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Centro de Educação Superior Barnabita – CESB 3Curso de AdministraçãoTpara a experiência. Para tanto, a única possibilidade era sair da caverna (mundo sensível) paracair no mundo real e verdadeiro (mundo inteligível). Uma vez nesse patamar, a busca pornovas experiências e por conhecimentos mais complexos e profundos passam a mover asações dos indivíduos. Agora não é mais possível voltar à antiga rotina simples edesinteressante.Já na Toca do Coelho, as coisas acontecem de forma bastante inusitadas e até mesmoimprevistas. A experiência da vida é intensa e o questionamento acerca dos fatos é algocotidiano e saudável. Não há uma noção que se esgota com o conhecimento. Nesse sentido, aexperimentação é a maneira encontrada por Alice para apurar seu conhecimento do mundo edas coisas que podem de alguma forma ajudar na interpretação da realidade moldando assim,seus o conceito de real e verdadeiro.De certa forma a Toca do Coelho pode ser a Caverna de Platão ao inverso! Na Caverna aspessoas desejam sair para poderem viver e conhecer; na Toca, as pessoas desejam entrar paraexperimentar e pensar. Se na Caverna as pessoas são limitadas, na Toca elas estão livres esoltas. As verdades são relativas em ambos os mundos!Capítulo 2 - O Mar de Lágrimas“Escapei por pouco!” exclamou Alice, bastante assustada com a súbita mudança,mas muito satisfeita por estar ainda existindo. (CARROLL: 2000, p. 33)Após muito chorar pelas experiências não terem terminado da forma como ela desejava,mesmo não sabendo neste ponto qual era o final que ela desejva, Alice se dá conta dapreciosidade da existência mesmo que ainda não entenda seu propósito final. “Penso logoexisto”, trazendo alívio mesmo desvinculado da identidade. A mudança como fato queenriquece através do acúmulo de experiências vividas.Capítulo 5 - Conselhos de Uma Lagarta“Quem é você?” Não era um começo de conversa encorajador. Alice respondeumuito tímida: “Eu... já nem sei, minha senhora, nesse momento... Bem, eu sei quemeu era quando acordei esta manhã, mas acho que mudei tantas vezes desde então...”“O que você quer dizer com isto?” perguntou a Lagarta com rispidez. “Explique-semelhor!”3


Centro de Educação Superior Barnabita – CESB 4Curso de AdministraçãoT“Acho que eu mesma não posso me explicar melhor, senhora”, disse Alice, “porqueeu não sou eu mesma, compreende?”“Não, não compreendo”, respondeu a Lagarta.“Temo não poder explicar melhor”, replicou Alice educadamente, “porque eumesma não posso entender, para começar...ter tantos tamanhos diferentes em um sódia é muito confuso.”“Não é, não”, falou a Lagarta.“Bem, talvez a senhora ainda não tenha passado por isso”, disse Alice, “mas quandoa senhora se transformar numa crisálida — e isso vai acontecer um dia, a senhoradeve saber —e depois numa borboleta, eu acho que vai sentir-se um pouco estranha,não vai?”“Nem um pouco”, respondeu a Lagarta.“Bem, talvez os seus sentimentos sejamdiferentes”, disse Alice, “mas o que sei é que tudo isso parece muito estranho paramim.”“Você!” falou a Lagarta com desprezo. “Quem é você?”Isso as conduzia de novo ao início da conversa. Alice ficou um pouco irritada com ofato de a Lagarta ficar fazendo tais interrupções. Empinou-se e disse em tom muitosério: “Acho que a senhora é que devia me dizer primeiro quem é.”“Por quê?” dissea Lagarta.Aí estava outra questão complicada. Como não encontrou nenhuma boa razão, e aLagarta parecia estar num espírito muito desagradável, Alice virou as costas para irembora. (CARROLL: 2000, p. 61-62)“A pergunta que não quer calar” a humanidade, abre a quinto capítulo. Muitos críticos porconta desse questionamento, defendem que o livro é inapropriado para crianças porconsiderarem “o teor filosófico demais” para aparecer como um ingênuo diálogo infantil.“Quem é você?” A existência é novamente posta em questão mas agora exige muito mais doque a sua constatação. Agora é necessário vincular a identidade e os propósitos escolhidoslapidados pela experiência e o conhecimento acumulados.Após tantas transformações sofridas e encontros às vezes “inacreditáveis” na Toca do Coelho,longe da família, da escola, das atividades e do seu massante e padronizado cotidiano, aresposta poderá ser “errada e mentirosa”, porque requer de Alice retomar a própria essênciaque em diferentes momentos é por ela ridicularizado. Tarefa colossal e desafiadora ante ascircunstâncias do País das Maravilhas. Está instaurado o desassossego! A existência équestionada antes da autodefinição. Dúvida antes do VerboA lagarta será borboleta?!. Metáfora da própria metamorfose da Alice. Escapa a Alice a razãode não poder identificar-se? De qualquer forma, já tem a consciência da existência tal qualcomo Socrátes, embora ainda sem identidade.4


