105 2°/2008 â - Portal de Ensino do Exército
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ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITOCURSO DE PREPARAÇÃO E SELEÇÃOCURSO DE PREPARAÇÃOÀ ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO(CP/ECEME)<strong>105</strong>– 2°/<strong>2008</strong>–
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>2Í N D I C EO MUNDO ATUAL...................................................................... 6BRASIL E ESPANHA: MINI-CRISE ESTÁ SUPERADA.....................................6AS DIFERENÇAS ÉTNICAS NO ORIENTE MÉDIO...........................................8IMPORTÂNCIA DA GEOPOLÍTICA DO TERRORISMO............................... 10DE OLHO NO AQUECIMENTO........................................................................... 21EMERGENTES: INFLAÇÃO EM ALTA, JUROS NEM TANTO..................... 22SUBSÍDIO DESTRÓI OS PRODUTORES DE PAÍSES POBRES..................... 23VAI TER PARA TODO MUNDO?......................................................................... 24O MUNDO PÓS-AMERICANO..............................................................................29AMEAÇA GLOBAL: BANCO MUNDIAL ABRE LINHA DE CRÉDITO DEUS$1,2 BI PARA PAÍSES POBRES ENFRENTAREM CRISE ALIMENTAR 34MINISTROS DE ENERGIA DIVIDIDOS SOBRE SUBSÍDIO...........................35NO 3º CHOQUE DO PETRÓLEO, 25 ANOS EM 5 MESES...............................36EUROPA.................................................................................. 38UE VAI REVELAR NOMES DE QUEM RECEBE SUBSÍDIO AGRÍCOLA.. 38RÚSSIA ACEITA DISCUTIR TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA EMDEFESA..................................................................................................................... 38EUROPA INVESTIU MAIS NO BRASIL QUE NA CHINA EM 2007.............. 39UM MAPA QUE NÃO TEM SOSSEGO................................................................ 39REFORMA AGRÍCOLA DA UE BENEFICIA EXPORTAÇÕES DO BRASILDE ÓLEO E CARNE................................................................................................ 41AMÉRICA LATINA.................................................................... 42ESTATIZAÇÃO NA VENEZUELA ...................................................................... 42HORA DO REALISMO .......................................................................................... 43BACHELET DEFENDE POLÍTICA DE DEFESA SUL-AMERICANA........... 44MORRER PELA PÁTRIA.......................................................................................44A HORA DA MUDANÇA........................................................................................ 46SINAL AMARELO .................................................................................................. 46ARGENTINA VETA TRIGO AO BRASIL, MAS NÃO À BOLÍVIA ............... 47
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>3BRASIL QUER CONSELHO DE DEFESA COMO PORTA-VOZ DAAMÉRICA DO SUL..................................................................................................48PAÍSES ASSINARÃO TRATADO PARA INTEGRAÇÃO DA AMÉRICA DOSUL............................................................................................................................. 49LUGO INSISTE EM REVISÃO DO TRATADO DE ITAIPU............................ 50BRASIL E PERU APROFUNDAM COOPERAÇÃO ..........................................51A INFLUÊNCIA DA CULTURA NA INTEGRAÇÃO DO MERCOSUL..........51IMPACTOS DA AUTONOMIA PARA A BOLÍVIA............................................53PAZ, DEMOCRACIA E CONFLITOS NA AMÉRICA DO SUL....................... 55PARTICIPAÇÃO DE ENERGIAS RENOVÁVEIS NA AMÉRICA LATINADEVE AUMENTAR ATÉ 2018............................................................................... 56BOLÍVIA APÓIA A PROPOSTA BRASILEIRA................................................. 57A HORA E A VEZ DOS IDEÓLOGOS..................................................................58DESAFIOS DA DIPLOMACIA SUL-AMERICANA .......................................... 59HERANÇA KIRCHNER .........................................................................................60AMÉRICA ANGLO-SAXÔNICA.................................................. 61BUSH: 'ESTES SÃO TEMPOS DIFÍCEIS' PARA OS EUA............................... 61A FALTA DE CONTROLE DE BENS MILITARES NOS EUA.........................62ÁFRICA.................................................................................... 63ÁFRICA SOFRE COM ALIMENTOS MAIS CAROS.........................................63PELO MENOS 6 MIL FOGEM DE ONDA XENÓFOBA NA ÁFRICA DO SUL..................................................................................................................................... 64VIOLÊNCIA XENÓFOBA RESSUSCITA TERROR DA ÉPOCA DOAPARTHEID............................................................................................................. 65ÁSIA........................................................................................ 66CHINA DETONA GUERRA À MÍDIA APÓS ATAQUES DA CNN ................ 66JAPÃO TÊM EXPORTAÇÕES RECORDE NO ANO FISCAL DE 2007......... 67ÁGUA, O NOVO NEGÓCIO DA CHINA..............................................................68O RENASCIMENTO DE MUMBAI.......................................................................70À ESPERA DE UMA CATÁSTROFE.................................................................... 72INVASÃO ASIÁTICA.............................................................................................. 75OCEANIA E ANTÁRTIDA.......................................................... 76
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>4O PROGRAMA ANTÁRTICO BRASILEIRO – PROANTAR...........................76SENADO REALIZA SEMINÁRIO PARA DEBATER PROGRAMAANTÁRTICO BRASILEIRO...................................................................................78ORGANISMOS INTERNACIONAIS............................................ 78TROPAS DA ONU ARMARAM MILÍCIAS......................................................... 78ACORDO NA OMC RECONHECE QUESTÃO SANITÁRIA REGIONAL.... 79ONU BUSCA ACORDO PARA CONTER EXTINÇÕES ANTES DE 2010...... 80ACORDOS MULTILATERAIS.................................................... 81DECLARAÇÃO CONJUNTA BRASIL - UNIÃO EUROPÉIA...........................81BRASIL E ALEMANHA DISCUTEM BIOCOMBUSTÍVEIS............................83BIOCOMBUSTÍVEIS: UNIÃO EUROPÉIA E BRASIL DIVERGEM..............84NOVA OPORTUNIDADE PARA DOHA ............................................................. 84COISAS DA POLÍTICA: AS RELAÇÕES ENTRE O BRASIL E CUBA ........ 85BRASIL: ASPECTOS SOCIAIS E REGIONAIS............................ 86SANDICE INDÍGENA .............................................................................................86CRISE BÁSICA ........................................................................................................87O PAÍS PAGA A CONTA........................................................................................ 88AS INVASÕES NO ABRIL VERMELHO............................................................. 89GOVERNO CORTA R$6,2 BI EM INVESTIMENTO SOCIAL.........................90SINAL DE ALERTA NO NORDESTE...................................................................91MST E ESTUDANTES OCUPAM INCRA EM MINAS...................................... 92A AMAZÔNIA LEGAL E A POLÍTICA INDÍGENA BRASILEIRA................92GASTO PÚBLICO E SEGURANÇA, OS DESAFIOS DO BRASIL...................94DESAFIO DO GOVERNO: CONCENTRAR-SE NA EDUCAÇÃO ..................96UNESCO: BRASIL USA MÉTODOS PRIMÁRIOS NA ESCOLA.................... 97BRASIL: ESPAÇOS RURAIS E URBANOS................................. 97MINC PROPÕE QUE MILITARES FAÇAM DEFESA DA AMAZÔNIA........97EXÉRCITO VÊ IDÉIA DE MINISTRO COM RESSALVAS ............................ 98GRÃOS IMPULSIONAM PREÇOS DA TERRA NO BRASIL; SUL ÉDESTAQUE............................................................................................................... 99SEM APOIO, MINISTRO DESISTE DE RECRUTAR FORÇAS ARMADAS................................................................................................................................... 100
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>5QUAL LATIFÚNDIO?........................................................................................... 100BRASIL: FORMA E REFORMA DO ESTADO............................ 102MST OBRIGA MINISTRO A OUVIR REIVINDICAÇÕES ............................102STF PODE DECLARAR NULA DEMARCAÇÃO DA RESERVA ................. 102JUCÁ QUER EXCLUSÃO DE ÁREAS DE RESERVA.....................................103FUMAÇA DE CASUÍSMO.................................................................................... 104O GENERAL HELENO: CRÍTICA À POLÍTICA INDIGENISTA ABRIUCRISE COM GOVERNO ......................................................................................107POLÍTICA AMBIENTAL......................................................................................108O DESAFIO DA ECONOMIA VERDE................................................................109COM QUE ASAS O PAÍS VAI VOAR?............................................................... 111SÓ FALTA A MOODY’S....................................................................................... 114BRASIL: GESTÃO DOS RECURSOS ESTRATÉGICOS............. 116O MAIOR PÓLO DE INVESTIMENTO DO BRASIL...................................... 116O IMPASSE DA HIDRELÉTRICA...................................................................... 120ESTOQUE BAIXO DE ARROZ FAZ BRASIL SUSPENDER EXPORTAÇÕES................................................................................................................................... 122DESAFIOS NA ENERGIA.....................................................................................123POLÊMICA VERDE.............................................................................................. 124O PLANO PARA A INDÚSTRIA..........................................................................125UM PACOTE DE BONDADES............................................................................. 126A CONSTITUIÇÃO E OS PORTOS.................................................................... 128GOVERNO PREVÊ US$1 BI COM FUNDO AMAZÔNIA...............................129CLIMA AMEAÇA POTENCIAL ENERGÉTICO DO PAÍS............................ 130GOVERNO PREVÊ US$1 BI COM FUNDO AMAZÔNIA...............................131PETROBRAS: MAIS ÓLEO LEVE EM SANTOS............................................. 132NÃO BASTA TER DINHEIRO ............................................................................ 135DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL É ABSTRAÇÃO............................. 137BRASIL: ÁREAS DE INTERESSE............................................ 142CÚPULA MILITAR CRITICA GOVERNO .......................................................142GENERAL DIZ QUE DEMARCAÇÃO DE TERRA INDÍGENA PODE SERAMEAÇA AO PAÍS ............................................................................................... 144
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>6A NOVA CONCORRENTE DA EMBRAER.......................................................145SELVA É COM ELE.............................................................................................. 146EMBRAER VENDE CAÇA A CHILE E EQUADOR........................................ 147LIBERDADE NOS PORTOS.................................................................................147AMAZÔNIA: PRESSÃO DESVIA FOCO DA SUSTENTABILIDADE, DIZDIRETOR DA ANA................................................................................................ 148É POSSÍVEL 'SALVAR' A AMAZÔNIA?.......................................................... 149BRASIL: SAÚDE..................................................................... 151O 'AEDES' ATACA................................................................................................ 151VITÓRIA DA CIÊNCIA.........................................................................................152Para ir ao texto <strong>de</strong>seja<strong>do</strong> basta clicar no número <strong>de</strong> página ao la<strong>do</strong>.O MUNDO ATUALBrasil e Espanha: mini-crise está superada29/04/<strong>2008</strong>Os chanceleres <strong>do</strong> Brasil, Celso Amorim, e Miguel ÁngelMoratinos, da Espanha, afirmaram nesta bterça-feira em Brasília, quea “mini-crise” ou o “mal-entendi<strong>do</strong>” causa<strong>do</strong> pela <strong>de</strong>portação <strong>de</strong>brasileiros, está superada. Amorim ilustrou o comentário ao afirmarque “é página virada” nas relações bilaterais.Miguel Ángel Moratinos esteve no Brasil <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> visitar oHaiti, Peru e Argentina, em sua primeira viagem ao exterior <strong>de</strong>pois dareeleição <strong>de</strong> José Luiz Rodriguez Zapateiro como primeiro-ministrodaquele país. Moratinos foi confirma<strong>do</strong> no cargo e veio à região para reafirmar o interesse espanholem fortalecer as relações com a América Latina.Segun<strong>do</strong> ele, “a nova legislatura <strong>de</strong>cidiu apostar forte na América Latina, especialmente noBrasil”. O ministro <strong>de</strong> Assuntos Exteriores da Espanha também confirmou que Zapateiro fará umavisita à Brasília no dia 15 <strong>de</strong> maio, antes <strong>de</strong> chegar à Lima para a Cúpula América Latina – UniãoEuropéia – Caribe.Além das relações bilaterais, os <strong>do</strong>is repassaram temas da agenda regional e mundial, taiscomo o interesse comum <strong>de</strong> investir na África e participar <strong>do</strong> processo <strong>de</strong> paz no Oriente Médio.Celso Amorim <strong>de</strong>stacou que os problemas com os brasileiros que chegam à Madri estãosupera<strong>do</strong>s e que os repatria<strong>do</strong>s que chegaram a ser 20 por dia, hoje chegam a quatro ou cinco.O ministro brasileiro informou que os seis pontos <strong>do</strong> acor<strong>do</strong> firma<strong>do</strong> no início <strong>de</strong> abril, naEspanha, estão sen<strong>do</strong> implementa<strong>do</strong>s e que é preciso mais cooperação policial para evitarconstrangimentos.“Precisamos separar o joio <strong>do</strong> trigo, o santo <strong>do</strong> peca<strong>do</strong>r”, afirmou Amorim referin<strong>do</strong>-se aosbrasileiros que não po<strong>de</strong>m ser confundi<strong>do</strong>s com criminosos.Ele informou ainda que o tema <strong>do</strong>s biocombustíveis nao foi trata<strong>do</strong>, mas que o Brasil <strong>de</strong>positagran<strong>de</strong> confiança no apoio da Espanha para que o etanol não sofra taxações por parte da UniãoEuropéia que o inviabilizem comercialmente.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>7Celso Amorim explicou que o país trabalha por uma quota gran<strong>de</strong> <strong>de</strong> etanol na Europa e queeste tema é fundamental na agenda exterior <strong>do</strong> Brasil. Já o ministro Moratinos <strong>de</strong>stacou que aEspanha apóia o programa brasileiro e que o governo tem estimula<strong>do</strong> o empresaria<strong>do</strong> local ainvestir nos projetos brasileiros <strong>de</strong> biocombustíveis.HaitiO ministro das Relações Exteriores <strong>do</strong> Brasil, Celso Amorim, elogiou seu colega espanholMiguel Ángel Moratinos, por ter inicia<strong>do</strong> a viagem à região pelo Haiti. Segun<strong>do</strong> ele, Brasil eEspanha estão empenha<strong>do</strong>s em colaborar com os haitianos. Moratinos viajou acompanha<strong>do</strong> daSecretaria <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong> para a Ibero-América, Trinidad Jiménez.Ele preten<strong>de</strong> reforçar as relações bilaterais da Espanha e impulsionar o relacionamento daregião com a União Européia. No Haiti, ele con<strong>de</strong>corou 30 guardas civis e 18 policiais espanhóisque integram a Missão das Nações Unidas para a Estabilização <strong>do</strong> Haiti (MINUSTAH).Em Lima, Miguel Ángel Moratinos se encontrou com o presi<strong>de</strong>nte Alan García com quemconversou sobre a Cúpula América Latina – União Européia – Caribe, que será realizada naquelacapital, nos dias 16 e 17 <strong>de</strong> maio.Na Argentina, o chanceler esteve com o ministro <strong>de</strong> Exteriores, Jorge Taiana e a presi<strong>de</strong>nteCristina Fernán<strong>de</strong>z, com quem discutiu a implementação <strong>do</strong> Plano <strong>de</strong> Associação Estratégicafirma<strong>do</strong> entre os <strong>do</strong>is países em 2005.Reunião Consular <strong>de</strong> Alto Nível entre Brasil e Espanha - Comunica<strong>do</strong> ConjuntoNo quadro das excelentes relações entre Brasil e Espanha, celebrou-se, no dia <strong>de</strong> hoje, reuniãobilateral presidida pelo Subsecretário-Geral <strong>de</strong> Comunida<strong>de</strong>s Brasileiras no Exterior, Embaixa<strong>do</strong>rOto Agripino Maia, e pela Subsecretária <strong>de</strong> Assuntos Exteriores e <strong>de</strong> Cooperação da Espanha,María Jesús Figa.A reunião contou com a participação <strong>do</strong>s Ministérios competentes em questões imigratórias e<strong>de</strong> controle <strong>de</strong> fronteira <strong>de</strong> ambos os países.Durante o encontro foram tratadas diversas questões relacionadas com os requisitos <strong>de</strong>entrada tanto no espaço Schengen, <strong>do</strong> qual a Espanha é parte, quanto no Brasil; com a <strong>de</strong>negação <strong>de</strong>entrada a cidadãos <strong>de</strong> ambos os países nas respectivas fronteiras; e com as condições <strong>de</strong>permanência <strong>do</strong>s inadmiti<strong>do</strong>s nos recintos aeroportuáriosForam estudadas medidas tanto para aperfeiçoar os mecanismos <strong>de</strong> controle imigratórioaplica<strong>do</strong>s em função da normativa Schengen e da legislação brasileira vigente, com as máximasgarantias para os viajantes, como para melhorar a situação <strong>do</strong>s inadmiti<strong>do</strong>s nos aeroportos.Especificamente, foi acorda<strong>do</strong> o seguinte:1 – Trocar informações <strong>de</strong>talhadas, por meio das Diretorias-Gerais <strong>de</strong> Assuntos Consulares, arespeito <strong>do</strong>s requisitos <strong>de</strong> entrada em ambos os países, procuran<strong>do</strong> dar-lhes a máxima difusão juntoa todas as instituições e agentes envolvi<strong>do</strong>s;2 – Estabelecer sistema <strong>de</strong> comunicação especial e ágil, por procedimento <strong>de</strong> “linha direta”,entre as autorida<strong>de</strong>s consulares e responsáveis, nos <strong>do</strong>is países, por assuntos <strong>de</strong> fronteira;3 – Celebrar, periodicamente, reuniões entre autorida<strong>de</strong>s imigratórias e <strong>de</strong> assuntos exteriores,por um la<strong>do</strong>, e <strong>de</strong> representantes <strong>do</strong>s Consula<strong>do</strong>s, por outro;4 – Reforçar a cooperação policial e em questões imigratórias. Para isso prevê se, em umprimeiro momento, a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> que funcionários policiais <strong>do</strong> Brasil e da Espanha colaborem“in situ” com suas contrapartes;5 – A respeito da situação <strong>do</strong>s inadmiti<strong>do</strong>s, ambas as partes teceram consi<strong>de</strong>rações acerca <strong>de</strong>assistência jurídica, manutenção, higiene, comunicações e acesso a bagagens;6 – Fazer gestões junto aos organismos competentes para instalar, o mais brevementepossível, caixas eletrônicos nas áreas <strong>de</strong> controle imigratório, ao alcance <strong>do</strong>s passageiros.Além disso, constatou-se a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> que pessoas que tenham sua entrada <strong>de</strong>negadacomprem passagens <strong>de</strong> volta ao país <strong>de</strong> origem em companhia aérea que consi<strong>de</strong>rem conveniente.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>8O Subsecretário-Geral para as Comunida<strong>de</strong>s Brasileiras no Exterior e a Subsecretária <strong>de</strong>Assuntos Exteriores e Cooperação da Espanha comprometem se a continuar trabalhan<strong>do</strong> para<strong>de</strong>senvolver, <strong>de</strong> maneira <strong>de</strong>talhada, os acor<strong>do</strong>s alcança<strong>do</strong>s nesta reunião.Ambas as partes felicitaram-se pelo alto grau <strong>de</strong> entendimento e confiança manifesta<strong>do</strong> nareunião.www.inforel.orgAs diferenças étnicas no Oriente Médio15/05/<strong>2008</strong>Muito se fala, mas poucos sabem a real diferença das etnias noOriente Médio.O assunto (Oriente Médio) é tema <strong>de</strong> diversas discussões emambientes acadêmicos, <strong>de</strong>bates políticos, mídia e até mesmo em umbate-papo informal com amigos no bar.Entretanto, muitas pessoas <strong>de</strong>sconhecem a diferença entre umárabe e um israelense ou entre um muçulmano e um árabe, ou aindaentre um ju<strong>de</strong>u e um muçulmano.A gran<strong>de</strong> verda<strong>de</strong> é que a riqueza <strong>de</strong> culturas e a históriamilenar daquela região é um tema muito explora<strong>do</strong>, porém poucoesclareci<strong>do</strong> com relação aos povos e a história em si <strong>do</strong> OrienteMédio.A mídia foca sua atenção nos conflitos e nos distúrbios <strong>do</strong>s Governos locais, esquecen<strong>do</strong> araiz, a origem e a cultura da região.Sen<strong>do</strong> assim, este breve artigo visa apresentar as diferenças e os traços culturais das etniasmais marcantes <strong>do</strong> Oriente Médio e dar um norte àqueles que preten<strong>de</strong>m enten<strong>de</strong>r o motivo <strong>do</strong>satuais impasses em diferentes países da região.Primeiramente, utilizarei o livro bíblico <strong>de</strong> Gênesis como fonte histórica e ponto inicial parauma possível diferenciação <strong>do</strong>s povos daquela região.Como é <strong>do</strong> conhecimento <strong>de</strong> muitos, o livro <strong>de</strong> Gênesis narra a origem <strong>de</strong> <strong>do</strong>is povos: o árabee o ju<strong>de</strong>u. Sabe-se que Abraão era casa<strong>do</strong> com Sara e que a mesma era estéril. Sara tinha o <strong>de</strong>sejomuito gran<strong>de</strong> <strong>de</strong> ter um filho e como não podia, pediu que a serva egípcia o tivesse com Abraão.Assim, nasce Ismael. Mas Agar, a serva, menosprezava Sara, pois o filho era <strong>de</strong>la e <strong>de</strong> Abrão,não <strong>de</strong> Sara. Deus envia Agar e Ismael para o <strong>de</strong>serto, com a promessa <strong>de</strong> que ele será pai <strong>de</strong> umagran<strong>de</strong> nação, com vistas a distanciar Agar <strong>de</strong> Sara e evitar possíveis complicações 1.De Ismael nasce o islamismo. Após isso, Deus promete a Sara um filho <strong>de</strong> Abraão, cujo nomeé Isaac, surge, assim, o judaísmo. (Genesis 16).Com esse breve esclarecimento, não <strong>de</strong>vemos confundir, então, o povo árabe com a religiãoislâmica (muçulmana). O povo árabe surge com Ismael, já a religião islâmica, o islamismo, surgecom o profeta Mohammed, tempo <strong>de</strong>pois.O mesmo po<strong>de</strong>mos anuir com relação ao povo ju<strong>de</strong>u, pois o povo ju<strong>de</strong>u surge com Isaac, massomente com Moisés é que teremos uma codificação e traços marcantes <strong>do</strong> judaísmo.No entanto, para ser mais preciso e utilizar <strong>de</strong> da<strong>do</strong>s mais apura<strong>do</strong>s, po<strong>de</strong>-se dizer que o povoárabe é um povo heterogêneo, originário da península arábica 2 constituída por regiões <strong>de</strong>sérticas.O povo árabe po<strong>de</strong> ser i<strong>de</strong>ntifica<strong>do</strong> por motivos políticos (se ele vive em um país membro daLiga Árabe), por motivos lingüísticos (sua língua materna é árabe) e por motivos genealógicos(ascendência até os habitantes originários da península arábica).Entretanto, nem sempre os fatores menciona<strong>do</strong>s acima <strong>de</strong>finem um árabe por completo,segun<strong>do</strong> Habib Hassan Touma (1996, p.xviii), "A essência da cultura árabe <strong>de</strong>ve envolver a línguaárabe, o islã, a tradição e os costumes”.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>9Ou seja, árabe, no senti<strong>do</strong> mo<strong>de</strong>rno da palavra, “é alguém que é cidadão <strong>de</strong> um esta<strong>do</strong> árabe,conhece a língua árabe e possui um conhecimento básico da tradição árabe, isto é, <strong>do</strong>s usos,costumes e sistemas políticos e sociais da cultura." (<strong>de</strong>finição da Liga Árabe).Po<strong>de</strong>-se resumir, assim, que os árabes são um povo semita que tem sua ascendência <strong>de</strong>Ismael, um <strong>do</strong>s filhos <strong>do</strong> antigo patriarca Abraão. O povo árabe po<strong>de</strong> ser, ainda, dividi<strong>do</strong> em duasoutras segmentações: os xiitas e os sunitas.Os xiitas são o segun<strong>do</strong> maior ramo <strong>de</strong> crentes <strong>do</strong> Islã, constituin<strong>do</strong> 16% <strong>do</strong> total <strong>do</strong>smuçulmanos. Os xiitas são partidários <strong>de</strong> Ali, casa<strong>do</strong> com a filha <strong>do</strong> Profeta Mohammed, Fátima.Os xiitas não aceitam as direções <strong>do</strong>s sunitas, uma vez que somente <strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes <strong>do</strong> profeta sãoverda<strong>de</strong>iros Imãs (Guias <strong>do</strong> sagra<strong>do</strong> Corão e Sunna).Receberam o conhecimento <strong>de</strong> forma secreta por Deus. São mais religiosos e mais orto<strong>do</strong>xos.Já os sunitas formam o maior ramo <strong>do</strong> Islã, ao qual no ano <strong>de</strong> 2006 pertenciam 84% <strong>do</strong> total <strong>do</strong>smuçulmanos.Os sunitas são partidários <strong>do</strong>s califas abássidas, <strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes <strong>de</strong> All Abbas, tio <strong>do</strong> Profeta.São muçulmanos mais mo<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>s, menos religiosos.Por outro la<strong>do</strong>, como já vimos, temos a religião judaica, o judaísmo, que também surge comAbraão. Após o nascimento <strong>de</strong> Ismael, Deus or<strong>de</strong>nou que Agar e Ismael fossem para o <strong>de</strong>serto paraser pai <strong>de</strong> uma gran<strong>de</strong> nação.Após este episódio, nasce Isaac, filho <strong>de</strong> Abraão com Sara, e, a partir <strong>de</strong>ste momento, oscaminhos das duas religiões começam a ser <strong>de</strong>fini<strong>do</strong>s.Po<strong>de</strong>-se dizer que com Isaac surge o judaísmo, apesar das escrituras judaicas narrarem ahistória da humanida<strong>de</strong> <strong>de</strong>s<strong>de</strong> Adão e Eva, perpassan<strong>do</strong> por Noé e Abraão. No entanto, nãopo<strong>de</strong>mos confundir o judaísmo com a nacionalida<strong>de</strong> israelense. Como já menciona<strong>do</strong>, judaísmo é areligião, israelense é a nacionalida<strong>de</strong>.Assim, nem to<strong>do</strong> israelense é ju<strong>de</strong>u, da mesma forma que nem to<strong>do</strong> ju<strong>de</strong>u é israelense.A tradição judaica <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>, em um passa<strong>do</strong> mais recente, que a origem se dá com a libertação<strong>do</strong>s filhos <strong>de</strong> Israel da terra <strong>do</strong> Egito pelas mãos <strong>de</strong> Moisés.Com a fundamentação e solidificação da <strong>do</strong>utrina mosaica, uma facção <strong>do</strong>s antigos hebreuspassou a ser conhecida como "Filhos <strong>de</strong> Israel" (Bnei Israel). É <strong>de</strong>ste evento que surge a noção <strong>de</strong>nação, fundamentada nos preceitos tribais e na crença monoteísta 3.Com relação à terminologia israelense, po<strong>de</strong>-se <strong>de</strong>finir como to<strong>do</strong> o cidadão <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong>Israel, que foi cria<strong>do</strong> em 1948. Ou seja, israelense é a nacionalida<strong>de</strong> <strong>do</strong>s nasci<strong>do</strong>s em Israel.Existem muçulmanos israelenses, ju<strong>de</strong>us israelenses, católicos israelenses, <strong>de</strong>ntre outros.Da mesma forma que existem ju<strong>de</strong>us brasileiros, ju<strong>de</strong>us americanos, ju<strong>de</strong>us etíopes, e muitosoutros. Po<strong>de</strong>mos dizer, ainda, que existem muçulmanos brasileiros, muçulmanos argentinos,muçulmanos americanos.Em suma, po<strong>de</strong>-se dizer que israelense é diferente <strong>de</strong> ju<strong>de</strong>u e muçulmano é diferente <strong>de</strong> árabe4.Por fim, <strong>de</strong>vemos <strong>de</strong>dicar um espaço ao povo persa, que não é árabe, mas em sua maioria émuçulmano. Os persas habitaram a Península Arábica, território correspon<strong>de</strong>nte à atual República<strong>do</strong> Irã, na Ásia. Os persas existem como um pequeno povo <strong>de</strong> nação distinta <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a antigüida<strong>de</strong>.Os persas <strong>de</strong>scen<strong>de</strong>m <strong>do</strong>s arianos, um povo in<strong>do</strong>-europeu que migrou para a região a partir daÁsia Central, no início <strong>do</strong> primeiro milênio a.C. Sua língua é chamada persa, ou farsi. Cerca <strong>de</strong> 51%da população atual <strong>do</strong> Irã são da etnia persa. Outras estimativas chegam a colocar essa parcela em70%.Existem minorias persas também no Afeganistão, Tadjiquistão e Uzbequistão. Muitas outrasetnias existem no Irã, incluin<strong>do</strong> grupos arianos não-persas, como os gilaki; as etnias <strong>de</strong> ascendênciaturca, como os azerbaijanis, cur<strong>do</strong>s, e turcomanos; árabes e algumas outras minorias.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>10A religião <strong>do</strong>s persas foi, durante muito tempo o zoroastrismo, basea<strong>do</strong> na divisão dualistaentre o Bem (Deus Ahura-Mazda) e o Mal (Deus Ahriman). Essa religião tinha valores que estãopresentes até hoje em algumas correntes, como: vida após a morte, purgatório e juízo final.O livro sagra<strong>do</strong> que guiava o povo era o Zen<strong>de</strong> Avesta, um <strong>do</strong>s poucos registros literários<strong>de</strong>sse povo. Por ser um povo essencialmente religioso, seu governo era uma teocracia - governo <strong>de</strong>Deus. Na Ida<strong>de</strong> Média, os persas foram converti<strong>do</strong>s ao Islamismo, pre<strong>do</strong>minan<strong>do</strong> a corrente Xiita 5.Assim, po<strong>de</strong>mos concluir que a multiplicida<strong>de</strong> <strong>de</strong> etnias e as mais diferentes culturas etradições <strong>do</strong> Oriente Médio contribuem para a <strong>de</strong>licada situação na região.Percebe-se que divisões internas nas religiões e até mesmo as próprias divisões religiosas sãoaspectos a serem analisa<strong>do</strong>s e estuda<strong>do</strong>s antes mesmo <strong>de</strong> tratar <strong>do</strong> assunto.A história <strong>do</strong> Oriente Médio é marcada por diversos perío<strong>do</strong>s <strong>de</strong> <strong>do</strong>minação e <strong>de</strong> muitasconquistas, não seria em <strong>de</strong>termina<strong>do</strong> conflito atual ou em um pequeno <strong>de</strong>talhe que seria possível<strong>de</strong>terminar a origem <strong>de</strong> disputa <strong>de</strong> terras, <strong>de</strong>savenças partidárias ou aversão a certos povos.É necessário estudar o costume, as diferenças e os <strong>de</strong>talhes remotos da origem cadacivilização, <strong>de</strong> mo<strong>do</strong> a tentar enten<strong>de</strong>r e perceber, <strong>de</strong> fato, a grandiosida<strong>de</strong> cultural da região e <strong>de</strong>seus povos.Rui Samarcos Lóra – www.inforel.orgImportância da geopolítica <strong>do</strong> terrorismo19/02/<strong>2008</strong>É impossível analisarmos a obra “O Terrorismo e a I<strong>de</strong>ologia<strong>do</strong> Oci<strong>de</strong>nte” sem, paralelamente, analisarmos a obra “A Gran<strong>de</strong>Mentira” [2], <strong>do</strong> mesmo autor, mas <strong>de</strong> publicação prévia.Com efeito, as duas imiscuem-se em vários pontos e chegamaté a complementarem-se a respeito <strong>de</strong> algumas matérias.De tal forma assim o é que logo nas palavras introdutóriaslemos: “Este pequeno ensaio vem na seqüência <strong>de</strong> outro pequenoensaio, publica<strong>do</strong> em 2004 com a <strong>de</strong>signação <strong>de</strong> ‘A Gran<strong>de</strong> Mentira– Ensaio sobre a I<strong>de</strong>ologia <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>’[3]”.Logo, tomaremos a liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> analisar a importância dageopolítica <strong>do</strong> terrorismo através da lente analítica <strong>de</strong>stas respectivasobras.Ambos os livros <strong>de</strong>bruçam-se sobre um fenômeno muitas vezes esqueci<strong>do</strong> pela tradicionalliteratura crítica das gran<strong>de</strong>s escolas <strong>de</strong> pensamento <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> dito industrializa<strong>do</strong>, o qual parecetomar a dianteira na elaboração das gran<strong>de</strong>s <strong>do</strong>utrinas que <strong>de</strong>finirão o rumo às correntes políticas,econômicas e sociais <strong>do</strong> futuro.A i<strong>de</strong>ologia, per se, aparece mais como um artefato herda<strong>do</strong> <strong>de</strong> manifestações coletivas emmomentos históricos <strong>do</strong>s quais ninguém possui um olhar científico suficientemente distante paradiscutir construtivamente sobre.Com efeito, criaram-se alguns estigmas envoltos <strong>do</strong> conceito <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ologia, sen<strong>do</strong> muitas vezesassociada ao nazismo, fascismo, comunismo, e outros “ismos” que mancham algumas páginas daHistória recente <strong>de</strong> muitos países.No entanto, e como nota o autor, a própria concepção populista <strong>de</strong> que a era das i<strong>de</strong>ologiasterminou é ela própria o resulta<strong>do</strong> <strong>de</strong> um entendimento da vida e fazeres públicos, internos einternacionais, <strong>de</strong> tal forma totalitarista que nada mais conclui <strong>do</strong> que a completa realização <strong>de</strong> umai<strong>de</strong>ologia vence<strong>do</strong>ra.Ao rematarmos prontamente as várias manifestações <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ologias com que o Oci<strong>de</strong>nte se<strong>de</strong>parou como tal, estamos implicitamente a reconhecer a nossa como mais válida e universal dasrestantes.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>11E contu<strong>do</strong>, não será este pré-conceito uma manifestação <strong>de</strong> uma i<strong>de</strong>ologia que, pela suaabrangência e profundida<strong>de</strong>, já não lhe conseguimos ver os limites?Não será o politicamente correto apenas um mecanismo <strong>de</strong> garantir a subserviência voluntária<strong>de</strong> comportamentos e idéias a um conjunto <strong>de</strong> valores que hoje tomamos por universais e<strong>do</strong>gmáticos? Não existirá uma coletivida<strong>de</strong> da qual emana esta i<strong>de</strong>ologia, procuran<strong>do</strong> adaptar-se,como todas as i<strong>de</strong>ologias, às várias transformações que enfrentam o status quo <strong>do</strong> sistema cria<strong>do</strong>?O presente trabalho, assim como as obras sobre as quais baseamos as nossas reflexões,procurará respon<strong>de</strong>r as estas perguntas <strong>de</strong> referência, tentan<strong>do</strong> simultaneamente analisar quais osprocessos, atores e sistema responsáveis pelo atual state-of-the-art das relações internacionais.Operacionalização <strong>de</strong> conceitosAntes <strong>de</strong> prosseguirmos com a respectiva análise, é fundamental codificarmosconceitualmente quais os conteú<strong>do</strong>s inseri<strong>do</strong>s nos termos “terrorismo”, “i<strong>de</strong>ologia” e “Oci<strong>de</strong>nte”,pois apenas quan<strong>do</strong> <strong>de</strong>finirmos com relativa precisão o que cada um significa, po<strong>de</strong>remos avançarna sua explanação.Toman<strong>do</strong> as próprias palavras <strong>do</strong> Professor, a) to<strong>do</strong> o terrorismo é ato político; b) o terrorismoé instrumental, ou seja, é um meio e não um objetivo final; c) para o entendimento da lógica <strong>do</strong>terrorismo há que consi<strong>de</strong>rar, em separa<strong>do</strong>, os seus propósitos imediatos <strong>do</strong>s mediatos, […]; ed) ocritério <strong>do</strong> benefício objetivo é fundamental para a <strong>de</strong>finição da lógica <strong>do</strong> terrorismo. [4].Etimologicamente, o termo terrorismo advém da <strong>de</strong>signação <strong>do</strong> perío<strong>do</strong> que se suce<strong>de</strong>u àRevolução Francesa <strong>de</strong> 1789, o qual ficou para a história como o Reino <strong>do</strong> Terror. Contu<strong>do</strong>, estanão é a única, nem sequer a oficial, <strong>de</strong>finição <strong>do</strong> significa<strong>do</strong> <strong>de</strong> terrorismo.Ao próprio nível da Organização das Nações Unidas falhamos em encontrar consenso. Oúnico <strong>do</strong>cumento com uma clara alusão à <strong>de</strong>finição <strong>de</strong> terrorismo é aquela contida na Resolução daAssembléia Geral das Nações Unidas nº 49/60, em que diz:Criminal acts inten<strong>de</strong>d or calculated to provoke a state of terror in the general public, a group ofpersons or particular persons for political purposes are in any circumstance unjustifiable, whatever theconsi<strong>de</strong>rations of a political, philosophical, i<strong>de</strong>ological, racial, ethnic, religious or any other naturethat may be invoked to justify them.