ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS - CCDR-LVT

ccdr.lvt.pt

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS - CCDR-LVT

11

DEZEMBRO | 2009

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS

entrevistas

Humberto Rosa

Filipe Duarte Santos


P r o p r i e d a d e

CCDRLVT

Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional

de Lisboa e Vale do Tejo

Rua Artilharia 1, nº 33 – 1269‐145 Lisboa

Tel.: 21 383 71 00 | Fax: 21 383 12 92

www.ccdr‐lvt.pt

D i r e c ç ã o

Presidência da CCDR-LVT

D i r e c ç ã o e x e c u t i v a

Carla Gomes

P r o j e c t o e d i t o r i a l , d e s i g n e p r o d u ç ã o

Fotografias: Maurício Abreu [capa e contracapa]

DDLX [www.ddlx.pt]

José Teófilo Duarte [Direcção]

Eva Monteiro [Design]

C o l a b o r a r a m

Carla Maia de Almeida

Fernanda Câncio

Luís de Carvalho

Pedro Almeida Vieira

Virgílio Gomes

R e v i s ã o d e Te x t o s

Passar Revista

F o t o g r a f i a

Câmaraardente, produções fotográficas

Guto Ferreira

Maurício Abreu

I m p r e s s ã o e a c a b a m e n t o

Corlito – Artes Gráficas

T i r a g e m 2500 exemplares

I S S N 1646‐1835

D e p ó s t i o L e g a l 224633/05

L V T # 1 1 – D e z e m b r o | 2 0 0 9 | Q u a d r i m e s t r a l


índice Notícias breves.......................................................................... 2

POR Lisboa...................................................................................8

Opinião

Mudar de agulha...................................................................10

Fernanda Câncio

Entrevista

Humberto Rosa

O meu optimismo é fruto do realismo....................... 16

Luis Carvalho

Comunidade Urbana

Alterações Climáticas

A Hora das Autarquias ...................................................... 26

Pedro Almeida Vieira

entrevista

Filipe Duarte Santos

O envolvimento das regiões ajudaria

a aumentar a adesão do público...................................32

Carla Gomes

Acontecimento

Orquestra «Geração» encanta Bruxelas....................42

Património

Casa de Reis e Mendigos.................................................. 46

Carla Maia de Almeida

Roteiro

Internacionalizar?.................................................................54

Virgílio Gomes

Agenda cultural....................................................................60


notícias breves

Avaliação dos serviços em 2008

CCDR-LVT com desempenho

«Excelente»

|


«Excelente» foi a nota atribuída ao desempenho dos

.serviços da CCDR-LVT ao longo de 2008. A classificação,

que apenas foi atribuída a três organismos do Ministério

do Ambiente (quota máxima de 20%) reflecte a superação

global dos objectivos estabelecidos pela CCDR no QUAR

(Quadro de Avaliação e Responsabilização) de 2008.

Dos 10 objectivos operacionais definidos pela CCDR,

.todos foram cumpridos e 9 foram superados.

Todos os objectivos relevantes foram superados.

Reforços orçamentais para financiar novos projectos

.e atribuir prémios, assim como alterações de posições

remuneratórias, são os benefícios que a Comissão poderá

vir a ter graças a este reconhecimento de mérito. O SIADAP

prevê ainda um aumento das quotas para atribuição

de desempenho relevante e excelente em 2009, 25

para 35% no «Desempenho Relevante» e de 5 para 10%

no «Excelente» (dirigentes intermédios e restantes

.trabalhadores).

Entre os objectivos mais relevantes, é de destacar,

.a implementação dos pagamentos das Guias de Depósito

por Multibanco, que permite o pagamento de pareceres

ou licenças emitidas pela CCDR-LVT em qualquer caixa

Multibanco do país. Esta funcionalidade abrange todos

os serviços, quer sejam prestados pelos serviços centrais

em Lisboa quer pelas delegações sub-regionais. A LVT foi

a primeira CCDR a avançar com este serviço.

Também no acesso electrónico dos utentes à informação

sobre os seus processos (E-GOV) foi possível superar

.o objectivo, criando 4 domínios com acessibilidade electrónica

nas áreas de Processos de Contra-Ordenação,

Avaliação de Impacte Ambiental, Reserva Ecológica

Nacional e Planos Municipais de Ordenamento do

Território. Estes serviços on-line permitem a consulta

directa dos processos, de toda a documentação relacionada

e estado de tramitação pelos respectivos interessados.

A nível da estratégia de internacionalização de Lisboa,

foi ultrapassada a meta da participação da CCDR-LVT

em redes internacionais, que era aumentar de 3 para 5,

estando a CCDR efectiva e activamente envolvida, em 2008,

em 8 redes temáticas internacionais ou europeias.

A desconcentração dos serviços, com o reforço das delegações

sub-regionais do Oeste, Setúbal e Vale do Tejo

em detrimento dos serviços centrais, é um dos grandes

objectivos estratégicos da CCDR-LVT. Por cada três novos

funcionários a entrar na Comissão, foi estabelecido que

dois teriam de ficar afectos às sub-regionais, meta que foi

igualmente superada.

O Objectivo «Redução de Passivos Ambientais na Região»

é um dos destacados na avaliação do Ministério do

Ambiente. Aqui o resultado de 2008 ultrapassou largamente

a meta inicial, tendo sido realizadas 40 acções de remoção

de sucatas ilegais, em vez de 5 como inicialmente previsto.

A diferença explica-se pela prioridade dada pelo Governo

ao problema dos depósitos ilegais de Veículos em Fim de

Vida e pelo facto das acções da CCDR terem tido um impacto

pedagógico, levando grande número de proprietários

a fazerem a remoção das sucatas de forma voluntária.

A par dos objectivos do QUAR, a CCDR-LVT assumiu metas

exigentes de gestão para 2008, desde logo nas Cartas

de Missão do presidente e vice-presidentes. A redução dos

prazos de pagamento a fornecedores é uma delas. A meta

estabelecida para 2008 foi de 25 dias, mas feito o balanço

do ano o prazo médio foi de apenas 16 dias.

Balanced Scorecard é estudo de caso

A classificação de desempenho «Excelente» vem reconhecer

não apenas o esforço no cumprimento dos objectivos

.estratégicos estabelecidos para 2008, mas também as

práticas inovadoras de gestão que têm vindo a ser aplicadas

na CCDR-LVT, nomeadamente o Balanced Scorecad,

.um sistema de monitorização da execução dos objectivos,

ao longo do ano, pelo qual a CCDR é já alvo de um estudo

de caso do Instituto Nacional da Administração (INA),

como exemplo de boas práticas na Administração Pública.

O BSC permite avaliar ao longo do ano o grau de execução

dos projectos e os respectivos desvios em relação à meta,

corrigindo atempadamente as trajectórias. Uma monitorização

deste tipo garante uma maior eficácia no cumprimento

do QUAR e na gestão por objectivos, que se estende

de forma transversal a todo o organismo, desde os dirigentes

máximos (Carta de Missão) aos colaboradores.

Pautada por uma Agenda Estratégica e uma Visão claramente

definida, a CCDR foi um dos primeiros organismos

públicos a aplicar globalmente o SIADAP, aquando da

implementação do primeiro sistema de avaliação em 2005.

A melhoria deste sistema, com a integração dos dirigentes

e da avaliação dos serviços, vem ao encontro do esforço

de desburocratização, desconcentração e modernização

dos serviços.

Os resultados de 2008 vão além do mero cumprimento

ou superação de objectivo e prendem-se com uma filosofia

de gestão racional, moderna, eficiente e centrada na qualidade

do serviço prestado. Durante este ano, a CCDR prosseguiu

o aumento do nível técnico e de formação superior

dos seus colaboradores, assim como a redução da média

etária, e reforçou a aposta nas novas tecnologias de informação

e do conhecimento.

O resultado, a finalidade de todo este sistema, é a melhoria

contínua e o aumento da eficácia nos serviços prestados

aos cidadãos. ■

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Desempenho energético e ambiental

CCDR-LVT lança campanha de sensibilização

Associando-se simbolicamente à Cimeira

de Copenhaga, a CCDR-LVT lançou em

Dezembro de 2009 uma campanha que

visa a melhoria efectiva do seu desempenho

energético e ambiental. A acção

pretende envolver também os parceiros

locais, nacionais e regionais, como as

autarquias, entidades da administração

central ou associações.

Em 2010 será lançado um conjunto de

medidas com metas concretas que visam

reduzir o impacto ambiental da actividade

da comissão. Uma das primeiras iniciativas

será a atribuição de um prémio à melhor

ideia para melhorar a eficiência energética

e/ou ambiental da CCDR-LVT, destinado

aos seus colaboradores.

A CCDR-LVT associa-se igualmente ao

projecto ECA2ÉTICA da AMI, com uma

acção de plantação de árvores que compensarão

o consumo de papel dos serviços

durante um ano (em termos de árvores

consumidas na produção de pasta). Estas

árvores serão certificadas e acompanhadas

ao longo da vida, sendo garantido o seu

impacto positivo no balanço de carbono.

A iniciativa «+ Ambiente» vem ao encontro

do esforço nacional de melhoria de

.eficiência energética nos últimos anos

e da estratégia da CCDR-LVT para esta

Região. A eficiência ambiental na

Administração Pública é um importante

desígnio da Estratégia Lisboa 2020,

.reforçada na proposta de alteração do Plano

Regional de Ordenamento da Área

Metropolitana de Lisboa (PROTAML)

em curso.

Para 2010 foram estabelecidas as seguintes

metas:.

• Redução de 10% no consumo de papel.

• Redução de 5% no consumo de

.electricidade.

• Redução de 5% no consumo de água .

• 100% dos eventos organizados com

preocupações ambientais

Poderá encontrar estas e outras

.informações, incluindo conselhos e links

úteis, em www.ccdr-lvt.pt/maisambiente. ■

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A principal novidade deste ano no Portugal

Tecnológico, que decorreu entre 7 e 10 de

Outubro, foi o espaço dedicado às regiões.

A CCDR-LVT reuniu um conjunto de

empresas que reflectem o que de mais

inovador se está a fazer na Investigação

& Desenvolvimento Tecnológico na Região

de Lisboa. Boa parte destas empresas

desenvolve actualmente projectos que

contam com o apoio do POR Lisboa/QREN.

Algumas destas empresas lançaram

projectos ou produtos novos durante

a iniciativa. Estiveram representadas

a YDreams, Carcrash, Javali, PETSys, Lifetime

e NGNS – Ingenious Solutions, para além

do Instituto Superior Técnico e do Madan

Parque de Ciência. No stand de Lisboa,

osvisitantes depararam-se com uma

parede interactiva e um miradouro virtual,

que permitia a consulta de imagens

einformações sobre Lisboa, a CCDR-LVT

e as empresas participantes.

Projectos recentes como o Forest Fire

Finder, um sistema inovador de detecção

de incêndios (NGNS - Ingenious Solutions),

o PET - Positron Emission Tomography,

meio auxiliar de diagnóstico para detecção

mais eficaz do cancro da mama (PETSys)

ou o Ynvisible, com a criação de interactividade

sobre superfícies convencionais,

como papel e embalagens (YDreams) são

exemplos de iniciativas que contam já com

o apoio do QREN, através do POR Lisboa.

O miradouro virtual, a parede interactiva

e o robot que expressa sentimentos humanos,

a «Chica», foram algumas das inovações

com maior êxito junto dos visitantes.

Lisboa

Tecnológica

O Portugal Tecnológico 2009 recebeu

22 885 visitantes nos quatro dias em que

decorreu o evento, um número que representa

um crescimento de 40,5% face ao

mesmo número de dias na edição anterior.

A maior mostra nacional de tecnologia

e inovação reuniu cerca de 200 expositores,

que representaram 700 empresas e 70

entidades. A mostra apresentou as melhores

soluções desenvolvidas em Portugal em

sectores como a Energia, Telecomunicações,

Educação, Saúde e Mobilidade, a que se

juntaram alguns dos mais bem sucedidos

processos de E-government europeu.

O Portugal Tecnológico foi organizado pela

Associação Industrial Portuguesa – AIP,

pela Feira Internacional de Lisboa (FIL)

e pela agência de comunicação BAN. ■

Comissão Consultiva aprecia

proposta final do novo PROT-AML

A Comissão Consultiva do Plano Regional

de Ordenamento do Território da Área

Metropolitana de Lisboa (PROT-AML)

reuniu no dia 17 de Dezembro para apresentação

da proposta final de alteração

do plano, incluindo a Avaliação Ambiental

Estratégica e o programa de execução,

que enumera um conjunto de investimentos

estruturantes para o desenvolvimento

deste território nos próximos anos.

Na reunião, que decorreu na Fundação

Cidade de Lisboa, foi igualmente estabelecido

um calendário para elaboração

do parecer final da comissão, o passo que

falta para que a nova versão do PROT-AML

possa avançar para consulta pública e ser

entregue ao Governo.

A Comissão Consultiva é o órgão de

acompanhamento do plano e integra

entidades da administração central,

municípios, universidades e organizações

da área de intervenção do PROT.

Para mais informações sobre estes e outros

temas ver: www.ccdr-lvt.pt ■

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Inovação, Simplificação e Excelência

CCDR-LVT apresenta novos serviços on-line

A CCDR-LVT participou na 6ª Exposição

sobre Inovação, Simplificação e Excelência,

que se realizou a 10 e 11 de Novembro

no Centro de Congressos da AIP, a par

do Congresso Nacional da Administração

Pública, sendo ambos os eventos organizados

pelo Instituto Nacional de

Administração (INA). A aposta nas tecnologias

de informação e a modernização dos

serviços estiveram em destaque no espaço

da Comissão.

Estiveram em demonstração as tecnologias

mais inovadoras que a CCDR-LVT tem

vindo a implementar na modernização dos

serviços, com destaque para a introdução

das funcionalidades do Cartão de Cidadão

na gestão dos processos, que permite

utilizar o cartão de identificação para

assinar e validar documentos.

Estiveram igualmente disponíveis para

demonstração, na área da CCDR-LVT,

.aplicações como a gestão documental

electrónica, a gestão técnica de processos

nas áreas de ordenamento e ambiente,

o SIG Wireless ou a plataforma de serviços

online, através do qual os cidadãos podem

acompanhar o estado dos seus processos

e submeter documentos, sem terem de

se deslocar pessoalmente às instalações

em Lisboa ou nas delegações sub-regionais.

O espaço da CCDR-LVT recebeu, entre

outros, a visita do Ministro das Finanças,

Teixeira dos Santos, e do secretário de

Estado da Administração Pública, Gonçalo

Castilho dos Santos, que participaram

no congresso.

O congresso deste ano teve como tema

geral «Estado e Administração na resposta

à crise», cabendo dentro deste tema

a análise e a consolidação das grandes

alterações legislativas em curso, em

contexto de crise financeira e económica. ■

EuroLifeNet

debate qualidade

do ar

A CCDR-LVT associou-se à III Conferência

Internacional do projecto EuroLifeNet,

«Personal exposure to air pollutants:

Research, Policies and Awareness through

participatory science and education»,

que se realizou entre 13 e 14 de Novembro

no Instituto Superior de Ciências Sociais

e Políticas, em Lisboa.

Esta conferência, que contou com a

parceria da CCDR-LVT, teve como objectivos

rever o estado da arte em matéria de

avaliação da exposição pessoal à poluição

atmosférica (situação presente, metodologias,

desafios, oportunidades e perspectivas),

bem como o seu papel em

programas de educação e sensibilização,

no apoio à investigação e na implementação

de políticas públicas.

O evento contou com a participação de

especialistas e organizações, nacionais,

europeias e internacionais, na área da

qualidade do ar. Foram alvos preferenciais

da conferência a comunidade científica,

técnicos da administração e professores,

especialmente do ensino secundário.

A iniciativa foi co-organizada pelo CITIDEP

- Centro de Investigação de Tecnologias

de Informação para uma Democracia

Participativa – e pelo IES-JRC-UE – Instituto

de Ambiente e Sustentabilidade,

.com diversas parcerias institucionais.

