasculares que ocorrem em ambientes marinhos (Aquino et al., 2005).<br />

Nas algas marinhas vermelhas, as GS também são conhecidas como carragenanas e agaranas,<br />

compostos que apresentam unida<strong>de</strong>s repetitivas alternadas <strong>de</strong> ligações β (1→3) galactopiranose e α<br />

(1→4) galactopiranose (Van De Vel<strong>de</strong>, Pereira & Rollema, 2004) e que são muito utilizados na<br />

indústria na forma <strong>de</strong> géis e espessantes (Glicksman, 1983). A presença <strong>de</strong> vários grupos hidroxil na<br />

molécula permite serem substituídos por ester sulfato, grupo metil e ácido pirúvico, o que contribui<br />

para um alta heterogeneida<strong>de</strong> e complexida<strong>de</strong> das GS (Usov, 1998).<br />

Várias frações <strong>de</strong> PS já foram isoladas e caracterizadas a partir <strong>de</strong> vegetais e animais com<br />

propósito <strong>de</strong> avaliar suas ativida<strong>de</strong>s biológicas para o interesse biomédico (Zhang et al., 2003;<br />

Souza, Dellias, Melo & Silva, 2007). Dentre elas, a proprieda<strong>de</strong> anticoagulante está entre as<br />

ativida<strong>de</strong>s mais investigadas no mundo, principalmente, <strong>de</strong> algas marinhas (Athukorala, Lee, Kim<br />

& Jeon, 2007), tais como nas espécies Botryocladia occi<strong>de</strong>ntalis (Farias, Valente, Pereira &<br />

Mourão, 2000), Gelidium crinale (Pereira et al., 2005), Halymenia floresia (Amorim et al., 2005) e<br />

Lobophora variegata (Alencar, 2007).<br />

O estudo com diferentes espécies <strong>de</strong> algas marinhas tem <strong>de</strong>monstrado que a conformação<br />

estrutural varia <strong>de</strong> espécie para espécie, o que resulta em diferentes ativida<strong>de</strong>s anticoagulantes<br />

(Dietrich et al., 1995; Haroun-Bouhedja, Mustafa, Sinquin & Boisson-Vidal, 2000). Rodrigues &<br />

Farias (2006) observaram diferenças marcantes entre frações <strong>de</strong> PS obtidas a partir <strong>de</strong> extrações<br />

sucessivas <strong>de</strong> duas espécies do gênero Halymenia, sugerindo-se que a técnica po<strong>de</strong> ser mais uma<br />

estratégia importante na i<strong>de</strong>ntificação <strong>de</strong> táxons e fármacos. A bioprospecção <strong>de</strong> novos agentes<br />

anticoagulantes é justificada <strong>de</strong>vido aos efeitos colaterais da heparina (extraída <strong>de</strong> boi e porco) a<br />

qual po<strong>de</strong> levar a hemorragia e queda na contagem <strong>de</strong> plaquetas (Thomas, 1997) em pacientes com<br />

estado <strong>de</strong> hipercoagulopatia ou sujeitos à trombose causada por diferentes etiologias (Weizt, 1994).<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

O presente estudo teve como objetivo extrair, purificar e avaliar a ativida<strong>de</strong> anticoagulante in<br />

vitro em frações <strong>de</strong> polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados obtidas em diferentes extratos da alga marinha<br />

vermelha Halymenia pseudofloresia utilizando a técnica das extrações sucessivas.<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

COLETA DA ALGA MARINHA<br />

A coleta <strong>de</strong> Halymenia pseudofloresia (Halymeniaceae, Halymeniales) foi realizada na Praia<br />

<strong>de</strong> Flexeiras, no município <strong>de</strong> Traíri - CE, em julho <strong>de</strong> 2005, a partir <strong>de</strong> exemplares arribados na<br />

zona entre-marés. Imediatamente após a coleta, os exemplares foram conduzidos ao Laboratório <strong>de</strong><br />

Bioquímica Marinha da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Ceará do Departamento <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>,<br />

acondicionados em sacos plásticos, on<strong>de</strong> foram removidos organismos incrustantes e/ou algas<br />

epífitas, lavados com água <strong>de</strong>stilada e estocados a – 20 °C. Posteriormente, o material foi seco em<br />

estufa (15 h; 40 °C) para a extração dos PS totais (PST).<br />

EXTRAÇÃO DOS PST DA ALGA MARINHA VERMELHA H. PSEUDOFLORESIA<br />

Os PST foram extraídos <strong>de</strong> acordo com Farias, Valente, Pereira & Mourão (2000) e<br />

otimizados segundo Rodrigues & Farias (2006). Brevemente, cinco gramas <strong>de</strong> alga <strong>de</strong>sidratada em<br />

estufa (15 h; 40 °C) e triturada foram hidratadas com 250 mL <strong>de</strong> tampão acetato <strong>de</strong> sódio 0,1 M<br />

(pH 5,0) contendo cisteína 5 mM e EDTA 5 mM (AcNa). Em seguida, foram adicionados 17 mL <strong>de</strong><br />

uma solução <strong>de</strong> papaína bruta (30 mg mL -1 ), sendo a mistura incubada em banho-maria a 60 °C por<br />

24 horas. Após esse período, o material foi filtrado, centrifugado (8000 x g; 20 min.; 4 ºC) e, ao<br />

sobrenadante, foram adicionados três volumes consecutivos <strong>de</strong> 16 mL <strong>de</strong> cloreto <strong>de</strong> cetilpiridínio<br />

(CPC) a 10% para a precipitação dos polissacarí<strong>de</strong>os presentes na mistura por, no mínimo, 24 horas<br />

à temperatura ambiente. Logo após a precipitação, o precipitado foi lavado com 250 mL <strong>de</strong> CPC<br />

0,05% sendo, em seguida, dissolvido em 174 mL <strong>de</strong> cloreto <strong>de</strong> sódio 2 M:etanol absoluto (100:15;<br />

v/v) e submetido a uma nova precipitação por, no mínimo, 24 horas a 4 °C, através da adição <strong>de</strong><br />

mais 200 mL <strong>de</strong> etanol absoluto. Posteriormente o material foi centrifugado e submetido a duas<br />

lavagens com 250 mL <strong>de</strong> etanol a 80% e uma com 150 mL <strong>de</strong> etanol absoluto. Após esta etapa, o<br />

precipitado foi então levado à estufa a 60 °C, por um período aproximado <strong>de</strong> 24 horas para secagem<br />

e obtenção do extrato bruto. Os resíduos obtidos das extrações foram submetidos a novas extrações<br />

a fim <strong>de</strong> otimizar o rendimento.<br />

PURIFICAÇÃO DAS GS EM COLUNA DE DEAE-CELULOSE<br />

Os PS brutos (10 mg), <strong>de</strong> cada extrato, foram dissolvidos em 5 mL <strong>de</strong> tampão acetato <strong>de</strong><br />

sódio 0,1 M (pH 5,0) contendo cisteína 5 mM e EDTA 5 mM (AcNa) e aplicados em uma coluna <strong>de</strong><br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

DEAE-celulose <strong>de</strong> troca iônica (6,5 x 1,5 cm) acoplada a um coletor <strong>de</strong> frações equilibrada com o<br />

mesmo tampão. A coluna foi eluída, passo a passo, com soluções <strong>de</strong> diferentes concentrações <strong>de</strong><br />

NaCl (0,25; 0,50; 0,75; 1,0; 1,25; 1,50, 1,75 e 2,0 M) também preparadas no mesmo tampão <strong>de</strong><br />

equilíbrio. O fluxo da coluna foi <strong>de</strong> 60 mL h -1 , sendo coletadas frações <strong>de</strong> 5 mL. Os PS foram<br />

monitorados pela proprieda<strong>de</strong> metacromática com 1,9-azul-dimetilmetileno (DMB) utilizando um<br />

espectrofotômetro ajustado a 525 nm.<br />

ELETROFORESE EM GEL DE AGAROSE<br />

Após dialisadas exaustivamente contra água <strong>de</strong>stilada, concentradas por liofilização e<br />

partindo <strong>de</strong> alíquotas <strong>de</strong> 10 µg <strong>de</strong> PS, as frações foram analisadas em eletroforese em gel <strong>de</strong> agarose<br />

0,5% em tampão 1,3 - acetato diaminopropano (pH 9,0) <strong>de</strong> acordo com (Vieira, Mulloy & Mourão,<br />

1991). As frações foram aplicadas no gel e a corrida foi realizada em voltagem constante (110 V)<br />

durante 60 min. Após a corrida, os PS presentes no gel foram fixados com uma solução <strong>de</strong> cetavlon<br />

0,1% por 24 horas. Em seguida, o gel foi corado com azul <strong>de</strong> toluidina 0,1% e, finalmente,<br />

<strong>de</strong>scorado com uma solução <strong>de</strong> etanol absoluto, água <strong>de</strong>stilada e ácido acético concentrado (5:5:0,1;<br />

v/v/v).<br />

DETECÇÃO DE CARBOIDRATO TOTAL (CT)<br />

O CT nas frações foi <strong>de</strong>terminado pelo método fenol-sulfúrico segundo Dubois, Gilles,<br />

Hamilton, Rebers & Smith (1956). Brevemente, a amostra <strong>de</strong> 50 µL <strong>de</strong> solução <strong>de</strong> polissacarí<strong>de</strong>o<br />

foi incubada por 30 minutos com 350 µL <strong>de</strong> água <strong>de</strong>stilada, 20 µL <strong>de</strong> fenol ré-<strong>de</strong>stilado 5% e 1 mL<br />

<strong>de</strong> ácido sulfúrico concentrado. Após a incubação, a amostra foi levada ao espectrofotômetro para a<br />

leitura em 490 nm.<br />

ENSAIOS ANTICOAGULANTES IN VITRO<br />

Os testes anticoagulantes foram realizados in vitro pelo Tempo <strong>de</strong> Tromboplastina Parcial<br />

Ativada (TTPA) segundo An<strong>de</strong>rsson, Barrowcliffe, HolmerJohnson & Sims (1976), utilizando<br />

plasma citratado <strong>de</strong> coelho. Primeiramente, o sangue <strong>de</strong> coelho foi centrifugado (73,75 x g; 15 min)<br />

para a obtenção <strong>de</strong> um plasma pobre em plaquetas. Para a realização do teste, foram incubados a 37<br />

°C por 3 minutos 50 µL <strong>de</strong> plasma <strong>de</strong> coelho, 50 µL <strong>de</strong> cefalina ativada e 10 µL <strong>de</strong> solução <strong>de</strong> PS.<br />

Após a incubação, foram adicionados 50 µL <strong>de</strong> cloreto <strong>de</strong> cálcio 0,025 M à mistura para ativar a<br />

cascata <strong>de</strong> coagulação. Os testes foram realizados em duplicata, sendo o tempo <strong>de</strong> coagulação<br />

<strong>de</strong>terminado automaticamente pelo coagulômetro (Drake, mo<strong>de</strong>lo Quick-timer). A ativida<strong>de</strong> foi<br />

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expressa em unida<strong>de</strong>s internacionais por mg (UI mg -1 ) utilizando como referência uma curva padrão<br />

<strong>de</strong> heparina (100 UI mg -1 ) da marca comercial Cristália.<br />

RESULTADOS<br />

RENDIMENTO<br />

No total, foram realizadas três extrações e os resultados mostraram que o rendimento foi<br />

bastante elevado (63,94%), consi<strong>de</strong>rando todas as extrações. Além disso, a maior quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> PS<br />

foi obtida durante a 1 a extração, sendo <strong>de</strong>crescentes na 2 a e 3 a extrações, cujos rendimentos foram<br />

58,96; 3,2 e 1,78%, respectivamente.<br />

Os PS <strong>de</strong> algas marinhas po<strong>de</strong>m ser obtidos através <strong>de</strong> diferentes metodologias <strong>de</strong> extração,<br />

tais como enzimáticas (Farias, Valente, Pereira & Mourão, 2000), aquosas (Marinho, 2001) e ácidas<br />

(Chotigeat, Tongsupa, Supamataya & Phongdara, 2004). O método utilizado neste estudo tem sido<br />

empregado para a extração <strong>de</strong> PS presentes em várias espécies <strong>de</strong> algas marinhas, sendo os maiores<br />

rendimentos obtidos nas Rhodophytas, como nas espécies Champia feldmanii (Torres, 2005),<br />

Solieria filiformis (Pontes, 2005) e outras espécies do gênero Halymenia (Rodrigues & Farias,<br />

2006), com rendimentos <strong>de</strong> 36,2; 46,8; 47,14 e 53,96%, respectivamente. Geralmente, algas ver<strong>de</strong>s<br />

(Chlrophytas) têm apresentado rendimentos mais inferiores, como Caulerpa sertularioi<strong>de</strong>s (7,1%)<br />

(Bezerra-Neto, 2005) e C. racemosa (13%) (Rodrigues & Farias, 2005).<br />

A primeira extração resultou no maior rendimento <strong>de</strong> PS <strong>de</strong> H. pseudofloresia, o que também<br />

foi observado em outras espécies do gênero (Rodrigues & Farias, 2006). Entretanto, o aumento ou<br />

diminuição do rendimento no <strong>de</strong>correr das extrações tem sido observado em outras espécies, como<br />

na alga marinha parda Lobophora variegata (Alencar, 2007), a qual se obteve um rendimento <strong>de</strong><br />

28,4% <strong>de</strong> extrato total. O emprego <strong>de</strong> diferentes metodologias <strong>de</strong> extração (Villanueva, Pagba &<br />

Montano, 1997), variação sazonal (Bird, 1988) e a utilização <strong>de</strong> diferentes espécies (Levring,<br />

Hoppe & Schmid, 1969) influenciam no rendimento final. Desta forma, o método <strong>de</strong> extração<br />

utilizado foi bastante eficaz na obtenção <strong>de</strong> PS da alga vermelha H. pseudofloresia.<br />

CROMATOGRAFIA DAS GS EM COLUNA DE DEAE-CELULOSE<br />

Os perfis cromatográficos foram bem diferentes entre as extrações. Na 1 a extração (Figura 1,<br />

A) foram separadas cinco frações eluídas com 0,5 (F 1 ); 0,75 (F 2 ); 1,0 (F 3 ); 1,25 (F 4 ) e 1,50 M (F 5 )<br />

<strong>de</strong> NaCl, das quais as maiores proprieda<strong>de</strong>s metacromáticas foram observadas nas frações eluídas<br />

com 0,75 e 1,0 M, respectivamente, durante o monitoramento em 525 nm.<br />

Na 2 a extração (Figura 1, B) foi possível observar que o perfil cromatográfico se <strong>de</strong>stacou<br />

<strong>de</strong>ntre todas as extrações da espécie. O extrato apresentou quatro frações, das quais a F 2 , eluída com<br />

20


Proprieda<strong>de</strong> metacromática 525 nm<br />

0,5<br />

0,4<br />

0,3<br />

0,2<br />

0,1<br />

0,50 M<br />

F1<br />

0,75 M<br />

F2<br />

1,0 M<br />

F3<br />

1,25 M<br />

0,0<br />

0 10 20 30 40 50<br />

F4<br />

Frações (5mL)<br />

0,5<br />

0,4<br />

0,3<br />

0,2<br />

0,1<br />

1,50 M<br />

Açúcar<br />

Metacromasia<br />

F5<br />

0,50 M<br />

F1<br />

0,75 M<br />

0,4<br />

0,3<br />

0,2<br />

0,1<br />

0,0<br />

F2<br />

Dubois 490 nm<br />

Proprieda<strong>de</strong> metacromática 525 nm<br />

0,25<br />

0,20<br />

0,15<br />

0,10<br />

0,05<br />

0,0<br />

0,00<br />

0 5 10 15 20 25 30<br />

0,50 M<br />

F1<br />

0,75 M<br />

F2<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

0,75 M <strong>de</strong> sal, obteve a maior metacromasia. A referida fração também foi, praticamente, a maior<br />

diferença <strong>de</strong>ntre todas as extrações da espécie. Já na Figura 1, C, 3 a extração, houve o<br />

<strong>de</strong>saparecimento <strong>de</strong> uma das frações no perfil, o que foi uma característica comum no <strong>de</strong>correr do<br />

processo <strong>de</strong> otimização do rendimento <strong>de</strong>sta espécie, apresentando metacromasias semelhantes a 1 a<br />

e menores em relação à 2 a extrações. As frações eluídas apresentaram como os maiores picos <strong>de</strong> PS<br />

<strong>de</strong>ntre todas as frações obtidas nas diferentes extrações i<strong>de</strong>ntificadas no monitoramento com DMB<br />

da espécie H. pseudofloresia. Em todos os perfis foi observada uma gran<strong>de</strong> presença <strong>de</strong><br />

carboidratos (Dubois), possivelmente em razão da extração <strong>de</strong> polissacarí<strong>de</strong>os neutros.<br />

1 A 1 B<br />

Proprieda<strong>de</strong> metacromática 525 nm<br />

1 C<br />

1,0 M<br />

0,00<br />

0,00<br />

0 10 20 30 40<br />

1,0 M<br />

Frações (5 mL)<br />

Açúcar<br />

Metacromasia<br />

F3<br />

F3<br />

Frações (5mL)<br />

0,30<br />

0,25<br />

0,20<br />

0,15<br />

0,10<br />

0,05<br />

Dubois 490 nm<br />

1,25 M<br />

Açúcar<br />

Metacromasia<br />

F4<br />

0,25<br />

0,20<br />

0,15<br />

0,10<br />

0,05<br />

Dubois 490 nm<br />

Figura 1 - Cromatografia em DEAE-celulose, por extração, dos polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados<br />

totais da alga marinha vermelha Halymenia pseudofloresia. A coluna foi equilibrada e lavada<br />

com tampão AcNa. Os PS adsorvidos no gel foram eluídos com o tampão <strong>de</strong> AcNa contendo<br />

NaCl em diferentes concentrações (0,50; 0,75; 1,0; 1,25 e 1,50 M). Os PS foram<br />

monitorados com azul dimetilmetileno a 525 nm. (•⎯•) açúcar total (◦⎯◦) proprieda<strong>de</strong><br />

metacromática.<br />

21


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

As diferenças marcantes nos perfis cromatográficos obtidos nas diferentes extrações da<br />

espécie foram semelhantes com outros trabalhos realizados com extrações sucessivas <strong>de</strong> PS,<br />

utilizando algas marinhas ver<strong>de</strong>s, como C. racemosa (Rodrigues & Farias, 2005) e C. sertularioi<strong>de</strong>s<br />

(Bezerra-Neto, 2005), pardas, como na espécie L. variegata (Alencar, 2007), e vermelhas, como S.<br />

filiformis (Pontes, 2005) e outras espécies do gênero Halymenia (Rodrigues & Farias, 2006). O fato<br />

<strong>de</strong> se obter perfis comparativamente bem diferentes entre as extrações talvez seja justificado pela<br />

extração <strong>de</strong> PS mais diferenciados (Rodrigues & Farias, 2006).<br />

ELETROFORESE EM GEL DE AGAROSE DAS FRAÇÕES<br />

A eletroforese em gel <strong>de</strong> agarose revelou que, no geral, existem diferenças entre o grau <strong>de</strong><br />

purificação das frações nas diferentes extrações, bem como no padrão <strong>de</strong> cargas entre o extrato<br />

bruto e as frações <strong>de</strong> PS obtidas <strong>de</strong> uma mesma extração. As frações F 1 , F 2 e F 3 (1 a extração)<br />

apresentaram um padrão <strong>de</strong> corrida com discreta diferença <strong>de</strong> cargas entre si, as quais não foram<br />

obtidas bandas bem <strong>de</strong>finidas no gel, <strong>de</strong>notando uma baixa purificação.<br />

As frações e os extratos brutos obtidos nas 2 a e 3 a extrações mostraram um maior grau <strong>de</strong><br />

resolução no <strong>de</strong>correr do processo, sendo possível observar a presença <strong>de</strong> duas bandas bem<br />

<strong>de</strong>finidas entre si no terceiro extrato (Figura 2). As frações F 1 , F 2 e F 3 apresentaram o mesmo<br />

padrão <strong>de</strong> cargas e com bandas bem <strong>de</strong>finidas, indicando um alto grau <strong>de</strong> purificação. As duas<br />

bandas obtidas no extrato bruto diferiram entre si, claramente, pela <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> cargas. A ausência<br />

<strong>de</strong> uma das bandas nas frações po<strong>de</strong> ser explicada pela falta <strong>de</strong> interação com a coluna <strong>de</strong> troca<br />

iônica DEAE-celulose, já que praticamente não é carregada.<br />

Figura 2 - Eletroforese em gel <strong>de</strong> agarose 0,5% das frações obtidas na 3 a extração dos<br />

polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados da alga marinha vermelha Halymenia pseudofloresia. Extrato bruto<br />

(EB) e frações (F 1 , F 2 e F 3 ).<br />

Alencar (2007) também obteve resultados semelhantes durante a purificação <strong>de</strong> fucanas, uma<br />

outra forma <strong>de</strong> PS, da alga marinha parda L. variegata utilizando a técnica. A pesquisa também<br />

22


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

revelou que é possível obter moléculas diferenciadas e com maior grau <strong>de</strong> purificação ao longo do<br />

processo, uma vez que as fucanas sulfatadas também apresentam uma estrutura química bastante<br />

heterogênea. Assim, a resina <strong>de</strong> DEAE-celulose foi bastante eficiente na purificação das frações <strong>de</strong><br />

PS <strong>de</strong> H. pseudofloresia e na interação com outros açúcares. As frações obtidas na 3ª extração<br />

talvez possam se traduzir numa vantagem na caracterização <strong>de</strong>ssas moléculas, tendo em vista a<br />

gran<strong>de</strong> complexida<strong>de</strong> estrutural das galactanas (Farias, Valente, Pereira & Mourão, 2000).<br />

ENSAIOS ANTICOAGULANTES<br />

A espécie apresentou ativida<strong>de</strong> anticoagulante na maioria <strong>de</strong> suas frações <strong>de</strong> PS. As frações<br />

mais ativas foram observadas na 1 a extração, sendo maior a F 4 , eluída com 1,25 M <strong>de</strong> NaCl,<br />

seguida da F 2 (0,75 M) e F 3 (1,0 M), cujas ativida<strong>de</strong>s foram 464,2; 211,6 e 103,5 UI mg -1 ,<br />

respectivamente (Tabela 1). A F 4 foi, pelo menos, 4,6 vezes mais potente que o padrão <strong>de</strong> heparina<br />

utilizado, prolongando o tempo <strong>de</strong> coagulação do plasma <strong>de</strong> coelho em, no mínimo, 9 vezes.<br />

Tabela 1 - Ativida<strong>de</strong> anticoagulante (TTPA) das frações <strong>de</strong> polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados obtidas<br />

da alga marinha vermelha Halymenia pseudofloresia em relação à heparina não fracionada<br />

(HNF).<br />

Extração Frações UI mg -1 TTPA (s) T 1 T 0<br />

-1<br />

1 a F 3 103,5 53,5 2,00<br />

F 2 211,6 109,4 4,10<br />

F 4 464,2 > 240,0 * 9,00<br />

F 5 101,7 52,6 1,97<br />

2 a F 2 137,1 70,9 2,66<br />

3 a F 2 96,5 49,9 1,87<br />

F 1 137,1 70,9 2,66<br />

F 3 89,2 46,1 1,73<br />

Heparina HNF 100 51,7 1,94<br />

Controle - - 26,7 1,00<br />

Os valores representam a média <strong>de</strong> duas <strong>de</strong>terminações; * além do limite <strong>de</strong> <strong>de</strong>tecção em segundos.<br />

Vários compostos anticoagulantes tem sido isolados e caracterizados <strong>de</strong> algas marinhas<br />

Farias, Valente, Pereira & Mourão (2000) reportaram acentuada ativida<strong>de</strong> anticoagulante <strong>de</strong> uma D-<br />

galactana sulfatada extraída da alga marinha vermelha B. occi<strong>de</strong>ntalis, on<strong>de</strong> o polissacarí<strong>de</strong>o inibiu<br />

a ação da trombina via antitrombina e cofator II da heparina, estes últimos os reguladores<br />

plasmáticos da coagulação sanguínea. Esses PS também apresentaram uma potente ativida<strong>de</strong><br />

antitrombótica em ratos, quando a dose <strong>de</strong> 0,2 mg kg -1 expressou seu efeito máximo pelo mo<strong>de</strong>lo<br />

23


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

intravenoso (Farias, Nazareth & Mourão, 2001). Fucanas sulfatadas das algas marinhas pardas<br />

Laminaria digitata, Pelvetia canaliculata, Fucus vesiculosos, Sargassum muticum e Ascophyllum<br />

nodosum também possuem ativida<strong>de</strong> anticoagulante as quais exercem um efeito inibitório direto<br />

sobre a trombina in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte da antitrombina (Graufell, Kloareg, Mabeu, Durand & Jozefonvicz,<br />

1989). Neste estudo, os PS obtidos da alga marinha vermelha H. pseudofloresia prolongaram<br />

significativamente o tempo <strong>de</strong> coagulação do plasma <strong>de</strong> coelho, sendo necessário a realização <strong>de</strong><br />

mais testes a fim <strong>de</strong> <strong>de</strong>screver sua via <strong>de</strong> ação utilizando plasma humano normal.<br />

A ativida<strong>de</strong> da F 4 (1 a extração) foi bastante superior comparada as <strong>de</strong>mais frações <strong>de</strong> PS <strong>de</strong> H.<br />

pseudofloresia, principalmente da 3ª extração, a qual o efeito anticoagulante das F 2 e F 3 foi,<br />

praticamente, abolido em comparação a heparina utilizada.<br />

Compostos bioativos oriundos <strong>de</strong> algas po<strong>de</strong>m ser obtidos através <strong>de</strong> várias técnicas. Torres<br />

(2005) relatou que extrações sucessivas utilizando duas metodologias <strong>de</strong> precipitação <strong>de</strong> PS (CPC e<br />

álcool etílico absoluto) obteve diferentes valores dos tempos <strong>de</strong> TTPA da espécie vermelha C.<br />

feldimanii. As maiores ativida<strong>de</strong>s anticoagulantes foram observadas em duas frações eluídas com<br />

1,2 e 1,4 M <strong>de</strong> NaCl na 4 a extração pelo método CPC, prolongando os tempos <strong>de</strong> coagulação em<br />

cerca <strong>de</strong> 6,4 e 4,8 vezes, respectivamente. Duas frações <strong>de</strong> PS (F 5 e F 6 ), eluídas na 4 a extração da<br />

macroalga ver<strong>de</strong> C. racemosa, exibiram elevadas ativida<strong>de</strong>s anticoagulantes, as quais prolongaram<br />

o tempo <strong>de</strong> coagulação em cerca <strong>de</strong> 6,5 vezes (Rodrigues & Farias, 2005), utilizando álcool etílico<br />

absoluto como agente precipitante <strong>de</strong> PS. Extrações sucessivas utilizando precipitações com CPC<br />

realizadas por Alencar (2007) da alga marinha parda L. variegata mostraram frações <strong>de</strong> PS com<br />

ativida<strong>de</strong>s anticoagulantes bem menores, prolongando o tempo <strong>de</strong> TTPA, no máximo, em apenas<br />

2,1 vezes, quando avaliada in vitro uma fração obtida na 1 a extração utilizando plasma humano.<br />

Assim, a técnica das extrações sucessivas permite i<strong>de</strong>ntificar moléculas bioativas que possam<br />

ser exploradas em diversos outros ensaios biológicos <strong>de</strong> interesse biomédico e expandir sua<br />

utilização para outras aplicações biotecnológicas. A baixa ativida<strong>de</strong> anticoagulante <strong>de</strong> algumas<br />

frações <strong>de</strong> H. pseudofloresia não implica na ausência <strong>de</strong> outras ativida<strong>de</strong>s biológicas. A alga<br />

marinha vermelha Cryptonemia crenulata não apresentou ativida<strong>de</strong> anticoagulante (Farias 2000),<br />

mas por outro lado, revelou-se como um potente agente antiviral (Talarico et al., 2004).<br />

Recentemente, os PS <strong>de</strong> H. pseudofloresia foram administrados na água <strong>de</strong> cultivo do camarão<br />

marinho Litopenaeus vannamei, reduzindo significativamente a taxa <strong>de</strong> mortalida<strong>de</strong> dos animais<br />

durante o estresse (Rodrigues, 2006). O uso <strong>de</strong> imunoestimulantes resulta na melhoria do<br />

crescimento e da sobrevivência dos organismos aquáticos quando expostos a condições adversas <strong>de</strong><br />

estresse (Sakai, 1999).<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

As alterações da ativida<strong>de</strong> anticoagulante ao longo do processo talvez possam ser explicadas<br />

pelas diferenças químicas estruturais <strong>de</strong>ssas moléculas. Estudos relatam que a ativida<strong>de</strong><br />

anticoagulante está diretamente ligada à <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> radicais sulfatos na molécula, pois a presença<br />

<strong>de</strong>sses grupos sulfatados é que confere a ativida<strong>de</strong> biológica (Nishino, Aizu & Nagumo, 1991).<br />

Farias, Valente, Pereira & Mourão (2000) observaram que o posicionamento <strong>de</strong>sses radicais<br />

também é muito importante para <strong>de</strong>screver o efeito da ativida<strong>de</strong>. A estrutura conformacional dos PS<br />

varia entre espécies (Dietrich et al., 1995) e sugere-se que a obtenção <strong>de</strong> moléculas diferenciadas a<br />

partir do mesmo tecido da espécie H. pseudofloresia resultou em gran<strong>de</strong>s alterações na ativida<strong>de</strong><br />

anticoagulante entre as frações da 1 a extração em relação aos PS obtidos nas extrações 2 a e 3 a ,<br />

respectivamente. Novos ensaios biológicos mais específicos são necessários a fim <strong>de</strong> esclarecer as<br />

alterações <strong>de</strong>sses efeitos na coagulação ao longo da técnica, relacionando ativida<strong>de</strong> e estrutura.<br />

Desta forma, através da otimização do rendimento a partir <strong>de</strong> extrações sucessivas e da<br />

avaliação dos perfis cromatográficos, é possível extrair PS distintos alocados em diferentes camadas<br />

do tecido algal, os quais exibiram diferentes valores <strong>de</strong> TTPA no <strong>de</strong>correr das extrações da alga<br />

vermelha H. pseudofloresia.<br />

No entanto, é necessária uma avaliação mais <strong>de</strong>talhada <strong>de</strong>ssas moléculas ao longo <strong>de</strong> um<br />

período anual, já que a produção <strong>de</strong> PS po<strong>de</strong> variar <strong>de</strong> acordo com as condições climáticas<br />

ambientais, afetando também a ocorrência da ativida<strong>de</strong> biológica. Assim, é <strong>de</strong> fundamental<br />

importância o manejo a<strong>de</strong>quado <strong>de</strong>sses recursos pesqueiros. Para isso, sugerem-se pesquisas<br />

referentes ao cultivo <strong>de</strong>sses organismos para fins comerciais com o intuito <strong>de</strong> minimizar o impacto<br />

sobre os estoques naturais.<br />

CONCLUSÃO<br />

O estudo <strong>de</strong>monstrou que frações <strong>de</strong> polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados obtidas em diferentes<br />

extrações da alga marinha vermelha H. pseudofloresia resultaram em diferentes ativida<strong>de</strong>s<br />

anticoagulantes, das quais a F 4 , obtida na 1 a extração, apresentou comparativamente um efeito<br />

superior em relação às <strong>de</strong>mais. No entanto, mais estudos são necessários a fim <strong>de</strong> esclarecer as<br />

alterações <strong>de</strong>ssa ativida<strong>de</strong> no <strong>de</strong>correr do processo <strong>de</strong> extrações sucessivas e ações sustentáveis <strong>de</strong><br />

manejo são extremamente importantes na conservação dos estoques naturais <strong>de</strong> algas.<br />

AGRADECIMENTOS<br />

O presente trabalho contou com o apoio financeiro do MCT/PADCT/CNPq/CAPES.<br />

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29


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

VARIAÇÃO NICTEMERAL DO MACROZOOPLÂNCTON NA BARRA ORANGE - CANAL<br />

DE SANTA CRUZ, ESTADO DE PERNAMBUCO (BRASIL)<br />

NYCTEMERAL VARIATION OF THE MACROZOOPLANKTON AT ORANGE - INLET SANTA CRUZ<br />

CHANNEL, PERNAMBUCO STATE (BRAZIL)<br />

Pedro Augusto Men<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Castro MELO 1* ; Sigrid NEUMANN-LEITÃO 1 ;<br />

Lucia Maria <strong>de</strong> Oliveira GUSMÃO 1 ; Fernando <strong>de</strong> Figueiredo PORTO NETO 2<br />

1 Departamento <strong>de</strong> Oceanografia, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Pernambuco<br />

2 Departamento <strong>de</strong> Zootecnia, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco<br />

*E-mail: pedroamcm@yahoo.com.br<br />

Recebido em: 11 <strong>de</strong> fevereiro <strong>de</strong> 2008<br />

Resumo - Estudos sobre o macrozooplâncton foram realizados numa estação fixa localizada entre a<br />

<strong>de</strong>sembocadura sul e a linha <strong>de</strong> recifes no canal <strong>de</strong> Santa Cruz – PE. O principal objetivo<br />

foi avaliar as variações nictemerais ao longo do ciclo <strong>de</strong> maré. As coletas foram<br />

realizadas durante preamares e baixa-mares em maré <strong>de</strong> sizígia nos dias 10 e 11 <strong>de</strong><br />

março <strong>de</strong> 2001. Arrastos sub-superficiais foram realizados com re<strong>de</strong> <strong>de</strong> plâncton com<br />

300 µm <strong>de</strong> abertura <strong>de</strong> malha. Dados <strong>de</strong> salinida<strong>de</strong> e temperatura foram obtidos para<br />

comparar com o zooplâncton. Foram i<strong>de</strong>ntificados 48 taxa, 26 na baixa-mar com uma<br />

dominância do holoplâncton, e 40 na preamar, com dominância <strong>de</strong> zoeas <strong>de</strong> Brachyura.<br />

Copepoda esteve representado por 18 espécies, <strong>de</strong>stacando-se Acartia lilljeborgi,<br />

Temora turbinata e Pseudodiaptomus acutus. Foi registrada diferença significativa entre<br />

as <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s médias nas duas marés (p=0,04), com maior <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> na baixa-mar e<br />

maior diversida<strong>de</strong> na preamar <strong>de</strong>vido à influência marinha. Não houve diferença<br />

significativa entre as amostras diurnas e noturnas (p=0,88), evi<strong>de</strong>nciando que a maré é o<br />

principal fator estruturador da comunida<strong>de</strong> do macrozooplâncton.<br />

Palavras chave: zooplâncton, nictemeral, Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, estuário.<br />

Abstract - Macrozooplankton studies were carried out in a fixed station, located between the south<br />

outlet and the reefs at Santa Cruz Channel – PE. The main objective was to assess the<br />

nyctemeral variation along to ti<strong>de</strong> cycle. Sampling were done during high and low ti<strong>de</strong>s<br />

of a spring ti<strong>de</strong> in March 10 th and 11 th , 2001. Subsurface hauls were done with plankton<br />

net with 300 µm of mesh size. Salinity and temperature data were obtained to compare<br />

with zooplankton. It were i<strong>de</strong>ntified 48 taxa, 26 at low ti<strong>de</strong> with holoplankton<br />

dominance, and 40 at high ti<strong>de</strong> with Brachyura zoeae dominance. Copepoda was present<br />

with 18 species, outranking Acartia lilljeborgi, Temora turbinata and Pseudodiaptomus<br />

acutus. Density significant differences (p=0,04) were registered between ti<strong>de</strong>s, with<br />

higher <strong>de</strong>nsity at low ti<strong>de</strong> and higher diversity during high ti<strong>de</strong> due marine influence. No<br />

significant differences were observed between day and night samples (p=0,88), showing<br />

that ti<strong>de</strong>s are the main factor structuring the macrozooplankton community.<br />

Key words: zooplankton, cictemeral, Santa Cruz channel, estuary.<br />

30


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

INTRODUÇÃO<br />

Os ambientes estuarinos são regiões costeiras semi-fechadas nas <strong>de</strong>sembocaduras dos rios,<br />

sujeitas aos aportes dos rios e do fluxo marinho. Os nutrientes transportados pelos rios e a rápida<br />

troca entre as águas <strong>de</strong> superfície e sedimentos contribuem para uma produtivida<strong>de</strong> biológica<br />

extremamente alta, sendo consi<strong>de</strong>rados um dos ecossistemas mais produtivos da Terra. Essa alta<br />

produtivida<strong>de</strong> resulta da regeneração rápida e local dos nutrientes bem como dos aportes <strong>de</strong>stes<br />

pelos rios e marés. Sua importância se esten<strong>de</strong> aos ecossistemas marinhos através da sua exportação<br />

líquida <strong>de</strong> matéria orgânica, organismos e <strong>de</strong>tritos particulados e dissolvidos (Ricklefs, 2003).<br />

Devido à sua alta produtivida<strong>de</strong> e ao abrigo que oferecem aos organismos, os estuários com<br />

seus manguezais são áreas <strong>de</strong> alimentação importantes, sustentando populações abundantes <strong>de</strong><br />

espécies estuarinas e marinhas, como as diversas fases iniciais do ciclo <strong>de</strong> vida <strong>de</strong> muitos peixes e<br />

invertebrados, que completam seu ciclo <strong>de</strong> vida no mar (Silva, 2002).<br />

O zooplâncton, <strong>de</strong>vido às diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> tamanho e capacida<strong>de</strong> natatória, e aos tipos <strong>de</strong><br />

alimentação, somadas a uma ampla distribuição, constitui uma comunida<strong>de</strong> bastante heterogênea<br />

(Palma & Kaiser, 1993). Por toda essa diversida<strong>de</strong>, o zooplâncton possui um papel fundamental,<br />

pois serve como elo entre o fitoplâncton e muitos carnívoros, como crustáceos e peixes <strong>de</strong> interesse<br />

comercial, além <strong>de</strong> seu papel significativo na ciclagem <strong>de</strong> nutrientes e no transporte <strong>de</strong> energia <strong>de</strong><br />

um ambiente para outro (Day Jr., Hall, Kemp & Yáñes Arancibia, 1989), abrigando, ainda, estágios<br />

larvais <strong>de</strong> alguns organismos não planctônicos.<br />

A exportação do zooplâncton <strong>de</strong> estuários tropicais para a área costeira adjacente afeta as<br />

teias alimentares pelágicas marinhas. Muitos organismos do zooplâncton, como por exemplo as<br />

larvas <strong>de</strong> crustáceos <strong>de</strong>cápodos, são exportadas <strong>de</strong> estuários com manguezais para as áreas costeiras<br />

(Dittel & Epifanio, 1990; Dittel, Epifanio & Lizano, 1991; Schwamborn & Bonecker, 1996,<br />

Schwamborn, Ekau, Silva & Sait-Paul, 1999).<br />

Assim, o estudo da comunida<strong>de</strong> zooplanctônica é <strong>de</strong> importância fundamental por apresentar<br />

espécies indicadoras das condições ambientais dominantes, as quais mostram as características da<br />

água <strong>de</strong> on<strong>de</strong> foram extraídas (Wickstead, 1979; Margalef, 1983). Além disso, elas fornecem<br />

informações sobre os processos interagentes, uma vez que, por serem influenciadas pelas condições<br />

bióticas e abióticas do meio (Fraser, 1962; Longhurst & Pauly, 1987), dão aviso prévio sobre<br />

agentes estressores, po<strong>de</strong>ndo ser utilizadas como ferramentas <strong>de</strong> monitoramento ambiental. Dessa<br />

forma, em áreas estuarinas sujeitas a múltiplos usos, alterações na estrutura da comunida<strong>de</strong> e na<br />

abundância das espécies po<strong>de</strong>m indicar impactos antropogênicos.<br />

31


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

O estudo da distribuição vertical do zooplâncton coloca em evidência a existência <strong>de</strong><br />

variações <strong>de</strong> curtos períodos ligadas à alternância dia/noite, isto é, migrações nictemerais (do grego<br />

nuctos=noite; hemera=dia). Muitos organismos realizam migrações verticais com um ritmo<br />

circadiano. Segundo Bougis (1974), a principal forma <strong>de</strong> migração <strong>de</strong> alguns organismos<br />

zooplanctônicos se faz <strong>de</strong> forma ascen<strong>de</strong>nte em direção à superfície durante o pôr do Sol e ao raiar<br />

da aurora e <strong>de</strong> maneira <strong>de</strong>scen<strong>de</strong>nte por volta do meio do período noturno e após o nascer do dia,<br />

sendo a luz seu maior estímulo. Essas migrações também po<strong>de</strong>m ser realizadas baseadas nas<br />

características hidrológicas e <strong>de</strong> temperatura da coluna d’água.<br />

Em áreas estuarinas, a principal variação da composição do zooplâncton <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> do fluxo<br />

das marés, sendo nescessário coletas em períodos <strong>de</strong> 24 horas para melhores estimativas (McLusky,<br />

1989).<br />

Dentre os ecossistemas estuarinos do Nor<strong>de</strong>ste do Brasil, <strong>de</strong>staca-se o Canal <strong>de</strong> Santa Cruz,<br />

pois é o centro do sistema estuarino <strong>de</strong> Itamaracá e um dos ecossistemas aquáticos mais estudados<br />

no Nor<strong>de</strong>ste do Brasil, haja vista a publicação <strong>de</strong> vários trabalhos <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1972. Apesar <strong>de</strong> toda sua<br />

importância, os estuários adjacentes ao Canal <strong>de</strong> Santa Cruz são diretamente afetados pelos resíduos<br />

industriais e urbanos, que condicionam o aparecimento <strong>de</strong> áreas impactadas, provocando um<br />

acentuado <strong>de</strong>sequilíbrio neste ecossistema (Macedo, Flores-Montes & Lins, 2000).<br />

Desta forma, o conhecimento da dinâmica da comunida<strong>de</strong> zooplanctônica <strong>de</strong> Itamaracá<br />

(Pernambuco – Brasil) é <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> relevância, por contribuir para um maior conhecimento <strong>de</strong> um<br />

dos mais importantes ecossistemas estuarinos do ponto <strong>de</strong> vista socio-econômico para o Estado <strong>de</strong><br />

Pernambuco (Gusmão, Neumann-Leitão, Schwamborn, Silva & Silva, 2004), on<strong>de</strong> gran<strong>de</strong> parte da<br />

população da área <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> da pesca.<br />

Dessa forma, o presente trabalho tem como objetivo verificar a variação diurna e noturna da<br />

comunida<strong>de</strong> zooplanctônica, além <strong>de</strong> observar a variação da composição da comunida<strong>de</strong><br />

zooplanctônica ao longo <strong>de</strong> um ciclo <strong>de</strong> maré.<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

O Canal <strong>de</strong> Santa Cruz é um braço <strong>de</strong> mar com 22 km <strong>de</strong> extensão e largura que varia <strong>de</strong> 0,6 a<br />

1,5 km. Nele <strong>de</strong>ságuam cinco rios principais. Em direção à plataforma costeira, recifes <strong>de</strong> arenito<br />

<strong>de</strong>limitam o sistema estuarino. Entre os recifes e a Ilha <strong>de</strong> Itamaracá, existe uma bacia rasa <strong>de</strong><br />

aproximadamente 0,5 a 2 m <strong>de</strong> profundida<strong>de</strong>. Estudos recentes indicam que bancos <strong>de</strong> areia<br />

formam uma eficiente barreira entre a pluma estuarina e os prados <strong>de</strong> fanerógamas <strong>de</strong> Itamaracá<br />

32


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

(Schwamborn & Bonecker, 1996). Além dos arrecifes, algas calcáreas (Halimeda sp.) são<br />

abundantes, compondo boa parte do sedimento (Kempf, Mabesoone & Tinoco, 1970).<br />

O sistema estuarino <strong>de</strong> Itamaracá po<strong>de</strong> ser classificado segundo Me<strong>de</strong>iros & Kjerfve (1993),<br />

como tipo estuário-lagoa (tipo1), por apresentar um fluxo líquido <strong>de</strong> águas dirigidas para o mar (da<br />

superfície ao fundo) e um transporte <strong>de</strong> sais predominantemente à montante, dominado por<br />

processos difusivos.<br />

A área apresenta clima tropical úmido, com duas estações bem marcadas, uma seca (<strong>de</strong><br />

setembro a fevereiro) e uma chuvosa (<strong>de</strong> março a agosto).<br />

DADOS ABIÓTICOS<br />

Os dados <strong>de</strong> salinida<strong>de</strong> e temperatura foram obtidos simultaneamente às coletas <strong>de</strong> plâncton.<br />

Os valores <strong>de</strong> salinida<strong>de</strong> foram aferidos por meio <strong>de</strong> condutivímetro da marca WTW, calibrado pelo<br />

método <strong>de</strong> Mohr-Knudsen, como <strong>de</strong>scrito por Strickland & Parsons (1965). A temperatura<br />

superficial da água foi medida por meio <strong>de</strong> termômetro digital.<br />

Os dados referentes às marés, amplitu<strong>de</strong> e horário, foram obtidos na tábua <strong>de</strong> marés<br />

publicada pela Diretoria <strong>de</strong> Hidrografia e Navegação do Ministério da Marinha (DHN) para os dias<br />

<strong>de</strong> coleta. Foram utilizados os dados referentes ao porto do Recife, visto que as áreas apresentam<br />

marés semi-diurnas, apresentando uma <strong>de</strong>fasagem <strong>de</strong> apenas 8 minutos, não sendo consi<strong>de</strong>rado<br />

como uma diferença marcante.<br />

COLETA DO MACROZOOPLÂNCTON<br />

As amostras do macrozooplâncton foram coletadas no canal <strong>de</strong> Santa Cruz – PE, numa<br />

estação fixa, localizada entre a <strong>de</strong>sembocadura sul e a linha <strong>de</strong> recifes. Este local sofre influência<br />

alternada das águas do canal e da plataforma costeira adjacente, em função da maré predominante<br />

(Figura 1). As coletas foram realizadas na lua cheia (maré <strong>de</strong> sizígia) do mês <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 2001,<br />

correspon<strong>de</strong>ndo aos dias 10 e 11, durante os picos <strong>de</strong> maré preamar (PM) diurna e noturna e baixamar<br />

(BM) diurna e noturna, durante dois ciclos nictemerais (dois ciclos <strong>de</strong> maré) consecutivos<br />

(Tabela 1).<br />

Foram realizados arrastos horizontais sub-superficialmente, durante 3 minutos, com o barco<br />

em <strong>de</strong>slocamento <strong>de</strong> 2 a 3 nós. Foi utilizada uma re<strong>de</strong> <strong>de</strong> plâncton cônica, <strong>de</strong> náilon, com 300 µm<br />

<strong>de</strong> abertura <strong>de</strong> malha, 0,60 m <strong>de</strong> diâmetro <strong>de</strong> boca e 3 m <strong>de</strong> comprimento, tendo um fluxômetro<br />

acoplado à boca. Após a coleta, cada amostra <strong>de</strong> plâncton foi colocada em um frasco plástico<br />

<strong>de</strong>vidamente etiquetado, com capacida<strong>de</strong> aproximada <strong>de</strong> 500 mL, on<strong>de</strong> foi fixada com formol a 4%<br />

e neutralizada com bórax (5 g*L -1 ), <strong>de</strong> acordo com a técnica <strong>de</strong>scrita por Newell & Newell (1963).<br />

33


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Figura 1 - Localização da área estudada e da estação <strong>de</strong> amostragem, Canal <strong>de</strong> Santa Cruz,<br />

Itamaracá, Pernambuco (em vermalho). (Mapa: Schwamborn, 2004).<br />

Tabela 1 - Código, data, horário, período e maré das amostras coletadas na <strong>de</strong>sembocadura<br />

sul do Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, durante os dias 10 e 11 <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 2001.<br />

Código Data Horário Período Maré<br />

00h13 BM 10/3/2001 00h13 Noturno BM<br />

4h50 PM 10/3/2001 04h50 Noturno PM<br />

10h57 BM 10/3/2001 10h57 Diurno BM<br />

16h48 PM 10/3/2001 16h48 Diurno PM<br />

23h36 BM 10/3/2001 23h36 Noturno BM<br />

5h11 PM 11/3/2001 5h11 Noturno PM<br />

11h37 BM 11/3/2001 11h37 Diurno BM<br />

17h13 PM 11/3/2001 17h13 Diurno PM<br />

23h17 BM 11/3/2001 23h17 Noturno BM<br />

PROCESSAMENTO DO MATERIAL BIOLÓGICO EM LABORATÓRIO<br />

Em laboratório, foi realizada a contagem do número total <strong>de</strong> taxa, baseando-se na unida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />

gran<strong>de</strong>s grupos para o macrozooplâncton e na menor unida<strong>de</strong> taxonômica possível para os<br />

Copepoda. Para a análise quali-quantitativa, cada amostra foi colocada em um béquer, adicionandose<br />

2000 mL <strong>de</strong> água para diluição. Das amostras on<strong>de</strong> havia alta <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> organismos foram<br />

retirados 50 mL após a diluição, sendo novamente diluída para volumes diversos entre 200 e 500<br />

mL, <strong>de</strong> acordo com quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> organismos.<br />

34


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Em seguida a amostra foi homogeneizada, retirando-se três subamostras <strong>de</strong> 5,0 mL, com<br />

reposição, com o auxílio <strong>de</strong> uma pipeta tipo “Stempel” e vertida em uma placa <strong>de</strong> contagem do tipo<br />

Bogorov, analisada em estereomicroscópio composto, sendo os organismos manipulados com o<br />

auxílio <strong>de</strong> estiletes. Para i<strong>de</strong>ntificação <strong>de</strong> estruturas morfológicas <strong>de</strong> caráter sistemático essenciais à<br />

i<strong>de</strong>ntificação dos Copepoda, foram realizadas dissecações, sendo as partes dissecadas observadas<br />

em microscópio composto.<br />

Na i<strong>de</strong>ntificação dos organismos zooplanctônicos foram consultadas, entre outras, as<br />

seguintes obras: Tregouboff & Rose (1957), Björnberg (1981) e Boltovskoy (1981; 1999).<br />

TRATAMENTO NUMÉRICO DOS DADOS<br />

A <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> dos organismos (ind.m -3 ) foi calculada seguindo a fórmula D = n.V -1 f , on<strong>de</strong> (n) é<br />

o número total <strong>de</strong> organismos <strong>de</strong> cada táxon na amostra e (V f ) Volume total <strong>de</strong> água filtrado. A<br />

abundância relativa foi calculada <strong>de</strong> acordo com a fórmula Ar = N.100.Na -1 , on<strong>de</strong> (N) Densida<strong>de</strong><br />

total <strong>de</strong> organismos <strong>de</strong> cada táxon nas amostras e (Na) Densida<strong>de</strong> total <strong>de</strong> organismos nas amostras,<br />

com os valores expressos em percentagem e obe<strong>de</strong>cendo a seguinte classificação: Dominante<br />