[5].Em suma, aqui se reúnem as principais teorias que <strong>de</strong>finem o que é o terrorismo.De fato, e embora muitos autores avancem ainda com numerosas tipologias referentes àmeto<strong>do</strong>logia aplicada, aos objetivos, áreas <strong>de</strong> ação, alvos, etc., parece-nos importante realçar anatureza essencialmente subversiva <strong>do</strong> indivíduo, grupo ou organização terrorista.Sen<strong>do</strong> política, ou por outras palavras, animada <strong>de</strong> qualquer percepção ou concepção da respublica, ou coisa pública na tradição romana, toda a ação terrorista tem por objetivo alterar oequilíbrio político, econômico e social vigente com vista a atingirem objetivos específicos, isto é,infligir num to<strong>do</strong> sistêmico um fator <strong>de</strong> mudança não-sistêmico.À caracterização supra, acrescentaríamos ainda que o terrorismo é um mecanismo <strong>de</strong>subversão <strong>de</strong> uma coletivida<strong>de</strong> contra outra, adquirin<strong>do</strong> não só uma acepção antropológica comotambém estratégica.Por <strong>de</strong>finição, estratégia é o conjunto <strong>de</strong> pressupostos, processos e avaliações que procuram<strong>de</strong>scortinar qual a melhor forma <strong>de</strong> uma entida<strong>de</strong> satisfazer os seus interesses e objetivos,majoritariamente mas nem sempre em <strong>de</strong>trimento <strong>de</strong> outrem.Embora a Soma Variável tenha vin<strong>do</strong> a ganhar alguma importância nas relaçõesinternacionais, continua a vingar a prepon<strong>de</strong>rância da dicotomia <strong>de</strong> Schmitt [6] que assenta nadistinção entre amigo e inimigo.Portanto, simultaneamente a uma análise geopolítica <strong>do</strong> terrorismo subjaz outra, referente à(geo)estratégia <strong>do</strong> terrorismo.No entanto, o que importa reter é a dualida<strong>de</strong> marcadamente maniqueísta que rege todas asdinâmicas existentes entre aquele indivíduo ou grupo que prosseguem ações terroristas, daqueleoutro grupo que sofre as mesmas.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>12Relativamente ao conceito <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ologia, e na ausência <strong>de</strong> uma <strong>de</strong>finição operacional unilinear,consi<strong>de</strong>raremos toda a ação e omissão política conducente ou respeitante a uma correntemainstream, responsável pela agregação <strong>de</strong> um conjunto <strong>de</strong> lugares-comuns e pressupostos sociais<strong>de</strong> uma percentagem majoritária da comunida<strong>de</strong>, e posterior formação <strong>de</strong> um sistema político<strong>de</strong>fini<strong>do</strong>.A i<strong>de</strong>ologia, ou senso comum majoritário, é então constituí<strong>do</strong> por um conjunto <strong>de</strong> valores,percepções, concepções e dialéticas focadas na interpretação <strong>de</strong> uma <strong>do</strong>utrina política que adquireuma mobilização que ambiciona a construção <strong>de</strong> um sistema.Conforme a sua obra Ciência Política, i<strong>de</strong>ologia é “[…] a força social à qual correspon<strong>de</strong> uma<strong>do</strong>utrina produzida num sistema complexo <strong>de</strong> causa e <strong>de</strong> efeito.” [7]Nestes sistemas <strong>de</strong> idéias, e à semelhança <strong>de</strong> outros, como os religiosos, místicos, científicos,entre outros, reúnem-se entendimentos e interpretações diversas, por vezes empíricas, que procuramexplicar a realida<strong>de</strong> segun<strong>do</strong> uma narrativa coerente e auto-esclarecida, isto é, que encerre em simesma as perguntas e respostas sobre o to<strong>do</strong> político, quer se trate <strong>de</strong> uma “organização, priorida<strong>de</strong>,opção, escala <strong>de</strong> valores, alternativa, em suma, na vida humana, econômica, cultural, socialreligiosa e política.” [8]Para finalizar, e avançan<strong>do</strong> para o conceito que maior imprecisão invoca, é agora tempo <strong>de</strong>caracterizar o significa<strong>do</strong> <strong>do</strong> termo Oci<strong>de</strong>nte.Este é um espaço que conglomera diversas realida<strong>de</strong>s político-sociais nem semprecoinci<strong>de</strong>ntes, mas que têm <strong>de</strong> si uma idéia <strong>de</strong> comunida<strong>de</strong> partilhada e sentimento <strong>de</strong> pertença aessa <strong>de</strong>nominação.Em termos históricos, é constituí<strong>do</strong> pela Europa Central e Oci<strong>de</strong>ntal, esten<strong>de</strong>n<strong>do</strong>-se até asantigas colônias imperiais britânicas e francesas, e que após a <strong>de</strong>scolonização mantiveramvoluntariamente uma certa proximida<strong>de</strong> com as mesmas, como é o caso <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s daAmérica, Canadá, África <strong>do</strong> Sul, Austrália, etc.Em termos políticos, <strong>de</strong>finiríamos o Oci<strong>de</strong>nte como o conjunto <strong>de</strong> países que partilham umsistema <strong>de</strong>mocrático representativo assente numa tripartição <strong>de</strong> po<strong>de</strong>res à maneira <strong>de</strong> Montesquieu,com parti<strong>do</strong>s políticos que se alternam no po<strong>de</strong>r.Desta forma, aos Esta<strong>do</strong>s acima menciona<strong>do</strong>s acrescentaríamos o Japão, a Coréia <strong>do</strong> Sul, aÍndia, o Brasil, o México, e tantos outros que per<strong>de</strong>ríamos certamente qualquer noção <strong>de</strong>contigüida<strong>de</strong> territorial ou <strong>de</strong>finição geográfica precisa.As duas <strong>de</strong>finições parecem-nos, então, insuficientes para servirem <strong>de</strong> fundamento científico aqualquer dissertação sobre a temática em apreço.Há ainda a consi<strong>de</strong>rar uma possível comunida<strong>de</strong> supranacional abrangente aos Esta<strong>do</strong>s <strong>de</strong>língua ou expressão anglo-saxônica ou francesa, o que, <strong>de</strong> certo mo<strong>do</strong>, não <strong>de</strong>ixa <strong>de</strong> correspon<strong>de</strong>r aparte da verda<strong>de</strong> pois dada a dispersão <strong>de</strong>ssas comunida<strong>de</strong>s lingüísticas, os sistemas políticos e seumo<strong>do</strong> <strong>de</strong> atuação no sistema internacional <strong>de</strong>monstram alguns pontos <strong>de</strong> convergência como osejam a promoção da <strong>de</strong>mocracia, a a<strong>do</strong>ção <strong>de</strong> economias <strong>de</strong> merca<strong>do</strong>, tripartição <strong>do</strong>s po<strong>de</strong>resexecutivo, legislativo e judicial, laico, e <strong>de</strong>mais fatores que compõem as respectivas socieda<strong>de</strong>spolíticas.No entanto, assim <strong>de</strong>ixaríamos <strong>de</strong> parte o Japão, a Coréia <strong>do</strong> Sul, Portugal, Espanha, Itália, etantos outros atores das relações internacionais que indubitavelmente são associa<strong>do</strong>s a essa entida<strong>de</strong>informe e flexível a que <strong>de</strong>signamos por Oci<strong>de</strong>nte.Com Samuel Huntington e o seu “O Choque das Civilizações” vemos ainda mais reduzidaesta dimensão política, pois nela apenas incluiríamos a Europa Central e Oci<strong>de</strong>ntal, juntamente coma América <strong>do</strong> Norte, exceto México, e a Austrália.A resposta terá necessariamente que respeitar outros fatores, que intangíveis, melhor nosaju<strong>de</strong>m a enten<strong>de</strong>r to<strong>do</strong> o espectro multidimensional respeitante ao termo.Para tal recorreremos novamente a Schmitt, cujas comunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> <strong>de</strong>stino sumariam aexistência <strong>de</strong> uma or<strong>de</strong>m quase tácita que se estabelece entre realida<strong>de</strong>s político-históricas, leia-se
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>13Esta<strong>do</strong>s, e que por cujas comunida<strong>de</strong>s inferiores vêm autonomiza<strong>do</strong> um sentimento <strong>de</strong> pertença(sense of belonging) a uma comunida<strong>de</strong> superior partilhada <strong>de</strong> futuro.Desta forma, por Oci<strong>de</strong>nte compreen<strong>de</strong>-se to<strong>do</strong> o conjunto <strong>de</strong> comunida<strong>de</strong>s políticas quetomam elas próprias parte nesta comunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>stino por se perspectivarem no presente e nofuturo como tal.Em termos geopolíticos, todas estas concepções apenas <strong>de</strong>monstram a extrema flexibilida<strong>de</strong> eversatilida<strong>de</strong> que esta entida<strong>de</strong> apresenta, sen<strong>do</strong> capaz <strong>de</strong> imprimir com um grau eleva<strong>do</strong> <strong>de</strong>mutabilida<strong>de</strong> e adaptabilida<strong>de</strong> diferentes forças no sistema internacional conforme as pretensões <strong>do</strong>smembros que o constituem.Sen<strong>do</strong> certo que no topo <strong>de</strong>sta comunida<strong>de</strong> se encontram países como os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, oCanadá, o Reino Uni<strong>do</strong>, o Japão e a Alemanha, pelo seu po<strong>de</strong>r e capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> influência nosistema internacional, diríamos então que a inserção geográfica <strong>de</strong>sta comunida<strong>de</strong> geopolíticatransita os limites entre uma clara <strong>de</strong>finição geopolítica, e um conglomera<strong>do</strong> mais ou menos<strong>de</strong>termina<strong>do</strong> <strong>de</strong> interesses varia<strong>do</strong>s.Por força da lei da parcimônia, enten<strong>de</strong>rmos o Oci<strong>de</strong>nte como aquele acor<strong>do</strong> tácito queencontra manifestações em diversas esferas da socieda<strong>de</strong> internacional, manti<strong>do</strong> e utiliza<strong>do</strong> por umacomunida<strong>de</strong> anglo-saxônica alargada <strong>de</strong> interesses.Embora não reconheçamos a existência <strong>de</strong> um sistema unipolar <strong>do</strong>mina<strong>do</strong> exclusivamentepelos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, enten<strong>de</strong>mos que esta comunida<strong>de</strong> anglo-saxônica é aquela responsável emmaior grau pela projeção <strong>de</strong> política externa, formal (alianças militares, acor<strong>do</strong>s econômicos, hardpower) e informal (empresas multinacionais, organizações não-governamentais, soft power), maissignificativa ao nível internacional, na qual incluiríamos o Reino Uni<strong>do</strong>, Canadá, Austrália, epotências aliadas e a ela subordinadas, como o Japão, França, Alemanha, etc.Tipologia <strong>do</strong> terrorismoÀ semelhança <strong>do</strong> esquema apresenta<strong>do</strong> na obra em apreço, mas aprofunda<strong>do</strong> nas obras“Ciência Política: Estu<strong>do</strong> da Or<strong>de</strong>m e da Subversão”[9], e “A Subversão <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>”[10], afigura-sevital um breve esclarecimento sobre quais as várias dimensões que o fenômeno <strong>do</strong> terrorismo po<strong>de</strong>encerrar enquanto conceito inseri<strong>do</strong> no léxico da Teoria das Relações Internacionais.Assim, temos:A. Origem, (ou amplitu<strong>de</strong> geográfica da qual emergem organizações terroristas)I. Localizada: surgem <strong>de</strong> tensões e cenários localiza<strong>do</strong>s (ex. FARC, Tigres Tamil);II. Regional: advém <strong>de</strong> uma conjuntura generalizada e multidimensional, favorável àemergência <strong>de</strong> organizações terroristas (ex. Al-Qaeda, Jihad Islâmica);B. Natureza da Missão (ou substrato social que confere legitimida<strong>de</strong>)I. Elitista: aquela que serve os propósitos exclusivos da organização terrorista sem aten<strong>de</strong>r,inequivocamente, a uma legitimida<strong>de</strong> populista <strong>do</strong> seu projeto <strong>de</strong> ação (ex. ETA, IRA);II. Populista: toda a missão que emerge <strong>de</strong> um <strong>de</strong>scontentamento generaliza<strong>do</strong> das populaçõesoprimidas, e que subseqüentemente apóiam incondicionalmente os meios pelos quais a organizaçãoprossegue os seus fins (ex. Al-Fatah, Frente Polisário);C. Recrutamento (ou tipos <strong>de</strong> a<strong>de</strong>são à organização)I. Quantida<strong>de</strong>i) Restritiva: quan<strong>do</strong> são escolhi<strong>do</strong>s indivíduos que respeitam um certo perfil políticoi<strong>de</strong>ológico<strong>de</strong>termina<strong>do</strong> e congruente com aquele da elite na chefia, ou qualquer outro critérioseletivo <strong>de</strong> discriminação (ex. IRA, Hezbollah);ii) Alargada: é indiscrimina<strong>do</strong> o número <strong>de</strong> preten<strong>de</strong>ntes a recrutamento para as fileiras daorganização terrorista, sen<strong>do</strong> até verificável a existência <strong>de</strong> várias tendências político-i<strong>de</strong>ológicasinternas divergentes (ex. Al-Qaeda, com o dilema regionalização vs. globalização; Al-Fatah, comdivergências relativas à meto<strong>do</strong>logia diplomática da OLP);II. Qualida<strong>de</strong>
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>14i) Político-I<strong>de</strong>ológica: o recrutamento respeita um conjunto <strong>de</strong> valores e percepções políticoi<strong>de</strong>ológicasque conferem uma certa homogeneida<strong>de</strong> à organização (ex. IRA, Exército Vermelho);ii) Técnica: responsável pela satisfação <strong>de</strong> <strong>de</strong>termina<strong>do</strong>s requisitos funcionais da organização,como o financiamento, construção <strong>de</strong> bombas, venda <strong>de</strong> armas, propaganda, etc. (Al-Qaeda comrecrutamento <strong>do</strong>s pilotos <strong>do</strong> ataque a 11 <strong>de</strong> Setembro <strong>de</strong> 2001; Culto Aum Shinri-kyo comaquisição e utilização <strong>de</strong> gás Sarin no ataque no Metropolitano <strong>de</strong> Tóquio, 1995);iii) Institucional: nos casos em que a organização terrorista obtém apoios <strong>de</strong> instituições,nomeadamente Esta<strong>do</strong>s (ex. Hezbollah, Hamas);D. Finalida<strong>de</strong>s <strong>do</strong>s Ataques (ou objetivos prossegui<strong>do</strong>s)I. Sociaisi) Psicológicas: to<strong>do</strong> o tipo <strong>de</strong> operações ou atos terroristas que visam “um constrangimentomental” nos indivíduos das populações-alvo, sen<strong>do</strong> portanto genérica a toda a organizaçãoterrorista;ii) Sociológicas: quan<strong>do</strong> os atos preten<strong>de</strong>m condicionar e/ou influenciar a opinião pública daspopulações-alvo, atuan<strong>do</strong> na chamada “psique coletiva” por forma a ficar alertas para asreivindicações, para a existência da organização, para um <strong>de</strong>termina<strong>do</strong> problema, ou outros fatores;iii) Políticas: ambiciona a influência e/ou alteração <strong>de</strong> agendas políticas, da estabilida<strong>de</strong>política em geral, ou <strong>do</strong> relacionamento entre a elite política e as populações, ou entre aquela eoutros Esta<strong>do</strong>s;iv) Religiosas: os ataques que se <strong>de</strong>stinam a afetarem <strong>de</strong>terminadas comunida<strong>de</strong>s religiosas;v) Econômico-Energéticas: não <strong>de</strong>scuran<strong>do</strong> as anteriores dimensões, também elas vitais einterligadas no âmbito das ativida<strong>de</strong>s terroristas, consi<strong>de</strong>raríamos aqui os fins que afetam aprodução <strong>de</strong> energia, o funcionamento <strong>de</strong> instituições financeiras, sistemas <strong>de</strong> distribuição <strong>de</strong>eletricida<strong>de</strong>, e outras infra-estruturas basilares para a estabilida<strong>de</strong> econômica <strong>do</strong> país, ou <strong>de</strong> outracoletivida<strong>de</strong> atacada;II. Objetivosi) Imediatos: criar pânico, espalhar o me<strong>do</strong>, generalizar o sentimento <strong>de</strong> incapacida<strong>de</strong> nasmassas[11];ii) Mediatos: dialogar com o Esta<strong>do</strong> e impor-lhe as suas condições, quan<strong>do</strong> não mesmosubstituir o dito Esta<strong>do</strong> na sua se<strong>de</strong> <strong>do</strong> po<strong>de</strong>r político[12];E. Amplitu<strong>de</strong> das Conseqüências (ou nível <strong>de</strong> afetação/reação aos atos)I. Geografiai) Local: nos ataques através <strong>do</strong>s quais apenas se obtém um efeito social muito específico equase irrelevante para a conjuntura política interna e internacional;ii) Nacional: os efeitos repercutem-se a nível nacional, afetan<strong>do</strong> a or<strong>de</strong>m política e social <strong>do</strong>Esta<strong>do</strong> ou coletivida<strong>de</strong> lesada;iii) Regional: quan<strong>do</strong> os ataques terroristas alteram significativamente o equilíbrio políticodiplomáticoentre <strong>do</strong>is ou mais Esta<strong>do</strong>s, levan<strong>do</strong>-os a adaptarem-se às ações prosseguidas pelogrupo subversivo;iv) Global: nos casos extremos em que a Comunida<strong>de</strong> Internacional sofre direta ouindiretamente com as conseqüências perpetradas por um ou vários grupos terroristas e suasativida<strong>de</strong>s;II. Longevida<strong>de</strong>i) Circunstancial: isto é, as conseqüências não vão além <strong>do</strong>s danos imediatamente causa<strong>do</strong>s;ii) Temporária: embora ainda <strong>de</strong> curta duração, é aquela que se caracteriza por uma pequenarepercussão social subseqüente ao ato em si;iii) Conjuntural: aquelas conseqüências que conseguem obter um efeito multiplica<strong>do</strong>r em to<strong>do</strong>o sistema internacional, esten<strong>de</strong>n<strong>do</strong>-se à totalida<strong>de</strong> <strong>do</strong> mesmo, com efeito <strong>de</strong> feedback e loopbackalarga<strong>do</strong>;
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>15iv) Estrutural: os poucos ataques que resultam numa alteração substancial <strong>do</strong> state-of-the-artinternacional, implican<strong>do</strong> uma capacida<strong>de</strong> homeostática <strong>de</strong> readaptação <strong>do</strong>s aparelhos repressivos<strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> e <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s para combater eficazmente as causas e efeitos da nova ameaça emergente;F. Ativida<strong>de</strong>s (ou seleção <strong>do</strong>s alvos)I. Indiscriminadas: to<strong>do</strong>s os atenta<strong>do</strong>s e agressões que visam generalizar um dano <strong>de</strong> monta aum paciente previamente in<strong>de</strong>fini<strong>do</strong>, anônimo ou indistinto. É relativamente irrelevante quem morreou fica feri<strong>do</strong>, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que mora ou fique ferida muita gente [13];II. Seletivas: visa-se um alvo concreto, que se quer pressionar, eliminar, que se querchantagear, fazer <strong>de</strong>saparecer <strong>de</strong> cena ou condicionar <strong>de</strong> forma <strong>de</strong>finitiva, com a vista a alterar oparalelogramo <strong>de</strong> forças ou o circunstancialismo político <strong>de</strong> uma <strong>de</strong>terminada correlaçãovigente;[14]G. Apoios Logísticos[15] (ou proveniência <strong>do</strong>s financiamentos)I. Apoia<strong>do</strong> por Esta<strong>do</strong>s viola<strong>do</strong>res das leis internacionais: como instrumento <strong>de</strong> políticainternacional;II. Apoia<strong>do</strong> por organizações in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes: o financiamento recorre a ativida<strong>de</strong>s ilícitascomo o tráfico <strong>de</strong> drogas, o contraban<strong>do</strong> <strong>de</strong> produtos ilegais;III. Apoia<strong>do</strong> por grupos específicos: que financiam a maioria das ações subversivas;Breve referência históricaEmbora o fenômeno <strong>do</strong> terrorismo seja objeto <strong>de</strong> análise particularmente intensa nos temposmais recentes, seria errôneo assumirmos que é exclusivo ao século XXI.Com efeito, consi<strong>de</strong>ran<strong>do</strong> to<strong>do</strong> o perío<strong>do</strong> que abrange o final da II Guerra Mundial até àatualida<strong>de</strong>, seremos força<strong>do</strong>s a reconhecer uma história <strong>do</strong> terrorismo com algumas décadas <strong>de</strong>existência e permanência no sistema internacional, sen<strong>do</strong> certo que é <strong>de</strong> assinalar as rápidasmetamorfoses pelas quais tem evoluí<strong>do</strong>.Não obstante, o primeiro evento <strong>de</strong> terrorismo a assinalar no <strong>de</strong>correr <strong>de</strong>ste perío<strong>do</strong> ocorreuno dia 23 <strong>de</strong> Julho <strong>de</strong> 1968, com a Frente Popular <strong>de</strong> Libertação da Palestina a <strong>de</strong>sviar um avião dacompanhia aérea Al El com direção a Roma, Itália.Dias <strong>de</strong>pois, a 28 <strong>de</strong> Agosto, o Embaixa<strong>do</strong>r John Gor<strong>do</strong>n <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s <strong>de</strong>staca<strong>do</strong> paraa Guatemala é morto por uma facção rebel<strong>de</strong> dita nacionalista que lutava contra a intromissãoexterna no país[16].Des<strong>de</strong> então temos observa<strong>do</strong> uma cronologia literalmente anual em referência a atosterroristas ocorri<strong>do</strong>s um pouco por to<strong>do</strong> o mun<strong>do</strong>, mas com especial incidência em alvos norteamericanos.Sobre o novo maniqueísmoDan<strong>do</strong> título a um capítulo da obra em análise, a mudança mais substancial que observamosquan<strong>do</strong> o estu<strong>do</strong> <strong>do</strong> fenômeno <strong>do</strong> terrorismo internacional é, incontornavelmente, a evolução daretórica, meto<strong>do</strong>logia e missão <strong>de</strong> ataques terroristas para uma dicotomia que opõe duas realida<strong>de</strong>sque têm contribuí<strong>do</strong> para as mais diversas alterações ao nível <strong>do</strong> sistema internacional <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que épossível i<strong>de</strong>ntificar um – o sagra<strong>do</strong> e o profano.Com efeito, assente nesta dicotomia estão formas bastante variadas <strong>de</strong> pensar e viver omun<strong>do</strong>, formas essas que condicionam inexoravelmente o comportamento <strong>de</strong> cada ator nas relaçõesinternacionais.Recuan<strong>do</strong> aos primeiros eventos terroristas no <strong>de</strong>correr da Guerra-Fria, po<strong>de</strong>remos observarque os motivos político-i<strong>de</strong>ológicos <strong>de</strong> justificação <strong>de</strong>rivavam as mais das vezes <strong>de</strong> dissensõesinternas ou fenômenos a elas relativos.Des<strong>de</strong> os exemplos supra referi<strong>do</strong>s, até aos inúmeros exemplos <strong>de</strong> <strong>de</strong>svios <strong>de</strong> aviões <strong>de</strong>passageiros (1969: Zurique, Damascos, Roma; 1970: Israel, Filipinas, Jordânia; 1970: Jugoslávia,Israel; …; 1983: Avião da Gulf Air; 1985: Avião da Air Índia; etc.)[17], da explosão <strong>de</strong> bombascontra civis (Jerusalém [1968, 1969, …], Munique [1970, 1972], Milão [1993] [18], e <strong>de</strong> outrasvariadas formas <strong>de</strong> terrorismo incluin<strong>do</strong> ataques a embaixadas e pessoal diplomático, sobretu<strong>do</strong>
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>16norte-americanos (Guatemala [1968], Japão e Brasil [1969], México [1970], Sudão [1973], lista quese prolonga até 2003[19].No entanto, os países <strong>do</strong> Oci<strong>de</strong>nte não são os únicos a sofrerem diretamente com este tipo <strong>de</strong>ataques, e embora sejam menos midiatiza<strong>do</strong>s, po<strong>de</strong>remos facilmente encontrar exemplos <strong>de</strong>fenômenos terroristas na Rússia, China, Índia, Filipinas, Arábia Saudita, Irlanda <strong>do</strong> Norte, Espanha,entre muitos outros incluin<strong>do</strong> Portugal na sua guerra <strong>do</strong> ultramar [20].Se algum fio condutor po<strong>de</strong>mos estabelecer entre estes atos terroristas tão diversifica<strong>do</strong>s, éque respeitaram uma lógica <strong>de</strong> atuação internacional com vista a promoverem interesses internos.Por outras palavras, e parafrasean<strong>do</strong> o Professor Adriano Moreira, constituem antes ataquesinternacionalizáveis e não propriamente internacionais[21], uma vez que não foram perpetra<strong>do</strong>s poratores estatais mas antes por grupos que aspiravam a uma futura substituição da se<strong>de</strong> <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r.Portanto, classificaríamos o terrorismo internacional <strong>do</strong> século XX um fenômeno <strong>de</strong> choqueentre o aparelho Esta<strong>do</strong> contra pretensões nacionalistas ou in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntistas, contra inimigosinternos ou externos que, <strong>de</strong> alguma forma, não foram <strong>de</strong>vidamente acomodadas com o processo <strong>de</strong>criação <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>-nação.Quer se trate <strong>de</strong> ataques na Chechênia, na Palestina, em Caxemira, na província <strong>de</strong> Xijiang naChina, no País Basco, ou na Irlanda <strong>do</strong> Norte, o rol <strong>de</strong> justificações assenta majoritariamente naspretensões subversivas <strong>de</strong> um ou vários grupos terroristas que encetam contra o po<strong>de</strong>r instala<strong>do</strong>,apresentan<strong>do</strong> eles próprios, e com alguma freqüência, os seus projetos <strong>de</strong> alternativa ao sistema,quer por secessão territorial, ou por ascensão à classe política governante.Não obstantes exemplos erráticos <strong>de</strong>sta justificação político-i<strong>de</strong>ológica, como aconteceu como ataque ao World Tra<strong>de</strong> Center em 1993, antevemos um ressurgimento <strong>de</strong> movimentosfundamentalistas islâmicos contra o mun<strong>do</strong> Oci<strong>de</strong>ntal, simboliza<strong>do</strong> não só pelo próprio WorldTra<strong>de</strong> Center, como também pelos EUA e a matriz <strong>de</strong> valores que anima o Oci<strong>de</strong>nte.Assistimos, pois, a uma mudança algo radical na natureza <strong>do</strong>s ataques terroristas para umarealida<strong>de</strong> altamente complexa e multifacetada que envolverá um dispêndio cada vez maior einternacionalmente coor<strong>de</strong>na<strong>do</strong>.Se o terrorismo tradicional po<strong>de</strong>ria ser combati<strong>do</strong> por tácticas <strong>de</strong> terrorismo <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong> econtra-terrorismo, certamente que a natureza que o terrorismo hoje encerra requererá novasmeto<strong>do</strong>logias.Perante um inimigo informe e multicéfalo, capaz <strong>de</strong> movimentar-se flexivelmente numsistema globaliza<strong>do</strong> e aproveitar o seu caráter subversivo para explorar as vulnerabilida<strong>de</strong>s <strong>do</strong>mesmo, qualquer tentativa <strong>de</strong> fazer guerra frente a esta ameaça afigurar-se-á tremendamenteesgotante.Ainda para mais quan<strong>do</strong> o discurso amigo-inimigo é tão <strong>de</strong>marca<strong>do</strong>, impossibilitan<strong>do</strong>qualquer tipo <strong>de</strong> diálogo ou negociação.Neste, o Oci<strong>de</strong>nte laico e científico parece confrontar-se com uma hoste <strong>de</strong> fanáticosreligiosos e <strong>de</strong>votos, <strong>de</strong> diversos cre<strong>do</strong>s, cuja repulsa pelo mo<strong>de</strong>lo civilizacional dito oci<strong>de</strong>ntal é <strong>de</strong>tal maneira intrínseca à própria existência <strong>de</strong>sta oposição que constitui um pólo oposto <strong>de</strong> posiçãoperante o mun<strong>do</strong>.Não mais assistimos a reivindicações contra o capitalismo norte-americano, on<strong>de</strong> quer que elese encontre; agora a tônica assenta na própria revolta contra o capitalismo, sobre qualquer formaque este possa tomar.A linha <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>ração também fica cada vez mais tênue, especialmente na facção terrorista,caso houvesse alguma. Cada vez existem mais apoiantes às suas causas e fun<strong>do</strong>s disponíveis parapatrociná-los, conferin<strong>do</strong>-lhes um alcance nunca antes observa<strong>do</strong>.Com efeito, este novíssimo maniqueísmo é constituí<strong>do</strong> por um número alarga<strong>do</strong> <strong>de</strong> outrosmaniqueísmos, como sejam aqueles que opõem Allah a infiéis, o Alcorão ao Direito Internacional,muçulmanos a oci<strong>de</strong>ntais, ou o Bem contra o Mal.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>17Pior, estes binômios são prontamente <strong>de</strong>fendi<strong>do</strong>s por ambos os la<strong>do</strong>s, o que reduz qualquerpossibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> apaziguamento a uma mera utopia.Recorren<strong>do</strong> ao testemunho <strong>de</strong> Al-Qurashi, um <strong>do</strong>s adjuntos <strong>de</strong> Bin La<strong>de</strong>n: "Como po<strong>de</strong>m serparadas pessoas que <strong>de</strong>sejam a morte acima <strong>de</strong> tu<strong>do</strong>?"Constantes i<strong>de</strong>ntitáriasO Oci<strong>de</strong>nte não é mais <strong>do</strong> que o resulta<strong>do</strong> <strong>de</strong> um processo contínuo originário <strong>do</strong> Iluminismo,cujas raízes po<strong>de</strong>remos datar <strong>do</strong> século XVI e início da expansão <strong>do</strong> Euromun<strong>do</strong>, conforme<strong>de</strong>scrição <strong>de</strong> Adriano Moreira[22].Também referi<strong>do</strong> na obra que serve <strong>de</strong> mote a esta breve dissertação, é um mo<strong>de</strong>locivilizacional que sofreu diversas alterações, por vezes bruscas, mas que tem caminha<strong>do</strong>inexoravelmente em direção a uma universalida<strong>de</strong> total, isto é, na qual o sistema i<strong>de</strong>ológico,jurídico, econômico, político, e acrescentaríamos religioso, se espalham ao longo <strong>de</strong> to<strong>do</strong> o sistema,hoje <strong>de</strong> escala mundial, para constituírem uma espécie <strong>de</strong> matriz <strong>de</strong> governo mundial.Po<strong>de</strong>ríamos então i<strong>de</strong>ntificar pedras basilares que, à semelhança <strong>do</strong>s cinco pilares <strong>do</strong> Islã,servem <strong>de</strong> sustentação a to<strong>do</strong> o mo<strong>de</strong>lo civilizacional ora em análise.Em primeiro lugar teremos as Leis Gregas, e o prima<strong>do</strong> <strong>do</strong>s fundamentos jurídicos <strong>de</strong>igualda<strong>de</strong> perante a lei, <strong>de</strong> Justiça, <strong>de</strong> liberda<strong>de</strong> e <strong>de</strong> responsabilida<strong>de</strong> da cidadania, perante umaclasse política prosélita.Em segun<strong>do</strong>, o Lega<strong>do</strong> Judaico-Cristão <strong>de</strong> respeito pelo outro, da sacralida<strong>de</strong> da vida, e <strong>do</strong>exercício das boas virtu<strong>de</strong>s e práticas. Depois, a Or<strong>de</strong>m Romana <strong>de</strong> or<strong>de</strong>namento, funcionamento erepressão da socieda<strong>de</strong>, homeostaticamente capaz <strong>de</strong> acomodar diversas comunida<strong>de</strong>s étnicas,religiosas, lingüísticas e culturais <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> um to<strong>do</strong> coerente, com tendência para a construção <strong>de</strong>uma i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> Nação, supra local.De seguida temos o Liberalismo Econômico da Escola Inglesa <strong>de</strong> Adam Smith, a qual advogaa superiorida<strong>de</strong> <strong>do</strong> mo<strong>de</strong>lo capitalista liberal, sem intromissão <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> nas ativida<strong>de</strong>s econômicas.Em último lugar acrescentaria a I<strong>de</strong>ologia Oligárquica, ten<strong>de</strong>ncialmente Plutocrática, <strong>de</strong>ín<strong>do</strong>le pró-<strong>de</strong>mocrática que favorece a criação <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s espaços nos quais se projetam asparticularida<strong>de</strong>s características <strong>do</strong> mo<strong>de</strong>lo originário.Enumera<strong>do</strong>s estes fatores <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r, encontramo-nos agora capazes <strong>de</strong> averiguar as linhas <strong>de</strong>força que têm caracteriza<strong>do</strong> a evolução <strong>de</strong>ste espaço, um pouco à maneira <strong>de</strong> Jorge Borges Mace<strong>do</strong>na sua obra Constantes e Linhas <strong>de</strong> Força da História Diplomática Portuguesa[23].Linhas <strong>de</strong> forçaO processo <strong>de</strong> construção <strong>do</strong> Oci<strong>de</strong>nte foi, como aliás já referimos, um processo contínuo.Segun<strong>do</strong> o mesmo, sucessivas ameaças reais e potenciais condicionaram <strong>de</strong> forma <strong>de</strong>terminante aevolução <strong>de</strong>sta construção, ora por substituição da classe política governante nos vários paísesconstituintes (magnicídios, revoluções, golpes <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong>, etc.), das potências diretoras que <strong>de</strong>finiamo rumo evolutivo (Portugal, França, Grã-Bretanha e Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s da América), <strong>do</strong> conjunto <strong>de</strong>inimigos que prometiam <strong>de</strong>rrubar a or<strong>de</strong>m instaurada (Império Otomano, Império Russo, ImpérioMongol, Nazismo), e ainda ameaças internas que atuavam no interior <strong>do</strong> sistema, corrompen<strong>do</strong> eforçan<strong>do</strong>-o a adaptar-se num <strong>de</strong>termina<strong>do</strong> senti<strong>do</strong> (Reforma Protestante, In<strong>de</strong>pendência <strong>do</strong>s EUA erestantes Revoluções Atlânticas).No entanto, po<strong>de</strong>remos i<strong>de</strong>ntificar uma certa continuida<strong>de</strong> evolutiva na forma como os váriosacontecimentos foram alteran<strong>do</strong> o status quo vigente, numa constante dicotomia entre Tradição eRevolução, adaptação e inovação.A linha <strong>de</strong> força mais <strong>de</strong>marcada é, contu<strong>do</strong>, a <strong>de</strong> qualquer organismo vivo, isto é, a <strong>de</strong> seexpandir até encontrar obstáculos ao seu crescimento.De fato, as concepções <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> Kjellén proferidas na obra O Esta<strong>do</strong> como Forma <strong>de</strong>Vida[24] adaptar-se-iam com impressionante acuida<strong>de</strong> para o raciocínio em causa, pois não setratan<strong>do</strong> propriamente <strong>de</strong> uma entida<strong>de</strong> politicamente autônoma, como no caso <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>, objeto <strong>de</strong>
