Encontros e desencontros entre Cristóvão Colombo e D ... - Academia

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Encontros e desencontros entre Cristóvão Colombo e D. João II:origem e divergência de duas estratégiasComunicação apresentada na Academia deMarinha pelo Membro Efectivo Doutor JoséManuel Garcia, em 14 de Junho de 2011Muitas opiniões houve nestes reinos de Portugal, nos tempospassados, antre alguns letrados, acerca do descobrimento dasEtiópias de Guiné e das Índias; porque uns diziam que nãocurassem de descobrir ao longo da costa do mar, e que melhorseria irem pelo pego, atravessando o golfão, até topar emalguma terra da Índia ou vezinha dela, e por esta via seencurtaria o caminho; outros disseram que melhor seriadescobrirem ao longo da terra, sabendo pouco e pouco o quenela ia, e assim suas rotas e conhecenças, e cada província deque gente era, para verdadeiramente saberem o lugar em queestavam, por onde podiam ser certos da terra que iam buscar,porque de outra guisa não podiam saber a região em queestavam, e a mim me parece que a segunda opinião foi maiscerta, e assim se fez 1 .Foi desta forma que em 1505 Duarte Pacheco Pereira se referiu àproblemática dos Descobrimentos, tal como havia sido debatida “nostempos passados, entre alguns letrados”, indicando claramente que secolocaram duas opções estratégicas sobre qual a melhor forma a seguir nosDescobrimentos para chegar à Ásia. Uma dessas posições defendia a idapara ocidente, “que melhor seria irem pelo pego, atravessando o golfão, atétopar em alguma terra da Índia ou vizinha dela”, enquanto a outra defendiaa ida para sul e depois para leste, pois o “melhor seria descobrirem ao longoda terra”.O autor aqui considerado era partidário desta segunda opção, talcomo o foram os dirigentes portugueses desde o infante D. Henrique até D.Manuel, passando por D. João II, tendo sido pela via oriental que Vasco daGama chegou à Índia em 1498. A outra opção foi partilhada por algunsletrados cujos nomes não foram mencionados pelos cronistas mas seguiam1 Duarte Pacheco Pereira, Esmeraldo de situ Orbis de Duarte Pacheco Pereira (3.º livro,cap. 4), edição de Joaquim Barradas de Carvalho, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian,1991, p. 673.XXII-1


o parecer do florentino Paolo dal Pozzo Toscanelli, tendo entre os seuspartidários mais activos figuras como Colombo e Martin Behaim.Foi em torno destas duas vias que se centraram as acções deCristóvão Colombo e D. João II, sendo de considerar que o rei portuguêsapreciava aquele genovês, como o mostrou no salvo conduto que lhepassou em Avis a 20 de Março de 1488 ao trata-lo com grandeconsideração a ponto de chegar ao tom muito cordial que se vê na formacomo se lhe dirige no sobrescrito do referido documento: “A christovamcollon noso espcial amigo em sevilha”, enquanto no texto o nomeia sob aforma de Christoual Colon 2 . O famoso genovês, por sua vez, admirava D.João II, como o demonstrou numa carta que em 1505 enviou ao reiFernando, o Católico, em que afirmou ser o rei português aquele que“entendia en el descobrir más que otro” 3 . Apesar do bom relacionamentoassim demonstrado entre os dois homens estes defenderam e seguiramrumos diferentes para a realização dos Descobrimentos que protagonizarame foram decisivos para a História da Humanidade.As opções sobre a ida para ocidente ou oriente para chegar àsÍndias terão sido debatidas em Portugal pelo menos em 1459 e 1474, comose deduz do teor da carta que o florentino Paolo dal Pozzo Toscanelli(1397-1482) enviou de Florença a 25 de Junho de 1474 a FernandoMartins, cónego da Sé de Lisboa. Este documento é fundamental para aHistória dos Descobrimentos e chegou ao nosso conhecimento porqueColombo o copiou numa folha colocada no fim do seu exemplar daHistoria rerum ubique gestarum de Pio II, que se encontra na BibliotecaColombina em Sevilha. Esta carta foi publicada pela primeira vez em 1871tendo permitido corrigir as deformadas traduções quinhentistas que delaforam feitas nas obras de Fernando Colombo e Bartolomeu de las Casas 4 .A enorme importância histórica da carta de Toscanelli deriva nãoapenas do facto de ter sido o conhecimento do seu conteúdo que teráconstituído o factor decisivo a contribuir para a génese do projecto deColombo que o levaria à América, mas também porque permite perceber2Arquivo General de Índias, Patronato, 295, n.º 1 publicado nomeadamente emDescobrimentos portugueses: documentos para a sua história, edição de João Martins daSilva Marques, volume III, Lisboa, Instituto de Alta Cultura, 1971, p. 341-342. Sobre estedocumento cf. ainda José Pereira da Costa, «O arquipélago da Madeira no tempo deColombo», in III Colóquio Internacional de História da Madeira, Actas, Funchal, Centro deEstudos de História do Atlântico, 1993, p. 17-35 e em particular p. 31-35.3 Cristoforo Colombo. Lettere e scritti (1495-1506). Nuova raccolta colombiana, edição dePaolo Emilio Taviani e Consuelo Varela, tomo II, Roma, Instituto Poligrafico e Zecca delloStato, 1993, p. 420 e Cristóbal Colón, Textos y documentos completos, edição prólogo enotas de Consuelo Varela, 2.ª edição, Madrid, Alianza Universidad, 1984, p. 357.4 Antonio Rumeu de Armas, Hernando Colón: historiador del descubrimiento de América,Madrid, Instituto de Cultura Hispanica, 1973, p. 255-288.2


