O branco mais negro deste ano - Fonoteca Municipal de Lisboa

fonoteca.cm.lisboa.pt

O branco mais negro deste ano - Fonoteca Municipal de Lisboa

Sexta-feira

13 Novembro 2009

www.ipsilon.pt

Dâm-Funk Materiais Diversos Richard Egarr Ronald Reagan Olivier Rolin

SCHIKO ESTE SUPLEMENTO FAZ PARTE INTEGRANTE DA EDIÇÃO Nº 7164 DO PÚBLICO, E NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

O branco mais negro deste ano

Mayer Hawthorne, autor do melhor disco de soul clássica

desde que se deixou de fazer soul clássica


ORGANIZAÇÃO PATROCÍNIOS APOIO À DIVULGAÇÃO


Flash

Sumário

Mayer Hawthorne 6

Autor do melhor disco de

soul clássica desde que se

deixou de fazer soul clássica

Materiais Diversos 18

Há festival na aldeia

Eunice Muñoz 22

Quando a actriz interpreta a

verdadeira morte

Ronald Reagan 24

O Presidente que não tinha

medo de escrever para a

História

Filipe Seems 27

Um rapaz de Lisboa

Olivier Rolin 31

Andou à caça de um caçador

de leões — e de Manet

Dominique Lapierre 32

e o círculo de energia

positiva

Ficha

Técnica

Director Bárbara a

Reis

Editor Vasco

Câmara, Inês

Nadais (adjunta)

Conselho

editorial Isabel

Coutinho, Óscar

Faria, Cristina

Fernandes, Vítor Belanciano

Design Mark Porter, Simon

Esterson, Kuchar Swara

Directora de arte Sónia

Matos

Designers Ana Carvalho,

Carla Noronha, Mariana

Soares

Editor de fotografia

Miguel Madeira

E-mail: ipsilon@publico.ptpublico.pt

Coppola, o

realizador presente

Uma coisa foi Francis Ford Coppola

para a imprensa, outra coisa foi

Francis Ford Coppola na sessão de

perguntas e respostas para o

público do Estoril Film Festival que

no domingo encheu as duas sessões

de “Tetro”, a sua mais recente

produção, que estreia na próxima

semana. Depois de 120 minutos de

filme durante os quais esteve a

jantar com Paulo Branco, Don

DeLillo e David Cronenberg,

Coppola voltou ao palco (passou

por lá no início a apresentar a

sessão) para (como tem vindo a ser

seu costume) minimizar grande

parte da sua carreira em Hollywood

querendo fazer-nos, antes, olhar

para o futuro. Mestre na sua própria

cerimónia, esteve de microfone em

punho mais tempo (e com mais

disponibilidade e generosidade) do

que o exigível a responder ao que

lhe quiseram perguntar. Do método

de escolha e trabalho com actores

(gosta de fazê-los improvisar à volta

de uma refeição desde os tempos de

“O Padrinho”) à sua perspectiva

sobre o futuro do cinema. Ele que já

desde “Do Fundo do Coração”

(1982) anda a experimentar com os

novos suportes e não tem intenção

de voltar atrás (enquanto durar, a

película vai ficar para a filha, Sofia)

deu uma “master class” informal

em que fez saber acreditar que o

futuro do cinema pode passar em

breve por um tipo de filme que

muda de noite para noite, um tipo

de filme que exija que o realizador

esteja presente do início ao fim da

vida da sua obra. A maneira de

manter a fidelidade e tensão de

plateias já estimuladas à

náusea. “Pensem

nisso”, disse

perto do fim

como quem

sabe qualquer

coisa mais

além.

Coppola: o futuro do cinema,

diz, pode passar por um tipo

de filme que muda de noite

para noite

“Vai ser uma experiência extracorporal”, disse Burton ao “New York Times”

Tim Burton por “Tim

Burton” no MoMa

Tim Burton, o grande

imperador do gótico,

inventor do musical

macabro e amante do

bizarro em todas as suas

formas e cores (e também a

preto e branco) vai encher o

terceiro piso do Museu de

Arte Moderna (MoMa) de

Nova Iorque com os

desenhos, pinturas,

maquetes, “storyboards”,

fantoches, guarda-roupa e

adereços utilizados em

filmes como “As Aventuras

de Pee-wee”, “Eduardo

Mãos de Tesoura”,

“Batman”, “Ed Wood” e

“Charlie e a Fábrica de

chocolate”.

A exposição retrospectiva

abre dia 22, chama-se “Tim

Burton” e promete cobrir a

totalidade da carreira de

realizador, produtor,

argumentista, fotógrafo,

ilustrador, escritor e artista

conceptual nascido na

Califórnia em 1958. Também

desenhos de criança,

projectos feitos para a escola

durante a adolescência ou já

no California Institute of the

Arts e fotografia e filmes

“não-profissionais”.

“Os temas da oposição da

adolescência e idade adulta

e todos os elementos do

sentimento, cinismo e

humor que informam o seu

trabalho nos mais variados

meios” vão estar em

exibição garante o MoMa.

“Buscando inspiração nas

ALBERTO PIZZOLI

mais variadas fontes da

cultura pop, Tim Burton

reinventou o género de

Hollywood como

experiência espiritual,

influenciando uma geração

de jovens artistas que

trabalham no cinema, video

e artes visuais”, lembra o

comissário da exposição,

Ron Magliozzi, que

trabalhou com Jenny He

nesta retrospectiva. Ali está

o conteúdo dos arquivos de

Burton, transformado e

seleccionado em mais de

500 imagens e esculturas em

todo o tipo de suportes e

materiais – dos guardanapos

às polaróides.

Ver alguns desses trabalhos

é, para Burton, reencontrarse

com a sua vida. “Algumas

vezes, essas coisas parecem

ser apenas estranhas mas

não tenho um diário.

Lembram-me de um certo

sentimento. Tornam-se

cápsulas do tempo”. Há

esboços do que viriam a ser

personagens ou adereços de

“Batman” e da Sally de “O

Estranho Mundo de Jack”,

há quadros que são quase

auto-retratos de momentos

de nostalgia e luto, há os

casacos compridos e listas

por todo o lado – gosta de

riscas, de peúgas às listas,

que um dia o fizeram sentirse

ligado ao planeta outra

vez depois de um súbito...

desprendimento.

A exposição chama-se “Tim

Burton”. Ver-se em nome

próprio “é excitante e

surreal e tudo o que daí

advém”, disse ao “New York

Times”. “Vai ser uma

experiência extracorporal”,

como ver-se a si mesmo após

uma perda de consciência.

A nova aventura burtoniana,

uma alucinogénica versão

da “Alice no País das

Maravilhas” de Lewis

Carroll, com os inevitáveis

Johnny Depp e Helena

Bonham-Carter, tem estreia

marcada para Março de

2010. Para nos entretermos

até lá, podemos sempre

brincar com um dos seus

alter-egos, o “Stain Boy”, no

“site” oficial do realizador

www.timburton.com.

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 3


Flash

Prémio

Os Buraka Som

Sistema ganharam

a edição 2010

do European

Border Breakers

Awards pelo

álbum “Black

Diamond” – prémio da

Comissão Europeia

a artistas ou grupos

emergentes pelo seu

êxito em conquistar

públicos fora do país de

origem

A capa de “Liebe Ist Für Alle Da” não pode ser mostrada nas lojas da Alemanha

O argumentista de BD vai

escrever o libreto para Albarn

e Jamie Hewlett

Damon Albarn

“contrata” Alan

Moore: nova ópera a

caminho

Alan Moore, o aclamado

argumentista de BD, autor de “V For

Vendetta” ou “Watchmen”, será o

autor do libreto da próxima ópera

de Damon Albarn e Jamie Hewlett. A

notícia é esta e isto é para já tudo o

que sabe. Mas é suficiente para nos

deixar, no mínimo, curiosos, e no

máximo, entusiasmadíssimos, com

aquilo que será o sucessor de

“Monkey: Journey To The West”,

que o ecléctico Albarn estreou na

Ópera de Manchester em Julho de

2007.

Alan Moore contou à “Mustard

Magazine”, citada pelo “Guardian”,

ter sido visitado há uma semana

pelo par responsável pelos Gorillaz.

Eles propuseram-lhe o libreto, ele

aceitou e fez uma contra-proposta.

Não sabemos o que sairá da

imaginação do homem que

inventou heróis anarquistas numa

Londres ditatorial, que pôs

personagens da literatura vitoriana

a agir como um gangue de

cavalheiros, deste homem que deu

vida sexual à Alice (do país das

maravilhas) e, nos anos 1980, nova

vida aos “comics” americanos.

Sabemos, contudo, que Albarn e

Hewlett saíram do encontro com

um desafio em mãos.

Actualmente, a ocupação principal

de Alan Moore é a “Dodgem Logic”,

publicação bimestral que pretende

recuperar “o espírito dos jornais

‘underground’ dos 1960s”. “Sendo

um oportunista, perguntei-lhes se

estariam preparados para

contribuir com algumas páginas

para a ‘Dodgem Logic’”, confessou

Moore. “Em vez de fazer

simplesmente uma entrevista,

pensei que seria interessante darlhes

algumas páginas para editar.”

Dois em um, portanto. Moore

colabora com Albarn, Albarn é

requisitado por Moore.

Jarvis Cocker, ioga

e hula hoop

Jarvis Cocker, o “showman”, o

excêntrico, o DJ, o vocalista dos

Pulp, acha que músicos e indústria

ainda vivem obcecados com os

álbuns, mas que, agora que a

indústria vive em crise profunda e

que ninguém os compra, é tempo

de repensar a actuação do músico

enquanto artista. Reflectida a teoria,

passou à acção. No início desta

semana, entre segunda e quartafeira,

instalou-se na Village

Underground, uma galeria na zona

leste de Londres, em Shoreditch, e

montou um prolongado

“happening”.

Tocou em palco e abriu-o aos

músicos que quisessem

acompanhar a sua banda, seguiu

aulas de ioga e de hula-hoop, um

“workshop” de dança de varão e de

burlesco. “Queria descobrir outra

forma de apresentar música, em vez

de simplesmente montar um

concerto”, explicou ao “Guardian”.

Em Maio deste ano, concretizou

pela primeira vez a ideia em Paris,

onde reside. Convidou residentes e

crianças de escolas locais e

organizou um espectáculo

multidisciplinar numa galeria de

arte – acabaram a tocar na rua para

uma multidão. Agora, em Londres,

durante três dias, repetiu a

experiência, devidamente

aumentada. “Queria fugir à ideia

que a cultura é algo que se

consome; podemos fazê-la por nós

mesmos”, justificou.

Todo o “happening” foi transmitido

Jarvis Cocker anda à procura de outras formas de apresentar

música, em vez de simplesmente montar um concerto

ao vivo na net, onde podíamos ver

uma banda a improvisar música

pouco zen para acompanhar as

muito zen sessões de ioga – e, de

tempos a tempos, lá se via Jarvis e

os óculos de Jarvis saltitando entre

os colchões espalhados pelo chão –,

onde se viu um violinista atraído

pela nova experiência tocar com o

homem dos Pulp uma longuíssima

versão de “Another Brick On The

Wall” – apropriado, dado que, no

fundo do palco, erguia-se um

“graffiti” comemorativo dos 20 anos

da queda do Muro do Berlim.

Jarvis está entusiasmado: “Talvez

que, à medida que o álbum se torna

menos importante, [o futuro] venha

a ser mais acerca da ‘performance’.

Se não vamos ser pagos, então a

única razão pela qual o continuas a

fazer é a compulsão”.

Álbum dos

Rammstein banido

na Alemanha

Vinte anos depois da queda do

Muro de Berlim, a Alemanha ainda

convive com a censura. Isso é o que

dirão os Rammstein, a banda de

metal que é campeã de vendas na

Europa. “Liebe Ist Für Alle Da” [“O

Amor É Para Todos”], o seu último

álbum, apresentado esta segundafeira

no Pavilhão Atlântico, viu a sua

exibição em lojas alemãs proibida

pelo Bundesprüfstelle für

jugendgefährdende Medien [BPjM;

Departamento Federal de Exame de

Media Nocivos à Juventude]. De

acordo com a deliberação, desde o

dia 11 que o álbum só pode ser

vendido mediante pedido ao

balcão, estando o comprador

obrigado a comprovar a sua

maioridade. A medida é justificada

pela capa de “Liebe Ist Für Alle Da”,

onde a banda é fotografada a

banquetear-se com a carne de uma

mulher nua (a edição “deluxe”

inclui reproduções, em latex rosa,

dos pénis dos membros da banda) e

pelo conteúdo das letras, violentas,

sádicas e sexualmente explícitas. A

proibição estende-se ainda aos

concertos, nos quais os Rammstein

estão agora proibidos de interpretar

“Ich tu dir weh” [“Quero te”], incluída no alinhamento do

concerto no Atlântico.

Qualquer material alvo de

queixa oficial,

encaminhada para o

BPjM por parte de

um cidadão

magoar-

alemão, é

examinado

por um

comité de

doze

membros.

Oito deles

agrupam

representantes

de

grupos religiosos, da comunidade

artística e da indústria do

entretenimento, bem como

professores e assistentes sociais. A

estes, juntam-se três representantes

dos estados federais e a presidente

do BPjM. Numa altura em que os

grandes êxitos do cinema de terror

têm apostado no sangue e nas

tripas, um filme veio provar que

bastam uma câmara dedeo, dois

actores, um dispositivo engenhoso

e tuta e meia para assustar. O novo

fenómeno de Hollywood chama-se

“Paranormal Activity” — 97 milhões

de dólares (65 milhões de euros) de

bilheteira contra dez mil dólares

(pouco mais de 6.500 euros) de

orçamento — e já há quem fale da

primeira longa-metragem do

israelo-americano Oren Peli como o

novo “Projecto Blair Witch”, por ser

um filme de terror “amador” que se

tornou num sucesso à revelia da

lógica da indústria.

Tenham

medo... outra

vez, com

“Paranormal

Activity”

“Paranormal Activity” foi

rodado em 2007, em uma

semana, na própria casa de San

Diego onde Oren Peli ainda

mora, com dois actores (Micah

Sloat e Katie Featherston)

interpretando um casal que

decide perceber se a casa está

realmente assombrada por

presenças do outro mundo. Ela

diz que sim, ele, céptico, resolve

instalar uma câmara de

vigilância – e o dispositivo do

filme são as imagens obtidas

pela câmara de vigilância

enquanto o casal dorme,

sugerindo mais do que

mostrando e quase sem

efeitos especiais.

O filme custou apenas dez mil

dólares (fora as obras

em casa que Peli e a

namorada da

altura

tiveram

de fazer...) e a Dreamworks de

Spielberg, convencida que, tal

como estava, “Paranormal

Activity” era demasiado

“pobrezinho” para estreia em

sala, comprou os direitos com

vista a um “remake”.

Entretanto, a separação da

Dreamworks da Paramount,

que distribuia os seus filmes,

deixou o projecto na prateleira

da Paramount – e, uma vez

resolvido o “divórcio”, o estúdio

pensou duas vezes: para que é

que vamos fazer um “remake”

quando o original é tão bom?

Daí que a “major” tenha

decidido correr um risco:

estreou “Paranormal Activity”

em meia dúzia de cidades e só

em sessões da meia-noite,

lançando ao mesmo tempo uma

campanha na Internet

destinada a motivar os

interessados a trazer a fita à sua

cidade, com o “slogan” “não

veja este filme sozinho”.

A invulgar campanha de

“marketing funcionou”: ao fim

de algumas semanas em que

“Paranormal Activity” esteve

autenticamente em “tournée”

pelos EUA acompanhado por

um entusiasmo crescente do

público e pelo “buzz” criado na

net, e com as sessões da meianoite

esgotadas onde quer que o

filme fosse mostrado, a

Paramount começou a colocá-lo

em exibição regular em meados

de Outubro. Até domingo

último, o filme já fizera 97

milhões de dólares de bilheteira

nos EUA – quatro vezes mais

que concorrentes directos como

“Saw VI”, e mais do que fitas

“mainstream” como “Os

Substitutos”...

O efeito surpresa não vai poder

ser reproduzido na Europa,

onde o filme começa agora a

estrear — em Inglaterra esta

semana, a aproveitar a data de

sexta-feira 13, em Portugal já a 3

de Dezembro. Mas nada disso

lhe retira o estatuto de filme

sensação de 2009 – e sem

precisar do sangue e

das tripas que se

tornaram sinónimos

do cinema de terror

contemporâneo.

O realizador e os actores de “Paranormal Activity”

4 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


AGENDA CULTURAL FNAC

entrada livre

APRESENTAÇÃO AO VIVO LANÇAMENTO EXPOSIÇÃO

AO VIVO

JACINTA

Songs of Freedom

Jacinta está de regresso à prestigiada editora Blue Note com um novo disco, onde interpreta grandes

clássicos do pop e do jazz das décadas de 60, 70 e 80.

14.11. 22H00 FNAC GAIASHOPPING

15.11. 17H30 FNAC BRAGA

27.11. 22H30 FNAC GUIMARÃESHOPPING

AO VIVO

GEORGE COLLIGAN

Come Together — Guimarães Jazz ‘09

George Colligan tem um estilo muito eclético e aberto, desenvolve uma música que vai desde a livre

improvisação, ao funk, ao jazz e à música contemporânea.

19.11. 17H00 FNAC GUIMARÃESHOPPING

APRESENTAÇÃO

O MAR EM CASABLANCA

Livro de Francisco José Viegas

O Mar em Casablanca devolve-nos a personagem principal dos anteriores romances de Francisco José

Viegas, o inspector Jaime Ramos, da Polícia Judiciária do Porto.

18.11. 15H30 FNAC GUIMARÃESHOPPING

APRESENTAÇÃO

ANAGRAMAS DE VARSÓVIA

Livro de Richard Zimler

Richard Zimler vem à Fnac apresentar o seu novo romance policial arrepiante e soberbamente escrito,

passado no gueto judaico de Varsóvia.

19.11. 22H00 FNAC GUIMARÃESHOPPING

EXPOSIÇÃO

NOCTURNOS

Desenhos da trilogia As Aventuras de Filipe Seems

de Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves

O universo de Filipe Seems, um detective muito particular que é na realidade um programador de histórias,

centra-se no espaço da Cidade – uma Lisboa futura que cruza épocas e referências literárias.

01.11. - 01.12.2009 FNAC CHIADO

Consulte a agenda cultural Fnac em http://cultura.fnac.pt/Agenda

Apoio:


DOUG COMBE

Crooner branco,


, coração negro

Será um copo de leite? Um negro de cabeleira loira?

Um génio? Uma fraude? Um engatatão sabido? Um

pobre totó? É Mayer Hawthorne, o branco mais preto

de 2009, o novo rei do charme. João Bonifácio

Capa

Uma vez por ano um tipo de quem

nunca ninguém tinha ouvido falar

resolve sair da toca, mostra as coisinhas

que andou a fazer enquanto era

um simpático anónimo e de repente

o nome dele está na boca de toda a

gente.

Nove em dez vezes é fogo de vista.

Uma em dez vezes vale a pena.

Mayer Hawthorne, americano de

Detroit cujo disco de estreia, “A Strange

Arrangement”, nos viciou os ouvidos,

é esse um em dez – ou por outra,

é quase um dez em dez: o tipo que

vindo do nada faz um disco quase

perfeito.

Feito de cima a baixo de soul tão

clássica que podia muito bem ter sido

editado nos anos 60, “A Strange Arrangement”

respira saber, classe e

pose. Tendo como tema o mais importante

assunto (i.e., as mais variadas

possibilidades de empernanço

com o belo sexo), é daqueles discos

em que tudo bate tão certo que pensamos

que ou o homem é iluminado

ou é um esperto que teve sorte.

A recista “Esquire” não hesitou em

nomear Hawthorne “a melhor nova

voz soul do ano”, o que assim de repente

faz pensar numa Amy Winehouse

de calças. (Imagem errada.)

O “Village Voice” diz que Mayer Hawthorne

e as suas canções têm “um

charme inegável”.

Os franceses dizem que é “la nouvelle

perle de la soul américaine”.

E como a pele é a pele e a América

é a América, não faltou a questão da

raça. Na “Dusted” escreveu-se, como

se estivéssemos em 1966, que “todo

o cantor soul de olhos azuis (...) se

questiona se é um imitador de outros

tempos e da cultura de outras pessoas”.

Porque Hawthorne, pormenor (ir)

relevante, é branco.

Além de branco é o único tipo que

não percebe o seu rápido sucesso. Em

conversa com o Ípsilon, dizia, em tom

aparentemente honesto: “Ainda não

percebi como é que tudo isto aconteceu”.

Mais: não só confessou que “só

há um ano [começou] a perceber

quem era Mayer Hawtorne” como diz

que “nunca [imaginou] vir a ser Mayer

Hawthorne”.

Isto ou é uma perturbante demonstração

de problemas identitários ou

é truque pop dos bons. Ou então, se

quisermos a versão filme-de-domingo,

é a simples e comovente história

de um rapazinho branco que desconhecia

o potencial que tinha mas tinha

um sonho e um dia conseguiu.

“Queria criar um

disco intemporal

e clássico, mas

ao mesmo tempo

novo. Não queria

criar um disco retro.

Isto é música nova

para uma nova

geração. Quero que

os putos sintam que

esta é música deles

e não música

dos pais”

Tudo pelas garotas

A primeira vez que vimos o nome de

Mayer Hawthorne foi na página oficial

da editora Stones Throw, num anúncio

ao seu primeiro single, cujo vídeo

a editora disponibilizava: a canção era

um assombro de soul clássica desviada

para pop, cheia de ganchos e refrão

em falsete. O vídeo, esse, era uma

delícia: todo a preto e branco, apresentava

um tipo (Hawthorne) entre o

totó e o bonito, vestido de fato e gravata,

a rejeitar mulheres em série (um

prodígio de “casting” este vídeo) enquanto

lhes oferecia corações, únicos

objectos no vídeo que estavam a cor

(no caso, vermelha). Na realidade, os

corações são cópias do single (que

tem o formato de um coração).

Havia ali o humor auto-depreciativo

de um Jarvis Cocker, a medida

exacta de nostalgia, algo de Woody

Allen, se Allen tivesse trinta anos e

não fosse judeu. É como se Hawthorne

fosse o oposto de Michael Jackson:

o tipo que nasceu branco e queria ser

preto e que em vez de ser um génio

prematuro violentado é um magnífico

artesão tardio com ar de quem

mamou até tarde.

Pensámos: num mundo justo este

caixa de óculos copinho de leite devia

receber uma estátua.

Aparentemente a única pessoa que

ao ouvir as canções de Hawthorne

nunca imaginou que tudo isto pudesse

acontecer é Andrew Cohen, um

moço esguio, com óculos de massa e

cara de totó bonitinho – Cohen é o

tipo que em disco e em palco dá pelo

nome Mayer Hawthorne. Apanhámolo

ao telefone há dias, estava ele “a

passear por Paris antes de apanhar o

comboio para mais um concerto”.

Neste momento Hawthorne tem

pela frente “30 dias de concertos consecutivos

na Europa”. Acabou de “tocar

em 30 cidades nos EUA” e depois

da Europa vai “voltar aos EUA para

uma festa de Ano Novo em Las Vegas”,

o que, segundo ele, “é perfeito”.

E depois ainda vai para a Austrália.

Para nosso espanto, uma das primeiras

coisas que diz é que “quando

tudo isto começou a acontecer [ele]

estava concentrado no hip-hop”. E

como quem está a falar alto consigo

mesmo, atira: “Depois as coisas explodiram

– coisa que ninguém conseguiu

antecipar”.

Na realidade, não é bem assim:

houve quem antecipasse o que podia

acontecer. Alex Robinson, da Stones

Throw, conta ao Ípsilon que na editora

“se percebeu imediatamente” que

Hawthorne tinha algo de especial,

porque “a Stones Throw tem um público

muito masculino” e “Just ain’t

gonna work out”, coisa inédita, “chamou

muito mais a atenção das raparigas”.

Conta Alex: “Ele é o primeiro

artista que temos de que mais raparigas

gostam que rapazes”.

E como não haviam de gostar? Tal

como “Just ain’t gonna work out”, o

resto do disco é um festival de cordas

luxuosas, metais insinuantes, linhas

de baixo para pôr a anca a jeito, melodias

melosas, tudo que Deus botou

de negro no mundo para fazer palpitar

o coração e deixar o corpo experimentar

complexas leis da física,

assim permitindo a gloriosa propagação

da espécie.

Aliás, o disco tem um só tema: as

mulheres.

Em duas palavras, Alex explica

A recista

“Esquire”

nomeou

Hawthorne “a

melhor nova

voz soul do

ano”; o

“Village

Voice” diz que

Mayer e as

suas canções

têm “um

charme

inegável”;

para os

franceses é “la

nouvelle perle

de la soul

américaine”

As maiores

de Mayer

Ultimamente anda

“obcecado” a ouvir o

catálogo Motown.

Para tentar perceber o gosto de

Mayer Hawthorne e o seu grau

de totozice (leia-se: verdadeiro

conhecimento de singles de que nem o

menino Jesus se lembra) pedimos-lhe

ao telefone um Top 100 da música

de todos os tempos. Hawthorne,

mal agradecido, reclamou que

tinha um comboio para apanhar

e fez uma contra-proposta. Após

duríssimas negociações, acordámos:

Hawthorne dava-nos o seu Top 5

da Motown, desde que deixássemos

claro que escolhia a Motown porque

“ultimamento [anda] obcecado a

ouvir o catálogo da Motown” e que

“amanhã o Top podia ser outro”.

Vista a lista, conclui-se que Mayer é

de grandes canções clássicas que

não foram singles, portanto fã de

escrita fina e arranjos sumptuosos,

mas que mesmo quando pertencem a

nomes fortes não são propriamente

canções óbvias – algumas delas

eram, até há pouco, bem difíceis

de arranjar. Portanto: mais que

aprovado.

Barbara

Randolph,

“You got me

hurtin’ all

over”

Só para

conhecedores:

obscuríssima

canção, escrita pelo grande

Hal Davis e cantado por uma

das mais esquecidas vozes da Motown.

A linha de baixo é uma serpente

de seduções, o órgão e o piano

afundam-se em tristeza antes

de a voz, as cordas e os metais

explodirem com a pura força do mais

inabalável... amor (?).

The Marvelettes,

“As long as I know

he’s mine”

Outra obscura

jóia, desta feita

um doo-wop em

regime girl-group,

com um estrondoso o

uso dos metais,

além dos proverbiais

coros e palmas.

A linha de piano,

muito R&B, é

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 7


DOUG COMBE

as razões do êxito de Hawthorne:

“É muito atraente e sabe mesmo escrever

canções clássicas”.

Quem é ele?

Mayer Hawthorne/Andrew Cohen tem

as suas razões para nunca ter esperado

conseguir um êxito pop com canções

soul à antiga.

É verdade que cresceu nos arrebaldes

de Detroit, e viveu lá “a maior

parte da vida”, pelo que no que toca

a música teve sorte: não só Detroit “é

uma cidade com uma grande história

na soul”, como ainda por cima o pai

“era um grande músico” – acrescenta:

“Não era como eu”.

O seu primeiro instrumento “foi o

baixo, que era o instrumento do

[meu] pai”. O branco mais preto deste

ano ainda hoje usa o baixo para

compor. Às vezes também usa o piano,

por razões práticas mas também

sentimentais: “A minha mãe também

adorava música e pagou-me aulas de

piano, mas eu era demasiado novo e

resolvi desistir. Agora estou um bocado

arrependido”

Com um pai baixista e uma mãe

melómana, nascido em Detroit, podia

pensar-se que o branquela Cohen tinha

crescido a ouvir pérolas obscuras

do jazz e da soul. “E ouvi”, corrobora,

antes de voltar a surpreender-nos.

“Mas também cresci a ouvir outras

coisas”. O quê? “Bem, passei uma fase

em que ouvia metal – quem me

ouve hoje não acredita. Adorava os

Police. E houve uma altura em que

gostava muito de Smashing Pumpkins”.

No entanto, desde a adolescência

que o grande amor de Cohen é outro:

“A maior parte da minha vida foi passada

à volta do hip-hop”. De facto, até

há bem pouco tempo ganhava a vida

como DJ e produzia malta do hiphop.

Há quatro anos mudou-se para Los

Angeles com a “ideia de tentar viver

a sério do hip-hop”. Numa festa conheceu

Peanut Butter Wolf [PBW]

chefe da Stones Throw. Ficaram à conversa

e combinaram que Cohen lhe

mandaria a música que fazia. No meio

das cassetes (Cohen tem um lado nostálgico)

havia um par de canções que

intrigaram PBW.

“Ele ligou-me de volta a perguntar:

‘Que canções eram aquelas?’. Eu não

percebi o que ele estava a dizer. ‘Quais

espantosa. O single original, de

1963, pode valer, nos leilões da net

centenas de libras. Quem escreveu?

Ora, Smokey Robinson, claro.

Smokey Robinson, “Once I got to

know you”

Daquelas faixas

que só hoje,

graças às Amzons

e tais, foram

recuperadas.

É uma

lindíssima balada em sobe e desce,

com aquele falsete de Smokey (e coro

em chamada-resposta) a planar

sobre as guitarras, as percussões, a

pandeireta, as cordas. A coda final,

com

o ritmo a aumentar e a tensão

acumulada, é simplesmente genial. A

suprema canção de charme.

Four Tops, “I got a feeling”

Da autoria de uma das maiores

parelhas de escrita de sempre,

Holland-Dozier-Holland. Os Four

Tops lançaram-na inicialmente como

lado B de “Bernardette”, mas é

claramente um lado A, um R&B

movido

a piano,

muito pop

e grandioso, o,

com um beat

quase Phil

Spector, quase

hino de estádio, e

com um delicioso

solo de sax final.

Das centenas nas

de versões,

uma merece

destaque: a

de Arthur

Conley, génio

descoberto

por Otis

Reding (e

esquecido

aquando da

sua morte),

que nunca

fez um disco

equilibrado

mas deixou duas vintenas de

extraordinárias interpretações.

Tammi Terrell, “All I do is think

about you” Terrell ficou

conhecida pelos seus duetos com

Marvin Gaye e teve o azar de

8 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


Mais pérolas

da Stones Throw

Próximas apostas de uma editora, guiados por quem

nela decide. Preparemo-nos para Dâm-Funk, James Pants

e Strong Arm Steady. João Bonifácio

“Ele é o primeiro

artista que temos

de que mais

raparigas gostam que

rapazes” Alex

Robinson, editora

Stones Throw

canções?’.‘Aqueles clássicos soul’.

Quer dizer, ele pensava que as minhas

canções soul não eram minhas, pensava

que eram canções perdidas de

algum tipo desconhecido que eu tinha

descoberto algures, ou remisturado

ou assim... Ele não queria acreditar

quando lhe disse que eram mesmo

minhas”.

Entre essas duas canções estava

“Just ain’t gonna work out”, que, diznos

Alex Robinson, “foi a primeira

canção soul que Mayer escreveu. Impressionante,

não é?”.

Impressionante, sim. Mas Peanut

Butter Wolf, por mais impressionado

que tenha ficado com o que ouviu,

continuava a não acreditar que Cohen

tivesse mesmo feito aquelas canções.

“A segunda vez que o encontrei ele

ainda acreditou menos. Demorei um

bocado a convencê-lo que eram mesmo

minhas”, ri-se Maywer...

Quando Peanut Butter Wolf finalmente

acreditou, exigiu ao autor das

canções que “fizesse um disco soulqualquer-coisa”

– algo em que Cohen

“nunca tinha pensado na vida”. Por

uma razão: “Eu fazia os meus próprios

clássicos soul só por diversão.

Era só para tocar com os amigos e

para mostrar à família. Mas era uma

brincadeira – nunca tive esperança

que alguém as levasse a sério”.

o material a solo que lhe ofereceram

nunca ter sido tão bom quanto o

dos duetos. E mesmo quando era,

a História não quis nada com ela:

“All I do is think about you” é uma

das canções mais bem escritas de

sempre, de uma subtileza infinda,

com o grande truque da principal

melodia ser feita pelo coro e ter aquela

batida marcada. A descida da voz no

refrão é magnífica – e porque é que

isto não foi single, ninguém sabe –,

mas está ao nível do melhor de Peggy

Lee. Os compositores foram Morris

Broadnax, Clarence Paul e um tal

miúdo chamado Stevie Wonder.

Um “connaisseur”

Tinha a seu favor desvantagens e vantagens.

Por um lado não é senhor de

tremenda voz, ao contrário dos homens

que admira, como Smokey Robinson

ou Curtis Mayfield. Por outro,

não tem vergonha nenhuma em afirmar-se

um “connaisseur” da soul: “Na

soul consigo distinguir tudo numa

canção: quem escreveu, quem arranjou,

quem canta, que instrumento faz

o quê”. Diz que é “um estudante sério

da soul”: “Ouço muito e com muita

atenção”.

O problema que, portanto, se punha

ao anti-Michael Jackson era só

um: “Quem era o Mayer Hawtorne?”.

“Tive de perceber muito rapidamente

quem era o Mayer Hawthorne. De

construir depressa a personagem”.

Faz questão de dizer que Hawtorne é

apenas “uma parte” de si, o seu “lado

de mulherengo cavalheiro”, mas que

pretende fazer outras coisas musicalmente.

Mayer Hawthorne é uma personagem

bem montada, mas Cohen ressalva

que “não houve um grande exagero

de construção de personagem”.

As roupas, por exemplo, não sofreram

grande mudança: “Sempre me

vesti bem, sempre usei gravatas mesmo

quando era DJ de hip-hop”. Faz

uma pausa e atira: “Bem, sempre fui

um pouco estranho”.

O disco foi todo escrito por si (à excepção

de uma versão), sem ajudas

da editora. Os músicos são seus amigos.

No entanto, houve um óbvio cuidado

na forma como a imagem foi

sendo publicitada, algo entre o “geek”

trapalhão e o “loverman” vivido.

Exemplo disso era a sua “coluna” na

página da “Stones Throw”, em que

respondia aos problemas dos fãs, como

uma espécie de Dra Ruth no masculino.

(Era hilariante.)

Última grande declaração de Andrew

Cohen, Mayer Hawthorne para

o mundo: “Queria criar um disco intemporal

e clássico, mas ao mesmo

tempo novo. Não queria criar um disco

retro. Isto é música nova para uma

nova geração. Quero que os putos

sintam que esta é música deles e não

música dos pais”.

Façamos-lhe a vontade: façam

favor de sentir que esta é a vossa

música, não a dos vossos pais.

Entretanto, fiquem a saber:

Snoop Dog acabou (há dias) de

pedir uns beats a Hawthorne.

E isto, logo a seguir a Giselle Bünchen,

é o topo do topo.

Ver crítica de disco págs. 44 e segs

(Após a entrevista notámos que outras

publicações pediram a Hawthorne o

seu Top 5 Motown. Nesses tops, alguns

autores ou intérpretes costumam

repetir-se, e entre elas estão sempre as

extraordinárias Martha Reeves & The

Vandellas. Certamente por distracção

nas suas escolhas ao Ípsilon a melhor

voz negra que não é negra deste ano

esqueceu-se de Reeves. Para que não

se cometa injustiça, aproveitamos

e escolhemos nós uma canção dela:

“Show me the way”, improvável soulfunk

com batida acelerada e genial solo

de saxofone. Certamente uma das cinco

melhores de sempre.)

Dâm-Funk:

chamam-lhe o

embaixador

do boogiefunk

em L.A.

MATTHEW SCOTT

A Stones Throw é muito mais

que Mayer Hawthorne. Aliás,

para a maior parte dos seus fãs,

é uma editora de hip-hop, mas,

como diz Alex Robinson, “somos

mais que uma editora de hiphop”.

Robinson falou ao Ípsilon das

suas próximas apostas. Vamonos

preparar para novos discos

de Mr Chop, Guilty Simpson,

Aloe Blacc, um tipo que soa a

Bobby Womack. Mas acima

de tudo destaque para Dâm-

Funk, James Pants e Strong

Arm Steady. Sinopse de Alex

Robinson e breve descrição

musical nossa.

Dâm-Funk – Chamam-lhe o

embaixador do boogie-funk em

L.A. Tem dezenas de mixtapes

em que reconstrói pérolas

obscuras e as mistura com as

suas próprias faixas, tornando

a sua discografia caótica. É

uma figura mistério, “um tipo

que funciona apenas na

sua frequência”, como

nos diz Alex Robinson.

“Nunca se importa com

o que os outros

fazem ou

fizeram”. Alex diz ainda

que Dâm-Funk

“tem um

som único e é muito

ambicioso”,

o que se

confirma ouvindo

“Toeachizown”,

disco quíntuplo,

e primeiro disco

oficial em seu nome

(ver crítica nesta

edição). “Há anos que

Dâm-Funk toca e faz

música”, conta Alex,

levantando o véu

sobre a

misteriosa

figura: “Também

toca teclas em

discos soul, e

tocou bateria

na Igreja.

É um DJ

extraordinário

com um

enorme instinto.

Sendo epítome do

cool, nunca tenta

impressionar. É um

‘connaisseur’, tem

uma colecção enorme

de equipamento

analógico vintage para

conseguir o som que

quer”. Dica pop: aos dois

minutos e picos do vídeo de “Just

ain’t gonna work out”, de Mayer

Hawthorne, o black de óculos

escuros que fica com a garota é

Dâm-Funk.

James Pants – Até agora passeou

pelos caminhos do funk, do R&B

e do hip-hop. “Para nós”, diz

Alex, “ele representa a constante

procura. Gosta de pop quicky.

Podia fazer ‘stand-up comedy’

e é um ‘one-man band’”. Pants

tem dois projectos para sair

nos próximos tempos. Já em

Dezembro sai “Seven Seeds”,

mais psicadélico, muito anos

MATTHEW SCOTT

60 e 70, um pouco escuro, com

influências dos pioneiros das

electrónicas”. Para o ano tem

outro disco, ainda sem título, que

ele diz ser o seu disco tropical,

mais dançável, com vários

vocalistas”. “Seven Seeds” é

disco a que se deve prestar

muita atenção: é como se os Joy

Division tivessem descoberto o

italo-disco, ou como se os Silver

Apples convidassem David

Tibet (vocalista dos Current 93)

e o resultado fosse remisturados

pelos cLOUDDEAD

Strong Arm Steady – É um

colectivo de hip-hop de L.A.:

Mitchy Slick, Phil Da Agony

e o albino Krondon. Como

é norma no hip-hop actual,

antes de lançarem um disco

oficial os Strong Arm Steady

fizeram dezenas de mixtapes

que começaram a ganhar

crédito nos meios underground.

Estrearam-se há dois anos com

“Deep Hearted”, e em 2009

voltam com “Stoney Jackson”.

“Este disco”, conta Alex “é muito

raro, porque é uma colaboração:

todas as faixas são produzidas

pelo Madlib. É um disco de rap

como já não se faz, com algo

de old-school, mas não é um

disco retro”. Recomendamo-lo

até à morte: beats magníficos,

grandes rapalhadas e desde

já uma das faixas do ano,

“Cheeba Cheeba”, com cordas

sumptuosas, num cruzamento

entre as ruas e bandas-sonoras

de maus filmes de domingo.

(Mas há mais: flautas, pianadas,

rap da pesada, sons da

blaxpotation, vozes femininas

em registo Lolita, um mundo.)