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>18estu<strong>do</strong> daquele sueco germanófilo, aplicar-se-iam certamente a uma entida<strong>de</strong> i<strong>de</strong>ológica maisalargada.Aliás, os seus Quatro Postula<strong>do</strong>s[25] são um testemunho <strong>de</strong> um organicismo estatal operanteao nível macro, pois suplantam as restritas fronteiras <strong>do</strong> aparelho <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong>, mesmo quan<strong>do</strong> esteascen<strong>de</strong> a um estatuto imperial hegemônico.Consi<strong>de</strong>ran<strong>do</strong> a origem geográfica <strong>do</strong> Oci<strong>de</strong>nte sediada no Euromun<strong>do</strong>, ou por outraspalavras, no conjunto <strong>de</strong> convivências, práticas, costumes, arranjos, trata<strong>do</strong>s, princípios efundamentos <strong>do</strong>s relacionamentos que pautavam as interações entre os atores Esta<strong>do</strong>s na Europa,sobretu<strong>do</strong> a partir da Paz <strong>de</strong> Vestefália <strong>de</strong> 1648, po<strong>de</strong>mos então perspectivar toda uma projeção <strong>de</strong>po<strong>de</strong>r e influência em direção ao exterior, primeiramente dirigida às colônias <strong>do</strong>s impérioseuropeus, <strong>de</strong>pois à afetação das conjunturas internacionais regionais <strong>de</strong> atuação <strong>do</strong>s impérios, mason<strong>de</strong> estes não eram exclusivos, como foi o caso <strong>do</strong> interior da África Meridional, Médio Oriente,Ásia Central e interior <strong>do</strong> Su<strong>de</strong>ste Asiático[26].Embora sejamos capazes <strong>de</strong> i<strong>de</strong>ntificar um acor<strong>do</strong> tácito <strong>de</strong> governo nos respectivos espaços,teremos necessariamente que referir a fraca ou inexistente profusão <strong>do</strong> sistema político-i<strong>de</strong>ológico,jurídico e econômico nos referi<strong>do</strong>s espaços.Caí<strong>do</strong> o regime imperial colonial, o sistema Oci<strong>de</strong>ntal necessitou <strong>de</strong> a<strong>do</strong>tar outrosmecanismos <strong>de</strong> crescimento e propagação recorren<strong>do</strong> para tal a novas meto<strong>do</strong>logias em estritaconcordância com o seu substrato político-i<strong>de</strong>ológico, pois este he serve <strong>de</strong> sustentação elegitimação.Surgem então, com especial acervo, instituições internacionais <strong>de</strong> um pós-guerra causa<strong>do</strong> poruma ameaça estrutural ao próprio sistema, pelas mãos <strong>de</strong> uma i<strong>de</strong>ologia fascista e outra nazista, emterritório europeu mas com ambições abrangentes a outros espaços tradicionalmente exíguos aoOci<strong>de</strong>nte, nomeadamente o Magrebe e o Leste Europeu, incluin<strong>do</strong> Rússia, juntamente com umressurgimento imperialista no Extremo Oriente.Contu<strong>do</strong>, a prepon<strong>de</strong>rância favorável ao Oci<strong>de</strong>nte prevalece, e confere-lhe a capacida<strong>de</strong>indiscutível <strong>de</strong> reformular to<strong>do</strong> um sistema internacional <strong>de</strong> âmbito mundial conforme aprouver aelite oligárquica governante inter<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte, constituinte da vanguarda <strong>do</strong>s diversos paísescharneira <strong>de</strong>ste bloco, inquestionavelmente li<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>s pelos EUA.Entretanto, e não sem alguma previsibilida<strong>de</strong>, surge a Leste um novo inimigo que ameaça nãosó a integrida<strong>de</strong> estrutural <strong>do</strong> sistema, como a sua própria existência.O Comunismo e o seu Comitê Central <strong>do</strong> Parti<strong>do</strong> Comunista, economia planificada e central,e Doutrina Brejnev, que antes <strong>de</strong> o ser já o era, alia<strong>do</strong> a instituições dinamiza<strong>do</strong>ras <strong>do</strong>s interesses eestrutura político-i<strong>de</strong>ológica própria, como o Cominform e Comintern, para não falar <strong>do</strong> KGB,asseguram-se <strong>de</strong> garantir ao bloco opositor uma ameaça constante e <strong>de</strong> tal forma potencialmente<strong>de</strong>strutiva que rapidamente globaliza a dicotomia existente na forma <strong>de</strong> um novo maniqueísmo[27].Não nos alongaremos nesta breve resenha histórica <strong>do</strong>s últimos cinco séculos <strong>de</strong> História parajustificarmos o atual state-of-the-art das relações internacionais, sen<strong>do</strong> que para a qual se afiguraessencial a leitura da obra magistral <strong>de</strong> Kissinger, Diplomacia[28], mas ficaremos contu<strong>do</strong> com oatual sistema Oci<strong>de</strong>ntal encontra-se globaliza<strong>do</strong>, mas nunca antes fora tão globaliza<strong>do</strong> como o épresentemente.Efetivamente, com a fragmentação <strong>do</strong> bloco soviético, a única superpotência vence<strong>do</strong>ra e suahierarquia <strong>de</strong> potências têm-se assegura<strong>do</strong> <strong>de</strong> perpetuar a sua expansão no sistema internacional,através <strong>do</strong> alargamento da sua Governance.Isto implica uma atuação global, assistida <strong>de</strong> um planejamento estratégico <strong>de</strong> igual amplitu<strong>de</strong>com vista ao prosseguimento <strong>de</strong> interesses e objetivos que melhor capacitem a utilização dasvantagens relativas <strong>de</strong>tidas pelos agentes <strong>do</strong> Oci<strong>de</strong>nte, socorren<strong>do</strong>-se para tal <strong>de</strong> varia<strong>do</strong>smecanismos dinamiza<strong>do</strong>res <strong>de</strong> potencialida<strong>de</strong>s, como o sejam a Organização das Nações Unidas, aOrganização <strong>do</strong> Trata<strong>do</strong> <strong>do</strong> Atlântico Norte, o Grupo <strong>do</strong>s Sete/Oito, a Conferência <strong>de</strong> Davos, o
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>19Banco Mundial, o Fun<strong>do</strong> Monetário Internacional e <strong>de</strong>mais fóruns multilaterais <strong>de</strong> atuaçãointernacional.Surpreen<strong>de</strong>ntemente, não encontramos nas li<strong>de</strong>ranças <strong>de</strong>stas e outras instituições figuras quenão sejam Oci<strong>de</strong>ntais, ou que <strong>de</strong> potências <strong>do</strong> Oci<strong>de</strong>nte não tenham recebi<strong>do</strong> o seu consentimento.A Governance é <strong>de</strong>finitivamente o novo paradigma das relações internacionais, e o seu agente é oOci<strong>de</strong>nte.Governance - gov•ern•ance[guhv-er-nuh ns] –noun 1. government; exercise of authority;control. 2. a method or system of government or management.[29]Segun<strong>do</strong> as mais recentes publicações <strong>de</strong> dicionários <strong>de</strong> língua portuguesa, o termoGovernance não encontra <strong>de</strong>finição.Recorrer a um dicionário <strong>de</strong> língua inglesa é, pois, a única solução para iniciarmos acaracterização <strong>do</strong> conjunto <strong>de</strong> significa<strong>do</strong>s inseri<strong>do</strong>s no termo, assim como a sua relevância para asrelações internacionais.Como nos explica o autor, é uma “i<strong>de</strong>ologia que surge camuflada <strong>de</strong> uma técnica flexível quevisa um conjunto <strong>de</strong> procedimentos <strong>de</strong> eficácia e boa gestão da política neoliberal”[30], ao queacrescenta “trata-se <strong>de</strong> um sistema <strong>de</strong> geometria variável, <strong>de</strong> soluções flexíveis, atinentes a regularou <strong>de</strong>sregular o sistema político clássico <strong>do</strong> Oci<strong>de</strong>nte, com vista a tornar mais efetivo e eficiente opo<strong>de</strong>r <strong>do</strong>s Governos que <strong>de</strong> fato passam a respon<strong>de</strong>r efetivamente perante a oligarquia <strong>do</strong>minante (atítulo <strong>de</strong> parceria estratégica pós-mo<strong>de</strong>rna) e apenas tangencialmente perante os eleitora<strong>do</strong>s.”[31]Ora esta não mais era uma i<strong>de</strong>ologia <strong>de</strong> políticos ou filósofos, nem <strong>de</strong> tiranos ou liberais,antes reflete os interesses <strong>de</strong> uma classe <strong>do</strong>minante oligárquica eminentemente tecnocrata, focadana gestão <strong>do</strong>s gran<strong>de</strong>s fluxos <strong>de</strong> capitais internacionais nos merca<strong>do</strong>s globais, procuran<strong>do</strong>incessantemente os maiores ganhos aos menores custos, e recorren<strong>do</strong> secundariamente a formas <strong>de</strong>legitimação assentes em regimes eleitorais previamente condiciona<strong>do</strong>s e dirigi<strong>do</strong>s por vários“maestros” que enformam a mesma música celestial.Quer falemos <strong>de</strong> opinião pública, <strong>do</strong>s media, <strong>de</strong> instituições públicas <strong>de</strong> ensino e investigação,<strong>de</strong> serviços públicos ou qualquer outra comunida<strong>de</strong> menor, está sempre patente uma “penetração <strong>de</strong>opções i<strong>de</strong>ológicas no âmbito das leis constitucionais e outras, e nas estruturas e instituições <strong>de</strong>las<strong>de</strong>rivadas”[32].Nesta lógica, a anterior i<strong>de</strong>ologia <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong> é substituída pela i<strong>de</strong>ologia <strong>de</strong> regimeinternacional, composto por um número consi<strong>de</strong>rável <strong>de</strong> entida<strong>de</strong>s estatais soberanas querespon<strong>de</strong>m perante os mesmos oligarcas, e refletem o mo<strong>de</strong>lo atrás menciona<strong>do</strong>.Novamente reiteramos as constantes e linhas <strong>de</strong> força <strong>do</strong> Oci<strong>de</strong>nte, e como esses fatores,condicionantes e variáveis <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r se interligam para constituir este mo<strong>de</strong>lo civilizacional alarga<strong>do</strong>e ten<strong>de</strong>ncialmente universal.A Luz da GeopolíticaQual, então, o papel da Geopolítica para o entendimento <strong>do</strong> sistema das relaçõesinternacionais? Não outro que aquele da Estrela Polar para os caminhantes, marinheiros, e errantes– o <strong>de</strong> indicar o Norte.À semelhança da mais brilhante estrela <strong>do</strong> hemisfério, também a Geopolítica é um objetoinatingível e sempre inconclusivo, mas que não obstante, insiste em indicar o caminho para aquelesque a ela recorrem.Com efeito, é através da análise das relações <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r ao nível local, regional, transregional eglobal, conforme ensina Colin Flint[33], que po<strong>de</strong>remos enten<strong>de</strong>r quais as alterações na balança <strong>de</strong>po<strong>de</strong>res, quais os mecanismos subjacentes ao complexo sistema internacional, e quais as tendênciasque permite antever.Logo, estudan<strong>do</strong> as relações <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r entre os gran<strong>de</strong>s espaços, com o sejam o Oci<strong>de</strong>nte, ce<strong>do</strong>encontraremos respostas a algumas das perguntas que nos conduzem nesta dissertação.E a primeira conclusão a que chegaríamos seria aquela que reconhece a existência <strong>de</strong>interesses <strong>de</strong> sinal contrário aparente, <strong>de</strong>ntro <strong>do</strong> próprio bloco civilizacional.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>20No entanto, há também que consi<strong>de</strong>rar os diversos inputs provenientes <strong>do</strong> subsistema exterior,e que têm si<strong>do</strong> crescentemente aborda<strong>do</strong>s enquanto elementos fundamentais <strong>do</strong> macro sistemainternacional global, como sejam as máfias, empresas multinacionais, organizações terroristastransnacionais, e outros atores não abrangi<strong>do</strong>s pelo Direito Internacional Público, e, logo, nãopossuin<strong>do</strong> personalida<strong>de</strong> jurídica internacional.Processos dinâmicos internosOptamos por consi<strong>de</strong>rar os processos <strong>de</strong> mudança internos como dinâmicos, e nãodivergentes, pelo simples fato <strong>de</strong> que nem to<strong>do</strong>s os processos que aparentemente dividam a classe<strong>do</strong>minante sejam necessariamente elementos <strong>de</strong> perda <strong>de</strong> unida<strong>de</strong> e coesão, ao que po<strong>de</strong>rão serinclusive fatores <strong>de</strong> consolidação <strong>de</strong> posições partilhadas anteriores.É importante realçarmos, antes <strong>de</strong> mais, a existência <strong>de</strong> duas tendências generalizadas que nãosen<strong>do</strong> contra-correntes, contribuem positivamente para a construção <strong>de</strong> uma posição forte e íntegrada imagem, força e influência que o Oci<strong>de</strong>nte transmite para o exterior.Enquanto nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s estas duas tendências tomam a forma <strong>de</strong> republicanos e<strong>de</strong>mocratas, já no Reino Uni<strong>do</strong> são apelida<strong>do</strong>s <strong>de</strong> tories e whigs, em França gaullistas ou liberais, eem Portugal socialistas ou sociais-<strong>de</strong>mocratas, ou no âmbito europeu por neomaquiavélicos eneokantianos, ou ainda e tradicionalmente por realistas e liberais.Como dissemos, e como é referi<strong>do</strong> na obra O Terrorismo e a I<strong>de</strong>ologia <strong>do</strong> Oci<strong>de</strong>nte, esta elitegovernante suce<strong>de</strong>-se no po<strong>de</strong>r por cooptação simultânea e sucessiva, toman<strong>do</strong> a forma <strong>de</strong> <strong>do</strong>isparti<strong>do</strong>s unicéfalos e siameses, conferin<strong>do</strong> ao sistema uma aparência <strong>de</strong> pluralida<strong>de</strong> e alternativa aoregime instala<strong>do</strong> que lhe confere legitimação, pelo menos para a larga maioria da opinião pública.A alternância <strong>de</strong> interesses e planejamentos estratégicos é, portanto, nula ou muito reduzida,embora possam existir algumas divergências relativamente a matérias limítrofes que não ameacemestruturalmente a prossecução <strong>do</strong>s fins da oligarquia instalada.O exemplo mais paradigmático é o norte-americano, no qual as duas facções parecem opor-seincontestavelmente ao parecer da outra relativamente à questão <strong>do</strong> Iraque, sem contu<strong>do</strong>observarmos mudanças <strong>de</strong> fun<strong>do</strong> nesta vertente da sua política externa.Uma maioria <strong>de</strong>mocrata foi eleita para o Congresso com base na sua “firme” oposição contraa guerra no Iraque, prometen<strong>do</strong> cortes severos no financiamento da campanha e contribuição para acrescente falta <strong>de</strong> legitimida<strong>de</strong> e gradual contestação, interna e internacional.Entretanto, a amplitu<strong>de</strong> das concessões até ao presente atribuídas não diminuíram nasubstância prometida a capacida<strong>de</strong> <strong>do</strong>s EUA fazerem guerra no Iraque, nem sequer questionam apresente administração Bush sobre a própria guerra. Nem questionam tampouco a guerra noAfeganistão, nem o imobilismo face ao Darfur.E relativamente a matérias <strong>de</strong> divergência interna alargada a to<strong>do</strong> o Oci<strong>de</strong>nte, nem a atualcrise que concerne a instalação <strong>de</strong> um sistema <strong>de</strong> <strong>de</strong>fesa anti-míssil em território europeu parecerefletir posições e perspectivas inconciliáveis quanto a questões <strong>de</strong> fun<strong>do</strong>, como a segurançacoletiva e estabilida<strong>de</strong>, conclusão aliás partilhada por Colin S. Gray em “European Perspectives onU.S. Ballistic Missile Defense”[34].Como noutras vezes no passa<strong>do</strong>, os EUA continuam a contribuir com a maior fatia para oorçamento da OTAN, a constituir a ponta-<strong>de</strong>-lança <strong>do</strong> Oci<strong>de</strong>nte contra potências emergentes,especialmente em matérias estratégico-militares, com uma retaguarda <strong>de</strong> apoio e sustentação <strong>de</strong>staexposição <strong>de</strong>sgastante.Mais, nenhum país europeu consi<strong>de</strong>ra aban<strong>do</strong>nar a aliança, até hoje o mais forte e estável elo<strong>de</strong> ligação transatlântica, pela <strong>de</strong>monstração <strong>de</strong> insistência <strong>de</strong> algumas elites militares norteamericanasno sistema.As exceções confirmam a regra, e esta é a <strong>de</strong> uma continuação <strong>do</strong> crescimento da aliançatransatlântica, constituin<strong>do</strong> um pólo <strong>de</strong> atração centrípeta para to<strong>do</strong> o seu near abroad, imiscuin<strong>do</strong>segradualmente em anteriores áreas <strong>de</strong> contestação/concorrência <strong>de</strong> potências.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>21Nesta senda, regiões que anteriormente verificavam um afastamento <strong>do</strong>s gran<strong>de</strong>s <strong>de</strong>cisórios<strong>de</strong> po<strong>de</strong>r, como a América <strong>do</strong> Sul e África Oci<strong>de</strong>ntal, observam as suas órbitas estratégicas pen<strong>de</strong>r,<strong>de</strong> forma gradual, para uma concepção alargada <strong>de</strong> segurança coletiva face a uma multiplicida<strong>de</strong> <strong>de</strong>ameaças, das quais o terrorismo transnacional afigura-se como o <strong>de</strong> solução mais premente.Jornal Defesa, <strong>de</strong> LisboaDE OLHO NO AQUECIMENTO21/05/<strong>2008</strong>Satélite franco-americano será o primeiro a investigar elevação <strong>do</strong> nível <strong>do</strong> marUm satélitevai ajudar os cientistas a monitorar a elevação <strong>do</strong> nível <strong>do</strong>s oceanos e enten<strong>de</strong>r a sua relação com oaquecimento <strong>do</strong> planeta. Com lançamento previsto para o próximo dia 15, na base aérea <strong>de</strong>Van<strong>de</strong>nberg, na Califórnia, ele vai ser útil também para aprimorar as previsões <strong>do</strong> tempo e o estu<strong>do</strong>das correntes marinhas.O satélite, chama<strong>do</strong> <strong>de</strong> OSTM/Jason 2, é uma parceria entre a Nasa, a Administração <strong>de</strong>Oceanos e Atmosfera <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s (NOAA), o Centro Nacional <strong>de</strong> Estu<strong>do</strong>s Espaciais daFrança (CNES) e a Organização Européia para a Exploração <strong>de</strong> Satélites Meteorológicos(EUMETSAT). A missão vai esten<strong>de</strong>r até a próxima década um trabalho que foi inicia<strong>do</strong> porsatélites lança<strong>do</strong>s em 1992 e 2001, nas missões Nasa-CNES TOPEX/Posei<strong>do</strong>n e Nasa-CNES Jason1, respectivamente.O Jason 2 vai dar continuida<strong>de</strong> ao acompanhamento <strong>do</strong> nível <strong>de</strong> elevação <strong>do</strong>s oceanos, um<strong>do</strong>s mais importantes indica<strong>do</strong>res das mudanças climáticas. Medidas tiradas anteriormente peloPosei<strong>do</strong>n e pelo Jason 1 mostraram uma elevação <strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 0,3 cm anuais <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1993, um valorduas vezes maior <strong>do</strong> que a taxa estimada pelas medições <strong>de</strong> marés no século passa<strong>do</strong>.Previsão <strong>do</strong> tempo mais precisaMas <strong>de</strong> acor<strong>do</strong> com os cientistas envolvi<strong>do</strong>s no projeto, 15 anos <strong>de</strong> registros não são umperío<strong>do</strong> suficiente para <strong>de</strong>terminar se há uma tendência <strong>de</strong> elevação a longo prazo.- O novo satélite vai nos ajudar a realizar um monitoramento global que será essencial paraenten<strong>de</strong>rmos melhor o papel <strong>do</strong>s oceanos nas mudanças climáticas - <strong>de</strong>clarou um <strong>do</strong>s projetistas <strong>do</strong>Jason 2, Lee-Lueng Fu, <strong>do</strong> Laboratório <strong>de</strong> Propulsão a Jato, da Nasa, em Pasa<strong>de</strong>na, Califórnia. - Osda<strong>do</strong>s recolhi<strong>do</strong>s por essa missão vão nos permitir continuar acompanhan<strong>do</strong> as mudanças no nível<strong>do</strong>s oceanos, uma área <strong>de</strong> pesquisa cujos mo<strong>de</strong>los atuais ainda apresentam um eleva<strong>do</strong> grau <strong>de</strong>incerteza.O satélite carrega altímetros <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> precisão, que são capazes <strong>de</strong> medir a altura dasuperfície <strong>do</strong> mar em relação ao centro da Terra. Essa medição, chamada <strong>de</strong> topografia da superfície<strong>do</strong> oceano, fornece também informações sobre a velocida<strong>de</strong> e a direção das correntes marinhas.Como a altura da superfície <strong>do</strong> oceano é fortemente influenciada pela quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> calor nomar, ela serve como um indica<strong>do</strong>r da concentração <strong>de</strong> calor na maior parte <strong>do</strong>s lugares. De acor<strong>do</strong>com Michael Freilich, da Nasa, a combinação da análise das correntes oceânicas e da concentração<strong>de</strong> calor nos mares é uma das chaves para a compreensão das variações <strong>do</strong> clima no planeta.- O que começou como um investimento da Nasa e <strong>do</strong> CNES em novas ferramentas para oestu<strong>do</strong> <strong>do</strong>s oceanos acabou se transforman<strong>do</strong> numa técnica que vai po<strong>de</strong>r ser utilizadarotineiramente em agências <strong>de</strong> to<strong>do</strong> o mun<strong>do</strong> para obtermos previsões climáticas mais apuradas -disse Freilich.O Globo
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>22EMERGENTES: INFLAÇÃO EM ALTA, JUROS NEM TANTO25/05/<strong>2008</strong>Assim como Brasil, bancos centrais <strong>de</strong> outros 9 países sobem taxas, mas políticasmonetárias são menos restritivasDiante da pressão inflacionária mundial, causada sobretu<strong>do</strong> pela alta <strong>do</strong>s preços <strong>de</strong> alimentos,não é só o Brasil que está com índices acima <strong>do</strong> centro da meta fixada pelo governo. Praticamenteto<strong>do</strong>s os emergentes apresentam números que superam não só o alvo central fixa<strong>do</strong> para <strong>2008</strong>como, em alguns casos, ultrapassam o teto da margem <strong>de</strong> segurança. Os bancos centrais <strong>de</strong>ssespaíses, no entanto, têm opta<strong>do</strong> por políticas monetárias mais mo<strong>de</strong>radas que a brasileira para lidarcom o problemaLevantamento da consultoria Tendências com 13 países emergentes mostra que <strong>de</strong>zaumentaram taxas <strong>de</strong> juros nos últimos meses, mas em proporções bem mais mo<strong>de</strong>radas para quemjá estourou as metas <strong>de</strong> inflação. Na África <strong>do</strong> Sul, por exemplo, a inflação em 12 meses encerra<strong>do</strong>sem março estava em 10,6%, enquanto a meta varia entre 3% e 6%. No Chile, por sua vez, opercentual estava em 8,5%, sen<strong>do</strong> que a meta era <strong>de</strong> 3%, com uma margem <strong>de</strong> tolerância <strong>de</strong> umponto percentual— Na maioria <strong>do</strong>s casos, os bancos centrais subiram juros, mas, como sabem que boa parte dainflação vem <strong>de</strong> um choque externo, eles estão toleran<strong>do</strong> percentuais acima das metas — afirma aeconomista da Tendências Marcela Prada.No Brasil, a inflação pelo IPCA em 12 meses encerra<strong>do</strong>s em abril está em 5,04%, para umameta <strong>de</strong> 4,5% com tolerância <strong>de</strong> <strong>do</strong>is pontos percentuais. Isso significa que ela ainda po<strong>de</strong> fechar oano em 6,5%. Mesmo assim, o Banco Central optou por aumentar a já elevada Taxa Selic <strong>de</strong>11,25% para 11,75% ao ano.Segun<strong>do</strong> o economista da consultoria Up Trend Thiago Davino, na China, por exemplo, ainflação saltou <strong>de</strong> 2,9% em março <strong>de</strong> 2007 para 8,3% em março <strong>de</strong> <strong>2008</strong> (com meta <strong>de</strong> 4,8%),enquanto nesse perío<strong>do</strong> os juros subiram <strong>de</strong> 6,72% para 7,5% ao ano. O Brasil, em apenas umareunião, fez um ajuste quase <strong>do</strong> mesmo tamanho.— O aperto monetário na China é bastante mo<strong>de</strong>ra<strong>do</strong> — <strong>de</strong>staca Davino.Especialista: BC age para construir credibilida<strong>de</strong>Já na Rússia, a inflação saltou <strong>de</strong> 7,8% em março <strong>de</strong> 2007 para 12,7% em março <strong>de</strong> <strong>2008</strong>. Jáos juros caíram no perío<strong>do</strong>: <strong>de</strong> 10,5% para 10,25% ao anoA equipe <strong>do</strong> Ministério da Fazenda tem feito questão <strong>de</strong> dizer que estava certa ao <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>ruma meta <strong>de</strong> inflação em 4,5% para este ano e 2009. Enquanto o Banco Central (BC) <strong>de</strong>fendia queela fosse menor, a Fazenda acabou “vitoriosa”, como dizem os técnicos da pasta, ao conseguir fazerprevalecer sua posição no Conselho Monetário Nacional (CMN). E seria exatamente essa“vantagem” que permitiria ao BC ser menos duro com a política monetária: haveria espaço paraabsorver choques.Mas o estrategista <strong>de</strong> investimentos para a América Latina <strong>do</strong> WestLB, Roberto Pa<strong>do</strong>vani,pon<strong>de</strong>ra que a diferença <strong>de</strong> postura entre o BC brasileiro e as <strong>de</strong>mais instituições resi<strong>de</strong> nanecessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> manter a credibilida<strong>de</strong> <strong>do</strong> país junto aos investi<strong>do</strong>res internacionais. Ele afirma que,como o BC não temautonomia, o Brasil não po<strong>de</strong> mostrar que está <strong>de</strong>ixan<strong>do</strong> a inflaçãosimplesmente correr acima da meta.— Como o Banco Central não é in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte, ele tem que construir credibilida<strong>de</strong> o tempoto<strong>do</strong>. A política monetária não vai trazer a inflação para baixo a curto prazo, mas trata-se <strong>de</strong> formarexpectativas. No Chile, por exemplo, o quadro é diferente. Os agentes econômicos têm confiança nosistema — disse Pa<strong>do</strong>vani. — Além disso, os BCs estão esperan<strong>do</strong> para ver os efeitos <strong>do</strong><strong>de</strong>saquecimento da economia mundial, o que po<strong>de</strong> contribuir para segurar a inflação. Eles po<strong>de</strong>mesperar um pouco para aumentar mais fortemente os juros.Essa também é a avaliação <strong>de</strong> Davino:
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>23— Enquanto a situação sobre a economia mundial não fica clara, os emergentes têm receio <strong>de</strong><strong>de</strong>sacelerar a economia se elevarem <strong>de</strong>mais os juros.Para economista, governo gasta mal e BC vira vilãoPara Davino, no Brasil, o Banco Central acaba agin<strong>do</strong> para tentar controlar uma inflação queestá fora <strong>do</strong> controle. No entanto, ele alega que essa estratégia se <strong>de</strong>ve à necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> a autorida<strong>de</strong>monetária ter <strong>de</strong> assumir um papel <strong>de</strong> vilão, o que o governo não quer:— O governo gasta mal e tem uma relação entre dívida e PIB em 43%. Se o governoreduzisse mais seus gastos, o BC teria mais espaço para não subir juros.Mesmo assim, ele afirma que a equipe <strong>de</strong> Henrique Meirelles tem uma preocupação excessivacom o centro da meta:— O BC tem quase que uma obsessão pelo centro da meta. Em parte, é possível dizer que eleestá mais realista que o rei, mas muito disso tem a ver com essa necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> fazer o papel <strong>de</strong>vilão.O GloboSubsídio <strong>de</strong>strói os produtores <strong>de</strong> países pobres25/05/<strong>2008</strong>O novo relator da ONU para o Direito à Alimentação, Olivier <strong>de</strong> Schutter, afirma que osprogramas <strong>de</strong> incentivos aos biocombustíveis têm um peso importante, equivalente a cerca <strong>de</strong> 30%,na explosão <strong>do</strong>s preços <strong>do</strong>s alimentos. O belga, que assumiu o cargo há três semanas, diz que osbiocombustíveis não são uma solução para o meio ambiente a longo prazo.A reforma sugerida pela União Européia (UE) ajudará no aumento da produção <strong>de</strong> alimentosem países em <strong>de</strong>senvolvimento?OLIVIER DE SCHUTTER: Espero que a proposta tenha um efeito positivo nas discussõesdas próximas semanas na rodada <strong>de</strong> negociação <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> Doha. A redução não ébastante, mas a UE não é a única que po<strong>de</strong> ser criticada pelos subsídios. Países como Japão, Coréia<strong>do</strong> Sul e EUA, juntos, gastam US$324 bilhões por ano em subsídios agrícolas. Isso <strong>de</strong>strói aschances <strong>do</strong>s produtores <strong>do</strong>s países em <strong>de</strong>senvolvimento. Uma redução (<strong>do</strong>s subsídios) aumentaria aschances <strong>do</strong>s produtores <strong>do</strong>s países em <strong>de</strong>senvolvimento.A crise <strong>do</strong>s alimentos é passageira?SCHUTTER: Eu diria que é <strong>de</strong> médio prazo e que foi causada por diversos fatores. Problemasnos principais países produtores, especulação, mas também produção crescente <strong>de</strong> biocombustíveis.O Conselho <strong>de</strong> Direitos Humanos da ONU se reuniu semana passada para discutir a crise.Quais foram as principais conclusões?SCHUTTER: A principal foi a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> uma ação mundial para facilitar o acesso <strong>do</strong>spaíses pobres aos alimentos. Foi critica<strong>do</strong> também o aumento da produção <strong>de</strong> biocombustíveis. Eupropus um congelamento <strong>do</strong>s novos investimentos (em programas <strong>de</strong> biocombustíveis) e que a UEcancelasse a meta <strong>de</strong> adição <strong>de</strong> 10% <strong>do</strong> etanol à gasolina até 2020.Seu antecessor no cargo, Jean Ziegler, disse que a crise atual é um genocídio mo<strong>de</strong>rno. Osenhor concorda com ele?SCHUTTER: Trata-se <strong>de</strong> um exagero. Mas o que ele queria dizer é que a crise tem efeitosdramáticos para os países <strong>do</strong> Terceiro Mun<strong>do</strong>. Devemos admitir que é uma crise global, que só po<strong>de</strong>ser resolvida com um esforço global.Os biocombustíveis são a causa principal da explosão <strong>do</strong>s preços <strong>do</strong>s alimentos?SCHUTTER: São uma das causas mais importantes. Calculo que 30% <strong>do</strong> aumento <strong>do</strong>s preços<strong>do</strong>s alimentos são <strong>de</strong>vi<strong>do</strong> aos biocombustíveis. É um fator muito significativo.Por que o senhor critica o programa <strong>de</strong> biocombustíveis brasileiro?SCHUTTER: Não critico o programa porque é importante, traz empregos. Defen<strong>do</strong> umcongelamento <strong>do</strong>s investimentos, mas isso não é a abolição <strong>do</strong> projeto.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>24A contribuição <strong>do</strong> etanol para a redução <strong>do</strong> efeito estufa não é importante?SCHUTTER: O efeito ecológico não é positivo. Para a produção <strong>de</strong> agrocombustível, comoprefiro chamar, é necessária uma gran<strong>de</strong> quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> energia, o que reduz seu efeito positivo.Além disso, as florestas são <strong>de</strong>struídas. Hoje o Brasil <strong>de</strong>strói a Floresta Amazônica.O GloboVai ter para to<strong>do</strong> mun<strong>do</strong>?28/05/<strong>2008</strong>Filipina protesta com panelavazia: faltou dinheiro para apesquisa <strong>do</strong> arrozO preço <strong>do</strong>s alimentos disparou, e o aumento médio nomun<strong>do</strong> passa <strong>do</strong>s 80%. A crise atual, a pior <strong>do</strong>s últimos trintaanos, é um grito <strong>de</strong> alerta sobre uma questão que poucagente ousa discutir: o planeta mal consegue alimentar 6,7bilhões <strong>de</strong> bocas hoje. O que ocorrerá em 2050, quan<strong>do</strong>seremos 9,2 bilhões <strong>de</strong> terráqueos? A comida será cara erara como nuncaSe tu<strong>do</strong> <strong>de</strong>r certo, na noite <strong>de</strong>ste <strong>do</strong>mingo, precisamente às8h38, hora <strong>de</strong> Brasília, a sonda Phoenix vai pousar na região norte<strong>de</strong> Marte, um pedaço ainda não explora<strong>do</strong> <strong>do</strong> planeta vermelho. Suamissão será cavar a superfície em busca <strong>de</strong> água líquida e bactériasou outros sinais que <strong>de</strong>nunciem a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> existir vida emMarte. Na mesma hora, precisamente às 8h38 da noite, o número <strong>de</strong>crianças mortas no mesmo dia em to<strong>do</strong> o planeta Terra por causasrelacionadas à fome terá chega<strong>do</strong> a 14.856. Só no <strong>do</strong>mingo. Afórmula macabra é a seguinte: a cada cinco segun<strong>do</strong>s morre umacriança no mun<strong>do</strong> em <strong>de</strong>corrência <strong>de</strong> problemas provoca<strong>do</strong>s pelacarência <strong>de</strong> calorias e proteínas mínimas para a sobrevivência. Édramático que a humanida<strong>de</strong>, em meio a progressos estupen<strong>do</strong>s como a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> escavar osolo <strong>de</strong> outro planeta em busca <strong>de</strong> vida pregressa, ainda seja assombrada pelo fantasma da fome –que ceifa a vida presente e futura na Terra. O mais dramático é que, durante os <strong>de</strong>z meses em que aPhoenix rasgou o éter em direção a Marte, a situação aqui embaixo ficou ainda pior. O trigo, omilho, o leite, o açúcar, o ovo, o frango – tu<strong>do</strong> subiu. Em alguns casos, como o <strong>do</strong> arroz, esse cerealque alimenta meta<strong>de</strong> <strong>do</strong>s habitantes <strong>do</strong> planeta, o preço <strong>do</strong>brou em um ano. Pela primeira vez nahistória, o custo global <strong>de</strong> importar alimentos passará <strong>de</strong> 1 trilhão <strong>de</strong> dólares.Os pobres <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> estão inquietos. Na Somália, a polícia dispersa multidões famintas atiros. Na In<strong>do</strong>nésia, com quase meta<strong>de</strong> <strong>de</strong> seus 230 milhões <strong>de</strong> habitantes viven<strong>do</strong> na pobreza, cadaaumento <strong>de</strong> 10% no preço <strong>do</strong> arroz joga 2 milhões <strong>de</strong> pessoas na miséria absoluta. No Haiti, ospreços altos <strong>de</strong>rrubaram o governo. Na Malásia, país nem tão pobre assim, o governo an<strong>do</strong>ubalançan<strong>do</strong>. No México, protestos <strong>de</strong> rua contra o preço das tortillas assustaram as autorida<strong>de</strong>s. NaTailândia, um <strong>do</strong>s celeiros <strong>de</strong> arroz <strong>do</strong> planeta, há merca<strong>do</strong>s limitan<strong>do</strong> a compra <strong>do</strong> produto porcliente. Na Argentina, assolada pelo populismo da presi<strong>de</strong>nte Cristina Kirchner, os panelaçosvoltaram a ser ouvi<strong>do</strong>s, com produtores rurais reagin<strong>do</strong> contra medidas <strong>do</strong> governo e consumi<strong>do</strong>resirrita<strong>do</strong>s com a escassez nos supermerca<strong>do</strong>s. Existem situações críticas no Paquistão, no Egito, noSenegal. Em Gana, Bangla<strong>de</strong>sh, Mianmar. Há fome na Coréia <strong>do</strong> Norte, na Etiópia. No Brasil, oquadro é mais confortável, mas um pedaço da crise mundial chegou ao país, com o preço <strong>do</strong>salimentos ultrapassan<strong>do</strong> a média da inflação. No Palácio <strong>do</strong> Planalto, estuda-se aumentar em 5% obenefício concedi<strong>do</strong> pelo Bolsa Família para compensar a alta nos preços.
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Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>26"Estamos viven<strong>do</strong> a pior crise <strong>do</strong>s últimos trinta anos", alarma-se o economista Jeffrey Sachs,professor da Universida<strong>de</strong> Colúmbia, em Nova York, e conselheiro especial <strong>de</strong> Ban Ki-moon,secretário-geral das Nações Unidas (ONU). E não vai melhorar. Um relatório da FAO, a entida<strong>de</strong> daONU que cuida <strong>do</strong>s alimentos e da agricultura no mun<strong>do</strong>, acabou <strong>de</strong> sair <strong>do</strong> forno em Roma,trazen<strong>do</strong> previsões sombrias. O <strong>do</strong>cumento, divulga<strong>do</strong> na quinta-feira passada, diz que os alimentosnão voltarão a ser baratos como antes. A comida mais cara, portanto, chegou para ficar. É umasituação que <strong>de</strong>ixa ainda mais vulneráveis 850 milhões <strong>de</strong> pessoas ao re<strong>do</strong>r <strong>do</strong> planeta, uma massacronicamente subnutrida que vive sempre sob o espectro da fome. Antes, uma análise elaborada poruma equipe <strong>do</strong> Banco Mundial já fazia previsões parecidas. Dizia que os preços ficarão altos até2009, quan<strong>do</strong> então começarão a cair. A queda, porém, não será acentuada, e os preços ficarão"bem acima" <strong>do</strong> nível registra<strong>do</strong> em 2004. O Banco Mundial calcula que a situação ficará comoestá, ameaça<strong>do</strong>ra e preocupante, pelo menos até 2015. E em 2015 a população mundial terá cerca <strong>de</strong>600 milhões <strong>de</strong> bocas a mais para alimentar. É o equivalente a quase três Brasis a mais. Vai dar?Em 1798, o economista inglês Thomas Malthus previu que a humanida<strong>de</strong> se afundaria emguerras e <strong>do</strong>enças porque a fome reinaria no planeta. Seus cálculos indicavam que a produção <strong>de</strong>alimentos crescia em ritmo aritmético (1, 2, 3, 4...) e a população aumentava em ritmo geométrico(1, 2, 4, 8...). Malthus errou tu<strong>do</strong>. Em seu tempo, não tinha como prever a invenção <strong>do</strong>sfertilizantes, que fizeram disparar a produção <strong>de</strong> alimentos, ou <strong>do</strong>s contraceptivos, que permitiramplanejar o tamanho das famílias em socieda<strong>de</strong>s mais afluentes. Agora, no entanto, começa a ganharfôlego no meio acadêmico a escola <strong>do</strong>s neomalthusianos. Eles acham que a armadilha agora é gente<strong>de</strong>mais viven<strong>do</strong> num meio ambiente <strong>de</strong>grada<strong>do</strong> <strong>de</strong>mais. Em 2050, prevê-se, seremos 9,2 bilhões <strong>de</strong>pessoas – ou 2,5 bilhões a mais <strong>do</strong> que hoje. Em seu último livro, Jeffrey Sachs arrasta uma asa parao neomalthusianismo e faz um apelo para que o total <strong>de</strong> habitantes não passe <strong>de</strong> 8 bilhões até 2050.Escreve Sachs: "A atual trajetória econômica, <strong>de</strong>mográfica e ambiental <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> é insustentável".
