Elas encaram um dos trabalhos mais perigosos e brutos ... - CNM/CUT

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Elas encaram um dos trabalhos mais perigosos e brutos ... - CNM/CUT

ConteúdoTrabalho 8Os benefícios de uma semana commais tempo para cuidar da vidaInternet 13Retrato falado de Veja, por LuisNassif, é sucesso na blogosferaCapa 16Num mundo hostil e masculino, elasocupam espaço e têm a preferênciaEntrevista 22Marta, a melhor do mundo, sonhaem jogar por aqui. Mas só sonhaReligião 26Muçulmanos no Brasil superam osestranhamentos e andam com féHistória0A operação de cumplicidade entreas ditaduras assassinas do Cone SulPerfil2Amor de índios une povos (quase)sem tocar em suas velhas tradiçõesCidadania4Um pedacinho do Japão plenamentepreservado no interior do ParanáMúsica 40O samba paulista tem alguma coisaque os outros sambas não têm?Catedralna Praçadas ArmasViagem 44Lima, mais que escala para MachuPichu, tem seus próprios encantosseçõesCartas 4Ponto de Vista 5Resumo 6Pasquale 29Curta essa dica 48Crônica 50joão correia filhoCarta ao LeitorCentrais sindicais estão coletando assinaturas pela redução constitucional da jornadaMomento de evoluirOmundo do trabalho voltou a ser pauta incômoda para as entidadesempresariais. Quatro fatos deixaram nervosos a Fiesp, jornalistas econômicose empresários da mídia: 1) o abaixo-assinado das centrais sindicais paraque o Congresso Nacional aprove a redução da jornada de trabalho para 40horas semanais sem redução de salário; 2) o envio de uma Medida Provisóriado presidente Lula para que o Brasil assine a Convenção 158 da OIT; 3) um projeto de lei dodeputado federal Vicentinho que sugere regras para as terceirizações; e 4) uma ação do MinistérioPúblico do Trabalho contra a Elektro, empresa de energia elétrica, por infringir alei ao contratar serviços terceirizados para executar atividades-fim. Tudo isso é parte de umcaminho constitucional, legítimo dentro de um Estado de direito, e com debate público noParlamento. As centrais enxergam na redução da jornada uma forma de gerar empregos emelhorar a qualidade de vida e da produtividade; o presidente Lula quer que o país respeiteuma convenção internacional; o parlamentar quer uma lei que contenha abusos nas terceirizações;e um procurador, limites aos abusos perante leis já existentes.A reação parece orquestrada por um núcleo estratégico dentro da Fiesp. A revista Examequalificou as propostas como “na contramão do crescimento”. A Folha fez eco em editorial eo Estadão em sua manchete. A “série” havia começado na semana passada, no Jornal Nacional.Em entrevista ao programa Brasil Atual (7h da manhã, na 94,1 FM, Grande São Paulo),o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, sintetizou o pensamento da reação com uma análise surrada,segundo a qual as medidas propostas provocariam perdas de produtividade, dificuldadesde crescimento e seriam ruins para os próprios trabalhadores. Argumento típico do setorhá décadas. Mas o Brasil passa pelo seu melhor momento econômico. O desemprego caiseguidamente, a ciência e as inovações tecnológicas promovem ganhos de produtividade, acada dia surgem novos mi e bilionários. As reivindicações nada mais são que um meio deredistribuir parte dos ganhos de produtividade já gerados, com mais empregos e menos desigualdadesocial. Tudo isso pode se traduzir em retorno para o mercado consumidor e parao crescimento do país. Com um pouco mais de justiça do que nas últimas décadas, quandoapenas uma fatia minguada se apropriava das riquezas que somos capazes de gerar.paulo pepe2008 março REVISTA DO BRASIL


CartasConselho editorialAntônio de Lisboa Amancio Vale(Sinpro-DF); Arilson da Silva (Sindicatodos Bancários do Mato Grosso); ArturHenrique da Silva Santos (CUT-Nacional);Carlos Alberto Grana (CNM-CUT); CarlosRamiro de Castro (Apeoesp); Djalma deOliveira (Sinergia CUT/SP); Edílson dePaula Oliveira (CUT-SP); Edson Cardosode Sá (Sindicato dos Metalúrgicosde Jaguariúna); Ivan Gomes Caetano(Sindicato dos Bancários de Patosde Minas e Região); Isaac do Carmo(Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté);Izidio de Brito Correia (Sindicato dosMetalúrgicos de Sorocaba); José CarlosBortolato (Sindicato dos Trabalhadoresem Empresas Editoras de Livros);José Lopez Feijóo (Sindicato dosMetalúrgicos do ABC); Laercio Alencar(Sindicato dos Bancários do Ceará);Luiz Cláudio Marcolino (Sindicatodos Bancários de São Paulo, Osascoe Região); Marcos Benedito da Silva(Afubesp); Paulo Lage (Sindicato dosQuímicos e Plásticos do ABC); RenatoZulato (Sindicato dos Químicos ePlásticos de São Paulo); Rita Serrano(Sindicato dos Bancários do ABC);Rodrigo Lopes Britto (Sindicato dosBancários de Brasília); Rui Batista Alves(Sindicato das Bebidas de São Paulo);Sebastião Cardozo (Fetec/CUT/SP);Silvia M. de Lima (SindSaúde/SP); VagnerFreitas de Moraes (Contraf-CUT); Valmirmarques da Silva (FEM/SP) Viníciusde Assumpção Silva (Sindicato dosBancários do Rio de Janeiro);Wilson Marques (Sindicato dosEletricitários de Campinas)Diretores responsáveisJosé Lopez FeijóoLuiz Cláudio MarcolinoDiretores financeirosIvone Maria da SilvaTarcísio SecoliInformação que transformaNúcleo de planejamento editorialCláudia Motta, José Eduardo Souza,Krishma Carreira e Paulo SalvadorEditoresPaulo Donizetti de SouzaVander FornazieriAssistente editorialXandra StefanelRevisãoMárcia MeloRedaçãoRua São Bento, 365, 19º andar,Centro, São Paulo, CEP 01011-100Tel. (11) 3241-0008CapaFoto de Paulo PepeDepartamento comercial(11) 3106-9178Adesão ao projeto(11) 3241-0008Atendimento: Claudia ArandaImpressãoBangraf (11) 6940-6400Simetal (11) 4341-5810DistribuiçãoGratuita aos associadosdas entidades participantesTiragem360 mil exemplaresO destinoda verbaParabéns pela reportagem“O petróleoé de quem?”(edição nº 21). Ojornalista RobertoRockmann soubeconduzir o debatesobre a destinaçãodos royalties dopetróleo. Informar corretamente a sociedadeé sobretudo uma responsabilidade cidadã.O texto chama atenção para a distânciaoceânica entre os ganhos arrecadados comos royalties do petróleo e as condições devida das populações nessas regiões tão ricasem recursos naturais estratégicos. A misériamorando ao lado da ostentação. Tudo numaúnica fotografia!Amyra El Khalili, Campos (RJ)amyra.fwb@terra.com.brLeite derramadoA reportagem “O leite derramado” (edição nº20) mostra mais uma vez as manobras usadaspor políticos e partidos para denegrir aimagem do governo. Todos nós somos contraimpostos abusivos, porém temos de ficaratentos, porque a CPMF pesava no bolso dosempresários, dos que têm muito dinheiro, enão no nosso bolso, do povo simples. Querosaber como os empresários e essa minoriaque detém a maior parte do capital destepaís vai fazer para repassar essa grana para opovo, em benefício do povo, como era feitopelo governo. Vamos ficar de olho. Temos deexigir mais e participar mais da política dopaís, somos eleitores acomodados em estadode sono profundo, e enquanto dormimos os“podríticos” agem.Jailson Jerri Nunes, Mauá (SP)jerrinuness@hotmail.comAgenda do BrasilQuero cumprimentar a Revista do Brasilpelas excelentes reportagens, em especialo conteúdo do caderno Agenda do Brasil(encarte da edição nº 20), com análises doministro Luiz Marinho, do professor RicardoCarneiro e do presidente da CUT, ArturHenrique.José Joel Freitas da Luz, Alegrete (RS)dalluz@hotmail.comChega de implicânciaPara que ficar invocando a gramática setodos entendemos o que o sociólogo FernandoHenrique Cardoso quis dizer (Cartas,¿Por que non te callas?, edição 20)? Arevista sempre traz ótimos artigos e nãodeixo de distribuí-la aos que trabalhamcomigo. Nosso país precisa de cidadãosque, independentemente de ideologiaspolíticas, trabalhem pela sua grandeza esaibam reconhecer que o crescimento eo desenvolvimento só serão alcançadosatravés da educação.Carlos Raimundo Megale, Rio Claro (SP)megale@alternativane.com.brLinguagem do preconceitoOportuníssimo o espaço concedido aobrilhante professor Bernardo Kucinski(edição nº 20). Inteligência, clareza e sensode equilíbrio.Moacir Pereira da Costa, Rio de Janeiro (RJ)moampc@globo.comNa ponta do mapaExcelente a reportagem sobre João Pessoa(“Na ponta do mapa”, edição nº 20). Nãoconheço ainda a cidade, mas como futurotécnico em turismo observei que ela foibem explorada e retratada de maneira original.Na seção Carta ao Leitor, porém, arevista pecou ao informar na primeira linha:“Das oito capitais da região (Nordeste)...”A região possui nove estados.Igor Lima Gasparello, Rio das Ostras (RJ)igasparello@yahoo.com.brA luz que faltouNa matéria “A luz que falta” (edição nº 20)– que trata sobre o processo de privatizaçãoda Companhia Energética de São Paulo– a sessão da Assembléia Legislativa doEstado que aprovou o Programa Estadual deDesestatização aconteceu em 26 de junho de1996; em 5 de julho a lei foi sancionada. A Cespfoi fatiada em cinco empresas, sendo três delasde geração de energia.revista@revistadobrasil.netAs mensagens para a Revista do Brasilpodem ser enviadas para o e-mail acima oupara Rua São Bento, 365, 19º andar, Centro,São Paulo, CEP 01011-100. Pede-se que asmensagens venham acompanhadas denome completo, telefone, endereço e e-mailpara contato. REVISTA DO BRASIL março 2008


Ponto de VistaPor Mauro SantayanaO grande enigma chinêsEm 1816, ao regressar da China,lorde Amherst passou pelaIlha de Santa Helena, no Atlântico.Não havia ainda o Canalde Suez, e a rota para a Chinacontornava a África do Sul, seguindoo caminho descoberto pelos portugueses.Os navios se abasteciam ali de água potávele de alimentos. Era também a prisãode Napoleão Bonaparte, depois de tersido derrotado pelos ingleses na batalhade Waterloo. Era a segunda vez que a missãoinglesa fracassara ao tentar estabelecerrelações diplomáticas com o governoimperial da China. A primeira fora conduzidapor lorde McCartney. O motivodos insucessos fora singelo: os ingleses serecusaram a expressar sua obediência aoimperador, mediante a cerimônia do koutou,que era prostrar-se e bater nove vezescom a cabeça no piso.Amherst visitou o prisioneiro. Ao saberque a missão do interlocutor à China forafrustrada, Napoleão fez a observação famosa: “Quando a Chinadespertar, o mundo tremerá”. Sabia do que falava. A China erainquietante realidade. Durante milênios, o “Celeste Império doMeio” estivera tão distante quanto o outro lado da lua. E não erasó a China, eram todos os “amarelos”: japoneses, coreanos, indochineses,que, no fundamental, tinham a mesma forma de ser,pensar e agir.Os ingleses se vingaram da “desfeita” do imperador. A partir demodesta concessão dos chineses, iniciaram o comércio nas costasdo grande país. Favorecidos pela astúcia, incrementaram o usodo ópio (então restrito a alguns potentados) pela população emgeral, mediante o contrabando do narcótico, produzido na Índia,sob controle britânico. Quando o governo chinês percebeu que oópio estava corrompendo e debilitando seu povo, proibiu o consumoe mandou queimar várias toneladas do produto, estocadopelos ingleses em Cantão. Em represália, os ingleses promoveramduas guerras contra a China; a primeira de forma isolada e a segundacom a participação dos franceses.A ocupação da China foi odiosa. Os colonizadores viviam emSoldados deterracota dadinastia Qin, de2,2 mil anosAo fazer a famosaobservação – “Quando aChina despertar, o mundotremerá” –, NapoleãoBonaparte sabia do queestava falandosxcbairros fechados. Nesses bairros era proibidaa entrada de chineses e cães, nessaordem. A exploração do trabalho dos nativosnão se limitava a seu território. Milhareseram “vendidos” pelos traficantesaos países europeus e, por algum tempo,aos Estados Unidos; os homens para oserviço braçal, remunerados a centavospor dia, e as mulheres para os bordéis dasgrandes cidades industriais.Pouco a pouco, e por influência dasidéias ocidentais, alguns intelectuais chinesescomeçaram a se organizar para livrar-seda dinastia submissa, construiruma república e restabelecer a soberania.A primeira organização revolucionária,a T’ung-meng Hui (Liga RevolucionáriaUnida), se fez no Havaí, onde se encontravaa maior concentração de trabalhadoreschineses no exterior. Liderou-a omédico Sun Yat-sen, que proclamaria aRepública em 1912.O grande desenvolvimento econômicoe militar da China, a partir de 1949, com a definitiva vitória deMao Tsé-tung (ou Mao Zedong, conforme nova e discutida grafia),e acelerado pelo seu sucessor Deng Xiaoping, inicia uma grandedesforra histórica. Os chineses, com astúcia, esforço e inteligênciapolítica, prepararam-se nos últimos decênios com o propósito devencer seus adversários, no campo político e econômico – entreeles, o Japão, particularmente cruel na ocupação da Manchúria e deXangai –, e voltar a ser o Grande e Invencível Império do Meio.Os chineses já ocupam, com o comércio e a influência política,grande parte da Ásia e da África. O Japão se inquieta com o crescimentoda China e tem estreitado ligações com os Estados Unidos.Os norte-americanos se encontram sitiados por uma força ponderáveldos chineses: o dinheiro. A China é credora de US$ 1 trilhãodos Estados Unidos. Esse dinheiro, de acordo com a denúncia doex-senador George McGovern, foi gasto na guerra contra o Afeganistãoe o Iraque. À China de hoje não interessa o confronto como Ocidente. Sua estratégia, elaborada por mais de 50 séculos deHistória, tem sido erguer muralhas para sua defesa. A muralha dehoje é a do desenvolvimento industrial – e militar.Mauro Santayana trabalhou nos principais jornais brasileiros desde 1954. Foi colaborador de Tancredo Nevese adido cultural do Brasil em Roma nos anos 80. É colunista do Jornal do Brasil e de diversas publicações2008 março REVISTA DO BRASIL