James Pants:

gosta de “pop

quicky”, podia

fazer “standup

comedy”, é

um “one-man

band”;

atenção a

“Seven Seeds”

Strong Arm

Steady:

regressam em

2009 com

“Stoney

Jackson”,

cruzamento

entre as ruas e

bandassonoras

de

maus filmes

de domingo

JAKE GREEN

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 9


As várias core

Todas as músicas são negras, brancas, de todas as cores. Mas só as personagens de

dimensão. Nelas não é possível dizer onde acaba a música negra e começa

eQuanto

mais futurista

o som, mais

dispersas as

referências: o

admirável

“Nuclear

Evolution: The

Age Of Love”,

Sa-Ra

Jack Splash

dos PlantLife

Quase todas as expressões

utilizadas para definir e enquadrar

tipologias musicais pecam por

imperfeição. São o que são. Não

são categorias fechadas e inteiras.

Constituem meros indicadores

que nos ajudam a situar.

Por facilidade quando se diz

“música negra” pensa-se, entre

outras categorias, em soul,

funk, R&B ou hip-hop. Mas se

quiséssemos complexificar

as hipóteses seriam infinitas.

O rock & roll deriva do R&B

praticado por músicos negros.

A folk popularizada por Bob

Dylan foi inspirada nos acordes

dos músicos negros do Delta

do Missisipi. O kuduro recebeu

influência do tecno, ocasionado

por músicos negros, mas

popularizado por brancos

europeus. E por aí fora. Não

existem músicas puras, categorias

estanques. Todas as músicas

são negras, brancas, de todas as

cores. Mas há, evidentemente, um

imaginário, narrativas, formas

de entendimento que ligamos

mais a esta ou àquela expressão.

Por norma são as personagens

de fronteira, irregulares, que nos

ajudam a perceber essa dimensão.

A sua simples existência faz-nos

questionar os estereótipos.

Híbridos

André 3000 dos OutKast, Jack

Splash dos PlantLife, Kanye West,

Pharrell Williams, Steve Spacek

ou Kid Cuti são apenas alguns

Todas as músicas

são negras, brancas, as,

de todas as cores.

São as personagens ns

de fronteira

que nos ajudam

a perceber essa

dimensão. A sua

simples existência

faz-nos questionar

os estereótipos

exemplos. Todos criadores de

uma linguagem híbrida que deve

tanto aos clássicos da chamada

música negra como de alguma

denominada música branca. Parte

da sedução que projectam advém

daí. Algumas das resistências que

encontram pelo caminho também.

Nenhum deles reproduz os

códigos mais rígidos do hip-hop,

mas também não se colocam

inteiramente fora deles. São

ambivalentes. Há cinco anos

quando os OutKast lançaram

“Speakerboxxx/

The Love

Below”

a credibilidade artística do duo

atingiu o cume. Mas também

surgiram críticas das facções mais

militantes do hip-hop.

“Não creio que a comunidade

negra aprecie a mudança”, dizia na

altura, um muito irritado, André

3000. “Gostam apenas de conforto.

Deles estou sempre a ouvir dizer

‘estão a fazer esse tipo de som para

pessoas brancas?’ ou ‘o nigga deve

ser gay’ ou uma merda qualquer

dessas... Mas existe alguma regra

que diga que os artistas negros só

podem ouvir música

negra? Às vezes

parece que

sim.”

Mayer Hawthorne

fJamie Lidell

cresceu com a

música negra,

tal como se

reconhece

naquilo a que

associamos a

música

branca

10 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


es

fronteira, irregulares, ajudam-nos a perceber essa

a branca. Vítor Belanciano

Quando os Ou

tKast lança

ram “Speakerboxxx/The

Love Below”

a sua

credibilidade

atingiu

o cume. Mas

surgiram

críticas das

facções mais

militantes

do hip-hop

Hoje é possível

assumir essa dupla

prerrogativa [negra

e branca] sem

problemas. Por

norma é quando isso

acontece que se criam

novas desfigurações,

o mundo acelera,

e voltamos todos

a sorrir

Os OutKast, como os outros

nomes mencionados, invocam

referências diversas, do funk de

George Clinton à pop de guitarras

dos Smiths, do rock dos Ramones

à soul de Stevie Wonder, da

música de dança dos Daft Punk

ao rock adocicado dos Coldplay.

Não têm receio de expor emoções

ambíguas e uma fragilidade

que o hip-hop normalmente

não desenvolve. Dão primordial

importância à melodia e, neles,

não é possível dizer onde acaba a

música negra e começa a branca.

Nada têm a ver com os arquétipos

do hip-hop, sejam eles o do

“macho”, do “gansta” ou o do “cool”.

Ou por outra: têm mas não têm.

Apresentam, quase sempre, um

ângulo próprio, sedutoramente

esquisóidedesmesurado,

artificial, colorido. Neles o hip-hop,

a soul, o funk é apenas fantasia.

Futuristas

Essa aparente dispersão não

significa falta de consciência das

origens. Pelo contrário, quanto

mais futurista o som, mais essa

percepção parece estar presente,

como se constata ouvindo dois

dos álbuns que este ano mais

fizeram por alargar os horizontes

da música negra – os admiráveis

“Nuclear Evolution: The Age Of

Love” dos Sa-Ra Creative Partners,

e “Toeachizown” de Dâm-Funk.

Discos ancorados na memória

colectiva (Sun Ra, Funkadelic,

Parliament, Isaac Hayes, Larry

Heard, Kraftwerk, Prince),

partindo à aventura, rumo a um

funk espacial de poeira sintética.

A maior parte destes nomes

representam hoje a alternativa

mais consistente aos padrões mais

massificados do hip-hop, soul ou

funk. Quase todos emergiram no

seio da cultura hip-hop, mas a

sua perspectiva é ampla: já não a

encaram como lugar de afirmação

de identidade, mas como simples

espaço de especulação estética.

São, por isso, difíceis de encaixar:

assimilaram a cultura urbana

de rua, mas não se contentam

em reproduzir os seus efeitos

mais simplistas, introduzindolhe

outras variáveis. No fundo,

todos eles reflectem um mundo

globalizado, onde é cada vez

mais fácil ouvirmos as mesmas

músicas.

Ou seja, a música que marcou

a adolescência de Kanye West

não é muito diferente daquela

que Amy Winehouse, Duffy,

Jamie Lidell, Alice Russell, Mark

Ronson ou Mayer Hawthorne

ouviram na juventude. No “centro”

ou nas “margens” do mercado a

recuperação da soul e do funk está

em marcha há dois anos. Existe

uma aragem neo-funk a varrer a

música actual graças ao labor de

DJs como Keb Darge ou Snowboy,

ou a formações como Breakestra,

Poets Of Rhythm, The Bamboos,

Antibalas, Quantic Soul Orchestra,

Nostalgia 77, Nicole Willis & The

Soul Investigators ou Sharon

Jones & The Dap-Kings.

Todos eles acreditam que a

música funk dos anos 60 e 70

não precisa de ser desfigurada.

Necessita, isso sim, de ser

recriada com paixão e reavaliada,

mantendo aquelas que são as suas

características nucleares.

No centro de algumas destas

movimentações tem estado Mark

Ronson, que tanto produziu Amy

Winehouse e Lily Allen como

impulsionou Mayer e a veterana

Sharon Jones.

Quando ambos se encontraram

em estúdio ela pensou: “Que diabo

sabe este rapaz branco sobre

funk?” Quando acabaram a sessão

recorda-se de andar para fora do

estúdio, cansada, cambaleando,

pensando que aquele rapaz devia

ser uma reencarnação de “um

negro de 55 anos no corpo de

um jovem rapaz judeu, com uma

atitude funk eléctrica.”

Ronson como Jamie Lidell

identificam-se espontaneamente

com música negra, tendo crescido

com ela, tal como se reconhecem

naquilo a que associamos a ideia

de música branca. Hoje é possível

assumir essa dupla prerrogativa

sem problemas. Por norma é

quando isso acontece que se criam

novas desfigurações, o mundo

acelera, e voltamos todos a sorrir.

O pós-punk, por exemplo, não era

outra coisa: o encontro de músicos

brancos do rock com músicas e

formas de operar devedoras do

funk, do dub ou do jazz.

SÃO

LUIZ

DEZ~O9

3 DEZ

PEDRO

BARROSO

4O ANOS

DE MÚSICAS

E PALAVRAS

QUINTA ÀS 21H00

SALA PRINCIPAL M/3

SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL

RUA ANTÓNIO MARIA CARDOSO, 38; 1200-027 LISBOA

GERAL@TEATROSAOLUIZ.PT / T: 213 257 640

BILHETEIRA DAS 13H ÀS 20H

T: 213 257 650; BILHETEIRA@TEATROSAOLUIZ.PT

BILHETES À VENDA NA TICKETLINE E NOS LOCAIS HABITUAIS

WWW.TEATROSAOLUIZ.PT

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 11


es

fronteira, irregulares, ajudam-nos a perceber essa

a branca. Vítor Belanciano

Quando os Ou

tKast lança

ram “Speakerboxxx/The

Love Below”

a sua

credibilidade

atingiu

o cume. Mas

surgiram

críticas das

facções mais

militantes

do hip-hop

Hoje é possível

assumir essa dupla

prerrogativa [negra

e branca] sem

problemas. Por

norma é quando isso

acontece que se criam

novas desfigurações,

o mundo acelera,

e voltamos todos

a sorrir

Os OutKast, como os outros

nomes mencionados, invocam

referências diversas, do funk de

George Clinton à pop de guitarras

dos Smiths, do rock dos Ramones

à soul de Stevie Wonder, da

música de dança dos Daft Punk

ao rock adocicado dos Coldplay.

Não têm receio de expor emoções

ambíguas e uma fragilidade

que o hip-hop normalmente

não desenvolve. Dão primordial

importância à melodia e, neles,

não é possível dizer onde acaba a

música negra e começa a branca.

Nada têm a ver com os arquétipos

do hip-hop, sejam eles o do

“macho”, do “gansta” ou o do “cool”.

Ou por outra: têm mas não têm.

Apresentam, quase sempre, um

ângulo próprio, sedutoramente

esquisóidedesmesurado,

artificial, colorido. Neles o hip-hop,

a soul, o funk é apenas fantasia.

Futuristas

Essa aparente dispersão não

significa falta de consciência das

origens. Pelo contrário, quanto

mais futurista o som, mais essa

percepção parece estar presente,

como se constata ouvindo dois

dos álbuns que este ano mais

fizeram por alargar os horizontes

da música negra – os admiráveis

“Nuclear Evolution: The Age Of

Love” dos Sa-Ra Creative Partners,

e “Toeachizown” de Dâm-Funk.

Discos ancorados na memória

colectiva (Sun Ra, Funkadelic,

Parliament, Isaac Hayes, Larry

Heard, Kraftwerk, Prince),

partindo à aventura, rumo a um

funk espacial de poeira sintética.

A maior parte destes nomes

representam hoje a alternativa

mais consistente aos padrões mais

massificados do hip-hop, soul ou

funk. Quase todos emergiram no

seio da cultura hip-hop, mas a

sua perspectiva é ampla: já não a

encaram como lugar de afirmação

de identidade, mas como simples

espaço de especulação estética.

São, por isso, difíceis de encaixar:

assimilaram a cultura urbana

de rua, mas não se contentam

em reproduzir os seus efeitos

mais simplistas, introduzindolhe

outras variáveis. No fundo,

todos eles reflectem um mundo

globalizado, onde é cada vez

mais fácil ouvirmos as mesmas

músicas.

Ou seja, a música que marcou

a adolescência de Kanye West

não é muito diferente daquela

que Amy Winehouse, Duffy,

Jamie Lidell, Alice Russell, Mark

Ronson ou Mayer Hawthorne

ouviram na juventude. No “centro”

ou nas “margens” do mercado a

recuperação da soul e do funk está

em marcha há dois anos. Existe

uma aragem neo-funk a varrer a

música actual graças ao labor de

DJs como Keb Darge ou Snowboy,

ou a formações como Breakestra,

Poets Of Rhythm, The Bamboos,

Antibalas, Quantic Soul Orchestra,

Nostalgia 77, Nicole Willis & The

Soul Investigators ou Sharon

Jones & The Dap-Kings.

Todos eles acreditam que a

música funk dos anos 60 e 70

não precisa de ser desfigurada.

Necessita, isso sim, de ser

recriada com paixão e reavaliada,

mantendo aquelas que são as suas

características nucleares.

No centro de algumas destas

movimentações tem estado Mark

Ronson, que tanto produziu Amy

Winehouse e Lily Allen como

impulsionou Mayer e a veterana

Sharon Jones.

Quando ambos se encontraram

em estúdio ela pensou: “Que diabo

sabe este rapaz branco sobre

funk?” Quando acabaram a sessão

recorda-se de andar para fora do

estúdio, cansada, cambaleando,

pensando que aquele rapaz devia

ser uma reencarnação de “um

negro de 55 anos no corpo de

um jovem rapaz judeu, com uma

atitude funk eléctrica.”

Ronson como Jamie Lidell

identificam-se espontaneamente

com música negra, tendo crescido

com ela, tal como se reconhecem

naquilo a que associamos a ideia

de música branca. Hoje é possível

assumir essa dupla prerrogativa

sem problemas. Por norma é

quando isso acontece que se criam

novas desfigurações, o mundo

acelera, e voltamos todos a sorrir.

O pós-punk, por exemplo, não era

outra coisa: o encontro de músicos

brancos do rock com músicas e

formas de operar devedoras do

funk, do dub ou do jazz.

SÃO

LUIZ

DEZ~O9

3 DEZ

PEDRO

BARROSO

4O ANOS

DE MÚSICAS

E PALAVRAS

QUINTA ÀS 21H00

SALA PRINCIPAL M/3

SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL

RUA ANTÓNIO MARIA CARDOSO, 38; 1200-027 LISBOA

GERAL@TEATROSAOLUIZ.PT / T: 213 257 640

BILHETEIRA DAS 13H ÀS 20H

T: 213 257 650; BILHETEIRA@TEATROSAOLUIZ.PT

BILHETES À VENDA NA TICKETLINE E NOS LOCAIS HABITUAIS

WWW.TEATROSAOLUIZ.PT

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 11


Richard Egarr não tem medo

de ser romântico

Maestro de referência no repertório barroco,

acha que as interpretações históricas não

podem colocar limites à emoção. Este fim-desemana

dirige a Academy of Ancient Music no

Porto e em Lisboa. Cristina Fernandes

Música

A música de Henry Purcell (1659-1695)

e de George Frideric Handel (1685-

1759) acompanhou Richard Egarr desde

a infância, mas neste ano de efemérides

o seu lugar passou a ser ainda

mais central na actividade artística

deste instrumentista e maestro britânico.

“Aos oito anos já cantava a música

religiosa de Purcell no Coro da

Catedral de York Minster [Manchester]

e Handel tem-se tornado cada vez

mais importante na minha carreira”,

disse ao Ípsilon. “Ambos eram grandes

homens de teatro, grandes dramaturgos

que escreveram música que

contém todas as dimensões da humanidade

e todas as emoções.”

A um belo CD com as Suites para

cravo de Purcell, sucederam-se recentemente

no percurso de Egarr

várias gravações com a Academy of

Ancient Music dedicadas ao repertório

instrumental de Handel das colecções

Opus 1 a 7. Depois das Sonatas

a Solo op.1, dos “Concerti Grossi” op.

3 e dos Concertos para Órgão op. 4,

encontram-se agora disponíveis os

Concertos para Órgão op. 7 e as Trio

Sonatas op. 2 e op. 5 (ver crtítica de

discos). Será também com Purcell e

Handel, os dois maiores vultos do

Barroco em Inglaterra, que se apresenta

no Festival “À volta do Barroco”

da Casa da Música e no Ciclo de Música

Antiga da Gulbenkian, com a

Academy of Ancient Music e a soprano

Carolyn Sampson.

“Quisemos apresentar os dois compositores

na sua vertente de músicos

dramáticos, por isso selecionámos

trechos vocais e instrumentais extraídos

de obras destinadas ao palco,

incluindo as cenas mais importantes

da ópera ‘Dido e Eneias’, de Purcell.

Com o passar do tempo sinto-me cada

vez mais capaz de apreciar a profundidade

de expressão destes compositores

e espero que isso transpareça.”

Pianos de todos os tipos

Maestro principal da Academy of

Ancient Music desde 2006 (em substituição

de Christopher Hogwood,

que fundou o agrupamento em 1973),

“Ter consciência das

práticas, técnicas e

dos estilos do passado

não é incompatível

com a emoção

e o sentimento”

afirma que é “uma honra” prosseguir

o trabalho do seu antecessor e espera

“conseguir manter o entusiasmo,

a energia e a excelência”, assim como

investir em novo repertório. É

uma responsabilidade de peso, já

que se trata de uma das mais prestigiadas

formações com instrumentos

da época.

Richard Egarr estudou cravo com

Gustav Leonhardt, experiência que o

despertou para as práticas de execução

históricas, e diz ter sido muito

inspirado pelo trabalho de David

Munrow (intérprete de instrumentos

de sopro e um dos pioneiros do movimento

da música antiga) e dos violinistas

Reinhardt Goebel e Marie Leonhardt.

No entanto, nunca se quis

cingir a uma especialização. Como

instrumentista de tecla, tanto interpreta

as tablaturas da música para

órgão do século XV e as grandes obras

do barroco no cravo como as peças

de Dussek e Chopin em pianos oitocentistas

ou páginas de Alban Berg e

Maxwell Davies no piano moderno.

N a qualidade de maestro tem dirigido

orquestras barrocas e modernas

num repertório que se estende de Bach

a John Taverner (n. 1944) e na música

de câmara, domínio onde criou

uma premiada discografia com o violinista

Andrew Manze, as suas escolhas

têm vindo também a avançar no

tempo.

“O que sempre me interessou foi a

música em geral, ou seja, sinto-me

fascinado por todos os géneros de

música — world, jazz, pop, contemporânea...

— mesmo que só aborde

determinadas vertentes a nível profissional.

Sempre toquei pianos de

todos os tipos, órgãos, cravos e até

sintetizadores.” A passagem de um

instrumento para o outro exige uma

adaptação, mas afirma que a base da

técnica não muda. “Temos é de modificar

a maneira como ouvimos cada

instrumento. O som do órgão e o seu

ambiente não é o mesmo que emerge

do cravo e do seu ambiente, pelo que

temos de usar os dedos de maneira

diferente.”

Quando dirige orquestra modernas,

tenta sensibilizá-las para o universo

que deu origem à criação da

música noutras épocas, mas sabe que

não se fazem milagres em pouco tempo.

“No trabalho com as orquestras

modernas há quase sempre dois grandes

problemas: a falta de tempo de

ensaio e os instrumentistas desinteressados.

É impossível pegar numa

orquestra moderna e mudar os hábitos

em três ou quatro ensaios. Dizer

apenas ‘sem vibrato por favor!’ é um

pedido negativo, que imediatamente

coloca problemas de afinação e na

maneira de usar as arcadas. Alguns

executantes, especialmente aqueles

que têm postura de funcionários, perdem

logo o interesse. E há sempre

pelo menos dois ou três desses em

cada orquestra, ainda nem chegámos

e nem fizemos nada e já estão contra

nós!” Por isso acha que a melhor estratégia

“é comunicar a ideia da música

e do estilo de maneira positiva”.

“Em vez de dizer ‘não usem vibrato’,

digo que podem usá-lo mas têm de

pensar como, onde e porquê.”

No plano das interpretações historicamente

informadas estes problemas

não existem, mas Egarr advoga

maior ousadia. Refere que o nível dos

músicos que tocam instrumentos de

época é hoje mais alto do que quando

começou, mas considera os resultados

actuais bastante previsíveis.

“Acredito que há ainda limites restritivos

e que algumas pessoas sentem

que não os podem cruzar com medo

de parecerem demasiado românticas

quando interpretam música dos séculos

XVII e XVIII. A minha compreensão

apela para uma abordagem

ainda mais ‘romântica’, flexível e colorida

do que a que ouvimos hoje em

dia”, diz. “Ter consciência das práticas,

técnicas e dos estilos do passado

não é incompatível com a emoção e

o sentimento.”

Ver agenda de concertos págs. 40 e segs

Aos oito anos

já cantava a

música

religiosa de

Purcell no

Coro da

Catedral de

York Minster

[Manchester]

e Handel temse

tornado

cada vez mais

importante na

sua carreira

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 13


Música

Vocacionado para a música antiga e

para a música contemporânea, explorando

ao mesmo tempo “a ténue fronteira

entre os modelos eruditos e as

tradições populares”, o agrupamento

Sete Lágrimas é um dos projectos

mais estimulantes surgidos em Portugal

nos últimos anos. Cada nova

gravação deste grupo fundado no ano

2000 (ainda com a designação

L’Antica Musica) pelos tenores Filipe

Faria e Sérgio Peixoto não é uma mero

alinhamento de repertório, mas

está invariavelmente associado a fortes

ideias conceptuais, à experimentação

e a uma curiosidade insaciável

por diferentes universos culturais.

Depois de “Kleine Musik”, com

obras do compositor seiscentista Henrich

Schütz e composições de Ivan

Moody sobre os mesmos textos, e de

“Diaspora.pt”, trabalho que explora

as relações estéticas e linguísticas da

música dos países do cinco continentes

visitados pelos portugueses no

âmbito dos Descobrimentos, surge

uma proposta completamente diferente.

“Silêncio”, o novo álbum, resulta

da encomenda de seis obras de

carácter sacro a três compositores

europeus de credos diferentes: Ivan

Moody (n. 1964), cristão ortodoxo;

Andrew Smith (n. 1970), protestante;

e João Madureira (n. 1971), católico.

“Pretendemos obter um olhar contemporâneo

sobre o livro comum das

três religiões cristãs mais representativas

através de três vivências culturais,

estéticas e religiosas distintas”,

explica Filpe Faria. “Os intérpretes

também são criadores e por isso não

quisemos prescindir do acto criativo.

O projecto foi idealizado pelo Sete

Lágrimas e as encomendas aos compositores

foram feitas com base em

directrizes precisas.” Envolveram a

escolha prévia dos textos sagrados, a

imposição do uso de instrumentos

antigos como o oboé barroco, a flauta

de bisel ou a tiorba, a duração aproximada

das obras e a estrutura em

três andamentos. “Alguns compositores

não veriam com bons olhos estas

determinações prévias, mas os

três que escolhemos reagiram muito

bem”, diz o tenor. “No fundo é um

projecto comum, apenas lhe associámos

mais três pessoas.”

Justaposição de perspectivas

Não se trata de um “crossover religioso”,

expressão usada por Ivan Moody

no programa, pois isso poderia implicar

um compromisso de crenças, mas

uma justaposição de diferentes perspectivas

artísticas e espirituais com

uma base comum: a Bíblia. O resultado

são seis obras em seis idiomas diferentes,

do latim ao russo, que assentam

numa selecção de três textos

do Antigo e do Novo Testamento (“Genesis”,

“Lamentações” e “Paixão”) e

três peças mais pequenas sobre três

textos de origem popular ligados à

proveniência dos compositores. Nesta

última vertente, Ivan Moddy pôs

em música um hino russo, Andrew

Smith um texto medieval em inglês

antigo e João Madureira uma Cantiga

de Santa Maria alusiva ao Alentejo,

que evoca um milagre em Odemira.

O agrupamento delineou o projecto

a régua e esquadro, mas o desafio

inicial tinha partido do Departamento

do Património Histórico e Artístico

da Diocese de Beja (DPHADB), fundado

em 1984 pelo bispo D. Manuel

Franco Falcão, no âmbito das comemorações

do seu 25º aniversário. A

colaboração com este departamento

conta já com alguns anos, uma vez

que o grupo de Filipe Faria é residente

do Festival de Música Sacra Terras

sem Sombra do Baixo Alentejo, dependente

do mesmo organismo.

Contando com a participação da

soprano húngara Zsuzsi Toth, cantora

reconhecida no âmbito da música

antiga e contemporânea, “Silêncio”

terá a sua ante-estreia amanhã, em

Beja, na igreja de Santa Maria da Feira,

e a estreia oficial no Centro Cultural

de Belém, domingo, às 18h. Este

concerto será precedido por uma conversa

(às 17h) entre os compositores

e o Pe. Tolentino de Mendonça, moderada

pelo jornalista do PÚBLICO

António Marujo.

“Pretendemos obter

um olhar

contemporâneo sobre

o livro comum das

três religiões cristãs

mais representativas

através de três

vivências culturais,

estéticas e religiosas

distintas” Filpe Faria

Sobre os textos musicados, Filipe

Faria refere que a escolha do Génesis,

atribuído a Ivan Moody (compositor

inglês residente em Portugal desde

1984 e presbítero da Igreja Ortodoxa),

“teve a ver com a exploração de dicotomias

como a luz e a sombra, o céu

e terra”.

No caso do britânico Andrew Smith,

que conhecia a partir das suas

obras gravadas pelo Trio Medieval na

etiqueta ECM, pensaram nos textos

das Lamentações de Jeremias pelo

facto destes terem uma tradição forte

na igreja anglicana e para João Madureira

procuraram “três momentos

que mostrassem o lado mais humano

e terreno de Jesus.”

A Arte das Musas, a associação que

gere o Sete Lágrimas e a editora MU

Records onde têm sido lançadas as

gravações do grupo, irá também publicar

as partituras destas obras, juntamente

com ensaios no domínio das

artes visuais, prolongando assim a

parceria com o Departamento do Património

Histórico e Artístico da Diocese

de Beja, que apoia o projecto,

juntamente com o Ministério da Cultura/Direcção

Geral das Artes.

Quanto ao conceito de “Silêncio”,

Filipa Faria diz que foi escolhido pela

multiplicidade de leituras que proporciona.

“Tem a ver com o passado e o

futuro. É uma escolha poética e estética

que pode ter muitas interpretações,

mas não tem de remeter necessariamente

para a tristeza e a introspecção.

A intenção foi deixar essa

dimensão em aberto. Após a audição,

cada um poderá criar de muitas formas

a sua ideia, ou ideias, de silêncio.

Tal como a interpretação, a audição

é também um acto criativo.”

“Silêncio” terá

a sua anteestreia

amanhã, em

Beja, na igreja

de Santa

Maria da

Feira, e a

estreia oficial

no Centro

Cultural de

Belém, Lisboa,

domingo, às

18h

14 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon

O ecumenismo

musical

dos Sete Lágrimas

O ortodoxo Ivan Moody, o protestante Andrew Smith e o católico João Madureira

responderam ao desafio dos Sete Lágrimas para compor obras sobre textos religiosos.

O resultado, “Silêncio”, é apresentado este fim-de-semana em concertos em Beja e Lisboa.

Cristina Fernandes


Teatro/Dança

Há festival n

A partir de quinta-feira, uma pequena vila de 3000 habitantes transforma-se na casa do p

da terra: Tiago Guedes. A montanha vai a Minde – e às cidades vizinhas de Alcanena e

Materiais Diversos pode não saber para onde vai, mas sabe de onde vem. I

Isto que há duas semanas era um

monte de papéis velhos, pó, colchões

queimados, fotolitos e baldes de Skip

(do tempo em que ainda havia fotolitos

e baldes de Skip) é agora a bilheteira

de um festival de artes performativas

organizado por um rapaz da

terra que já não sabia de que terra

era desde os 19 anos. Aqui onde esta

história começa, nas antigas instalações

de uma gráfica desactivada numa

vila de 3000 habitantes a 90 quilómetros

de Lisboa, está tudo por

fazer, e esse espírito é o programa do

Materiais Diversos, que a partir de

quinta-feira e até dia 29 faz o mundo

ir a Minde (e às cidades vizinhas de

Alcanena, sede do concelho, e Torres

Novas) e Minde ir ao mundo – o mundo

do alemão Raimund Hoghe e da

húngara Eszter Salamon, mas também

o mundo do Rancho Folclórico

do Covão do Coelho, da Sociedade

Musical Mindense, do aguarelista Roque

Gameiro e do avô caixeiro-viajante

de Tiago Guedes, que nos seus

tempos de rapaz conheceu pessoalmente

todos os concelhos de Portugal

Continental e ainda se lembra bem

dos armazéns de Espinho e do Porto

onde fazia bom dinheiro.

– Pintamos as paredes com tinta

preta

– Mas não pedimos tinta preta, pedimos

tinta verde

O que afinal é irrelevante porque

a Grafiminde também é um mundo:

além dos colchões, dos baldes de

Skip, do néon da Rogan Malhas e dos

sacos da loja Tons de Requinte, há

caixotes com edições antigas do “Jornal

de Minde”, ainda mais fotolitos,

e dezenas de convites de casamentos,

baptizados e comunhões (evidentemente,

copo de água que se preze é

no restaurante digamos vistoso, mas

com uma vista impressionante, onde

Tiago Guedes já comeu várias fatias

de bolo de noiva, incluindo o da

tia).

– Vamos forrar a parede com isto

E a partir de quinta-feira os espectadores

do festival, os da terra e os

de fora, vão comer caldo verde e beber

babosas, isto é cervejas (também

e “Purgatório”,

Martim

Pedroso, 5ª,

19, Cine-teatro

Alcanena, 21h

MARISA NUNES

e Magyar

Tàncock/

Rancho

Folclórico do

Covão do

Coelho, 6ª, 20,

Minde,

Blackbox

CAORG, 21h

CALAMOSCA

BRUNO J D MIGUEL

16 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


a aldeia

povo de um festival de artes performativas organizado por um rapaz

a e Torres Novas –, mas antes disso aprende a falar minderico: o

. Inês Nadais (texto) e Rui Gaudêncio (fotos)

f “De mim

não posso

fugir,

paciência”,

Tânia

Carvalho, 6ª,

27, Minde,

Blackbox

CAORG, 21h

aprendemos a falar minderico), enquanto

do alto das paredes da Grafiminde

várias décadas da história local

os contemplam. Além de bilheteira,

a velha gráfica é livraria, discoteca,

bar, escritório e sala de estar do festival

– casa do povo, portanto. “Como

estamos a começar, queremos fazer

como fazem os festivais de que mais

gostamos. E festivais sem ponto de

encontro são sempre tristonhos. Queremos

ter um sítio onde as pessoas

possam estar depois dos espectáculos,

para não se criar aquela coisa de

ir cada um para sua casa e não haver

tempo para conversar sobre o espectáculo.

Além da Grafiminde, há uma

série de outros lugares-fantasma que

vamos ocupar”, diz Tiago Guedes ao

volante da carrinha, a caminho do

Cine-Teatro São Pedro, em Alcanena,

onde Martim Pedroso abre o festival

A partir de quintafeira

os espectadores

do festival vão comer

caldo verde e

beber babosas, isto é

cervejas

Eis onde esta

história

começa, num

monte de

papéis velhos,

pó, colchões

queimados,

fotolitos, nas

antigas

instalações de

uma gráfica

desactivada

numa vila de

3000

habitantes a

90

quilómetros

de Lisboa;está

tudo por fazer,

e esse espírito

é o programa

do Materiais

Diversos, que

a partir de

quinta-feira e

até dia 29 faz o

mundo ir a

Minde

com “Purgatório” (dia 19,

21h), espectáculo de onde se

pode não sair vivo. O Materiais

Diversos vai ter uma “blackbox”

no auditório do servatório de Música Jaime

Chavinha e tem planos para

Con-

criar um centro internacional nacional

de residências artísticas as numa

fábrica de malhas e confecções

desactivada há anos (é uma

Com Cão

Solteiro a

ver a banda

passar

a “Minde é uma terra de

músicos”, diz Anabela

Capaz, da Sociedade Musical

Mindense – e é uma terra

que segue os seus músicos

para todo o lado. “Onde quer

que a banda vá, as pessoas

vão connosco: encontros de

bandas, festas religiosas,

seja o que for. São muito

bairristas: identificam-se

imenso com tudo o que

é feito na terra e aderem

sempre às actividades das

colectividades”, insiste.

Não é só conversa: aos 94

anos (“O nosso presidente

diz que a banda deve ser

mais do que centenária, mas

de acordo com os registos

consideramos o dia 25 de

Outubro de 1915 como a

data da fundação”), a Banda

Filarmónica da Sociedade

Musical Mindense conta com

65 músicos, todos naturais

de Minde, e exibe uma

invejável média de idades

(além de um invejável

fardamento novo), ali à volta

dos 20 anos. Paralelamente à

banda, a Sociedade Musical

Mindense também criou

uma orquestra ligeira, a

Xaral’s Band e uma banda

dixieland. No dia 26, é de

imaginar que Minde siga

a Banda Filarmónica e um

conjunto de 16 passantes

recrutados entre os

elementos do grupo de teatro

Boca de Cena (calçados com

sapatos regionais mas

vestidos com as

roupas que trazem

de casa) até ao

Cine-Teatro

São Pedro, em

Alcanena, para

os ver dentro de

“A Portugueza”. O

espectáculo que a

Cão Solteiro estreou

em Outubro no

Teatro Maria Matos,

em Lisboa, repete-se

agora no Materiais

Diversos: “É uma

‘masterclass’

em

que se

ensaia

o

hino

nacional,

que depois

é cantado

a preceito,

com

as três

estrofes”,

explica

Paula Sá

Nogueira,

da Cão

Solteiro.

Também

neste caso,

o tempo de

residência da

companhia em

Minde vai ser

mínimo: houve

uma conversa, vai

haver um ensaio

geral e está feito:

“O espectáculo

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 17


está pronto, não temos de

o construir lá. Mas agradame

esta ideia de o fazermos

com pessoas da terra e de as

integrar no espectáculo. O

espectáculo assim também

é delas”.

a Quando Tiago Guedes lhe

pediu que ficcionasse uma

visita guiada ao recéminaugurado

Museu de

Aguarela Roque Gameiro,

em Minde, André Murraças

(encenador, cenógrafo,

dramaturgo, intérprete

e etcetera) não teve de

perguntar “Roque quê?”

antes de dizer que sim

ou que não. “Achei muito

curiosa a proposta do Tiago

porque o Roque Gameiro

[Minde, 1864 – Lisboa,

1935] é um aguarelista que

conheço bastante bem.

Viveu na Amadora, onde

eu morei 29 anos até sair

de casa dos meus pais.

Tenho muitas memórias da

infância ligadas ao Roque

Gameiro”, diz ao Ípsilon,

e isto não fica por aqui. “O

Roque Gameiro passava

muitas temporadas na

Nazaré, de onde o meu pai

é natural. Passei os meus

Verões todos numa casa

cheia de aguarelas do Roque

Gameiro – sempre foi uma

figura que esteve mesmo ali

ao lado”, continua.

Tiago Guedes não sabia

de nada disto – nem tinha

de saber: “O Tiago pediu-me

uma intervenção naquele

espaço porque conhecia o

meu trabalho e sabia que

eu já tinha feito um ou

outro espectáculo

em que brincava

com os conceitos

de galeria e de

visita guiada”.

Mais do que

um percurso

pelas memórias

e pelos fantasmas

da Casa Açores,

que foi dos tios de

Roque Gameiro e que

o neto do aguarelista,

o arquitecto to Martins

Barata, recuperou,

“Um Passeio”

(dia 28, das

15h às 19h) é

uma visita

guiada à

infância

de André

Murraças:

“É um

percurso

por uma

casa que

invadi com

as minhas

memórias,

e que

mistura

a vida e

a obra de

Roque

Gameiro

O herói

local de

André

Murraças

história que se repete desde a década

de 90, em Minde), a Jobasil.

Telefonemas da mãe, da avó – “Fazer

um festival no sítio onde vive a

família...” – e resultados: nós temos

jantar (mas vai ser uma “coisa simples”,

canja de galinha, coelho estufado

e leite-creme, não o “baptizado”

que a avó de Tiago Guedes preparou

para a jornalista anterior),

o festival tem loiça. “Fizemos

um con-vite à população

para se livrar dos

monos, para gastarmos

o mínimo possível em

mobília e essas coisas”,

explica o director do Ma-

teriais Diversos. Em casa

dos avós há taças, canecas de

cerveja, um serviço de chá.

– É bom ou não?

– É bom, avó.

– E se não chegar tenho cá

muita coisa.

Além de pratos, copos e sofás

velhos, a organização do fes-

tival também

andou porta-

a-porta a pedir voluntá-

rios e alojamento: “A

oferta hoteleira é qua-

se inexistente e por

isso perguntámos às

pessoas se estavam

dispostas a receber

artistas em casa.

Conseguimos 35 ca-

mas. A ideia do festival

é as pessoas estarem

dentro de várias maneiras.

Até no programa:

substituímos

as imagens

dos

espectáculos

por retratos

das pessoas do

e “L’Après-

Midi”,

Raimund

Hoghe, sáb, 21,

Teatro

Virgínia,

Torres Novas,

21h30

concelho”. Foram fotografadas no

mercado, no coreto, nas piscinas – é

uma maneira de dizer que o festival,

como elas, é dali. As centrais do “Jornal

de Minde” também têm trazido

artigos sobre o festival, com grandes

entrevistas do rapaz da terra.

Envolver a comunidade, sobretudo

em Minde, onde existe fortíssima tradição

associativa ligada à música

(“porta de entrada” de grande parte

do cartaz desta primeira edição) e ao

teatro, é um dos eixos fundamentais

do festival e a equipa do Materiais

Diversos leva o trabalho a sério. Paralelamente

à “programação que podia

ser feita em qualquer lado”, alguma

da qual vinda do estrangeiro – o

espectáculo de abertura de Martim

Pedroso, “Magyar Tàncok”, de Eszter

Salamon (dia 20, 21h), “L’Après-midi,

Um Solo para Emmanuel Eggermont”,

de Raimund Hoghe (dia 21,

21h30), “De mim não posso fugir, paciência”,

de Tânia Carvalho (dia 27,

21h), “Bwyd Sonique”, de Karine Décorne

e Simon Proffitt (dia 28, 15-19h),

e “Both Sitting Duet”, de Jonathan

Burrows e Matteo Fargion (dia 28,

21h), entre outros –, há “uma programação

especificamente pensada com

e para as pessoas daqui”, incluindo

espectáculos que resultam de residências,

como “Um Passeio”, de André

Murraças (dia 28, 15h-19h), e espectáculos

que resultam de convites

directos a estruturas locais, como

“Terroristas” (dias 24 e 25, 22h), que

Cláudia Gaiolas monta com o grupo

de teatro Boca de Cena, “A Portugueza”,

em que a Cão Solteiro e Vasco

Araújo encontram a banda filarmónica

da Sociedade Musical Mindense

(dia 26, 21h), e um “remake” do duo

“Ela não é francesa, Ele não é espanhol”,

de Inês Jacques e Eduardo Raon

(dia 29, 18h), com a participação

da Xaral’s Band (ver caixas). “Minde

tem banda filarmónica, grupo de teatro,

conservatório, festival de jazz...

As colectividades estão mesmo dentro

do festival e estão expectantes.

Mas a mediação continua a ser a parte

mais importante, porque em Minde

dizer Raimund Hoghe é o mesmo

que dizer Maria Carolina e eu não

quero correr o risco de o público ser

todo de fora”, sublinha Tiago Guedes.

De resto, praticamente todos os espectáculos

do programa serão seguidos

por conversas informais com os

artistas destinadas a aprofundar a experiência

do espectador – e há todo

um trabalho de contextualização e de

ligação à comunidade que vai desde

a preparação dos alunos do Conservatório

de Música, destinatários particulares

de um espectáculo com as

características de “L’Après-midi”,

criado a partir de Debussy, à associação

da peça de Eszter Salamon, sobre

o legado das danças tradicionais húngaras,

com uma apresentação do Rancho

Folclórico do Covão do Coelho,

que assistirá a “Magyar Tàncok” já

trajado, e ao projecto “Atelier do Espectador”,

conjunto de “aulas abertas”

sobre a história das artes performativas

orientadas pelo crítico do

PÚBLICO Tiago Bartolomeu Costa.