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>27Ele <strong>de</strong>fen<strong>de</strong> a "cooperação global" para salvar o planeta e superar "o para<strong>do</strong>xo <strong>de</strong> uma economiaglobal unificada e uma socieda<strong>de</strong> global dividida".A crise atual <strong>de</strong>corre <strong>de</strong> uma combinação <strong>de</strong> causas: colheitas ruins, especulação <strong>de</strong> preços,aumento excepcional <strong>do</strong> barril <strong>de</strong> petróleo e a explosão <strong>do</strong>s biocombustíveis. Mas o que ajudará aperpetuar o problema é o aumento <strong>do</strong> consumo <strong>de</strong> alimentos, sobretu<strong>do</strong> na China e na Índia, aslocomotivas asiáticas que, juntas, têm mais <strong>de</strong> um terço da população mundial. A China, emespecial, tem peso fenomenal. Se cada chinês comer um frango a mais, <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> cinco anosexplodirá o merca<strong>do</strong> <strong>de</strong> milho, a ração básica da ave. "O frango é um milho com asa", brinca oprofessor Mauro <strong>de</strong> Rezen<strong>de</strong> Lopes, economista da Fundação Getulio Vargas, no Rio <strong>de</strong> Janeiro."E, quanto maior o po<strong>de</strong>r aquisitivo, mais carne as pessoas consomem." Com a economia crescen<strong>do</strong>a 10% e o consumo <strong>de</strong> calorias aumentan<strong>do</strong> 20%, a China, essa terra on<strong>de</strong> aconteceram mais <strong>de</strong> 1500 ondas <strong>de</strong> fome na era cristã, está forman<strong>do</strong> uma imensa classe média – que quer comer carne. Oproblema é que, para cada quilo <strong>de</strong> carne que a vaca engorda, são necessários 8 quilos <strong>de</strong> grãos paraalimentá-la. Consi<strong>de</strong>ran<strong>do</strong> que boa parte é gordura e osso, a conta muda: para cada quilo <strong>de</strong> carneboa vão 13 quilos <strong>de</strong> grãos. É precisoproduzir isso tu<strong>do</strong>."Temos <strong>de</strong> acreditar que seremoscapazes <strong>de</strong> dar <strong>de</strong> comer a to<strong>do</strong>s etomar as providências necessárias", dizo estudioso David Or<strong>de</strong>n, <strong>do</strong>International Food Policy ResearchInstitute, em Washington, e professorda Universida<strong>de</strong> Virginia Polytechnic.As providências foram <strong>de</strong>ixan<strong>do</strong> <strong>de</strong> sertomadas. Na década <strong>de</strong> 60, com apopulação crescen<strong>do</strong> mais que aprodução <strong>de</strong> comida, uma crise seavizinhava, mas foi espantada pela"revolução ver<strong>de</strong>", que multiplicou aprodução <strong>de</strong> alimentos. Índia ePaquistão a<strong>do</strong>taram novas sementes,PARA O LIXOO colori<strong>do</strong> apanha<strong>do</strong> <strong>de</strong> comida acima, com carne, frutas,legumes, leite, ovos, pães e enlata<strong>do</strong>s, é o que uma famíliaamericana <strong>de</strong> quatro pessoas joga no lixo num único mês. Só <strong>de</strong>carne e peixe são 4,7 quilos mensais. Entre frutas e legumes,frescos ou processa<strong>do</strong>s, são mais <strong>de</strong> 15 quilos mensalmente. Sefosse possível recuperar um quarto <strong>de</strong> to<strong>do</strong> o <strong>de</strong>sperdício <strong>do</strong>sricos, daria para alimentar 20 milhões <strong>de</strong> pessoas a cada dia.irrigação, fertilizantes. O processo foi capitanea<strong>do</strong> por um velhinho simpático, o agrônomo NormanBorlaug, que hoje, aos 94 anos, moran<strong>do</strong> no Texas, ainda tenta trabalhar nos intervalos entre umahospitalização e outra, sempre sob os cuida<strong>do</strong>s <strong>de</strong> uma neta. Da revolução ver<strong>de</strong> para cá, comcomida farta e barata, investimentos foram sumin<strong>do</strong> e pesquisas, minguan<strong>do</strong>. Países que nãoplantavam não se preocupavam em fazê-lo. Existia alimento <strong>de</strong> sobra. Há mais <strong>de</strong> duas décadas, oministro americano da Agricultura, John Block, disse que a proposta <strong>de</strong> que os países pobres<strong>de</strong>veriam produzir o próprio alimento era "um anacronismo <strong>de</strong> eras passadas", ou seja, eles podiamcomprar os produtos americanos, fartos e baratos. Assim, o mun<strong>do</strong> foi-se esquecen<strong>do</strong> <strong>de</strong> cuidar daagricultura. Um exemplo financeiro. Em 1980, o Banco Mundial <strong>de</strong>sembolsou 7,7 bilhões <strong>de</strong>dólares para empréstimos agrícolas. Em 2004, foram apenas 2 bilhões.Em paralelo, intensificou-se a urbanização. Neste ano, ocorreu a virada: pela primeira vez nahistória da humanida<strong>de</strong> há mais gente viven<strong>do</strong> na cida<strong>de</strong> <strong>do</strong> que no campo. No campo, produz-se oque se come na cida<strong>de</strong>. Isso significa que há menos gente produzin<strong>do</strong> para mais gente – e, quan<strong>do</strong>isso acontece, é preciso ter boa distribuição da comida. Nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, as famílias rurais são1% da população e alimentam 99%. "Talvez meta<strong>de</strong> da fome global seja problema <strong>de</strong> infra-estruturae distribuição", diz Josette Sheeran, que comanda o Programa Mundial <strong>de</strong> Alimentação da ONU,entida<strong>de</strong> que socorre vítimas da fome mun<strong>do</strong> afora. Recentemente, Sheeran ganhou as manchetesglobais ao dizer, diante <strong>do</strong> Parlamento inglês, que a crise atual é um "tsunami silencioso". Umaforma <strong>de</strong> combatê-lo é melhorar a distribuição. A produção mundial é suficiente para alimentar
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>28to<strong>do</strong>s. Só que não chega a to<strong>do</strong>s. Nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, a distribuição é ótima, mas o <strong>de</strong>sperdício éum escândalo. Um estu<strong>do</strong> <strong>de</strong> 1995 <strong>de</strong>scobriu que os americanos jogam fora 27% da comidadisponível para consumo. São números assombrosos. Uma família <strong>de</strong> quatro pessoas põe 4,7 quilos<strong>de</strong> carne e peixe no lixo to<strong>do</strong> mês! Se um quarto <strong>do</strong> <strong>de</strong>sperdício fosse recupera<strong>do</strong>, daria paraalimentar 20 milhões <strong>de</strong> pessoas num dia! Se falta comida na Somália, on<strong>de</strong> a insegurança alimentarameaça mais <strong>de</strong> 2 milhões <strong>de</strong> pessoas, e sobra comida nos EUA, on<strong>de</strong> 66% da população está acima<strong>do</strong> peso, o problema não está apenas na produção.Não há receita pronta para superar a atual crise, mas duas medidas são inevitáveis. Aprimeira, <strong>de</strong> curto prazo, é <strong>de</strong>spachar ajuda imediata aos milhões ameaça<strong>do</strong>s pela fome, <strong>de</strong> mo<strong>do</strong> aevitar uma crise humanitária <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s proporções. A segunda é voltar a jogar dinheiro naagricultura. Num instituto <strong>de</strong> pesquisa no México, <strong>de</strong>senvolveu-se um milho capaz <strong>de</strong> resistir à secada África e um trigo que sobrevive às pragas <strong>do</strong> sul da Ásia. Mas nunca apareceu o dinheiro paraque as duas varieda<strong>de</strong>s chegassem às mãos <strong>do</strong>s pobres. Nas Filipinas, on<strong>de</strong> as mulheres têmprotesta<strong>do</strong> exibin<strong>do</strong> panelas vazias nas ruas, os cientistas i<strong>de</strong>ntificaram catorze traços genéticos quepo<strong>de</strong>m salvar o arroz da praga <strong>do</strong> gafanhoto, mas não têm dinheiro para executar o trabalho. É umanegligência inadmissível. Intercâmbios são exeqüíveis há séculos: os europeus trouxeram para asAméricas o trigo e o cavalo e, daqui, levaram a batata, por exemplo. Como hoje uma semente nãoconsegue sair <strong>do</strong> México e chegar ao Togo?A fome nunca se ausentou da vida humana, seja por fúria da natureza, que criou o fungo dabatata que matou 1 milhão <strong>de</strong> irlan<strong>de</strong>ses em mea<strong>do</strong>s <strong>do</strong> século XIX, seja como conseqüência dabestialida<strong>de</strong> humana. Na II Guerra Mundial, além da bomba atômica, a fome foi uma armapo<strong>de</strong>rosa. No gueto <strong>de</strong> Varsóvia, on<strong>de</strong> cada ju<strong>de</strong>u tinha direito a uma ração <strong>de</strong> menos <strong>de</strong> 200calorias diárias – o recomenda<strong>do</strong> é em torno <strong>de</strong> 2.500 –, a fome estava à espreita em cada esquina<strong>do</strong>s 100 quarteirões que abrigavam meio milhão <strong>de</strong> ju<strong>de</strong>us. A fome também matou milhares <strong>de</strong>soviéticos no cerco nazista a Leningra<strong>do</strong>, que ficou nove meses sem receber comida. Contan<strong>do</strong>-se ahistória da fome, conta-se a história da humanida<strong>de</strong>. A fome está na guerra. A fome está na política,na forma (sempre pública e barulhenta) da greve <strong>de</strong> fome. A fome está na religião, na forma(sempre reservada e silenciosa) <strong>do</strong> jejum, seja para ju<strong>de</strong>us, católicos, muçulmanos ou hindus. Afome está no centro da tragédia humana, mas sempre fomos salvos pelo engenho científico <strong>do</strong>próprio homem. A ciência que fertilizou a terra, controlou pestes, reinventou sementes. A ciênciaterá, mais uma vez, <strong>de</strong> nos salvar.Se tu<strong>do</strong> <strong>de</strong>r certo, a sonda Phoenix vai tirar uma fotografia <strong>de</strong> sua aterrissagem sobre o solo <strong>de</strong>Marte. A imagem percorrerá 680 milhões <strong>de</strong> quilômetros e, em duas horas, chegará ao centro daNasa, nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s. Durante a viagem da foto, morrerão 1440 crianças <strong>de</strong> fome no mun<strong>do</strong>."A fome é um incêndio frio...""...é como uma corrente <strong>de</strong> anzóis que nos crava por <strong>de</strong>ntro." O poeta chileno Pablo Neruda(1904-1973), ganha<strong>do</strong>r <strong>do</strong> Prêmio Nobel <strong>de</strong> Literatura, <strong>de</strong>screveu assim a <strong>do</strong>r da carência <strong>de</strong> comida.Neruda termina pedin<strong>do</strong> utopicamente "um prato gran<strong>de</strong> como a Lua, on<strong>de</strong> to<strong>do</strong>s almocemos".Abaixo, a fome, <strong>do</strong> ponto <strong>de</strong> vista biológico.• Nas primeiras horas, a fome é um suave vazio no estômago, ameniza<strong>do</strong> pela antecipação dasacieda<strong>de</strong>. Corre-se até a cozinha, a lanchonete, o restaurante, ingere-se o necessário – e tu<strong>do</strong> volta ànormalida<strong>de</strong>. Batimentos cardíacos, pressão arterial, estômago satisfeito. Ter fome e saciá-la é umprazer.• Nos primeiros dias, a fome come as forças. Os movimentos são lentos, água é fundamental.Não se <strong>do</strong>rme bem à noite, só se tem vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> comer. Fica-se senta<strong>do</strong>, <strong>de</strong>ita<strong>do</strong>. Quem levantar háque cuidar para não cair. Os níveis <strong>de</strong> colesterol e triglicéri<strong>de</strong>s estão altos. Os níveis <strong>de</strong> glicose epressão estão baixos. Viver, respirar, até mesmo pensar é um far<strong>do</strong>.• Nas primeiras semanas, a fome é um <strong>de</strong>sespero que transforma o corpo no reino da <strong>do</strong>ença eda <strong>do</strong>r. Não há mais energia nem para as funções básicas das células. Vem a visão dupla. O vômito <strong>de</strong>bílis esver<strong>de</strong>ada. Não se ouve direito. As pernas não se movem. Os braços <strong>do</strong>em. Os músculos, fracos,
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>29causam lesões no sistema nervoso. É a morte chegan<strong>do</strong>.Revista VejaO mun<strong>do</strong> pós-americano22/05/<strong>2008</strong>Como a globalização, impulsionada pelosEsta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, está produzin<strong>do</strong> potênciasemergentes - que começam a mudar o equilíbrioAcostuma<strong>do</strong>s a ser o número um, os americanosvêem um mun<strong>do</strong> multipolar roubar sua antigaposiçãoOs americanos andam mal-humora<strong>do</strong>s. Emabril, uma pesquisa revelou que 81% da populaçãoacredita que o país está “no caminho erra<strong>do</strong>”. Nos 25anos em que a pesquisa é feita, a resposta <strong>do</strong> mês passa<strong>do</strong> foi, <strong>de</strong> longe, a mais negativa. Há razõespara pessimismo – um pânico financeiro e a ameaça <strong>de</strong> uma recessão, uma guerra aparentementeinfindável no Iraque e a ameaça <strong>do</strong> terrorismo. Porém, os fatos – índice <strong>de</strong> <strong>de</strong>semprego, número <strong>de</strong>execuções hipotecárias, mortes por terrorismo – não são tão ruins para explicar o mal-estar. Aansieda<strong>de</strong> brota <strong>de</strong> uma sensação <strong>de</strong> que forças po<strong>de</strong>rosas e <strong>de</strong>sagrega<strong>do</strong>ras estão agin<strong>do</strong> no mun<strong>do</strong>.Em quase to<strong>do</strong>s os aspectos da vida, padrões <strong>do</strong> passa<strong>do</strong> estão sen<strong>do</strong> embaralha<strong>do</strong>s. “Turbilhão érei, ten<strong>do</strong> expulsa<strong>do</strong> Zeus”, escreveu o dramaturgo grego Aristófanes há 2.400 anos. E – pelaprimeira vez na memória viva – os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s não parecem li<strong>de</strong>rar o ataque. Os americanospercebem que um novo mun<strong>do</strong> está nascen<strong>do</strong>, mas temem que ele esteja sen<strong>do</strong> forma<strong>do</strong> em terrasdistantes e por povos estrangeiros. O prédio mais alto <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> fica em Taiwan. A maior empresa<strong>do</strong> merca<strong>do</strong> acionário está em Pequim. A maior refinaria <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> está sen<strong>do</strong> construída na Índia.O maior avião <strong>de</strong> passageiros é feito na Europa. O maior fun<strong>do</strong> <strong>de</strong> investimentos <strong>do</strong> planeta está emAbu Dhabi, e a maior indústria cinematográfica é Bollywood, Índia. Ícones americanos foramusurpa<strong>do</strong>s: a maior roda-gigante <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> fica em Cingapura, o maior cassino está em Macau.Apenas duas das <strong>de</strong>z pessoas mais ricas <strong>do</strong> planeta são americanas. Essas listas são arbitrárias e umtanto tolas, mas há apenas <strong>de</strong>z anos os EUA teriam encabeça<strong>do</strong> quase todas. Esses factói<strong>de</strong>srefletem um <strong>de</strong>slocamento <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r e atitu<strong>de</strong>s. Nos EUA, ainda se <strong>de</strong>bate o antiamericanismo. Omun<strong>do</strong> passou <strong>do</strong> antiamericanismo para o pós-americanismo.I. O FIM DA PAZ AMERICANANa década <strong>de</strong> 1980, quan<strong>do</strong> eu visitava a Índia – on<strong>de</strong> cresci –, a maioria<strong>do</strong>s indianos estava fascinada pelos EUA. Freqüentemente me perguntavamsobre... Donald Trump. Arroja<strong>do</strong>, rico e mo<strong>de</strong>rno, ele simbolizava a sensação <strong>de</strong>que, se você quisesse o maior e melhor <strong>de</strong> qualquer coisa, tinha <strong>de</strong> olhar para osEUA. Hoje, fora os personagens <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> <strong>do</strong> entretenimento, não existeinteresse comparável por personalida<strong>de</strong>s americanas. Existem <strong>de</strong>zenas <strong>de</strong>empresários indianos mais ricos que Trump. Os indianos são obceca<strong>do</strong>s porseus próprios bilionários vulgares. E esse recém-<strong>de</strong>scoberto interesse em suaprópria história ocorre em to<strong>do</strong> o mun<strong>do</strong>.Este texto foi retira<strong>do</strong> <strong>do</strong> livro The Post American World (O mun<strong>do</strong> pósamericano),<strong>de</strong> Fareed Zakaria, recém-lança<strong>do</strong> nos EUA
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>30Consi<strong>de</strong>re o seguinte: em 2006 e 2007, a economia <strong>de</strong> 124 países cresceu mais <strong>de</strong> 4% ao ano.O economista Antoine van Agtmael, que cunhou o termo “merca<strong>do</strong>s emergentes”, i<strong>de</strong>ntificou 25empresas que provavelmente serão as próximas gran<strong>de</strong>s multinacionais. Brasil, México, Coréia <strong>do</strong>Sul e Taiwan têm quatro empresas cada um; Índia, três; China, duas; e Argentina, Chile, Malásia eÁfrica <strong>do</strong> Sul, uma cada um. É muito mais que a ascensão da China ou da Ásia. É a ascensão <strong>do</strong>resto – <strong>do</strong> resto <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>.Vivemos o terceiro gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>slocamento <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r da história mo<strong>de</strong>rna. O primeiro foi aascensão <strong>do</strong> Oci<strong>de</strong>nte, por volta <strong>do</strong> século XV, que produziu o mun<strong>do</strong> como o conhecemos hoje –ciência e tecnologia, comércio e capitalismo, as revoluções industrial e agrícola. O segun<strong>do</strong> ocorreuno fim <strong>do</strong> século XIX, com a ascensão <strong>do</strong>s EUA. Nos últimos 20 anos, o status americano <strong>de</strong>superpotência em todas as esferas passou praticamente incontesta<strong>do</strong>. Durante essa “PaxAmericana”, a economia global se acelerou drasticamente. E essa expansão é a mola propulsora portrás <strong>do</strong> terceiro gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>slocamento <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r – a ascensão <strong>do</strong> resto.Militar e politicamente continuamos em um mun<strong>do</strong> unipolar. Mas, em todas as outrasdimensões, a distribuição <strong>do</strong> po<strong>de</strong>r está se distancian<strong>do</strong> <strong>do</strong> <strong>do</strong>mínio americano. Isso produzirá umapaisagem bastante diferente, uma paisagem <strong>de</strong>finida e dirigida a partir <strong>de</strong> muitos lugares e pormuitos povos.O mun<strong>do</strong> pós-americano é uma perspectiva inquietante para os americanos, mas não será<strong>de</strong>fini<strong>do</strong> pelo <strong>de</strong>clínio <strong>do</strong>s EUA, e sim pela ascensão <strong>do</strong>s outros países. É o resulta<strong>do</strong> <strong>de</strong> tendências<strong>do</strong>s últimos 20 anos que criaram um clima internacional <strong>de</strong> paz e prosperida<strong>de</strong>.Eu sei. Não é o mun<strong>do</strong> que as pessoas percebem. Dizem que vivemos tempos perigosos.Terrorismo, Esta<strong>do</strong>s bandi<strong>do</strong>s, proliferação nuclear, pânico financeiro, recessão, terceirização,imigrantes ilegais, tu<strong>do</strong> figura com <strong>de</strong>staque no discurso americano. A Al Qaeda, o Irã, a Coréia <strong>do</strong>Norte, a China e a Rússia, to<strong>do</strong>s são ameaças. Mas, quão violento é o mun<strong>do</strong> realmente?Umaequipe da Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Maryland rastreia mortes causadas pela violência organizada. Os da<strong>do</strong>smostram que to<strong>do</strong>s os tipos <strong>de</strong> guerra <strong>de</strong>clinam <strong>de</strong>s<strong>de</strong> mea<strong>do</strong>s da década <strong>de</strong> 1980 e que atualmente<strong>de</strong>sfrutamos os níveis mais baixos <strong>de</strong> violência <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a década <strong>de</strong> 1950. As mortes resultantes <strong>do</strong>terrorismo têm aumenta<strong>do</strong>. Mas um exame mais minucioso mostra que 80% <strong>de</strong>ssas fatalida<strong>de</strong>s sãono Afeganistão e no Iraque, zonas <strong>de</strong> guerra – e os números totais permanecem pequenos. Opolivalente professor <strong>de</strong> Harvard Steven Pinker arriscou-se a especular que provavelmente vivemos“na era mais pacífica da existência <strong>de</strong> nossa espécie”.Por que não é essa a sensação? Parte <strong>do</strong> problema é a quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> informações. Os últimos20 anos produziram uma revolução <strong>de</strong> informação que traz notícias e imagens <strong>de</strong> to<strong>do</strong> o mun<strong>do</strong> otempo to<strong>do</strong>. A divulgação quase instantânea das imagens e a intensida<strong>de</strong> <strong>do</strong> ciclo noticioso <strong>de</strong> 24horas se combinam para produzir uma constante tensão. Qualquer perturbação climática é “atempesta<strong>de</strong> da década”. Toda bomba que explo<strong>de</strong> é NOTÍCIA EXTRAORDINÁRIA. E, como arevolução da informação é nova, estamos apenas começan<strong>do</strong> a <strong>de</strong>scobrir como colocar tu<strong>do</strong> <strong>de</strong>ntro<strong>do</strong> contexto. O risco <strong>de</strong> morrer em um ataque terrorista para um americano é menor que morrerafoga<strong>do</strong> na banheira. Mas a sensação não é essa.As ameaças são reais. Os jihadistas islâmicos são um ban<strong>do</strong> sórdi<strong>do</strong>. Mas está cada vez maisclaro que representam uma minúscula fração <strong>do</strong> 1,3 bilhão <strong>de</strong> muçulmanos <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>. Eles po<strong>de</strong>mcausar danos muito reais. No entanto, os esforços <strong>do</strong>s governos <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> puseram-nos para correr.Os jihadistas foram obriga<strong>do</strong>s a se dispersar, operar em pequenas células e usar armas simples. Elesnão têm si<strong>do</strong> capazes <strong>de</strong> atingir alvos gran<strong>de</strong>s, especialmente os americanos. Então explo<strong>de</strong>mbombas em cafés, merca<strong>do</strong>s e estações <strong>de</strong> metrô. Ao fazer isso, matam habitantes locais e afastammuçulmanos comuns. Acompanhe as pesquisas <strong>de</strong> opinião pública. O apoio à violência caiudrasticamente nos últimos cinco anos nos países muçulmanos.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>31Roda-gigante e Marilyn Monroe num parque <strong>de</strong>diversões em Dubai. O mun<strong>do</strong> começa a fazer melhoro que apren<strong>de</strong>u com os EUADes<strong>de</strong> o 11 <strong>de</strong> setembro, a Al Qaeda dirigidapor Osama Bin La<strong>de</strong>n não foi capaz <strong>de</strong> <strong>de</strong>sfechar umúnico ataque terrorista <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s proporções noOci<strong>de</strong>nte ou em qualquer país árabe – seus alvosoriginais. O fato <strong>de</strong> terem si<strong>do</strong> silencia<strong>do</strong>s por quasesete anos mostra que, na batalha entre governos egrupos terroristas, os primeiros não precisam se<strong>de</strong>sesperar.Alguns apontam para países como o Irã. EssesEsta<strong>do</strong>s bandi<strong>do</strong>s constituem problemas reais, masolhe o contexto. A economia americana é 68 vezesmaior que a <strong>do</strong> Irã. Seu orçamento militar é 110 vezeso <strong>do</strong>s mulás. Não se compara aos perigosrepresenta<strong>do</strong>s por uma Alemanha em ascensão naprimeira meta<strong>de</strong> <strong>do</strong> século XX ou uma UniãoSoviética expansionista na segunda meta<strong>de</strong>. Se hojefosse 1938, o Irã seria a Romênia, não a Alemanha.Outros pintam um mun<strong>do</strong> <strong>de</strong> dita<strong>do</strong>res em ação.A China, a Rússia e vários potenta<strong>do</strong>s petrolíferosestão ganhan<strong>do</strong> força. Temos <strong>de</strong> nos engajar em uma luta maniqueísta que <strong>de</strong>finirá o próximoséculo. Mas as potências ascen<strong>de</strong>ntes <strong>de</strong> hoje são relativamente benignas. No passa<strong>do</strong>, quan<strong>do</strong> ospaíses enriqueciam, eles queriam se tornar potências militares, <strong>de</strong>rrubar a or<strong>de</strong>m existente e criarseus próprios impérios. Mas, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a ascensão <strong>do</strong> Japão e da Alemanha nas décadas <strong>de</strong> 1960 e1970, eles optam por enriquecer <strong>de</strong>ntro da or<strong>de</strong>m existente. A China e a Índia estão nessa direção.Compare a Rússia e a China com o ponto em que estavam há 35 anos. Naquela época, ambaseram potências ameaça<strong>do</strong>ras, conspiran<strong>do</strong> contra os EUA, financian<strong>do</strong> insurgências e guerras civis.Agora, os <strong>do</strong>is países estão mais integra<strong>do</strong>s na economia global que em qualquer momento <strong>do</strong>súltimos cem anos. Qual é seu potencial para causar problemas? Os gastos militares da Rússia são daor<strong>de</strong>m <strong>de</strong> US$ 35 bilhões, ou 0,05% <strong>do</strong> que o Pentágono gasta. A China tem cerca <strong>de</strong> 20 mísseisnucleares que po<strong>de</strong>m alcançar os EUA. Os americanos têm 830 mísseis que po<strong>de</strong>m chegar à China.Quem <strong>de</strong>ve se preocupar com quem?II. AS BOAS NOTÍCIASEm julho <strong>de</strong> 2006, falei com um membro <strong>do</strong> governo israelense, pouco <strong>de</strong>pois da guerra entreIsrael e o Hezbollah. Ele estava genuinamente preocupa<strong>do</strong> com a segurança <strong>do</strong> país. Entãoperguntei sobre a economia. “Isso nos <strong>de</strong>ixou perplexos”, disse ele. “O merca<strong>do</strong> <strong>de</strong> ações estavamais alto no último dia da guerra que no primeiro!” O governo estava assombra<strong>do</strong>, mas o merca<strong>do</strong>não.NOVOS ATORESOs países emergentes põem no merca<strong>do</strong> milhões <strong>de</strong> trabalha<strong>do</strong>res e consumi<strong>do</strong>res num jogoem que o mun<strong>do</strong> to<strong>do</strong> ganha
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>32A Guerra <strong>do</strong> Iraque produziu um caos. Mais <strong>de</strong> 2milhões <strong>de</strong> refugia<strong>do</strong>s se amontoaram em paísesvizinhos. Mas, ao viajar pelo Oriente Médio nosúltimos anos, me <strong>de</strong>i conta <strong>de</strong> quão pouco osproblemas <strong>do</strong> Iraque <strong>de</strong>sestabilizaram a região.As pessoas <strong>de</strong>nunciam furiosamente a políticaexterna <strong>do</strong>s EUA. Mas os vizinhos <strong>do</strong> Iraque –Turquia, Jordânia e Arábia Saudita – <strong>de</strong>sfrutam<strong>de</strong> uma prosperida<strong>de</strong> sem prece<strong>de</strong>nte. Os países<strong>do</strong> Golfo estão mo<strong>de</strong>rnizan<strong>do</strong> suas economias esocieda<strong>de</strong>s. Há pouca evidência <strong>de</strong> instabilida<strong>de</strong>e fundamentalismo.Pela primeira vez na história, a maioria <strong>do</strong>spaíses <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> pratica uma economia sensata. Os resulta<strong>do</strong>s são claros. A porção <strong>de</strong> pessoas queviviam com US$ 1 por dia <strong>de</strong>spencou <strong>de</strong> 40%, em 1981, para 18% em 2004. A pobreza está em<strong>de</strong>clínio em países que abrigam 80% da população mundial. A economia global mais que <strong>do</strong>brounos últimos 15 anos! O comércio global cresceu 133% no mesmo perío<strong>do</strong>. A expansão <strong>do</strong> boloeconômico global se tornou a força <strong>do</strong>minante. Guerras, terrorismo e conflitos causam rupturastemporárias, mas eventualmente são <strong>do</strong>mina<strong>do</strong>s pelas ondas da globalização. Essas circunstânciaspo<strong>de</strong>m não durar, mas vale a pena compreen<strong>de</strong>r a aparência <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> nas últimas poucas décadas.III. UM NOVO NACIONALISMOEvi<strong>de</strong>ntemente, o crescimento global também é responsável por problemas. Ele produziutoneladas <strong>de</strong> dinheiro. A combinação <strong>de</strong> uma inflação baixa e muito dinheiro significou baixas taxas<strong>de</strong> juros, e isso fez com que as pessoas agissem gananciosa e/ou estupidamente. Então,testemunhamos uma série <strong>de</strong> bolhas. O crescimento também explica a disparada <strong>do</strong>s preços <strong>de</strong>commodities. Quase todas as commodities estão numa alta recor<strong>de</strong> <strong>de</strong> 200 anos. Os alimentos, quehá algumas décadas corriam risco <strong>de</strong> sofrer um colapso <strong>de</strong> preços, estão numa assusta<strong>do</strong>ra alta.Nada disso se <strong>de</strong>ve a uma diminuição <strong>de</strong> abastecimento. É a crescente <strong>de</strong>manda global queinflaciona os preços. O fato <strong>de</strong> mais e mais pessoas comerem, beberem, lavarem, dirigirem,consumirem terá efeitos sísmicos no sistema global. Po<strong>de</strong>m ser bons problemas, mas sãoproblemas.O efeito mais imediato é o surgimento <strong>de</strong> novos motores econômicos. Nos últimos séculos, ospaíses mais ricos <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> têm si<strong>do</strong> muito pequenos em termos <strong>de</strong> população. A Dinamarca tem5,5 milhões <strong>de</strong> habitantes, os Países Baixos 16,6 milhões. Os EUA são o maior <strong>do</strong> grupo e<strong>do</strong>minaram o avança<strong>do</strong> mun<strong>do</strong> industrial. Outros gigantes, porém – China, Índia e Brasil –, têmsi<strong>do</strong> incapazes ou relutantes em se juntar às economias funcionais. Agora estão se mexen<strong>do</strong> e, dadassuas dimensões, <strong>de</strong>ixarão uma gran<strong>de</strong> pegada no mapa <strong>do</strong> futuro. Mesmo que as pessoas nessespaíses continuem relativamente pobres, como nações sua riqueza total será maciça. Qualquernúmero multiplica<strong>do</strong> por 2,5 bilhões (a soma das populações da China e da Índia) torna-se umnúmero muito gran<strong>de</strong>.A ascensão da China e da Índia é apenas a manifestação mais óbvia <strong>de</strong> um mun<strong>do</strong> emascensão. Em <strong>de</strong>zenas <strong>de</strong> países gran<strong>de</strong>s, po<strong>de</strong>m-se ver uma economia ascen<strong>de</strong>nte, uma culturavibrante e um crescente orgulho nacional. Esse orgulho po<strong>de</strong> se transformar em algo mais feio. Paramim, isso ficou vivamente ilustra<strong>do</strong> há alguns anos quan<strong>do</strong> conversava com um jovem executivochinês em Xangai. Ele trajava roupas oci<strong>de</strong>ntais, falava inglês e estava imerso na cultura pop. Eraum produto da globalização. Até começarmos a falar sobre Taiwan, o Japão e os EUA. Suasrespostas eram cheias <strong>de</strong> s paixão, belicosida<strong>de</strong> e intolerância. Senti-me na Alemanha <strong>de</strong> 1910,falan<strong>do</strong> com um jovem alemão, que teria si<strong>do</strong> igualmente mo<strong>de</strong>rno e nacionalista.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>33Perspectivas nacionais divergentes sempre existiram. Mas hoje, graças à revolução dainformação, elas são amplificadas, repetidas e disseminadas. O resulta<strong>do</strong> é que o “resto” agora estádissecan<strong>do</strong> as suposições e narrativas <strong>do</strong> Oci<strong>de</strong>nte e fornecen<strong>do</strong> opiniões alternativas. Um jovemdiplomata chinês me disse em 2006: “Quan<strong>do</strong> vocês nos dizem que apoiamos uma ditadura noSudão para ter acesso a seu petróleo, pergunto qual a diferença para seu apoio a uma monarquiamedieval na Arábia Saudita? Nós vemos a hipocrisia, só não dizemos nada – ainda”.Como conseguir que um mun<strong>do</strong> <strong>de</strong> muitos atores trabalhe em conjunto? Os mecanismostradicionais <strong>de</strong> cooperação internacional estão <strong>de</strong>sgasta<strong>do</strong>s. O Conselho <strong>de</strong> Segurança da ONU temcomo membros permanentes os vence<strong>do</strong>res <strong>de</strong> uma guerra que acabou há mais <strong>de</strong> 60 anos. O G8não inclui a China, a Índia ou o Brasil – as três gran<strong>de</strong>s economias que mais crescem no mun<strong>do</strong> – emesmo assim alega representar os propulsores da economia mundial. As únicas soluções quefuncionarão serão as que envolverem muitas nações.IV. O PRÓXIMO SÉCULO AMERICANOMuitos olham para este mun<strong>do</strong> emergente e concluem que os EUA já passaram por seus dias<strong>de</strong> glória. Mas, nos últimos 20 anos, os EUA se beneficiaram maciçamente da globalização. O país<strong>de</strong>sfrutou <strong>de</strong> um crescimento robusto, baixos índices <strong>de</strong> <strong>de</strong>semprego e inflação, e recebeu centenas<strong>de</strong> bilhões <strong>de</strong> dólares em investimentos. Suas empresas entraram em novos países e indústrias comgran<strong>de</strong> sucesso, usan<strong>do</strong> ca<strong>de</strong>ias <strong>de</strong> abastecimento e tecnologia globais para permanecer navanguarda da eficiência.Atualmente, os EUA figuram como a economia mais competitiva <strong>do</strong> globo, segun<strong>do</strong> o FórumEconômico Mundial. Suas universida<strong>de</strong>s são as melhores <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>. Em 2004, a FundaçãoNacional <strong>de</strong> Ciências afirmou que 950 mil engenheiros se formaram na China e na Índia, enquantoapenas 70 mil se graduaram nos EUA. Se você excluir os mecânicos e técnicos <strong>de</strong> carros, que sãoconta<strong>do</strong>s como engenheiros nas estatísticas chinesas e indianas, os números assumem um aspectobem diferente. Os EUA treinam mais engenheiros percapita que qualquer gigante asiático.Mas o segre<strong>do</strong> oculto <strong>do</strong>s EUA é que a maioria<strong>de</strong>sses engenheiros é imigrante. Estrangeiros eimigrantes compõem quase 50% <strong>do</strong>s pesquisa<strong>do</strong>res nopaís. Em 2006, eles receberam 40% <strong>do</strong>s ph.Ds.Quan<strong>do</strong> esses gradua<strong>do</strong>s se instalam no país, criamoportunida<strong>de</strong> econômica. Meta<strong>de</strong> das novas empresasno Vale <strong>do</strong> Silício tem um funda<strong>do</strong>r imigrante ou umamericano <strong>de</strong> primeira geração. O potencial para umnovo impulso da produtivida<strong>de</strong> americana não<strong>de</strong>pen<strong>de</strong> <strong>de</strong> nosso sistema educacional ou <strong>do</strong>s gastoscom pesquisa e <strong>de</strong>senvolvimento, mas <strong>de</strong> nossaspolíticas <strong>de</strong> imigração. Se essas pessoas tiverempermissão e forem encorajadas a ficar, a inovaçãoacontecerá aqui. Se partirem, elas a levarão junto.MARCA GLOBALSolda<strong>do</strong> chinês diante <strong>do</strong> McDonald’s. Novaspotências agora a<strong>de</strong>rem à or<strong>de</strong>m mundial, em vez <strong>de</strong>tentar <strong>de</strong>struí-la como no passa<strong>do</strong>Essa é a gran<strong>de</strong> – e potencialmente insuperável– força <strong>do</strong>s EUA. O país continua sen<strong>do</strong> a socieda<strong>de</strong> mais aberta e flexível <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>. O paísprospera com a fome e a energia <strong>de</strong> imigrantes pobres. Diante das novas tecnologias <strong>de</strong> companhiasestrangeiras, ou <strong>do</strong>s merca<strong>do</strong>s em expansão no exterior, ele se adapta e ajusta. Quan<strong>do</strong> você
