Doença de Moyamoya: uma abordagem diagnóstica e o tratamento ...
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RELATO DE CASODoença <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong>: <strong>uma</strong> <strong>abordagem</strong> diagnósticae o <strong>tratamento</strong> cirúrgico<strong>Moyamoya</strong> Disease: diagnostic approach and surgical treatmentTobias Ludwig do Nascimento 1 , Amir José dos Santos 2 , Júlia Corazza Forbrig 3 , Ricardo Bernardi So<strong>de</strong>r 4 ,Rodrigo Targa Martins 5 , Rogério Symanski da Cunha 6 , Antonio Carlos Garcia D’almeida 6ResumoEsse trabalho objetiva relatar <strong>de</strong> caso <strong>de</strong> <strong>uma</strong> criança brasileira, negra, não <strong>de</strong>scen<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> japoneses, com doença vascular cerebral rapidamenteprogressiva, tendo diagnóstico tardio <strong>de</strong> Doença <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong>. Esta foi submetida a cirurgia <strong>de</strong> revascularização encefálica por encefalogaleoperiosteosinangiosee apresentou boa evolução pós-operatória. Para tal, a literatura atual foi revista, com enfoque no diagnóstico e <strong>tratamento</strong> cirúrgico.Baseados nesse trabalho, percebe-se que a doença <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong> está sendo diagnosticada com maior frequência ao redor do mundo, tornando-senecessária sua suspeição para o diagnóstico e <strong>tratamento</strong> precoces.Unitermos: Doença <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong>, Técnicas <strong>de</strong> Diagnóstico Neurológico, Revascularização Cerebral.abstractThis paper aims to report the case of a black Brazilian child, not of Japanese <strong>de</strong>scent, with rapidly progressive cerebral vascular disease and late diagnosis of<strong>Moyamoya</strong> disease. She was submitted to surgery for brain revascularization through encephalogaleoperiosteosinangiosis, and had an uneventful postoperativecourse. A literature review was performed with emphasis on diagnosis and surgical treatment.Keywords: <strong>Moyamoya</strong> Disease, Diagnostic Neurological Techniques, Cerebral Revascularization.IntroduçãoA doença <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong> (DMM) é <strong>uma</strong> <strong>de</strong>sor<strong>de</strong>m vaso--oclusiva progressiva <strong>de</strong> etiologia <strong>de</strong>sconhecida. É caracterizadapor estenose progressiva das porções terminais dasartérias carótidas internas e do tronco principal das artériascerebral anterior (ACA) e cerebral média (ACM), associadaà proliferação <strong>de</strong> vasos colaterais na base do crânio (vasos<strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong>) (1).Apesar <strong>de</strong> não haver consenso na literatura sobre os picos<strong>de</strong> incidência da doença, estudos têm <strong>de</strong>scrito um primeiropico na infância e adolescência (entre 5 e 14 anos) eum segundo pico na quarta década <strong>de</strong> vida (2). Além disso,a DMM é a doença pediátrica cerebrovascular mais comumno leste Asiático (3).A apresentação clínica da doença é variável e resulta darelação entre a <strong>de</strong>manda tecidual e o suprimento sanguíneo.O resultado <strong>de</strong>sta relação é <strong>de</strong>terminada pelo grau <strong>de</strong>estenoses e pela habilida<strong>de</strong> e labilida<strong>de</strong> da circulação colateralem promover o fluxo sanguíneo cerebral necessário(4). Depen<strong>de</strong>ndo da ida<strong>de</strong> em que o paciente apresenta asprimeiras manifestações da doença, po<strong>de</strong>m ser evi<strong>de</strong>nciadasas seguintes anormalida<strong>de</strong>s: eventos cerebrovascularesisquêmicos, como AIT ou infartos, sendo mais prevalentesem crianças; e eventos hemorrágicos, mais comuns emadultos.1Médico Resi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> Neurocirurgia do Hospital Cristo Re<strong>de</strong>ntor.2Neurocirurgião. Chefe do Serviço <strong>de</strong> Neurocirurgia e Neurologia do Hospital da Criança Conceição.3Acadêmica <strong>de</strong> Medicina.4Mestrado e Doutorado. Médico Radiologista do Hospital Nossa Senhora da Conceição e Hospital São Lucas (PUCRS).5Médico Neurologista. Chefe do Serviço <strong>de</strong> Neurologia do Hospital Nossa Senhora da Conceição.6Neurocirurgião do Hospital da Criança Conceição.Revista da AMRIGS, Porto Alegre, 55 (3): 277-281, jul.-set. 2011 277