Para mais informações ver: http://www.

citidep.pt/eurolifenet/elnconf09p.html ■

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Open Days em Bruxelas

Inovação Social para um crescimento

sustentável

A inovação e criatividade social foram

os temas que a CCDR-LVT levou aos Open

Days 2009, que decorreram em Outubro

em Bruxelas. Da estratégia aprovada em

2001 ao Tratado na altura prestes a ser

ratificado, do debate organizado em

Bruxelas emergiu o consenso de que

o pós 2010 não poderá ser como dantes.

«Os tempos que aí vêm não serão fáceis.

Estamos perante o desafio de criar empregos

num contexto de um longo período

de lento crescimento económico», advertiu

Manuel Laranja, representante da

Coordenação da Estratégia de Lisboa

e do Plano Tecnológico, o keynote speaker

do encontro promovido na representação

de Portugal (REPER).

A recessão económica e o impacto das

alterações climáticas no sistema económico

percorreram o debate como problemas

de fundo que condicionam a coesão social.

Haroon Saad, o moderador e director da

organização europeia «Quartiers en Crise»,

interrogou se será uma missão possível

atingir um crescimento económico

.sustentável.

O debate na REPER contou com a participação

de representantes das diversas

regiões que integraram a rede liderada

por Lisboa, a «Rede para o Crescimento

Económico Criativo e Inclusivo», integrada

por Gloucestershire, Merseyside (Reino

Unido), País Basco (Espanha), Açores

(Portugal), NASC Ireland West Partnership

(Irlanda), Malta, Abruzzo (Itália) e a

Zelândia (Holanda).

Participaram igualmente nas actividades

da CCDR em Bruxelas o Chapitô e a Alta

Comissária para a Imigração e Diálogo

Intercultural, Rosário Farmhouse.

A par do debate na REPER, a CCDR-LVT

organizou uma recepção na livraria Orfeu,

com a participação de um grupo de jovens

músicos de Bruxelas e do Chapitô.

Participou ainda num debate no âmbito

da iniciativa «Open Days Off», promovida

pela Quartiers en Crise no dia 6 de

Outubro no Centro Cultural Flamengo.

Momento alto da participação da CCDR-

LVT nos Open Days 2009 foi a actuação

da Orquestra “Geração” junto à Comissão

Europeia, no dia 6 (ver reportagem nesta

edição).

Em Lisboa, a CCDR-LVT promoveu como

evento local dos Open Days um debate

sobre «Boas Práticas na Inovação Social»,

a 30 de Outubro. Luís María Ulibarri,

da agência Innobasque, foi o convidado

para debater com os responsáveis dos

projectos e organizações da região as

políticas e perpectivas futuras nesta área,

num encontro que contou com a moderação

de Jorge Miranda, da Câmara Municipal

da Amadora. ■

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POR Lisboa

JMFigueiredo

Sessão pública de

divulgação

POR Lisboa faz

balanço de dois

anos

O balanço de dois anos de execução do

Programa Operacional Regional de Lisboa

(POR Lisboa) foi apresentado no dia 10 de

Dezembro, no Museu Arpad Szenes – Vieira

da Silva (Jardim das Amoreiras, em Lisboa).

A iniciativa, promovida pela Comissão

Directiva do POR Lisboa, contou com

a participação do Observatório do QREN.

A verba total atribuída ao POR Lisboa até

2013 é de 307 milhões de euros de FEDER,

dos quais 177 milhões de euros estão já

aprovados, o que corresponde a uma taxa

de execução de 58% (dados reportados a 30

de Novembro de 2009).

Do montante aprovado, cerca de 82 milhões

de euros foram atribuídos no Eixo 1 –

Competitividade, Inovação e Conhecimento

– a 242 candidaturas, fundamentalmente

nas tipologias de Sistemas de Incentivos

à I&D, Qualificação e Internacionalização

de PME e Modernização Administrativa.

de incentivo FEDER. No Eixo 4 – Assistência

Técnica foram atribuídos 3,3 milhões

de euros de FEDER.

No Eixo 2 o montante foi atribuído

.sobretudo a Operações Integradas de

Regeneração Urbana - Frentes Ribeirinhas

e Marítimas, Acções de Valorização do

Litoral e projectos de Mobilidade Territorial.

No Eixo 3 foram as Operações integradas

de regeneração – bairros críticos e centros

históricos, assim como a Requalificação

da Rede Escolar do 1.º ciclo e educação

pré‐escolar, que concentraram a maior

parte do montante de FEDER atribuído. ■

Ao Eixo 2 – Sustentabilidade Territorial

e 3 – Coesão Social foram atribuídos

respectivamente 26 e 65 milhões de euros

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www.porlisboa.qren.pt

Aprovados

programas de

acção para cinco

bairros críticos

Odivelas, Moita, Lisboa, Setúbal e Barreiro

são os municípios que viram aprovadas

assuas candidaturas para requalificação

de bairros críticos em Agosto deste ano.

Ao todo são mais de 16,5 milhões de euros

de investimento FEDER, para um investimento

total elegível que ultrapassa os 36 milhões.

As candidaturas visam a requalificação

de cinco bairros ou zonas urbanas situadas

nas duas margens do Tejo, que cresceram

com a imigração e a expansão urbana para

as periferias de Lisboa e se têm vindo

a degradar nas últimas décadas. A criação

de novos equipamentos colectivos e espaços

públicos, o incentivo ao empreendedorismo

e a novas actividades económicas, assim

como a valorização da sustentabilidade

ambiental e da diversidade cultural,

.são características fundamentais dos

programas de acção que se estão a iniciar

no terreno. ■

Luís Humberto Teixeira

QCA III

Reunião

de encerramento

na Nazaré

A Comissão de Acompanhamento

.do Programa Operacional da Região de

Lisboa e Vale do Tejo (PORLVT, 2000-2006)

reúne-se pela última vez a 28 de Janeiro

na Nazaré, para aprovar o relatório final

do programa, cuja execução encerrou

em 2009.

Além da reunião para discussão dos

resultados de execução do programa, que

vigorou durante o III Quadro Comunitário

de Apoio (QCA III), serão ainda visitados

alguns projectos do concelho que contaram

com apoio dos fundos comunitários

durante este período, no âmbito do

PORLVT. ■

Mafra e Sesimbra qualificam litoral

A Comissão Directiva do Programa

Operacional Regional de Lisboa aprovou

a 25 de Setembro duas candidaturas no

âmbito do concurso «Acções de Valorização

do Litoral». O investimento total envolvido

nestes projectos ultrapassa os 4,4 milhões

de euros. No conjunto recebem cerca

de 2,2 milhões de euros de incentivo FEDER

(Fundo Europeu de Desenvolvimento

Regional). ■

A Câmara Municipal de Mafra viu assim

aprovado o apoio comunitário para o Plano

de Pormenor de Ribeira de Ilhas, no valor

de cerca de 1,1 milhões de euros, e a Câmara

Municipal de Sesimbra avança com

a Protecção e Valorização da Margem Sul

da Lagoa de Albufeira, com um incentivo

FEDER de 1,05 milhões de euros. ■

Câmara Municipal de Sesimbra

Câmara Municipal de Mafra

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Mudar de agulha

O sistema de transportes da área metropolitana de Lisboa tem melhorado

a olhos vistos, mas o ganho correspondente em termos de diminuição

da circulação automóvel tarda em chegar. Claramente, não basta investir

em transportes públicos e melhorá-los: é preciso onerar e/ou dificultar o uso

do carro. Até para que quem nunca os viu ou já não os conhece seja

apresentado aos novos transportes públicos.

Opinião | Fernanda Câncio

Fotografia | ca, produções fotográficas

Não nasci em Lisboa e até aos 20 anos vivi perto,

mas suficientemente longe para sentir que «ir a

Lisboa» era um acontecimento. Lisboa era onde

tudo sucedia: consultas, compras, diversão e, para

os crescidos, estudo e trabalho. Habituei-me

a pensar em Lisboa como um devir, um lugar futuro, de futuro.

Um lugar grande e a cheirar a queimado (Lisboa cheirava-me

sempre a queimado, ainda hoje estou para perceber se era de

tanto carro ou de alguma indústria entretanto desaparecida que

o meu narizito de criança estranhava) de ruas grandes e pessoas,

muitas pessoas, todas desconhecidas. Um lugar onde me podia

perder e onde me sentia estrangeira, com regras diferentes da

terra pequena na qual com cinco anos já ia para a escola sozinha,

cumprimentando pelo caminho conhecidos e familiares, com

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a minha mãe na varanda a indicar-me quando e como atravessar

a rua principal, a única com trânsito de monta e perigo condizente,

e onde durante escola primária, preparatória e liceu andei sempre

a pé (a oferta de transportes públicos era quase inexistente e a

carrinha que levava os liceais à escola, conhecida, e por boas razões,

como «a choca», morreu de velha e sem substituta antes de eu

chegar ao 10º ano).

Para Lisboa, porém, não se podia ir a pé. E a distância de 30 quilómetros,

rapidamente feita de carro com os meus pais, era um

martírio em transportes públicos. Quando comecei a fazê-la sozinha

ia geralmente de comboio, quer fosse para as aulas, para o cinema

ou para me encontrar com amigos. Havia comboios rápidos que

galgavam o percurso em meia hora ou 25 minutos, mas os que

paravam em todas, os «tranvia», chegavam a demorar uma hora.

A periodicidade era escassa, a pontualidade nula e perder um

comboio podia significar esperar uma hora na estação, uma espécie

de túnel de vento com bancos de cimento onde nos dias de chuva

não havia abrigo. A informação sobre eventuais atrasos tinha de

ser requerida nas bilheteiras ou no próprio gabinete do chefe da

estação, invariavelmente forrado de calendários de loiras «descascadas»

e onde uns homens de trato desabrido achavam um piadão

a mandar as pessoas de volta sem ideia de quanto tempo tinham

de esperar (quiçá porque eles próprios não sabiam). Não raro,

as viagens, sobretudo de manhã (entre as 6 e as 8) eram feitas

de pé, em ambiente de sardinhas em lata, no meio de gente mal

disposta que vinha de mais longe e que começava o dia de trabalho

assim, a viajar mais de uma hora de pé e apertada. Os comboios

propriamente ditos eram desconfortáveis, feios e de climatização

deficiente. Não raro as janelas – e até as portas – não fechavam.

A limpeza não era famosa e os bancos, de napa verde, tinham um

aspecto pardacento. A principal estação lisboeta, Santa Apolónia,

era uma espécie de casão inóspito e gélido onde tudo o que visava

acolher os viajantes, dos bancos aos sanitários, a passar pelo café,

parecia pensado para os repelir e maltratar. O «interface» de

Santa Apolónia, a dois quilómetros ou menos do Terreiro do Paço,

era umas paragens de autocarro e uma praça de táxis junto

ao edifício, durante anos descobertas e às quais se chegava, em

dias de intempérie, à chuva e ao vento. O metro só chegou no

século xxi e ainda assim no fim da primeira década.

Todo o sistema de transportes públicos pareceu, durante todo

o tempo em que dele dependi para viajar para e da capital, pensado

para encorajar o uso do automóvel ou, em alternativa, castigar

quem se tinha de deslocar. Não admira, pois, que todos os que ao

longo dos anos foram conseguindo libertar-se desse martírio

através da compra de um carro o tenham feito. Eu própria, que

nunca cheguei a tirar a carta, passei à vontade 10 anos sem entrar

em Santa Apolónia ou apanhar um comboio para a vila onde

nasci e que entretanto recebeu foral de cidade – tal a embirração

que guardei ao sítio. Fi-lo recentemente e tive dificuldade em

reconhecer a estação onde passei tantas horas desconsoladas

e indignadas, com frio, fome e a sensação de viver na Alemanha

de Leste. Agora tem salas de espera abrigadas, estabelecimentos

vários e até – pasme-se, eu pasmei – um supermercado (ideia

luminosa: a caminho de casa, as pessoas podem fazer as compras

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.passados num sistema de transportes desenhado para fazer

sofrer tenha afastado os mais velhos (como eu) mas é com dificuldade

que compreendo que as novas gerações não adiram aos

novos meios, convertidos a uma lógica aprazível que visa minimizar

agruras e – não despiciendo – custos.

para o jantar ou para a semana, meterem-se com elas no comboio

e zás, ei-las com metade dos problemas resolvidos). Os comboios

são confortáveis, climatizados e têm muito mais lugares sentados

(ou pelo menos parecem ter) e o interface funciona como

deve ser, com a entrada e saída do metro dentro da estação e com

os bilhetes de metro e autocarro a servirem também para os comboios,

embora numa modalidade algo esotérica que ainda não

consegui decifrar e que tem como resultado que, por exemplo,

se uma pessoa tiver carregado o bilhete com viagens de metro

ele não aceita viagens de comboio (foi o que, explicou o senhor

da bilheteira, sucedeu com o meu bilhete), o que quer dizer que

na verdade o bilhete não é multi-modal de verdade, mas só em

teoria. Ao viajar num desses comboios, cujo horário consultei na

net, constatei que tudo me parecia não só muito mais fácil como

muito mais próximo do que aquilo que recordava. Que a distância

parecia ter diminuído e os limites da cidade que agora é minha

pareciam incluir já a terra onde nasci – não porque os 30 quilómetros

se tenham reduzido, mas pela forma como a articulação

do percurso com as necessidades dos que o percorrem parece

agora algo que se procura, que se deseja (impressionante o poder

simbólico da amabilidade).

Santa Apolónia deixou de ser há muito a principal estação de

comboios de Lisboa (agora é a monumental e, diga-se, muito

inóspita e confusa Gare do Oriente a ocupar o posto) e não faço

ideia de qual é o nível de tráfego em termos de passageiros que

serve. Mas a ideia que resulta das notícias sobre o transporte

.ferroviário e da visão de estradas e ruas cada vez mais atulhadas

é que este não tem logrado «roubar» clientes aos automóveis.

Porquê? Compreendo que a recordação de maus momentos

Certo é, porém, que apesar de um sistema de metropolitano que

finalmente começa a fazer sentido e a estender-se para as zonas

de desenvolvimento da cidade – vulgo suburbanas –, unindo-se

ao sistema ferroviário, e de o próprio sistema ferroviário ter superado

o desencontro entre a linha da Azambuja ou do Norte e a de

Sintra/Cascais, chegando também à margem sul, o número de carros

em circulação em Lisboa, carros que na sua maior parte vêm das

zonas limítrofes do concelho ou de fora dele, não tem diminuído.