Terapia de choque

A ideia do festival veio precisamente

de uma conversa do género (e se não

fosse essa conversa, diz Gabriela Capaz,

prima de Tiago Guedes e directora

do conservatório, as pessoas

teriam gostado mas não teriam percebido

nada e só teriam levado para

casa umas “imagens” do espectáculo).

Em Maio de 2008, quando o Cine-

ROSA FRANK

e “Era uma

Coisa Mesmo

Muito

Abstracta”,

Andresa

Soares & João

Lucas, dom.,

22, Cineteatro

Alcanena, 15h

A ideia do

festival é as

pessoas da

região

estarem

envolvidas de

várias

maneiras, diz

Tiago Guedes,

director do

Materiais

Diversos e

rapaz da terra

“Há toda uma

pedagogia a fazer,

e sobretudo toda

uma formação

de públicos a fazer”,

diz Fernanda

Asseiceira, presidente

da Câmara

de Alcanena

JOÃO COSTA

18 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


gogia a fazer, e sobretudo toda uma

formação de públicos a fazer” para

que experiências como o Cine-Teatro

São Pedro, o futuro centro internacional

de residências artísticas e mesmo

o festival possam ser rentabilizadas.

Vítor Costa, que dirige o Cine-

Teatro admite que “tem sido uma

experiência fantástica” (sobretudo

na parte, mais impraticável nas grandes

cidades, em que é possível levar

ao teatro pessoas que não são frequentadores

habituais, como os operários)

mas com “resultados divergentes”:

“As pessoas têm grande orgulho

no teatro, mas só aparecem

esporadicamente – e muitas ainda

nem sequer lá foram. Foram 20 anos

sem teatro, é preciso convencê-las de

que vale a pena desligar a televisão e

sair do sofá, e temos de programar

em função do calendário do futebol

e das despedidas de solteiro. Mesmo

assim, num ano tivemos 20 mil espectadores.

O concelho tem 15 mil

habitantes, Alcanena tem quatro mil.

O nosso potencial de crescimento é

limitado”. Espera que o festival seja

“uma grande porta para uma programação

mais contemporânea e mais

difícil”, que o Cine-Teatro tem procurado

equilibrar com espectáculos

de grande público (e sucessos garantidos,

como o fado). “O que o Tiago

vai fazer é uma terapia de choque.

Estou ansioso por ver a reacção do

público”, resume.

Minde, diz Tiago, não faz tanta

cerimónia com as artes

performativas como Alcanena

– “Apesar de nunca

ter sido recuperado, o

Cine-Teatro Rogério Venâncio

esteve sempre a

funcionar, e por isso toda

a actividade cultucom

a minha vida e a minha

obra”.

O processo de trabalho

do artista pouco ou nada

interferiu com as rotinas

normais do museu, que

reabriu em Julho depois de

ter estado fechado quase 20

anos e que tem uma política

activa de integração na

comunidade dinamizada

pelo CAORG. “O projecto

vai ser montado no museu

no máximo duas semanas

antes. É quase só juntar

água e ele aparece”, justifica.

Mesmo assim, o tempo que

já passou na Casa Açores

foi suficiente para tirar

conclusões sobre a relação

de Minde com o seu herói

local: “Qualquer habitante

de Minde já foi ao museu.

É um grande motivo de

orgulho para a comunidade”.

SÃO

LUIZ

NOV~O9

Teatro São Pedro reabriu depois de

22 anos de encerramento ao público,

Tiago Guedes foi convidado a ir lá

apresentar o espectáculo “Materiais

Diversos” (na verdadeira inauguração,

em 1954, Alcanena recebeu a

visita da Companhia Amélia Rey Colaço-Robles

Monteiro, como se lê na

placa comemorativa que está no

átrio): “Aceitei mas expliquei logo que

o espectáculo não era assim tão directo

e que convinha fazer uma conversa

com o público, porque as pessoas

tinham estado privadas de um

teatro durante mais de 20 anos... Foi

aí que propus um festival que fosse

transversal ao concelho”. O anterior

executivo autárquico entusiasmou-se

e assinou um protocolo com o Ministério

da Cultura que garante esta e a

próxima edição do festival, marcada

para Setembro de 2010. A nova presidente

da Câmara de Alcanena, Fernanda

Asseiceira, também é uma

entusiasta da criação de alternativas

numa região marcada pelo declínio

das duas mono-indústrias tradicionais,

os têxteis e os curtumes, que

passou “de uma empregabilidade

elevada a ter problemas de desemprego”.

“Os jovens saem para estudar

e muitos já não voltam – até porque

a habitação aqui é cara, comparativamente,

o que é incompreensível”,

diz ao Ípsilon a uma mesa da Pastelaria

Gena, dois dias depois de ter

sido eleita.

As ambições que Asseiceira tem

para o concelho de Alcanena passam

pela cultura – Tiago Guedes levou-a

a visitar O Espaço do Tempo, de Rui

Horta, em Montemor-o-Novo – e aí,

nota, o director do festival Materiais

Diversos “é um protagonista importante”.

Mas a nova presidente da Câmara

sabe que “há toda uma peda-

Os

terroristas ristas

de Cláudia

Gaiolas

a Há décadas que o grupo

de teatro Boca de Cena está

habituado a não ter datas

marcadas – a estreia não é

quando tem de ser, é quando

o espectáculo está pronto

e isso pode demorar três,

quatro, seis meses. Desde

Setembro que há uma

data marcada: 24 e 25 de

Novembro, no Cine-Teatro

Rogério Venâncio, a sala

onde o grupo tem feito de

tudo, incluindo revista e

variedades, nos últimos 50

anos. Pela primeira vez na

história da companhia de

teatro amador da Casa do

Povo de Minde, a encenação

é profissional: Tiago Guedes

chamou Cláudia Gaiolas

para vir trabalhar com

o Boca de Cena e está a

ser toda uma revolução:

“Quando estamos entre nós

prometemos sempre que

amanhã trazemos o texto

decorado, mas depois nunca

sabemos o papel. Com a

Cláudia as pessoas são mais

responsáveis porque é uma

pessoa de fora. Nunca na

vida me tinha visto a andar

de um lado para o outro

na sala, em casa, a dizer o

papel”, exemplifica Ana

Fresco, uma das actrizes

de “Terrorismo” (a partir

de “Os Terroristas”, dos

Irmãos Presniakov), filha

do presidente da Junta de

Freguesia.

O texto, acrescenta

Cláudia Gaiolas, foi escolha

conjunta depois de abortada

a primeira proposta – “O

Cerejal”, de Tchekhov (“só

alguns tiveram coragem de

ler o texto” e não ficaram

“muito entusiasmados”,

´

WWW.TEATROSAOLUIZ.PT

27 NOV

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HELDER

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TRAGO

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© Nãna Sousa Dias

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 19


explica outra das actrizes,

Elsa Nogueira).“Lembrome

que uma das primeiras

coisas que me disseram foi:

‘veja lá, não traga peças para

quatro ou cinco pessoas’.

Tive a preocupação de

integrar o maior número”,

diz a encenadora. Tem as

suas vantagens – tanta gente

a “querer muito entrar”

demonstra um admirável

“gosto pelo teatro” – e as

suas desvantagens. “São

18 actores, e isso traz

dificuldades de conciliação

de horários. De repente há

uma situação profissional da

vida deles que se sobrepõe

e tenho de estar disponível

para fazer ajustamentos.

Já tivemos de fazer

substituições – mas isso

também é a dinâmica de um

grupo amador”, continua.

Em Minde, essa dinâmica

é posta à prova pelas

intermináveis solicitações

a que todos os moradores

parecem estar sujeitos:

“Além da vida profissional

e familiar, há actividades

extracurriculares que

todos têm. Estou sempre

a lembrar-lhes que a data

da estreia já está marcada,

não vão eles agendar algum

ensaio da banda”.

Esse desafio – ver a estreia

anunciada por tudo quanto

é lado e perceber que a peça

ainda não está pronta – é um

desporto radical para um

grupo amador, mesmo que o

grupo amador em causa seja

experiente. “Pensava que

íamos ter mais surpresas

com um encenador

profissional. Mas sim, está a

ser muito diferente – frase a

frase. E estamos todos com

um ar super profissional,

nunca pensei”, admite

Elsa Nogueira, uma das

primeiras actrizes da nova

geração do Boca de Cena

a “ter o atrevimento de

encenar”. Durante muitos

anos, o encenador residente

era “o senhor Rogério

Venâncio, um monumento

vivo” – aparece no programa

do festival, a caucionar o

espectáculo, e antes disso já

tinha dado nome ao Cine-

Teatro –, mas recentemente

houve outras pessoas a

experimentar. Em Minde, o

teatro continua a ser uma

coisa que passa de pais

para filhos: “Há pessoas de

todas as idades nos nossos

espectáculos. Os meus filhos

desta última vez entraram

todos”. Quem não entra como

actor entra como espectador:

“Contamos sempre com

três casas cheias, porque

vai toda a gente ver as

nossas peças. E quando

corre mesmo bem temos de

fazer uma ou duas sessões

extra”. Não é futurologia:

“Terrorismo” vai ser um dos

“blockbusters” do festival.

ral e recreativa estava em Minde

–, mas é preciso quebrar a distância

(versão politicamente correcta de

“rivalidade acesa”) entre as duas localidades.

“Gostava que o festival

quebrasse esse hábito de as pessoas

de Minde não irem a Alcanena e viceversa.

Vai haver autocarros gratuitos

para as pessoas poderem ir aos espectáculos”.

Torres Novas também

está incluída no circuito – é o grande

pólo regional e funciona como cidade-âncora

do Materiais Diversos. “O

Teatro Virgínia tem um palco maior.

Este ano levamos lá o Raimund Hoghe,

para o ano será o Benoît Lachambre”,

explica o rapaz da terra.

Linguajar local

De regresso a Minde, onde a família

Guedes deu vários nomes de rua (“Tipógrafos

e industriais da família do

meu avô”, diz ao Ípsilon), sentamonos

no Estaminé a tentar perceber

porque é que aqui sempre se fizeram

tantas coisas – uma língua paralela

inventada pelos comerciantes de

mantas, para começar, e, mais recentemente,

a Sociedade Musical Mindense,

um grupo de teatro, um festival

de jazz, o Centro de Artes e Ofícios

Roque Gameiro (CAORG), um conservatório.

“As pessoas sempre foram

muito bairristas, e como Minde não

é concelho habituámo-nos a ser autónomos

e a não esperar que a câmara

fizesse as coisas. Apesar de as pessoas

sempre terem saído para ir vender

mantas, Minde foi uma terra

muito fechada e as pessoas tiveram

de se bastar”, sugere Elsa Nogueira,

do grupo de teatro Boca de Cena.

Henrique Lobo, da Casa do Povo de

Minde (que, além do grupo de teatro,

é a estrutura responsável pelo Festival

de Jazz de Minde, pela TV Minde,

pela Natura Minde e pelo Núcleo de

Espeleologia), tem “uma teoria muito

pessoal”: “Eles [em Alcanena] sempre

tiveram mais apoio, nós sempre

tivemos mais habilidade. Em minderico,

sede de concelho diz-se ‘cabeça

sem miolo’”. Mais tarde, no conservatório,

João Ramiro, director do CA-

ORG (que abriu duas turmas, muito

concorridas, para ensinar o “linguajar

local”), também irá ao minderico

para explicar a diferença de Minde:

“O calão minderico surgiu porque os

mindericos sempre viajaram muito.

O facto de serem muito activos, por

um lado, e de sempre se terem queixado

da falta de investimento por

parte da sede do concelho, por outro,

fez com que tivessem feito as suas

próprias coisas”.

Além da técnica dos espectáculos

do Boca de Cena, Henrique faz dezenas

de outras coisas, incluindo a paginação

do “Jornal de Minde” (mil

assinantes, espalhados por quatro

continentes). “Todos estamos metidos

em várias coisas, o Henrique não

tem vida própria”, explica Elsa. Não

trocavam a qualidade de vida de Minde

por nada deste mundo – “Há escola

até ao nono ano, todo o tipo de

actividades para crianças e adultos,

e podemos andar na rua de bicicleta”

– embora admitam que “a terra tem

de se transformar”: “Já não é uma

terra industrial, tem de ser outra coisa

qualquer”.

– A nível industrial, isto não tem

comparação, embora ainda hoje haja

muitas fábricas

– Mais de dez?

– Mais de 20. Mas fecharam as grandes,

e fazem muita falta. Quando eu

era nova muita gente vinha para aqui

trabalhar, gente destes arredores todos.

Vinham a pé, da serra. Eu saí da

escola com a quarta classe e fui seis

meses para as malhas. Era uma terra

muito industrial. Até chamavam a

isto Manchester.

Estamos no jardim da tia-avó de

Tiago Guedes, Maria Emília Morgado,

que trouxe os álbuns de fotografias

do teatro. Num deles, aponta para

“Madre Alegria”, a última peça que

fez. O sobrinho-neto, este que agora

está a organizar um festival, também

entrava: “A tradição do teatro vem de

a gente já nascer nisto. Os meus filhos

chegaram a representar comigo,

eram pequeninos. Minde sempre foi

terra de teatro – e de música também,

todos os meus filhos andaram na banda.

Lembro-me de em 1932, antes de

eu ser gente, se ter feito aí ‘As Duas

Órfãs’. Nas outras terras faziam-se

umas coisecas, mas em Minde faziase

teatro a sério. Os cenários vinham

Envolver a

comunidade,

sobretudo em

Minde, onde

existe

fortíssima

tradição

associativa

ligada à

música e ao

teatro, é um

dos eixos do

festival

“A minha ideia

é vir para aqui

com a Materiais

Diversos a partir

de 2011. Seria

a primeira estrutura

artística profissional

sediada no concelho.

Parece longe, mas

são 90 quilómetros

de auto-estrada,

ponho-me cá

em 50 minutos”

Tiago Guedes

de Lisboa, feitos por bons pintores.

Havia falta de sítios para teatro e então

era nas fábricas que se fazia”.

Precisamente. Antes tínhamos parado

à porta da Jobasil, os 6000 metros

quadrados de fábrica desactivada

que Tiago Guedes quer transformar

num centro de criação

multidisciplinar permanente que inclua,

além das artes performativas e

visuais, o design de moda: “Faz todo

o sentido que haja aqui residências

de jovens criadores, em articulação

com as fábricas da região”. Lá dentro,

ainda há tabuletas com “medidas de

homem para camisa, pullover, camisete,

colete e blusão”, máquinas de

costura e sacos com etiquetas, mas

na cabeça dele isto onde agora estão

amontoadas dezenas de malhas podem

ser os quartos e aquilo onde

funcionava a administração da fábrica

pode vir a ser a sala de reuniões.

Mesmo que o futuro não esteja

exactamente na Jobasil, não estará

longe. “A minha ideia é vir para aqui

com a Materiais Diversos a partir de

2011. Seria a primeira estrutura artística

profissional sediada no concelho.

Parece longe, mas são 90 quilómetros

de auto-estrada, ponho-me cá em 50

minutos”. Antes do centro internacional

de residências artísticas, porém,

há duas edições de Materiais

Diversos. Tiago quer que a edição de

2010 seja “ainda mais participativa”

e tire mais proveito da paisagem (Minde

está em pleno Parque Natural das

Serras D’Aire e Candeeiros e tem uma

mata, o Polje de Minde, que está mesmo

a pedi-las). Planos para o próximo

ano (lista não exaustiva): vai haver

“uma peça com todos os antigos actores

da companhia Boca de Cena”,

uma “fanfarra coreográfica com os

bombeiros”, piqueniques com espectáculo

(o Matérias Diversos dá a toalha),

concursos do “melhor cão de

seis pernas” e do “grito mais sonoro”,

projectos “especificamente pensados

para os coretos” e um “complaints

choir” formado a partir dos dois coros

de adultos de Minde e das queixas

da população.

Mas isso, dizíamos, é para o próximo

ano. Antes disso há um festival

para fazer, nas traseiras lá de casa.

e “Primeira

Impressão”,

Marlene

Freiras, dom.,

22, Minde,

Blackbox

CAORG, 21h

JOÃO COSTA

JOSÉ ALFREDO

f “Tudo Gira”,

Margarida

Mestre, 2ª, 23,

Cine-teatro

Alcanena, 10h

e 14h; 4ª, 25,

Minde,

Blackbox

CAORG, 10h e 14h

20 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


MUSEU DO ORIENTE

II FESTA DO LIVRO

20 Novembro a 6 Dezembro

ESPECTÁCULOS

TIM & AMIGOS

Convidados: Rui Veloso,Vitorino, Mário Laginha

e Celeste Rodrigues

27 e 28 Novembro • 21.30

11 e 12 Dezembro • 21.30

€15,00

CHAN KAIIENG (CHINA)

Concerto de guitarra clássica

INFORMAÇÕES E RESERVAS: 213 585 244

707 234 234 (TICKETLINE) www.ticketline.sapo.pt

BILHETES À VENDA: MUSEU DO ORIENTE, WORTEN, FNAC, BLISS,

LOJAS VIAGENS ABREU, LIV.BULHOSA (OEIRAS PARQUE E C.C. CIDADE DO PORTO)

E PONTOS MEGAREDE.

Museu do Oriente

Av. Brasília

Doca de Alcântara (Norte)

1350-352 Lisboa

Tel: 213 585 200

E-mail: info@foriente.pt

www.museudooriente.pt

29 Novembro • 18.00

€5,00

ORQUESTRA METROPOLITANA

DE LISBOA

Três Efemérides - Joseph Haydn, Mendelssohn

e Bohuslav Martinu

4 Dezembro • 21.30

€10,00

mecenas principal:

mecenas espectáculos:


Teatro

Diogo Infante,

director do D.

Maria II, quis

que Eunice

Muñoz, “a

maior actriz

do século”,

voltasse a este

palco, onde se

estreou há 67

anos

Elas não são iguais. Talvez porque a

Eunice Muñoz a imaginemos sempre

como Mãe-Coragem, Fedra ou Joana

D’Arc, e Joan Didion é aquela figura

minúscula e transparente, articulando

frases perfeitas em estética e sentido,

cheias de lógica e fragilidade.

Eunice é telúrica, Joan é etérea. Eunice

é emoção, Joan sobrevive na racionalidade.

“Eu e a personagem somos muito

diferentes”, diz Eunice numa conversa

com jornalistas, após o ensaio de

“O Ano do Pensamento Mágico”. E

Diogo Infante explica que isso nunca

foi um problema para ele, como encenador

da peça. “Colocaram a mesma

questão à Vanessa Redgrave, que

fez pela primeira vez o papel. Ela tem

mais de um metro e oitenta, e a Joan

Didion é uma mulher pequenina...

mas não a considero frágil. Tem uma

coragem brutal, apesar daquele corpo

frágil. A força de uma pessoa é a

forma como se posiciona na vida”.

Diogo Infante, director do teatro

Nacional D. Maria II, quis que Eunice

Muñoz, “a maior actriz do século”,

voltasse a este palco, onde se estreou,

há 67 anos (quando tinha 13), e do

qual estava afastada há 8 (desde que

o ministro da Cultura José Sasportes

despediu a equipa de actores do Teatro

Nacional). Convidou a actriz, que

aceitou, e só depois se pôs à procura

de um texto “que estivesse à altura

dela”. Encontrou “O Ano do pensamento

Mágico”.

Joan e Eunice

Joan Didion é uma escritora americana

de não-ficção. Tom Wolfe, o pai

do Novo Jornalismo, disse um dia que

a nova corrente de literatura da realidade

surgiu, nos anos 60, porque a

ficção não era capaz de compreender

a década. Pois esse papel coube, mais

do que a qualquer dos protagonistas

do “New Journalism”, a Didion.

Em 1963, escreveu um romance,

“Run, River”, mas depois de ter casado

com o escritor John Gregory Dunne

(com quem viveria 40 anos, até à

sua morte) e se ter mudado para a

Califórnia, começou a escrever nãoficção,

e não parou. “Slouching Towards

Bethelem”, de 1968, foi a primeira

colecção de ensaios e histórias

verdadeiras, e o seu êxito levou-a a

escrever para revistas (“Esquire”,

New Yorker”, “Life”, “New Yor Review

of Books”) e a consagrar-se como

escritora de não-ficção. Os temas são

os da sua geração – a revolução dos

costumes e dos valores, a desorientação

dos indivíduos numa sociedade

onde os códigos e as referencias estão

em mutação. Mas com uma subtileza

de observação, uma precisão analítica

e um rigor formal que escaparam

aos seus loucos colegas do Novo Jornalismo.

Ela não descreveu apenas.

Ela quis compreender. Os fenómenos

e os mecanismos através dos quais

eles impregnam as nossas vidas. Os

media e os jornalistas, por exemplo.

A política e os seus discursos. A literatura

e o cinema. O próprio processo

de pesquisa em não-ficção. Tudo

isso preocupou e ocupou Didion. Com

inquietação e um sentido de premência,

mas sempre sob uma espécie de

nuvem melancólica de impotência.

Talvez isto a tenha empurrado para

aquele estilo intransigente e irrepreensível.

Didion, que passou a infância

fechada em casa a devorar livros,

é conhecida pelo dom de

produzir a frase perfeita. Pode levar

dias a burilar uma, a reescrevê-la, a

fazer experiências com vírgulas e preposições,

numa avidez de pormenor

que não é mais do que uma meticulosa

confissão do radical desconhecimento

do mundo que quer descrever.

A extrema racionalidade é uma defesa.

A reconstituição simbólica dos

processos. É uma mulher de rituais

e recapitulações.

Eunice Muñoz não é assim. Domina

o mundo sentindo-o intensamente.

Oriunda de uma família de artistas

de teatro e de circo, passou a infância

de terra em terra, em caravanas de

carroças pelas estradas do Alentejo,

com os actores da Trupe Carmo, a

que os pais pertenciam e onde se conheceram.

Mesmo quando não o era,

sempre foi actriz, nómada e aventureira.

Casou três vezes, e teve filhos

dos três casamentos, trabalhou como

caixa numa loja, converteu-se ao Islão,

voltou ao catolicismo. Ela vive,

experimenta, procura. “Está sempre

a questionar e a questionar-se”, diz

Diogo Infante. “O que de certa forma

é decepcionante para mim, porque

mostra que a idade não nos traz tranquilidade”.

Mas o que Eunice investiga são as

emoções, que depois simula, para

nos explicar o mundo. “Quando li o

texto pela primeira vez, não chorei”,

conta ela. “Fiquei perturbada, magoada,

mas não chorei. As lágrimas chegam

quando é preciso que cheguem.

É para isso que sou actriz”.

O facto de ser verdade

“O Ano do pensamento Mágico” é

sobre a morte do marido de Joan Didion.

“Dia 30 de Dezembro de 2003,

uma terça-feira”, escreveu ela. “Havíamos

regressado a casa. Havíamos

posto a questão: sair para jantar ou

comer em casa. Eu disse que ia acender

a lareira, podíamos comer em

casa. Acendi a lareira, comecei a fazer

o jantar, perguntei a John se queria

PEDRO CUNHA

“Dei comigo a sentir

a necessidade de estar

mais tempo com

ele [texto] do que

me é habitual. Mas,

ao mesmo tempo,

a fugir dele de vez em

quando” Eunice

Muñoz

Quando a actriz

a verdade da

uma bebida. Arranjei um uísque e

dei-lho na sala, onde ele estava a ler

no cadeirão ao pé da lareira e onde

habitualmente se sentava (...) Acabei

de fazer o jantar e puz a mesa na sala,

onde, quando estávamos sozinhos

em casa, podíamos cmer a olhar para

a lareira. Fui atiçar o fogo, porque

dávamos muita importância á lareira.

Nasci na Califórnia e John e eu vivemos

lá durante 24 anos e, na Califórnia,

aquecemos as casas acendendo

lareiras. Acendíamos a lareira mesmo

nas noites de Verão, poeque havia

nevoeiro. A lareira dizia-nos que estávamos

em casa, que tínhamos completado

o círculo, que passaríamos a

noite em segurança. Acendi as velas.

John pediu outra bebida antes de se

sentar à mesa. Dei-lha. Sentámo-nos

Será que a emocional, latina e enérgica Eunice Muñoz pode interpretar a

Após 8 anos de ausência, Eunice volta ao D. Maria II com “O Ano


à mesa. Concentrada, pus-me a mexer

a salada. John estava a falar e, no

momento seguinte, já não”.

Foi assim. Ao princípio, Joan ainda

pensou que era uma brincadeira.

“Não faças isso”, disse ao marido.

Mas não era uma brincadeira.

Escrever “O Ano do pensamento

Mágico” foi uma terapia. Descreveu

tudo, com todos os pormenores do

que viveu, sentiu e pensou, durante

um ano. E quando o livro estava terminado

ela não queria acabar de escrever,

porque precisava daquilo.

Escrever era para ela tentar compreender,

e isso era a sua forma de não

sentir. Pensar é a melhor arma contra

o sentir.

Analisou os relatórios do hospital,

estudou as características da doença,

reflectiu sobre o sentido da morte,

recorreu aos ensinamentos da geologia,

para entender os ciclos da vida

no planeta, recordou os momentos

significativos da sua própria vida.

Lembrou-se muitas vezes, e escreveu-o,

das discussões frequentes que

tinha com John. Ele dizia: “Porque é

que hás-de ter sempre razão? Porque

é que hás-de ter sempre a última palavra?

É-te impossível considerar a

possibilidade de poderes estar errada?

Ao menos uma vez na vida, deixa

estar”.

Foi descobrindo que a morte só é

morte por culpa do amor. E escrevendo,

sem querer, um livro sobre o

amor, não sobre a morte. E também

sobre a aceitação da morte.

“Ela faz-nos ver que o tempo vai

“O Ano do pensamento

Mágico” é sobre a morte

do marido de Joan Didion,

John Gregory Dunne

resolvendo tudo, pouco a pouco”. É

assim que Diogo Infante interpreta o

texto da peça de teatro que Didion

escreveu, numa adaptação do seu

próprio livro. “O tempo é a grande

paz”.

Eunice empenhou-se em sentir as

palavras de Joan. Talvez não como

ela, mas isso não a preocupou. Quando,

na peça, diz, a respeito da filha

da autora, Quintana, que estava doente

e morreria também pouco depois,

“Vais voltar a jogar ténis. Vais

salvar-te. Eu estou aqui”, sente-se

que acredita no que diz. Joan talvez

nunca tenha acreditado e a frase fosse

de uma ironia retórica e desesperada.

Mas quando Eunice diz: “Eu

quis que fizessem a autópsia, porque

acreditei que de alguma forma o pudessem

consertar”, isto é para ela um

delírio emocional, enquanto para

Joan talvez fosse pura razão, pensamento

mágico.

“O texto é muito difícil, contém

emoções muito fortes. É muito complicado

representá-lo”, explica Eunice.

“Dei comigo a sentir a necessidade

de estar mais tempo com ele do

que me é habitual. Mas, ao mesmo

tempo, a fugir dele de vez em quando”.

Eunice já representou todo o tipo

de textos dramáticos. A dificuldade

deste não é apenas a sua complexidade.

É o facto de ser verdade. Não se

trata de uma história de ficção, e isso

coloca problemas específicos à representação.

Eunice compreendeu-o.

“Sinto o texto de outra maneira,

por saber que isto é verdade, aconteceu

mesmo. Emociono-me muito

mais, por causa disso. É completamente

diferente”.

Quando diz, no início da peça, sentada

sozinha no meio do palco, numa

cadeira de braços de veludo vermelho

igual às da plateia do D. Maria, “Isto

aconteceu a 30 de Dezembro de 2003.

Pode parecer-lhe que foi há muito

tempo, mas não vai parecer quando

acontecer consigo. E vai acontecer

consigo. Os pormenores serão

diferentes, mas vai acontecer

consigo”, o que ela quer dizer

é exactamente o que Joan

quis dizer. E quando diz “Por-

que é que hás-de ter sempre

razão? Porque é que hás-de

ter sempre a última palavra?

Ao menos uma vez

na vida, deixa estar”,

olhamos para a octogenária

Eunice, para a corpulenta

Redgrave e para a

frágil Joan Didion e vemos

que são iguais.

Ver agenda teatro págs. 47 e

segs

interpreta

a morte

r a história real da frágil e racional Joan Didion? Pode.

do Pensamento Mágico”. Paulo Moura

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 23


Durante os

oito anos que

esteve na Casa

Branca, nunca

deixou de

anotar, ao fim

do dia e numa

letra miúda, o

que vivera e

sentira. Só não

o fez durante

os dias em que

esteve

internado na

sequência do

atentado de

que foi vítima

JEROME DELAY/AFP

O Presidente

que não tinha

medo de

escrever para

a História

São inúmeros os sinais de que havia uma enorme distância entre a imagem que se fazia de Ronald R

humano, escrito a quente, à medida dos seus encontros de Estado. Também com desabafos f

Livros

Quem se arrisca a escrever um diário?

E um diário sincero, humano, escrito

a quente? Muito poucos – e quase nenhuns

se pensarmos em líderes políticos.

Menos ainda se pensa guardálos

e, depois, os deixa à disposição de

quem queira publicá-los.

Não por acaso, apenas um Presidente

dos Estados Unidos o fez no século

XX: Ronald Reagan. Durante os oito

anos que esteve na Casa Branca, o

“grande comunicador” nunca deixou

de anotar, ao fim do dia e numa letra

miúda inconfundível, o que vivera e

sentira. Só não o fez durante os dias

em que esteve internado na sequência

do atentado de que foi vítima.

Em todos os outros dias preencheu

folhas e folhas de leitura ao mesmo

tempo divertida e luminosa, como

assumiu um surpreendido Christopher

Hitchens, ele que fazia parte da

escola de jornalistas de Washington

que considerava que Reagan devia

possuir mais cavalos do que livros.

Ou, indo directamente ao assunto:

“Durante muito tempo nem teria

acreditado que Ronald Reagan conseguisse

ler estes diários, quanto mais

tê-los escrito”, confessou aquele que

é hoje uma das grandes estrelas do

jornalismo norte-americano.

Já passaram mais de vinte anos desde

que Reagan deixou a Casa Branca

e continuamos a ser surpreendidos

com facetas de um Presidente de que

muito se escarneceu mas que, hoje,

a generalidade dos historiadores coloca

entre os dez mais importantes

da história dos EUA.

Antes da revelação destes “Diários

de Reagan” – não se trata da transcrição

completa do conteúdo dos quatro

volumes guardados na Biblioteca Reagan,

mas de um terço, com os restantes

dias sintetizados pelo editor, o

historiador Douglas Brinkley – a edição,

há meia dúzia de anos, das cerca

de mil intervenções na rádio que o

antigo Presidente fez entre 1975 e 1979

surpreendera a opinião pública. Es-

MIKE SARGENT/AFP

Constante,

incontornável

nestes

diários:

o amor por

Nancy,

que leva Reagan

a citá-la a cada

passo

24 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


Reagan e o que ele era. Estão em “Os Diários de Reagan” - diário sincero,

s familiares. E uma constante: o amor por Nancy. José Manuel Fernandes

Já passaram mais de

vinte anos desde que

Reagan deixou a Casa

Branca e

continuamos a ser

surpreendidos

com facetas de um

Presidente de que

muito se escarneceu

critas pelo próprio, revelaram, como

escreveu na altura o “New York Times”,

que “o Grande Comunicador

escrevia e pensava melhor do que até

os seus fãs imaginavam”. O “Washington

Post” era ainda mais elogioso,

considerando que aquelas intervenções

radiofónicas “eram próprias de

um visionário que viu antes e mais

longe qual o caminho da história”.

Estes deiários não têm – não podiam

ter – a densidade dessas intervenções,

mas revelam muito sobre o

homem e sobre o Presidente. Tanto

que é surpreendente como Reagan se

atreveu a deixar para a posteridade

aquilo que ia vivendo e sentido no diaa-dia,

desde as suas primeiras impressões

ao encontrar-se com um estadista

até aos desabafos familiares, passando

por uma impressão causada

por uma paisagem ou um sentimento

religioso. Só alguém com extraordinária

auto-confiança e uma relação

com a vida de um optimismo inabalável

arriscaria deixar para consulta

dos historiadores um retrato tão íntimo

e, até nas omissões, verdadeiro.

Beirute, Granada...

Quando iniciamos a sua leitura começa

por apetecer ter ao lado uma

cronologia dos eventos, até para perceber

melhor alguns dos acontecimentos

a que Reagan se refere. Porém,

depressa nos deixamos cativar

pela fluência das notas, quase todas

breves e que saltam de tema em tema

tantos os assuntos que, todos os dias,

poisam sobre a secretária de um Presidente

dos EUA. Onde, percebe-se

logo no início, não é o sítio onde gosta

mais de estar: “O que vai ser rotina

– todo o dia na Sala Oval”, 2 de Fevereiro

de 1981. Prefere, por exemplo,

algo como viveu a 10 de Fevereiro:

“Grande dia. Ligaram-me a uns gravadores.

David Brinkley anda a fazer

‘um dia na minha vida’ para a TV, que

vai passar sexta-feira. As suas câmaras

andam atrás de mim para todas

as reuniões, etc., e eu ligo o som para

as coisas que se pode & desligo para

os balanços das reuniões”. Um “grande

dia” que terminaria no Centro

Kennedy para ver o Harlem Ballet,

um “grupo que representa o esforço

de um homem para tirar as crianças

das ruas de Harlem & fazer com elas

alguma coisa, e conseguiu”.

Logo no dia seguinte, 11 de Fevereiro

de 1981, vem uma das notas mais

divertidas – “Relatórios dos serviços

de informações a dizer que Castro está

muito preocupado comigo. Eu cá

estou muito preocupado por não conseguirmos

fazer nada que justifique a

sua preocupação”. Mas fariam.

Em algumas das biografias de Reagan

– e também em alguns ensaios

sobre a Guerra Fria – dá-se especial

atenção a uma das suas primeiras decisões

de enviar tropas para uma operação

exterior: a intervenção em Granada.

Poucos dias depois de um golpe

de Estado comunista, respondendo

ao apelo de outras nações caribenhas

e invocando a necessidade de resgatar

800 estudantes americanos, Reagan

ordenou uma intervenção na ilha que

restauraria a anterior Constituição e

marcaria um volte-face na Guerra

Fria: pela primeira vez desde a Guerra

da Coreia o Ocidente conseguia

impedir que mais um país passasse

para a órbita da União Soviética. Estava-se

em Outubro de 1983, em dias

dolorosos para os Estados Unidos,

pois em Beirute um dos primeiros

atentados suicidas provocara mais de

100 vítimas entre os Marines deslocados

no quadro de uma força de Paz.

Lendo as entradas referentes a esses

dias verificamos que até a Dama de

Ferro, Margaret Thatcher, telefonou

manifestando a sua preocupação com

a hipótese de uma intervenção americana.

Tarde demais: “Não lhe podia

dizer que já tínhamos avançado. Foi

um segredo que conseguimos mesmo

manter” (24 de Outubro de 1983). Três

dias depois, quando já tudo estava

resolvido em Granada, Reagan fez um

discurso. “Dei o meu melhor para explicar

o que os nossos Marines estavam

a fazer em Beirute & depois expliquei

Granada. A ABC sondou 250

pessoas antes do discurso, a maioria

estava contra nós. Sondaram as mesmas

pessoas depois do discurso e houve

um completo volte-face. Chegaramnos

milhares de chamadas & telefonemas

de todo o país mais do que em

qualquer outro discurso ou comunicado

que fizemos desde que aqui estamos

– 10 para 1 a nosso favor”.

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 25


DENNIS PAQUIN/REUTERS

MIKE SARGENT/AFP

Reagan, antes

dos seus

conselheiros,

teve a intuição

de que

Gorbatchev

era um líder

soviético

“diferente”

Reagan preencheu

folhas e folhas

de leitura divertida

e luminosa,

como assumiu um

surpreendido

Christopher Hitchens,

ele que fazia parte

da escola

de jornalistas

de Washington que

considerava

que Reagan devia

possuir mais cavalos

do que livros

Este episódio marca um dos muitos

momentos de tensão com os jornalistas

– os tais que, na época e tal

como Christopher Hitchens, desprezavam

Reagan. Vale a pena ler a entrada

de 30 de Outubro: “Vi os talkshows

de domingo – temas Líbano e

Granada. A imprensa está a tratar isto

como se fosse o Vietname, mas não

me parece que as pessoas comprem

a ideia. Ainda se lamentam por não

os termos levado numa visita guiada

no 1º dia em Granada. Não dizem é

nada do facto de hoje termos levado

à ilha 180 jornalistas”.

Esta tensão com a imprensa reaparece

por diversas vezes, mas tem um

dos seus momentos mais intensos

quando Reagan decide visitar um cemitério

militar alemão em Maio de

1985. A convite de Helmut Kohl, que

queria marcar o aniversário do fim da

II Guerra “como fim do ódio & começo

da amizade & paz que durou 40

anos”. Tudo “foi descrito como se eu

estivesse disposto a homenagear os

antigos nazis, mas a tentar esquecer

o Holocausto”.

Dias a fio as entradas no diário referem

o tema, que Reagan chega a

classificar com o “meu caso ‘Dreyfus’

– a visita ao cemitério alemão”. Relata

as pressões a que mesmo o seu

“staff” o submeteu para alterar o programa,

mas não cede e mantém o

compromisso com Kohl: irá ao cemitério

de Bitberg – onde repousam soldados

da Wehrmacht –, tal como irá

ao campo de concentração de Bergen-

Belsen. Até que, a 5 de Maio, anota:

“Nasce o dia de que o mundo anda há

semanas a ouvir falar...”

É uma entrada longa e sentida, que

começa com a visita a Bergen-Belsen

e um discurso onde prometia “nunca

mais”, passa pelo momento “verdadeiramente

dramático” em que dois

generais, veteranos da II Guerra, dão

um aperto de mãos, e termina com a

indicação de que, depois dos seus

discursos, a opinião pública voltara

a estar do seu lado. “Sempre me pareceu

a coisa a fazer moralmente correcta”.

Mário Soares, Gorbatchev...

Nessa mesma viagem à Europa Reagan

passará por Lisboa e encontrarse-á

com Mário Soares – “cobrimos

uma variedade de assuntos com grande

entendimento sobre todos eles” –,

foi almoçar ao Palácio da Pena – “fomos

num Ford Grenada porque as

limusinas não conseguiam chegar ao

palácio devido à estreiteza da estrada

& curvas apertadas” – e assistiu em

Belém, ao lado de Eanes, a um espectáculo

com Cavalos Lusitanos – “dressage

à maneira dos Lippizzaner de

Viena & muito bom”.

É esta mesma franqueza, muito

terra-a-terra, que encontramos quando

lemos as entradas referentes aos

dias em que se encontrou com Gorbatchov

– primeiro na Suíça, depois

na Islândia, a seguir em Washington

e em Moscovo e, por fim, em Nova

Iorque. Se ao princípio o via como um

“ideólogo”, condição para ter sido

eleito secretário-geral do todo-poderoso

PCUS, nota-se que a relação vai

evoluindo e que Reagan, antes dos

seus conselheiros (entre os quais se

incluíam o actual secretário da Defesa,

Robert Gates), tem a intuição de

que Gorbatchev é um líder soviético

“diferente”. Um sinal disso, assim como

de como a realidade nua e crua o

estava a fazer evoluir, pode ser encontrado

na entrada referente 5 de Outubro

de 1986: “Um telefonema a contar

que está a arder um Sub. Nuc. soviético

umas centenas de milhas a norte

das Bermudas. Andam por perto navios

russos – não há risco de acidente

nuclear. A mensagem foi de Gorbatchev.

Chernobyl parece que teve os

seus efeitos”.