Doença <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong>: <strong>uma</strong> <strong>abordagem</strong> diagnóstica e o <strong>tratamento</strong> cirúrgico Nascimento et al.Este artigo tem por objetivo reunir informações sobre aDMM, fazendo <strong>uma</strong> revisão sobre sua etiopatogenia, diagnósticoe <strong>tratamento</strong>. Além disso, foi realizada <strong>uma</strong> revisão daliteratura a respeito das etiologias e patologias relacionadas aDMM. Revisamos também os métodos diagnósticos minimamenteinvasivos, os quais têm se mostrado progressivamentemais eficazes no diagnóstico <strong>de</strong>ssa doença. Conforme asnormas do Comitê <strong>de</strong> Ética e Pesquisa do Grupo HospitalarConceição, relatamos o caso <strong>de</strong> um paciente com DMM quefoi submetido a encefalogaleoperiosteosinangiose e ilustramos<strong>uma</strong> técnica bastante eficaz no <strong>tratamento</strong> e melhora doprognóstico <strong>de</strong>sta doença, ainda <strong>de</strong>safiadora nos dias <strong>de</strong> hoje.RELATO DE CASOPaciente do sexo feminino, 3 anos <strong>de</strong> ida<strong>de</strong>, negra, nascidae proce<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> Porto Alegre-RS, Brasil, internou no Hospitalda Criança Conceição em maio <strong>de</strong> 2009 por crise convulsivafocal em membro superior direito associado a afasia. Pacientehavia interrompido uso <strong>de</strong> fenobarbital 4 dias antes do quadro.Ao exame, apresentava-se com afasia, hemiplegia à direitae ataxia <strong>de</strong> marcha. Tomografia computadorizada <strong>de</strong> crânioestá <strong>de</strong>scrita na Figura 1. A paciente já apresentara quadrosemelhante há cerca <strong>de</strong> 5 meses, com recuperação da falae da plegia à direita. Foram realizadas angioressonânciacerebral e, após esta, arteriografia cerebral convencional,<strong>de</strong>monstrando um padrão <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong> (Figuras 2 e 3).Dentre os exames laboratoriais solicitados na internação,i<strong>de</strong>ntificou-se fator re<strong>uma</strong>toi<strong>de</strong> em baixos títulos e ausência<strong>de</strong> hemoglobinopatia. EEG patológico apresentandoprojeção temporal esquerda e propagação para regiõesextratemporais encefálicas. Sem i<strong>de</strong>ntificar nenh<strong>uma</strong> patologia<strong>de</strong> base conhecida associada à síndrome <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong>,a paciente recebeu alta hospitalar com diagnóstico<strong>de</strong> Doença <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong>.A paciente vinha apresentando recuperação da forçae da fala quando, em outubro <strong>de</strong>ste ano, apresentou umAVE isquêmico à direita, com marcha atáxica, disártrica,hipotonia global, mais acentuada em hemicorpo esquerdo.Após este último evento, e consi<strong>de</strong>rando-se as áreas<strong>de</strong> isquemia intensa, optou-se por realizar intervenção cirúrgica.Realizada encefalogaleoperiosteossinangiose (EGS) bifrontalsem intercorrências (Figura 4), com boa evoluçãopós-operatória. No 6º dia pós-operatório, a paciente recebeualta hospitalar <strong>de</strong>ambulando com dificulda<strong>de</strong> e auxílio,com recuperação da força em membros superiores. Apósfigura 1 – Tomografia computadorizada contrastada. Pequenas hipo<strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s córtico-subcorticaisrelacionadas a encefalomalácea por sequela <strong>de</strong> insultos isquêmicos prévios nos lobos frontais, maisevi<strong>de</strong>ntes no lobo frontal esquerdo. Leve dilatação ex-vácuo do ventrículo lateral esquerdo. Impregnação<strong>de</strong> vasos colaterais junto ao polígono <strong>de</strong> Willis e núcleos da base. Aparente estreitamento/estenose dasartérias cerebrais médiasfigura 2 – Angiorressonância. Estenoses e irregularida<strong>de</strong>s nos contornos das artérias cerebrais médias.Presença <strong>de</strong> neovascularização e inúmeros vasos colaterais principalmente junto ao polígono <strong>de</strong>Willis e núcleos da base278Revista da AMRIGS, Porto Alegre, 55 (3): 277-281, jul.