Ego autem quamvis cognoscamposse hoc ostendi per formamspericam ut est mundus tamendeterminaui pro facilioriintelligencia ac etiam profaciliori opere ostendere viamillam per quam cartenauigacionis fiunt illuddeclarare.Mito ergo sue Majestati cartammanibus meis factam in quadesignantur litora vestra et insuleex quibus incipiatis iterfacereversus occasum sempre (…)E eu, ainda que saiba que isso sepode mostrar por uma representaçãoesférica, tal como é o mundo,contudo, para facilitar a compreensãoe também para aliviar o trabalho deensinar esse caminho, decidi-me adeclará-lo da forma como se fazemas cartas de marear.Envio portanto a sua majestade umacarta feita com as minhas mãos, naqual se marcam vossa costa e as ilhasde onde deveis começar a viagemsempre em direcção ao poente (…).A proposta aqui apresentada era contrária à prática até entãoseguida em Portugal de proceder à circum-navegação de África, poisaconselhava os portugueses a dirigirem-se à Ásia rumando directamente aocidente. Esta ousada estratégia não foi adoptada pelas autoridadesportuguesas, que preferiram continuar a seguir uma via oriental iniciadaalgumas décadas antes e que teve sucesso quase vinte e quatro anos depoisde redigida esta carta.Fernando Martins notabilizou-se porque em 1474 enviou uma cartaa Toscanelli em nome de D. Afonso V mas na realidade tê-lo-ia feito apedido do príncipe D. João, pois tal acto surge pouco tempo depois daocasião em que este foi encarregado pelo pai “dos feitos das partes deGuiné e investigação dos mares, terras, gentes e cousas delas que aosviventes agora e aos que nos precederam foram sempre muito ignotos até otempo do infante Dom Henrique” e tinha em vista o “que se ao diante emqualquer tempo achar e descobrir”. Estas expressões apontam para oretomar de uma linha de continuidade com o processo iniciado pelo infantee estão registadas na carta de confirmação daquele encargo que foi passadapor D. Afonso V ao filho a 4 de Maio de 1481 6 , nela se explicitando que foipassada porque ao ser-lhe atribuído o cargo em 1474 “não lhe foi entãodelo feita carta”. A circunstância do dia 4 de Maio de 1481 corresponder aodia seguinte ao do aniversário daquele que em breve seria o rei D. João II,nascido a 3 de Maio de 1455, leva-nos a admitir que a doação inicial deste6 Descobrimentos portugueses: documentos para a sua história, edição de João Martins daSilva Marques, volume III, Lisboa, Instituto de Alta Cultura, 1971, p. 220-222.4


Encontros e desencontros entre Cristóvão Colombo e D. João II:cargo foi feita de forma verbal talvez a 3 de Maio de 1474, pois nessaconfirmação alegou-se que o príncipe “sendo já em idade de dezanove anosnão tinha algum tal cargo”, pelo que o rei decidira atribuir-lhe aquelaimportante e lucrativa actividade. Esta realidade é confirmada pelacircunstância de na documentação da década de 70 do século XV só depoisde Maio de 1474 é que o príncipe começou a ser expressamentemencionado nas decisões relativas a iniciativas ultramarinas como estandodelas encarregado.Considerando a proximidade das datas de 3 de Maio de 1474, emque D. João teria tomado posse do cargo de responsável pelos assuntos daGuiné, e de 25 de Junho de 1474, em que Toscanelli respondeu a FernandoMartins, somos levados a sugerir a possibilidade de ter sido logo em Maiode 1474 que o príncipe expressou a sua curiosidade e interesse em saberqual seria a melhor forma de atingir as Índias procuradas desde o tempo doseu tio-avô infante D. Henrique. Afigura-se-nos natural que D. Joãoquestionasse sobre essa matéria os poucos homens cultos e interessados emquestões de cosmografia que então havia em Portugal, entre os quais secontava Fernando Martins. Este, por sua vez, lembrou-se da conversaçãoque tivera em Florença em 1459 com Toscanelli sobre questões geográficasem torno de um mapa, pelo que, sendo este um dos mais reputadosespecialistas em assuntos de cosmografia, achou por bem solicitar-lhe umparecer sobre as matérias que então estavam de novo a ser discutidas emPortugal. A formulação deste pedido neste contexto está subjacente àresposta que então Toscanelli lhe enviou, pois só assim ganha sentido tersido emitido precisamente neste período de 1474 em que a novaadministração das explorações ultramarinas desejava dar continuidade aoprogresso dos Descobrimentos no sentido de atingir terras onde haviaespeciarias.Para enquadrar e iluminar a razão de ser da troca decorrespondência entre o cónego de Lisboa e o sábio florentino é necessárioinsistir no facto de que tal facto se situa na conjuntura que foi marcada pelanomeação do príncipe D. João para uma tão grande responsabilidade comoera a de continuar os Descobrimentos Portugueses. Nessa altura tinhamterminado as explorações sob a alçada do contrato de Fernão Gomes, tendoos seus navegadores chegado ao cabo de Santa Catarina que fica um poucoao sul do Equador, tendo assim sido descoberto todo o golfo da Guiné até1474. Perante estes dados e na eminência de começar uma nova fase nahistória dos Descobrimentos compreende-se o sentido da interrogaçãodirigida por Fernando Martins a Toscanelli e da proposta que este avançouaos portugueses sobre a melhor forma de chegar aos “lugares daespeciaria”.XXII-5


Toda esta problemática é susceptível de ser equacionada graças aoacto de Colombo que ao contactar com a carta e o mapa de Toscanelli oscopiou e assumiu a vontade de querer concretizar a aliciante proposta queaí se continha, sendo aparentemente simples de realizar, apesar de osportugueses não a terem seguido. Nas fontes portuguesas este debateapenas ficou assinalado na referência feita por Duarte Pacheco Pereira notexto de 1505 que atrás assinalámos.A problematização da forma de atingir as Índias equacionada em1474 pelo príncipe D. João não suscitou resultados nos tempos que se lheseguiram por corresponderem a uma conjuntura adversa que impediu arealização de viagens de exploração, visto em 1475 ter sido necessáriomobilizar em Portugal todos os meios navais, humanos e financeiros paraas campanhas militares contra Castela resultantes da guerra que desde entãoD. Afonso V moveu para reivindicar a coroa deste reino, na sequência damorte de Henrique IV ocorrida a 12 de Dezembro de 1474.Só após a subida ao trono de D. João II em 1481 é que o processodos Descobrimentos foi retomado, tendo sido então que o novo rei decidiudar continuidade à opção henriquina de proceder a pesquisas junto da costaafricana, deixando de lado a proposta sugerida em 1474 por Toscanelli. Foineste enquadramento que antes de 31 de Agosto de 1482 D. João II deuordens a Diogo Cão para navegar até onde pudesse ir ao longo do litoralafricano no sentido de ver se conseguia encontrar as Índias.Por esse tempo Colombo ia aprendendo a arte da navegaçãoatlântica que os portugueses então desenvolviam nas suas rotas oceânicas,tendo ido nomeadamente até à Guiné e à Mina nos primeiros anos dadécada de 80 do século XV. Foram os conhecimentos de navegação entãoadquiridos por Colombo que lhe permitiram realizar a viagem que em 1492o iria imortalizar. A concepção que levou à realização de tal feito, contudo,ter-lhe-á surgido quando nesse tempo teve acesso à carta e ao mapa deToscanelli, de cuja tese passou o ser um ardente defensor.Como Colombo não tivesse recursos financeiros para podermaterializar a proposta de Toscanelli tentou obter junto de D. João II osmeios que lhe permitissem fazer a viagem para encontrar terras do Orienterumando a ocidente.O encontro entre estes dois homens em que esse pedido foiformulado constitui, poid, um dos episódios mais importantes da vida dofamoso genovês no período da sua permanência em Portugal, o que nosleva a considerar quão importante é aprofundar este tema para tentar apuraras circunstâncias em que terá ocorrido.Através dos testemunhos registados por Fernando Colombo eBartolomeu de Las Casas é possível verificar que Colombo consolidou a6