Mas tal como aborda os seus encontros

ao mais alto nível deixando notas

sobre o que estava em discussão e como,

por exemplo, iam progredindo

as negociações sobre desnuclearização

do mundo – diminuir o número

de armas nucleares parece ter sido,

apesar de tudo o que na altura se escreveu,

uma das suas obsessões –, não

deixa de acrescentar pequenos apartes.

Na cimeira de Washington, na

Casa Branca, com Gorbatchev, precisamente

aquela em que um dos acordos

seria assinado, no diário também

se assinala que “ele & Raisa chegaram

numa limusina construída na Rússia

que é maior do que qualquer das nossas”

(8 de Dezembro de 1987). Ou que

o serão na Embaixada Soviética foi

“muito agradável” só que “perdi conta

ao número de pratos, mas eles não

paravam de aparecer...”

A par destes encontros de Estado

e infindáveis referências às constantes

negociações com o Congresso para

fazer aprovar a mais pequena das leis,

estes diários surpreendem-nos em

alguns dos seus pormenores. É curioso,

por exemplo, ficar a saber que

filme viu o Presidente (tinha gosto por

clássicos americanos) ou como, por

mais de uma vez, uma notícia que lê

num jornal ou vê na televisão o leva

a intervir. Eis um caso relatado a 3 de

Maio de 1982:

“Esta manhã li sobre uma família

negra – marido e mulher ambos a trabalhar

no gov., serviço de edições.

Vivem numa casa perto da Univ. de

Maryland. Têm sido atormentados e

chegaram a pôr-lhes uma cruz a arder

no relvado. Veio tudo na primeira página

do Post. Disse ao Mike e ao Jim

que gostava de falar com eles. Limpámos

a última parte da agenda para a

tarde e Nancy & eu fomos lá. É um

casal muito simpático com uma filha

de 4 anos – a avó (senhora encantadora)

vive com eles. A casa é muito

bonita e decorada com gosto. Foram

muito simpáticos por irmos lá e exprimiram

os seus agradecimentos.

Todo o bairro veio à rua – a maior parte

deles a aplaudir-nos. Espero que

tenhamos servido para alguma coisa.

Nesta terra não há lugar para quem

incita ao ódio ou para racistas”.

Propaganda? Nenhum político deixa

de ter em consideração o impacto

dos seus actos públicos, e nesse dia

o gesto teve naturalmente repercussão,

mas o que escreveu no diário só

foi conhecido agora, quase três décadas

depois, e depois de ter morrido.

Mas são inúmeros os sinais de que

havia uma enorme distância entre a

imagem que se fazia de Reagan e o

que ele realmente era. Isso, por vezes,

exasperava-o. Eis um exemplo,

retirado da entrada de 28 de Janeiro

de 1982: “Nancy & eu visitámos a exposição

sobre FDR no Smithsonian.

Depois regresso à CB (Sala Leste) para

almoço que juntou toda a família

Roosevelt mais muitos que serviram

na sua administração & políticos actuais

de ambos os partidos. A imprensa

está mortinha por me retratar como

alguém que está a demolir o New

Deal. Recordo-lhes que votei 4 vezes

em FDR. Estou a tentar demolir é a

Great Society. Foi a guerra de LBJ [Jonhson]

contra a pobreza que nos colocou

no sarilho em que nos encontramos

agora”.

Reagan foi, com efeito, o primeiro

Presidente republicano a incorporar

o New Deal no ideário do partido, e

só alguém com as ideias bem claras

(o político dos mil programas de rádio)

podia ser tão claro e directo naquela

distinção.

Não se espere, contudo, encontrar

neste livro um tratado de política. O

que é mesmo constante, permanente,

incontornável, é o seu amor por

Nancy (e, de forma mais intermitente,

as suas desavenças com os filhos). Esse

amor leva-o a citá-la constantemente

e a escrever declarações tão bonitas

como esta, logo a 4 de Março de 1981:

“Nosso aniversário de casamento. 29

anos de felicidade maior que a que

qualquer homem pode devidamente

merecer”.

Ronald Reagan, tal como era.

26 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


Livros

FOTOGRAFIAS DE NUNO FERREIRA SANTOS

Os álbuns “Ana” (1993), “A História

do Tesouro Perdido” (1994) e “A Tribo

dos Sonhos Cruzados” (2003), escritos

por Nuno Artur Silva e desenhados

por António Jorge Gonçalves,

fornecem um retrato de um herói enquanto

jovem. Filipe Seems.

São a biografia de uma pessoa, que

só por acaso não é de carne e osso; e

de uma cidade, Lisboa, imaginada

por ele.

A BD começou por ser publicada no

semanário “Sete”. Depois em álbum.

Depois fez-se a adaptação para teatro,

na peça “Conspiração”. Primeiro protagonizada

por Nuno Lopes, depois

por Marco de Almeida. Os restantes

cúmplices eram Sandra Celas e

Kalaf, música de Armando Teixeira,

coreografia de Amélia Bentes.

A peça deriva do terceiro tomo, “A

Tribo...”, uma novela gráfica, mais

do que um álbum BD. A versão vídeo,

realizada por Pedro Macedo, está agora

a ser lançada numa caixa que reúne

todos os álbuns, o DVD e desenhos

originais.

Muitos anos depois, fecha-se um

ciclo. Formalmente fecha-se um ciclo.

António Jorge Gonçalves e Nuno Artur

Silva já não são os mesmos. E Seems?

Por onde se começa? A compor

uma ficção, a desvendar um mistério,

“Em termos práticos,

nasci em 1993,

ano em que me

inventaram.

Mas as minhas

histórias passam-se

num futuro mítico...”

Filipe Seems

a amar uma cidade. Talvez pela luz

dourada sobre o rio, que é um mar.

Pela vista esplêndida. Por uma cena

assim: sapatos de detective pousados

sobre a secretária, uma mulher óbvia

e ondulante que entra pela porta, uma

citação de Picasso. “D’abord on trouve,

puis on cherche”. Primeiro encontra-se,

depois procura-se. Este será o

“modus operandi” deste detective.

Escolher o enigma e não a solução.

Seems, Filipe Seems. Parece que.

Pistas, não provas

O ambiente de Seems: não há vestígios

da soturnidade do “film noir”

Lisboa, 1992.

Dois amigos.

Nuno Artur

Silva, António

Jorge

Gonçalves.

Hoje já não

são os

mesmos. E

Filipe Seems?

Filipe Seems,

um rapaz de Lisboa

Filipe Seems: herói de uma Lisboa imaginária, literato, detective dado ao anagrama e à caça

ao tesouro. Tanto pode nadar com golfinhos no Tejo como perder-se no labirinto de jardins

que se bifurcam de Borges. Uma irrealidade. Bastante real nos álbuns de Nuno Artur Silva e

António Jorge Gonçalves, na peça “Conspiração” e no DVD que regista a peça. Tudo numa

caixa acabada de ser lançada. Anabela Mota Ribeiro

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 27


Lisboa era uma cenografia pronta

a receber histórias. Uma cidade com

potencial extraordinário. E havia

histórias por contar e imagens

para desenhar

ou do romance “à la” Chandler.

Mas melancolia, sim. Não há citações

de Cesário, mas de Pessoa. (Há uma

prancha em que se lê, no café, o “Livro

do Desassossego”). Não há mortos.

E é verdade que a primeira vez

que alguém diz: “mãos ao ar”, o que

se aponta é uma máquina fotográfica

– arma dos tempos modernos, objecto

conhecido e identificado.

Viramos a página. Subitamente,

canais junto ao elevador de Santa Justa,

gôndolas venezianas, escadas,

escadas. Uma Lisboa impossível. Um

objecto de desejo.

Começamos, de novo: o problema

essencial é o problema de Seems.

Que caminho seguir. Que escolha fazer.

Qual é o fio da nossa história.

Perante a bifurcação permanente,

que narração escolhemos, de que

narração fazemos parte. Tudo perguntas,

tudo questões, deixadas em

aberto. Não interessa a resposta, interessa

o caminho para lá chegar.

O princípio mesmo. Lisboa, 1992.

Dois amigos. Nuno Artur Silva, António

Jorge Gonçalves. “Lisboa era uma

cenografia pronta a receber histórias.

Uma cidade com um potencial extraordinário.

E havia histórias por contar

e imagens para desenhar”, diz o

argumentista.

Percorreram a cidade uma e outra

vez. Fizeram “repérage”, como

quando se prepara um filme. Mas a

pensar em álbuns de BD. Escolheram

“décors”, escolheram o ângulo, escolheram

o absurdo que lhes apetecia.

Por exemplo: “Acho que vou dar

um mergulho”, e a seguir estão golfinhos

a nadar no Tejo. Ou o Terreiro

do Paço, completamente inundado,

como se fosse S. Marcos em dias

de maré alta.

Tudo isto sem gastar dinheiro ou

Tudo o que a BD permite, de

modo simples e imediato.

Misturar o universo borgesiano

com Philip K. Dick. Cruzar um

passado mítico e visões

futuristas

pedir autorizações. Ao contrário dos

filmes. Coisas que a literatura permite.

E também há, por falar em Lisboa

absurda, a imagem poética da cidade

coberta de neve. Neve espessa, de

um branco opaco.

O cenário era este. Depois, era preciso

um herói que ligasse os pontos,

que lhes desse um sentido, que contasse

uma história. Que a contasse à

medida que a descobre. Descobrir,

procurar – nesta ordem. Podia ser um

poeta, mas é um detective. Faz o que

fazem os detectives: segue as pistas.

Outra citação, René Char: “Um poeta

deve deixar pistas e não provas;

Só as pistas fazem sonhar”.

Múltiplos sentidos

Filipe Seems. “Em termos práticos,

nasci em 1993, ano em que me inventaram.

Mas as minhas histórias

passam-se num futuro mítico. Será

2016, 2020? Se quiser, eu não tenho

tempo, eu não tenho idade. Sou uma

ficção, uma utopia. O que está por

trás de mim é a ideia de que todos

somos obras de ficção. Vivo numa

cidade mas esta cidade não é só a

cidade real. Aliás, esta cidade é sobretudo

a cidade irreal. É a cidade

que eu posso transformar. É a cidade

em que, na esquina, posso ter aquele

jacarandá e imaginar tudo o que

quiser: gôndolas venezianas, naves

espaciais. Esta cidade tem pessoas.

Cada pessoa é uma obra de arte, uma

obra de ficção. O meu cruzamento

com essas pessoas tem que ser um

cruzamento que provoque, que estimule,

que inspire. Eu tenho que ter

uma existência literária. Eu quero

ter uma existência literária. Porque

essa é a forma de viver inspiradamente”.

O excerto é retirado de uma entrevista

de 2003, a única entrevista dada

por Seems. Ou seja, por Nuno

Artur e António Jorge a responderem

na pele de Filipe Seems.

Da mesma entrevista.

“Qual é o seu passado? Que infância

foi a sua?

– Que quer que lhe diga? Em miúdo,

vivi num bairro típico de Lisboa,

fui o miúdo do Molero [‘O que diz

Molero’, Dinis Machado]. Joguei à bola

no meio dos outros miúdos. Depois

fartei-me de viajar sem nunca sair do

bairro. Depois isolei-me. Fartei-me

de ler, de ver filmes. Continuei a viver

no mesmo sítio, mas virado para dentro

da minha cabeça. Foi esse o lugar

onde sobrevivi.

Tem mãe? Foi embalado?

- Não. Ou se tive, também foi uma

ficção. Não esqueça que eu não tenho

o problema de pagar a renda, não

penso em dinheiro. Sou apenas uma

personagem perdida num labirinto

de possibilidades, condenada a errar

eternamente nesse labirinto”.

Coisas, factos, imagens do labirinto:

um passageiro numa noite de Verão,

um gato elegante que vai à frente.

Passeia no telhado, sem que isso

pareça um número equilibrista. Funambulismo

não é uma palavra usada.

Mas serendipidade sim. (Serendipidade:

faculdade de fazer descobertas

felizes e inesperadas, por

acidente). Palavra essencial na música

do acaso de Seems.

Há números de circo (e moda) na

Basílica da Estrela. Uma evocação de

Pessoa ao volante de um Chevrolet,

numa estada de Sintra. Há pessoas

que comunicam pelo computador

antes de o skype ser uma ferramenta

de todos os dias. Há sessões de

psicanálise, amigos cientistas, uma

guia que acha que o ideal é deixar

que os seus turistas se percam. Prestidigitadores,

visões caleidoscópicas.

Um azul árabe. Esquinas, jogo de

sombras, edifícios oblíquos. Gaivotas

esparsas. Roupa dependurada na janela.

Temperatura solar. E Jorge Luís

Borges, omnipresente.

Mais factos: “Convidei-a para um

pequeno-almoço, a luz da manhã

invadia os telhados”. Era n’ A Brasileira,

e A Brasileira era mesmo A

Brasileira. O mesmo recorte. Não

havia coisas estrambólicas – ao tempo

– e que depois não seriam tão estrambólicas

assim. Como o comboio

a passar debaixo da ponte 25 de

Abril. (De certa maneira, Seems

apresenta também uma Lisboa premonitória).

Há bicicletas que andam no ar,

com um balão. Um funicular liga a

Baixa e o castelo de S. Jorge. Um eléctrico

igual ao 28 que percorre as colinas

de Lisboa e onde fanam carteiras

aos turistas.

Detenhamo-nos no eléctrico. No

primeiro álbum, “Ana”, é um funicular.

No segundo, “A História do Tesouro

Perdido”, há um bar que funciona

num eléctrico chamado Desejo.

(Sem Blanche Dubois à vista). No terceiro,

“A Tribo dos Sonhos Cruzados”,

o eléctrico é o mesmo, mas eles

não. O eléctrico aporta numa estação

soturna, com estalactites e estalagmites.

(Cesário nunca vem ao caso). E

por isso, o espaço que atravessa é

subterrâneo, “dark”, perdido do seu

sentido.

O fio principal: “O primeiro álbum

tem a ver com o universo das histórias.

É dominado pela errância do

personagem e pela frase de Picasso.

A partir daqui, quis fazer arte pop.

Colagem, mistura, cruzamento, sobreposição.

Tudo o que a BD permite,

de modo simples e imediato. Misturar

o universo borgesiano com Philip K.

Dick. Cruzar um passado mítico e visões

futuristas. A Costa da Caparica

que aparece é a do [modernista] Cassiano

Branco (de um projecto que

nunca se chegou a concretizar). Tudo

num só tempo”.

Tudo cheio de múltiplos sentidos,

múltiplos fios. Um exemplo: Maria

Kodama, dona de uma clínica de clonagem

em “Ana”, é o nome da mulher

de Jorge Luís Borges. Alice Lidell, que

dá nome à clínica, é o nome verdadeiro

da Alice do país das maravilhas.

Nada elementar, meu caro Seems.

Voltamos a Nuno Artur Silva e ao

coração destas fábulas: “O António

Jorge queria desenhar luz, luz, luz.

Eu gosto de histórias de tesouros.

Qual é o sítio mais improvável para

enterrar um tesouro e encontrar um

marinheiro? No meio do deserto”.

N’“A História do Tesouro Perdido”

mistura-se Casablanca e a “Ilha do

Tesouro” de Stevenson, Corto Maltese

e os Descobrimentos Portugueses,

Al Berto aparece, “himself”, como

director de um museu, há um misterioso

casal de atlantes. Mas os andróides/atlantes/replicants

vêm do primeiro

álbum. Numa citação explícita

de “Blade Runner”, e Harrison Ford

cara a cara com Filipe Seems.

E o tesouro? “Mais importante é

28 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


estar na pista do que encontrar no

tesouro”, diz Nuno Artur.

Sempre a mesma ideia base.

Dez anos mais tarde, no terceiro tomo

da trilogia, em vez de um tom luminoso

e solar, há fantasmas por resolver.

Tudo se passa no “underground”,

nos subterrâneos dele próprio – Seems

– e de Lisboa. Sombras e nevoeiro. Escuro

dentro. Talvez seja sempre

noite. Seems sem conseguir ver o dia.

Cidade em escombros. Corredores e

corredores de metro. A única imagem

solar é a dos Jerónimos transformados

em praia tropical. Bizarro.

E há um fio condutor, roubado a

Chatwin, que por sua vez o roubou

aos aborígenes do deserto australiano.

Os tais que se guiam por canções

e não por mapas. (Roubar é um modo

de dizer.) Quando se muda o sentido,

o caminho, o fio? Quando acaba

a canção.

Durante os anos

que se seguiram ao

‘Tesouro’, pensei

que o Filipe Seems

tinha morrido -

achava que não

voltariamos a

trabalhar naquilo.

A ‘Tribo’ nasce de

um reatar

Filipe Seems deve, então, seguir a

sua “songline”. Sair dos escombros.

(Todo o cenário do último álbum,

aliás, é pré e pós apocalíptico). Uma

rede terrorista faz atentados. A sociedade

sucumbe a uma “overdose”

de imagens e sons. É preciso chegar

ao silêncio. Soterrado, soterrado. Filipe

Seems precisa de abrir uma fenda

no muro.

António Jorge Gonçalves: “O segundo

livro aparece colado ao primeiro

porque sentimos que ‘Ana’ sofria de

erros de principiantes e da planificação

página a página para um jornal.

O ‘Tesouro’ foi uma espécie de ajuste

de contas. Durante os anos que se

seguiram ao ‘Tesouro’, pensei que o

Filipe Seems tinha morrido - achava

mesmo que não voltariamos a trabalhar

naquilo (apesar de sempre existir

a ideia de uma terceira história).

A ‘Tribo’ nasce de um reatar. N’‘A Tribo’,

somos outros a revisitar um lugar

onde muito tinha acontecido”. Graficamente,

é outro objecto. “Achei que

era eu que estava a marcar demasiado

a diferença por incapacidade de

voltar a uma linguagem de ‘juventude’;

mas a certa altura percebi que o

Nuno também não era o mesmo, e

que já tínhamos mudado de século,

e que já tinha acontecido o 11 de Setembro,

e que...”

E que coisas querem dizer? “Nos

dois primeiros queríamos apenas

jogar; no terceiro precisámos dizer.

O meio da banda desenhada (essa

pequena aldeia de irredutíveis) não

aceitou muito bem essa diferença e

acho que decepcionámos alguns fãs.

Mas para mim é límpida a supremacia

do autor sobre o leitor numa obra

(quer dizer: o autor fá-lo por necessidade,

não escolhe. O leitor tem a

liberdade de decidir se quer ou se

não quer)”.

Onde começou a alucinação?

“A mulher que comigo agora se cruza

é o meu grande amor e ambos ainda

não o sabemos. O homem que saiu

do táxi tem uma missão: vai salvar doze

pessoas e ainda não sabe. O outro,

que entrou no táxi, é um assassino,

vai atrás da sua vítima, e sabe-o”.

Linhas, fios, histórias, enredos. Viver,

literariamente, que é como vivemos,

talvez se trate de encontro e

desencontro. O problema talvez seja

desencontrarmo-nos dos nossos passos,

ou seja, da nossa ficção. Mas há

sempre outra ficção…

Filipe Seems diz: “Tudo é ficção,

acaso e destino, labirinto e jogo”.

“Faites vos jeux”, os fios estão lançados.

ESTÚDIO

Nuno Ramalho & Renato Ferrão

Exposição de 11 de Novembro até 22 de Janeiro de 2010

Horário: de quarta-feira a sábado, das 15h às 20h

Visita guiada com os Artistas e com Bruno Marchand

(autor do texto do catálogo)

11 de Dezembro, sexta-feira, às 18h30

fundação carmona e costa

Edifício Soeiro Pereira Gomes (antigo Edifício da Bolsa Nova de Lisboa)

Rua Soeiro Pereira Gomes, Lte 1- 6.º D

1600-196 Lisboa

(Bairro do Rego / Bairro Santos)

Tel. 217 803 003 / 4

www.fundacaocarmonaecosta.pt

Autocarro: 31

Metro: Sete Rios / Praça de Espanha /

/ Cidade Universitária

música

Moritz

von Oswald Trio

Vertical ascent

25 Novembro 22h00

12€ M/6

www.teatromariamatos.pt

Bilhetes à venda:

Teatro Maria Matos 218 438 801

(Alemanha)

menores

30 anos

5€

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 29


Um rom

com

de e

CARLOS LOPES/ARQUIVO

Livros

Quando Olivier Rolin esteve em Lisboa

no Verão acabara de chegar do

Azerbaijão. Foi lá por uma razão especial:

quis enfrentar a morte.

“Se quiser conto-lhe a história.

Quando escrevi o livro ‘Suíte no Hotel

Crystal’ [ed. Asa], que se passa em

quartos de hotel, o autor, que se chama

Olivier Rolin, supostamente morre

em 2009, no Azerbaijão, no quarto

1123 do hotel Abseron, em Bacu. E

este ano estamos em 2009. Muitas

pessoas me disseram para não ir ao

Azerbaijão. ‘Se fores convidado evita

ir’, diziam-me. Não liguei e quis ir.”

Foi ao Azerbaijão, em 2009. E sobreviveu.

Passou ali um mês, tirou

notas e agora tenta escrever um livro

que não é um romance, é de um género

difícil de definir, entre o diário

de viagem e o literário. “Será um diário

de um tipo que está em Bacu à

espera da morte”, diz o escritor francês,

62 anos, que continua a navegar

no seu barco, “para sentir o vento”,

e continua a escrever na sua casa na

Bretanha.

Muitos dos seus livros acontecem

por causa de viagens. Foi também o

caso de “Um Caçador de Leões”, que

acaba de ser publicado na Sextante.

Há 27 anos Rolin ainda era jornalista,

estava em Punta Arenas, no Chile,

entrou numa livraria e comprou um

livro sobre as explorações do Grande

Sul. Chamava-se “Pequena História

Austral” e aí ficou a saber que um

francês chamado Pertuiset tinha levado

até à Terra do Fogo, em 1873,

uma expedição rocambolesca. Nesse

livro havia a imagem desse homem,

dizia-se que era um traficante de armas.

Muitos anos depois, Rolin foi ao

Brasil participar no Festival Literário

de Paraty e passou por São Paulo onde,

no Museu de Arte criado por Assis

Chateaubriand, viu o quadro de

Manet “O Caçador de Leões”, onde

O quadro de

Manet “O

Caçador de

Leões”, onde o

traficante de

armas

Pertuiset

aparece

representado,

está na

origem

do livro

de Rolin

Olivier Rolin e

traficante de armas, u

era o género que a

Do cruzamento d

30 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


o traficante de armas Pertuiset aparece

representado. Tem uma arma

apontada a um leão morto, estendido

no chão, com um buraco no olho esquerdo

onde o sangue já escurece.

Foi por causa do imenso tempo que

passou entre a primeira vez que soube

da existência de Pertuiset e a segunda

vez que ele se atravessou na

sua vida, que Rolin teve vontade de

escrever sobre a personagem.

“Se há 27 anos, quando soube da

sua existência no pequeno livro comprado

em Punta Arenas, eu tivesse

sabido que existia também este quadro

de Édouard Manet, isso divertirme-ia

mas não me levaria a escrever.

O que fez com que me decidisse a

escrever foi tê-lo encontrado quando

eu já era uma outra pessoa.”

Anotar como um pintor

Na primeira vez que soube desta história

Rolin ainda não tinha escrito

qualquer livro, era um jovem, jornalista.

“Era eu, mas completamente

diferente.” E depois, vinte cinco anos

passam, “são os anos em que escrevo,

passei a ser um escritor e reencontroo

uma vez mais. Foi por isso, como

digo nas páginas finais do romance,

foi o tempo, foi por bastante tempo

ter passado entre as duas aparições

que quis escrever sobre ele.”

Passou então seis, oito meses a

documentar-se, a ir ao Peru, ao Chile,

à Terra do Fogo, às Bibliotecas Nacionais

de Lima e de Santiago para ler

os jornais da época. “Tomo sempre

muitas notas e fi-lo sobre as coisas

que li nas bibliotecas e vi nos lugares.

Comecei a escrever mas não o fiz como

queria. A minha ideia no início

era fazer um livro como se fosse a

sala de exposições de um museu e

que cada capítulo fosse um quadro.

No fundo queria ter uma cena por

capítulo: como num quadro, uma só

coisa mostrada, uma cena, um grupo.

Queria fazer uns cem quadros mas

depois, quando comecei a escrever,

não tomou essa forma. Os capítulos

ficaram mais clássicos.”

Mas ficou algo dessa ideia. Há em

“Um Caçador de Leões” algo de muito

visual. “Acho que nos meus livros

sou sempre visual, muito atento às

cores, aos desenhos, à forma das coisas.

Praticamente não há diálogos. O

que me interessa não são as palavras

trocadas é mais a aparência visual das

coisas. Neste livro nota-se ainda mais.

Quando vou a qualquer sítio, ao Peru,

à Terra do Fogo, vou com o meu caderno

de notas e o que tento fazer é

mance

anotar como se fosse um pintor, a cor

do céu, da terra. Neste livro queria

que a cada passo pudéssemos ver as

coisas, que fosse uma escrita que libertasse

as imagens.”

É tudo verdade

Apesar disso escreve “Um Caçador

de Leões” de forma sequencial, sem

dificuldades, sem hesitar muito. “Instintivamente,

na enorme quantidade

de documentos que recolhi, sabia o

que me interessava, que histórias

queria contar e as que não me interessavam.”

Neste livro por onde passa a história

de Édouard Manet (que morre com

grangena aos 51 anos – 1832/1883) e

do seu admirador e modelo ocasional,

Eugène Pertuiset (aventureiro e caçador

de leões), acontecem muitas coisas

ao mesmo tempo e, por vezes, até

em tempos diferentes. Lê-se como um

romance de aventuras. Rolin confessa

que queria fazer “alguma coisa que

evocasse” um romance de aventuras

mas que não o fosse. Na verdade, queria

que fosse um romance sobre a arte

(já que Manet era a outra personagem)

e que também existisse um lado

autobiográfico. “Um lado de memória,

de diário pessoal porque o narrador

sou eu.”

O que nos leva a perguntar-lhe se

todas as histórias são verdadeiras.

“Tudo o que se diz sobre o narrador

é verdadeiro. Em quase todos os livros

incluo-me de maneira dissimulada.

Aqui não foi isso que aconteceu: é tudo

verdade.”

“Tudo aquilo que digo sobre Manet

também não é inventado, quando falamos

de um grande artista não temos

o direito de o deformar. Por isso não

“Nos meus livros

sou sempre visual,

muito atento às cores,

aos desenhos, à forma

das coisas.

Praticamente não

há diálogos. O que me

interessa não são

as palavras trocadas

é mais a aparência

visual das coisas”

inventei nada sobre ele, a não ser, de

vez em quando, algum pensamento

que tenha tido ou um encontro que

nunca tenha acontecido. De resto todos

os quadros que refiro foram pintados

por ele.”

Quanto a Eugène Pertuiset, Rolin

conhecia a sua vida, ele realmente

traficou armas no Peru. No início pensou

mesmo que poderia ter tido uma

ligação com Rimbaud. Aparentemente

não se terão conhecido. “São completamente

opostos, fisicamente,

intelectualmente. Não se conheceram.

Mas encontrei uma carta que

Rimbaud escreveu quando estava na

Abissínia onde pede a alguém uma

determinada arma, uma carabina,

com o tipo de balas explosivas que

Pertuiset inventou. Aparentemente

não se terão conhecido mas Rimbaud

sabia da existência dessa arma.”

“Um Caçador de Leões” é um retrato

de uma época mas ao mesmo tempo

Rolin não queria que fosse um romance

histórico porque não se interessa

pelo género. “Tentei não dizer

coisas inexactas sobre a época, o fim

do século XIX, mas não quis transcrever

a época.” Os episódios históricos

franceses que descreve tiveram todos

de alguma maneira importância na

vida de Manet – “e outros tiveram importância

para mim, como por exemplo

a Comuna de Paris [uma experiência

de governo operário,. em 1871].

Faz parte da minha cultura histórica,

quando eu era jovem, de esquerda,

no Maio de 68, acreditávamos que íamos

ser os herdeiros da Comuna. É

uma escolha ditada pela vida de Manet

e ditada pela minha cultura. Quanto

aos episódios que se passam na América

Latina, são aqueles em que Pertuiset

esteve envolvido. Só coloquei

no livro um episódio de uma revolução

no Peru porque achei pitoresca

mas não se passa naquela altura.”

Tudo é verdade, portanto, mesmo

se alguns pormenores possam ter sido

inventados. Por exemplo: o final da

expedição que Pertuiset faz à Terra

do Fogo não se passou como Rolin

conta. “Correu mal, mas não de maneira

tão ridícula.”

O escritor não sabe como é que a

personagem morreu. “No princípio

queria saber como é que Pertuiset

tinha morrido, a seguir achei que devia

inventar essa morte e depois pareceu-me

mais divertido colocar várias

hipóteses ridículas. A última hipótese

é que ele seria eterno, porque

a vulgaridade é eterna. Pareceu-me

mais divertido.”

o uma sala

exposições

Michel Schweizer

BLEIB opus #3

Espectáculo integrado no festival Temps d’Images

21 e 22 Novembro 21h30

12€ M/12

www.teatromariamatos.pt

Bilhetes à venda:

Teatro Maria Matos 218 438 801

teatro

(Bordéus)

menores

30 anos

5€

escreveu a história de Eugène Pertuiset, caçador de leões e

, um tipo que não era nada o seu género. Mas também não

agradasse a Manet e, no entanto, o pintor fez-lhe o retrato.

destas vidas nasce “Um Caçador de Leões”. Isabel Coutinho

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 31


Livros

Madre Teresa

de Calcutá,

Nelson

Mandella, o

cirurgião

Christiaan

Barnard:

Dominique

Lapierre

vasculha a

realidade até

achar pepitas

de grandeza

humana

RUI GAUDÊNCIO

Um dia alguém propôs a Dominique:

“Queres conhecer uma Madre Teresa

da África do Sul?” Ele não podia resistir.

A grandeza humana é o seu tema.

Vai atrás dela onde quer que se

encontre. “O que procuro são os heróis.

Aquelas pessoas que estão acima

de todas as tragédias. Quando encontramos

uma personagem dessas, temos

uma história”, disse ao Ípsilon

Dominique Lapierre, que a editora

Planeta trouxe a Lisboa para lançar

“Um Arco-Íris na Noite”.

É assim desde que, no início dos

anos 60, começou a trabalhar na “Paris

Match”. O primeiro herói que encontrou

foi um português, Henrique

Galvão. Dominique estava em Nova

Iorque e recebeu um telefonema. Um

português tinha desviado um navio

de cruzeiros com 630 passageiros e

390 tripulantes a bordo, para chamar

a atenção mundial para a ditadura de

Salazar. A revista queria nada menos

que a entrevista exclusiva.

Dominique partiu para o Recife,

onde o paquete Santa Maria estava

ancorado, mas já lá estavam mais de

500 jornalistas, à procura do mesmo.

Após várias tentativas falhadas, fardou-se

de bombeiro e entrou no navio.

Encontrou Galvão e conseguiu

fugir com ele para a cidade. No pequeno

quarto do seu Hotel Boa Viagem,

fez-lhe uma entrevista que durou

a noite inteira.

“Foi uma das noites mais fantásticas

da minha vida. Por baixo da porta,

podia ver uns sapatos pretos de

homem andando de um lado para o

outro no corredor. Salazar tinha mandado

cinco agentes da PIDE para assassinar

Galvão. Disse-lhe: ‘De um

momento para o outro eles vão abrir

a porta e disparar. E de certeza que

não vão querer deixar uma testemunha’.

Às cinco da manhã, saímos para

um barzinho na marginal, sentámonos

na mesa de uma prostituta. Um

carro de faróis apagados circulava

lentamente pela avenida, e eu só imaginava

as metralhadoras a saírem pela

janela”.

A entrevista foi de facto um exclusivo

mundial. Henrique Galvão contou-lhe

tudo, desde uma certa manhã,

em que se sentia “particularmente

deprimido” e leu, no “Diário de Caracas”,

a notícia de que o paquete

português “Santa Maria” chegaria ao

porto venezuelano de La Guaira. “Isto

inflamou-me a imaginação”, disse

Galvão a Dominique. “Se conseguíssemos

apoderar-nos do navio e levá-lo

para África, a fim de formarmos um

exércie

o círculo de energia

Escreve best-sellers e ajuda crianças com lepra e tuberculose na Índia. O que procura é a g

em Lisboa a lançar “Um Arco-Íris na Noite”, livro sobre a África do Sul, e conversámos com ele s

32 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon

Dominique Lapierre


to de libertação, poderíamos destituir

Salazar e Franco”.

Henrique Galvão era “uma figura

extraordinária”. E Dominique nunca

mais se interessou por personagens

menores. Procurou, pelo mundo, e

encontrou Madre Teresa. “Quando a

vi andar pelas ruas dos bairros de lata

de Calcutá, e essa onda de amor

que chegava das pessoas, que vinham

ter com ela, que a queriam tocar, pensei:

‘ela tem realmente qualquer coisa’”.

E Dominique imergiu na vida da

freira albanesa. Escreveu um livro sobre

a independência da Índia (“Esta

Noite a Liberdade”) e outro sobre um

bairro de lata de Calcutá.

“Encontrei ali os verdadeiros heróis

da Humanidade. Pensei: ‘Tenho de

ser a voz deles’. Fui a uma papelaria,

comprei 15 canetas e 5 cadernos, fiquei

lá a viver dois anos”.

“A Cidade da Alegria”, que contava

a história dos pobres desse bairro, foi

traduzido em muitas línguas e vendeu

9 milhões de exemplares. “Tornou-se

um livro de culto porque eu não prego.

Não digo: ‘Vejam, nós aqui em

Portugal comemos três vezes por dia,

e aquelas pessoas só comem de três

em três dias’. Odeio esses pregadores.

Apenas conto uma história”. Mas funcionou.

“Recebi 300 mil cartas, de

todo o mundo. Houve pessoas que me

disseram: ‘Eu tinha decidido cometer

suicídio, mas li o seu livro e reencontrei

o amor pela vida’. O livro mudou

a vida de muitas pessoas”.

Mas isso já foi depois de Dominique

ter conhecido Madre Teresa e ela lhe

ter dito: “Tu podes fazer o mesmo que

eu”. Ele tinha 50 anos. “Esta Noite a

Liberdade” estava a vender bem. Os

primeiros “royalties” ascendiam a 50

mil dólares. Dominique pegou nesse

dinheiro e dirigiu-se a Calcutá. Encontrou

Madre Teresa na missa da manhã.

“Madre, sabe de alguma instituição a

trabalhar com crianças leprosas que

precise de dinheiro?”, perguntou.

“Ela olhou para mim e disse, com

o seu sotaque albanês: ‘Siz iz God who

senz you!’ E apresentou-me a um inglês

chamado James Stevens que era

negociante de camisas e gravatas em

Londres e andava de Jaguar, mas um

dia decidiu ir para Calcutá, com todo

o seu dinheiro, para ajudar as crianças

leprosas. Abriu um lar chamado

Ressurreição e em 15 anos salvou 10

mil crianças. Mas agora o dinheiro

acabara e preparava-se para fechar a

instituição. Eu dei-lhe os 50 mil dólares

e prometi-lhe que nunca o deixaria

fechar a Ressurreição”.

Foi Stuart que levou mais tarde Dominique

ao bairro de lata chamado

Cidade da Alegria. E, em consequência,

a montar a sua própria instituição

humanitária, depois do êxito do livro.

“Comprei um velho ferry boat em Calcutá,

reabilitei-o, instalei máquinas a

bordo, um pequeno laboratório, uma

sala de operações, contratei dois médicos

e cinco enfermeiros e começámos

a navegar o delta do Ganges”.

Mas o hospital flutuante só dava

assistência a sete das 54 ilhas, e por

isso Dominique comprou mais três

“Com a venda

de um único exemplar

desta obra,

eu alimento

dez crianças leprosas

durante uma

semana”

barcos. Metade de todos os royalties

dos livros, que escreveu e viria a escrever,

e todas as doações dos leitores

destinam-se a financiar a Fundação

Cidade da Alegria. “Em 28 anos, curámos

um milhão de doentes de tuberculose.

Abrimos dez escolas, concedemos

microcréditos”.

A África do Sul através

dos seus heróis

Uma Madre Teresa em África? Dominique

não podia resistir. “Onde está

ela?, perguntou. Estava na cidade do

Cabo. “Provinha de uma família rica,

era casada com um famoso advogado.

Pertencia à elite privilegiada do regime

do ‘apartheid’, no qual vivera toda

a vida sem se aperceber da sua verdadeira

natureza. Até que um dia, no

hospital onde trabalhava, como terapeuta

da fala, se deparou com o caso

de um miúdo negro, de seis meses,

que fora operado, na zona negra do

hospital, e desapareceu. Que lhe teria

acontecido? Estava morto? Foi levado

para casa? Ninguém quis saber, mas

ela decidiu agir. A partir daí, dedicou

a sua vida a salvar crianças negras,

arriscando a sua própria vida”.

Foi para contar a história de Helen

Lieberman que Dominique Lapierre

partiu, há três anos, para a África do

Sul. “Era um formidável desafio. Fiquei

impressionado, mal a vi. Tão

modesta, e com uma vida realmente

épica. Num certo sentido, ela redimia

a consciência da África do Sul, dos

anos do ‘apartheid’”.

Iniciou uma série de entrevistas

com Helen, que um dia o levou num

passeio pela Cidade do Cabo, contando

histórias do país. “Mostrou-me a

estátua enorme de um holandês, que

tinha chegado ali no dia 7 de Abril de

1652, não para conquistar a África do

Sul, mas para semear alfaces, que dariam

vitaminas aos marinheiros da

Companhia das Índias do Oriente,

que morriam de escorbuto. Depois

descobri que aqueles cultivadores de

alfaces eram calvinistas, que professavam

pertencer a um povo eleito por

Deus para fazer reviver os valores cristãos...”

Dominique tinha encontrado outro

herói. Decidiu então que o seu livro

seria a história da África do Sul, através

dos seus heróis.

“Eu e a minha mulher comprámos

um ‘kart’ e fomos para a floresta, para

tentar sentir na carne o que sentiram

aqueles primeiros colonos, quando

chegaram”. Foi esse o método,

para cada uma das personagens. “Estive

na minúscula cela 466/64, onde

Nelson Mandela esteve preso. Deiteime

no chão de cimento, olhei para o

tecto e disse para mim próprio: ‘Durante

10 mil noites, aquele homem

olhou para este tecto, sem outra esperança

a não ser a de morrer nesta

jaula’. Mas ele acreditava. Pensava

constantemente no dia em que a África

do Sul seria livre. É incrível esse

poder”.

Outras personagens povoam “Um

Arco-Íris na Noite”, como se fossem

elas, com os seus gestos heróicos e

invulgares, a conduzir a história do

país. Uma delas é Christiaan Barnard,

o cirurgião dos primeiros transplantes

cardíacos. “Ele fez algo incrível, na

época do apartheid: ousou transplantar

um coração negro num peito branco.

Isto numa altura em que as garrafas

de sangue para transfusão tinham

um rótulo que dizia: ‘Atenção! Sangue

negro. Qualquer pessoa tem o direito

de recusar uma transfusão com este

sangue’. Que equivale a dizer: ‘Qualquer

pessoa tem o direito de morrer

para não sofrer uma transfusão de

sangue negro’”.

Mas outra personagem é Wouter

Basson, o cardiologista que inventou

formas subtis e sórdidas de eliminar

a raça negra. “Substâncias tóxicas que

colocavam em cigarros, guarda-chuvas,

chocolate, cervejas ou até em

cuecas. No entanto, Basson está vivo,

habita um condomínio guardado por

seguranças em Pretória. O tribunal

não condenou os seus crimes”.