-set. 2011
Doença <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong>: <strong>uma</strong> <strong>abordagem</strong> diagnóstica e o <strong>tratamento</strong> cirúrgico Nascimento et al.figura 3 – Arteriografia. Artérias carótidas direita e esquerda <strong>de</strong>monstrando o padrão <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong>figura 4 – À esquerda, exposição da dura-máter, com os retalhos galeoperiosteais preparados parainserção na fissura inter-hemisférica. À direita, os retalhos já inseridos na fissura inter-hemisférica, coma dura-máter suturada6 meses da cirurgia, a paciente apresentava-se bem, semnovos déficits focais, <strong>de</strong>senvolvendo-se em ritmo normal ecom retorno da fala.DISCUSSÃOA DMM foi primeiramente <strong>de</strong>scrita no Japão, em 1957,por Takeuchi e Shimizu (5) e ainda hoje a literatura nãoapresenta informações suficientes e precisas sobre etiologia,história natural, patogênese e <strong>tratamento</strong> i<strong>de</strong>al. Asmaiores <strong>de</strong>scrições <strong>de</strong>sta doença têm ocorrido no Japãoe outros países asiáticos, embora relatos em outros paísesvenham surgindo com maior frequência (1, 4, 6, 7). Em estudosepi<strong>de</strong>miológicos conduzidos no Japão, observou-se<strong>uma</strong> incidência anual <strong>de</strong> 0,35 a 0,94 por 100.000; <strong>uma</strong> prevalência<strong>de</strong> 3,2 a 10,5 por 100.000; <strong>uma</strong> predominância nosexo feminino, com <strong>uma</strong> relação <strong>de</strong> 1:1,8 a 1:2,2; e <strong>uma</strong> históriafamiliar da doença está presente em 10 a 15,4% dospacientes (2, 8). Mesmo sem <strong>uma</strong> etiologia estabelecida, adoença <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong> familiar tem sido ligada à alteraçãofocal em alguns cromossomos (9).O padrão <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong> tem sido relacionado a váriasdoenças, como <strong>de</strong>ficiência <strong>de</strong> proteína C e S, aneurismassaculares, anemia falciforme, Síndrome <strong>de</strong> Noonan, Síndrome<strong>de</strong> Marfan, Síndrome <strong>de</strong> Down, Síndrome <strong>de</strong> Alagille,displasia neuromuscular, neurofibromatose, doença<strong>de</strong> Graves, Lúpus Eritematoso Sistêmico e Síndrome <strong>de</strong>Sjögren têm sido relatados (7). Esta afecção também já foiassociada a história <strong>de</strong> tonsilite, sinusite, otite média oumeningite basal, incluindo meningite tuberculosa e leptospirosa.A associação do fenômeno <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong> cominfecção bacteriana <strong>de</strong> cabeça e pescoço tem sido extensivamenteinvestigada. Sabe-se que o processo inflamatórioacometendo a inervação simpática que circunda a artériacarótida interna po<strong>de</strong> induzir <strong>uma</strong> angiogênese patológicaque resulta nos achados angiográficos <strong>de</strong>scritos (10, 11).Embora alguns estudos não <strong>de</strong>monstrem espessamentoda camada íntima ou a<strong>de</strong>lgaçamento da média das artériascarótidas afetadas (11), outros têm <strong>de</strong>monstrado umRevista da AMRIGS, Porto Alegre, 55 (3): 277-281, jul.-set. 2011 279