Encontros e desencontros entre Cristóvão Colombo e D. João II:convicção da vantagem de seguir a proposta de Toscanelli a partir darecolha de vários indícios práticos que lhe dariam consistência. Um dosindícios a merecer-lhe a maior atenção foi o da existência de canas degrandes proporções que foram arrastadas pelos ventos do poente (naverdade correntes marítimas) para a ilha de Porto Santo, as quais tinhamsido vistas pelos seu cunhado Pêro Correia, que disso o informou. Colombomostrou-se convencido de que essas canas deviam vir de alguma terraasiática situada a poente, pois era dessa direcção que lhe diziam soprar ovento que trazia tais materiais, que não se encontravam na Europa nem naÁfrica. Estas canas existiam e eram do conhecimento de D. João II, quesobre elas falou com Colombo tendo-lhas mesmo mandado mostrar, poissabia onde estavam guardadas e permitindo mesmo que ele as visse,quando sobre elas falaram. Estas indicações foram escritas pelosmencionados autores, pelo que de seguida as transcrevemos em paralelo,pois constituem um dos temas centrais do episódio relativo à proposta dodescobrimento apresentada por Colombo a D. João II:Texto de Fernando ColomboA che prestava più facilmentecredenza, spinto da molte favole enovelle ch’ei sentìa narrare adiverse persone e marinari i qualitraficavano l’isole e i marioccidentali de gli Astori e dellaMadera. I quali indicii, perciocchéfacevano alquanto a suo proposito,non lasciava egli di metterlisi inmemoria. Però io non lascerò direferirli, per sodisfare a coloro chesi delettano di simiglianti curiosità.Là onde fa mistier che si sappia cheun piloto del re di Portogallo,chiamato Martin Vincenzo, gli disseche ritrovandosi egli una voltaquattrocento e cinquanta legheverso Ponente dal Capo di SanVincenzo, trovò e pigliò in mare unpezzo di legname ingegnosamentelavorato, ma non con ferro; dallaqual cosa, e dall’aver per molti diTexto de Bartolomeu de LasCasasDice, pues, Cristóbal Colón, entreotras cosas que puso en sus librospor escripto, que hablando conhombres de la mar, personasdiversas que navegaban los maresde occidente, mayormente a lasislas de los Azores y de la Madera,entre otras le dixo un piloto del reyde Portogal, que, se llamabaMartín Viceinte, que hallándoseuna vez cuatrocientas y cincuentaleguas al poniente del cabo de SantViceinte, vido y cogió en el navio,en la mar, un pedazo de maderolabrado por artificio, y, a lo quejuzgaba, no con hierro; de lo cual ypor haber munchos dias ventadovientos ponientes, imaginaba queaquel palo venía de alguna isla oislas que hacia el poniente hobiese.También otro que se nombró PeroXXII-7


soffiato venti da Ponente conobbeche detto legno veniva da alcuneisole ch’ivi verso l’Occidentefossero.E apresso un Pietro Correa,maritato con una sorella dellamoglie dello stesso Ammiraglio, glidisse nell’isolla di Porto Santo averveduto un altro legno venutovi congli stessi venti, ben lavorato come ilsopradetto: e che medesimamentev’erano recate canne così grosse chedall’un nodo all’altro contenevanonove caraffe di vino.Il che dice che affermava eziandio lostesso re di Portogallo, ragionandocon lui di queste cose; e che glifurono mostrate; e non essendoluoghi nelle nostre parti dovenascono cotai canne, aver per certoche i venti le avevano portate daalcune isole vicine, o almenodall’India: percioché Tolomeu nelprimo libro della sua Cosmografia,al capitolo XVII, dice che nelle partiorientali delle Indie sono di questecanne 7 .Correa, concuño del mismoCristóbal Colón, casado con lahermana de su mujer, le certificóque en la isla del Puerto Sanctohabía visto otro madero venido conlos mismos vientos y labrado de lamisma forma, e que también[había] visto cañas muy gruesasque, en un cuñuto dellas, pudierancaber tres azumbres de agua o devino.Y esto mismo dice Cristóbal Colónque oyó afirmar al rey de Portogal,hablando con él en estas materias,y quel rey se los mandó mostrar. Elqual tuvo por cierto (digo elCristóbal Colón) ser las dichascañas de algunas islas o isla que noestaba muy lejos, o traídas de laIndia con el ímpetu del viento y dela mar, pues en todas nuestraspartes de la Europa no las había ono se sabía que las hobiesesemejantes. Ayudábale a estacreencia que Ptolomeo, en el libro1, cap. 17 de su Cosmografia, diceque en la India se hallaban deaquelas cañas 8 .Como acabámos de verificar por estas considerações sobre aapresentação do projecto de Colombo a D. João II e tal como o primeiro odeixou mencionado nos seus apontamentos, ou “livros de memórias”, comolhes chama Las Casas, as canas estão associadas ao teor da conversação7 Fernando Colombo, Le historie della vita e dei fatti dell’ ammiraglio Don CristorforoColombo (cap. IX), edição de Paolo Emílio Taviani e Ilaria Luzana Caraci, tomo I, Roma,Istituto Poligrafico e Zecca dello Stato, 1990, p. 47-48. O original deste texto em castelhanofoi escrito cerca de 1535 a partir de cadernos de apontamentos de Colombo, tendo sidotraduzido em italiano e impresso com alterações em 1571.8 Fray Bartolomé de las Casas, Historia de las Índias (livro 1, cap. 13), tomo 1, Obrascompletas, 3, Madrid, edição de Paulino Castañeda Delgado, Alianza Editorial, 1994, p.403. Este texto foi elaborado cerca de 1544 a partir da consulta do original castelhano dolivro de Fernando Colombo referenciado na nota anterior.8