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>34compara esse dinamismo com as nações fechadas e hierárquicas que no passa<strong>do</strong> foramsuperpotências, sente que os EUA são diferentes e que po<strong>de</strong>m não cair na armadilha <strong>de</strong> se tornaremricos, gor<strong>do</strong>s e preguiçosos.A socieda<strong>de</strong> americana po<strong>de</strong> se adaptar a este novo mun<strong>do</strong>. Mas o governo americanoconsegue? O paroquialismo americano está particularmente evi<strong>de</strong>nte na política externa.Economicamente, à medida que outros países crescem, to<strong>do</strong> mun<strong>do</strong> ganha. Mas a geopolítica é umaluta: à medida que outras nações se tornam mais ativas, elas buscam maior liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> ação. Issoimplica que a influência <strong>do</strong>s EUA <strong>de</strong>clinará. Em vez <strong>de</strong> ficar obceca<strong>do</strong>s com seus interesses <strong>de</strong>curto prazo, a priorida<strong>de</strong> americana <strong>de</strong>veria ser trazer as forças emergentes para o sistema global. Sea China, a Índia, a Rússia e o Brasil sentirem que participam da or<strong>de</strong>m global, haverá menos perigo<strong>de</strong> guerra, <strong>de</strong>pressão, pânicos e colapsos.Os americanos – especialmente o governo americano – não enten<strong>de</strong>ram <strong>de</strong> fato a ascensão <strong>do</strong>resto. É um <strong>do</strong>s acontecimentos mais emocionantes da História. Bilhões <strong>de</strong> pessoas escapan<strong>do</strong> dapobreza abjeta. O mun<strong>do</strong> será enriqueci<strong>do</strong> e enobreci<strong>do</strong> à medida que elas se tornaremconsumi<strong>do</strong>res, produtores, inventores, pensa<strong>do</strong>res, sonha<strong>do</strong>res, faze<strong>do</strong>res. Tu<strong>do</strong> isso estáacontecen<strong>do</strong> por causa <strong>de</strong> idéias e ações americanas. Durante 60 anos, os EUA incentivaram paísesa abrir seus merca<strong>do</strong>s, a liberar suas políticas, a abraçar o comércio e a tecnologia. Justamentequan<strong>do</strong> eles começam a fazê-lo, estamos per<strong>de</strong>n<strong>do</strong> a fé nessas idéias. Ficamos <strong>de</strong>sconfia<strong>do</strong>s <strong>do</strong>comércio, da abertura, da imigração e <strong>do</strong> investimento porque agora não se trata <strong>de</strong> americanos in<strong>do</strong>para o exterior, mas <strong>de</strong> estrangeiros in<strong>do</strong> para os EUA.Daqui a algumas gerações, quan<strong>do</strong> os historia<strong>do</strong>res escreverem sobre esses tempos, po<strong>de</strong>rãonotar que, na virada <strong>do</strong> século XXI, os EUA tiveram sucesso em sua gran<strong>de</strong> histórica missão –globalizar o mun<strong>do</strong>. Não queremos que eles escrevam que ao longo <strong>do</strong> caminho os próprios EUAesqueceram <strong>de</strong> se globalizar.Revista ÉpocaAMEAÇA GLOBAL: BANCO MUNDIAL ABRE LINHA DECRÉDITO DE US$1,2 BI PARA PAÍSES POBRESENFRENTAREM CRISE ALIMENTARONU: preços agrícolas ficarão até 50% maiores30/05/<strong>2008</strong>Relatório conjunto da FAO com a OCDE aponta responsabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> biocombustíveis noencarecimento da comidaOs preços <strong>do</strong>s produtos agrícolas vão recuar progressivamente nos próximos <strong>de</strong>z anos, mascontinuarão entre 10% e 50% acima <strong>do</strong>s valores da década passada, segun<strong>do</strong> relatório conjunto daOrganização para o Comércio e Desenvolvimento (OCDE) — que reúne os países ricos e temgran<strong>de</strong> influência sobre suas políticas — e <strong>do</strong> Fun<strong>do</strong> das Nações Unidas para Alimentos (FAO),divulga<strong>do</strong> ontem em Paris. No caso <strong>de</strong> óleos vegetais, ressalta o texto, a alta po<strong>de</strong> chegar a 80%.Isso empurrará milhões <strong>de</strong> pessoas para a fome e a <strong>de</strong>snutrição, requeren<strong>do</strong> ajuda humanitáriaurgente. O relatório afirma que os biocombustíveis têm sua parcela <strong>de</strong> culpa pela crise <strong>do</strong>salimentos.Na terça-feira, a FAO reúne em Roma 40 chefes <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong> e <strong>de</strong> governo, entre eles opresi<strong>de</strong>nte Luiz Inácio Lula da Silva, para discutir a crise alimentar no mun<strong>do</strong> e medidas <strong>de</strong>emergência. Um <strong>do</strong>s temas são os biocombustíveis. A ONG italiana Crocevia fará uma“contracúpula” para “dar voz aos pequenos produtores”.— É hora <strong>de</strong> agir — afirmou o diretor-geral da FAO, Jacques Diouf, para quem a atual crisese <strong>de</strong>ve, em parte, ao fato <strong>de</strong> os governos não terem, na última década, da<strong>do</strong> priorida<strong>de</strong> ao<strong>de</strong>senvolvimento agrícola.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>35Relatório prevê <strong>de</strong>svalorização <strong>do</strong> realO relatório alerta para o risco <strong>de</strong> agravamento da fome em vários países pobres, <strong>de</strong>scarta umadisparada inflacionária nas nações ricas por causa da alta <strong>do</strong> petróleo e prevê elevação <strong>do</strong> dólar e<strong>de</strong>svalorização das moedas <strong>de</strong> Brasil, Índia, Turquia e África <strong>do</strong> Sul a médio prazo.O <strong>do</strong>cumento aponta os biocombustíveis como uma das razões para a disparada <strong>do</strong>s preços <strong>de</strong>alimentos, refletin<strong>do</strong> as crescentes críticas na Europa ao uso <strong>de</strong>ssa fonte <strong>de</strong> energia. Também sãocita<strong>do</strong>s falta <strong>de</strong> investimentos na agricultura, mudanças climáticas e aumento da <strong>de</strong>manda poralimentos. Para FAO e OCDE, os benefícios econômicos, ambientais e <strong>de</strong> segurança energética <strong>do</strong>sbiocombustíveis “são, na melhor das hipóteses, mo<strong>de</strong>stos”. O estu<strong>do</strong> <strong>de</strong>fen<strong>de</strong> o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong>tecnologias <strong>de</strong> segunda geração, não <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes <strong>de</strong> produtos agrícolas.— Com estimativas <strong>de</strong> que a produção <strong>de</strong> biocombustíveis vai mais <strong>do</strong> que <strong>do</strong>brar nospróximos anos, a pressão exercida sobre agricultura vai se intensificar — alertou Diouf.O Brasil continuará sen<strong>do</strong> o maior produtor e exporta<strong>do</strong>r mundial <strong>de</strong> açúcar e etanol. Eseguirá ditan<strong>do</strong> o preço internacional <strong>do</strong> açúcar, diz o estu<strong>do</strong>. Com a alta <strong>do</strong> petróleo, a cana<strong>de</strong>stinada à produção <strong>de</strong> etanol passará <strong>de</strong> 51% (2007) da produção total para 66% em 2017. Masisso não afetará a produção <strong>de</strong> açúcar: o cultivo da cana <strong>de</strong>ve crescer 75% até 2017.No mun<strong>do</strong>, a produção <strong>de</strong> etanol triplicou entre 2000 e 2007, com Brasil e EUA respon<strong>de</strong>n<strong>do</strong>pela maior parte <strong>do</strong> aumento. A projeção é que chegue a 125 bilhões <strong>de</strong> litros em 2017, o <strong>do</strong>bro <strong>do</strong>registra<strong>do</strong> em 2007. Também já produzem etanol União Européia (UE), Japão, Malásia, In<strong>do</strong>nésia,África <strong>do</strong> Sul, Colômbia e Filipinas. Para OCDE e FAO, o Brasil tem o programa <strong>de</strong> etanol mais“economicamente viável”, <strong>de</strong>vi<strong>do</strong> aos baixos custos. Não é o caso <strong>do</strong>s EUA, que produzem etanol apartir <strong>de</strong> milho (cujo preço está em alta) e recorrem a pesa<strong>do</strong>s subsídios.Presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> BIRD vê oportunida<strong>de</strong> para ÁfricaO investimento nos biocombustíveis está sen<strong>do</strong> estimula<strong>do</strong> pela alta das cotações <strong>do</strong> petróleo,que <strong>do</strong>braram em um ano. Ontem, caíram mais <strong>de</strong> 3%, <strong>de</strong>vi<strong>do</strong> ao crescimento melhor que o previsto<strong>do</strong>s EUA no primeiro trimestre. O barril <strong>do</strong> tipo leve americano recuou 3,37%, para US$126,62, e o<strong>do</strong> Brent, 3,18%, para US$126,89.Na reunião em Roma, semana que vem, a FAO vai alertar para a séria ameaça que a crise <strong>do</strong>salimentos representa para 22 países, entre os quais Eritréia, Serra Leoa, Libéria, Etiópia, Haiti eNíger.Em conferência em Tóquio, o presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> Banco Mundial (BIRD), Robert Zoellick, disseque a atual crise <strong>do</strong>s alimentos po<strong>de</strong> representar uma oportunida<strong>de</strong> para os países africanos.Segun<strong>do</strong> ele, além <strong>de</strong> ter potencial para elevar a produção para aten<strong>de</strong>r a sua <strong>de</strong>manda, a Áfricatambém po<strong>de</strong>rá alimentar o mun<strong>do</strong>. O Bird anunciou ontem uma linha <strong>de</strong> crédito <strong>de</strong> US$1,2 bilhãopara os países pobres enfrentarem a crise <strong>do</strong>s alimentos.O GloboMINISTROS DE ENERGIA DIVIDIDOS SOBRE SUBSÍDIO08/06/<strong>2008</strong>Países consumi<strong>do</strong>res não chegam a consenso no Japão, mas pe<strong>de</strong>m mais investimentosOs ministros <strong>de</strong> Energia das principais nações consumi<strong>do</strong>ras <strong>de</strong> petróleo fizeram ontem umapelo por maiores investimentos no setor, porém continuaram dividi<strong>do</strong>s quanto aos subsídios aoscombustíveis concedi<strong>do</strong>s por países asiáticos, o que vem sen<strong>do</strong> consi<strong>de</strong>rada uma das razões <strong>do</strong>vertiginoso aumento da <strong>de</strong>manda mundial <strong>de</strong> petróleo. No fim <strong>de</strong> uma reunião em Aomori, noJapão, representantes <strong>de</strong> EUA, China, Índia e Coréia <strong>do</strong> Sul — que, juntos, consomem meta<strong>de</strong> <strong>do</strong>petróleo <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> — não conseguiram propor novas alternativas para lidar com a volatilida<strong>de</strong> <strong>do</strong>spreços, que na sexta-feira alcançaram patamares históricos <strong>de</strong> alta.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>36Os participantes <strong>do</strong> encontro anunciaram ter chega<strong>do</strong> a um consenso sobre a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong>maior transparência para os merca<strong>do</strong>s <strong>de</strong> energia e maior investimento por parte <strong>de</strong> produtores econsumi<strong>do</strong>res.O secretário <strong>de</strong> Energia <strong>do</strong>s EUA (posto equivalente ao <strong>de</strong> ministro), Sam Bodman, pediu quemais países aban<strong>do</strong>nem os subsídios aos combustíveis, o que vem alimentan<strong>do</strong> a <strong>de</strong>manda. Ele disseainda que não é necessária uma maior regulação <strong>do</strong> merca<strong>do</strong>, embora haja um forte componenteespeculativo nos preços atuais. Bodman advertiu que mais volatilida<strong>de</strong> virá nos preços <strong>do</strong> barril.— A <strong>de</strong>manda está aumentan<strong>do</strong> porque muitas nações ainda subdisiam o petróleo — afirmouo secretário americano, acrescentan<strong>do</strong> que um aumento da produção não vai interferir na oscilação<strong>do</strong>s preços.China e Índia elevaram os preços <strong>de</strong> combustíveis em 10%, a primeira em novembro e asegunda, na semana passada. Apesar <strong>de</strong> consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>s insuficientes por analistas, esses aumentosgeram pressão sobre a inflação internamente, daí a relutância <strong>do</strong>s países em retirar os subsídios <strong>do</strong>spreços <strong>de</strong> <strong>de</strong>riva<strong>do</strong>s <strong>de</strong> petróleo.O GloboNO 3º CHOQUE DO PETRÓLEO, 25 ANOS EM 5 MESES08/06/<strong>2008</strong>De janeiro <strong>de</strong> <strong>2008</strong> até o último dia 6, barril subiu 44%, alta que o mun<strong>do</strong> levou duasdécadas e meia para atingirO mun<strong>do</strong> já vive o terceiro choque <strong>do</strong> petróleo, 28 anos <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> ter si<strong>do</strong> abala<strong>do</strong> pela últimadisparada <strong>do</strong>s preços <strong>do</strong> barril. Mas, ao contrário <strong>do</strong>s outros, este se caracteriza por uma crise <strong>de</strong>preço, não <strong>de</strong> interrupção da oferta. De 1º <strong>de</strong> janeiro <strong>de</strong> <strong>2008</strong> até o recor<strong>de</strong> <strong>de</strong> sexta-feira passada,quan<strong>do</strong> o barril <strong>do</strong> petróleo leve americano fechou em US$138,54, sacudin<strong>do</strong> as bolsas <strong>de</strong> valores eprovocan<strong>do</strong> protestos mun<strong>do</strong> afora, a alta acumulada foi <strong>de</strong> 44,3%. Des<strong>de</strong> o segun<strong>do</strong> choque, foramprecisos 25 anos para que as cotações <strong>de</strong>ssem salto semelhante, em valores nominais. Em 1980, amédia anual <strong>de</strong> preço foi <strong>de</strong> US$36,83, passan<strong>do</strong> para US$54,52 em 2005, avanço <strong>de</strong> 48%.A discussão sobre o terceiro choque ganhou força após o analista <strong>do</strong> Goldman Sachs ArjunMurti ter previsto, em 5 <strong>de</strong> maio, que o barril po<strong>de</strong>ria chegar a US$200 até o fim <strong>do</strong> ano. Des<strong>de</strong>então, até a Agência Internacional <strong>de</strong> Energia (AIE) ressuscitou a expressão que o mun<strong>do</strong>acreditava estar enterrada. Mas poucos se arriscam a fazer previsões como a <strong>de</strong> Murti.— É difícil prever quan<strong>do</strong> po<strong>de</strong> chegar a esse patamar — disse o especialista AlexandreChequer <strong>do</strong> escritório Tauil, Chequer & Mello Advoga<strong>do</strong>s.Três fatores ausentes nos <strong>do</strong>is primeiros choques explicam, em gran<strong>de</strong> parte, a atual escalada<strong>de</strong> preços, iniciada em 2002/2003. O primeiro é a forte <strong>de</strong>manda por petróleo <strong>de</strong> países emergentes,especialmente a China. Des<strong>de</strong> 2002, quan<strong>do</strong> o mun<strong>do</strong> começou a sentir com mais intensida<strong>de</strong> aforça <strong>do</strong> crescimento chinês, a <strong>de</strong>manda <strong>de</strong> petróleo <strong>do</strong> país aumentou <strong>de</strong> 5,14 milhões <strong>de</strong> barris pordia para uma estimativa <strong>de</strong> 7,9 milhões <strong>de</strong> barris diários este ano, crescimento <strong>de</strong> 53,67%, segun<strong>do</strong>a AIE.— A <strong>de</strong>manda não cai porque está sen<strong>do</strong> puxada por países que no passa<strong>do</strong> não tinham esseconsumo, como China e Índia — diz o diretor <strong>de</strong> Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa.Além disso, lembra o especialista Adriano Pires, 51% da população mundial consomemgasolina subsidiada. Portanto, não têm preocupação em reduzir o consumo. Os outros <strong>do</strong>is fatoressão a <strong>de</strong>preciação <strong>do</strong> dólar — <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 2002, a moeda americana teve <strong>de</strong>svalorização <strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 30%— e a negociação <strong>de</strong> contratos futuros da commodity em bolsas <strong>de</strong> valores, iniciada apenas em1983.— A <strong>de</strong>svalorização <strong>do</strong> dólar mascara o aumento real <strong>do</strong> petróleo. Há ainda um fortecomponente especulativo, por causa das negociações em bolsa — afirma o consultor DavidZylbersztajn.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>37Apesar da alta <strong>de</strong> preços, dificilmente o mun<strong>do</strong> entrará em recessão, como nos <strong>do</strong>is choquesanteriores. No passa<strong>do</strong>, o salto no preço foi repentino — a cotação média anual triplicou noprimeiro choque e duplicou no segun<strong>do</strong> em 12 meses. Isso aconteceu porque houve corte <strong>de</strong>fornecimento por alguns <strong>do</strong>s principais produtores, em retaliação a conflitos políticos, o que levouos EUA a frearem o consumo <strong>de</strong> combustíveis, provocan<strong>do</strong> retração econômica.Hoje, não há falta <strong>de</strong> energia, embora o equilíbrio entre oferta e <strong>de</strong>manda esteja aperta<strong>do</strong>. E,apesar da crise financeira americana, os países emergentes conseguem manter a <strong>de</strong>manda aquecida,não apenas <strong>de</strong> petróleo como <strong>de</strong> outras commodities, evitan<strong>do</strong> que a economia mundial <strong>de</strong>saqueça.O aumento gradual <strong>de</strong> preços nos últimos anos também permitiu que o mun<strong>do</strong> se tornassemenos vulnerável, dan<strong>do</strong> tempo aos consumi<strong>do</strong>res para se adaptarem à nova realida<strong>de</strong>. Isso sereflete na mudança da matriz energética mundial. Em 1973, o petróleo respondia por 46,2% daoferta <strong>de</strong> energia <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> Em 2005, a fatia havia caí<strong>do</strong> para 35%.— Há um movimento na direção<strong>de</strong> busca por outras fontes <strong>de</strong> matéria-prima — disse o coor<strong>de</strong>na<strong>do</strong>r da comissão <strong>de</strong> plásticos daAssociação Brasileira da Indústria Química e vice-presi<strong>de</strong>nte da Braskem, Luiz <strong>de</strong> Men<strong>do</strong>nça.Brasil está menos vulnerável que na década <strong>de</strong> 80Em relação aos outros <strong>do</strong>is choques, o Brasil está hoje em uma situação bem maisconfortável. Em 1980, no segun<strong>do</strong> choque, o país importava 85% <strong>do</strong> petróleo que consumia. Doisanos <strong>de</strong>pois, o déficit na balança comercial fora <strong>de</strong> US$10 bilhões, principalmente por causa das
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>38importações <strong>de</strong> combustível. Hoje, o país é auto-suficiente, com produção diária <strong>de</strong> 1,85 milhão <strong>de</strong>barris. O déficit <strong>de</strong> petróleo e <strong>de</strong>riva<strong>do</strong>s acumula<strong>do</strong> nos quatro primeiros meses <strong>de</strong> <strong>2008</strong> é <strong>de</strong>US$550 milhões. Mas segun<strong>do</strong> Costa, da Petrobras, a balança fechará o ano com superávit.Para se ter uma idéia <strong>do</strong> impacto das importações <strong>de</strong> petróleo e <strong>de</strong>riva<strong>do</strong>s nas contas <strong>do</strong> país,em março as compras externas totalizaram US$ 20,7 bilhões. Os gastos foram amorteci<strong>do</strong>s pelasexportações no mês, <strong>de</strong> US$20,2 bilhões.— Se o país não fosse auto-suficiente em petróleo, as contas <strong>do</strong> país seriam terríveis —<strong>de</strong>stacou Costa.Apesar <strong>de</strong> menos vulnerável, o país não está imune aos efeitos <strong>do</strong> terceiro choque. De janeiroa maio, o querosene <strong>de</strong> aviação (QAV) acumula alta <strong>de</strong> 19,97%, elevan<strong>do</strong> o peso <strong>do</strong>s combustíveisno custo das empresas <strong>de</strong> 35% para 45%.— A situação é preocupante. Certamente vai haver aumento <strong>de</strong> preço nas passagens — dizJosé Márcio Mollo, presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (SNEA).O GloboEUROPAUE vai revelar nomes <strong>de</strong> quem recebe subsídio agrícola19/03/<strong>2008</strong>Europa vai finalmente abrir sua caixa preta. A partir <strong>de</strong> 2009, to<strong>do</strong>s os 27 países <strong>do</strong> blocoserão obriga<strong>do</strong>s a informar quem são as pessoas que recebem os bilionários subsídios agrícolas nocontinente. Hoje, apenas 16 países revelam quem recebe os subsídios, cria<strong>do</strong>s há mais <strong>de</strong> 40 anos.A França, maior receptora <strong>de</strong> ajuda da UE para a agricultura, consi<strong>de</strong>ra a informação como"confi<strong>de</strong>ncial" e "questão <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong>". A <strong>de</strong>cisão promete causar uma saia-justa para muitos. No anopassa<strong>do</strong>, a entida<strong>de</strong> Oxfam conseguiu confirmações <strong>de</strong> que a família real britânica estava entre os"fazen<strong>de</strong>iros" que recebiam subsídios. A própria comissária da UE para a Agricultura, MariannFischer Boel, admitiu que a fazenda <strong>de</strong> seu mari<strong>do</strong> na Dinamarca recebia recursos <strong>de</strong> Bruxelas.Em 2006, os subsídios agrícolas na UE somaram 40 bilhões <strong>de</strong> euros, cerca <strong>de</strong> 40% <strong>de</strong> to<strong>do</strong> oorçamento <strong>do</strong> bloco. "Isso é dinheiro <strong>do</strong>s contribuintes. Portanto, é importante que as pessoassaibam on<strong>de</strong> os recursos são usa<strong>do</strong>s", afirmou Mariann Fischer Boel. "A transparência também<strong>de</strong>ve ajudar na gestão <strong>do</strong>s recursos, reforçan<strong>do</strong> o controle público <strong>de</strong> como o dinheiro é usa<strong>do</strong>",disse.Agência Esta<strong>do</strong>Rússia aceita discutir transferência <strong>de</strong> tecnologia em Defesa28/04/<strong>2008</strong>No último dia 15, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, recebeuo subsecretário <strong>do</strong> Conselho da Segurança da Fe<strong>de</strong>ração da Rússia,Vladimir Nazarov, que <strong>de</strong>monstrou a disposição e o interesse russoem discutir projetos que envolvam a transferência <strong>de</strong> tecnologias emdiversas áreas da Defesa e da política espacial.Segun<strong>do</strong> ele, “temos proposta inclusive para negociartecnologias <strong>de</strong> uso dual”, uma das áreas <strong>de</strong> interesse <strong>do</strong> Ministério daDefesa. Vladimir Nazarov também assinou com o ministroExtraordinário <strong>de</strong> Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, memoran<strong>do</strong> <strong>de</strong> entendimento parainiciar as conversas sobre projetos comuns.De acor<strong>do</strong> com o Ministério da Defesa, os russos querem participar <strong>do</strong> projeto <strong>de</strong> construção<strong>do</strong> submarino <strong>de</strong> propulsão nuclear, <strong>de</strong> um caça <strong>de</strong> quinta geração, <strong>do</strong> veículo lança<strong>do</strong>r <strong>de</strong> satélites,
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>39<strong>de</strong> um sistema <strong>de</strong> posicionamento global, complementar ao GPS, e <strong>do</strong> aperfeiçoamento <strong>de</strong>blinda<strong>do</strong>s sobre rodas, entre outros.Atualmente, um piloto e um engenheiro da aeronáutica encontram-se na Rússia on<strong>de</strong> realizamtestes com helicópteros <strong>de</strong> ataque que po<strong>de</strong>m ser adquiri<strong>do</strong>s pela Força Aérea Brasileira (FAB).Essas aeronaves serão empregadas no resgate <strong>de</strong> pilotos das três forças que venham a serabati<strong>do</strong>s em combate.www.inforel.orgEuropa investiu mais no Brasil que na China em 200719/05/<strong>2008</strong>A União Européia (UE) investiu mais no Brasil que na China em 2007. Segun<strong>do</strong> da<strong>do</strong>soficiais <strong>de</strong> Bruxelas, os 27 países <strong>do</strong> bloco europeu investiram 7,1 bilhões <strong>de</strong> euros no merca<strong>do</strong>brasileiro em 2007, contra 1,8 bilhão <strong>de</strong> euros na China. Se soma<strong>do</strong>s os investimentos em HongKong aos da China, o país asiático e o Brasil praticamente empatam em termos <strong>de</strong> <strong>de</strong>stino <strong>do</strong>sinvestimentos europeus.O estoque <strong>de</strong> investimentos total da Europa na China é ainda bem superior ao que existe noBrasil, diante <strong>do</strong> fluxo acumula<strong>do</strong> nos últimos anos ao merca<strong>do</strong> asiático. Entretanto, o merca<strong>do</strong>brasileiro volta a chamar a atenção <strong>do</strong>s europeus, principalmente diante <strong>do</strong> retorno <strong>do</strong> crescimento eestabilida<strong>de</strong> da economia.Em 2006, por exemplo, os chineses atraíram 6 bilhões <strong>de</strong> euros, além <strong>de</strong> outros 3 bilhões <strong>de</strong>euros em Hong Kong. Para o Brasil, o total <strong>de</strong> investimentos foi <strong>de</strong> 5,6 bilhões <strong>de</strong> euros. Já no anopassa<strong>do</strong>, o Brasil reverteu a tendência. Só da Espanha os investimentos somaram US$ 2,5 bilhões.O Brasil, contu<strong>do</strong>, per<strong>de</strong> para a Índia, que viu os investimentos multiplica<strong>do</strong>s por <strong>de</strong>z <strong>de</strong> 2006para 2007, atingin<strong>do</strong> 10,9 bilhões <strong>de</strong> euros. Já os russos receberam investimentos <strong>de</strong> 17 bilhões <strong>de</strong>euros. Entre os Brics (bloco constituí<strong>do</strong> por Brasil, Rússia, Índia e China), portanto, o Brasil éapenas o terceiro merca<strong>do</strong> preferi<strong>do</strong> <strong>do</strong>s europeus.Nova geografiaOs da<strong>do</strong>s da UE também revelam uma nova geografia no fluxo <strong>de</strong> investimentos. Os Bricsmais que <strong>do</strong>braram seus investimentos no merca<strong>do</strong> europeu entre 2006 e 2007. Não por acaso,governos <strong>de</strong> vários países europeus acostuma<strong>do</strong>s a apenas comprar empresas estrangeiras reagiramsurpresos com a nova tendência. Alguns <strong>do</strong>s setores chegaram a clamar pela "soberania" daprodução européia.Juntos, os Brics investiram mais <strong>de</strong> 13 bilhões <strong>de</strong> euros no merca<strong>do</strong> europeu. O Brasilinvestiu quase 2 bilhões <strong>de</strong> euros, contra 9,5 bilhões <strong>de</strong> euros da Índia. China e Rússia investiramoutros 2 bilhões <strong>de</strong> euros. Em 2006, o volume investi<strong>do</strong> não chegava a 5 bilhões <strong>de</strong> euros, <strong>do</strong>s quais1,2 bilhão vinha <strong>do</strong> Brasil.Agência Esta<strong>do</strong>Um mapa que não tem sossego20/05/<strong>2008</strong>Movimentos separatistas em diferentes países ameaçam mudar outra vez a cara daEuropaNas eleições <strong>do</strong> mês passa<strong>do</strong> na Itália, a Liga Norte, que <strong>de</strong>fen<strong>de</strong> a separação entre o norte e osul <strong>do</strong> país, <strong>do</strong>brou sua votação, com relação à eleição anterior, e conquistou um papel <strong>de</strong> peso nacoligação chefiada pelo primeiro-ministro Silvio Berlusconi. Na Bélgica, teme-se que o gabineteenfim forma<strong>do</strong> em março, <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> oito meses <strong>de</strong> <strong>de</strong>sentendimento entre os flamengos <strong>do</strong> norte eos valões <strong>do</strong> sul, seja um <strong>do</strong>s últimos a segurar o país uni<strong>do</strong>. Na Espanha, fervem os nacionalismosbasco e catalão. No País Basco, está marca<strong>do</strong> para outubro um plebiscito sobre sua in<strong>de</strong>pendência.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>40Na Escócia, programou-se para 2010 um plebiscito sobre a ruptura <strong>do</strong>s laços com o Reino Uni<strong>do</strong>.As pessoas que compraram mapas novos da Europa nos últimos anos, para se pôr em dia com asmudanças no leste <strong>do</strong> continente, que se preparem: logo po<strong>de</strong>m ter <strong>de</strong> comprar outro, para seatualizar com as mudanças no la<strong>do</strong> oeste.Se há algo que soa incongruente ou, mais que isso, estapafúrdio, no mun<strong>do</strong> <strong>de</strong> hoje, é oseparatismo europeu. O continente vive seu momento máximo, na história, <strong>de</strong> paz e progresso. Aspopulações <strong>de</strong>sfrutam um bem-estar que os avós, contemporâneos da II Guerra Mundial, nem emsonhos conceberiam. Protagonizam uma experiência política, batizada primeiro <strong>de</strong> Comunida<strong>de</strong>Econômica Européia, <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> Comunida<strong>de</strong> Européia e, hoje, <strong>de</strong> União Européia, que é a maiscriativa fórmula já posta em prática no planeta para agregar economias, aproximar socieda<strong>de</strong>s econtornar históricas hostilida<strong>de</strong>s. Contra esse quadro floresce o para<strong>do</strong>xal e oposto fenômeno <strong>do</strong>levante das paróquias. "Não temos nada em comum a não ser o rei, o chocolate e a cerveja", dizFilip Dewinter, lí<strong>de</strong>r separatista flamengo. A Bélgica configura o caso mais extremo. A Espanha <strong>de</strong>alguma forma continuará a existir, mesmo que se <strong>de</strong>spreguem <strong>de</strong>la o País Basco e a Catalunha. AItália i<strong>de</strong>m, ainda que seja criada a república com nome <strong>de</strong> ópera-bufa – Padânia – preconizada pelaLiga Norte. Já a Bélgica terá necessariamente <strong>de</strong> sumir <strong>do</strong> mapa para dar lugar à Flandres <strong>do</strong>s quefalam a variante <strong>do</strong> holandês chamada flamengo e à Valônia <strong>do</strong>s que falam francês.Os separatismos <strong>de</strong>safiam a noção <strong>de</strong> que nesses lugares a história já chegara ao fim. Nãohavia nada que parecesse mais pronto e acaba<strong>do</strong>, no mapa, <strong>do</strong> que a Grã-Bretanha. Houve lá atrásbrigas como a que opôs a primeira Elizabeth da Inglaterra a sua prima Maria Stuart, rainha daEscócia, conforme bem nos ensinaram mais <strong>de</strong> uma fita <strong>de</strong> cinema, mas tu<strong>do</strong> isso fazia muitoparecia supera<strong>do</strong>, e indissolúvel o casamento que assegurava a unida<strong>de</strong> da maior das ilhasbritânicas. Eis no entanto que o nacionalismo escocês se revigora, arrebanha garotos-propagandacomo o ator Sean Connery, e torna-se uma <strong>do</strong>r <strong>de</strong> cabeça crônica para o governo <strong>de</strong> Londres. Aunificação da Itália, no século XIX, também tinha toda a aparência <strong>de</strong> um final (feliz) <strong>de</strong> história.Não mais. Na verda<strong>de</strong>, engano é pensar que exista um fim para a história. Já <strong>de</strong>veríamos estarescola<strong>do</strong>s pela queda <strong>do</strong> Muro <strong>de</strong> Berlim, que <strong>de</strong>terminou o colapso <strong>de</strong> outro mun<strong>do</strong> que parecianão apenas sóli<strong>do</strong>, mas o retrato <strong>do</strong> futuro. Não apren<strong>de</strong>mos. A tendência a achar que as coisas já secristalizaram tem o atrativo <strong>de</strong> inspirar segurança e mascarar com uma aparência <strong>de</strong> previsibilida<strong>de</strong>o mun<strong>do</strong> em que vivemos.As causas <strong>do</strong>s separatismos na Europa são tão diversas quanto são eles próprios, mas po<strong>de</strong>msei<strong>de</strong>ntificar alguns padrões. A <strong>de</strong>fesa da própria língua, e a intolerância para com a <strong>do</strong> outro, é opadrão que aproxima os separatismos da Espanha e da Bélgica. O New York Times publicourecentemente a notícia <strong>de</strong> que a pequena cida<strong>de</strong> belga <strong>de</strong> Lie<strong>de</strong>kerke, assustada com o crescentenúmero <strong>de</strong> habitantes francófonos, <strong>de</strong>terminou a exclusão das crianças que não falam flamengo dasativida<strong>de</strong>s esportivas e <strong>de</strong> lazer das escolas. No País Basco, o serviço público exige crescentemente<strong>do</strong>s servi<strong>do</strong>res o conhecimento <strong>do</strong> euskera, o idioma local, que <strong>do</strong>is terços <strong>do</strong>s próprios bascos não<strong>do</strong>minam. Outro padrão é a origem <strong>do</strong> separatismo nas regiões mais ricas, contra as mais pobres. Éo caso da Catalunha, da Flandres e <strong>do</strong> norte da Itália. As três se irmanam na alegação <strong>de</strong> que sãoobrigadas a sustentar, com os impostos que pagam ao po<strong>de</strong>r central, as populações incompetentese/ou in<strong>do</strong>lentes <strong>de</strong> outras regiões.A primeira moral <strong>de</strong>ssas histórias é que os europeus não têm razão para estranhar as disputasafricanas entre tutsis e hutus em Ruanda, quicuios e luos no Quênia, árabes e nubas no Sudão. Suaspróprias tribos não são menos incompatíveis umas com as outras. A segunda é que <strong>do</strong>s povos e <strong>do</strong>spaíses não cabe esperar que tenham encontra<strong>do</strong> o ponto final <strong>de</strong> suas histórias porque são como osindivíduos. Por mais contempla<strong>do</strong>s pela riqueza e pelo bem-estar, sempre haverá algo que osbalance. Se não há inimigos externos, inventarão inimigos <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> si mesmos. A inquietu<strong>de</strong> vigiasem <strong>de</strong>scanso para impedir a vitória <strong>do</strong> conforto que vem da riqueza e da harmonia que vem <strong>do</strong>bem-estar. Assim como não há homem pronto nem mulher pronta, também não há país pronto nempovo pronto.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>41Revista VejaREFORMA AGRÍCOLA DA UE BENEFICIA EXPORTAÇÕES DOBRASIL DE ÓLEO E CARNE25/05/<strong>2008</strong>Ministros <strong>do</strong>s 27 países <strong>do</strong> bloco se reúnem hoje para <strong>de</strong>bater propostaO Brasil será um <strong>do</strong>s beneficia<strong>do</strong>s pela reforma agrícola que a União Européia (UE) preten<strong>de</strong>implantar até 2012, na avaliação <strong>de</strong> representantes da missão brasileira em Bruxelas, capital oficial<strong>do</strong> bloco. Entre as mudanças propostas está o corte <strong>de</strong> até 22% <strong>do</strong>s subsídios diretos a produtoresagrícolas, que hoje limitam a competitivida<strong>de</strong> das exportações brasileiras. O tema será discuti<strong>do</strong> apartir <strong>de</strong> hoje pelos ministros da Agricultura <strong>do</strong>s 27 países membros da UE, reuni<strong>do</strong>s em Br<strong>do</strong>, naEslovênia. O encontro será encerra<strong>do</strong> na terça-feira.— O Brasil po<strong>de</strong>rá aumentar as suas exportações <strong>de</strong> carne e <strong>de</strong> óleos para a produção <strong>de</strong>biodiesel — disse um representante da missão brasileira em Bruxelas, ao comentar o projeto <strong>de</strong>reforma.O projeto foi proposto na semana passada pela comissária <strong>de</strong> Agricultura da UE, MariannFischer Boel. Pela proposta, os subsídios à produção nacional das 27 nações <strong>do</strong> bloco serãoreduzi<strong>do</strong>s em 13%, em média. No caso das gran<strong>de</strong>s proprieda<strong>de</strong>s agrícolas, o corte será <strong>de</strong> até 22%.As medidas ainda <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m da aprovação <strong>do</strong>s governos daqueles países para entrar em vigor.To<strong>do</strong>s os anos, a UE <strong>de</strong>stina 50 bilhões a subsídios agrícolas, ou 40% <strong>do</strong> seu orçamento, oque vem geran<strong>do</strong> críticas não só <strong>de</strong> países exporta<strong>do</strong>res para o bloco, como <strong>de</strong> organismosinternacionais. O relator especial para o Direito à Alimentação das Nações Unidas, o belga Olivier<strong>de</strong> Schutter, é um <strong>do</strong>s críticos mais vorazes por acreditar que “os subsídios arruínam a economiaagrícola <strong>do</strong>s países em <strong>de</strong>senvolvimento.”Usineiros abrem escritório em BruxelasHá anos, a UE tenta implantar uma reforma, mas ela vem encontran<strong>do</strong> resistênciasprincipalmente da França. Para que a nova versão <strong>do</strong> projeto seja aceita, diversas salvaguardas terão<strong>de</strong> ser contempladas. Ainda que o corte <strong>de</strong> 13% a 22% <strong>do</strong>s subsídios não seja consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong> bastantepor alguns, tal redução vai causar uma mudança significativa porque o merca<strong>do</strong> europeu égigantesco.— Ainda estamos analisan<strong>do</strong> os possíveis efeitos (da reforma), mas se o projeto for mesmoaprova<strong>do</strong> trará gran<strong>de</strong>s chances para as exportações brasileiras — disse o representante da missãobrasileira em Bruxelas.No Brasil, há um forte clima <strong>de</strong> expectativa em torno <strong>do</strong> projeto. A União da IndústriaAçucareira (Unica), que atua sobretu<strong>do</strong> no Su<strong>de</strong>ste <strong>do</strong> Brasil, e é uma das maiores produtoras <strong>de</strong>etanol <strong>do</strong> país, já abriu um escritório em Bruxelas para acompanhar as mudanças no setor.A expectativa se justifica porque, ao contrário <strong>do</strong> que ocorreu com as exportações <strong>de</strong> carnebrasileira — que tiveram <strong>de</strong> aten<strong>de</strong>r exigências <strong>de</strong> padrões <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong> impostos pela UE,resultan<strong>do</strong> na redução <strong>de</strong> 30% das vendas externas entre 2006 e 2007 —, no caso <strong>do</strong> álcool, o maiorobstáculo são as taxas impostas pelos europeus.No biodiesel, Alemanha é mais competitivaNo ano passa<strong>do</strong>, o Brasil exportou 500 mil metros cúbicos <strong>de</strong> etanol para a Europa, ao preço<strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 0,30 por litro. De cada 0,30, 0,19 são cobra<strong>do</strong>s como taxa <strong>de</strong> importação, o que resultaem um aumento <strong>de</strong> preço <strong>de</strong> 70%.— Uma redução da taxa teria para o Brasil um efeito muito mais promissor <strong>do</strong> que a redução<strong>do</strong>s subsídios na UE — disse o funcionário da missão em Bruxelas.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>42Além disso, estão previstas mudanças na mistura <strong>de</strong> álcool à gasolina usada pelos veículosque circulam no bloco. Hoje, essa mistura é <strong>de</strong> 2% e po<strong>de</strong> ir a 10% a partir <strong>de</strong> 2020, se a alteraçãofor <strong>de</strong> fato implantada pelos países-membros, como já <strong>de</strong>cidi<strong>do</strong>.A dinamarquesa Mariann Fischer Boel mantém-se firme nessa <strong>de</strong>cisão.— Não po<strong>de</strong>mos modificar to<strong>do</strong>s os dias as nossas metas — afirmou ela, respon<strong>de</strong>n<strong>do</strong> aoscríticos que exigem que o projeto seja anula<strong>do</strong>, com base em alegações <strong>de</strong> que osbiocombustíveispo<strong>de</strong>m levar à explosão <strong>de</strong> preços <strong>do</strong>s alimentos.Quanto ao biodiesel, a Europa está mais adiantada que o Brasil. A Alemanha é o principalprodutor <strong>de</strong> biodiesel <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>. Há no país tanques que são especializa<strong>do</strong>s no abastecimento <strong>do</strong>sautomóveis e caminhões. Mas assim mesmo esse merca<strong>do</strong> oferece chances aos brasileiros.— A Alemanha é pioneira na produção <strong>de</strong> biodiesel, mas o Brasil é altamente competitivo naprodução <strong>de</strong> óleos. Com a redução <strong>do</strong>s subsídios, o país po<strong>de</strong>rá exportar mais óleos para a produção<strong>do</strong> biodiesel na Europa — disse o representante brasileiro.Mas também há normas relativas ao biodiesel na UE que atrapalham os negócios <strong>de</strong> muitosexporta<strong>do</strong>res. A UE exige que o biodiesel tenha apenas 50% <strong>de</strong> óleo <strong>de</strong> soja, que <strong>de</strong>ve sercompleta<strong>do</strong> com canola, porque o diesel <strong>de</strong> óleo <strong>de</strong> soja puro danificaria mais facilmente os motores<strong>do</strong>s carros.O GloboAMÉRICA LATINAEstatização na Venezuela17/04/<strong>2008</strong>Na semana passada, o caudilho Hugo Chávez estatizou <strong>do</strong>is importantes setores da economiavenezuelana. Primeiro, foram as empresas produtoras <strong>de</strong> cimento. Depois, a principal empresasi<strong>de</strong>rúrgica <strong>do</strong> país, a SIDOR responsável por 85% da produção local <strong>de</strong> aço. De quebra,<strong>de</strong>sapropriou 32 fazendas <strong>de</strong> cana-<strong>de</strong>-açúcar no Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> Lara. Eram terras produtivas, que forampraticamente confiscadas para serem redistribuídas <strong>de</strong>ntro <strong>do</strong> peculiar programa <strong>de</strong> reforma agrária<strong>de</strong> Chávez, que freqüentemente presenteia parentes, amigos e apanigua<strong>do</strong>s com 'unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong>produção socialista'.A <strong>de</strong>sapropriação <strong>de</strong> terras agricultáveis foi a primeira etapa <strong>do</strong> projeto 'bolivariano' <strong>de</strong>estatização <strong>do</strong>s meios <strong>de</strong> produção. Segun<strong>do</strong> a retórica oficial, o governo está empenha<strong>do</strong> em'recuperar a proprieda<strong>de</strong> social <strong>do</strong>s meios estratégicos <strong>de</strong> produção'. Na prática, as estatizações sãofeitas <strong>de</strong> acor<strong>do</strong> com as conveniências imediatas <strong>do</strong> governo, geralmente para <strong>de</strong>sviar a atenção <strong>do</strong>público para problemas que Chávez não consegue solucionar, como a elevada inflação (22,5%, noano passa<strong>do</strong>, e 7,1%, neste primeiro trimestre), a perda <strong>do</strong> po<strong>de</strong>r aquisitivo <strong>do</strong>s trabalha<strong>do</strong>res e aescassez <strong>de</strong> produtos <strong>de</strong> primeira necessida<strong>de</strong>.No ano passa<strong>do</strong>, por exemplo, foram <strong>de</strong>sapropriadas a CanTV e a Eletricida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Caracas, asprincipais empresas <strong>de</strong> telefonia e <strong>de</strong> geração elétrica <strong>do</strong> país, mas os apagões elétricos e as falhas<strong>de</strong> comunicação não acabaram com a transferência <strong>do</strong> controle acionário <strong>de</strong>ssas empresas para oEsta<strong>do</strong>. Elas não recebiam investimentos antes, para melhorar seus serviços, e continuaram nãoreceben<strong>do</strong> investimentos <strong>de</strong>pois.Quan<strong>do</strong> houve escassez <strong>de</strong> leite, Chávez atribuiu a falta a uma conspiração capitalista e<strong>de</strong>sapropriou o maior laticínio <strong>do</strong> país. Fez o mesmo com frigoríficos. Os produtos lácteos e a carnecontinuam faltan<strong>do</strong> nos supermerca<strong>do</strong>s. Chávez também transformou a petrolífera estatal PDVSAnuma holding que controla <strong>de</strong>zenas <strong>de</strong> empresas das mais variadas ativida<strong>de</strong>s - <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o comércioatacadista <strong>de</strong> secos e molha<strong>do</strong>s até a construção <strong>de</strong> moradias -, nem por isso a escassez <strong>de</strong>ssesprodutos foi amenizada.