Doença <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong>: <strong>uma</strong> <strong>abordagem</strong> diagnóstica e o <strong>tratamento</strong> cirúrgico Nascimento et al.importante espessamento da íntima, com a lâmina elásticainterna tortuosa e duplicada, po<strong>de</strong>ndo ainda estar associadoa <strong>de</strong>pósito <strong>de</strong> lipí<strong>de</strong>os na íntima. Mesmo com esta falta <strong>de</strong>consenso, alguns estudos têm evi<strong>de</strong>nciado ausência <strong>de</strong> inflamação(11) e <strong>de</strong> placas ateromatosas. Embora vários achadosrelacionados à doença tenham sido <strong>de</strong>scritos em estudos anteriores,ainda não se tem um conhecimento preciso sobre aexistência <strong>de</strong> um fator etiogênico bem estabelecido.O diagnóstico da DMM é <strong>de</strong>finido através <strong>de</strong> exames<strong>de</strong> imagem, sendo a angiografia convencional consi<strong>de</strong>radao padrão ouro. Três aspectos geralmente caracterizam opadrão vascular à angiografia: estenose da porção supraclinoi<strong>de</strong>da artéria carótida interna (ACI); <strong>de</strong>senvolvimento<strong>de</strong> artérias estriadas dilatadas – os vasos <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong>;com preservação dos vasos da fossa posterior (12). O envolvimentoé geralmente bilateral e simétrico (13). A isquemiacrônica leva ao <strong>de</strong>senvolvimento extensivo <strong>de</strong> vasoscolaterais, resultando na aparência característica <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong>(esf<strong>uma</strong>çado, na tradução do japonês) na base docrânio (14). Essas colaterais envolvem as artérias talamoperfurantes,coroi<strong>de</strong>as anterior e posteior, e as anastomosestransdurais entre sistema carotí<strong>de</strong>o interno e externo dameníngea média, maxilar interna e outros ramos a artériacarótida externa.Apesar disso, a angiografia tem a <strong>de</strong>svantagem <strong>de</strong> ser umprocedimento invasivo, com potenciais complicadores. Poresse motivo, a avaliação da DMM por métodos <strong>de</strong> imagemmais seguros e menos invasivos, como a tomografia computadorizada<strong>de</strong> múltiplos <strong>de</strong>tectores e a ressonância magnética,possibilitam um diagnóstico ainda acurado e preciso <strong>de</strong>stadoença, sem maiores complicações para o paciente (10).Tomografia computadorizada é a primeira ferramentadiagnóstica utilizada na avaliação <strong>de</strong> um paciente na emergência.É rápida, facilmente acessível e geralmente a primeiralinha na avaliação do paciente agudamente enfermo.Este método <strong>de</strong> imagem é útil para afastar emergênciasneurocirúrgicas, tais como sangramento intracraniano e lesõescom efeito <strong>de</strong> massa (13). Por outro lado, TC tem baixasensibilida<strong>de</strong> na avaliação do AVEi nas primeiras horas,visto que a isquemia é <strong>uma</strong> das alterações mais comumenteencontradas nos pacientes com DMM. Os principais achados<strong>de</strong> imagem observados nos pacientes acometidos poresta doença são a sequela <strong>de</strong> lesões isquêmicas prévias, taiscomo hipo<strong>de</strong>nsida<strong>de</strong>s corticais, subcorticais ou profundas,dilatação ventricular por atrofia parenquimatosa e <strong>de</strong>pósitoscálcicos nas áreas infartadas (12).A angiotomografia computadorizada, realizada em aparelhoscom múltiplos <strong>de</strong>tectores também é outra ferramentadiagnóstica importante, que po<strong>de</strong> <strong>de</strong>monstrar achados<strong>de</strong> imagem mais específicos da DMM. Com esta técnica, épossível observar o fenômeno <strong>Moyamoya</strong>, que se caracterizapela neovascularização e formação <strong>de</strong> vasos colateraisjunto aos núcleos da base (14). Estenoses comprometendovasos <strong>de</strong> maior calibre, especialmente ao nível do polígono<strong>de</strong> Willis, também po<strong>de</strong>m ser observados na angiotomografiacomputadorizada.RM combina a vantagem <strong>de</strong> ser relativamente pouco invasivae não <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> radiação, tornando-se