(>70%), abundante (70┤40%), pouco abundante (40┤20%) e raros (≤20%). A freqüência <strong>de</strong><br />

ocorrência (F) foi calculada por meio da fórmula F = Ta.100.TA -1 , on<strong>de</strong>: (Ta) Número <strong>de</strong> amostras<br />

em que o táxon ocorre e (TA) Total <strong>de</strong> amostras. Os resultados, apresentados em percentagem, são<br />

consi<strong>de</strong>rados: muito freqüente (>70%); freqüente (70┤40%); pouco freqüente (40┤20%),<br />

esporádico (≤20%).<br />

O índice <strong>de</strong> diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Shannon foi aplicado para estimar a diversida<strong>de</strong> da comunida<strong>de</strong><br />

(Shannon, 1948) e o índice <strong>de</strong> eqüitabilida<strong>de</strong> foi calculado segundo Pielou (1966).<br />

As análises estatísticas foram baseadas nos dados <strong>de</strong> <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> (ind.m -3 ), com auxílio do<br />

programa PRIMER 5 (Plymouth Routines In Multivariate Ecological Research), para testar a<br />

similarida<strong>de</strong> entre as amostras. Também foi realizado o teste-t para verificar diferenças entre as<br />

marés (preamar e baixa-mar) e os períodos do dia (diurna e noturna).<br />

RESULTADOS E DISCUSSÃO<br />

DADOS ABIÓTICOS<br />

TEMPERATURA SUPERFICIAL DA ÁGUA<br />

A temperatura superficial da água durante os dias <strong>de</strong> coleta variou com o horário do dia, com<br />

um valor mínimo <strong>de</strong> 29°C durante a preamar às 04h50 e com um valor máximo <strong>de</strong> 30,5°C durante<br />

a baixa-mar às 10h57, ambas no dia 10/03/2001. Na Figura 2, observa-se que essa temperatura<br />

35


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possui um padrão ao longo do dia, com um aumento do início da manhã até ao meio dia, seguido<br />

<strong>de</strong> uma gradual diminuição, <strong>de</strong> acordo com o ritmo <strong>de</strong> intensida<strong>de</strong> solar.<br />

A temperatura é um dos principais fatores que controlam a distribuição e a ativida<strong>de</strong> dos<br />

organismos, agindo diretamente sobre a reprodução, crescimento e suas distribuições e alterando,<br />

<strong>de</strong> forma indireta, características da água como <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>, viscosida<strong>de</strong>, solubilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> oxigênio e<br />

afetando na flutuabilida<strong>de</strong>, locomoção e respiração dos organismos aquáticos (Day Jr., Hall, Kemp<br />

& Yáñes Arancibia, 1989). O padrão <strong>de</strong> temperatura observado <strong>de</strong>ve afetar a distribuição das<br />

espécies ao longo do dia na área estudada, apesar das flutuações serem mínimas. Essa pequena<br />

variação <strong>de</strong> temperatura é comum em estuários tropicais, como é o caso do canal <strong>de</strong> Santa Cruz<br />

(Porto-Neto, 1998; Galdino, 2004).<br />

As variações da temperatura em áreas tropicais são mais acentuadas quando se consi<strong>de</strong>ra os<br />

períodos sazonais: seco e chuvoso. Já as diferenças entre as camadas superficial e profunda são<br />

pequenas, ocorrendo eventualmente nos estuários tropicais, pouco profundos, pequena estratificação<br />

térmica; sendo, também, a variação nictemeral pouco acentuada, com valores máximos durante o<br />

período diurno (Flores Montes, 1996; Macedo, Flores-Montes & Lins, 2000).<br />

SALINIDADE<br />

A salinida<strong>de</strong> variou pouco durante os horários <strong>de</strong> amostragem, com valor mínimo <strong>de</strong> 35,4<br />

durante a preamar às 04h50 e o máximo <strong>de</strong> 37,6 durante a preamar às 16h48, ambas no dia<br />

10/03/2001 (Figura 2). Não foi observado um padrão normal, em função das marés, com salinida<strong>de</strong>s<br />

altas nas preamares e menores nas baixa-mares, evi<strong>de</strong>nciando pouca influência na área estudada,<br />

dos rios que <strong>de</strong>sembocam no Canal <strong>de</strong> Santa Cruz.<br />

Temperatura (ºC)<br />

Salinida<strong>de</strong><br />

31<br />

38<br />

30,5<br />

30<br />

29,5<br />

37,5<br />

37<br />

36,5<br />

36<br />

29<br />

28,5<br />

28<br />

00:13<br />

BM<br />

4:50<br />

PM<br />

10:57<br />

BM<br />

16:48<br />

PM<br />

23:36<br />

BM<br />

5:11<br />

PM<br />

11:37<br />

BM<br />

17:13<br />

PM<br />

23:17<br />

BM<br />

35,5<br />

35<br />

34,5<br />

34<br />

00:13<br />

BM<br />

4:50<br />

PM<br />

10:57<br />

BM<br />

16:48<br />

PM<br />

23:36<br />

BM<br />

5:11<br />

PM<br />

11:37<br />

BM<br />

17:13<br />

PM<br />

23:17<br />

BM<br />

Figura 2 - Variação da temperatura (ºC) e salinida<strong>de</strong> nos respectivos horários <strong>de</strong> coleta,<br />

<strong>de</strong>sembocadura sul do Canal <strong>de</strong> Santa Cruz (Orange) durante os dias 10 e 11 <strong>de</strong> março <strong>de</strong><br />

2001.<br />

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Os valores obtidos permitem caracterizar o ambiente como eualino, corroborando Macedo,<br />

Flores-Montes & Lins (2000), que afirmam que o Canal <strong>de</strong> Santa Cruz é caracterizado por regimes<br />

<strong>de</strong> salinida<strong>de</strong> que variam do eualino ao mesoalino.<br />

MARÉ<br />

A amplitu<strong>de</strong> média observada durante o período <strong>de</strong> coleta foi <strong>de</strong> 2,5 m, com pico máximo <strong>de</strong><br />

2,5 m às 16h41 do dia 10 <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 2001 e pico mínimo <strong>de</strong> -0,2 m às 22h58 do mesmo dia<br />

(Figura 3). Essa gran<strong>de</strong> variação está relacionada à maré <strong>de</strong> sizígia ocorrente no período. O<br />

ambiente estuarino apresenta uma dinâmica complexa, que varia <strong>de</strong> acordo com a geomorfologia da<br />

área, força e direção das correntes e intensida<strong>de</strong> dos fluxos marinho e fluvial. A presença da Coroa<br />

do Avião, banco <strong>de</strong> areia que vem se transformando em ilha, próximo à área estudada po<strong>de</strong> estar<br />

influenciando a dinâmica das marés, alterando o ciclo normal <strong>de</strong> seis horas; contudo, estudos<br />

<strong>de</strong>talhados sobre este aspecto são necessários.<br />

3<br />

2,5<br />

2<br />

1,5<br />

1<br />

0,5<br />

0<br />

04:21 10:28 16:41 22:58 05:02 11:08 17:23 23:38<br />

-0,5<br />

Figura 3 - Variação da altura da maré durante os dias 10 e 11 <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 2001. Nível <strong>de</strong><br />

maré segundo a tábua <strong>de</strong> marés para o ano <strong>de</strong> 2001 (Porto do Recife).<br />

ASPECTOS QUALI-QUANTITATIVOS<br />

SINOPSE TAXONÔMICA<br />

O Macrozooplâncton esteve representado pelos Filos Sarcomastigophora, Cnidaria, Mollusca,<br />

Annelida, Crustacea, Chaetognatha, Echino<strong>de</strong>rmata e Chordata. Foram observados 48 taxa, com<br />

domínio <strong>de</strong> Copepoda, larvas <strong>de</strong> Crustacea Decapoda e Chaetognatha. Para as amostras <strong>de</strong> preamar<br />

foram i<strong>de</strong>ntificados 40 taxa e, para as amostras <strong>de</strong> baixa-mar, 26 taxa.<br />

37


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

FREQÜÊNCIA DE OCORRÊNCIA<br />

A Tabela 2 apresenta a freqüência <strong>de</strong> ocorrência do macrozooplâncton na área estudada.<br />

Tabela 2 - Composição e freqüência <strong>de</strong> ocorrência (FO) do zooplâncton coletado no Canal <strong>de</strong><br />

Santa Cruz (orange): ****Muito freqüente; ***Freqüente; **Pouco freqüente; *Esporádico.<br />

Taxa<br />

FO<br />

Taxa<br />

FO<br />

FORAMINIFERA<br />

22,2% **<br />

Cirripedia (náuplio)<br />

88,9% ****<br />

CNIDARIA Cirripedia (cípris)<br />

33,3% **<br />

Hydrozoa (pólipo)<br />

22,2% **<br />

Decapoda<br />

Hydromedusa<br />

44,4% ***<br />

Lucifer faxoni (♀)<br />

88,9% ****<br />

Liriope sp.<br />

11,1% *<br />

Lucifer faxoni (♂)<br />

55,5% ***<br />

MOLLUSCA Lucifer sp. (protozoea)<br />

88,9% ****<br />

Gastropoda (Larva)<br />

100% ****<br />

Lucifer sp. (mísis)<br />

100% ****<br />

ANNELIDA Cari<strong>de</strong>a (zoea)<br />

77,8% ****<br />

Polychaeta (Larva)<br />

44,4% ***<br />

Alpheidae (zoea)<br />

44,4% ***<br />

CRUSTACEA Peneaeidae (protozoea)<br />

11,1% *<br />

Crustacea (náuplios)<br />

33,3% **<br />

Upogebia sp.<br />

66,6% ***<br />

Ostracoda<br />

11,1% *<br />

Anomura (zoea)<br />

22,2% **<br />

Calanoida Porcellanidae (zoea)<br />

88,9% ****<br />

Nannocalanus minor<br />

22,2% **<br />

Paguridae (zoea)<br />

22,2% **<br />

Paracalanus aculeatus<br />

22,2% **<br />

Paleomonidae<br />

11,1% *<br />

Paracalanidae (outros)<br />

11,1% *<br />

Dromiidae<br />

11,1% *<br />

Centropages furcatus<br />

22,2% **<br />

Hipollitidae<br />

11,1% *<br />

Pseudodiaptomus<br />

88,9% ****<br />

Brachyura (zoea I)<br />

100% ****<br />

Temora turbinata<br />

88,9% ****<br />

Brachyura (zoea II)<br />

88,9% ****<br />

Labidocera fluviatilis<br />

44,4% ***<br />

Brachyura (zoea III)<br />

66,6% ***<br />

Labidocera nerii<br />

11,1% *<br />

Brachyura (megalopa)<br />

22,2% **<br />

Calanopia americana<br />

33,3% **<br />

Stomatopoda (antizoea)<br />

11,1% *<br />

Acartia lilljeborgi<br />

100% ****<br />

Cumacea<br />

22,2% **<br />

Cyclopoida Isopoda<br />

11,1% *<br />

Oithona hebes<br />

11,1% *<br />

Mysidacea<br />

11,1% *<br />

Harparcticoida Gammari<strong>de</strong>a<br />

55,5% ***<br />

Microsetella rosea<br />

11,1% *<br />

CHAETOGNATHA<br />

88,9% ****<br />

Euterpina acutifrons<br />

11,1% *<br />

ECHINODERMATA<br />

11,1% *<br />

Longipedia sp.<br />

11,1% *<br />

CHORDATA<br />

Eudactylopus sp.<br />

11,1% *<br />

Appendicularia<br />

55,5% ***<br />

Poecilostomatoida Teleostei (Ovos)<br />

44,4% ***<br />

Corycaeus giesbrechti<br />

33,3% **<br />

Teleostei (Larvas)<br />

55,5% ***<br />

Farranula gracilis<br />

11,1% *<br />

Teleostei (Juvenil)<br />

22,2% **<br />

Monstrilloida<br />

Cymbasoma sp.<br />

11,1% *<br />

Em relação aos Copepoda, observa-se que, <strong>de</strong>ntre os Calanoida, <strong>de</strong>stacaram-se como muito<br />

freqüentes: Acartia lilljeborgi, presente em todas as amostras; Temora turbinata e Pseudodiaptomus<br />

acutus com 88,89%. Apenas Labidocera fluviatilis (44,44%) foi consi<strong>de</strong>rada freqüente, enquanto<br />

Calanopia americana (33,33%), Paracalanus aculeatus (22,22%), Centropages furcatus (22,22%),<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Nanocalanus minor (22,22%) foram pouco freqüentes e outros Paracalanidae e Labidocera nerii,<br />

ambos com 11,11%, foram consi<strong>de</strong>rados raros.<br />

A or<strong>de</strong>m Poecilostomatoida foi representada por Corycaeus giesbrechti, pouco freqüente com<br />

33,33%, e Farranula gracilis com 11,11%, sendo consi<strong>de</strong>rada esporádico.<br />

A or<strong>de</strong>m Harpacticoida, representada por Euterpina acutifrons, Microsetella rosea,<br />

Longipedia sp. e Eudactylopus sp., junto com Oithona hebes (Cyclopoida) e Cymbasoma sp.<br />

(Monstrilloida) foram esporádicas, todas com apenas 11,11% <strong>de</strong> ocorrência.<br />

Dentre os <strong>de</strong>mais grupos zooplanctônicos <strong>de</strong>stacaram-se como muito freqüentes mísis <strong>de</strong><br />

Lucifer sp., zoea I <strong>de</strong> Brachyura e Heteropoda, presentes em todas as amostras, protozoea <strong>de</strong> Lucifer<br />

sp., Lucifer faxoni (♀), zoea <strong>de</strong> Porcellanidae, zoea II <strong>de</strong> Brachyura, náuplios <strong>de</strong> Cirripedia e<br />

Chaetognatha, todas com 88,89% <strong>de</strong> ocorrência, além das zoea <strong>de</strong> outros Cari<strong>de</strong>a (77,78%).<br />

ABUNDÂNCIA RELATIVA<br />

Dentre os grupos mais abundantes, observou-se zoea I <strong>de</strong> Brachyura como dominante em<br />

duas amostras, 17h13 PM e 10h57 BM, abundante nas amostras das 04h50 PM, 16h48 PM e 11h37<br />

BM e pouco abundante nas <strong>de</strong>mais amostras. Acartia lilljeborgi foi consi<strong>de</strong>rada abundante nas<br />

amostras 23h36 BM e 05h11 PM, e rara nas amostras 16h48 PM e 17h13 PM, sendo pouco<br />

abundante nas <strong>de</strong>mais amostras. Temora turbinata foi pouco dominante em duas amostras, 00h13<br />

BM e 23h36 BM, sendo rara nas <strong>de</strong>mais. Todos os <strong>de</strong>mais organismos foram consi<strong>de</strong>rados raros em<br />

todas as amostras (Figura 4).<br />

100<br />

90<br />

80<br />

70<br />

60<br />

50<br />

40<br />

30<br />

20<br />

10<br />

0<br />

00h13<br />

BM<br />

04h50<br />

PM<br />

10h57<br />

BM<br />

16h48<br />

PM<br />

23h36<br />

BM<br />

05h11<br />

PM<br />

11h37<br />

BM<br />

17h13<br />

PM<br />

23h17<br />

BM<br />

Temora turbinata Acartia lilljeborgi Brachyura (zoea I ) Outros<br />

Figura 4 - Abundância relativa do zooplâncton no Canal <strong>de</strong> Santa Cruz (Orange), durante os<br />

dias 10 e 11 <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 2001.<br />

39


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Quando se consi<strong>de</strong>ra a abundância relativa total, Copepoda foi o grupo dominante com<br />

42,02% dos organismos, seguido pelo estágio inicial <strong>de</strong> Brachyura (38,80%) e, ainda, com<br />

<strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s bastante inferiores, por zoea II <strong>de</strong> Brachyura, Chaetognatha e Lucifer faxoni (♀), com<br />

2,61%, 2,27% e 1,90%, respectivamente (Figura 5).<br />

2,61%<br />

4,01%<br />

1,45%<br />

1,64%<br />

5,30%<br />

1,90%<br />

2,27%<br />

38,80%<br />

42,02%<br />

Copepoda<br />

Brachyura (zoea I )<br />

Decapoda, outros<br />

Brachyura (zoea II )<br />

Chaetognatha<br />

Lucifer faxoni (♀)<br />

Lucifer sp (protozoea)<br />

Gastropoda<br />

Outros<br />

Figura 5 - Composição da comunida<strong>de</strong> zooplanctônica no Canal <strong>de</strong> Santa Cruz, durante os dias<br />

10 e 11 <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 2001.<br />

DENSIDADE<br />

A <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> média na baixa-mar foi cerca <strong>de</strong> três vezes maior que na preamar. Segundo Melo<br />

Júnior (2005), os organismos do zooplâncton que habitam ambientes com influência das marés têm<br />

como pré-requisito uma sincronização das ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> migração vertical, o que justifica essa<br />

gran<strong>de</strong> diferença entre as <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s. Quanto ao período do dia não foi observada uma variação<br />

muito gran<strong>de</strong> entre as <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s médias (Figura 6).<br />

Figura 6 - Densida<strong>de</strong> média (ind.m -3 ) quanto à maré (esquerda) e período do dia (direita), do<br />

macrozooplâncton no Canal <strong>de</strong> Santa Cruz (Orange), durante os dias 10 e 11 <strong>de</strong> março <strong>de</strong><br />

2001.<br />

3500<br />

3000<br />

2500<br />

2000<br />

1500<br />

1000<br />

500<br />

0<br />

3461,98<br />

BM<br />

1199,16<br />

PM<br />

2500<br />

2000<br />

1500<br />

1000<br />

500<br />

0<br />

2371.18<br />

Diurna<br />

2524.34<br />

Noturna<br />

40


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Quanto ao tempo <strong>de</strong> permanência no ambiente pelágico, as amostras da baixa-mar<br />

apresentaram 55,24% <strong>de</strong> organismos holoplanctônicos e 44,76% <strong>de</strong> organismos meroplanctônicos.<br />

Enquanto que, as amostras da preamar apresentaram-se <strong>de</strong> forma inversa, com os organismos<br />

meroplanctônicos superando quantitativamente os organismos holoplanctônicos, sendo responsáveis<br />

por 60,75% e 39,25%, respectivamente (Figura 7).<br />

2000<br />

1912.28<br />

1800<br />

1600<br />

1549.69<br />

1400<br />

1200<br />

1000<br />

800<br />

728.52<br />

600<br />

400<br />

470.64<br />

200<br />

0<br />

BM<br />

Holoplâncton<br />

PM<br />

Meroplâncton<br />

Figura 7 - Densida<strong>de</strong> média (ind. m -3 ) do zooplâncton durante a baixa-mar (BM) e a preamar<br />

(PM) no Canal <strong>de</strong> Santa Cruz (Orange), durante os dias 10 e 11 <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 2001.<br />

A dominância <strong>de</strong> organismos holoplanctônicos é uma característica da população<br />

zooplanctônica estuarina, fato <strong>de</strong>scrito por vários autores para diversos estuários ao longo da costa<br />

brasileira (Tundisi, 1970; Matsumura-Tundisi, 1972; Schwamborn & Bonecker, 1996; Porto-Neto,<br />

1998; Paranaguá, Nascimento-Vieira, Gusmão, Neumann-Leitão & Schwamborn, 2004; Silva,<br />

Neumann-Leitão, Schwamborn, Gusmão & Nascimento-Vieira, 2003; <strong>de</strong>ntre outros). Este fato foi<br />

confirmado para a maioria das amostras presentemente estudadas; entretanto, durante a preamar,<br />

provavelmente pela gran<strong>de</strong> migração <strong>de</strong> Brachyura (meroplâncton) do canal para a área <strong>de</strong> coleta,<br />

houve uma alteração <strong>de</strong>sse padrão. Tundisi (1970) e Day Jr., Hall, Kemp & Yáñes Arancibia (1989)<br />

mencionam que, em <strong>de</strong>terminados períodos, há nos estuários o predomínio do meroplâncton,<br />

geralmente associado ao período reprodutivo.<br />

Muitos estudos sobre fauna planctônica <strong>de</strong> estuários têm mostrado que a quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />

espécies po<strong>de</strong> variar <strong>de</strong> uma região para outra, mas a predominância numérica dos Copepoda é<br />

característica nos estuários brasileiros, representando mais <strong>de</strong> 70% dos organismos do<br />

macrozooplâncton (Tundisi & Matsumura-Tundisi, 1968; Neumann-Leitão, 1995; Paranaguá,<br />

Nascimento-Vieira, Gusmão, Neumann-Leitão & Schwamborn, 2004).<br />

41


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Na região estuarina <strong>de</strong> Itamaracá, essa dominância foi confirmada em trabalhos como<br />

Paranaguá & Nascimento (1973), Paranaguá, Nascimento & Macêdo (1979), Nascimento (1980),<br />

Por & Almeida-Prado (1982), Paranaguá & Nascimento-Vieira (1984), Silva (1997), Porto-Neto<br />

(1998), Silva, Neumann-Leitão, Schwamborn, Gusmão & Nascimento-Vieira (2003), Galdino<br />

(2004) e Melo et al. (2005).<br />

Foi observada uma alta <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> do estágio inicial <strong>de</strong> Brachyura (zoea I), com picos <strong>de</strong> até<br />

3.925,23 ind.m -3 durante a baixa-mar às 10h57 do dia 10 <strong>de</strong> março (Figura 8). Pelo menos 85% das<br />

zoea encontradas nas amostras pertenciam a este estágio. Altas abundâncias numéricas <strong>de</strong> zoeas <strong>de</strong><br />

Brachyura são típicas <strong>de</strong> estuários com manguezais (Dittel & Epifanio, 1990; Schwamborn &<br />

Bonecker, 1996). Esses valores po<strong>de</strong>m indicar um período reprodutivo recente, com a liberação das<br />

larvas durante a lua cheia para fora do canal <strong>de</strong> Santa Cruz, para a região próxima a linha <strong>de</strong> recifes,<br />

área das coletas do presente estudo, como sugerido por Silva (2002). Esta exportação das zoeas para<br />

a plataforma continental ocorre durante a noite na maré vazante, quando a força da correnteza é<br />

maior (Schwamborn & Bonecker, 1996), justificando as altas <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s observadas principalmente<br />

nas baixa-mares diurnas, na maré seguinte, na área costeira adjacente. Posteriormente, as megalopas<br />

retornam ao ecossistema manguezal on<strong>de</strong> vivem os adultos, sendo esse padrão <strong>de</strong> migração<br />

comumente utilizado para diminuir a predação das larvas nos estuários (Schwamborn, 1997).<br />

Picos sazonais <strong>de</strong> alguns Decapoda po<strong>de</strong>m mudar os padrões temporariamente, e muitas<br />

espécies <strong>de</strong> Brachyura, Cari<strong>de</strong>a e Sergestoida po<strong>de</strong>m ser registradas como dominantes em estuários<br />

da costa brasileira (Tundisi & Matsumura-Tundisi, 1968; Neumann-Leitão, 1995; Schwamborn,<br />

1997; Paranaguá, Nascimento-Vieira, Gusmão, Neumann-Leitão & Schwamborn, 2004).<br />

500<br />

776,8 3925,2 904,5 642,0 1015,3<br />

400<br />

300<br />

200<br />

100<br />

0<br />

00h13<br />

BM<br />

04h50<br />

PM<br />

10h57<br />

BM<br />

16h48<br />

PM<br />

23h36<br />

BM<br />

05h11<br />

PM<br />

11h37<br />

BM<br />

17h13<br />

PM<br />

Brachyura (zoea I ) Brachyura (zoea II ) Brachyura (zoea III )<br />

23h17<br />

BM<br />

Figura 8 - Densida<strong>de</strong> (ind. m -3 ) dos Brachyura no Canal <strong>de</strong> Santa Cruz (Orange), durante os<br />

dias 10 e 11 <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 2001.<br />

42


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Dentre os Copepoda, durante a baixa-mar foi evi<strong>de</strong>nciado um predomínio <strong>de</strong> Acartia<br />

lilljeborgi, com média <strong>de</strong> 1029,26 ind.m -3 (Figura 9). Esta é uma espécie indicadora <strong>de</strong> águas<br />

costeiras e que suporta uma ampla variação <strong>de</strong> salinida<strong>de</strong>, ocorrendo em todos os estuários do Brasil<br />

(Neumann-Leitão, 1994), sendo freqüentemente dominante entre os copepoda estuarinos. Silva,<br />

Neumann-Leitão, Schwamborn, Gusmão & Nascimento-Vieira (2003), também observaram esse<br />

predomínio no canal <strong>de</strong> Santa Cruz.<br />

Temora turbinata, com média <strong>de</strong> 221,54 ind.m -3 , foi a segunda espécie mais representativa<br />

para a baixa-mar. Esta espécie tem gran<strong>de</strong> ocorrência em todo o globo, sendo mais freqüente em<br />

águas costeiras e estuarinas (Björnberg, 1981). Pseudotiaptomus acutus apresentou uma média <strong>de</strong><br />

49,07 ind.m -3 . Esta é uma espécie muito numerosa e em águas <strong>de</strong> baías e manguezais, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a<br />

<strong>de</strong>sembocadura do rio Amazonas até a costa sul do Brasil (Björnberg, 1981).<br />

Para a preamar também houve um predomínio <strong>de</strong> Acartia lilljeborgi, com média <strong>de</strong> 338,70<br />

ind.m -3 , representando 91,78% dos Copepoda. Pseudodiaptomus acutus foi a segunda espécie mais<br />

representativa com média <strong>de</strong> 10,84 ind. m -3 (Figura 9).<br />

3,26% 2,14%<br />

2,94% 5,29%<br />

26,31%<br />

'<br />

68,30%<br />

91,78%<br />

Acartia lilljeborgi Temora turbinata Pseudodiaptomus acutus Outros<br />

Figura 9 - Composição dos Copepoda na baixa-mar (esquerda) e preamar (direita), no Canal<br />

<strong>de</strong> Santa Cruz (Orange), durante os dias 10 e 11 <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 2001.<br />

Labidocera fluviatilis apresentou média <strong>de</strong> 4,44 ind.m -3 . Essa espécie é numerosa e bastante<br />

comum em águas costeiras e estuarinas <strong>de</strong> regiões tropicais e subtropicais da costa sulamericana<br />

(Björnberg, 1981).<br />

Em ambas as marés, foi observado uma gran<strong>de</strong> quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> copepoditos <strong>de</strong> Acartia<br />

lilljeborgi e Pseudotiaptomus acutus, esta última apresentando ainda indivíduos com sacos<br />

ovígeros, evi<strong>de</strong>nciando área favorável ao <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong>ssas espécies.<br />

43


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

ÍNDICES DE DIVERSIDADE E EQÜITABILIDADE<br />

A diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> espécies nas amostras variou <strong>de</strong> baixa a média, com máximo <strong>de</strong> 2,613<br />

bits.ind -1 e mínimo <strong>de</strong> 1,131 bits.ind -1 , nas amostras das 23h17 BM e 17h13 PM, respectivamente.<br />

Outros estudos em estuários pernambucanos mostram valores próximos a estes, po<strong>de</strong>ndo também<br />

apresentar valores maiores que 3 bits.ind -1 em alguns casos (Figura 10). Segundo Neumann-Leitão<br />

(1994) as diversida<strong>de</strong>s mais baixas ocorrem, geralmente, em períodos reprodutivos <strong>de</strong> <strong>de</strong>terminadas<br />

espécies quando uma única espécie passa a dominar a comunida<strong>de</strong>.<br />

Quanto à eqüitabilida<strong>de</strong>, na maior parte das amostras os valores foram maiores que 0,5 ou<br />

estiveram muito próximos a esse valor, <strong>de</strong>monstrando uma eqüitativida<strong>de</strong> média das amostras.<br />

Também pô<strong>de</strong> ser observado que as amostras diurnas, quando comparadas com as noturnas,<br />

apresentaram-se menos eqüitativas, com valores mais distantes <strong>de</strong> 0.5, como a estação 17h13 PM,<br />

com eqüitabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 0,273 (Figura 10), evi<strong>de</strong>nciando o predomínio <strong>de</strong> uma ou poucas espécies.<br />

3<br />

2,5<br />

2<br />

1,5<br />

1<br />

0,5<br />

0<br />

00h13<br />

BM<br />

04h50<br />

PM<br />

10h57<br />

BM<br />

16h48<br />

PM<br />

23h36<br />

BM<br />

5h11<br />

PM<br />

11h37<br />

BM<br />

17h13<br />

PM<br />

23h17<br />

BM<br />

Figura 10 - Diversida<strong>de</strong> (bits.ind -1 ) e Eqüitabilida<strong>de</strong> do zooplâncton no Canal <strong>de</strong> Santa Cruz<br />

(Orange), durante os dias 10 e 11 <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 2001.<br />

ANÁLISE ESTATÍSTICA<br />

O teste-t realizado para comparação das médias das amostras quanto às marés, mostrou a<br />

existência <strong>de</strong> uma diferença significativa entre a baixa-mar e preamar (p=0,04). Essa diferença na<br />

<strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> se faz por uma maior ou menor influência da maré, alterando características importantes<br />

na distribuição das espécies, sendo registrado, na baixa-mar, uma <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> muito maior e uma<br />

diversida<strong>de</strong> menor.<br />

44


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Quanto ao período do dia, não foi observada diferença significativa entre as amostras diurnas<br />

e noturnas (p=0,88).<br />

O Cluster feito para análise <strong>de</strong> similarida<strong>de</strong> entre as amostras (Figura 11), <strong>de</strong>monstrou um<br />

forte agrupamento entre as amostras <strong>de</strong> baixa-mar, diferenciando-as das amostras <strong>de</strong> preamar, como<br />

observado no teste-t.<br />

Figura 11 - Similarida<strong>de</strong> das amostras <strong>de</strong> macrozooplâncton na <strong>de</strong>sembocadura sul do Canal<br />

<strong>de</strong> Santa Cruz (Orange), durante os dias 10 e 11 <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 2001. Índice: Bray e Curtis.<br />

É interessante observar que a maré teve um forte papel estruturador no macrozooplâncton<br />

favorecendo, na baixa-mar, a reprodução e, na preamar, a diversida<strong>de</strong>, quando espécies marinhas<br />

costeiras são introduzidas na área. Por outro lado, a variação nictemeral parece afetar mais as larvas<br />

<strong>de</strong> Decapoda, liberadas geralmente à noite (Dittel & Epifanio, 1990), não havendo diferenças<br />

significativas para o restante da comunida<strong>de</strong> zooplanctônica, principalmente os Copepoda.<br />

CONCLUSÕES<br />

Foram i<strong>de</strong>ntificados 48 taxa, 40 na preamar e 26 na baixa-mar, com domínio <strong>de</strong> Copepoda,<br />

larvas <strong>de</strong> Crustacea Decapoda e Chaetognatha.<br />

Ocorre a dominância <strong>de</strong> organismos holoplanctônicos na baixa-mar, característica <strong>de</strong><br />

população zooplanctônica estuarina. Na preamar há uma alteração <strong>de</strong>sse padrão, pela gran<strong>de</strong><br />

migração <strong>de</strong> Brachyura para a plataforma adjacente.<br />

As altas <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s observadas principalmente nas baixa-mares diurnas evi<strong>de</strong>nciam a<br />

exportação das zoeas para a plataforma continental durante a noite na maré vazante.<br />

45


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Houve variação significativa entre as <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s médias nas duas marés, com a baixa-mar<br />

favorecendo a reprodução e a preamar a diversida<strong>de</strong>.<br />

Não foi observada variação na <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> do zooplâncton quanto ao período do dia,<br />

evi<strong>de</strong>nciando a maré como fator estruturador do macrozooplâncton.<br />

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POLISSACARÍDEOS SULFATADOS DA ALGA Caulerpa sertularioi<strong>de</strong>s (GMEL.) HOWE<br />

ANÁLISE DE METODOLOGIAS DE PRECIPITAÇÃO<br />

SULFATED POLYSACCHARDES OF THE ALGA Caulerpa sertularioi<strong>de</strong>s (GMEL.) HOWE: ANALYSIS OF<br />

METHODS OF PRECIPITATION<br />

José Tarcísio Borges Bezerra NETO 1* ; José Ariévilo Gurgel RODRIGUES 1 ; Grazielle da Costa PONTES 1 ;<br />

Wladimir Ronald Lobo FARIAS 1<br />

1 Depto <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, Laboratório <strong>de</strong> Bioquímica Marinha, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Ceará<br />

*Email: tarcisio_bb@hotmail.com<br />

Recebido em: 16 <strong>de</strong> outubro <strong>de</strong> 2007<br />

Resumo - Os polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados (PS) são macromoléculas encontradas em muitos organismos na<br />

natureza e suas proprieda<strong>de</strong>s biológicas têm <strong>de</strong>spertado gran<strong>de</strong> interesse nas ciências médicas. No<br />

entanto, o emprego <strong>de</strong> diferentes métodos <strong>de</strong> extração influencia o rendimento final <strong>de</strong> PS.<br />

Avaliou-se a eficiência <strong>de</strong> dois métodos <strong>de</strong> precipitação (M I e M II) <strong>de</strong> PS da alga marinha ver<strong>de</strong><br />

Caulerpa sertularioi<strong>de</strong>s, comparando-se a extração, o fracionamento e a ativida<strong>de</strong> anticoagulante.<br />

Inicialmente, os PS totais foram extraídos através <strong>de</strong> digestão enzimática, sendo realizadas três<br />

extrações. Em seguida, os PS foram precipitados com uma solução <strong>de</strong> cloreto <strong>de</strong> cetilpiridinio a<br />

10% (M I) e álcool absoluto (M II). Os extratos foram aplicados em uma coluna <strong>de</strong> troca iônica<br />

DEAE-celulose da qual foram obtidas frações em diferentes concentrações <strong>de</strong> NaCl. A ativida<strong>de</strong><br />

anticoagulante foi avaliada através do Tempo <strong>de</strong> Tromboplastina Parcial Ativada (TTPA)<br />

utilizando plasma humano normal, sendo o tempo <strong>de</strong> coagulação <strong>de</strong>terminado em um<br />

coagulômetro. Os resultados mostraram que tanto o rendimento como os perfis cromatrográficos<br />

foram semelhantes entre os métodos, <strong>de</strong>notando a eficiência das metodologias na obtenção<br />

possivelmente do mesmo grupo <strong>de</strong> moléculas. A espécie apresentou um baixo potencial<br />

anticoagulante, on<strong>de</strong> a fração eluída com 0,9 M <strong>de</strong> sal foi a mais ativa (M I e M II), prolongando o<br />

tempo <strong>de</strong> coagulação <strong>de</strong> 1,9 (1 a extração) para 2,12 vezes na 2 a extração no M I. No entanto, esta<br />

ativida<strong>de</strong> reduziu-se significativamente para apenas 1,22 vezes na 3 a extração, possivelmente pelo<br />

<strong>de</strong>créscimo da proprieda<strong>de</strong> metacromática em ambos os métodos. Desta forma, a utilização <strong>de</strong><br />

apenas etanol seria uma forma mais econômica <strong>de</strong> obtenção <strong>de</strong>sses compostos para avaliação <strong>de</strong><br />

outras ativida<strong>de</strong>s biológicas em C. sertularioi<strong>de</strong>s.<br />

Palavras-Chave: Clorofícea Caulerpaceae, Caulerpales, macromoléculas sulfatadas, ativida<strong>de</strong> biológica.<br />

Abstract - The sulfated polysacchari<strong>de</strong>s (SP) are macromolecules found in many organisms in nature and<br />

their biological properties have aroused great interest in medical science. However, the use of<br />

different methods of extraction influences the SP final yield. It was evaluated the efficience of the<br />

two methods of precipitation (M I and M II) of SP from marine green alga Caulerpa sertularioi<strong>de</strong>s<br />

comparing the extraction, fractionation and anticoagulant activity. Initially, the PS total were<br />

extracted by enzymatic digestion, and ma<strong>de</strong> three extractions. Then, the SP were precipitated with a<br />

solution of cetylpyridinium chlori<strong>de</strong> to 10% (MI) and absolute alcohol (M II). The extracts were<br />

applied to a column of ion exchange DEAE - cellulose from which were obtained fractions in<br />

different concentrations of NaCl. The anticoagulant activity was evaluated by Activated Partial<br />

Thromboplastin Time (APTT) using normal human plasma, and the clotting time in a<br />

coagulometer. The results showed that both the yield and the chromatrografic profiles were similar<br />

between the methods, <strong>de</strong>noting the efficiency of the methods in obtaining the same group of<br />

molecules. The species presented a low potential anticoagulant, where the fraction eluted with 0.9<br />

M of salt was the most active (M I and M II), extending the time coagulation of 1.9 (1 a extraction)<br />

to 2.12 times in the 2nd extraction in M I. However, this activity is significantly reduced to only<br />

1.22 times in the 3rd extraction, possibly by the <strong>de</strong>cline of the metacromatic property in both<br />

methods. Thus, the only use of ethanol would be a more economical way of obtaining these<br />

compounds for evaluation of other biological activities in C. sertularioi<strong>de</strong>s.<br />

Keywords: Clorofícea Caulerpaceae, Caulerpales, sulfated macromolecules, biological activity.


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

INTRODUÇÃO<br />

A biodiversida<strong>de</strong> marinha brasileira favorece a <strong>de</strong>scoberta <strong>de</strong> produtos naturais com<br />

proprieda<strong>de</strong>s biológicas diversas. Bactérias, fungos, algas, invertebrados e vertebrados marinhos são<br />

fontes naturais <strong>de</strong> novos agentes farmacológicos. O isolamento e a avaliação biológica dos<br />

diferentes compostos encontrados nesses organismos têm <strong>de</strong>spertado gran<strong>de</strong> interesse na clínica<br />

médica (Teixeira, 2002).<br />

As algas marinhas são fontes naturais <strong>de</strong> macromoléculas conhecidas como polissacarí<strong>de</strong>os<br />

sulfatados (PS). Esses compostos são ainda encontrados em tecidos animais (vertebrados e<br />

invertebrados) (Mathews, 1975; Cássaro & Dietrich, 1977) e vegetais (algas e gramíneas marinhas)<br />

(Painter, 1983; Hussein, Helmy & Salem, 1998; Aquino, Lan<strong>de</strong>ira-Ferdan<strong>de</strong>z, Valente, Andra<strong>de</strong> &<br />

Mourão, 2005), formando, em sua maioria, agregados complexos <strong>de</strong>nominados proteoglicanos.<br />

PS encontrados nas algas marinhas pardas (Phaeophyceae) po<strong>de</strong>m estar na forma <strong>de</strong> fucanas,<br />

<strong>de</strong> galactanas nas algas vermelhas (Rhodophyceae) e, nas algas ver<strong>de</strong>s (Chlorpphyceae), os mais<br />

encontrados são as arabino-galactanas (Percival & Mcdowel, 1967). Nos animais, os proteoglicanos<br />

são conhecidos como glicosaminoglicanos sendo representados pelo ácido hialurônico, condroitim<br />

sulfato, heparam sulfato, queratam sulfato, <strong>de</strong>rmatam sulfato e heparina (Kjellén & Lindahal, 1991).<br />

O interesse no estudo <strong>de</strong>ssas macromoléculas é justificado <strong>de</strong>vido aos efeitos adversos da<br />

heparina. Esse PS é mundialmente utilizado como agente anticoagulante e antitrombótico na<br />

prevenção e tratamento <strong>de</strong> trombose venosa. Entretanto, seu uso é limitado <strong>de</strong>vido aos riscos <strong>de</strong><br />

sangramento, queda plaquetária e viral (Thomas, 1997) em pacientes com estado <strong>de</strong><br />

hipercoagulapatia ou sujeitos à trombose causada por diferentes etiologias (Weizt, 1994). Embora<br />

se tenha <strong>de</strong>senvolvido heparina <strong>de</strong> baixo peso molecular, administrações elevadas da droga ainda<br />

induzem a fatores <strong>de</strong> risco (Doutremepuich, Azougagh Oualane, Doutremepuich & Fareed, 1996).<br />

O estudo com diferentes PS presentes em algas marinhas tem <strong>de</strong>monstrado que a<br />

conformação estrutural varia <strong>de</strong> espécie para espécie, o que resulta em diferentes ativida<strong>de</strong>s<br />

anticoagulantes (Dietrich et al., 1995; Haroun-Bouhedja, Mostafa, Sinquin & Boisson-Vidal, 2000).<br />

PS extraídos das algas marinhas vermelhas Iridaea laminarioi<strong>de</strong>s (Chargaff, Bancroft & Stanley-<br />

Brown, 1936), Gigartina accicularis, Chondrus crispus (Di Rosa, 1972), Botryocladia occi<strong>de</strong>ntalis<br />

(Farias, Valente, Pereira & Mourão, 2000) e Gelidium crinale (Pereira, et al., 2005) apresentaram<br />

potentes ativida<strong>de</strong>s anticoagulantes. Proprieda<strong>de</strong>s anticoagulantes também foram <strong>de</strong>scritas para as<br />

algas marinhas pardas Ecklonia cava e Sargassum horneri (Athukorala, Jung, Asanthan & Jeon,<br />

2006; Athukorala, Lee, Kim & Jeon, 2007) e as ver<strong>de</strong>s Codium cylindricum, C. fragile e<br />

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Monostroma latissimum (Matsubara, Matsuura, Basic, Liao, Hori & Miyazawa, 2001; Athukorala,<br />

Lee, Kim & Jeon, 2007; Zhang, et al., 2008). No entanto, o emprego <strong>de</strong> diferentes metodologias <strong>de</strong><br />

extração (Villanueva, Pagba, & Montano 1997; Marinho-Soriano, 2001), a variação sazonal e a<br />

utilização <strong>de</strong> diferentes espécies (Levring, Hoppe & Schmid, 1969; Bird, 1988) influenciam o<br />

rendimento e a ativida<strong>de</strong> biológica (Rodrigues & Farias, 2005).<br />

As algas marinhas ver<strong>de</strong>s é um diversificado grupo <strong>de</strong> organismos fotossintéticos em padrões<br />

morfológicos, estruturais e reprodutivos (Hoek et al., 1995). O gênero Caulerpa é constituído por<br />

algas marinhas ver<strong>de</strong>s bentônicas dotadas <strong>de</strong> um talo rastejante formado por uma porção rizomatosa<br />

que se expan<strong>de</strong> ao longo do substrato, fixando-se através <strong>de</strong> estruturas <strong>de</strong>nominadas rizói<strong>de</strong>s (Joly,<br />

1965; Sze, 1997). Muitas espécies do gênero são encontradas no litoral brasileiro (Joly, 1965) e<br />

alguns trabalhos relatam proprieda<strong>de</strong>s biológicas, tais como antiviral e anticoagulante (Ghosh et al.,<br />

2004; Rodrigues & Farias, 2005).<br />

O presente estudo teve como objetivo extrair, fracionar e avaliar a ativida<strong>de</strong> anticoagulante<br />

dos polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados da alga marinha ver<strong>de</strong> Caulerpa sertularioi<strong>de</strong>s utilizando duas<br />

metodologias <strong>de</strong> precipitação, contribuindo assim com a bioprospecção <strong>de</strong> novas macromoléculas<br />

anticoagulantes.<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

COLETA E TRATAMENTO PRELIMINAR DA ALGA MARINHA C. sertularioi<strong>de</strong>s<br />

Os exemplares da macroalga marinha ver<strong>de</strong> C. sertulaioi<strong>de</strong>s foram coletados na Praia do<br />

Pacheco - Ceará e armazenados em sacos plásticos, sendo conduzidos ao Laboratório <strong>de</strong><br />

Bioquímica Marinha da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Ceará do Departamento <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>.<br />

Em laboratório, o material foi lavado com água <strong>de</strong>stilada para a total retirada do sal, areia e<br />

organismos incrustantes e/ou epífitas. Em seguida, a alga foi seca ao sol e cortada em pequenos<br />

pedaços para extração dos PS.<br />

EXTRAÇÃO DOS POLISSACARÍDEOS SULFATADOS<br />

As extrações foram realizadas a partir <strong>de</strong> duas metodologias, diferindo apenas quanto ao uso<br />

do agente precipitante <strong>de</strong> PS.<br />

MÉTODO I<br />

Os PS totais (M I) foram obtidos <strong>de</strong> acordo com Farias, Valente, Pereira & Mourão (2000).<br />

Inicialmente, 2 gramas da alga seca foram hidratadas com 100 mL <strong>de</strong> tampão acetato <strong>de</strong> sódio 100<br />

mM, pH 5,0 + EDTA 5mM + cisteína 5mM. Em seguida, foram adicionados 6,8 mL <strong>de</strong> solução <strong>de</strong><br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

papaína bruta (30 mg mL -1 ), sendo a mistura incubada em banho-maria a 60 o C por 24 horas. Após<br />

esse período, o material foi filtrado (60 µm), centrifugado (7.965 x g; 4 ºC) e, ao sobrenadante,<br />

foram adicionados 6,4 mL <strong>de</strong> cloreto <strong>de</strong> cetilpiridínio (CPC) a 10% para a precipitação dos<br />

polissacarí<strong>de</strong>os presentes na mistura por, no mínimo, 24 horas à temperatura ambiente. Logo após a<br />

precipitação, o precipitado foi lavado com 200 mL <strong>de</strong> CPC 0,05% sendo, em seguida, dissolvido em<br />

70 mL <strong>de</strong> cloreto <strong>de</strong> sódio 2 M:etanol absoluto (100:15; v/v) e submetido a uma nova precipitação<br />

por, no mínimo, 24 horas a 4°C, através da adição <strong>de</strong> mais 122 mL <strong>de</strong> etanol absoluto.<br />

Posteriormente o material foi centrifugado e submetido a duas lavagens com 200 mL <strong>de</strong> etanol a<br />

80% e uma com 120 mL <strong>de</strong> etanol absoluto. Após esta etapa, o precipitado foi então levado à estufa<br />

a 60°C, por um período aproximado <strong>de</strong> 24 horas para secagem e obtenção do extrato bruto.<br />

MÉTODO II<br />

Os PS totais (M II) foram obtidos segundo Rodrigues & Farias (2005). Inicialmente, 2 g da<br />

alga seca e triturada foram hidratados com 100 mL <strong>de</strong> tampão acetato <strong>de</strong> sódio 100 mM, pH 5,0 +<br />

cisteína 5 mM e EDTA 5mM. Em seguida, foram adicionados 6,8 mL <strong>de</strong> uma solução <strong>de</strong> papaína<br />

bruta (30 mg mL -1 ), sendo a mistura incubada em banho-maria a 60°C por 24 horas. Após a<br />

incubação, o material foi filtrado (60 µm), centrigugado e, ao sobrenadante, acrescentados três<br />

volumes <strong>de</strong> etanol absoluto gelado para precipitação dos PS (48 h) em freezer. Em seguida, o<br />

material foi centrifugado e submetido a duas lavagens com 200 mL <strong>de</strong> etanol 80% e uma vez com<br />

120 mL <strong>de</strong> etanol absoluto. Finalmente, o extrato foi seco em estufa (60 o C; 24 h) para obtenção dos<br />

polissacarí<strong>de</strong>os totais.<br />

Os resíduos obtidos <strong>de</strong> ambas as metodologias foram submetidos a novas extrações a fim <strong>de</strong><br />

otimizar o rendimento.<br />

FRACIONAMENTO DOS POLISSACARÍDEOS SULFATDOS EM COLUNA DE TROCA-IÔNICA DEAE-CELULOSE<br />

Os extratos totais <strong>de</strong> PS obtidos <strong>de</strong> ambos os métodos foram dissolvidos (1 mg mL -1 ) em<br />

tampão acetato <strong>de</strong> sódio 0,1 M, pH 5,0 + cisteína 5 mM e EDTA 5 mM (AcONa) e aplicados em<br />

uma coluna <strong>de</strong> DEAE-celulose <strong>de</strong> troca iônica (6,5 x 1,5 cm) acoplada a um coletor <strong>de</strong> frações<br />

equilibrada com o mesmo tampão (Rodrigues & Farias, 2005). A coluna foi eluída, passo a passo,<br />

com soluções <strong>de</strong> diferentes concentrações <strong>de</strong> NaCl (0,50; 0,70; 0,90; 1,20; 1,40 e 1,60 M) também<br />

preparadas no mesmo tampão <strong>de</strong> equilíbrio. O fluxo da coluna foi <strong>de</strong> 60 mL h -1 , sendo coletadas<br />

frações <strong>de</strong> 1 mL. Os PS foram monitorados através <strong>de</strong> alíquotas <strong>de</strong> 200 µL da fração pela reação<br />

metacromática com 1 mL <strong>de</strong> 1,9-azul-dimetilmetileno (ADM), utilizando um espectrofotômetro<br />

com comprimento <strong>de</strong> onda ajustado em 525 nm.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

CARBOIDRATO TOTAL (CT) DAS FRAÇÕES<br />

A presença <strong>de</strong> CT nas frações foi <strong>de</strong>terminada pelo método fenol-sulfúrico <strong>de</strong>scrito por<br />

Dubois, Gilles, Hamilton, Rebers & Smith (1956).<br />

ENSAIOS ANTICOAGULANTES<br />

Os testes anticoagulantes foram realizados in vitro através do Tempo <strong>de</strong> Tromboplastina<br />

Parcial Ativada (TTPA) segundo An<strong>de</strong>rson, Barrowcliffe, Holmer, Johnson & Sims (1976)<br />

utilizando plasma humano citratado obtido <strong>de</strong> cinco diferentes doadores. Primeiramente, o sangue<br />

foi centrifugado (73,75 x g; 15 min) para a obtenção <strong>de</strong> um plasma pobre em plaquetas. Para a<br />

realização do teste, foram incubados a 37 °C por 3 minutos, 50 µL <strong>de</strong> plasma humano, 50 µL <strong>de</strong><br />

cefalina ativada (Celite Biolab) e 10 µL <strong>de</strong> solução <strong>de</strong> PS. Após a incubação, foram adicionados 50<br />

µL <strong>de</strong> cloreto <strong>de</strong> cálcio 0,025 M à mistura para ativar a cascata <strong>de</strong> coagulação. Os testes foram<br />

realizados em duplicata (picos das frações), sendo o tempo <strong>de</strong> coagulação <strong>de</strong>terminado<br />

automaticamente pelo coagulômetro (Drake, mo<strong>de</strong>lo Quick-timer) e utilizando a heparina (marca<br />

Cristália) como padrão.<br />

RESULTADOS<br />

RENDIMENTO<br />

No total, foram realizadas três extrações para cada método (M I e M II) (Figura 1). Os<br />

rendimentos foram bem semelhantes entre si e <strong>de</strong>crescentes no <strong>de</strong>correr das extrações <strong>de</strong> PS,<br />

totalizando apenas 7,10 (M I) e 8,10% (M II), respectivamente. No entanto, a maior quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />

PS foi obtida durante a 1 a extração, sendo maior no M II quando comparado ao M I.<br />

Rendimento (%)<br />

5,0<br />

4,5<br />

4,0<br />

3,5<br />

3,0<br />

2,5<br />

2,0<br />

1,5<br />

1,0<br />

0,5<br />

0,0<br />

1 2 3<br />

Número <strong>de</strong> extrações (%)<br />

MI<br />

MII<br />

Figura 1 - Rendimentos, por extração, dos extratos brutos obtidos nos M I e M II da alga<br />

marinha ver<strong>de</strong> Caulerpa sertularioi<strong>de</strong>s.<br />

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Trabalhos envolvendo a extração <strong>de</strong> PS <strong>de</strong> algas marinhas <strong>de</strong>monstram que as espécies<br />

vermelhas são bastante ricas em PS e que o rendimento também difere segundo a metodologia e a<br />

espécie utilizada. Extrações enzimáticas utilizando precipitação com CPC (M I) <strong>de</strong> PS das algas<br />

marinhas vermelhas Champia feldmanii (Torres, 2005), Solieria filiformis (Pontes, 2005) e espécies<br />

do gênero Halymenia (Rodrigues & Farias, 2006) apresentaram rendimentos bastante significativos<br />