melhorEstudos comprovam: trabalhar menos de 40 horas por semana reduz osriscos de doenças físicas e mentais, pode gerar empregos, melhorar aprodutividade e a qualidade de vida do trabalhador Por Cida de OliveiraArelação tempo de trabalho equalidade de vida é científicae objeto de estudos internacionais.O mais recente,da Agência de Saúde Públicado governo de Barcelona, na Espanha,está na edição de fevereiro na revista ScandinavianJournal of Work, Environment &Health. Durante um ano, pesquisadoresacompanharam quase 3.000 pessoas devárias profissões e classes sociais. Observaramque rotinas superiores a 40 horas detrabalho por semana prejudicam o sono, etornam homens e mulheres mais vulneráveisà pressão alta, doenças cardiovasculares,ansiedade e depressão, a fumar mais,se alimentar mal. “Os trabalhadores maisvulneráveis são aqueles das empresas de pequenoporte, restaurantes e do comércio”,disse à Revista do Brasil a coordenadora doestudo, Lucia Artazcoz.No Brasil, embora a jornada máxima estabelecidapela Constituição seja de 44 horas,algumas empresas praticam menos,por acordo coletivo. A analista físico-químicaLuciana Freitas, no setor de medicamentosda Bayer, na capital paulista, faz 40horas. Trabalha das 7h às 16h, e ao longo dasemana faz curso de pós-graduação, correnum parque e joga tênis na quadra da empresa.Por entender a importância do tempona rotina, há dois anos investiu numamudança para mais perto do trabalho e “ganhou”outras quatro horas por dia. “Opteipela saúde e qualidade de vida.”O operador de máquinas ClaudionorVieira do Nascimento sentiu diferençasquando a empresa de autopeças em quetrabalha, a Delga, em Diadema (SP), adotouacordos de redução de jornada sem reduçãosalarial. Primeiro para 42 horas, em2002, e depois para 40 horas há pouco maisde um ano. “Havia resistência, a empresareclamava que teria mais custos, perderiacompetitividade”, lembra o operador, integrantedo comitê sindical. Segundo Claudionor,havia menos de 400 empregados em2001 e hoje são cerca de 800. Ele diz nãoter dados que medem níveis de saúde e satisfaçãonem a contabilidade de empresa,mas garante que as mudanças para melhorsão visíveis. “Vejo um ambiente de trabalhomelhor, com menos cara feia. A empresatem praticamente duas vezes mais clientes,conseguiu importantes certificações e osinvestimentos em maquinário são expressivos.Está na cara que não houve prejuízo.Isso prova que jornada menor não trazprejuízo, ao contrário. Basta haver uma boagestão, investimento certo no lugar certo.”Francisco Duarte de Lima, o Alemão,vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicosdo ABC, entrou na Volks em 1985,quando vigoravam as 48 horas semanais.Lembra que entrava na fábrica às 6h e saíaàs 17h, de segunda a sexta. “Como cuidarda vida, da saúde, ficar com a família, estudar?”Hoje, conta, o trabalhador “rala” das6h às 14h55 e consegue estudar, se cuidar,ficar mais tempo com a família. Segundoele, surgiram até faculdades e cursos, comaulas das 16h às 19h30.Exceções e regrasExperiências como essas ainda são exceçõesnum país em que as entidades empresariais,com forte influência na política, resistemem aprimorar direitos, enxergando-osapenas como custos, e não como investimentosque dão retorno. De acordo com oA mente padeceCecília, de Porto Alegre,encarava turnos de 12 horaspara cumprir suas metas,vendendo produtos do banco.Resultado: depressão profundaandréa graiz2008 março REVISTA DO BRASIL


a exceção que deveria ser regra A analista Luciana Freitas cumpre suas40 horas semanais, faz curso de pós-graduação, corre num parque, mudou-se para pertodo trabalho e joga tênis na quadra da empresa: “Optei pela saúde e qualidade de vida”Para muita gente, estresse, dificuldadede concentração e memorização não sãoconsiderados problemas de saúde. MarcoAurélio Cristo, de Belo Horizonte, trabalha40 horas por semana na Cemig. Em tese.Com as aposentadorias e sem a realizaçãode concursos, faltam eletricistas. Ele chegaa fazer perto de 20 horas extras semanais.Aos 35 anos e 17 de empresa, nega problemasde saúde. “Mas quando trabalho a maisfico muito irritado, sem paciência, com dificuldadespara me concentrar e minha memóriafalha muito”, admite.Em 2005, pesquisadores da UniversidadeFederal do Rio Grande do Sul e do CentroUniversitário Metodista de Porto Alegrerevelaram dados de seus estudos comtrabalhadores atendidos no ambulatório deDoenças do Trabalho do Hospital das Clínicasde Porto Alegre. Ali, 70% dos diagnósticosreferem-se a lesões por esforçorepetitivo. Dos entrevistados, 72% trabalhavamde oito a nove horas diárias, 30%faziam horas extras e apenas 16% dos pacientestinham direito a pausas durante odia de trabalho.Doutor em saúde pública, Hermano Castro,do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhadorda Fundação Oswaldo Cruz, noRio de Janeiro, diz que os resultados da pesquisado governo espanhol podem ser aplicadosà realidade brasileira. “Os riscos deLER, de falta de sono, estresse, ansiedade eaté câncer são maiores em longas jornadasgerardo lazzaride trabalho porque os trabalhadores ficamem contato com os agentes causadores durantemais tempo.”A pesquisa, segundo ele, veio sob medidanum momento em que as centrais sindicaisbrasileiras se movimentam numa campanhanacional unificada. Até maio, as centrais esperamrecolher um milhão de assinaturaspela aprovação do Projeto de Emenda Constitucionalque reduz a jornada semanal de trabalho.Leda Leal Ferreira, médica e pesquisadorada Fundação Jorge Duprat Figueiredode Saúde e Segurança do Trabalho (Fundacentro),vinculada ao Ministério do Trabalho,acrescenta que não basta reduzir a jornada emanter o salário. “É preciso que o ritmo detrabalho seja preservado. Se, para compensar,os patrões exigirem que os trabalhadores sejamainda mais rápidos, de nada vai adiantarbaixar para 40 horas”, opina.A auxiliar de produção Florizete MendesBatista, de São Paulo, ficou doente bem antes.Quando completou um ano e 18 dias decontratada, recebeu o diagnóstico de tendiniteno cotovelo e bursite. Por causa dasdores, foi afastada quatro vezes. Sozinha,com dois filhos para criar e aluguel para pagar,tinha de se submeter a um ritmo intensode trabalho e de movimentos repetidosque começava às 6h e ia até às 14h. “Paramostrar serviço e assim garantir o emprego,nem fazia as pausas para café e ir ao banheiro”,conta.A auxiliar de produção Eliane Ribeiro daSilva, 28 anos, trabalhou dois anos e trêsmeses operando máquinas que produziamcosméticos para as grandes marcas do mercado.Entrava às 18h e saía às 6h, de domingoa domingo. Mesmo recebendo horasextras nos fins de semana, muitas vezesfolgava por conta própria e assumia o riscoda cara feia do chefe na segunda-feira.Depois de voltar de uma licença médica decinco dias, em agosto passado, foi impedidade entrar na fábrica. O chefe do RHfoi grosseiro com ela por ter testemunhadona Justiça a favor de uma antiga encarregada,e forçou-a a assinar um pedido dedemissão. Eliane não assinou. Hoje se tratanum centro de referência em saúde dotrabalhador e acompanha de perto a açãoque move contra a empresa. “Sinto doresao mínimo esforço e tem noites que nemconsigo dormir.”Maria Maeno, pesquisadora da Fundacentro,observa que as LER e os DistúrbiosOsteomusculares Relacionados ao Trabalho(Dort) constituem metade dos registros2008 março REVISTA DO BRASIL 11


mídiaO escândaloFabio Pozzebom/ABrO governo Lula tem o portal de gastos mais detalhado e transparente detodos os tempos. Mas parte da mídia tenta passar a idéia de que o governoé o mais leniente e corrupto de todos os tempos. Uma inversão espetaculardo sentido dos fatos Por Bernardo KucinskiDos muitos abusos com cartõescorporativos denunciadospela imprensa, o maissignificativo foi a redecoraçãodo apartamento do reitorda Universidade de Brasília, com R$ 470mil de um fundo de apoio a pesquisas. Dariapara comprar um apartamento de trêsquartos em Copacabana, lembrou na Folha opoeta Ferreira Gullar. O reitor pagou R$ 859por um saca-rolhas, R$ 7.100 por um fogão.“Quantas bocas terá esse fogão?”, ironizou opoeta. Um fundo de pesquisa nunca deveriaser usado para reformar um apartamento.Ao defender esses gastos, o reitor personificouo que os sociólogos chamam de “elite patrimonialista”,que se apropria do patrimôniopúblico como se fosse particular.Mas a maioria dos abusos com cartões233milhões dereaisfoi quanto ogovernoFHCconsumiuem 200214 REVISTA DO BRASIL março 2008corporativos denunciados pela mídia resultoude esquecimentos, pequenos enganosou deslizes patrimonialistas isolados, comoa reforma de uma mesa de bilhar de uso recreativode funcionários. Não foram gastossistemáticos, como os do reitor. Foram exceção,não regra. Ocorreu uma espécie de corrupçãodas denúncias contra corrupção. Oexemplo mais gritante foi o da revista Veja,que falseou estatísticas para convencer o leitorde que no governo Lula instalou-se umafarra com cartões corporativos.Veja montou um gigantesco gráfico comas curvas dos saques partindo quase dozero no mandato de Fernando Henrique esubindo, vertiginosamente, para chegar aR$ 58 milhões no governo Lula. No pontobaixo da curva colocou uma foto de FHCe, no seu pico, uma de Lula, destacando:Três pesos evárias medidas24%foi a redução nos gastos, entre o último ano de FHCe o ano passado, incluindo saques e faturas do cartãocorporativo e contas bancárias tipo B. Os númerosdo governo Lula estão expostos ao público nainternet. A Veja, malandramente (abaixo), deixou ototal de gastos em segundo plano“Aumento no total de saques no governolula: 2.000%”.A verdade é que os gastos totais por servidorescaíram de R$ 233 milhões no últimoano do governo de Fernando Henriquepara R$ 177 milhões no ano passado. O queo governo Lula fez foi acelerar o processode substituição das antigas contas tipoB, que não são transparentes e podem serfraudadas, por cartões corporativos. Estesemitem automaticamente extrato detalhadodos gastos e são à prova de fraude. Alémdisso, Lula reduziu em escala maior aindaos pagamentos com cheques e criou o Portalda Transparência, que permite a todos osbrasileiros detectar todo e qualquer gastocom fundos de provisão do governo. Confiravocê mesmo em www.portaldatransparencia.gov.br.reprodução177milhõesde reais foiquanto ogovernoLulaconsumiuem 2007Ricardo Stuckert/PR


Tudo em famíliaGislene da Silva de Souza, de 33 anos,gaba-se de nunca ter quebrado um retrovisor,mas já passou por dois acidentes querenderam lesões na clavícula e no joelho.Quando Gislene começou, em Cotia, naGrande São Paulo, quase não havia mulheresna atividade. “Ainda são poucas, masmuito mais do que há nove anos”, avalia.“A gente até evita mostrar que é mulherporque é arriscado. Os motoboys são muitounidos para ajudar na hora que vocêprecisa, mas há aqueles que se unem paraa violência”, afirma a motogirl, que já foiroubada duas vezes. “Uma vez conseguiminha moto de volta no mesmo dia. E sóespalhar que sua moto foi roubada e falarcomo é o baú. O ladrão me cobrou R$ 500de ‘resgate’.”Gislene brinca que a profissão está nosangue, pois já entrou na Moto Souza amparadapela irmã e por outros três irmãosmotoboys, um deles dono da empresa. “Atémeu netinho adora quando a gente o colocaem cima da moto.” A irmã Geane, 35anos, integra o QG da família há 12 e valorizao trabalho: “Não fico presa e conheçoum monte de gente. Os motoboys meconhecem e respeitam, acham engraçadomulher fazer entrega. Meu marido e minhafilha mais nova pedem para eu mudarde ramo, mas não me vejo trabalhando emempresa fechada”.Geane vê perigo por todos os lados, masnunca levou tombo. “Minha irmã tira sarroe diz que sou devagar, mas não é isso. Agente é bem diferente, eu gosto de capacetee capa de chuva cor-de-rosa, a Gislene não.”A dificuldade de Geane é quando a motoquebra: “Aí, não tem jeito, tenho de esperarajuda dos colegas”, ri.As irmãs parecem enciumar o mercado:em vez dos R$ 5,50 por hora que as agênciascostumam pagar, tiram R$ 9, já que a empresaé da família. “Mesmo assim temos muitogasto com gasolina, óleo e tem de pagar oINSS para garantir a aposentadoria”, ensina.Thaís Clemente também nãose queixa dos vencimentos. FaturaR$ 2.000 mensais, emmédia, pois, além de atenderempresas por contrato,faz uns bicos no diaa-dia.“Meu marido emeus três filhos ficamapreensivos, mas no finaldo mês esse trabalhopaga as minhas contas.”18 REVISTA DO BRASIL março 2008


São raras as mulheres dispostas a enfrentaras intempéries do tempo, do trânsito e daviolência. Em Curitiba, elas não chegam a50 em meio a 20 mil motofretistas.“As mulheres engravidam, têm TPM, casam,não têm perfil para esse trabalho fulltime. Por outro lado, os homens bebemnum dia e no outro faltam, não se preocupamcom aparência e nem sempre são educados.Colocando na balança, elas são melhores,prestam um serviço diferenciado, epor isso recebem mais”, explica ConstantinoMarques, irmão de Diogo e primeirodono da Penélope Express.A informalidade é quase absoluta no setore na maioria das cidades não há regulamentaçãoda profissão, em geral é precisoter veículo próprio, além de pagar o combustível,a manutenção e, caso aconteçaalgo com a entrega, arcar com a responsabilidade.O seguro é inviável, chega a custarquase a metade do valor do veículo. “Nãocompensa”, reclama Gislene de Souza.gasolina No sangueOs Souza estão no ramo de motofrete há 12anos. Gislene (à dir.) cruza a Grande São Paulosobre duas rodas há nove anos e diz que oneto “já leva jeito”. Geane (à esq.) não seimagina em outro trabalhoO presidente do Sindicato dos Motoentregadoresde Curitiba, Tito Mori, confirmaque as mulheres, apesar de serem minoria,têm a preferência das empresas, porisso a remuneração já é melhor. “Enquantoo homem consegue receber por volta de R$1.000 por mês, incluindo comissão, a mulherchega a R$ 1.300.” Difícil é contratar.fotos paulo pepeMala na garupaSobre duas rodas, elas não fazem apenasserviços de banco ou entregas de documentos.Em algumas regiões, no lugardo baú vai um passageiro. Viviane de AlmeidaTrindade, de 21 anos, é mototaxistaem Presidente Prudente (SP). Diz ter sidoa última opção e que sairá dela assim queconseguir um emprego razoável. Comparadocom o das motominas, nesse trabalhoa pressa é menor mas os riscos do trânsito,semelhantes. A ele se soma o assédio. “Seum cara começa com gracinha já falo logoque vou parar a moto e ele vai ter de descer.Uma vez, um falou que ia me dar R$ 10 parapassar a mão em mim. Fiquei muitobrava, parei e mandei o cara descer.Ele prometeu parar, e eu acabeifazendo a corrida”, conta. Tambémafirma ser comum levar pessoas bêbadase drogadas. “É perigoso. Tempoucas mulheres, porque a maiorianão tem coragem. E com razão.”A corrida dentro da cidade sai deR$ 3 a R$ 8 e ela faz em média setepor dia. Quando conversou com areportagem, tinha ganhado R$ 33,mas ficou com R$ 19, pois teve de pagaro combustível e o dono do ponto,que cobra R$ 8 diários. “Estou nessaporque preciso mesmo. No trânsitoninguém respeita ninguém. Já sofridois acidentes e uma amiga foi assaltadaduas vezes em uma semana,numa delas pelo próprio passageiro.”Em Fortaleza, onde o serviço de mototáxié bastante comum, Ana Paula Garcia,de 23 anos, subiu em sua moto paraganhar dinheiro. Cadastrou o veículo naprefeitura em 2005 e começou a percorrerConjunto Ceará, Bonsucesso e GranjaPortugal, na periferia, perto de onde mora2008 março REVISTA DO BRASIL 19


