Comunidade Segura

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Comunidade Segura

Para provar queé possívelLidar com a população jovem em situação de risco,especialmente em territórios violentos, não é tarefafácil. Os programas precisam ser sedutores paraatrair os beneficiários, uma vez que fatores diversoscomo o acesso ao consumo, o status, a sensaçãode pertencimento a um grupo, a adrenalina e avisibilidade local, entre outros, levam ocasionalmentea um recrutamento voluntário deste grupo para oexercício de atividades ilegais, criminosas, perigosas,violentas.Uma vez que os jovens já estejam envolvidos nestasatividades, os desafios para um trabalho de resgatee reinserção social se multiplicam. A tradicionalpressão social por repressão e punição dificultao investimento de recursos financeiros e esforçospolíticos para este fim por parte do poder público.A preferência acaba sendo por manter prisões ereformatórios em situação desumana e considerarestes jovens “inimigos” da cidadania como casosperdidos. O resultado é um sistema que cria, graduae credencia criminosos, sem apontar qualquer portade saída, qualquer alternativa positiva.É neste contexto que vale a pena destacar ereconhecer os esforços de organizações da sociedadecivil, governos e iniciativa privada, quando caminhamna contramão e mostram concretamente que toda asociedade ganha com um trabalho que transformeo futuro desses jovens e promova uma conciliaçãocidadã.O Comunidade Segura apresenta mais uma ediçãode sua revista de boas práticas reafirmando seucompromisso de projetar estas ações para que elascirculem em ambientes férteis e inspirem mudanças:políticas públicas inovadoras, avanços na legislação,pesquisas reveladoras e matérias na mídia tradicionalque sensibilizem a opinião pública. Tudo que possacontribuir para a construção de uma sociedade maisjusta e inclusiva, e menos violenta.O conteúdo das páginas a seguir são exemplos deque é possível.Mayra JucáCoordenadora de Comunicação do Viva RiocomunidadeseguraBoas práticas em revistaA Comunidade Segura - Boas práticas em revista e osite ComunidadeSegura.org fazem parte dos projetosdesenvolvidos pelo Viva Rio na área de SegurançaHumana. Ambos foram concebidos em conjunto comnossos parceiros para servir como ferramenta de trabalhoa pessoas, organizações, redes e grupos interessados emtemas relacionados à área.O conteúdo desta publicação foi retirado do sitewww.comunidadesegura.org, onde você vai encontrar2artigos e dossiês em português, inglês, espanhol e francês.Comunidade Segura Boas práticas em revistaAno III • Número 6 • março 2011Coordenadora de projeto:Mayra Jucámayra@vivario.org.brEditora da revista:Shelley de Bottonshelley@vivario.org.brEquipe Comunidade Segura:Shelley de Botton, Lis Horta Moriconi,Andrea Domínguez, Marina Lemle eMariana Mello.Colaboração:Mélanie MontinardTraduções:Mariana MelloCapa:Familia Ayara (foto)Programação visual:Domingos Sávio – Imagem&TextoAgradecimentos:Ao Governo da Noruega.