(36,2; 46,8; 47,14 e 53,96%, respectivamente) quando daqueles obtidos da alga marinha ver<strong>de</strong> C.<br />

racemosa (13%) por Rodrigues & Farias (2005) e da alga marinha parda Lobophora variegata<br />

(28,4%) (Alencar, 2007). Métodos ácidos são muito empregados para algas pardas (Chotigeat,<br />

Tongsupa, Supamataya & Phongdara, 2004) e os aquosos também têm sido amplamente utilizados<br />

pelo seu menor custo (Marinho-Soriano, 2001; Ghosh et al., 2004; Zhang et al., 2008). Os<br />

rendimentos obtidos pelos M I e M II <strong>de</strong> C. sertularioi<strong>de</strong>s foram bem menores que os trabalhos<br />

acima supracitados, mas semelhantes comparados a C. racemosa (Rodrigues & Farias, 2005),<br />

indicando talvez que o gênero seja pouco produtor <strong>de</strong> PS. O emprego <strong>de</strong> diferentes metodologias <strong>de</strong><br />

extração (Villanueva, Pagba & Montano, 1997; Marinho-Soriano, 2001), a variação sazonal e a<br />

utilização <strong>de</strong> diferentes espécies (Levring, Hoppe & Schmid, 1969; Bird, 1988) influenciam no<br />

rendimento final.<br />

Neste trabalho, o <strong>de</strong>créscimo no rendimento (M I e M II) no <strong>de</strong>correr das extrações <strong>de</strong> PS<br />

<strong>de</strong> C. sertularioi<strong>de</strong>s foi bastante semelhante quando comparado a outras espécies. Rodrigues &<br />

Farias (2006) observaram <strong>de</strong>créscimos no rendimento entre as extrações <strong>de</strong> PS <strong>de</strong> duas espécies<br />

vermelhas do gênero Haymenia utilizando o M I. A alga ver<strong>de</strong> C. racemosa também teve o mesmo<br />

comportamento quando empregadas às duas metodologias <strong>de</strong> precipitação utilizadas para C.<br />

sertularioi<strong>de</strong>s. No entanto, a referida espécie diferiu quanto ao número <strong>de</strong> extratos obtidos. O<br />

aumento ou diminuição no rendimento também po<strong>de</strong> variar <strong>de</strong> espécie para espécie. Torres (2005)<br />

observou que o rendimento aumentou no <strong>de</strong>correr do processo <strong>de</strong> otimização dos PS da alga<br />

marinha vermelha C. feldmanii, fato também observado por Pereira, Rodrigues & Farias (2006) e<br />

Alencar (2007), após estudos com duas espécies da divisão Phaeophyta. O estudo <strong>de</strong> diferentes<br />

métodos <strong>de</strong> extração <strong>de</strong> PS é justificado pelas proprieda<strong>de</strong>s espessantes e gelidificantes <strong>de</strong>sses<br />

compostos, as quais lhes agregam consi<strong>de</strong>rável valor comercial (Glichsman, 1983).<br />

FRACIONAMENTO DOS PS<br />

Os perfis cromatográficos dos PS foram semelhantes entre os métodos. Na 1 a extração (M I)<br />

foi separada cinco frações eluídas com 0,5; 0,7; 0,9; 1,2 e 1,4 M <strong>de</strong> NaCl, das quais a 0,9 e 1,2 M<br />

apresentaram as maiores metacromasias (Figura 2, A). Este comportamento praticamente se<br />

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manteve em comparação as 2 a e 3 a extrações (Figuras 2, B e C). O M II também apresentou<br />

cromatogramas semelhantes entre si (Figuras 2, D; E e F) e quando comparados ao M I,<br />

<strong>de</strong>monstrando a prepon<strong>de</strong>rância <strong>de</strong> apenas duas frações <strong>de</strong> PS nos diferentes extratos <strong>de</strong> C.<br />

sertularioi<strong>de</strong>s. Nas duas metodologias foi observada uma gran<strong>de</strong> presença <strong>de</strong> carboidratos (Dubois),<br />

possivelmente em razão da extração <strong>de</strong> polissacarí<strong>de</strong>os neutros.<br />

O comportamento praticamente único nos perfis <strong>de</strong> PS <strong>de</strong> C. sertularioi<strong>de</strong>s foram diferentes<br />

daqueles mostrados por Rodrigues & Farias (2005), Rodrigues & Farias (2006) e Alencar (2007). A<br />

razão encontrada para as alterações marcantes nos cromatogramas das espécies Halymenia sp e L.<br />

variegata seria a possível extração <strong>de</strong> PS mais diferenciados, <strong>de</strong> certa forma comprovada, quando o<br />

grau <strong>de</strong> purificação <strong>de</strong>ssas moléculas aumentou no <strong>de</strong>correr do processo <strong>de</strong> extrações sucessivas.<br />

No entanto, como foi possível observar, a extração <strong>de</strong> PS <strong>de</strong> C. sertularioi<strong>de</strong>s resultou em<br />

semelhanças entre as extrações, <strong>de</strong>monstrando a eficiência dos métodos na precipitação do mesmo<br />

grupo <strong>de</strong> moléculas. Assim, tais semelhanças ou diferenças no fracionamento <strong>de</strong> PS <strong>de</strong> algas<br />

marinhas também seriam <strong>de</strong>terminadas <strong>de</strong> espécie para espécie.<br />

ATIVIDADE ANTICOAGULANTE<br />

A espécie apresentou frações com ativida<strong>de</strong> anticoagulante em ambos os métodos (Tabela<br />

1). A fração eluída com 0,9 M <strong>de</strong> sal foi a mais ativa (M I e M II), prolongando o tempo <strong>de</strong><br />

coagulação do plasma <strong>de</strong> 1,9 (1 a extração) para 2,12 vezes na 2 a extração no M I. No entanto, esta<br />

ativida<strong>de</strong> reduziu-se significativamente para apenas 1,22 vezes na 3 a extração, possivelmente pelo<br />

<strong>de</strong>créscimo da metacromasia. No M II, a ativida<strong>de</strong> anticoagulante da referida fração também sofreu<br />

um <strong>de</strong>créscimo, muito semelhante ao M I, quando também a redução da metacromasia resultou na<br />

diminuição da ativida<strong>de</strong> no <strong>de</strong>correr das extrações. No entanto, as ativida<strong>de</strong>s das frações obtidas nos<br />

M I e M II foram inferiores a heparina.<br />

Esses resultados sugerem que é possível extrair frações com ativida<strong>de</strong> anticoagulante<br />

diferenciadas, utilizando diferentes extrações do mesmo material. Tal fato também foi comprovado<br />

por Rodrigues & Farias (2005), quando duas diferentes frações obtidas na 4 a extração (M II)<br />

exibiram significativas ativida<strong>de</strong>s anticoagulantes, prolongando em aproximadamente 6,5 vezes o<br />

tempo normal do plasma. Torres (2005) relatou que extrações sucessivas <strong>de</strong> PS utilizando os M I e<br />

M II obteve diferentes valores nos tempos <strong>de</strong> TTPA da espécie vermelha C. feldimanii. As maiores<br />

ativida<strong>de</strong>s anticoagulantes foram observadas em duas frações eluídas com 1,2 e 1,4 M <strong>de</strong> NaCl na<br />

4 a extração pelo método M I (CPC), prolongando os tempos <strong>de</strong> coagulação em cerca <strong>de</strong> 6,4 e 4,8<br />

vezes, respectivamente. Esses fatos são importantes, já que todos os trabalhos que envolvem<br />

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Figura 2 - Cromatografia em DEAE-celulose, por extração, dos polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados<br />

obtidos pelos métodos I (A, B e C) e II (D, E e F) da alga marinha ver<strong>de</strong> Caulerpa<br />

sertularioi<strong>de</strong>s.<br />

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extração <strong>de</strong> PS ou utilizam apenas uma extração ou reúnem os produtos obtidos <strong>de</strong> mais <strong>de</strong> uma<br />

extração para um único material. O uso da técnica <strong>de</strong> extrações sucessivas po<strong>de</strong> resultar na obtenção<br />

<strong>de</strong> PS diferenciados que expressem diferentes valores <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong> na busca <strong>de</strong> novos fármacos<br />

(Rodrigues & Farias, 2006).<br />

Tabela 1 - Ativida<strong>de</strong> anticoagulante (TTPA) dos picos das frações obtidas no fracionamento<br />

dos PS (M I e M II) da alga marinha Caulerpa sertularioi<strong>de</strong>s em relação à heparina.<br />

1 a Extração 2 a Extração 3 a Extração<br />

Frações<br />

** TTPA ** TTPA ** TTPA<br />

-1<br />

-1<br />

-1<br />

-1<br />

-1<br />

-1<br />

NaCl (---) M I T 1 T 0 M II T 1 T 0 M I T 1 T 0 M II T 1 T 0 M I T 1 T 0 M II T 1 T 0<br />

0,7 M 39,5 1,03 43,7 1,14 38,9 1,01 * * 41,9 1,09 * *<br />

0,9 M 73,1 1,90 70,0 1,82 81,3 2,12 55,2 1,44 47,2 1,23 48,7 1,27<br />

1,2 M 45,3 1,18 48,8 1,27 51,6 1,34 48,4 1,26 46,8 1,22 43,3 1,13<br />

1,4 M * * * * 46,2 1,20 * * 45,8 1,19 * *<br />

1,6 M * * * * 46,7 1,21 48,0 1,25 * * 49,1 1,28<br />

Plasma<br />

38,4 s<br />

Heparina 1 µL (> 240 s) / T 1 T -1 0 (> 6,25)<br />

Resultados da média <strong>de</strong> duas <strong>de</strong>terminações;<br />

* Valores não <strong>de</strong>terminados;<br />

** TTPA em segundos;<br />

Essa diferenciação na ativida<strong>de</strong> po<strong>de</strong>rá ser melhor entendida através da elucidação dos<br />

mecanismos <strong>de</strong> ação envolvidos na coagulação e também através da caracterização estrutural <strong>de</strong>sses<br />

polímeros. Farias, Valente, Pereira & Mourão (2000) reportaram acentuada ativida<strong>de</strong> anticoagulante<br />

<strong>de</strong> uma D-galactana sulfatada extraída da alga marinha vermelha B. occi<strong>de</strong>ntalis. A ativida<strong>de</strong> foi<br />

mediada pela inibição da trombina via antitrombina e cofator II da heparina. Além disso, esse<br />

polissacarí<strong>de</strong>o também apresentou uma potente ativida<strong>de</strong> antitrombótica em ratos, quando a dose <strong>de</strong><br />

0,2 mg kg -1 expressou seu efeito máximo pelo mo<strong>de</strong>lo intravenoso (Farias, Nazareth & Mourão,<br />

2001), <strong>de</strong>monstrando que um mesmo composto po<strong>de</strong> exibir diferentes ativida<strong>de</strong>s biológicas.<br />

Recentemente, Zhang et al. (2008) mostraram que PS extraídos da alga marinha ver<strong>de</strong> M.<br />

latissimum exibiram diferentes efeitos anticoagulantes quando o tamanho molecular foi reduzido,<br />

indicando que a ativida<strong>de</strong> também po<strong>de</strong> ser <strong>de</strong>terminada pelo tamanho do composto na inibição<br />

mais efetiva da trombina. A <strong>de</strong>terminação estrutural <strong>de</strong>ssas moléculas é uma estratégia para elucidar<br />

o efeito anticoagulante (Farias, Valente, Pereira & Mourão, 2000).<br />

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Assim, a otimização do rendimento pela utilização <strong>de</strong> dois métodos <strong>de</strong> precipitação <strong>de</strong> PS<br />

da alga marinha ver<strong>de</strong> C. sertularioi<strong>de</strong>s resultou em frações com ativida<strong>de</strong> anticoagulante.<br />

CONCLUSÕES<br />

A alga marinha ver<strong>de</strong> Caulerpa sertularioi<strong>de</strong>s apresentou um baixo potencial<br />

anticoagulante. No entanto, as metodologias empregadas para precipitação dos polissacarí<strong>de</strong>os<br />

sulfatados resultaram em perfis comparativamente semelhantes. Desta forma, a utilização <strong>de</strong> apenas<br />

etanol seria uma forma mais econômica <strong>de</strong> obtenção <strong>de</strong>sses compostos para avaliação <strong>de</strong> outras<br />

ativida<strong>de</strong>s biológicas.<br />

AGRADECIMENTOS<br />

Ao Conselho Nacional <strong>de</strong> Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio<br />

financeiro para a realização <strong>de</strong>sta pesquisa.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

AGREGANDO VALOR AO PESCADO DE ÁGUA DOCE: DEFUMAÇÃO DE FILÉS DE<br />

JUNDIÁ (Rhamdia quelen)<br />

ADDING VALUE TO FRESHWATER FISH: SMOKING FILLETS OF JUNDIÁ<br />

Alex Augusto GONÇALVES 1* ; Renata CEZARINI 2<br />

1 Instituto <strong>de</strong> Ciência e Tecnologia <strong>de</strong> Alimentos, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Rio Gran<strong>de</strong> do Sul.<br />

2 Engenheira <strong>de</strong> Alimentos – Universida<strong>de</strong> do Vale do Rio dos Sinos.<br />

* Email: alaugo@gmail.com<br />

Recebido em: 7 <strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> 2007<br />

Resumo - Este trabalho teve, como principal objetivo, elaborar um produto <strong>de</strong>fumado a base <strong>de</strong><br />

peixe, tomando como referência o Jundiá, peixe <strong>de</strong> água doce, abundante na Região Sul<br />

do Brasil. As formas <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação abordadas neste trabalho foram: <strong>de</strong>fumação<br />

tradicional e <strong>de</strong>fumação líquida. A matéria-prima e o produto final foram analisados<br />

microbiologicamente <strong>de</strong> acordo com a legislação vigente, estando em conformida<strong>de</strong> com<br />

os parâmetros exigidos. Foi realizada uma análise sensorial <strong>de</strong> aceitação do produto<br />

final, a qual obteve uma diferença significativa entre os dois métodos <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação<br />

empregados. O produto que obteve as melhores notas foi o <strong>de</strong>fumado com fumaça<br />

líquida. Foram realizadas análises físico-químicas (umida<strong>de</strong>, proteína, lipídio e cinza). O<br />

pescado <strong>de</strong>fumado tradicionalmente obteve um rendimento <strong>de</strong> 18,3% com teores <strong>de</strong><br />

umida<strong>de</strong> (57,35±1,21%), cinza (3,62±0,37%), proteína (28,91±0,93%) e lipídio<br />

(2,71±0,25%), já o pescado <strong>de</strong>fumado com aroma <strong>de</strong> fumaça obteve um maior<br />

rendimento (20,32%), com teores <strong>de</strong>: umida<strong>de</strong> (58,94±0,20%), cinza (3,58±0,07%),<br />

proteína (31,64±1,07%) e lipídio (2,73±0,29%). Os resultados obtidos comprovam a<br />

viabilida<strong>de</strong> da <strong>de</strong>fumação do Jundiá.<br />

Palavras-chave: jundiá, <strong>de</strong>fumação, <strong>de</strong>fumação líquida<br />

Abstract - The objective of the work was to elaborate a smoked fish with Rhamdia quelen (also<br />

known as ‘Jundiá’), a fresh water’s fish, abundant in the south of Brazil. The smoke<br />

types of smoking consi<strong>de</strong>red in this work were: traditional smoking and liquid smoking.<br />

The raw material and the final product were analyzed microbiologically according to<br />

current legislation, and were in conformed to the required parameters. A sensorial<br />

analysis of acceptance was ma<strong>de</strong>, which obtained a significant difference between the<br />

two smoking process as used. The product that obtained the best gra<strong>de</strong>s was the liquid<br />

smoking process. Physical-chemical analyses were performed (moisture, protein, lipid<br />

and ash). The traditionally smoked fish obtained a yield of 18,3% with moisture content<br />

(57,35±1,21%), ash (3,62±0,37%), protein (28,91±0,93%) and lipid (2,71±0,25), while<br />

the liquid smoked fish obtained a higher yield (20,32%), with moisture content<br />

(58,94±0,20%), ash (3,58±0,07%), protein (31,64±1,07%) and lipid (2,73±0,29%). The<br />

results confirm the viability of jundiá smoking process.<br />

Key-words: jundiá, smoking, liquid smoking<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

INTRODUÇÃO<br />

Em nosso país, a exploração e uso do pescado não alcançam os benefícios nutricionais e<br />

econômicos que <strong>de</strong>les se espera. Uma alternativa para dar acesso ao pescado e melhorar os níveis<br />

nutricionais da população é propiciar o consumo <strong>de</strong> produtos curados, cujo custo <strong>de</strong> produção é<br />

baixo comparado a outras formas <strong>de</strong> conservação (Gonçalves & Prentice-Hernán<strong>de</strong>z, 1998a;<br />

Oetterer, 1998).<br />

A <strong>de</strong>fumação <strong>de</strong> peixes é empregada com finalida<strong>de</strong>s preservativas, bem como para<br />

obtenção <strong>de</strong> um produto característico por suas qualida<strong>de</strong>s sensoriais sui generis, <strong>de</strong> excelente<br />

palatabilida<strong>de</strong>. O método <strong>de</strong> geração <strong>de</strong> fumaça e do processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação utilizado tem uma<br />

gran<strong>de</strong> influência nas características sensoriais do produto final (Horner, 1992; Gonçalves, 1998;<br />

Hattula et al., 2001; Sérot et al., 2004; Cardinal et al., 2006).<br />

A <strong>de</strong>fumação <strong>de</strong> alimentos por meio <strong>de</strong> aspersão <strong>de</strong> fumaça (<strong>de</strong>fumação convencional) está<br />

sendo substituída cada vez mais pelo emprego do aroma líquido <strong>de</strong> fumaça (fumaça líquida),<br />

principalmente pela ausência <strong>de</strong> compostos cancerígenos e pelo mesmo perfil aromático da fumaça<br />

tradicional. O âmbito <strong>de</strong> aplicação das fumaças líquidas é muito amplo, po<strong>de</strong>ndo-se esten<strong>de</strong>r por<br />

sua gran<strong>de</strong> versatilida<strong>de</strong>, a uma gran<strong>de</strong> varieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> alimentos que tradicionalmente não se<br />

<strong>de</strong>fumam, como os peixes <strong>de</strong> água doce (Gonçalves & Prentice-Hernán<strong>de</strong>z, 1998a; 1999a; 1999b;<br />

Hattula et al., 2001; Sérot et al., 2004; Goulas & Kontominas, 2005; Stołyhwo & Sikorski, 2005).<br />

No Brasil segundo Valenti, Poli & Pereira (2000) e Ferreira et al. (2002), o pescado <strong>de</strong> água<br />

doce é comercializado predominantemente in natura, fresco, eviscerado e muito pouco na forma <strong>de</strong><br />

filé ou industrializado. Nas regiões centro-oeste, su<strong>de</strong>ste e sul do país, o principal canal <strong>de</strong><br />

comercialização dos peixes produzidos em cativeiro ainda é os pesqueiros particulares com venda<br />

direta ao consumidor (90%), e apenas 10% passam por algum processo <strong>de</strong> industrialização.<br />

Entretanto, as perspectivas atuais apontam para um aumento na comercialização <strong>de</strong> pescado in<br />

natura na forma <strong>de</strong> filé resfriado ou congelado e o aumento no consumo <strong>de</strong> produtos<br />

industrializados, pois atualmente a socieda<strong>de</strong> dispõe <strong>de</strong> pouco tempo ao preparo <strong>de</strong> refeições<br />

(Valenti; Pereira, 2000; Ferreira et al., 2002).<br />

No entanto, outros processos po<strong>de</strong>m ser propostos, como a <strong>de</strong>fumação, que ao conferir<br />

características sensoriais ao produto, po<strong>de</strong> agregar-lhe valor. São necessárias para isso,<br />

investigações quanto à a<strong>de</strong>quação do processo em relação à matéria-prima e à qualida<strong>de</strong> do produto<br />

final (Szenttamásy et al, 1993; Cardinal et al., 2001; Ferreira et al., 2002; Souza et al, 2005).<br />

Segundo Emerenciano, Souza & Franco (2007) além <strong>de</strong> o processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação<br />

incrementar as características sensoriais do pescado, também agrega valor ao produto, propiciando<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

maior viabilida<strong>de</strong> econômica ao produtor. Peixes <strong>de</strong>fumados estão entre os produtos que<br />

apresentam maior facilida<strong>de</strong> no preparo e utilização, po<strong>de</strong>ndo ser encontrados nos mercados em<br />

diversas formas. Os peixes <strong>de</strong> porte pequeno normalmente são <strong>de</strong>fumados inteiros eviscerados e, os<br />

maiores, em filés espalmados e ainda em pedaços ou partes, posta ou tronco limpo, sendo os cortes<br />

com ou sem pele (Oetterer, 2002; Souza et al., 2004; Souza et al, 2005).<br />

O jundiá, Rhamdia quelen, é um Siluriforme <strong>de</strong> hábito alimentar onívoro, encontrado <strong>de</strong>s<strong>de</strong><br />

o sul do México até a Argentina, que apresenta uma carne <strong>de</strong> sabor agradável e bem aceita pelos<br />

consumidores. No Brasil, sua criação está mais concentrada nos estados da região sul,<br />

principalmente no RS (Gomes et al., 2000; Lazzari et al., 2006).<br />

A idéia para a realização <strong>de</strong>sta pesquisa surgiu da constatação do pouco uso do processo <strong>de</strong><br />

<strong>de</strong>fumação no que se refere aos peixes <strong>de</strong> água doce. A escolha da espécie <strong>de</strong> jundiá (Rhamdia<br />

quelen) justifica-se por ser uma espécie com vasta difusão geográfica e que tem <strong>de</strong>spertado gran<strong>de</strong><br />

interesse nos piscicultores da região Sul do Brasil, pela sua resistência às baixas temperaturas, além<br />

<strong>de</strong> ser consi<strong>de</strong>rada saborosa, não possuindo espinhas intramusculares (Mezzalira & Fiorese, 1997;<br />

Carneiro et al., 2002; Fracalossi et al., 2004; Lazzari et al., 2006). Assim, o objetivo <strong>de</strong>ste trabalho<br />

foi elaborar um produto <strong>de</strong> valor agregado, a partir <strong>de</strong> um peixe <strong>de</strong> água doce, abundante na região<br />

sul do país.<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

ELABORAÇÃO DO PRODUTO DEFUMADO<br />

A matéria-prima utilizada foi o jundiá, Rhamdia quelen (Figura 1), comercializada na cida<strong>de</strong><br />

<strong>de</strong> Porto Alegre, RS.<br />

Figura 1 - O jundiá, Rhamdia quelen.<br />

Foram realizados dois tipos <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação: a tradicional que é feita com a queima da<br />

serragem e a <strong>de</strong>fumação líquida, utilizando aroma líquido <strong>de</strong> fumaça fornecido pela ADICON<br />

Indústria e Comércio <strong>de</strong> Aditivos Ltda., São Bernardo do Campo, SP. A fumaça líquida apresentava<br />

as seguintes características físico-químicas: aci<strong>de</strong>z total (ácido acético 14-16%), compostos <strong>de</strong><br />

aroma <strong>de</strong> fumaça (15-22 mg/ml), carbonilos (17-22%) e <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> (1,12 kg/l).<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

O processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação líquida do jundiá baseou-se na metodologia <strong>de</strong>senvolvida por<br />

Gonçalves (1998). Um esquema representativo do processamento está <strong>de</strong>monstrado na Figura 2.<br />

Figura 2 - Fluxograma da elaboração <strong>de</strong> pescado <strong>de</strong>fumado.<br />

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Os exemplares <strong>de</strong> jundiá inteiros foram lavados em água corrente para a retirada <strong>de</strong><br />

sujida<strong>de</strong>s que po<strong>de</strong>riam estar presentes e pesados. Em seguida proce<strong>de</strong>u-se a evisceração e o corte<br />

na forma <strong>de</strong> filés espalmados com pele e novamente pesados. Os filés foram lavados novamente em<br />

água corrente para a retirada do sangue, imersos em salmoura a 3% <strong>de</strong> NaCl, na proporção 1:1,<br />

durante 5 minutos, sob agitação manual, para uma remoção mais efetiva do sangue, <strong>de</strong> acordo com<br />

Machado (1994) e Morais et al. (1996). Os filés espalmados foram imersos em salmoura (20%<br />

NaCl) na proporção <strong>de</strong> 2:1 (salmoura:peixe) durante 15 minutos sob agitação. Após essa operação<br />

lavou-se novamente o peixe, com a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> retirar o excesso <strong>de</strong> sal que ficou <strong>de</strong>positado na<br />

superfície dos filés, uma vez que o paladar fica prejudicado quando há concentração elevada <strong>de</strong> sal.<br />

Os filés salgados, previamente pesados, foram conduzidos para a estufa <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação, com<br />

circulação forçada <strong>de</strong> ar (> 0,5 m/s) e submetidos por 45 minutos à pré-secagem sob temperatura <strong>de</strong><br />

54°C, o que permitiu a eliminação do excesso <strong>de</strong> umida<strong>de</strong> na superfície do filé e a formação <strong>de</strong> uma<br />

superfície insaturada, o que po<strong>de</strong>ria favorecer uma maior velocida<strong>de</strong> <strong>de</strong> difusão da fumaça líquida<br />

no músculo do pescado e uma <strong>de</strong>posição homogênea dos compostos da fumaça (método<br />

convencional), formando uma superfície brilhante durante o processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação (Rodrigues &<br />

Tobinaga, 1996; Gonçalves, 1998).<br />

Concluída a secagem, para a <strong>de</strong>fumação tradicional, foi acionada a circulação <strong>de</strong> fumaça,<br />

com velocida<strong>de</strong> alternando entre 1.500 e 3.000 trs/min., seguindo a programação pré-estabelecida<br />

pelo fabricante da estufa. A temperatura durante essa etapa foi aumentada para 71°C e mantida por<br />

mais 45 minutos. Por fim, a temperatura da estufa foi elevada para 82°C na qual permaneceu por<br />

2h30 minutos.<br />

Já para o processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação utilizando fumaça líquida, <strong>de</strong>pois da pré-secagem a fumaça<br />

líquida (20% v/v), <strong>de</strong> acordo com metodologia <strong>de</strong>scrita por Gonçalves (1998) foi aplicada com a<br />

utilização <strong>de</strong> um borrifador numa concentração <strong>de</strong> 20% até que toda a superfície dos filés estivesse<br />

ume<strong>de</strong>cida. Esse procedimento se repetiu quando a temperatura foi, então, elevada para 82°C.<br />

Após a <strong>de</strong>fumação os filés foram resfriados em temperatura ambiente, pesados, embalados à<br />

vácuo e armazenados sob refrigeração (5°C) até o momento das análises físico-químicas,<br />

microbiológicas e sensorial (o qual não ultrapassou 8 horas).<br />

CÁLCULO DO RENDIMENTO<br />

Segundo Souza, Viegas & Kronka (1999), Cardinal et al. (2001) e Carneiro et al. (2004), a<br />

obtenção <strong>de</strong> valores referentes ao rendimento dos diversos produtos gerados a partir do<br />

processamento mínimo das diferentes espécies <strong>de</strong> peixe é <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> importância para as empresas.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

O conhecimento da proporção <strong>de</strong> matéria-prima que será transformada em produto final para a<br />

comercialização é <strong>de</strong> suma importância, pois permite o planejamento logístico da produção e os<br />

cálculos para a avaliação produtiva da empresa e <strong>de</strong>terminação do preço do produto.<br />

Foram calculados os rendimentos nas seguintes etapas: i) Filetagem: pela relação entre os<br />

pesos dos peixes inteiros e seus filés espalmados; ii) Salmouragem: pela relação entre os pesos dos<br />

peixes inteiros e <strong>de</strong>pois da salga; iii) Defumação: pela relação entre os pesos dos peixes inteiros e<br />

<strong>de</strong>pois <strong>de</strong> passar pelos processos <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação líquida ou tradicional.<br />

ANÁLISES FÍSICO-QUÍMICAS<br />

As análises físico-químicas (umida<strong>de</strong>, proteína, lipídio e cinzas) no pescado in natura, e do<br />

produto final <strong>de</strong>fumado foram realizadas conforme as normas oficiais do Instituto Adolfo Lutz<br />

(1985).<br />

ANÁLISES MICROBIOLÓGICAS<br />

De acordo com a resolução da ANVISA – RDC n o 12/2001, as análises microbiológicas<br />

obrigatórias para pescado in natura são: Estafilococos coagulase positiva/g e Salmonella sp/25g<br />

(Brasil, 2001). Com o objetivo <strong>de</strong> comparar os parâmetros microbiológicos da matéria-prima com<br />

os do produto <strong>de</strong>fumado, também foi realizada a análise <strong>de</strong> Coliformes a 45°C/g, <strong>de</strong> acordo com<br />

metodologia <strong>de</strong>scrita por Silva et al. (2007).<br />

ANÁLISE SENSORIAL<br />

Para verificar a aceitabilida<strong>de</strong> e medir o nível <strong>de</strong> satisfação do consumidor do pescado<br />

<strong>de</strong>fumado pelo método tradicional e <strong>de</strong>fumação líquida, utilizou-se o método afetivo mediante<br />

escala hedônica <strong>de</strong> nove pontos (Figura 3), que variava <strong>de</strong> gostei muitíssimo (9 pontos) a <strong>de</strong>sgostei<br />

muitíssimo (1 ponto), segundo metodologia indicada por Dutcosky (1996).<br />

Para esta análise foram utilizados painelistas não treinados, realizada com funcionários,<br />

professores e alunos da Universida<strong>de</strong> do Vale do Rio dos Sinos, totalizando 30 painelistas não<br />

treinados. Os painelistas receberam as amostras aquecidas para a <strong>de</strong>gustação. O preparo da amostra<br />

seguiu o fluxograma mostrado na Figura 4.<br />

TRATAMENTO ESTATÍSTICO DOS RESULTADOS<br />

Os resultados da avaliação sensorial, físico-química e cálculo dos rendimentos foram<br />

analisados estatisticamente, através da análise <strong>de</strong>scritiva <strong>de</strong> dados (média ± <strong>de</strong>svio padrão) seguido<br />

da análise <strong>de</strong> variância (ANOVA), com nível <strong>de</strong> significância <strong>de</strong> 95% (p < 0,05).<br />

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Avalie cada amostra usando a escala abaixo para <strong>de</strong>screver<br />

o quanto gostou ou <strong>de</strong>sgostou dos produtos<br />

1- Desgostei Muitíssimo<br />

2- Desgostei Muito<br />

3- Desgostei Regularmente<br />

4- Desgostei Ligeiramente<br />

5- Indiferente<br />

6- Gostei Ligeiramente<br />

7- Gostei Regularmente<br />

8- Gostei muito<br />

9- Gostei Muitíssimo<br />

Comentários:<br />

AMOSTRA<br />

A<br />

B<br />

VALOR<br />

Figura 3 - Ficha <strong>de</strong> Escala Hedônica.<br />

Figura 4 - Fluxograma do preparo da amostra para análise sensorial.<br />

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RESULTADOS E DISCUSSÃO<br />

RENDIMENTO DO JUNDIÁ DEFUMADO<br />

Os pesos do pescado e os rendimentos obtidos nas diferentes etapas do processamento são<br />

mostrados nas Tabelas 1 e 2.<br />

Na literatura são encontrados dados <strong>de</strong> rendimento <strong>de</strong> filé com pele e sem pele (peixes água<br />

doce) 56,65% e 46,17%, respectivamente, quando relacionado com o peso bruto do peixe<br />

(Contreras-Guzmán, 1994; Souza & Maranhão, 2001). Neste trabalho, o jundiá apresentou um<br />

rendimento geral para filés com pele <strong>de</strong> 40,99±4,14 %, ficando abaixo do intervalo citado na<br />

literatura. Isso po<strong>de</strong> ser causado pelo fato do filetador não ter experiência e/ou <strong>de</strong>streza nessa<br />

operação unitária.<br />

Tabela 1 - Pesos (kg) e os Rendimentos (%) dos peixes após as etapas do processamento <strong>de</strong><br />

<strong>de</strong>fumação tradicional.<br />

Peça Pi Pf Rf Ps Rs Pfd Rfd<br />

10 796,70 329,80 41,40 341,20 42,83 130,80 16,42<br />

11 823,70 375,50 45,59 382,30 46,41 183,40 22,27<br />

12 839,60 376,30 44,82 383,10 45,63 199,10 23,71<br />

13 625,90 255,00 40,74 261,80 41,83 122,90 19,64<br />

14 633,20 266,10 42,02 275,00 43,43 113,10 17,86<br />

15 718,10 318,00 44,28 327,40 45,59 127,90 17,81<br />

16 683,20 289,00 42,30 297,70 43,57 130,80 19,15<br />

17 548,60 211,30 38,52 216,30 39,43 95,00 17,32<br />

18 626,80 290,10 46,28 297,00 47,38 155,30 24,78<br />

19 512,90 253,40 49,41 259,50 50,59 130,00 25,35<br />

Média 678,81 295,44 43,52 303,07 44,65 137,00 20,32<br />

Desvio ± 107,14 ± 51,14 ± 3,00 ± 51,79 ± 0,03 ± 30,33 ± 0,03<br />

Pi: peso do peixe inteiro; Pf: peso dos filés espalmados; Ps: peso dos filés salgados;<br />

Pfd: peso dos filés <strong>de</strong>fumados pelo processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação líquida; Rf: rendimento<br />

dos filés com pele; Rs: Rendimento dos filés salgados; Rfd: rendimento dos filés<br />

<strong>de</strong>fumados pelo processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação líquida.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Tabela 2 - Pesos (kg) e os Rendimentos (%) dos peixes após as etapas do processamento <strong>de</strong><br />

<strong>de</strong>fumação com fumaça líquida.<br />

Peça Pi Pf Rf Ps Rs Pfd Rfd<br />

01 745,10 273,50 36,71 282,60 37,93 108,10 14,51<br />

02 530,50 198,80 37,47 206,30 38,89 83,00 15,65<br />

03 941,40 379,00 40,26 381,86 40,56 203,20 21,58<br />

04 786,20 327,50 41,66 334,00 42,48 171,70 21,84<br />

05 819,60 288,60 35,21 293,10 35,76 137,90 16,83<br />

06 825,60 280,70 34,00 289,30 35,04 180,60 21,88<br />

07 596,90 236,00 39,54 246,70 41,33 103,90 17,41<br />

08 570,70 201,70 35,34 202,50 35,48 87,50 15,33<br />

09 658,20 285,30 43,35 292,50 44,44 126,30 19,19<br />

Média 727,00 249,70 37,52 279,55 38,43 134,49 18,13<br />

Desvio p. ± 145,44 ± 61,49 ± 2,72 ± 61,06 ± 2,86 ± 45,88 ± 3,14<br />

Pi: peso do peixe inteiro; Pf: peso dos filés espalmados; Ps: peso dos filés salgados;<br />

Pfd: peso dos filés <strong>de</strong>fumados pelo processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação líquida; Rf: rendimento<br />

dos filés com pele; Rs: Rendimento dos filés salgados; Rfd: rendimento dos filés<br />

<strong>de</strong>fumados pelo processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação líquida.<br />

De acordo com as Tabelas 1 e 2, os valores para os rendimentos <strong>de</strong> filés com pele estão um<br />

pouco acima dos rendimentos encontrados por Carneiro, Mikos, Bendhack (2003) e Carneiro,<br />

Mikos, Bendhack & Ignácio (2004), que obtiveram um rendimento médio <strong>de</strong> 34,75% para filés <strong>de</strong><br />

jundiá com pele (com peso inicial <strong>de</strong> 701 a 800g). Cabe ressaltar que o rendimento do peixe<br />

<strong>de</strong>pen<strong>de</strong> da estrutura anatômica, ou seja, peixes <strong>de</strong> cabeça gran<strong>de</strong> em relação à sua musculatura<br />

apresentam menor rendimento <strong>de</strong> filés comparados com aqueles que possuem cabeça pequena. Isto<br />

pô<strong>de</strong> ser observado por Souza e Marengoni (1998) e Souza e Maranhão (2001), que relatam que o<br />

rendimento <strong>de</strong> filé da tilápia do Nilo foi <strong>de</strong> 38,54%, enquanto para o bagre africano foi <strong>de</strong> 32,83%, a<br />

diferença está relacionada com o formato <strong>de</strong> peixe em relação ao tamanho da cabeça.<br />

Ribeiro et al. (1998) analisaram o efeito do peso e a <strong>de</strong>streza do operador sobre o<br />

rendimento <strong>de</strong> filé em tilápia vermelha e concluíram que houve diferença significativa, pois um<br />

operador produziu filés com um rendimento <strong>de</strong> 30,00% comparado a outro, com 33,42%.<br />

Segundo Carneiro, Mikos, Bendhack & Ignácio (2004) a eficiência na retirada dos filés<br />

<strong>de</strong>pen<strong>de</strong> da <strong>de</strong>streza do manipulador, que <strong>de</strong>ve ser treinado para realizar a tarefa com rapi<strong>de</strong>z e sem<br />

perdas. Portanto, também não po<strong>de</strong>m ser excluídos os fatores ligados ao processo <strong>de</strong> filetagem<br />

quando comparado os dados <strong>de</strong>sse trabalho com os dados da literatura.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Houve uma consi<strong>de</strong>rável perda <strong>de</strong> peso durante os processos <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação, e segundo<br />

Souza et al. (2004) essa perda <strong>de</strong> peso ocorrida, é provavelmente <strong>de</strong>vido a <strong>de</strong>sidratação ocorrida<br />

durante o processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação. A média do ganho <strong>de</strong> peso entre os filés in natura e os filés<br />

salgados foi <strong>de</strong> 2,53±0,99% o que corrobora com os rendimentos citados na literatura, que varia <strong>de</strong><br />

3-8%, e não há diferença significativa entre o rendimento dos filés in natura e o rendimento dos<br />

filés salgados (p = 0,45), mostrando que o processo praticamente não agregou peso ao produto,<br />

apenas melhorou o valor sensorial do mesmo.<br />

ANÁLISES FÍSICO-QUÍMICAS<br />

Os valores encontrados nas análises (físico químicas <strong>de</strong> umida<strong>de</strong>, cinzas, proteínas e<br />

lipí<strong>de</strong>os) estão apresentados nas Tabela 3. Através da análise estatística observou-se que a umida<strong>de</strong>,<br />

cinzas, proteínas e lipí<strong>de</strong>os do pescado in natura diferiram estatisticamente das obtidas no pescado<br />

<strong>de</strong>fumado tradicionalmente e do pescado <strong>de</strong>fumado com fumaça líquida. Porém na comparação<br />

entre os produtos <strong>de</strong>fumados, não houve diferença significativa.<br />

ANÁLISE<br />

Tabela 3 - Resultados das análises físico-químicas.<br />

Média ± Desvio Padrão (n=3)<br />

Jundiá<br />

in natura<br />

Jundiá <strong>de</strong>fumado<br />

tradicionalmente<br />

Jundiá <strong>de</strong>fumado<br />

com fumaça líquida<br />

Umida<strong>de</strong> % 71,13 ± 0,58a 57,35 ± 1,21b 58,94 ± 0,20b<br />

Cinzas % 2,55 ± 0,06a 3,62 ± 0,37b 3,58 ± 0,07b<br />

Proteínas % 14,67 ± 0,41a 28,91 ± 0,93b 31,64 ± 1,07b<br />

Lipí<strong>de</strong>os % 2,38 ± 0,23a 2,71% ± 0,25b 2,73 ± 0,29b<br />

*Letras diferentes na mesma linha: diferença significativa (p


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

nos teores <strong>de</strong> cinzas ocorre também <strong>de</strong>vido à incorporação <strong>de</strong> cloreto <strong>de</strong> sódio durante a<br />

salmouragem.<br />

ANÁLISES MICROBIOLÓGICAS<br />

Os resultados das análises microbiológicas, obtidos nos filés <strong>de</strong> jundiá in natura e nos<br />

produtos finais <strong>de</strong>fumados, comparados com os limites estabelecidos pela legislação brasileira<br />

(BRASIL, 2001), estão apresentados na Tabela 4.<br />

Jundiá<br />

Tabela 4 - Resultados e limites das análises microbiológicas.<br />

ANÁLISES REALIZADAS RDC n° 12, ANVISA, 2001<br />

Coliformes<br />

a 45°C/g<br />

(NMP/g)<br />

Estaf.coag.<br />

positiva/g<br />

(UFC/g)<br />

Salmonella<br />

sp em 25g<br />

Coliformes a<br />

45°C/g<br />

(NMP/g)<br />

Estaf.coag.<br />

positiva/g<br />

(UFC/g)<br />

Salmonella<br />

sp em 25g<br />

in natura < 0,03 < 10 2 Ausência - 5x10 2 Ausência<br />

Defumado<br />

tradicionalmente<br />

Defumado com<br />

fumaça líquida<br />

< 0,03 0 Ausência 10 10 2 Ausência<br />

< 0,03 0 Ausência 10 10 2 Ausência<br />

Houve ausência <strong>de</strong> coliformes, no teste presuntivo <strong>de</strong> coliformes totais não houve formação<br />

<strong>de</strong> gás no caldo Lauril Sulfato Triptose (LST) nas diluições 10 -1 , 10 -2 e 10 -3 , indicando que o peixe<br />

foi manuseado corretamente após a captura, local esse que não <strong>de</strong>veria estar contaminado, e que<br />

foram adotadas medidas eficazes <strong>de</strong> higiene durante o processo <strong>de</strong> limpeza e filetagem,<br />

qualificando-o como apto para o consumo e posterior processamento. Durante o processo <strong>de</strong><br />

evisceração não ocorreu rompimento das vísceras, o que impediu a migração dos coliformes do<br />

intestino para o músculo do peixe, e também não houve uma contaminação durante a manipulação.<br />

Na análise <strong>de</strong> Staphylococcus não foram constatadas colônias típicas em placa <strong>de</strong> Agar<br />

Baird Parker (BP), indicando que o procedimento <strong>de</strong> limpeza e filetagem no pescado in natura<br />

foram feitos <strong>de</strong> forma a<strong>de</strong>quada, e a sua ausência no pescado <strong>de</strong>fumado <strong>de</strong>monstrou a adoção <strong>de</strong><br />

bons procedimentos <strong>de</strong> higiene no processo como um todo, uma vez que o Staphylococcus é<br />

geralmente transmitido pelo manipulador principalmente através da saliva e secreções.<br />

Já na análise realizada para a <strong>de</strong>tectação <strong>de</strong> Salmonella foram <strong>de</strong>tectadas colônias típicas no<br />

pescado in natura, no Agar Sulfito <strong>de</strong> Bismuto (SS), porém nos testes bioquímicos foram<br />

constatadas que as colônias não eram Salmonella. No pescado <strong>de</strong>fumado não foram <strong>de</strong>tectadas<br />

73


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

colônias típicas no Agar SS. Esses resultados corroboram com dados encontrados para truta<br />

<strong>de</strong>fumada (Leoni & Moriggi, 1996) e anchova <strong>de</strong>fumada (Gonçalves, 1998).<br />

O efeito preservativo da <strong>de</strong>fumação é mencionado, segundo Gonçalves & Prentice-<br />

Hernán<strong>de</strong>z (1998a) e Basti et al. (2006) como sendo <strong>de</strong>vido a combinação dos seguintes fatores:<br />

secagem da supefície; processo <strong>de</strong> salga; e <strong>de</strong>posição <strong>de</strong> substâncias fenólicas antimicrobianas e<br />

antioxidantes.<br />

Os resultados microbiológicos atestam que alguns <strong>de</strong>sses fatores, associado aos<br />

procedimentos <strong>de</strong> higiene durante todo processo po<strong>de</strong>m ter contribuído para os baixos índices<br />

microbiológicos (inferiores ao permitido pela legislação).<br />

ANÁLISE SENSORIAL<br />

Biato (2005) <strong>de</strong>monstrou que os provadores preferiram as tilápias <strong>de</strong>fumadas à in natura,<br />

quanto ao sabor e odor, reforçando assim à aceitabilida<strong>de</strong> do pescado <strong>de</strong>fumado.<br />

Tabela 5 - Distribuição das freqüências das notas atribuídas pelos painelistas.<br />

Notas<br />

Filé <strong>de</strong>fumado<br />

tradicionalmente<br />

Freqüência (%)<br />

Filé <strong>de</strong>fumado<br />

com fumaça líquida<br />

Freqüência (%)<br />

1 - Desgostei muitíssimo 0 0<br />

2 - Desgostei muito 3 0<br />

3 - Desgostei regularmente 3 0<br />

4 - Desgostei ligeiramente 3 0<br />

5 - Indiferente 27 3<br />

6 - Gostei ligeiramente 30 3<br />

7 - Gostei regularmente 17 20<br />

8 - Gostei muito 17 54<br />

9 - Gostei muitíssimo 0 20<br />

Os resultados obtidos, no teste <strong>de</strong> aceitação, verificados através da distribuição das<br />

pontuações (Tabela 5) mostraram que ambas as amostras foram aceitas pelos painelistas, visto que a<br />

distribuição das notas encontra-se acima da nota 5, que correspon<strong>de</strong> ao conceito indiferente,<br />

mostrando ainda, que as amostras, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte do processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação, foram aceitas conforme<br />

já verificado por Gonçalves (1998) e Gonçalves & Prentice-Hernán<strong>de</strong>z (1999a).<br />

O pescado <strong>de</strong>fumado tradicionalmente obteve uma média <strong>de</strong> 5,93 ± 1,46 (Tabela 6) o que<br />

correspon<strong>de</strong>, entre o conceito “indiferente” e “gostei ligeiramente”, estando mais próxima do<br />

conceito “gostei ligeiramente”. O jundiá <strong>de</strong>fumado com fumaça líquida, possui uma média <strong>de</strong> 7,83<br />

± 0,91 po<strong>de</strong>ndo ser atribuído o conceito entre “gostei regularmente” e “gostei muito”.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Tabela 6 - Média ± <strong>de</strong>svio padrão das notas atribuídas na análise sensorial (n = 30).<br />

Notas Média ± <strong>de</strong>svio padrão Probabilida<strong>de</strong>*<br />

Filé <strong>de</strong>fumado<br />

tradicionalmente<br />

Filé <strong>de</strong>fumado com<br />

fumaça líquida<br />

* Diferença significativa se p < 0,05<br />

5,93 ± 1,46<br />

7,83 ± 0,91<br />

0,00000016198<br />

A análise estatística <strong>de</strong>monstrou que houve diferença significativa (p < 0,05), no que se<br />

refere à aceitação dos produtos elaborados, sendo que o jundiá <strong>de</strong>fumado com fumaça líquida<br />

obteve melhor aceitação. Estes valores estão bem próximos aos encontrados por Gonçalves (1998),<br />

mostrando a viabilida<strong>de</strong> do uso da fumaça líquida. Morais et al (1996) encontrou em seus estudos<br />

que a qualida<strong>de</strong> sensorial da truta <strong>de</strong>fumada com fumaça líquida foi melhor do que com a<br />

<strong>de</strong>fumação tradicional. No entanto, o mesmo não ocorreu nos estudos <strong>de</strong> Hattula et al. (2001), pois<br />

não encontraram diferença significativa entre filés <strong>de</strong> trutas <strong>de</strong>fumadas tradicionalmente e com<br />

fumaça líquida. Essa diferença po<strong>de</strong> estar relacionada ao tipo e a concentração <strong>de</strong> fumaça líquida<br />

utilizada, conforme comentam, em suas conclusões, Sérot et al. (2004) e Cardinal et al. (2006).<br />

CONCLUSÕES<br />

Peixes <strong>de</strong>fumados po<strong>de</strong>m constituir uma parte importante e significativa da dieta humana,<br />

por causa da sua <strong>de</strong>sejável proprieda<strong>de</strong> sensorial e alto valor nutritivo.<br />

Verificou-se que é possível agregar valor ao jundiá, utilizando as técnicas <strong>de</strong> <strong>de</strong>fumação<br />

tradicional e líquida.<br />

A aplicação por aspersão <strong>de</strong> fumaça líquida na concentração <strong>de</strong> 20% (v/v), sobre os filés <strong>de</strong><br />

jundiá, apresentou uma boa aceitação na análise sensorial.<br />

A baixa carga microbiana no produto final mostrou boa higiene durante o processamento,<br />

indicando uma qualida<strong>de</strong> microbiológica aceitável.<br />

O balanço <strong>de</strong> massa executado ao longo do processo mostrou que um rendimento em torno<br />

<strong>de</strong> 40% até chegar ao produto final <strong>de</strong>fumado.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

AVALIAÇÃO DOS EFEITOS DA IMERSÃO DE PÓS-LARVAS DO CAMARÃO Litopenaeus vannamei<br />

EM ÁGUAS DE CULTIVO COM POLISSACARÍDEOS SULFATADOS<br />

EVALUATION OF EFFECTS OF THE IMMERSION OF SHRIMP POST-LARVAE Litopenaeus vannamei<br />

IN WATERS OF CULTURE WITH SULFATED POLYSACCHARIDES<br />

José Ariévilo Gurgel RODRIGUES*; José <strong>de</strong> Sousa Junior JÚNIOR; Perla Lorena MOREIRA;<br />

Diego Silva MELO; Jullyermes Araújo LOURENÇO; Paula Cristina Walger <strong>de</strong> Camargo LIMA;<br />

Valeska Martins TORRES; Grazielle da Costa PONTES; Wladimir Ronald Lobo FARIAS<br />

Departamento <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>, Laboratório <strong>de</strong> Aqüicultura, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Ceará<br />

*Email: arieviloengpesca@yahoo.com.br<br />

Recebido em: 26 <strong>de</strong> outubro <strong>de</strong> 2007<br />

Resumo - O <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> estratégias profiláticas é essencial para o controle <strong>de</strong> doenças infecciosas e<br />

outros fatores <strong>de</strong> risco na aqüicultura. Muitos imunoestimulantes têm sido estudados, no mundo, e<br />

os polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados (PS) <strong>de</strong> algas marinhas em especial, pois po<strong>de</strong>m minimizar o<br />

impacto do estresse nos cultivos intensivos <strong>de</strong> organismos aquáticos. Desta forma objetivou-se<br />

avaliar o efeito da adição <strong>de</strong> diferentes doses <strong>de</strong> PS extraídos da alga marinha vermelha Solieria<br />

filiformis em pós-larvas do camarão Litopenaeus vannamei submetidas a estresse. Os PS foram<br />

extraídos utilizando-se digestão enzimática, a partir <strong>de</strong> algas marinhas coletadas na Praia do<br />

Pacheco/CE. O <strong>de</strong>lineamento experimental foi inteiramente casualizado com quatro tratamentos<br />

(0,0; 0,1; 0,5 e 1,0 mg L -1 ) e três repetições. Diariamente, nos 12 dias iniciais foram aplicados os<br />

banhos <strong>de</strong> imersão nas pós-larvas e, posteriormente, submetidas durante seis dias à estresse com a<br />

suspensão da renovação <strong>de</strong> água do cultivo. As administrações foram realizadas após cada troca<br />