Noutros países da Europa, incluindo países onde as condições

meteorológicas são bem mais árduas a maior parte do ano, a utilização

do carro tem vindo a descer paulatinamente. Muita gente

não tem sequer carro – e isto sucede em cidades onde o nível

de vida é muito superior ao de Lisboa – optando por transportes

públicos e bicicleta ou moto. Esquemas inovadores de propriedade

de automóveis têm vindo a desenvolver-se, com a criação de clubes

em que se paga uma jóia e se pode «alugar» um carro através

da internet, por valores bastante razoáveis e para um período

de tempo que pode ir de algumas horas a semanas, com o mínimo

de maçada e zero de papelada: cada membro do clube tem um

cartão, paga no multibanco o valor correspondente ao aluguer

depois de escolher o tempo e modalidade do aluguer e o sítio

onde vai buscar o carro (os ditos estão na rua, espalhados na cidade)

e abre-o com o cartão. No fim do uso, coloca o carro, que foi entregue

com o depósito cheio (o combustível não é pago pelo cliente)

no mesmo sítio. É ter um carro sem se preocupar com o seguro,

a revisão, o lugar para o arrumar; é menos um peso no orçamento

global, e decerto muito menos preocupações. Uma ideia brilhante

que em Londres, por exemplo, prospera. Por que não cá? Cá existe

o Mob Carsharing da Carris (www.mobcarsharing.pt), um sistema

lançado em 2008 com 12 veículos e a promessa de aumento da

frota face à procura (até Janeiro de 2010 a frota mantinha-se –

segundo a Carris, tem havido uma média de 20 adesões/mês,

sobretudo de pequenas e médias empresas, num total de 150

membros do clube, sendo dois terços indivíduos e um terço

empresas). Apesar de o sistema oferecer, por exemplo para alugueres

de fim-de-semana, condições muito mais atractivas que

as vulgares empresas de rent-a-car (até porque o combustível

é por conta da carris), certo é que a maioria das pessoas nunca ouviu

falar do sistema – por exemplo, nunca me colocaram um papelinho

na caixa do correio ou me enviaram um mail a propor a adesão

– e não é notório que esta iniciativa, tendente a reduzir a propriedade

individual de automóveis e o seu uso a não ser em caso de

real necessidade se afirme um sucesso. Pelo contrário. Em vez

disso, passo na alameda da universidade clássica ou em qualquer

instituto superior e vejo um tsunami de carros espalhados por

ruas, passeios, descampados. Toda a gente vai de carro para a faculdade

– há 26 anos, ninguém tinha carro numa faculdade inteira,

a da Nova, na Avenida de Berna, que frequentei. Ninguém – e havia

mais quem viesse de longe, como eu. E ir de carro para a faculdade

significa, as mais das vezes, que o carro é do estudante, sendo certo

que alguém mais lá em casa terá carro – senão mesmo vários

alguéns.

Que sucedeu entretanto, desde que saí da faculdade, em meados

dos anos 80? Os transportes públicos ficaram melhores, mais

14 |


ápidos, mais eficientes e mais coordenados; o preço do petróleo

subiu, subiu e tornou a subir e os alertas sobre o seu fim provável

e a poluição e efeito de estufa são cada vez menos fáceis de ignorar

(com toda a gente a lamentar muito o não acordo de Copenhaga

mas secreta e inconscientemente feliz por poder culpar os decisores

«lá de cima», e não a si própria, das catástrofes que hão-de vir

e das que já cá andam) e, não despiciendo, vive-se há dois anos

uma crise económica gravíssima.

Mas no tráfego na cidade nada disso se nota e de cada vez que se

fala em restringir a circulação em certas zonas ou onerar a entrada

no centro e apertar a fiscalização do estacionamento ilegal

há protestos e até ameaças de processos em tribunal. Aquilo que

na generalidade das cidades europeias é um dado adquirido –

o desincentivo ao uso do automóvel nas zonas centrais, operado

de muitas formas (a começar por uma efectiva e rigorosa limitação

do estacionamento, coisa aparentemente simples de operar mas

que Lisboa não consegue fazer) e de um modo geral bem aceite

pelas pessoas, em Portugal parece uma miragem. O «estender»

da cidade de Lisboa muito para além das suas fronteiras de há 40

anos e o facto de hoje se assistir a um contínuo urbano que inclui

aquilo que antes eram povoações com personalidade própria,

assim como o facto de muita gente preferir – seja por motivos

económicos, estéticos ou outros – viver fora do centro «velho» tem

vindo a acrescentar de forma intolerável o fluxo de carros que

entram diariamente na cidade. O carro transformado num prolongamento

do indivíduo, num bem de primeira necessidade, é um

fenómeno, que se não for especificamente português no contexto

europeu ocidental, para lá caminha. As desculpas do costume

– o sistema de transportes públicos não presta, blábláblá – são na

sua esmagadora maioria isso mesmo: desculpas. Há zonas muito

mal servidas de transportes públicos, é certo (caso de Carnaxide,

por exemplo) e troços de estrada em que não se entende a inexistência,

para começar, de uma faixa bus. Mas de um modo geral

a evolução dos transportes públicos nos últimos 15 anos tem sido

muito positiva e está a anos luz do que havia antes (e do martírio

a que eram submetidos os passageiros, tratados como «utentes»

de um sistema cuja lógica nunca passava por servir clientes mas

sim a si próprio, transformando-os em súbditos de regras absurdas).

Resta o resto: fazer com que as pessoas percebam que não

podem levar o carro para o centro da cidade por dá cá aquela

palha. Que isso tem custos para todos e que não é justo que todos

os paguem. Que ter carro e andar de carro e metê-lo em todo

o lado não é um direito «natural» e inalienável. E que fazer sentir

isso também é uma forma de tornar atractivo viver no centro da

cidade, mesmo em prédio «velhos», mesmo em prédios sem elevador

nem arrecadação nem garagem, mesmo em prédios sem

chão de mármore ou de tijoleira e essas coisas que fazem – sim,

não se trata apenas, diria mesmo que não se trata sobretudo, de

uma opção financeira – muitos torcer o nariz ao centro. Porque se

está tudo mal – no ordenamento, no urbanismo, no desenvolvimento

– há muito tempo, não é por isso que temos de continuar

a repetir os mesmos erros, a seguir na mesma direcção que sabemos

má, só porque foi seguida e porque as suas consequências

estão à frente do nariz. É preciso mudar. É preciso virar, mudar

a agulha, entrar noutro carril. Sim, é preciso vontade política.

E um rumo político, antes ainda da coragem de o propor e concretizar.

É preciso alguém que pense mesmo nestas coisas e que não

se limite a gerir o que existe, a encolher os ombros ao fado, a acomodar-se

aos erros dos outros, de todos. Tarda muito? ■

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16 |


O meu optimismo

é fruto do realismo

Humberto Rosa

Secretário de Estado do Ambiente

No rescaldo da Cimeira de Copenhaga, o secretário de Estado do Ambiente,

Humberto Rosa, faz um balanço das razões que conduziram ao acordo alcançado,

aponta as complexidades de que se revestiram as negociações, enquadra a presença

de Portugal no contexto global das políticas do ambiente e das energias renováveis.

E faz um ponto da situação da aplicação dos instrumentos saídos de Quioto

e dos avanços que o país tem realizado, levando-o a conquistar um lugar de destaque

no ranking dos países desenvolvidos.

Entrevista | Luís de Carvalho

Fotografia | ca, produções fotográficas

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Já se sabia, antes de

Copenhaga, que o máximo

que se podia almejar

era um acordo político,

vinculativo, que estabelecesse

os passos para

o tratado a obter em 2010.

Nem isto se alcançou,

de facto. E é nesse sentido

que Copenhaga

é decepcionante.

De Bali a Copenhaga foram criadas grandes expectativas.

Durante a Conferência de Copenhaga as expectativas foram-se

desvanecendo. Na sua opinião, o que se passou entretanto?

Mesmo perante os sucessos em Bali – e era muito difícil obtê-lo

na altura –, os dois anos iam ser curtos. Porque com a experiência

acumulada nas negociações internacionais, sabe-se bem a complexidade

do sistema das Nações Unidas, em que se avança por

consenso, e que se leva muito tempo a negociar. Foi claro, ao longo

dos dois anos, que as negociações não estavam a andar a um

ritmo suficiente para, pelo menos, se alcançar um tratado jurídico

pronto a ser assinado. Já se sabia, antes de Copenhaga, que

o máximo que se podia almejar – e já seria bastante bom –, era

um acordo político, vinculativo, que estabelecesse os passos para

o tratado a obter em 2010. Nem isto se alcançou, de facto. E é nesse

sentido que Copenhaga é decepcionante. Mas Copenhaga traz

algumas lições que têm algum potencial. A primeira lição para

mim surpreendente, de alguma forma, é esta: nem mesmo juntando

mais de cem chefes de Estado e de Governo se garante

o sucesso de uma Cimeira. Isto foi inédito. Por outro lado, é preciso

ver o seguinte, Copenhaga obteve um acordo que foi produzido

por alguns países, e que é anotado pelo plenário da Conferência.

Mas não deixa de ser um acordo! Quando se tem cem chefes de

Estado e de Governo, ainda se consegue um acordo. E, por outro

lado, é decepcionante, porque não tem o nível de ambição e clareza

numérica que era expectável, mas também não devemos

deixar-nos enganar numa coisa – o não haver qualquer tipo

de acordo era seguramente pior. O que quer dizer que este Acordo

18 |


de Copenhaga abre algumas portas relevantes. Se olharmos para

o antes e o depois, o que é que hoje temos de diferente, que não

tínhamos em Bali?

Hoje há muitos países que não tinham metas, nem falavam de

objectivos numéricos de redução de emissões ou desvio de emissões,

que as têm hoje. A China tem, o Brasil, a Indonésia, a Coreia

do Sul, o México, os próprios Estados Unidos; o Japão tem metas

reforçadas.

Houve aqui um movimento de metas de índole nacional que

foram sendo trazidas para a cena internacional, que não estão

ainda verdadeiramente amarradas por um acordo juridicamente

vinculativo. Portanto, temos de aproveitar a oportunidade magra

que o Acordo de Copenhaga nos dá para trabalhar no sentido de

quando chegarmos à Cidade do México, em Novembro do ano

que vem, não termos um insucesso, mas um sucesso.

uma pujança maior do que alguns dos países hoje classificados

como desenvolvidos, e outros que são verdadeiramente países

pobres. Portanto, a verdadeira partilha justa, em termos climáticos,

vai precisar que esta lógica seja alterada nalgum momento.

E há ainda aqueles que batalham por a manter. Este é um primeiro

factor de obstáculo. Um segundo factor de obstáculo, são

aqueles que são renitentes por visão própria a que se resolva

.o assunto a partir de um tratado internacional e que querem

antes resolver o assunto através de medidas nacionais que são

trazidas à cena internacional. E estes dois modelos também conflituam.

Houve ainda um outro cenário que é inescapável, e que

se prende com a própria condução da cimeira, que não foi exemplar.

A cimeira, enquanto cimeira, não teve do meu ponto de vista

uma condução inteiramente bem conseguida, o que também não

ajudou. Estes são os factores de dificuldade que encontrámos.

Acha que, entretanto, o que dividiu os países foram questões

essencialmente políticas ou, sobretudo, questões de modelo

de desenvolvimento e modelos de financiamento também?

Acho que há uma questão de política de fundo, mais ou menos

pouco assumida. Alguns países batalham mais do que pelo clima,

batalham por um certo modelo organizativo do mundo que está,

do meu ponto de vista, ultrapassado – que é o modelo de país

desenvolvido, país em desenvolvimento. E porquê? Não é que não

haja diferenças óbvias, como há, entre países desenvolvidos e países

em desenvolvimento. Nem todos os países em desenvolvimento

são a mesma coisa. Há uns que são economias emergentes, com

Na sua opinião, a partir de agora e até Novembro, no México,

que passos fundamentais vão ser necessários? Portugal vai

agora, em Janeiro ou Fevereiro, inscrever os seus objectivos

e propósitos, juntamente com os outros países que assinam

este Acordo. Na perspectiva portuguesa, que passos têm de ser

dados?

Os objectivos portugueses estão integrados no objectivo conjunto

da União Europeia, que são muito claros desde a primeira hora.

E,aliás, devo reafirmar que a UE é, foi e continua a ser a liderante

em questões climáticas e a razão pela qual não esteve na linha

da frente da redacção do Acordo é precisamente porque os que

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Quando a UE se propunha ainda a fazer mais,

pediam‐lhe que não fizesse tanto. Nesse sentido

acho que a UE vai certamente inscrever no Acordo

de Copenhaga os seus objectivos já conhecidos

– 30% de redução de emissões desde que outros

países façam um esforço equiparável – e já tem

compromissos de financiamento rápido,

nomeadamente 2010-2012, consubstanciados.

o queriam redigir tinham objectivos menos ambiciosos do que

a UE. Quando a UE se propunha ainda a fazer mais, pediam-lhe

que não fizesse tanto. Nesse sentido acho que a UE vai certamente

inscrever no Acordo de Copenhaga os seus objectivos já conhecidos

– 30% de redução de emissões desde que outros países

façam um esforço equiparável – e já tem compromissos de financiamento

rápido, nomeadamente 2010-2012, consubstanciados.

O que é que além disso deve fazer a UE, e Portugal dentro dela,

no meu ponto de vista? Primeiro, acho que devemos jogar em

vários tabuleiros. Claramente, o nosso tabuleiro número um é

– Nações Unidas, no multilateralismo. Não há alternativa, por

muito complexo que seja o cenário das Nações Unidas. Nós não

devemos ficar amarrados só a esse tabuleiro. Porque existem

outros sub-tabuleiros, digamos assim, onde teremos parceiros

de boa vontade querendo medidas activas em clima. E, desde

logo, há uma linha que me parece de aprofundar o mais possível,

que é o dinheiro europeu para financiamento rápido, que deve de

facto ser canalizado, e depressa, para o apoio aos países menos

desenvolvidos. Não é para todos os países em desenvolvimento,

é para aqueles que efectivamente precisam dele e que precisam

de se desenvolver de uma forma limpa. Nós temos o dinheiro,

temos a tecnologia, temos a vontade, temos a vizinhança, se pensarmos

em África, por exemplo, e essa é uma linha, desde logo,

que penso que a UE não deve abandonar.

E depois devemos estar atentos às potencialidades de conversão,

por exemplo, com os Estados Unidos. Se os Estados Unidos aprovarem

legislação de comércio de emissões, o potencial de ligar

formalmente o comércio de emissões americano com o comércio de

emissões europeu, cria-se um mercado de emissões mais robusto

e mais total, e há uma convergência possível aí. E assim como com

outras configurações, como o G-20, o Major Economies Fórum,

herdeiro do Major Economies Meeting, lançado pela anterior

administração americana, e que reúne os maiores emissores.

Todos esses são tabuleiros onde devemos procurar, como procuramos,

influência e boa conversão.

E em relação à colaboração estreita entre Portugal e os Palop,

sei que esteve reunido com alguns destes países,

em Copenhaga. Que estratégias foram definidas ou estão

a ser discutidas ? E que mecanismos vão ser implementados

para a questão do financiamento e para o bom cumprimento

do financiamento?

A própria ministra teve uma reunião com os países da CPLP em

Copenhaga, e o próprio Primeiro-ministro solicitou, e assim a tivemos,

uma reunião com os ministros do Ambiente da CPLP, e dos

Palop em particular, que estavam presentes em Copenhaga.

E a mensagem dele foi muito clara – Portugal tem compromissos

de financiamento rápido no contexto da UE, Portugal é hoje um

líder reconhecido em energias renováveis e em tecnologia para

o efeito, temos os meios, a capacidade e a vontade de colaborar,

em particular com os Palop, para esse objectivo. Dito de outra

maneira, vamos procurar que as verbas que Portugal assumiu

para esse financiamento rápido 2010-1011, que serão reforço

da cooperação, sejam canalizadas muito em particular para o

desenvolvimento das energias renováveis e eficiência energética

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Temos um per capita

de CO2 particularmente

baixo, dos mais baixos

na UE – 15% naquela

altura. Isto significa

simplesmente que o ano

base de 1990, é o ano

em que o nosso nível

de desenvolvimento era

muito baixo, comparado

com os nossos parceiros

comunitários. E por isso

não é de estranhar que

desde 1997/98, quando

o Protocolo de Quioto

é firmado, tenha havido

um acréscimo

de emissões.

em países em que, por não haver até uma rede eléctrica infraestruturada,

a energia renovável pode ser descentralizada e levada

onde seja necessária.