frequentementea primeira linha <strong>de</strong> exame <strong>de</strong> imagem utilizado nadoença neurológica (10).Os estudos por RM geralmente incluem aquisiçõespadrão e angiografia. Na RM convencional, os principaisachados são perda do enchimento das gran<strong>de</strong>s artérias,atribuídas à oclusão do polígono <strong>de</strong> Willis, e vasto fluxona cisterna basal e gânglios basais, <strong>de</strong>vido ao aumento dare<strong>de</strong> vascular nestes sítios. Diferentemente da tomografiacomputadorizada, a RM po<strong>de</strong> <strong>de</strong>tectar lesões isquêmicasagudas, através da difusão, permitindo diagnóstico e <strong>tratamento</strong>precoces. Achados <strong>de</strong> imagem subagudos e tardiosobservados nas sequências convencionais, <strong>de</strong> maneira semelhantea TC, incluem infarto cerebral, gliose, atrofia ehemorragia. A angiorressonância, por sua vez, tem sensibilida<strong>de</strong>e especificida<strong>de</strong> semelhantes à angiografia convencional,<strong>de</strong>monstrando lesões esteno-oclusivas e vasos <strong>de</strong><strong>Moyamoya</strong>. Este exame apresenta aceitáveis sensibilida<strong>de</strong>(98%), especificida<strong>de</strong> (100%) e acurácia (100%) (15).De acordo com os gui<strong>de</strong>lines para diagnóstico e <strong>tratamento</strong><strong>de</strong> oclusão espontânea do círculo <strong>de</strong> Willis, a angiografianão é mandatória para o diagnóstico do padrão<strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong>, já que a RM <strong>de</strong>monstra todos os achadosrequeridos para o diagnóstico. Não obstante, estes autoresrecomendam o diagnóstico com ajuda da RM apenas noscasos pediátricos. As imagens por RM <strong>de</strong>vem ser preferencialmenterealizadas em magnetos <strong>de</strong> campo fechado <strong>de</strong>1.5-T (ou maior), como sugerido pelo Research Committeefor Diagnosis of <strong>Moyamoya</strong>. A angiografia convencional<strong>de</strong>ve, portanto, ser reservada para casos específicos em quese pretenda realizar um procedimento cirúrgico, no qual énecessário um conhecimento mais <strong>de</strong>talhado da anatomiavascular.O <strong>tratamento</strong> da DMM continua ainda insatisfatório, vistoque sua etiologia ainda não está <strong>de</strong>finida (7). Basicamente,o objetivo do <strong>tratamento</strong> é fornecer um aporte sanguíneoa<strong>de</strong>quado à área isquêmica ou as áreas em risco <strong>de</strong> isquemia,evitando assim novos eventos. Isto po<strong>de</strong> ser obtido atravésda cirurgia <strong>de</strong> revascularização, com bons resultados <strong>de</strong>scritos,ou <strong>tratamento</strong> farmacológico, envolvendo antiagregantesplaquetários, esteroi<strong>de</strong>s, pentoxifilina e bloqueadores docanal do cálcio, não havendo, porém, evidências claras quesugiram seu uso (1, 3, 4, 6). No caso da existência <strong>de</strong> patologiasassociadas à DMM, estas <strong>de</strong>vem ser tratadas, mesmosem comprovação da melhora no prognóstico.Em pacientes com complicações isquêmicas da DMM,principalmente em crianças, a cirurgia <strong>de</strong> revascularizaçãotem sido indicada para aumentar a perfusão do tecido cerebralhipóxico (7, 3). Melhora intelectual e redução nos riscos<strong>de</strong> recorrência <strong>de</strong> novos eventos isquêmicos têm sido<strong>de</strong>scritos após revascularização cirúrgica.Muitas técnicas diferentes têm sido <strong>de</strong>scritas para o<strong>tratamento</strong> cirúrgico <strong>de</strong>sta enfermida<strong>de</strong>. Todos têm o objetivoprincipal <strong>de</strong> prevenir futuras injúrias isquêmicas, aumentandoo fluxo sanguíneo para áreas hipoperfundidas280Revista da AMRIGS, Porto Alegre, 55 (3): 277-281, jul.-set. 2011