Risco constanteAcontecem por ano no Brasil 135 milacidentes envolvendo motocicletas e maisde 3.000 acabam em morte. De acordocom Ricardo Xavier, diretor da Líder, queadministra o consórcio de seguradorasparticipantes do Seguro Obrigatório deDanos Pessoais Causados por VeículosAutomotores de Vias Terrestres (Dpvat),essa exposição maior aos riscos provocouaumento de 38,25% no valor do Dpvat paramotocicletas este ano. O seguro obrigatóriodeve ser pago por todos os proprietáriosde veículos. Serve para indenizar casosde morte ou invalidez e despesas deassistência médica e suplementaresdecorrentes de acidentes. Não hácobertura de danos materiais. Em caso deacidente, a vítima ou seu representantelegal deve reunir documentos e provase procurar uma seguradora associadamais próxima. Encontre a relação dessascompanhias e mais informações emwww.dpvatseguro.com.br.– tem medo de encarar o centro da cidade.Mesmo assim chega a tirar R$ 1.200.“É muito bom, mas tem de trabalhar muito,das 8h às 20h. À noite eu não ia, é muitoperigoso. Eu preferia ser motogirl porquemototáxi leva gente desconhecida enunca se sabe o que podem fazer. Pedia aDeus todos os dias para voltar para casa.”Ana Paula ficou seis meses no trabalho,até engravidar. “Imagina andar de motocom aquele buchão! Não dá.” Ela quer voltar,mas falta convencer o marido. “Ele nãoquer que eu volte. Mas quero trabalhar, ébom ter dinheiro.”Tão bom que a “penélope” Thaís quermontar sua própria empresa. “Não sócom mulher, quero dar oportunidadepara os homens também, apesar de seremmenos prudentes.” Assim como AnaPaula, que foi chamada para ser garotapropagandado Sindicato dos Mototaxistasde Fortaleza, Thaís é vaidosa. Antesde descer da moto sempre confere o visualno retrovisor. “Arrumo o cabelo eme preocupo com a aparência. Sou muitofeminina, gosto de salto alto e nuncauso tênis. É comum motoboys mexeremcomigo. Gritam ‘ô, lá em casa’, e daí prabaixo. Também já me mandaram pilotarfogão. Levo numa boa, para não arranjarconfusão”, ensina, observando que essasgrosserias não são exclusividade de motoboys,também vêm de taxistas, caminhoneirose demais motoristas.“Existe uma generalização dessa famados motoqueiros e principalmente dosmotoboys. Mas a imprudência no trânsitoé geral. As pessoas têm de perceber queprecisam de nós porque é um dos serviçosmais baratos e rápidos que existem.” E lembrao compositor Lenine: “Motoqueiro, caminhão,pedestre, carro importado, carronacional. Todo mundo tem direito à vida,todo mundo tem direito igual”.Colaborou Viviane ClaudinoPronta para voltarAna Paula, de Fortaleza,parou quando engravidoude Cauã e agora quervoltar ao trabalhoPanela JR.20 REVISTA DO BRASIL março 2008


meio ambienteDicas1. Use seu computador sempre quenecessário, mas apenas o necessário. Éum equipamento que consome energiaelétrica, cuja produção emite gasesde efeito estufa e contribui para oaquecimento global.2. Desligue o PC quando não estiver emuso. Sempre que se ausentar por maisde meia hora, vale a pena desligar ocomputador. No decorrer de um ano, aeconomia durante uma hora de almoço/dia será de 60 kwh, ou 18 quilos de CO 2a menos.Computadores decabeça quenteInformática responde por 2% da emissão mundialde CO2. Se nada for feito, emissões ainda crescerãoDesde seu surgimento os computadoresficaram menores emais velozes. Mas toda essarapidez teve como resultadomáquinas com alto consumoenergético, que ao funcionar precisam serrefrigeradas, com maior dispêndio de energia.Uma pesquisa da empresa de consultoriaGartner Group revela que a área de tecnologiada informação já é responsável por2% de todas as emissões de CO 2 (dióxido decarbono) na atmosfera e, caso nada seja feito,essas emissões tendem a crescer de 5%a 10% ao ano. Segundo Marcel Saraiva, gerentede produtos da Intel para servidoresna América Latina, foi em 2005 que a indústriada informática despertou para o grandeconsumo de eletricidade dos computadores.“Para cada real gasto com energia, precisavade outro real de energia para a refrigeraçãodos equipamentos.” A preocupação começounas grandes empresas. Um computadordoméstico consome pouca energia se comparadoao gasto total de uma casa. Mas, sepensarmos na enorme quantidade de computadoresespalhados pelas casas do Brasil edo mundo todo, a conta muda de figura.Até poucos anos atrás um artigo de luxo, ocomputador pessoal se tornou comum nasresidências. Nos EUA, em 2006, foram vendidosmais PCs do que aparelhos de televisão.Os impactos ambientais da produção,compra, uso e descarte de computadorescada vez mais entram na ordem do dia.Segundo a Associação Brasileira da IndústriaElétrica e Eletrônica, a estimativa éque as vendas de PCs para o mercado brasileirotenham atingido 10,1 milhões de unidadesem 2007, aumento de 23% em relaçãoa 2006. Para os notebooks, é estimado umcrescimento de 211% e vendas de 2,1 milhõesde unidades. Os preços caíram 14%nos últimos seis anos, segundo a AssociaçãoNacional de Fabricantes de ProdutosEletroeletrônicos. A entidade calcula que19% dos lares brasileiros têm um microcomputador.A média é superior à mundial,de 17%. Nos EUA, 80% das residências estãoequipadas com microcomputadores.O Brasil possui 40 milhões de computadoresem uso corporativo e doméstico, deacordo com pesquisa do Centro de Tecnologiada Informação Aplicada da FundaçãoGetulio Vargas de São Paulo. O mesmo relatórioestima que em 2010 o país terá 60milhões de computadores.Texto produzido e cedido pelo InstitutoAkatu pelo Consumo Conscientewww.akatu.com.brsxc3. Desligue o monitor quando for deixá-loinativo por mais de 15 minutos..4. Configure o computador paraeconomizar energia. No Windows, acesse,no menu Iniciar, “Painel de Controle/Vídeo/ Proteção de Tela”. Lá é possíveldefinir esquemas de consumo de energia.5. Desligue o computador e todos osperiféricos da tomada quando nãoestiverem em uso.6. Diga não ao lixo eletrônico. Não enviedesnecessariamente spams e correntesque congestionam caixas postais epoluem o mundo on-line, levando a umuso mais intenso e desnecessário doscomputadores.7. Se seu computador quebrar, penseem consertá-lo, em vez de trocá-lo porum novo. Segundo a Universidade dasNações Unidas (UNU), um computadorcomum pesa 24 quilos em média, eemprega ao menos dez vezes seu pesoem combustíveis fósseis.8. Não se deixe fascinar pelas novidades.O melhor computador é aquele queatende às suas reais necessidades e podenão ter nada a ver com o computadorcuja publicidade afirma ser o melhor.9. Pesquise e conheça os equipamentosque consomem menos energia. Compareo consumo dos aparelhos antes decomprar. Normalmente, equipamentosque gastam menos eletricidade têm ologotipo da Energy Star.10. Se for preciso comprar um novomonitor, dê preferência aos de cristallíquido (LCD), em lugar dos monitores detubo (chamados CRT).11. Se estiver mesmo decidido a comprarum novo computador, cuide para que ovelho não vá parar no lixão. Você podedoá-lo para algum parente ou amigo. Ouentregá-lo a entidades que reaproveitemsuas partes.2008 março REVISTA DO BRASIL 21


As pessoasfalavam pra minhamãe: “Como vocêpode deixar suafilha jogar no meiode garotos?” E eusempre falava pramim mesma: “Issonão vai me fazerdesistir”Andreas Meier/REUTERS2008 março REVISTA DO BRASIL 23


Está mais que nahora de ganhar o ouro nasOlimpíadas, mas primeiroa gente precisa conseguira classificação. Tem umjogo, em abril, contra Gana.Quem ganhar vaiSua cidade é pequena. Como você lidava com as pessoas,como as pessoas falavam com você?Olha, foi uma época dolorida. Desde pequena eu sempre sonheiem ser jogadora, sempre quis chegar aonde estou, sempre quis mostrara mim mesma que eu seria importante. Nem minha família viafuturo para mim. As pessoas diziam para meus irmãos ou minhamãe: “Como é que você pode deixar sua filha jogar no meio de garotos,não sabe o que acontece, o que falam para ela?” Passei dificuldade,mas sempre pensei positivo: “Isso não vai me fazer desistir”.Você nunca pensou em fazer nada a não ser jogar futebol?Não. Nunca passou pela minha cabeça. Eu era fissurada. Nãogostava de acordar cedo, mas nos dias de treino a gente começavaàs 6 da manhã, porque mais tarde fazia muito calor; e até hoje faz.Treinava numa quadra de futsal que era aberta, e ainda é. A genteestá até pensando em fazer um ginásio. O governador disse quequando eu voltar, em dezembro, será inaugurado um estádio quevai ter meu nome. A gente sempre acordava de manhãzinha e saíabatendo na porta dos meninos – quem acordava primeiro ia acordandoos outros. Eu sempre, sempre, sempre pensei nisso. Quandovia jogos de futebol, eu sentava no sofá de casa e falava: “Mãe, umdia vou estar lá na televisão e a senhora vai me ver daqui”. E ela: “Ah,pára de sonhar assim, pára de ser boba”. Hoje, quando fala sobreisso, ela nem consegue terminar a frase, começa a chorar.Você chegou a jogar em algum time de lá antes de ir para o Rio?Comecei aos 10 anos, por aí, a jogar futsal num time de garotos.Era um time do colégio, e a gente costumava disputar jogos intercolegiais.Eu já andava com os meninos, nessa época. Depois dosmeus 12 anos comecei a jogar futebol de campo no CSA, com algunsprimos meus. Eu era a única mulherE como você foi parar no Vasco?Na época que eu jogava futsal, tinha um rapaz do Rio de Janeiro quemorava havia alguns anos perto da minha cidade. Ele tinha me visto jogare me propôs fazer um teste no Vasco, que em 2000 era uma equipemuito boa, praticamente a base da seleção feminina, e foi aí que resolviir para o Rio e tentar realizar meu sonho de chegar à seleção e me tornaruma grande jogadora.Por que o futebol feminino não deslanchou no Brasil?Nós somos o país do futebol masculino. O feminino fica meiorestrito e tem aquela coisa também do machismo, nem clubes, nemempresas mostram interesse, isso dificulta. O desempenho no Pane no Mundial mexeu um pouco. Alguns clubes falaram em montarequipes. Mas a gente não pode ficar esperando isso acontecer. Ficadifícil contar com promessas, com uma estrutura que não existe. E,como não há uma liga nacional de futebol feminino, fica difícil.Rubens Cavallari/Folha ImagemTem de ser alguma coisa que funcione fora da CBF?Tem de ser alguma coisa concreta, né?Você tem contato com jogadoras no Brasil, acompanha comoestão as mulheres que gostariam de viver do futebol?Olha, é meio complicado, sabe? Algumas meninas aí no Brasil,que fazem parte da seleção, têm de estudar, trabalhar e ainda tentartreinar por conta própria, para se manter em forma. É isso oque normalmente acontece.24 REVISTA DO BRASIL março 2008