<strong>de</strong> água, sendo o monitoramento dos parâmetros físico-químicos intensificado durante o estresse.<br />

Verificou-se que as imersões das pós-larvas na água <strong>de</strong> cultivo com PS não surtiram efeitos no<br />

ganho <strong>de</strong> peso e na taxa <strong>de</strong> sobrevivência (p > 0,05). Por outro lado, o diagnóstico dos animais<br />

que receberam 0,1 mg L -1 <strong>de</strong> PS atestou um melhor quadro aparente <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> após a indução <strong>de</strong><br />

uma situação adversa <strong>de</strong> estresse.<br />

Palavras-chave: Solieria filiformis, polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados, Litopenaeus vannamei, estresse.<br />

Abstract - The <strong>de</strong>velopment of prophylactic strategies is essential for the infectious disease control and other<br />

factors of risk in aquaculture. Several immunostimulants have been studied in the world and the<br />

sulfated polysacchari<strong>de</strong>s (SP) from seaweeds can reduce the impact of stress in aquatic<br />

organism’s intensive culture. The aim of this work was to evaluate the effect of the addition of<br />

different doses of SP extracted from the marine red alga Solieria filiformis in shrimp post-larvae<br />

(Litopenaeus vannamei) submitted to stress conditions. SP were extracted by the enzymatic<br />

digestion of marine alga collected in Praia do Pacheco, Ceará State. The experimental <strong>de</strong>sign was<br />

completely randomized to 4 treatments (0.0; 0.1; 0.5 and 1.0 mg L -1 ) and three replications. Daily,<br />

the initial 12 days’ period the baths of immersion in the post-larvae and then submitted for 6 days<br />

to stress with suspension of renewal of water of the culture. The administrations were done after<br />

each exchange of water, and the tracking of physico-chemical parameters intensified during stress.<br />

It was found that the immersions of post-larvae in the water for cultivation with PS had no effect<br />

on weight gain and survival rate (p > 0.05). On the another hand, the animals that received 0.1 mg<br />

L -1 of PS <strong>de</strong>monstrated a better heath state after being induced to an adverse stress situation.<br />

Key words - Solieria filiformis, sulfated polysacchari<strong>de</strong>s, Litopenaeus vannamei, stress.<br />

80


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

INTRODUÇÃO<br />

O mercado internacional do camarão é regido pelo cultivo <strong>de</strong> duas espécies, Penaeus<br />

monodon e Litopenaeus vannamei, as quais correspon<strong>de</strong>m a 70% do volume ofertado. No Brasil, o<br />

cultivo intensivo <strong>de</strong> L. vannamei também <strong>de</strong>monstrou viabilida<strong>de</strong> comercial, principalmente, no<br />

Nor<strong>de</strong>ste brasileiro (BRASIL, 2001), tornando o País uma referência no Hemisfério Sul (Rocha &<br />

Rodrigues, 2004).<br />

A aqüicultura intensiva em muitos países vem provocando modificações na estrutura da<br />

fauna e flora dos ecossistemas costeiros (Phillips, Lin & Beveridge, 1993), além <strong>de</strong> favorecer o<br />

surgimento <strong>de</strong> doenças infecciosas nos cultivos (Vadstein, 1997), o que frequentemente recorre-se a<br />

estratégias <strong>de</strong> controle microbiano, tais como o uso <strong>de</strong> antibióticos, <strong>de</strong>sinfecção e vacinas contra<br />

doenças específicas. Por outro lado, o uso <strong>de</strong> antibióticos coloca em risco o equilíbrio ambiental e a<br />

qualida<strong>de</strong> do produto ao consumidor (Cook, Hayball, Hutchinson, Nowak & Hayball, 2003).<br />

A busca por novas ferramentas sustentáveis para o cultivo do camarão marinho, Litopenaeus<br />

vannamei, é extremamente importantes para rejuvenescer o setor <strong>de</strong>sgastado por crises econômicas<br />

<strong>de</strong>correntes do surgimento <strong>de</strong> enfermida<strong>de</strong>s, as quais fragilizam a ativida<strong>de</strong> no mundo. Vários<br />

compostos imunoestimulantes têm sido amplamente estudados, os quais promovem a ativação das<br />

células <strong>de</strong> <strong>de</strong>fesas do sistema inato contra doenças infecciosas (Sakai, Kamiya, Ishii, Atsuta &<br />

Kobayashi, 1992; Azad et al., 2005), melhorando o estado <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> dos animais durante eventos<br />

que promovam estresse (Bricknell & Dalmo, 2005). Diversos compostos <strong>de</strong>rivados <strong>de</strong> animais,<br />

plantas, fungos, algas (micro e macroalgas) etc., têm sido avaliados quanto aos seus efeitos<br />

imunoestimulantes em organismos aquáticos em diversas fases <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento (Bricknell &<br />

Dalmo, 2005; Montero-Rocha, Mcintosh, Sánchez-Merino & Flores, 2006; Citarasu, Sivaram,<br />

Immanuel, Rout, & Murugan, 2006). Dentre eles, os polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados (PS) extraídos <strong>de</strong><br />

algas marinhas apresentam proprieda<strong>de</strong>s imunoestimulantes em peixes e camarões (Farias et al.,<br />

2004; Fu, Hou, Yeh, Li & Chen, 2007). Além do efeito imunoestimulante, os PS <strong>de</strong> algas marinhas<br />

também são conhecidos por possuir outras ativida<strong>de</strong>s biológicas, tais como antiviral, anticoagulante<br />

e antitrombótica (Hayashi, Hayashi & Kojima, 1996; Farias, Nazareth & Mourão, 2001), o que<br />

também tem <strong>de</strong>spertado gran<strong>de</strong> interesse nas ciências médicas.<br />

O primeiro relato <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong> imunoestimulante oriunda <strong>de</strong> uma alga foi <strong>de</strong>scrita por<br />

Campa-Córdova, Hernán<strong>de</strong>z-Saavedra, De Philippis & Ascencio (2002), reportando que a imersão<br />

<strong>de</strong> PS extraídos <strong>de</strong> uma microalga cianofícea em juvenis do camarão branco L. vannamei<br />

proporcionou um aumento da capacida<strong>de</strong> oxidativa dos hemócitos nos animais. Costa et al. (2006)<br />

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observaram que as algas marinhas vermelhas Botryocladia acci<strong>de</strong>ntalis e Solieria filiformis<br />

preveniram o impacto do vírus da mancha branca no camarão L. vannamei quando os PS foram<br />

incorporados à ração. Quando esses PS <strong>de</strong> B. occi<strong>de</strong>ntalis foram imersos na água <strong>de</strong> cultivo <strong>de</strong> póslarvas<br />

<strong>de</strong> L. vannamei, também foi observada uma redução significativa da mortalida<strong>de</strong> (Barroso,<br />

Rodrigues, Torres, Sampaio & Farias, 2007). Uma melhoria na taxa <strong>de</strong> sobrevivência também foi<br />

obtida quando os PS da alga marinha vermelha Halymenia pseudofloresia foram administrados na<br />

água <strong>de</strong> cultivo <strong>de</strong> camarões adultos da mesma espécie (Rodrigues, 2006).<br />

De forma a contribuir com o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> pesquisas chaves, para a sustentabilida<strong>de</strong><br />

da carcinicultura marinha e direcionar esforços para o estabelecimento <strong>de</strong> estratégias <strong>de</strong> controle <strong>de</strong><br />

doenças advindas da intensificação da ativida<strong>de</strong>, pós-larvas <strong>de</strong> camarões marinhos L. vannamei<br />

foram induzidas a uma condição <strong>de</strong>sfavorável <strong>de</strong> cultivo, gerada pela suspensão da renovação <strong>de</strong><br />

água, com o objetivo <strong>de</strong> avaliar a resistência e o estado comportamental das pós-larvas mediante<br />

administração <strong>de</strong> diferentes doses <strong>de</strong> PS obtidos a partir da alga marinha vermelha S. filiformis.<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

COLETA E EXTRAÇÃO DOS POLISSACARÍDEOS SULFATADOS DA ALGA MARINHA<br />

A coleta da alga marinha vermelha S. filiformis (Solieriaceae, Rhodophyta) foi realizada na<br />

Praia do Pacheco-Ceará-Brasil, a qual foi conduzida ao Laboratório <strong>de</strong> Bioquímica Marinha do<br />

Departamento <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> da Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Ceará (DEP/UFC) para limpeza<br />

e estocagem a -20 °C. A extração dos PS iniciou-se a partir 2 g <strong>de</strong> alga seca e triturada com 100 mL<br />

<strong>de</strong> tampão acetato <strong>de</strong> sódio 0,1 M (pH 5,0) contendo cisteína 5 mM e EDTA 5 mM. Em seguida,<br />

foram adicionados 7 mL <strong>de</strong> uma solução <strong>de</strong> papaína bruta (30 mg mL -1 ), sendo a mistura incubada<br />

em banho-maria (60 °C; 24 h). Após esse período, o material foi filtrado, centrifugado (8000 × g;<br />

25 min.; 4 ºC) e, ao sobrenadante, foram adicionados três volumes <strong>de</strong> etanol absoluto para<br />

precipitação dos PS presentes na mistura por 48 horas em freezer. Logo após a precipitação, o<br />

material foi novamente centrifugado e submetido a duas lavagens com 200 mL <strong>de</strong> etanol a 80% e<br />

uma com 150 mL <strong>de</strong> etanol absoluto. Após essa etapa, os PS foram secos em estufa (60 °C; 24 h)<br />

para obtenção do extrato bruto total, o qual foi obtido rendimento <strong>de</strong> 504 mg.<br />

PREPARAÇÃO DAS SOLUÇÕES DE IMERSÃO<br />

Diferentes doses <strong>de</strong> PS foram preparadas a fim <strong>de</strong> se obter concentrações finais <strong>de</strong> 0,0<br />

(controle); 0,1; 0,5 e 1,0 mg L -1 na água <strong>de</strong> cultivo dos camarões. Inicialmente, os PS foram<br />

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dissolvidos em um pequeno volume <strong>de</strong> água <strong>de</strong>stilada e, em seguida, as referidas soluções foram<br />

adicionadas (dose dia -1 ), respectivamente, pela manhã, sempre após a renovação <strong>de</strong> água.<br />

AQUISIÇÃO E ESTOCAGEM DAS PÓS-LARVAS EM LABORATÓRIO<br />

Aproximadamente 1000 exemplares <strong>de</strong> pós-larvas com 40 dias (PL 40 ) <strong>de</strong> L. vannamei,<br />

aclimatadas em água doce e com peso médio inicial <strong>de</strong> 0,103 ± 0,016 g foram obtidas <strong>de</strong> uma<br />

fazenda <strong>de</strong> carcinicultura do Ceará. As pós-larvas foram aclimatadas por 30 minutos em uma caixa<br />

d’água <strong>de</strong> 500 L e, em seguida, estocadas aleatoriamente em aquários contendo 15 L <strong>de</strong> volume útil<br />

(5 PL L -1 ). Após a estocagem, os animais permaneceram sob observação durante uma semana para<br />

que se recuperassem do estresse causado pelo transporte. Durante o período <strong>de</strong> aclimatação, o<br />

experimento foi conduzido com renovação <strong>de</strong> 25% da água <strong>de</strong> cada aquário, por sifonamento, on<strong>de</strong><br />

também foram retirados restos <strong>de</strong> ração e <strong>de</strong>jetos dos animais. O manejo alimentar ficou restrito a<br />

três refeições diárias, até a sacieda<strong>de</strong>, utilizando ração com 40% <strong>de</strong> proteína bruta.<br />

PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL E ANÁLISE ESTATÍSTICA<br />

O experimento foi realizado no Laboratório <strong>de</strong> Aqüicultura (DEP/UFC) e seguiu um<br />

<strong>de</strong>lineamento inteiramente casualizado constando <strong>de</strong> quatro tratamentos com três repetições cada,<br />

sendo o controle sem a adição do PS (T 1 ), e os três tratamentos contendo PS (T 2 - 0,1; T 3 - 0,5 e<br />

T 4 - 1,0 mg L -1 ). Durante cada alimentação, o sistema <strong>de</strong> aeração foi <strong>de</strong>sligado por 1 hora. O<br />

experimento teve duração <strong>de</strong> 18 dias, sendo 12 dias <strong>de</strong> administração dos PS e 6 <strong>de</strong> indução ao<br />

estresse. Durante esse período as trocas parciais <strong>de</strong> água foram suspensas. Semanalmente, o pH, a<br />

temperatura e o oxigênio dissolvido da água foram monitorados. Todavia, durante os seis dias <strong>de</strong><br />

estresse, a freqüência do monitoramento foi intensificada, sendo então realizada em dias alternados.<br />

Os dados <strong>de</strong> sobrevivência foram registrados pela diferença entre o antes e <strong>de</strong>pois da indução do<br />

estresse dos animais, sendo submetidos à análise <strong>de</strong> variância ANOVA bifatorial. Já o ganho <strong>de</strong><br />

peso foi analisado em ANOVA unifatorial, sendo adotado um nível <strong>de</strong> significância <strong>de</strong> 5% para<br />

ambos os testes.<br />

RESULTADOS<br />

SOBREVIVÊNCIA<br />

Ao submeter pós-larvas do L.vannamei a administração dos PS na água <strong>de</strong> cultivo não foi<br />

observado diferença significativa (p > 0,05). Contudo, a menor sobrevivência observada foi no T 3 ,<br />

durante a fase <strong>de</strong> estresse, em <strong>de</strong>corrência <strong>de</strong> um <strong>de</strong>scontrole do fornecimento <strong>de</strong> ar ao sistema em<br />

duas das repetições (Figura 1). No tratamento T 2 , observou-se uma melhoria na taxa tanto durante a<br />

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administração dos PS como após o período <strong>de</strong> indução <strong>de</strong> estresse nos animais, mas não diferiu<br />

entre os tratamentos T 1 e T 4 .<br />

100<br />

Sobrevivência (%)<br />

80<br />

60<br />

40<br />

20<br />

T1 - Controle<br />

T2 - 0,1 mg/L<br />

T3 - 0,5 mg/L<br />

T4 - 1,0 mg/L<br />

0<br />

Administração dos PS<br />

Estresse<br />

Eventos do período <strong>de</strong> cultivo<br />

Figura 1 - Sobrevivência das pós-larvas <strong>de</strong> Litopenaeus vannamei quando submetidas às<br />

administrações <strong>de</strong> polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados (PS).<br />

BIOMASSA FINAL VIVA E GANHO DE PESO<br />

O tratamento com 0,1 mg L -1 <strong>de</strong> PS apresentou a maior biomassa final viva ao término do<br />

estresse induzido, mas não diferiu significativamente entre os tratamentos (p > 0,05). (Tabela 1). No<br />

tratamento T 3 , sobreviveram poucos animais em apenas uma das repetições, contribuindo assim<br />

para os menores valores <strong>de</strong> biomassa final viva. Os pesos médios finais, por tratamento, foram<br />

0,196 ± 0,002 (T 1 ); 0,191 ± 0,034 (T 2 ); 0,074 ± 0,126 (T 3 ) e 0,202 ± 0,044 g (T 4 ), respectivamente,<br />

os quais também não diferiram.<br />

Tabela 1 - Biomassa final viva e ganho <strong>de</strong> peso das pós-larvas <strong>de</strong> Litopenaeus vannamei, por<br />

tratamento, ao final do experimento.<br />

Tratamentos Biomassa final (g) GPP (g)<br />

T 1 - Controle 9,172 ± 1,435 a 0,093 ± 0,002 a<br />

T 2 - 0,1 mg L -1 11,437 ± 2,625 a 0,088 ± 0,036 a<br />

T 3 - 0,5 mg L -1 2,873 ± 4,976 a rb<br />

T 4 - 1,0 mg L -1 8,883 ± 2,029 a 0,099 ± 0,044 a<br />

Letras iguais indicam ausência <strong>de</strong> diferenças significativas entre as médias.<br />

GPP: ganho <strong>de</strong> peso do período; rb: redução <strong>de</strong> biomassa.<br />

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PARÂMETROS FISICO-QUÍMICOS<br />

Durante o experimento, a temperatura ficou em torno <strong>de</strong> 28,04 ± 0,24 °C (média ± DP), o<br />

pH foi <strong>de</strong> 7,13 ± 0,35 e o oxigênio dissolvido atingiu valores <strong>de</strong> 3,25 ± 0,50 mg L -1 . Todas as<br />

variáveis mantiveram-se <strong>de</strong>ntro dos valores recomendados para o cultivo do camarão marinho L.<br />

vannamei. Porém, o aumento da turbi<strong>de</strong>z da água <strong>de</strong> cultivo, durante o estresse, ocasionou uma<br />

alteração significativa do comportamento dos animais.<br />

DISCUSSÃO<br />

Nos trabalhos envolvendo imunoestimulantes são relatados que os efeitos negativos do<br />

estresse em camarões e peixes em diversas fases <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento po<strong>de</strong>m ser minimizados<br />

mediante diferentes formas <strong>de</strong> administração. Itami et al. (1998) relataram que a administração oral<br />

do β-glucano (polissacarí<strong>de</strong>os não-sulfatado) aumentou a sobrevivência, a taxa <strong>de</strong> crescimento e a<br />

ativida<strong>de</strong> fagocitária em camarões Penaeus japonicus. Banhos <strong>de</strong> imersão em camarões L.<br />

vannamei com PS extraídos <strong>de</strong> uma microalga cianofícea resultaram na melhoria <strong>de</strong> alguns<br />

parâmetros imunológicos, tais como a ativida<strong>de</strong> da enzima superóxido dismutase e a geração do<br />

ânion superóxido (Campa-Córdova, Hernán<strong>de</strong>z-Saavedra, De Philippis & Ascencio, 2002). (Rivera<br />

et al., 2002) relataram que o incremento <strong>de</strong> 10% do extrato da alga marinha parda Macrocystis<br />

pyrifera na dieta <strong>de</strong> camarões L. vannamei resultou em uma maior biomassa final. Segundo Fu,<br />

HouYeh, Li & Chen (2007) ao estudarem diferentes vias <strong>de</strong> administração (oral, imersão e injeção)<br />

<strong>de</strong> PS da alga marinha vermelha Gelidium amansii sendo observado um aumento da habilida<strong>de</strong><br />

imune e resistência em camarões L. vannamei quando foram expostos a bactéria Vibrio<br />

alginolyticus. A utilização por via oral apresentou um melhor efeito após duas semanas <strong>de</strong><br />

administração.<br />

A administração dos PS <strong>de</strong> S. filiformis, neste trabalho, não surtiu efeitos significativos na<br />

taxa <strong>de</strong> sobrevivência e/ou no ganho <strong>de</strong> peso dos animais. Por outro lado, foi possível avaliar o<br />

estado <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> dos camarões quando tratados com 0,1 mg L -1 <strong>de</strong> PS, sendo observado uma maior<br />

ativida<strong>de</strong> natatória e uma maior aptidão alimentar, mesmo quando submetidos ao estresse. O<br />

aumento da turbi<strong>de</strong>z durante a suspensão da renovação da água <strong>de</strong> cultivo proporcionou uma maior<br />

rejeição do alimento ofertado aos animais dos tratamentos T 1 e T 3 durante o experimento,<br />

indicando um comportamento <strong>de</strong> estresse. Os animais do tratamento T 2 não <strong>de</strong>monstraram<br />

estímulos promovidos pelo estresse durante o experimento.<br />

Alguns eventos têm sido relatados como efeitos adicionais a imunoestimulação. Rodrigues,<br />

(2006) observou que a administração diária <strong>de</strong> 1,0 mg L -1 dos PS da alga marinha vermelha H.<br />

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pseudofloresia promoveu um comportamento mais ativo, aumento da freqüência <strong>de</strong> mudas e maior<br />

apetite alimentar em camarões adultos <strong>de</strong> L. vannamei. Além disso, esses polissacarí<strong>de</strong>os<br />

reduziram significativamente a taxa <strong>de</strong> mortalida<strong>de</strong> quando os animais foram submetidos a<br />

condições adversas <strong>de</strong> estresse. Lopez et al (2003) ao estudarem β-glucanos na dieta <strong>de</strong> juvenis do<br />

camarão L. vannamei relatam que o polissacarí<strong>de</strong>o foi <strong>de</strong>gradado na glândula digestiva por β-<br />

glucanases para produzir energia após 40 dias <strong>de</strong> administração, permitindo o direcionamento <strong>de</strong><br />

outras proteínas para o crescimento. Entretanto, neste último caso, não existem relatos da<br />

ocorrência <strong>de</strong>sses eventos com PS <strong>de</strong> algas marinhas.<br />

Segundo Tavares-Dias & Moraes (2004) os autores relatam que a análise dos padrões<br />

sanguíneos são subsídios importantes no diagnóstico e prognóstico <strong>de</strong> condições mórbidas em<br />

populações. Uma forma <strong>de</strong> avaliar o estado <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> <strong>de</strong> peixes é o diagnóstico dos tecidos<br />

hematopoéticos pela presença <strong>de</strong> centros <strong>de</strong> melanomacrófagos ou agregados <strong>de</strong> macrófagos no<br />

fígado, baço e no rim. Esses centros possuem função imunológica como respostas humoral e<br />

inflamatória e ainda estocam, <strong>de</strong>stroem, ou <strong>de</strong>toxificam substâncias exógenas e endógenas. Farias<br />

et al. (2004) observaram que pequenas doses <strong>de</strong> PS da alga marinha vermelha Botryocladia<br />

occi<strong>de</strong>ntalis aumentaram a taxa <strong>de</strong> sobrevivência durante a reversão sexual da tilápia do Nilo<br />

Oreochromis niloticus. Aumento da ativida<strong>de</strong> fagocítica e a produção <strong>de</strong> ânion superóxido foram<br />

estimulados pela administração da microalga Spirulina platensis incorporada na dieta da carpa<br />

comum Cyprinus carpio (Watanuki, Ota, Malina, Tassakka, Kato & Sakai, 2006).<br />

São reportadas em algumas pesquisas que o estabelecimento <strong>de</strong> uma dose ótima <strong>de</strong> um<br />

imunoestimulante é extremamente importante para se obter uma resposta efetiva e alguns relatos<br />

(Boonyaratpalin, Boonyaratpalin, Supamattaya & Yori<strong>de</strong>, 1995; Park & Jeong, 1996; Tinman,<br />

Belotsky, Avidar, Bogin, E. & Bejerano, 2000; Farias et al., 2004) têm <strong>de</strong>monstrado que doses<br />

baixas surtem um melhor efeito do que doses mais elevadas. A utilização <strong>de</strong> doses mais elevadas<br />

po<strong>de</strong> causar imunosupressão em peixes (Sakai, 1999) e <strong>de</strong>formida<strong>de</strong>s durante a pré-muda em<br />

crustáceos (Cenaim, 2001). Porém, essas avaliações po<strong>de</strong>m ser estratégias para a <strong>de</strong>scoberta <strong>de</strong><br />

doses intermédiárias que direcione administrações específicas durante eventos que promovam<br />

estresse, tais como no transporte e no ciclo reprodutivo dos animais aquáticos (Bricknell & Dalmo,<br />

2005). Os imunoestimulantes são consi<strong>de</strong>rados como as melhores ferramentas na indução do<br />

crescimento e sobrevivência em camarões (Azad et al., 2005), sendo a melhor alternativa durante o<br />

monitoramento <strong>de</strong> doenças infeciosas, ocasionadas pelo estresse, que agri<strong>de</strong>m o sistema imune em<br />

camarões (Alday-Sanz, 2007).<br />

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Os resultados obtidos neste estudo <strong>de</strong>monstram que as diferentes doses <strong>de</strong> PS <strong>de</strong> S.<br />

filiformis utilizadas não promoveram melhoria no <strong>de</strong>sempenho zootécnico do animal. Desta forma,<br />

recomenda-se a utilização <strong>de</strong>sses compostos mediante outras diferentes vias <strong>de</strong> administração e<br />

com um período maior <strong>de</strong> aplicação em diferentes fases <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento do L. vannamei. A<br />

complexida<strong>de</strong> e a heterogeneida<strong>de</strong> dos PS são justificadas em razão das diferentes possibilida<strong>de</strong>s<br />

<strong>de</strong> ligações entre monossacarí<strong>de</strong>os e a distribuição <strong>de</strong> grupamentos sulfato. Desta forma, cada<br />

espécie <strong>de</strong> alga po<strong>de</strong> possuir conformação estrutural única e que resulta em diferentes requisitos<br />

para a ação biológica que são, na maioria dos casos, difíceis <strong>de</strong> elucidar (Percival & Macdoweell,<br />

1967; Mourão & Pereira, 1999; Farias et al., 2000). A utilização <strong>de</strong> diferentes estratégias <strong>de</strong><br />

administração <strong>de</strong>sses compostos (S. filiformis) no L. vannamei talvez habilite o sistema imune a<br />

promover resistência dos animais quando expostos as situações <strong>de</strong> estresse.<br />

A aqüicultura integrada tem ganhado <strong>de</strong>staque nos últimos anos, mediante a associação <strong>de</strong><br />

cultivos <strong>de</strong> algas e ostras, contribuindo <strong>de</strong> maneira significativa na melhoria da qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> água<br />

dos efluentes e reduzindo as chances <strong>de</strong> doenças nos cultivos <strong>de</strong> organismos aquáticos <strong>de</strong> interesse<br />

comercial (Neori et al., 1996; Calvacante-Júnior, Andra<strong>de</strong>, Bezerra, Gurjão & Farias, 2005). Além<br />

disso, a produção <strong>de</strong> algas na própria fazenda <strong>de</strong> camarão marinho po<strong>de</strong>ria ser mais uma alternativa<br />

na suplementação na dieta dos animais, na forma <strong>de</strong> farinha <strong>de</strong> algas, contribuindo também com a<br />

redução dos custos <strong>de</strong> produção e o extrativismo a partir dos bancos naturais. O manejo a<strong>de</strong>quado<br />

dos recursos naturais é <strong>de</strong> extrema importância para o equilíbrio ambiental e a sustentabilida<strong>de</strong> da<br />

ativida<strong>de</strong> na geração <strong>de</strong> proteína animal para a população.<br />

A realização <strong>de</strong> novos estudos com diferentes administrações dos PS da alga marinha<br />

vermelha S. filiformis são recomendados a fim <strong>de</strong> avaliar seus efeitos no estresse <strong>de</strong> pós-larvas do<br />

camarão marinho L. vannamei.<br />

CONCLUSÃO<br />

A adição diária dos polissacarí<strong>de</strong>os sulfatados, extraídos da alga marinha vermelha Solieria<br />

filiformis, na água <strong>de</strong> cultivo <strong>de</strong> camarões L. vannamei, não resultou no aumento da taxa <strong>de</strong><br />

sobrevivência e ganho <strong>de</strong> peso dos animais (p > 0,05). No entanto, a administração <strong>de</strong> pequenas<br />

quantida<strong>de</strong>s do composto promoveu uma melhoria no quadro aparente <strong>de</strong> saú<strong>de</strong> dos animais quando<br />

expostos a uma situação adversa <strong>de</strong> estresse.<br />

AGRADECIMENTOS<br />

O presente trabalho contou com o apoio financeiro do MCT/PADCT/CNPq.<br />

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EFEITO DO FOTOPERÍODO E TEMPERATURA NO CRESCIMENTO DE GIRINOS DA<br />

RÃ-TOURO GIGANTE.<br />

EFFECTS OF THE LIGHT AND TEMPERATURE IN THE GROWING OF BULLFROG<br />

Athiê J. G. SANTOS; Carmem L. MELO; Patricia B. <strong>de</strong> MACÊDO<br />

Departamento <strong>de</strong> Aqüicultura e <strong>Pesca</strong>, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco<br />

E-mail: ajgs@<strong>de</strong>paq.ufrpe.br<br />

Recebido em: 12 <strong>de</strong> fevereiro <strong>de</strong> 2008<br />

Resumo - O presente trabalho teve como objetivo investigar os efeitos do fotoperíodo e temperatura no<br />

crescimento <strong>de</strong> girinos <strong>de</strong> Rana catesbeiana. Os experimentos foram realizados no<br />

Laboratório <strong>de</strong> Fisioecologia <strong>de</strong> Animais Aquáticos/UFRPE e no ranário Pan Caruru, em três<br />

etapas investigativas. Foram utilizados 734 girinos, todos no estádio metamórfico G1, e<br />

divididos nos seguintes grupos: experimentais: A Primeira etapa constou <strong>de</strong> dois grupos:<br />

grupo 1A (20Luz- 4Escuro/ 30° C); grupo 2A (fotoperíodo/temperatura ambiente). A segunda<br />

etapa foi constituída <strong>de</strong> cinco grupos: grupo 1B (20L- 4E/temperatura ambiente); grupo 2B<br />

(4L- 20E/temperatura ambiente); grupo 3B (fotoperíodo/temperatura ambiente); grupo 4B<br />

(20L- 4E/temperatura ambiente), e o grupo 5B (fotoperíodo/temperatura ambiente). Os<br />

grupos 1B a 3B foram conduzidos no LAFAq e os grupos 4B e 5B no ranário Pan Caruru. A<br />

terceira etapa constituiu-se <strong>de</strong> três grupos: grupo 1C (20L- 4E/ temperatura ambiente), 2C<br />

(4L- 20E/temperatura ambiente) e o grupo 3C: temperatura/fotoperíodo ambiente, sendo este<br />

último conduzido no ranário comercial. Os girinos foram mantidos numa <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 1<br />

girino/2L d’água, e alimentados três vezes ao dia com uma ração contendo 45 % <strong>de</strong> proteína<br />

bruta. O peso e o comprimento dos girinos foram mensurados quinzenalmente, quando<br />

registravam-se também os estádios metamórficos. Conclui-se que fotoperíodo longo e<br />

temperatura elevada aceleram o crescimento dos girinos da rã-touro e que os efeitos <strong>de</strong>sses<br />

fatores ecológicos po<strong>de</strong>m variar <strong>de</strong> acordo com o tamanho do animal.<br />

Palavras-chaves: Rana catesbeiana, <strong>de</strong>senvolvimento, fatores ecológicos, metamorfose<br />

Abstract - This work aimed to investigate the effects of photoperiod and temperature on the growing of<br />

bullfrog Rana catesbeiana tadpoles. The experiments were carried out at the Physioecology<br />

of the Aquatic Animals Laboratory/UFRPE and at the Pan Caruru frogfarm, in three<br />

investigative phases. A total of 734 tadpoles (all of them in metamorphic stage G1) were used<br />

in this investigation, and divi<strong>de</strong>d in the following experimental groups: The first phase was<br />

consisted of two groups: G-1A ((20L- 4D/30°C); G-2A (natural photoperiod and<br />

temperature). The second phase was consisted of five groups: G-1B ((20L- 4D/natural<br />

temperature); G-2B (4L- 20D/natural temperature); G-3B (natural photoperiod/ temperature);<br />

G-4B (20L- 4D/natural temperature); G-5B (natural photoperiod/temperature). The 1B to 3B<br />

experimental groups were conducted insi<strong>de</strong> the laboratory, while the groups B4 and B5 were<br />

carried out at the Pan Caruru commercial frogfarm. The third phase was consisted of three<br />

groups: G-1C (20L- 4D/natural temperature); G-2C (4L- 20D, natural temperature) and G-3C:<br />

(natural photoperiod/ temperature, at the Pan Caruru frogfarm). In all groups, the tadpoles<br />

were kept at a <strong>de</strong>nsity of 1 ind/2 L of water, and fed daily with 45% gross protein.<br />

Bodyweight, bodylength and metamorphic changes were registered every fifteen days. It<br />

could be conclu<strong>de</strong>d that long photoperiod and high temperature enhance the growing in<br />

bullfrog tadpoles and that these ecological factors effects also can vary according to the<br />

animal size.<br />

Key-words: Rana catesbeiana, <strong>de</strong>velopment, ecological factors, metamorphose<br />

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INTRODUÇÃO<br />

A ranicultura é uma ativida<strong>de</strong> em crescimento no Brasil, contando hoje com aproximadamente<br />

500 ranários e 15 uida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> abate e beneficiamento (Ferreira, 2003a). Pesquisas recentes apontam<br />

para um potencial <strong>de</strong> <strong>de</strong>manda ainda maior para a carne <strong>de</strong> rã e seus <strong>de</strong>rivados. Reporta-se que o<br />

mercado que é capaz <strong>de</strong> absorver quase três vezes a produção nacional, principalmente por aqueles<br />

consumidores que buscam substitutos da carne vermelha.<br />

Com a crescente preocupação mundial em relação à caça <strong>de</strong> animais silvestres para consumo,<br />

os países importadores <strong>de</strong> rãs priorizaram o consumo <strong>de</strong> rã produzida em criatórios comerciais. O<br />

Brasil, um dos pioneiros na criação <strong>de</strong> rãs em cativeiro e <strong>de</strong>tentor <strong>de</strong> tecnologia <strong>de</strong> produção<br />

avançada, po<strong>de</strong> se tornar um dos maiores produtores mundiais nesse segmento. Entretanto, apesar<br />

do expressivo crescimento <strong>de</strong>ssa ativida<strong>de</strong> no país, alguns entraves ainda são <strong>de</strong>tectados para atingir<br />

o seu pleno <strong>de</strong>senvolvimento. Dentre outros, <strong>de</strong>stacam-se a escassa divulgação sobre o valor<br />

nutricional da carne da rã, preço elevado no mercado (Ferreira, 2003b), falta <strong>de</strong> uma política<br />

agressiva <strong>de</strong> fomento à ativida<strong>de</strong> e <strong>de</strong> mecanismos <strong>de</strong> transferência <strong>de</strong> tecnologias (Lima &<br />

Agostinho, 1988). Assincronismo metamórfico dos girinos aos níveis i<strong>de</strong>ais <strong>de</strong> temperatura e <strong>de</strong> luz<br />

e instalações ina<strong>de</strong>quadas que suprimem o crescimento das rãs em algumas estações do ano,<br />

também são fatores que suprimem o <strong>de</strong>senvolvimento da ranicultura no país. (Figueirêdo &<br />

Mangialardo, 1992).<br />

Temperatura e fotoperíodo são fatores abióticos que influenciam o ciclo <strong>de</strong> vida em Rana<br />

catesbeiana, sobretudo quanto aos aspectos reprodutivos (Fontanello et al., 1984). A rã, assim como<br />

a maioria dos animais, possui mecanismos <strong>de</strong> marcação do tempo que são capazes <strong>de</strong> perceber<br />

modificações fotoperiódicas à medida que as estações do ano se suce<strong>de</strong>m. É assim que a sua<br />

metamorfose e dormência se a<strong>de</strong>quam às modificações do meio externo. Para O’connor e Tracy,<br />

(1992), há uma inter<strong>de</strong>pendência entre os mecanismos <strong>de</strong> termorregulação e a umida<strong>de</strong> do<br />

ambiente. Em ambiente seco, as rãs reduzem a taxa <strong>de</strong> evaporação através da pele e sofrem mais<br />

estresse térmico, po<strong>de</strong>ndo chegar a níveis letais <strong>de</strong> <strong>de</strong>sidratação. Em condições artificiais, os girinos<br />

preferem <strong>de</strong>terminado gradiente <strong>de</strong> temperatura e essa preferência po<strong>de</strong> mudar <strong>de</strong> acordo com uma<br />

prévia adaptação (Hutchinson e Hill, 1977, Wollmuth et al.,1987, citados por Warkentin, 1992).<br />

Reporta-se também que em laboratório, a rã ajusta seu estado fisiológico a diferentes condições <strong>de</strong><br />

luz (Easley et al., 1979).<br />

Consi<strong>de</strong>rando a importância <strong>de</strong> fatores ambientais sobre o crescimento da rã touro gigante,<br />

Rana catesbeiana Shaw, 1802 e a escassez <strong>de</strong> informações sobre esse assunto, o presente trabalho<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

visou estudar os efeitos do fotoperíodo e da temperatura sobre o crescimento <strong>de</strong> girinos da referida<br />

espécie, criadas em laboratório e em condições <strong>de</strong> campo.<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

Um total <strong>de</strong> 734 girinos foi utilizado no presente estudo. Todos os girinos foram obtidos no<br />

ranário Pan Caruru, localizado em Paulista/ PE e selecionados no estádio G1, ou seja, sem<br />

alterações metamórficas aparente. Os experimentos sobre a influência do fotoperíodo e temperatura<br />

no seu crescimento foram conduzidos tanto no laboratório <strong>de</strong> Fisioecologia dos Animais Aquáticos<br />

do <strong>de</strong>partamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura/UFRPE, como no ranário comercial Pan Caruru. Antes <strong>de</strong><br />

cada experimento, todos os animais foram <strong>de</strong>sinfetados com azul <strong>de</strong> metileno na proporção <strong>de</strong> 1g/<br />

1L d’água. Ração <strong>de</strong> truta contendo 45% <strong>de</strong> proteína bruta foi utilizada em todos os experimentos,<br />

com a freqüência alimentar <strong>de</strong> três vezes ao dia (às 08:00, 12:00 e 16:00 h), na quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 5% da<br />

biomassa total.<br />

As biometrias foram quinzenais e objetivaram registrar o crescimento em ganho <strong>de</strong> peso e<br />

comprimento, bem como a evolução dos estádios metamórficos, segundo a classificação <strong>de</strong> Lima &<br />

Agostinho, (1992). Os dados obtidos foram tabulados e analisados estatisticamente.<br />

O trabalho constou <strong>de</strong> três etapas investigativas, realizadas em diferentes períodos do ano e<br />

sob as condições <strong>de</strong> fotoperíodo e temperatura conforme <strong>de</strong>scritas nas tabelas abaixo:<br />

PRIMEIRA ETAPA:<br />

Os experimentos foram realizados no Laboratório <strong>de</strong> Fisioecologia dos Animais Aquáticos<br />

entre 01 e 29/07/03. Nessa etapa, foram utilizados 80 girinos, que foram distribuídos em dois<br />

grupos como especificados na Tabela 1,<br />

Tabela 1 - Tratamento <strong>de</strong> fotoperíodo e temperatura nos grupos experimentais da primeira<br />

etapa.<br />

Grupo Fotoperíodo/Temperatura<br />

1 A 20L-4E*/30° C<br />

2 A Ambiente/Ambiente **<br />

*Legendas: 20L= 20 horas luz; 4E= 4 horas escuro<br />

**Fotoperíodo e temperatura ambiente (laboratório)<br />

No grupo 1A, o fotoperíodo foi controlado por meio <strong>de</strong> lâmpadas fluorescentes <strong>de</strong> 40 W,<br />

presas em bases <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira e conectadas a um timer digital, enquanto que a temperatura foi<br />

controlada por meio <strong>de</strong> um termostato. Os aquários foram cobertos com uma lona plástica na cor<br />

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preta, para evitar a influência da luz externa. Os animais foram aclimatados gradativamente, nos<br />

aquários, à temperatura experimental. O grupo 2A ficou exposto ao fotoperíodo e temperatura<br />

ambiente, ou seja, à variação natural interna do laboratório. Cada grupo foi constituído <strong>de</strong> 20<br />

girinos/aquário (1 girino para cada dois litro) e constou <strong>de</strong> uma repetição.<br />

SEGUNDA ETAPA:<br />

Os grupos <strong>de</strong> tratamentos <strong>de</strong> fotoperíodos e temperatura estão indicados na Tabela 2.<br />

Um total <strong>de</strong> 574 girinos foi dividido em cinco grupos experimentais: Os grupos 1B e 2B (cada<br />

grupo com uma repetição) foram constituídos <strong>de</strong> 20 girinos/aquário, exceto o grupo 3B (controle e<br />

sem repetição) que continha 80 girinos. Estes experimentos foram realizados no Laboratório <strong>de</strong><br />

Fisioecologia dos Animais Aquáticos (LAFAq ) do <strong>de</strong>partamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura/UFRPE.<br />

Os grupos 4B e 5B, porém, foram conduzidos no ranário Pan Caruru, em dois tanques <strong>de</strong> alvenaria<br />

(1,0 x 2,0 x 0,6 m), cada um contendo 207 girinos. Os experimentos foram realizados entre 07/08 e<br />

10/09/2003.<br />

Tabela 2 - Tratamento <strong>de</strong> fotoperíodo e temperatura nos grupos experimentais na segunda<br />

etapa.<br />

Grupo<br />

Fotoperíodo/Temperatura<br />

TERCEIRA ETAPA:<br />

1B 20L-4E/Ambiente*<br />

2B 4L-20E/30°C<br />

3B Ambiente/Ambiente*<br />

4B 20L-4E/Ambiente**<br />

5B Ambiente/Ambiente**<br />

* Laboratório<br />

** Ranário<br />

Nessa etapa foram utilizados 80 girinos, distribuídos em três grupos: dois <strong>de</strong>les realizados<br />

no LAFAq e o terceiro, no ranário Pan caruru. O período experimental foi entre 02/10/03 a<br />

18/11/03. Os tratamentos <strong>de</strong> fotoperíodo e temperatura estão indicados na Tabela 3.<br />

Para verificar a diferença das médias dos pesos e comprimentos dos girinos entre os<br />

tratamentos <strong>de</strong> cada etapa utilizou-se o teste <strong>de</strong> hipóteses para comparação <strong>de</strong> duas amostras<br />

in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes (Teste T), e o <strong>de</strong> comparação com duas proporções, para o número <strong>de</strong> girinos no<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

estádio G5. O nível <strong>de</strong> significância em ambos as comparações foi <strong>de</strong> α = 0,05, empregando-se o<br />

programa estatístico Bioestat3.<br />

Tabela 3 - Tratamento <strong>de</strong> fotoperíodo e temperatura nos grupos experimentais da terceira<br />

etapa<br />

Grupo<br />

1C<br />

2C<br />

Fotoperíodo/Temperatura<br />

20L- 4E/Ambiente*<br />

4L- 20E/Ambiente*<br />

3C Ambiente/Ambiente **<br />

* Laboratório<br />

** Ranário<br />

RESULTADOS E DISCUSSÃO<br />

O presente trabalho apresenta os primeiros resultados sobre os efeitos do fotoperíodo e da<br />

temperatura no crescimento <strong>de</strong> girinos da rã-touro gigante, obtidos no LAFAq/UFRPE e no ranário<br />

comercial Pan-Caruru-PE. Na primeira etapa do experimento, os girinos do grupo 1A (20L-4E/30°<br />

C) apresentaram melhor <strong>de</strong>sempenho quanto aos estágios metamórficos. Ao final do experimento,<br />

72,5% dos girinos estavam no estágio G5 contra apenas 30% no grupo fotoperíodo e temperatura<br />

ambiente (grupo 2A). Estes experimentos foram conduzidos no mês <strong>de</strong> julho, quando a temperatura<br />

da água é mais baixa (variação: 25-27 o C) e o fotoperíodo em torno <strong>de</strong> 11,5 horas luz. Embora os<br />

girinos do grupo 1A se <strong>de</strong>senvolveram mais rapidamente quanto à transformação metamórfica, não<br />

houve diferença significativa entre os dois grupos quanto ao peso e comprimento dos girinos.<br />

(Tabela 4).<br />

Tabela 4 - Dados <strong>de</strong> comprimento (cm) e peso (g) médios, e estádios metamórficos (% ) da<br />

rã-touro obtidos ao final da primeira etapa experimental. (Período: 01-29/07/2003).<br />

Grupo Inicial Final Estádios metamórficos<br />

Fotoper./Temp. Comp. Peso Comp. Peso G1 G2 G3 G4 G5<br />

1 A) 20L-4E/30° C 6,58 a 4,89 a 10,5 a 16,23 a - - 10 % 17,5 % 72,5 % a<br />

2 A) Ambiente/Ambiente* 6,48 a 4,81 a 12,02 a 15,28 a - 10 % 37,5 % 22,5 % 30 % b<br />

*Ambiente interno do laboratório.<br />

Letras iguais (em coluna) não diferem estatisticamente.<br />

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Na segunda etapa, os girinos submetidos à 20L-4E e temperatura ambiente do laboratório<br />

(grupo 1B) obtiveram o melhor crescimento metamórfico em relação aos <strong>de</strong>mais tratamentos,<br />

apresentando 45% do número total <strong>de</strong> girinos no estádio G5. Os girinos do grupo 4B também<br />

foram submetidos à 20L-4E e temperatura ambiente, porém apresentaram apenas 28% no estádio<br />

metamórfico G5. Como este experimento foi realizado no ranário on<strong>de</strong> a temperatura ambiental foi<br />

mais baixa (21 o C) do que àquela do ambiente interno do laboratório (28-30 o C) durante o período<br />

investigativo, explicar-se a diferença no <strong>de</strong>senvolvimento metamórfico entre os dois grupos. No<br />

grupo 2B, o percentual <strong>de</strong> girinos no estádio G5 foi <strong>de</strong> apenas 20%, e embora estivessem<br />

submetidos à temperatura <strong>de</strong> 30 o C, o fotoperíodo foi <strong>de</strong> penas 4 horas luz, indicando, assim, uma<br />

influência negativa do fotoperíodo curto no <strong>de</strong>senvolvimento metamórfico. (Tabela 5).<br />

Tabela 5 - Dados <strong>de</strong> comprimentos (cm) e pesos médios (g) e estádios metamórficos (%) da<br />

rã-touro obtidos na segunda etapa experimental. (Período: 07/08- 10/09/2003).<br />

Grupos Inicial Final Estádios metamórficos finais<br />

Fotoper../Temp. Comp. Peso Comp. Peso G1 G2 G3 G4 G5<br />

1B) 20L-4E/ Ambiente* 7,48 a 9,03 a 12,67 a 17,86 a - - 4,5% 50% 45,5% a<br />

2B) 4L-20E/30°C 7,48 a 9,03 a 12,01 b 15,18 b 8% 13% 19,5% 39,5% 20% b<br />

3B) Ambiente /Ambiente* 7,48 a 9,03 a 11,18 b 12,62 a 7% 23% 43% 21% 6% c<br />

4B) 20L-4E/Ambiente** 7,48 a 9,03 a 12,42 c 15,58 c 5% 9% 42% 16% 28% d<br />

5B) Ambiente/Ambiente** 7,48 a 9,03 a 12,89 c 15,99 c 2% 2% 49% 17% 30% e<br />

* Ambiente interno do laboratório<br />

* * Ambiente externo (ranário)<br />

Letras iguais (em coluna) não diferem estatisticamente.<br />

A porcentagem <strong>de</strong> girinos no estádio G5 nos grupos da terceira etapa foi <strong>de</strong> 3,0% e 2,5% para<br />

os grupos 1C (20L-4E/ambiente) e 3C (ambiente/ambiente), respectivamente (Tabela 6). No grupo<br />

2C, porém, não se observou o estádio metamórfico (G-5), indicando mais uma vez que fotoperíodo<br />

curto inibe o <strong>de</strong>senvolvimento do girino da rã touro. As percentagens do estádio G5 nessa etapa<br />

foram bem menores do que nas etapas anteriores. Nota-se, também, que o tamanho inicial dos<br />

girinos nesta última fase foi também menor (0,70-0,78 contra 4,89-9,3 gramas nas fases anteriores),<br />

sugerindo que os efeitos do fotoperíodo e da temperatura no <strong>de</strong>senvolvimento dos girinos po<strong>de</strong>m<br />

estar condicionados ao seu estádio ontogênico.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Sabe-se que o fotoperíodo é um importante fator ecológico na regulação da taxa metamórfica<br />

<strong>de</strong> rã; variáveis como fotoperíodo e manejo ina<strong>de</strong>quado po<strong>de</strong>m provocar distúrbios que alteram a<br />

resposta dos girinos com relação ao ganho <strong>de</strong> peso e à taxa <strong>de</strong> metamorfose (Bambozzi et al.<br />

(2004). Girinos <strong>de</strong> rã-touro apresentaram maior ganho <strong>de</strong> peso e melhor sobrevivência quando<br />

Tabela 6 - Dados <strong>de</strong> comprimento (cm) e peso (g) médios, e estádios metamórficos (%) da rãtouro<br />

obtidos na terceira etapa experimental. (Período: 02/10- 18/11/2003).<br />

Grupos Inicial Final Estádios metamórficos<br />

Fotoper./Temp. Comp. Peso Comp. Peso G1 G2 G3 G4 G5<br />

1C) 20L-4E/Ambiente* 4,07 a 0,74 a 8.12 a 4.68 a 22 % 18,5 % 35,5 % 21 % 3,0 % a<br />

2C) 4L-20E/Ambiente* 4,08 a 0,78 a 7.86 a 4.54 a 26 % 39 % 20 % 15 % -<br />

3C) Ambiente/Ambiente** 3,98 a 0,70 a 4,01 b 2,06 b 27,5 % 27,5 % 30 % 12,5 % 2,5 % a<br />

* Ambiente interno do laboratório<br />

* * Ambiente externo (ranário)<br />

Letras iguais (em coluna) não diferem estatisticamente.<br />

foram criados a 30 o C. (Braga & Lima 2001). Fase longa <strong>de</strong> luz inibiu o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong><br />

Discoglossus pictus e Xenopus laevis, porém acelerou o <strong>de</strong>senvolvimento em girinos do gênero<br />

Rana. Escuridão contínua inibiu o crescimento e <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> girinos <strong>de</strong> Rana esculenta e<br />

Rana temporária. Fotoperíodo curto aumentou o ganho <strong>de</strong> peso e estimulou a metamorfose em<br />

larvas <strong>de</strong> X. laevis. (Delgado et al, 1984; Gutierrez et al,1984; Fila<strong>de</strong>lfi & Castrucci 1996. apud<br />

Bambozzi et al, 2004). No presente trabalho, os girinos <strong>de</strong> Rana catesbeiana obtiveram o melhor<br />

<strong>de</strong>sempenho <strong>de</strong> crescimento quando foram submetidos ao fotoperíodo longo (20 luz) combinado a<br />

uma elevada temperatura (30 o C). Em peixes teleósteos, o efeito do fotoperíodo no crescimento e<br />

sobrevivência varia durante a fase larval e <strong>de</strong> levinos (Bezerra et al, 2008). Na rã-touro,<br />

fotoperíodo longo e elevada temperatura aceleram o crescimento dos girinos da referida espécie e a<br />

influência <strong>de</strong>sses fatores ecológicos também parecem estar condicionados ao tamanho do animal.<br />

REFERÊNCIAS<br />

Bambozzi, A. C., Seixas Filho, J. T. De, Thomaz, L. A. (2004) Efeito do fotoperíodo sobre o<br />

<strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> girinos <strong>de</strong> rã touro (Rana catesbeiana Shaw, 1802). Rev. Bras. Zootec, 33(1):<br />

1-7.<br />

Bezerra, K. S. et al. (2008) Crescimento e sobrevivência da tilápia chitralada, submetida a<br />

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Rana catesbeiana (Shaw, 1802) na fase <strong>de</strong> recria. Rev. Bras. Zootec. 30(6): 1659 - 1663.<br />

Easley, K. A., et al. (1979) Environmental influences on hormonally induced spermiation of the<br />

bullfrog Rana catesbeiana. J. Ex. Zool, 207(3): 407-416.<br />

Ferrreira, C. M. Ranicultura: Uma alternativa para um bom empreendimento, 2003a. Disponível<br />

em: . Acesso em 2 <strong>de</strong> junho <strong>de</strong> 2005.<br />

Ferreira, C. M. Simpósio discute a criação <strong>de</strong> rãs. Instituto <strong>de</strong> pesca, 2003b. Disponível em:<br />