Derrubar o muro invisível daexclusão socialBrasil4Lis Horta MoriconiUma iniciativa de resgate de jovensem situação de risco leva aulasde cidadania e abre espaço paradebate entre jovens que moramem comunidades dominadas pelotráfico. Chama-se Protejo.O projeto, uma das 24 ações doPrograma Nacional de SegurançaPública com Cidadania (Pronasci),do Ministério da Justiça, seráimplementado pela Oscip VivaComunidade em uma pequenacomunidade do municípiode Cabo Frio, noNorte Fluminense,que cresceu ao redorde um lixão. O Protejo já atendeu amil jovens de comunidades de baixarenda em São Gonçalo, na regiãometropolitana do Rio, e 500 noComplexo da Maré, na Zona Norte.Mas o Protejo protegea quem, do quê? “OProtejo faz inclusãosocial”, afirma Moisésde Azevedo Marins.Carlos Costa,coordenador deJuventude do VivaComunidade.Comunidade Segura Boas práticas em revistaAno III • Número 6 • março 2011“Ele nos levou a repensar a quemundo pertencemos, a um mundosob a tutela do tráfico ou a ummundo com instituições públicasque protegem nossos direitos edeixa claro quais são os nossosdeveres?”, questiona.Morador da favela da Maré,Marins hoje é auxiliar de escritório.Mas nem sempre foi assim. Eleé um dos jovens em situação derisco que participaram do Protejona comunidade, entre setembrode 2009 e abril de 2010. “Foi aprimeira vez que ouvimos o lado doEstado, até então agente só sabiado lado do tráfico,” disse o jovem.Inovador até nas metas, o Protejovisa a uma formação cidadãproporcionando elementos quecontribuam para metas de iniciaçãoprofissional e aceleração escolar.“O nosso objetivo é que os jovensbeneficiados retornem à educaçãoformal e ingressem no mercado detrabalho”, explica Alexandre Goes,coordenador pedagógico do VivaComunidade.O Protejo se destina a áreas comaltos índices de vulnerabilidade einsegurança e é dirigido a jovensde 15 a 24 anos, que compõem ogrupo mais atingido nas estatísticasde violência armada no país.Antes de aprovar o projeto,o Ministério da Justiça usa umaavaliação territorial para chegaraos jovens mais isolados do estado.“No território, encontramos jovensque não completaram o ensinofundamental, o ensino médio, ouque estão cumprindo uma medidasocioeducativa, e ainda temos ojovem que passou pelo sistemaprisional, porque muitos sãomaiores de idade”, conta Goes.Cada beneficário recebe umabolsa-auxílio de R$ 100 e temque cumprir uma carga horáriade aulas teóricas e práticas. São800 horas sobre formação cidadã,matemática, português e iniciaçãono mercado de trabalho. Alémdisso, participam de atividadesculturais e esportivas.Questionar certezas,derrubar murosPara Carlos Costa, coordenadorgeralde Juventude e mediador deconflitos do Viva Comunidade, oprojeto promove uma mudança dementalidade e parte disso passapor desconstruir as próprias linhasterritoriais e de confronto. Mais doque isso, separa o perigo real dofolclore do tráfico.“Quando entramos na Maré,chegamos em meio a uma guerraentre facções: 160 mil moradores,quatro facções criminosas, fronteirasque pessoas não atravessam,altamente hostil. A nossapreocupação era superar a lógicalocal”, recorda Costa.Fotos: Lis Horta Moriconi.


De inicio, o Protejo dividiu osjovens em grupos que respeitavamas divisões locais. Depois,promoveu a interação entre osgrupos por meio de seminárioscoletivos organizados e realizadospelos próprios alunos e visitas alugares fora do território, como porexemplo, comunidades pacificadas.“A interação questionou certezas,aproximou os jovens primeirode seus pares do outro lado dasfronteiras, depois deu uma novavisão do Estado, incluindo a polícia,o sistema de saúde, a escola”,comemora Costa.“O que eu mais gostei do Protejofoi aprender sobre nossos direitos,e deveres. Na comunidade agentesó tem a visão do tráfico que tentanos comprar com certos benefícios.O Protejo foi a porta para ummundo maior”, conta Beatriz Pereirada Silva, também moradora daMaré e beneficiária do projeto nacomunidade. Hoje, ela é auxiliar deescritório e planeja fazer faculdadede Administração.Segundo os coordenadores,cada passo envolve uma rupturacom a cultura domedo. Ao seBeatrizPereira estáempregadae quer fazerfaculdade.Moisés Marins (centro) é um dos 100 jovens beneficiados pelo Protejo implantado noComplexo da Maré, na Zona Norte do Rio.apresentar à comunidade comobraço do Estado, o Protejoquestiona a força de liderançasespúrias locais, o poder dotraficante e o folclore local quecerceia a autonomia real dosmoradores.Mobilizados os jovens, hásempre a questão da evasão. OMinistério da Justiça espera 100%de aproveitamento. Mas Alex Goesquestiona essa metodologia. “EmSão Gonçalo começamos commil jovens e terminamos com635. Dentre os 265 jovens quepara o MJ foram consideradosevadidos, tínhamos desde os queabandonaram o projeto, até osque retornaram ao sistema escolare que se inseriram no mercado detrabalho”, conta Goes.O Protejo tem inicio, meio e fim.“Na verdade quando o Protejochega numa comunidade, eleprocura estabelecer parceriascom as entidades locais, igrejas,grupos culturais, associações demoradores. Temos uma grandepreocupação em rejeitar clara epublicamente qualquer ligaçãocom organizações criminais. Comoresultado, o próprio processodo Protejo ajuda a encontrar edesenvolver lideranças locais,inclusive entre os jovens. Depoisdesse mergulho na cidadania, asemente foi plantada.”conclui CarlosCosta.Alexandre Goes,coordenadorpedagógico do VivaComunidade.Comunidade Segura Boas práticas em revistaAno III • Número 6 • março 20115