A Comissão de Verdade e Reconciliação

é outro dos sinais de grandeza

na história da África do Sul. “Como

foi possível que os carrascos fossem

entrevistados pelas famílias das suas

vítimas, e pedissem desculpa! Como

foi possível que Mandela tivesse ido

falar com os brancos mais poderosos

para lhes dizer: ‘Fiquem. Precisamos

que vocês tomem conta da nossa economia!’

Foi por estas pessoas existirem

que passei três anos da minha

vida na África do Sul. É por causa destas

pessoas que podemos ter orgulho

em sermos humanos”.

É uma espécie de círculo de energias

positivas. Dominique Lapierre

vasculha a realidade até achar pepitas

de grandeza humana, a mesma que

sem dúvida tem em si. Por isso os seus

livros vendem milhões, que chegam

para ele ser rico e curar multidões de

crianças na Índia. “Com a venda de

um único exemplar desta obra”, diz,

segurando o livro sobre o país onde

decorrerá no próximo ano o Campeonato

do Mundo de Futebol, “eu alimento

dez crianças leprosas durante

uma semana”.

Ver crítica de livros págs. 49 e segs

SÃO

LUIZ

NOV~O9

Encenação e Interpretação

Gonçalo Waddington

Tiago Rodrigues

Dramaturgia

João Canijo

6 A 22 NOV

O QUE SE LEVA

DESTA VIDA

MUNDO PERFEITO

QUARTA A SÁBADO ÀS 21H00

DOMINGO ÀS 17H30

SALA PRINCIPAL M/12

O MUNDO PERFEITO

É UMA ESTRUTURA

FINANCIADA POR

APOIOS

SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL

RUA ANTÓNIO MARIA CARDOSO, 38 / 1200-027 LISBOA

GERAL@TEATROSAOLUIZ.PT / T: 213 257 640

“Um prato

conta sempre a história

de quem o cozinhou”

APOIO À

DIVULGAÇÃO

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T: 213 257 650; BILHETEIRA@TEATROSAOLUIZ.PT

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© Rita Carmo

as positivas

a grandeza humana e os heróis que fazem a História. Esteve

e sobre o seu círculo do Bem. Paulo Moura

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 33


Espaços que eles inv

Em Lisboa há lugares onde os artistas expõem durante uma noite. Edifícios pombalinos que m

duas horas ou dois dias. Curadores e programadores vão inventando os seus espaços artísticos. J

RAQUEL ESPERANÇA

CATARINA BOTELHO

ENRIQUE DIAZ

The Barber Shop é um projecto artístico

que aproveita uma antiga barbearia.

O Pavilhão 28 existe num hospital

e recebe exposições de arte contemporânea.

O “Empty Cube”

aparece numa galeria lisboeta, mas

apenas durante uma noite – mostra

uma obra e depois “desparece”. Na

Rua da Anchieta, ao Chiado, vários

andares de um edifico pombalino,

durante anos vazios, voltaram a ser

habitados: com exposições e conferências.

E desde Julho há um lugar

chamado Kunsthalle Lissabon onde

uma exposição é mais que uma exposição.

Eis uma panorâmica possível dos

espaços de arte em Lisboa. À primeira

vista, confusa, dividida, sem ordem

(já agora: assumidamente não exaustiva).

Afinal, todos estes projectos ou

espaços de arte apresentam particularidades,

objectivos e histórias que

os distinguem. Desenham, porém,

dois traços comuns, muito gerais, mas

comuns: uma vontade de apresentar

arte para lá das suas expectativas tradicionais

- portanto, noutros espaços

e tempos; e uma necessidade prosaica

que, sem legitimar Lisboa como

“case study” no campo da programação

de arte ou da curadoria, torna-a

mais plural: tão-somente intervir no

contexto artístico para mostrar arte.

Organizar exposições fora das fronteiras

mais convencionais não é um

dado novo. Lembremos nos anos 90

o nomadismo forçado e as experiências

da Galeria Zé dos Bois, bem como

a sua natureza transversal (foi criada

por gente de áreas diferentes) ou, já

neste século, o surgimento do Espaço

Avenida 211 num edifício não concebido

para receber exposições de arte

contemporânea

No contexto actual, contudo, as

“velhas dicotomias” (institucional/

independente e espaço expositivo/

Ocupou

durante três

meses

o nº31 da Rua

Anchieta

Filipa Valadares

não expositivo), são menos fronteiras

vigiadas do que formas e conceitos

disponíveis à imaginação de curadores,

comissários e artistas. Daí a diversidade

de opções, preocupações,

energias. Num jogo nem sempre fácil

entre a efemeridade dos espaços e a

intensidade das propostas.

Apareceram

para pesquisar,

utilizar,

experimentar,

mostrar; o que não

impede,

evidentemente,

o interesse

e a proximidade

de galeristas

e coleccionadores

Esposições

O intruso

O projecto “Empty Cube” do curador

João Silvério é um evento irrepetível.

A sua história está aliás marcada pela

dimensão performativa e podemos

contá-la em dois episódios.

O primeiro aconteceu na Plataforma

Revolver, onde o curador realizou

um projecto de uma só noite com o

artista André Sier. “Vi um trabalho

dele na Fábrica da Pólvora, a obra

‘747’, uma instalação interactiva que

era um evento absolutamente performativo

e propus mostrá-la noutro espaço,

como um evento”.

O segundo episódio, decisivo, nasce

no âmbito de um convite ao escultor

João Seguro para expor num espaço

cedido pela Galeria Filomena

Soares. “É no momento em que estamos

a instalar a peça que nasce o projecto.

Como um confronto com a presença

de uma obra em condições

temporais e espaciais específicas”,

conta.

Seguiram-se exposições de Daniel

Barroca, Nuno Sousa Vieira, Ana Perez-Quiroga,

entre outros, e o Empty

Cube, depois de mais de um ano na

Galeria Filomena Soares, passou a ser

acolhido pela Galeria AppletonSquare.

À sua condição de cubo branco,

vazio durante a maior parte do tempo,

acrescentou-se entretanto uma

mobilidade, permitida pelo desenho

dos arquitectos Isabel Domingos e

João Appleton (já teve a sua primeira

itinerância, com a apresentação de

uma obra de Mauro Cerqueira na Galeria

do Instituto Politécnico de Tomar).

João Silvério resume assim a ideia

central do projecto: “Trata-se de instalar

um espaço num outro espaço,

não como um parasita, mas como um

intruso naquela noite. É o próprio espaço

que é intruso. Não é só a obra.

No dia seguinte, desaparece o espaço,

desaparece a obra. Há esse lado evanescente,

embora no momento em

que está em presença seja absolutamente

real”.

Espaço para conversas

Margarida Mendes lida com questões

semelhantes. Depois de vários meses

à frente do “7 Days Project” – em que

dava carta branca a jovens artistas

nacionais para a realização de uma

exposição de setes dias consecutivos

– gere agora o “The Barber Shop”,

inaugurado há um mês na Rua Rosa

Araújo, com um evento de uma noite

da autoria da curadora alemã Ellen

Blumenstein. Desta vez, o convite para

“fazer” é endereçado não a artistas,

mas a curadores e programadores

independentes internacionais. “Sentia

a falta de espaço para conversas,

para diálogos com especialistas. O

que não quer dizer os projectos se

resumam apenas a debates”.

Para além de Ellen Blumenstein,

estão confirmadas as presenças de

Adrien Török, Doreen Mende, Karolin

Tampere e Pablo Leon de La Barra.

“São curadores muito móveis que circulam

entre países e projectos com

vários contextos políticos, sociais e

económicos. Podem apresentar as

suas publicações e revistas, convidar

outras pessoas. Alguns estão a pensar

em organizar ‘workshops’. Outros vão

fazer ‘screenings’”.

A duração limitada é também uma

característica central do The Barbers

Shop – “Não há horários. Varia conforme

os convidados e os projectos.

Podem ser três dias ou seis horas. Para

mim não fazia sentido a estrutura

de uma exposição com duração pro-

Kunsthalle

Lissabon,

edifício do

Espaço

Avenida 211

João Mourão

e

Luís Silva

longada, mas antes a concentração

de público específico num momento

exacto de apresentação e discussão”.

O lugar, sugerido por António Bolota,

do Espaço Avenida 211, também estimulou

o tipo de curadoria. “Quando

o vi, disse logo para mim: ‘Não tenho

um ‘white cube’, óptimo. Não vou fazer

exposições e também não quero

fazer ‘site-specifics’”. Quanto à barbearia

propriamente dita, dela resta

“um friso de espelhos e uma parede

de madeira, com lavatório e gavetas”.

Margarida Mendes encontra, entretanto

pontos de contacto com outro

projecto: o “Oporto”, dirigido pelo

artista Alexandre Estrela, que de tempos

a tempos mostra, numa só noite,

um filme ou vídeo experimental nas

instalações do antigo sindicato dos

marinheiro da Marinha Mercante

34 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


ventam

e mostram arte. Projectos que duram

. José Marmeleira

Comentário

Uma certa falta

de coerência

Óscar Faria

A

história inicia-se há uma década, em Janeiro de

1999 – no mesmo ano em que é inaugurado o

Museu de Arte Contemporânea de Serralves –,

quando Paulo Mendes, com experiência

enquanto organizador de exposições

colectivas, decide criar, no Edifício Artes em Partes, o

projecto W.C. Container. O primeiro espaço da cidade do

Porto gerido por um artista funcionava, tal como o nome

indica, numa casa-de-banho de um prédio da Miguel

Bombarda, artéria que começava a ser também escolhida

por uma série de galerias para ali instalarem os seus

negócios. Não deixa de ser relevante o facto de ter sido

alguém de fora a criar uma alternativa ao contexto artístico

local, há muito fechado sobre si próprio. Ao W.C. Container,

que durou 17 exposições, encerrando em Dezembro de

2001, sucedeu um outro projecto de Paulo Mendes, o In.

Transit, inaugurado em Junho de 2002 e recentemente

encerrado devido à reconversão do Edifício Artes em

Partes, um dos símbolos da mutação cultural da cidade

acontecida há dez anos, numa casa de chá. Neste período

foram vários os espaços

O contexto independente

do Porto tem tido

dificuldades em renovar-se

geridos por artistas que

marcaram o contexto

artístico do Porto, podendo

destacar-se os espaços

Caldeira 213,

PêSSEGOpráSEMANA, Salão Olímpico, Apêndice, Mad

Woman in the Attic, Campanhã, A Sala e Uma Certa Falta de

Coerência – apenas estes dois últimos continuam activos.

Se, numa primeira fase, os espaços geridos por artistas

constituíram uma alternativa quer ao circuito institucional,

quer ao mercado da arte, rapidamente transformaramse

em instâncias de legitimação, levando a que muitos

dos protagonistas ligados à criação dessas estruturas

independentes fossem integrados nos elencos das galerias

de arte. Com um pé em cada lado, os nomes passavam a

circular indiferentemente entre o “white cube” e a cave de

um café, o sótão de um apartamento ou uma loja alugada

num centro comercial.

A institucionalização também não tardou. Primeiro

em Lisboa, no Arte Contempo, com a iniciativa “Espaços

Alternativos do Porto”, que, entre Maio e Julho de 2004,

albergou exposições colectivas concebidas respectivamente

pelo Salão Olímpico, PêSSEGOpráSEMANA e Ateliers

Mentol. Depois no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães,

e no Pavilhão Centro de Portugal, em Coimbra, onde, em

2006, foram apresentadas as mostras “Busca-pólos”, que

tinha novamente como protagonista o Salão Olímpico,

estrutura existente de 2003 a 2005, na cave do café

homónimo, situado também ele na Rua Miguel Bombarda.

A visibilidade das iniciativas com origem no Porto fez com

que nomes de outras latitudes quisessem participar na

“movida”. O fenómeno teve ainda outra consequência: a

confusão entre a intensidade colectiva e a qualidade dos

trabalhos de cada protagonista – há enorme dificuldade

em discutir as obras, sendo esta dimensão deixada para

trás em favor de uma permanente vontade de realizar

exposições, performances, etc.

A ausência de massa crítica na cidade, a forma como

a política local ignora o contexto artístico, o fechamento

ao exterior da Escola Superior de Belas-Artes e a crise do

país ajudam a explicar um contexto onde, apesar de todas

contradições, os espaços geridos por artistas continuam a

desempenhar uma função única: a de laboratórios onde é

possível experimentar e errar, condições necessárias para

a criação contemporânea. Cada vez mais doméstico – dos

quatro projectos no activo, três (A Sala, Extéril e Fundação)

funcionam nas casas dos seus mentores –, o contexto

independente do Porto tem tido dificuldades em renovarse.

Sente-se a falta de uma nova geração de artistas, críticos

e comissários. Para que se respire novo ar.

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 35


RAQUEL ESPERANÇA

RAQUEL ESPERANÇA

CARLA CABANAS

The Barber

Shop, Rua

Rosa Araújo

nº5

Margarida

Mendes

(perto do Miradouro de Santa Catarina).

“É uma ‘one night thing’ super-intensa,

onde nos reunimos para

ver um filme e conversar sobre ele.

Interessa-me esse intensidade. As pessoas

reúnem-se com outra ânsia e

susceptibilidade, pois os eventos têm

um tempo curto. Se falharmos, se não

estivermos lá, não vemos”.

É possível argumentar que projectos

como “Empty Cube” ou “The Barber

Shop”, pela sua efemeridade (que

os torna mediaticamente quase invisíveis),

pela sua especificidade, acabam

dirigidos ao meio artístico. A

verdade é que pelas dinâmicas que

propõem, pelas redes sociais que activam

(e refira-se o papel importante

da Internet), são, igualmente, reptos

descomprometidos ao público da cultura.

À procura de espaços

O Kunsthalle Lissabon, de João Mourão

e Luís Silva, fica situado na mesma

rua que The Barber Shop (ambos no

edifício do Espaço Avenida 211), mas

as semelhanças acabam aqui. Trata-se

de um projecto curatorial de exposições

individuais, de duração normal

(à volta de um mês) e com artistas

previamente seleccionados. Isso não

significa que seja imutável ou eternamente

fixo. Dito de outro modo:

“Kunsthalle Lissabon” não é apenas

um lugar de exposições, quer ser também

um conceito.

Empty

Cube

João

Silvério

É possível

argumentar que pela

sua efemeridade

e especificidade estes

projectos acabam

dirigidos ao meio

artístico. A verdade

é que pelas dinâmicas

que propõem, pelas

redes sociais que

activam são reptos

descomprometidos

ao público da cultura

Atente-se na apropriação palavra

“Kunsthalle”. Começou por designar

os espaços de arte surgidos no século

passado na Alemanha, por iniciativas

de artistas e coleccionadores, e hoje

serve para nomear os grandes museus

e centros culturais da Europa Central.

Ironia? Provocação? Afinal há ou não

um espaço assim em Lisboa? Via e-

mail os dois curadores respondem:

“É um embuste, claro, mas, acreditamos,

é também um falso embuste.

Como é óbvio, o Kunsthale Lissabon

não possui a dimensão, recursos ou

estratégias de funcionamento de uma

Kunsthalle contemporânea. Mas julgamos

que tem a qualidade de uma

programação de uma Kunsthalle, tal

como foram constituídas inicialmente

no século XX”.

Quem visita o espaço, percebe que

está diante de um sítio aparentemente

pouco “habilitado” para mostrar

arte contemporânea (foi uma antiga

sala de escritórios). Mas é exactamente

a partir desse estranho desencontro

que o projecto se afirma: interrogar

e subverter os modelos tradicionais

de exposição. Como aconteceu

na exposição inaugural em Julho, “X-

Office for a Sculpture”, quando o artista

Nuno Sousa Vieira transformou

em obras de arte as estruturas que

sobravam do uso.

Dirigido aos doentes

No Pavilhão 28 do Hospital Psiquiátrico

Júlio de Matos a apresentação

da arte também depara com outros

contextos e usos antigos. Trata-se de

um antigo edifício de internamento

transformado desde 2008 num espaço

de exposições pelo artista e programador

Sandro Resende. Recebe

sobretudo exposições colectivas e

mais recentemente projectos de comissariado,

e os artistas estão livres

de intervir nos pisos do edifício. Não

o fazem sozinhos. O Pavilhão 28 é primeiramente

uma iniciativa dirigida

aos doentes: a outra “comunidade

do projecto. “Não é apenas a forma

como as artistas podem intervir, que

nos motiva”, diz Sandro Resende

(também professor de pintura no hospital).

“Há um trabalho com as pes-

soas que habitam este espaço, com a

comunidade envolvente. Interessame

que os doentes artistas sofram

influência dos outros artistas e que

ao trabalhar com os comissários percebem

as várias vertentes de fazer

arte”. São exemplos deste diálogo a

participação fixa de um artista doente

(anónimo) em cada colectiva e,

agendada para final de 2010, uma exposição

de Luísa Cunha e Ângela Ferreira

produzida e organizada pelos

próprios doentes.

À margem da iniciativa, que conta

ainda com a coordenação do professor

José Azevedo, está o mercado.

“Não temos intenções comerciais. Os

galeristas podem visitar o espaço e as

exposições, mas o único objectivo é

trabalhar com a comunidade, neste

lugar. Foi isso que fez nascer o Pavilhão”.

A mesma autonomia determina

aliás todos os outros projectos, do

“Empty Cube” ao Kunsthalle Lissabon.

Apareceram, recordemos, para

pesquisar, utilizar, experimentar,

mostrar; o que não impede, evidentemente,

o interesse e a proximidade

de galeristas e coleccionadores.

Que fosse uma casa

Mas encontrar e utilizar espaços ou

lugares para mostrar arte nem sempre

é tarefa de execução rápida. E

quando os apoios logísticos não existem,

ou os contactos rareiam, resta ir

à procura. Foi o que aconteceu com

Filipa Valladares que durante três meses

“ocupou” o nº31 da Rua Anchieta

com exposições (só a livraria Bertrand

escapou).

“Andava à procura de um espaço

para uma exposição de Catarina Botelho

que fosse uma casa numa zona

central. Lembrámo-nos que no 56 da

Rua Ivens tinham acontecido algumas

exposições, mas os proprietários disseram-nos

que ia para obras. Sugeriram,

então, outro lugar, mas tinha

pouco ‘ambiente’ de casa. Finalmente,

lembraram-se de outro na Rua

Anchieta, que estava livre. Era perfeito

para o que queríamos”.

Este final feliz não foi alcançado

sem esforço: “Admito que tivemos

alguma sorte por ter aparecido aquele

espaço, mas toda a produção para

apoios e mesmo os contactos com os

proprietários deram muito, muito

trabalho”.

Entre Maio e Julho, o prédio recebeu

a exposição de Catarina Botelho

e iniciativas organizadas pelo projecto

Chão, mas desde Agosto que a Rua

Anchieta abandonou o circuito dos

espaços de arte. As salas do prédio,

de construção pombalina, esvaziaram-se

de novo com a realização de

obras à espreita. Sem menosprezar o

gesto louvável de disponibilizar temporariamente

um edifício privado

para exposições, eis o lado menos

“poético”, mais conspirativo da efemeridade

dos espaços de arte. Um

lado que diga-se não demove a curadora.

Neste preciso momentos deve

andar à procura de um espaço para

organizar a exposição com artistas do

Porto que já tinha planeado para a

Rua Anchieta. E provavelmente já encontrou.

36 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


Exposições

O magnífico object-trouvé pop que é

“matei o meu leitinho”

O riso de

Francisco

Queirós

A obra deste artista

continua desconcertante,

risonha e surrealista. José

Marmeleira

Meathaus

De Francisco Queirós.

Lisboa. Museu Rafael Bordalo Pinheiro. Campo

Grande, 382. Tel.: 218170667. Até 15/11. 3ª a Dom.

das 10h às 18h.

Desenho, Escultura, Instalação,

deo, Fotografia

mmmmn

Francisco Queirós (Lisboa, 1972) é

um artista misterioso. Surgido na

década passada ao lado de Rui

Toscano, Catarina Campino, Pedro

Diniz Reis, entre outros, destacou-se

pelas pequenas “histórias” em

deo, cheias de seres ambíguos e

corpos animados, “violência”

infantil e imagens em “loop”. Foi

aliás com estaprodução,

extremamente singular e inesperada

no contexto nacional, que atraiu a

atenção de curadores e instituições

– a título de exemplo, expôs, em

2003, no Museu de Serralves e no

Centro D’Art Santa Mónica em

Barcelona. Curtos, maravilhosos e,

por vezes cruéis, os seus vídeos

reuniam o fantástico do surrealismo

ao imaginário audiovisual da cultura

menos “séria” (a urbana e pop).

Nos últimos quatro anos, porém,

Francisco Queirós tem escapado ao

mesmo radar crítico que antes o

localizava, situação algo

inexplicável, pois permanece o

artista que fez, há nove anos,

“friezenwall # 1 (the forest)” ou em

2003 “if you trap the moment before

its ripe”. Uma das razões de tal

desaparecimento” (e especulamos)

terá a ver com o seu desenho. Tem

aqui e ali onomatopeias, esboços de

figuras e motivos facilmente

associáveis ao desenho animado ou

ao graffiti. Em suma: é muito gráfico,

o que pode ser testemunhado em

“Meathaus”, exposição que

apresenta na Galeria do Museu

Rafael Bordalo Pinheiro, com a

curadoria de João Moura.

E encontramos aqui, de facto, esse

desenho. Expandido, flexível,

imediato que corre em palavras nos

paredes brancas (“tu és feito de luz

brilha” ou “isolate the enemy”,

ambos de 2009). Ou sobre papel,

nas quatro séries de “between light

and darkness” (2009). No primeiro

caso, é tentador aproximá-lo dos

registos de Nedko Solakov ou de Dan

Petrosvisch, mas os “escritos”

desenhados de Queirós furtam-se ao

comentário. Preferem antes o

humor dadaísta, a interpelação

gráfica. Aparecem.

Em “between light and darkness”

(2009) há mais palavras e frases.

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

Exclamativas, estranhas, absurdas,

algumas agressivas, outras

estranhamente familiares, a grande

maioria criada através de um

programa informático de escrita

automática.

O resultado é um fascinante

diálogo visual entre os sentidos que

essa colagem e o trabalho do artista

sobre o papel despertam: cores,

figuras, manchas, borrões,

fotografias, objectos; o gráfico, o

pictórico, o tridimensional.

Pendurados por fita adesiva,

mostram-se quase como pequenas e

frágeis “pinturas”.

“Meathaus” tem, todavia, mais do

que desenho. Tem vídeos,

esculturas, fotografias, obras

atravessadas por um riso dadaísta,

delirante e resistente. Descubra-se

no chão, com cuidado, a singela

escultura “a minha flor nunca

morre” (2002-09) ou aprecie-se o

magnífico object-trouvé pop que é

“matei o meu leitinho” (2001-09).

Confundem-se na obra de Queirós

estilos distintos, convenções ou

momentos da arte contemporânea,

referências de outras linguagens

visuais. Sempre no vértice da irrisão

pura, da crítica “espontânea”. O

exemplo mais divertido é “668 - o

vizinho da besta” (2009), onde se

convoca a fotografia enquanto

registo de uma acção ou percurso. O

artista encontrou perto de casa,

dispostos de forma particular,

objectos, pedaços de madeira e

pedras e fotografou-os até que um

dia, simplesmente, desapareceram.

A situação é-nos relatada como um

episódio misterioso, quase uma

ficção onde não faltam um vulto,

uma coisa ou árvores cortadas.

fotografia. © 2009 margarida dias | design.patricia poção

ESTRUTURA FINANCIADA

APOIOS

É este riso, esta terna “falta de

respeito” que vai singularizando

hoje a abordagem de Francisco

Queirós. Abordagem onde os

desenhos podem ser tão-somente

desenhos animados (ver “monster:

acts of love”, também de 2009)

desenhos na parede ou desenhos

que se fazem com as palavras. Numa

viagem constante entre a história da

vida do artista e história da arte

contemporânea.

Consciência

histórica

Entre a abstracção e

realidade, a nova exposição

de Mafalda Santos, no Porto.

Óscar Faria

One Day Every Wall Will Fall

De Mafalda Santos.

Porto. Galeria Presença. R. Miguel Bombarda, 570.

T. 226060188. Até 16/1. 2ª a 6ª das 10h às 12h30 e

das 15h às 19h30. Sábado das 15h às 19h30.

deo, Outros.

mmmmn

Mafalda Santos (Porto, 1980) foi uma

das programadoras do

PêSSEGOpráSEMANA (2002-2007),

um dos espaços geridos por artistas

mais activos do Porto. É a partir

desse contexto colectivo,

independente, do qual fazem parte

muitas outras estruturas que a obra

da artista se afirma, um traço

também comum a muitos nomes da

sua geração. Ali, no espaço de uma

BRASIL

CONTOS EM VIAGEM

OUTRAS ROTAS

30 OUT a DEZ 19

4ª a 6ª às 22h | Sáb. às 17h e 22h

Tel 21 868 92 45

Rua do Açucar, 64

Poço do Bispo

Autocarros 28, 210, 718

www.teatromeridional.net

2009

M/12

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 37


Exposições

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

antiga casa da rua de Antero de

Quental, realizou, em 2004, a sua

primeira exposição individual, uma

mostra formada por pinturas de

grandes dimensões, onde se

observavam reticulas ou redes, que

desenhavam uma espécie de

topografia de um terreno anónimo,

abstracto – essa estrutura está na

base da intervenção por si realizada

no âmbito da colectiva “7 Artistas ao

10º Mês” (Fundação Calouste

Gulbenkian, Lisboa, 2005).

A forma como o mundo pode ser

lido a partir das suas redes – sociais,

afectivas, profissionais, etc. – ou

genealogias e o modo como estas

tendem para um esquema labiríntico

têm sido assuntos recorrentes no

trabalho de Mafalda Santos. No

âmbito de uma colectiva organizada

pelo PêSSEGOpráSEMANA nas salas

de exposições do Maus Hábitos, bar

situado na baixa do Porto, a artista

apresentou “BlackBoard” (2005),

uma espécie de biombo negro sobre

o qual inscreveu, tomando como

modelo a organização por pastas

usada nos computadores, os

protagonistas, acontecimentos,

lugares e publicações da cena

independente portuense, fixando

para a posteridade um momento

sem paralelo no país – esta situação,

iniciada cerca de 1999, continua

ainda a prolongar-se em diversos

A forma como o mundo pode ser lido a partir das suas redes – sociais,

afectivas, profissionais, etc. – ou genealogias e o modo como estas

tendem para um esquema labiríntico têm sido assuntos recorrentes

no trabalho de Mafalda Santos

projectos, como A Sala, Uma Certa

Falta de Coerência e o mais recente

Fundação.

A reconversão em pintura de uma

figura, a pasta, fornecida pelos

computadores de modo a facilitar a

organização de documentos, aponta

desde logo para necessidade da

artista visualizar num mesmo plano,

em extensão, algo que tem como

objectivo ocupar o mínimo espaço

num ecrã. O confronto com a

complexidade do real, oculta pela

estrutura, é dada pelo pictórico, a

forma encontrada por Mafalda Santos

apreender o mundo, de lê-lo na sua

duração e não instantaneamente. Ao

tornar visível um esquema geral – no

caso de “Ambiente de Trabalho”, um

mural com 500x340 cm realizado no

âmbito do projecto Terminal

(Fundição de Oeiras, 2005), essa

materialidade era particularmente

esclarecedora das redes existentes no

contexto artístico nacional –, a autora

evidencia a dificuldade em lidar com

essa situação, pois aquilo que é dado

pelo desenho é apenas uma

abstracção de acontecimentos

inscritos no tempo: ali vê-se apenas

uma superfície constituída por

formas e nomes.

Em “Too Loud a Solitude”, um

outro mural realizado no Mad

Agenda

Inauguram

O Sol Morre Cedo

De Ana Manso,

André Romão, Joana

Escoval, Nuno da

Luz.

Lisboa. Museu da Cidade de

Lisboa. Campo Grande, 245.

Tel.: 217513200. Até 10/01. 3ª

a Dom. das 10h às 18h. No

Pavilhão Branco.

BES Revelação

2009

De Susana Pedrosa,

Ana Braga, Inês

Moura.

Porto. Museu de Serralves. Rua Dom João de Castro,

210. Tel.: 226156500. Até 07/01. 3ª a 6ª das 10h às

17h. Sáb., Dom. e Feriados das 10h às 19h. Inaugura

13/11 às 22h.

André Romão em

“O Sol Morre Cedo”

Emissores Reunidos - Episódio

II: Senhor Fantasma, Vamos

Falar

De Marcelo Cidade, Renato Ferrão.

Porto. Radiodifusão Portuguesa (Antiga RDP). R.

Cândido dos Reis, 74. Até 24/01. 3ª e 4ª das 17h às

20h. 5ª e 6ª das 17h às 01h. Sáb. das 15h às 01h.

Dom. das 15h às 20h. Inaugura 13/11 às 23h.

Ask Me

De Joana Bastos.

Lisboa. Kunsthalle Lissabon. R. Rosa Araújo, 7-9.

Tel.: 918156919. Até 20/12. 6ª, Sáb. e Dom. das 15h às

19h. Inaugura 13/11 às 22h.

The Man That Wasn’t

There

De The Office (Ellen

Blumenstein).

Lisboa. The Barber Shop. Rua Rosa

Araújo, 5. Apresentação única 14/11 das

22h às 01h.

Outros.

Korrodi e o Restauro do

Castelo de Leiria

Cortes. Casa-Museu Centro Cultural João

Soares - Fundação Mário Soares. R. Nossa

Senhora da Gaiola. Tel.: 244891219. Até

15/04. 3ª a Sáb., Dom. e Feriados das 10h

às 18h (encerra 1/1, 1/5 e 25/12). Inaugura

17/11 às 18h.

Arte Lisboa 09

De vários autores.

Lisboa. FIL - Feira Internacional de Lisboa. R. do

Bojador, Parque das Nações. Tel.: 218921500. Até

23/11. 2ª, 4ª, 5ª, 6ª, Sáb. e Dom. das 16h às 23h.

Bilhetes: 8 euros; 4 euros (Estudantes, Jovem, +65).

Inaugura 18/11 às 18h.

Fireworks

De Pedro Cabral Santo.

Lisboa. VPFCream Arte. Rua da Boavista, 84 - 2º.

Tel.: 213433259. Até 31/12. 2ª a Sáb. das 14h às 19h30.

Inaugura 19/11 às 22h.

Dimensão Radial

De A Kills B.

Lisboa. VPF Rock Gallery. R. da Boavista, 84.

Tel.: 213433259. Até 31/12. 2ª a Sáb. das 14h

às 19h30. Inaugura 19/11 às 22h.

Voyager

De Pedro Cabral Santo,

Eduardo Matos, Gustavo

Sumpta, Domingos Rego.

Lisboa. Plataforma Revólver. Rua

da Boavista, 84 - 3º. Tel.:

213433259. Até 31/12. 2ª a Sáb.

das 14h às 19h30. Inaugura 19/11 às 22h.

A State of Affairs

De Alexandre Almeida, Guillaume

Pazat, Pedro Letria, Pauliana Valente

Pimental, João Pina, Augusto Brázio,

António Júlio Duarte, Jordi Burch,

Nelson D’ aires, Martim Ramos, Céu

Guarda, Valter Vinagre, Sandra

Rocha.

Lisboa. Plataforma Revólver. Rua da Boavista, 84 -

3º. Tel.: 213433259. Até 31/12. 2ª a Sáb. das 14h às

19h30. Inaugura 19/11 às 22h.

Continuam

David Claerbout

Lisboa. MNAC - Museu do Chiado. Rua Serpa Pinto,

4. Tel.: 213432148. Até 28/02. 3ª a Dom. das 10h às

18h. Festival Temps d’Image 09.

Brrrrain

De António Olaio.

Lisboa. Culturgest. Rua Arco do Cego - Edifício da

CGD. Tel.: 217905155. De 23/10 a 23/12. 2ª, 4ª, 5ª e 6ª

das 11h às 19h (última admissão às 18h30). Sáb., Dom.

e Feriados das 14h às 20h(última admissão às 19h30).

Jos De Gruyter e Harald Thys

Lisboa. Culturgest. Rua Arco do Cego - Edifício da

CGD. Tel.: 217905155. De 23/10 a 23/12. 2ª, 4ª, 5ª e 6ª

das 11h às 19h (última admissão às 18h30). Sáb., Dom.

e Feriados das 14h00 às 20h (última admissão às

19h30).

Batia Suter

Porto. Culturgest. Avenida dos Aliados, 104 -

Edifício da CGD. Tel.: 222098116. De 30/10 a

09/01. 2ª, 4ª, 5ª e 6ª das 11h às 19h.

(última admissão às 18h30) Sáb.,

Dom. e Feriados das 14h às

20h (última admissão

às 19h30).

Jorge Molder

38 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


Espaço

Público

Este espaço vai ser

seu. Que filme, peça de

teatro, livro, exposição,

disco, álbum, canção,

concerto, DVD viu e

gostou tanto que lhe

apeteceu escrever

sobre ele, concordando

ou não concordando

com o que escrevemos?

Envie-nos uma nota até

500 caracteres para

ipsilon@publico.pt. E

nós depois publicamos.

Woman in the Attic (Porto, 2006),

Mafalda Santos organiza as pastas, o

arquivo, já não segundo um

esquema tipo “árvore”, mas através

da sugestão do movimento que elas

poderiam fazer enquanto “screen

savers”, deixando atrás de si o rasto

da passagem pelo ecrã – organizou

ainda a instalação com um outro

tipo de construção visual, na qual

cada pasta com um nome escondia

atrás de si uma sucessão de outras,

contudo, mesmo neste caso, elas

nunca se cruzavam com um outro

conjunto, ao contrário do que

sucedia antes com os esquemas em

rede.

Na actual exposição, Mafalda

Santos prolonga as suas experiências

anteriores. Assim, em “One day

every wall will fall” propõe um

trabalho no qual, sobre uma grelha

previamente estabelecida, se

observa uma cronologia que coloca

em paralelo factos políticos com

exposições internacionais realizadas

após a queda do muro de Berlim, em

1989. Formalmente situada entre a

abstracção dada por uma sucessão

de finas linhas verticais – numa

escala progressiva de tons cinzentos

– e a caligrafia que nomeia os factos

retirados do livro “The Manifesta

Decade” (MIT Press, 2005), esta

obra serve para tornar claro como o

fenómeno das bienais se globalizou

nas duas últimas décadas, um

período de tempo também

associado ao nascimento e expansão

da World Wide Web, uma espécie de

nova fronteira planetária. A

consciência histórica produzida

quer pela produção, quer pela

observação desta pintura –

constituída, de facto, por duas telas

– é também um dado a ter em conta

na sua análise: os factos nela

descritos deixam de fora muitos

mais, contudo, este ponto de vista

pode ser encarado como o início de

outras investigações centradas no

período em questão.

Nos outros trabalhos apresentados

na galeria Presença, Mafalda Santos

apropria-se de catálogos com

amostras de cor para uma série de

obras – “1/4 Saved”, “2/4 Saved”, etc.

– onde é visível a contradição, o

paradoxo, entre aquilo que é

representado – “(…)uma visualização

em cascata, o movimento de um

‘screen saver’ ou de leitura de um

‘scroll’” – e o meio usado para a

representação, a pintura,

considerado obsoleto relativamente

às novas tecnologias. A exposição,

com uma montagem eficaz, termina

com “Down scroll”, desenho extenso

(950x150 cm), realizado com recurso

a um carimbo. Aqui, diante deste

labirinto sem nomes, feito pela

repetição incessante de um gesto

sobre uma folha de papel, volta a

manifestar-se uma diferença de

ordem plástica, uma distinção

ancorada numa prática tradicional;

mesmo que seja de ordem mecânica,

como é o caso – sente-se a presença

do toque humano, da imperfeição

gerada por um corpo em acção. E é

também por aqui que se abre um

território inesgotável, no qual

realidades aparentemente distantes

– os computadores, o comércio de

tintas – se cruzam numa tela,

deslocando os sentidos de modo a

criar outras singularidades, um

mundo sem fronteiras.

Sem Saída, Ensaio Sobre o

Optimismo

De Augusto Alves da Silva.

Porto. Museu de Serralves. Rua Dom João de Castro,

210. Tel.: 226156500. De 23/10 a 31/01. 3ª a 6ª das

10h às 17h. Sáb., Dom. e Feriados das 10h às 19h.

Anos 70 - Atravessar

Fronteiras

Lisboa. Centro de Arte Moderna - José de Azeredo

Perdigão. Rua Dr. Nicolau Bettencourt. Tel.:

217823474. Até 03/01. 3ª a Dom. das 10h às 18h.

Jesper Just

Lisboa. Centro de Arte Moderna - José de Azeredo

Perdigão. Rua Dr. Nicolau Bettencourt. Tel.:

217823474. Até 18/01. 3ª a Dom. das 10h às 18h.

A Interpretação dos Sonhos

De Jorge Molder.

Lisboa. Centro de Arte Moderna - José de Azeredo

Perdigão. Rua Dr. Nicolau Bettencourt. Tel.:

217823474. Até 27/12. 3ª a Dom. das 10h às 18h.

Crying My Brains Out

De António Olaio.

Lisboa. Galeria Filomena Soares. Rua da

Manutenção, 80. Tel.: 218624122. Até 16/01. 3ª a

Sáb. das 10h às 20h.

Obras de Paula Rego

De Paula Rego.

Cascais. Casa das Histórias - Paula Rego. Av. da

República, 300. Tel.: 214826970. Até 18/03. 2ª a

Dom. das 10h às 22h. Entrada livre.

Quick, Quick, Slow

Lisboa. Museu Colecção Berardo. Praça do Império

- Centro Cultural de Belém. Tel.: 213612878. Até

29/11. 6ª das 10h00 às 22h (última admissão às

21h30). 2ª a 5ª, Sáb. e Dom. das 10h às 19h (última

admissão às 18h30).

The Great Curve

De Rui Toscano.

Lisboa. Chiado 8 - Arte Contemporânea. Largo do

Chiado, 8 - Edifício Sede da Mundial-Confiança.

Tel.: 213237335. Até 31/12. 2ª a 6ª das 12h às 20h.

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 39


Concertos

Depeche Mode: a sapiência

acumulada será visível

amanhã no Pavilhão Atlântico

Espaço

Público

Pop

Nem

alienados,

nem alemães:

veteranos da

pop

Regresso de uma das bandas

nascidas na década de

1980 que melhor soube

envelhecer. Pedro Rios

Depeche Mode

Lisboa. Pavilhão Atlântico.

Parque das Nações.

Sáb. às 20h30 (portas

abrem às 19h30).

Tel.: 218918409.

30€ a 40€. Na Sala

Atlântico.

Em Outubro,

a BBC Four

Whale watching tour

protagonizada pelos

músicos Nico Muhly,

Sam Amidon, Ben Frost

e Valgeir Sigurðsson,

contando com o apoio de

uma mini-orquestra

de violino, viola,

contrabaixo e

trombone, foi uma

experiência quase

religiosa. Religiosa

no sentido a que

assistimos, na noite

de

5 de Novembro,

no Teatro Maria Matos, a

uma sagrada comunhão

musical de estilos e

músicos de origens tão

variadas - Nico, Sam e

Nadia são americanos;

Ben é australiano;

Valgeir, Una, Borgar e

Helgi são islandeses.

A música circulou por

sonoridades clássica

(Nico), folk americano

(Sam) e electrónica

(Ben e Valgeir). Este

concerto tão invulgar veio

exibiu o documentário “Synth

Britannia”, um detalhado

documentário sobre a revolução

pop que marcou a passagem da

década de 1970 para a de 1980. O

documentário dá destaque aos

Depeche Mode, grupo de

adolescentes que surgia em

Basildon, cidade do pós-II Guerra

sem tradição na história da pop,

participavam nela com pop sem

guitarras, inspirada pelos alemães

Kraftwerk e pelos Human League

dos primeiros anos. Eram os

“adolescentes de silicone”, “misto

de ‘sex appeal’ e

sintetizadores”,

refere o filme,

impecáveis em

palco, sem medo

de ser pop.