Apesar dos esforços já realizados na emissão de gases de efeito

de estufa, ainda estamos acima em cerca de 40% dos valores de

1990. O que é que o Governo está a pensar fazer nesta matéria?

Não estamos acima em 40%. Vamos por partes. O primeiro ponto

é que, quando o Protocolo de Quioto é aprovado, Portugal fica na

posição de país desenvolvido e ao qual é permitido a maior subida

percentual – 27% – em relação a 1990. Mas a verdade é que se este

número for olhado em termos do nosso esforço por habitante,

houve esforços maiores dentro da UE. Temos um per capita de CO2

particularmente baixo, dos mais baixos na UE – 15% naquela

altura. Isto significa simplesmente que o ano base de 1990, é o

ano em que o nosso nível de desenvolvimento era muito baixo,

comparado com os nossos parceiros comunitários. E por isso não

é de estranhar que desde 1997/98, quando o Protocolo de Quioto

é firmado, tenha havido um acréscimo de emissões. As pessoas

compraram mais carros, aqueceram as casas, etc. Esta é a primeira

parte da história. A segunda parte da história, é olhar em

concreto para o volume das nossas emissões. Em 2005, tínhamos 21

pontos acima da nossa meta de Quioto. Quando chegámos ao

Governo estávamos com 21 pontos. Em 2006, tínhamos 14 pontos

acima da nossa meta de Quioto. Em 2007, tínhamos 9 pontos

acima. Para 2008, teremos pouco mais de 5 pontos acima da

22 |


nossa meta de Quioto. Isto é uma tendência clara de redução

de emissões; alguns dirão que a crise económica também ajudou;

é um facto. Mas ela não estava aí em 2006 ou 2007, veio mais

tarde. Como não podemos iludir o efeito da crise económica nos

números mais recentes, não podemos iludir o efeito das medidas

e políticas que temos adoptado, mormente em energias renováveis,

imposto automóvel, etc. Vê-se que têm tido efeito em reduzir

emissões. Tudo ponderado, o que é que temos hoje? Temos um

défice de carbono muito menor do que teríamos sem as medidas

que adoptámos, e prevemos que ao longo do período de cumprimento,

que vai até 2012, vai sempre haver um défice, de facto. Por

uma razão muito simples – temos uma reserva para dar a novos

entrantes no comércio de licenças de emissão. Essa reserva vamos

utilizar. Mas temos de contar com o manter-se um défice que

pode, e será, suprido por um método totalmente legítimo de

cumprir Quioto. Talvez a falácia na visão do assunto seja dizer –

como estamos acima da meta, não vamos cumprir Quioto. Isto é

falso. Porque Quioto diz explicitamente que há mecanismos de

flexibilidade, que se chamam mesmo de Quioto, com os quais se

pode cumprir. Para isso temos um fundo português de carbono

que pode, por investimentos em desenvolvimento limpo, obter

créditos de redução para Portugal que suprem esse défice. Está

inteiramente ao nosso alcance, tanto como dissemos desde a primeira

hora, cumpriremos Quioto, Portugal cumpre com as suas

obrigações internacionais. Agora ainda com muito mais propriedade,

porque o défice é muito menor do que aquele que encontrámos.

E que outras medidas serão tomadas, nomeadamente no sector

dos transportes, e em que áreas de serviços?

O Ministério do Ambiente tem sempre este papel de ser o maestro,

mas os instrumentos e as políticas são sectoriais, salvo em resíduos,

que são nossas. E, portanto, não me cabe a mim estar a dizer

quais são as medidas nos transportes, na agricultura, que serão

tomadas. No entanto, o que lhe posso dizer é que temos um sistema

montado de monitorização regular do Programa Nacional

de Operações Climáticas, que nos permite ver, medida a medida,

das quarenta e tal medidas, quais estão atrasadas, quais estão

adiantadas, quais estão a cumprir como devem. E há também

a obrigação associada, quando uma medida se atrasa ou tenha

de ser abandonada, porque entretanto o figurino sectorial mudou,

de se adoptar uma nova medida, um plano de contigência mais

vasto. O nosso grande objectivo daqui até 2012 é o de um acompanhamento

mais estrito ainda do PNAC, e a adopção de planos

de contigência para o efeito, em que vários ministérios já estão

a trabalhar – o dos Transportes é um dos exemplos.

Mesmo com estes impasses, qual é o balanço que faz

da participação portuguesa quer em Quioto, quer, agora,

em Copenhaga, e qual é a expectativa que tem em relação

ao encontro no México ?

Quanto a Quioto, primeiro. Eu acho que para Portugal, o facto

de ter metas de redução de emissões de Quioto é, por um lado,

| 23


O mundo não tem

alternativa. Não há outro

planeta, não há outra

atmosfera, o problema

é real, está-se a agudizar.

Tenho a certeza absoluta

que a Humanidade se

saberá organizar no sentido

de gerir o planeta.

um constrangimento, mas por outro, um motor. Um verdadeiro

motor de inovação, energia limpa, de desenvolvimento sustentável.

E basta ver isto: a actual política energética que temos,

em que houve um reforço incrível da energia renovável – estamos

a caminho de 45% de electricidade renovável em 2010, que poucos

países no mundo têm –, e esta politica não existiria sem as metas

de Quioto. Ela é filha da política climática. A política energética

é hoje filha da política climática. E nesse sentido acho que se tornou

uma bênção relativa para Portugal ter metas exigentes de redução

de emissões, porque obriga a políticas avançadas. No ranking

dos países desenvolvidos, em termos de políticas climáticas,

em Bali ficámos em 15º lugar, em mais de cinquenta países; agora

subimos para 12º. Isso só quer dizer que as nossas políticas, energéticas,

climáticas, fiscais e outras, são avançadas.

Quanto a Copenhaga, tenho de começar por Bali. Refiro o facto,

reconhecido internacionalmente, de por termos estado na presidência

da UE, e por termos, a meu ver, conduzido bem essa presidência,

termos ajudado objectivamente ao sucesso em Bali. Houve

ingredientes na resolução do processo negocial, que foram por

estímulo português no contexto da presidência da União Europeia.

Isso foi reconhecido quer dentro da UE, quer fora. Esse facto,

e também por termos uma invejável equipa negocial de peritos

portugueses experientes, que acompanham o clima há muito

tempo, faz-nos um parceiro com relativa relevância no contexto

da UE. E temos relações muito bem oleadas com os países da CPLP,

por um lado, e com os países latino-americanos, em colaboração

com Espanha, em termos de alterações climáticas. Digamos que,

sendo nós apenas um dos 27 Estados-membros, possuímos algum

potencial de influência que temos usado, quer dentro da UE, quer

fora dela. E que vamos continuar a tentar usar na Cidade do México,

nomeadamente nas linhas que apontei, de que o financiamento

rápido europeu possa ajudar a forjar alianças que puxem para

a frente um acordo de sucesso.

O seu discurso é optimista. Será esse o espírito que preside

a todos os países?

Sabe, o meu optimismo é fruto do realismo. É optimismo por um

lado, e não é optimismo, por outro. O optimismo vem de quê?

É que não há alternativa. O mundo não tem alternativa. Não há

outro planeta, não há outra atmosfera, o problema é real, está-se

a agudizar. Tenho a certeza absoluta que a Humanidade se saberá

organizar no sentido de gerir o planeta. É o nosso caminho inescapável

estarmos organizados de uma forma global, para melhor

gestão do planeta, seja a sua atmosfera, a sua biodiversidade, etc.

A parte não optimista é que isto nada nos diz sobre o nível de equilíbrio,

de destruição, de conservação. E corremos o risco de, quando

chegarmos lá, termos perdido muito mais do que queríamos perder.

É onde está a minha visão optimista e não optimista. Agora, também

acredito que chegámos a um ponto de atenção mundial sobre

o tema das alterações climáticas, em que o debate científico sobre

se elas são reais ou não está resolvido no mundo da ciência, no

mundo da publicação científica com avaliação pelos pares,

havendo sempre algumas vozes que vão pondo a dúvida. Está resolvido

também no sentido da percepção pública, porque as pessoas

vão sentindo nos relatos quase diários do que acontece às nossas

calotes polares, glaciares, etc. Isso cria uma pressão política que

torna inescapável o sucesso. Acho que há boas possibilidades

de chegarmos a 2010 com um acordo na Cidade do México significativo.

Mas as dificuldades são tantas que nem cem chefes de

Estado conseguiram um passo mais forte em Copenhaga do que

aquele que tivemos. ■

24 |


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26 |


Alterações Climáticas

A Hora das Autarquias

O aquecimento global será o maior problema ambiental à escala global

nas próximas décadas, mas se os países têm mesmo que se entender, depois

da Conferência de Copenhaga, não se pode esperar que sejam apenas

as autoridades estatais a tudo fazerem. O Comité das Regiões da União

Europeia está a incentivar os responsáveis políticos locais de todo o Mundo

para aderirem ao Pacto dos Autarcas. Uma iniciativa ambiciosa que pretende

ser mais do que um simples acordo de boas intenções.

Comunidade Urbana | Pedro Almeida Vieira

Fotografia | Maurício Abreu

Pensar global, agir localmente. Quando em 1987

foi divulgado o relatório das Nações Unidas «O

Nosso Futuro Comum» – também conhecido por

Brundtland, por ter como relatora a antiga primeira

ministra da Noruega –, este era o conceito, o paradigma

para aplicar os princípios da sustentabilidade. Daí para cá,

um novo problema emergiu a nível mundial: o aquecimento

.global e as consequentes alterações climáticas.

Em meados da década de 90, na cidade japonesa de Quioto,

um vasto conjunto de países firmaram um protocolo com vista

à redução das emissões de dióxido de carbono e de outros gases

com efeito de estufa, mas logo aí ficou patente – e os anos seguintes

viriam a confirmar, com a recusa de algumas nações, encabeçadas

pelos Estados Unidos – que não se estava perante uma

tarefa fácil. Por um lado, os países desenvolvidos, fortemente

dependentes dos combustíveis fósseis, pretendiam obter uma

redução das emissões sem pôr em causa o seu crescimento económico.

Por outro, uma franja importante de países em vias de

desenvolvimento reivindicavam o seu direito ao progresso e não

mostravam disponibilidade para aceitar medidas que refreassem

as suas economias em ascensão ou débeis. E, por fim, havia um

problema ainda mais grave: não existia uma panaceia única para,

de um ano para o outro, diminuir a libertação de gases de estufa,

| 27


por via da multiplicidade de actividades emissoras e de estas estarem

quase sempre associadas ao uso de combustíveis fósseis.

A primeira década do presente milénio veio mostrar que os piores

cenários se confirmam. Apesar de os Estados Unidos mostrarem

uma maior abertura para aderir aos mecanismos de redução de

dióxido de carbono, as emissões globais são cerca de 30% superiores

às de 1990. Isto mesmo se, no seio da União Europeia, o conjunto

dos Estados-membros conseguiram cumprir o estabelecido no

protocolo de Quioto – uma redução da ordem dos 8% em relação

ao ano de referência (1990). Se bem que este desempenho tenha

«beneficiado» da desaceleração da economia europeia, por via

da crise mundial dos últimos anos.

Apesar disso, e do longo caminho ainda a percorrer após os resultados

da Conferência de Estocolmo, realizada em Dezembro de

2009, os olhos do Mundo continuam voltados para a Europa, que

tem mostrado uma postura prática e vanguardista de pensar

.globalmente e agir localmente em matérias de alterações climáticas.

Com efeito, ao longo da última década, variados têm sido

os incentivos e os programas comunitários para a promoção

de medidas tendentes à melhoria da eficiência energética, não

apenas procurando tecnologias alternativas ao petróleo e outros

combustíveis fósseis como implementando acções em prol do uso

racional da energia.

Neste aspecto, embora grande parte das políticas necessitem de

iniciativas centralizadoras – ou seja, estão dependentes de decisões

e posturas a nível governamental e internacional –, a União

Europeia e os diversos Estados-membros têm procurado incentivar

as autoridades locais a implementarem acções nos seus territórios.

Não apenas ao nível da sensibilização pública, mas sobretudo

em projectos de pequena dimensão e de âmbito territorialmente

mais restrito, uma vez que se tornam importantes no seu

conjunto.

Nesta perspectiva, a União Europeia – com o Comité das Regiões

num papel de charneira – tem apostado em programas que visam

sobretudo a implementação de planos de acção a nível energético.

Neste âmbito destaca-se o Pacto dos Autarcas – Convenant of

Mayors –, assinado em Agosto de 2009 por cerca de seis centenas

de municípios. Contudo, ao invés de muitos outros acordos, este

pacto não se fica apenas pelas boas intenções. Os municípios

aderentes comprometeram-se a reduzir as emissões de gases

com efeito de estufa nos sectores sob sua responsabilidade na

ordem dos 20% até 2010, em relação ao ano de 1990. Para esse

objectivo, são obrigados a elaborar planos de acção de energia

sustentável nos sectores da construção, das infra-estruturas

públicas (aquecimento, iluminação, resíduos, limpeza urbana,

etc.) e do planeamento urbano, bem como estabelecer medidas

de sensibilização e participação pública.

28 |


Se os projectos pró-activos de base local se tornam

fundamentais para inverter o crescente aumento

das emissões de gases com efeito de estufa, também

se mostra fundamental a realização de diagnósticos

a nível regional num cenário de alterações climáticas

a um nível local. Só dessa forma, identificando os riscos

e os impactes, é possível gizar estratégias sectoriais.

Além disto, os municípios têm também de procurar soluções

energéticas distintas, de modo a registarem, para o mesmo período,

um incremento superior a 20% da produção por fontes renováveis.

E também melhorar a eficiência energética em 20%.

As expectativas do Comité das Regiões são bastante optimistas

e as adesões não param de aumentar. No início de Dezembro

de 2009, o número de signatários do Pacto dos Autarcas atingia

já quase um milhar, não se circunscrevendo apenas à União

Europeia, uma vez que se verificaram entretanto adesões na

Argentina, Arménia e Nova Zelândia, bem como de outros países

europeus extra-comunitários.

Em relação aos municípios aderentes estima-se que o cumprimento

destas metas resulte, em termos de redução de dióxido de

carbono, numa redução de gases de efeito de estufa equivalente

ao plantio de árvores numa área semelhante à Hungria em cada

ano ou à retirada de mais de 35 milhões de carros das estradas.

Mas também existem vantagens económicas: com esta redução

dos consumos, com a melhoria da eficiência energética e com

o aumento da produção por fontes renováveis. Se o barril de

petróleo aumentar acima dos 50 dólares em 2020, o Comité das

Regiões estima que haverá uma poupança global de oito mil milhões

de euros por ano em importações de combustíveis fósseis.

No lote de «fundadores» do Pacto dos Autarcas conta-se uma

dezena de autarquias portuguesas, mas esse número aumentou

a partir de Agosto de 2009 para 14, sendo que uma é freguesia

(Santo Amador, em Moura). Na região de Lisboa e Vale do Tejo,

os municípios que aderiram são Almada, Cascais, Lisboa, Oeiras

e Palmela, a que acrescem, noutras regiões, os concelhos de Águeda,

Aveiro, Ferreira do Alentejo, Moura, Ponta Delgada, Porto e Vila

Nova de Gaia.

Grande parte dos projectos em curso têm vindo a ser desenvolvidos

sobretudo pelas agências municipais ou regionais, aproveitando

o know-how adquirido e os apoios da Comissão Europeia

para iniciativas no sector da energia e da mobilidade. As agências

de energia parecem ser, com efeito, o modelo mais adequado,

estando aliás a ser adoptado na generalidade dos países europeus.

De acordo com dados recentes, em Portugal existem já 12

agências municipais ou multimunicipais de energia – por vezes

englobando outras vertentes ambientais e/ou com participação

de universidades, instituições privadas e empresas –, das quais se

destacam, nas subregiões da Grande Lisboa e Península de

Setúbal, as que têm a sua área de acção nos concelhos de Almada,

Loures, Sintra, Seixal, Cascais, Palmela, Setúbal, Sesimbra, Lisboa,

Barreiro, Moita, Montijo e Alcochete.

| 29


No caso da capital portuguesa, uma parte substancial dos projectos

tem sido liderada pela Lisboa E-Nova, uma agência municipal

de energia e ambiente, presidida por Delgado Domingos. Para

além dos projectos de mobilidade – como é o caso das faixas bus

– e de expansão dos corredores verdes, a Lisboa E-Nova tem apostado

em medidas quase cirúrgicas de poupança de energia com

vantagens significativas até na componente económica. «A mera

regulação automática da iluminação pública em função da luminosidade

do dia resultou numa poupança da ordem dos 200 mil

euros por ano», salienta Delgado Domingos. Um outro exemplo

de poupança relevante passa-se com a substituição do sistema

tradicional de semáforos por «leds» em algumas partes da cidade,

que registaram uma redução de 90% dos consumos. Para este

professor jubilado do Instituto Superior Técnico, «Lisboa tem condições

para melhorar bastante a sua eficiência energética, independentemente

das metas que forem sendo preconizadas a nível

internacional».