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>43Chávez também nacionalizou os empreendimentos petrolíferos na Faixa <strong>do</strong> Orenoco. Mas aprodução total <strong>de</strong> petróleo da Venezuela continua estagnada, <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> ter sofri<strong>do</strong> uma substancialredução, porque as instalações em funcionamento não recebem manutenção a<strong>de</strong>quada e Chávez<strong>de</strong>mitiu mais <strong>de</strong> 10 mil funcionários qualifica<strong>do</strong>s da PDVSA, <strong>de</strong>pois da greve <strong>de</strong> 2002, colocan<strong>do</strong>osnuma lista negra. Como o setor está em franca expansão, a maioria <strong>do</strong>s <strong>de</strong>miti<strong>do</strong>s encontrouemprego no exterior e a PDVSA ficou sem recursos humanos treina<strong>do</strong>s.Na semana passada, o caudilho estatizou três fábricas <strong>de</strong> cimento, <strong>de</strong> proprieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> empresas<strong>do</strong> México, da França e da Suíça, que respon<strong>de</strong>m por 92% da produção <strong>do</strong> país. Argumentou quefaltava cimento na praça porque essas empresas não apenas preferiam exportar o produto a vendê-lono merca<strong>do</strong> local, como estavam montan<strong>do</strong> um cartel para elevar preços. As estatísticas <strong>do</strong> própriogoverno, no entanto, mostram que em 2007 foram exporta<strong>do</strong>s apenas 5% da produção e, nosprimeiros quatro meses <strong>de</strong>ste ano, não houve exportação. Além disso, os preços <strong>do</strong> produto sãotabela<strong>do</strong>s.Depois <strong>do</strong> cimento, foi a vez <strong>do</strong> aço. No ano passa<strong>do</strong>, Hugo Chávez iniciou o processo <strong>de</strong><strong>de</strong>sapropriação da SIDOR Adiou seus planos porque o então presi<strong>de</strong>nte Néstor Kirchner interce<strong>de</strong>uem favor da empresa, controlada por capitais argentinos. A brasileira Usiminas <strong>de</strong>tém cerca <strong>de</strong> 9%<strong>do</strong> capital da empresa. Mas agora, a <strong>de</strong>speito <strong>do</strong>s protestos <strong>de</strong> Cristina Kirchner e das associaçõesempresariais argentinas - o Brasil não se manifestou -, concluiu o processo <strong>de</strong> estatização daSIDOR.Desta vez, o pretexto para a nacionalização não foi a escassez <strong>de</strong> aço no merca<strong>do</strong> <strong>do</strong>méstico.No seu programa <strong>de</strong> rádio, Chávez <strong>de</strong>ixou claro que a <strong>de</strong>sapropriação era uma punição aplicada auma empresa que não atendia às reivindicações salariais <strong>de</strong> seus emprega<strong>do</strong>s.A truculência estatizante <strong>de</strong> Chávez <strong>de</strong>ixa cada vez mais evi<strong>de</strong>nte que seu 'socialismo <strong>do</strong>século 21' torna a Venezuela incompatível com o projeto <strong>de</strong> integração regional <strong>do</strong> MERCOSUL.O Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> São PauloHora <strong>do</strong> realismo23/04/<strong>2008</strong>O presi<strong>de</strong>nte eleito <strong>do</strong> Paraguai, Fernan<strong>do</strong> Lugo, <strong>de</strong>u duas importantes indicações: preten<strong>de</strong>fortalecer a integração com o Mercosul e estabelecer relações com a China. O Paraguai é o únicopaís da América <strong>do</strong> Sul que mantém relações com Taiwan (e não com a China). São objetivoscoerentes <strong>do</strong> ex-bispo que, após apenas oito meses <strong>de</strong> campanha, acabou com a hegemonia política<strong>de</strong> 61 anos <strong>do</strong> Parti<strong>do</strong> Colora<strong>do</strong>.Acertada também foi sua <strong>de</strong>claração <strong>de</strong> que preten<strong>de</strong> esgotar to<strong>do</strong>s os canais possíveis <strong>de</strong>diálogo acerca <strong>do</strong> preço recebi<strong>do</strong> pelo Paraguai pela energia exce<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> Itaipu vendida ao Brasil.Revisar o trata<strong>do</strong> binacional para reajustar o preço <strong>do</strong> megawatt foi o mote central da campanha <strong>de</strong>Lugo. Com o dinheiro adicional que receberia, prometeu uma série <strong>de</strong> melhorias aos eleitores.Mas agora a campanha acabou, a eleição está ganha e é tempo <strong>de</strong> realismo. O Brasil nunca senegou a dialogar sobre o trata<strong>do</strong>, mesmo porque Itaipu - a maior usina <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> em geração <strong>de</strong>energia - é binacional. Todavia, não preten<strong>de</strong> aumentar o preço pago pela energia por duas razões:1) a revisão <strong>do</strong> trata<strong>do</strong> está prevista apenas para 2023; 2) o Paraguai recebe US$2,80 por megawattporque cerca <strong>de</strong> US$40 são para pagar o serviço (juros) da dívida externa contraída para erguer ausina, os custos operacionais da empresa binacional e os royalties distribuí<strong>do</strong>s, inclusive aosparaguaios. É bom não esquecer que o gran<strong>de</strong> cre<strong>do</strong>r é o Brasil, por meio <strong>do</strong> Tesouro e a Eletrobrás,que bancaram os empréstimos para erguer a usina. Lugo sabe que o sucesso <strong>de</strong> seu governo<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>rá muito tanto <strong>do</strong> Brasil quanto da Argentina, com quem também preten<strong>de</strong> renegociar otrata<strong>do</strong> da usina <strong>de</strong> Yaciretá. Por isso, terá <strong>de</strong> ser realista em suas reivindicações.As autorida<strong>de</strong>s brasileiras, por sua vez, precisam tratar com mais cuida<strong>do</strong> <strong>do</strong> tema Itaipu. Nãotem cabimento o presi<strong>de</strong>nte Lula afirmar que o trata<strong>do</strong> não será negocia<strong>do</strong> e, no mesmo dia, o
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>44chanceler Celso Amorim afirmar o contrário. Embora ontem o Itamaraty tenha explica<strong>do</strong> que ochanceler se referiu a rever tarifas, não o trata<strong>do</strong>, a falta <strong>de</strong> precisão no trato <strong>do</strong> assunto po<strong>de</strong> criarembaraços, como no caso da nacionalização <strong>do</strong> gás da Bolívia, quan<strong>do</strong> o país e a Petrobras foramprejudica<strong>do</strong>s.Brasília <strong>de</strong>ve estar atenta também a uma eventual tentativa <strong>de</strong> Fernan<strong>do</strong> Lugo <strong>de</strong> fazer <strong>do</strong>Brasil uma espécie <strong>de</strong> "gran<strong>de</strong> coloniza<strong>do</strong>r", para unir em torno <strong>de</strong> si as forças políticasheterogêneas que compõem a coalizão que o apóia. Seria inaceitável.O GloboBachelet <strong>de</strong>fen<strong>de</strong> política <strong>de</strong> <strong>de</strong>fesa sul-americana23/04/<strong>2008</strong>Para presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> Chile, Haiti mostra potencial <strong>de</strong> trabalho conjuntoA presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> Chile, Michelle Bachelet, <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>u ontem que os países da América <strong>do</strong> Sultenham uma política comum <strong>de</strong> <strong>de</strong>fesa. A proposta foi feita durante um encontro <strong>de</strong> chefes dasForças Armadas <strong>do</strong>s países que integram o Mercosul ou são associa<strong>do</strong>s à organização, em PuertoVaras, no Chile.Bachelet foi ministra da Defesa <strong>de</strong> seu antecessor na Presidência <strong>do</strong> Chile, Ricar<strong>do</strong> Lagos, e éfilha <strong>de</strong> um briga<strong>de</strong>iro da Força Aérea. Ela usou sua experiência no cargo para convidar os lí<strong>de</strong>resmilitares sul-americanos a estudar a criação <strong>de</strong> um sistema unifica<strong>do</strong> na região.- Permitam-me que eu vista a camisa, como ex-ministra da Defesa que sou - afirmou apresi<strong>de</strong>nte chilena. - Gostaria <strong>de</strong> convidá-los para que possamos ir mais além, para que possamospensar juntos, governos e Forças Armadas, numa política comum <strong>de</strong> segurança e <strong>de</strong>fesa entre umnúmero cada vez maior <strong>de</strong> países da região.A presi<strong>de</strong>nte chilena fez a proposta no primeiro dia <strong>de</strong> reunião <strong>de</strong> três dias <strong>do</strong>s chefes dasForças Armadas <strong>de</strong> Brasil, Chile, Argentina, Bolívia, Colômbia, Equa<strong>do</strong>r, Peru, Uruguai eVenezuela. O único ausente foi o Paraguai, cuja ausência foi justificada pela cúpula <strong>de</strong>vi<strong>do</strong> àseleições presi<strong>de</strong>nciais no país.América Latina po<strong>de</strong>ria ser exemplo para o mun<strong>do</strong>Segun<strong>do</strong> Bachelet, não seria difícil conseguir criar uma política conjunta <strong>de</strong> segurança, poisos países da região já teriam <strong>de</strong>monstra<strong>do</strong> trabalhar bem juntos em missões <strong>de</strong> paz, como a atual noHaiti, li<strong>de</strong>rada pelo Brasil.- É possível (a implantação <strong>de</strong> uma política comum <strong>de</strong> <strong>de</strong>fesa) se <strong>de</strong>ixarmos <strong>de</strong> la<strong>do</strong> qualquerconsi<strong>de</strong>ração <strong>de</strong> <strong>de</strong>sconfiança, como conseguimos quan<strong>do</strong> vamos trabalhar num terceiro país queestá em conflito, como é o caso <strong>de</strong> nossos irmãos <strong>do</strong> Haiti - disse a presi<strong>de</strong>nte. - Me parece que aquina América Latina temos a oportunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> mostrar ao mun<strong>do</strong> que nossas Forças Armadas po<strong>de</strong>mser um instrumento <strong>de</strong> paz e <strong>de</strong> cooperação em benefício <strong>do</strong>s nossos próprios povos, e creio que,neste senti<strong>do</strong>, po<strong>de</strong>mos li<strong>de</strong>rar esta tarefaO GloboMorrer pela pátria23/04/<strong>2008</strong>No Paraguai, surge um novo orgulho nacional, que reivindica a revisão <strong>do</strong> acor<strong>do</strong> <strong>de</strong>Itaipu. O Brasil ce<strong>do</strong> ou tar<strong>de</strong> terá que ce<strong>de</strong>rO século XX foi a era <strong>do</strong>s extremos, no enten<strong>de</strong>r <strong>do</strong> historia<strong>do</strong>r britânico Eric Hobsbawm. Porcausa das guerras, principalmente, houve uma catástrofe humana: milhões <strong>de</strong> mortos e retrocessoem relação aos direitos humanos e civis, conquista<strong>do</strong>s durante o ‘longo século’ prece<strong>de</strong>nte, que foida Revolução Francesa (1789) à eclosão da I Guerra Mundial (1914). O nacionalismo, o fascismo e
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>45o comunismo, principalmente, protagonizaram o “breve século” <strong>do</strong>s extremos, que durou daRevolução <strong>de</strong> 1917 ao colapso da União Soviética, em <strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 1991. Só na II Guerra Mundialforam 60 milhões <strong>de</strong> mortos. Nesse perío<strong>do</strong>, por causa <strong>do</strong>s choques i<strong>de</strong>ológicos e das contradiçõessociais que os alimentavam, o Brasil atravessou várias crises políticas e <strong>do</strong>is longos perío<strong>do</strong>sautoritários, o Esta<strong>do</strong> Novo e o regime militar. Porém, não houve guerra com os vizinhos. A Guerra<strong>do</strong> Paraguai (1964-1970), o maior conflito militar <strong>do</strong> continente, ensinou as elites brasileiras amo<strong>de</strong>rar seu nacionalismo e buscar soluções pacíficas para consolidar as fronteira. Esse traumaressurge agora, na eleição <strong>do</strong> novo presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> Paraguai, o ex-bispo Fernan<strong>do</strong> Lugo, um lí<strong>de</strong>rnacionalista. Quem quiser que se iluda, para os paraguaios, a potência imperialista não são osEsta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, é o Brasil.A guerraA propósito, o Paraguai só não per<strong>de</strong>u mais territórios ao final da guerra com a TrípliceAliança (Brasil, Argentina e Uruguai) porque recebeu o apoio <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s,Ruthenford Hayes, que arbitrou as negociações com os portenhos. A Argentina ficou com asMissões e o Chaco Central. O Brasil fez um acor<strong>do</strong> em separa<strong>do</strong>, no qual anexou a região entre osrios Apa e Branco ao sul <strong>de</strong> Mato Grosso e liberou a navegação no Rio Paraguai. A dívida <strong>de</strong> guerrasó foi per<strong>do</strong>ada em 1943, por Getúlio Vargas. Em 1975, os presi<strong>de</strong>ntes Ernesto Geisel e Alfre<strong>do</strong>Stroessner, em Assunção, assinaram um Trata<strong>do</strong> <strong>de</strong> Amiza<strong>de</strong> e Cooperação. Só então Brasil<strong>de</strong>volveu seus troféus <strong>de</strong> guerra, grato pelo acor<strong>do</strong> para a construção da Usina <strong>de</strong> Itaipu, financia<strong>do</strong>inteiramente pelo governo brasileiro.É falsa a tese <strong>de</strong> que o Brasil entrou na Guerra <strong>do</strong> Paraguai por causa da Inglaterra. Na época,estávamos rompi<strong>do</strong>s com o império britânico, por causa <strong>do</strong> inábil embaixa<strong>do</strong>r Willian DougalChristie, que transformou a prisão <strong>de</strong> alguns marinheiros ingleses numa crise <strong>de</strong> canhoneiras. OBrasil entrou em guerra porque o presi<strong>de</strong>nte paraguaio Solano Lopes tinha projetos expansionistas,reagiu à intervenção brasileira no Uruguai invadin<strong>do</strong> Mato Grosso. Foi aí que os interessescomerciais ingleses entraram em campo. O Paraguai estava se industrializan<strong>do</strong> <strong>de</strong> forma autárquica,era o único país latino-americano a participar efetivamente da segunda Revolução Industrial. OBrasil sustentou a guerra sozinho, financia<strong>do</strong> pelo bancos <strong>de</strong> Londres, Barings e Rothschild. Emcinco anos, o país quebrou, o que acelerou o fim da escravidão e a própria queda <strong>do</strong> Império. Nofinal da guerra, a Argentina, o Uruguai e o próprio Paraguai também <strong>de</strong>pendiam <strong>do</strong>s empréstimosbritânicos.O espólioQuan<strong>do</strong> acabou a Guerra <strong>do</strong> Paraguai, o Exército Brasileiro era a instituição mais respeitada<strong>do</strong> Império. No começo da guerra, porém, estava <strong>de</strong>sprepara<strong>do</strong>. Reorganizou-se graças ao Duque <strong>de</strong>Caxias. Luiz Alves <strong>de</strong> Lima e Silva honrou a condição <strong>de</strong> seu patrono <strong>de</strong> espada em punho, nabatalha <strong>do</strong> Itororó. “Sigam-me os que forem brasileiros”, bra<strong>do</strong>u, aos 65 anos. Na carga <strong>de</strong>cavalaria, não morreu por pura sorte. Assunção já estava ocupada, quan<strong>do</strong> Caxias passou ocoman<strong>do</strong> das tropas para o Con<strong>de</strong> D’Eu, mari<strong>do</strong> da princesa Isabel, cuja missão era eliminarfisicamente o caudilho paraguaio, àquela altura um <strong>de</strong>safeto pessoal <strong>do</strong> sogro <strong>do</strong>m Pedro II.A caçada não poupou nem crianças, nem i<strong>do</strong>sos que resistiram em Campo Gran<strong>de</strong> (NhuGuaçu), durante a fuga <strong>de</strong>sesperada <strong>de</strong> Lopes. O Brasil só pôs fim à guerra quan<strong>do</strong> Lopes foi morto,em 1º <strong>de</strong> março <strong>de</strong> 1070, em Cerro Corá. Feri<strong>do</strong> pela lança <strong>do</strong> cabo Chico Diabo, foi fuzila<strong>do</strong>.“Morro com minha pátria”, exclamou Lopes, sem se ren<strong>de</strong>r. A <strong>do</strong>cumentação sobre a Guerra <strong>do</strong>Paraguai até hoje é um segre<strong>do</strong> <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong>. Revela as atrocida<strong>de</strong>s cometidas durante a Campanha daCordilheira, sob as or<strong>de</strong>ns <strong>do</strong> Con<strong>de</strong> D”Eu, um veterano da guerra espanhola no Marrocos. Agora, asecular humilhação paraguaia, causada pelas seqüelas da guerra, sobretu<strong>do</strong> a estagnação econômica,está sen<strong>do</strong> redimida pela vitória <strong>de</strong> Fernan<strong>do</strong> Lugo. No Paraguai, surge um novo orgulho nacional,que reivindica a revisão <strong>do</strong> acor<strong>do</strong> <strong>de</strong> Itaipu. O Brasil ce<strong>do</strong> ou tar<strong>de</strong> terá que ce<strong>de</strong>r, sob pena <strong>de</strong>reabrir velhas feridas paraguaias.Correio Braziliense
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>46A hora da mudança23/04/<strong>2008</strong>Depois <strong>de</strong> <strong>do</strong>minar o país por seis décadas, o Parti<strong>do</strong> Colora<strong>do</strong> po<strong>de</strong> per<strong>de</strong>r a eleição noParaguaiNo <strong>do</strong>mingo 20, <strong>do</strong>is milhões e oitocentos mil paraguaios terão a oportunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> mudar umcenário que há 62 anos <strong>do</strong>mina o país. Através <strong>do</strong> voto, eles po<strong>de</strong>rão tirar <strong>do</strong> Palácio <strong>de</strong> Lopez, ase<strong>de</strong> <strong>do</strong> governo <strong>do</strong> Paraguai, as cores <strong>do</strong> Parti<strong>do</strong> Colora<strong>do</strong>, que se perpetuou no po<strong>de</strong>r, manten<strong>do</strong>uma política incapaz <strong>de</strong> inserir o país no século XXI. Na última semana, a campanha eleitoral setornou agressiva, com troca <strong>de</strong> ofensas entre os candidatos e suspeitas <strong>de</strong> frau<strong>de</strong>s. Os oposicionistasFernan<strong>do</strong> Lugo-ex-bispo da Igreja Católica, liga<strong>do</strong> ao venezuelano Hugo Chávez e ao bolivianoEvo Morales – e Lino Ovie<strong>do</strong> – general da reserva e candidato mais afina<strong>do</strong> com o Brasil –acusaram o presi<strong>de</strong>nte Nicanor Duarte Frutos <strong>de</strong> pressionar funcionários públicos para que votem eparticipem <strong>do</strong>s comícios <strong>de</strong> Blanca Ovelar, a candidata <strong>do</strong>s colora<strong>do</strong>s. Asseguraram ainda que háregistros <strong>de</strong> eleitores com mais <strong>de</strong> 150 anos <strong>de</strong> ida<strong>de</strong> e que o governo estaria financian<strong>do</strong> paraguaiosresi<strong>de</strong>ntes na Argentina para que compareçam às urnas.“Há cédulas <strong>de</strong> votação já marcadas e votos compra<strong>do</strong>s. Mas enten<strong>do</strong> a situação. Quem estáno po<strong>de</strong>r há mais <strong>de</strong> 60 anos não vai admitir a <strong>de</strong>rrota tão facilmente”, diz o candidato Fernan<strong>do</strong>Lugo. O presi<strong>de</strong>nte, por sua vez, <strong>de</strong>nunciou que “pessoas <strong>de</strong> fora <strong>do</strong> país, ligadas a Lugo, estariamem Assunção para promover atos terroristas, com bombas <strong>de</strong> fabricação caseira”. É verda<strong>de</strong> que aeleição no Paraguai nunca foi tão acompanhada por observa<strong>do</strong>res internacionais. Mas, segun<strong>do</strong> ahistoria<strong>do</strong>ra e analista política Milda Rivarola, isso se <strong>de</strong>ve à possibilida<strong>de</strong> real <strong>de</strong> os colora<strong>do</strong>sper<strong>de</strong>rem a eleição. “Eles estão acostuma<strong>do</strong>s a ganhar sem maiores obstáculos e se sentemincomoda<strong>do</strong>s com os observa<strong>do</strong>res internacionais”, diz Milda.A candidata da situação sabe que o paraguaio <strong>de</strong>seja mudanças e nos últimos dias <strong>de</strong>campanha tratou <strong>de</strong> se distanciar <strong>de</strong> um governo <strong>do</strong> qual foi ministra da Educação. “O que <strong>de</strong>vemosmudar é a forma <strong>de</strong> fazer política, e não as cores <strong>de</strong> nossa ban<strong>de</strong>ira”, disse. Segun<strong>do</strong> as pesquisaseleitorais, tanto Blanca quanto Ovie<strong>do</strong> mostraram crescimento nas últimas semanas da campanha.Os números <strong>de</strong>sestabilizaram a aliança política que sustenta a candidatura <strong>de</strong> Lugo. Na semanapassada, uma reunião <strong>do</strong>s alia<strong>do</strong>s <strong>de</strong> Lugo quase terminou em pancadaria, com acusações mútuas <strong>de</strong>responsabilida<strong>de</strong> pela queda nas pesquisas. Na reta final, apenas o candidato Ovie<strong>do</strong> parecia mantera serenida<strong>de</strong>. Em seu último comício, ele assegurou ser a garantia <strong>de</strong> uma mudança sem traumas eusar <strong>de</strong> suas boas relações com o Brasil para colocar o Paraguai no rumo <strong>do</strong> <strong>de</strong>senvolvimento.Pólos opostos - O oposicionista Fernan<strong>do</strong> Lugo e a candidata <strong>do</strong> governo, Blanca Ovelar.Isto’éSinal amarelo29/04/<strong>2008</strong>A Organização <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Americanos (OEA) corre contra o relógio para promover odiálogo entre o governo central da Bolívia e o <strong>de</strong>partamento (esta<strong>do</strong>) <strong>de</strong> Santa Cruz, que nãopreten<strong>de</strong> abrir mão <strong>do</strong> referen<strong>do</strong> <strong>de</strong> autonomia marca<strong>do</strong> para o dia 4.Se não for possível um entendimento, é gran<strong>de</strong> o risco <strong>de</strong> divisão <strong>do</strong> país, ainda mais que os<strong>de</strong>partamentos <strong>de</strong> Bení, Pan<strong>do</strong> e Tarija preten<strong>de</strong>m, também, submeter ao povo seus estatutos <strong>de</strong>autonomia. Essa é a região da Meia-Lua, a leste da Bolívia. Santa Cruz é o esta<strong>do</strong> economicamentemais <strong>de</strong>senvolvi<strong>do</strong>, e Tarija tem as maiores jazidas <strong>de</strong> gás.O separatismo da Meia-Lua não é novo, mas foi impulsiona<strong>do</strong> pela eleição <strong>de</strong> Evo Morales,em 2006, <strong>do</strong> Movimento ao Socialismo (MAS) alinha<strong>do</strong> a Hugo Chávez, da Venezuela. Eleito,Morales imediatamente aplicou o chama<strong>do</strong> "kit bolivariano", um choque <strong>de</strong>stina<strong>do</strong> a "refundar o
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>47país" em vagas bases socialistas, a começar pela convocação <strong>de</strong> uma Constituinte para promulgaruma nova Carta, amplian<strong>do</strong> os po<strong>de</strong>res <strong>do</strong> chefe <strong>do</strong> Executivo.Se, na Venezuela, o socialismo bolivariano significou a substituição da velha elite políticapelo chavismo - teoricamente dan<strong>do</strong> po<strong>de</strong>r aos <strong>de</strong>scamisa<strong>do</strong>s, mas apoia<strong>do</strong> na "boliburguesia"chavista, na burocracia estatal e nos eleva<strong>do</strong>s preços <strong>do</strong> petróleo -, na Bolívia ele significaria are<strong>de</strong>nção da maioria indígena, historicamente marginalizada (Morales foi o primeiro indígena achegar à Presidência).Mas o kit não se mostrou eficaz na Bolívia, e Morales não conseguiu pôr seus planos emprática. As forças políticas tradicionais boicotaram a tal ponto a Constituinte que a votação <strong>do</strong> textofinal da Carta ocorreu num quartel militar em Sucre, <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> intensos confrontos entre estudantescontrários a Morales e a polícia.Enfraqueci<strong>do</strong>, Morales ora tenta se aproximar <strong>do</strong>s separatistas, ora recua. Ultimamente,passou a <strong>de</strong>positar na OEA a esperança <strong>de</strong> que não acabe sen<strong>do</strong> o presi<strong>de</strong>nte responsável pela<strong>de</strong>sintegração <strong>do</strong> país. As autorida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Santa Cruz já anunciaram que, após a consulta popular,passarão a a<strong>do</strong>tar "suas próprias normas", em <strong>de</strong>safio a La Paz. A última pesquisa indicou que 73%<strong>do</strong>s habitantes <strong>de</strong> Santa Cruz votariam pela autonomia.O GloboArgentina veta trigo ao Brasil, mas não à Bolívia29/04/2004País quer trocar o grão por gás boliviano e petróleo da Venezuela. Governo brasileiro vêescambo com preocupaçãoSob o argumento <strong>de</strong> que precisa aten<strong>de</strong>r a <strong>de</strong>manda interna e evitar novos aumentos nainflação, a Argentina suspen<strong>de</strong>u as exportações <strong>de</strong> trigo para o Brasil. No entanto, o país vizinhoestá disposto a trocar o produto pelo gás da Bolívia e pelo petróleo da Venezuela. A informação foiconfirmada por fontes graduadas <strong>do</strong> governo, que vêem com preocupação esse movimento. Essasfontes disseram que o escambo ainda não começou. Contu<strong>do</strong>, os argentinos já negociam combolivianos e venezuelanos essa possibilida<strong>de</strong>, por estarem preocupa<strong>do</strong>s com o abastecimento <strong>de</strong>energia no inverno, que começa <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> <strong>do</strong>is meses.Por enquanto, não existe uma orientação no governo brasileiro sobre como proce<strong>de</strong>r diante<strong>de</strong>sse impasse. Nos basti<strong>do</strong>res, a situação é consi<strong>de</strong>rada preocupante, dada a gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>pendênciaque o Brasil tem <strong>do</strong> trigo argentino e o impacto da falta <strong>do</strong> produto sobre a inflação. Os preços <strong>do</strong>pão francês, <strong>do</strong> macarrão e <strong>do</strong>s biscoitos, por exemplo, subiram em torno <strong>de</strong> 20% nos últimos 12meses.O Brasil precisa importar 70% <strong>do</strong> trigo que consome. A <strong>de</strong>manda atual é <strong>de</strong> 10,2 milhões <strong>de</strong>toneladas por ano. O estoque mundial <strong>de</strong> trigo, estima<strong>do</strong> em 112 milhões <strong>de</strong> toneladas, é o maisbaixo <strong>do</strong>s últimos 20 anos, e o preço <strong>do</strong> trigo nacional subiu 25,5% em <strong>2008</strong>. Na Argentina, o preço<strong>do</strong> produto subiu mais <strong>de</strong> 50%. Ao liberar, na semana passada, mais recursos para financiar oplantio <strong>do</strong> cereal, o governo brasileiro espera um aumento <strong>de</strong> 25% na produção este ano.Mercadante critica tratamento diferencia<strong>do</strong>Ainda assim, a situação é complicada, pois, apesar <strong>de</strong> a Câmara <strong>de</strong> Comércio Exterior(Camex) ter reduzi<strong>do</strong> a tarifa <strong>de</strong> importação <strong>de</strong> trigo a zero para uma cota <strong>de</strong> um milhão <strong>de</strong>toneladas, só foram importa<strong>do</strong>s até agora, <strong>do</strong>s EUA e <strong>do</strong> Canadá, cerca <strong>de</strong> cem mil toneladas. O altocusto <strong>do</strong> frete e os problemas <strong>de</strong> logística dificultam as compras <strong>do</strong>s países da América <strong>do</strong> Norte.- Quan<strong>do</strong> a Argentina precisou <strong>do</strong> Brasil, nós ajudamos o país vizinho. Já <strong>de</strong>ixamos <strong>de</strong>comprar trigo <strong>de</strong> outros países para manter a preferência dada à Argentina - afirmou o sena<strong>do</strong>rAloizio Mercadante (PT-SP).Eleito ontem presi<strong>de</strong>nte da representação brasileira no Parlamento <strong>do</strong> Mercosul, emMontevidéu, Mercadante citou a questão em seu discurso. Para ele, em uma união aduaneira, um
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>48parceiro não po<strong>de</strong> prejudicar os <strong>de</strong>mais sócios ou dar tratamento diferencia<strong>do</strong> a eles. Por outro la<strong>do</strong>,recentemente o Brasil disse "não" à Argentina, quan<strong>do</strong> a presi<strong>de</strong>nte daquele país, Cristina Kirchner,pediu que parte <strong>do</strong> gás natural boliviano que entra no merca<strong>do</strong> brasileiro fosse cedi<strong>do</strong> aosargentinos.Ontem, o governo brasileiro autorizou o envio <strong>de</strong> energia ao merca<strong>do</strong> argentino, como faztradicionalmente nesta estação <strong>do</strong> ano. A medida foi acertada durante uma visita <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte LuizInácio Lula da Silva, no início <strong>de</strong> <strong>2008</strong>, a Buenos Aires. Os argentinos pe<strong>de</strong>m 1.500 megawatts(MW) a partir <strong>de</strong> junho, mas a quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> energia ainda está sen<strong>do</strong> negociada. De acor<strong>do</strong> comfontes <strong>do</strong> governo que estão trabalhan<strong>do</strong> diretamente no assunto, a idéia é que o volume envia<strong>do</strong>seja <strong>de</strong>volvi<strong>do</strong> pela Argentina entre os meses <strong>de</strong> setembro e novembro. Esse tipo <strong>de</strong> troca jáaconteceu outras vezes, sen<strong>do</strong> o melhor caminho consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong> pelos técnicos brasileiros.- Quem garante que, se formos negociar a troca <strong>de</strong> energia por trigo, os argentinos vãoconseguir nos pagar <strong>de</strong>pois, com tanta oscilação nesse merca<strong>do</strong>? - indagou uma fonte.Envio <strong>de</strong> energia à Argentina pelo Brasil será <strong>de</strong>bati<strong>do</strong>O fornecimento <strong>de</strong> energia à Argentina pelo Brasil será discuti<strong>do</strong> na próxima sexta-feira, emreunião em Brasília entre os ministros <strong>de</strong> Minas e Energia, Edison Lobão, e o titular da pasta <strong>de</strong>Planejamento argentino, Julio <strong>de</strong> Vi<strong>do</strong>. No entanto, uma <strong>de</strong>cisão final sobre o volume a ser envia<strong>do</strong>não <strong>de</strong>verá ser tomada no encontro.Internamente, a discussão é sobre como proce<strong>de</strong>r com as termelétricas. O tema seria aborda<strong>do</strong>hoje, em reunião <strong>do</strong> Comitê <strong>de</strong> Monitoramento <strong>do</strong> Setor Elétrico (CMSE), mas esta acabou sen<strong>do</strong>adiada para o próximo dia 5. Existe uma recomendação para que todas as usinas termelétricasmovidas a óleo sejam <strong>de</strong>sligadas. As oito térmicas representam 1.200MW e <strong>de</strong>vem ser as primeirasa serem <strong>de</strong>sativadas, <strong>de</strong>vi<strong>do</strong> ao alto custo <strong>de</strong> geração.Des<strong>de</strong> a semana passada, algumas <strong>de</strong>las já estavam <strong>de</strong>sligadas, como William Arjona (PR) eXavantes (GO).O GloboBrasil quer Conselho <strong>de</strong> Defesa como porta-voz da América <strong>do</strong>Sul28/04/<strong>2008</strong>O ministro da Defesa, Nelson Jobim, viajou neste <strong>do</strong>mingo para a Colômbia e Equa<strong>do</strong>r. Nestasegunda-feira, ele tem encontros com o chanceler colombiano Fernan<strong>do</strong> Araújo Per<strong>do</strong>mo, oministro da Defesa, Juan Manuel Santos Cal<strong>de</strong>rón e o presi<strong>de</strong>nte Álvaro Uribe.Na terça, 29, Jobim estará em Quito on<strong>de</strong> tem reuniões com os ministros da Defesa <strong>do</strong>Equa<strong>do</strong>r, Javier Ponce Cevallos, e <strong>de</strong> Segurança Interna e Externa, Gustavo Larrea. Ele encerra avisita numa reunião com o presi<strong>de</strong>nte equatoriano Rafael Correa. Nos <strong>do</strong>is países, vai formalizar acriação <strong>do</strong> Conselho Sul-Americano <strong>de</strong> Defesa.Nos dias 21 e 22, Jobim esteve na Guiana e Suriname, on<strong>de</strong> apresentou a proposta brasileira.Mais uma vez, o ministro negou que o futuro mecanismo atuaria como uma aliança militarconvencional, nos mol<strong>de</strong>s da OTAN, por exemplo.Segun<strong>do</strong> ele, "nenhum país da América <strong>do</strong> Sul po<strong>de</strong> falar em nome da América <strong>do</strong> Sul.Somente a integração <strong>de</strong> to<strong>do</strong>s os países po<strong>de</strong>ria produzir essa voz mais forte da região".Para o ministro, o Conselho po<strong>de</strong>rá atuar como porta-voz da região junto à comunida<strong>de</strong>internacional. "Não se trata <strong>de</strong> uma aliança militar, é uma tentativa <strong>de</strong> integração <strong>do</strong> pensamento <strong>de</strong>Defesa, para discutir as realida<strong>de</strong>s e necessida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> Defesa que os países tenham em comum",afirmou. Ele se reuniu com os presi<strong>de</strong>ntes da Guiana, Bharrat Jag<strong>de</strong>o, e <strong>do</strong> Suriname, RonaldVenetiaan.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>49Nelson Jobim já esteve com a ministra da Defesa da Argentina e com o presi<strong>de</strong>ntevenezuelano Hugo Chávez, que recebeu a proposta com simpatia. O objetivo <strong>do</strong> Brasil é aprofundaresse <strong>de</strong>bate na reunião da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL), que será realizada emBrasília, no dia 23 <strong>de</strong> maio.O ministro esclareceu às autorida<strong>de</strong>s da Guiana e Suriname, que o Conselho <strong>de</strong>verá ter comoprincípio a não intervenção e o respeito à soberania <strong>de</strong> cada país, à auto<strong>de</strong>terminação <strong>do</strong>s povos e àintegrida<strong>de</strong> territorial, fundamentos da Constituição brasileira.Além disso, reforçou que o mecanismo <strong>de</strong>verá envolver as três vertentes da região:amazônica, andina e platina. Para Jobim, a participação <strong>de</strong> países como Guiana e Suriname,agregaria a experiência caribenha <strong>de</strong>sses países.ObjetivosDe acor<strong>do</strong> com o ministério da Defesa, a proposta brasileira preten<strong>de</strong> gerar maior confiançano campo militar e estratégico sul-americano, o que po<strong>de</strong>rá ser alcança<strong>do</strong> com a intensificação <strong>do</strong>intercâmbio <strong>de</strong> ensino militar; a participação comum em missões <strong>de</strong> manutenção <strong>de</strong> paz; a ajuda aregiões afetadas por <strong>de</strong>sastres naturais; a realização <strong>de</strong> exercícios militares conjuntos; e a integraçãodas bases industriais <strong>de</strong> Defesa da região.Para o ministro da Defesa, a região precisa aumentar sua autonomia quanto aos suprimentosnecessários para as suas Forças Armadas, o que requer maior capacitação tecnológica.Além disso, o Conselho Sul-Americano <strong>de</strong> Defesa vai promover o <strong>de</strong>bate acerca <strong>de</strong> temascomuns, na busca por posições consensuais da América <strong>do</strong> Sul nos foros multilaterais, como a JuntaInteramericana <strong>de</strong> Defesa (JID), vinculada à Organização <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Americanos (OEA).O subsecretário <strong>do</strong> Conselho da Segurança da Fe<strong>de</strong>ração da Rússia, Vladimir Nazarov, queesteve em Brasília, no dia 15, também discutiu a criação <strong>do</strong> Conselho Sul-Americano <strong>de</strong> Defesa,com o ministro Nelson Jobim.Jobim repetiu que o futuro mecanismo não funcionará como uma aliança militar clássica, nosmol<strong>de</strong>s da Organização <strong>do</strong> Trata<strong>do</strong> <strong>do</strong> Atlântico Norte (Otan).Segun<strong>do</strong> o Ministério da Defesa, a Rússia apóia a proposta brasileira por enten<strong>de</strong>r que oConselho vai aumentar a confiança e a transparência entre os países da América <strong>do</strong> Sul.www.inforel.orgPaíses assinarão trata<strong>do</strong> para integração da América <strong>do</strong> Sul19/05/<strong>2008</strong>Chefes <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong> se reúnem sexta-feira em Brasília para dar forma à UNASULEm meio a novos atritos nas relações Colômbia-Venezuela, os chefes <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong> <strong>do</strong>s 12 paísesda América <strong>do</strong> Sul assinarão na próxima sexta-feira, em Brasília, o trata<strong>do</strong> que criará o arcabouçojurídico para a integração regional. Engaveta<strong>do</strong> por quatro meses, o <strong>do</strong>cumento constitutivo daUnião Sul-Americana <strong>de</strong> Nações (UNASUL) flexibiliza uma fórmula que está na raiz da <strong>de</strong>bilida<strong>de</strong><strong>de</strong> outros processos políticos e comerciais da região - a tomada <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões com base no consenso.Os projetos propostos po<strong>de</strong>rão ser inicia<strong>do</strong>s por um grupo menor <strong>de</strong> países, com sua posteriorextensão aos <strong>de</strong>mais. Esse será o caso <strong>do</strong> Banco <strong>do</strong> Sul, que está em negociação por apenas sete <strong>do</strong>s12 membros da UNASUL.A cúpula <strong>de</strong> Brasília será o primeiro encontro exclusivamente <strong>de</strong> lí<strong>de</strong>res sul-americanos <strong>de</strong>s<strong>de</strong>a eclosão da crise entre Colômbia, Equa<strong>do</strong>r e Venezuela, em janeiro passa<strong>do</strong>, e <strong>do</strong>s novos ataques<strong>do</strong> venezuelano Hugo Chávez a Bogotá, na última semana. O encontro ocorrerá à sombra <strong>do</strong>sindícios encontra<strong>do</strong>s pela Interpol <strong>de</strong> colaboração <strong>do</strong>s governos venezuelano e equatoriano com asForças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).Até a última sexta-feira, os presi<strong>de</strong>ntes <strong>de</strong> 11 países haviam se comprometi<strong>do</strong> a comparecer -inclusive Chávez e o colombiano Álvaro Uribe. Apenas o presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> Peru, Alan García, nãohavia confirma<strong>do</strong> presença e po<strong>de</strong>ria enviar um representante.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>50Segun<strong>do</strong> o embaixa<strong>do</strong>r Ênio Cor<strong>de</strong>iro, subsecretário para Assuntos <strong>de</strong> América <strong>do</strong> Sul <strong>do</strong>Itamaraty, o trata<strong>do</strong> constitutivo <strong>de</strong>fine cerca <strong>de</strong> 30 objetivos estratégicos e uma estrutura assentadasobre uma secretaria-executiva, com se<strong>de</strong> em Quito, e um Conselho <strong>de</strong> Delega<strong>do</strong>s como instância<strong>de</strong>cisória, com representantes <strong>do</strong>s 12 países. Haverá ainda uma secretaria financeira. A presidênciaserá rotativa entre os países-membros, por 12 meses. A cada ano, os lí<strong>de</strong>res <strong>do</strong>s 12 países sereunirão para <strong>de</strong>liberar sobre os projetos da Unasul e discutir os dilemas políticos regionais.O anúncio <strong>do</strong> Plano <strong>de</strong> Ação da Unasul - um conjunto <strong>de</strong> projetos prioritários para as áreas <strong>de</strong>infra-estrutura, energia, educação, social e financeira - <strong>de</strong>verá ficar para o segun<strong>do</strong> semestre. Até lá,a expectativa <strong>do</strong> Itamaraty é que o cenário político sul-americano esteja suficientemente<strong>de</strong>sanuvia<strong>do</strong> para o Plano <strong>de</strong> Ação ser concluí<strong>do</strong> e anuncia<strong>do</strong> na Colômbia, na terceira reuniãoordinária da UNASUL.Marcada originalmente para janeiro, a cúpula em Cartagena das Índias foi atropelada pelacrise provocada pela ação militar colombiana no Equa<strong>do</strong>r, que resultou na morte <strong>do</strong> lí<strong>de</strong>r das Farc,Raúl Reyes, e ainda não completamente sepultada. Fontes <strong>do</strong> Itamaraty avaliam que a Unasul<strong>de</strong>verá tornar-se o canal privilegia<strong>do</strong> para contornar imbróglios na regiãoJornal <strong>do</strong> BrasilLugo insiste em revisão <strong>do</strong> Trata<strong>do</strong> <strong>de</strong> Itaipu16/05/<strong>2008</strong>O presi<strong>de</strong>nte eleito <strong>do</strong> Paraguai, Fernan<strong>do</strong> Lugo, participou da V Cúpula América Latina-Caribe – União Européia (ALC-UE) e revelou que preten<strong>de</strong> promover uma reforma agrária integrala partir <strong>de</strong> 16 <strong>de</strong> agosto quan<strong>do</strong> toma posse no cargo. A revisão <strong>do</strong> Trata<strong>do</strong> <strong>de</strong> Itaipu também estáno topo <strong>de</strong> suas priorida<strong>de</strong>s.Nesta sexta-feira Lugo se reuniu com o presi<strong>de</strong>nte Luiz Inácio Lula da Silva a quem disse queo Paraguai vai continuar brigan<strong>do</strong> por uma revisão <strong>do</strong> acor<strong>do</strong>. Segun<strong>do</strong> ele, o acor<strong>do</strong> <strong>de</strong> 1975 <strong>de</strong>veser atualiza<strong>do</strong> e ao menos o preço da energia revendida ao Brasil terá <strong>de</strong> ser reajusta<strong>do</strong>.Lugo explicou que o Paraguai não vai abrir mão <strong>de</strong> cobrar um preço mais justo pela energiaque reven<strong>de</strong> ao Brasil. Garcia <strong>de</strong>verá reunir-se com integrantes <strong>do</strong> futuro governo paraguaio paranegociar um encontro entre os <strong>do</strong>is presi<strong>de</strong>ntes quan<strong>do</strong> o tema será trata<strong>do</strong>.Em entrevista coletiva oferecida após o encontro, Fernan<strong>do</strong> Lugo explicou que “nenhum paísentrega seu bem natural a preço <strong>de</strong> custo. A Venezuela não ven<strong>de</strong> petréleo a preço <strong>de</strong> custo, mas apreço <strong>de</strong> merca<strong>do</strong>. O Chile faz o mesmo com o cobre e a Bolívia com o gás. O Paraguai é um <strong>do</strong>spoucos países que entrega sua energia a preço <strong>de</strong> custo”.Fernan<strong>do</strong> Lugo <strong>de</strong>verá comparecer à Cúpula da União das Nações Sul-Americanas(UNASUL), que será realizada em Brasília em 23 <strong>de</strong> maio, quan<strong>do</strong> preten<strong>de</strong> dar continuida<strong>de</strong> àsdiscussões com o governo brasileiro sobre o tema.Ele preten<strong>de</strong> fechar um acor<strong>do</strong> que possa ser anuncia<strong>do</strong> até o dia em que será empossa<strong>do</strong>. Oassessor internacional da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia garantiu que o temaItaipu não chegou a ser trata<strong>do</strong> na reunião.Garcia enfatizou que o Brasil vai trabalhar para ajudar o Paraguai a partir <strong>do</strong> incremento dacooperação entre os <strong>do</strong>is países. Lula já havia dito que o Brasil não preten<strong>de</strong> rever o trata<strong>do</strong>enquanto o chanceler Celso Amorim abriu essa possibilida<strong>de</strong> logo após a eleição <strong>de</strong> Lugo.Brasil e Paraguai também <strong>de</strong>vem discutir a situação <strong>do</strong>s chama<strong>do</strong>s “brasiguaios”, brasileirosque vivem <strong>do</strong> outro la<strong>do</strong> da fronteira. A maioria <strong>de</strong>les em situação ilegal.www.inforel.org