. Acesso 4 <strong>de</strong> julho 2005.<br />

Figueirêdo, M. R., C.; Mangialardo, R. R. (1992) Confinamento e engorda <strong>de</strong> rã touro (Rana<br />

catesbeiana, Shaw, 1802) em gaiolas. I. Densida<strong>de</strong> <strong>de</strong> estocagem. In: Encontro Rio gran<strong>de</strong>nse <strong>de</strong><br />

técnicos em aqüicultura, FURG, Rio Gran<strong>de</strong>, RS, Anais. 91- 94.<br />

Fontanello, D. et al. (1984) Estação <strong>de</strong> reprodução da Rana catesbeiana Shaw, 1802, criadas em<br />

ranário comercial e a influência <strong>de</strong> fatores climáticos sobre o número <strong>de</strong> <strong>de</strong>sovas. Bol. Inst. <strong>de</strong><br />

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Lima, S. L.; Agostinho, C. A. A. Tecnologia <strong>de</strong> criação <strong>de</strong> rãs. Viçosa, MG: UFV, Impr. Unin.<br />

168p. 1992.<br />

O’ Connor, M. P., Tracy, C.R. (1992) Thermoregulation by juvenile toads of Bufo woodhouse in<br />

the laboratory. Copeia, 3: 865-876.<br />

Warkentin, K. M. (1992) Effects of temperature and illumination on feeding rates of green frog<br />

tadpoles (Rana clamitans). Copeia, 3(725-730).<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

ARTIGOS TÉCNICOS<br />

CULTIVO INTENSIVO DE ESPÉCIES CARNÍVORAS<br />

INTENSIVE CULTIVATION OF CARNIVOROUS SPECIES<br />

Emerson Carlos SOARES*<br />

Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Alagoas/Campus Arapiraca-Pólo Penedo<br />

*E-mail: soaemerson@gmail.com<br />

Resumo - O cultivo <strong>de</strong> espécies carnívoras <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> principalmente do conhecimento dos aspectos<br />

comportamentais e das exigências nutricionais para o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong>sta ativida<strong>de</strong>.<br />

Para diminuir as lacunas existentes entre o setor produtivo do pescado e o setor<br />

tecnológico, faz-se necessário à elaboração <strong>de</strong> dietas com ingredientes mais acessíveis e<br />

baratos. Espécies carnívoras apresentam-se bastante promissoras, <strong>de</strong>vido o interesse<br />

multiespecífico <strong>de</strong>ste recurso para os diversos setores ligados à ca<strong>de</strong>ia produtiva do<br />

pescado. Contudo, pesquisas realizadas anteriormente com estes peixes em ambiente <strong>de</strong><br />

cultivo, mostraram-se <strong>de</strong>smotivadoras. O alto grau <strong>de</strong> canibalismo e a falta <strong>de</strong><br />

informação sobre exigências nutricionais serviram como entrave no <strong>de</strong>senvolvimento do<br />

cultivo intensivo <strong>de</strong>stas espécies. Por outro lado, a adaptabilida<strong>de</strong> a ambientes com<br />

condições limnológicas variadas, a voracida<strong>de</strong>, a aceitabilida<strong>de</strong> a dietas secas quando<br />

submetidos ao treinamento alimentar e o bom <strong>de</strong>sempenho zootécnico <strong>de</strong>stas espécies,<br />

capturadas em açu<strong>de</strong>s, represas, pequenas barragens e tanques escavados se mostraram<br />

animadoras.<br />

Palavras–chave: peixes carnívoros, cultivo intensivo, alimentação.<br />

Abstract - The cultivation of carnivorous species, such, <strong>de</strong>pends mainly on the knowledge of the<br />

behavioral aspects and of the nutritional <strong>de</strong>mands for the <strong>de</strong>velopment of this activity. In<br />

or<strong>de</strong>r to reducing the existing gaps among the productive and technological sectors of<br />

fisheries, there is a need to elaborate diets using cheaper and more accessible<br />

ingredients. Regarding these aspects species carnivorous is a promissing due to the<br />

diverse interest of this fishes to different sectors of the productive chain. However,<br />

previous research on the species carnivorous cultivation showed little sucess. High levels<br />

of canibalism and the lack of nutritional needs have colaborated to prevent the<br />

<strong>de</strong>velopment of this species farming. On the other hand, adaptability to different<br />

limnological conditions, voracity and acceptability to dry food diet, when sumitted to<br />

feeding training as well as its good zootechnical performance in dams and tanks showed<br />

success.<br />

Key words: carnivorous fish, intensive cultivation, diet.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

SOBRE A PISCICULTURA<br />

A piscicultura vem se mostrando um gran<strong>de</strong> potencial <strong>de</strong> investimento aliado ao aumento<br />

das pesquisas, abertura <strong>de</strong> linhas <strong>de</strong> crédito e melhor entendimento da legislação ambiental. No<br />

Brasil, é uma ativida<strong>de</strong> com gran<strong>de</strong> expansão e também <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> potencial para o<br />

<strong>de</strong>senvolvimento sócio-econômico, facilitando o aproveitamento com maior sustentabilida<strong>de</strong> dos<br />

recursos e abrindo possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> emprego com incremento <strong>de</strong> renda em algumas regiões do<br />

nosso país. Esta ativida<strong>de</strong> vem aumentando consi<strong>de</strong>ravelmente ao longo dos anos, sendo registrado<br />

no ano <strong>de</strong> 2000, um crescimento da or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> 35% com uma produção estimada em 115 mil<br />

toneladas com predomínio <strong>de</strong> peixes <strong>de</strong> água doce, sendo a piscicultura continental, o único setor<br />

presente em todos os estados do país (Aqüicultura no Brasil, 2000). No entanto é preciso ressaltar<br />

que a criação intensiva <strong>de</strong> peixes ainda é uma ativida<strong>de</strong> diminuta quando comparada com outras<br />

ativida<strong>de</strong>s agropecuárias, pois os avanços neste campo e a <strong>de</strong>manda por produtos pesqueiros<br />

cresceram exponencialmente, enquanto que a legislação, a disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> crédito, a mobilização<br />

do setor em cooperativas e a assistência técnica, não conseguiram acompanhar o <strong>de</strong>senvolvimento<br />

do setor a contento.<br />

Outra perspectiva do avanço dos estudos para a produção <strong>de</strong> peixes po<strong>de</strong> estar atrelada<br />

diretamente ao aumento da renda, quando, através <strong>de</strong> um melhor manejo, acompanhado <strong>de</strong> uma<br />

melhor eficiência <strong>de</strong> cultivo, po<strong>de</strong>-se influenciar na ca<strong>de</strong>ia produtiva do pescado proveniente <strong>de</strong><br />

empreendimentos relacionados ao cultivo intensivo <strong>de</strong> espécies aquícolas, em particular, espécies<br />

carnívoras.<br />

Com a <strong>de</strong>manda <strong>de</strong> pescado aumentando substancialmente pela expansão dos mercados<br />

urbanos, incremento do turismo ligado à pesca esportiva e qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> sua carne, o cultivo <strong>de</strong><br />

peixes carnívoros vem crescendo anualmente (Cyrino, 2000). Neste intuito, a criação em cativeiro<br />

<strong>de</strong>stas espécies po<strong>de</strong>-se tornar uma alternativa viável, através do subsídio <strong>de</strong> informações sobre o<br />

seu manejo em cativeiro, e melhora na sua conversão alimentar, para então obter sucesso em<br />

empreendimentos ligados a aqüicultura.<br />

ESPÉCIES CARNÍVORAS NA PISCICULTURA<br />

Tradicionalmente no Brasil, a criação <strong>de</strong> peixes carnívoros <strong>de</strong>senvolveu-se com o emprego<br />

<strong>de</strong> espécies introduzidas entre elas a truta arco-íris (Azevedo et al., 1961). Nas décadas <strong>de</strong> 70 e 80,<br />

outras espécies <strong>de</strong> hábito alimentar carnívoro tais como; surubim (Pseudoplatystoma coruscans),<br />

pirarucu (Arapaima gigas) e tucunaré (Cichla sp.) passaram a ser explorada, pelo alto valor<br />

comercial, bom <strong>de</strong>sempenho zootécnico e a excelência <strong>de</strong> suas carnes, aten<strong>de</strong>ndo aos anseios <strong>de</strong><br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

criadores. Entretanto, nos anos 80, os dados obtidos <strong>de</strong> cultivo <strong>de</strong> espécies <strong>de</strong> água doce enfatizam a<br />

criação extensiva ou semi-intensiva em barragens, açu<strong>de</strong>s e represas na região Nor<strong>de</strong>ste e Su<strong>de</strong>ste,<br />

utilizando peixes forrageiros ou picados (mortos) como alimento (Imbiriba 1991; Moura <strong>de</strong><br />

Carvalho & Nascimento, 1992).<br />

A partir da década <strong>de</strong> 90, o cultivo intensivo <strong>de</strong> peixes carnívoros foi intensificado, com as<br />

técnicas <strong>de</strong> monitoramento, o manejo dos planteis e o conhecimento da biologia das espécies terem<br />

sido aprimorados. Entre os peixes carnívoros mais adaptados à criação em cativeiro estão; o<br />

dourado (Salminus maxillosus), black bass (Micropterus salmoi<strong>de</strong>s), bagre-do-canal (Ictalurus<br />

punctatus), bagre africano (Clarias gariepinus), truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss), os surubins<br />

(Pseudoplatystoma sp.), o pirarucu (Arapaima gigas) e os tucunarés (Cichla sp.). Entretanto, para o<br />

sucesso do cultivo, o treinamento alimentar torna-se essencial, <strong>de</strong>vido o hábito alimentar<br />

essencialmente carnívoro e o canibalismo apresentado por algumas espécies como bagres e<br />

tucunarés, a fase <strong>de</strong> treinamento alimentar que engloba transição gradual dos ingredientes e<br />

componentes da ração, consiste numa etapa importante condicionando os peixes carnívoros a<br />

alimentar-se <strong>de</strong> ração seca ao final <strong>de</strong>sta fase e po<strong>de</strong> durar <strong>de</strong> 20 a 30 dias (Kossowski, 1999, Soares<br />

et al., 2007).<br />

Outra técnica <strong>de</strong> suma importância referencia o estudo das exigências nutricionais<br />

requeridas pelas espécies alvo do cultivo, em particular os teores <strong>de</strong> proteína e energia das rações.<br />

Estes itens têm motivado pesquisadores a encontrar rações balanceadas que atendam os aspectos<br />

nutricionais exigidos por peixes carnívoros.<br />

EXIGÊNCIAS NUTRICIONAIS DA DIETA PARA ESPÉCIES DE PEIXES CARNÍVOROS<br />

O conhecimento das exigências nutricionais dos peixes é importante para a piscicultura, pois<br />

os gastos com alimentação representam entre 60 e 80% do custo total do cultivo (Kubitza, 1999).<br />

Dentre os macronutrientes a proteína é o item mais importante e mais caro da ração (Robinson &<br />

Li, 1997), afetando principalmente a criação <strong>de</strong> espécies carnívoras que requerem altos níveis <strong>de</strong><br />

proteína animal na dieta tornando a ração mais onerosa, pois ingredientes como as farinhas <strong>de</strong> peixe<br />

e <strong>de</strong> carne encarecem sua formulação, não apresentam padrão <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong> constante e são <strong>de</strong> difícil<br />

aquisição (Cavero, 2004). No entanto Pezzato (1995) consi<strong>de</strong>ra a farinha <strong>de</strong> peixe um alimento<br />

padrão na composição <strong>de</strong> dietas em função do seu alto valor biológico, equilíbrio dos níveis <strong>de</strong><br />

aminoácidos, cálcio e fósforo, sendo importante no crescimento dos peixes.<br />

Uma forma <strong>de</strong> baratear os custos e melhorar a qualida<strong>de</strong> da ração é a substituição <strong>de</strong> fontes<br />

<strong>de</strong> proteínas animal (maior custo), por fontes <strong>de</strong> proteínas vegetais (soja, milho, trigo) que possuem<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

menor custo, composição química aceitável, perfil <strong>de</strong> aminoácidos mais favoráveis e alta<br />

disponibilida<strong>de</strong> (Barroso, et al., 2002, Soares et al., 2006). Com a alta <strong>de</strong>manda <strong>de</strong> ingredientes<br />

alimentares para a aquicultura, torna-se importante à avaliação dos componentes com a finalida<strong>de</strong><br />

<strong>de</strong> melhorar a assimilação e aceitabilida<strong>de</strong> da ração.<br />

Apesar <strong>de</strong> espécies carnívoras exigirem dietas mais ricas em proteína do que espécies<br />

onívoras ou herbívoras, em situações <strong>de</strong> confinamento, ingredientes como farelo <strong>de</strong> soja, farelo <strong>de</strong><br />

milho e trigo po<strong>de</strong>m ser administrados na formulação da ração <strong>de</strong> ambos, apenas em proporções<br />

diferenciadas (Cyrino, et al., 2004, Soares et al., 2006). Os peixes herbívoros e onívoros não<br />

apresentam dificulda<strong>de</strong> na digestão <strong>de</strong> proteína vegetal, entretanto peixes carnívoros possuem baixa<br />

taxa <strong>de</strong> secreção <strong>de</strong> amilase, o que po<strong>de</strong> ser um entrave à inclusão <strong>de</strong> componentes <strong>de</strong> origem<br />

vegetal em sua dieta. Contudo o uso <strong>de</strong> ingredientes vegetais po<strong>de</strong> ser utilizado na composição<br />

alimentar <strong>de</strong> espécies carnívoras em substituição a proteína animal, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que haja um<br />

acompanhamento do fígado <strong>de</strong>stes indivíduos em relação a assimilação <strong>de</strong> carboidratos.<br />

O USO DE ENZIMAS NA ALIMENTAÇÃO DE PEIXES CARNÍVOROS<br />

A introdução <strong>de</strong> atrativos alimentares ou aditivos enzimáticos na ração facilita o cultivo <strong>de</strong><br />

peixes carnívoros (Soares et al., 2008 no prelo). Kubtiza & Cyrino (1997) encontraram aumento na<br />

aceitação <strong>de</strong> uma ração comercial com sabor carne oferecidas para o tucunaré. Já a introdução <strong>de</strong><br />

enzimas na ração, é uma técnica mo<strong>de</strong>rna com a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> complementar as enzimas que são<br />

produzidas pelo próprio animal em quantida<strong>de</strong>s insuficientes (Garcia, et al., 2000; Fischer et al.,<br />

2002). Embora complexos enzimáticos já estejam sendo usados em larga escala na indústria<br />

alimentícia para facilitar a digestibilida<strong>de</strong>, melhorar o sabor e valor nutricional dos alimentos, a<br />

literatura referindo-se a introdução <strong>de</strong>stes aditivos em rações para peixes ainda é escassa. Trabalhos<br />

recentes têm <strong>de</strong>monstrado respostas positivas quanto a digestibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> nutrientes no <strong>de</strong>sempenho<br />

<strong>de</strong> aves e <strong>de</strong> coelhos utilizando-se enzimas como aditivos (Graham, 1997; Garcia, et al., 2000).<br />

O uso <strong>de</strong> lipase em rações para aves também tem sido uma nova alternativa com a intenção<br />

<strong>de</strong> aumentar a digestão <strong>de</strong> gorduras (Graham, 1997). Alguns estudos sobre quantificação <strong>de</strong><br />

protease exógena influenciando as dietas ou estudos comparativos <strong>de</strong> enzimas proteolíticas e<br />

amilases foram realizados recentemente (Kurokawa et al., 1998; Hidalgo et al., 1999). Já Soares et<br />

al. (2008 no prelo), observou que a inclusão <strong>de</strong> protease exógena influencia na dieta <strong>de</strong> tucunarés,<br />

melhorando os índices <strong>de</strong> conversão alimentar, ganho <strong>de</strong> peso e crescimento. Estudos mais atuais<br />

indicam que apenas uma fração dos componentes das dietas animais é suplementada com esses<br />

aditivos. Esta situação mudará rapidamente com o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> novas enzimas alimentares,<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

mix enzimático ou novas formas <strong>de</strong> aplicação e pesquisas <strong>de</strong>sses produtos gerando resultados<br />

promissores.<br />

REFERÊNCIAS<br />

Aquicultura no Brasil (2000). Bases para um Desenvolvimento Sustentável. Valenti, W. C. (Coord)<br />

Brasília: CNPq/Ministério da Ciência e Tecnologia.<br />

Azevedo, P.; Vaz, J. O. & Parreira, W. B. (1961). Aclimatação da truta arco-íris em algumas águas<br />

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Barroso, V. M.; Castro, C.J.; Aoki, M. C. P. & Helmer, L. J. (2002). Valor Nutritivo <strong>de</strong> Alguns<br />

Ingredientes para o Robalo Centropomus parallelus. Rev. Bras. Zoot., 31: 2157-2164.<br />

Cavero, B. A. S. (2004). Uso <strong>de</strong> Enzimas digestivas exógenas na alimentação <strong>de</strong> juvenis <strong>de</strong><br />

pirarucu Arapaima gigas (Cuvier, 1829) [Tese <strong>de</strong> doutorado]. Manaus (AM): Instituto Nacional <strong>de</strong><br />

Pesquisas da Amazônia-INPA/Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Amazonas-UFAM.<br />

Cyrino, J. E. P. (2000). Conceitos atuais e perspectivas da alimentação e nutrição <strong>de</strong> peixes<br />

carnívoros. In: Seminário internacional sobre a Aquicultura na Amazônia. (p 139). Manaus: Anais<br />

do SISAA, 1.<br />

Cyrino, J. P.; Urbinati, E. C.; Fracalossi, D. M. & Castagnolli, N. (2004). Tópicos Especiais em<br />

Piscicultura <strong>de</strong> Água Doce Tropical Intensiva. São Paulo: Editora TecArt.<br />

Fischer, G.; Maier, C. J.; Rutz, F. & Bermu<strong>de</strong>z, L. V. (2002). Desempenho <strong>de</strong> frangos <strong>de</strong> corte<br />

alimentados com dietas a base <strong>de</strong> milho e farelo <strong>de</strong> soja, com ou sem adição <strong>de</strong> enzimas. Rev. Bras.<br />

Zoot., 31(1): 402 – 410.<br />

Garcia, M. R. E.; Murakami, E. A.; Branco, F. A. Furlan, C. A. & Moreira, I. (2000). Efeito da<br />

suplementação enzimática em rações com farelo <strong>de</strong> soja e soja Integral extrusada sobre a<br />

digestibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> nutrientes, o fluxo <strong>de</strong> nutrientes da digesta ileal e o <strong>de</strong>sempenho <strong>de</strong> frangos. Rev.<br />

Bras. Zoot., 29 (5):1414 – 1426.<br />

Graham, H. (1997). Enzimas para dietas <strong>de</strong> maiz-soya para parrilleros. Alim. Balan. Anim., 4 (6)::<br />

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Hidalgo, C. M. E. & Urea, A. S. (1999). Comparative study of digestive enzymes in fish with<br />

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Cichla spp. In: Proceedings of the International Symposium Biology of Tropical Fishes (p.139).<br />

Manaus: Anais SBTF.<br />

Kubitza, F. (1999). Nutrição e alimentação <strong>de</strong> tilápias – parte I. Panorama da Aquicultura, 9 (52):<br />

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Kurokawa, T.; Shiraishi, M & Suzuki, T. 1998. Quantification of exogenous protease <strong>de</strong>rived of<br />

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Moura Carvalho, L. O. D. & Nascimento, C. N. B. (1992). Engorda <strong>de</strong> pirarucus Arapaima gigas<br />

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Pezzato, L. E. (1995). Alimentos convencionais e não-convencionais disponíveis para a indústria da<br />

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Soares, E. C.; Pereira-Filho, M.; Roubach, R.; Ituassú, D. R. & Silva, R. C. S. (2006). Substituição<br />

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Soares, E. C.; Pereira-Filho, M.; Roubach, R. & Silva, R. C. S. (2007). Condicionamento alimentar<br />

no <strong>de</strong>sempenho zootécnico do tucunaré. Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong>. 3(2): 35-48.<br />

Soares, E. C.; Pereira-Filho, M.; Roubach, R. & Silva, R. C. S. (2008). Proteases exógenas em<br />

dietas para juvenis <strong>de</strong> tucunaré paca Cichla sp. Rev. Bras. Zoot. (artigo no prelo).<br />

Robinson, E. H. & Li, M. H. 1997 Low protein diets for channel catfish Icatalurus punctatus raised<br />

in earthen ponds at high <strong>de</strong>nsity. Journ. Worl. Aquac. Soc., 28: 224 – 229.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

INFLUÊNCIA DA PROFUNDIDADE DOS LAGOS DO COMPLEXO HIDRELÉTRICO DE<br />

PAULO AFONSO, BA E SUA LIMITAÇÃO AO CULTIVO DE PEIXES<br />

INFLUENCE OF THE DEPTH OF THE LAKES OF PAULO AFONSO`S HYDROELECTRIC COMPOUND, IN<br />

THE INVASION OF AQUATIC MACROPHYTES, AND HER LIMITATION TO THE CULTIVATION OF FISH<br />

José Patrocínio LOPES * Luiz Carlos Farias DANTAS; Eloi CERQUEIRA<br />

Departamento <strong>de</strong> Educação, Campus VIII, Universida<strong>de</strong> do Estado da Bahia<br />

*Email: jpatrobr@gmail.com<br />

Recebido para publicação em 16 <strong>de</strong> outubro <strong>de</strong> 2007<br />

Resumo - Dentre os lagos e reservatórios que surgiram após a construção das usinas hidrelétricas em Paulo<br />

Afonso, Bahia, a gran<strong>de</strong> maioria se não todos, possui problema quanto à proliferação in<strong>de</strong>sejável<br />

<strong>de</strong> macrófitas aquáticas, restringindo os cultivos intensivos <strong>de</strong> peixes em tanques-re<strong>de</strong>. O<br />

conhecimento da profundida<strong>de</strong> dos lagos em estudos po<strong>de</strong>rá contribuir para um melhor manejo<br />

nestes ambientes e provável controle das macrófitas aquáticas. As espécies <strong>de</strong> macrófitasproblema<br />

representativas nestes lagos, do ponto <strong>de</strong> vista populacional e constantes <strong>de</strong>ste estudo<br />

foram: Thypha domingensis, Eichornia crassipes, Nymphea brasiliensis e Egeria <strong>de</strong>nsa. Com o<br />

objetivo <strong>de</strong> estabelecer a profundida<strong>de</strong> limite <strong>de</strong> atuação <strong>de</strong>stas espécies, foram efetuadas<br />

medições em quatro lagos e um reservatório do município <strong>de</strong> Paulo Afonso: da Vila Militar,<br />

Touro e a Sucuri, Capuchú, Cemitério e o reservatório Delmiro Gouveia. Estas medições foram<br />

efetuadas a duas distâncias das plantas: a 1,00 m (transição) <strong>de</strong>stas e a 2,00 m da ocorrência das<br />

plantas. Foram obtidas as seguintes profundida<strong>de</strong>s controle das espécies: Thypha domingensis:<br />

1,60 m a 2,00 m <strong>de</strong> distância <strong>de</strong>sta planta. Nymphea brasiliensis: 2,18 m também a 2,00 m <strong>de</strong><br />

distância. Eichornia crassipes: por se tratar <strong>de</strong> planta flutuante foi possível concluir que a mesma<br />

se mantém controlada pelas correntes <strong>de</strong> ambientes aquáticos como os lagos e reservatórios, sendo<br />

forte invasora em ambientes fechados, indiferente da eutrofização e da profundida<strong>de</strong>; e, Egeria<br />

<strong>de</strong>nsa: não foram realizadas medições para esta espécie, uma vez que a revisão bibliográfica<br />

permite estabelecer valores <strong>de</strong> 9,00 m para o seu controle em águas claras e correntes.<br />

Palavras-chave: Macrófita, Piscicultura, Tilapicultura, Eutrofização<br />

Abstract - Among the lakes and reservoirs that appeared after the construction of the Hydroelectric power<br />

stations in Paulo Afonso, Bahia, the great majority if no all, possess problems as for the<br />

un<strong>de</strong>sirable proliferation of aquatic macrophytes, restricting the intensive cultivations of fish in<br />

tanks-net. The knowledge of the <strong>de</strong>pth of the lakes in study can contribute to a better handling in<br />

those adapt and probable control of the aquatic macrophytes. The representative macrophytesproblem<br />

species in these lake of the point of view population and constant of this study were:<br />

Thypha domingensis; Eichornia crassipes; Nymphea brasiliensis and Egeria <strong>de</strong>nsa. With the<br />

objective of establishing the <strong>de</strong>pth limit of performance of these species, measurements were<br />

ma<strong>de</strong> in four lakes and one reservoir of the municipal district of Paulo Afonso, being these: The<br />

lakes of the Vila Militar, Touro e a Sucuri, Capuchú, Cemitério and the Delmiro Gouveia<br />

reservoir. Those measurements were ma<strong>de</strong> at two distances of the plants to 1.00 m (transition) of<br />

these and to 2.00 m of the occurrence of the plants. They were obtained the following <strong>de</strong>pths<br />

control of the species: Thypha domingensis: 1.60 m to two meters of this plant. Nymphea<br />

brasiliensis: 2,18 m also to two meters of the plant. Eichornia crassipes: for treating of flotation<br />

plant, observations allow to conclu<strong>de</strong> us that same she maintain controlled by the current of the<br />

lakes as the Delmiro Gouveia reservoir, being strong invasion in indifferent of the eutrofization<br />

closed atmospheres and of the <strong>de</strong>pth. Egeria <strong>de</strong>nsa measurements were not accomplished for this<br />

species, once the bibliographical revision allows to establish values of 9.00 m for control in clear<br />

and average waters.<br />

Key-words: Macrophyte, Fish culture, Tilapiculture, Eutrofization<br />

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INTRODUÇÃO<br />

Com a construção das usinas hidrelétricas <strong>de</strong> Paulo Afonso I, II, III, IV e Apolônio Sales pela<br />

Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF), uma complexa re<strong>de</strong> <strong>de</strong> lagos e reservatórios<br />

artificiais transformou a paisagem do Município, acarretando entre outras modificações,<br />

<strong>de</strong>sequilíbrios nos ecossistemas naturais.<br />

Dentre os lagos e reservatórios que surgiram após a construção das referidas Usinas a gran<strong>de</strong><br />

maioria se não todos, possuem problema quanto à proliferação in<strong>de</strong>sejável <strong>de</strong> macrófitas aquáticas,<br />

problemas estes: <strong>de</strong> restrição ao potencial aquícola, interferindo negativamente na implantação <strong>de</strong><br />

tanques-re<strong>de</strong> para cultivo <strong>de</strong> tilápias (Oreochromis niloticus), <strong>de</strong>vido ao impedimento <strong>de</strong> instalação<br />

<strong>de</strong>stas estruturas; <strong>de</strong> or<strong>de</strong>m operacional, nos reservatórios, uma vez que as plantas interferem<br />

negativamente na geração <strong>de</strong> energia elétrica <strong>de</strong>vido à invasão <strong>de</strong>stas nas gra<strong>de</strong>s <strong>de</strong> contenção <strong>de</strong><br />

entrada às turbinas geradoras; <strong>de</strong> estética urbanística, <strong>de</strong>vido à proliferação nos lagos urbanos, uma<br />

vez que existem <strong>de</strong>ntro da ilha <strong>de</strong> Paulo Afonso mais <strong>de</strong> quinze lagos artificiais, sendo locais com<br />

potencial para implantação <strong>de</strong> áreas <strong>de</strong> lazer, <strong>de</strong>mandando custos para limpeza (FADURPE, 2000).<br />

A situação atual dos referidos lagos contribui para elevar o nível <strong>de</strong> eutrofização da água, que<br />

recebe gran<strong>de</strong> volume <strong>de</strong> esgotos domésticos provenientes em alguns casos <strong>de</strong> bairros inteiros e<br />

assoreamento dos mesmos. Provocado pelo <strong>de</strong>smatamento <strong>de</strong> suas margens com fins imobiliários e<br />

<strong>de</strong> irrigação, contribuindo para a diminuição das profundida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>sses ambientes aquáticos. Estes<br />

fatos, aliados ao que ocorreu no Município com a modificação <strong>de</strong> ambientes e introdução <strong>de</strong> novas<br />

espécies vegetais e animais causando <strong>de</strong>sequilíbrio nos ecossistemas, requerem estudos abrangentes<br />

sobre o comportamento <strong>de</strong>ssas plantas incluindo pesquisas e revisões bibliográficas. Diante <strong>de</strong>ste<br />

contexto, os lagos e reservatórios <strong>de</strong> Paulo Afonso, Estado da Bahia são ambientes promissores ao<br />

cultivo <strong>de</strong> peixes em tanques-re<strong>de</strong>, tecnologia esta que tem provocado crescimento acelerado da<br />

oferta <strong>de</strong> pescado com uma conseqüente geração <strong>de</strong> emprego e renda na região (Alencar, 1998).<br />

O conhecimento das profundida<strong>de</strong>s dos lagos em estudo po<strong>de</strong>rá contribuir para um melhor<br />

manejo nestes ambientes, e provável controle das macrófitas aquáticas. As espécies <strong>de</strong> macrófitasproblema,<br />

representativas nos referidos ambientes aquáticos, do ponto <strong>de</strong> vista populacional e<br />

constantes <strong>de</strong>ste estudo são: Thypha domingensis (taboa), Eichornia crassipes (baronesa), Nymphea<br />

brasiliensis (aguapé) e Egeria <strong>de</strong>nsa (eló<strong>de</strong>a).<br />

Para expandir a produção <strong>de</strong> peixes neste sistema <strong>de</strong> cultivo e difundir as técnicas mais<br />

mo<strong>de</strong>rnas <strong>de</strong> exploração e preservação do meio ambiente, faz-se necessário i<strong>de</strong>ntificar as<br />

profundida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> controle <strong>de</strong> macrófitas aquáticas invasoras da região e a exploração <strong>de</strong> áreas que<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

não inibam a implantação dos projetos <strong>de</strong> piscicultura em tanque-re<strong>de</strong>. Por tal motivo, este trabalho<br />

objetivou o levantamento das profundida<strong>de</strong>s dos lagos do Complexo Hidrelétrico <strong>de</strong> Paulo Afonso<br />

(CHPA) e suas influências na invasão por macrófitas aquáticas que interferem no cultivo <strong>de</strong> peixes<br />

em tanques-re<strong>de</strong>, com vistas à possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> controle <strong>de</strong>stas vegetações, contribuindo assim com<br />

o <strong>de</strong>senvolvimento da piscicultura em tanques-re<strong>de</strong>, limitado hoje em muitas coleções <strong>de</strong> água <strong>de</strong><br />

Paulo Afonso, em virtu<strong>de</strong> da invasão <strong>de</strong>stas macrófitas.<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

O presente trabalho foi <strong>de</strong>senvolvido com o apoio da Estação <strong>de</strong> Piscicultura <strong>de</strong> Paulo Afonso<br />

(EPPA), pertencente à CHESF que ce<strong>de</strong>u barco, câmara fotográfica, trena, equipe <strong>de</strong> mergulho e<br />

material <strong>de</strong> salvamento como coletes e luvas. Os procedimentos <strong>de</strong> campo foram realizados nos<br />

lagos e reservatórios <strong>de</strong> Paulo Afonso, aon<strong>de</strong> na maioria são verificados problemas quanto às<br />

restrições <strong>de</strong> cultivo <strong>de</strong> peixes em tanques-re<strong>de</strong>, os quais são: lago da Vila Militar, Touro e a Sucuri,<br />

Cemitério, Capuchú e reservatório Delmiro Gouveia.<br />

LAGO DA VILA MILITAR - Caracteriza-se por estar em proprieda<strong>de</strong> militar, apresentando uma<br />

pequena profundida<strong>de</strong>, em torno <strong>de</strong> 2,00 metros, transparência <strong>de</strong> 0,23 m e uma área <strong>de</strong><br />

aproximadamente dois hectares (Figura 1).<br />

Figura 1 - Lago da Vila Militar.<br />

Apresenta-se eutrofizado, por receber cargas poluentes <strong>de</strong> vários bairros periféricos da ilha <strong>de</strong><br />

Paulo Afonso, como: Centenário, Senhor do Bonfim, Tropical, entre outros. Com relação as<br />

macrófitas existentes, apenas T. domingensis merece atenção, on<strong>de</strong> foi verificada invasão <strong>de</strong>sta<br />

planta. Ao longo <strong>de</strong> toda a margem do lago, esta mantém um limite bem <strong>de</strong>finido, não avançando<br />

além <strong>de</strong> <strong>de</strong>terminado ponto, o que permite estabelecer com razoável precisão uma profundida<strong>de</strong><br />

limite.<br />

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LAGO O TOURO E A SUCURI - Trata-se <strong>de</strong> um lago consi<strong>de</strong>ravelmente pequeno, <strong>de</strong> água<br />

corrente, com uma profundida<strong>de</strong> máxima <strong>de</strong> quatro metros e média <strong>de</strong> aproximadamente dois<br />

metros. Sob gestão da Prefeitura Municipal <strong>de</strong> Paulo Afonso, apresenta problemas quanto à invasão<br />

<strong>de</strong> macrófitas, principalmente N. brasiliensis, <strong>de</strong>mandando custos para limpeza periódica (Figura<br />

2).<br />

Figura 2 - Lago o Touro e a Sucuri.<br />

Como não existem problemas com T. domingensis neste Lago, a relação da profundida<strong>de</strong> com<br />

a proliferação <strong>de</strong> plantas aquáticas foi realizado apenas com a espécie N. brasiliensis.<br />

LAGO DO CEMITÉRIO - Este lago apresenta uma área <strong>de</strong> 128.200 m 2 (±13 ha), possuindo em<br />

torno <strong>de</strong> 1.020 m <strong>de</strong> extensão e uma média <strong>de</strong> 130 m <strong>de</strong> largura. Apresenta profundida<strong>de</strong> média <strong>de</strong><br />

1,5 m. Em virtu<strong>de</strong> <strong>de</strong>sta profundida<strong>de</strong>, é invadido por diversas macrófitas aquáticas a exemplo <strong>de</strong><br />

T. domingensis e algumas ciperáceas (Figura 3).<br />

Figura 3 - Lago do Cemitério.<br />

Suas águas são proce<strong>de</strong>ntes do reservatório Delmiro Gouveia que por sua vez já<br />

apresenta problemas com macrófitas aquáticas. Problema este que vem se intensificando após a<br />

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implantação do cultivo <strong>de</strong> tilápias no sistema <strong>de</strong> raceways às suas margens, tendo seus efluentes<br />

lançados no referido reservatório. Recebe também os efluentes dos tanques e viveiros da EPPA, que<br />

apresenta uma área <strong>de</strong> 3,8 hectares e também esgotos <strong>de</strong> aproximadamente 1000 casas do bairro<br />

centenário.<br />

As macrófitas existentes em todo Lago são: T. domingensis, E. <strong>de</strong>nsa, Brachiaria<br />

purpurascens, Pluchea suaveolens, sendo priorizada E. crassipes estabelecendo a média da<br />

profundida<strong>de</strong> ao longo da linha <strong>de</strong> transição <strong>de</strong>sta macrófita.<br />

LAGO DO CAPUCHU - Lago artificial fechado, com aproximadamente três hectares <strong>de</strong> área e<br />

profundida<strong>de</strong> média <strong>de</strong> três metros. Apresenta substrato arenoso em praticamente toda a sua área.<br />

Água ver<strong>de</strong> turva na ocasião, o que proporcionou uma transparência <strong>de</strong> 0,30 m, apesar <strong>de</strong>ste Lago<br />

não receber cargas poluentes, sendo limpo. Porém por ser fechado, po<strong>de</strong> se observar eutrofização da<br />

água, o que se explica sua coloração característica.<br />

Quanto à invasão por macrófitas, o Lago se apresenta estável, observando-se plantas<br />

apenas nas margens e em pontos <strong>de</strong>finidos. As espécies comuns são ciperáceas e T. domingensis<br />

(Figura 4).<br />

Figura 4 - Lago do Capuchu.<br />

RESERVATÓRIO DELMIRO GOUVEIA - Gerido pela CHESF, o reservatório Delmiro Gouveia<br />

(Figura 5), sempre apresentou problemas quanto à proliferação in<strong>de</strong>sejável <strong>de</strong> duas macrófitas: E.<br />

<strong>de</strong>nsa resultado da <strong>de</strong>cantação <strong>de</strong> nutrientes na área <strong>de</strong> remanso originando o <strong>de</strong>senvolvimento<br />

maciço <strong>de</strong>sta macrófita e T. domingensis, esta em locais <strong>de</strong> pouca profundida<strong>de</strong>.<br />

Pesquisas anteriores com E. <strong>de</strong>nsa no Reservatório em questão permitem concluir que com o<br />

aumento da profundida<strong>de</strong> acima <strong>de</strong> nove metros, o solo rochoso ou arenoso e a velocida<strong>de</strong> das<br />

correntes apresentaram-se como fatores limitantes para o <strong>de</strong>senvolvimento da espécie, o que levou a<br />

restringir este estudo à invasão <strong>de</strong> T. domingensis, em virtu<strong>de</strong> da carência <strong>de</strong> trabalhos <strong>de</strong> pesquisa<br />

visando o seu controle nestes Lagos e Reservatório<br />

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Figura 5 - Reservatório Delmiro Gouveia<br />

MÉTODOS DE IDENTIFICAÇÃO DAS PROFUNDIDADES<br />

Os lagos da Vila Militar, Capuchú, Touro e a Sucuri e o reservatório Delmiro Gouveia<br />

servirão como referência <strong>de</strong> controle, uma vez que pelas suas pequenas dimensões, ou manejo<br />

operacional das usinas, não há possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> cultivo <strong>de</strong> peixes em tanques-re<strong>de</strong> e também pelo<br />

fato <strong>de</strong> haver um limite bem <strong>de</strong>finido da ocorrência <strong>de</strong> plantas no sentido margem-centro do Lago<br />

ou Reservatório. Estes limites po<strong>de</strong>m estar relacionados com as profundida<strong>de</strong>s locais, o que levou a<br />

levantar a hipótese.<br />

Foram realizadas medições em duas estações, <strong>de</strong> forma sistematizada das profundida<strong>de</strong>s, em<br />

cada lago e reservatório <strong>de</strong> Paulo Afonso, na transição a um metro da incidência das macrófitas e a<br />

dois metros <strong>de</strong>stas. Com auxílio <strong>de</strong> cartas topobatimétricas <strong>de</strong>stes ambientes cedidas pela Prefeitura<br />

Municipal <strong>de</strong> Paulo Afonso, através da Secretaria <strong>de</strong> Infra-estrutura e Meio Ambiente (SIMA), é<br />

possível indicar que locais po<strong>de</strong>rão ser favoráveis à implantação dos módulos <strong>de</strong> tanques-re<strong>de</strong>.<br />

RESULTADOS<br />

LAGO DA VILA MILITAR. As medições realizadas em duas estações bem <strong>de</strong>finidas<br />

estabeleceram médias ao longo da transição <strong>de</strong> T. domingensis e a dois metros <strong>de</strong> distância <strong>de</strong>stas<br />

plantas, conforme Tabela 1.<br />

Tabela 1 - Profundida<strong>de</strong>s obtidas na transição e a 2,00 m <strong>de</strong> T. domingensis no lago da Vila<br />

Militar.<br />

Estação Profundida<strong>de</strong> na transição (m) Profundida<strong>de</strong> a 2,00 m<br />

01 0,80 1,50<br />

02 0,80 1,40<br />

03 0,90 1,60<br />

Média 0,83 1,50<br />

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Neste Lago, a profundida<strong>de</strong> limite para invasão por T. domingensis foi em média 1,50 m,<br />

sendo a única planta-problema encontrada no referido Lago.<br />

LAGO O TOURO E A SUCURI - As medições foram realizadas acompanhando a transição <strong>de</strong><br />

ocorrência <strong>de</strong> N. brasiliensis, buscando <strong>de</strong>duzir uma profundida<strong>de</strong> média <strong>de</strong> atuação <strong>de</strong>sta plantaproblema<br />

no Lago. Conforme Tabela 2, os resultados indicaram uma profundida<strong>de</strong> limite superior a<br />

dois metros para N. brasiliensis.<br />

Tabela 2 - Profundida<strong>de</strong>s obtidas na transição e a 2,00 m <strong>de</strong> N. brasiliensis no lago o Touro<br />

e a Sucuri.<br />

Estação Profundida<strong>de</strong> na transição (m) Profundida<strong>de</strong> a 2,00 m<br />

01 2,00 2,05<br />

02 1,50 2,00<br />

03 1,95 2,50<br />

Média 1,82 2,18<br />

LAGO DO CEMITÉRIO - Conforme Tabela 3, E. crassipes foi encontrada em todas as<br />

profundida<strong>de</strong>s do Lago, o que se justifica por se tratar <strong>de</strong> macrófita aquática flutuante.<br />

Tabela 3 - Profundida<strong>de</strong>s obtidas na transição e a 2,00 m <strong>de</strong> E. crassipes no lago do Cemitério.<br />

Estação Profundida<strong>de</strong> na transição (m) Profundida<strong>de</strong> a 2,00 m<br />

01 1,80 2,00<br />

02 1,50 2,50<br />

03 1,20 2,20<br />

Média 1,50 2,23<br />

LAGO DO CAPUCHÚ - A medição encontrada para T. domingensis, nas profundida<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />

transição e a dois metros <strong>de</strong> ocorrência das plantas são apresentadas na Tabela 4. Para este Lago, a<br />

profundida<strong>de</strong> limite para esta macrófita foi <strong>de</strong> 1,65 m.<br />

Tabela 4 - Profundida<strong>de</strong>s obtidas na transição e a 2,00 m <strong>de</strong> T. domingensis no lago do<br />

Capuchú.<br />

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Estação Profundida<strong>de</strong> na transição (m) Profundida<strong>de</strong> a 2,00 m<br />

01 1,00 1,60<br />

02 1,10 1,70<br />

03 1,05 1,65<br />

Média 1,05 1,65<br />

RESERVATÓRIO DELMIRO GOUVEIA - Na Tabela 5, estão representadas as profundida<strong>de</strong>s<br />

limites para T. domingensis no reservatório Delmiro Gouveia.<br />

Tabela 5 - Profundida<strong>de</strong>s obtidas na transição e a 2,00 m <strong>de</strong> T. domingensis no reservatório<br />

Delmiro Gouveia.<br />

Estação Profundida<strong>de</strong> na transição (m) Profundida<strong>de</strong> a 2,00 m<br />

01 1,10 1,70<br />

02 1,00 1,50<br />

03 0,80 1,70<br />

Média 0,97 1,65<br />

PROFUNDIDADES CONTROLE DAS ESPÉCIES<br />

Na Tabela 6, são apresentadas sínteses <strong>de</strong> profundida<strong>de</strong>s limites para a macrófita T.<br />

domingensis em lagos e no reservatório <strong>de</strong> Paulo Afonso.<br />

Tabela 6 - Profundida<strong>de</strong>s médias obtidas na transição (a 1,00 m) e a 2,00 m <strong>de</strong> ocorrência<br />

<strong>de</strong> T. domingensis em lagos e reservatório <strong>de</strong> Paulo Afonso, Bahia.<br />

Média das profundida<strong>de</strong>s obtidas (m)<br />

Lago ou reservatório Transição a 2,00 m<br />

Vila Militar 0,83 1,50<br />

Capuchú 1,05 1,65<br />

Delmiro Gouveia 0,97 1,65<br />

Média 0,95 1,60<br />

Para N. brasiliensis, tendo em vista sua ocorrência somente no lago o Touro e a Sucuri, as<br />

profundida<strong>de</strong>s médias obtidas na área <strong>de</strong> transição e a dois metros das plantas foram <strong>de</strong> 1,82 e 2,18<br />

m respectivamente.<br />

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Para E. crassipes, observações freqüentes permitem concluir que a mesma se mantém<br />

controlada pelas correntes dos lagos abertos como o reservatório Delmiro Gouveia, sendo forte<br />

invasora em ambientes fechados, indiferente da eutrofização e da profundida<strong>de</strong>.<br />

Para E. <strong>de</strong>nsa, não foram realizadas medições para esta planta, uma vez que a revisão<br />

bibliográfica permite estabelecer valores próximos a nove metros para a transição <strong>de</strong> ocorrência<br />

<strong>de</strong>sta planta em águas claras e correntes (Lopes & Tenório, 2002).<br />

DISCUSSÃO<br />

As populações <strong>de</strong> plantas subaquáticas são difíceis <strong>de</strong> manejar e controlar. O hábito perene <strong>de</strong><br />

crescimento, profundida<strong>de</strong> <strong>de</strong> colonização, a facilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> propagação por segmentos <strong>de</strong> plantas e o<br />

próprio ambiente aquático, levando a diluição <strong>de</strong> agentes <strong>de</strong> controle são gran<strong>de</strong>s problemas a<br />

serem enfrentados (Borges Neto, Gorgati & Pitelli, 2004).<br />

Segundo Santos & Thomaz (2002), a redução da profundida<strong>de</strong> afetou <strong>de</strong> forma diferenciada<br />

as lagoas abertas e fechadas refletindo negativamente na assembléia <strong>de</strong> macrófitas aquáticas.<br />

A proliferação <strong>de</strong> macrófitas está relacionada com a profundida<strong>de</strong>. O aumento da lâmina <strong>de</strong><br />

água está associado à predominância <strong>de</strong> espécies flutuantes e uma redução <strong>de</strong> espécies com<br />

enraizamento no substrato (Motta Marques et al., 1997).<br />

Existem várias espécies <strong>de</strong> macrófitas com potencial para causarem prejuízos em<br />

ecossistemas aquáticos (Carvalho, Galo, Velini & Martins, 2003). Os aguapés (gênero Eichornia),<br />

por exemplo, têm sido motivo <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s preocupações nas represas da companhia Light.<br />

Segundo Agostinho & Gomes (1997), o reservatório <strong>de</strong> Segredo (rio Iguaçu – PR) tem como<br />

característica marcante a escassez <strong>de</strong> macrófitas, po<strong>de</strong>ndo o fato <strong>de</strong>correr <strong>de</strong> seu caráter recente, das<br />

características do trecho do Rio em que foi construído (águas rápidas, curso encaixado, amplas e<br />

freqüentes variações <strong>de</strong> níveis <strong>de</strong>correntes da operação da barragem e do estado trófico). Estes<br />

fatores estão em acordo com o ocorrido no reservatório <strong>de</strong> Xingó, que apresenta características<br />

semelhantes. Também semelhante ao que ocorre no reservatório Delmiro Gouveia, que mantém a<br />

população da macrófita E. crassipes sob controle, em virtu<strong>de</strong> das correntes nos trechos lóticos.<br />

Lopes & Tenório (2002), afirmam que o melhor mecanismo <strong>de</strong> convivência com as<br />

macrófitas aquáticas em lagos e reservatórios hidrelétricos consiste em a<strong>de</strong>quado manejo <strong>de</strong>stes<br />

ambientes, controle <strong>de</strong> efluentes e o cuidado com a qualida<strong>de</strong> da água, para que haja uma mínima<br />

interferência na geração <strong>de</strong> energia elétrica e no cultivo <strong>de</strong> peixes.<br />

A profundida<strong>de</strong> média encontrada para as plantas-problema T. domingensis e N. brasiliensis<br />

foi <strong>de</strong> 1,60±0,38 m. Para E. <strong>de</strong>nsa a profundida<strong>de</strong> limite é <strong>de</strong> 9,00 m, assim estes resultados estão<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

em <strong>de</strong>sacordo com o recomendado para o cultivo <strong>de</strong> peixes em tanques-re<strong>de</strong> conforme<br />

recomendado pela Instrução Normativa Interministerial n o 8 da Secretaria Especial <strong>de</strong> Aqüicultura e<br />

<strong>Pesca</strong> (SEAP) Art. 1 o que estabelece diretrizes referentes a este parâmetro on<strong>de</strong> diz que<br />

a profundida<strong>de</strong> da área selecionada para implantação <strong>de</strong> cultivos que necessitam <strong>de</strong> arraçoamento<br />

<strong>de</strong>verá consi<strong>de</strong>rar a altura submersa da estrutura <strong>de</strong> cultivo mais a distância mínima <strong>de</strong> 1,50 m entre<br />

a parte inferior da estrutura e o álveo do corpo dágua” (Panorama da Aqüicultura, 2003).<br />

Assim, seria necessária uma profundida<strong>de</strong> mínima <strong>de</strong> 2,80 m sem ainda consi<strong>de</strong>rar o<br />

problema macrófitas aquáticas. Portanto, os lagos do acampamento Chesf em Paulo Afonso não se<br />

a<strong>de</strong>quam ao cultivo <strong>de</strong> peixes em tanques-re<strong>de</strong> em virtu<strong>de</strong> <strong>de</strong> suas pequenas profundida<strong>de</strong>s.<br />

A partir das profundida<strong>de</strong>s obtidas nas regiões <strong>de</strong> ocorrência das macrófitas-alvo nos lagos e<br />

reservatório estudados, foi possível i<strong>de</strong>ntificar um nível no qual estas plantas se mantiveram<br />

controladas. Estas cotas po<strong>de</strong>m representar uma ferramenta imprescindível para o manejo <strong>de</strong><br />

controle integrado, aliando-se a outros fatores <strong>de</strong> or<strong>de</strong>m químicos, físicos e biológicos, uma vez que<br />

a complexida<strong>de</strong> biológica <strong>de</strong>sses vegetais requer estudos multidisciplinares e freqüentes.<br />

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Estação Ecológica do Taim. In: XII Simpósio Brasileiro <strong>de</strong> Recursos Hídricos. Vitória. Anais do<br />

SBRH, 3.<br />

Panorama da Aqüicultura. (2003). Instrução Normativa Interministerial N o 8. v. 13. N. 80. p. 60.<br />

Santos, A. M. & Thomaz, S. M. (2002). Diversida<strong>de</strong> <strong>de</strong> espécies <strong>de</strong> macrófitas aquáticas em lagoas<br />

<strong>de</strong> uma planície <strong>de</strong> inundação tropical: O papel da conectivida<strong>de</strong> e do nível da água.<br />

http://www.cblimnologia. UFJF.BR/Santos, A. M. (acessado em 31 <strong>de</strong> jul. 2006).<br />

116


117<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

“FUI NO MANGUE CATAR LIXO, PEGAR CARANGUEJO, CONVERSAR COM O URUBU”: ESTUDO<br />

SOCIOECONÔMICO DOS CATADORES DE CARANGUEJO NO LITORAL NORTE DE PERNAMBUCO<br />

"I WENT INTO THE MANGROVE TO CATCH GARBAGE, TO CATCH CRABS, TO TALK WITH THE KINGVULTURE": A<br />

SOCIO-ECONOMIC STUDY OF THE CRAB CATCHERS AT THE NORTH LITTORAL OF PERNAMBUCO.<br />

Roberta Sá Leitão BARBOZA 1 *; Sigrid NEUMANN-LEITÃO 2 ; Myrian Sá Leitão BARBOZA 3 ;<br />