O jogador pensa em parar por volta dos 35 anos. E a jogadora,como é sua relação com seu tempo de atividade?Já presenciei atletas que jogaram até os 34 anos e até hoje aindajogam. Aqui mesmo, na Suécia, algumas fazem isso. Para as mulheresé mais difícil, normalmente elas param quando estão chegandoaos 30, porque têm planos de mudar, constituir família, ter filhos.Existe por parte de vocês e dos profissionais que as acompanhamalguma preocupação com o impacto do esporte no corpo,em como continuar inteiras depois dos 30?Há muita preparação física, muita musculação, porque mulhertem maior facilidade de se machucar do que homem, principalmenteno período pré-menstrual. Precisamos ter uma preparaçãomelhor que a dos homens, para ter um nível bom, nos protegercontra lesões e não vir a ter nenhum problema depois dos 30.E você tem planos? A gente está precisando de fornecedor,porque os craques aqui estão acabando...(Risos) Quando eu achar que está na hora de parar... Poucas mulheresnão pensam em ter filhos. Eu gosto muito de criança, então...E qual é sua expectativa de alcançar, nas Olimpíadas, o ouroque os homens ainda não conseguiram?A gente vem buscando isso há muito tempo. Somos bicampeãspan-americanas, chegamos a duas grandes finais, as Olimpíadas em2004 e o Mundial em 2007. Agora, mais do que nunca, é hora deficarmos em primeiro lugar, mundialmente. Mas, primeiro, precisamosconseguir a classificação para as Olimpíadas. Tem um jogo,em abril, contra uma equipe da África (a seleção de Gana), e é umjogo só. Quem ganhar vai. Então, primeiro, é preciso pensar nessejogo, para chegar lá. Eu não tenho muitas notícias pelo fato deestar aqui, mas soube por algumas meninas da seleção que agoraem março tem uma convocação e, dia 19, elas se apresentam paraesse jogo classificatório.E quando é que você volta a jogar no Brasil?Eu tenho um sonho de encerrar minha carreira aí, no futebolbrasileiro, só que com a estrutura do futebol feminino daí...Ser a melhor do mundo é um peso ou um grande prazer?Sempre sonhei em chegar aqui, ser a melhor do mundo, não é umpeso. Não entro em campo pensando se sou a melhor do mundo,porque na verdade eu jogo coletivamente, não faço nada sozinha.Você tem contato com Ronaldo? Conversa com ele sobre asrazões de tantas lesões?O agente dele é meu agente também, então falamos muito. O porquêde tantas lesões não tem resposta. É a sétima vez que o Ronaldose machuca. O que nos resta é ficar na torcida para que ele se recupere,porque é um grande jogador e uma pessoa excepcional.Quando você entra em campo tem a preocupação de se preservar,fugir da pancada? Existe esse medo?Não tenho esse pânico, não. São coisas que acontecem em detalhesque você nunca imagina. Com a Elaine, que joga aqui comigo,aconteceu assim, em questão de segundos, um lance muito rápido.Eu estava ao lado dela e nem imaginava que ela pudesse ter rompidoos ligamentos disso e daquilo. Foi uma coisa muito boba, e ela vaificar seis meses parada. São coisas que acontecem, a gente não temcontrole sobre elas. Quando têm de acontecer, acontecem.A seleção feminina não poderia fazer jogos-treino contra a seleçãomasculina? Ou pegaria mal humilhar os rapazes?Não tem como, até porque a condição física é bem diferente, émuito arriscado, então a gente não conseguiria. Mas as meninas aíno Brasil costumam jogar contra as equipes masculinas, do Fluminense,do Friburguense, do Flamengo, equipes sub-15, sub-17,algo assim. Eu já joguei várias vezes.E a vontade de reforçar o ataque do Corinthians?(Risos) Eu gostaria muito, até porque sou corintiana de coração,mas mesmo a gente tendo toda essa agilidade, essa habilidade, ficaum pouco atrás na parte física. E o homem não vai querer perderpara uma mulher, não vai querer tomar um drible de uma mulher,então essas coisas pesam bastante pro nosso lado.E este apelido, Pelé de Saias?(Risos) No meu primeiro ano aqui na Suécia, fui jogar no estádioonde ocorreu a final da Copa de 1958, quando o Brasil ganhou – equando surgiu o Pelé. Vim jogar as semifinais da Copa da Uefa, ea gente conseguiu passar à final, que foi lá estádio. Ganhamos, eufiz dois gols e dei o passe para o terceiro. Então começaram a mecomparar com o que viram na Copa de 1958. Hoje as pessoas jáestão acostumadas com minha presença, me conhecem e me cumprimentamcomo se eu fosse uma pessoa normal: “Oi, Marta, tudobem? Quando é que vai ter jogo?” Está bem tranqüilo. Quando agente vai para as outras cidades o assédio é maior, muita gente pedindoautógrafo. Os jogos terminam e você fica lá, para dar autógrafo,uma, duas horas...Crescida no calor de Alagoas e do Rio de Janeiro, o que vocêfaz, quando não está trabalhando, para driblar o frio?Às vezes vou para casa de algum amigo, ver um filme. Ou ficona internet, converso com meus amigos, ligo pra casa, enfim, nãotem muita coisa pra fazer nessa época, até porque tem treino todosos dias. Se você quer fazer uma outra atividade, não vai conseguirtreinar no dia seguinte. E exatamente nesta época, duas vezes porsemana, às terças e quartas, a gente treina em dois períodos, e sábadotambém. Então, você chega em casa, só dá tempo de almoçar,descansar um pouco e já sair para o treino da tarde. É puxado.Sobra a noite para descansar mais, conversar com amigos na internet.Eu costumo jogar muito PlayStation, tenho algumas sériesbrasileiras para ver, uns filmes brasileiros que já vi umas três, quatrovezes. Eu gosto bastante d’O Auto da Compadecida e ganheiuma minissérie que já tem alguns anos, a Hilda Furacão. Às vezesamigos trazem alguns filmes com legenda em português, e a gentevai se virando de alguma forma.Do que você mais sente falta do Brasil?Da comida, né? Mas, como eu como de tudo, pra mim está tranqüilocom relação à comida. A gente sente falta de comer feijão, acomida bem típica mesmo do Brasil. E do calor. Aqui comemosmuita pasta, macarrão, massa, batata, ovo, salada. De vez em quandotem uma feijoadazinha aqui. A Elaine, quando está disposta, ligano fim de semana: “Vem pra cá, vamos fazer uma feijoada”. A gentese reúne e come um feijãozinho. É aí que matamos a saudade.2008 março REVISTA DO BRASIL 25


eligiãoOpçãopelovéuO islamismo cresce nomundo e no Brasil. Osincretismo religiosobrasileiro facilita aadaptação dos fiéislocais, mas nãolivra os devotos doestranhamento e dacuriosidade alheiosPor Giedre MouraFotos João Correia FilhoEstá escrito: “Diga às mulheresde fé que devem manter baixosos olhos e não revelar seusadornos... e que devem cobrirseus seios com véu” (Alcorão,Surata 24:31). Magda Aref sabe disso. Tem30 anos e desde os 15 só sai de casa vestidados pés à cabeça. Da porta para fora estásempre de braços cobertos e cabelos escondidossob tecido. Assim cursou quase todoo colégio e Ciências Sociais na Universidadede São Paulo. Assim vai ao banco, aosupermercado, leva as filhas à escola, visitaamigos. Pouco importa se desperta atenções.O que quer é estar próxima de Deus.Magda faz parte da comunidade islâmica,em alta no Brasil e no mundo, com 1,5 bilhãode praticantes. Embora o último censo doIBGE tenha apontado a existência de 30 milmuçulmanos no início da década, líderes religiososestimam que por aqui já sejam maisde 1 milhão. Para Magda, se comportar e andarcom recato e assistir às cerimônias religiosasem ambiente separado dos homensnão são sinais de desigualdade, mas de respeito.“Fazem confusão, como se todos desrespeitassemas mulheres e estivessem envolvidoscom terrorismo. É uma minoria, egente assim infelizmente existe em toda parte,independentemente da crença.”26 REVISTA DO BRASIL março 2008


Alcorão à riscaSamara Abdouni,(à esq.): “Sei quetodo mundo olhapra mim, emboraa intenção sejao contrário, nãochamar atenção”sem comer e beber de dia durante um mês,na primeira semana tenho de explicar notrabalho por que não vou almoçar; depoisse acostumam”, conta Anderson Cunha, 18anos, que pratica o jejum desde os 14.FidelidadeO primeiro pilar do Islã é o fiel declararque não existe outra divindade alémde Deus e que Mohammad é seu profetamensageiro. Assim, com essa frase dita empoucos segundos, a conversão está efetuada.Para um cristão que deseja se converterao Islã será preciso, a partir desse instante,ver Cristo como um bom homem, masnão mais como filho de Deus. “Dizem quese converter ao Islã é fácil, pois basta falaruma frase. Mas, na verdade, a declaraçãoé apenas algo que só deve ocorrer quandoa pessoa realmente sente que está prontapara seguir o que diz. O Islã pede uma novavida”, afirma Nasereddin Al-Khazraji, dirigentedo Centro Islâmico do Brasil.O português perfeito de Naser não deixatransparecer, de imediato, seu elo com aterra natal. Ele veio do Irã aos 7 anos com opai, o xeque Taleb Hussein Al-Khazraji, quehá 19 anos atua numa mesquita no bairropaulistano do Brás. Em qualquer mesquita,em qualquer lugar do mundo, a cerimôniaoficial deve ser feita em árabe, a línguasagrada para o Islã. Por isso a maior partedos centros religiosos muçulmanos ministracursos do idioma. Naser mantém a proximidadecom sua origem não só falandoem persa com o pai. A mãe e cinco de suasseis irmãs ficaram por lá. A noiva também.Com apenas 26 anos, ele vive em funçãodo Islã. Durante o Ramadã, nono mês docalendário lunar islâmico, sem data fixa, éresponsável por coordenar a oferta do jantarde desjejum diariamente para pelo menos200 pessoas.Naser atua ainda na certificação da comidahalal, produzida de acordo com os ritosislâmicos. Muçulmanos não comem carnede porco e a carne de vaca ou de aves pedeum abate especial. O animal deve ficar emdireção a Meca, ser abatido por um religiosoe ter o sangue escorrido, pois a crençatambém veta ingestão de sangue. A empresade Naser analisa procedimentos dosfornecedores e os libera para vender paraa comunidade islâmica local e para exportar.Isso não é novidade para a indústriaalimentícia brasileira. A Sadia, por exemplo,exporta carne halal para países árabesmuçulmanos há mais de 30 anos.Os muçulmanos vieram para o Brasiljunto com a onda de imigrações do séculopassado, a maioria descendente de sírios elibaneses, mas nas cerimônias também podemser observados grupos de países africanosque imigraram mais recentemente. Amaior população de muçulmanos no Brasilvive na Grande São Paulo. Foz do Iguaçu(PR) e outras cidades do Sul também sãofocos expressivos da cultura.Um mundo diferenteDesde que decidiu seguir à risca as palavrasdo Alcorão, o livro sagrado dos islâmi-O rigor no vestir das mulheres chamaatenção, mas a religião criada pelo profetaMohammad, ou Maomé, no século 7, temoutros fortes pilares que todo fiel deve seguir.Saber sempre a direção da sagrada cidadede Meca é fundamental. É para lá que o fieldeve se voltar de joelhos cinco vezes ao diae realizar a Salat, como chamam as orações.Todo muçulmano que puder deve peregrinarpara Meca ao menos uma vez na vida,cumprindo o ritual do Hajj. Outros pilaresimportantes são o Zakat, doação feita anualmenteaos necessitados, e o jejum ao longodo mês do Ramadã, do amanhecer ao pôrdo-sol.“As pessoas estranham a gente ficarcrescente Mesquita em São Paulo: estima-se que a comunidade islâmica no Brasilchegue a 1 milhão de seguidores. A maioria descende de sírios e libaneses2008 março REVISTA DO BRASIL 27


Princípio O fiel deve declarar, do fundo do coração, que não existe outra divindade além de Deus e que Mohammad é seu profeta mensageiroacima das provocaçõesMagda Aref cursou Ciências Sociais naUSP: “As teorias da sociologia iam contraquase tudo o que acredito, mas nuncapensei em largar. Ao final, foi mais umaprova da minha fé”cos, Samara Abdouni passou a se habituara ouvir frases como “Olha aí, a filha do BinLaden” ou “E aí, sobrinha do Saddam?” Usavéu e exibe olhos maquiados com um delineadormarcante e nega convites de garotospara dar um passeio. “Sei que todo mundoolha pra mim, embora a intenção em sevestir seja o contrário, não chamar atenção.Aqui todo mundo acha legal mulher peladae estranho mulher vestida, mas faço o que oprofeta Mohammad – que a paz esteja comele – recomenda”, desabafa. Samara explicao namoro à moda árabe é à moda antiga.Nada de ficar sozinha com meninos, aaprovação da família é fundamental e sexosó após o casamento.O preconceito e a perseguição são muitopresentes nos países em que os muçulmanossão minoria. Magda, Naser e Samara falamque aqui são apenas vítimas de curiosidadese de pequenas confusões, mas temem peloque ocorre no resto do mundo. O palestinoSaker Makhif, que chegou ao Brasil nosanos 1960, abandonou em 2001 a idéia deencontrar amigos e se mudar para os EstadosUnidos: “Estava tudo certo, mas teve o 11 desetembro... Com essa barba e essa cara nãopasso nem na porta do consulado. Resolvificar no Brasil, onde todos gostam de mim erespeitam a minha fé”. A França, onde vivem5 milhões de muçulmanos, proíbe símbolosreligiosos nas escolas, numa tentativa de daradeus aos véus, quipás e grandes crucifixos.No Reino Unido, a Câmara Inglesa pediu àsmulheres islâmicas que deixassem o véu emcasa, alegando que o hijab interfere no relacionamentohumano.Nunca ninguém sugeriu a Magda Arefque deixasse de usar véu, assim como elanão se importa se nos lugares que freqüentahá crucifixos na parede, e não a lua crescente,símbolo do Islã. Mas os quatro anos quepassou cursando Ciências Sociais na Universidadede São Paulo foram doses diáriasde prazer e sofrimento. “As teorias da sociologiaiam contra quase tudo o que acredito,mas nunca pensei em largar. Ao final foimais uma prova da minha fé”, recorda.Magda não tem crise de identidade comsua feminilidade e faz um contraponto coma típica mulher ocidental moderna, independentee capaz de fazer tudo o que umhomem faz – buscar isonomia salarial, desfrutarde liberdade sexual –, mas semprecheia de dúvidas. “Muitas delas buscam nasrevistas femininas, em terapias ou seriadosde TV dicas de como agir, se comportar e oque fazer com essa vida moderna.”28 REVISTA DO BRASIL março 2008


PasqualePor Pasquale Cipro NetoNúmero dáalgum curso?Recentemente, um dos grandes jornais dopaís publicou esta frase: “Número cada vezmaior de empresas dão diversos cursos a seusfuncionários”. Que lhe parece, caro leitor?Essa frase lembra muitos dos trechos jornalísticos incluídosem questões de vestibulares importantes, como osdas diversas universidades federais do país e o da Unicamp.Em algumas dessas questões, pede-se aos candidatosque analisem a dificuldade de compreensão geradapela má organização sintática. Em outras questões, pede-seao candidato que reestruture determinado trecho, “dando a Césaro que é de César”, ou seja, estabelecendo as devidas relações entreos termos que compõem o período.O trecho jornalístico que aparece logo no início desta coluna parececombinar com o dito popular que se refere a “pôr os pés pelasmãos”. Leiamos a frase novamente: “Número cada vez maior deempresas dão diversos cursos a seus funcionários”. Que lhe parece?A que termo se refere a forma verbal “dão”, flexionada na terceirapessoa do plural? Quem redigiu a frase certamente quis dizer queas empresas dão os tais cursos. O problema é que a palavra “empresas”é subordinada à palavra “número” (pela preposição “de”).Na verdade, o que temos aí é a expressão “número (cada vez maior)de empresas”, cujo núcleo é... Qual é? É ”número”. E será que “onúmero” de empresas “dão”?Vamos começar tudo de novo. Parece claro que o númeronão dá nada, não dá coisíssima nenhuma; quem dá (os cursos)são as empresas. E o que é cada vez maior é o número deempresas (que dão os tais cursos). Salvo engano, o que se querdizer se traduziria com uma frase muito parecida com esta: “Écada vez maior o número de empresas que dão diversos cursosa seus funcionários” (ou “Não pára de crescer/aumentar o númerode empresas que dão diversos cursos a seus funcionários”).E por que o primeiro verbo (“é” ou “pára”) fica no singular e osegundo (“dão”) é flexionado no plural? Porque o que é cada vezmaior (ou não pára de crescer/aumentar) é o número, e “número”é singular. A forma “dão” é posta no plural porque se refere a“empresas”.Veja outro caso semelhante, também extraído de texto jornalístico:“O número de pessoas que procuraram o serviço no fim desemana ficou abaixo do previsto”. A forma verbal “procuraram” éposta no plural porque se refere a “pessoas”; “ficou” (no singular)se refere a “número”. Afinal, o que ficou abaixo do previsto foi onúmero (e foram as pessoas que procuraram o serviço).Bem, voltando à frase inicial, é preciso lembrar que não é possíveladotar como proposta de correção algo como “Número cada vezmaior de empresas dá diversos cursos a seus funcionários”. E por quenão é possível, se o núcleo de “número (cada vez maior) de empresas”é “número”? Já sabemos por quê: não é o número que dá os taiscursos; definitivamente, o número não dá nadinha de nada.A prática (disseminada no jornalismo) de “enxugar” ou de escreverfrases e textos curtos muitas vezes gera “monstrinhos”. Asolução é conhecida: nada mais do que a simples (e atenta) releitura.Orações que têm por sujeito expressões iniciadas por palavrascomo “número”, “nível”, “preço”, “custo” e tantas outras devem serlidas e relidas com o máximo cuidado, para que não se construamfrases como “O preço dos imóveis residenciais caíram” ou “O custodos gêneros alimentícios subiram”.No primeiro caso, o verbo deve concordar com “preço”, que éo núcleo do sujeito; no segundo, com “custo”. Teríamos, então,estas construções: “O preço dos imóveis residenciais caiu” e “Ocusto dos gêneros alimentícios subiu”. Nos dois casos, a presençadas formas errôneas (“caíram” e “subiram”) certamente se explicapela proximidade do verbo com termos flexionados no plural(“imóveis residenciais” e “gêneros alimentícios”, respectivamente).É justamente por isso que é necessária a (re)leitura atenta emcasos como esses.Pasquale Cipro Neto é professor de Língua Portuguesa, idealizadore apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, da TV Cultura2008 março REVISTA DO BRASIL 29