Doença <strong>de</strong> <strong>Moyamoya</strong>: <strong>uma</strong> <strong>abordagem</strong> diagnóstica e o <strong>tratamento</strong> cirúrgico Nascimento et al.do córtex, usando a carótida externa como doadora. Emnossa paciente, utilizamos a técnica <strong>de</strong>scrita por Seung-KiKim e cols. (3), com o objetivo <strong>de</strong> preservar o territórioda ACA. Este procedimento foi escolhido <strong>de</strong>vido ao conhecimentoda progressão da doença. O acometimento daACA é tão frequente quanto a ACM, sendo em criançasessencial preservar o lobo frontal para o <strong>de</strong>senvolvimentointelectual.COMENTÁRIOS FINAISA DMM ainda carece <strong>de</strong> maior conhecimento sobre suaetiologia, patologia e, por conseguinte, <strong>tratamento</strong>. Devidoà baixa frequência <strong>de</strong>sta patologia em nosso meio, é necessáriaa alta suspeição <strong>de</strong>sta doença para que sejam solicitadosos exames corretos, possibilitando seu diagnóstico. Emcentros on<strong>de</strong> esta patologia apresenta maior frequencia, aangioressonância talvez seja suficiente para o diagnóstico.Em nosso meio, no entanto, alem da TC e da RM, o papelda angiografia cerebral convencional tem se mostrado importanteno diagnóstico da DMM.Através da cirurgia <strong>de</strong> revascularização tem se conseguidoum melhor prognóstico da doença, porém, somentecom o conhecimento <strong>de</strong> sua etiologia po<strong>de</strong>remos oferecerum melhor <strong>tratamento</strong> e <strong>uma</strong> melhor qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vida aesses pacientes.REFERÊNCIAS bibliogrÁfiCas1. Shoukat S et al., <strong>Moyamoya</strong> disease: a clinical spectrum, literaturereview and case series from a tertiary care hospital in Pakistan. BMCNeurol., 2009;9:15.2. Baba T, Houkin K, Kuroda S. Novel epi<strong>de</strong>miological features of<strong>Moyamoya</strong> disease. J Neurol Neurosurg Psychiatry. 2008;79(8):900-4.3. Kim SK et al. Combined encephaloduroarteriosynangiosis and bifrontalencephalogaleo (periosteal) synangiosis in pediatric moyamoyadisease. Neurosurgery. 2008;62(6 Suppl 3):1456-64.4. Lima TF, Gallo P, Raupp SF, Mendonça R, Soares VB. Doença <strong>de</strong><strong>Moyamoya</strong>: relato <strong>de</strong> caso e revisão <strong>de</strong> literatura brasileira. Arq. bras.neurocir. 2006;25(1):34-39.5. Shimizu K, Takeuchi K. Hypoplasia of the bilateral inter nal carotidarteries. Brain Nerve (Tokyo). 1957;9:37-43.6. Demartini Jr Z et al. Surgical treatment of <strong>Moyamoya</strong> disease inchildren. Arq Neuropsiquiatr. 2008;66(2A):276-8.7. Franco CM et al. <strong>Moyamoya</strong> disease. Report of three cases in Brazilianpatients. Arq Neuropsiquiatr. 1999;57(2B):371-6.8. Kuriyama S. et al. Prevalence and clinicoepi<strong>de</strong>miological features ofmoyamoya disease in Japan: findings from a nationwi<strong>de</strong> epi<strong>de</strong>miologicalsurvey. Stroke. 2008;39(1):42-7.9. Ikeda H. et al. Mapping of a familial <strong>Moyamoya</strong> disease gene tochromosome 3p24.2-p26. Am J Hum Genet. 1999;64(2):533-7.10. Farrugia M, Howlett DC, Saks AM. <strong>Moyamoya</strong> disease. PostgradMed J. 1997;73(863):549-52.11. Neville BG. Adult <strong>Moyamoya</strong> disease. Bmj. 1993;307(6913):1213.12. Bacigaluppi S. et al. The contribution of imaging in diagnosis, preoperativeassessment, and follow-up of <strong>Moyamoya</strong> disease: a review.Neurosurg Focus. 2009;26(4):E3.13. Burke GM et al. <strong>Moyamoya</strong> disease: a summary. Neurosurg Focus.2009;26(4):E11.14. Masuda J, Yamaguchi T. <strong>Moyamoya</strong> disease. 4 ed. In: Mohr JP, GrottaJC, Weir B, Wolf P, ed. Stroke: pathophysiology, diagnosis andmanagement. New York: Churchill Livingstone, 2004. 603-618p.15. Yamada I et al. High-resolution turbo magnetic resonance angiographyfor diagnosis of <strong>Moyamoya</strong> disease. Stroke. 2001;32(8):1825-31.* En<strong>de</strong>reço para correspondênciaTobias Ludwig do NascimentoAv. Francisco Trein, 487/60691350-200 – Porto Alegre, RS – Brasil( (51) 8575.0331: tobiludw@yahoo.com.brRecebido: 19/8/2010 – Aprovado: 28/10/2010Revista da AMRIGS, Porto Alegre, 55 (3): 277-281, jul.-set. 2011 281