Encontros e desencontros entre Cristóvão Colombo e D. João II:havida, pois de acordo com Fernando Colombo: “Il che dice che affermavaeziandio lo stesso re di Portogallo, ragionando con lui di queste cose; eche gli furono mostrate”, sendo seguido por Las Casas: “Y esto mismo diceCristóbal Colón que oyó afirmar al rey de Portogal, hablando con él enestas materias y quel rey se los mandó mostrar”. Estas expressõesconstituem declarações peremptórias sobre o teor dos contactosestabelecidos entre o genovês e o rei português que estivera “falando comele sobre estas coisas” relacionadas com a via ocidental de chegar às Índias.Elas surgem no contexto em que se equacionou a importância dos indíciosreunidos sobre terras orientais que se situavam a ocidente das ilhasatlânticas portuguesas, entre os quais se destacavam a descoberta de “canasgrossas em que de um nó a outro cabiam nove garrafas de vinho” quevinham do ocidente e foram detectadas pelos portugueses.A consistência das informações obtidas por Colombo dos indíciosde terras situadas a ocidente das ilhas portuguesas do Atlântico no sentidode levar avante a teoria de Toscanelli são completadas por indicações deoutros autores que seguiam também as ideias do sábio florentino.O encontro de grandes bambus vindos do ocidente constituiu umdos indícios mais consistentes entre os que foram recolhidos por Colombocom vista a fundamentar a pertinência da tese de Toscanelli sobre aacessibilidade a terras asiáticas por uma via ocidental. Por tal motivo essasplantas foram alvo da atenção não apenas do famoso genovês mas tambémde outros contemporâneos que como ele partilharam da mesma convicçãode que essa perspectiva era preferível à seguida por D. João II. Estarealidade vem não apenas corroborar mas também reforçar a credibilidadedo conteúdo das fontes colombinas, estando atestada por Martin Behaim eJerónimo Münzer, dois dos homens desse tempo que revelaram grandeinteresse por estas matérias.Martin Behaim interessou-se pelos Descobrimentos portugueses eviu as mesmas canas que tanto interessaram Colombo pois sobre elas falouna Alemanha, para onde foi na Primavera de 1490 tratar de assuntosfamiliares e onde ficou até pouco depois de 14 de Julho de 1493, data dacarta de Jerónimo Münzer que trouxe consigo para D. João II, na qualcontava com o apoio do imperador Maximiliano para a realização do seuprojecto de ir ao Catai pelo ocidente.Enquanto permaneceu em Nuremberga Behaim dirigiu em 1492 aconstrução de um famoso globo (Erdapfel) montado por RuprechtKolberger, para o qual forneceu informações e um mapa mundo destinado amelhor visualizar a forma da Terra de acordo com a teoria de Toscanelli.Para fazer o seu globo Behaim recorreu a várias fontes, de entre asquais a principal foi por certo uma cópia do mapa de Toscanelli, pois asXXII-9


medidas nele adoptadas, tal como foram registadas na carta que oacompanhava, aproximam-se das que estão expressas no globo.Enquanto Behaim procedia em Nuremberga entre 1490 e 1493 adiligências no sentido de obter apoios para fazer uma viagem para ocidente,Colombo diligenciou no mesmo sentido em Castela junto dos ReisCatólicos. Entretanto D. João II entre 1489 e 1492 não realizou qualqueriniciativa para fazer avançar os Descobrimentos, nem para Oriente nempara Ocidente 9 .Behaim voltou a Portugal com a citada carta datada de Nurembergaa 14 de Julho de 1493 que havia sido dirigida a D. João II por JerónimoMünzer (cerca 1460-1508), também chamado Jerónimo Monetario, poisassinava Hironymus Monetarius. Este documento é conhecido através deuma cópia latina parcial do original que foi copiada por Hartmann Schedelna Alemanha, tendo ficado manuscrita, enquanto a sua versão portuguesaintegral foi feita por mestre Álvaro da Torre, pregador de D. João II, eimpressa em data incerta no chamado Guia náutico de Munique 10 . No textoda carta manifesta-se o apoio de Maximiliano a uma expedição dirigida porBehaim tendo em vista a ida ao Oriente por via ocidental e não revelandoqualquer elemento que indiciasse que em Nuremberga houvesseconhecimento de o projecto em causa ter acabado de ser concretizado porColombo e por ele anunciado em Lisboa quando aí chegou a 4 de Março de1493.Os argumentos em prol da tese apresentada por Münzer na carta de1493 foram-lhe em grande parte fornecidos por Behaim no sentido defundamentar a existência das terras orientais aonde seria fácil de chegar poruma via ocidental e entre os indícios que a sustentam indicavam aexistência das canas que eram arrastadas pelo mar 11 .Quando Münzer escreveu esta carta ainda não tinha vindo aPortugal e por isso não podia ter feito a referência às canas e ao contextoem que lhes alude sem ser por via das informações que Behaim lhefornecera.Behaim ao chegar a Lisboa verificou que o seu projecto tinha sidoultrapassado pela realização de Colombo em 1492-1493 e que pela9 José Manuel Garcia, A viagem de Vasco da Gama à Índia, 1497-1499, Lisboa, Academiade Marinha, 1999, p. 112-125.10 Sobre esta obra Luís de Albuquerque, Os guias náuticos de Munique e Évora, Lisboa,Junta de Investigações do Ultramar, 1965 estudo retomado na introdução da edição facsimiladade Guia de Munique e Guia náutico de Évora, Lisboa, Comissão Nacional para asComemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1991.11 Seguimos a leitura da edição fac-similada de Guia náutico de Munique e Guia náutico deÉvora, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos DescobrimentosPortugueses, 1991.10


Encontros e desencontros entre Cristóvão Colombo e D. João II:assinatura do tratado de Tordesilhas a 7 de Junho de 1494 Portugal ficouafastado da exploração das terras ocidentais recém descobertas.Em 1494, Münzer saiu de Nuremberga e veio a Portugal, onde a 16de Novembro se encontrou em Évora com D. João II, que o recebeu muitobem, tendo falado com ele longamente sobre vários assuntos relacionadoscom os Descobrimentos, pelos quais o alemão tinha particular interesse 12 .No decorrer de tais conversações as canas mencionadas na sua carta de1493 terão sido evocadas e seria na sequência da curiosidade então reveladapor esses materiais que o alemão foi autorizado a vê-las quando se deslocoua Lisboa, tendo-se deslocado a 30 de Novembro de 1494 à igreja de NossaSenhora da Luz para ver entre os objectos exóticos que aí se guardavam asfamosas canas que tanto o interessavam desde que no ano anteriorescrevera a carta a D. João II.O registo deste episódio encontra-se no seu Itinerário com adescrição da viagem a Espanha e Portugal 13 .Neste texto é de realçar a referências às “canas das que astempestades do mar lançam do Oriente para as ilhas da Madeira e doFaial”, de que Münzer viu duas, uma das quais tinha cerca de 3,5 metros,tendo entre os nós cerca de 1,76 metros, com a grossura de um pulso,descrição mais completa do que a de Colombo, pois na versão transmitidapelo seu filho Fernando Colombo limita-se a dizer serem as canas muitogrossas, calculando que entre um nó e outro caberiam nove garrafas devinho. Estas canas foram consideradas pelos portugueses como objectosdignos de admiração por isso as guardaram na igreja de Nossa Senhora daLuz, onde entre cerca de 1483 e 1494 despertaram a atenção de pessoasinteressadas por assuntos de geografia, com destaque para os defensores datese da existência de terras orientais a que se poderia chegar navegandorumo a ocidente.Foi nesta igreja de Nossa Senhora da Luz que D. João II mandoumostrar a Colombo as canas que tanto o entusiasmavam, pois alguém asmandara ali guardar ao lado de outros objectos estranhos como eramaqueles que chamaram a atenção de Münzer. As canas vistas por Colomboem 1483 foram as mesmas que Münzer viu em 1494, pois se elasestivessem noutro lugar de Lisboa este último tê-lo-ia mencionado e não seteria deslocado expressamente a Carnide para as ver, não sendo provávelque numa década tivessem mudado de sítio.12 Sobre Jerónimo Münzer cf. Basílio de Vasconcelos, «Itinerário» do Dr. Jerónimo Münzer(excertos), Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932. Cf. ainda a tradução castelhana deJerónimo Münzer, Viage por España y Portugal (1494-1495), Madrid, Ediciones Polifeneo,1991, p. 175 para a parte que aqui nos interessa.13 O texto latino está publicado por Basílio de Vasconcelos em «Itinerário» do Dr. JerónimoMünzer (excertos), Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932, p. 20-22.XXII-11


Tendo em conta o texto escrito por Fernando Colombo quevoltamos a lembrar: “e che medesimamente v’erano recate canne cosìgrosse che dall’un nodo all’altro contenevano nove caraffe di vino. Il chedice che affermava eziandio lo stesso re di Portogallo, ragionando con luidi queste cose; e che gli furono mostrate” e as restantes observações quealinhámos sobre as canas fomos levados à formulação da hipótese de queColombo as terá visto em Carnide, por ser aí que elas se guardavam, e deter sido também aí que falou com D. João II a propósito da possibilidade dese poder chegar ao Oriente por um rumo ocidental.A possibilidade que defendemos de localizar e até datar o encontrode Colombo e D. João II em Carnide resulta de ter sido precisamente aí quese encontra atestada a única presença próximo de Lisboa de D. João IIdurante a parte do seu reinado em que Colombo esteve em Portugal. Talfacto é possível de determinar através da análise do itinerário de D. João IIentre 1481 e 1485, tal como este foi estabelecido por Joaquim VeríssimoSerrão. Graças a este trabalho verificamos que durante aqueles anos e maisprecisamente entre 1483 e 1484, durante os quais se tem situado talencontro, o rei esteve quase sempre longe de Lisboa, com receio da peste,tendo começado em 1483 por estar em Santarém / Almeirim / Torres Novas(Janeiro / Maio), andando depois por Avis / Évora (Maio / Junho) 14 .D. João II ficou em Évora até 13 de Julho com a única excepção deter atestado a sua presença em Carnide a 12 de Junho de 1483. Foi neste diaque aí assinou uma carta enviada a D. Garcia de Meneses, bispo de Évora,acusando-o de abusos de jurisdição que punham em causa a autoridaderégia 15 . Por estes dias decorria em Évora o processo contra o duque deBragança, que a 30 de Maio fora preso sob a acusação de conspiração,tendo sido executado a 20 de Junho, depois do libelo acusatório ter sidopreparado durante vinte e dois dias.Continuando a seguir o itinerário de D. João II verificamos que esteesteve em Évora até a deixar a 13 de Julho indo depois para Abrantes, ondeestava a 15 de Julho, iniciando a 12 de Outubro uma extensa volta peloNorte do país que o levou a Lamego, Vila Real, Chaves, Bragança,Guimarães, Braga, Barcelos, Porto, Aveiro e Coimbra até chegar aSantarém cerca de 24 de Março de 1484. Assinalamos ter sido nesta últimapovoação que se verificou um conjunto de factos relacionáveis com arecusa do apoio ao projecto de Colombo, de entre os quais realçamos os14 Joaquim Veríssimo Serrão, Itinerário de el-rei D. João II, Lisboa, Academia Portuguesada História, 1993, p. 90-112.15 A carta encontra-se no Arquivo Secreto do Vaticano, Manoscritti Confalonieri, 35, fls.157-158 e foi publicada por João Dias Vicente no artigo «D. João II e o beneplácito régioem Portugal: II - A situação de conflito entre D. João II e a Cúria Romana (1483-1485»,Itinerarium, ano XXI, n.º 87, Braga, 1975, p. 61-62.12