históriaAberturaNo Brasil deFigueiredo, opositoresdas “ditaduras amigas”foram capturadose entregues para atortura e a morteFolha ImagemNoencalçodocondorAbertura dos arquivosda ditadura é essencialpara identificar aparticipação do Brasilno esquema de captura,seqüestro e morte deopositores aosregimes militaressul-americanosPor Igor FuserNo dia 18 de março de 1980Horacio Campiglia e MonicaBinstock desembarcaramno aeroporto do Galeão, noRio, num vôo procedente deCaracas. O casal pertencia à organização deesquerda Montoneros, cujos integrantes estavamsendo presos e assassinados pela ditaduramilitar na Argentina. O Brasil, governadopelo general João Baptista Figueiredo, tambémvivia sob regime militar, mas respiravao clima da “abertura”. Argentinos, uruguaiose chilenos perseguidos por motivos políticosem seu país buscavam refúgio aqui. Horacioe Monica foram detidos por policiais brasileirose entregues ao aparelho repressivo argentino.Hoje estão entre os 20 mil desaparecidosdo vizinho do sul durante a ditadura.Imagina-se que, como muitos, tenham sidomortos e jogados em alto-mar, nos sinistros“vôos da morte”. Outro ativista argentino, opadre Lorenzo Ismael Viñas, foi detido emUruguaiana (RS) em 26 de junho de 1980,encaminhado de volta ao seu país e desapareceupara sempre. Viñas, assim como HoracioCampiglia, tinha cidadania italiana.Essas e outras histórias escabrosas voltaramà tona no início do ano, depois que aJustiça italiana ordenou a prisão de 146 autoridadesdos regimes militares sul-americanospela participação na Operação Condor– acordo extra-oficial mantido por setepaíses da região para seqüestrar e, em algunscasos, matar opositores que estavamfora do alcance das suas garras. Há na lista13 brasileiros – dos quais oito ainda estãovivos, entre eles o general da reserva EuclydesFigueiredo, irmão do ex-presidente. Oprocurador italiano Giancarlo Capaldo pediuajuda ao governo brasileiro para prendere extraditar os suspeitos.Embora as leis brasileiras impeçam a extradição,os acusados deverão ser julgados àrevelia, na Itália, e podem ser presos numaeventual viagem ao exterior. Foi o que ocorreucom o capitão aposentado da Marinhauruguaia Jorge Tróccoli, capturado na Itáliano final de 2007. Ele responde a um processopelo desaparecimento e morte de um casalde ítalo-uruguaios. “Esse processo nasceuna Itália porque os países unidos emtorno da Operação Condor decidiram não30 REVISTA DO BRASIL março 2008


abrir investigações sobre o assunto”, afirmao procurador Capaldo.A iniciativa italiana deu alento às entidadesbrasileiras que lutam pela aberturados arquivos do regime militar e pela puniçãoaos responsáveis por torturas, prisõesilegais e assassinatos políticos. O governofederal reluta em permitir que as informaçõessobre aquele período venham a público.Não quer atritos com as Forças Armadas.Muitos discordam. “A abertura dosarquivos é fundamental para recuperar anossa memória histórica e indispensávelpara a investigação dos crimes cometidos”,enfatiza a historiadora Janaína Teles, da Comissãode Familiares de Mortos e DesaparecidosPolíticos.DesfaçatezO Ministério da Justiça deu sinais de quepoderá investigar a Operação Condor assimque receber pedido oficial da Justiçaitaliana. Ao contrário do que tem ocorridoaté agora com as tentativas de processocontra agentes da repressão, ninguém poderáinvocar a Lei de Anistia para escaparda Justiça. A Justiça italiana investiga crimescometidos depois dela.Sabe-se que o Brasil participou da criaçãoda Operação Condor, num encontro emSantiago do Chile, sob os auspícios do ditadorAugusto Pinochet, em novembro de1975. A identidade do brasileiro presente aessa reunião é um mistério cuja chave talvezesteja nos famosos arquivos. “Os militaresbrasileiros demonstraram habilidade emnão deixar impressões digitais, mas não hádúvida de que foram decisivos na OperaçãoCondor”, afirma o advogado Jair Krischke,presidente do Movimento de Justiça e DireitosHumanos do Rio Grande do Sul. Krischkeinvestiga a Condor há 20 anos.Entidades de direitos humanos apontamo Brasil como o pioneiro da operação, lembrandoque o longo braço da repressão brasileirajá atingia brasileiros no exterior anosantes desse acordo. Um exemplo clássico decolaboração entre as ditaduras do Brasil eda Argentina foi o seqüestro dos exiladosJoaquim Pires Cerveira e João Batista RitaPereda em Buenos Aires, em dezembro de1973, por homens que falavam espanhol eportuguês. Ambos foram vistos pela últimavez no DOI-Codi do Rio de Janeiro. Entre1975 e 1980, outros seis brasileiros desapareceramna Argentina. A Comissão deFamiliares de Mortos e Desaparecidos Políticosmenciona também o sumiço de seteargentinos no Brasil no mesmo período.O caso mais famoso foi o seqüestro de umcasal de uruguaios exilados em Porto Alegre,Lilian Celiberti e Universindo Díaz, em1978. Levados para seu país, junto com osfilhos, só não foram mortos porque a imprensadenunciou o crime, cometido coma cumplicidade das autoridades daqui. Universindo,anos depois, relatou que os espancamentoscomeçaram já no apartamento emque foi capturado e prosseguiram na sede doDepartamento de Ordem Política e Social(Dops), na capital gaúcha. “Eles nos baterambrutalmente e colocaram no pau-de-arara.Durante horas e horas, os brasileiros golpearame os uruguaios nos interrogaram.”Confrontados com atrocidades comoessa, os militares costumam reagir como ogeneral-de-divisão Agnaldo Del Nero Augusto,atualmente na reserva: “A gente nãomatava. Prendia e entregava. Não há crimenisso”, declarou em entrevista ao jornal OEstado de S. Paulo. O ex-senador e coronelda reserva Jarbas Passarinho disse à Folha deS.Paulo: “Se soubesse que, mandando paraa Argentina, a pessoa ia ser morta, tenho aconvicção que o governo não mandaria.” Édifícil crer que alguém como Passarinho,ministro em três dos cinco governos militares,ignorava o que ocorria no país vizinho.“A ditadura brasileira estava tão empenhadaquanto os militares dos países vizinhosem impedir o avanço das forças deesquerda”, aponta Krischke. É conhecidoo envolvimento da embaixada brasileirana conspiração que derrubou o presidentechileno Salvador Allende, em 1973. Doisanos mais tarde, em 1975, as Forças Armadasdo Brasil estavam preparadas para invadiro Uruguai caso o candidato da esquerda,Líber Seregni, ganhasse as eleições. O plano,chamado de Operação 30 Horas (tempoconsiderado necessário para a ocupação),foi arquivado devido à derrota de Seregni,que disputou as eleições pela Frente Ampla,atualmente no governo.Isso é apenas uma parte do pouco quejá se sabe. Imagine-se o que virá a públicose, finalmente, toda a verdade for revelada.A democracia brasileira, restaurada há 22anos, parece forte o suficiente para sobrevivera mais essa prova.memória histórica Janaina Teles: esperando a abertura total dos arquivos da ditaduramauricio moraisPassarinho: oministro que nãosabia de nadaFolha Imagem


perfilAmor ancestralClaudia e Jecinaldo: história de amorentre dois povos Por Alceu Luís CastilhoClaudia, índia ticuna, virou mulher aos 12 anos. Emsua cultura, não há meio-termo: ou é menina, ou émulher. Encabulada, olha para o lado, busca ajuda emenciona a “primeira menstruação”. Fala em portuguêscom alguma dificuldade. Com pausas. Mas comritmo. Claudia passou pelo ritual da Menina-Moça com orgulho. Edor. Foi obrigada a ficar de pé numa rede durante quatro dias. Durantea festa devia apenas ouvir as conselheiras, as anciãs da aldeia– no oeste do Amazonas. Até hoje se lembra das palavras de sabedoria.A partir daquele momento, deixaria de ser a menina que sebanhava com inocência nos igarapés. Teria de agüentar privaçõese passar a resolver os próprios problemas, e assim seria durantea vida. Aos 28 anos, casada e com dois filhos, ela conta que nãocabe à mulher escolher o marido. Claudia tem um item essencialna composição da beleza de uma ticuna: pernas grossas. “Homemticuna gosta de mulher de pernas grossas. Se não tem, não serve. Ehomem que não sabe fazer canoa também não serve.” Mais: tem desaber fazer casa e ter roça, para ousar pedir a mão de uma ticunaconcorrida, como Claudia. Não que ela tenha algo contra o casamentoentre dois jovens desconhecidos, de aldeias distantes.Lembra-se da história de uma amiga que se casou dessa forma.Inicialmente não gostou: prometeu a si mesma que não ia dormircom ele. “Foi assim durante seis meses”, relata a ticuna. E pergunta:“Vocês, homens, agüentariam dormir seis meses ao lado de umamulher, sem fazer nada?” Ela mesma responde: “Não agüentariam.32 REVISTA DO BRASIL março 2008


As mulheres também não agüentariam.” Por conta desseesforço, admira o marido da amiga. “Teve paciência.Gostava dela. Numa noite, após seis meses, ele a conquistou.Hoje são muito felizes, têm seis filhos.”Mas um dia chegou a sua vez: o pai escolhera o marido.Um desconhecido. Com o qual teria de ficar todaa vida – e nem pensar no contrário, aprendera desde oritual da Menina-Moça. “Puxa, mas aí esse ticuna vaime fazer um monte de filhos, como vai ser?”, raciocinou.Consultou a mãe e conseguiu uma aliada.– Foge, minha filha, foge!– Se eu fizer isso, não vou ser mais pura. Uma ticunanão foge da casa dos pais.– Foge enquanto é tempo.Claudia fugiu.JecinaldoO ritual de passagem dos meninos saterés-mauésigualmente prevê a dor. Jecinaldo tinha 12 anos. Em umaluva de palha feita pelos tios maternos estavam cuidadosamentecolocadas dezenas de tucandeiras, formigasgrandes com uma ferroada muito dolorida. Antes elastinham passado a manhã numa bacia com tintura defolha de cajueiro – para ficar anestesiadas. Em seguida,foram postas com a cabeça para fora da luva e o ferrãopara dentro. Jecinaldo enfiou a mão na luva e, após 12horas de suplício, deixou a infância. Durante o ritual,os anciões ensinam tudo sobre seu povo – os Saterés-Maués, no leste do Amazonas, inventores da cultura doguaraná. Um povo cioso de suas tradições, mesmo apóstrês séculos de contato com os brancos. “Lutar pela nossaidentidade, pelo nosso território, isso eles pedem nahora que a gente está fazendo o ritual. Porque está doendo.O ancião está falando e aquilo está ficando gravadopara sempre aqui (aponta para a cabeça). E, se eu errar,estou traindo tudo o que fiz.” A nova fase implica maisresponsabilidade, maior compromisso.Jecinaldo é mais sisudo que Claudia. Difícil imaginálofalando com humor da adolescência que não teve. Aos30 anos, liderança máxima das organizações indígenasda Amazônia, ele conta que o momento do ritual lhedeu muita sustentação para o mundo dos que os Saterés-Maués chamam de civilizados: “Para não me envolvercom drogas, com outros tipos de vício, que tem muito nasgrandes cidades. E também para ser muito responsável,respeitar as pessoas, lutar pelo que eles disseram queé mais sagrado, que é a terra, que é o nosso território”.Jecinaldo atua no movimento de defesa dosdireitos indígenas desde os 14 anos. Não eramais criança, mas um guerreiro.Jecinaldo e ClaudiaAs terras ticunas ficam do outrolado do Amazonas, no Alto Solimões.Claudia Araújo Mendes – aClaudia ticuna – estava em Manausquando conheceu JecinaldoBarbosa Cabral – o Jecinaldosateré-maué. “Ela é uma guerreira que, através damúsica, transmite a luta indígena”, diz Jecinaldo. “E eulutando nas organizações indígenas, nos embates comgovernos, fazendeiros, madeireiros, e aí num dos eventosem Manaus a gente se encontrou.”Claudia canta – e bem. Ano passado, durante a aberturado 2º Encontro Nacional dos Povos das Florestas,em Brasília, ela cantou na presença de ministros e dopresidente da República, acompanhada dos músicosAguinilson e Tobias Ticuna. “Não vamos deixar derrubarema floresta”, anunciou. “Custe o que custar.” Naqueledia somente cinco pessoas falaram: um secretáriodo Ministério do Meio Ambiente, para a leitura de umapoesia sobre o seringueiro Chico Mendes, a ministraMarina Silva e Lula, pelo lado dos “civilizados”; além deClaudia (entre uma e outra cantoria) e Jecinaldo (numaleitura emocionada de discurso). “Por mais que a genteseja diferente como povos, temos objetivos comuns”,explica o líder. “Em cima disso, acho que nasceu a nossapaixão. A partir dessa identidade, desse mesmo tipo deluta, a gente se encontrou e está junto até hoje.”Claudia abraçou a causa da juventude e, com o apoiodo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef),leva jovens para o exterior, a representar a cultura indígena.Esteve com a rainha da Espanha e na Semanado Brasil na França. É uma artista e uma ticuna:para falar de si, ela passa a mão pelo rosto, pelas pinturas,para exaltar seu clã. É pela cultura que faz política.Jecinaldo há vários anos é coordenador-geral da Coordenaçãodas Organizações Indígenas da AmazôniaBrasileira (Coiab). A entidade reúne 75 organizaçõese 165 povos indígenas. Durante o evento com Lula, foiele quem cobrou do presidente a defesa da floresta ede quem mora nela, contra os grileiros, garimpeiros eagropecuaristas. Ele domina o português e o discurso.É pela política que faz história.O casamento resultou em dois filhos: a menina Tichwayna,de 9 anos, e o menino Tichwa, de 5. Tichwaynae Tichwa falam ao mesmo tempo ticuna, sateré-maué eportuguês. “Nossos filhos já aprendem mais do que eu,que falo sateré-maué e português”, diz o pai. “Os rituaisnos ensinaram a não trair a nossa luta e a ensinar issopara os nossos filhos. Eles também passarão por isso, eassim continuará a nossa vida. Como povos.”Claudia e Jecinaldo não representam a união de dois“índios”, como costuma reduzir a cultura dos brancos.E, sim, duas nações. Dois brasileiros de nações diferentesdecidiram manter suas tradições: a Ticuna e aSateré-Maué. Ambas complementares, com suas riquezasespecíficas.Assim, quando Tichwa estiver entre 11 e 14 anos (nãohá um período exatamente definido), seguirá com Jecinaldopara o ritual dos Saterés-Maués. O das formigas.Provará sua coragem e será um homem.Tichwayna não está longe do momento de passagem:assim que tiver a primeira menstruação, Claudia a levarápara o ritual da Menina-Moça. De pé, numa rede.Será uma mulher.“Osrituais nosensinarama não traira nossa lutae a ensinarisso paraos nossosfilhos. Elestambémpassarão porisso, e assimcontinuaráa nossavida. Comopovos”fotos: Alberto César Araújo2008 março REVISTA DO BRASIL 33


cidadaniaO Japãona terra vermelhaA pequena Assaí, noOquarto dos fundos da casa sa, com o desembarque de 165 famílias dode Yaoki Shimizu revela um navio Kasato Maru, no Porto de Santos, emParaná, foi criada com ados seus maiores prazeres: 18 junho de 1908.chegada dos imigrantescaixas de som, antigas fitas As tradições são apenas o modo de vivercassetes e CDs. Aos 77 anos, que ele aprendeu com a forte presença dosjaponeses e sua históriao que mais o alegra é reunir os amigos para nikkeis – os imigrantes e seus descendentes– que chegaram ao norte do Paraná aajuda a contar a saga algumas horas de karaoke, cerveja e sashimi.Morador há mais de 50 anos do bairro partir de 1930. Com a queda na Bolsa deda formação darural da Peroba, em Assaí, norte do Paraná,Shimizu é um guardião das tradições do café no estado de São Paulo, as compa-Nova York em 1929 e restrições ao plantiosociedade nipo-brasileiraPor Giedre MouraFotos de Rafael Mayrink Góesda sociedade nipo-brasileira – comunidadeque vive o centenário da imigração japonenhiasde imigração que compravam terrasno Brasil e revendiam aos recém-chegados34 REVISTA DO BRASIL março 2008