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>51Brasil e Peru aprofundam cooperação16/05/<strong>2008</strong>Neste sába<strong>do</strong> o presi<strong>de</strong>nte Luiz Inácio Lula da Silva participa <strong>de</strong> um seminário empresarialem Lima, segui<strong>do</strong> <strong>de</strong> um encontro bilateral com o presi<strong>de</strong>nte Alan Garcia. Com cerca <strong>de</strong> 28 milhões<strong>de</strong> habitantes, o Peru está entre os países que mais crescem na América Latina.Em seu segun<strong>do</strong> mandato, Alan Garcia foi bastante elogia<strong>do</strong> por chefes <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong> e <strong>de</strong>Governo da União Européia.Em 2003, Brasil e Peru firmaram mais <strong>de</strong> 30 acor<strong>do</strong>s e na vista que Garcia fez ao Brasil em2006, foram assina<strong>do</strong>s convênios <strong>de</strong> cooperação nas áreas <strong>de</strong> energia, programas sociais, educação,saú<strong>de</strong> e <strong>de</strong>fesa.O fluxo comercial entre os <strong>do</strong>is países gira em torno <strong>de</strong> US$ 3,4 bilhões e o Brasil é o terceiroparceiro comercial <strong>do</strong> Peru, que cresceu 8,3% em maio <strong>de</strong> 2007, em comparação com o mesmoperío<strong>do</strong> <strong>de</strong> 2006.Além <strong>do</strong> TLC com a União Européia, o Peru negocia trata<strong>do</strong>s <strong>de</strong> livre comércio com Chile,Cingapura, México e Tailândia. Em julho <strong>de</strong> 2007, iniciou as negociações sobre um trata<strong>do</strong> <strong>de</strong> livrecomércio com o Canadá.Esta é a quarta visita <strong>de</strong> Lula ao Peru. Em 2003, os <strong>do</strong>is países lançaram uma aliançaestratégica, com um conjunto <strong>de</strong> projetos econômicos e comerciais, <strong>de</strong>stacan<strong>do</strong>-se a construção daponte sobre o rio Acre, entre Assis Brasil e Iñapari, a construção da ro<strong>do</strong>via interoceânica (com milquilômetros entre Iñapari e os portos <strong>de</strong> Ilo, Matarani e San Juan, com uma extensão total <strong>de</strong> 2.600Km. Cerca <strong>de</strong> 1.600 já finaliza<strong>do</strong>s no território brasileiro, nos esta<strong>do</strong>s <strong>do</strong> Acre, Rondônia e MatoGrosso) e a estrada Tarapoto-Yurimaguas.O Peru quer ven<strong>de</strong>r gás ao Brasil e Garcia apóia a expansão da Petrobras no país, on<strong>de</strong>mantém um pólo petroquímico que vai receber cerca <strong>de</strong> US$ 3,3 bilhões <strong>de</strong> investimentos.Além disso, o Peru participa da Minustah e apóia o ingresso <strong>do</strong> Brasil como membropermanente <strong>do</strong> Conselho <strong>de</strong> Segurança da ONU.Em 2006, o Brasil exportou para o Peru US$ 1,5 bilhão e importou US$ 789 milhões, sen<strong>do</strong> odécimo <strong>de</strong>stino das exportações peruanas e o terceiro maior exporta<strong>do</strong>r para aquele país. O primeiroexporta<strong>do</strong>r para o Peru são os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>swww.inforel.orgA influência da Cultura na integração <strong>do</strong> MERCOSUL29/03/<strong>2008</strong>Este artigo tem por objetivo apresentar algumas consi<strong>de</strong>raçõesacerca da influência da cultura na integração <strong>do</strong> MERCOSUL(Merca<strong>do</strong> Comum <strong>do</strong> Sul) a partir <strong>de</strong> um estu<strong>do</strong> <strong>do</strong>s aspectoscomuns e <strong>do</strong>s aspectos distintos entre seus países membros, em meioà importância <strong>de</strong> se reforçar as igualda<strong>de</strong>s e diminuir as diferençasentre os mesmos.IntroduçãoIndubitavelmente, nos dias <strong>de</strong> hoje, é comum que países cominteresses comuns, e, normalmente próximos regionalmente, formemalianças ou ainda blocos <strong>de</strong> integração econômica, assim como é ocaso <strong>do</strong> MERCOSUL. Paralelamente, outras áreas <strong>de</strong> entendimento(que não a econômica) vão sen<strong>do</strong> incorporadas ao bloco, <strong>de</strong>ntre elas a cultura.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>52No próprio Trata<strong>do</strong> <strong>de</strong> Assunção po<strong>de</strong>-se verificar a vonta<strong>de</strong> política <strong>do</strong>s países membros emestabelecer bases para uma união cada vez mais estreita entre seus povos, como meio, inclusive, <strong>de</strong>se atingir os objetivos <strong>de</strong>scritos no referi<strong>do</strong> trata<strong>do</strong>.A cultura é entendida como o conjunto <strong>de</strong> valores <strong>de</strong> <strong>de</strong>termina<strong>do</strong> povo, sen<strong>do</strong> compreendidasneste conjunto, características como: passa<strong>do</strong> histórico, língua, religião, hábitos e costumes,composição da população, educação, música, gastronomia, entre outras.E, a partir <strong>de</strong>ste conjunto <strong>de</strong> valores é que uma i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> cultural é formada. Quan<strong>do</strong> se falana criação <strong>de</strong> uma i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> comum a um bloco, como no caso <strong>do</strong> Mercosul, é necessário reforçaras igualda<strong>de</strong>s e diminuir as diferenças entre as i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong>s nacionais preexistentes.Para tanto, os valores alheios <strong>de</strong>vem ser respeita<strong>do</strong>s e os aspectos comuns <strong>de</strong>vem serotimiza<strong>do</strong>s. A seguir será apresenta<strong>do</strong> então, um estu<strong>do</strong> contemplan<strong>do</strong> as característicasmencionadas anteriormente.1. Estu<strong>do</strong> das Características <strong>do</strong>s Países Membros <strong>do</strong> MERCOSULVoltan<strong>do</strong> a atenção para o passa<strong>do</strong> histórico <strong>do</strong>s países membros <strong>do</strong> MERCOSUL, po<strong>de</strong>m serobservadas algumas semelhanças.A partir <strong>de</strong> 1.500 – época em que seus territórios começaram a ser explora<strong>do</strong>s – até princípios<strong>do</strong> século XIX – quan<strong>do</strong> suas colônias tornaram-se in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes , eles sofreram com severasrestrições impostas por suas respectivas metrópoles européias, e, mesmo quan<strong>do</strong> se tornaramin<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes as comemorações vieram acompanhadas <strong>de</strong> dificulda<strong>de</strong>s: instabilida<strong>de</strong> econômica ecrises políticas internas, ocasionadas pelos gastos <strong>de</strong>ixa<strong>do</strong>s pelas coroas espanholas e pela coroaportuguesa.O processo <strong>de</strong> industrialização iniciou-se com bastante atraso e só a partir <strong>de</strong> mea<strong>do</strong>s <strong>do</strong>século XX pu<strong>de</strong>ram contar com a entrada <strong>de</strong> capital estrangeiro.No que diz respeito às línguas faladas no bloco, são i<strong>de</strong>ntificadas como oficiais o espanhol, oportuguês e o guarani.Do total <strong>de</strong> cinco países (consi<strong>de</strong>ran<strong>do</strong> aqui a Venezuela, em processo <strong>de</strong> a<strong>de</strong>são ao bloco)quatro tem como língua oficial o espanhol. Para reduzir esta diferença, o governo brasileiro temprojeto <strong>de</strong> tornar obrigatório na gra<strong>de</strong> <strong>de</strong> ensino brasileira o ensino <strong>do</strong> espanhol, sen<strong>do</strong> o idiomaatualmente já ensina<strong>do</strong> por instituições privadas.Na Argentina, o ensino <strong>do</strong> português já foi incorpora<strong>do</strong> nas gra<strong>de</strong>s <strong>de</strong> algumas instituições <strong>de</strong>ensino. Tanto no Brasil quanto na Argentina também são exibi<strong>do</strong>s na televisão programas queestimulam o ensino <strong>do</strong>s <strong>do</strong>is idiomas.Passan<strong>do</strong> para a religião, nota-se que a maioria da população <strong>de</strong> cada país membro é católica.Logo, na criação <strong>de</strong> uma i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> comum ao bloco não haveria conflito <strong>de</strong> or<strong>de</strong>m religiosa.Os hábitos e costumes <strong>do</strong> povo “mercosulino” também são semelhantes: ir a praia, fazer<strong>de</strong>sfiles <strong>de</strong> carnaval, sair para dançar, se reunir com amigos em barzinhos, ir ao teatro, ir ao cinema,ir a espetáculos esportivos, tomar chimarrão, entre outros.A saudação também é muito parecida: mulheres são saudadas com um beijo no rostoenquanto os homens são sauda<strong>do</strong>s com um aperto <strong>de</strong> mão. Depen<strong>de</strong>n<strong>do</strong> <strong>do</strong> grau <strong>de</strong> afetivida<strong>de</strong>, umhomem po<strong>de</strong> também saudar outro com um beijo no rosto.Pensan<strong>do</strong> na composição da população, nota-se que a principal herança étnica foi <strong>de</strong>ixadapelos <strong>de</strong>scen<strong>de</strong>ntes <strong>de</strong> portugueses, espanhóis, negros africanos e índios.No que diz respeito à educação, nota-se uma gran<strong>de</strong> oscilação. Enquanto na Uruguai o índice<strong>de</strong> analfabetismo é <strong>de</strong> apenas 2,4% e o ensino cobre o número total <strong>de</strong> <strong>de</strong>mandantes no país(inclusive no ensino superior), no Paraguai o índice <strong>de</strong> analfabetismo é <strong>de</strong> 6,7% e o ensino nãocobre toda a população <strong>do</strong> país.Para diminuir esta diferença, o Sena<strong>do</strong> brasileiro propôs um projeto em setembro <strong>de</strong> 2007para a criação <strong>de</strong> um fun<strong>do</strong> especial <strong>do</strong> bloco, <strong>de</strong>stina<strong>do</strong> a financiar a educação fundamental.Também está sen<strong>do</strong> estuda<strong>do</strong> projeto da criação <strong>de</strong> uma Universida<strong>de</strong> <strong>do</strong> MERCOSUL, com pelomenos um campus em cada país membro.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>53Voltan<strong>do</strong> a atenção para a música, po<strong>de</strong>-se observar que cada país tem sua particularida<strong>de</strong>(como a MPB mo Brasil), mas, também po<strong>de</strong>m ser observadas algumas semelhanças, como porexemplo: o tango, a guarânia e músicas internacionais, bem como as próprias versões <strong>do</strong>s membrossobre estas últimas.Passan<strong>do</strong> para a gastronomia, po<strong>de</strong>m ser observa<strong>do</strong>s ingredientes comuns provenientes daagricultura da região: milho, pimentão, mandioca, pimenta, alho, cereais, entre outros.Também existem pratos e bebidas em comum: chipas, empanadas, pizzas, <strong>do</strong>ce <strong>de</strong> leite,alfajor, <strong>do</strong>ce <strong>de</strong> mel <strong>de</strong> cana com queijo, goiabada, churrasco, chimarrão e vinhos.ConclusãoCom a assinatura <strong>do</strong> Trata<strong>do</strong> <strong>de</strong> Assunção, os países membros não tinham objetivosmeramente mercantilistas.Eles almejavam também acelerar o processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento econômico com justiçasocial, sobretu<strong>do</strong> melhorar as condições <strong>de</strong> vida <strong>de</strong> seus habitantes.Não se trata então <strong>de</strong> integrar apenas países, mas <strong>de</strong> integrar povos também. Nesse contexto,não haveria integração caso os países membros não estivessem dispostos ao menos a compartilharsuas culturas.A cultura, bem como a criação <strong>de</strong> uma i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> comum, constituem elemento estratégico naformulação <strong>de</strong> políticas <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento regional e contribuem, <strong>de</strong>ssa forma, para oaprofundamento da integração.É como se a cultura constituísse matéria-prima para a aceleração <strong>de</strong> processos <strong>de</strong> integraçãoregional. Quan<strong>do</strong> as pessoas <strong>de</strong> um país percebem que tem seus valores respeita<strong>do</strong>s, as razões paraas barreiras físicas <strong>de</strong>saparecem.Diante <strong>de</strong> uma i<strong>de</strong>ntida<strong>de</strong> comum já criada, os conflitos passarão cada vez mais longe <strong>do</strong>bloco e a integração será mais profunda e mais acentuada.Talita da Silva – www.inforel.orgImpactos da autonomia para a Bolívia15/05/<strong>2008</strong>O referen<strong>do</strong> <strong>de</strong> autonomia realiza<strong>do</strong> no <strong>de</strong>partamento boliviano<strong>de</strong> Santa Cruz <strong>de</strong> la Sierra, abriu um gran<strong>de</strong> e importante <strong>de</strong>bate napolítica boliviana.A questão da autonomia <strong>do</strong>s <strong>de</strong>partamentos já vinha sen<strong>do</strong>discutida <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que o atual presi<strong>de</strong>nte Evo Morales foi eleito, em2005.Em mea<strong>do</strong>s <strong>de</strong> 2006 Evo Morales, aten<strong>de</strong>n<strong>do</strong> aos apelos <strong>de</strong>importantes setores sociais, principalmente nos <strong>de</strong>partamentos queconstituem a região chamada <strong>de</strong> meia-lua (Santa Cruz, Pan<strong>do</strong>, Beni eTarija), promoveu um referen<strong>do</strong> em to<strong>do</strong> o país para mensurar oapoio da população boliviana a um projeto <strong>de</strong> autonomia<strong>de</strong>partamental.O resulta<strong>do</strong> foi sem gran<strong>de</strong>s surpresas. Uma ligeira maioria (pouco mais <strong>de</strong> 50%) votoucontra um projeto <strong>de</strong> autonomia, contu<strong>do</strong> nos quatro <strong>de</strong>partamentos que constituem a meia-lua, osim (a favor da autonomia) obteve vitória.O resulta<strong>do</strong>, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> já, mostrava que a população boliviana estava bastante polarizada e que aquestão da autonomia estava longe <strong>de</strong> estar resolvida.Nos meses que se seguiram as discussões sobre a autonomia não avançaram muito, sobretu<strong>do</strong>na Assembléia Constituinte, on<strong>de</strong> a nova constituição vinha sen<strong>do</strong> elaborada.No final <strong>de</strong> 2007 o texto final da nova Constituição foi aprova<strong>do</strong> em um episódio muitocomplica<strong>do</strong>, pois a votação ocorreu em um quartel fora das capitais (por medidas <strong>de</strong> segurança).
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>54Outro fato que gerou um gran<strong>de</strong> numero <strong>de</strong> protestos foi a não presença da oposição navotação, seja por protesto ou por que não conseguiu chegar ao quartel, uma vez que militantes <strong>do</strong>MAS, parti<strong>do</strong> <strong>de</strong> Morales, “sitiram” os arre<strong>do</strong>res <strong>do</strong> quartel não permitin<strong>do</strong> que alguns <strong>de</strong>puta<strong>do</strong>schegassem ao local da votação e que militantes da oposição pu<strong>de</strong>ssem protestar contra a novaConstituição.A aprovação <strong>do</strong> texto criou um gran<strong>de</strong> mal estar em diversos setores da socieda<strong>de</strong> boliviana eabalou o marco legal <strong>do</strong> país.Seis <strong>do</strong>s nove <strong>de</strong>partamentos <strong>de</strong>clararam que não iriam se submeter à nova constituição, porconsi<strong>de</strong>rarem ilegal a forma pela qual ela havia si<strong>do</strong> aprovada.Ainda, esse episódio funcionou como um catalisa<strong>do</strong>r para o processo <strong>do</strong> referen<strong>do</strong> <strong>de</strong>autonomia. Por julgarem que suas <strong>de</strong>mandas não haviam si<strong>do</strong> atendidas minimamente, os prefeitos<strong>do</strong>s <strong>de</strong>partamentos da meia-lua marcaram as datas para a realização <strong>do</strong>s referen<strong>do</strong>s em seus<strong>de</strong>partamentos.Foi nesse contexto que ocorreu o referen<strong>do</strong> <strong>de</strong> Santa Cruz. A expressiva vitória <strong>do</strong> sim noreferen<strong>do</strong> (sen<strong>do</strong> o sim significan<strong>do</strong> o apoio ao estatuto autonômico) com 85,06% <strong>do</strong>s votos vali<strong>do</strong>sacirraram os ânimos no <strong>de</strong>bate sobre a questão da autonomia na Bolívia.Muitos analistas consi<strong>de</strong>raram o resulta<strong>do</strong> como uma <strong>de</strong>rrota para o governo <strong>de</strong> Morales enaturalmente uma vitória para aqueles que lutam para aumentar a autonomia <strong>do</strong>s <strong>de</strong>partamentos naBolívia.Tão logo começaram a sair os resulta<strong>do</strong>s parciais, a vitória <strong>do</strong> sim já parecia estar garantida eos organiza<strong>do</strong>res da campanha pró-autonomia já começavam a comemorar.Em contrapartida Morales e oficiais <strong>de</strong> seu governo, também antes <strong>do</strong> resulta<strong>do</strong> final, jácomeçavam a anunciar o “fracasso” <strong>do</strong> referen<strong>do</strong>. Segun<strong>do</strong> Morales, o referen<strong>do</strong> falhou em suaproposta porque teve um alto grau <strong>de</strong> abstenção, cerca <strong>de</strong> 35%.Para o governo isso significou que mais <strong>de</strong> 50% da população se posicionou contra o estatuto<strong>de</strong> autonomia, uma vez que se forem soma<strong>do</strong>s os percentuais <strong>do</strong>s que votaram contra (14%), maisos votos em branco e nulo e as abstenções, chegaria a mais <strong>de</strong> 50%.O que parece certo neste momento é que os partidários <strong>de</strong> uma maior autonomia nos<strong>de</strong>partamentos bolivianos parecem ter ganha<strong>do</strong> um importante respal<strong>do</strong> popular que aumentouconsi<strong>de</strong>ravelmente o seu po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> barganha.O governo boliviano já acenou que está disposto a negociar o mérito, contu<strong>do</strong> ao que parecenada <strong>de</strong> concreto ocorrerá enquanto não forem realiza<strong>do</strong>s os referen<strong>do</strong>s nos <strong>de</strong>mais <strong>de</strong>partamentos,nos quais a expectativa pela vitória <strong>do</strong> sim é gran<strong>de</strong>.Uma questão importante que <strong>de</strong>ve ser levada em conta é a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> uma possívelsecessão na Bolívia, evento que tem preocupa<strong>do</strong> alguns setores <strong>do</strong> governo e tem si<strong>do</strong> utiliza<strong>do</strong>como argumento daqueles que são contra os estatutos autonômicos.Até o presente momento uma cisão <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> Boliviano parece altamente improvável. Osprincipais atores envolvi<strong>do</strong>s no processo da autonomia já <strong>de</strong>clararam que o projeto é <strong>de</strong> promoveruma “fe<strong>de</strong>ralização” e não uma in<strong>de</strong>pendência.Até por que um processo <strong>de</strong> in<strong>de</strong>pendência, aparentemente, não possuiria nenhum apoiointernacional, uma vez que não só os países vizinhos como organismos internacionais, como aOEA, já se manifestaram contra uma possível secessão.Tu<strong>do</strong> o que resta é observar o <strong>de</strong>senrolar das negociações vin<strong>do</strong>uras para saber até on<strong>de</strong> oprocesso <strong>de</strong> autonomia <strong>do</strong>s <strong>de</strong>partamentos bolivianos irá e torcer para que o conflito permaneça nasmesas <strong>de</strong> negociação e não transbor<strong>de</strong> para as ruas, como frequentemente tem ocorri<strong>do</strong> na Bolívia.Leonar<strong>do</strong> Neves – www.inforel.org
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>55Paz, Democracia e Conflitos na América <strong>do</strong> Sul13/03/<strong>2008</strong>A América <strong>do</strong> Sul é reconhecida como uma sub-região <strong>de</strong> paz <strong>de</strong>vi<strong>do</strong> a suarelativa infreqüência <strong>de</strong> guerras quan<strong>do</strong> comparada com outras regiões <strong>do</strong> globo.Apesar <strong>de</strong> que em sua maior parte os sul-americanos não apostam que seuspaíses entrem em guerra entre si e há mais <strong>de</strong> uma década após o último conflitoarma<strong>do</strong>, a região transmite uma superficial impressão <strong>de</strong> paz, cujo baixopotencial bélico contrasta com o evi<strong>de</strong>nte aumento <strong>de</strong> tensões e constanteinstabilida<strong>de</strong>.Neste cenário <strong>de</strong> “paz negativa”, não há guerras. Porém, sobram disputasinter-estatais, ululante instabilida<strong>de</strong> politico-econômicas e problemas sociaisendêmicos como alto grau <strong>de</strong> violência urbana e pobreza.Quanto à preocupação pela segurança regional, as análises da atual criseandina <strong>de</strong>vem levar em consi<strong>de</strong>ração vários elementos e aprendiza<strong>do</strong>s que não caberia nestaspoucas linhas.Primeiramente, a região está dividida não só pelo grau <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento econômicoalcança<strong>do</strong>, como também pelo fortalecimento institucional, pelas ameaças e pelas crises queenfrentam os países <strong>do</strong> subcontinente.De um la<strong>do</strong>, o arco andino, com Venezuela, Colômbia, Bolívia, Equa<strong>do</strong>r e Peru, representa azona não integrada e disfuncional com alto grau <strong>de</strong> instabilida<strong>de</strong>.De outro la<strong>do</strong>, o arco atlântico composto pelos membros <strong>do</strong> Mercosul e Chile representam ocorpo funcional na balança <strong>do</strong> equilíbrio <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r. Entre as várias ameaças que reflete o arcoandino, a principal é o narcotráfico, por seu caráter transnacional.Em segun<strong>do</strong>, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o 11-S, as preocupações globais se voltaram em gran<strong>de</strong> parte contra oterrorismo. Pelas práticas realizadas por grupos como as FARC e os impactos <strong>do</strong> conflitointerméstico colombiano, bem como pelas suspeitas <strong>de</strong> instabilida<strong>de</strong> na Tríplice Fronteira, os subcomplexosse diferem para alguns especialistas pelo conceito <strong>de</strong> “narco-terrorismo”.Em segun<strong>do</strong>, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o inicio <strong>do</strong> século XXI e principalmente em 2006, a região re-configurouseu mapa político apelida<strong>do</strong> <strong>de</strong> “onda <strong>de</strong> esquerdização”, trazen<strong>do</strong> a tona elementos conflitivoscomo o <strong>de</strong>sejo “refundacional”, re-militarização, nacionalismo, populismos remo<strong>de</strong>la<strong>do</strong>s eimprevisibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> certos governantes.Como conseqüência, em diversas ocasiões estiveram em cheque alguns princípios <strong>do</strong> sistemainternacional como o <strong>de</strong> não-ingerência, uti posse<strong>de</strong>tis, o <strong>de</strong> pacta sunt servanta e agora o principiobasilar da soberania nacional <strong>do</strong> território.Des<strong>de</strong> então, varias tensões bilaterais vieram à tona, como entre Peru e Chile, Brasil e Bolívia,Argentina e Uruguai, Bolívia e Chile, entre outros.Não somente houve um real agravamento <strong>de</strong> tensões já existentes e os surgimentos <strong>de</strong> novascontrovérsias multi-causuísticas <strong>de</strong> pre<strong>do</strong>minâncias político, i<strong>de</strong>ológica, econômica, energética eterritorial, como também rompimentos <strong>de</strong> relações venezuelanas com o Chile e a Colômbia.Apesar das tensões, vários fatores asseguram a aparente zona <strong>de</strong> paz na região que éessencialmente alicerçada numa “agenda comum” baseada na tría<strong>de</strong> <strong>de</strong>mocracia-liberalismointegração.A paz regional tem estreita relação com o processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocratização. A latente necessida<strong>de</strong><strong>de</strong> inserção da economia global mediante liberalização econômica bem como <strong>de</strong> integração regionalnão somente garantiria a paz, como <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> <strong>de</strong>la, numa via <strong>de</strong> mão-dupla.A inter<strong>de</strong>pendência econômica é uma fator fundamental para a estabilida<strong>de</strong> no Mercosul e naComunida<strong>de</strong> Andina <strong>de</strong> Nações bem como para assegurar a viabilida<strong>de</strong> <strong>do</strong>s projetos <strong>de</strong>implementação <strong>do</strong> Banco <strong>do</strong> Sul e da União Sul-Americana <strong>de</strong> Nações.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>56Outros mecanismos não <strong>de</strong>vem ser menoscaba<strong>do</strong>s nas amarras para a boa convivência <strong>do</strong>sEsta<strong>do</strong>s, <strong>de</strong>ntre elas, a participação como membros nos Organismos Internacionais como OEA eONU, assinatura <strong>de</strong> mecanismos institucionais como o Trata<strong>do</strong> Interamericano <strong>de</strong> AssistênciaRecíproca -TIAR, luta contra o terrorismo - CICTE e <strong>de</strong> tráfico <strong>de</strong> ilícitos CICAD e CIFTA, CartaDemocrática Interamericana com especial atenção ao capitulo 6 e 21, bem como a relevância <strong>de</strong> seruma zona livre <strong>de</strong> armas nucleares pela a<strong>de</strong>são ao Trata<strong>do</strong> <strong>de</strong> Não Proliferação –TNP e <strong>do</strong>s esforço<strong>do</strong> Grupo <strong>do</strong> Rio.Em resumo, a América <strong>do</strong> Sul é uma superficial zona <strong>de</strong> paz. O agravamento das tensões naparte andina não apresenta nenhuma novida<strong>de</strong> para os analistas internacionais especializa<strong>do</strong>s nasegurança regional e estratégia.Muitas outras tensões virão à tona no curto prazo e comprometerão a estabilida<strong>de</strong> regional.Contu<strong>do</strong>, não se vislumbra um conflito bélico pese ao dilema <strong>de</strong> segurança posto a prova pela remilitarização.A guerra não convém a ninguém. Numa complexa equação, sugere ser um jogo <strong>de</strong> resulta<strong>do</strong>snegativos. É <strong>de</strong>masiadamente cara político-econômica e socialmente.Há uma tendência para um aumento <strong>de</strong> tensões não só na Venezuela, como também naNicarágua e Bolívia, no âmbito da ALBA, a<strong>de</strong>mais das proximida<strong>de</strong>s eleitorais e instabilida<strong>de</strong> noParaguai.Contu<strong>do</strong>, os <strong>de</strong>sfechos prometem ser por vias diplomáticas através <strong>de</strong> mecanismos <strong>de</strong>soluções pacíficas como a mediação, inclusive para a própria legitimida<strong>de</strong> e sobrevivência da OEA.No caso em pauta entre Colômbia, Equa<strong>do</strong>r e Venezuela não há novida<strong>de</strong> e faz parte <strong>do</strong>teatro, bem arma<strong>do</strong> por um ator não-estatal como as FARC e pressões externas como a <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>sUni<strong>do</strong>s.Quanto ao papel <strong>do</strong> Brasil, este tem uma li<strong>de</strong>rança regional natural e não situacional como a<strong>de</strong> outros Esta<strong>do</strong>s. Não se trata apenas <strong>de</strong> uma oportunida<strong>de</strong> para barganhar e sim <strong>de</strong> umanecessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r seus interesses e manter a paz em suas frágeis fronteiras.Nesse engo<strong>do</strong> <strong>de</strong> interesses e conflitos regional, há muito por vir numa dicotomia entreesperanças por uma paz real e positiva e a esquizofrenia <strong>de</strong> governantes, tão distante das percepções<strong>de</strong> suas populações que assistem sem enten<strong>de</strong>r e permanecem sen<strong>do</strong> as principais vítimas.Dentre as lições até o momento, parece ser que a regra teórica <strong>de</strong> que países <strong>de</strong>mocráticos nãoentram em guerra continua vigente. Entretanto, ao não haver <strong>de</strong>mocracias fortes na América Latinaé o temor da perda <strong>de</strong>la que gera paz e pressiona a esfriar as tensões.Izabela Pereira – www.inforel.orgParticipação <strong>de</strong> energias renováveis na América Latina <strong>de</strong>veaumentar até 201819/05/<strong>2008</strong>A participação <strong>do</strong> petróleo na <strong>de</strong>manda <strong>de</strong> energia <strong>do</strong>s países da América Latina vai diminuir<strong>de</strong> 42% para 35% até 2018. Essa retração será compensada principalmente pelo incremento daparticipação <strong>do</strong> gás natural, que passará <strong>de</strong> 26% para 32% para as áreas <strong>de</strong> indústria, transporte egeração elétrica. A hidroenergia <strong>de</strong>ve passar <strong>de</strong> 9% para 15% para a produção <strong>de</strong> eletricida<strong>de</strong> e osbiocombustíveis, <strong>de</strong> 1% para 3%.Os da<strong>do</strong>s foram apresenta<strong>do</strong>s nesta segunda-feira (19) pelo secretário executivo daOrganização Latino-Americana <strong>de</strong> Energia, Carlos Florez, durante o Fórum Global <strong>de</strong> EnergiasRenováveis, em Foz <strong>do</strong> Iguaçu (PR).Segun<strong>do</strong> ele, a estimativa é que até 2018 a <strong>de</strong>manda <strong>de</strong> energia na região crescerá 73%.Atualmente, a América Latina e o Caribe utilizam 21% <strong>de</strong> sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> geração hidrelétrica e4,2% da capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> outras energias renováveis.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>57“A região tem vastos recursos energéticos, mas eles não estão distribuí<strong>do</strong>s <strong>de</strong> maneirauniforme. Para seu melhor aproveitamento e segurança, é importante a aplicação <strong>de</strong> políticasenergéticas que impulsionem os projetos <strong>de</strong> integração regional”, <strong>de</strong>fen<strong>de</strong> Florez.De acor<strong>do</strong> com ele, é preciso que a região diversifique sua matriz energética, além <strong>de</strong><strong>de</strong>senvolver estratégias que promovam políticas integrais para a sustentabilida<strong>de</strong> e segurançaenergética. “A energia mais econômica é a aquela que não se consume e a mais cara é aquela quenão se tem”, avalia.Para Florez, a participação da produção <strong>de</strong> biocombustíveis contribui para a economia e adiversificação da matriz energética <strong>de</strong> alguns países da região e po<strong>de</strong> ajudar como uma alternativapara cobrir suas necessida<strong>de</strong>s energéticas.Uma das maneiras <strong>de</strong> melhorar a eficiência energética da região, segun<strong>do</strong> ele, é utilizartransporte <strong>de</strong> massa com energias limpas. “É preciso superar a cultura das pessoas em relação aouso <strong>do</strong>s veículos particulares. Está se transportan<strong>do</strong> uma pessoa em um veículo <strong>de</strong> alto consumo,temos que mudar a mentalida<strong>de</strong>”, <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>u.Agência BrasilBolívia apóia a proposta brasileira21/05/<strong>2008</strong>Venezuela, Guiana, Suriname, Chile e Argentina completariam a organizaçãosupranacionalO presi<strong>de</strong>nte da Bolívia, Evo Morales, confirmou sua a<strong>de</strong>são à proposta brasileira para acriação <strong>de</strong> uma organização supranacional <strong>de</strong> caráter militar na América <strong>do</strong> Sul. Os <strong>de</strong>talhes daproposta serão discuti<strong>do</strong>s em reunião sexta-feira, em Brasília. Além <strong>de</strong> Brasil e Bolívia, jámanifestaram interesse em participar <strong>do</strong> Conselho <strong>de</strong> Defesa da América <strong>do</strong> Sul Venezuela, Guiana,Suriname, Chile e Argentina.– Conversei com to<strong>do</strong>s os lí<strong>de</strong>res regionais e encontrei posições favoráveis à instituição.Alguns estão mais entusiasma<strong>do</strong>s, mas existe uma uniformida<strong>de</strong> <strong>de</strong> pensamento quanto à criação <strong>do</strong>conselho – <strong>de</strong>clarou Jobim, <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> encontrar-se com Morales, na segunda-feira, em La Paz.A pretensão é <strong>de</strong> que a organização inicie seus trabalhos em julho. Além <strong>de</strong> estruturar eexecutar uma política <strong>de</strong> <strong>de</strong>fesa sul-americana e unificar o discurso <strong>do</strong>s países da região em fórunsinternacionais sobre segurança, orquestraria a construção <strong>de</strong> um parque industrial comum paraprodução <strong>de</strong> equipamentos para as Forças Armadas e outros insumos para o setor <strong>de</strong> <strong>de</strong>fesa.– A criação <strong>do</strong> Conselho <strong>de</strong> Defesa da América <strong>do</strong> Sul está inserida no escopo da políticaexterna brasileira, que visa ao fortalecimento da li<strong>de</strong>rança <strong>do</strong> país na região – ressaltou Reginal<strong>do</strong>Nasser, professor da PUC-SP e membro da diretoria executiva da Associação Brasileira <strong>de</strong> RelaçõesInternacionais. – Não está necessariamente relacionada com o controle das ambições <strong>de</strong> HugoChávez e Morales no continente. Só que o conceito <strong>de</strong> <strong>de</strong>fesa hoje é mais amplo, incluin<strong>do</strong> ocombate ao crime organiza<strong>do</strong> e ao narcotráfico, que tem alcance transnacional.Jobim garantiu que essa não será uma aliança militar, mas "uma ferramenta para lidar comuma varieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> questões <strong>de</strong> segurança" na América <strong>do</strong> Sul. Temas como a preservação conjunta<strong>do</strong>s recursos naturais e meio ambiente também seriam trata<strong>do</strong>s pelo conselho.José Luiz Niemeyer, coor<strong>de</strong>na<strong>do</strong>r <strong>do</strong> curso <strong>de</strong> Relações Internacionais <strong>do</strong> Ibmec-RJ, acreditaser essa uma reformulação na estratégia brasileira para conquista <strong>de</strong> uma ca<strong>de</strong>ira permanente noConselho <strong>de</strong> Segurança da ONU. O cientista político lembra que esse é um <strong>de</strong>sejo antigo, presentena agenda <strong>do</strong> Itamaraty e da Presidência <strong>de</strong>s<strong>de</strong> os governos <strong>de</strong> Itamar Franco e Fernan<strong>do</strong> HenriqueCar<strong>do</strong>so.– É difícil ampliar o número <strong>de</strong> participantes porque isso movimenta o xadrez da geopolíticamundial. Hoje, o mun<strong>do</strong> está em transformação: ainda não está claro se os EUA se manterão comouma superpotência capaz <strong>de</strong> <strong>de</strong>terminar os rumos globais, ou se assistimos à emergência <strong>de</strong> uma