Centro de Educação Superior Barnabita – CESB 5Curso de AdministraçãoTO embate que se dá entre a Largata e Alice desconcerta e confronta sem desvelar-se. O mundo“real” de fora da Caverna é desarticulado e questionado pelo autor na Toca do Coelho.Algumas respostas socialmente aceitas são retomadas mas logo são esvaziadas de significaçãoaparecendo em “outro espaço-tempo”.As certezas e verdades são questionadas ao largo da razão. Há uma reflexão introspectiva querevela mais ao esconder do que ao assumir de vez as incertezas e indefinições.Capítulo 6 – O Porco e a Pimenta“Eu não sabia que gatos de Cheshire sempre sorriem; para dizer a verdade, eu nãosabia que gatos podiam sorrir.”“Todos podem”, disse a Duquesa, “e a maior parte o faz.”“Não conheço nenhum que o faça”, disse Alice muito polidamente, sentindo-seassaz satisfeita de ter começado uma conversa.“Você não sabe muita coisa”, disse a Duquesa, “esta é a verdade.” (CARROLL:2000, p. 76-77)“Se todos se preocupassem com suas próprias coisas”, disse a Duquesa num ásperogrunhido, “o mundo giraria muito mais rápido.”“O que não seria nenhuma vantagem”, falou Alice, sentindo-se muito feliz por teruma oportunidade de mostrar um pouco de seus conhecimentos. “Imagine só o queaconteceria com o dia e a noite! A senhora sabe que a terra leva vinte e quatro horaspara em torno de seu próprio eixo executar uma rotação...” (CARROLL: 2000, p.77)Visite ou um ou outro: ambos são loucos.”“Mas eu não quero me encontrar com gente louca”, observou Alice.“Oh, não se pode evitar”, disse o Gato, “todos são loucos por aqui. Eu sou louco.Você é louca.”“Como sabe que eu sou louca?” indagou Alice.“Você deve ser”, respondeu o Gato, “ou então não teria vindo aqui.” (CARROLL:2000, p. 84)Como se não bastasse o questionamento da existência, Alice se vê agora com dúvidas e nãoentendimentosacerca de conceitos importantes para a humanidade: verdade, ciência eloucura. A verdade pode adquirir contornos um tanto quanto peculiares e até mesmopersonalizados. Ao se usar a ciência para investigar a veracidade das coisas e fatos e atémesmo para tentar provar a verdade, tudo se torna relativo chegando mesmo a assumircontornos inverdadeiros e loucos.De que importa o conhecimento sem experiência e a experiência sem o conhecimento, se nadadisso puder ser internalizado e reinterpretado à luz da vivência e do entendimento docotidiano? Assim, essa transmutação pode agora adquirir facetas um tanto quanto loucas! O5


Centro de Educação Superior Barnabita – CESB 6Curso de AdministraçãoTquestionamento, a investigação e a experimentação tentanto definir a loucura ao invés daciência com o rigor das práticas e teorias. O olhar por si só já modifica e interfere nainterpretação da realidade dos fatos.Cap 12 - O Depoimento de Alice.Continuou ali sentada, com os olhos fechados, quase acreditando estar no País dasMaravilhas, mas sabendo que bastaria abrir de novo os olhos e tudo voltaria àprosaica realidade: o farfalhar da relva se deveria apenas ao vento, e a agitação dalagoa apenas ao ondular dos juncos... o tinir das xícaras se transformaria nochocalho das ovelhas que por ali pastavam, e os berros estridentes da Rainha na vozdo pastor... os espirros do bebê, o guincho do Grifo e todos os outros estranhosruídos se transformariam (ela sabia disso) no confuso burburinho das atividades docampo... enquanto o mugido do rebanho ao longe tomaria o lugar dos profundossoluços da Falsa Tartaruga. Por fim, ela imaginou como seria sua irmãzinha quando,no futuro, se transformasse em uma mulher adulta; e como conservaria, com oavançar dos anos, o coração simples e afetuoso da infância; e como reuniria emtorno de si outras crianças e deixaria os olhos delas brilhantes e atentos a muitashistórias estranhas, talvez mesmo com o sonho do País das Maravilhas de tantosanos atrás; e como compartilharia as suas pequenas tristezas e as suas simplesalegrias, recordando-se de sua própria infância e de seus felizes dias de verão.(CARROLL: 2000, p. 152)Este capítulo, em especial seu final, aponta as preocupações que a irmã de Alice demostra emrelação ao conhecimento e às experiências vividas no País das Maravilhas. Ela destaca quetais experiências e conhecimentos transformaram Alice e a prepararam de certo modo paranovos momentos e novas situações que vão acontecer com ela na versão “Toca do CoelhoReal”. Uma vez que Alice saiu da Caverna e entrou na Toca as etapas que se sucederão serãonovas portas que ela abrirá e vivenciará com base no que ela experimentou na sua infância.É importante destacar que mais importante do que viver acumulando experiência econhecimento é nunca perder de vista experiências e conhecimentos que se destacaram aolongo da existência. Se há lógica, razão, ciência, loucura ou verdades compondo o dia a diaisso não importa. O que importa é justamente a possibilidade aberta para a experimentaçãoinusitada, livre e sem receitas. É o viver intensamente e sem preconceitos.CONSIDERAÇÕES FINAISO mundo moderno com sua diversidade e intensidade de eventos, fatos e sensações doespaço-tempo, imprimiu um ritmo à vida em sociedade com um padrão de produção e de6