Luciana <strong>de</strong> Matos Andra<strong>de</strong> BATISTA-LEITE 4 ;<br />

1 Mestre em Biologia Ambiental, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral do Pará<br />

2 Departamento <strong>de</strong> Oceanografia, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Pernambuco<br />

3 Mestranda do Programa <strong>de</strong> Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido, Núcleo <strong>de</strong> Altos<br />

Estudos Amazônicos, UFPA<br />

4 Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco<br />

*Email: roberta_barboza@yahoo.com.br<br />

Resumo - Os catadores <strong>de</strong> caranguejo utilizam instrumentos rústicos por eles adaptados e técnicas manuais para<br />

extração do caranguejo nos manguezais. Esta ativida<strong>de</strong> representa para eles gran<strong>de</strong> importância<br />

econômica através da geração <strong>de</strong> empregos e renda. Atualmente, a espécie encontra-se bastante<br />

ameaçada em alguns Estados brasileiros. Para reduzir a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> sua extinção foram realizadas<br />

algumas medidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis<br />

(IBAMA) para promover sua preservação. Entretanto, não foram integradas ações conservacionistas a<br />

fim <strong>de</strong> garantir a extração sustentável do recurso. Desta forma, o principal objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi<br />

realizar um estudo da ativida<strong>de</strong> sócio-econômica dos catadores <strong>de</strong> caranguejo-uçá nos estuários do rio<br />

São Lourenço e do rio Catuama, Goiana, PE – Brasil. Os dados foram levantados no mês <strong>de</strong> março <strong>de</strong><br />

2004 através <strong>de</strong> entrevistas semi-estruturadas com aplicação <strong>de</strong> formulários e registro fotográfico. Os<br />

principais resultados <strong>de</strong>monstram que a maioria dos entrevistados apresentaram padrão <strong>de</strong> vida e saú<strong>de</strong><br />

ambiental muito baixos e que os impactos ambientais vêm reduzindo a população <strong>de</strong> caranguejo-uçá,<br />

levando os catadores a exercerem outras ativida<strong>de</strong>s rentáveis. O estudo também evi<strong>de</strong>nciou diferença<br />

na importância sócio-econômica da catação do caranguejo entre as comunida<strong>de</strong>s estudas, tendo maior<br />

expressão na comunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> São Lourenço. Apesar da importância significativa da ativida<strong>de</strong>, refletida<br />

no abastecimento do recurso nos principais mercados públicos regionais, bem como contendo teor<br />

protéico elevado e gerando <strong>de</strong> renda para os catadores <strong>de</strong> caranguejo, estes obtém pouco usufruto da<br />

venda <strong>de</strong>vido à falta <strong>de</strong> valor agregado ao produto. Assim, é indispensável consi<strong>de</strong>rar as<br />

especificida<strong>de</strong>s regionais entre as relações do catador e do caranguejo, além da bioecologia do animal<br />

na efetivação <strong>de</strong> planos <strong>de</strong> manejo do uso do recurso.<br />

Palavras chaves: caranguejo, sócio-economia, manguezal, Pernambuco.<br />

Abstract - The crab catcher use rustic equipments adapted by tem and manual techniques to catch the crabs from<br />

mangrove areas. This activity is economically important to them as job and income generation.<br />

Nowadays, this specie in un<strong>de</strong>r threat in some Brazilian states. To minimize the chance of extinction of<br />

this specie the Government Environmental Institute – IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente<br />

e dos Recursos Naturais Renováveis) created rules to promote its preservation. However, conservation<br />

actions were not inclu<strong>de</strong>d to obtain a sustainable resource extraction. Thus, the main objective of this<br />

paper was to study the socio-economic activity of the crab catcher at São Lourenço and Catuama<br />

estuaries (Goiana, PE, Brazil). Data were obtained in March/2004 through semi-structured interviews<br />

by questionnaire application and photographic registration. The main results show that most crab<br />

catcher have a very low life standard quality, low environmental health and (a ten<strong>de</strong>ncy to <strong>de</strong>crease the<br />

crab availability) making crab catcher to change to another rentable activity. It was also observed<br />

differences between the socio-economic importance of the crab to the two studied communities (São<br />

Lourenço and Catuama), being more representative at São Lourenço. Even being important, as can be<br />

seen in the offers of the regional market, and also by its high protein content source and income<br />

generation, the crab catchers receive a low revenue due the lack of aggregated value to the product.<br />

Thus, it is important to consi<strong>de</strong>r the regional characteristics of the catcher and the crab, besi<strong>de</strong>s the<br />

animal bioecology in management programs of this resource.<br />

Key words: crabs, socio-economy, mangrove, Pernambuco


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

INTRODUÇÃO<br />

A influência sócio-cultural do caranguejo-uçá (Uci<strong>de</strong>s cordatus Linnaeus, 1763) no Brasil,<br />

em especial no Estado <strong>de</strong> Pernambuco, é expressa pelo simbolismo das músicas <strong>de</strong> Chico Science<br />

no movimento cultural mangue-beat, além das poesias do escritor e médico pernambucano Josué <strong>de</strong><br />

Castro:<br />

“Fui no mangue catar lixo/ pegar caranguejo/ conversar com o urubu...”(Chico Science)<br />

“No mangue, tudo é, foi ou será caranguejo, inclusive o homem e a lama...” (Josué <strong>de</strong> Castro)<br />

Os catadores <strong>de</strong> caranguejo são homens que vivem da coleta do caranguejo nos manguezais<br />

durante a baixamar, utilizam instrumentos rústicos por eles adaptados (ratoeira, redinha e gancho) e<br />

técnicas manuais como o braceamento 1 e o tapeamento 2 . Em geral se instalam na periferia <strong>de</strong> zonas<br />

urbanas litorâneas e <strong>de</strong>ntre os pescadores figuram entre os <strong>de</strong> menor po<strong>de</strong>r aquisitivo (Nordi, 1992)<br />

e, por não apresentarem representação política e profissional, freqüentemente não possuem direitos<br />

sociais como pensão ou benefícios por doenças (Glaser & Diele, 2004).<br />

Algumas características <strong>de</strong>ssa ativida<strong>de</strong> pesqueira têm importância para os catadores, como<br />

o fácil acesso ao mangue, a previsibilida<strong>de</strong>, o baixo custo na captura, a boa aceitação no mercado e<br />

a autonomia na produção (Glaser & Diele, 2004; Maneschy, 1993; Nordi, 1992).<br />

Para estes homens o caranguejo-uçá representa gran<strong>de</strong> importância econômica através da<br />

geração <strong>de</strong> empregos e renda (Alves & Nishida, 2004; Ivo et al., 2000), além <strong>de</strong> ser consi<strong>de</strong>rado<br />

pelos pesquisadores como um dos recursos mais explorados nos manguezais brasileiros. Em<br />

Bragança, nor<strong>de</strong>ste paraense, o caranguejo-uçá é coletado e vendido por 42% da população e é<br />

responsável por 38% da renda local (Glaser, 2003). No estuário do rio Mamanguape (PB), U.<br />

cordatus representa a espécie <strong>de</strong> caranguejo mais extraída e <strong>de</strong> maior relevância para as<br />

comunida<strong>de</strong>s no entorno dos manguezais (Alves & Nishida, 2003).<br />

Atualmente, a sobrevivência da espécie encontra-se bastante ameaçada em alguns Estados<br />

brasileiros. Há cerca <strong>de</strong> oito anos vem ocorrendo uma mortanda<strong>de</strong> em massa no sentido norte-sul<br />

<strong>de</strong>s<strong>de</strong> os manguezais situados no Ceará até o Sul da Bahia. Segundo Boeger et al. (2005), o<br />

provável agente patogênico da enfermida<strong>de</strong>, conhecida por doença do caranguejo letárgico, é um<br />

fungo ascomiceto. Todavia, ainda é <strong>de</strong>sconhecido o processo <strong>de</strong> transmissão da doença (Ciência<br />

Hoje, 2005). Schmidt & Oliveira (2006) sugerem a realização <strong>de</strong> novos estudos para <strong>de</strong>scobrir qual<br />

<strong>de</strong>sequilíbrio ambiental seria responsável pela proliferação anormal do fungo e infecção exclusiva<br />

1 Técnica em que o catador introduz o braço inteiro na toca do animal, segurando-o pela região dorsal da carapaça (Nordi, 1992).<br />

2 Consiste na obstrução da tocas do caranguejo com raízes e sedimento do mangue para promover sua subida com baixa resistência, <strong>de</strong>vido á ausência<br />

<strong>de</strong> ar (Nordi, 1992).<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

da espécie, e acima <strong>de</strong> tudo, verificar se existem ações antrópicas relacionadas a este <strong>de</strong>sequilíbrio.<br />

Outros pesquisadores (Schaeffer-Novelli et al., 2006) têm apontado a carcinicultura como causador,<br />

através <strong>de</strong> doenças transmitidas pelos camarões cultivados, entretanto, nada foi comprovado. De<br />

acordo com estudos realizados pelo Centro <strong>de</strong> Pesquisa e Gestão <strong>de</strong> Recursos Pesqueiros do Litoral<br />

Nor<strong>de</strong>stino (CEPENE), cerca <strong>de</strong> 10 mil famílias <strong>de</strong> catadores <strong>de</strong> caranguejo foram atingidas<br />

diretamente por esta alta mortanda<strong>de</strong> <strong>de</strong> caranguejos no nor<strong>de</strong>ste brasileiro (Redmanglar, 2005).<br />

Diante da preocupação <strong>de</strong> sua extinção foram realizadas algumas medidas pelo Instituto<br />

Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) para promover sua<br />

preservação. Dentre elas <strong>de</strong>staca-se a portaria nº 34, <strong>de</strong> 24 <strong>de</strong> junho <strong>de</strong> 2003 que proíbe em qualquer<br />

época a captura, a coleta, o transporte, o beneficiamento, a industrialização e a comercialização <strong>de</strong><br />

qualquer indivíduo da espécie Uci<strong>de</strong>s cordatus cuja largura da carapaça seja inferior a 6,0 cm nos<br />

Estados do Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Gran<strong>de</strong> do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas,<br />

Sergipe e Bahia. Durante o período <strong>de</strong> 1 <strong>de</strong> <strong>de</strong>zembro a 31 <strong>de</strong> maio, a captura, a manutenção em<br />

cativeiro, o transporte, o beneficiamento, a industrialização e a comercialização <strong>de</strong> fêmeas da<br />

espécie também fica proibida nesses Estados (IBAMA, 2003; Souto, 2000).<br />

Entretanto, não foram integradas ações conservacionistas entre os representantes<br />

governamentais e sociais a fim <strong>de</strong> garantir a extração sustentável do recurso, muitas vezes principal<br />

fonte <strong>de</strong> sustento aos catadores <strong>de</strong> caranguejo. As leis são simplesmente criadas e impostas, cabe<br />

aos catadores obe<strong>de</strong>cerem-nas ou não, sob risco <strong>de</strong> punição. Quintas (2002) acredita que qualquer<br />

problemática ambiental <strong>de</strong>ve ser analisada sob uma ótica multidisciplinar, respaldada nos aspectos<br />

econômicos, sociais e ecológicos, visto que o homem é parte integrante da natureza, <strong>de</strong>tentor <strong>de</strong><br />

conhecimentos e valores socialmente trabalhados durante todo o processo histórico. Para Alves &<br />

Nishida (2004), além da supervisão governamental e exploração controlada, é necessário uma<br />

contextualização da população local <strong>de</strong> catadores <strong>de</strong> caranguejos, os quais são geralmente ignorados<br />

pelas autorida<strong>de</strong>s na elaboração <strong>de</strong> medidas que regulamentam o uso <strong>de</strong> recursos.<br />

Desta forma, o principal objetivo <strong>de</strong>ste trabalho foi realizar um estudo da ativida<strong>de</strong> sócioeconômica<br />

dos catadores <strong>de</strong> caranguejo-uçá nos estuários do rio São Lourenço e do rio Catuama,<br />

Goiana, PE - Brasil.<br />

MATERIAL E MÉTODOS<br />

ÁREA DE ESTUDO<br />

A pesquisa foi realizada com as comunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> catadores <strong>de</strong> caranguejo situadas junto aos<br />

estuários dos rios Catuama e São Lourenço (Figura 1), ambos localizados no município <strong>de</strong> Goiana.<br />

Este município está situado na zona fisiográfica do Litoral e da Mata (EMPETUR, 1998), na porção<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

oriental do Estado <strong>de</strong> Pernambuco, constituindo uma área territorial <strong>de</strong> 492,1 km², equivalente a<br />

0,44% do Estado, com população urbana e rural totalizando 71.088 habitantes e <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong><br />

<strong>de</strong>mográfica <strong>de</strong> 144,46 hab/km 2 (IBGE, 2000) e a base <strong>de</strong> sua economia está no cultivo da cana-<strong>de</strong>açúcar<br />

e na agroindústria sucro-alcooleira (CPRH, 2001).<br />

Figura 1 - Mapa com a localização das áreas <strong>de</strong> estudo (São Lourenço e Catuama, PE-Brasil).<br />

O município <strong>de</strong> Goiana é composto por três distritos (Goiana, Pontas <strong>de</strong> Pedras e<br />

Tejucupapo) e mais <strong>de</strong>z povoados, entre eles Catuama, Barra <strong>de</strong> Catuama, São Lourenço e Carne <strong>de</strong><br />

Vaca. A cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Goiana está localizada entre as coor<strong>de</strong>nadas 07°33’40’’ S - 35°00’10’’ W,<br />

apresentando os seguintes limites: Norte - Caaporã e Pitimbu (Paraíba); Sul - Itamaracá, Igarassu e<br />

Itaquitinga; Leste - Oceano Atlântico e Oeste - Condado e Itambé. O clima é classificado por<br />

Köppen como tropical quente úmido, AWS’, com precipitações pluviométricas <strong>de</strong> 1.500 a 2.000<br />

mm e temperatura média <strong>de</strong> 25°C (FIDEPE, 1981).<br />

COLETA DOS DADOS<br />

Os dados sobre extração <strong>de</strong> caranguejos pelos catadores foram levantados no mês <strong>de</strong> março<br />

<strong>de</strong> 2004 através <strong>de</strong> entrevistas semi-estruturadas (Viertler, 2002) com aplicação <strong>de</strong> formulários e<br />

registro fotográfico. Estes formulários continham informações sobre as condições sociais dos<br />

catadores <strong>de</strong> caranguejo, a ativida<strong>de</strong> econômica que <strong>de</strong>senvolvem as características da extração dos<br />

caranguejos, os produtos extraídos e os aspectos relacionados à sua percepção ambiental.<br />

Foi realizada amostragem do tipo “snow ball” (Bailey, 1994 apud Albuquerque & Lucena,<br />

2004), on<strong>de</strong> a seleção dos informantes é intencional, neste caso os catadores <strong>de</strong> caranguejo, e<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

consiste na indicação dos informantes pelos próprios entrevistados. Durante as visitas domiciliares<br />

foi utilizada ajuda <strong>de</strong> dois moradores locais, constituindo-se como os informantes-chaves<br />

(Huntington, 2000; Albuquerque & Lucena, 2004, Batista-Leite, 2005), para apresentação dos<br />

pesquisadores com o objetivo <strong>de</strong> conquistar a confiança dos entrevistados, método conhecido como<br />

“rapport” (Albuquerque & Lucena, 2004). Através do acompanhamento <strong>de</strong> pessoas da própria<br />

comunida<strong>de</strong> durante a apresentação dos pesquisadores e durante a aplicação do formulário, há<br />

maior possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ocorrência <strong>de</strong> cooperação da comunida<strong>de</strong> ao longo do trabalho e <strong>de</strong><br />

veracida<strong>de</strong> dos dados coletados.<br />

RESULTADOS E DISCUSSÃO<br />

O estudo do perfil socioeconômico das comunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> catadores <strong>de</strong> caranguejo <strong>de</strong> Goiana<br />

(PE) resultou no registro <strong>de</strong> 21 entrevistados, sendo 13 referentes ao povoado São Lourenço e 8 a<br />

Catuama 3 . Durante a aplicação dos formulários alguns catadores <strong>de</strong> caranguejo associaram nossa<br />

presença à fiscalização <strong>de</strong> órgãos ambientais, evitando qualquer encontro. Situação semelhante a<br />

esta é relatada por Lima & Quinamo (2000) estudando as comunida<strong>de</strong>s pesqueiras do Canal <strong>de</strong><br />

Santa Cruz-PE e Batista-Leite (2005) no estuário do rio Goiana-PE. As entrevistas duraram, em<br />

média, uma hora.<br />

UM BREVE PERFIL SOCIAL<br />

Os resultados referentes ao nível <strong>de</strong> escolarida<strong>de</strong> dos catadores <strong>de</strong> caranguejo-uçá<br />

<strong>de</strong>monstraram altas taxas <strong>de</strong> analfabetismo (58,3% em São Lourenço e 62,5% em Catuama).<br />

Estudos semelhantes realizados em Pontas <strong>de</strong> Pedra pela Companhia Pernambucana do Meio<br />

Ambiente (CPRH, 2001) e Barra <strong>de</strong> Catuama (Lima & Quinamo, 2000) indicaram, respectivamente,<br />

os seguintes percentuais <strong>de</strong> analfabetismo: 57,5% e 26%. Fato também corroborado por Batista-<br />

Leite (2005) para os catadores <strong>de</strong> guaiamum do estuário do rio Goiana-PE com 62,5% <strong>de</strong><br />

representativida<strong>de</strong>.<br />

O material empregado nas construções das casas dos catadores entrevistados em São<br />

Lourenço, em 50% dos casos, foi taipa e telha e nos 50% restantes foi tijolo e telha. Embora a<br />

maioria das habitações <strong>de</strong> Catuama fosse construída <strong>de</strong> tijolo e telha (49%), a construção com taipa<br />

e telha ainda representa um valor alto (38%), sendo o restante das casas confeccionadas por taipa e<br />

palha (13%). Entre os catadores <strong>de</strong> caranguejo-uçá do estuário do rio Mamanguape (PB) a maioria<br />

das construções das casas (81%) é <strong>de</strong> taipa e 19% <strong>de</strong> tijolos (Alves & Nishida, 2003). Todavia,<br />

3 Os entrevistados <strong>de</strong> Pontas <strong>de</strong> Pedra e Barra <strong>de</strong> Catuama coletam no estuário do rio Catuama e foram consi<strong>de</strong>rados pertencentes à Catuama.<br />

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Batista-Leite (2005) registrou casas <strong>de</strong> tijolo em 87,50% dos casos e apenas 12,50% <strong>de</strong> taipa para os<br />

catadores <strong>de</strong> guaiamum do estuário do rio Goiana, Pernambuco.<br />

Em São Lourenço gran<strong>de</strong> parte dos entrevistados (63,6%) recebe água da re<strong>de</strong> oficial <strong>de</strong><br />

abastecimento, a Companhia Pernambucana <strong>de</strong> Saneamento (COMPESA); enquanto que em<br />

Catuama a maior parte (55,5%) tem acesso a poço artesiano. Os dados obtidos em outra pesquisa<br />

realizada na região apontam que o abastecimento <strong>de</strong> água por meio <strong>de</strong> re<strong>de</strong> oficial e poços foram <strong>de</strong><br />

42,5% e 18,6% para Pontas <strong>de</strong> Pedra (CPRH, 2001), 47% e 40% para Barra <strong>de</strong> Catuama (Lima &<br />

Quinamo, 2000), respectivamente. Contudo, Batista-Leite (2005) relatou que 100% dos catadores<br />

<strong>de</strong> guaiamum do estuário do rio Goiana-PE obtêm seu abastecimento pela COMPESA.<br />

Há, em geral, predomínio <strong>de</strong> formas obsoletas <strong>de</strong> esgotamento sanitário, como fossas sépticas<br />

precárias utilizadas por 69% dos catadores pesquisados <strong>de</strong> São Lourenço e 62% <strong>de</strong> Catuama. Existe,<br />

ainda, o lançamento dos resíduos in natura por 23% dos catadores pesquisados em São Lourenço e<br />

37,5% dos catadores pesquisados em Catuama e outras formas <strong>de</strong> esgotamento sanitário (8% em<br />

São Lourenço e 0,5% em Catuama). Esta é uma realida<strong>de</strong> do próprio município <strong>de</strong> Goiana, segundo<br />

dados da CPRH (2001), 69,1% dos <strong>de</strong>jetos do município vão para fossas rudimentares e o restante é<br />

lançado in natura.<br />

O lixo urbano apresentou os seguintes <strong>de</strong>stinos: em São Lourenço 50% dos entrevistados<br />

disseram que o lixo é recolhido pela prefeitura, 25 % afirmaram que é lançado em terrenos baldios,<br />

18,75% jogam no estuário e 6,25% dos informantes respon<strong>de</strong>ram que queimam; em Catuama 55%<br />

dos catadores disseram que o lixo é coletado por caminhões do município, 33% jogam em terrenos<br />

baldios e 11,1% enterram. Conforme resultados apresentados por Batista-Leite (2005), 81,25% da<br />

comunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> catadores <strong>de</strong> guaiamum do estuário do rio Goiana-PE têm seu lixo recolhido pela<br />

Prefeitura e 18,75% queimam, enterram ou jogam nos seus quintais.<br />

A ATIVIDADE ECONÔMICA<br />

A população <strong>de</strong> São Lourenço apresenta uma forte relação <strong>de</strong> <strong>de</strong>pendência com o manguezal,<br />

efetivada por meio da extração <strong>de</strong> moluscos e crustáceos <strong>de</strong> valor comercial. O caranguejo-uçá é<br />

explorado há muitos anos na área, on<strong>de</strong> estudos realizados pela Superintendência <strong>de</strong><br />

Desenvolvimento do Nor<strong>de</strong>ste (SUDENE) indicaram a abundância <strong>de</strong>sse recurso nas margens do<br />

rio São Lourenço, tendo sido a produção média anual, entre 1973 e 1974, estimada em 50 toneladas<br />

(SUDENE, 1978). A produção estimada <strong>de</strong> caranguejo-uçá no litoral pernambucano em 1998 foi <strong>de</strong><br />

97,5 toneladas (IBAMA, 1999). Em 2002 a produção <strong>de</strong> caranguejo foi estimada em 8,8 toneladas<br />

para o município <strong>de</strong> Goiana e 55,1 toneladas para todo o Estado <strong>de</strong> Pernambuco (IBAMA, 2002).<br />

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No que concerne a Catuama, verificou-se que as ativida<strong>de</strong>s pesqueiras são predominantemente<br />

realizadas no mar, tendo-se dificulda<strong>de</strong>s em localizar catadores <strong>de</strong> caranguejo. Um diagnóstico<br />

sócio-ambiental realizado pela CPRH (2001) ressalta a predominância da pesca estuarina sobre a<br />

marítima no litoral norte do Estado, <strong>de</strong>stacando o rio Megaó (rio São Lourenço) com exceção <strong>de</strong><br />

Pontas <strong>de</strong> Pedras e Itamaracá. Além da tradição da pesca marinha, a <strong>de</strong>struição e poluição dos<br />

manguezais também po<strong>de</strong>m ser os responsáveis por esta realida<strong>de</strong> em Catuama. A presença <strong>de</strong><br />

mulheres catadoras <strong>de</strong> siri (Callinectes sp.) e caranguejo em Barra <strong>de</strong> Catuama é citada por Lima &<br />

Quinamo (2000), constituindo 42% dos 54 pescadores entrevistados neste estudo.<br />

Os catadores <strong>de</strong> caranguejo entrevistados (48% em Catuama e 38% em São Lourenço)<br />

relataram também a busca por outras ativida<strong>de</strong>s (construção <strong>de</strong> casas, carpintaria e roçado) como<br />

fonte <strong>de</strong> renda além da extração <strong>de</strong> caranguejo (Figura 2). Catuama apresenta um contexto regional<br />

um pouco diferente <strong>de</strong> São Lourenço: há ofertas <strong>de</strong> trabalho como caseiro aos pescadores, <strong>de</strong>vido ao<br />

gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> casas <strong>de</strong> veraneio; São Lourenço, por sua vez, é caracterizada como uma vila<br />

constituída, principalmente, por pescadores e catadores. Segundo Alves & Nishida (2003), a queda<br />

na produção dos catadores <strong>de</strong> caranguejo leva-os a buscarem outras fontes <strong>de</strong> renda, como pesca,<br />

corte <strong>de</strong> cana-<strong>de</strong>-açúcar, mariscagem, coleta <strong>de</strong> ostras (Crassostrea rhizophorae Guilding, 1828),<br />

aratus (Goniopsis cruentata Latreille, 1803) e siris e serviços como ajudante <strong>de</strong> pedreiro.<br />

Observações sobre a relação da comunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Barra <strong>de</strong> Catuama com a natureza, realizadas por<br />

Lima & Quinamo (2000), revelam mudanças <strong>de</strong>correntes do crescimento <strong>de</strong>sor<strong>de</strong>nado, ocupação<br />

indiscriminada e <strong>de</strong>gradação ambiental. Em Vila Velha (PE), local um pouco mais ao sul da área<br />

estudada, El-Deir (1999) apontou a forte influência da cida<strong>de</strong> do Recife, através da formação <strong>de</strong><br />

uma população flutuante nos finais <strong>de</strong> semana, na <strong>de</strong>scaracterização das relações entre os<br />

pescadores locais e o meio ambiente.<br />

Em relação à renda mensal, temos que 69,23% dos catadores <strong>de</strong> São Lourenço e 62,50% em<br />

Catuama recebem menos <strong>de</strong> um salário mínimo 4 , enquanto 30,77% (São Lourenço) e 37,50%<br />

(Catuama) recebem um salário mínimo em suas ativida<strong>de</strong>s pesqueiras. Todavia, esses valores<br />

variam consi<strong>de</strong>ravelmente no verão, em virtu<strong>de</strong> da maior comercialização dos recursos. Os<br />

resultados divulgados para o município <strong>de</strong> Goiana mostram que 50,6% dos chefes <strong>de</strong> domicílio<br />

recebem até um salário mínimo (CPRH, 2001); em Barra <strong>de</strong> Catuama os pescadores recebem<br />

mensalmente cerca <strong>de</strong> 52 reais (Lima & Quinamo, 2000).<br />

4<br />

Em 2004 o valor do salário mínimo correspondia a R$ 240,00.<br />

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33%<br />

São Lourenço<br />

67%<br />

Não<br />

Sim<br />

Construção<br />

Roçado<br />

62% 38%<br />

25%<br />

25%<br />

Catuama<br />

25%<br />

25%<br />

Não<br />

Sim<br />

Carpinteiro<br />

Roçado<br />

Construção<br />

Outros<br />

52%<br />

48%<br />

Figura 2 - Percentual da realização <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s geradoras <strong>de</strong> renda além da catação <strong>de</strong><br />

caranguejos entre os entrevistados <strong>de</strong> São Lourenço e Catuama, Goiana-PE durante março <strong>de</strong><br />

2004.<br />

Há um maior ganho entre os catadores que não utilizam atravessadores para comercializar o<br />

produto. Quando ocorre intermédio <strong>de</strong> atravessadores o <strong>de</strong>stino dos caranguejos são as feiras <strong>de</strong><br />

Pontas <strong>de</strong> Pedra (PE), <strong>de</strong> Peixinhos (Olinda-PE) e <strong>de</strong> Rio Doce (Olinda-PE). Além <strong>de</strong> contribuir na<br />

alimentação das famílias <strong>de</strong> pescadores e catadores do Litoral Norte <strong>de</strong> Pernambuco, os recursos<br />

pesqueiros abastecem os mercados <strong>de</strong> Recife e do interior (CPRH, 2001). Alves & Nishida (2003)<br />

<strong>de</strong>stacam a influência <strong>de</strong> transformações históricas, integradas a economias <strong>de</strong> mercado e aos<br />

sistemas políticos nas formas <strong>de</strong> exploração do recurso e na riqueza cultural dos catadores, os quais<br />

mantêm em geral uma relação <strong>de</strong> sujeição com grupos <strong>de</strong> compradores que exploram seu trabalho.<br />

Cintra (1999) estudando o caranguejo no norte do Brasil (Pará) constatou que o preço do<br />

caranguejo <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> da disponibilida<strong>de</strong> do recurso, a qual está relacionada com a época do ano e a<br />

altura da maré. O autor ainda relata que os subprodutos do caranguejo não são aproveitados no<br />

município <strong>de</strong> São Caetano <strong>de</strong> Odivelas (PA), sendo os mesmos enterrados ou jogados na maré.<br />

Ogawa et al (1973a) <strong>de</strong>screveram o processo <strong>de</strong> obtenção <strong>de</strong> farinha do caranguejo para ração<br />

animal, através do aproveitamento da carapaça, vísceras e resíduos do crustáceo, evi<strong>de</strong>nciando o<br />

<strong>de</strong>sperdício existente em várias regiões do Brasil pela falta <strong>de</strong> orientação nessas comunida<strong>de</strong>s<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

pesqueiras. Há ainda pesquisas sobre o processamento da carne congelada, pasteurizada-congelada<br />

e enlatada (Ogawa et al., 1973b).<br />

Moura et al. (2005) trabalhando com as comunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> catadores do litoral Norte<br />

pernambucano relataram o beneficiamento do aratu, os quais raramente são vendidos vivos e<br />

normalmente são cozidos e <strong>de</strong>les retirado os músculos.<br />

O braquiúro Callinectes sp comumente <strong>de</strong>nominado siri têm seus músculos retirados e<br />

comercializados in natura, da mesma forma que os aratus. Além disso, em algumas praias do litoral<br />

Norte (Carne <strong>de</strong> Vaca, Pontas <strong>de</strong> Pedra, Catuama, Barra <strong>de</strong> Catuama, Itamaracá, entre outras),<br />

também tem sido vendido em fase <strong>de</strong> ecdise (chamado vulgarmente <strong>de</strong> siri-mole) sendo consi<strong>de</strong>rado<br />

como iguaria nos bares e restaurantes. Porém, urge, portanto, que essas comunida<strong>de</strong>s sejam<br />

instruídas e capacitadas para que haja um melhor aproveitamento dos recursos explorados.<br />

A EXTRAÇÃO<br />

Em relação à quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> dias semanais investidos pelos catadores nos manguezais, foi<br />

informado que 50% dos entrevistados <strong>de</strong> São Lourenço vão ao estuário 6 vezes na semana, 33% vão<br />

<strong>de</strong> 4 a 5 vezes por semana, 8,5% vão <strong>de</strong> 2 a 3 vezes na semana e 8,5% vão apenas 1 vez na semana.<br />

Em Catuama, 62,5% freqüentam o manguezal <strong>de</strong> 2 a 3 vezes na semana para extração <strong>de</strong><br />

caranguejos, 25% vão <strong>de</strong> 4 a 5 vezes na semana e 12,5% vão 6 vezes na semana ao manguezal<br />

(Tabela 1). Para eles a sazonalida<strong>de</strong> <strong>de</strong>fine os períodos <strong>de</strong> maior ou menor freqüência <strong>de</strong> idas.<br />

Quando perguntados sobre a influência sazonal na ativida<strong>de</strong> (Qual o melhor período para a<br />

ativida<strong>de</strong>: inverno ou verão? Por que?), 95% consi<strong>de</strong>raram o verão como melhor período para sua<br />

realização, <strong>de</strong>vido a maior consolidação do sedimento e ausência <strong>de</strong> chuvas, facilitando a coleta,<br />

uma vez que “se atolam” menos na lama e o número <strong>de</strong> mosquitos é menor, além <strong>de</strong> maior número<br />

<strong>de</strong> compradores do produto.<br />

A percepção dos catadores dos estuários do rio Catuama e São Lourenço <strong>de</strong> que é no verão a<br />

época <strong>de</strong> maior <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> e facilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> captura dos caranguejos é semelhante à <strong>de</strong>scrita por Cintra<br />

(1999). Estudos <strong>de</strong> Maneschy (1993) relacionam a produção <strong>de</strong> caranguejos aos ciclos biológicos<br />

do animal: as capturas se reduzem paulatinamente ao término da estação chuvosa, quando os<br />

caranguejos fecham as tocas para realizarem a troca da carapaça (ecdise). Segundo trabalhos <strong>de</strong><br />

Nordi (1994) na região <strong>de</strong> Várzea Nova (PB), os valores máximos da produção diária em número <strong>de</strong><br />

corda, peso bruto, peso da porção aproveitável e os equivalentes em caloria e proteínas ocorrem no<br />

verão.<br />

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Tabela 1 - Freqüência <strong>de</strong> idas ao estuário por semana em 2004 pelos catadores <strong>de</strong><br />

caranguejo-uçá <strong>de</strong> São Lourenço e Catuama- PE, Brasil.<br />

Idas ao estuário / semana São Lourenço (%) Catuama (%)<br />

1 8,5 0<br />

2 a 3 8,5 62,5<br />

4 a 5 33 25<br />

6 50 12,5<br />

Segundo os entrevistados, no tocante à duração da catação <strong>de</strong> caranguejos, verificou-se que<br />

75% permanecem <strong>de</strong> 7 a 9 horas no manguezal do rio São Lourenço e 25% dos catadores mais <strong>de</strong> 9<br />

horas; em Catuama 37,5% gastam <strong>de</strong> 1 a 3 horas no manguezal, 12,5% levam <strong>de</strong> 4 a 6 horas e 50%<br />

passam mais <strong>de</strong> 9 horas nessa ativida<strong>de</strong> (Tabela 2). Eles citam o regime <strong>de</strong> marés como principal<br />

responsável pelo tempo total gasto nas coletas. As jornadas dos catadores <strong>de</strong> caranguejo <strong>de</strong> São<br />

Caetano <strong>de</strong> Odivelas (PA) estudados por Maneschy (1993) duram em média <strong>de</strong> 7 a 8 horas.<br />

Tabela 2 - Tempo gasto por dia em 2004 pelos catadores <strong>de</strong> caranguejo-uçá <strong>de</strong> São Lourenço<br />

e Catuama- PE, Brasil, na ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> extração <strong>de</strong> caranguejos.<br />

Duração da ativida<strong>de</strong> (h) / dia São Lourenço (%) Catuama (%)<br />

1 a 3 0 37,5<br />

4 a 6 0 12,5<br />

7 a 9 75 0<br />

> 9 25 50<br />

Para a maioria dos catadores <strong>de</strong> caranguejo o início da ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> catação foi há mais <strong>de</strong> 5<br />

anos, assim distribuídos: <strong>de</strong> 5 a 10 anos (16,6% em São Lourenço); <strong>de</strong> 10 a 15 anos (16,6% em São<br />

Lourenço e 50% em Catuama) e há mais <strong>de</strong> 15 anos (58% em São Lourenço e 37,5% em Catuama)<br />

(Figura 3).<br />

Quanto às técnicas utilizadas na coleta dos caranguejos, verificou-se que as mais<br />

empregadas em São Lourenço e Catuama, respectivamente, são: foice 5 (33% e 12,5%); ratoeira<br />

(26% e 18,7%); braceamento (11% e 25%); tapeamento (11% e 25%) e redinha (14,8% e 18,7%).<br />

5 Pedaço <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira com ponta <strong>de</strong> metal que é introduzido na boca da toca ao encontro do caranguejo (Cintra, 1999)<br />

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As técnicas <strong>de</strong> coleta mais utilizadas pelos catadores <strong>de</strong> caranguejo-uçá do estuário do rio<br />

Mamanguape (PB) são o tapeamento junto com o braceamento (Alves & Nishida, 2003).<br />

Entrevistados (%)<br />

100<br />

90<br />

80<br />

70<br />

60<br />

50<br />

40<br />

30<br />

20<br />

10<br />

0<br />

< 1 ano 1 a 5 anos 5 a 10 anos 10 a 15 anos >15 anos<br />

Tempo <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong><br />

São Lourenço<br />

Catuama<br />

Figura 3 - Percentual do tempo médio (em anos) <strong>de</strong> exercício da profissão entre os catadores<br />

<strong>de</strong> caranguejo-uçá <strong>de</strong> São Lourenço e Catuama, PE-Brasil.<br />

No tapeamento o catador coloca um pequeno galho do mangue para marcar o local e <strong>de</strong>pois<br />

retornar para capturar o caranguejo.<br />

A ratoeira (Figura 4) também é utilizada na captura <strong>de</strong> guaiamum (Cardisoma guanhumi<br />

Latreille, 1825) e foi apontada pelos catadores como técnica mais fácil <strong>de</strong> ser empregada e menos<br />

impactante. Por outro lado, <strong>de</strong>ve-se consi<strong>de</strong>rar que se o catador não estiver consciente em coletar<br />

apenas os indivíduos adultos esta técnica po<strong>de</strong>rá oferecer riscos à população local <strong>de</strong> caranguejos.<br />

Foto:Goretti Sônia-Silva.<br />

Foto:Goretti Sônia-Silva..<br />

Figura 4 - Ratoeira utilizada na captura <strong>de</strong> guaiamum e caranguejo-uçá: diferença nos<br />

tamanhos das ratoeiras utilizadas (à esquerda) e ratoeira coberta por folhas utilizada pelos<br />

catadores em Pernambuco (à direita).<br />

Alguns catadores afirmaram não usar redinha (Figura 5) por ser difícil <strong>de</strong> confeccioná-la e<br />

pelos danos provocados pela mesma. Botelho et al. (2000) conduziram estudos em manguezais do<br />

litoral Sul do Estado <strong>de</strong> Pernambuco para avaliar os impactos ambientais no uso <strong>de</strong> redinhas na<br />

captura <strong>de</strong> caranguejo-uçá e constataram que cada catador utiliza 130 redinhas/dia, durante 18<br />

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dias/mês, equivalendo ao uso anual <strong>de</strong> 28.080 redinhas/catador, correspon<strong>de</strong>ndo aproximadamente<br />

a 17 kg <strong>de</strong> material plástico. Revelaram também que o período <strong>de</strong> tempo da baixa-mar não é<br />

suficiente para os catadores coletarem todas armadilhas, logo alguns caranguejos-uçá, ou outras<br />

espécies, mesmo quando não coletados ficam aprisionados e morrem. Os autores citam ainda que a<br />

redinha captura indivíduos jovens, apresenta baixa seletivida<strong>de</strong> e é bem impactante, pelo fato <strong>de</strong><br />

exigir o corte <strong>de</strong> 75 cm <strong>de</strong> raiz <strong>de</strong> Rhizophora mangle (Linnaeus) para fixação <strong>de</strong> cada armadilha,<br />

totalizando 42.000 metros lineares <strong>de</strong> raízes <strong>de</strong> mangue. Batista-Leite, em comunicação pessoal,<br />

afirmou que alguns catadores <strong>de</strong> caranguejo-uçá argumentaram a a<strong>de</strong>são ao uso da redinha porque<br />

os caranguejos estão em profundida<strong>de</strong>s maiores, muito além do que o braçamento po<strong>de</strong> alcançar e<br />

afirmaram que os mesmos estão “ficando sabido”.<br />

Foto:Goretti Sônia-Silva..<br />

Foto:Goretti Sônia-Silva..<br />

Figura 5 - Redinha utilizada na captura <strong>de</strong> caranguejo-uçá: redinha armada em uma toca <strong>de</strong><br />

caranguejo (à esquerda) e restos <strong>de</strong> uma redinha <strong>de</strong>ixados próximo à toca (à direita).<br />

Apesar da captura <strong>de</strong> caranguejo-uçá ser apenas permitida através do método <strong>de</strong><br />

braceamento com auxilio <strong>de</strong> gancho com proteção na extremida<strong>de</strong> (IBAMA, 2003), atualmente<br />

diferentes tipo <strong>de</strong> apetrechos <strong>de</strong> pesca vêm sendo utilizados, como os citados anteriormente<br />

(redinha, foice), além <strong>de</strong> óleo quente (diesel ou carbureto) e gás (Vergara-Filho & Villas-Boas,<br />

1996). Segundo Maneschy (1993), diferentes processos são empregados na captura dos caranguejos<br />

em função da variação do meio natural, e, igualmente, das necessida<strong>de</strong>s econômicas dos produtores,<br />

que os levam a inovar a busca <strong>de</strong> maior produtivida<strong>de</strong>.<br />

OUTROS PRODUTOS EXTRAÍDOS<br />

Em São Lourenço, a coleta <strong>de</strong> moluscos é mais expressiva que em Catuama, on<strong>de</strong> há intensa<br />

pescaria e catação <strong>de</strong> guaiamum e siri. Verificaram-se em ambos os estuários a baixa extração <strong>de</strong><br />

aratu (Tabela 3). A produção <strong>de</strong> pescado estuarino e marítimo no município <strong>de</strong> Goiana em 1998 foi<br />

<strong>de</strong> 1.040 toneladas, das quais 32,3 toneladas correspon<strong>de</strong>ram ao caranguejo-uçá (IBAMA, 1999). A<br />

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produção anual por catador <strong>de</strong> caranguejo em Várzea Nova (PB), situada ao norte da área estudada,<br />

foi estimada em 640 kg <strong>de</strong> carne, correspon<strong>de</strong>ndo a 537.000 Kcal e 106,9 kg <strong>de</strong> proteínas (Nordi,<br />

1994).<br />

Tabela 3 - Percentual (%) dos recursos pesqueiros <strong>de</strong> valor comercial extraídos em 2004 pelos<br />

catadores <strong>de</strong> caranguejo-uçá <strong>de</strong> São Lourenço e Catuama, Goiana-PE, Brasil.<br />

Recursos pesqueiros São Lourenço Catuama<br />

Crustáceos 20 55,1<br />

Aratu (Goniopsi cruentata Latreille, 1803) 4 3,4<br />

Camarão branco (Litopenaeus schmitti Burkenroad, 1936) 0 13,8<br />

Siri Azul (Callinectes danae Smith, 1869) 8 17,2<br />

Guaiamun (Cardisoma guanhumi Latreille, 1825) 8 20,7<br />

Moluscos 52 17,1<br />

Lambreta (Lucina pectinata Gmelin, 1794) 4 0<br />

Ostra (Crassostrea rhizophorae Guilding, 1828) 20 10,3<br />

Sururu (Mytella sp.) 16 3,4<br />

Taioba (Iphigenia brasiliana Lamarck, 1818) 4 0<br />

Unha-<strong>de</strong>-velho (Tagelus plebeius Lighfoot, 1786) 8 3,4<br />

Peixes 8 20,6<br />

Outros 20 6,8<br />

PERCEPÇÃO DOS CATADORES<br />

Os resultados relacionados com a percepção dos catadores sobre o estoque pesqueiro do<br />

caranguejo-uçá nas áreas estudadas indicam que gran<strong>de</strong> parte dos entrevistados acredita na redução<br />

do estoque natural da espécie, principalmente nos últimos 5 anos. Segundo eles, as principais causas<br />

são a carcinicultura (34% em Catuama e 3% em São Lourenço), o lançamento <strong>de</strong> <strong>de</strong>jetos industriais<br />

e domésticos (22% em Catuama e 7% em São Lourenço), o uso <strong>de</strong> redinha (11% em Catuama e 3%<br />

em São Lourenço), a pesca predatória (22% em Catuama e 13% em São Lourenço) e o<br />

<strong>de</strong>smatamento do manguezal (0% em Catuama e 68% em São Lourenço), enquanto 11% dos<br />

entrevistados <strong>de</strong> Catuama e 6% <strong>de</strong> São Lourenço <strong>de</strong>sconhecem as causas da redução da população<br />

<strong>de</strong> caranguejos. Para muitos, a pesca predatória refere-se ao número excessivo <strong>de</strong> pessoas coletando<br />

nos manguezais impulsionadas pelo <strong>de</strong>semprego na região ou oriundas <strong>de</strong> outras vilas (Igarassu e<br />

Itapessoca), comprometendo o recurso.<br />

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Lima & Quinamo (2000) indicam a pesca predatória como um dos maiores problemas<br />

ambientais no Canal <strong>de</strong> Santa Cruz (PE). Segundo CPRH (2001), as comunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Baldo do Rio,<br />

Tejucupapo, Ibeapicu, Carrapicho e Carne <strong>de</strong> Vaca todas pertencentes ao município <strong>de</strong> Goiana,<br />

também participam da pesca nos estuários dos rios Megaó e Itapessoca.<br />

De acordo com os catadores <strong>de</strong> caranguejo entrevistados por Alves & Nishida (2003; 2004)<br />

no estuário do rio Mamanguape (PB), a redução dos estoques <strong>de</strong>ssa espécie está intimamente ligada<br />

à alta mortalida<strong>de</strong> ocorrida no ano <strong>de</strong> 1998, relacionada ao uso <strong>de</strong> <strong>de</strong>fensivos agrícolas lançados nas<br />

plantações <strong>de</strong> cana-<strong>de</strong>-açúcar, que são carreados para o rio durante a época das chuvas, e ao<br />

emprego <strong>de</strong> redinhas na extração <strong>de</strong> caranguejo-uçá. Tais pesquisadores sugerem que os impactos<br />

antrópicos, com <strong>de</strong>staque para o cultivo da cana-<strong>de</strong>-açúcar, têm afetado a preservação dos<br />

manguezais da Paraíba.<br />

Entre os entrevistados <strong>de</strong> São Lourenço 33% são a favor do <strong>de</strong>feso do caranguejo-uçá;<br />

enquanto em Catuama este percentual sobe para 50%. É válido observar que todos estes<br />

entrevistados <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>ram uma política assistencialista durante a época da proibição em <strong>de</strong>trimento à<br />

paralisação <strong>de</strong> suas ativida<strong>de</strong>s. No estuário do rio Mamanguape (PB) 50% dos catadores <strong>de</strong><br />

caranguejo entrevistados concordaram com o estabelecimento do <strong>de</strong>feso, contudo, também<br />

sugeriram a criação <strong>de</strong> um seguro (salário-<strong>de</strong>feso) como alternativa durante o <strong>de</strong>feso (Alves &<br />

Nishida, 2003). Os autores acima citados <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>m a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> fontes alternativas <strong>de</strong> renda<br />

em períodos importantes do ciclo <strong>de</strong> vida da espécie (reprodução e muda) na diminuição da pressão<br />

<strong>de</strong> captura, favorecendo a recomposição dos estoques naturais e contribuindo para a manutenção<br />

<strong>de</strong>ssas comunida<strong>de</strong>s tradicionais e respectivas culturas.<br />

CONCLUSÕES<br />

Os entrevistados apresentam condições precárias em termos <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vida e saú<strong>de</strong><br />

ambiental.<br />

A importância sócio-econômica da catação do caranguejo-uçá se apresenta bem diferente nos<br />

estuários do rio Catuama e do rio São Lourenço, tendo maior expressão na comunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> São<br />

Lourenço (PE).<br />

Os impactos ambientais vêm reduzindo a população <strong>de</strong> caranguejo-uçá, levando os catadores<br />

a outras ativida<strong>de</strong>s mais rentáveis.<br />

O abastecimento <strong>de</strong> mercados públicos <strong>de</strong> Goiana, Olinda e Recife, bem como o<br />

fornecimento <strong>de</strong> fonte protéica e geração <strong>de</strong> renda para os catadores <strong>de</strong> caranguejo refletem o alto<br />

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valor da ativida<strong>de</strong>, embora os mesmos não usufruam <strong>de</strong> melhor renda pela falta <strong>de</strong> valor agregado<br />

ao produto.<br />

A extração <strong>de</strong> caranguejo está intimamente relacionada à sazonalida<strong>de</strong> e ao regime <strong>de</strong> marés,<br />

sendo o verão o período <strong>de</strong> maior rentabilida<strong>de</strong>.<br />

É indispensável consi<strong>de</strong>rar as especificida<strong>de</strong>s regionais entre as relações do catador e do<br />

caranguejo, além da bioecologia do animal para que sejam efetivados planos <strong>de</strong> manejo racionais e<br />

sustentáveis do uso do recurso.<br />

AGRADECIMENTOS<br />

Os autores agra<strong>de</strong>cem aos catadores <strong>de</strong> caranguejo por terem colaborado<br />

significativamente na realização da pesquisa, ao casal Paulo e Nalva <strong>de</strong> Barra <strong>de</strong> Catuama por<br />

todo apoio, aos biólogos Fabiana Gonçalves e An<strong>de</strong>rson Palmeira pela participação na aplicação<br />

dos formulários, à pesquisadora Dra. Goretti Silva pelas fotos concedidas e a pesquisadora Dra..<br />

Fernanda Torres pelas valiosas sugestões.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

DIGESTIBILIDADE DE INGREDIENTES ALTERNATIVOS PARA TILÁPIA-DO-NILO<br />

(Oreochromis niloticus): REVISÃO<br />

DIGESTIBILITY OF alternative ingredients for Nile tilápia (Oreochromis niloticus): REVIEW<br />

Elton Lima SANTOS 1 *; Waleska <strong>de</strong> Melo Costa WINTERLE 1 ; Maria do Carmo M. M. LUDKE 1 ,<br />

José Milton BARBOSA 2<br />

1 Departamento <strong>de</strong> Zootecnia, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco<br />

2 Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong> Pernambuco<br />

*Email: elton@zootecnista.com.br<br />

Resumo - A avaliação nutricional dos ingredientes <strong>de</strong> uma ração <strong>de</strong>stinada à alimentação animal<br />

vai <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a escolha dos insumos, sua composição química até sua utilização pelos<br />

animais. Para tanto, é necessário saber a digestibilida<strong>de</strong> dos nutrientes contidos nessa<br />

dieta, sendo assim, várias pesquisas vêm sendo <strong>de</strong>senvolvidas para a avaliação da<br />

digestibilida<strong>de</strong> dos ingredientes usualmente utilizados nas rações para a tilápia-do-nilo,<br />

porém, atualmente a utilização <strong>de</strong> ingredientes alternativos na exploração aqüícola é uma<br />

realida<strong>de</strong> que vêm sendo buscada <strong>de</strong> forma promissora no Brasil, por conta da gran<strong>de</strong><br />

diversida<strong>de</strong> e quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> eventuais substitutivos a esses ingredientes usualmente<br />

utilizados nas rações e da gran<strong>de</strong> disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>sses alimentos.<br />

Palavras-chave: Digestibilida<strong>de</strong>, ingredientes alternativos, nutrição.<br />

Abstract - The nutrition evaluation of the ingredients of a <strong>de</strong>stined ration the animal feeding, is<br />

going from the choice of the input, the evaluation of the composition chemical until<br />

your ready use for the animals. For in such a way, it is necessary to know the<br />

digestibility of the nutrients contained in that diet, being like this, several researches<br />

have been <strong>de</strong>veloped for the evaluation of the digestibility of the ingredients usually<br />

used in the rations for the Nile tilapia, however, now the use of alternative ingredients<br />

in the exploration fish farm is a reality that you/they have been looked for in a<br />

promising way in Brazil, due to the great diversity and amount of eventual substitution<br />

the those ingredients usually used in the rations and of the great readiness of those<br />

victuals.<br />

Key Words: Alternative ingredients, digestibility, nutrition.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

INTRODUÇÃO<br />

A tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus) é uma espécie <strong>de</strong> peixe onívora, bastante versátil,<br />

pois se adapta tanto ao cultivo extensivo sem qualquer tecnologia empregada, quanto ao sistema <strong>de</strong><br />

criação em tanques-re<strong>de</strong> com rações completas e com alta tecnologia <strong>de</strong> produção (Meurer et al.,<br />