Eram tempos

que hoje parecem

quase caricatos.

Em 1982, o

sindicato dos

músicos

confirmar uma crença

que tenho: a cultura

em geral e a música em

particular são armas para

a paz e solidariedade

humanas, não havendo

nada que se compare

em universalidade e em

que qualquer instinto

competitivo se torna

construtivo. A minha

religião é a Música.

João Semog, 40 anos,

artista plástico

britânicos chegou a tentar limitar o

uso de sintetizadores, que via como

ameaça ao emprego dos músicos.

Apesar de terem levado os

sintetizadores, novidades

tecnológicas que, até então, eram

mais utilizados pela cena

experimental alemã, para o centro

da pop de massas, eram ainda mal

entendidos. Em “Synth Britannia”,

Martin Gore, principal compositor

dos Depeche Mode, lembra que um

jornalista os qualificou como

“música que agradaria a juventude

alienada e a alemães”.

Em 2009, com mais de 75 milhões

de álbuns vendidos, os Depeche

Mode já não são uma revolução, mas

constituem talvez, a par dos U2, a

banda nascida no pop-rock dos anos

80 que melhor soube envelhecer.

“‘Sounds Of The Universe”, o 12º

disco do grupo, lançado este ano,

gravado em Santa Barbara e Nova

Iorque, nos EUA, vê-os a

recuperar instrumentos

antigos (sintetizadores

analógicos e caixas de ritmos

idênticos aos que usavam

nos primeiros tempos do

grupo), cruzando esse apelo

“vintage” (e, ao mesmo tempo,

futurista) com a

densidade e

negrume que

foram

ganhando ao

longo da

carreira.

Hoje, de

regresso a

Portugal,

depois de

terem

cancelado

um

concerto no

Porto, em

Julho, devido

a uma lesão

sofrida por

Grahan, não

são uma banda

de vanguarda,

mas têm

um

corpo estético já

vasto o

suficiente

para poder ser

explorado e

doseado em cada

novo disco. Talvez

por isso Dave Gahan tenha

dito que “Sounds of The

Universe” foi um dos discos da

banda mais fáceis de compor e o

teclista Andrew Fletcher o tenha

confirmado ao Ípsilon, em Abril:

“Estamos numa fase em que as

coisas tendem a correr com

naturalidade”. Esta sapiência a

acumulada será visível amanhã no

Pavilhão Atlântico.

O melhor

do Brasil

Obrigatório para quem anda

com as contas com o Brasil

atrasadas. João Bonifácio

Marcelo D2 + Ruas

Lombos. Pavilhão Desportivo. R. da Feitoria. 6ª, 13

às 21h30. Tel.: 214585830. 22€. Clubbing: Marcelo

D2 + Bezegol

Porto. Casa da Música. Pç. Mouzinho de

Albuquerque. Sáb., 14, às 23h00. Tel.: 220120220.

Sala 2: 18€. Outros Espaços: 7,5€. Na Sala 2.

Cybermusica: Solistas Remix Ensemble, Zulzelub.

Bares 1 e 2: DJ Ride feat. Bezegol, Nego Moçambique.

Sala Roxa: Álvaro Costa. Restaurante: DJ Kikas.

Vários Espaços: Pfadfinderei.

Portugal tem fama de país amante

de música brasileira, gostamos

muito das Marias Ritas deste mundo

e de todo o “bota-o-pé-no-chão” que

vá a um programa matinal de TV,

mas nunca fomos muito para além

do óbvio, nunca ouvimos mais que

os nomes maiores da bossa e do

tropicalismo. E assim passou-nos ao

lado de quase tudo: do funk

brasileiro (a Banda Blak Rio), da

mistura entre o delírio e as raízes

(Lula Cortez) ou entre forró, axé e

guitarras eléctricas (Novos Baianos),

do rock psicadélico (Som

Imaginário), das aproximações à

soul (Marcos Valle), do swing-rock

com tradição dentro (Clube do

Balanço), do samba mais arrasador

(a estupenda Sapoti da Mangueira)

ou da grande salgalhada psicadélicatradicional

(Los Sebosos Postizos).

Lá houve uns tempos em que se

ouviu Mamonas Assassinas, Lenine,

Gabriel O Pensador ou Chico

Science, mas entretanto a nova

música brasileira parecer ter

desaparecido dos nossos hábitos. O

40 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


Samara Lubelski, directamemte

da cena experimental nova-iorquina

Deixemo-nos abanar pelo poder rítmico de Marcelo D2

Youth de “Field The Mine”.

Na primeira parte do concerto,

amanhã, no Museu do Chiado,

em Lisboa, estará Kuupuu,

nome artístico da

finlandesa Jonna

Karanka. É um dos

agentes da

populosa e

activa cena

experimental

finlandesa que

tem na editora

Fonal a sua plataforma e já deu a

conhecer ao mundo artistas

brilhantes como Islaja e Es. Pratica

uma música com raízes na folk e

“psicadelia” mais ácidas, mas tão

fracturada e abstracta que essas

associações servem mais como

pontos de partida do que definições

estanques. Através de cassetes,

“loops”, brinquedos, teclados,

efeitos e a sua voz, Karanka cria

mantos de som entre a terra e o

espaço

mais

longínquo.

Pedro Rios

que isto significa é que o concerto do

brasileiro Marcelo D2 é obrigatório

para quem anda com as contas com

o Brasil atrasadas. A conhecer um

músico brasileiro não caquético (i.e.:

acessível mas relevante), esse

músico é Marcelo, como se pôde

comprovar no Sudoeste deste ano:

acompanhado por três MCs, um

baterista, um baixista, um

guitarrista e um gira-disquista, deu

uma festa tremenda, baseada,

primordialmente, no hip-hop, mas

cheia de beats bestiais, riffs a rasgar,

tudo. Marcelo, como se comprova

pela sua discografia, faz hip-hop,

mas é capaz de flirtar com o samba,

com o funk, com o disco-sound, com

a música tradicional, com o que

quer que lhe passe pela cabeça.

Ouçam com atenção “A Arte do

Barulho”, o seu último disco, e

deixem-se abanar por aquele poder

rítmico.

Ligação

transatlântica

Samara Lubelski + Kuupuu

Lisboa. MNAC - Museu do Chiado. Rua Serpa Pinto,

4. Sáb., 14, às 22h00. Tel.: 213432148. 5€.

Samara Lubelski é uma novaiorquina

com carreira com duas

faces: é um nome reputado na cena

experimental, tendo pertencido aos

Tower Recordings (onde também

militava Matt Valentine), pioneiros

da vaga de folk psicadélica desta

década, e produzido discos de gente

como os ruídosos Sightings e

Mouthus; a solo, inventou uma “pop

de câmara” feita de guitarras suaves,

a sua voz em sussura, bateria quase

inexistente.

“Future Slip”, o disco mais

recente, produzido por Thurston

Moore, dos Sonic Youth, prossegue

esta linhagem. Ouvindo os seus

discos a solo, descobre-se que

Lubelski anda em torno de uma

mesma canção, algures entre a

doçura de “Sunday Morning” dos

Velvet Underground, sem a ressaca,

a folk pop de Linda Perhacs e Judee

Sill e as canções açucaradas dos

Stereolab. No novo álbum há

algumas novidades (ou variações do

mesmo padrão), como o exercício

de teclados e vozes em suspensão

que é “The Trip is Out”, o

psicadelismo contido de “Silver

Hair” e o “feedback” quase Sonic

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 41


Concertos

Oumou Sangaré: ritmo não precisa de língua nem tradução.

Agenda

O ritmo não precisa

de tradução

Oumou Sangaré

Lisboa. CCB. Pç. do Império. Sáb., 14, às 21h00. Tel.:

213612400. 18€ a 40€.

Se Oumou Sangare é a rainha da

música do Mali isso deve-se à sua

voz e não à sua memória. Prova

disso, uma afirmação dela em

conversa com o Ípsilon há dias.

Dizia Oumou: “Faz agora seis anos

que não

toco na Europa”.

Bem, Oumou é tudo menos

compositora prolífica e por norma

demora muito a voltar aos palcos,

mas as suas contas estão erradas:

ainda há dois anos pontificou o

Festival de Música do Mundo de

Sines. Portanto, o concerto de

amanhã no CCB (Lisboa) será o

primeiro em dois anos e não o

primeiro em seis anos.

O que Oumou queria dizer é que

há seis anos que não faz uma

digressão a sério. “Na altura fiz uma

digressão mundial”, conta,

explicando em seguida as razões da

demora em voltar massivamente aos

palcos: “Tive de descansar, tratar do

meu filho que quase já não me

conhecia. Mas como não consigo

estar parada, entretanto montei

um hotel e criei um negócio de

venda de jipes”.

Na altura andava a promover

“Oumou”, uma espécie de best-off

que punha fim a quatro anos de

silêncio, desde “Worotan”, o seu

terceiro disco. “Oumou” serviu,

também, para muita gente ouvir

pela primeira vez o extraordinário

ritmo que perpassava as faixas de

“Moussolou”, o seu magnífico disco

de estreia, que faz agora vinte anos.

“Moussolou” era um disco

ideologicamente marcado (a

palavra, em maliano, significa

“Mulheres”), que era pioneiro na

mistura da música Wassulu (da zona

natal de Sangare) com instrumentos

ocidentais.

“Ainda hoje os fãs pedem muito

para tocar as canções [de

“Moussolou”]”, diz Oumou,

contando que, ao contrário do que

pensávamos, isso não a irrita,

“porque na música cada um tem os

seus gostos” e ela só tem “de

respeitar os fãs”. “Agradeço a todos

por me ouvirem, seja qual for o

disco que gostam mais”, faz questão

de referir.

Por isso, no concerto do CCB

“haverá canções de discos antigos”,

mas acima de tudo Oumou vai

“tocar muito de ‘Seya’”, o seu quarto

disco em vinte anos, acabado de

lançar, e primeiro de originais em

treze. “Seya” é um regresso às

origens, aproximando-se do som

ritmado de “Moussolou”. Se este

fora, na altura, visto pela imprensa

ocidental como um disco “funk”,

“Seya”, com as suas flautas e batidas

analógicas é um disco quase “soul”.

Na altura o uso de termos

ocidentais para descrever a sua

música irritava-a. Hoje, confessa está

mais amansada. “Gosto muito de

funk, mas não é o que faço. Hoje

penso que há uma ligação entre a

minha música tradicional e o funk,

por causa da emigração e da

escravatura. Portanto hoje não me

zango quando me chamam funk”.

Em palco vai haver, “como de

costume”, guitarra, baixo, ngoni ni

(uma guitarra tradicional de

quatro cordas), mas desta vez

Oumou vai ter “bateria e flauta,

mais duas dançarinas que são

extraordinárias”. As

senhoritas “vão mostrar a

dança maliana, tal como nós a

fazemos”. Diz Oumou que

quer “explicar tudo o que

canta para que todos percebam a

cultura maliana”. Dizemos nós

que o fundamental será

facilmente percebido: chama-se

ritmo e não precisa de língua nem

tradução.

sexta 13

Jay-Jay Johanson

Lisboa. Café Teatro Santiago Alquimista. R.

Santiago, 19. 6ª às 22h00 (portas abrem às 21h).

Tel.: 218884503. 22€.

Radu Lupu, Mihaela Costea e

Orquestra Gulbenkian

Lisboa. Fundação e Museu Calouste Gulbenkian.

Avenida de Berna, 45A. 6ª às 19h00.Sáb. às 21h00.

Tel.: 217823700. 17,5€ a 35€.

No Grande Auditório. Ligeti, Bartók

e Kodály.

Orquestra Nacional do Porto

Direcção Musical: Ralph Lange. Com

Aldo Salvetti (oboé), Gavin Hill

(fagote), Dominic Moore (violino),

José Augusto Pereira de Sousa

(violoncelo).

Porto. Casa da Música. Pç. Mouzinho de

Albuquerque. 6ª às 21h00. Tel.: 220120220. 16€.

Jantar-concerto: 30€. Passe Festival: 55€. Na Sala

Suggia.

Festival À Volta do Barroco.

Andy Mckee

Sesimbra. Cine-Teatro Municipal João Mota. Av.

Liberdade, 46. 6ª às 21h30. Tel.: 212288715. 7,5€.

M/6.

Júlio Pereira

Lisboa. CCB. Pç. do Império. 6ª às 21h00. Tel.:

213612400. 5€ a 27,5€.

Bass Clef + Team Brick + DJ Sniff

+ Infinite Livez + Katapulto +

Whit & QuWack (Gabriel

Ferrandini + Alfredo Carajillo +

Tiago Morna)

Lisboa. Galeria Zé dos Bois. R. da Barroca, 59 -

Bairro Alto. 6ª às 22h00. Tel.: 213430205. 8€.

Hank Jones Trio

Guimarães. CC Vila Flor. Av. D. Afonso Henriques,

701. 6ª às 22h00. Tel.: 253424700. 17,5€ a 20€

(sujeito a descontos). Passe Festival: 90€. No Grande

Auditório.

Guimarães Jazz 2009. M/12.

Os Quais

Faro. Centro de Artes Performativas do Algarve

(CAPa). R. Frei Lourenço de Santa Maria, 4. 6ª às

21h30. Tel.: 289828784. 6€ (sujeito a descontos).

Cristina Branco

Coimbra. Fnac (Fórum Coimbra). Quinta de São

Gemil. 6ª às 22h00. Tel.: 707313435.

Entrada livre.

Black Sun + Altar Of Giallo +

Altar Of Plagues + Japanische

Kampfhörspiele + Habsyll +

Utopium

Braga. Junta de Freguesia de Panóias. 6ª às 19h00.

Tel.: 253282793. 15€ (dia). Passe Festival: 35€ (prévenda:

30€). Informações: 961958558, 919895651.

Bracara Extreme Fest

2009.

Ana Moura

Coimbra. Teatro Académico

de Gil Vicente. Pç.

República. 6ª às 21h30.

Tel.: 239855636.

20€ (sujeito a

descontos).

Virgem Suta

Maia. Tertúlia

Castelense. R.

Augusto

Nogueira da

Silva,

Ana Moura

42 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


SÃO

LUIZ

DEZ~O9

estreias

internacionais

novas músicas

no são luiz

2 DEZ

QUARTA ÀS 21H00

SALA PRINCIPAL

CO-PRODUÇÃO

SLTM ~ UGURU

M/3

Jay-Jay Johanson

em Lisboa

e Guimarães

Cristina Branco

CO-PRODUÇÃO:

MY

BRIGHTEST

DIAMOND

2 DEZ

779. 6ª às 23h30. Tel.: 229829425. 5€.

sábado 14

João Pedro Pais

Lisboa. Coliseu. R. Portas St. Antão, 96. Sáb. às 22h00

(portas abrem às 21h). Tel.: 213240580. 12,5€ a 30€.

Delfins

Porto. Coliseu. R. Passos Manuel, 137. Sáb. às 22h00.

Tel.: 223394947. 10€ a 25€.

25 Anos, 25 Êxitos, 1 Abraço.

Academy Of Ancient Music

Com Carolyn Sampson (soprano).

Maestro: Richard Egarr.

Porto. Casa da Música. Pç. Mouzinho de

Albuquerque. Sáb. às 21h00. Tel.: 220120220.

10€. Passe Festival: 55€. Na Sala Suggia.

Festival À Volta do Barroco. Obras de

Purcell e Häendel.

Ver texto pág. 13

Direcção Musical: Filipe Faria, Sérgio

Peixoto. Com Filipe Faria (tenor),

Sérgio Peixoto (tenor), Zsuzsi Tóth

(soprano), Pedro Castro (flautas de

bisel e oboé), Inês Caldas (flautas de

bisel), Diana Vinagre (violoncelo),

Hugo Sanches (tiorba e alaúde).

Beja. Igreja de Santa Maria da Feira. Lg. Santa Maria

e R. Dr. Manuel Arriaga. Sáb. às 21h30. Informações:

210995674, 917936202.

Ver texto págs 14

Congregados. Dom. às 17h00. Tel.: 707313435.

Entrada livre.

segunda 16

Little Annie + Paul Wallfisch

Com Little Annie (voz), Paul

Wallfisch (piano).

Lisboa. Maxime. Pç. Alegria, 58. 2ª às 21h00. Tel.:

213467090. 8€.

quarta 18

Ana Moura

Torres Novas. Teatro Virgínia. Lg. São José Lopes dos

Santos. Sáb. às 21h30. Tel.: 249839309. 15€.

David Fonseca

Faro. Teatro Municipal. Horta das Figuras - EN125.

Sáb. às 21h30. Tel.: 289888100. 12€ a 17,5€. Na Sala

Principal.

Rodrigo Leão & Cinema Ensemble

Guarda. Teatro Municipal. R. Batalha Reis, 12. Sáb.

às 21h30. Tel.: 271205241. 10€. No Grande Auditório.

Apresentação de “A Mãe”.

Branford Marsalis Quartet

Guimarães. CC Vila Flor. Av. D. Afonso Henriques,

701. Sáb. às 22h00. Tel.: 253424700. 17,5€ a 20€

(sujeito a descontos). Passe Festival: 90€. No Grande

Auditório.

Jay-Jay Johanson

Guimarães. São Mamede - Centro de Artes e

Espectáculos. R. Dr. José Sampaio, 17-25. Sáb. às

22h00. Tel.: 253547028. 15€ a 20€. Na Sala Principal.

Cristina Branco

Matosinhos. Cine-Teatro Constantino Nery. Avenida

Serpa Pinto. Sáb. às 22h00. Tel.: 229392320. 10€.

Apresentação de “Kronos”.

Malignant Tumour + Minsk +

Inhumate + A Storm Of Light +

Dawnrider + Catacombe + Sem

Talento + The Walking Dead +

Extreme Retaliation

Braga. Junta de Freguesia de Panóias. Panóias. Sáb.

às 17h00. Tel.: 253282793. 15€ (dia). Passe Festival:

35€ (pré-venda: 30€). Informações: 961958558,

919895651.

Bracara Extreme Fest 2009.

Andy Mckee

Estarreja. Cine-Teatro Municipal. R. do Visconde de

Valdemouro. Sáb. às 22h00. Tel.: 234811300. 5€

(sujeito a descontos).

Mafalda Arnauth

Chaves. Casino. Lugar do Extremo - Valdanta. Sáb. às

20h30. Tel.: 276309600. 50€ (jantar-concerto).

Miss Lava + Dollar Llama +

Marbles

Benavente. Side B. Rua dos Paços, 1 - Ota. Sáb. às

22h00. Tel.: 966664979.

Wallfisch

Com Little Annie (voz), Paul

Wallfisch (piano).

Leiria. Teatro Miguel Franco (Centro

Cultural ). Lg. Santana. Sáb. às

22h00. Tel.: 244860480. 15€.

Pré-venda: 12,5€.

Mr. Gasparov + Bass

Clef + Andre

Wakko

Lisboa. MusicBox. R. Nova do

Carvalho, 24 - Cais do Sodré.

Sáb. às 23h00. Tel.:

213430107. 8€.

Sete Lágrimas

Richard Egarr

dirige a Academy

Of Ancient Music,

na Casa da Música

e na Gulbenkian

Jacinta Canta Songs Of Freedom

Vila Nova de Gaia. Fnac (GaiaShopping). Avenida dos

Descobrimentos, 549. Sáb. às 22h00. Tel.: 707313435.

Entrada livre.

domingo 15

Moscow Piano Quartet

Cascais. Centro Cultural de Cascais. Av. Rei

Humberto II de Itália. Dom. às 17h00. Tel.:

214848900. Entrada livre. Informações: 214815330.

Obras de Haydn e Martinu.

Academy Of Ancient Music

Com Carolyn Sampson (soprano).

Maestro: Richard Egarr.

Lisboa. Fundação e Museu Calouste Gulbenkian. Av.

de Berna, 45A. Dom. às 19h00. Tel.: 217823700. 20€

a 40€.

Ver texto pág. 13

Akademie Für Alte Musik Berlin

Direcção Musical: Georg Kallweit.

Com Georg Kallweit (violino).

Porto. Casa da Música. Pç. Mouzinho de

Albuquerque. Dom. às 18h00. Tel.: 220120220. 10€.

Passe Festival: 55€. Na Sala Suggia.

Festival À Volta do Barroco. Obras de

Häendel, Locke e Purcell.

Sete Lágrimas

Direcção Musical: Filipe Faria, Sérgio

Peixoto.

Lisboa. CCB. Pç. do Império. Dom. às 18h00. Tel.:

213612400. 10€ (sujeito a descontos). Na Sala Luís de

Freitas Branco. Silêncio: obras de Moody, Smith e

Madureira.

Concerto precedido de conversa (17h).

Ver texto pág. 14

Hank Jones Trio

Com Hank Jones (piano), George Mraz

(contrabaixo), Carl Allen (bateria).

Lisboa. Culturgest. R. Arco do Cego - Edifício da CGD.

Dom. às 21h30. Tel.: 217905155. 20€ (sujeito a

descontos). No Grande Auditório.

Trigger The Bloodshed + Man

Must Die + Nahemah + Eryn Non

Dae + Nightshade + Here Comes

The Kraken + Crushing Sun +

Hunted Scriptum

Braga. Junta de Freguesia de Panóias. Panóias. Dom.

às 17h00. Tel.: 253282793. 15€ (dia). Passe Festival:

35€ (pré-venda: 30€). Informações: 961958558,

919895651.

Bracara Extreme Fest 2009.

Jacinta Canta Songs Of Freedom

Braga. Fnac (Braga

Parque). Qta dos

Concerto de Abertura do Ano

Académico 2009/2010. Obras de

Brahms e Rutter.

Orquestra Barroca da União

Europeia

Direcção Musical: Petra Müllejans.

Com Petra Müllejans (violino).

Porto. Casa da Música. Pç. Mouzinho de

Albuquerque. 4ª às 19h30. Tel.: 220120220. 10€.

Passe Festival: 55€. Na Sala Suggia.

Festival À Volta do Barroco. The

Harmony of Nature: obras de Corelli,

Schmelzer, Muffat, Mayr, Vivaldi e

Häendel.

George Colligan Quintet

Com George Colligan (piano), Josh

Ginsburg (contrabaixo), EJ

Strickland (bateria), Michael Blake

(saxofone), Jaleel Shaw (saxofone).

Guimarães. CC Vila Flor. Avenida D. Afonso

Henriques, 701. 4ª às 22h00. Tel.: 253424700. 7,5€

(sujeito a descontos). Passe Festival: 90€. No

Grande Auditório.

Guimarães Jazz 2009.

quinta 19

Esther Georgie e Orquestra

Gulbenkian

Com Esther Georgie (clarinete).

Maestro: Peter Ruzicka.

Lisboa. Fundação e Museu Calouste Gulbenkian.

Av. de Berna, 45A. 5ª às 21h00.6ª às 19h00. Tel.:

217823700. 10€ a 20€.

No Grande Auditório. Obras de

Strauss, Ruzicka e Schumann.

David Fonseca

Aveiro. Teatro Aveirense. Pç. República. 5ª às

21h30. Tel.: 234400922. 15€ a 17,5€. Na Sala

Principal.

Overtone Quartet

Com Dave Holland (contrabaixo),

Jason Moran (piano), Chris Potter

(saxofone), Eric Harland (bateria).

Guimarães. CC Vila Flor. Avenida D. Afonso

Henriques, 701. 5ª às 22h00. Tel.: 253424700. 17,5€

a 20€ (sujeito a descontos). Passe Festival: 90€. No

Grande Auditório.

Guimarães Jazz 2009.

Rooster Night

Com Cpt. Luvlace, Trol 2000, Señor

Pelota, Mário Valente, Flip vs. Fritus,

Mr. Mitsuhirato, Disco Balearica

Cosmica, Xinobi vs. Rockets, Pan

Sorbe, Mário João, Gun N´Rose,

Photonz, Glam Slam Dance, Zero

Cash, Manaia, Klipar vs. Zink,

Intelectronik, Double Damage vs.

Bandido$.

Lisboa. Lux Frágil. Av. Infante D. Henrique,

Armazém A. 5ª às 23h00. Tel.: 218820890.

Consumo mínimo.

Angry Odd Kids + Defying

Control + Borderline Insane

Lisboa. MusicBox. R. Nova do Carvalho, 24 - Cais

do Sodré. 5ª às 22h30. Tel.: 213430107. 8€ (oferta

de CD+ 1 bebida).

Apresentação de “AOK”.

L’Herbe Folle

Porto. Maus Hábitos. R. Passos Manuel, 178. 5ª

às 22h00. Tel.: 222087268.

© Julien Bourgeois

SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL

RUA ANTÓNIO MARIA CARDOSO, 38 / 1200-027 LISBOA

GERAL@TEATROSAOLUIZ.PT / T: 213 257 640

BILHETEIRA DAS 13H ÀS 20H

T: 213 257 650; BILHETEIRA@TEATROSAOLUIZ.PT

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Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 43


Discos

Espaço

Público

Pop

O futuro foi

agora

Dâm-Funk vai ao passado

inventar a música do futuro.

João Bonifácio

Dâm-Funk

Toeachizown

Stones Throw; distri. Flur

MMMMM

Dâm-Funk consegue

em “Toeachizown”

um milagre: tornar o

funk, que sempre

fora música para

exteriorizar, em

carrocel interior: “Toeachizown” faz

dançar, sim, mas apenas os

neurónios. Nos seus traços

arqueológicos fundamentais, a

música de Dâm-Funk tem dívidas

para com Dr-Dre no que toca aos

beats, não esquece os primórdios do

drum’n’bass, deixa que a sombra de

combos derivados do House, como

os Cybotron, os Metro Area ou os

Konk se faça sentir, e não esconde a

herança dos Kraftwerk. Mas o

fundamental é a recuperação de

sintetizadores experimentados nas

aventuras electro-jazz de Roy Ayers

(“In The Dark” ou “You Might Be

Surprised”) e Herbie Hancock

(“Headhunters”). Por

norma, nos 29 temas dos

cinco volumes do disco,

tudo assenta num beat,

uma linha sintetizada de

baixo e pelo menos duas

frases de sintetizadores.

Isto confere ao disco um

tom minimal e repetitivo,

que, dada a sua duração,

podia torná-lo enfadonho

– mas como cada

partícula de som

Dâm-Funk: é o que fica depois de toda a música negra ter passado

por um funil, um filtro e um toque de Midas

Tinha tudo para correr

mal. Quatro teenagers – ou

muito perto disso – ainda

perseguidos pelo acne

juvenil, o aspecto Emo que

faz lembrar uns Cure só que

bem vestidos, uma

formação

é trabalhada milimetricamente, cada

tema soa distinto e a sucessão de

temas torna-se ampliação de um

universo. Frases de sintetizador

entregam-se a devaneios, vozes são

robotizadas, linhas de baixo discosound

transformam-se em

futurismo, há arpejos de piano

eléctrico, xilofones sintetizados,

beats desconstroem-se em

andamento. As barreiras pop são

esquecidas em função de um ritmo

que se instala e se assemelha a um

torpor pós-festa, a uma trip

hipnótica: à medida a que se avança

disco adentro a produção vai

ficando menos sombria, os acordes

menores dão lugar a uma maior

respiração e, tal como a capa do

disco, passa-se de uma melancolia

azul para um vermelho sensual,

tudo sempre coado pelos óculos de

sol. O bigode está lá para dizer que

esta música, este “black robot-funk”,

veio das ruas, da sujeira e da

perdição.

Ponhamos as coisas assim:

“Toeachizown” é o que fica depois

de toda a música negra ter passado

por um funil, um filtro e um toque

de Midas.

Enciclopédia

da sedução

O melhor disco de soul

clássica desde que se deixou

de fazer soul clássica. João

Bonifácio

Mayer Hawthorne

A Strange Arragement

Stones Throw; distri. Flur

MMMMN

tradicional – bateria, baixo,

teclas, guitarras e vozes – e

mais um daqueles discos

de lamentos sobre o estado

do mundo e a dor da alma.

Porém, depois de dias

passados a escutar “XX”

em modo loop, de uma coisa

estou certo. O prémio para

a melhor estreia do ano de

2009 deve ser entregue

aos XX.

“XX” é um disco com

“A Strange

Arragement”,

estreia de Mayer

Hawthorne, é um

manancial de

ganchos, charme,

metais e coros doo-wop, perfeição

soul clássica cuja modernidade

advém de uma espécie de aplicação

de som lo-fi e da depuração da

canção

ao seu sumo essencial.

Depois

da entrada doo-wop de

“Prelude” chega a faixa-título, com

voz a cirandar, suave e colocada

como a de Smokey Robinson, por

entre piano e metais, antes de se

atingir um refrão acarinhado

por flautas, todo doçuras. A

terceira cação, o single “Just

ain’t gonna work out”, parte

de um beat perfeito, apoia-se

em teclas saborosas e coros

doo-wop saídos do pó de um

vinil dos Temptations:

inabalável instinto pop,

canção do ano ao lado de

qualquer uma de João

Coração. Daqui para a

Mayer Hawthorne: o mais lânguido e tremendamente pop disco soul dos últimos anos

frente Hawthorne dispara em todas

as direcções da soul de charme,

acertando sempre no alvo da pop.

“Maybe so, maybe so” faz uma

tangente à soul funky com metais

propiciadores da procriação (à moda

de Frederik Night); “Your easy lovin’

ain’t pleasin’”, com o seu beat

marcado, palmas, piano e teclas,

deve tudo às Ronettes, às Crystals,

mas em particular a Martha Reeves

& The Vandellas (lembra “Honey

Chile”, escrita por Richard Morris e

Silvya Moy); “I wish it would rain”,

balada ao piano, é Burt Bacharach

com arranjos de metais sedosos à

Thom Bell; e “Make her mine” chega

ao cúmulo de roubar os acordes

iniciais de “People get ready” de

Curtis Mayfield, cuja influência se

volta a notar em “The ills”: falsete,

linha de baixo a rebentar, percussão

que se atira ao cóccix e metais a

fazer pactos com o diabo. Mas quem

conhece bem a soul e o funk sabe

que foi sempre assim: uma malha

furtada aqui, um rapinar de arranjos

acolá. Hawthorne é o melhor

meliante de todos – e inspirado por

Smokey Robinson, Morris & Moy,

Holland-Dozier-Holland, Bacharach,

Stevie Wonder e Mayfield escreveu o

mais lânguido, bem-humorado e

tremendamente pop disco soul dos

últimos muitos anos.

Dandy

africano

Baaba Maal lança o álbum

mais original e ligeiro em

mais de vinte anos de

carreira. Luís Maio

Baaba Maal

Television

Palm, distri. Massala

MMMMN

doses tripartidas de

hipnose, celebração e

melancolia, onde um groove

sonambulesco se deixa

levar por teclados que

arranham e guitarras que

parecem estar num praia

longínqua a domar ondas

de uma altura respeitável.

Penso numa casa

assombrada pelas

guitarras lacrimejantes de

Chris Isaac, vigiada pelo

Baaba Maal sempre

foi um artista

heterodoxo.

Lançado por Chris

Blackwell em finais

dos anos 80, o

senegalês editou desde aí discos

monumento colossal dos

Young Marble Giants e onde

delírios fílmicos de David

Lynch são projectados em

paredes nuas. Um curto

poema, atravessado por

lágrimas e risos, a que

ofereço 9 letras X (em 10).

Pedro Miguel Silva

Técnico de Comunicação, 35

anos

Blog: http://fusco-lusco.

blogspot.com

híbridos e modernos, mas também

tradicionais e acústicos. A sua

carreira conheceu alto e baixos, mas

isso não impediu Blackwell de o

chamar de volta, quando vendeu a

editora Island e fundou a nova

independente Palm, em 1998. Agora

a Island está a comemorar meio

século de existência e, além dos

concertos e reedições do fundo de

catálogo, Blackwell quis voltar a

arriscar. Lançou o desafio de gravar

um álbum diferente de todos os

outros a Baaba Maal, que não

editava desde 2001 e tem passado os

últimos anos mais envolvido na

implementação do programa

educativo das Nações no Senegal.

Entretanto, Blackwell chamou a

estúdio outros dos seus cúmplices

de longa data, o guitarrista e

produtor Barry Reynolds (Marianne

Faithfull, Grace Jones), que por sua

vez fez convocou os Brazilian Girls,

trio novaiorquino que até agora

editou três álbuns entre a pop, a

world e a dança. Pelo meio surgiu

ainda John Leckie, produtor dos

Radiohead.

O resultante “Television” é um

disco de fusão, que tem tanto de

original, quanto de ligeiro e

comercial. Os dilemas que África

enfrenta à entrada deste milénio

dominam as letras, desde os efeitos

da televisão nas comunidades

tradicionais à falta de seriedade dos

políticos africanos, passando pela

defesa dos direitos das mulheres.

Baaba declama e canta sobre estes

temas com uma voz extraordinária,

ao tempo serena e possessa, animal

e espiritual, telúrica e estelar. Nunca

cantou tão bem, porventura porque

desta vez não está sozinho e

enquanto ele canta em fulani e

wolof, Sabina Sciubba alterna e dilui

espanhol e francês, na linha da

algarviada sensual em que se

especializou nos Brazilian Girls. A

matriz das canções cabe às guitarras

progressivas de Reynolds e aos

teclados de Did Gutman (também

Brazilian Girls), que amiúde vão

contracenando com talking drums,

djambés e outras percussões

senegalesas.

Há longas peças (o disco só tem

oito temas) que invocam as grandes

paisagens africanas e toda a sua

magia espiritual. Mas também há

“Television”, que é pop altamente

trauteável, “Dakar Moon”, radioso

épico de sabor flamenco (em que

pela primeira vez o senegalês canta

em inglês), ou “International”, que

recicla o hino dançante homónimo

do último álbum dos Brazilian Girls.

A ocidentalização assumida pelos

produtores, o mundanismo sexy na

voz Sabina, e a tendência cada vez

maior de Baaba para o crooning pop

podem causar surpresa, ou mesmo

chocar numa primeira audição.

Depressa se percebe, contudo, que

são pilares de uma nova pop

africana, ousada, elegante e

sofisticada.


aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

JAYME THORNTON

Vampiros

de fim-desemana

Canções pop electrónicas

arejadas, apesar de

nitidamente influenciadas

pela face escura dos anos 80.

Vítor Belanciano

Cold Cave

Love Comes Close

Matador, distri. PopStock

MMMMN

Cold Cave: som nocturno, de vampiros que gostam de dançar ao fim de semana

Quem gosta de caça

às bruxas, tem

muito aqui por onde

caçar. Tradução

livre: quem acha

que a música pop

contemporânea está cada vez mais

autofágica, limitando-se a reciclar

influências, tem aqui muito por

onde se digladiar. Repetindo aquilo

que já dissemos por inúmeras vezes:

essa visão não estando, na

aparência, errada, é um equívoco

porque esquece que esse não é um

sinal exclusivo destes tempos.

Sempre foi assim. A diferença é que

hoje estamos mais conscientes da

história. Apenas isso.

Quando se pensa assim, parte-se

para a audição do álbum de estreia

dos Cold Cave mais descontraído.

Quem não o fizer, passará o tempo

todo muito agitado por perceber que

conhece todos os grupos que

poderão ter influenciado o quarteto

ianque (Kraftwerk, New Order ou

Suicide, do passado; Chromatics,

Colder ou Crystal Castles no

presente). Não dá saúde. Passa-se ao

lado do essencial. Criam-se mitos

românticos acerca da ideia de

autoria. Mas faz crescer o ego. E

caçam-se bruxinhas.

De Filadélfia, os Cold Cave fazem

canções pop electrónicas marcadas

por ambientes emocionais cinzentos

e vozes neutras. “Love Comes Close”

é o característico disco de esteta –

neste caso, Wesley Eisold,

acompanhado por três cúmplices.

Ou seja, trata-se de alguém com olho

clínico que sabe precisamente quais

os propósitos a alcançar. Alguém

que nos devolve narrativas pessoais

a partir de uma música minimalista,

assente em vagas permanentes de

sintetizadores, delimitada por

ambientes cinematográficos

sombrios e voz de robô

desencantado. A atravessar todas as

canções uma melancolia que se

confunde com um leve torpor

sensual, como se “Love Comes

Close” se dividisse entre a utopia

tecnológica e a relação mais

corpórea com a música. Som

nocturno, de vampiros que gostam

de dançar ao fim de semana, daqui

poderia sair um disco requentado,

mas não: são canções construídas

com apuro, e de impacto imediato,

aquelas que se fazem ouvir. Quando

se dá isso por

adquirido, as

Jackie McLean: um disco que

consolidou um jazz moderno

e criativo com fortes raízes

no hard-bop

influências deixam de constituir

problema. Estão lá, porque ninguém

cria a partir do nada, mas sim da

desordem.

Jazz

Dois passos

à frente

Reedição de dois registos

cruciais no desenvolvimento

de um jazz simultaneamente

livre e estruturado. Rodrigo

Amado

Jackie McLean

One Step Beyond

Blue Note, dist. EMI

MMMMM

Sam Rivers

Dimensions &

Extensions

Blue Note, dist. EMI

MMMMM

Uma, duas...três notas,

e é imediato! É Jackie

McLean no sax alto.

O seu som, com

ligeira

desafinação para

os agudos, é

inconfundível. É

fácil perceber o

que pretendia

ao dar o nome

de “One Step

Beyond” a um

dos seus registos

mais visionários,

uma gravação que fez

avançar a sua carreira e,

de uma forma geral, o

desenvolvimento e

Jacinta: perpetua-se o equívoco

de uma cantora interessante

a quem querem colar o rótulo

de “grande cantora de jazz”

consolidação de um jazz

moderno e criativo com fortes

raízes no hard-bop.

Em 1963 a energia do free-jazz

andava no ar. Ornette Coleman

editara, dois anos antes, “This is

Our Music”, e músicos como Eric

Dolphy, um ano antes de gravar a

obra-prima “Out to Lunch”,

estilhaçavam os limites do bop

inovando em todas as direcções.

McLean reúne o trombonista

Grachan Moncur III, o vibrafonista

Bobby Hutcherson, o contrabaixista

Eddie Khan e o baterista Tony

Williams e fecha-se no estúdio com

o intuito de explorar territórios

sonoros nunca antes visitados.

Ouça-se o fabuloso solo de

“Frankenstein”, uma linha de

enorme intensidade e contenção

que poderia ter sido feita por

qualquer jovem estrela do jazz

actual.

Igualmente importante e

inovador é “Dimensions &

Extensions”, extraordinário registo

do saxofonista Sam Rivers, gravado

quatro anos mais tarde, que reúne

Donald Byrd (trompete), Julian

Priester (trombone), James

Spaulding (sax alto e flauta), Cecil

McBee (contrabaixo) e Steve

Ellington (bateria). Com um

equilíbrio final bastante mais free e

menos bop do que “One Step

Beyond”, “Dimensions &

Extensions” afirmou-se como uma

sinfonia de movimentos e timbres

que se libertavam mutuamente,

testando as mais estranhas, e pouco

usuais, combinações rítmicas,

melódicas e harmónicas. Aquilo que

foi ouvido na altura como

totalmente dissonante e

imprevisível, é hoje reconhecido

como jazz moderno do mais alto

calibre por um dos grandes mestres

do género.

Uma estrela

à chuva

Uma cantora interessante

que conquista pela

sua entrega, alegria e

ingenuidade musical.