Encontros e desencontros entre Cristóvão Colombo e D. João II:seguintes ocorridos a: 8 e 14 de Abril, o rei recompensou generosamenteDiogo Cão, recém chegado dos seus descobrimentos do Congo e Angola;15 de Maio, atestando-se ali a presença do “licenciado Calcedilha” e a 30de Junho de 1484 prometendo-se a Fernão Domingues do Arco a “doaçãoda capitania de uma ilha que há-de ir buscar”.A 7 de Julho de 1484, D. João II foi até Alcochete e depois Setúbal,de onde a 12 de Setembro foi para Évora e de seguida para Castelo Branco,até voltar para Santarém / Almeirim entre Outubro / Novembro e ir atéCoruche e Montemor-o-Novo em Dezembro 16 .Face a este panorama das deslocações de D. João II podemo-nosperguntar porque é que D. João II estando em Évora em Junho de 1483 sedecidiu a sair daí para fazer uma rápida incursão a Carnide por volta do dia12 de Junho, tanto mais que durante o seu reinado não atestou qualqueroutra presença nesta residência. A resposta que sugerimos é a de que estasúbita e rápida deslocação de D. João II a este local se possa relacionar como encontro com Colombo, por ser precisamente nesse sítio que seencontravam as canas que tanto interessavam o genovês, como depoisinteressaram Behaim e Münzer. Além desta perspectiva há a considerar, nasequência de uma observação de Joaquim Veríssimo Serrão, que “omonarca queria deixar a justiça agir livremente” no respeitante àcondenação do duque de Bragança 17 . Manuela Mendonça chamou-nosainda a atenção para que D. João II nomeou “um monteiro para Carnide a30 de Maio - Álvaro Gonçalves. O facto de haver documentos dechancelaria para este dia, com registos de Évora, nada significa, pois a ditapode ter ficado a trabalhar e ele ter ido só com um escrivão”. O rei teriamuitos outros sítios para se deslocar mas quanto a nós a sua opção de ir aCarnide, recaiu nesse lugar secundário e tão afastado de Évora por causa dacoincidência de ser aquele onde se encontravam as canas que se alegavavirem do ocidente e tanto interessavam Colombo. O assunto da proposta dedescobrimento por Colombo poderá ter sido suficientemente importantepara que D. João II tenha feito expressamente essa deslocação de muitocurta duração, pois não teria havido outra motivação para então irprecisamente a Carnide.Conjugando todos estes dados podemos deduzir estar bemfundamentada a possibilidade de ter ocorrido em Carnide em Junho de1483 o encontro entre Colombo e D. João II durante o qual o primeiro sepropôs realizar uma viagem para ocidente visando chegar a terras da Ásia,de que se haviam localizado alegados indícios no mar que ali se16 Joaquim Veríssimo Serrão, Itinerário de el-rei D. João II, Lisboa, Academia Portuguesada História, 1993, p. 112-171.17 Idem, ibidem, p. 107.XXII-13


encontravam. Terá sido neste contexto que surgiu a oportunidade do reipermitir que Colombo visse as canas de que já ouvira falar e se guardavamno famoso santuário daquela povoação.Sobre a negação do apoio de D. João II a Colombo as observaçõespublicadas por João de Barros são as mais completas:El-rei porque via ser este Christouã Colom homem falador eglorioso em mostrar suas habilidades, e mais fantástico e deimaginações com sua ilha Cipango, que certo no que dizia;dava-lhe pouco crédito. Contudo à força de suasimportunações, mandou que estivesse com Dom Diogo Ortiz,bispo de Ceuta, e com mestre Rodrigo e mestre Josope (=José), a quem ele cometia estas cousas da cosmografia e seusdescobrimentos; e todos houveram por vaidade as palavras deChristouam Colom, por tudo ser fundado em imaginações ecousas da ilha Cipango de Marco Polo (...). E com estedesengano espedido ele del-rei se foi pêra Castela, ondetambém andou ladrando este requerimento (...) 18 .O desfecho do caso do pedido de apoio de Colombo a D. João IIpoderá ter-se arrastado até 1484, pois o rei teria querido aguardar peloregresso de Diogo Cão, que acabou por chegar a Portugal pouco antes de 8de Abril de 1484, data em que recebeu a generosa tença anual de 10 000reais brancos, a que se seguiu a 14 de Abril de 1484 a concessão de umacarta de brasão com as honras de fidalgo 19 . Todas estas recompensasrevelam o regozijo do rei perante as notícias dos progressos entãoalcançados, tendo-o levado à convicção de que as suas caravelas tinhamestado próximo do extremo sul da África e da almejada passagem para ooceano Índico. Esta atitude é revelada através da oração de obediência deD. João II ao Papa Inocêncio VIII que foi pronunciada a 11 de Dezembrode 1485 por Vasco Fernandes de Lucena, na qual se reflectem asexpectativas abertas pela viagem de Diogo Cão 20 .É de realçar aqui o ênfase colocado na ideia de se estar prestes aentrar no Oceano Índico e a ultrapassar um ponto geográfico denominadoPromontorio Prasso, que seria então situável nos confins meridionais da18 Ásia de Joam de Barros: dos feitos, que os Portugueses fizeram no descobrimento econquista dos mares e terras do Oriente, década 1 (livro III, cap. XI), edição de AntónioBaião, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932, p. 113.19 Descobrimentos portugueses: documentos para a sua história, edição de João Martins daSilva Marques, volume III, Lisboa, Instituto de Alta Cultura, 1971, p. 273-274.20 Cf. Miguel Pinto de Meneses, Oração de obediência ao Sumo Pontífice Inocêncio VIIIdita por Vasco Fernandes de Lucena em 1485, Lisboa, Edições Inapa, 1988, p. 24.14