2002). A tilápia é a segunda espécie <strong>de</strong> peixe cultivada em água doce <strong>de</strong> maior importância na<br />

aqüicultura mundial (Alceste; Jory, 1998; Lovshin, 1998; Borguetti et al., 2003). Com boa aceitação<br />

no mercado consumidor, <strong>de</strong>stacando-se em cultivos, por apresentar crescimento rápido, rusticida<strong>de</strong>,<br />

carne <strong>de</strong> ótima qualida<strong>de</strong>, e por não apresentar espinhos na forma <strong>de</strong> “Y” no seu filé (Hildsorf,<br />

1995), é apropriada para a filetagem, tornando-se <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> interesse para a piscicultura (Boscolo et<br />

al., 2002). No Brasil as estatísticas são imprecisas, mas acredita-se que a tilápia seja o gênero <strong>de</strong><br />

peixe mais cultivado no país <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a meta<strong>de</strong> da década passada (Zimmermann & Hasper, 2004).<br />

Entretanto, o custo da ração é um dos fatores limitantes, especialmente para os pequenos produtores<br />

(Rabello et al., 2004).<br />

Na exploração econômica <strong>de</strong> peixes, o fator alimentação constitui aproximadamente 70% do<br />

custo <strong>de</strong> produção total (Kubitza, 1997; Pezzato et al., 2000). A formulação <strong>de</strong> rações para peixes é<br />

baseada principalmente em milho, farelo <strong>de</strong> soja e farinha <strong>de</strong> peixe, os quais em função <strong>de</strong> gran<strong>de</strong><br />

variabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> preço e <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo da oferta no <strong>de</strong>correr do ano e da dificulda<strong>de</strong> <strong>de</strong> transporte<br />

para as regiões não produtoras <strong>de</strong>sses alimentos, torna muitas vezes a produção <strong>de</strong> peixes inviável.<br />

A análise química e os testes alimentares são os primeiros itens para <strong>de</strong>terminar o valor<br />

nutritivo <strong>de</strong> um alimento. Entretanto, após a ingestão, sua efetiva assimilação <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> do uso que o<br />

organismo animal esteja capacitado a executar (Maynard; Loosly, 1966). As espécies animais<br />

assimilam <strong>de</strong> forma diferente os alimentos, sendo essa variação quantificada através da<br />

<strong>de</strong>terminação <strong>de</strong> seus coeficientes <strong>de</strong> digestibilida<strong>de</strong> (Andrigueto et al., 1982). Ainda segundo esses<br />

autores, a digestibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> uma ração é <strong>de</strong>finida como a habilida<strong>de</strong> com que o animal digere e<br />

absorve os nutrientes e a energia contidos no mesmo. Destaca-se ainda que a eficiência dos<br />

nutrientes varie entre as espécies <strong>de</strong> peixes em relação a certos fatores ambientais como<br />

concentração <strong>de</strong> minerais, temperatura e pH da água (Santos et al., 2004).<br />

Ainda são escassas as pesquisas que abordam a utilização <strong>de</strong> ingredientes alternativos,<br />

principalmente da região nor<strong>de</strong>ste do Brasil, na alimentação <strong>de</strong> peixes. Também são insuficientes as<br />

informações a cerca da composição e da digestibilida<strong>de</strong> dos resíduos originados da agroindústria.<br />

Assim sendo, a utilização <strong>de</strong>sses ingredientes que em muitas vezes são “subprodutos” ou resíduos<br />

do processamento <strong>de</strong> alimentos para o consumo humano é um <strong>de</strong>safio para os pesquisadores da área<br />

<strong>de</strong> nutrição animal, sem contar que muitos <strong>de</strong>sses ingredientes não-convencionais são <strong>de</strong>sprezados<br />

136


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

quanto ao seu uso e vêm a causar problemas ambientais, pois não tem um <strong>de</strong>stino racional<br />

planejado. Desta forma, serão <strong>de</strong>monstrados e discutidos os resultados <strong>de</strong> algumas pesquisas<br />

envolvendo avaliações <strong>de</strong> digestibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ingredientes tidos como alternativos estudados para<br />

tilápia-do-nilo.<br />

1. DIGESTIBILIDADE DE ALIMENTOS PARA PEIXES<br />

Hepher (1988) relata que os primeiros estudos avaliando-se a digestibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> alimentos<br />

para espécies aquáticos datam <strong>de</strong> 1877 e foram realizados por Homburger. Recentemente estudos <strong>de</strong><br />

digestibilida<strong>de</strong> com a utilização <strong>de</strong> ingredientes convencionais e alternativos para tilápia-do-nilo<br />

vêm sendo executados no Brasil e no mundo. Para a formulação <strong>de</strong> rações para peixes, são<br />

utilizados valores <strong>de</strong> proteína e energia bruta ou digestível <strong>de</strong> alimentos <strong>de</strong>terminados para outros<br />

animais (Boscolo et al., 2002), o que não é nutricionalmente a<strong>de</strong>quado, além <strong>de</strong> provocar maior<br />

impacto tanto à criação quanto ao ambiente, pois os nutrientes não digeridos e absorvidos serão<br />

excretados (Sugiura et al., 1998).<br />

A eficiência da digestão dos alimentos po<strong>de</strong> ser influenciada, entre outros fatores, pela<br />

superfície da exposição <strong>de</strong>stes às secreções digestivas, bem como pelo tempo <strong>de</strong> passagem pelo<br />

trato gastrintestinal (NRC, 1993).<br />

Os coeficientes <strong>de</strong> digestibilida<strong>de</strong> aparente são geralmente utilizados com o objetivo <strong>de</strong><br />

<strong>de</strong>terminar o valor nutricional <strong>de</strong> um alimento, no qual a digestibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> um alimento <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>,<br />

primeiramente, da composição química e também da capacida<strong>de</strong> digestiva do animal para o<br />

alimento. Ela é <strong>de</strong> extrema importância para o atendimento das exigências nutricionais <strong>de</strong> uma<br />

espécie, uma vez que o conhecimento dos hábitos alimentares e o fornecimento <strong>de</strong> uma dieta<br />

equilibrada não são suficientes para assegurar resposta positiva no <strong>de</strong>sempenho do animal<br />

(Gonçalves; Carneiro, 2003).<br />

Estimativas da digestibilida<strong>de</strong> tem sido priorida<strong>de</strong> para a nutrição na aqüicultura, tanto para<br />

avaliar ingredientes ou a qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> rações completas (Sadiku; Juancey, 1995). Dois métodos são<br />

mais comumente utilizados nas pesquisas on<strong>de</strong> se busca <strong>de</strong>terminar os coeficientes <strong>de</strong><br />

digestibilida<strong>de</strong> dos nutrientes dos componentes das rações, são os métodos: direto e o indireto. O<br />

método direto envolve a mensuração <strong>de</strong> todo o alimento consumido e <strong>de</strong> todo o resultado <strong>de</strong><br />

excreção pelo peixe. Já no método indireto, que é o que tem sido mais utilizado no Brasil, utiliza-se<br />

um marcador que é incluso na dieta nas concentrações <strong>de</strong> 0,5 a 1,0 %, que <strong>de</strong>pois é avaliado nas<br />

fezes, o marcador mais usado é o óxido <strong>de</strong> cromo (Cr 2 O 3 ), mais outros marcadores também po<strong>de</strong>m<br />

ser utilizados (NRC, 1993).<br />

137


Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Todo trabalho sobre digestibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> um <strong>de</strong>terminado nutriente, tanto para peixes, como<br />

para qualquer outro animal envolve a <strong>de</strong>terminação do teor <strong>de</strong>sse nutriente no alimento e a<br />

estimativa <strong>de</strong> quanto <strong>de</strong>sse alimento foi assimilado. Utilizando o óxido <strong>de</strong> cromo, a digestibilida<strong>de</strong><br />

aparente segundo Nose (1966), é estimada através da seguinte equação:<br />

Disgestibilida<strong>de</strong> (%) =<br />

%doindicador noalimento<br />

100 − (<br />

%doindicador nasfezes<br />

x<br />

% <strong>de</strong> nutrientes nasfezes<br />

x100)<br />

% <strong>de</strong> nutrientes no alimento<br />

Existem vários métodos para a coleta das fezes <strong>de</strong> peixes, on<strong>de</strong> po<strong>de</strong> ser feita diretamente do<br />

tubo digestivo por extrusão manual, com leve pressão dos <strong>de</strong>dos na região ventral dos peixes ou,<br />

cuidadosamente, do fundo do aquário por meio <strong>de</strong> uma re<strong>de</strong> muito fina (Castagnolli, 1979). Já Cho<br />

e Slinger (1979) estabeleceram um método <strong>de</strong> coleta das fezes através <strong>de</strong> um sistema <strong>de</strong> sifonagem<br />

constante da água do aquário que passa por uma coluna filtrante que retém as fezes para posterior<br />

<strong>de</strong>terminação da fração não digerida dos nutrientes. O método mais utilizado para a coleta das fezes<br />

em peixes no Brasil é o método por <strong>de</strong>cantação ou sistema <strong>de</strong> Guelph em que se utiliza um aquário<br />

para a alimentação e outro afunilado para a coleta <strong>de</strong> fezes.<br />

A substituição dos ingredientes, usualmente utilizados nas rações para peixes, por<br />

<strong>de</strong>terminados produtos e subprodutos da agroindústria, resíduos <strong>de</strong> culturas e produtos não<br />

<strong>de</strong>stinados ao consumo humano tem se apresentado como prática econômica alternativa.<br />

Na atualida<strong>de</strong>, estão sendo exigidas maiores investigações acerca das exigências nutricionais<br />

<strong>de</strong> cada espécie, além <strong>de</strong> rigorosa formulação da dieta. Segundo Gonçalves & Carneiro, (2003),<br />

muitos nutricionistas, arriscam-se em super-dosagens <strong>de</strong> nutrientes nas rações para peixes,<br />

principalmente <strong>de</strong> proteína bruta, que po<strong>de</strong>m reduzir as taxas <strong>de</strong> crescimento e, <strong>de</strong> outras formas, o<br />

<strong>de</strong>sempenho dos peixes. Além <strong>de</strong> que a proteína é o nutriente que mais onera as rações para peixes,<br />

po<strong>de</strong>ndo muitas vezes inviabilizar a utilização do farelo <strong>de</strong> soja e da farinha <strong>de</strong> peixe, abrindo um<br />

maior espaço para a utilização <strong>de</strong> alimentos alternativos como fontes <strong>de</strong> proteína.<br />

2. AVALIAÇÃO DA ENERGIA DIGESTIVA (ED)<br />

A diferença entre a energia bruta (EB) e a energia digestível (ED) é a energia perdida nas<br />

fezes (EF), logo os valores <strong>de</strong> digestibilida<strong>de</strong> refletem a percentagem do nutriente <strong>de</strong> <strong>de</strong>terminado<br />

alimento que é absorvido pelo trato digestivo (Smith et al., 1995). A inclusão <strong>de</strong> materiais fibrosos,<br />

que são pobremente digeridos pelos peixes, aumenta as perdas <strong>de</strong> EF (NRC, 1993). As dietas<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

comerciais, normalmente utilizadas para a criação <strong>de</strong> peixes, promovem uma perda <strong>de</strong> energia nas<br />

fezes entre 10 e 40 % da energia bruta (Cho et al., 1982).<br />

A digestibilida<strong>de</strong> dos carboidratos é inversamente proporcional ao número <strong>de</strong> átomos <strong>de</strong><br />

carbono da molécula (Castagnolli, 1979). Assim, os mono e dissacarí<strong>de</strong>os são mais digestíveis que<br />

o amido que é mais digestível do que a celulose obviamente, <strong>de</strong>vido à maior complexida<strong>de</strong> <strong>de</strong>sta<br />

última. As tilápias utilizam eficientemente os carboidratos, por possuírem adaptações morfológicas<br />

e fisiológicas, tais como <strong>de</strong>ntes faringeanos e intestino longo (Kubarik, 1997). As tilápias<br />

geralmente se <strong>de</strong>stacam <strong>de</strong>ntre os peixes onívoros <strong>de</strong> água doce, por possuírem uma alta<br />

digestibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> alimentos <strong>de</strong> origem vegetal, seja, energéticos ou protéicos.<br />

A energia metabolizável (EM) representa a ED, corrigidas as perdas <strong>de</strong> energia ocorridas<br />

pela excreção nas brânquias (EB) e na urina (EU). O uso da EM ao invés da ED na avaliação <strong>de</strong><br />

alimentos para peixes po<strong>de</strong> permitir uma estimativa mais acurada da energia da dieta metabolizada<br />

pelos tecidos do animal; entretanto, a EM oferece uma pequena vantagem sobre a ED na avaliação<br />

da energia utilizada pelos peixes, pois a quantida<strong>de</strong> perdida na digestão é responsável pela gran<strong>de</strong><br />

variação da energia que é retirada dos alimentos. A perda energética através da excreção pelas<br />

brânquias e urina nos peixes não varia muito entre os alimentos e são menores que a perda<br />

energética não fecal dos mamíferos (Lovell, 1989).<br />

A <strong>de</strong>terminação dos valores <strong>de</strong> EM das dietas para peixes é tecnicamente difícil <strong>de</strong>vido à<br />

necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> se mensurar a quantida<strong>de</strong> das perdas via o sistema urinário e branquial. Assim,<br />

nutricionistas <strong>de</strong> peixes que precisam atribuir valores energéticos a diferentes ingredientes para a<br />

formulação <strong>de</strong> dietas balanceadas <strong>de</strong>vem empregar os valores <strong>de</strong> ED, <strong>de</strong>vendo evitar os valores <strong>de</strong><br />

EM, pois estes têm sido obtidos por métodos susceptíveis a erros grosseiros (Cho et al., 1982).<br />

3. PESQUISAS COM INGREDIENTES ALTERNATIVOS<br />

Atualmente a utilização <strong>de</strong> ingredientes alternativos na exploração aqüícola é uma realida<strong>de</strong><br />

que vêm sendo buscada <strong>de</strong> forma promissora no Brasil, por conta da gran<strong>de</strong> diversida<strong>de</strong> e<br />

quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> eventuais substitutivos aos ingredientes usualmente utilizados nas rações e da gran<strong>de</strong><br />

disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>sses alimentos. Diante disso, separamos didaticamente em alimentos alternativos<br />

energéticos e protéicos que po<strong>de</strong>m substituir os insumos convencionais na ração para peixes.<br />

Entre os alimentos promissores substitutos como energéticos citam-se: o sorgo, o triticale, o<br />

milheto, a algaroba, o urucum, o farelo <strong>de</strong> resíduo <strong>de</strong> tomate. Já o farelo <strong>de</strong> coco po<strong>de</strong> ser utilizado<br />

tanto como fonte energética como fonte protéica. Dessa forma, a farinha <strong>de</strong> folhas ou <strong>de</strong> sementes<br />

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<strong>de</strong> leucena, a torta <strong>de</strong> <strong>de</strong>ndê, o farelo <strong>de</strong> canola e o <strong>de</strong> algodão, a levedura <strong>de</strong>sidratada <strong>de</strong> álcool, a<br />

farinha <strong>de</strong> vísceras <strong>de</strong> aves e a mandioca, foram estudados como fonte protéica.<br />

3.1 - SORGO (Sorghum sp.)<br />

Existem numerosas varieda<strong>de</strong>s dos cereais dos sorgos, inclusive híbridos, com<br />

características variadas, cuja classificação botânica não é suficientemente clara e assim temos os<br />

sorgos forrageiros, os sorgos graníferos, os sorgos doces e os sorgos vassoura (Andriguetto et al.,<br />

2002).<br />

O sorgo possui 8,5 a 9% <strong>de</strong> PB, é um ingrediente pobre em vitamina A e <strong>de</strong>ficiente em lisina<br />

e metionina. O grão <strong>de</strong> sorgo <strong>de</strong>stinado ao consumo animal também <strong>de</strong>ve ser isento <strong>de</strong> fungos,<br />

micotoxinas, sementes tóxicas e resíduos <strong>de</strong> pesticidas, e conter no máximo 1,0% <strong>de</strong> taninos, na<br />

forma <strong>de</strong> ácido tânico (Portz, 2005). O uso <strong>de</strong> silagem <strong>de</strong> grão úmido em rações para monogástricos<br />

tem crescido no Brasil. A ensilagem <strong>de</strong> grãos permite aumento na digestibilida<strong>de</strong> do amido <strong>de</strong>vido à<br />

sua gelatinização pelo aumento da temperatura e ação dos ácidos gerados durante o processo (Jobim<br />

et al., 2001).<br />

Segundo Furuya et al., (2004) os coeficientes <strong>de</strong> digestibilida<strong>de</strong> para tilápia-do-nilo <strong>de</strong><br />

silagens <strong>de</strong> sorgos com baixo (SSBT) e alto tanino (SSAT) com suplementação, verificaram para a<br />

EB valores <strong>de</strong> 70,17% (3049,81kcal <strong>de</strong> energia digestível kg -1 ) e 68,37% (2954,75kcal <strong>de</strong> energia<br />

digestível kg -1 ) e para PB <strong>de</strong> 84,94% (8,81% <strong>de</strong> proteína digestível - PD) e 82,40% (7,58% <strong>de</strong><br />

energia digestível), respectivamente. De acordo com os resultados dos CDA apresentados po<strong>de</strong>-se<br />

evi<strong>de</strong>nciar que ambos, SSBT e SSAT, apresentaram valores <strong>de</strong> ED próximos aos obtidos com o<br />

milho por Furuya et al., (2001b) e Pezzato et al., (2002), em estudo realizado com juvenis <strong>de</strong> tilápiado-nilo,<br />

obtendo-se valores <strong>de</strong> 3067 e 3316 kcal <strong>de</strong> ED kg -1 , respectivamente. Assim, os SSBT e<br />

SSAT, em termos energéticos, po<strong>de</strong>m ser utilizados como substitutos do milho. Por outro lado,<br />

<strong>de</strong>vido à elevada influência dos taninos sobre o coeficiente <strong>de</strong> digestibilida<strong>de</strong> da PB, a utilização <strong>de</strong><br />

SSAT <strong>de</strong>ve ser avaliada para evitar estes efeitos negativos sobre a utilização dos seus nutrientes.<br />

3.2 - TRITICALE (Triticum turgidocecale)<br />

O triticale é um cereal obtido do cruzamento <strong>de</strong> trigo com o centeio, criado com a finalida<strong>de</strong><br />

<strong>de</strong> combinar a produtivida<strong>de</strong> e valor genético do trigo com a qualida<strong>de</strong> protéica e rusticida<strong>de</strong> do<br />

centeio, é uma cultura <strong>de</strong> inverno que vem suprindo os meses <strong>de</strong> escassez do milho, e, no mercado,<br />

apresenta-se como substituto a um custo menor (Rundgren, 1988; Nascimento Jr., 2005). Boscolo et<br />

al., (2002) encontraram valores <strong>de</strong>: 68,51%; 94,78%; e 3230,69 kcal/kg para a digestibilida<strong>de</strong> da<br />

MS, PB e ED, respectivamente.<br />

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3.3 - MILHETO (Pennisetum glaucum)<br />

O milheto é uma forrageira <strong>de</strong> clima tropical, anual, <strong>de</strong> hábito ereto e porte alto. O milheto<br />

em grão, em função do seu valor nutricional, é consi<strong>de</strong>rado como uma fonte viável <strong>de</strong> substituição<br />

na ração pelo milho ou o farelo <strong>de</strong> soja. Vem sendo testado como uma alternativa econômica, uma<br />

vez que produz boa quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> grãos em condições <strong>de</strong> <strong>de</strong>ficiência hídrica, altas temperaturas,<br />

solos ácidos e com baixos índices <strong>de</strong> matéria orgânica. Apresenta ainda crescimento ótimo em<br />

curtos períodos <strong>de</strong> condições climatológicas favoráveis, segundo Andrews & Kumar, (1992). Desta<br />

forma, Boscolo et al., (2002) estudaram a digestibilida<strong>de</strong> do milheto e verificaram coeficientes <strong>de</strong><br />

digestibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> 77,96% para MS, 94,91% para PB, 3755,55 kcal/kg <strong>de</strong> energia digestível.<br />

3.4 - ALGAROBA (Prosopis juliflora)<br />

A algaroba é uma leguminosa representada por diversas espécies do gênero Prosopis. É uma<br />

planta xerófita nativa <strong>de</strong> regiões áridas que vão do sudoeste americano até a Patagônia na<br />

Argentina. Pela sua adaptação às condições semi-áridas do nor<strong>de</strong>ste brasileiro e pelos múltiplos<br />

usos, inclui-se como uma alternativa agronômica já comprovada e válida, cujas potencialida<strong>de</strong>s<br />

merecem e <strong>de</strong>vem ser mais amplamente exploradas, sua vagem tem alto valor nutritivo, alta<br />

digestibilida<strong>de</strong> e excelente aceitação por animais monogástricos (Santos et al., 2004). Resultados<br />

<strong>de</strong>: 55,99 ± 3,42%; 81,92 ± 2,63%; 3210 ± 71 kcal/kg foram encontrados para a digestibilida<strong>de</strong> da<br />

MS, PB e ED por Pezzato et al., (2004), quando trabalhando com tilápia-do-nilo e níveis <strong>de</strong><br />

inclusão <strong>de</strong> 26,39% numa ração purificada.<br />

3.5 - URUCUM (Bixa orellana)<br />

O urucum é o fruto do urucuzeiro, arvoreta da família das bixáceas (Bixa orellana), que<br />

chega a atingir até 6 metros <strong>de</strong> altura, nativa na América tropical, mais especificamente da região<br />

amazônica, normalmente tem seu uso como aditivo, na forma <strong>de</strong> corante em rações para<br />

monogástrico, mas po<strong>de</strong> ter seu uso potencializado na alimentação <strong>de</strong> peixes, sendo assim, Pezzato<br />

et al., (2004) avaliaram a digestibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>ste alimento e observou valores <strong>de</strong> 58,72 ± 4,25%; 84,25<br />

± 4,97%; 3063 ±17 kcal/kg para MS, PB e ED.<br />

3.6 - FARELO DO RESÍDUO DE TOMATE (Lycopersicum esculentum)<br />

Sales et al., (2004), estudando a utilização do farelo <strong>de</strong> tomate encontraram coeficientes <strong>de</strong><br />

digestibilida<strong>de</strong> da MS, EB, PB, EE e fósforo total que foram respectivamente: 60,27; 48,46; 70,03;<br />

66,78 e 36% para o farelo <strong>de</strong> tomate. Esses autores ainda relatam que o maior valor <strong>de</strong> energia<br />

digestível do farelo <strong>de</strong> tomate, po<strong>de</strong> estar relacionado ao seu maior teor <strong>de</strong> extrato etéreo e pelo<br />

menor conteúdo <strong>de</strong> FB.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

3.7 - FARELO DE RESÍDUO DE GOIABA (Psidium guajava)<br />

Mantovani et al., (2004) citam que do processamento industrial do fruto da goiaba, 8% é<br />

composto <strong>de</strong> resíduos que têm sido <strong>de</strong>scartados pelas indústrias a céu aberto ou, raramente, em<br />

aterros sanitários, e, com isso, gran<strong>de</strong> quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> nutrientes é <strong>de</strong>sperdiçado. Esses resíduos<br />

po<strong>de</strong>riam ser utilizados como fonte <strong>de</strong> nutrientes para peixes tropicais. Sales et al., (2004),<br />

observaram valores <strong>de</strong> coeficientes <strong>de</strong> digestibilida<strong>de</strong> aparente da matéria seca, energia bruta,<br />

proteína bruta, extrato etéreo e fósforo total <strong>de</strong>: 46,87; 68,70; 64,67 e 32,27%, respectivamente,<br />

para o farelo <strong>de</strong> goiaba trabalhando com tilápia-do-nilo. Concluindo assim que o farelo <strong>de</strong> goiaba<br />

po<strong>de</strong> ser utilizado na dieta, porém estudos mais aprofundados <strong>de</strong>vem ser realizados quanto à<br />

inclusão <strong>de</strong>sse ingrediente em rações completas para esses animais.<br />

3.8 - FARELO DE COCO (Cocos nucifera)<br />

O farelo <strong>de</strong> coco ou torta <strong>de</strong> coco é um subproduto da extração do óleo <strong>de</strong> coco, que po<strong>de</strong> ser<br />

usado como fonte energética e protéica na alimentação animal, respectivamente, Torna-se<br />

importante uma avaliação <strong>de</strong>ste subproduto, sendo uma fonte <strong>de</strong> nutrientes barata quando<br />

comparado a outros ingredientes usualmente utilizados nas rações <strong>de</strong> peixes como o farelo <strong>de</strong> soja e<br />

<strong>de</strong> peixe, por exemplo. Assim, o farelo <strong>de</strong> coco po<strong>de</strong> suprir parte das exigências protéicas dos<br />

peixes e ainda reduzir o custo da ração. Desta forma, em estudo realizado por Pezzato et al., (2004),<br />

estudando a digestibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> alguns ingredientes alternativos pela tilápia-do-nilo, obtiveram para o<br />

farelo <strong>de</strong> coco valores <strong>de</strong> CD para MS, PB <strong>de</strong> 60,19% e 86,78%, respectivamente e valores <strong>de</strong> ED<br />

<strong>de</strong> 2990 kcal/kg .<br />

3.9 - LEUCENA (Leucaena leucocephala)<br />

Farinha <strong>de</strong> folhas ou <strong>de</strong> sementes <strong>de</strong> leucena apresenta bom teor protéico e po<strong>de</strong>m compor<br />

com limitações rações para peixes, pois como <strong>de</strong>mais leguminosas contém fatores antinutricionais,<br />

<strong>de</strong>stacadamente o aminoácido tóxico mimosina. No sentido <strong>de</strong> avaliar o potencial <strong>de</strong>ste ingrediente<br />

Pezzato et al., (2004) estudaram a digestibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>s<strong>de</strong> alimento e encontrou para MS, PB e ED<br />

resultados <strong>de</strong>: 37,62 ± 1,70%; 72,54 ± 2,16 %; 2700 ± 18 kcal/kg , respectivamente.<br />

3.10 - TORTA DE DENDÊ (Elaeis guineensis)<br />

A torta <strong>de</strong> <strong>de</strong>ndê é o produto resultante da polpa seca do fruto <strong>de</strong> uma palmeira conhecida<br />

como <strong>de</strong>n<strong>de</strong>zeiro, muito comum na região norte e nor<strong>de</strong>ste do Brasil, após moagem e extração do<br />

óleo. Oliveira et al., (1998) realizaram um estudo com a tilápia-do-nilo, no sentido <strong>de</strong> avaliar a<br />

qualida<strong>de</strong> nutricional da torta <strong>de</strong> <strong>de</strong>ndê. Para tanto, empregaram níveis crescentes <strong>de</strong> torta <strong>de</strong> <strong>de</strong>ndê<br />

(0, 7, 14, 21, 28 e 35%) em dietas isoprotéicas e isoenergéticas (30,0% PB e 2800 kcal/ED/kg),<br />

balanceadas em 10,0% <strong>de</strong> FB. Segundo estes autores, o coeficiente <strong>de</strong> digestibilida<strong>de</strong> aparente<br />

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<strong>de</strong>ssas rações variou <strong>de</strong>: 74,74% a 82,45% (matéria seca), 93,43% a 96,16% (proteína bruta),<br />

92,79% a 97,86% para o extrato etéreo e 30,29% a 56,13% para a fibra bruta. A torta <strong>de</strong> <strong>de</strong>ndê não<br />

influi significativamente na digestibilida<strong>de</strong> dos nutrientes dietários e não afeta o padrão <strong>de</strong><br />

normalida<strong>de</strong> do aparelho digestório da tilápia-do-nilo.<br />

3.11 - MANDIOCA (Manihot esculenta) E ALGUNS DE SEUS SUBPRODUTOS<br />

Tem um alto potencial para alimentação animal, é uma fonte rica em energia, seus diferentes<br />

resíduos (casca <strong>de</strong> mandioca, farinha <strong>de</strong> varredura, folha <strong>de</strong> mandioca, entre outros) po<strong>de</strong>m ser<br />

utilizados na alimentação animal (Martins et al., 2000).<br />

O valor nutritivo da folha <strong>de</strong> mandioca como fonte protéica em dietas peletizadas para a<br />

tilápia-do-nilo, foi estudado por Ng e Wee (1989). Os coeficientes <strong>de</strong> digestibilida<strong>de</strong> aparente para a<br />

proteína bruta foram <strong>de</strong> 18,2% quando do emprego <strong>de</strong> folhas úmidas e quando secas <strong>de</strong> 64,0%.<br />

Segundo ainda estes autores, houve uma variação nos coeficientes <strong>de</strong> digestibilida<strong>de</strong> da proteína <strong>de</strong><br />

35,0% a 67,7%. Já Pezzato et al., (2004), estudou a digestibilida<strong>de</strong> da raspa <strong>de</strong> mandioca para essa<br />

mesma espécie e observou resultados <strong>de</strong> 59,66 ± 2,38%; 93,36 ± 2,91%; 2503 ± 21 kcal/kg , para<br />

MS, PB e ED, respectivamente. Boscolo et al. (2002), avaliou os coeficientes <strong>de</strong> digestibilida<strong>de</strong> da<br />

farinha <strong>de</strong> varredura <strong>de</strong> mandioca e verificou valores <strong>de</strong> 91,11%; 97,52% e 3280,09 kcal/kg para<br />

MS, PB e energia digestível, respectivamente.<br />

3.12 - FARELO DE CANOLA (Brassica nabus)<br />

É um subproduto resultante da moagem e extração <strong>de</strong> óleo, por solvente, do grão integral da<br />

canola. Em função <strong>de</strong> sua introdução recente no Brasil, apresenta-se como promissora fonte<br />

protéica (37,2% <strong>de</strong> PB). Estudos sobre a digestibilida<strong>de</strong> aparente dos nutrientes e energia foram<br />

conduzidos por Furuya et al., (2001a) quando trabalharam com a tilápia-do-nilo e obtiveram valores<br />

<strong>de</strong> 2969,98 kcal/kg <strong>de</strong> ED e 86,92% <strong>de</strong> digestibilida<strong>de</strong> da fração PB, evi<strong>de</strong>nciando que para esta<br />

espécie <strong>de</strong> animal este subproduto po<strong>de</strong> ser eficientemente utilizado.<br />

3.13 - FARELO DE ALGODÃO (Gossypyum sp.)<br />

É um subproduto da moagem do algodão, é uma fonte protéica <strong>de</strong> boa qualida<strong>de</strong> e baixo<br />

custo. Embora tenha seu valor nutricional inferior ao do farelo <strong>de</strong> soja por apresentar baixos níveis<br />

<strong>de</strong> lisina disponível, e níveis <strong>de</strong> 0,03 a 0,20% <strong>de</strong> gossipol, o qual po<strong>de</strong> gerar <strong>de</strong>generação hepática.<br />

Apresenta razoável palatabilida<strong>de</strong> e os níveis empregados em dietas para peixes têm sido superiores<br />

àqueles recomendados para os <strong>de</strong>mais monogástricos. Sendo assim, Pezzato et al., (2002),<br />

observaram valores <strong>de</strong> coeficientes <strong>de</strong> digestibilida<strong>de</strong>, para o farelo <strong>de</strong> algodão para juvenis <strong>de</strong><br />

tilápia-do-nilo com peso médio <strong>de</strong> 100 ± 10g e utilizando-se uma ração purificada como dieta<br />

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referência, <strong>de</strong> 53,11 ± 0,15; 74,87 ± 0,19 e 99,39 ± 0,20 para MS, PB e EE, respectivamente e 2111<br />

kcal/kg <strong>de</strong> Energia digestível.<br />

3.14 - LEVEDURA DESIDRATADA DE ÁLCOOL (Sasharomyces cerevisiae)<br />

A levedura vem sendo utilizada como fonte <strong>de</strong> proteína nas rações animais para várias<br />

espécies, è subproduto da indústria da cana-<strong>de</strong>-açúcar e tem uma gran<strong>de</strong> produção no Brasil. A<br />

levedura contém várias vitaminas do complexo B, enzimas, ácidos graxos voláteis, minerais<br />

quelatados, estimulantes bacterianos, antibióticos naturais e peptí<strong>de</strong>os que conferem melhor<br />

palatabilida<strong>de</strong> à ração, melhor <strong>de</strong>sempenho, maior resistência e menor estresse ao animal<br />

(Machado, 1997). A pare<strong>de</strong> celular das leveduras possui carboidratos (20% a 35%) compostos,<br />

principalmente, por glucanas e mananas, os quais parecem atuar sobre o sistema imunológico e na<br />

prevenção da colonização <strong>de</strong> bactérias patogênicas no trato gastrintestinal do animal (Spring, 2000).<br />

Estudos conduzidos por Barros et al., (1988), consi<strong>de</strong>raram a levedura <strong>de</strong> álcool, excretas <strong>de</strong><br />

aves e excretas <strong>de</strong> coelhos como fontes alimentares alternativas e <strong>de</strong>terminaram suas digestibilida<strong>de</strong><br />

aparentes pela tilápia-do-nilo. Os autores encontraram respectivamente para a fração PB <strong>de</strong> 93,2%,<br />

95,3% e 96,5%, para a FB <strong>de</strong> 60,9%, 59,4% e 59,2%, para lipídios <strong>de</strong> 93,6%, 96,9% e 93,5% e para<br />

a MS <strong>de</strong> 87,1%, 87,1% e 86,8%. Resultados contrários foram encontrados por Pezzato et al., (2004)<br />

quando utilizando 66,66% <strong>de</strong> inclusão <strong>de</strong> levedura <strong>de</strong>sidratada <strong>de</strong> álcool em uma ração purificada a<br />

base da proteína da albumina na sua composição e <strong>de</strong>terminada como dieta referência, observaram<br />

valores <strong>de</strong>: 67,75 ± 4,79%; 88,58 ± 5,77% e 3620 ± 82 Kcal/kg, para a digestibilida<strong>de</strong> da MS, PB e<br />

Energia digestível, respectivamente.<br />

3.15 - FARINHA DE VÍSCERAS DE AVES<br />

É outra alternativa para substituir a farinha <strong>de</strong> peixe em rações para organismos aquáticos,<br />

um material obtido <strong>de</strong> resíduos da indústria avícola. Wilson (1995); Nengas et al. (1999), citam que<br />

usualmente, a farinha <strong>de</strong> vísceras <strong>de</strong> aves não contém penas e intestinos, mas po<strong>de</strong> conter pés,<br />

cabeças e carcaças <strong>de</strong>scartadas. Faria et al., (2002) trabalhando com a inclusão da farinha <strong>de</strong><br />

vísceras <strong>de</strong> 0,00; 4,00; 8,00; 12,00; 16,00 e 20,00 em rações para alevinos <strong>de</strong> tilápia-do-nilo<br />

avaliaram a digestibilida<strong>de</strong> dos níveis <strong>de</strong> fibra <strong>de</strong> 0,00 e 20,00 e encontraram níveis <strong>de</strong><br />

digestibilida<strong>de</strong> aparente da MS <strong>de</strong> 72,21 e 70,18%; do EE <strong>de</strong> 92,52 e 93,58% e da PB <strong>de</strong> 91,41 e<br />

86,79 respectivamente. Esses autores ainda concluíram que os menores valores foram os dos<br />

coeficientes <strong>de</strong> digestibilida<strong>de</strong> aparente para a matéria seca, proteína bruta e energia e o maior para<br />

o extrato etéreo ocorreram com a ração com 20% <strong>de</strong> farinha <strong>de</strong> vísceras, em comparação a dietas<br />

isentas da mesma.<br />

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4. CONSIDERAÇÕES FINAIS<br />

O interesse no uso <strong>de</strong> alimentos alternativos em rações para peixes, mais especificamente<br />

<strong>de</strong>stacando-se nesse presente estudo para tilápia-do-nilo, tem aumentado, <strong>de</strong>vido ao custo cada vez<br />

maior dos ingredientes utilizados convencionalmente.<br />

Po<strong>de</strong>-se observar que, ainda existem muitas diferenças nos resultados encontrados por<br />

diferentes autores para iguais ingredientes utilizados nas pesquisas, faltando, portanto, uma<br />

padronização das metodologias.<br />

Nesta revisão foram <strong>de</strong>monstrados resultados <strong>de</strong> pesquisas sobre a digestibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong><br />

ingredientes alternativos para tilápia-do-nilo, sendo verificado assim, que apesar <strong>de</strong>sta espécie ter<br />

alta eficiência no aproveitamento dos nutrientes contidos na maioria dos ingredientes utilizados na<br />

alimentação <strong>de</strong> peixes, estudos mais aprofundados <strong>de</strong>vem ser executados para avaliar os níveis <strong>de</strong><br />

inclusão <strong>de</strong>sses alimentos alternativos nas rações para tilápia-do-nilo, para um uso potencial dos<br />

ingredientes alternativos.<br />

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DESARROLLO TECNOLÓGICO DE CARNE AHUMADA DE<br />

ESTURIÓN (Acispenser spp.)<br />

Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

TECHNOLOGICAL DEVELOPMENT OF SMOKED MEAT OF STURGEON (Acispenser spp.)<br />

Bertullo, E. 1 ; Campot J.; Fernán<strong>de</strong>z, S.; Gómez, F. 2 y Pollak, A. 3<br />

Instituto <strong>de</strong> Investigaciones Pesqueras Prof. Dr. Víctor H. Bertullo<br />

Universidad <strong>de</strong> la República. Montevi<strong>de</strong>o, Uruguay<br />

Comisión Sectorial <strong>de</strong> Investigación Científica (CSIC) <strong>de</strong> la Universidad <strong>de</strong> la República.<br />

Programa <strong>de</strong> Vinculación con el Sector Productivo<br />

Recebido em: 21 <strong>de</strong> abril <strong>de</strong> 2008<br />

Abstract - The Aquaculture Company “Esturiones <strong>de</strong>l Río Negro S.A.” has been <strong>de</strong>veloped the<br />

Sturgeon culture in Uruguay, mainly the species Acispenser baerii (Siberian sturgeon)<br />

and Acispenser ruthenus (Sterlet sturgeon) and from 1995 it has the productive facility<br />

located in Baygorria´s Lake (Río Negro River) in the center of the country. The primary<br />

objective of this animal culture is the “Oscetra caviar” production and at present the<br />

process imposes the slaughter of the female sturgeon. The farm has also a male stock<br />

about the 50%, which are fresh marketed for catering, mostly for local catering or<br />

regional brokers. This means the sturgeon flesh availability for human consumption to<br />

be used as seafood of ad<strong>de</strong>d value. The primary objective of this research is the<br />

<strong>de</strong>velopment of a process and a specific seafood to an alternative market <strong>de</strong>mand,<br />

applying the fish smoking traditional technology to obtain better marketing prices,<br />

preferable to the international one. The applied methodology in this <strong>de</strong>velopment is the<br />

warm smoke technology, upon which different process parameters were adjusted to<br />

bring the safety and commercial quality attributes to the seafood, looking after the<br />

consumers’ interest. In the present communication we inform about the preliminary<br />

trials done at University’s Seafoods Pilot Plant (Institute of Fisheries Research, IIP). The<br />

raw material used were sturgeon filets, without skin, frozen to a final product<br />

temperature of 0º F. The smoke source was wood’s sawdust mixing the hard and halfhard<br />

ones (Lapacho and Eucaliptus), easily to obtained in Uruguay. Automatic Japanese<br />

smoking equipment was utilized to perform the process and some physical parameters as<br />

temperature (T) and moisture were followed and recor<strong>de</strong>d for further analysis. Upon the<br />

results of the trials we have obtained the salt concentration and exposure time, the<br />

maximum smoke equipment charge (Kgrs), the cooking drying time, the smoking time,<br />

all in or<strong>de</strong>r to obtain the final quality figures. Some Lab’s analysis were performed to the<br />

<strong>de</strong>veloped seafood<br />

Keywords: sturgeon, seafood, ad<strong>de</strong>d value<br />

1 Responsable científico <strong>de</strong>l Proyecto<br />

2 Investigadores contratados por CSIC<br />

3 Investigadora <strong>de</strong>l I.I.P.<br />

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INTRODUCCIÓN<br />

El cultivo <strong>de</strong> Esturión (Acispenser spp.) se ha <strong>de</strong>sarrollado en Uruguay por parte <strong>de</strong> la<br />

empresa Esturiones <strong>de</strong>l Río Negro S.A. 4 <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1995, en las instalaciones ubicadas sobre la Represa<br />

<strong>de</strong> Baygorria (Figura 1). El objetivo primario <strong>de</strong> este cultivo es la producción <strong>de</strong> Caviar tipo<br />

Oscetra, producto <strong>de</strong>l cual la empresa ya ha comenzado a realizar exportaciones en virtud <strong>de</strong> la<br />

calidad <strong>de</strong>l producto logrado y <strong>de</strong> una <strong>de</strong>manda creciente <strong>de</strong> mercado.<br />

Figura 1 - Esturiones <strong>de</strong>l Río Negro S.A. Planta <strong>de</strong> Incubación y Cría <strong>de</strong> Esturiones: Planta para<br />

procesamiento <strong>de</strong>l Esturión y elaboración <strong>de</strong> Caviar Departamento <strong>de</strong> Durazno – Uruguay.<br />

4 www.caviaruruguay.com.uy<br />

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El proceso <strong>de</strong> obtención <strong>de</strong> caviar obliga por el momento al sacrificio <strong>de</strong> los ejemplares <strong>de</strong><br />

esturiones hembra y existe una oferta <strong>de</strong> un 50% <strong>de</strong> machos, lo cual lleva a que una parte <strong>de</strong> la<br />

carne obtenida se exporte en fresco o congelada, existiendo interés por una oferta agregada <strong>de</strong> otros<br />

productos pesqueros <strong>de</strong>mandados por el mercado.<br />

La empresa es la única en América <strong>de</strong>l Sur <strong>de</strong>dicada al cultivo y procesamiento <strong>de</strong> esta<br />

especie exótica y está <strong>de</strong>mostrando su eficiencia productiva. La Empresa privada cuenta con:<br />

• Planta <strong>de</strong> incubación y cría <strong>de</strong> esturiones, situada en el Departamento <strong>de</strong> Río Negro a 244 Km.<br />

<strong>de</strong> la ciudad <strong>de</strong> Montevi<strong>de</strong>o, en el área <strong>de</strong>l Lago <strong>de</strong> la Represa <strong>de</strong> Baygorria, en el centro <strong>de</strong>l<br />

país. (Mapa en Figura);<br />

• Planta <strong>de</strong> alimentos balanceados, situada en Santa Bernardina, Departamento <strong>de</strong> Durazno;<br />

• Sector <strong>de</strong> cría y <strong>de</strong>sarrollo que se construyó en 1997 en el Lago <strong>de</strong> la Represa <strong>de</strong> Baygorria, el<br />

cual constaba al comienzo <strong>de</strong> este proyecto con: un sector <strong>de</strong> cinco pontones-jaulas, cada pontón<br />

con 8 jaulas <strong>de</strong> 6 x 6 mts. y 3 mts. <strong>de</strong> profundidad totalizando un volumen <strong>de</strong> 4,320 m 3 . En 2005<br />

esta área fue ampliada con estanques artificiales ubicados en tierra, totalizando más <strong>de</strong> 5,000<br />

m 3 .<br />

• Planta para la producción <strong>de</strong> caviar, ubicada en la Población <strong>de</strong> Baygorria, adyacente a la<br />

Represa Hidroeléctrica <strong>de</strong>l mismo nombre, en un área <strong>de</strong> 300 m 2 . Esturiones <strong>de</strong>l Río Negro S.A.<br />

tiene su Planta <strong>de</strong> procesamiento habilitada sanitariamente para exportar a los principales<br />

mercados <strong>de</strong>l mundo (EE.UU. <strong>de</strong> América y Unión Europea).<br />

Los antece<strong>de</strong>ntes universitarios <strong>de</strong>l Instituto <strong>de</strong> Investigaciones Pesqueras (IIP) en el<br />

<strong>de</strong>sarrollo <strong>de</strong> nuevos productos alimenticios a partir <strong>de</strong> recursos pesqueros estimularon a la empresa<br />

contraparte para colaborar con el proyecto <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong>l programa <strong>de</strong> Vinculación con el Sector<br />

Productivo <strong>de</strong> la Comisión Sectorial <strong>de</strong> Investigación Científica (CSIC) 5 <strong>de</strong> la Universidad <strong>de</strong> la<br />

República. Es así que planteó su necesidad <strong>de</strong> optimizar el aprovechamiento <strong>de</strong> la carne <strong>de</strong> los<br />

esturiones, los cuales producen en forma controlada para la obtención <strong>de</strong> caviar como objetivo<br />

primario.<br />

La producción <strong>de</strong> caviar presenta la dificultad <strong>de</strong> que en muchos centros productivos <strong>de</strong>l<br />

mundo se sacrifican los ejemplares hembra maduros para extraer las huevas y son pocas las granjas<br />

que evitan la muerte <strong>de</strong>l animal durante la extracción <strong>de</strong> las ovas, <strong>de</strong>bido a la alta tecnología<br />

requerida y a sus costos.<br />

5 www.csic.edu.uy<br />

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Los machos jóvenes son sacrificados también luego <strong>de</strong> alcanzar un peso mínimo (vivo) <strong>de</strong><br />

entre 1,00 y 1,5 Kg. cada pieza, por un tema <strong>de</strong> rentabilidad económica y para limitar los gastos<br />

<strong>de</strong>funcionamiento <strong>de</strong>rivados <strong>de</strong>l manejo y <strong>de</strong> la alimentación.<br />

En centros <strong>de</strong> producción <strong>de</strong> España y Francia el principal aprovechamiento <strong>de</strong> la carne <strong>de</strong><br />

Esturión se hace a través <strong>de</strong> productos alimenticios ahumados, que se ven<strong>de</strong>n en forma <strong>de</strong> filetes<br />

ahumados con o sin piel. El filete ahumado tiene una muy alta cotización en el mercado y en<br />

Europa oscilan entre 30 y 40 por Kg. y existe una creciente <strong>de</strong>manda. 6<br />

Por otra parte, <strong>de</strong>l proceso <strong>de</strong> corte manual para la obtención <strong>de</strong> filetes queda un volumen <strong>de</strong><br />

recortes <strong>de</strong> músculo que podría ser utilizada como materia prima para el <strong>de</strong>sarrollo <strong>de</strong> pulpas<br />

recuperadas mecánicamente y sus productos <strong>de</strong>rivados: hamburguesas, embutidos, etc.<br />

OBJETIVOS<br />

OBJETIVO GENERAL<br />

Diseñar, <strong>de</strong>sarrollar y transferir a la industria local, tecnologías <strong>de</strong> proceso para obtención <strong>de</strong><br />

productos alimenticios sobre la base <strong>de</strong> carne <strong>de</strong> esturión, en función <strong>de</strong> una <strong>de</strong>manda <strong>de</strong>l mercado<br />

para estos productos exóticos <strong>de</strong> calidad y alto precio.<br />

OBJETIVOS PARTICULARES<br />

1. Seleccionar la porción comestible <strong>de</strong> los especimenes para un mejor aprovechamiento <strong>de</strong> la<br />

carne para la optimización <strong>de</strong> los rendimientos productivos.<br />

2. Utilizar las tecnologías <strong>de</strong> la salazón y <strong>de</strong>l ahumado como base <strong>de</strong> los ensayos a realizarse en la<br />

Planta Piloto.<br />

3. Definir los parámetros tecnológicos más apropiados para obtener un producto inocuo, atractivo<br />

<strong>de</strong>s<strong>de</strong> el punto <strong>de</strong> vista alimentario y con una calidad pre-<strong>de</strong>finida, ante una <strong>de</strong>manda específica<br />

<strong>de</strong>l mercado.<br />

4. Lograr un empaque a<strong>de</strong>cuado, seguro y acor<strong>de</strong> a los requerimientos normativos y <strong>de</strong>l mercado<br />

con el propósito <strong>de</strong> colaborar en la promoción <strong>de</strong> la exportación <strong>de</strong>l producto por parte <strong>de</strong> la<br />

empresa contraparte.<br />

PROCESO TECNOLÓGICO.<br />

El análisis previo realizado <strong>de</strong>terminó que la tecnología <strong>de</strong>l ahumado en caliente sería la más<br />

aplicable ya que permitiría agregar valor por medio <strong>de</strong> un procesamiento tecnológico accesible para<br />

el productor en caso <strong>de</strong> una eventual elaboración local.<br />

6 Infopesca (2005)<br />

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a) La técnica <strong>de</strong> ahumado en caliente produce la cocción <strong>de</strong>l producto, lo que permite que sea<br />

posible consumirlo directamente, sin otros tratamientos térmicos adicionales. El congelado posterior<br />

al ahumado y el envasado en atmósfera modificada (vacío) aseguraría una razonable vida útil en la<br />

medida que se mantenga la ca<strong>de</strong>na <strong>de</strong> frío a -18º C o menos.<br />

b) Con el fin <strong>de</strong> realizar el control integral <strong>de</strong>l proceso se registraron las temperaturas ambiente en<br />

distintas partes <strong>de</strong>l ahumador (superior e inferior y anterior y posterior) <strong>de</strong>l equipo y en el centro <strong>de</strong><br />

los filetes ubicados en puntos separados <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong>l equipo (parrillas superiores e inferiores).<br />

c) Se tuvieron en cuenta y aplicaron las normas establecidas por la Food and Drug Administration<br />

(FDA) <strong>de</strong> los Estados Unidos <strong>de</strong> América, para <strong>de</strong>terminar los parámetros <strong>de</strong> inocuidad aceptados<br />

para los alimentos pesqueros ahumados. 7<br />

EVALUACIÓN DE PRODUCTO FINAL<br />

ANÁLISIS QUÍMICOS<br />

Para la evaluación <strong>de</strong> los filetes <strong>de</strong> esturión ahumados en caliente se <strong>de</strong>terminó el porcentaje<br />

<strong>de</strong> humedad por balanza <strong>de</strong> infrarrojos tipo Ohaus, el porcentaje <strong>de</strong> cloruros en el músculo por<br />

técnica AOAC y el a w .<br />

EVALUACIÓN SENSORIAL<br />

En cada uno <strong>de</strong> los ensayos se realizaron evaluaciones sensoriales preliminares <strong>de</strong> los<br />

productos obtenidos. Estas evaluaciones permitieron ir ajustando las variables <strong>de</strong>l proceso a fin <strong>de</strong><br />

obtener los parámetros sensoriales más aceptables <strong>de</strong> acuerdo a los objetivos propuestos. Los<br />

parámetros consi<strong>de</strong>rados en la evaluación sensorial fueron los siguientes: apariencia general, color<br />

exterior <strong>de</strong>l producto, color interno <strong>de</strong>l producto, olor, sabor, nivel <strong>de</strong> sal y textura.<br />

Cuando la metodología aplicada y los resultados indicaron - a juicio <strong>de</strong>l equipo <strong>de</strong> trabajo -<br />

que se había logrado una aceptable estandarización <strong>de</strong>l proceso, se propuso a la empresa contraparte<br />

la realización <strong>de</strong> una evaluación sensorial por parte <strong>de</strong> consumidores. A esos efectos se invitó a un<br />

grupo <strong>de</strong> Chef, propietarios <strong>de</strong> restaurantes, responsables <strong>de</strong> compras <strong>de</strong> hoteles y supermercados a<br />

realizar una <strong>de</strong>gustación.<br />

7 Procedures for the Safe and Sanitary Processing and Importing of Fish and Fishery Products; Final Rule. 21 CFR<br />

Parts 123 and 1240. US Department of Human Health and Human Services. Docket No. 93N-0195. December 18 th ,<br />