Rodrigo Amado

Jacinta

Songs of Freedom

Blue Note, dist. EMI

MMNNN

O caso de Jacinta é

um dos maiores

equívocos da cena

jazz nacional.

Lançada para o

estrelato através de

uma participação vibrante no

concurso Chuva de Estrelas, tem

passado desde então, de produtor

para produtor, numa busca de êxito

que parece ser para ela mais

importante do que um trabalho

sério na consistência da sua música.

O seu melhor momento teve-o em

“Tributo a Bessie Smith”, disco

luminoso relativamente ao qual se

compreende cada vez mais o papel

determinante da produção de

Laurent Filipe. Nesse disco, Jacinta

fazia das suas fragilidades encanto e

emoção, e alcançava uma

expressividade pouco habitual nas

cantoras portuguesas.

Em 2006 editou “Day

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 45


Discos

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

Alte Musik Berlin

Dream”, álbum com produção de

Greg Osby em que se pressente uma

falta de direcção musical que desse

continuidade ao registo de estreia.

Um ano mais tarde lançou

“Convexo”, registo dedicado à

música de José Afonso, revelando as

mesmas fragilidades mas desta vez

sem um produtor à altura que

salvasse a música de uma

mediocridade embaraçosa.

Em “Songs of Freedom” Jacinta dá

um passo certeiro em frente e

constrói um álbum de versões em

torno de uma improvável selecção

de temas, universalmente

conhecidos, como “How deep is

your love”, “Georgia on my mind”,

“Don’t worry, be happy” ou “Where

the streets have no name”. A sua

primeira grande vitória é a forma

como evita uma repetição das

versões originais, lançando-se em

imaginativas reinterpretações que

dão vida própria a temas já

demasiado explorados. Outros

pontos a seu favor são ainda a

alegria e a intensidade da entrega

que coloca nas interpretações. No

entanto, as fragilidades regressam

em força, no acompanhamento

instrumental e, mais grave, na

própria voz, perpetuando-se o

equívoco de uma cantora

interessante a quem querem colar o

rótulo de “grande cantora de jazz”.

Entre versões que funcionam

melhor e outras que nem tanto,

Jacinta desafina mais do que o

razoável e força frequentemente

graves e agudos, conferindo a

“Songs of Freedom” o som amador

de uma gravação de demonstração

mal acabada.

Clássica

Prendas

handelianas

Os 250 anos da morte de

Handel assinalado com

brilhantes gravações.

Cristina Fernandes

Handel

Organ Concertos op.

7

Academy of Ancient

Music

Richard Egarr

(órgão, cravo e direcção)

Harmonia Mundi 807447.48 (2 CD)

MMMMN

Harmonia Mundi 907467.68 (2 CD)

MMMMN

George Frideric

Handel

Ode for the Birthday

of Queen Anne

Vocalconsort Berlin

Akademie für Alte

Musik Berlin

Marcus Creed (direcção)

Harmonia Mundi 902041

MMMMN

Entre as efemérides musicais de

2009, os 250 anos da morte de

Handel foram uma das apostas da

Harmonia Mundi, quer através de

múltiplas reedições do seu precioso

catálogo, quer do lançamento de

novas gravações. Neste último

domínio, salienta-se o projecto

desenvolvido por Richard Egarr e

pela Academy of Ancient Music (AAM)

em torno das primeiras colecções de

música instrumental publicadas pelo

compositor, que inclui entre as

edições mais recentes dois álbuns

duplos com os Concertos para Órgão

op. 7 e as Trio Sonatas op. 2 e op. 5.

Os Concertos para Órgão de

Handel contam com uma discografia

de peso onde figuram intérpretes

como Trevor Pinnock, Ton

Koopman e Lorenzo Ghielmi. Sem

suplantar estes ilustres

concorrentes, a proposta de Richard

Egarr impõe-se como uma

alternativa com “voz” própria pela

sua abordagem incisiva ao nível do

ritmo e dos fraseados e pela

variedade de coloridos que decorre

da escolha de registos do órgão e da

flexibilidade expressiva da

orquestra. Egarr nunca perde de

vista o carácter teatral destas peças

que Handel intercalava

habitualmente nas suas oratórias e

arrisca idiomáticas improvisações

em tempo real, não só nas secções

reservadas pelo compositor à

criatividade do intérprete, mas

também em introduções livres

independentes como sucede antes

do Concerto nº2. Como

complemento à colecção op. 7, foi

registado o delicioso Concerto “O

Cuco e o Rouxinol” e algumas

vistuosísticas peças para cravo: as

Chaconnes em Fá e em Sol Maior e a

Fuga em Sol menor.

Se este álbum se caracteriza por

uma certa imprevisibilidade, nos

CDs dedicados às Trio Sonatas op. 2

e op. 5 reencontramos a elegância e

a serenidade do discurso musical

num conjunto em sintonia, onde

Egarr se associa aos violinistas Pavlo

Beznosiuk e Rudolfo Richter, à

flautista Rachel Brown e ao

violoncelista Joseph Crouch. Com

efeito, as edições impressas destas

obras apresentam como alternativa

o uso do violino ou da flauta (de

bisel ou transversal) na parte mais

aguda, possibilidade que foi

inteligentemente equacionada pelos

instrumentistas da AAM,

proporcionando assim maior

variedade tímbrica. Da interpretação

sobressai um imenso prazer de fazer

música em conjunto e uma grande

acuidade técnica. Há cerca de 20

anos, Egarr tinha já gravado estas

obras com o London Baroque, mas

esta nova proposta suplanta a

anterior em maturidade artística e

poder de comunicação.

Também a Akademie für Alte

Musik Berlin (AAMB), que tal como a

AAM actua este fim-de-semana na

Casa da Música, está a assinalar o

ano Handel. Neste CD reúne duas

fascinantes obras corais: a “Ode para

o Aniversário da Rainha Ana” (1713),

composta pouco tempo depois do

compositor se ter instalado em

Inglaterra, e o “Dixit Dominus”

(1707), escrito em Roma alguns anos

antes. A primeira peça convoca o

modelo de Purcell ao mesmo tempo

que serve de veículo à inspirada veia

melódica de Handel. O solo de

contralto “Eternal source of light

divine” acompanhado pelo trompete

logo no início — admiravelmente

interpretado por Andreas Scholl e

pelo trompete solista da AAMB — é

uma das mais sedutoras páginas do

compositor. A obra desenvolve-se a

partir de uma série de solos e duetos

com coro, terminando com uma

festiva intervenção do duplo coro

que joga com sugestivos efeitos de

eco. O desempenho dos

Vocalconsort Berlin e da AAMB é

exemplar, mas é ainda mais

empolgante no “Dixit Dominus”,

uma peça de extraordinária

vitalidade, que inexplicavelmente

não é mencionada na capa do CD. Os

diferentes jogos concertantes entre

solistas e coro e os contrastes entre o

carácter e a textura de cada

andamento são veiculados através

de uma sonoridade brilhante e

grande energia rítmica e dramática.

São especialmente dignas de notas

passagens como “Juravit dominus” e

“Implevit ruinas” pelo seu

impressionante poder retórico, mas

também a poética beleza do

versículo “In torrente in via bibet”,

cantado com intensa expressividade

pelas sopranos Hélène Guilmette e

Sophie Klussmann.

Handel

Trio Sonatas op.2

e op. 5

Academy of

Ancient Music

Richard Egarr

(cravo e direcção)

Academy of Ancient Music

46 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


Teatro

Lúcia Sigalho acredita que

somos todos cúmplices da morte

das mulheres vítimas de

violência

A morte

não é banal

Trabalho de Lúcia Sigalho

que resulta de um trabalho

de campo: a violência sobre

as mulheres. Cláudia Silva

E a Mulher Teve Morte Quase

Instantânea

De Lúcia Sigalho, Fernanda Câncio,

Mafalda Ivo Cruz. Com Deborah

Crystal, Victor Gonçalves, Sara

Graça.

Lisboa. Teatro Municipal Maria Matos. Av. Frei

Miguel Contreiras, 52. De 14/11 a 17/11. 2ª, 3ª, Sáb. e

Dom. às 21h30. Tel.: 218438801. 12€ (5€ para -30

anos).

Uma semana antes de estrear “E a

mulher teve morte quase

instantânea” – amanhã no Teatro

Municipal Maria Matos, Lisboa – a

encenadora Lúcia Sigalho contavanos

que a peça não estava pronta.

Poderíamos dizer que Sigalho estava

a passar por uma espécie de negação

da própria obra. Mas é mais do que

isso. Com as duas mãos postas sobre

o rosto, como quem puxa a pele

para baixo, rodeada por uma névoa

do fumo do cigarro, confessava que

estava “com medo de ‘esteticizar’

uma coisa tão má”: as mulheres

assassinadas, em Portugal, por

homens, “que são, foram ou

pretendiam ser seus namorados,

seus maridos, seus amantes.”

“Todas as semanas morre, pelo

menos, uma”, diz Lúcia. Por isso

preferia não falar sobre o texto da

peça. “Acho que vou mudar tudo

que lá está”.

Mas ainda assim, depois de

bocejar (afinal já era uma da

madrugada), organizou o

pensamento e falou do que a

motivou.

Lúcia vive em Santarém, onde leu

num jornal local a notícia de uma

mulher que foi assassinada pelo

marido, à porta do infantário, onde

ia deixar o filho de seis anos. Ficou

impressionada com o depoimento

do presidente da Câmara de

Santarém, na altura: “a mulher teve

quase morte instantânea”. “Ele

[presidente da Câmara],

provavelmente queria dizer que ela

não tinha sofrido muito, que o tiro

tinha sido mesmo certeiro”, mas o

que provocou a indignação da

encenadora foi o facto de uma vida

ser interrompida daquela maneira e

não ser notícias nos jornais todos. O

que, para Lúcia, representa uma

banalização da morte.

“Os jornais portugueses de

referência nunca têm uma notícia de

uma mulher assassinada”, criticou,

explicando que a associação UMAR

(União de Mulheres Alternativa e

Resposta) faz as estatísticas anuais

de mulheres assassinadas, pelos

parceiros, com base nos jornais

regionais.

Inicialmente pensou criar uma

peça baseada no acontecimento e na

sua imaginação do acontecido.

Entretanto, fez trabalho de campo

com a escritora Mafalda Ivo Cruz e

com a jornalista Fernanda Câncio.

Falou com mulheres, com a UMAR,

com a Comissão para a Cidadania e

Igualdade de Género (CIG), com o

sociólogo Manuel Lisboa, professor

investigador da Universidade Nova

de Lisboa, com o investigador Rui

Abrunhosa Gonçalves, doutorado

em Psicologia, da Universidade do

Minho.

Acredita que somos todos

cúmplices da morte dessas

mulheres. É uma cultura em que “há

um grande desprezo pelos fracos”.

Isto quer dizer que as mulheres que

vão à Polícia queixar-se que os

maridos lhes batem são

consideradas as “fracas”.

Descobriu mulheres que sofriam a

violência exercida pelos

companheiros há anos “sem abrir a

boca”. E muitas delas apareceramlhe

por acaso. Ou melhor: foi como

se ela tivesse tirado a venda dos

olhos e começasse a enxergar

mulheres do seu círculo de que

sofriam violência em casa.

Grande parte são mortas após

denunciarem os companheiros,

conforme Manuel Lisboa disse a

Lúcia. Para o investigador, os

homens que matam as

companheiras são pessoas como

nós. Não é algo potenciado por

medicamentos, álcool ou

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

perturbações de personalidade.

“Para aceitar isso, tínhamos de

assumir que somos capazes de fazer

o mesmo”, resumiu Lúcia, e “como é

algo que rejeitamos, é mais seguro

pôr isso na zona dos psicopatas”.

Entre

o homem

e a máquina

Adaptação imaginativa

e polifónica do texto de

Elmer Rice, escrito em 1923.

Escolha inusitada de um

musical que não o é sendo-o.

Tiago Bartolomeu Costa

Máquina de Somar

De Elmer Rice. Encenação: Fenanda

Lapa. Com Henrique Feist, Luís

Madureira, Joana Manuel, Luísa

SÃO

LUIZ

NOV~O9

Brandão, Luís Gaspar, Sérgio Lucas,

Bruno Cochat, Andreia Ventura,

Joana Campelo.

Lisboa. Teatro da Trindade. Largo da Trindade, 7 A.

Até 24/11. 3ª, 4ª, 5ª, 6ª e Sáb. às 20h30. Dom. às

16h00. Tel.: 213420000.

mmmmn

24, 25 E 26 NOV

ESPECTÁCULOS

SESSÕES COMPETITIVAS

SESSÕES ESPECIAIS

PERFORMANCES

INSTALAÇÕES

WORKSHOPS

MASTERCLASSES

SALA PRINCIPAL E JARDIM DE INVERNO

TERÇA A QUINTA

CO-PRODUÇÃO: SLTM / VOARTE

M/6

estreia internacional

.MOVCOMPANHIA AiEP

26 NOV ~ QUINTA FEIRA ÀS 21H00

SALA PRINCIPAL

SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL

RUA ANTÓNIO MARIA CARDOSO, 38; 1200-027 LISBOA

GERAL@TEATROSAOLUIZ.PT / T: 213 257 640

“A Máquina de Somar”, adaptação

imaginativa e polifónica do texto de

Elmer Rice, escrito em 1923, abriu a

17 de Outubro a programação do

renovado Teatro da Trindade, em

Lisboa. Escolha inusitada de um

musical que não o é sendo-o, e que

revela um optimismo da direcção de

Cucha Carvalheiro, a nova directora

artística, na aposta em obras que

interpelam o espectador através de

uma reconfiguração dos géneros

teatrais.

Obra complexa, estreou em

Chicago em 2007 tendo chegado um

ano depois ao “Off-Broadway”, onde

a sua essência experimentalista se

revelou acertada para um contexto

onde o musical está mais refém da

espectacularidade do que da

complementaridade disciplinar.

INSHADOW

1.º FESTIVAL INTERNACIONAL

DE VÍDEO, PERFORMANCE

E TECNOLOGIAS

BILHETEIRA DAS 13H ÀS 20H

T: 213 257 650; BILHETEIRA@TEATROSAOLUIZ.PT

BILHETES À VENDA NA TICKETLINE E NOS LOCAIS HABITUAIS

WWW.TEATROSAOLUIZ.PT

ORGANIZAÇÃO:

© Domitilla Biondi

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 47


Teatro

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

“O Quê?! Uma Viagem pelo Século XX às Costas de Samuel Beckett”

“Máquina de Somar”: algumas das mais ricas variações da estruturação do musical no século XX

Contando-nos a história do Sr.

Zero, pobre homem em mangas de

alpaca que se recusa a aceitar a

mudança preferindo matar o seu

patrão e esquecendo-se se olhar

para o lado, onde está a chave, não

só para a felicidade mas para as

deas da vida, “A Máquina de

Somar” revela-se também uma

parábola sobre as relações

de afectação e dependência

entre o indivíduo e capitalismo.

Ao partir de um conto sensível e

difícil, pleno de nuances estilísticas

VENDE-SE

Acervo

que revelam “as consequências da

mecanização, da utopia social e do

efeito desumanizante do capitalismo

industrial” (Ana Pinheiro Torres no

programa), a sua partitura

extremamente eclética sustenta um

texto onde não é clara a existência

de

ARTE CONTEMPORÂNEA

Albuquerque Mendes • António Charrua • Carlos Calvet

• Catarina Leitão • Eduardo Nery • Gerardo Burmester

• Joana Rêgo • Jorge Martins • Luís Melo • Manuel Caeiro

• Mónica Capucho • Nuno de Siqueira • Oliveira Tavares

• Paulo Brighenti • Pedro Pascoínho • Reinata Sadimba

• Rodrigo Ferreira • Sofia Areal • Susanne Themlitz • Xana

HORÁRIO

NOVEMBRO 2009 DEZEMBRO 2009

Seg. a Sexta das 10 às 19 horas

Segunda a Sábado

Sábado das 10 às 13 horas

das 10 às 19 horas

Pedro Freire 967 276 010

Lojas York • Espaço Galeria

Av. António Augusto de Aguiar, 13C, Lisboa (Metro Parque)

de uma moral, recuperando assim

um modelo de concepção teatral

que também não é meramente

expositivo. O existencialismo

presente no conto de Elmer Rice

encontra um equivalente numa

construção musical que traz ao de

cima algumas das mais ricas

variações da estruturação do

musical no século XX. Não por acaso

sentem-se os fantasmas de Kurt Weill

e Stockausen (com “A Flauta

Mágica”, de Mozart, lá ao fundo),

sendo este caldeirão orgânico

absolutamente consentâneo com

uma obra que se revela uma

metáfora para a condição humana,

afectada pelo “impacto da

tecnologia no quotidiano e os custos

da desumanização do indivíduo”.

A discreta encenação de Fernanda

Lapa, auxiliada pelo inventivo

movimento de Marta Lapa, dá

margem ao libreto ( Jason Loewith e

Joshua Schmidt) para que se este se

possa constituir, mas não de forma

decifradora, como ponto de união

da complexidade da composição

musical. Auxiliada por uma direcção

musical ( João Paulo Soares) atenta

às armadilhas da composição

original, uma tradução (Ana Zanatti)

que procura as melhoras soluções

para um equilíbrio entre a prosódia

do português e a métrica do inglês,

um desenho de luz notável (Paulo

Sabino) e o bom gosto dos cenários

de António Lagarto (que vai buscar

inspiração ao expressionismo da

altura em que o texto foi escrito,

sublinhando assim a ironia que

releva do texto), mas prejudicada

por um desenho de som e uma

acústica que, por vezes, dificultam a

percepção, a encenadora permite

que a ambiguidade da peça sirva de

catalizador da acção. Ao optar por

uma distância que salvaguarda a

liberdade criativa da composição

original, não rejeita o feerismo dos

loucos anos vinte, mas encontra um

equivalente para a ressaca que se

seguiu no expressionismo de

Almada Negreiros. O negrume e

cinzentismo desses tempos são lidos

com uma ironia mais do que

saudável, e quase burlesca, para a

qual muito concorre a paleta de

diversas formações e registos dos

intérpretes, com destaque para a

completude de Henrique Feist, a

composição filigrânica de Luís

Madureira, a extraordinária

inventividade de Joana Manuel e o

“tour de force” do coro (Andreia

Ventura, Bruno Cochat, Joana

Campelo e Sérgio Lucas). Não tendo

os actores personagens para

defender, mas tipos (e em registos

diferentes), constroem, no pouco

tempo de cada cena, uma teia de

relações musicais que transportam o

espectador para o centro de uma

reflexão não só sobre o duelo entre o

homem e a máquina, mas também

para o centro de uma reflexão sobre

as hipóteses de representação e

figuração desse mesmo duelo.

Agenda

Estreiam

Antígona

De Bertolt Brecht.

Portalegre. Convento de Santa Clara. R. Santa

Clara. Dia 19/11. 5ª às 21h30.

Purgatório

Tiago Guedes,

director do

Materiais

Diversos,

que arranca esta

semana

De Martim Pedroso. Encenação:

Martim Pedroso. Com Estelle

Franco, Luís Godinho, Martim

Pedroso, Paula Diogo, Sofia Brito,

Vítor d’Andrade (voz-off ).

Alcanena. Cine-Teatro São Pedro. Av. 25 de Abril.

Dia 19/11. 5ª às 21h. Tel.: 249889115. 5€ (sujeito a

descontos). Passe Festival: 50€. Passe 5: 20€

(acesso a 5 espectáculos). Duração: 1h45.

Informações: 213466295.

Materiais Diversos - Festival de

Artes Performativas.

Ana

De José Maria Vieira Mendes.

Encenação: Jorge Silva Melo. Com

António Simão, Pedro Lacerda, Rita

Brütt, Sylvie Rocha.

Lisboa. Centro Cultural de Belém. Praça do

Império. De 13/11 a 22/11. 2ª, 4ª, 5ª, 6ª e Sáb. às

19h (nos dias 13, 14, 16, 18 e 19/11). 6ª, Sáb. e Dom.

às 21h (nos dias 15, 20, 21 e 22/11). Tel.: 213612400.

10€. Na Sala de Ensaio.

Jardim Zoológico de Cristal

De Tennessee Williams. Encenação:

Nuno Cardoso. Com Maria do Céu

Ribeiro, Micaela Cardoso, Luís

Araújo, Romeu Costa.

Viseu. Teatro Viriato. Lg. Mouzinho Albuquerque.

De 13/11 a 14/11. 6ª e Sáb. às 21h30. Tel.: 232480110.

5€ a 10€.

O Ano do Pensamento Mágico

De Joan Didion. Encenação: Diogo

Infante. Com Eunice Muñoz.

Lisboa. Teatro Nacional D. Maria II. Pç. D. Pedro

IV. Até 20/12. 4ª, 5ª, 6ª e Sáb. às 21h30. Dom. às

16h00. Tel.: 213250835. 7,5€ a 16€ (sujeitos a

descontos). Na Sala Garrett.

O Quê?! Uma Viagem pelo

Século XX às Costas de Samuel

Beckett

De Samuel Beckett. Com Afonso

Lagarto, João Lagarto, Rita Brito,

Tiago Nogueiro.

Lisboa. Teatro da Trindade. Largo da Trindade, 7

A. Até 06/12. 3ª, 4ª, 5ª, 6ª e Sáb. às 21h45. Dom.

às 17h30. Tel.: 213420000. 10€. Na Sala Estúdio.

O Que se Leva Desta Vida

De Gonçalo Waddington, João

Canijo, Tiago Rodrigues. Com

Gonçalo Waddington, Tiago

Rodrigues.

Lisboa. Teatro Municipal de S. Luiz. R. Antº

Maria Cardoso, 38-58. Até 22/11. 4ª, 5ª, 6ª e Sáb.

às 21h00. Dom. às 17h30 (no dia 15/11, às 17h30,

sessão com interpretação em língua gestual

portuguesa). Tel.: 213257650.

48 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


Livros

Entre o realismo

e o absurdo, com

gente bizarra,

independente e

rodeada de animais

selvagens: “A

Lebre de Vatanen”

finalmente

traduzido para

português

Ficção

Uma lebre

com sorte

O encontro entre um

jornalista e uma lebre serve

de pretexto a um périplo

pelo Norte da Finlândia. “A

Lebre de Vatanen”, que em

1975 tornou popular Arto

Paasilinna, foi finalmente

traduzido para português.

Rui Lagartinho

A lebre de Vatanen

Arto Paasilinna

(trad. Carlos Correia Monteiro de

Oliveira)

Relógio D’Água

mmmmm

Helsínquia fica no

Sul. Heinola, Nilsiä,

Ranua, Posio,

Rovaniemi,

Sodankkylä,

Sompio ficam no

Norte. “A lebre de

Vatanen” leva-nos

numa viagem pela

Finlândia do imaginário comum:

paisagens de densas florestas, lagos

e rios de águas cristalinas com

pescadores bem agasalhados nas

margens, aqui e ali, uma cabana

com fumo a sair da chaminé, as

indispensáveis saunas, animais

selvagens, muita carne de rena à

mesa. A interromper a paisagem,

cidades pequenas com pouco

tráfego e poucos habitantes.

Nestas terras imaginou Arto

Paasilinna há 35 anos um romance

que mistura traços do

burlesco,

através da tragédia de

um homem só

a quem tudo acontece, com a

afirmação absoluta do primado

dos valores ecológicos.

Vatanen, um jornalista que

um dia deixa de o

ser ao salvar

uma pequena lebre que é

atropelada, torna-se com as

suas andanças pela Lapónia e

pelo Círculo Polar Árctico,

uma espécie de bravo

soldado Shveik das

estepes, por todos

atormentado. As

paisagens de

Paasilinna,

sobretudo na

descrição da

matilha de

caçadores

ébrios,

assemelham-se

também às de

um quadro

de Brueghel

onde, na

paisagem

desolada do frio, se percebe a luta

pela sobrevivência de pequenos

homens do tamanho de formigas

sofredoras.

Vatanen é então o anti-herói a

quem tudo acontece ao longo dos 24

capítulos em que se divide o

romance. Por causa de uma lebre,

abandona a mulher, pesca

clandestinamente, consome álcool

por ele destilado clandestinamente

no meio de um incêndio florestal,

profana um corpo recentemente

defunto, aparece sem ser convidado

num jantar oficial, caça várias vezes

espécies protegidas, entre as quais

um urso muito resistente, entra na

União Soviética sem visto nem

passaporte. A lista não é exaustiva.

A lebre é o detonador destas

aventuras em que fica exposta a

tacanhez humana e a capacidade de

compreender que alguns incidentes

só se tornam acidentes por mero

acaso. A escrita breve, seca, mas

irónica, de Paasilinna produz este

efeito. O de percebermos como foi

sendo minado o espaço reservado à

aventura do acaso na vida de cada

homem. Porque antes de trazer uma

lebre ao colo era esta a pele de

Vatanen: “Eram um jornalista e um

fotógrafo requisitado para o serviço,

dois seres cínicos, infelizes, com

cerca de quarenta anos: as

esperanças dos seus tempos de

juventude estavam longe, muito

longe de se terem concretizado.

Casados, enganados, desiludidos,

ambos tinham um princípio de

úlcera no estômago e outras

preocupações quotidianas”

(página 7).

A exposição das vidas cinzentas e

a crítica do sistema político finlandês

também passam pelo livro, onde

ficamos a saber que, em meados dos

anos 70, o país tinha um Presidente,

Urko Kekkonen, que

democraticamente se eternizava no

cargo desde 1956. São marcas de

água de Paasillina, alguém que

quando escreveu, em 1975, “A lebre

Vatanen” era ele próprio jornalista

então quase na meia-idade (nasceu

em 1942 na Lapónia), depois de ter

sido lenhador e operário agrícola.

Este romance mudou a sua vida e

permitiu-lhe dedicar-se a escrever

romances a tempo inteiro. A partir

da descoberta pela França da sua

William Styron

começou a escrever

“As Confissões de

Nat Turner” em

1962, no auge dos

movimentos a favor

dos Direitos Civis

nos EUA. Martin

Luther King

avançava com soluções pacíficas e

conciliadoras, mas a agitação

popular e os confrontos sucediamaMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito

BommmmmmExcelente

William Styron: num registo quase onírico no qual

o sexo e a morte, a culpa e a raiva estão presentes

obra, esta tornou-se mais conhecida

e hoje está traduzida em quase trinta

línguas, tendo vendido já sete

milhões de livros. O estilo cómico e

cínico mantém-se dentro do

universo da comédia de situação:

entre o realismo e o absurdo, com

gente bizarra, independente e

rodeada de animais selvagens. A

paisagem finlandesa, agora mais

reconhecível pelos leitores fiéis em

todo o mundo, desdobra-se em si

própria. Pressente-se que Amélie

Nothomb leu estes livros antes de

escrever os seus, mas secou-os de

optimismo.

Porque em “A Lebre de Vatanen”

o oxigénio abundante permite

encontrar energia suficiente para

que a vida se acabe por refazer,

basta saber utilizar o que a natureza

nos oferece: “Vatanen pôs um vidro

novo que se partira. No interior,

esventrou as pranchas do soalho e

colocou outras novas. Transportou

ainda o conteúdo de alguns

formigueiros abandonados para

preencher os espaços entre duas

camadas de pranchas do soalho –

um bom isolamento.”

A Relógio D`Água promete para

breve mais dois romances de Arto

Paasilinna.

Fúria

de Deus

Styron escolhe um episódio

da História do seu país

– a escravatura – para

mostrar o “Mal” em toda

a sua plenitude. Helena

Vasconcelos

As Confissões de Nat Turner

William Styron

(trad. Vera Neves Pedroso)

Ed. Bertrand

mmmmm

COUPON /CORBIS

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 49


Livros

Colóquio

A Universidade Aberta

realiza o colóquio

“Travessias Poéticas: a

Poesia Contemporânea

em Portugal e no

Brasil”. No Auditório

3 da Fundação

Gulbenkian, de 18

a 20 de Novembro –

encontro de estudiosos

das literaturas destes

dois países de língua

portuguesa, para

contribuir para a maior

aproximação entre as

culturas portuguesa e

brasileira. Para mais

informações e para se

poder inscrever www.

univ-ab.pt/eventos/

travessias_poeticas/

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

se. Em 1963, Kennedy foi

assassinado e a publicação deste

romance coincidiu com a morte de

King, em 1968. Com acontecimentos

tão perturbadores como pano de

fundo, não é de estranhar que esta

história verídica da única insurreição

bem sucedida levada a cabo por um

escravo negro, em 1831, tenha sido

recebida por alguns como

provocação. Que um branco sulista

tivesse ousado escrever sobre a

escravatura não cabia na cabeça de

muita gente, apesar de o livro ter

ganho um Pulitzer e recebido o apoio

de James Baldwin. (Styron foi

também criticado por “A Escolha de

Sofia”, de 1979, porque não

experimentara o Holocausto, o que

lhe retirava o “direito moral” de

escrever sobre crimes tão

imperdoáveis.)

No caso da história de Nathaniel

Turner, Stryron não se limitou a

relatar os factos que levaram um

escravo a juntar um pequeno

exército e a agir como um terrível

anjo de vingança. Aproveitou para

traçar a história da escravatura em

toda a sua horrenda perversidade

um assunto “sensível” –, utilizando

as verdadeiras confissões de Turner,

recolhidas pelo advogado indigitado

pelo tribunal, quando ele foi

finalmente capturado e jazia,

acorrentado na sua cela, nos dias

que antecederam a sua execução.

Oriundo do mesmo Estado (Virgínia)

onde se deram estes acontecimentos,

de uma família com antepassados

que remontavam ao século XVII –

uma das suas avós possuía duas

escravas –, não é de admirar que

Styron tenha escolhido este episódio

da História do seu país para mostrar

o “Mal” em toda a sua plenitude. As

“Confissões” serviram-lhe também

para recriar a figura de um homem

misterioso e carismático, para uns o

profeta inspirador capaz de levar o

seu povo à rebelião e à liberdade,

para outros um louco o fanático que,

aos 31 anos, decidiu varrer os

brancos da face da terra, avançando

com os seus homens sobre as

fazendas e causando 55 mortes,

entre homens, mulheres e crianças,

incluindo os seus “donos”. Styron

confidenciou que não conseguia

sentir simpatia por Turner e

descreveu-o como uma pessoa

“tenebrosa”. Em criança e jovem,

mostrou ser excepcionalmente

talentoso e inteligente, te, mas, ao

atingir a idade adulta, a, e devido a

traumas difíceis de imaginar, o seu

comportamento tornou-se bizarro.

As suas premonições apocalípticas,

inspiradas pelo troar r da voz dos

Profetas do Antigo Testamento, os

longos jejuns e a sua convicção de

ser o escolhido por Deus para uma

missão de limpeza e purificação (o

que soa familiar, hoje, com as acções

perpetradas por fundamentalistas

religiosos), fizeram de Nat Turner

um perigoso lunático. O facto de, no

ano da matança, terem em ocorrido dois

eclipses solares – em Maio e em

Agosto – contribuiu para exacerbar

as visões daquele que se considerava

um agente do divino, pregando e

baptizando pessoas. É claro que

Styron não se exime de descrever o

ambiente e as condições de vivência

que produziram um homem como

Nat Turner. Os negros, até há bem

pouco tempo, eram divididos em

dois tipos: o ingénuo, infantil e

engraçado “pretinho” que servia de

entretenimento com as suas

pantomimas e jeito para a música,

com reminiscências das figuras de

Mark Twain, ou o nobre africano

valente e esforçado que lutava contra

a tirania branca. Nat Turner soube,

desde sempre, que podia

representar estes e muitos outros

papéis e esperou pacientemente pelo

dia da vingança. Com uma infância

relativamente protegida, numa

fazenda onde era bem tratado e onde

aprendeu a ler, a escrever e a recitar

a Bíblia – o que fez dele uma espécie

de “freak”, usado por aqueles que

tinham simpatias abolicionistas e

temido por aqueles que afirmavam

que os escravos deviam ser

ignorantes para serem dóceis –,

sofreu os efeitos da recessão

económica provocada pelo fim da

época áurea da exploração do

tabaco. Muitos fazendeiros

desenvencilharam-se dos seus

escravos, separando-os das famílias e

vendendo-os à “peça” para as

grandes fazendas do Sul profundo –

no Alabama e no Mississípi de

memória –, abandonando-os à sua

sorte. Com 20 anos, Nat foi vendido

a um pastor brutal e Styron descreve

os seus tormentos como se de uma

longa alucinação se tratasse. O livro é

escrito num registo quase onírico no

Eros

vagabundo

Uma novela amorosa em que

euforia e desgraça andam

juntas. Pedro Mexia

A Flor Fatal

Fernando Cabral Martins

Assírio & Alvim

mmmnn

decotado, os gestos encantatórios, a

sua aura irresistível. A novela está

dividida em capítulos curtos, e

muitas vezes o texto desfaz-se em

versos e versículos, alguns de

inspiração bíblica (o “Cântico dos

Cânticos”, sobretudo). Ela é “a

cidade de canaã com duas colinas

perfeitas”, mas é também um

“monte dos vendavais”. A fúria

amorosa de Aurélio, um intelectual,

é alimentada a literatura e cinema

(Lucinda é uma jovem Gloria

Swanson), e isso não a faz menos

voraz.

Em “A Flor Fatal”, euforia e

desgraça andam juntas, na melhor

tradição grega: “Diotima diz que

Eros é um vagabundo, tudo menos

um ser delicado. É um pé-descalço

que não tem onde cair morto, que

dorme onde calha, que vive do ar.

Mas, ao mesmo tempo que se passeia

de desgraça em desgraça, é capaz de

olhar vivamente em volta em busca

da beleza, está atento a cada

mudança, e aventura-se sem pensar,

é rápido, resvala e tem jeitos de

mudar as coisas sem se saber como”

(pág. 29). O Eros vagabundo de

Aurélio, apaixonado por uma

rapariga promíscua, instável e

dependente de drogas, passeia de

desgraça em desgraça. O professor

vê a aluna em todo o lado, perde-a de

vista, não consegue mais dar aulas,

fica fechado em casa, ciranda por

Lisboa, mal convive com as outras

pessoas, é mordido pela angústia e o

ciúme.

Esse estado mental é dado em

elipses e entusiasmos verbais, num

texto que traduz o princípio

romântico (e surrealista) de que o

amor transforma todas as coisas.

O amor como

“medida perfeita e

reinventada, razão

maravilhosa e

imprevista”, uma

“amada máquina

de qualidades

fatais”. Palavras de

Rimbaud que

iluminam esta novela de Fernando

Cabral Martins, discreto e sedutor

ficcionista (“Sub Estâncias”, 1986,

“Ao Cair da Noite”, 1989, “A Cidade

Vermelha”, 1991, “Western”, 1995, “O

Deceptista”, 2003, “Viagem ao

Interior”, 2004) e estudioso do

modernismo português.

Não é por acaso que a novela abre

sob o signo de Sá-Carneiro, autor que

Cabral Martins tão bem conhece. As

primeiras páginas criam, aliás, uma

suspeita autobiográfica, com um

professor que dá aulas sobre o

malogrado poeta e se apaixona por

uma das suas alunas. Veremos

depois que se trata sobretudo de um

indício de oiro, ou seja, um exemplo

canónico de exaltação, boémia e

vertigem, nas quais vão cair os dois

protagonistas.

Neste caso, o amor também destrói

qual o sexo e a morte, a culpa e a

raiva estão sempre presentes com

efeitos “góticos” que remetem o

leitor para William Faulkner.

(Cormac McCarthy, principalmente

em “Meridiano de Sangue”, utiliza o

mesmo registo de fúria bíblica e de

demência descontrolada.) O horrível

massacre teve consequências

dramáticas: os elementos que

compunham o “gang” foram

executados ou deportados e o corpo

de Nat foi esfolado e esquartejado,

gabando-se um governador de ter

uma carteira feita com a sua pele.

Em 1985, foi diagnosticada a

Styron uma grave depressão

que deu origem a “Darkness

Visible”, um dos grandes livros

sobre este tema. No seu estúdio,

tinha afixado uma citação do seu

autor favorito, Flaubert: “Sê

normal e banal na tua vida, para

que possas ser violento e original

no teu trabalho”. Styron seguiu este

conselho mas a grande questão que

deixou em suspenso foi a de saber

como é que tantos seres humanos

se sujeitaram – e sujeitam – aos

actos mais desumanos sem

Aurélio, assim se chama o

professor, está fascinado com o

corpo discente de Lucinda,

encadeado pela sua luz. Longas

passagens descrevem as pernas dela

debaixo da mesa, um “pullover”

vermelho

todas as coisas, vence a vontade,

finta o destino, institui um maléfico

“império do amor” que tem

consequências fatais. A epígrafe do

texto, de Pessoa, fala precisamente

da juventude como flor fatal que

conduz à morte, e a sofreguidão do

texto nunca é inteiramente feliz, nem

nas passagens mais propriamente

eróticas, com uma linguagem de

ecos herbertianos: “Ela deitada para

os pés da cama, ele para a

cabeceira, sem que as pernas

dele ou dela pesassem sobre a

cabeça do outro, as mãos onde

os cílios vibravam como algas

minúsculas do oxigénio de

serem tocados. Ela tremendo, as

paredes interiores do seu corpo

golfando sangue, estancando

num silêncio que tremia, surdo

ao grito que abafava, até se

aquietar num ondular mais lento,

suspenso, móvel, enquanto

redobrava a velocidade, da sua

língua, o espaço materno que abria

na sua boca. Então, num golpe que a

sufocou, sentiu três relâmpagos

pequenos, seguidos de um

manso, longo regato

se revoltarem como Nat

Turner.

“A Flor Fatal”, de Fernando Cabral Martins, tem

momentos de um arrebatamento gloriosamente inactual

(pág. 135).

Fernando

Cabral Martins chamou a este texto

“conto” em vez de novela, talvez

porque se trata menos de uma

narração e mais de uma situação

fulgurante. A extensão do livro (150

páginas) parece excessiva para tal

projecto, mas “A Flor Fatal” tem

ainda assim momentos de um

arrebatamento gloriosamente

inactual.

Não-ficção

O perfeito

“best-seller”

A história da África do Sul

em forma de romance

de não-ficção. Estilo

“Time”/”Paris Match” do

pós-guerra. Não há outro

mais eficaz. Paulo Moura

Um Arco-Íris na Noite

Dominique Lapierre

(trad. Victor Antunes)

Ed. Planeta

mmmnn

Não há melhor

forma de aprender

a História da África

do Sul. Para quem

não sabe nada do

assunto e quer ficar

a saber alguma

coisa, ler Dominique Lapierre é a

solução. “Um Arco-Íris na Noite”

devora-se de uma assentada, com

prazer e com proveito. Está escrito

como um romance, de protagonistas

épicos, cheio de emoção e

“suspense”. E está lá tudo sobre os

primeiros exploradores e

colonizadores holandeses, sobre as

origens do “apartheid”, as guerras

dos Bóeres, a descoberta dos

diamantes e do ouro, a luta do ANC,

a prisão de Mandela, a

democratização e a Reconciliação.

Bem, não está lá tudo. Quase não

há uma linha sobre a vida no Soweto

ou nas outras gigantescas

“townships” negras, nem sobre os

vários mártires da luta contra o

“apartheid”, nem sobre a actual

criminalidade ou a sida. Em

entrevista ao Ípsilon, Lapierre diz

que tudo isso está referido, em forma

de símbolo, nas histórias dos heróis

que identificou e que moldaram a

história do país. Nelson Mandela,

Cristiaan Barnard ou Helen

Lieberman “redimem” o “apartheid”

sul-africano, pensa Lapierre. São

figuras que “transcendem a

tragédia”, e pelas quais vale a pena

escrever um livro e lê-lo. Por isso

tudo é contado através dessas

personagens, o que, é preciso dizêlo,

confere ao livro uma irresistível

dinâmica.