Encontros e desencontros entre Cristóvão Colombo e D. João II:África. D. João II tinha a esperança de que este obstáculo pudesse serfinalmente ultrapassado por Diogo Cão no decorrer da sua segunda viagemde descobrimento, que se iniciou no Outono de 1485 21 , altura em queColombo já deixara Portugal visto ter partido para Castela depois de terestado com José Vizinho ainda nesse ano, como já atrás assinalámos.Os fundamentos que levaram Colombo a deixar Portugal em 1485terão certamente resultado do facto de ter perdido a esperança de aí poderalcançar o apoio para a realização do seu projecto de atingir Cipango, asÍndias ou outras ilhas como a Antilia, sendo ainda possível que tivesseproblemas de dívidas, esperando que a ida para Espanha lhe viabilizasse aconcretização dos seus anseios descobridores e a resolução de eventuaisdificuldades económicas.Rui de Pina, que foi secretário de D. João II e terá conhecidoCristóvão Colombo, além de ter participado logo em 1493 na primeira fasedas negociações que iriam conduzir no ano seguinte à assinatura do Tratadode Tordesilhas, afirmou em 1504 a propósito da chegada de Colombo aLisboa, por ele situada a 6 de Março de 1493, que este “ vinha dodescobrimento das ilhas de Cipango e de Antilha” e que tendo-o D. João IImandado “ir ante si” ele “especialmente acusava-se el-rei de negrigente,por se escusar dele por míngua de crédito e autoridade, acerca destedescobrimento pêra que primeiro o viera requerer” 22 . Na sua sequênciaGarcia de Resende, que também foi contemporâneo de Colombo, mascopiou em grande parte o que Rui de Pina escreveu, referiu cerca de 1533que ele “acusava el-rei por se escusar deste descobrimento e não no querermandar a isso, pois primeiro se lhe viera oferecer que aos reis de Castela, eque fora por lhe não dar crédito” 23 .João de Barros ao escrever sobre Colombo seguiu em parte o quereferiu Rui de Pina mas alargou o teor das informações que possuía aopublicar em 1552 que: “primeiro que fosse a Castela andou com ele mesmorei D. João, que o armasse pêra este negócio, o que ele não quis fazer (...)”,registando ainda que “veio requerer a el-rei Dom João que lhe desse algunsnavios pêra ir descobrir a ilha Cipango per este mar ocidental”, e explicouque o fundamento desse pedido estaria mais nas influências suscitadas pelaleitura do livro de Marco Polo, do que nas informações que ele teria sabido“de algumas ilhas ocidentais”, como haviam referido outros autores,21 Damião Peres, História dos Descobrimentos Portugueses, 2.ª edição, Coimbra, edição doautor, 1960 (1961), p. 273-277.22 Crónica de D. João II na edição de M. Lopes de Almeida das Crónicas de Rui de Pina,Porto, Lello § irmão, Porto, 1977, p. 1016.23 Livro das obras de Garcia de Resende, edição de Evelina Verdelho, Lisboa, FundaçãoCalouste Gulbenkian, 1994, p. 405. Esta obra foi publicada pela primeira vez em ediçãopóstuma em 1545.XXII-15


adiantando que o genovês, mesmo que não chegasse à terra pretendidapoderia pelo menos descobrir alguma ilha que desse para pagar as despesasdo empreendimento que se propunha levar a cabo 24 .Damião de Góis, que em 1540 foi o primeiro português a publicaruma informação sobre Colombo, aludiu ao facto de que:Em sua vida, o genovês Colombo, muito perito na arte denavegar, ofereceu-lhe seus serviços e prometia viajar para aÍndia, seguindo a rota do Ocidente. Não o atendeu o monarca,ordenando-lhe que se retirasse, pelo que ele se acolheu àprotecção e serviço dos reis de Castela, Fernando e Isabel 25 .O parecer negativo dado a Colombo resultaria fundamentalmenteda sua ”míngua de crédito e autoridade”, como dissera Rui de Pina, eporque certamente a tese de Toscanelli continuava a não ser aceite emPortugal.Também se tem alegado que em Portugal haveria a percepção deser o valor do grau terrestre superior ao que era defendido pelo genovês,pelo que ali seria considerada a distância até à Ásia rumando para ocidentemuito superior à que este admitia na sequência da teoria de Toscanelli.Com efeito Colombo pensava que a circunferência da Terra mediria 20 400milhas (= 30 000 km), isto é menos 10 000 km do que na realidade 26 .Perante esta questão temos de apontar que Colombo referiu em 1485 seremas medidas de um módulo de 14 2/3 léguas por grau que ele defendiacorroboradas por mestre José Vizinho, pois escreveu “o mesmo achoumestre José, físico e astrólogo e outros muitos, enviados com este fim sópelo sereníssimo rei de Portugal” 27 . Esta afirmação não é segura poissabemos que pela mesma altura Bartolomeu Dias avaliava o valor do graupelo módulo de 16 2/3 léguas 28 .O rei português ainda que pudesse aceitar a possibilidade de haverterras a ocidente das ilhas dos Açores ou de Cabo Verde encarava tal24 Ásia de Joam de Barros: dos feitos, que os Portugueses fizeram no descobrimento econquista dos mares e terras do Oriente, década 1 (livro III, cap. XI), edição de AntónioBaião, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932, p. 111-113.25 Tradução de Dias de Carvalho da Fides, religio, moresque aethiopum (...) in Damião deGóis Opúsculos históricos, Porto, Livraria Civilização, 1945, p. 130-131.26 Consuelo Varela, Cristóbal Colón: retrato de un hombre, Madrid, Alianza, 1992, p. 63.27 Cristóbal Colón, Textos y documentos completos, edição prólogo e notas de ConsueloVarela, 2.ª edição, Madrid, Alianza Universidad, 1984, p. 10-11.28 Avelino Teixeira da Mota, «Bartolomeu Dias e o valor do grau terrestre» in Actas.Congresso Internacional de História dos Descobrimentos, volume II, Lisboa, 1961, p. 299-309 cf. ainda do mesmo autor «A viagem de Bartolomeu Dias e as concepções de D. JoãoII», Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, série 76, Lisboa, 1958, p. 297-322.16


Encontros e desencontros entre Cristóvão Colombo e D. João II:assunto com reserva, sendo de admitir que o fundamento essencial da suarecusa residisse no facto de não estar interessado em investir em viagenspara ocidente, as quais deixava ao cuidado de investidores particulares,visto o seu empenhamento estar virado para a exploração do litoral africanopara sul e oriente, de forma a chegar à Índia. É elucidativo relembrar que D.João II autorizou a 3 de Março de 1486 a iniciativa privada proposta peloflamengo Fernão Dulmo (Ferdinand van Olmen), capitão da ilha Terceirana parte das Quatro Ribeiras, e João Afonso do Estreito, madeirense, com acolaboração de Martin Behaim, que queriam fazer ambiciosas exploraçõespara ocidente, cujas despesas seriam arcadas pelos próprios 29 .D. João II tinha consciência das dificuldades com que osportugueses se deparavam durante a realização das explorações atlânticaspara ocidente, as quais não tiveram sucesso até 1483, tal como nos anosseguintes até 1492, sobretudo porque a maior parte delas havia sidorealizada a partir dos Açores em latitudes que não eram as adequadas pararealizar viagens a terras que depois se saberiam ser da América e eram porentão denominadas geralmente por Ilha das Sete Cidades / Antilia.Colombo ao considerar as experiências negativas que osportugueses da Madeira e dos Açores ou mesmo de Cabo Verde teriam emchegar a uma ilha ocidental e analisando eventualmente o mapa deToscanelli, que teria semelhanças com o registo cartográfico expresso noglobo de Martin Behaim, constataria que a forma de poder chegar ao seuobjectivo passava por ir em busca dessas terras sempre para ocidente apartir da latitude das Canárias. Durante as suas viagens com os portugueseso nosso genovês terá observado ser tal rumo o mais propício e por isso em1492 “navegou ao longo da orla norte da zona de ventos alísios” 30 , rotatanto mais aconselhável para ele porque não podia ser seguida pelosportugueses desde 1479, de acordo com o teor do tratado de Alcáçovasentão assinado, pois através deste acordo o exclusivo das navegações e dosdomínios dos portugueses situavam-se a sul de um paralelo a sul do caboBojador. Foi desta forma que Colombo seguiu por uma linha a norte dessecabo e de um paralelo às Canárias para fazer o seu descobrimento, queassim estaria fora da alçada dos portugueses como veio a defender. Aindaassim D. João II pretendeu que tais terras ficariam nos seus domínios, comoo afirmaram Rui de Pina e João de Barros. O primeiro destes autoresescreveu que D. João II em 1493 mandou vir Colombo “ante si e mostroupor isso receber nojo e sentimento, assim por crer que o dito descobrimento29 Damião Peres, História dos Descobrimentos Portugueses, 2.ª edição, Coimbra, edição doautor, 1960 (1961), p. 329-334.30 Avelino Teixeira da Mota, O essencial sobre Cristóvão Colombo e os portugueses,Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1987, p. 42.XXII-17