Estação Esperança:Andréa Domínguez adeus ao trem do crimeChile10Na cidade de Estación Central, naperiferia de Santiago, no Chile, oprojeto Estação Esperança surgiupara por fim à iniciação de jovensmenores de 14 anos no crime.A cidade fica em um setor dacapital chilena com altos índices decriminalidade juvenil.O projeto sefundamenta noaproveitamentodos talentos dos jovens e desuas famílias. Para Felipe AndrésFernández Soto, chefe dodepartamento de Segurança Públicado município, a individualização éo que faz o projeto, que reduziu ataxa de reincidência dos jovens para17%, ter um alto nível de aceitaçãona comunidade.“Trabalhamos com os jovensque tenham infringido a lei ou quetenham tido seus direitos violados efazemos intervenções específicas paracada usuário”, explica o psicólogo.Para Fernández, um dos principaisdesafios é a baixa taxa de adesão aoprograma já que os jovens da regiãojá passaram por diversas intervençõesno sistema educativo e de saúdemental, sem êxito.Em uma pesquisa realizada paraacompanhar a aceitação do projetoentre seus usuários, 60% dosadolescentes entrevistados disseramse sentir bem quando recebiam avisita dos técnicos.Equipe do Projeto Estação Esperança conseguiu reduzir taxa de reincidência criminal dosjovens beneficiados que hoje é de 17%.Os jovens de Estación Centralestão expostos a uma série dequestões associadas à violência,como drogas, violência doméstica,exploração sexual e tráfico de armas.A complexidade destes problemasrequer uma abordagem multicausal.“Por isso, o projeto tem parceriascom atores locais encarregadosda prevenção e da repressão aocrime e com as instâncias jurídicasencarregadas de sua reparação oupunição”, explica Fernández.Os jovens que frequentam oprojeto têm entre quatro e 17 anos.Suas biografias são marcadas peloabandono precoce da escola emuitos foram expostos a experiênciasde violência. “Quando entram emcontato com os jovens, os técnicosse deparam com conflitos familiaressustentados por dinâmicas deviolência e violação que perpassamgerações”, agrega Fernández.A intervenção tem caráterambulatorial e se baseia em visitasdomiciliares. Há quatro níveis deintervenção: acompanhamentoindividual, integração em grupo,fortalecimento das competênciasfamiliares e intervenção em rede.Primeiro é feito um diagnósticoque estabelece o índice devulnerabilidade do adolescente esuas potencialidades. O segundopasso é a intervenção, cujascaracterísticas são determinadas apartir de cada caso. Por fim, é feitoo acompanhamento e o fechamentodo processo onde é feita umaavaliação do cumprimentodas metas fixadas no plano deintervenção individual elaboradopara o/a jovem.Foto: Divulação.Comunidade Segura Boas práticas em revistaAno III • Número 6 • março 2011