ShodoA prática daescrita emnanquimsobre papelarrozajuda apreservar aculturado Japão descobriram a fertilidade da terravermelha do Paraná.A experiência de desbravar a mata fechadapara plantar, em árduas jornadas, conferiuaos japoneses autoridade no mundohortifrutigranjeiro. “No começo foi umavida muito sofrida. Meu pai, que veio de Hiroshimapara o Brasil, em 1925, não tinha amenor experiência na agricultura. Chegoucom a minha mãe e meus quatro irmãos. Osoutros quatro, como eu, nasceram aqui. Sóaprendi o português depois de grande”, recordaShimizu, que mora sozinho em suacasa no sítio desde 1999, quando sua mulhermorreu.A história da pequena Assaí – de assahi,sol nascente –, com 18 mil habitantes, começacom a imigração. Antes dos japoneses,ali nada existia. Com 15% de nikkeisna cidade, a escola pública tem aulas de japonês,os adolescentes se reúnem para tocaro tradicional tambor japonês, o taiko,e o templo budista e os portais do ParqueIkeda são cartões-postais. Sobrenomes japonesesestão na maior parte das fachadasdo comércio. Na maioria das casas dos descendentesdos imigrantes algum membrojá decidiu fazer o caminho de volta. Trêsdos cinco netos de Shimizu são dekasseguis,ou seja, trabalham no Japão.Shimizu guarda com os diários de seupai tesouros de sua história. E mantém atradição. Todos os seus dias são descritosem seus cadernos, se colheu uvas ou recebeuamigos em casa. Em sua sala, umoratório budista, o butsudan, abriga tabuletas,as ihais, nas quais estão escritosnomes dos familiares que já se foram, invocadospara proteger a casa. Quadros deshodo, a arte da caligrafia japonesa feitaem nanquim sobre papel-arroz, e álbunscom fotos narram a vida da família no Japãoe no Brasil.Fotos antigas ajudam ainda a contar ahistória de um dos mais antigos imigrantesde Assaí. Noboru Okazaki, de 94 anos,também nascido em Hiroshima, chegou aoBrasil em 1914, a bordo do terceiro navio danova geraçãoHerik dá aulas detaiko, o tamborjaponêsimigração, o Wakasa Maru. Depois de tertrabalhado na agricultura por toda a vida,Okazaki foi obrigado a arrendar sua terrano bairro rural do Palmital e se desfazer dacasa do sítio feita com detalhes em rendilhadode madeira, a ranma, e com varandacerimonial, a guenkan, construída logo noinício da imigração pelas mãos de mestresda carpintaria japonesa. Teve de ir morarna parte urbana da cidade, por questões desegurança e praticidade. A família é pequena,seu único filho foi embora para o Japão,e ele vive com a nora e a neta, que estudaem Londrina.O que mais gosta de lembrar é de quandotrabalhou na construção da primeira igrejado Palmital. Ajudou a erguer as paredes,a levar e trazer pessoas para a catequese ea difundir o catolicismo entre as crianças.Primeiro imigrante a ser batizado no bairrorural, Okazaki ilustra uma adaptação dosjaponeses ao estilo de vida brasileiro.“Sim, o budismo tradicional vem perdendoadeptos, hoje abrimos nas ocasiõesde falecimentos e missas. A cerimônia fúnebreé um dos alicerces do budismo. Nãovai acabar, mas vai ser diferente. Os descendenteshoje praticam as mais diversas religiões.A mídia fala muito do zen budismo,do tibetano. O que praticamos é o budismoTerra Pura, que prega pela palavra, o maispopular no Japão”, explica o monge AtsunoriImai, do centro budista de Assaí.Com um século de imigração, nada maisnatural que uma fusão de culturas. E, se osjaponeses aderem a movimentos típicosdo Brasil, o fluxo contrário também existe.Não é difícil achar em Assaí pessoas semnenhum parentesco com os japoneses queaderiram a elementos do mundo nipônico.O sobrenome e os olhos azuis do professorManoel José da Silva, de 41 anos, denunciamque sua ascendência não é asiática,mas ele exibe com orgulho suas peças deorigami, principalmente o tsuru – garça,em japonês.Mil garçasFazer as garças em origami é uma tradiçãoantiga japonesa para realizar desejos.A menina Sadako Sassaki nasceu em Hiroshimadepois da bomba atômica, ficousabendo da lenda aos 10 anos de idade edecidiu fazer mil pássaros em busca de saúdeo suficiente para viver apesar dos efeitosda radiação em seu corpo. Morreu quandoestava no 964, mas os parentes e amigosdecidiram levar a corrente adiante, e hoje2008 março REVISTA DO BRASIL 35


Sol nascenteAssaí, a 40 km de Londrina, surgiupelas mãos dos imigrantes. Sãoapenas 18 mil habitantes. Na escolapública se ensina japonêsque também é fã de música pop japonesa,mangá e anime, os quadrinhos e desenhosanimados japoneses. Dirce Fussuma, de 56anos, encontra na casa de dona Geni umamaneira de passar o tempo, ver os amigose aprender mais sobre seus ancestrais. Tocao taiko e se realiza no karaoke. “Como sãomúsicas antigas e tradicionais, ainda usamosmuita fita cassete. Cantar me diverte”,revela Dirce.Com a chegada do centenário da imigração,as famílias de Assaí têm dadomaior valor aos pertences de seus ancestraise projetos de construção de um museuda imigração estão nos planos da cidade.O principal museu da região estána cidade de Rolândia (25 quilômetros deLondrina). Apesar de ter bem menos descendentesque Assaí, é lá que serão feitas ascomemorações oficiais do centenário emjunho, com a presença do príncipe Naruhito,herdeiro da família imperial. Mesmocom a comemoração em outra cidade,dona Geni não desanima. “Nosso povotem muita coisa bonita para mostrar. Ficofeliz em saber que minha casa agora, alémde oferecer diversão, serve para perpetuara arte deixada pelos nossos ancestrais”, reveladona Geni, em um raro momento desilêncio e de folga do taiko.AtsunoriImai: budismoTerra PuraJaponeses a distânciaA imigração japonesa está repleta de traumas. Ao longo da Segunda Guerra Mundial, japonesestornaram-se presença indesejável em diversos países. Além do Brasil, o Peru e o Havaí receberamgrande número de imigrantes. No final do século 19 os japoneses viviam uma grande crise. Com amecanização da lavoura, a pobreza chegou aos campos, as cidades sofriam com superpopulaçãoe o desemprego foi arrebatador. No Brasil, com o auge do café, faltava mão-de-obra. Da chegadadas 165 famílias em Santos no navio Kasato Maru até o início da Primeira Guerra Mundial (1914),15 mil japoneses se instalaram por aqui. Depois da guerra, entre 1917 e 1940, a imigração explodiu,chegando a 164 mil japoneses. Hoje 1,5 milhão de nikkeis vivem no país.A idéia de todo imigrante era trabalhar, enriquecer e voltar para o Japão. Mas os baixos saláriosna lavoura não permitiam. Com a Segunda Guerra, o sonho de voltar para casa foi enterrado de vez.O governo do Brasil, em oposição ao Japão, fechou o cerco contra os imigrantes. Falar a língua empúblico dava cadeia, escolas foram fechadas, a execução do hino japonês ou de qualquer dançatípica era punida com cadeia. Nessa época surgiu a Shindo Renmei, “liga do caminho dos súditos”,organização extremista criada para coibir a divulgação de informações sobre a derrota japonesa.Os participantes do Shindo Renmei afirmavam que o Japão tinha sido vencedor e perseguiamquem acreditava na derrota. Dos 200 mil imigrantes que viviam por aqui, apenas 20% deles, osmakegumis, acreditavam na vitória dos Aliados. Os vitoristas, os kachigumis, eram a maioria. Osimigrantes mantinham forte crença na alma japonesa, orgulhosos de, até então, nunca teremperdido uma guerra. Em 1947 o governo brasileiro interrogou mais de 30 mil japoneses, prendeuquase 300 pessoas e desmantelou a organização.2008 março REVISTA DO BRASIL 37


cinemaRedençãoPadilha: ninguémconsiderou o capitãoNascimento um heróiAlém de vencedor do Urso deOuro como melhor filme,Tropa de Elite, o Brasil levououtros oito filmes ao Festivalde Berlim, a Berlinale:Mutum, de Sandra Kogut, Cidade dos Homens,de Paulo Morelli, Maré, Nossa Históriade Amor, de Lúcia Murat, Mr. BenéGoes to Italy, de Manuel Lampreia, e Estômago,de Marcos Jorge, na curiosa mostrade cinema culinário; e os curtas Café comLeite, de Daniel Ribeiro, Tá, de Felipe Sholl,e Dreznica, de Anna Azevedo. O país tambémesteve presente no extraordinário sucessojunto ao público do filme Café de LosMaestros, documentário sobre a história deum espetáculo com veteranos do tango, doargentino Miguel Kohan, com patrocíniode Walter Salles, da Petrobras e da AgênciaNacional de Cinema (Ancine), do Brasil.Essa verdadeira tropa de elite foi bemrecebida pelo público e pela crítica, commuitos elogios à técnica e às interpretações.Destaque para o menino Thiago daSilva Mariz, hoje com 12 anos, que aos 10protagonizou Mutum, baseado no contoCampo Geral, de Guimarães Rosa. E paraWagner Moura.Mutum foi apresentado na sessão especialpara crianças, embora não seja um filmepara público infantil. O ator João Miguel,que representou o rude e violento paido menino, também está no curioso Estômago,filme que, segundo seu diretor MarcosJorge, aborda culinária e sexo enquantofontes de poder.Na tradicional entrevista coletiva que aembaixada brasileira organiza com diretorese artistas do país, o menino Thiagocontracenou com seu colega Douglas Silva.Douglas estreou no cinema em Cidade deDeus, de Fernando Meirelles. Aos 12 anos,foi o Dadinho que viraria mais tarde Zé Pequeno,de Cidade dos Homens.Do conjunto, o filme de José Padilha contrariouas expectativas dos críticos de cinemaconvencionais dos grandes jornais de Berlim,que apostavam em There Will Be Blood (Sanguenegro), de Paulo Thomas Anderson. Tropade Elite ganhou o Urso de Ouro, prêmiomaior do júri presidido pelo cineasta gregoCosta-Gavras. O filme de Anderson ficoucom o Urso de Prata de melhor direção (ofestival dá apenas um Urso de Ouro, os demaissão Prata ou Cristal). Café com Leite ganhouo Urso de Cristal na categoria de curtas-metragenspara jovens; Mutum, mençãohonrosa na categoria infanto-juvenil; e Tá, deFelipe Scholl, o Teddy, prêmio especial parafilmes de temática homossexual.O capitão da tropaPrecedido pela fama, pelo grande públicoe pelas controvérsias no Brasil, Tropa deElite também despertou polêmicas na imprensaalemã. A maioria dos comentários38 REVISTA DO BRASIL março 2008