era feito dentro dos mares e termos de seu senhorio de Guiné, em que seoferecia dissenção” 31 . Quanto a João de Barros declarou que D. João II“com a nova do sítio e lugar que lhe Colom disse da terra deste seudescobrimento ficou mui confuso e creo verdadeiramente que esta terradescoberta lhe pertencia, e assim lho davam a entender as pessoas do seuconselho” 32 .De acordo com o que Colombo escreveu no seu diário no dia 9 deMarço de 1493 D. João II recebeu-o bem “mas que entendia que en lacapitulaçion que havia entre los reys e el que aquella conquista lepertencia. A lo qual respondió el almirante que no avia visto lacapitulaçion ni sabia outra cosa, sino que los reys le avían mandado queno fuesse a la Mina ni en toda Guinea” 33 .Fernando Colombo e Bartolomeu de las Casas souberam queColombo não foi apoiado por D. João II alegando que lhe apresentaraexigências excessivas, quer no pedido do financiamento da coroa para arealização da sua viagem, quer na solicitação de grandes honrarias comorecompensa do esperado sucesso do seu empreendimento. Temos dereconhecer que as promessas de doação das terras descobertas dadas por D.João II estavam longe de poderem corresponder às exigências feitas porColombo aos Reis Católicos e satisfeita em Santa Fé em 1492.Na conjuntura em que D. João II recusou apoio a Colomboautorizou a realização de uma viagem para ocidente a Fernão Dominguesdo Arco, “morador na ilha da Madeira”, prometendo-lhe a 30 de Junho de1484 a doação de “uma ilha que ora vai buscar”, isto é, estaria naeminência de iniciar uma viagem de descobrimento 34 . Colombo referiu-se aessa intenção de descobrimento no seu diário da primeira viagem no dia 9de Agosto de 1492 ao escrever que “se acuerda que estando en Portugal elaño de 1484 vino uno de la madera al rey a le pedir una caravela para ir aesta tierra que via, el qual jurava que cada año la via y siempre de unamanera” 35 .31 Crónica de D. João II na edição de M. Lopes de Almeida das Crónicas de Rui de Pina,Porto, Lello § irmão, Porto, 1977, p. 1016.32 Ásia de Joam de Barros: dos feitos, que os Portugueses fizeram no descobrimento econquista dos mares e terras do Oriente, década 1 (livro III, cap. XI), edição de AntónioBaião, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932, p. 114.33 Cristóbal Colón, Textos y documentos completos, edição prólogo e notas de ConsueloVarela, 2.ª edição, Madrid, Alianza Universidad, 1984, p. 136.34 Descobrimentos portugueses: documentos para a sua história, edição de João Martins daSilva Marques, volume III, Lisboa, Instituto de Alta Cultura, 1971, p. 278 e Damião Peres,História dos Descobrimentos Portugueses, 2.ª edição, Coimbra, edição do autor, 1960(1961), p. 329.35 Cristóbal Colón, Textos y documentos completos, edição prólogo e notas de ConsueloVarela, 2.ª edição, Madrid, Alianza Universidad, 1984, p. 18.18


Encontros e desencontros entre Cristóvão Colombo e D. João II:Foi contra o apoio dado pelo rei a Fernão Domingues do Arco queFernando Colombo e Las Casas se referiram ao indicarem que Colombo seteria mostrado muito irritado com tal atitude, pois alegaram que ele teriamandado fazer uma exploração secreta do Atlântico para encontrar terras aocidente que o genovês se tinha proposto encontrar. Ora nem a realizaçãoda tal viagem está atestada como tendo sido realizada nem o está a irritaçãode Colombo, como o revela a circunstância de antes de 20 de Março de1488 ter pedido a D. João II um salvo-conduto para regressar a Portugal, oqual lhe foi concedido nesta data com palavras de muito apreço, como jásalientámos.O planisfério português anónimo de 1502 conhecido por “mapa deCantino”, feito dez anos depois da viagem de Colombo que descobriu aAmérica, revela um surpreendente mundo novo a ocidente, que não era aÍndia por ele procurada e mostra como era a Índia verdadeira, onde chegaraVasco da Gama em 1498. Estavam então esclarecidas as questõescolocadas pelas duas opções estratégicas dos descobrimentos que sedebatiam em 1474 na carta de Toscanelli 36 .36Este estudo teve uma versão preliminar publicada em italiano na comunicação«Sull’incontro fra Colombo e il re Giovanni II: origine e divergenza di due strategie», inCristoforo Colombo dal Monferrato alla Liguria e alla Penisola Ibérica - nuove ricerche edocumenti inediti: Atti del II Congresso Internazionale Colombiano, Cucaro, AssociazioneCentro Studi Colombiani Monferrini, 2009, p. 241-248 e em estudos que já publicamossobre as relações de Colombo com Portugal em «Colombo em Portugal», Oceanos, 10,Lisboa, Abril de 1992, p. 27-30 e «O encontro de D. João II com Cristóvão Colombo em1483», Oceanos, 17, Lisboa, Março de 1994, p. 104-108, ambos reunidos em Ao encontrodos Descobrimentos: temas de História da Expansão, Lisboa, Editorial Presença, 1994.XXII-19

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