Se os projectos pró-activos de base local se tornam fundamentais

para inverter o crescente aumento das emissões de gases com

efeito de estufa, também se mostra fundamental a realização de

diagnósticos a nível regional num cenário de alterações climáticas

a um nível local. Só dessa forma, identificando os riscos e os

impactes, é possível gizar estratégias sectoriais. Nesse aspecto,

Portugal foi um dos precursores a nível mundial na avaliação

de estudos pormenorizados, com a realização no início desta

década do projecto SIAM – Climate Change in Portugal: Scenarios,

Impacts and Adaptation Measures, coordenado por Filipe Duarte

Santos, professor da Faculdade de Ciências de Lisboa.

Este modelo foi agora aproveitado pela autarquia de Sintra que

decidiu encomendar um plano estratégico municipal à equipa

de Filipe Duarte Santos, integrando cerca de três dezenas de especialistas,

cujos resultados foram apresentados em Abril de 2009.

Analisando os cenários climáticos, os recursos hídricos, as zonas

costeiras, a biodiversidade, a agricultura, a floresta, a saúde humana,

o turismo, o lazer e a energia, este projecto estabeleceu os cenários

previstos no futuro, bem como as medidas e entidades que

devem intervir. Orçado em cerca de 150 mil euros, a ideia do plano

de Sintra foi entretanto seguida pelo município vizinho de

Cascais, estando a sua execução em curso. Destacando a importância

destes estudos, Filipe Duarte Santos considera, porém, que

seria preferível «terem um âmbito regional, ao nível das comissões

de coordenação regional», como sucede já em outros países,

nomeadamente no Reino Unido. ■

30 |


| 31


Filipe Duarte Santos

O envolvimento

das regiões ajudaria

a aumentar a adesão

do público

Entrevista | Carla Gomes

Fotografia | ca, produções fotográficas

32 |


Filipe Duarte Santos, investigador e professor catedrático da Faculdade de Ciências

da Universidade de Lisboa, é um dos cientistas portugueses que mais se têm

dedicado ao estudo das alterações climáticas, tendo coordenado o maior projecto

de investigação sobre os impactos em Portugal, o SIAM. Sobre a recente conferência

de Copenhaga (7 a 18 de Dezembro de 2009), em que marcou presença, sublinha

que é urgente chegar a um acordo vinculativo e a metas efectivas de redução

de emissões dos Gases com Efeito de Estufa (GEE), mas considera que o «Acordo

de Copenhaga» é um passo importante por ter aproximado os países responsáveis

pela maior quota de emissões, entre eles os Estados Unidos e a China.

| 33


34 |


Uma coisa que se pretendia com Copenhaga era

deixar uma mensagem muito clara de que os países

estavam apostados em investir nas renováveis.

O que acabou por haver foi um sinal fraco, o que são

boas notícias para os países produtores de petróleo.

Esta conferência de partes (COP15) em Copenhaga acabou

por ficar marcada por uma certa confusão logística,

com milhares de pessoas que tinham acreditação prévia

a não conseguirem entrar, na segunda semana das

negociações. Em que dias acabou por conseguir estar? Também

teve algumas dificuldades.

Na segunda semana a organização da conferência começou a restringir

o número de pessoas que entravam por dia, incluindo representantes

de Organizações Não Governamentais. A previsão era

que participassem na conferência 15 mil pessoas, incluindo os

delegados nacionais e membros da sociedade civil. Mas a organização

foi recebendo e autorizando inscrições via e-mail e correspondência,

até atingir cerca de 35 mil pessoas.

Deviam ter feito um estudo prévio sobre a capacidade e a afluência,

o que teria levado à conclusão de que não podiam ter mais de 15 mil

pessoas em simultâneo. O que acabou por acontecer é que as pessoas

chegavam lá e não as deixavam entrar para se registar. Todos

tinham de aguardar numa fila, onde eu estive, onde esteve também

o Al Gore. A única forma de sair dali era telefonar para os

membros das delegações, que arranjavam forma de obter os dísticos

e depois vinham cá fora ao encontro das pessoas. Na segunda-

‐feira (14) não consegui entrar, só na terça, e foi na qualidade de

vice-presidente de uma comissão das Nações Unidas. Foi a única

forma de chegar ao local em que me podia registar. Foi muito mais

complicado do que em Bali (COP 13, Dezembro de 2007). Em Copenhaga,

até a estação de metro mais próxima foi encerrada para

os manifestantes não se poderem aproximar tão facilmente.

Este Acordo de Copenhaga, não vinculativo, negociado por

um pequeno conjunto de países, entre eles os Estados Unidos,

a China e a Índia – foi um primeiro passo ou uma «mão cheia

de nada» no processo de negociação de um acordo pós-Quioto?

Foi realmente um acordo mínimo, que não é vinculativo mesmo

para os países que o assinaram. É algo que está fora das posições

tomadas pela COP15. Em si é positivo porque envolve os Estados

Unidos, que têm estado fora do processo do Protocolo de Quioto,

e a China. Estes dois países juntos representam mais de 40% das

emissões globais de GEE, são os principais emissores a nível mundial.

Também envolve a Índia, o Brasil, a África do Sul, e por isso

é importante do ponto de vista político, sobretudo para os Estados

Unidos, pois para que estes ratifiquem um acordo no âmbito das

Nações Unidas é necessário que haja uma ratificação pelas duas

câmaras, o Senado e a Câmara dos Representantes. O presidente

Obama propôs um pacote legislativo sobre questões de energia

e clima, que já passou nesta última, mas no Senado tem estado

a marcar passo. E a posição do Senado, a mesma aquando do Protocolo

de Quioto, é de que os EUA não ratificam nenhum acordo

em que não estejam incluídas metas de redução de emissões

das grandes economias emergentes, como a China e a Índia. Este

acordo negociado em Copenhaga é um trunfo que Obama leva

para os EUA para face ao senado garantir a aprovação deste

pacote.

| 35


Não terá ficado muito surpreendido com o resultado desta

conferência. Já tinha afirmado em entrevistas anteriores

que não era muito provável obter um acordo vinculativo.

Eu de facto achava que não haveria um acordo vinculativo, exactamente

por esta razão, porque há uma «dança» entre os EUA e a

China, são dois países que desconfiam um pouco um do outro em

certas coisas, e que têm economias muito poderosas. É preciso ter

também em consideração o aspecto da produtividade, porque

se um país não se compromete com metas ambiciosas isso significa

que não terá um fardo adicional sobre a sua economia, que

existe naqueles países ou regiões que como a União Europeia

têm um compromisso muito forte de redução de emissões.

Nisto temos de ser muito claros: compromissos fortes de redução

condicionam toda a economia. O objectivo é obter uma maior

.eficiência energética e um maior desenvolvimento das energias

renováveis, mas para isso é necessário mais investimento e estas

energias são mais caras, como é por exemplo o caso da energia

solar face à do carvão. Os países que têm metas muito ambiciosas

ficam com a sua economia um pouco menos competitiva. Ora

os EUA não se querem impor a eles próprios metas de redução

que reduzam a sua competitividade face à China.

Por outro lado, na China começam a sentir-se com bastante intensidade

os primeiros impactos das alterações climáticas. Há maior

tendência para secas e tempestades de areia no Norte, enquanto

no Sul há tendência para chuvas muito fortes, a par de uma acelerada

fusão dos glaciares do Himalaia. Existe uma grande poluição

associada a grandes centrais térmicas a carvão (pois a disponibilidade

de carvão é grande) – e portanto eles estão a concluir que

há que investir muito mais em renováveis, e falam em reduzir

a intensidade carbónica da sua economia em 40 a 45%. Propõem-

‐se desenvolver de forma empenhada as energias renováveis.

E havendo um mercado com 1200 milhões de pessoas isto pode

levá-los a liderar o mercado das renováveis, e isso é algo com que

os EUA se sentem desconfortáveis. O resultado será uma maior

redistribuição da economia.

Será possível obter um acordo vinculativo no fim de 2010

no México (COP 16)?

Eu não consigo ter neste momento uma ideia clara daquilo que

se vai passar no México. Os acordos têm de ter necessariamente

a unanimidade de todos os países. Uma coisa de que se falou em

Copenhaga, e que é qualitativamente diferente do que se passou

em Bali, é que se manifestou um antagonismo mais forte entre

os países mais pobres, os mais vulneráveis às alterações climáticas,

e os mais desenvolvidos. Os países mais vulneráveis, em particular

os AOSIS – os Estados-ilha, geralmente com uma altitude muito

baixa, situados sobretudo no Pacífico e no Índico – afirmaram que

não aceitariam um acordo que não garantisse que o aumento da

temperatura fique aquém dos 1,5ºC. O acordo não vinculativo fala

em programas de acção para garantir que o aumento da temperatura

global não excede os 2ºC mas não coloca sobre a mesa

as reduções de emissões que vão garantir isso. Pelo contrário,

aquilo que se conhece até agora não garante esta meta, quanto

mais não ultrapassar os 1,5ºC.

As emissões globais têm subido muito, entre 2000 e 2007 aumentaram

a uma média anual de 3,4%, o que é brutal. Em 2008

aumentaram menos, mas em 2009 baixaram 3%, de acordo com

as estimativas.

36 |


Em Copenhaga

manifestou-se um

antagonismo mais forte

entre os países mais

pobres, os mais

vulneráveis às alterações

climáticas, e os mais

desenvolvidos.

Os países que têm metas

muito ambiciosas ficam

com a sua economia

um pouco menos

competitiva. Ora os EUA

não se querem impor

a eles próprios metas

de redução que reduzam

a sua competitividade

face à China.

| 37


Neste momento estamos

numa situação

de cumprimento

do Protocolo de Quioto,

mas esta situação

deve‐se em grande parte

ao fraco desempenho

da economia portuguesa.

Por causa da crise?

Por causa da crise em que o mundo está. Isto é que era desejável

acontecer, em termos de emissões, mas isto é o que ninguém

quer, porque causa situações dramáticas de desemprego para

milhões de pessoas. Muito provavelmente as emissões vão subir

um pouco em 2010 e depois retomar o ritmo anterior de subida.

Mas o que se pretende com as negociações das Nações Unidas

é que se atinja um máximo e depois haja efectivamente um

decréscimo acentuado. A questão é onde é que este máximo vai

parar. Para haver alguma probabilidade do aumento da temperatura

não exceder 2 ºC é necessário que este máximo ocorra

antes de 2020, porque depois do «pico» máximo a temperatura

continua a subir e só depois de decorrido algum tempo é que

estabiliza. A diferença entre o valor pré-industrial e este máximo

é que vai resultar num aumento aproximado de 2ºC. Se a temperatura

estabilizar mais tarde a diferença será maior. 1,5ºC é que

já será praticamente impossível.

Existem os meios tecnológicos e científicos para desenvolver

as renováveis, mas o investimento necessário é gigantesco.

Nós espantamo-nos com o preço da electricidade, mas uma parte

dessa electricidade vem da energia eólica, que é mais cara.

.Se tivéssemos por exemplo 50% de energia solar fotovoltaica

seria muito mais caro.

Até que ponto é que os acontecimentos em Copenhaga revelam

um maior peso relativo da China em termos geopolíticos

e estratégicos?

Na minha opinião haverá uma certa tensão entre os países que

são regidos por democracias e aqueles em que existe um regime

com um certo autoritarismo, que é mais fácil orientar para certas

soluções. A China tem uma população muito trabalhadora

e é uma economia muito poderosa – já é o maior emissor de GEE,

já ultrapassou os EUA – e mesmo no aspecto financeiro há uma

relação de dependência dos Estados Unidos face à China, devido

aos títulos do tesouro americano que esta tem comprado.

A China passou a ser um parceiro absolutamente essencial e isso

notou-se em Copenhaga. Os EUA queriam forçar a China a permitir

uma monitorização das suas emissões, para possibilitar a verificação

de que iriam de facto limitá-las, face a este objectivo que

o país concordou em assumir, de descarbonizar a sua economia.

Mas a China recusou isso, porque considerou que iria beliscar

a sua soberania, e a única coisa que admite é que haja verificação

por entidades exteriores nas actividades ou iniciativas que são

subsidiadas pelo estrangeiro. As que são da responsabilidade

da China estariam fora desse tipo de verificação.

Chegou-se a um acordo, significativo mas não vinculativo, e que

não foi assumido pelas Nações Unidas. Foi proposto pelo presidente

da conferência, o primeiro-ministro dinamarquês, que

a assembleia se solidarizasse, mas a única coisa que esta acabou

por fazer foi «tomar nota» deste acordo.

38 |


A UE fez um enorme trabalho prévio, nomeadamente a França,

que se reuniu com os países em desenvolvimento para preparar

a base para um acordo a assinar em Copenhaga. O que

aconteceu à UE no meio disto tudo?

A UE não esteve na reunião em que este acordo foi estabelecido,

limitando-se depois a concordar, embora reconhecendo que é minimalista.

A UE hesitou em grande parte da conferência em aumentar

a «parada», dos 20 para os 30% de redução de emissões até

2020, mas acabou por não o fazer porque não sentiu da parte dos

EUA disponibilidade para o fazer, assim como de outros países,

como a China. Porque fazê-lo sozinha seria estar a prejudicar

a competitividade da sua economia de uma forma unilateral.

Este período de recessão económica contribuiu para uma maior

dificuldade dos países em assumirem compromissos

financeiros?

Muitos se tem dito que a crise económica e financeira é uma

oportunidade para mudarmos de rumo, mas eu penso que é uma

análise um pouco errónea. O crescimento económico é o paradigma

que nós temos, em tudo o que sejam restrições que impliquem

maior investimento, que não seja imediatamente rentável

ou se traduza em mais emprego, etc., os países retraem-se.

Uma coisa que se pretendia com Copenhaga era deixar uma

mensagem muito clara de que os países estavam apostados em

investir nas renováveis. O que acabou por haver foi um sinal fraco,

o que são boas notícias para os países produtores de petróleo

e para o lobby do petróleo e do carvão. Mais tarde ou mais cedo

vamos ter de enveredar por esse caminho, o das renováveis, mas

entretanto criou-se um espaço adicional para essas indústrias.

Relativamente aos apoios para os países em desenvolvimento,

quem são os alvos prioritários e como vai ser aplicado a nível

da mitigação e adaptação?

Uma das questões mais discutidas e que acabaram por não ficar

muito claras, porque não há um texto assinado, era quem vai

gerir este fundo. Uns queriam que fosse o Banco Mundial, outros

outras organizações. Isso ainda não está definido. A China a certa

altura diz prescindir de apoios para a sua mitigação. Os fundos

destinam-se essencialmente a África, e para países asiáticos como

o Bangladesh ou a Índia.

Há dois tipos de respostas face às alterações climáticas, a adaptação

e a mitigação. São complementares. A administração Bush

estava virada apenas para a adaptação porque considerava que

a mitigação era muito cara e afectava a economia, e portanto

a ideia era investir apenas quando as alterações climáticas se tornassem

muito gravosas, adaptando-se.

O facto é que quando se fala de adaptação estamos a falar dos

impactos das alterações climáticas, da vulnerabilidade dos países.

A vulnerabilidade dos países depende da sensibilidade de cada

sistema socio-económico, da capacidade de adaptação e de minimização

dos efeitos adversos. Os países menos desenvolvidos

têm muito maior vulnerabilidade, essencialmente porque têm

menor capacidade de adaptação.

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Um país como o Bangladesh, com aquelas costas inundadas onde

vivem milhares de pessoas, não tem capacidade de resposta.