Umarsenalde eliteemBerlimMais que o Ursode Ouro, o cinemabrasileiro tevepresença marcantena 58ª edição daBerlinale, na capitalda AlemanhaPor Flávio AguiarOutrarealidadeWagner Moura:distanciamentodo público alemãocooperou para acompreensãodo filmedivulgaçãoJohannes Eisele/REUTERSfoi favorável. Crítica severa, mesmo, só a deJulian Hanich, do jornal Der Tagesspiegel,que enfatizou a rápida sucessão de cortes,os “sons bombásticos”, os pulos súbitos dacâmera como um “metralhar” de movimentosque não deixava tempo para o espectadorpensar. Essa mesma movimentaçãoganhou elogios da professora do InstitutoLatino-Americano Ute Herrmanns, no DieTageszeitung: “A forma como foi feito fazdele um filme digno de ser visto. Não setrata da glorificação de um policial, mas desua desconstrução”.Na avaliação do estudante e jornalistaDawid Danilo Bartelt, talvez o público alemão,longe dos problemas reais do Rio deJaneiro, pudesse ver o filme mais próximoda intenção do seu diretor. Para ele, não setrata de uma glorificação do policial nemdo Bope, mas da crítica ao sistema de corrupçãoe de violência tanto da polícia comodos traficantes. Dawid destacou que o filmeera muito mais crítico em relação a todo oaparato policial, inclusive o Bope, do quepoderia parecer à primeira vista.Esse distanciamento do público alemãofoi mencionado pelo ator Wagner Mouraem conversa com a reportagem. Para ele,em Berlim vive-se uma realidade muito diferente.Ele espantou-se diante das perguntasque teve de enfrentar. Queriam saber comotinha sido seu “treinamento” como policialdo Bope. Moura enfatizou que a visão que ofilme dá de seu personagem em nada o tornaum herói. Contou que convivera por trêsmeses com o Bope e ficou amigo de algunspoliciais. “Eles acreditam no que fazem, sãotreinados para pensar que a violência sópode ser combatida com a violência.” Segundoo ator, o problema vivido pelo capitãoNascimento – extenuado, estressado, emcrise de valores e na família – é comum nacorporação, onde os policiais são recrutadosmuitos jovens, doutrinados para sermáquina e, lá pelos trinta e poucosanos, descobrem que nada daquilofunciona.O diretor José Padilhadefendeu o filme e tambémo público brasileiro. Disseque foi a dezenas de exibiçõesem universidadese centros comunitários eem nenhum momentoviu alguém aplaudir asações violentas do filmeou considerar o capitãoNascimento um herói.Tropa de Elite é para ser visto no cinema.Há detalhes importantes que só se destacamna tela grande. Por exemplo, na cenaem que morre o amigo do traficante Baiano.No momento em que o perseguido leva otiro fatal, pequenas gotas de sangue respingamna lente da câmera, que segue filmando,e conota a intenção de “respingar” no espectador.Outro detalhe importante está nosom: só uma reprodução perfeita permitenotar a ironia das auto-narrações do capitão,que quer inculcar no personagem queo substitui na corporação valores nos quaisnão mais acredita. Há sutilezas de voz quese perdem numa reprodução inadequada.O eixo do filme é o sentimento de culpa queem nenhum momento o capitão consegueexpressar. Só consegue transferir para o recrutaque forma. Ou deforma.Cinema e valorA Berlinale é um dos festivais decinema mais importantes do mundo.Neste ano, mais de 200 filmes foramapresentados. O evento valoriza ocinema de diretores jovens, ao lado dosconsagrados. O público vem de toda aAlemanha, da Europa e de outras partesdo mundo. Não faltam os estrelismose as passarelas de celebridades, comoMadonna, cujo filme de estréia comodiretora chegou a receber algumas vaias.Todas as apresentações são seguidasde debates com diretores e atores, etambém são oferecidas oficinas parajovens cineastas. Tudo isso ajuda aentender como Berlim é uma cidade quenão perde salas de cinema e por que elasestão sempre lotadas.Confira outros prêmios recebidospelo cinema brasileiro em Berlim: SinháMoça, de Tom Payne (prêmio especialdo júri, 1954); Os Fuzis, de Ruy Guerra(Urso de Prata de melhor direção, 1964);Toda Nudez Será Castigada, de ArnaldoJabor (Urso de Prata de melhor direção,1969); A Queda, de Ruy Guerra e NelsonXavier (Urso de Prata de melhor direção,1979); Pra Frente Brasil, de Roberto Farias(dois prêmios especiais do júri, 1983); AHora da Estrela, de Suzana Amaral (Ursode Prata de melhor atriz para MarcéliaCartaxo e dois prêmios especiais, 1986);Vera, de Sérgio Toledo (Urso de Prata demelhor atriz para Ana Beatriz Nogueira,1987); Ilha das Flores, de Jorge Furtado(Urso de Prata e prêmio especial do júripara curtas, 1990); Central do Brasil, deWalter Salles (Urso de Ouro, Urso de Pratapara Fernanda Montenegro e prêmio dojúri, 1998).2008 março REVISTA DO BRASIL 39


músicaSambacom sotaquedivulgaçãocheio debalançoGermano:“Achavam queeu era negro”Para alguns, sotaque, linguagem, batida dão aosamba paulista personalidade própria e peculiar.Outros nem gostam de comparar: em São Paulo,no Rio, no Brasil, é tudo uma coisa só Por Tom CardosoAimagem do Bom Jesus estavaali, nas pedras do Rio Tietê,altura de Pirapora (SP). Rezaa lenda que o simples achadoda peça fez um mudo falar.E desde aquele milagre, em 6 de agosto de1725, fazendeiros de várias cidades do interiorpassaram a visitar o local em buscade proteção. Enquanto senhores rezavam,escravos, excluídos das cerimônias, batucavam.As romarias cresceram. Os batuquestambém. No lugar de caixotes, bumbos ezabumbas. Formou-se um caldeirão de ritmos,que Mário de Andrade abreviou como“samba rural paulista”. O samba rural urbanizou-secom toque interiorano.Negros libertos das fazendas de café dointerior rumavam para a capital, assimcomo os escravos de Santos – terra de PaiFelipe da Nação Nagô, sambista de terreirodo Monte Serrat, berço das primeiras escolasde samba da cidade, X-9 e Dois Pingüins.Em bairros nos arredores do Centropipocaram festas de rua que mudariampara sempre o Carnaval da cidade. As escolasrevelariam compositores como Eunicedo Lavapés, Inocêncio da Camisa Verde,Xangô da Vila Maria, Carlão do Peruchee Nenê da Vila Matilde. No Largo da Banana,na Barra Funda, organizaram-seas primeiras rodas de capoeira, ou detiririca, pretexto para batucar nas caixasde engraxate.Geraldo Filme foi um dos primeiros aenaltecer as qualidades do samba paulista.Aos 10 anos, em 1937, compôs a primeiramúsica, “Eu vou mostrar, eu vou mostrar,que o povo paulista também sabe cantar”,cantava para o pai, amante do samba carioca.As rodas de tiririca se espalharam.Toninho Batuqueiro, nascido em Piracicabae crescido no bairro de Campos Elíseos,foi com sua caixa de engraxate batucar naPraça da Sé. Ali se formou um ponto de encontrode sambistas.Se o samba dos engraxates, das rodas detiririca, era carregado de malícia, AdoniranBarbosa, o mais famoso e aclamado compositorpaulista, nada tinha de malandro. “E osamba de São Paulo é o de Adoniran Barbosa.Não tem malandragem nas letras, tampoucosotaque de Pirapora. É urbano, sotaque doBexiga, italianado”, provoca Paulo Vanzolini,autor de Ronda e Volta por Cima. Para ooctogenário Nenê da Vila Matilde, o sambapaulista não tem cara: “É tudo uma coisa só”.Osvaldinho da Cuíca defende as origens dosamba de Pirapora. Chapinha, do Samba daVela, acha que samba combina com malandragem:“Não tenho vergonha em assumirminha admiração pelo samba do Rio, quenem é do Rio, é dos negros de todo o país”.Para T. Kaçula, do Samba Autêntico, SãoPaulo é cosmopolita e indecifrável: “Nuncavamos dar uma cara ao nosso samba. E issoo torna ainda mais interessante”.40 REVISTA DO BRASIL março 2008


A nova geraçãoChapinha, Maurílio de Oliveira, Paqüera,Magnu Sousá, T. Kaçula são sambistasde primeira grandeza, que há anos vem mudandoa cara da música de São Paulo. Cadavez mais jovens da periferia se interessampelo samba, e o intenso trabalho de divulgaçãode dois grupos – Samba da Vela eQuinteto em Branco e Preto – e de um pesquisadorincansável, T. Kaçula, tem muitoa ver com isso. Magnu e Maurílio sãodo Quinteto em Branco e Preto, criado em1997, na zona sul de São Paulo, e batizadopela madrinha Beth Carvalho. A históriado grupo é curiosa. Magnu e Maurílioe os outros integrantes – Everson, Victor eYvison – tocavam em bares de classe média,mas não um repertório de que gostavam.“Tinha de mandar ver Negritude Jr.,Katinguelê, bandas que não faziam a nossacabeça. Como o pessoal só pedia isso, nãotinha jeito”, lembra Magnu.O destino começou a mudar no Boca daNoite, tradicional bar do Bexiga, onde avelha guarda tocava samba bem diferente.Magnu conta que o dono do bar, o advogadoe sambista Wilson Sucena, deu uma broncageral. “Vocês ficam tocando pagode de terceiraqualidade para a burguesia enquantoos branquelos daqui cantam samba de verdadee também ganham dinheiro.” Os “branquelos”eram uma galera da pesada, comandadapor Eduardo Gudin. Magnu nuncamais precisou cantar que “a barata da vizinhaestá na sua cama”. Ele e Maurílio, meiosem querer, acabaram participando de outromomento importante para a música de SãoPaulo, junto com Chapinha e Paqüera.Numa noite de segunda-feira, reuniramsenum velho armazém da Rua Dr. AntônioBento, no bairro de Santo Amaro, coma idéia de juntar quem gostasse de samba etocar até a meia-noite, já que todos acordavamcedo para o trabalho. “Estava tão bomque a gente tocou até de manhã, perdemoso controle”, conta Chapinha. Na semana seguinte,outro “descontrole”. Maurílio aconselhoua compra de um despertador. Magnu,de uma ampulheta. Chapinha sugeriuum galo. Paqüera acabou com a discussão:acender uma vela e, quando se apagasse,seria hora de ir. Nascia o Samba da Vela.O movimento reúne sambistas de todos osestilos e virou espaço cultural, com exposiçõesde arte e saraus. Vale até rap ou sertaneja.“Aqui pode tocar de tudo. Quem mandaé a vela”, brinca Chapinha.Do outro lado da cidade, na Vila Madalena,zona oeste, no bar Ó do Borogodó, omúsico T. Kaçula lidera um trabalho de valorizaçãodo samba paulista. Pela casa passarammúsicos de todos os estilos e gerações,dispostos a tocar como Geraldo Filme,Zeca da Casa Verde e Osvaldinho da Cuíca.Kaçula, líder do grupo Samba Autêntico,acertou recentemente uma parceria comGuga Stroeter, dirigente da ONG Sambatá,para lançar uma coleção de 12 discos desamba paulista. “Vai ter de tudo.” Os showsdo Ó do Borogodó revelaram uma cantoratalentosa, fã de Leny Andrade, Elizeth Cardosoe Aracy de Almeida: Fabiana Cozza.“Há muitos jovens hoje interessados em redescobrire difundir o samba”, diz a cantora.“E o Ó do Borogodó segue como vitrinede tudo isso. Tocam lá violonistas como ZéBarbeiro e Luizinho 7 Cordas e uma novageração espetacular de músicos.”Sambista sem varizesBons tempos aqueles em que se podiaengraxar os sapatos na Praça da Sé e ouvirum Germano Mathias aos seus pés. Germanoé representante do samba sincopa-divulgaçãoInterioranoPara Osvaldinho daCuíca, sotaque do sambapaulista é de Pirapora2008 março REVISTA DO BRASIL 41


do, apreciado por nomes como Geraldo Pereira,Blecaute, Jorge Veiga, Ciro Monteiro,Ary Cordovil e o gaúcho Caco Velho. “Souportuguês por parte de mãe, carioca porparte de pai e crioulo por parte do vizinhodo meu pai”, explica, bem-humorado, suapaixão pelo samba.Aos 72 anos, Germano preserva o jeitomoleque dos tempos em que cabulava aulapara cantar samba sincopado, nos anos 50.Metade da turma lustrava sapatos e os outrosbatucavam. Nascido no Pari, zona lesteVitrine Fabiana Cozza, cantora da nova safra: “Jovens estão redescobrindo o samba”joão Castilho/divulgaçãoSamba ésambaPara Nenê,samba étudo umacoisa sóJoão Carlos/liga das escolas de samba de são paulode São Paulo, saiu direto do centro da cidadepara brilhar na Rádio Tupi. “Na rádio,achavam que eu era um cantor negro, porcausa do balanço da minha voz. Só perceberamque eu não passava de um branquelãoquando apareci na TV”, conta, orgulhoso.O primeiro sucesso foi Minha Nega naJanela, de 1956. A Situação do Escurinhofoi uma parceria com o compositor cariocaPadeirinho surgida por acaso. “Eu estavajogando sinuca e um amigo, AldacirLouro, disse que tinha um samba de umtal Padeirinho que era a continuação do Escurinho,sucesso do Cyro Monteiro. Graveie estourei. Ganhei o prêmio Roquete Pinto.Hoje só ganho pinto”, brinca. Germanomora num modesto apartamento no JardimLíder, periferia de São Paulo, e luta parasobreviver como músico. “Poucos cantamsamba do meu jeito. Essa é a minha principalarma. Tem muito cantor novo aí quetenta cantar sincopado, mas não sabe dividir,não teve a escola que eu tive. Acho quesou o último dos moicanos.”Nenê da Vila MatildeDesde 1997, Nenê da Vila Matilde nãoé mais presidente da escola que leva seunome, a terceira mais antiga de São Paulo,fundada em 1949. Aos 86 anos, ainda influiem decisões, dá pito nos dirigentes, reclamado samba-enredo e não poupa a turmada bateria. “Os caras não mudam nada,não renovam. A bateria está uma porcaria”,reclama. Em 1956, quando a escolacomeçou a se tornar repetitiva, ele seguiuo conselho do pai, o carioca Aldantino, ouMulato Véio, e viajou para o Rio em buscade inspiração. Voltou com uma nova batidana manga, o “culungundum”, misturade maracatu com percussão, que revolucionariao morno Carnaval paulistano.“Ouvi jongo numa igreja da Penha, passeipelas rodas da Lapa. E fiquei apaixonadopela batida da Mangueira. A batida de caixa,o estilo do surdo, era tudo diferente”,lembra. “Mostrei para o Paulistinha (compositorda Nenê), ele acrescentou o chocalhono meio da bateria. O pessoal doPeruche, da Vai-Vai ficou de boca aberta,escutavam de longe. Hoje a nossa baterianão faz mais barulho.”Nenê, mineiro de Santos Dumont, chegoua São Paulo com 7 anos. À frente da escolamais popular da zona leste por quasemeio século, tem orgulho de várias passagens.A introdução da batida do “culungundum”foi um marco, e só não dura até hoje,segundo ele, por falta de competência dosatuais mestres de bateria. “Eles não agüentamo tranco”, critica o sambista. Nenê foium dos mais enfáticos a cobrar da entãoprefeita Luiza Erundina a construção deuma passarela do samba em São Paulo.“Fui pessoalmente exigir. Reclamei mesmo”,conta. Em 1991 Erundina inaugurouo sambódromo paulistano. O mestre rejeitacomparações entre São Paulo e Rio. “Sambaé samba em qualquer lugar. A diferençaé o dinheiro. Os sambistas de lá nasceramcom o bumbum pra lua. Aqui, não. Os políticostiram dinheiro da gente e os carasque compram as escolas são tudo brancãoruim de samba.”42 REVISTA DO BRASIL março 2008