1995.<br />

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RESULTADOS<br />

La materia prima filetes <strong>de</strong> esturión sin piel congelados posee <strong>de</strong>terminadas características<br />

que se resumen en las Tablas 1, 2, 3, 4, 5 y 6, y Figura 2.<br />

Tabla 1 - Tamaño y peso individual <strong>de</strong> los filetes <strong>de</strong> esturión sin piel.<br />

Máximo Mínimo Promedio<br />

Largo (cm) 72 28 54<br />

Espesor (mm) 40 15 24<br />

Peso (gramos) 2610 508 1073<br />

N = 82<br />

Tabla 2 - Composición química media <strong>de</strong> filetes <strong>de</strong> esturión sin piel.<br />

Proteínas (%) Lípidos (%) Cenizas (%) Humedad (%)<br />

18,36 11,6 1,12 70,28<br />

Ensayos realizados en el Laboratorio <strong>de</strong> DINARA-MGAP, N = 4.<br />

Tabla 3 - Resultados <strong>de</strong> la evaluación sensorial <strong>de</strong> filetes <strong>de</strong> esturión <strong>de</strong>scongelados.<br />

Atributo/Lote Nº 1 2 3 4<br />

Apariencia general y brillo AA NA AA AA<br />

Color <strong>de</strong> la grasa AA NA AA AA<br />

Color <strong>de</strong>l músculo rojo AA NA AA AA<br />

Color <strong>de</strong>l músculo blanco AA NA AA AA<br />

Textura / elasticidad AA NA AA AA<br />

Olor AA NA AA AA<br />

N = 25<br />

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Figura 1 - Flujograma <strong>de</strong>l proceso <strong>de</strong> ahumado <strong>de</strong> filetes <strong>de</strong> esturión <strong>de</strong>sarrollado sobre la base<br />

<strong>de</strong> los ensayos realizados para el proyecto.<br />

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Aplicado el proceso, los rendimientos permitieron un cálculo <strong>de</strong> los costos directos <strong>de</strong><br />

producción, los cuales se integran a los Kgs / hora / hombre insumidos en el proceso, los consumos<br />

<strong>de</strong> ingredientes, <strong>de</strong> energía eléctrica y los materiales <strong>de</strong> empaque y <strong>de</strong> limpieza <strong>de</strong> las instalaciones<br />

utilizados durante cada “batch”.<br />

Tabla 4 - Rendimientos <strong>de</strong> proceso.<br />

Materia prima Producto final Media <strong>de</strong> Rendimiento<br />

Filete sin piel IQF Filete ahumado en caliente 74%<br />

N = 25<br />

El producto final Filetes <strong>de</strong> Esturión ahumados en caliente, congelados y envasados al vacío<br />

presentó características organolépticas, a<strong>de</strong>más <strong>de</strong> las condiciones <strong>de</strong> salubridad necesarias por lo<br />

que es posible asegurar que el producto <strong>de</strong>sarrollado podrá ser tomado como base para futuros<br />

emprendimientos comerciales <strong>de</strong> la empresa contraparte.<br />

Tabla 5 - Composición química <strong>de</strong>l producto final. Media.<br />

Proteínas (%) Lípidos (%) Cenizas (%) Humedad (%)<br />

23,2 9,73 1,93 64,5<br />

N = 5<br />

Tabla 6 - Cloruros y a w en la porción comestible <strong>de</strong>l producto final<br />

Producto Cloruros a w<br />

Min. Max. min. max.<br />

Filete salado en salmuera 1,2 1,6 0,94 0,985<br />

Filete salado en seco 1,8 3,3 0,93 0,945<br />

N = 4<br />

CONCLUSIONES Y RECOMENDACIONES<br />

• Respecto <strong>de</strong> la materia prima quedó establecido que su calidad (filetes congelados <strong>de</strong> esturión)<br />

inci<strong>de</strong> directamente en las variables <strong>de</strong> tiempos y temperaturas aplicables en el proceso<br />

tecnológico. Asimismo, cuando los filetes congelados tenían cierto tiempo <strong>de</strong> almacenamiento<br />

se pudo apreciar distintos grados <strong>de</strong> enranciamiento y <strong>de</strong>secación que afectó negativamente la<br />

calidad <strong>de</strong>l producto final.<br />

• Las pruebas realizadas con filetes frescos permitieron establecer que los tiempos totales <strong>de</strong><br />

permanencia <strong>de</strong>l producto <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong>l equipo ahumador son mayores que cuando se trabajó con<br />

filetes congelados.<br />

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• Respecto <strong>de</strong>l material generador <strong>de</strong> humo: La mezcla <strong>de</strong> aserrín <strong>de</strong> Eucaliptus y viruta <strong>de</strong><br />

Lapacho <strong>de</strong>mostró poseer las condiciones correctas para su aplicación. Es muy importante al<br />

momento <strong>de</strong> <strong>de</strong>terminar la fuente <strong>de</strong> humo, po<strong>de</strong>r asegurar su abastecimiento constante. En<br />

este aspecto, estos materiales son <strong>de</strong> fácil obtención en Uruguay. A<strong>de</strong>más <strong>de</strong> ser <strong>de</strong> bajo costo,<br />

no ofrecen inconvenientes <strong>de</strong>s<strong>de</strong> el punto <strong>de</strong> vista tecnológico ya que proveen <strong>de</strong> humo en<br />

cantidad y calidad convenientes para el proceso.<br />

• Respecto <strong>de</strong>l equipo ahumador: Todos los ensayos fueron realizados en el equipo existente en<br />

el I.I.P. que tiene ciertas limitaciones, especialmente en cuanto a la capacidad <strong>de</strong> producto. No<br />

obstante, se hace especial énfasis en el hecho <strong>de</strong> que <strong>de</strong> encararse el proceso en otro tipo <strong>de</strong><br />

horno ahumador, se <strong>de</strong>berán ajustar las variables <strong>de</strong> tiempo y temperatura a fin <strong>de</strong> adaptarlas.<br />

• Respecto <strong>de</strong>l material <strong>de</strong> empaque: Aquí se <strong>de</strong>be diferenciar el utilizado para congelar los<br />

filetes frescos y el utilizado para el producto final. Con referencia al primero, se trataba <strong>de</strong><br />

bolsas <strong>de</strong> polietileno que no cubrían totalmente el filete, por lo que se cree que parte <strong>de</strong> los<br />

problemas <strong>de</strong> enranciamiento oxidativo observados se hayan originado en este empaque<br />

incorrecto. Este aspecto se <strong>de</strong>be corregir a fin <strong>de</strong> evitar ese problema y realizar el congelado <strong>de</strong><br />

los filetes frescos en túnel a - 30 ºC en forma IQF; posteriormente, envasar en film impermeable<br />

al oxígeno hasta su utilización para ahumado. En cuanto a las pruebas <strong>de</strong> envasado efectuadas<br />

con el producto ahumado obtenido, la utilización <strong>de</strong> bolsas <strong>de</strong> vacío dio el mejor resultado,<br />

aunque las pruebas efectuadas con film “Rolopac” no mostraron efectos negativos sobre el<br />

producto en los tiempos <strong>de</strong> almacenamiento analizados. La recomendación final es la utilización<br />

<strong>de</strong> la metodología <strong>de</strong>l envasado al vacío.<br />

• Respecto <strong>de</strong>l proceso en si mismo: La optimización <strong>de</strong>l nivel <strong>de</strong> sal en el producto final ha sido<br />

el problema tecnológico más importante a resolver durante la investigación. Se pue<strong>de</strong> evaluar<br />

que para el ahumado <strong>de</strong> filetes <strong>de</strong> esturión ensayado, existe una altísima inci<strong>de</strong>ncia <strong>de</strong> diferentes<br />

variables que afectan el resultado homogéneo <strong>de</strong> los ensayos, a saber:<br />

a) Las condiciones físicas <strong>de</strong>l filete, especialmente el largo y espesor.<br />

b) Las condiciones bromatológicas propias <strong>de</strong> la materia prima utilizada, especialmente el<br />

contenido en lípidos y humedad.<br />

c) Las condiciones <strong>de</strong> proceso y almacenamiento hasta el ahumado. Se trata <strong>de</strong>l tiempo y<br />

temperatura <strong>de</strong> congelación <strong>de</strong> la materia prima, tiempo y condiciones <strong>de</strong> almacenamiento, y<br />

condiciones <strong>de</strong> traslado.<br />

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d) Las condiciones meteorológicas el día <strong>de</strong>l ensayo –temperatura y humedad relativa ambienteinci<strong>de</strong>n<br />

sobre el producto, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> el momento que uno <strong>de</strong> los objetivos <strong>de</strong> la técnica aplicada es<br />

la reducción <strong>de</strong> la humedad en el producto.<br />

Estos factores han <strong>de</strong>terminado que los niveles <strong>de</strong> sal en músculo se presenten en el producto<br />

final con valores heterogéneos.<br />

Del análisis realizado <strong>de</strong> nuestros ensayos, se pue<strong>de</strong> inferir que especialmente el espesor <strong>de</strong><br />

los filetes incidió directamente en la penetración homogénea <strong>de</strong> sal en el músculo. También se<br />

<strong>de</strong>duce que un porcentaje <strong>de</strong> humedad variable presente en el músculo incidió directamente en la<br />

solubilidad <strong>de</strong> la sal y por lo tanto en su penetración.<br />

Teniendo en cuenta las condiciones <strong>de</strong>l equipo y <strong>de</strong> las diferentes calida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> materia prima<br />

estudiadas, fueron <strong>de</strong>terminados los parámetros <strong>de</strong> tiempos y temperaturas <strong>de</strong> proceso ya citados. Al<br />

respecto, se <strong>de</strong>be tener en cuenta: a) El mejor brillo en el producto final se obtuvo cuando se realizó<br />

un oreado luego <strong>de</strong>l salado, <strong>de</strong> al menos 30 minutos, <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong>l equipo ahumador a temperatura<br />

ambiente <strong>de</strong> + 20 ºC; b) El período <strong>de</strong> secado a + 35 ºC <strong>de</strong>mostró ser el más apropiado, ya que a<br />

temperaturas superiores se producía menor extracción <strong>de</strong> humedad <strong>de</strong>l filete presumiblemente por<br />

formación <strong>de</strong> una costra superficial. A<strong>de</strong>más en este aspecto inci<strong>de</strong> el grosor importante <strong>de</strong> los<br />

filetes; c) Se estudiaron diferentes tiempos <strong>de</strong> ahumado activo a distintas temperaturas,<br />

obteniéndose como mejor resultado el <strong>de</strong> 1 hora a + 60 ºC con saturación <strong>de</strong> humo (chimenea<br />

cerrada) y posterior cocción con mantenimiento <strong>de</strong>l ahumado aunque con el registro <strong>de</strong> salida <strong>de</strong><br />

humo al 50 %. Una mayor exposición al humo <strong>de</strong>terminó un color muy fuerte y sobre todo un sabor<br />

excesivo a humo. Aquí es necesario recordar que en el ahumado en caliente el humo solamente se<br />

<strong>de</strong>posita en la superficie <strong>de</strong>l filete y su fin es dar condiciones <strong>de</strong> apreciación organolépticas que<br />

combinadas con la sal u otros saborizantes <strong>de</strong>termina un producto palatable; d) El tiempo <strong>de</strong><br />

cocción fue establecido en cada ensayo <strong>de</strong> forma similar a + 95 ºC e incluyó los últimos 30 min. a<br />

63 ºC a que <strong>de</strong>bería estar expuesto el filete más frío <strong>de</strong>l horno (establecido por termocuplas <strong>de</strong><br />

registro constante), lo que <strong>de</strong>terminó siempre el fin <strong>de</strong>l proceso <strong>de</strong> tratamiento por calor; e)<br />

Inmediatamente <strong>de</strong>spués <strong>de</strong> terminado el proceso térmico se procedió siempre al enfriamiento <strong>de</strong>l<br />

producto en refrigeración por espacio <strong>de</strong> al menos 12 horas y posterior empaque y congelado; f)<br />

Respecto <strong>de</strong> la evaluación sensorial: No fue posible contar con paneles <strong>de</strong> jueces expertos y en su<br />

lugar se realizaron varias instancias <strong>de</strong> pruebas con consumidores no experimentados. De las<br />

<strong>de</strong>gustaciones efectuadas, es <strong>de</strong>stacable el resultado obtenido <strong>de</strong> la que se llevó a cabo con un<br />

público compuesto por Chefs <strong>de</strong> restaurantes importantes <strong>de</strong> la ciudad <strong>de</strong> Montevi<strong>de</strong>o (la mayoría<br />

catalogados 4 y 5 tenedores) y posibles interesados en adquirir este tipo <strong>de</strong> producto. De esta prueba<br />

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se pue<strong>de</strong> concluir que el producto <strong>de</strong>sarrollado tiene una interesante aceptación en un posible<br />

público objetivo que está acostumbrada a probar productos <strong>de</strong> calidad y sobre todo que conocen el<br />

esturión ahumado que se comercializa en Europa y USA; g) Respecto <strong>de</strong>l etiquetado: Se hace<br />

especial énfasis en que el etiquetado <strong>de</strong> este producto <strong>de</strong>berá ser muy preciso en cuanto a que<br />

especifique claramente que antes <strong>de</strong>l consumo se <strong>de</strong>be <strong>de</strong>scongelar fuera <strong>de</strong>l envase original (Figura<br />

3a,b,c,d,e,f,g,h,i,j).<br />

A<br />

B<br />

C<br />

D<br />

Figura 3 - A) Faena <strong>de</strong> esturiones. Desangrado; B) Procesamiento <strong>de</strong> filetes sin piel; C)<br />

Salado en seco; D) Recorte <strong>de</strong> filetes y troceado; E) Disposición en parrillas <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong>l<br />

ahumador; F) Colocación <strong>de</strong> termocuplas para registro <strong>de</strong> temperaturas <strong>de</strong> proceso.<br />

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G<br />

H<br />

I<br />

J<br />

Figura 3 (Cont.) - G) Registro <strong>de</strong> temperaturas <strong>de</strong> proceso; H) Filetes ya ahumados; I)<br />

Envasado al vacío y J) Producto piloto final envasado al vacío y congelado.<br />

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Torry Research Station - Ministry Of Technology (2001) Torry Advisory Note No. 14 (Revised).<br />

Smoked Fish Recommen<strong>de</strong>d Practice for Retailers. FAO, Support unit for International Fisheries<br />

and Aquatic Research, SIFAR, 2001. Assecced In: http://www.fao.org/wairdocs/tan.htm.<br />

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investigation_of _bact.pdf.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

RESENHAS<br />

CARPINTARIA ARTESANAL NO ESTADO DO MARANHÃO<br />

Luiz Phelipe <strong>de</strong> Carvalho Castro ANDRÈS*<br />

UNIVIMA/CVT Estaleiro Escola<br />

*E-mail: phelipe.andres@gmail.com<br />

Recebido em: 20 <strong>de</strong> maio <strong>de</strong> 2008<br />

ANTECEDENTES HISTÓRICOS<br />

O Maranhão nasceu do mar, das navegações, das embarcações. A conquista <strong>de</strong> seu território<br />

se fez na aventura cotidiana <strong>de</strong> enfrentar as águas agitadas por fortes ventos e marés ou penetrar as<br />

florestas pré-amazônicas através <strong>de</strong> milhares <strong>de</strong> quilômetros <strong>de</strong> rios navegáveis, furos e igarapés.<br />

Durante os séculos XVII, XVIII e XIX esta região foi o cenário <strong>de</strong> notáveis passagens da<br />

história do Brasil. São Luís, fundada pelos franceses em 1612, passaria a ser juntamente com Belém<br />

o centro político e econômico do meio norte brasileiro e até hoje possui o caráter marcante <strong>de</strong> uma<br />

cida<strong>de</strong> portuária.<br />

A localização das primeiras povoações foi condicionada pela dificulda<strong>de</strong> <strong>de</strong> acesso. O<br />

isolamento das comunida<strong>de</strong>s nascentes nas províncias do Grão-Pará e Maranhão só era rompido<br />

pela presença <strong>de</strong> navios a vela provenientes da Europa. Da meta<strong>de</strong> do século <strong>de</strong>zoito, até o final do<br />

<strong>de</strong>zenove, o Maranhão experimentou um surto <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento baseado na exportação intensiva<br />

<strong>de</strong> algodão e arroz, obtidos com farta mão <strong>de</strong> obra escrava. Na capital, no porto da Praia Gran<strong>de</strong>,<br />

fun<strong>de</strong>avam navios carregados <strong>de</strong> produtos sofisticados <strong>de</strong> manufatura européia.<br />

Também a comunicação e o abastecimento das cida<strong>de</strong>s litorâneas e ribeirinhas eram<br />

assegurados pelo trânsito <strong>de</strong> embarcações e aos hábitos indígenas <strong>de</strong> navegação e às suas técnicas<br />

mais primitivas somaram-se então a experiência <strong>de</strong> construção naval e marinharia, trazidas pelos<br />

europeus, consolidando-se <strong>de</strong> vez a hegemonia <strong>de</strong>sse meio <strong>de</strong> transporte em toda a região.<br />

CARACTERIZAÇÃO DO CENÁRIO GEOGRÁFICO DA PESQUISA<br />

De fato, o Maranhão possui o mais vasto litoral <strong>de</strong> todo o país. Se fizermos uma medida real<br />

<strong>de</strong> toda a extensão da linha <strong>de</strong> costa maranhense ela ultrapassará em muito as medidas oficiais <strong>de</strong><br />

640 km. Isto se dá em virtu<strong>de</strong> das infinitas reentrâncias que <strong>de</strong>senham uma verda<strong>de</strong>ira renda<br />

geográfica, <strong>de</strong>terminada pela foz <strong>de</strong> incontáveis rios, enseadas, pequenas baías, furos e igarapés,<br />

arquipélagos <strong>de</strong> pequenas e numerosas ilhas que por sua vez <strong>de</strong>terminam a formação <strong>de</strong> baías<br />

interiores.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Ao mesmo tempo registra-se aqui um caso raro no planeta em que as marés, em<br />

<strong>de</strong>terminadas épocas do ano atingem até 7 metros <strong>de</strong> amplitu<strong>de</strong>, e ainda a presença <strong>de</strong> mais <strong>de</strong> 60%<br />

das áreas <strong>de</strong> manguezais do país.<br />

Além do que, o território do estado possui uma rica bacia hidrográfica, sendo todo ele<br />

cercado por milhares <strong>de</strong> quilômetros <strong>de</strong> rios navegáveis, além <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s lagos em seu interior,<br />

especialmente nas regiões <strong>de</strong> Viana, Penalva, Cajari e Lago Açu só para citar alguns dos mais<br />

notáveis.<br />

AS JUSTIFICATIVAS DE ORDEM ECONÔMICA<br />

Até hoje a maior parte das populações que habitam as longínquas regiões da baixada e do<br />

litoral maranhense, cerca <strong>de</strong> um milhão <strong>de</strong> pessoas, abrangendo mais <strong>de</strong> 64.000 km2 <strong>de</strong> território e<br />

algumas das regiões mais isoladas do país, apóiam o seu modo <strong>de</strong> vida nas práticas da navegação.<br />

Várias ativida<strong>de</strong>s que dão sustentação a economias regionais <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m <strong>de</strong>stas embarcações<br />

para sobreviver. Dentre elas a pesca artesanal, que se processa cotidianamente e assegura a<br />

subsistência informal a milhares <strong>de</strong> famílias. Assim a carpintaria naval tradicional ainda hoje<br />

representa um alto grau <strong>de</strong> importância sócio econômica para o Estado do Maranhão.<br />

A GÊNESE DA PESQUISA (1977-1985)<br />

Mas, não obstante a importância sócio-econômica do tema, foi <strong>de</strong> fato a exuberante beleza<br />

das velas fortemente coloridas, <strong>de</strong> canoas ancoradas no bairro do Portinho no centro histórico <strong>de</strong><br />

São Luís, o motivo da primeira atração e que nos fez buscar uma proximida<strong>de</strong> maior com as<br />

embarcações artesanais.<br />

Recém chegado ao Maranhão, ainda em Março <strong>de</strong> 1977, logo pensei em captar aquele<br />

cenário <strong>de</strong> cores fortes como motivo <strong>de</strong> uma série <strong>de</strong> pinturas a óleo que pretendia produzir como<br />

forma <strong>de</strong> lazer. Com dificulda<strong>de</strong> para <strong>de</strong>strinchar o emaranhado visual <strong>de</strong> cabos, moitões, ca<strong>de</strong>rnais,<br />

bolachas e roldanas das “enxárcias” e dos aparelhos vélicos, passei a procurar os <strong>de</strong>senhos que<br />

pu<strong>de</strong>ssem me fornecer as minúcias dos <strong>de</strong>talhes construtivos das canoas para realizar telas bem<br />

próximas da realida<strong>de</strong>.<br />

Entretanto ao me aproximar, fiquei sabendo pelas conversas na “beirada” que eles não<br />

utilizavam <strong>de</strong>senhos <strong>de</strong> projetos convencionais para construir aqueles barcos e que o projeto estava<br />

“na cabeça” como diziam apontando para a fronte. Ao mesmo tempo queixavam-se que os jovens<br />

não mais se interessavam pelo aprendizado da arte. Ninguém quer abraçar um ofício que leva os<br />

profissionais para um final <strong>de</strong> vida na pobreza. Não foi difícil perceber os riscos que a profissão<br />

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corria, pois toda vez que um velho mestre chegava ao fim <strong>de</strong> seus dias, levava consigo e para<br />

sempre, um imenso cabedal <strong>de</strong> conhecimentos. O estado <strong>de</strong> abandono daqueles trabalhadores vinha<br />

ocasionando perdas importantes.<br />

A partir daí iniciei meus primeiros passos, percorrendo as praias da ilha <strong>de</strong> São Luís, nos<br />

finais <strong>de</strong> semana, na tentativa <strong>de</strong> registrar as canoas com <strong>de</strong>senhos e fotografias. O esforço ingente<br />

com poucos resultados práticos logo me revelou a dimensão e as dificulda<strong>de</strong>s da tarefa a que me<br />

propusera. Pouco a pouco fui me dando conta da quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> barcos e suas variações.<br />

Um universo <strong>de</strong> rica diversida<strong>de</strong> a ser <strong>de</strong>svendado.<br />

Já em 1979 recebemos a visita <strong>de</strong> Aluisio Magalhães então presi<strong>de</strong>nte do antigo SPHAN, a<br />

quem relatei minhas idéias e dificulda<strong>de</strong>s. Ele sugeriu a montagem <strong>de</strong> uma equipe para dar conta do<br />

recado e comentou sua preocupação com as tradicionais jangadas <strong>de</strong> sua terra que já estavam<br />

<strong>de</strong>saparecendo da paisagem, sendo que as novas vinham sendo fabricadas com tubos PVC e<br />

utilizando velas <strong>de</strong> nylon sem que ninguém tivesse tido o cuidado <strong>de</strong> fazer o competente registro.<br />

Reconhecer minhas limitações para realizar, sozinho, esta tarefa foi o primeiro movimento<br />

no sentido <strong>de</strong> elaborar um projeto que viabilizasse os recursos necessários para remunerar uma<br />

equipe <strong>de</strong> pesquisadores e daí surgiu <strong>de</strong> fato o projeto “Embarcações do Maranhão” cujo objetivo<br />

primeiro foi o <strong>de</strong> recuperar as técnicas tradicionais populares <strong>de</strong> construção naval e contar a história<br />

dos mestres-carpinteiros, calafates, pintores e veleiros, que guardam na sua memória a ciência e a<br />

arte da construção naval, as quais vem sendo transmitidas <strong>de</strong> pai para filho pela tradição oral <strong>de</strong>s<strong>de</strong><br />

os tempos coloniais e que por sua vez resistiram ao abandono e ao isolamento através <strong>de</strong> gerações<br />

que ainda exercem anonimamente esta difícil profissão.<br />

Em 1985 fui levado por D. Zelinda Lima a uma entrevista com Renato Archer em suas<br />

primeira visita ao Maranhão na qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ministro da Ciência e Tecnologia. A ele entregamos o<br />

projeto que foi encaminhado e aprovado para financiamento pela FINEP. A partir daí foi possível<br />

contar com uma valorosa equipe capaz <strong>de</strong> dar conta do recado.<br />

O foco inicial da pesquisa foi direcionado para a recuperação dos conhecimentos<br />

secularmente utilizados para a construção das embarcações <strong>de</strong> pequeno e médio porte, incluindo os<br />

mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong>stinados à navegação marítima e fluvial, para transporte <strong>de</strong> passageiros, <strong>de</strong> carga ou <strong>de</strong><br />

pesca.<br />

METODOLOGIA APLICADA E IMPLEMENTAÇÃO DO PROJETO (1986- 1988)<br />

A partir <strong>de</strong> 1986, a equipe do projeto Embarcações trabalhou segundo três principais<br />

vertentes. Simultaneamente, focalizamos as embarcações propriamente ditas, os operários navais<br />

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que as fabricam e os estaleiros artesanais, cenário e palco <strong>de</strong>ste fazer. Passamos a olhar as<br />

embarcações como objetos <strong>de</strong> arte popular. Os operários navais, legítimos <strong>de</strong>tentores <strong>de</strong>ste<br />

conhecimento tradicional, precisavam ser entrevistados para que pudéssemos conhecer seu<br />

para<strong>de</strong>iro, traçar seu perfil antropológico, além <strong>de</strong> obter as informações sobre os métodos<br />

construtivos, materiais e ferramentas utilizadas. Entretanto, pela própria natureza <strong>de</strong> sua ativida<strong>de</strong>,<br />

muitas vezes eles se encontravam dispersos em localida<strong>de</strong>s isoladas e <strong>de</strong> difícil acesso. A primeira<br />

etapa do trabalho foi realizada na ilha <strong>de</strong> São Luís. Com o acúmulo <strong>de</strong> experiências, a equipe<br />

visitou regiões cada vez mais distantes.<br />

Durante dois anos percorremos todo o território do Maranhão, seguindo informações que<br />

indicavam os mais prováveis centros <strong>de</strong> construção naval artesanal, às vezes no litoral, às vezes nas<br />

margens <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s lagos ou rios navegáveis bem distantes do mar.<br />

A parceria com o Sindicato dos Operários Navais <strong>de</strong> São Luís foi fundamental. Fazíamos<br />

reuniões nas comunida<strong>de</strong>s para explicar os objetivos do projeto. Os profissionais foram então<br />

i<strong>de</strong>ntificados com foto, nome e especialida<strong>de</strong>. Visitamos 53 localida<strong>de</strong>s. Assim, tornou-se possível<br />

<strong>de</strong>tectar um número significativo <strong>de</strong> operários navais bem como seu nível <strong>de</strong> qualificação. Este<br />

inventário realizado há mais <strong>de</strong> 20 anos, cadastrou 521 profissionais. Entretanto nós registramos<br />

somente aqueles que muitas vezes com dificulda<strong>de</strong>, podiam aten<strong>de</strong>r ao nosso convite para as<br />

reuniões que realizávamos nas se<strong>de</strong>s das colônias <strong>de</strong> pesca. Estimamos que este número<br />

correspon<strong>de</strong> a apenas 30% dos trabalhadores que atuavam naquela época.<br />

Quanto aos estaleiros artesanais observamos que eles podiam até, em alguns casos, possuir<br />

um caráter efêmero. Muitas vezes nos <strong>de</strong>paramos com embarcações <strong>de</strong> pequeno porte sendo<br />

construídas ao ar livre, à sombra <strong>de</strong> uma árvore. Após a conclusão da obra o carpinteiro<br />

eventualmente mudava <strong>de</strong> para<strong>de</strong>iro em função <strong>de</strong> uma nova encomenda haver sido solicitada até<br />

mesmo em outro município.<br />

Em muitos casos não passavam <strong>de</strong> um barracão improvisado, coberto <strong>de</strong> palha, abrigando<br />

uma caixa <strong>de</strong> ferramentas e uma bancada. Tudo muito simples, <strong>de</strong>spojado e ru<strong>de</strong>. Não fosse pela<br />

presença forte <strong>de</strong> uma estrutura <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira, quase orgânica, com o “cavername” à mostra, não se<br />

i<strong>de</strong>ntificaria ali o cenário on<strong>de</strong> se processa a criação <strong>de</strong> algumas obras <strong>de</strong> arte da navegação.<br />

Essa mobilida<strong>de</strong> se <strong>de</strong>ve ao extremo <strong>de</strong>spojamento do aparato utilizado na oficina <strong>de</strong><br />

construção naval. Depen<strong>de</strong>ndo dos recursos disponíveis e do isolamento em que se encontra o<br />

operário, uma pequena canoa <strong>de</strong> pesca po<strong>de</strong>rá ser construída somente com utilização <strong>de</strong> ferramentas<br />

manuais bem primitivas. Cavilhas <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira com diferentes coeficientes <strong>de</strong> dilatação substituem<br />

pregos e parafusos. As diversas peças são talhadas e preparadas com poucos instrumentos como<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

machados, serrotes, enxós, plainas e arcos <strong>de</strong> pua. Mas a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> resolver problemas com o<br />

mínimo <strong>de</strong> recursos é o que para nós caracteriza uma boa técnica e neste aspecto é que resi<strong>de</strong> o<br />

gran<strong>de</strong> valor da arte dos carpinteiros navais do Maranhão.<br />

De todas as etapas da pesquisa a que apresentou mais dificulda<strong>de</strong>s foi o registro do projeto<br />

naval. No dizer <strong>de</strong> mestre Pedro Alcântara, um dos mais experientes que conhecemos na ocasião e<br />

autor <strong>de</strong> várias canoas costeiras “o barco é feito assim todo torto pra ficar direito na água”. Esta<br />

característica das embarcações, tão bem <strong>de</strong>finida pelo próprio construtor, dificulta a realização do<br />

levantamento e registro gráfico <strong>de</strong> suas formas e dimensões.<br />

No primeiro momento tornou-se necessária a montagem <strong>de</strong> uma oficina <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>lismo naval<br />

para familiarização da equipe com a “anatomia” da embarcação. Aí foi fundamental o apoio do<br />

Almirante Max Justo Gue<strong>de</strong>s, Diretor do Serviço <strong>de</strong> Documentação Geral da Marinha, que<br />

autorizou a participação direta do especialista em mo<strong>de</strong>lismo naval do Museu Naval e<br />

Oceanográfico, Kelvin <strong>de</strong> Palmer Rothier Duarte.<br />

Sob sua orientação iniciamos o levantamento <strong>de</strong> uma canoa costeira no Portinho e a<br />

construção <strong>de</strong> sua réplica em escala reduzida. Kelvin Duarte transmitiu-nos o conceito do “pente”,<br />

instrumento utilizado em levantamentos arquitetônicos para registrar o perfil <strong>de</strong> frisos, cornijas e<br />

cimalhas. E assim construímos um aparelho com a finalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> medir a curvatura das diferentes<br />

cavernas da embarcação e que jocosamente <strong>de</strong>nominamos “cavernômetro”,<br />

Este recurso favoreceu a reconstituição dos planos navais, o “plano <strong>de</strong> balizas”, o <strong>de</strong> “linhas<br />

d’água” e o “plano do alto”, capazes <strong>de</strong> registrar com boa aproximação, o perfil da estrutura,<br />

permitindo traçar a base do projeto naval dos diferentes mo<strong>de</strong>los, trilhando o “caminho inverso”, ou<br />

seja, partindo do levantamento da embarcação já existente e então elaborando os planos, que agora<br />

nos permitem reconstruí-las com precisão. A equipe esmerou-se ainda no registro dos <strong>de</strong>talhes<br />

construtivos que complementam a informação técnica <strong>de</strong> projeto.<br />

PRINCIPAIS RESULTADOS (1996 -2008)<br />

Em 1996, o Projeto Embarcações do Maranhão conquistou o prêmio Rodrigo Melo Franco<br />

<strong>de</strong> Andra<strong>de</strong> concedido pelo Ministério da Cultura em âmbito nacional, na categoria <strong>de</strong> "Inventário<br />

<strong>de</strong> acervos e pesquisas" e dois anos mais tar<strong>de</strong> (1998) resultou na publicação <strong>de</strong> um livro<br />

<strong>de</strong>nominado "Embarcações do Maranhão - Recuperação das técnicas construtivas tradicionais<br />

populares" sob a chancela da UNESCO<br />

Os resultados obtidos, <strong>de</strong> forma geral, tem se constituído em subsídios aos <strong>de</strong>mais projetos<br />

que visam a recuperação e intensificação das ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> pesca artesanal e indústria naval<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

artesanal, como alternativas <strong>de</strong> geração <strong>de</strong> emprego, renda e oportunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> permanência do<br />

homem em seu local <strong>de</strong> origem.<br />

Mas <strong>de</strong> todos os frutos <strong>de</strong>sta investigação, o principal foi a criação do Centro Vocacional<br />

Tecnológico - Estaleiro-Escola do Sítio Tamancão, <strong>de</strong>stinado ao treinamento em ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong><br />

construção naval, como alternativa para a preservação das técnicas, através da valorização dos<br />

mestres artesãos que passaram a contar com local e remuneração apropriados para a transmissão <strong>de</strong><br />

seus conhecimentos.<br />

Nosso curso <strong>de</strong> construtores navais é financiado pelo CNPq e foi aprovado em concurso<br />

publico através <strong>de</strong> edital lançado por aquela instituição <strong>de</strong> pesquisa em 2006. Assim sua matriz<br />

curricular compreen<strong>de</strong> disciplinas teóricas que darão aos futuros profissionais conhecimentos <strong>de</strong><br />

informática, tipologia naval, <strong>de</strong>senho técnico, <strong>de</strong>senho <strong>de</strong> projeto, matérias primas, meio ambiente,<br />

segurança no trabalho e empreen<strong>de</strong>dorismo em uma carga horária <strong>de</strong> 2.000 horas.<br />

Mas estes ensinamentos que a aca<strong>de</strong>mia po<strong>de</strong> proporcionar aos nossos primeiros 25 alunos e<br />

que são transmitidos por uma equipe docente <strong>de</strong> alto nível são associados a aulas práticas <strong>de</strong><br />

construção <strong>de</strong> embarcações ministradas pelos velhos mestres carpinteiros que atuam no dia a dia do<br />

canteiro <strong>de</strong> obras do CVT- Estaleiro-Escola.<br />

O local escolhido foi o antigo Sítio Tamancão, que no século <strong>de</strong>zenove abrigou uma<br />

indústria <strong>de</strong> beneficiamento <strong>de</strong> arroz para exportação, movida por "moinho <strong>de</strong> marés", na margem<br />

do canal <strong>de</strong> navegação do Rio Bacanga em frente ao Portinho bem diante do centro Histórico <strong>de</strong><br />

São Luís, on<strong>de</strong> até hoje se processa o <strong>de</strong>sembarque da pesca artesanal e se concentra gran<strong>de</strong> número<br />

<strong>de</strong> embarcações <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>ira.<br />

Inaugurado em Dezembro <strong>de</strong> 2006 o CVT-Estaleiro-Escola é hoje uma realida<strong>de</strong>.<br />

Localizado no belo cenário da ilha do Tamancão, próximo a várias comunida<strong>de</strong>s carentes <strong>de</strong> bairros<br />

populares, abrindo perspectivas <strong>de</strong> inclusão social para uma camada da juventu<strong>de</strong> que encontra aí<br />

uma nova opção profissional.<br />

Todo o trabalho ao longo <strong>de</strong>stes 22 anos, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a pesquisa “Embarcações do Maranhão”<br />

vem sendo <strong>de</strong>senvolvido na esfera do Governo Estadual que <strong>de</strong>u abrigo ao Estaleiro Escola no<br />

âmbito da UNIVIMA-Universida<strong>de</strong> Virtual do Maranhão, órgão vinculado à Secretaria <strong>de</strong> Estado<br />

da Ciência e Tecnologia que por sua vez nos dá todas as condições pedagógicas e <strong>de</strong> infra-estrutura<br />

garantindo seu pleno funcionamento. Além do curso <strong>de</strong> construtores navais a escola oferece cursos<br />

<strong>de</strong> capacitação em preservação ambiental, informática e eletromecânica. Contamos também com o<br />

financiamento do Ministério da Ciência e Tecnologia para abrigar 250 alunos.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Mas certamente que a maior <strong>de</strong> todas as emoções é o fato <strong>de</strong> estarmos trabalhando hoje com<br />

os mestres da arte como: Jonas, Alencar, Otávio, Zequinha, Veriano Aranha, Emídio, Deudico e<br />

Rosa, que já são <strong>de</strong> fato os “doutores” da nossa escola. Percebendo que eles, lado a lado com os<br />

aprendizes, estão se sentindo mais valorizados e com motivos para ter orgulho <strong>de</strong> sua profissão.<br />

A eles <strong>de</strong>dicamos as conquistas do projeto como <strong>de</strong>tentores e portadores até aos nossos dias,<br />

do conhecimento tradicional e secular que a escola já está assegurando para as futuras gerações.<br />

Na Figura 1 é possível visualizar belos exemplos <strong>de</strong> embarcações artesanais do Maranhão.<br />

<br />

Figura 1 - Embarcações do Maranhão (acima fotos do Autor e abaixo <strong>de</strong> Haroldo G. Barroso).<br />

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TILAPICULTURA INDUSTRIAL<br />

Rogério Bellini Figueiredo*<br />

Netuno <strong>Pesca</strong>dos<br />

*E-mail rbellinif@yahoo.com.br<br />

Recebido em: 1 <strong>de</strong> abril <strong>de</strong> 2008<br />

Conceitos <strong>de</strong> piscicultura existem tanto em âmbito acadêmico quanto no não acadêmico, e as<br />

classificações <strong>de</strong> super intensivo, intensivo, semi-intensivo e extensivo acomodam-se bem em<br />

ambos. Mas, como pensar na praticida<strong>de</strong> <strong>de</strong>sses conceitos pondo em foco a ativida<strong>de</strong> industrial?<br />

Arrisco-me a observar, que <strong>de</strong> forma recorrente essas pisciculturas são manejadas tal qual uma<br />

“receita <strong>de</strong> bolo”. Sabemos exatamente o que colocamos, como e quando <strong>de</strong>vemos manejar, quando<br />

<strong>de</strong>spescaremos e quanto produziremos.<br />

Estas são condições que <strong>de</strong> forma sinérgica se retroalimentam, ou seja, formam um complexo<br />

que otimiza a planta <strong>de</strong> beneficiamento. Não po<strong>de</strong>mos produzir em <strong>de</strong>sarmonia a ela, e lembro das<br />

idéias <strong>de</strong> um antigo professor quando chamava à atenção sobre fatores limitantes. Esses fatores<br />

tinham que estar em equilíbrio, para que não inibisse a um dos fatores que compõem o ciclo<br />

produtivo, o que restringiria todo o processo a um patamar menor.<br />

Pensado assim, <strong>de</strong>senvolvemos e implantamos uma fazenda mo<strong>de</strong>lo que aten<strong>de</strong>sse a<br />

necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> uma planta <strong>de</strong> processamento exclusivo <strong>de</strong> tilápias (Figura abaixo).<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

O projeto tem como premissas: ocupação <strong>de</strong> pequenos espaços, controle absoluto do manejo,<br />

conforto dos espécimes em cultivo, ciclos curtos e <strong>de</strong>spescas controladas. Aliada à questão<br />

produtiva, teríamos que ficar atentos aos custos <strong>de</strong>ssa produção e principalmente à manutenção do<br />

equilíbrio ambiental. Encontramos no Rio São Francisco as condições i<strong>de</strong>ais para a implementação<br />

do projeto. O fluxo contínuo das águas passando pelas gaiolas ou tanques-re<strong>de</strong> propicia a harmonia<br />

do conjunto; o que po<strong>de</strong>ríamos sugerir como condição relevante ou mesmo <strong>de</strong>terminante para o<br />

sistema <strong>de</strong> cultivo apresentado.<br />

Dificilmente, po<strong>de</strong>ríamos obter uma produção <strong>de</strong> larga escala, como a encontrada no Rio São<br />

Francisco, com o uso <strong>de</strong> tanques escavados uma vez que não se fariam presentes os fatores<br />

impulsores supracitados. O custo <strong>de</strong> produção seria altíssimo além do <strong>de</strong>scontrole na padronização<br />

<strong>de</strong> lotes.<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO NA REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE PESCA<br />

OBJETIVO - A Revista Brasileira <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> (RE<strong>Pesca</strong>) tem por objetivo publicar<br />

trabalhos que abordam temas <strong>de</strong> interesse na área <strong>de</strong> Recursos Pesqueiros e <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>.<br />

INFORMAÇÕES GERAIS - Os originais <strong>de</strong>vem ser redigidos em português, inglês ou espanhol, <strong>de</strong><br />

forma concisa, com a exatidão e a clareza necessárias à sua fiel compreensão, <strong>de</strong> acordo com estas<br />

normas. Devem ser enviados à Comissão Editorial pelo e-mail: repesca@gmail.com,<br />

rigorosamente don<strong>de</strong> serão enviados aos consultores “ad hoc”. Os pareceres serão transmitidos<br />

anonimamente aos autores.<br />

Os trabalhos serão publicados na or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> aceitação, ou pela sua importância e po<strong>de</strong>m ser <strong>de</strong> três<br />

tipos: Artigos Científicos, Artigos Técnicos e Resenhas, com os seguintes itens:<br />

Artigos Científicos - Resumo (+ Palavras-chave), Abstract (+ Keywords), Introdução, Material e<br />

Métodos, Resultados e Discussão (estes dois juntos ou separados), Conclusões (opcional),<br />

Agra<strong>de</strong>cimentos (opcional) e Referências.<br />

Artigos Técnicos - Resumo (+ Palavras-chave), Abstract (+ Key words), Introdução, Corpo<br />

(<strong>de</strong>senvolvimento do assunto) Conclusões (<strong>de</strong>nominados <strong>de</strong> Comentários Conclusivos ou Finais,<br />

Consi<strong>de</strong>rações Finais), Agra<strong>de</strong>cimentos (opcional) e Referências.<br />

Resenhas (relatos <strong>de</strong> fatos ou casos) - Título e texto (+ Referências se houver citação).<br />

OS ITENS SERÃO DEVEM SER GRAFADOS COM LETRAS MAIÚSCULAS, ALINHADOS AESQUERDA E UM<br />

ESPAÇO ACIMA E UM ABAIXO.<br />

PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS<br />

Digitação - Os artigos com no máximo 15 páginas, incluindo tabelas e figuras, <strong>de</strong>vem ser digitado<br />

em letra Times New Roman, tamanho12, papel “Carta/Letter” e em espaço 1,5 (entre linhas), com<br />

exceção do Resumo e Abstract (espaço simples), com margens <strong>de</strong> 2 cm em todos os lados,<br />

justificado. Nomes científicos e palavras estrangeiras <strong>de</strong>vem ser grafados em “itálico”.<br />

Título - O título, nas duas línguas usadas nos resumos, <strong>de</strong>ve dar uma idéia precisa do conteúdo e ser<br />

o mais curto possível escrito em letras maiúsculas tamanho12, centralizado.<br />

Nomes dos autores - Os nomes dos autores <strong>de</strong>vem constar sempre na sua or<strong>de</strong>m direta, sem<br />

inversões, com o sobrenome maiúsculo. Segue-se aos autores os en<strong>de</strong>reços institucionais e após o e-<br />

mail do autor correspon<strong>de</strong>nte.<br />

Ciro Men<strong>de</strong>s CASTOR 1* ; José Mário BRAGA 2 ; Maria da Penha PIRILO 1<br />

1 Departamento <strong>de</strong> Educação, Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Carolina<br />

2 Instituto <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> <strong>de</strong> Carolina<br />

*Email: ciromc@ymail.com<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

O Resumo e o Abstract - <strong>de</strong>vem ser escritos em espaço simples insertos na primeira página (no<br />

máximo 250 palavras), conter as mesmas informações e sempre sumariar resultados e conclusões.<br />

Devem ser seguidos <strong>de</strong>, no máximo, cinco palavras-chaves e key-words.<br />

REFERÊNCIAS - Normas da ABNT<br />

Livro (um autor)<br />

BELLINI, C. T. Tratado <strong>de</strong> Zoogeografia do Brasil. Ubá: Editora Nova, 2005. 117p.<br />

No texto: A espécie ocorre... (BELLINI, 2005) ou Segundo Bellini (2005) a espécie...<br />

(Até três autores)<br />

ROCHA, R.; J.P. LARA (Eds.) Marine fishes. Victoria: University Press, 2004. 232p.<br />

No texto: (ROCHA; LARA, 2004) ou Segundo Rocha e Lara (2004), the...<br />

Capítulo <strong>de</strong> livro<br />

BRITO, N.; DATENA, C. R. Crescimento <strong>de</strong> miracéu Astrocopus y-grecum em laboratório. In: H.<br />

G. Barroso (Ed.). The Sea Fishes São Luís: Ed. Marina, 2005. p. 23-27.<br />

No texto: (BRITO; DATENA, 2005)<br />

Períodicos<br />

COSTA, J.B. A seca no agreste pernambucano. Rev. Bras. Geog., v. 7, n. 27, p. 21-7, 1957.<br />

No texto: (COSTA, 1957)<br />

GALVÃO, G.G.; CAFÉ , J.M. (2002). Peixes do Rio Farinha, MA. Rev. Mar. Biol., v. 27, n. 7, p.<br />

733-49.<br />

No texto (até três autores): (GALVÃO; CAFÉ, 2002)<br />

OMINO, P., GIL, C.; FALCÃO, E. Raias do Brasil. Bol. Zool., v. 7, n. 8, p. 3-13, 1987.<br />

No texto (Mais <strong>de</strong> três autores) (Pantaleão, Omimo, Gil; Falcão, 1947)<br />

KOIKE, J., et al. A importância do bem-estar. Rev. Bras. Bem-estar, v. 7, n. 1, p. 7-27, 1997.<br />

No texto (mais <strong>de</strong> três): (KOIKE et al., 2007)<br />

Anais <strong>de</strong> Eventos Científicos<br />

MARINHO, M. A.; ABE, B. A violência contra as tartarugas. In: CONGRESSO ESTADUAL DE<br />

ENGENHARIA DE PESCA, X, Penedo. Anias... Penedo: Universida<strong>de</strong> do São Francisco, 2008. p.<br />

33-47.<br />

No texto: (MARINHO; ABE, 2001)<br />

Tese e Dissertação<br />

MARTUS, M. Contribuição estudo da pesca na Lagoa dos Pato, 2001. 47f. Tese (Doutorado em<br />

Zoologia) – Deprtamento <strong>de</strong> Zoologia, Universida<strong>de</strong> do Arroio, Pelotas. 2001.<br />

No texto: (MARTUS, 2001)<br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

Artigo on-line<br />

FAO. The world's fisheries. (2007). Disponível em: http://www.fao.org\fi\statist\htm. Acesso em:<br />

27 <strong>de</strong> set. 2007.<br />

No texto: (FAO, 2007)<br />

Correções - Os trabalhos que necessitarem <strong>de</strong> correções serão <strong>de</strong>volvidos aos autores e <strong>de</strong>verão<br />

retornar ao Editor no prazo <strong>de</strong> 7 dias, caso contrário po<strong>de</strong>rão ter a publicação postergada.<br />

MATERIAL ILUSTRATIVO - As tabelas e figuras <strong>de</strong>vem se restringir ao necessário para o<br />

entendimento do texto, numeradas em algarismos arábicos. As figuras <strong>de</strong>vem ser “inseridas” no<br />

texto e nunca “recortadas” e “coladas”, <strong>de</strong>vem ser <strong>de</strong> tamanho compatível, para não per<strong>de</strong>r a niti<strong>de</strong>z<br />

quando reduzidas e agrupadas, sempre que possível. As tabelas <strong>de</strong>vem ser feitas com utilização da<br />

ferramenta Tabela do “Word”. As legendas <strong>de</strong>vem ser auto-explicativas colocadas acima nas<br />

tabelas e abaixo nas figuras. Símbolos e abreviaturas <strong>de</strong>vem ser <strong>de</strong>finidos nas legendas.<br />

NUNCA USE NEGRITO NO TEXTO, EM PARTE OU PARA DESTACAR EXPRESSÕES.<br />

OBSERVAÇÃO - Antes <strong>de</strong> remeter o trabalho, verifique se o mesmo está <strong>de</strong> acordo com as normas,<br />

atentando ainda para os seguintes itens: correção gramatical, correção da digitação, correspondência<br />

entre os trabalhos citados no texto e os referidos nas referências, correspondência entre os números<br />

<strong>de</strong> tabelas e figuras citadas no texto.<br />

ATENÇÃO:<br />

a) a Revista não concorda necessariamente com os conceitos emitidos pelos articulistas; b) os<br />

recursos advindos <strong>de</strong> possíveis doações, financiamentos, assinaturas, venda <strong>de</strong> publicações da<br />

RE<strong>Pesca</strong> (disquetes, CDS, cópias impressas etc.) serão utilizado na manutenção da revista, não<br />

cabendo participação dos autores no usufruto <strong>de</strong>sses recursos; c) os autores ao enviar seus trabalhos<br />

concordam com os termos <strong>de</strong>stas normas; d) o autor principal (ou correspon<strong>de</strong>nte) é responsável<br />

pela aceitação, para publicação nesta RE<strong>Pesca</strong>, dos <strong>de</strong>mais autores do trabalho.<br />

DÚVIDAS E ENVIO DE TRABALHOS: contactar o Editor-Chefe no seguinte e-mail:<br />

repesca@gmail.com<br />

A RE<strong>Pesca</strong> está disponível no site da Universida<strong>de</strong> Estadual do Maranhão/<strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>:<br />

www.engenharia<strong>de</strong>pesca.uema.br <br />

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Rev. Bras. Enga. <strong>Pesca</strong> 3(2), jul. 2008<br />

CONTATOS<br />

RE<strong>Pesca</strong>:<br />

E-mail: repesca@gmail.com<br />

Site: www.engenharia<strong>de</strong>pesca.uema.br<br />

Haroldo Gomes Barroso<br />

Diretor<br />

José Milton Barbosa<br />

Editor-Chefe<br />

Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>,<br />

Universida<strong>de</strong> Estadual do Maranhão<br />

Fone: (098) 8143 6731<br />

E-mail: hgbarroso@yahoo.com.br<br />

Departamento <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong> e Aqüicultura,<br />

Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong><br />

Pernambuco<br />

Fone: (81) 3320 6521 / 99626132<br />

E-mail: jmiltonb@gmail.com<br />

Adierson Erasmo <strong>de</strong> Azevedo<br />

Editor Adjunto<br />

Emerson Soares<br />

Editor Adjunto<br />

Professor Catedrático<br />

Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral Rural <strong>de</strong><br />

Pernambuco<br />

Curso <strong>de</strong> <strong>Engenharia</strong> <strong>de</strong> <strong>Pesca</strong>,<br />

Universida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong> Alagoas,<br />

Polo Penedo,<br />

Fone: (81) 8852 3067<br />

E-mail:<br />

adiersonprofessor@yahoo.com.br<br />

Fone: (82) 3551 2784<br />

E-mail: soaemerson@gmail.com<br />

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