As pessoas vão fugir dali. A Índia está aliás a construir um muro

ao longo da fronteira para evitar a passagem dos refugiados.

O valor dos apoios, que se calcula como sendo em 2020 da ordem

dos 100 mil milhões de dólares anuais – cerca de 70 mil milhões

de euros – destina-se em grande parte à adaptação dos países

mais vulneráveis, como é o caso por exemplo de Moçambique,

que tem zonas muito vulneráveis às cheias.

A certa altura Hillary Clinton fez uma declaração em que afirmou

que os Estados Unidos aceitavam este valor para 2020, mas não

disse com quanto vão contribuir! A UE já avançou com um valor

para os próximos anos, até 2012, aí também vamos ter de esperar

pela reunião em Bona em meados do próximo ano, e depois finalmente

pela COP 16 na Cidade do México.

Portugal tem tido uma participação activa nas negociações

e as previsões são de que vá cumprir as suas metas face à UE,

no âmbito do Protocolo de Quioto, apenas com um diferencial

de 5%, que será coberto pelo Fundo Português de Carbono.

Qual é a sua análise das políticas que têm sido adoptadas,

nomeadamente no que respeita a medidas internas?

Neste momento estamos numa situação de cumprimento

.do Protocolo de Quioto, embora recorrendo aos mecanismos de

flexibilidade, através do Fundo Português de Carbono, mas esta

situação deve-se em grande parte ao fraco desempenho da economia

portuguesa.

Em relação às políticas e medidas de mitigação do Programa

Nacional para as Alterações Climáticas (PNAC), penso que se poderia

ter feito mais no que respeita à revisão e correcção das medidas.

Recentemente houve melhorias nessa vertente. Mas também

é importante dizer que há países desenvolvidos que têm metas

obrigatórias de redução de emissões, até 2012, e que estão numa

situação muito pior do que Portugal. É o caso de Espanha, da Itália,

Irlanda, Dinamarca ou do Canadá.

É evidente que Portugal beneficia do plano europeu (redução

de 8% das emissões até 2012 face a 1990) – que lhe permite não

reduzir as emissões, mas aumentar em 27%. Vamos cumprir,

o que é bom, mas no caso da UE aumentar a meta para 30% até

2020, as exigências vão ser muito maiores para todos os Estados-

‐membros, incluindo Portugal, e aí vamos ter de ter um plano de

políticas e medidas que seja mais assumido não só pelo Governo

como pelas empresas, pelo poder local e pelos cidadãos.

Este problema não pertence ao Governo, pertence a todos nós, tem

de haver um empenhamento colectivo, institucional e individual.

Para que haja alguma probabiliade de não ultrapassarmos os 2ºC

de aumento da temperatura global, as reduções de emissões terão

de ser de 20 a 40% nos países desenvolvidos até 2020, e 50% em

termos globais em 2050. As emissões atingem um «pico» e têm

de começar a descer, e isso será muito exigente para todos nós.

Enquanto coordenador do projecto SIAM (Climate Change

in Portugal – Scenarios, Impacts and Adaptation Measures)

ser‐lhe-á familiar a abordagem regional destes problemas.

Até que ponto a cooperação entre regiões de diferentes países

pode ser uma mais-valia?

Penso que seria muito importante que as várias regiões do país

tivessem planos estratégicos integrados de mitigação e adaptação

40 |


às alterações climáticas. É isso que está a ser feito noutros países

europeus. O SIAM foi um projecto à escala nacional, mas aquilo

que era recomendável era que agora se fizesse à escala regional.

O CC-IAM (Climate Change Impacts, Adaptation and Mitigation

Unit) é um grupo que envolve diversas instituições e universidades

e está a desenvolver estudos ao nível municipal. A passagem

desses planos para o nível municipal era mais fácil passando

pelo nível regional.

As regiões são extremamente importantes nesta perspectiva.

Seria muito importante trabalhar a esse nível até do ponto de

vista da adesão do público, da sociedade civil e das empresas para

a necessidade de reduzir as emissões e de nos adaptarmos,

de uma forma integrada.

Falta ainda a Estratégia Nacional de Adaptação, que esteve em

consulta pública até Setembro.

Vamos ver quando tivermos a Estratégia Nacional. Estamos

a aguardar. É muito importante sensibilizar as pessoas para esta

problemática. Em Portugal alguns sectores começam já a sentir

os efeitos da mudança climática. Salientaria o Sul do país, onde se

começa a sentir maior dificuldade de obtenção de água dos aquíferos,

tal como acontece em Espanha, onde este problema é muito

notório. É preciso planear medidas de adaptação para minimizar

as consequências adversas para as populações, também no que

respeita às ondas de calor e aos fogos florestais, que se vão tornar

mais prováveis. É preciso uma grande atenção às zonas costeiras.

A nível da região de Lisboa e Vale do Tejo todo o estuário do Tejo

é vulnerável, incluindo a salinização dos aquíferos. Todas estas

questões deviam ser estudadas. ■

Seria muito

importante que as

várias regiões do país

tivessem planos

estratégicos integrados

de mitigação

e adaptação às

alterações climáticas.

É isso que está a ser

feito noutros países

europeus.

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42 |


Um dia diferente no coração da Europa

Orquestra «Geração»

encanta Bruxelas

Os jovens da Orquestra «Geração»

actuaram frente à Comissão Europeia,

a convite da CCDR-LVT. Um dos momentos

altos do Open Days de 2009, que decorreu

em Outubro em Bruxelas.

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Privilégio é a palavra que se ouve em todas as

bocas. Enquanto guardam os instrumentos, depois

de uma brilhante actuação que nem a chuva conseguiu

ofuscar, é com esta palavra que respondem

às perguntas. «É um privilégio estar aqui».

Aqui, no coração da União Europeia, onde todos os dias se tomam

decisões que afectam centenas de milhões de cidadãos por esse

continente fora, onde por estes dias se reflecte no futuro, na crise,

nas alterações climáticas, naquilo que nos espera e na estratégia

de desenvolvimento a seguir.

Talvez sejam todos demasiado novos para compreender muitas

dessas coisas. Mas é deles este momento. Foi aqui mesmo, em

frente ao edifício sede da Comissão Europeia, que os 30 jovens

músicos tocaram e cantaram o «Hino da Europa».

quotidiano daquela família», conta Jorge Miranda, o responsável

pelo projecto na Câmara da Amadora. A música «clássica», a imponência

dos violoncelos ou a elegância dos violinos é algo que não

choca com os valores em presença e que cria uma nova dinâmica

no dia-a-dia dos bairros suburbanos. O aproveitamento escolar

é condição para participar na aventura musical. As escolas acompanham

a par e passo o projecto e é nas suas instalações que

é feita a formação musical.

Um desafio deste tipo não só cria modelos positivos como enche

de orgulho toda a comunidade, que acaba por ser contagiada pelo

entusiasmo dos jovens músicos e pelos seus sucessos. Os jovens

do Casal da Boba já tinham inclusivamente actuado na visita

.oficial da Rainha da Jordânia a Portugal, mas a viagem para

Bruxelas é de facto a primeira vez que qualquer um dos jovens

«Geração» se aventura além-fronteiras.

Muitos deles não imaginariam vir a gostar e a divertirem-se com

a «música clássica», quando esta aventura começou. Hoje, esse

é um elemento incontornável da vida de cada um. A formação

existe há apenas dois anos, e muitos nem estão assim há tanto

tempo. Para quem os ouviu antes, porém, é nítida a evolução

que têm feito, com o apoio sempre presente dos professores

do Conservatório Nacional, um dos pilares deste projecto.

Os músicos que vieram a Bruxelas foram escolhidos criteriosamente,

através de audições. O pequenino Danilo não esconde

a satisfação. A sua paixão é a percussão e é ele que dá os remates

finais na música. «Desde pequenino que gostava de batucar»,

conta, «e por isso fiquei com a percussão».

O orgulho da comunidade

Nenhum pormenor é descurado, naquele que é já considerado

um projecto de integração social de êxito. «Os instrumentos

ficam entregues ao cuidado dos jovens músicos, e isso é fundamental

porque é um elemento novo que passa a fazer parte do

A ideia veio da Venezuela, germinou nos bairros da Amadora

– a primeira orquestra nasceu de uma parceria entre a Câmara

da Amadora e a Fundação Calouste Gulbenkian (com apoio do

programa comunitário Equal) –, estendeu-se a Vila Franca de Xira

e em 2009 começou a propagar-se por toda a AML, com o apoio

do POR Lisboa / QREN à criação de seis novas orquestras nos municípios

de Amadora (Bairro do Zambujal), Loures (Quinta da Fonte/

Apelação), Oeiras (Outurela/Portela), Sintra (Cavaleira), Sesimbra

(Boa Água/Quinta do Conde) e Vila Franca de Xira (Vialonga).

Foi a Junta Metropolitana de Lisboa quem assumiu o projecto, por

iniciativa da CCDR-LVT, em articulação com municípios, escolas

e o Conservatório Nacional, que garante os professores para a formação

musical. Outros países europeus têm manifestado interesse

na criação de orquestras à semelhança do projecto «Geração», que

é já candidato ao Regio Star – um concurso anual que distingue

os projectos mais inovadores a nível europeu, em diversas áreas.

O objectivo é vir a criar uma Orquestra Metropolitana em Lisboa.

Ao todo, estão neste momento envolvidos nas Orquestras «Geração»

existentes, em diversas fases, perto de 600 crianças e jovens. ■

44 |


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Reportagem | Património | Carla Maia de Almeida

Fotografia | Guto Ferreira

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Casa de Reis e Mendigos

No último quartel do século xix, o chalet de Carlos Relvas foi um dos mais

belos ateliers fotográficos da época, sem paralelo em Portugal e não só.

Totalmente recuperado segundo a traça original, foi re-inaugurado em 2007

como Casa-Estúdio Carlos Relvas, após um investimento de quase 2,5 milhões

de euros, que contou com apoio de fundos comunitários, através do Programa

Operacional da Região de Lisboa e Vale do Tejo (PORLVT). É um dos motivos

de orgulho da Câmara Municipal da Golegã. Este ano, o lançamento

do Banco de Imagens mostrará a totalidade do espólio fotográfico, permitindo

ao público ver a colecção pela primeira vez.

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Poucos habitantes de Chalon-sur-Saône saberão

que a estátua de Nicéphore Niépce – que figura na

lista dos notáveis da cidade graças à invenção da

fotografia – teve o amplo contributo do português

Carlos Relvas, um abastado proprietário rural «desterrado»

nos campos do Ribatejo. Em 1885, a oferta de 1400 francos

superou então o conjunto doado pelo famoso banqueiro Rothschild

e pela Associação Francesa de Fotografia, não se tratando de um

capricho ocasional. Para Relvas, sempre fora difícil, se não impossível,

pensar à escala do país pobre e atrasado onde nascera.

No seu ideal de excelência, a França representava então o centro

do cosmopolitismo e da língua partilhada por artistas, eruditos

e aristocratas – e ele era um pouco de tudo isso. Nada mais natural

do que associar-se ao projecto francês da única forma que sabia

fazer: em grande.

Aquando da inauguração da estátua de Niépce, o nome de Carlos

Relvas inspirava respeito e admiração no milieu fotográfico nacional

e internacional. Não tanto pela genialidade artística – em que

outros se destacaram – mas pelo investimento de meios e pela

entrega pessoal com que se ligou à fotografia, a começar pela

construção da casa-estúdio na Golegã, única no seu género em

Portugal (ver caixa na página seguinte). Homem de temperamento

excessivo, voluntarioso e não isento de vaidade, o facto de sempre

se ter assumido como «fotógrafo amador» não impediu que contribuísse

com 1400 francos para a consagração em bronze de um

dos seus mestres declarados. Pelo contrário, é nessa reivindicação

romântica do desprendimento utilitarista que Relvas inscreve

o seu nome e a sua ostensiva generosidade. Gastou rios de dinheiro

com a fotografia, sem nunca pretender lucros financeiros. Só esta

disparidade faz dele um estudo de caso, no mínimo; e uma personagem

literária ou cinematográfica, para quem quiser levar mais

longe o potencial romanesco.

Nascido na Golegã, em 1838, Carlos Augusto Mascarenhas Relvas

e Campos continuou a ascensão trilhada pelo pai, grande proprietário

rural oriundo da Sertã que veio para o Ribatejo no início

dos anos 30 do século xix à procura de novas oportunidades. Filho

primogénito, Carlos estudou com professores particulares, aliando

o interesse por disciplinas teóricas com actividades desportivas

próprias da sua condição social, como a esgrima ou a equitação.

Era ainda adolescente quando se casou, por conveniência estratégica

entre famílias, com Margarida Amália Mendes de Azevedo,

filha dos viscondes de Podentes. Ela tinha apenas 15 e ele 14, o que

levou à necessidade de autorização por parte da rainha D. Maria

II. Aos 17 ou 18 anos, já era pai: Francisco nasceu em 1856 e, dois

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anos depois, foi a vez de Clementina e de José, o filho que viria

a notabilizar-se como um dos homens fortes da futura República.

Mais tarde, vieram outras duas filhas: Liberata, falecida quando

ainda era bebé, e Margarida, a única com quem Carlos Relvas partilhou

o amor à fotografia e desenvolveu uma relação afectiva

mais próxima.

Marcada por tragédias e cisões irreversíveis, a história pessoal

.e familiar de Carlos Relvas contrasta com a projecção pública

de que granjeou em Portugal e no estrangeiro, enquanto homem

de negócios e conhecedor da fotografia. Brilhando nos salões e nas

exposições universais que frequentou, uma linha de sombra perseguiu-o

sempre, no que toca à vida privada. Além da morte prematura

de Liberata, também Francisco, o filho primogénito, desapareceu

ainda jovem, vítima de um tiro de espingarda – acto justificado

publicamente como acidente, mas visto como provável suicídio.

Clementina, a filha mais velha, teve um casamento infeliz que

durou apenas dois dias, remetendo-se a partir daí a uma existência

de degredo familiar. Com José Relvas, que herdou parte do temperamento

do pai e uma obstinação idêntica, a relação também não

foi fácil, desde logo por divergências políticas – monárquico, um,

republicano o outro, estavam condenados a não se entenderem.

Restava Margarida, a mais nova, mas depois do casamento desta

e da sua consequente saída da Golegã para Torres Novas, Carlos

Relvas foi ficando cada vez mais isolado. O homem forte a quem

chamaram «o príncipe da Golegã» – lavrador riquíssimo, exímio

cavaleiro, gentleman e benemérito da terra – tinha um lado vulnerável

que acabou por significar a sua maldição.

Harmonioso, ao que tudo indica, o casamento de Carlos e Margarida

de Azevedo Relvas prolongou-se durante 34 anos, terminando

com a morte súbita desta em 1887, com 49 anos. Hoje, na sala de

espera da casa-estúdio, em cima de uma mesa, permanece aberto

um livro de Theóphile Gautier datado de 1882 e intitulado La Nature

Chez Elle. Na dedicatória assinada por Carlos Relvas à «sua querida

esposa, D. Margarida Relvas», pode ainda ler-se uma manifestação

de ternura disfarçada pela formalidade da época, oferecendo

à leitora «votos cordiais de permanente felicidade.»

Muito mais ostensiva era a devoção popular e quase santificada

de que Margarida usufruia, graças às suas acções caritativas.

«O seu funeral constituiu uma enorme manifestação de pesar,

com o cortejo a prolongar-se pelas ruas da Golegã, como o próprio

viúvo fez questão, inevitavelmente, em deixar registado em fotografia»

(Carlos Relvas e a sua Casa-Estúdio, edição Município da

Golegã – Câmara Municipal, 2006, p. 97). A aura pessoal de Margarida

manteve-se viva na memória da terra e, quando Carlos Relvas

decidiu efectivar o segundo casamento com Mariana do Carmo

Pinto Correia, passado pouco mais de um ano, a decisão não

colheu o agrado da família nem da população em geral. Sobretudo

do filho José Relvas, que passou a estar em conflito aberto com o pai.