Pirapora?Vanzolini: “O samba de SãoPaulo é o de Adoniran. É urbano,sotaque do Bexiga, italianado”VitorPessoaYvisonPessoaMagnuSousáPaulista da gemaNo começo dos anos 60, num boteco daRua da Consolação, Osvaldinho da Cuícacomprou uma discussão com AdoniranBarbosa: existe ou não um samba genuinamentepaulista ou samba é samba emqualquer cidade do Brasil? Para o autor deSaudosa Maloca, samba era uma coisa só:brasileiro e fim de papo. Osvaldinho, entãono grupo Acadêmicos da Paulicéia, bateu opé: o samba paulista tinha, sim, linguagemprópria, interiorana, com uma levada “calangueada”.O próprio Adoniran era umaprova de sua teoria. Mas não teve acordo.Ficaram de cara amarrada até Osvaldinhogravar, em 1967, Mulher, Patrão e Cachaça,de Adoniran, que lhe valeu o convite paraintegrar os Demônios da Garoa.Agora, Osvaldinho volta à polêmica. Paraele existe um samba paulista, genuíno, valente,que precisa ser resgatado com urgência.“Até os mais estudiosos, como o pessoaldo Quinteto em Branco e Preto, do Samba daVela, fazem samba carioca sem saber. Com-Mauríliode OliveiraEversonPessoadivulgaçãopõem no padrão da Velha Guarda da Portela,têm vergonha de cantar com sotaque paulista”,afirma. “Há um certo preconceito como sotaque. Por exemplo, a apresentadora Angélicanasceu na Mooca e aparece na televisãopuxando erres e esses. Eu fico puto.”Osvaldinho não renega as influências cariocas.Tocou com quase todos os grandescompositores do Rio, de Ismael Silva a NelsonCavaquinho. “Só não gravei com RobertoCarlos e Chico Buarque”, diz. “Quandogravei Mulher, Patrão e Cachaça fiz umsucesso danado no Rio. Todos queriam saberquem estava tocando cuíca daquele jeitotão diferente”, lembra. Fundador da alade compositores da Vai-Vai, o mestre é deopinião que o Carnaval paulista evoluiu,embora lamente algumas perdas. “Ganhouem profissionalismo, é um espetáculo muitobem organizado. O samba-enredo perdeuqualidade. Mas mesmo com essa neurosetoda, com dez compositores para fazerum samba, você sempre acha alguém bom.Só não venha dizer que essas marchas, tocadasem velocidade, podem ser chamadasde samba. Não é, não.”sobrevivência Quinteto em Branco ePreto teve de tocar “pagodes de terceira”até poder viver do “samba bom”jailton garcia2008 março REVISTA DO BRASIL 43


viagemPalácio dogoverno e Praçadas ArmasLimae sua órbitaVenezuelaColômbiaEquadorA capital peruana, mais que simples escala paraquem vai a Machu Pichu, surpreende os quese enveredam por seus caminhos coloniais eancestrais Por João Correia Filho, texto e fotosPeruLimaBrasilFoi quase unânime. Ao comentarcom amigos que estava de viagemmarcada para o Peru, logoveio a pergunta: “Vai para MachuPichu?” Também foi quaseuma regra a cara de espanto quando eudisse que não, que passaria dez dias emLima, a capital. “Mas o que tem pra fazerem Lima?” era sempre a segunda pergunta.Fiquei ainda mais animado a ir a essacidade com cerca de 8 milhões de habitantes,fundada em 1535, que tem em seus arredoresvários templos construídos muitoantes dos incas.Embora o fantástico templo incaico deMachu Pichu mereça tamanha badalação,uma das coisas que se descobrem ao chegara Lima é que dezenas de outras civilizações,séculos antes, deixaram seu legadoespalhado por todo canto. Chimú, cupisnique,wari, ischma e lima são algumas culturasque imperaram em solo peruano e cujosnomes fazem parte da viagem. A última deunome à capital.Em meio a casas, carros e edifícios, bairrosmodernos e movimentados, Lima deixadespontar a imponência secular de templosde adobe e pedra, alguns em forma de pirâ-ChileBolíviaParaguaiArgentinaUruguai44 REVISTA DO BRASIL março 2008


O surpreendente Sob o Convento de San Francisco estão as catacumbas. Calcula-se que ali foram enterradas mais de 25 mil pessoasO maravilhoso Um giro por Lima revela belezas como o Arcebispado, com sua varanda entalhada em cedro e a biblioteca do mosteiromide, típicos de sua arquitetura ancestral.As ruínas de Huaca Pucllana, no bairro deMiraflores, conservam os traços da culturalima, surgida entre os séculos 2 e 7 de nossaera. Logo na entrada, um pequeno museusitua o visitante no tempo e no espaço.Ao andar por seus corredores e portais,é fácil ter idéia de como se organizava essacomplexa sociedade, cujos traços arquitetônicosresistiram ao tempo e a depredaçõese saques, nos últimos anos. Hoje a cidadeestá protegida por leis e por entidadesempenhadas em preservar o patrimônio dopaís. O guia explica, por exemplo, que a disposiçãodos pequenos tijolos de adobe já levavaem consideração o risco de terremotos,bastante comuns no Peru.Lima metropolitanaNos arredores da Grande Lima, a regiãometropolitana, há outras surpresas. A primeiraé o templo de Puruchuco, a dez quilômetrosda região central. Construído numaencosta de pedras, traz em seu interior umcomplicado desenho de labirinto. Adentrandosalões e corredores, a sensação é deestar em local sem saída, feito de barro etaipa, com dezenas de pequenos caminhos,traçados, segundo estudos arqueológicos,justamente para que houvesse um monitoramentodos locais de passagem, para o casode uma invasão inimiga e também para controledas ações de seus moradores.Puruchuco foi a residência do que chamamde curaca, que significa “governante”,e está relacionado com a ocupação doVale de Lima pela cultura ischma (do século13 ao 15). Achados arqueológicos recentes,como peças de cerâmica e artigos têxteis,mostram que também houve influênciainca, povo que viveu posteriormente, entreos séculos 15 e 16. Era uma espécie deedifício público, marcado por um calendáriocerimonial dedicado a atividades religiosase administrativas.Um pouco mais longe, cerca de 30 quilômetrosde Lima, está o Templo de Pachacamac,um dos mais importantes centrosde peregrinação religiosa da costa peruana.São muito caminhos a ser percorridos a pé,por uma estrada de terra que leva a váriostemplos, pertencentes a épocas e culturasdistintas. As primeiras ocupações dessa regiãoocorreram 200 anos antes de Cristo,mas foi durante o surgimento da culturalima que se ergueram os templos mais importantes.Mais tarde, por volta do ano 650,sofreram a influência da cultura wari e, entre1200 e 1450, da cultura ischma. No final,foram dominados pelos incas.A região conhecida como Templo Viejo éde origem Lima. Na seqüência vêm os templosPintado (wari) e Del Sol (inca), construçãovisível de qualquer ponto e talvez a maisimpressionante. Possui apenas um pequenoportal com uma escada que leva até o topo, deonde se tem uma visão privilegiada de toda aregião, com todos os templos e o mar.O passeio culmina na grande cidade incaconhecida como Mamacona ou Acllawasi,nome dado por ser o lugar das acllas, mulheresescolhidas para ser entregues comoesposas aos governantes. Algo, mal comparando,como uma escola preparatória demoças, selecionadas para dar continuidade2008 março REVISTA DO BRASIL 45


à linhagem da nobreza e à própria culturavigente. Mas foi aí que chegaram os espanhóis,em meados do século 16, mudando orumo da história, que na maioria das vezes,como sabemos, terminou em ruínas. Belase surpreendentes.HuacaHuallamarcaRuínas dePuruchucoA caminho doTemplo do SolViagem ao CentroO Centro Histórico de Lima é o local maisvisitado por quem está de passagem para outroslocais do país. Patrimônio Histórico daHumanidade desde 1988, chama a atençãopelo clima da Praça das Armas. Ali estão dispostosa sede do governo, a Casa de Pizarro,fundador da cidade, onde reside hoje opresidente; a Catedral, construída na mesmaépoca do nascimento da cidade e refeitaem 1564, inspirada na Catedral de Sevilha;o Arcebispado, cujo destaque é a impressionantevaranda entalhada em cedro da Nicarágua,madeira fina que permite desenhosminuciosos; e uma série de edifícios coloridos,também da época colonial, que abrigamrestaurantes e escritórios. O chafariz foi desenhadopor Gustave Eiffel, o mesmo arquitetoque projetou a famosa torre francesa.A algumas quadras dali está a Igreja eConvento de San Francisco, edificação de1674, considerada o maior conjunto monumentalde arte colonial da América. Sãodeslumbrantes a biblioteca do mosteiro,com suas estantes, escadas em caracol euma mobília antiqüíssima, a Sala do Órgão,e a sacristia, repleta de imagens adornadascom ouro, azulejos espanhóis e belaspinturas dos séculos 17 e 18.Nas catacumbas, sob o convento, a iluminaçãotrêmula confunde a visão e o cheirode terra remete ao passado. Conformeos olhos se habituam à pouca luz, percebe-sedentro de grandes poços e valas ossosdispostos de forma displicente ou desenhosgeométricos, que combinam crânios,pernas e braços. Segundo historiadores, aliestão enterradas pessoas que morreram emLima até 1808 – mais de 25 mil –, quando foiconstruído o primeiro cemitério da cidade.Nas catacumbas, hoje fechadas, reinam osilêncio e uma beleza irônica, que nos põema refletir sobre a vida e a morte.Vá alémPesquise:www.peru.inf/lima e www.limavision.comTemplo Pachacamac:pachacamac.perucultural.org.peHuaca Pucllana:pucllana.perucultural.org.peTemplo Puruchuco:museopuruchuco.perucultural.org.pe46 REVISTA DO BRASIL março 2008


RetratoGerardo LazzariAo deus da abundânciaTodo final de janeiro as cores e cheiros bolivianos tomam conta da Praça Kantuta, no Canindé, zona norte de São Paulo. A comemoraçãoé especial: uma homenagem ao dia de Ekeko, o deus da abundância. Reunidos, bolivianos, argentinos e, claro,(poucos) paulistanos. Nas barracas, pequenos artesanatos chamados alasitas simbolizam os sonhos que os fiéis querem verrealizados no ano que está começando. Há malas, ônibus e carros que representam o desejo de viajar ou voltar à terra natal;saquinhos de arroz e mesas de jantar que remetem à fartura dentro de casa; galinhas que prometem dar um jeito na vida amorosa;maços de dólares e outras moedas para trazer abonança. Depois de comprada a alasita, é preciso levá-la para Ekeko, um homemvestido como a divindade, que vai abençoá-la. Só ele pode fazer isso: rega o objeto com álcool, vinho e cerveja, passa pela fumaça da fogueira,enquanto pede, num espanhol incompreensível, para Ekeko realizar o desejo do fiel. Ao final, resta apreciar as apresentações dedanças típicas, comer uma empanada, ou salteña, comprar um chá de coca ou uma colorida malha típica e ir para casa, com a enormeesperança de que a vida ainda vai melhorar. Por Xandra Stefanel2008 março REVISTA DO BRASIL 47


Curta essa dica PorXandra Stefanel (xandra@revistadobrasil.net)Olhar estrangeiroDetalhes geográficos, arquitetônicos, culturais, sociais, antropológicos eetnográficos do Brasil figuram em 77 obras de 24 artistas na exposiçãofotográfica Brasil: desFocos (O Olho de Fora), no Paço das Artes, na CidadeUniversitária, em São Paulo. A mostra compõe um mosaico livre deestereótipos e preconceitos com relação ao país, como a “desconstrução”do mexicano de Damián Ortega (ao lado). Destaque para o retrato de Pelé,feito pelo criador da pop art, Andy Warhol. De terça a sexta, das 11h30 às19h; sábado, domingo e feriado, 12h30 às 17h30. Grátis.Tel.: (11) 3814-4832. Até 13 de abril.ManifestoA cultura hip-hop entrou na parada dereagir às agressões de toda ordem contra ouniverso feminino. Oficinas realizadas comcomunicadoras de rádio e MCs em todasas regiões do país pelo Núcleo de Jovens daONG Cemina mergulharam intensamente noassunto, e o resultado foi o CD Mulheres do Hip Hop Unidas pelo Fimda Violência contra a Mulher. Você pode baixar todas as músicas doálbum em www.hiphopsemviolencia.org.br.SidneySantiagoe FlavioBauraquiElas por elesLuíza, Renata, Teresa, Morena, Carolina... OCD Um Nome de Mulher (Biscoito Fino, R$ 20)traz 13 canções de mestres da música popularbrasileira, entre eles Chico Buarque, DorivalCaymmi, Tom Jobim, Billy Blanco, Toquinho. Ostemas: mulheres que de alguma forma mexeramcom sua inspiração e se transformaram em clássicos da MPB.Desconstruindo DeusCom apenas 90 páginas, escrito em formade carta para um “você” cristão católico,evangélico, protestante de outras linhas,batista, pentecostal, testemunha-de-jeováetc., o livro Carta a uma Nação Cristã (Cia.das Letras, R$ 29, em média), do americanoSam Harris, é demolidor. Harris afirma queas religiões são meras representações, semnenhum embasamento racional, prejudiciaisao futuro da humanidade. Focada na realidade americana, o quevale para outros países, a epístola de Harris pega pesado contra asmanipulações que as seitas provocam na política e na gestão pública.Com prefácio do polêmico Richard Dawkins, autor de Deus, umDelírio, abastece a fé e os argumentos dos ateus praticantes.Vida loucaO mito de Heracles – mais conhecidopelo nome romano de Hércules– inspirou o diretor Ricardo Eliasno filme Os 12 Trabalhos (2007).Heracles (Sidney Santiago, de Cidadede Deus) é um jovem negro, daperiferia, que após uma passagem pela Febem arrumaemprego como motoboy com a ajuda do primo Jonas(Flavio Bauraqui). Para ser admitido precisa realizar12 tarefas ao longo do dia. Dá de cara com burocracia,preconceito, intolerância, desconfiança e tragédias. Aoredor de uma motocicleta, a metrópole como ela é.48 REVISTA DO BRASIL março 2008


PenélopeCruzPaul Giamattiem cena comHope DavisAs mulheresde AlmodóvarRaimunda (Penélope Cruz) vive com um marido tarado,desempregado e tem uma filha em plena adolescência. Rala muitopara manter a casa. Sua irmã Sole (Lola Dueñas) ganha a vida comum salão de beleza ilegal. A mãe delas, depois de morta, reaparecepara acertar pendências. O abuso sexual, os mistérios da afetividadee o alcance da loucura dão o eixo dessa história, como é peculiar nos filmes deAlmodóvar. Volver (2006) é dramático, engraçado e surpreendente.PluralCronópios – Literatura e Arteno Plural é um site de literaturae poesia que se propõe a discutiressas artes através de textos emprosa, poesia, artigos, críticas eensaios. Traz lançamentos de livros,indicações de blogs, resenhas e, nolink TV Cronópio, entrevistas emvídeo com escritores, tradutores,diretores de cinema e músicos.Tem também como baixar a revistade literatura Mnemo Zine. E, paraas crianças, a diversão inteligenteno Cronopinhos, com histórias,ilustrações e lançamentos. Quemgosta de viajar em frente aocomputador deve dar uma passadaem www.cronopios.com.br.Arte eletrônicaO File é considerado um dos maiores festivais de arte, linguagem eletrônica etecnologia do Brasil e da América Latina. Neste ano será apresentado no Rio deJaneiro e em Porto Alegre, com 220 obras de artistas de mais de 20 países sobreweb arte, net arte, vida artificial, hipertexto, animação computadorizada, realidadevirtual e software arte. Tem também games, filmes interativos, e-vídeos, panoramasdigitais (fotos 360 graus) e instalações de arte eletrônica. De terça a domingo, das11h às 20h. No Rio, no Espaço Oi Futuro, tel. (021) 3131-3060, até 30 de março.Em POA, no Santander Cultural, (51) 3287-5940.As colônias do barãoA mostra Barão Hirsch e Suas Colônias na América– Memória de uma Emigração, de Carlos Goldgrub, éformada por 30 painéis de fotos feitas durante visitasàs antigas colônias do barão. No Brasil eram duas:Três Irmãos e Philipson, no Rio Grande do Sul. Umpanorama da imigração judaica de origem asiáticae européia rumo à América e do que restou dessascolônias. Centro de Cultura Judaica de São Paulo, desegunda a sexta, das 10h às 21h, sábado das 14h às19h e domingo das 11h às 19h. Até 3 de abril. Tel.:3065-4333. Rua Oscar Freire, Metrô Sumaré.2008 março REVISTA DO BRASIL 49

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