Foto: Escolas Abertas.Snaá b a d oescola!e d o m i n g oAndréa DomínguezO toque do sinal que marca o fimda jornada estudantil da semanaescolar sinaliza o início de um fimde semana cheio de atividades eaprendizado nas 206 escolas quefazem parte do programas EscolasAbertas, na Guatemala.Em vez de aulas de biologia,matemática e espanhol, sãooferecidas oficinas de dança,pintura, bordados, xadrez,artesanato e cultura maia. Os pátiose quadras se tornam espaço paraprática de esportes e palco parafestivais e festas de bairro.Esta é uma das maneiras que osguatemaltecos encontraram paraabrir espaços de inclusão socialem áreas urbanas prejudicadaspela precariedade de infraestrutura,escassez de serviços públicos,violência, desemprego e falta deoportunidades para os jovens.O diretor do programa, ClaudioMagnífico, explica que, a cadafim de semana, 200 mil criançase jovens fazem algo diferente epositivo nestes lugares. “Tudo queeles fazem neste tempo permitedescobrir seus talentos e transformaro ócio em tempo produtivo”, afirma.As Escolas Abertas se inspiraramem um programa brasileiro. Alémdestes dois países, Chile e Argentinasão os únicos na América Latina quetambém implantaram o programa.O objetivo das Escolas Abertasvai além de simplesmente preenchero tempo livre das crianças eadolescentes do subúrbio, aindaque isto seja importante paratirá-los das ruas e prevenir queentrem para as pandillas. O quese busca no longo prazo, segundoMagnífico, é a consolidação devalores democráticos, o reforçoda autoestima e a formação delideranças.“O programa das Escolas Abertasfaz aparte da educação formativa.O que não se consegue cobrirregularmente nas escolas é o queas Escolas Abertas oferecem, comoarte, esportes, abordagem de umacultura específica”,explica Magnífico.A maioriadas escolas queparticipam doprograma estão emlocalidades comaltos índices deviolência e oferecemferramentas quepermitem às criançase jovens que vivemsob esta influênciadesenvolver-seintegralmente comopessoas e alcançaroutras alternativas,que não a pobreza, a violência, adelinquência e a falta de educaçãoe de oportunidades em geral.O programa é totalmente gratuitoe ainda oferece almoço para todosos visitantes. Os encarregadosde comandar as oficinas sãopessoas contratadas para esse fimespecificamente e que fazem parteda comunidade local. É assim quea comunidade aprende a usarInternet, organiza bazares, montapeças de teatro e ensaias showsmusicais.Uma das pessoas que temconseguido desenvolver váriostalentos nas Escolas Abertas éVelveth Castillo,estudante daGuatemalalocalidade de Bocadel Monte, na Cidadeda Guatemala. Aos 13 anos,ela não só participa de váriasoficinas como também é membrodo Conselho Juvenil das EscolasAbertas, que reúne jovens líderesde diferentes comunidades onde seCrianças e adolescentes participam de atividades esportivas eculturais nos fins-de-semana em escolas da Guatemala.localizam os centros de formação.Velveth descobriu sua vocaçãograças a estas atividades. “Quandosair da escola, quero ser jornalista”,afirma.Comunidade Segura Boas práticas em revistaAno III • Número 6 • março 201111