50 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


Nelson Mandela, Cristiaan Barnard ou Helen

Lieberman “redimem” o “apartheid” sul-africano,

pensa Lapierre

De uma

forma geral,

todas as obras de

Lapierre se tornam “best-sellers”, e

não é por acaso. Escolhe histórias e

personagens susceptíveis de

interessar, se não a toda a gente, pelo

menos a milhões de pessoas. “De

cada vez que finalizo um capítulo,

costumo dá-lo a ler a pessoas muito

simples, que são minhas vizinhas.

Pergunto-lhes: ‘Consegue ler?

Compreende? Gosta?’. Faço sempre

esse teste, porque acho que um livro

tem de ser legível, e não servir

apenas para eu mostrar que sei

muito sobre a África do Sul.”

O leque de temas e personagens é

muito reduzido, num livro que

pretende contar a história de um

país. Mas só lá está o essencial, o que

tem o poder de surpreender e

emocionar, de forma imediata. “Um

escritor tem de ter a coragem de não

utilizar a maior parte do material que

tem.”

A maior parte do material utilizado

é, no entanto, proveniente de

literatura já publicada. Mas há

alguma investigação original, de

grande interesse. É o caso de alguns

episódios que provam as relações

íntimas entre os líderes do

“apartheid” e o regime nazi alemão.

“Descobri que um grupo de jovens

estudantes universitários africaners

foi convidado pelos nazis para

continuar os seus estudos na

Alemanha. Ninguém sabia disto.

Esses jovens vão para a Alemanha e

descobrem que os judeus de Hitler

são os negros da África do Sul.

Aprendem como a Alemanha nazi

organiza a segregação. E regressam

ao seu país convencidos de que

possuem a fórmula para organizar o

‘apartheid’”.

Grande parte dos livros de

Lapierre (“Paris já está a arder?”,

“Oh Jerusalém!”, “Esta Noite a

Liberdade”) foi escrita com um

amigo americano, Larry Collins

(morreu em 2005). Sendo o primeiro

jornalista da “Paris Match” e o

segundo da “Newsweek”, decidiram

encontrar fórmulas e temas que

interessassem simultaneamente

leitores europeus e americanos. Os

estilos de um e de outro não eram

muito diferentes, explica Lapierre.

“Era a forma de escrever das grandes

revistas no período pós-Segunda

Guerra Mundial, como a ‘Time’ e a

‘Paris Match’. É preciso colocar o

leitor na atmosfera do

acontecimento, dando-lhe as cores,

os cheiros, os sons.”

Os dois autores raramente

entravam em conflito quanto ao que

incluir numa frase ou num capítulo.

Mas, quando acontecia, resolviam o

problema sem perder tempo:

jogavam uma partida de ténis no

“court” que construíram na fronteira

das propriedades que ambos, com os

lucros dos best-sellers, compraram

no Sul de França. O vencedor levava

a sua avante.

Ensaio

Issa, uma voz

do islão

Através dos sufis, as palavras

de Jesus “adquirem uma cor

e um vigor insuspeitos”.

Jorge Almeida Fernandes

Jesus na Tradição Sufi

Faouzi Skali

Hamsa

mmmnn

Jesus (Issa) é uma

figura venerada

pelos muçulmanos

e que sempre

fascinou a sua

imaginação. É

repetidamente

apresentado no

Alcorão como

profeta e mensageiro de Deus. No

entanto, o seu estatuto e o seu lugar

no islão não são monolíticos, variam

consoantes as escolas e as

interpretações, as épocas, o contexto

histórico e o estado das relações

islamo-cristãs.

A presença de Jesus é sobretudo

viva na tradição sufi, a mística ou a

dimensão espiritual do islão, escreve

Faouzi Skali, ele próprio sufi. E desde

há, pelo menos, um milénio.

O filósofo sufi Ibn Arabi (Múrcia

1165, Damasco 1240) sublinhou que é

o próprio Alcorão que anuncia o

regresso de Jesus no fim dos tempos,

já não como profeta mas como “selo

da santidade universal”. “Descerá

para o meio de nós como árbitro

justo.”

A tradição sufi começa no

desprendimento dos bens terrenos

para desembocar numa “revelação”.

Na mística muçulmana, assinala

Skali, “Jesus representa um tipo ideal

de pobreza, de ascetismo e de

doçura”.

Para os muçulmanos, a tradição

judaica é essencialmente uma

tradição da “Lei”, a Lei de Moisés,

enquanto a cristã é sobretudo “uma

tradição de via, isto é, antes de mais

um ensinamento espiritual, uma

iniciação.”

Este livro não é uma história da

relação entre duas religiões mas uma

reflexão sobre duas espiritualidades

que se confundem. É também uma

remissão para grandes figuras da

cultura islâmica, como o andaluz Ibn

Arabi, o persa Djalal oud-Din Rumi

(1207-73, nascido no Afeganistão e

que viveu na Anatólia) ou para o

também persa Al-Ghazzali (1058-1111),

místico, filósofo e pioneiro do

método da dúvida.

Se quiséssemos mudar de registo,

poderíamos referir outro plano,

completamente distinto da

abordagem deste livro: Jesus inspira

hoje poetas árabes. “A Paixão de

Jesus é essencial para os poetas

modernos inovadores; nesta via,

esperam dar uma nova vida à

linguagem e à sociedade”, explica

Tarif Khalili, professor de Cambridge

e também estudioso da figura de

Jesus no mundo islâmico. O aspecto

mitológico da Paixão, do sangue e da

ressurreição, enquanto redenção da

Humanidade, marcou poetas como o

palestiniano Mahmoud Darwish ou o

iraquiano Badr Shaker al-Sayyab.

“Jesus na Tradição Sufi” reflecte

também um percurso iniciático.

Faouzi Skali (1953), marroquino,

antropólogo, foi atraído para o

sufismo em França por uma

universitária, Eva de Vitray-

Meyerovitch, já falecida. É co-autora

do livro.

Regressado a Marrocos, Skali

encontra a sua “via” no ensino de

Sidi Hamza, mestre de uma das

maiores confrarias sufis, a Qadiriyya.

É um homem da religião e do

mundo. A seguir à Guerra do Golfo

de 1990, escuta os ventos do “choque

das civilizações”, conceito que

combate, criando em 1994 o Festival

de Fez das Músicas Sacras do Mundo

e depois os colóquios internacionais

“Uma Alma para a Mundialização”.

Em 2007, funda o “Festival de

Cultura Sufi”, também em Fez, onde

reúne anualmente figuras de todo o

mundo e todos os quadrantes.

Faz parte do Grupo de Sábios

instituído pela Comissão Europeia

para “O diálogo entre povos e as

culturas do espaço

euromediterrânico”. Em 2001, foi

eleito pela ONU como uma das sete

personalidades mundiais que

contribuíram para o diálogo entre

culturas e civilizações.

O islão, frisam os orientalistas, “é

indistintamente considerado uma

religião, uma ordem social, um

sistema político e uma civilização”.

Começa aqui o problema. Na hora

dos integrismos, o sufismo, com

larga expressão em todo o mundo

muçulmano, não surge apenas como

uma “ponte entre religiões e

culturas”.

“Hoje, o verdadeiro problema do

mundo muçulmano é definir a

relação entre religião e política”,

disse Skali ao PÚBLICO em 2005.

“Porque se as misturarmos

perderemos o próprio sentido da

religião. A religião será

instrumentalizada e usada como

alavanca do poder. (...) Não faz

sentido haver partidos com ideologia

islâmica.” Enquanto via espiritual, o

sufismo assenta na possibilidade de

uma pluralidade de leituras e na

troca de pontos de vista: é o cerne

deste livro.

E uma das surpresas da leitura é

assinalada, no prefácio, por Jean-

Louis Girotto: “Através do

testemunho e da vivência dos sufis

mais ilustres, os ensinamentos de

Jesus adquirem uma cor e um vigor

insuspeitos”.

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 51


Cinema

Encontro

Estreiam

Bizarria

no espaço

“Moon” parece um

retomar do tempo e

das circunstâncias em

que Duncan Jones, o

realizador, nasceu

(1971): a odisseia no

espaço de Kubrick, a

bizarria no espaço de Bowie

– o pai de Duncan. Luís

Miguel Oliveira

Moon - O Outro lado da Lua

Moon

De Duncan Jones,

com Sam Rockwell, Kevin Spacey,

Matt Berry. M/12

MMnnn

“Pare,

Escute

e Olhe”,

documentário de

Jorge Pelicano — vencedor

da competição nacional

do DocLisboa e do Festival

Particularmente curiosa é a participação

de Julião Sarmento, no papel de

desencadeador da tecnologia que

invade “Os Sorrisos do Destino”

Lisboa: Medeia Monumental: Sala 1: 5ª 6ª Sábado

Domingo 2ª 3ª 4ª 13h45, 15h45, 17h45, 19h45,

21h45, 00h15;

Porto: Arrábida 20: Sala 18: 5ª 6ª Sábado

Domingo 2ª 14h15, 16h30, 19h, 21h30, 00h10 3ª 4ª

16h30, 19h, 21h30, 00h10;

Duncan Jones nasceu em 1971,

numa altura em

que o seu pai, que

nasceu com o mesmo apelido, já se

fizera mundialmente conhecer

com o nome de David Bowie.

Uma das alavancas, talvez

mesmo a alavanca decisiva,

para a popularidade do pai

de Duncan fora

accionada dois anos

antes, no mesmo ano

da chegada do homem

à lua: “Space Oddity”,

a canção que fazia

um trocadilho com o

título original de um

célebre filme de

Stanley Kubrick

(“2001, a Space

Odissey”) e narrava

as solitárias

aventuras de um

astronauta

conhecido como

Major Tom. Seja ele

Sam Rockwell é o astronauta perdido

para levar a sério ou

não, este encadeado

referencial dificilmente

consegue ficar de fora

quando se trata de apresentar

a estreia de Duncan Jones na

longa-metragem. “Moon- O

Outro Lado

da Lua” parece

um retomar do tempo e das

circunstâncias em que

Duncan nasceu: a lua, a

odisseia no

espaço de Kubrick,

a bizarria no espaço de Bowie,

a solidão do astronauta.

O astronauta (que é Sam

Rockwell) está há demasiado

tempo sozinho em missão

de Seia – vai

ser apresentado

amanhã, dia 14,

aos protagonistas, os

habitantes do profundo

Trás-os-Montes

que o realizador

numa base lunar.

Sonha com o

regresso a casa, e como

não tem ninguém a quem

aparecer também já perdeu aquela

auto-estima básica que consiste em

um tipo andar minimamente bem

arranjado. Tem um cabelo e uma

barba de Robinson Crusoe, mesmo

se o computador central da base,

parente do Hal 9000 do filme de

Kubrick, se esforça para lhe fazer a

“toilette” enquanto lhe fala

suavemente com a voz de Kevin

Spacey. E está neste estado de coisas

quando encontra o seu próprio

duplo, coisa que lhe suscitará as

naturais dúvidas suscitadas por

casos destes, nomeadamente esta: e

se for ele o duplo do outro?

O que, para além do tecido

alusivo, é verdadeiramente curioso

– ou, digamos, ludicamente curioso

– em “Moon” é o encontro de uma

ficção científica com um vago sabor

retro (anos 60, anos 70), assente

numa minúcia descritiva que tem

prazer em não confundir o realismo

com a impressão de realismo (os

objectos como brinquedos, toda

aquela lua como uma grande

“maquette”), com uma ficção

científica “metafísica”, carregada de

paradoxos existenciais, que tanto

vem da frieza austera da “ficção

científica de Leste” (os duplos do

“Solaris” de Tarkovski) e das

preocupações do “2001” de Kubrick

e Arthur C. Clarke como do engenho

“low budget” de coisas como o

“Espaço: 1999” que Duncan Jones

deve ter visto quando tinha 5 ou 6

anos (a “maquette” lunar é do

mesmo tipo, e se não nos

enganamos havia um episódio em

que era a própria a lua, assim como

a base e os seus ocupantes, que

encontrava a sua perfeita

duplicação). É a situação, mais do

que a narrativa. Duncan Jones

deixa-a empastelar-se (à narrativa), o

que é o seu maior problema, até

porque manifestamente está mais

interessado na “simulação

metafísica”, e no seu carácter

remissivo, do que em “fazer

metafísica” com convicção.

O que de certo modo é um

alívio, mas não impede que o

filme passe, a partir de certa altura,

a girar sobre a sua própria

“maquette”, sem nada de

realmente consistente a que se

agarrar.

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

acompanhou durante dois

anos e meio. Cine H2O,

Mirandela, 17h e 21h30.No

final da sessão debate com

o realizador.

Os

feitiços

da lua

Uma divertida variação

sobre o casal e a impotência.

Mário Jorge Torres

Os Sorridos do Destino

De Fernando Lopes,

com Ana Padrão, Rui Morrison,

Milton Lopes. M/12

MMMnn

Lisboa: Medeia Monumental: Sala 4 - Cine Teatro:

5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h, 16h, 18h,

20h, 22h, 00h30; ZON Lusomundo Alvaláxia: 5ª 6ª

Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h10, 16h40, 19h10,

22h, 00h20; ZON Lusomundo Amoreiras: 5ª 6ª

Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 15h30, 18h20,

21h10, 23h40; ZON Lusomundo Almada Fórum: 5ª

6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h40, 16h, 18h25,

21h35, 23h55;

Porto: Medeia Cine Estúdio do Teatro Campo

Alegre: Cine-Estúdio: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª

3ª 4ª 18h30, 22h; ZON Lusomundo Dolce Vita

Porto: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h,

15h40, 18h, 21h20, 24h;

Fernando Lopes permanece como

um dos nomes de referência do

Cinema Novo, apesar de as suas duas

últimas longas-metragens, “98

Octanas” (2006) e “Lá Fora” (2004),

terem evidenciado algum

esgotamento de soluções narrativas,

de certo modo encerradas numa

excessiva rarefacção, em que apenas

o gosto de filmar e a capacidade de

referenciar a memória

cinematográfica davam a medida

certa do seu talento para efabular a

partir de indícios mínimos, da noção

profunda de uma portugalidade

ferida de morte – como acontecia

nas adaptações de “O Delfim” (2002)

ou de “Uma Abelha na Chuva”

(1972), até hoje a sua obra maior.

“Os Sorrisos do Destino”, a partir

de um argumento bem arquitectado

de Paulo Filipe Monteiro, embora

em registo de comédia de costumes,

curiosamente reminiscente de

“Sorrisos de uma Noite de Verão” de

Ingmar Bergman (o título está longe

de ser inocente), vem repegar, sob a

forma de jogo autoreferencial, nas

suas obsessões anteriores e

nomeadamente nos acentos trágicos

de “O Delfim”. Se não vejamos: o

narrador do filme de 2002 (o

excelente Rui Morrison, ainda e

sempre com a sua máscara algo

neutra de radialista de voz sedutora)

passa a protagonista de um triângulo

amoroso, gerado a partir de uma

críptica mensagem de telemóvel,

assinada por um misterioso Manuel

B., diplomata e escritor africano,

interpretado por Milton Lopes, o

criado Domingos, ligado aos cães de

caça, de “O Delfim”, cujo par

protagonista (Alexandra Lencastre e

Rogério Samora) aparece num quase

“cameo” autocitacional, no jantar

que confronta os dois casais em

estranha celebração; a oposição

musical entre boleros e ópera (a

baixa cultura e a alta cultura)

recupera a sequência em que

Samora canta “Sabor a Mi” no

cabaret de “O Delfim”; a primeira

ária de ópera apresentada, no

programa de rádio, por Ana Padrão

(também ela reminiscente da

arrogância de classe da Maria dos

Prazeres de “Uma Abelha na

Chuva”) vem de “A Força do

Destino” de Giuseppe Verdi, cuja

abertura dava o mote ao filme de

1972; até “Os Sorrisos do Destino” do

título recompõem a componente

fílmica bergmaniana e a musical de

origem verdiana.

Depois, assistimos às múltiplas

variações e desenvolvimentos sobre

o tema (musical e fílmico) dado: o

cão chamado Wotan (o deus de “O

Anel do Nibelungo” de Richard

Wagner) que, quando perdido

parece responder ao apelo do dono

por meio da “Morte de Isolda”, do

“Tristão e Isolda” do mesmo

Wagner, mas acaba por reaparecer

por um simples assobio; a

centralidade de jantares e

banquetes, brindes com vinho tinto

e whisky; as cumplicidades

masculinas entre Manuel B. e

Manuel C., com a divertidíssima

sequência do bolero, dançado em

separado pelos dois homens, porque

nenhum deles se consegue deixar

conduzir pelo outro; o anel (uma

aliança, marca de um casamento

fracassado) lançado à água

(omnipresente em “O Delfim” e em

“Uma Abelha”) a parodiar o final da

tetralogia de Wagner, para apaziguar

a ira dos deuses de uma

tragicomédia comédia lusitana.

E constituirá delírio crítico ver a

capicua do nome da protagonista,

Ada, como uma cifrada caricatura

do terrífico “Non” do Padre António

Vieira e do filme homónimo de

Manoel de Oliveira, sobre a guerra,

latente no passado dos dois homens?

E a mão de Manuel B. decepada por

uma mina, não remeterá também de

forma transversa para “A Caça” de

Oliveira, num universo como o de

Lopes povoado por lagos e pântanos

e por personagens que se afundam

na sua própria impotência? E a lua

de George Méliès, aparentemente

deslocada no contexto do final do

filme, como divindade cinéfila que

preside aos feitiços de uma guerra

dos sexos herdada da comédia


As estrelas do público

Jorge

Mourinha

Luís M.

Oliveira

Mário

J. Torres

Vasco

Câmara

“2012”: Roger

Corman faria

isto com o triplo

da invenção

Andando mmmmn mmmnn nnnnn mmmmn

Birdwatchers nnnnn a mnnnn mnnnn

2012 mnnnn nnnnn nnnnn nnnnn

O Delator mmmnn mmnnn mmmnn mmmnn

Os Irmãos Bloom mmmmn nnnnn nnnnn nnnnn

Moon - O Outro Lado da Lua mmmnn mmnnn nnnnn mmmnn

Morrer como um Homem mnnnn nnnnn mmmmn mmmnn

Os Sorrisos do Destino nnnnn nnnnn mmmnn mnnnn

New York I Love You mnnnn nnnnn nnnnn nnnnn

This is It mnnnn mnnnn nnnnn mnnnn

“screwball”, em sonho de uma noite

fictícia, não lembrará a sua muita

diversa (e semelhante pelo excesso

das paixões) utilização em “Le

Soulier de Satin”?

Tudo o resto converge para esta

noção de divertimento, desde a

figura do filho que sobe as escadas

em patins e se desloca em casa como

se a vida passasse por imenso

desporto radical. O tratamento do

trio também decorre desta

componente ligeira e paródica,

nunca ocultando, porém, uma

dimensão agridoce que impossibilita

as relações e a comunicação.

Particularmente curiosa é a

participação de Julião Sarmento, no

papel de coadjuvante e de

desencadeador da tecnologia que

invade o filme como uma

personagem subterrânea, a

propiciar um grafismo moderno a

uma velha fábula, a da traição

controlada (e civilizada).

Todas as contas feitas, “Os

Sorrisos do Destino” não

acrescentará muito à longa e

importante obra de Fernando

Lopes, mas constitui uma divertida e

inteligente variação sobre os seus

temas maiores.

21h40 Sábado Domingo 12h40, 15h40, 18h40,

21h40; UCI Freeport: Sala 1: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª

15h10,1 8h05, 21h15 6ª Sábado 15h10,1 8h05, 21h15,

00h25; ZON Lusomundo Almada Fórum: 5ª 6ª

Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h35, 17h, 21h,

00h25; ZON Lusomundo Fórum Montijo: 5ª 6ª

Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h15, 17h, 21h, 00h15;

Porto: Arrábida 20: Sala 15: 5ª 6ª Sábado

Domingo 2ª 3ª 4ª 15h05, 18h15, 21h35,

00h40; Arrábida 20: Sala 16: 5ª 6ª Sábado

Domingo 2ª 14h10, 17h30, 21h05, 00h15 3ª 4ª

17h30, 21h05, 00h15; Cinemax - Cinema da Praça

: Sala 1: 5ª 2ª 3ª 4ª 15h30, 21h30 6ª 15h30, 21h30,

00h10 Sábado 14h50, 17h40, 21h30, 00h10 Domingo

14h50, 17h40, 21h30; Cinemax - Penafiel: Sala 2: 5ª

2ª 3ª 4ª 15h30, 21h30 6ª 15h30, 21h30, 00h10

Sábado 14h50, 17h40, 21h30, 00h10 Domingo

14h50, 17h40, 21h30; Medeia Cidade do Porto: Sala

1: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h40, 18h,

21h30; ZON Lusomundo Dolce Vita Porto: 5ª 6ª

Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 16h30, 20h50,

00h15 ; ZON Lusomundo Ferrara Plaza: 5ª

Domingo 2ª 3ª 4ª 15h, 18h10, 21h20 6ª Sábado

15h, 18h10, 21h20, 00h30; ZON Lusomundo

GaiaShopping: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 14h, 17h40,

21h20 6ª Sábado 14h, 17h40, 21h20, 00h40; ZON

Lusomundo MaiaShopping: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª

13h50, 17h30, 21h 6ª Sábado 13h50, 17h30, 21h,

00h30; ZON Lusomundo Marshopping: 5ª 6ª

Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h40, 17h10, 21h10,

00h30; ZON Lusomundo NorteShopping: 5ª 6ª

Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h20, 17h30, 21h10,

00h30; ZON Lusomundo Parque Nascente: 5ª 6ª

Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h, 17h30, 21h,

00h30; Castello Lopes - 8ª Avenida: Sala 1: 5ª 6ª

2ª 3ª 4ª 15h40, 18h40, 21h40 Sábado Domingo

12h40, 15h40, 18h40, 21h40; ZON Lusomundo

Fórum Aveiro: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 14h, 17h30,

21h 6ª Sábado 14h, 17h30, 21h, 00h30; ZON

Lusomundo Glicínias: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª

3ª 4ª 13h50, 17h20, 20h50, 00h20;

Ou o fim do mundo como pretexto

para uma série B super-inflacionada:

uma violenta explosão solar

desencadeia um reajuste da crosta

terrestre e consequente cataclismo

global, com um punhado de

personagens a procurarem escapar

ao fim da civilização como a

conhecemos pelo meio de

terramotos, tsunamis e erupções

vulcânicas apocalípticas. Honra lhe

seja feita: há algo de tão sincero no

amor que o alemão Roland

Emmerich (“O Dia da

Independência”, “O Dia Depois de

Amanhã”) tem pelas fórmulas

2012

De Roland Emmerich,

com John Cusack, Thandie Newton,

Woody Harrelson. M/12

Mnnnn

Lisboa: Atlântida-Cine: Sala 1: 5ª 6ª Sábado

Domingo 2ª 3ª 4ª 15h30, 21h30; Castello Lopes -

Cascais Villa: Sala 1: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª 15h40, 18h40,

21h40 Sábado Domingo 12h40, 15h40, 18h40,

21h40; Castello Lopes - Londres: Sala 1: 5ª 6ª

Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h40, 15h40, 18h40,

21h45; Castello Lopes - Loures Shopping: Sala 6: 5ª

6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h40, 15h40, 18h40,

21h40; Castello Lopes - Loures Shopping: Sala 3: 5ª

6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 23h30; CinemaCity

Alegro Alfragide: Cinemax: 5ª 6ª Sábado Domingo

2ª 3ª 4ª 13h30, 16h30, 21h15, 00h15; CinemaCity

Beloura Shopping: Cinemax: 5ª 6ª Sábado

Domingo 2ª 3ª 4ª 13h30, 16h30, 21h15,

00h15; CinemaCity Campo Pequeno Praça de

Touros: Sala 2: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª

13h30, 16h30, 21h15, 00h15; Medeia Fonte Nova: Sala

1: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h40, 18h,

21h30; Medeia Saldanha Residence: Sala 6: 5ª 6ª

Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h, 16h, 19h, 22h; UCI

Cinemas - El Corte Inglés: Sala 9: 5ª 6ª Sábado 2ª

3ª 4ª 15h15, 18h20, 21h30, 00h25 Domingo 11h30,

15h15, 18h20, 21h30, 00h25; UCI Dolce Vita

Tejo: Sala 2: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 15h,

18h, 21h10, 00h10; ZON Lusomundo Alvaláxia: 5ª

6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h45, 17h, 21h,

00h15; ZON Lusomundo Amoreiras: 5ª 6ª Sábado

Domingo 2ª 3ª 4ª 13h40, 17h 21h, 00h15; ZON

Lusomundo CascaiShopping: 5ª 6ª Sábado

Domingo 2ª 3ª 4ª 13h, 17h, 21h, 00h25; ZON

Lusomundo Colombo: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª

3ª 4ª 13h40, 17h10, 21h, 00h25; ZON Lusomundo

Dolce Vita Miraflores: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª

3ª 4ª 15h, 18h30, 22h; ZON Lusomundo Odivelas

Parque: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 15h, 18h30, 22h 6ª

16h30, 21h, 00h10 Sábado 13h05, 16h30, 21h,

00h10; ZON Lusomundo Oeiras Parque: 5ª 6ª

Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h20, 16h50, 21h,

00h25; ZON Lusomundo Torres Vedras: 5ª 6ª

Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h50, 17h30, 21h,

00h20 ; ZON Lusomundo Vasco da Gama: 5ª 6ª

Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h, 16h30, 21h,

00h20; Castello Lopes - C. C. Jumbo: Sala 1: 5ª 6ª

2ª 3ª 4ª 15h40, 18h45, 21h45 Sábado Domingo

12h40, 15h40, 18h45, 21h45; Castello Lopes - Fórum

Barreiro: Sala 4: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª 15h40, 18h40,

21h40 Sábado Domingo 12h40, 15h40, 18h40,

21h40; Castello Lopes - Rio Sul Shopping: Sala 5: 5ª

6ª 2ª 3ª 4ª 15h20, 18h30, 21h30 Sábado Domingo

12h50, 15h20, 18h30, 21h30; Castello Lopes - Rio Sul

Shopping: Sala 1: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª 15h40, 18h40,

Ípsilon • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • 53


Cinema

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

“‘La Ricotta’, Pier Paolo Pasolini

mais requentadas e do filmecatástrofe

do cinema de género de

segunda linha que é difícil não ter

uma certa afeição pelos seus

diálogos esquemáticos, heróis e

vilões de papelão e implausibilidades

narrativas saidinhas de um velho

“serial”. Só que a sinceridade de

Emmerich dilui-se na ambição – e

“2012”, que era capaz de ter graça se

fosse despachadinho, estende-se

interminavelmente por duas horas e

meia, alinhando uma sucessão de

peripécias que diluem de tal modo a

representação do inimaginável fim

do mundo que às tantas já parece

estarmos a ver uma novela do

género “que mais irá acontecer aos

nossos heróis?”. Em nenhum

momento o filme consegue ser mais

do que uma conjugação colada com

cuspo de série B sensacionalista

arraçada de video-jogo (“evita as

rochas projectadas pela erupção no

teu avião e ganha pontos extra!”),

com actores estimáveis a tentar

manter alguma dignidade pelo meio

da carga de trabalhos para que

Emmerich os atira. Roger Corman

faria isto com o triplo da invenção e

muito mais nervo e tensão por uma

fracção do orçamento e seria um

filme muito melhor. Jorge

Mourinha

Continuam

New York, I Love You

De Mira Nair, Shekhar Kapur, Fatih

Akin, Natalie Portman, etc.,

com Robin Wright Penn, Natalie

Portman, John Hurt, Kevin Bacon,

Ethan Hawke, Isabelle Adjani. M/12

Mnnnn

Lisboa: CinemaCity Campo Pequeno Praça de

Touros: Sala 4: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª 14h, 16h20, 18h30,

21h30, 24h Sábado Domingo 11h55, 14h, 16h20,

18h30, 21h30, 24h; Medeia Monumental: Sala 3: 5ª

6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 15h15, 17h20,

19h25, 21h30, 24h; UCI Cinemas - El Corte

Inglés: Sala 12: 5ª 6ª Sábado 2ª 3ª 4ª 14h20,

16h50, 19h15, 21h40, 00h05 Domingo 11h30, 14h20,

16h50, 19h15, 21h40, 00h05; ZON Lusomundo

Amoreiras: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª

13h50, 16h20, 19h, 21h50, 00h20; ZON Lusomundo

Oeiras Parque: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª

13h10, 15h40, 18h10, 21h15, 23h55;

Porto: Arrábida 20: Sala 12: 5ª 6ª Sábado

Domingo 2ª 14h20, 16h45, 19h15, 21h50, 00h30 3ª

4ª 16h45, 19h15, 21h50, 00h30;

Segundo compêndio de curtas

temáticas na série “Cidades do

Amor” depois de “Paris, Je t’aime”

(2006), a sensação que fica de “New

York, I Love You”, é,

paradoxalmente, a de que nenhuma

destas pequenas histórias de amor

sediadas em Nova Iorque é

especificamente nova-iorquina em

tema, tom ou concretização. E assim

lá vai à vida a lógica unificadora da

encomenda do produtor Emmanuel

Benbihy a dez realizadores de todo o

mundo, com o desafio de terem um

máximo de dois dias para filmar e

uma semana para montar: se estas

histórias podiam decorrer em Nova

Iorque como em Paris, Londres,

Cinemateca Portuguesa R. Barata Salgueiro, 39 Lisboa. Tel. 213596200

Sexta, 13

Titanic De James Cameron 15h30 - Sala

Félix Ribeiro

O Mistério da Casa de Bambu

House of Bamboo De Samuel Fuller

19h - Sala Félix Ribeiro

Cockfighter De Monte Hellman 21h30

- Sala Félix Ribeiro

E o Teu Amor Também

.und Deine Liebe auch De Frank

Vogel 22h - Sala Luís de Pina

Quelques Veuves de Noirmoutier

De Agnès Varda 19h30 - Sala Luís de Pina

Sábado, 14

O Homem Que Sabia Demasiado

The Man Who Nkew Too Much

De Alfred Hitchcock 15h30 - Sala Félix

Ribeiro

O Requeijão + A Terra Vista

da Lua + O Que São as Nuvens?

De Pier Paolo Pasolini 21h30 - Sala Félix

Ribeiro

Quatro Filhos e uma Noiva

Saddle Tramp De Hugo Fregonese

19h - Sala Félix Ribeiro

O Filho Bastardo

Thomas Graals Bästa Barn De

Mauritz Stiller 19h30 - Sala Luís de Pina

Quixote + Castro Street + Castro

Street + The Bed + Testament

22h - Sala Luís de Pina

Segunda, 16

A Sede do Mal

Touch of Evil De Orson Welles 15h30 -

Sala Félix Ribeiro

Nosferatu, o Vampiro

Nosferatu, Eine

Symphonie

Tóquio, Moscovo ou Xangai, se em

nenhum momento (para lá das

transições dirigidas por Randy

Balsmeyer) sentimos algo de local

em jogo, de que serve juntá-las sob o

título “New York, I Love You”? Dito

isto, deste caldeirão vale-tudo

razoavelmente anónimo, há três

segmentos que merecem atenção: o

japonês Shunji Iwai com o flirt

telefónico entre Orlando Bloom

como um compositor de bandassonoras

e Christina Ricci como a

secretária do realizador; Mira Nair

com a “reunião de trabalho” que

des Grauens De F.W. Murnau 19h -

Sala Félix Ribeiro

Flight to Fury

De Monte Hellman 21h30 - Sala Félix Ribeiro

Recordações da Casa Amarela

De João César Monteiro 19h30 - Sala Luís

de Pina

Rita ou Rito? De Reinaldo Ferreira

22h - Sala Luís de Pina

Mal de Espanha De José Leitão de

Barros 22h - Sala Luís de Pina

Terça, 17

Doze indomáveis Patifes

The Dirty Dozen De Robert Aldrich

15h30 - Sala Félix Ribeiro

Cockfighter De Monte Hellman 21h30

- Sala Félix Ribeiro

Os Rubis do Príncipe Birmano

Escape to Burma De Allan Dwan 19h

- Sala Félix Ribeiro

Asfalto

Asphalt De Joe May 22h - Sala Luís de Pina

Aniki na Casa 19h30 - Sala Luís de Pina

Quarta, 18

Gangs de Nova Iorque

Gangs Of New York De Martin

Scorsese 15h30 - Sala Félix Ribeiro

Os Assassinos Estão Entre Nós

Die Mörder Sind Unter Uns De

Wolfgang Staudte 19h - Sala Félix Ribeiro

Back Door to Hell De Monte

Hellman 21h30 - Sala Félix Ribeiro

Flight to Fury De Monte Hellman

19h30 - Sala Luís de Pina

Louis Lumière De Eric Rohmer. 22h -

Sala Luís de Pina

Quinta, 16

Os Dez Mandamentos

The Ten Commandments De Cecil

B. DeMille 15h - Sala Félix Ribeiro

O Furacão

Ride in the Whirlwind De Monte

Hellman 19h - Sala Félix Ribeiro

Boogie Nights De Paul Thomas

Anderson 21h30 - Sala Félix Ribeiro

Back Door to Hell De Monte

Hellman 22h - Sala Luís de Pina

Berlin Alexanderplatz De Phil

“Recordações da Casa Amarela” Jutzi 19h30 - Sala Luís de Pina

deriva para fantasia romântica entre

dois negociantes de diamantes, o

indiano Irrfan Khan e a judia

hasídica Rachel Portman; e,

sobretudo, a “história de fantasmas”

entre uma Julie Christie imperial e

um irreconhecível Shia LaBeouf

dirigida por Shekhar Kapur

(substituindo o falecido Anthony

Minghella, que escreveu o segmento

mas faleceu antes de o realizar). Mas

mesmo esses não chegam para fazer

de “New York, I Love You” mais do

que uma curiosidade diletante que

se esquece rapidamente. J. M.

54 • Sexta-feira 13 Novembro 2009 • Ípsilon


DVD

Cinema

O cinema

em cantado

Absolutamente

indispensável e o presente

de Natal ideal. Mário Jorge

Torres

Caixa Jacques

Demy

(Edição de

Coleccionador)

Costa do Castelo

Os Chapéus-de-Chuva de

Cherburgo

mmmmm

sem extras

As Donzelas de Rochefort

mmmmm

extras

mmmmm

A Princesa Pele de Burro

mmmmm

extras

mmmmn

Jacquot de Nantes

mmmmm

extras

mmmmm

A fórmula usada para o

título deste texto não é

nossa, aparece sempre que

se aborda o universo de

Jacques Demy, entre a magia a

do conto de fadas e o fascínio

pelo musical americano

redimensionado numa zona

complexa, que aspira à

construção de uma ópera

“Jacquot de Nantes”, de Agnés Varda, o

quarto disco da Caixa Demy

popular, com Michel Legrand a fazer

de Puccini moderno, citando, em

simultâneo, as grandes coreografias

dos musicais de Stanley Donen,

sempre dentro de uma visão original

e autobiográfica.

Felizmente, Demy voltou à moda,

um pouco graças à obra de amor de

Agnès Varda, sua companheira de

vida inteira, embora com magnífica

obra própria e complementar do seu

sonho sem limites. A caixa Demy

editada pela Costa do Castelo possui

uma notável coerência, recuperando

os seus dois títulos de máxima glória

e contextualizando-os com uma

obra menos conhecida e com

abundância de visões de conjunto.

“Os Chapéus-de-Chuva de

Cherburgo” (1964) é a primeira

aventura operática, com uma banda

sonora esplendorosa e a capacidade

para integrar no delírio da cor, do

movimento e da música um período

histórico determinado, a Guerra da

Argélia, intrometendo-se entre o par

amoroso (Catherine Deneuve e Nino

Castelnuovo) e levando-os a uma

dolorosa separação, que o final

acentua em tom de nostalgia e

perda. Com todos os diálogos

cantados, melodias desgarradas de

amor impossível (“Não, jamais

poderei viver sem ti”), marinheiros

perdidos pelas ruas, guarda-chuvas

multicolores, esta elegíaca “serenata

à chuva” constitui a chave para um

universo de prazer e dor, misturados

com uma paixão acrisolada pelas

formas fílmicas em estado puro. A

cópia é magnífica, embora sem

extras.

Um clássico, “As Donzelas de Rochefort”, e uma

(re)descoberta, “A Princesa Pele de Burro”

aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente

“As Donzelas de Rochefort” (1967)

estabelece condigno contraponto,

embora mudando agulhas para o

musical hollywoodiano (Gene Kelly

e George Chakiris operam a

necessária ponte coreográfica),

concebido em termos europeus,

numa vertigem de “travellings” e de

planos de grua sobre uma feira

popular povoada por marinheiros

pintores, donzelas ingénuas e

ambiciosas em dueto (outra grande

canção de Legrand, “Somos duas

irmãs gémeas”, interpretada, com

inultrapassável panache por

Deneuve e pela irmã, a malograda

Françoise Dorléac), nostalgias de

amores perdidos na voragem do

tempo (Danielle Darrieux e Michel

Piccoli, o inesquecível Monsieur

Dame, reencontrando-se em

música) e um optimismo

transbordante, cristalizado na dança

e no (en)canto. De novo, um porto

atlântico, reminiscente da Nantes

natal de Demy, cenário do “opus 1”,

“Lola” (1961) – anuncia-se para este

ano a sua edição em DVD, com “A

Grande Pecadora” (1963), no

catálogo da Midas – a denunciar o

modo como o cineasta encena o que

conhece bem e muito ama. Como

extra, o documentário “As Donzelas

Fazem 25 Anos”, em que Varda

revisita os locais de filmagens e os

figurantes do filme.

A revisão de “A Princesa Pele de

Burro” (1970), adaptado do conto de

Charles Perrault, com homenagem a

“A Bela e o Monstro” de Cocteau,

escolhendo Jean Marais para a figura

do rei, complexa história de incesto

e de encantamento, é uma relativa

surpresa. Visto em contexto, revela-

se obra fulcral para

entender a estética do

realizador, de tal modo

transfigura

cenários e

concepções

limitativas do

conto de

fadas, com

canções e

improváveis

leituras

psicanalíticas. O que poderia figurar

como abordagem menor a um

género infantil reveste-se de

exemplar coerência estilística: o

mesmo fascínio pela cor e

movimento; idêntica leitura de um

mundo mágico de nostalgias e

anacronismos morais. Uma obraprima

de pleno direito, a prenunciar

futuras (e mais negras) aventuras:

“The Pied Piper” (1972) ou “Lady

Oscar” (1979). O extra compósito é

constituído por um historial das

ilustrações sobre o conto (desenhos,

bandas desenhadas, cartas de tarot),

seguido de uma selecção de

depoimentos da produtora, um

psicanalista ou uma especialista da

literatura do século XVII.

O quarto disco é “sobre” Jacques

Demy e centra-se numa dupla visão

“biográfica”. “Jacquot de Nantes”

(1991), de Agnès Varda, mas com

argumento e supervisão do cineasta,

filmado, já muito doente, em

grandes planos contextuais que lhe

conferem o estatuto de

autobiografia, executada, em última

análise, por um outro que constitui

o seu “espelho”, acaba por poder

atribuir-se-lhe. Trata-se de uma

reconstituição romanceada de um

fascinante percurso de vida, desde a

infância (com triplo protagonista

que vai crescendo perante os nossos

olhos) na garagem do pai, em

Nantes, até aos últimos dias, tudo

sinalizado por excertos dos filmes e

pela encenação das memórias dos

tempos da guerra. O desejo da ficção

joga-se com presença do factual e