O chalet construído com 33 toneladas de ferro forjado vindas do

Porto – um exemplo do esforço de industrialização do século xix

– também sofreu muito com mais este abalo familiar. Carlos

Relvas mudou-se com Mariana para o edifício que tinha erigido

como um «templo da fotografia», sacrificando essas funções às

vivências quotidianas do casal. Improvisa divisões no piso superior,

substitui parte das superfícies envidraçadas por paredes de alvenaria,

reduz para metade a área de trabalho reservada à fotografia.

A casa já não se parece com o atelier cuidadosamente projectado

uma peça única a nível mundial

A Casa-Estúdio Carlos Relvas é um atelier fotográfico

.originalmente construído entre 1871 e 1876, segundo

.projecto do próprio Carlos Relvas, com a contribuição do

arquitecto Henrique Carlos Afonso. Muito influenciada

pelo revivalismo neogótico, tem como ex-libris um primeiro

andar amplamente iluminado por luz natural,

numa conjugação elegante entre ferro, vidro e estuque.

«Como concepção, é uma peça única a nível mundial», diz

José Soudo, fotógrafo e professor de fotografia e história

da fotografia no Ar.Co e no Instituto Politécnico de Tomar:

«Há outras casas dentro do mesmo género, são os chamados

“estúdios de luz do norte”, mas não existe mais

nenhuma igual àquela.»

Juntamente com Luís Pavão, Teresa Siza e Vitória Mesquita,

José Soudo integrou a comissão nomeada pelo IPPAR que

em 1996 subscreveu a proposta de recuperação da casa

tal como era no original. Recorde-se que o edifício foi profundamente

alterado aquando do segundo casamento

de Carlos Relvas, assim permanecendo até 2001, data

do início das obras de reabilitação que culminaram com

a abertura ao público em Abril de 2007. Satisfeito pela

devolução da casa ao seu aspecto original (mérito do trabalho

dos arquitectos Vítor Mestre e Sofia Aleixo, e do

engenheiro João Appleton), José Soudo continua a achar

que «faz falta um trabalho de fundo sobre a figura de

Carlos Relvas, que deve ser feito por historiadores».

Salientando o investimento pessoal e de meios financeiros

com que Relvas se dedicou à fotografia («É aí que

ele foi um pioneiro», sublinha), tem mais dúvidas sobre

o mérito artístico das fotografias que, como provaram

recentes leilões em Lisboa, ficaram aquém da valorização

esperada. Pergunta-se: teria Carlos Relvas evoluído no seu

talento se não tivesse morrido aos 55 anos? «Tenho reservas

sobre isso. Eu diria que o lado artístico é mesmo

o mais fraco.»

«Além da construção da casa-estúdio, Relvas tem o grande

mérito de ter comprado a patente da fototipia e de ter

introduzido melhorias em alguns sistemas ópticos, mas

não há indicadores de que se tenha preocupado com

outras questões importantes. Ele inicia-se na fotografia

nos anos 1860 e nessa altura já havia estudos avançadíssimos

sobre a cor. Vai tantas vezes a Paris e não traz essa

problemática para a Golegã, porquê? Não acredito que

não soubesse... É preciso ver que o Relvas é muito circunscrito

à categoria dos fotógrafos amadores, um conceito

romântico e elitista da época. Ele é um aristocrata, não

tem de ser irreverente. É irreverente de outra maneira,

mas não na atitude fotográfica. Onde eu acho que ele

é menos conservador é nas auto-encenações. Ele cria

diversas personagens e auto-encena-se. Torna-se objecto

e razão de ser do seu próprio trabalho, e esta é uma atitude

muito moderna.»

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com o intuito de acolher unicamente a sua actividade de eleição.

Definitivamente, ali já não há espaço para fazer brilhar a profusão

de cenários e adereços em que recebeu reis e mendigos, sempre

com o estatuto de «photographo amador».

A ferida aberta pelo segundo casamento não mais iria sarar. Cinco

anos depois, quando decide lavrar testamento, Carlos Relvas atribui

a cada um dos dois filhos, José e Margarida Relvas, objectos de

valor simbólico, sem nomear sequer a filha Clementina. A parte

de leão da herança, que eram a casa-estúdio e o seu recheio, bem

como várias propriedades agrícolas, vão caber integralmente

à segunda mulher, Mariana Correia. Com ela passará os últimos

anos, partilhando ainda a dedicação à fotografia e vivendo uma

espécie de crepúsculo dourado – até falecer bruscamente a 23 de

Janeiro de 1894, vítima de uma infecção bacteriana provocada

por um acidente a cavalo.

A conturbada vida familiar e pessoal de Carlos Relvas (que esperamos

nunca ver reduzida a um enredo telenovelesco, embora

a tentação possa ser grande) só tem importância na medida

em que ajuda a perceber o processo de esquecimento a que

a sua figura e a casa-estúdio foram votadas durante quase todo

o século xx. É como se, desaparecido o homem, a casa perdesse os seus

alicerces. Como se todos os desgostos e separações, acumulados

durante anos e carregados de geração em geração, abrissem

.fendas profundas numa arquitectura simbólica, suporte da estrutura

familiar. Nos anos subsequentes à sua morte, dispersou-se

grande parte do património fotográfico, vendido ou doado pela

viúva. O que se manteve, nunca mais seria cuidado com o mesmo

desvelo por quem dele tomou conta. Cinco anos após a sua morte,

Relvas é ainda alvo de uma última homenagem na Exposição

Nacional de Fotógrafos Amadores, apoiada pelo Rei D. Carlos, mas

a partir daí a sua obra desaparece praticamente da memória

pública.

Só em meados dos anos 1970 é que a casa começa a ser redescoberta

por interessados na fotografia, nomeadamente António

Pedro Vicente, autor de um dos raros estudos sobre Carlos Relvas,

publicado em 1984. Em 1978, a casa é doada à Câmara Municipal

da Golegã pela herdeira de Mariana Correia, mas, lamentavelmente,

não foi feito um inventário do seu conteúdo, o que contribui

para a continuidade da dispersão do espólio. Ao mesmo tempo,

o próprio edifício sofre a erosão natural do tempo, levando ao seu

encerramento ao público na década de 1990. Por acção de diversas

personalidades e entidades públicas e privadas, segue-se um

moroso e complexo processo de reabilitação que só encontrou

o seu fim a 20 de Abril de 2007, quando a Casa-Estúdio Carlos

Relvas reabriu as portas. Fechou-se um ciclo. ■

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Banco de Imagens de Carlos Relvas disponível em 2010

Elsa Lourenço, Chefe de Divisão de Intervenção Social da Câmara

Municipal da Golegã e membro do Centro de Estudos de Fotografia

da Golegã, é actualmente a responsável pela estratégia

de divulgação e dinamização da Casa-Estúdio Carlos Relvas. A LVT

dirigiu-lhe algumas perguntas por e-mail.

No processo de requalificação da Casa-Estúdio Carlos Relvas,

qual foi o aspecto que suscitou mais entraves?

O que suscitou maior preocupação foi a devolução da casa à sua

traça e génese original, que mereceu estudo e debate exaustivo

para o diagnóstico da situação existente e da que existiu.

Que planos tem a Câmara para a valorização deste

equipamento em 2010?

Quando será concluída a digitalização do espólio fotográfico

de Carlos Relvas?

A digitalização do espólio já está concluída, tendo sido o controle

final de qualidade realizado em Setembro de 2009. A colecção

compreende cerca de 4.000 negativos em colódio e cerca de

6.000 em gelatina, tendo apenas restado 1000 que não foram

digitalizados devido ao seu estado de deterioração, requerendo

estabilização antes de esta ser efectuada. Com esta disponibilização

em formato digital, muitos vão aceder à colecção de fotografia

de Carlos Relvas e, consequentemente, interpretações e leituras

diferentes destas imagens vão surgir. Temos todo o interesse

em facilitar o acesso ao mesmo, sendo esse um contributo para

o conhecimento de uma obra por explorar.

A Casa não necessita de um director a tempo inteiro?

No decorrer deste ano iremos lançar o Banco de Imagens, que permitirá

ver a totalidade da colecção pela primeira vez. É um enorme

passo em frente, dado que até ao momento foram mostradas

ao público menos de dez por cento da totalidade das imagens.

A colecção nunca esteve disponível para consulta, havendo aspectos

da visão fotográfica de Carlos Relvas que não são conhecidos.

Queremos, em parceria com o Instituto Politécnico de Tomar, o Centro

de Estudos de Fotografia da Golegã (CEFGA) e os museus da fotografia/arquivos,

quer nacionais quer internacionais, começar a

divulgar esta obra ímpar, trabalho já iniciado com a realização da

Semana da Fotografia da Golegã, em Outubro de 2008 e de 2009.

Quais os públicos que pretendem atingir, prioritariamente?

Os nossos públicos-alvo são os peritos, os estudiosos, os amantes

da fotografia, da arte e do património edificado no séc. xix –

e, claro, da história de Portugal.

A existência de um director a tempo inteiro seria, sem dúvida,

uma mais-valia para este e qualquer museu tutelado pelas autarquias

locais. No entanto, o parco cofre autárquico nem sempre

o permite. A existir, seria sempre alguém com uma formação

na área da fotografia, conservação e restauro.

Casa-Estúdio Carlos Relvas

Largo D. Manuel I - Golegã

De terça a domingo, das 10h00 às 12h30.

e das 14h00 às 18h00 | Encerra às segundas e feriados.

Tel. 249 979 120

www.casarelvas.com

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Internacionalizar?

Não sei se é velha, ou inoportuna,

a discussão sobre a internacionalização

da Cozinha Portuguesa.

Mas já alguma vez se discutiu,

ou programou, a sério? Antes

interessa perguntar se há vontade

para tal propósito. Assistimos

a várias atitudes avulso, sem ritmo,

ou sem programação continuada.

Roteiro | Virgílio Gomes

Fotografia | ca, produções fotográficas

Internacionalizar pode ser levar a nossa cozinha para

o estrangeiro, ou trazer estrangeiros com o objectivo

de conhecerem a nossa boa cozinha para depois a propagandearem

lá fora. Ambos os movimentos são bons desde

que os agentes se enquadrem em locais, ou padrões,

de qualidade e autenticidade da nossa cozinha.

Há uma fórmula excelente que deveria, e poderia, ser um dos elementos

fundamentais da promoção gastronómica: restaurantes

portugueses no estrangeiro. Não conheço a totalidade dos restaurantes

portugueses no Mundo. Mas conheço alguns que fazem

um bom trabalho, mas outros desvirtuam, de forma grosseira,

as coisas mais simples da nossa culinária.

Este assunto faz-me lembrar as declarações do Primeiro-ministro

Italiano quando, há anos, declarava que iria inspeccionar os restaurantes

italianos no Mundo que não servissem correctamente

a cozinha italiana e, por isso, prestavam um mau serviço à imagem

e prestígio de Itália. Claro que a intenção era boa, impossível

de a praticar, mas ficou sem consequências como era previsível.

www.virgiliogomes.com

Fotografias realizadas no restaurante Fidalgo, Bairro Alto, Lisboa.

Outro exemplo da vontade de utilizar os restaurantes localizados

no estrangeiro, para promoção do país, chega do Brasil. É certo

que o objectivo era muito dirigido aos Estados Unidos, possivelmente

porque é um país emissor com vários interesses, ou prioridades,

no Brasil. A ideia partiu da associação Brasileira de Bares

e Restaurantes, ABRASEL, e começou com a deslocação de duzentos

e dez empresários a Chicago na maior feira mundial de alimentação

fora do lar. Depois desta viagem «faz todo o sentido: divulgar

o Brasil tendo como principal instrumento os inúmeros restaurantes

que servem comida brasileira nos Estados Unidos…, conquistar

os turistas em potencial pelo paladar e introduzi-los

à cultura e às tradições do nosso país…, inúmeras possibilidades

da culinária, riquíssima em sabores, variedade e cheiro.»

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O programa iniciou-se em Maio deste ano, e prosseguiu com

a deslocação de equipas brasileiras a restaurantes de referência

para fazerem shows cooking e para aperfeiçoarem o receituário

praticado nesses restaurantes. «Estima-se que, anualmente, cerca

de 1,1 milhão de americanos passem pelos restaurantes com cozinha

brasileira somente em Chicago.»

Este exemplo serve apenas para ilustrar uma forma como se pode

fazer promoção e, em simultâneo, divulgar a gastronomia.

Viajo bastante e já frequentei vários restaurantes portugueses

pelo mundo. Recordo como imagem de excelentes promotores da

nossa cozinha o «Forcado» em Bruxelas e o «Saudade» em Paris,

tendo este último ganho, dois anos consecutivos, o prémio Marco

Pólo, prémio atribuído pela imprensa parisiense ao melhor restaurante

estrangeiro em Paris. Recordo ainda o «Marquês de Marialva»

em São Paulo, e o «Antiquárius» no Rio de Janeiro, e agora também

o «Bela Sintra» em São Paulo.

em dia, é uma actividade dinâmica. Certo que devemos guardar

as bases para a consistência desse receituário que é um elemento

diferenciador das outras culinárias. Mas temos que aceitar a evolução

natural da culinária. A nossa cozinha também tem evoluído.

O cuidado a ter é não a descaracterizar. A nossa linguagem culinária

parece ser, ainda, complexa mas o que temos são produtos

de excepcional qualidade, como o peixe.

Os restaurantes portugueses no estrangeiro são apenas um dos

exemplos de como podemos internacionalizar a nossa cozinha.

Mas garantindo uma autenticidade e salvaguardados valores

básicos da nossa cozinha. Mas como se garante esse rigor? Quais

são as receitas fundamentais do nosso reportório e que exemplificam

com clareza a nossa cozinha? Fiz atrás um exercício

de memória de restaurantes que eram bons exemplos. Alguns

já fecharam, outros desviaram as suas características e outros

abrandaram as exigências. Salvam-se, naturalmente, ainda alguns

bons exemplos.

Antes de iniciar um eventual projecto de utilização dos restaurantes

portugueses no estrangeiro, importa reflectir sobre se há

vontade de internacionalizar a cozinha portuguesa e o que isso

significa.

As maiores dificuldades da linguagem da cozinha portuguesa

passam pela ausência de um trabalho da sua sistematização

e caracterização. Isto porque a cozinha evoluiu. A cozinha, hoje

Dos restaurantes que já visitei no estrangeiro, e cuja prestação

não é prestigiante para o nosso País, tentei sempre saber a razão

do insucesso da prestação culinária. Muitas vezes nem o empresário,

nem os cozinheiros, têm formação de especialidade. Depois

constroem as ementas de acordo com receitas que conhecem

mas que não sabem executar. Mais grave, ainda, é que depois

o mercado não tem os produtos necessários a essas receitas e improvisam,

mal, a sua substituição. Posso dar exemplos: «Carne

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de Porco à Alentejana» onde não há amêijoas ou coentros frescos.

«Açorda de Marisco» em países onde não há pão como o nosso.

Ainda há pouco tempo sugeri, num desses restaurantes, que para

além da colher que colocam para comer a açorda também colocassem

uma palhinha pois a açorda é tão líquida que é fácil sugá-la.

Isto num país onde a predominância do pão é tipo «baguette».

O ideal seria primeiro estudar bem o mercado abastecedor e só

depois construir as ementas em função dos produtos que satisfaçam

a boa execução culinária. Mas não precisamos de ir muito

longe para assistir a outro tipo de exemplo. Em Madrid, e nós

sabemos como os espanhóis gostam de bacalhau, num dos restaurantes

de maior prestígio servem o «Bacalhau à Transmontana»

com molho Bechamel!

Livros de receitas, há muitos bons e maus. Quais são as boas receitas?

Quando foi extinta a Comissão Nacional de Gastronomia, fórum

muito alargado e que impedia a rápida obtenção de resultados,

ficámos sempre à espera da nomeação de um pequeno grupo

que desempenhasse as funções vitais para a defesa da nossa

gastronomia que seria a qualificação do receituário. Nunca mais

chegou… A anterior Comissão, através do seu Conselho Técnico,

ainda identificou vinte e seis receitas para a primeira fase de qualificação.