Jovens com odestino tatuadoAndréa DomínguezPertencer. A uma pandilla, auma mara, a uma barra brava. Aqualquer grupo, mas pertencer.Este sentimento que move osjovens da América Central foiobservado pelo cineasta MarcoNicoletti durante as filmagens deum documentário para a ONGInterpeace, na Suíça, que trabalhana construção da paz em diferenteslugares em conflito no mundo.O filme se concentrou nosprogramas de atenção a jovensda região que estão sob risco deserem cooptados por organizaçõescriminosas ou que jáAmérica pertencem a algumaCentrale querem mudar devida. Mas a porta desaída é bem mais estreita do que ode entrada.Após o fim das filmagens e devolta à França, onde mora, Nicoletti12Comunidade Segura Boas práticas em revistaAno III • Número 6 • março 2011concedeu entrevista ao ComunidadeSegura sobre os grupos emHonduras, El Salvador e Guatemala.Como o senhor definiria maras?Existem muitas particularidadesentre os grupos e não sepode classificar todas sob omesmo conceito. As marassão grupos radicais que exigem ocumprimento de provas paraaceitar novos componentes, comocometer determinados delitos. Osnovatos têm que fazer uma tatuagemde fidelidade ao grupo e sair dele éextremamente difícil.Qual é diferença entre maras ebarras?As barras bravas são gruposseguidores de times de futebol, comoos hooligans ingleses. As marasentram em disputas entre si e comas barras bravas. Em certos bairros,uma barra pode ser dominadapor uma mara e em outros poroutra. Um garoto que pertença a umadeterminada barra, ao passar paraoutro bairro, pode ser assassinadopela mara rival mesmo que pertençaà mesma barra. Aos poucos, as marasrecuperam sua liderança e tendem aabsorver as barras.Os programas documentadospretendem impedir que osjovens entrem para os grupos eos ajudem a sair deles. Comofazem isso?O problema de fundo é a busca deuma identidade. A adolescência éum período difícil da vida. Se ospais estão longe, eles têm as marascomo modelo. É difícil não quererser parecido com os semelhantes.O Interpeace procura estes jovensFotos: Marco Nicoletti.


em risco, oferece oportunidades eatividades, fala com as famílias emoradores do bairro e tentainstruir pais e comunidade sobre comotratá-los.Que estratégiasforam empregadas para tiraresses jovens dos grupos?Precisamos penetrar seu ambiente,fazer com que não se marginalizetotalmente e que consiga recuperarseu papel na sociedade. Quando vãopresos e são muito jovens, às vezesos juízes os colocam para fazer umtrabalho social em que aprendamum ofício como eletricistas, mecânicosetc. As tatuagens são retiradas e isto éalgo significativo porque uma simplestatuagem pode conduzi-los de novoà prisão. Além disso, é um estigmasocial que não lhes permite ir à escolaou trabalhar.Cineasta faz documentário sobreas jovens pertencentes às marasda América Central para ONG quetrabalha para a construção da paz.Por que eles entram para essesgrupos sabendo terminarão naprisão ou mortos?A situação na América Central édiferente da Colômbia ou do Brasil,onde há dinheiro da droga. Em LosAngeles ou no Rio, a motivaçãomais forte é financeira. Na AméricaCentral as pessoas são muito pobres.Na Guatemala, El Salvador eHonduras, eles o fazem por motivode identidade, para definir quem sãoa partir do pertencimento a um grupo.As maras permitem que elespertençam, lhes dão proteção,comida, maconha (geralmentenão usam outras drogas). De certaforma, a mara lhes dá amor, respeitomútuo e compartilham coisas e avida. Depois começam as tarefas,como matar alguém da maracontrária. E o jovem faz isso paramerecer o amor que a família teriaque lhe dar. O psicólogo Juan CarlosMolinas, que trabalha nas prisões daGuatemala, diz que eles matam poramor.Como foi se aproximar deles efilmá-los?Eles desconfiam muito de jornalistas.Muitos os tratam como animaisperigosos. É difícil se aproximar. Mas,quando o fazemos com respeito,nos respeitam também. Eles gostamde contar suas histórias, porquetêm a esperança de que um diasuas vidas venham a se transformarem um filme de Hollywood. Ao seremfotografados, escutados, filmados,sentem que sua vida tem valor.Sabem que vão morrer rápido - emgeral não passam dos 23 anos eno fundo querem comunicar o quesentem. Quando nos aproximamos,conseguimos ver os seres humanosque são.Comunidade Segura Boas práticas em revistaAno III • Número 6 • março 201113