Centro de Educação Superior Barnabita – CESB 7Curso de AdministraçãoTconsumo que pode ser caracterizado como superficial, massificante e, porque não dizer, comuma agitação e barulho acima do confortável.Nesse sentido, pode-se descrever e identificar o sujeito moderno a partir da observação dealgumas características. Ele é aquele que busca acompanhar intensamente a novidade dainformação divulgada, tem opinião formada sobre quase tudo, trabalha quase que 24 horas pordia, não lhe restando tempo para experimentar e questionar tal cotidiano.Segundo BONDIA (2002) a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nostoca. Entretanto, o mundo moderno está organizado para que nada nos aconteça. Nessecontexto,O sujeito da experiência é comparado a um território de passagem, algo como umasuperfície sensível que aquilo que acontece afeta de algum modo, produz algunsafetos, inscreve algumas marcas, deixa alguns vestígios, alguns efeitos. Assim, [...] éincapaz da experiência aquele a quem nada lhe passa, a quem nada lhe acontece, aquem nada lhe sucede, a quem nada o toca, nada lhe chega, nada o afeta, quem nadao ameaça, a quem nada ocorre. (BONDIA: 2002, p. 21-25)Para o autor, “a experiência está ficando cada vez mais rara” pois as condições para seexperimentar não são buscadas e nem mesmo entendidas por aqueles que estão mergulhadosna modernidade. Não há silêncio, não há memória, não há vontade em se abrir para odesconhecido. Não há tempo para parar e romper com o automatismo e nem mesmo há o“direito” de ir mais devagar! O sujeito moderno vive a contradição de querer tudo e não ternada; de poder tudo e não dar conta de nada; de achar que sabe muito mas não experimentarnada e de ter informação mas não ter conhecimento sobre as coisas. Dessa forma, nada éinternalizado, nada é sentido, nada é ouvido, nada é vivido e experimentado!Na minha opinião, o livro Alice no País das Maravilhas é um convite para se repensar o que éconhecimento, o que é experiência e como esses dois conceitos podem ser usados para seentender além do que seja a existência, qual seu sentido, seus significados e propósitos.Alice passa por inúmeras e transformantes situações que literalmente a tocam e a afetam aponto de redirecionar seu conhecimento acerca do que está acontecendo à sua volta. Desta7


Centro de Educação Superior Barnabita – CESB 8Curso de AdministraçãoTforma, destaca-se o componente fundamental da experiência: sua capacidade de formação oude transformação.Trazendo essas reflexões para o contexto das empresa modernas percebe-se uma busca porprofissionais que de fato tem experiência, mas que quando colocados a compartilhá-las nomundo organizacional acabam, em alguns contextos, sendo caracterizados como loucos.Sentem-se assim aprisionados e se comportam como membros da Caverna de Platão, sendodespersonalizados e descaracterizados enquanto capital intelectual. É a contradição latente einclemente entre experiência, conhecimento, autonomia, identidade e sucesso presentes nessecontexto de passagem da cultura organizacional moderna do formato caverna para toca.Faz-se então necessário que profissionais libertos das limitações do escuro da caverna, caiamna toca e se permitam experimentar e viver intensamente todos os desafios que a vidaorganizacional coloca de forma a se tornarem referência na busca por uma nova cultura ecomportamento criativo no âmbito do mundo corporativo global.Termino minha exposição com mais uma definição de BONDIA (2002) sobre experiência queexpressa o acontecido no País das Maravilhas.A palavra experiência tem o ex de exterior, do estrangeiro, de exílio, de estranho etambém o ex de existência. A experiência é a passagem da existência, a passagem deum ser que não tem essência ou razão ou fundamento, mas que simplesmente “existe”de uma forma sempre singular, finita, imanente, contingente. (BONDIA: 2002,p. 25)Que possamos quebrar paradigmas e viver efetivamente as experiências de uma forma menospretenciosa no nosso cotidiano para que a viva nos passe de “verdade”!.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASAFONSO, Eduardo José. Alice, a Ciência e o Papel da História. Disponível em:http://www.anpuhsp.org.br/downloads/CD%20XIX/PDF/Autores%20e%20Artigos/Eduardo%20Jos%E9%20Afonso.pdf, consulta realizada em 04 de junho de 2010.8


Centro de Educação Superior Barnabita – CESB 9Curso de AdministraçãoTBONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. (Tradução deJoão Wanderley Geraldi). In Revista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro, n.19,jan./fev./mar./abr. 2002, p.20-28.CARROLL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. 2ª edição revista.(Tradução de Izabel deLorenzo). São Paulo: L&PM Editores, 2000. 153p.PINTO, Gabriel Faria Soares. Análise Filosófica da Obra Alice no País das Maravilhas.Disponível em: http://www.ump.edu.br/midialogos/ed _02/ensaios/Analise%20Filosofica.pdf,consulta realizada em 04 de junho de 2010.9

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