Mas o que se faria a seguir? Caiu-se num vazio. Ora este

receituário qualificado seria o elemento fundamental para fornecer

aos nossos restaurantes no estrangeiro e, mais importante

ainda, para guião de todas as escolas de hotelaria que fizessem

formação em cozinha.

Voltando ao começo. A criação de uma rede voluntária de restaurantes

portugueses no Mundo seria uma fórmula consistente

de promoção da nossa gastronomia. Para o efeito haveria um programa

base que contivesse os requisitos para adesão à rede.

Um dos requisitos seria uma auditoria ao cardápio, e a aceitação

de introduzir eventuais correcções para a prestação correcta da

nossa culinária. A rede encarregar-se-ia de divulgação dos seus

estabelecimentos aderentes e a colocação de uma placa identificadora

que seria uma mais valia para o restaurante. Em resumo,

criar uma Rede de Diplomacia Económica.

Em simultâneo as nossas Embaixadas e Consulados, e representações

de Turismo, passariam a ter locais de garantia de boa prestação

culinária e também a usar os seus serviços para divulgação

do País.

Melhorar o que já existe garante que de futuro se provoquem

mais desafios para a internacionalização.

Claro que a participação em grandes eventos no estrangeiro, sem

querer copiar a Espanha, ou a vinda a Portugal de vultos importantes

da Gastronomia Mundial para participar nos nossos eventos

não deve ser descurada. Mas voltarei proximamente a este

assunto. ■

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artemrede

Na sequência do investimento realizado em conjunto

com as autarquias na construção, recuperação, modificação

de cineteatros e outros equipamentos culturais

congéneres destinados à apresentação de espectáculos,

maioritariamente financiado através dos fundos estruturais

europeus, decidiu a CCDR-LVT – Comissão de Coordenação

e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale

Evelina Lindqvist

do Tejo promover a realização de um estudo que identificasse

os meios e instrumentos mais adequados à dinamização,

qualificação e criação de condições de sustentabilidade

desses equipamentos.

A realização do referido estudo incluiu um trabalho de

inventariação dos teatros e cineteatros e de análise das

MÚSICA

STOCKHOLM LISBOA PROJECT

Música do Mundo | Tradicional [Portugal | Suécia]

Sexta, 11 Dezembro | 21h30

Abrantes | Cineteatro S. Pedro

Sexta, 18 Dezembro | 22h00

Externato Cooperativo da Benedita | Centro Cultural Gonçalves Sapinho

Duração: 90 min. [s/ int.] | Público Alvo: Geral | Faixa Etária: m/3 anos

Músicos portugueses e suecos juntaram-se neste projecto para explorar pontos de

encontro entre as suas tradições musicais. Distantes no espaço mas unidos pela

linguagem universal que é a música, encontraram novas texturas e pontes Norte-Sul,

entre uma tradição e a outra.

Simon Stålspets, Sérgio Crisóstomo, Liana e Filip Jers são a face deste projecto que traz

a palco tradições das suas raízes culturais.

O seu repertório abrange Música tradicional Portuguesa e Escandinava, desde Fado a

Polskas, levadas até aos ouvintes pelas cores sonoras do violino, mandolim, mandola

nórdica e voz.

O último álbum «Diagonal» ganhou o prémio «Award of the German critics/

journalists – third quarter 2009».

dinâmicas culturais da Região, bem como uma ampla

discussão e troca de ideias com as autarquias, ao nível,

quer dos seus responsáveis políticos, quer de responsáveis

dos departamentos culturais ou dos próprios teatros.

Este processo culminou com a proposta de criação de uma

rede formal que integrasse os teatros e equipamentos

culturais congéneres da região, entendida como a melhor

solução para dar resposta às necessidades de qualificação,

assistência técnica e desenvolvimento que as autarquias

sentem neste domínio. A criação da Rede foi consubstanciada

através da constituição de uma associação cultural

privada sem fins lucrativos «Artemrede – Teatros Associados»,

integrando, presentemente, o projecto 16 autarquias:

Abrantes, Alcanena, Alcobaça, Almada, Almeirim,

Barreiro, Caldas da Rainha, Cartaxo, Entroncamento,

Moita, Montijo, Palmela, Santarém, Sesimbra, Sobral

de Monte Agraço e Torres Vedras, e o Externato Cooperativo

da Benedita.

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Strategy in Action

TEATRO

DO DESASSOSSEGO

Comuna – Teatro De Pesquisa

Drama [Portugal]

Segunda, 07 Dezembro | 21h30

Torres Vedras | Teatro-Cine de Torres Vedras

Sábado, 30 Janeiro | 21h30

Sesimbra | Cineteatro Municipal João Mota

Duração: 65 min. [s/ int.] | Público Alvo: Adulto | Faixa Etária: m/12 anos

Este espectáculo será uma reflexão sobre um século que teve em Fernando Pessoa um

dos seus maiores expoentes, pela clareza, a inteligência e a frieza com que soube

interrogar e interrogar-nos. O desassossego português através da palavra do maior

poeta da língua portuguesa do século que findou.

Fernando Pessoa, ele próprio, será o músico, que sem palavras, mas recorrendo aos

mais variados instrumentos, executará temas originais, preencherá silêncios,

anunciará mudanças e marcará ritmos – maestro por excelência dos seus

heterónimos.

CONTOS EM VIAGEM BRASIL

Teatro Medirional

Sexta, 15 Janeiro | 21h30

Almada | Auditório Fernando Lopes Graça

Duração: 1h05 [s/ int.] | Faixa Etária: m/12 anos

Uma actriz e um músico serão os nossos guias. Através do corpo, da voz, da ambiência

sonora e de signos cénicos tão abstractos como abertos, seremos conduzidos do rio ao

morro, do morro ao lugarejo, onde encontraremos personagens e lugares que habitam

o outro lado do Atlântico, com quem partilhamos tantos afectos e o património

comum que é o de falarmos a Língua Portuguesa.

Para mais informações consultar www.teatromedirional.net

DRÁKULA

Companhia do Chapitô

Comédia [Portugal]

Quinta, 4 Março | 16h00

Caldas da Rainha | Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha

Duração: 90 min. [s/ int.] | Público Alvo: Geral | Faixa Etária: m/12 anos

Dr. Jonathan Harker, um célebre dentista inglês é chamado de urgência à Transilvânia.

Ao chegar ao castelo do seu cliente depara-se com um vasto espólio de doenças e

estranhos hábitos de dieta e higiene oral: queda de dentes, gengivite, mau hálito e

uma acentuada ausência de vitamina D. No regresso a Londres, sucedem-se incidentes

ainda mais perturbantes: o conde não consegue abandonar os seus hábitos perversos,

nem a sua particular preferência por certos grupos de sangue. Nada parece detê-lo.

Sem alternativa Dr. Harker pede auxílio ao seu colega e amigo Prof. Van Helsing –

o grande «Vampirologista». Entre A positivo e RH negativo, o romance, o suspense

e o drama nas ruas sombrias de Londres. O renascimento do afamado Conde Drácula,

para recuperar uma dentição que não resistiu à passagem dos séculos. O mito no seu

sentido mais vampiresco.

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Susana Paiva

CRIANÇAS E JOVENS

PEQUENA FÁBRICA DE PINGUINS

Kalpa

Teatro de Marionetas [Portugal | França]

Terça, 01 Dezembro | 16h00

Sobral de Monte Agraço | Cineteatro de Sobral de Monte Agraço

Sábado, 23 Janeiro | 10h30

Montijo | Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida

Sexta, 22 Janeiro | 10h00

Golegã | Cineteatro Gil Vicente

Duração Espectáculo: 50min. [s/ int.] | Lotação Máxima: 80 espectadores | Público Alvo:

Geral | Faixa Etária: m/6 anos

Estamos na Turakia, um país distante e mágico, impossível de identificar nos mapas…

Dois seres muito velhos, meio Homem, meio Anjo, trabalham no seu laboratório,

na primeira incubadora do ovo do sentimento pinguim. Para tratar destes ovos

mágicos é preciso muito cuidado, dedicação e o trabalho de muitas mãos.

À medida que avançamos, novas personagens, pequenos operários desta fábrica vão

surgindo, felizes e carrancudos, activos e misteriosos, descortinando o seu dia-a-dia, o

seu ofício, os seus encontros e desencontros, as brigas, até que uma grande tempestade

traz a bonança e é chegado o grande momento…O nascimento do pinguim.

É um teatro visual que faz uso de objectos e marionetas.

Neste espectáculo o cenário é muito simples – o laboratório clandestino [incubadora

do ovo do sentimento pinguim] é constituído de três escrivaninhas antigas e um

biombo ao fundo, a iluminação faz parte desta estrutura.

As marionetas parecem corresponder perfeitamente àquele cenário, as cores

partilhadas – desde os objectos, marionetas até os próprios ovos distribuídos pelo

espaço.

Não é fácil definir uma época, mas cheira a algo antigo e as actividades realizadas

parecem fazer parte de uma rotina científica [por isso chamam de documentário –

vamos assistir, entrar na intimidade deste laboratório], repetida minuciosamente a

cada dia, naturalmente com alguns percalços.

O trabalho das actrizes é feito literalmente a seis mãos, já que muitas vezes é mesmo

assim que fazem viver as personagens [duas marionetas manipuladas ao mesmo

tempo por três pessoas]. O corpo todo é utilizado de forma surpreendente, joga como

objecto, cenário, multiplica-se. Há uma interacção constante, as actrizes não se

escondem atrás das marionetas e objectos, pelo contrário, afirmam a sua presença

física e dialogam entre si e com todos os elementos em cena – marionetas, objectos,

cenário e música do espectáculo.

O maior triunfo do espectáculo é propor este outro mundo, um universo inventado,

criador de uma poética e um tempo próprios e conseguir transportar o público até ele.

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OFICINAS

AS PESSOAS DO PESSOA

Susana Menezes

Oficina associada ao espectáculo

Do Desassossego, Teatro da Comuna

Escrita | Expressão Dramática

[Portugal]

Segunda, 7 Dezembro | 8h20

Quarta, 9 Dezembro | 10h10

Quinta, 10 Dezembro | 8h20 | 10h55

Sexta, 11 Dezembro | 8h20

Terça, 15 Dezembro | 9h50

Externato Cooperativo da Benedita

Centro Cultural Gonçalves Sapinho

Duração Oficina: 2h | Lotação Máxima: 1 turma

Público Alvo: alunos do ensino secundário | Monitor: Catarina Requeijo

Conhecer um pouco melhor Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis

e a relação que cada um deles estabeleceu com os diferentes lugares ou cidades.

A ideia de heterónimo como espaço de liberdade para a existência de um outro

eu num outro pequeno mundo.

De quantas pessoas é feita uma pessoa? quantos temos dentro de nós?

Seremos diferentes em diferentes cidades? E casas? E lugares?

Através da escrita e da expressão dramática vamos fazer uma viagem ao interior

de um escritor/jornalista/publicitário/empreendedor e amante.

Como é que tantas pessoas cabem dentro de uma só?

O PRAZER DO POEMA

Oficina associada ao espectáculo

Do Desassossego, Teatro da Comuna

Poesia | Escrita [Portugal]

Quarta, 13 Janeiro | 14h00

Santarém | Teatro Sá da Bandeira

Duração: 1h30 | Lotação Máxima: 15 participantes | Público Alvo: m/18 anos

Monitor: Paulo Campos dos Reis

O poema [um qualquer] é a matiz. Lesse e relesse de diversos modos. A cabeça

entende-o. As vozes dão-lhe cores. Fazem-se exercícios de análise e de expressão

dramática. Vêm-se imagens das coisas que os poemas contêm. Compõem-se os versos

dos poemas com essas imagens. Compõem-se as imagens do poema com versos.

No final cada participante terá o princípio do mundo numa folha de papel:

O seu poema.

MUSEU DOS DIAS ÚTEIS

Quinta, 28 Janeiro | 10h30

Cartaxo | Centro Cultural Município do Cartaxo

Duração: 2h | Público Alvo: 9 aos 12 anos | Monitor: Sara Franqueira e Patrícia Maya

Um museu pode ser uma colecção de objectos expostos. E esses objectos são obras de

arte. Mas se as obras de arte também são objectos, como é que os objectos podem

tornar-se obras de arte? Este museu é dos dias úteis porque os objectos expostos são

objectos úteis. Museu dos Dias Úteis é uma oficina sobre a relação entre as

metodologias de exposição e os conceitos de arte conceptual, tomando como matériaprima

os objectos de cada participante. O objectivo será criar um museu de cada

grupo com os objectos de cada um.

Gémeo Luís

Gémeo Luís

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Hélder Cardoso

MULTIDISCIPLINAR

VALE

Um espectáculo de Arte Comunitária

Com Dança e Música ao vivo

dança-teatro | música | arte comunitária [Portugal]

Sexta e Sábado, 04 e 05 Dezembro | 21h30

Domingo, 06 Dezembro | 16h00

Santarém | Teatro Sá da Bandeira

Sábado, 12 Dezembro | 21h30

Domingo, 13 Dezembro | 16h00

Montijo | Cinema-Teatro Joaquim D’Almeida

Sábado, 19 Dezembro | 21h30

Domingo, 20 Dezembro | 16h00

Cartaxo | Centro Cultural Município do Cartaxo

Sábado, 09 Janeiro | 21h30

Domingo, 10 Janeiro | 16h00

Alcanena | Cine-Teatro São Pedro

Sábado, 16 Janeiro | 21h30

Domingo, 17 Janeiro | 16h00

Sobral de Monte Agraço | Cine-Teatro do Sobral de Monte Agraço

Sábado, 23 Janeiro | 21h30

Domingo, 24 Janeiro | 16h00

Torres Vedras | Teatro-Cine de Torres Vedras

Sábado, 06 Fevereiro | 21h30

Domingo, 07 Fevereiro | 16h00

Externato Cooperativo da Benedita | Centro Cultural Gonçalves Sapinho

Sábado, 13 Fevereiro | 21h30

Domingo, 14 Fevereiro | 16h00

Barreiro | Auditório Municipal Augusto Cabrita

Sábado, 27 Fevereiro | 21h30

Domingo, 28 Fevereiro | 16h00

Abrantes | Cine-Teatro S. Pedro

Sábado, 06 Março | 21h30

Domingo, 07 Março | 16h00

Caldas da Rainha | Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha

Sábado, 13 Março | 21h30

Domingo, 14 Março | 16h00

Alcobaça | Cine-Teatro de Alcobaça

Sábado, 20 Março | 21h30

Domingo, 21 Março | 16h00

Almada | Auditório Fernando Lopes Graça

Sábado, 27 Março | 21h30

Domingo, 28 Março | 16h00

Palmela | Cine-Teatro São João

Duração: 75min. | Público Alvo: m/6 anos

VALE é um espectáculo coreográfico e musical que mobiliza 14 intérpretes, vindos da

dança, do teatro e da música, e 40 participantes locais. VALE cria, com a sua dinâmica

laboratorial, espaços de encontro e trabalho regular entre artistas e as populações.

VALE é um projecto de criação artística regional que parte do património dos lugares e

das gentes do Vale do Tejo e se conjuga com os teatros e as comunidades onde estes,

hoje, se integram.

Nesta terra onde o rio é mar aprendemos que a pele tem flor, que o gado tem vida de

homem, que os lençóis são de água escura, que as pedras se rebentam para fazer

nascer as oliveiras, que no tomilho poisam morcegos, que o vento lava, leva e traz.

Este VALE, instalado no algar* do teatro, envolverá então o público e irá transportá-lo

até terras fundas de vaidade e obediência, onde se desafia o medo, onde a água

transborda e inunda, onde sol e a sombra se encontram...

*algar – fenda vertical cravada pela chuva na pedra

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Hélder Cardoso

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