Masculinidadelivre de violênciaAndréa DomínguezFoto: Ceprev.“Estávamos dispostos a matarou morrer, e assim se passarammuitos anos. Todos os dias eu tinhapesadelos”. A lembrança é de umex-pandillero nicaraguense de 23anos, que saiu da gangue e hojecompartilha sua experiência comoutros jovens graças ao trabalhodo Centro de Prevenção do Delito(Ceprev).Vista de fora, a atitude agressivadas pandillas é simplesmenteconsiderada uma violência, que deveser reprimida também com violência.Vendo de dentro, a violência daspandillas é um fenômeno muitomais complexo e, para começar adesarticulá-lo, é preciso mudança.Para a psicóloga do Ceprev, IvethEspino Altamirano, primeiro énecessário se estabelecer umaproximidade com os jovens, baseadana confiança e no respeito mútuo.A premissa que guia o trabalhodo Centro é mudar a mentalidadede uma masculinidade que sesustenta pela violência. Com esteenfoque, cerca de oito mil jovensnicaraguenses já foram beneficiadospelos programas, que oferecemcapacitações em cultura de paz. OCeprev foi fundado em 1997 como objetivo de prevenir a violênciana Nicarágua ao estimular relaçõesnão autoritárias no ambientefamiliar, escolar e comunitário.Pelo menos 80% das pandillasnas comunidades atendidas foramdesarticuladas. “Nossa missão étrabalhar com estes jovens paraajudá-los a largar comportamentosautodestrutivos e violentos atravésda construção de uma cultura depaz”, explica Iveth. Ela reconheceque este tipo de transformaçãodemora, mas gera resultadosduradouros.O projeto foi implantadoem 34 das comunidades nacapital Manágua, caracterizadaspela pobreza, exclusão social,estigmatização, desemprego, faltade oportunidades e um crescentetráfico de drogas e armas.Segundo a psicóloga, o projetoaumenta a autoestima dos jovenstornando mais fácil para elesrecusar atos violentos e isso teria umOito mil jovens ex-integrantes de pandillas da Nicarágua já se beneficiaram dosprogramas que oferecem capacitação em cultura de paz.efeito multiplicador na sociedade.“O indivíduo capacitado busca nainserção no mercado de trabalho ena formação acadêmica uma formade autossuperação”, pontua.A polícia também éconvidada a participardeste processo. SãoNicaráguarealizadas oficinascom os policiais para oferecerlhesuma perspectiva mais completada realidade com o objetivode mudar a dinâmica de açãorepressão,substituindo-a pela daprevenção.Além das oficinas com osjovens, a capacitação foi realizadaatravés de conferências dadas afuncionários do governo, ONGs,mídia e igrejas.15Comunidade Segura Boas práticas em revistaAno III • Número 6 • março 2011


Polícia especializada ematenção a jovensAndréa DomínguezPeru18Imagine uma delegacia juvenilonde, no lugar de isolamentoe intimidação, existam diálogoe respeito. Um espaço em quenão haja celas, mas sim salasde reflexão, e no qual o policialesteja capacitado para oferecerum tratamento digno a jovens emconflito com a lei.Este lugar existe e fica em ElAgustino, um dos bairros maisvulneráveis à delinquência juvenil deLima, no Peru, e com altosíndices de criminalidade,El Agustino começoua mudar em 2005,quando a Fundação Terre desHommes, a Associação Encuentos,a Casa da Juventude de Lima e aDelegacia de Polícia de El Agustinoiniciaram a implementação doProjeto Justiça Juvenil Restaurativa,cujo alicerce fundamental é umarelação baseada no respeito aosjovens.Entre 2005 e 2009, a equipe doProjeto Justiça Juvenil Restaurativaatendeu a mais de mil adolescentesem conflito com a lei com idadesentre 14 e 17 anos. Deles, 576foram atendidos na sede policial dodistrito de El Agustino e a maioriadas infrações cometidas eramroubos e furtos. Em cinco anos, oprojeto conseguiu baixar as taxasde reincidência criminal, de 55%para 3%.O eixo central do trabalhorealizado com menores em conflitocom a lei é o Módulo Especializadoem Atenção de Adolescentes emDelegacias, o primeiro deste tipoem toda a América Latina. O localtem uma sala de repouso comserviços básicos, sala de entrevistase um pátio onde os adolescentesencontram seusfamiliares.O programa,que conta compoliciais qualificadosem atenção aosadolescentes, tem feitocom que a taxa deProjeto Justiça JuvenilRestaurativa no Perutem sala de repouso,sala de entrevistas epátio para visitas.corrupção e agressão física porparte da polícia em relação aosadolescentes seja nula.A necessidade de introduzirmudanças no sistema juvenil veioa partir de uma pesquisa realizadaem 2002 pela Fundação Terre desHommes, que identificou problemasreferentes à intervenção policiale ao tema da especialização ecapacitação.O maior problema era ainexistência de uma especialidadeem justiça juvenil gerando questõescomo retenção arbitrária deadolescentes, uso excessivo dainternação preventiva e falta decapacitação para os operadores dasegurança pública e da justiça emgeral.Um estudo realizado em 2004confirmou que a polícia de ElAgustino realizava um grandenúmero de apreensões ilegais dejovens e que não informava aosmenores sobre seus direitos.Esta situação evidencioua necessidade de prepararum ambiente que oferecesseprivacidade e respeitasse os direitosdos jovens e que eles fossemcolocados em ambiente separadodos adultos.O projeto possibilitou aos jovensreceber tratamento digno e humanoe diminuiu os riscos de fuga e deagressões aos policiais.Foto: Delegacia de Polícia de El Agustino.Comunidade Segura Boas práticas em revistaAno III • Número 6 • março 2011


ATUALIZE-SEacessandocomunidadeseguraComunidade SeguraUma seleção mensal das principais matériaspublicadas no portal. Inclui notícias, artigos,relatórios, entrevistas, dossiês e eventos.Disponível em português, inglês e espanhol.En la MiraO Observatório Latino-americano de Armas deFogo traz artigos exclusivos e entrevistas sobre aprodução, venda e uso de armas de fogopequenas e leves na América Latina.Disponível em português, inglês e espanhol.Acompanhe também o portal em:AntenaA revista bimestral Antena é um espaço para ointercâmbio e a disseminação das diferentes vozesprotagonistas do debate nacional e internacionalsobre as mudanças nas políticas de drogas.19Comunidade Segura Boas práticas em revistaAno III • Número 6 • março 2011www.comunidadesegura.org


orway’s efforts to supporthuman rights defendersA América Latina é uma dasregiões mais violentas do planeta e osGuide jovens for são as the principais foreign vítimas service dessa violência.De acordo com o Mapa da violência: os jovens da AméricaLatina, a probabilidade de um jovem latino-americano morrer vítima dehomicídio é 30 vezes maior que a de um jovem da Europa.O Brasil não é uma exceção. Segundo dados do Mapa da Violência 2001, a violênciaé a principal causa de morte entre a população jovem: 63%. O mais assustador é que,entre as mortes violentas, os homicídios são responsáveis por quase 40% do total.Ainda de acordo com o estudo, entre 1998 e 2008, a taxa de homicídio na populaçãode 15 a 24 anos saltou de 47,7 para 53 em 100 mil habitantes, bem mais alta doque a taxa da população em geral, que foi de 26,4.Nossos jovens estão morrendo e precisamos fazer algo.Ouvir o que eles têm a dizer já éum bom começo.comunidadesegurawww.comunidadesegura.orgGoverno da Noruega

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