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>58bipolarida<strong>de</strong> com a União Européia ou mesmo <strong>de</strong> uma triangulação com a China e o Japão –explicou Niemeyer.Para o estudioso, o conselho, por enquanto, permanece como "uma questão <strong>de</strong> retórica".– Se não conseguimos avançar na união aduaneira <strong>do</strong> Mercosul, imagine as dificulda<strong>de</strong>s <strong>de</strong>uma estratégia <strong>de</strong> <strong>de</strong>fesa única, tema que no limite se refere à sobrevivência <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s soberanos– conclui.A idéia para a criação <strong>do</strong> conselho partiu <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte Chávez, da Venezuela. Foi reavivadapor Luiz Inácio Lula da Silva <strong>de</strong>pois da crise <strong>de</strong>senca<strong>de</strong>ada pelo ataque militar colombiano emterritório equatoriano em 1º <strong>de</strong> março.Jornal <strong>do</strong> BrasilA HORA E A VEZ DOS IDEÓLOGOS29/05/<strong>2008</strong>O Conselho Sul-Americano <strong>de</strong> Defesa po<strong>de</strong> aspirar a um lugar <strong>de</strong> honra nos manuais <strong>de</strong>relações internacionais, como caso exemplar para estu<strong>do</strong> <strong>de</strong> uma política externa emparedada entreo imperativo <strong>do</strong> interesse nacional e os <strong>de</strong>lírios i<strong>de</strong>ológicos <strong>de</strong> uma esquerda que não apren<strong>de</strong> nada.Numa <strong>de</strong>claração contaminada pelo cinismo, Lula registrou que “<strong>do</strong>s 12 países, apenas a Colômbiacolocou objeção”. Não seria porque, em seu esforço para <strong>de</strong>rrotar as Farc, o Esta<strong>do</strong> colombianoconta com o apoio <strong>do</strong>s EUA mas enfrenta a hostilida<strong>de</strong> explícita da Venezuela e <strong>do</strong> Equa<strong>do</strong>r?O interesse nacional brasileiro consiste em promover a estabilida<strong>de</strong> no entorno sul-americano.A Organização <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Americanos (OEA), atravessada pela disparida<strong>de</strong> <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r entre osEUA e os <strong>de</strong>mais Esta<strong>do</strong>s, não <strong>de</strong>veria ser um obstáculo para a constituição <strong>de</strong> um órgão <strong>de</strong>segurança regional na América <strong>do</strong> Sul. Mas um órgão assim só po<strong>de</strong> existir com base no respeito àsoberania <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s <strong>de</strong>mocráticos da região. Como preten<strong>de</strong>r que a Colômbia se incorpore a umConselho <strong>de</strong> Defesa incapaz <strong>de</strong> pronunciar uma con<strong>de</strong>nação das FARC?Politicamente, as Farc morreram quan<strong>do</strong>, numa seqüência <strong>de</strong> ações terroristas, <strong>de</strong>struíram oprocesso <strong>de</strong> paz impulsiona<strong>do</strong> pelo ex-presi<strong>de</strong>nte Andrés Pastrana entre 1998 e 2002. A eleição <strong>de</strong>Alvaro Uribe, sobre a plataforma <strong>de</strong> <strong>de</strong>rrotar militarmente a guerrilha, representou uma <strong>de</strong>cisãonacional. O governo Uribe prometeu <strong>de</strong>smantelar os grupos paramilitares <strong>de</strong> direita e estácumprin<strong>do</strong> o compromisso. Os golpes assesta<strong>do</strong>s pelo exército eliminaram a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> combateda guerrilha e a promessa <strong>de</strong> liberda<strong>de</strong> para os guerrilheiros que renunciarem às armas provocafraturas generalizadas entre os insurgentes. As FARC só po<strong>de</strong>m ser salvas pela interferênciaexterna.O presi<strong>de</strong>nte venezuelano, Hugo Chávez, crismou as Farc como um “movimento bolivariano”e entregou-se a uma operação <strong>de</strong> socorro que se utiliza <strong>do</strong>s reféns como ferramentas involuntáriaspara chantagear a Colômbia. A meta <strong>do</strong> caudilho é intercambiar a liberda<strong>de</strong> <strong>do</strong>s reféns peloreconhecimento das Farc como parte beligerante. Nessa hipótese, o grupo conservaria suas armas esua liberda<strong>de</strong> <strong>de</strong> ação enquanto os colombianos, contra a vonta<strong>de</strong> que exprimiram em duas eleiçõessucessivas, seriam submeti<strong>do</strong>s novamente a supostas negociações <strong>de</strong> paz. O entusiasmo chavistapelo Conselho <strong>de</strong> Defesa só po<strong>de</strong> ser compreendi<strong>do</strong> à luz <strong>do</strong> que se passa na selva colombiana.Na visão estratégica <strong>de</strong> Chávez, o Conselho <strong>de</strong> Defesa é o embrião <strong>de</strong> uma aliança estratégicae <strong>de</strong> um exército regional <strong>de</strong>stina<strong>do</strong>s a prover segurança contra os EUA. Essa concepção inspira-senas teses <strong>do</strong> sociólogo alemão Heinz Dieterich, confi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte venezuelano até oreferen<strong>do</strong> constitucional <strong>do</strong> ano passa<strong>do</strong>, que imaginou a construção <strong>de</strong> um “bloco militar <strong>de</strong> po<strong>de</strong>rlatino-americano” sob a li<strong>de</strong>rança <strong>do</strong> próprio Chávez.Na forma sem conteú<strong>do</strong> aventada pelo Brasil, o Conselho <strong>de</strong> Defesa não tem cérebro nemmúsculos — será, unicamente, um foro consultivo <strong>de</strong> <strong>de</strong>bates, algo como uma antecâmara da OEA.Chávez aceita começar com tão pouco, pois a sua priorida<strong>de</strong> tática é tecer uma articulação regional
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>59que isole política e diplomaticamente a Colômbia, propician<strong>do</strong> caminhos para evitar a iminente<strong>de</strong>rrota das FARC.A voz <strong>do</strong> venezuelano já se converteu em uma or<strong>de</strong>m <strong>de</strong> coman<strong>do</strong> para os parti<strong>do</strong>s daesquerda stalinista latino-americana. Na <strong>de</strong>claração final da reunião <strong>do</strong> Foro <strong>de</strong> São Paulo,encerrada no <strong>do</strong>mingo em Montevidéu, está escrito que “introduziu-se na região o conceito <strong>de</strong>guerra preventiva e aumentou-se a militarização em uma situação inédita comandada pelos EUA,que utiliza o governo da Colômbia como ponte”. O <strong>do</strong>cumento, alinha<strong>do</strong> à operação <strong>de</strong> salvamentochavista, recomenda “aumentar os esforços para conseguir uma saída negociada para o conflitoarma<strong>do</strong>”.Sob Lula, a política brasileira para a América <strong>do</strong> Sul per<strong>de</strong>u a referência <strong>do</strong> interesse nacional,tornan<strong>do</strong>-se alvo fácil para a ofensiva <strong>do</strong>s i<strong>de</strong>ólogos. O Conselho <strong>de</strong> Defesa está sen<strong>do</strong> preenchi<strong>do</strong>com os conteú<strong>do</strong>s que interessam a Caracas. Pagaremos caro por esse erro.O GloboDesafios da diplomacia sul-americana03/06/<strong>2008</strong>A política externa brasileira na América <strong>do</strong> Sul enfrenta hoje <strong>do</strong>is <strong>de</strong>safios, um ao Norte,outro ao Sul. O primeiro tem que ver com as fricções entre Colômbia e seus vizinhos, ameaças àintegrida<strong>de</strong> territorial na Amazônia e as fanfarronices <strong>de</strong> Hugo Chávez. Talvez a atenção se tenhain<strong>de</strong>vidamente concentra<strong>do</strong> neste <strong>de</strong>safio e <strong>de</strong>ixa<strong>do</strong> <strong>de</strong> la<strong>do</strong> outro que é ainda mais grave: oaprofundamento das contradições entre os interesses brasileiros e a manutenção <strong>do</strong> MERCOSUL nasua situação atual, com a Argentina à beira <strong>de</strong> outra grave crise.Quanto ao Norte, tem ganho corpo a idéia <strong>de</strong> que o inci<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> fronteira entre a Colômbia e oEqua<strong>do</strong>r teria marca<strong>do</strong> uma guinada <strong>do</strong> governo Lula, com o fortalecimento da diplomaciaprofissional em <strong>de</strong>trimento <strong>do</strong>s entusiasmos bolivarianos que emanam <strong>de</strong> assessores presi<strong>de</strong>nciais.Trata-se <strong>de</strong> simplificação in<strong>de</strong>vida <strong>de</strong> realida<strong>de</strong> mais complexa. O Itamaraty tem tradição <strong>de</strong>competência em muitas áreas. Uma <strong>de</strong>las é na construção <strong>de</strong> versões que valorizam suas iniciativase minimizam a importância <strong>do</strong>s momentos menos felizes <strong>de</strong> sua atuação. Muitas vezes háconfluência <strong>de</strong> interesses na ornamentação da história institucional com interesses <strong>de</strong>embelezamento autobiográfico, com o primeiro objetivo legitiman<strong>do</strong> o segun<strong>do</strong>. A versão da troca<strong>de</strong> bastão, <strong>do</strong> Palácio <strong>do</strong> Planalto para o Itamaraty, cumpre o objetivo <strong>de</strong> embelezar a ação <strong>do</strong>Itamaraty, antes da crise, e também algumas biografias. Tem base na idéia <strong>de</strong> que teria si<strong>do</strong> natural -até o inci<strong>de</strong>nte Colômbia-Equa<strong>do</strong>r - que a diplomacia profissional aceitasse <strong>de</strong> bom gra<strong>do</strong> ce<strong>de</strong>resferas <strong>de</strong> influência a assessores com acesso privilegia<strong>do</strong> aos ouvi<strong>do</strong>s <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte.Por que será que o Itamaraty não <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>u com mais pertinácia, antes da crise, a a<strong>do</strong>ção <strong>de</strong>atitu<strong>de</strong> mais profissional e alinhada com os interesses nacionais <strong>de</strong> longo prazo? Suspeita-se que aresposta tenha que ver com o fato <strong>de</strong> que segmentos substanciais da Casa tinham simpatiasbolivarianas e embarcaram alegremente na canoa <strong>do</strong> chavismo. E que os equívocos da políticaexterna brasileira na América <strong>do</strong> Sul até a pretensa guinada não <strong>de</strong>vam ser lança<strong>do</strong>s exclusivamenteà conta das maléficas influências extra-Itamaraty.Supon<strong>do</strong> que pirotecnias primitivas ao estilo União das Nações Sul-Americanas (Unasul)possam ser capazes <strong>de</strong> conter temporariamente as tensões no Norte da América <strong>do</strong> Sul, e que opresi<strong>de</strong>nte Lula <strong>de</strong> fato faça ouvi<strong>do</strong>s moucos à ladainha <strong>do</strong>s bolivarianos tupiniquins, os esforçosdiplomáticos mais sérios <strong>do</strong> Itamaraty <strong>de</strong>veriam ser direciona<strong>do</strong>s para preservar as relações <strong>do</strong>Brasil com a Argentina da crescente ameaça <strong>de</strong> <strong>de</strong>terioração. Para <strong>de</strong>sapontamento <strong>do</strong>s <strong>de</strong>fensoresbrasileiros <strong>do</strong> mo<strong>de</strong>lo argentino <strong>de</strong> calote-com-<strong>de</strong>senvolvimentismo, a situação econômica daArgentina está apontan<strong>do</strong> para outra crise, <strong>de</strong> novo combinan<strong>do</strong> inflação alta com fraco crescimentoeconômico.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>60É difícil exagerar o contraste, hoje, entre Argentina e Brasil, tanto <strong>do</strong> ponto <strong>de</strong> vistaeconômico quanto político. Na Argentina, o perío<strong>do</strong> <strong>de</strong> crescimento muito rápi<strong>do</strong> com o uso <strong>de</strong>capacida<strong>de</strong> ociosa dá mostras <strong>de</strong> chegar ao fim. Des<strong>de</strong> 2002, a economia argentina vem crescen<strong>do</strong> ataxas superiores a 8%. Em relação ao pico <strong>de</strong> 1998, entretanto, o Produto Interno Bruto (PIB)argentino cresceu à taxa anual <strong>de</strong> apenas 2,2%, ainda menor <strong>do</strong> que os medíocres 2,8% <strong>do</strong> Brasil.Para escolher o “mo<strong>de</strong>lo” argentino seria preciso ter preferência por menor crescimento com maiorvariância e calote, algo dificilmente classificável como racional. Tarifas <strong>de</strong> energia subsidiadas,somadas à falta <strong>de</strong> expansão <strong>de</strong> capacida<strong>de</strong>, têm leva<strong>do</strong> a “apagões” <strong>de</strong> to<strong>do</strong> o tipo, com efeitossobre níveis <strong>de</strong> investimento e <strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>. As exportações agrícolas estão 250% acima <strong>do</strong> nível <strong>de</strong>2002, mas, apesar disso, o governo, ao aumentar o nível <strong>de</strong> “retenções” das receitas <strong>de</strong> exportação,provocou enfrentamento com os exporta<strong>do</strong>res e restrições <strong>de</strong> oferta. O governo continuamanipulan<strong>do</strong> os índices <strong>de</strong> preço, enquanto a inflação verda<strong>de</strong>ira provavelmente exce<strong>de</strong> 20% aoano.Em contraste, o Brasil, embora dê sinais <strong>de</strong> pressões inflacionárias, <strong>de</strong>sregramento fiscal e<strong>de</strong>terioração das contas externas, acumula elogios <strong>de</strong> analistas e manifestações <strong>de</strong> interesse <strong>de</strong>investi<strong>do</strong>res. Obtém investment gra<strong>de</strong> e ameaça tornar-se produtor importante <strong>de</strong> petróleo.Enquanto a popularida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Lula beira os 60%, a <strong>de</strong> Cristina Fernán<strong>de</strong>z mergulhou 30 pontos, paraalcançar 26%.A tarefa <strong>de</strong> ven<strong>de</strong>r ao mun<strong>do</strong> a idéia <strong>de</strong> que negociar com o Brasil significa, em muitos casos,incluir o restante <strong>do</strong> MERCOSUL é árdua. Tais dificulda<strong>de</strong>s po<strong>de</strong>m ser ilustradas por negociaçõesem andamento. O corolário da incapacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> o MERCOSUL <strong>de</strong>finir uma Tarifa Externa Comumsem extensa lista <strong>de</strong> exceções é que, nas negociações na Organização Mundial <strong>do</strong> Comércio (OMC)e com a União Européia, por exemplo, a apresentação <strong>de</strong> propostas pouco realistas que incluemexceções tarifárias <strong>de</strong> to<strong>do</strong>s os membros na negociação <strong>de</strong> produtos sensíveis.Nesse quadro, é irrealista consi<strong>de</strong>rar, com serieda<strong>de</strong>, divagações, mesmo que presi<strong>de</strong>nciais,sobre política macroeconômica comum, moeda comum e quase qualquer coisa comum. Ao mesmotempo, é necessário reconhecer o papel central que <strong>de</strong>vem ter relações políticas sólidas com aArgentina. O Itamaraty <strong>de</strong>ve conce<strong>de</strong>r priorida<strong>de</strong> absoluta ao aprofundamento e à reformulação <strong>do</strong>atual arranjo <strong>de</strong> integração regional rumo a uma fórmula que ao mesmo tempo evite hostilizar aArgentina e amplie o raio <strong>de</strong> manobra para que o Brasil negocie extra-Mercosul - para minimizar atentação <strong>de</strong> escolher entre o mun<strong>do</strong> e o MERCOSUL.O Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> São PauloHERANÇA KIRCHNER29/05/<strong>2008</strong>Desapareceram as referências positivas à política econômica argentina, citada com freqüênciacomo contraponto ao “neoliberalismo” a<strong>do</strong>ta<strong>do</strong> por Brasília. Com taxas elevadas <strong>de</strong> crescimento,alcançadas na recuperação da grave crise <strong>do</strong> colapso <strong>do</strong> câmbio fixo, no final <strong>de</strong> 2001, a Argentinafoi, entre 2002/3 e até há pouco tempo, usada como trunfo na argumentação <strong>do</strong>s <strong>de</strong>fensores <strong>de</strong>medidas intervencionistas que <strong>de</strong>svalorizassem o real e baixassem os juros por <strong>de</strong>creto. Alguns maisentusiasma<strong>do</strong>s creditavam o suposto sucesso argentino ao calote da<strong>do</strong> na dívida externa — naverda<strong>de</strong>, uma conseqüência inevitável <strong>do</strong> colapso <strong>do</strong> país e não um ato consciente <strong>de</strong> políticaeconômica.Nos últimos meses, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a fase final da gestão <strong>de</strong> Néstor Kirchner, cuja dinastia foi mantidacom a eleição da mulher, Cristina — um repeteco <strong>de</strong> mau agouro da dupla Perón-Isabelita —, osefeitos das heresias cometidas pela administração populista no po<strong>de</strong>r na Casa Rosada começaram aficar visíveis, mesmo para os observa<strong>do</strong>res menos atentos. A redução <strong>do</strong> superávit primário dascontas públicas — resulta<strong>do</strong> <strong>do</strong> confronto entre receitas e gastos, excluin<strong>do</strong> o pagamento <strong>de</strong> juros— <strong>de</strong> 4,5% <strong>do</strong> PIB para apenas 2%, com o conseqüente aumento das <strong>de</strong>spesas, conjugada com juros
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>61baixos, acelerou a inflação. E o governo <strong>de</strong> Néstor Kirchner seguiu o pior caminho: <strong>de</strong>terminoumudanças no cálculo <strong>do</strong> índice <strong>de</strong> preços, como <strong>de</strong>nuncia<strong>do</strong> por funcionários <strong>do</strong> I<strong>de</strong>c, o IBGE local.Hoje, a inflação anual está em 9%. Ninguém acredita, por causa da manipulação. Cálculosin<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes apontam para 25%, uma taxa preocupante, principalmente para um país queenfrentou na década <strong>de</strong> 80 um surto <strong>de</strong> hiperinflação.Na tentativa <strong>de</strong> equilibrar as contas públicas e conseguir <strong>de</strong> fonte não-inflacionária recursospara comprar dólares, a fim <strong>de</strong> tentar manter o peso <strong>de</strong>svaloriza<strong>do</strong>, Cristina Kirchner produziu umacrise adicional: resolveu sobretaxar exportações agrícolas, e com isso levantou o campo contra seugoverno. Tem havi<strong>do</strong> bloqueio <strong>de</strong> estradas, <strong>de</strong>sabastecimento em Buenos Aires e outras cida<strong>de</strong>s.Com a crise, ressurgem na memória <strong>do</strong>s argentinos as <strong>de</strong>sestabilizações bancárias <strong>do</strong> passa<strong>do</strong>, e odólar passou a ser mais procura<strong>do</strong>, elevan<strong>do</strong> sua cotação no merca<strong>do</strong> paralelo. Como muito emeconomia <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> <strong>de</strong> expectativas, não se po<strong>de</strong> ser otimista com o futuro próximo argentino.Até porque há obstáculos concretos a serem supera<strong>do</strong>s — também ergui<strong>do</strong>s por erroscometi<strong>do</strong>s na fase <strong>de</strong> recuperação argentina. Um <strong>do</strong>s mais graves <strong>de</strong>les, a hostilida<strong>de</strong> aosinvesti<strong>do</strong>res priva<strong>do</strong>s, com <strong>de</strong>staque para os estrangeiros. Assim, investimentos essenciais nãoforam feitos no setor elétrico, levan<strong>do</strong> o país a começar a enfrentar apagões, e a <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>r da ajudabrasileira, cuja margem para suprir a Argentina <strong>de</strong> eletricida<strong>de</strong> não é gran<strong>de</strong>, nem garantida.A gran<strong>de</strong> dúvida é se Cristina Kirchner conseguirá <strong>de</strong>svencilhar-se da herança <strong>do</strong> mari<strong>do</strong>, semmaldizer o passa<strong>do</strong>.O GloboAMÉRICA ANGLO-SAXÔNICABush: 'Estes são tempos difíceis' para os EUA29/04/<strong>2008</strong>O presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong>s EUA, George W. Bush, mais uma vez evitou classificar a situação atual daeconomia americana como recessão, mas admitiu a ansieda<strong>de</strong> causada pela alta <strong>do</strong>s preços dagasolina e <strong>do</strong>s alimentos assim como pelo aumento na execução das hipotecas. "Estes são temposdifíceis", disse Bush. "Os economistas po<strong>de</strong>m discutir sobre a terminologia."Em entrevista coletiva à imprensa, ele criticou duramente o Congresso pela política no setor<strong>de</strong> energia, afirman<strong>do</strong> que os <strong>de</strong>mocratas bloquearam reiteradamente propostas para abrir áreas<strong>de</strong>ntro <strong>do</strong>s EUA para exploração e produção sem prejuízo <strong>do</strong> meio ambiente. Ele se referia, porexemplo, ao parque nacional <strong>de</strong> proteção à vida selvagem no Alasca. Ele também repetiu seupedi<strong>do</strong> para uma expansão da capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> refino e aumento no uso <strong>de</strong> energia nuclear paraprodução <strong>de</strong> eletricida<strong>de</strong>. O Congresso "po<strong>de</strong> enviar o sinal certo dizen<strong>do</strong> que vamos explorarpetróleo e gás nos territórios <strong>do</strong>s EUA".O petróleo recuou <strong>de</strong> seu recor<strong>de</strong> na terça-feira passada para cerca <strong>de</strong> US$ 116 o barril hoje.Os preços nos postos <strong>de</strong> gasolina, enquanto isso, ficaram em média em US$ 3,60 o galão no país. Asituação levou políticos - sobretu<strong>do</strong> <strong>de</strong>mocratas, mas também John McCain, que <strong>de</strong>ve disputar apresidência <strong>do</strong>s EUA pelo Parti<strong>do</strong> Republicano - a pedir que o governo suspenda as compras paraos estoques <strong>de</strong> emergência <strong>de</strong> petróleo <strong>do</strong>s EUA. Bush disse que a proposta não faz senti<strong>do</strong> porqueas compras representam uma fração da oferta global e não afetam o preço.Bush evitou respon<strong>de</strong>r se ele apoiaria um segun<strong>do</strong> pacote <strong>de</strong> estímulo econômico. "O dinheiroestá acaban<strong>do</strong> <strong>de</strong> entrar nas contas bancárias das pessoas", disse. Os primeiros pagamentos <strong>de</strong>restituições <strong>de</strong> imposto, <strong>de</strong>ntro <strong>do</strong> pacote <strong>de</strong> US$ 152 bilhões para estimular a economia,começaram a ser entregues eletronicamente na segunda-feira, com 7,7 milhões <strong>de</strong> contribuintes<strong>de</strong>ven<strong>do</strong> receber seus pagamentos nesta semana. No próximo mês, o serviço da receita (InternalRevenue Service) começará a enviar os cheques <strong>de</strong> até US$ 600 por pessoa, US$ 1.200 por casal e
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>62US$ 300 por criança. O plano <strong>de</strong>ve atingir 130 milhões <strong>de</strong> residências. As informações são daagência Dow Jones.Agência Esta<strong>do</strong>A falta <strong>de</strong> controle <strong>de</strong> bens militares nos EUA28/04/<strong>2008</strong>No dia 24 <strong>de</strong> fevereiro, publiquei neste espaço, análise sobre asfalhas e inci<strong>de</strong>ntes que envolveram as Forças Armadas <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>sUni<strong>do</strong>s quanto ao seu sistema <strong>de</strong> controle, manutenção e transporte <strong>de</strong>artefatos nucleares e convencionais. Falhas essas que ameaçam apopulação norte-americana, como o exemplo <strong>do</strong> B-52, aviãobombar<strong>de</strong>iro que sobrevoou mais <strong>de</strong> 2.400 quilômetros <strong>do</strong> território<strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, com seis mísseis <strong>de</strong> cruzeiro carrega<strong>do</strong>s comogivas nucleares.Agora, um novo escândalo é revela<strong>do</strong> e <strong>de</strong>snuda a fragilida<strong>de</strong> com que a maior potênciabélica <strong>do</strong> planeta controla seus arsenais.E não po<strong>de</strong>mos esquecer que há pouco tempo foram reveladas informações <strong>de</strong> que os Esta<strong>do</strong>sUni<strong>do</strong>s mandaram “por engano” os <strong>de</strong>tona<strong>do</strong>res para ogivas <strong>do</strong>s mísseis nucleares envia<strong>do</strong>s paraTaiwan em 2006.No dia 10 <strong>de</strong> abril, o Congresso norte-americano recebeu informações sobre a venda ilícita <strong>de</strong>produtos militares que <strong>de</strong>veriam estar sujeitos a um rigoroso controle por parte <strong>do</strong> Pentágono, <strong>de</strong>s<strong>de</strong>a sua produção, até o uso por parte das suas Forças Armadas.Os especialistas <strong>do</strong> U. S Government Accountability Office (U.S. GAO) realizaram umprofun<strong>do</strong> inquérito entre os meses <strong>de</strong> janeiro e março e comprovaram as fragilida<strong>de</strong>s <strong>do</strong> sistema <strong>de</strong>controle.De acor<strong>do</strong> com reportagem <strong>do</strong> Washington Post, funcionários <strong>do</strong> U.S. GAO se passaram porusuários comuns da Internet e conseguiram comprar mais <strong>de</strong> uma <strong>de</strong>zena <strong>de</strong> unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> produtosmilitares <strong>do</strong> controle rigoroso – equipamento militar e componentes da técnica <strong>de</strong> combate. Todasas compras foram realizadas por via <strong>do</strong>s internet-leilões eBay e CraigsList.Através <strong>de</strong>sses leilões virtuais, conseguiram comprar elementos <strong>do</strong> equipamento <strong>de</strong> bor<strong>do</strong> <strong>do</strong>caça F-14 e <strong>do</strong> helicóptero AH-64 “Apache”, meios individuais da <strong>de</strong>fesa química <strong>do</strong>s militares,aparelhos <strong>de</strong> visão noturna, coletes anti-balas, e amostras <strong>do</strong> uniforme militar, que são proibi<strong>do</strong>spara venda nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s.O relatório <strong>do</strong> U.S. GAO informa que muitos <strong>do</strong>s componentes da técnica militar e amostras<strong>do</strong> uniforme vendi<strong>do</strong>s pela Internet po<strong>de</strong>m ser facilmente adquiri<strong>do</strong>s no exterior, o que ameaça asForças Armadas <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s e <strong>de</strong> seus alia<strong>do</strong>s.Esses especialistas advertem ainda que a venda <strong>de</strong>sses equipamentos po<strong>de</strong>m ser analisa<strong>do</strong>spor engenheiros <strong>de</strong>dica<strong>do</strong>s a <strong>de</strong>scobrirem segre<strong>do</strong>s militares e com isso, criarem equipamentossemelhantes.Os especialistas <strong>do</strong> U.S. Government Accountability Office acreditam ainda ter <strong>de</strong>scobertopossíveis canais para organizações terroristas <strong>de</strong> to<strong>do</strong> o mun<strong>do</strong> obterem tecnologias secretas.Consta <strong>do</strong> relatório a preocupação da entida<strong>de</strong> com o possível envolvimento <strong>de</strong> militares epessoal civil das Forças Armadas <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s por trás <strong>do</strong> furto e comercialização <strong>de</strong>ssesbens.Este é mais um escândalo que os militares e o governo <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s precisamsolucionar rapidamente. As empresas que gerenciam os leilões virtuais não têm condições <strong>de</strong>controlar as vendas on-line.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>63Por isso, os especialistas <strong>do</strong> <strong>de</strong>partamento recomendam a aprovação <strong>de</strong> uma série <strong>de</strong> leisfe<strong>de</strong>rais que endureçam o controle da produção militar norte-americana. O atual sistema já<strong>de</strong>monstrou que não funciona.Esse escândalo põe à prova, a capacida<strong>de</strong> <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s <strong>de</strong> gerir seus próprios recursosmilitares e servem para <strong>de</strong>monstrar que o país não tem as cre<strong>de</strong>nciais necessárias para criticarterceiros quanto ao controle <strong>de</strong> seus arsenais bélicos.Marcelo Rech - www.inforel.orgÁFRICAÁfrica sofre com alimentos mais caros28/04/<strong>2008</strong>Elevação <strong>do</strong>s preços ameaça trazer mais pobreza, mas também se apresenta comooportunida<strong>de</strong> para a agriculturaNo Soweto Market, no centro <strong>de</strong> Lusaka, capital <strong>de</strong> Zâmbia, a resposta <strong>do</strong>s ven<strong>de</strong><strong>do</strong>res sobrecomo está o movimento é quase sempre a mesma: "slow, slow..." (<strong>de</strong>vagar, <strong>de</strong>vagar...).Há um ano, Francis, 29, <strong>do</strong>no <strong>de</strong> uma barraca no enorme e precário merca<strong>do</strong> ao ar livre,vendia três sacas <strong>de</strong> arroz <strong>de</strong> 50 kg por dia. Hoje, ven<strong>de</strong> uma, às vezes nenhuma.O motivo, diz ele, é o aumento <strong>do</strong>s preços. Na África, a inflação <strong>do</strong>s alimentos, um fenômenomundial, chegou com força, ameaçan<strong>do</strong> aumentar o já consi<strong>de</strong>rável contingente <strong>de</strong> pobres nocontinente mais pobre <strong>do</strong> planeta.Nas últimas semanas, quan<strong>do</strong> a crise alimentar mundial veio à tona, uma mesma avaliação foifeita <strong>do</strong> continente: há a perspectiva sombria <strong>de</strong> aumento da pobreza e <strong>de</strong>snutrição, que já levou adistúrbios em países como Egito, Burkina Fasso, Camarões e Costa <strong>do</strong> Marfim, mas também umajanela <strong>de</strong> oportunida<strong>de</strong> para sua agricultura.O problema é que o risco é imediato, e a tal janela, to<strong>do</strong>s concordam, é <strong>de</strong> longo prazo."Esta é uma oportunida<strong>de</strong> para a África elevar a produtivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> sua agricultura. Países emoutras regiões estão chegan<strong>do</strong> num ponto em que atingiram um platô. Se a África aproveitar estemomento como uma chance e não como um impedimento, po<strong>de</strong>rá ser o celeiro <strong>do</strong> planeta", dizPurnima Kashyap, diretora <strong>do</strong> Programa Mundial <strong>de</strong> Alimentação da ONU (Organização dasNações Unidas) em Zâmbia.No entanto em lugares como o Soweto Market, com suas ruas sujas, pedintes e pobrezageneralizada, a promessa <strong>de</strong> uma "revolução ver<strong>de</strong>" africana parece longínqua.É fato que o continente tem vastas terras aráveis não utilizadas, e que as que são cultivadasapresentam baixos índices <strong>de</strong> produtivida<strong>de</strong>, com um potencial enorme <strong>de</strong> produção. Estima-se queao menos 80% da agricultura africana seja <strong>de</strong> subsistência, com o uso <strong>de</strong> técnicas rudimentares."Ninguém explora"No vizinho Zimbábue, em que a questão agrícola tem, além <strong>de</strong> tu<strong>do</strong>, cores políticas, JohnWorswick, lí<strong>de</strong>r da associação <strong>de</strong> fazen<strong>de</strong>iros locais, estima que meta<strong>de</strong> da área <strong>do</strong> país esteja emterras "comuns", que são <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> e ninguém explora. "São terras livres, cujo uso não implicariaem <strong>de</strong>smatamento, nada. Mas nunca houve interesse em plantar nada ali", diz ele.Nos merca<strong>do</strong>s africanos, os preços têm aumenta<strong>do</strong> semanalmente. Em Sunningdale, periferia<strong>de</strong> Harare, capital <strong>do</strong> Zimbábue, o tomate sempre foi vendi<strong>do</strong> por quilo nas barracas <strong>de</strong> legumes.Agora, costuma-se ven<strong>de</strong>r por unida<strong>de</strong>. "As pessoas não têm dinheiro para levar muita coisa", dizuma senhora, sentada em sua barraca esperan<strong>do</strong> fregueses.Em Zâmbia, os preços <strong>do</strong>s alimentos subiram 22% em média no último ano, segun<strong>do</strong>estimativa <strong>do</strong> Programa Mundial <strong>de</strong> Alimentação. Mas o milho, matéria-prima da nshima -espécie<strong>de</strong> purê que é a base da alimentação local-, subiu 33%. O nshima tradicionalmente é consumi<strong>do</strong> no
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>64almoço com peixe ou frango, mas muitos em Zâmbia só têmconsegui<strong>do</strong> comer puro ou no máximo com algum vegetal,segun<strong>do</strong> ven<strong>de</strong><strong>do</strong>res <strong>do</strong> produto.Na semana passada, a crise alimentar acabourouban<strong>do</strong> a cena no encontro da Unctad, órgão da ONU quecuida <strong>do</strong> <strong>de</strong>senvolvimento, em Gana, no oeste africano. Otema inicial, os impactos da crise econômica global, acaboufican<strong>do</strong> em segun<strong>do</strong> plano.Um <strong>do</strong>s participantes <strong>do</strong> encontro, o vice-ministro <strong>do</strong>Planejamento <strong>de</strong> Moçambique, Victor Bernar<strong>do</strong>, <strong>de</strong>u, ementrevista à Folha, um panorama típico <strong>do</strong> dilema que ospaíses <strong>do</strong> continente enfrentam. Por um la<strong>do</strong>, um enormepotencial "a<strong>do</strong>rmeci<strong>do</strong>". Por outro, imensas dificulda<strong>de</strong>s nahora <strong>de</strong> explorá-lo."Queremos transformar uma situação <strong>de</strong> certa<strong>de</strong>svantagem numa oportunida<strong>de</strong> para produzirmos mais.Temos capacida<strong>de</strong>s a<strong>do</strong>rmecidas em nosso país, temos umaextensa área arável em Moçambique e não utilizamos", dizBernar<strong>do</strong>.O <strong>de</strong>safio é ensinar os agricultores a tirarem melhor proveito <strong>de</strong> suas terras, o que <strong>de</strong>ve levarmuito tempo."A primeira assistência é ensinar as pessoas a utilizar técnicas mais a<strong>de</strong>quadas <strong>de</strong> produção.Mas isso tem <strong>de</strong> estar associa<strong>do</strong> a um sistema <strong>de</strong> educação. Nós, por muito tempo, <strong>de</strong>ixamos <strong>de</strong> dara <strong>de</strong>vida assistência técnica e profissional aos agricultores, <strong>de</strong> ensinar as pessoas a tirar parti<strong>do</strong> <strong>do</strong>srecursos que têm", <strong>de</strong>clara.Folha <strong>de</strong> São PauloPelo menos 6 mil fogem <strong>de</strong> onda xenófoba na África <strong>do</strong> Sul19/05/<strong>2008</strong>Ataques contra estrangeiros já <strong>de</strong>ixou ao menos 22 mortos; mais <strong>de</strong> 260 foram presos emJohanesburgoCerca <strong>de</strong> 6 mil pessoas fugiram da onda <strong>de</strong> ataques contra estrangeiros na África <strong>do</strong> Sul, quejá pelo menos <strong>de</strong>ixou 22 mortos, informaram as equipes <strong>de</strong> ajuda humanitária nesta segunda-feira,19. "É uma clássica situação <strong>de</strong> refugia<strong>do</strong>s", disse Rachel Cohen da ONG Médicos Sem FronteirasViolência xenófoba mata pelo menos 22 na África <strong>do</strong> SulMuitas <strong>de</strong>ssas pessoas, que procuram se refugiar em <strong>de</strong>legacias, prefeituras e igrejas, vieram<strong>do</strong> Zimbábue, fugin<strong>do</strong> da violência e pobreza que encontravam em casa. Estima-se que cerca <strong>de</strong> 3milhões <strong>de</strong> zimbabuanos estejam na África <strong>do</strong> Sul.Caroline Hawley, correspon<strong>de</strong>nte da BBC na capital Johanesburgo, disse que os imigrantestornaram-se bo<strong>de</strong>s expiatórios <strong>de</strong> problemas sociais como <strong>de</strong>semprego, altos índices <strong>de</strong>criminalida<strong>de</strong> e falta <strong>de</strong> moradias.A onda <strong>de</strong> distúrbios se intensificou no <strong>do</strong>mingo, quan<strong>do</strong> foram registradas 11 mortessomente na região <strong>de</strong> East Rand, no leste <strong>de</strong> Johanesburgo, e outra em Alexandra, segun<strong>do</strong> aimprensa local.Neste final <strong>de</strong> semana, mais <strong>de</strong> 260 pessoas foram presas na capital, <strong>de</strong> acor<strong>do</strong> com a polícia.A maioria <strong>de</strong>las estava envolvidas em revoltas."Tu<strong>do</strong> isso é bastante grave, há mais <strong>de</strong> seis mil <strong>de</strong>sloca<strong>do</strong>s e distúrbios por toda a cida<strong>de</strong>",<strong>de</strong>clarou o porta-voz da MSF, Eric Goemaere, que classificou a situação como uma "crisehumanitária."
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>65O presi<strong>de</strong>nte da África <strong>do</strong> Sul, Thabo Mbeki, con<strong>de</strong>nou o surto xenofóbico, enquanto ogoverno pediu para que os serviços <strong>de</strong> inteligência investiguem quem está por trás <strong>do</strong>s ataques."Não po<strong>de</strong>mos permitir que a África <strong>do</strong> Sul se torne um exemplo famoso <strong>de</strong> xenofobia", disseMbeki.A Fundação Nelson Man<strong>de</strong>la se uniu nesta segunda à África <strong>do</strong> Sul para lamentar asagressões. "A violência sem senti<strong>do</strong> não é a solução", <strong>de</strong>clarou o diretor-gerente da Fundação,Achmat Dangor.'Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> emergência'Uma igreja que servia <strong>de</strong> abrigo para cerca <strong>de</strong> mil zimbabuanos foi atacada durante o fim <strong>de</strong>semana. O bispo Paul Veryn,da Igreja Metodista, disse que a situação "está se tornan<strong>do</strong> tão sériaque a polícia não consegue mais controlá-la. Ele pediu que seja <strong>de</strong>clara<strong>do</strong> esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> emergência.Os ataques contra estrangeiros começaram na semana passada em Alexandra, ao norte <strong>de</strong>capital, antes <strong>de</strong> se espalhar pelo centro e região <strong>de</strong> Gauteng. Des<strong>de</strong> o fim <strong>do</strong> apartheid, emigrantesda África mudaram-se para o país atraí<strong>do</strong>s por sua relativa prosperida<strong>de</strong>.BBCViolência xenófoba ressuscita terror da época <strong>do</strong> apartheid03/06/<strong>2008</strong>Para especialistas, frustração <strong>de</strong> expectativas abertas em 1994 é uma das causas darevoltaA onda <strong>de</strong> revolta contra estrangeiros das últimas semanas na África <strong>do</strong> Sul apresentou cenasque lembram méto<strong>do</strong>s da época <strong>do</strong> apartheid. Na pior <strong>de</strong>las, um imigrante negro aparece ajoelha<strong>do</strong>em Johannesburgo, com um pneu em chamas no pescoço. A prática, conhecida como “neck lace”(laço <strong>de</strong> pescoço), era um méto<strong>do</strong> comum <strong>de</strong> linchamento durante os conflitos raciais <strong>do</strong>s anos 80 e90. Na onda <strong>de</strong> violência xenófoba, mais <strong>de</strong> 50 estrangeiros foram mortos e outros 100 mil,apavora<strong>do</strong>s, fugiram <strong>do</strong> país.A explosão <strong>de</strong> ataques - os mais violentos <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o apartheid - tem três gran<strong>de</strong>s causas. Aprimeira é mais superficial e imediata: os sul-africanos acusam a massa <strong>de</strong> imigrantes que chegamao país <strong>de</strong> roubar empregos e aumentar o índice <strong>de</strong> criminalida<strong>de</strong>. Em seguida, vem a <strong>de</strong>sastrosapolítica <strong>de</strong> imigração e relações exteriores, agravada com a recusa <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte Thabo Mbeki emlidar com o caos no vizinho Zimbábue.Mas o núcleo <strong>do</strong>s motivos para a violência está na insatisfação <strong>de</strong> uma população que tinhaimensa expectativa quan<strong>do</strong> ganhou direitos iguais aos <strong>do</strong>s brancos. “Os sul-africanos continuam tãopobres quanto há 15 anos, após o apartheid”, disse ao Esta<strong>do</strong> Loren Landau, diretor <strong>de</strong> umprograma <strong>de</strong> estu<strong>do</strong>s <strong>de</strong> imigração da Universida<strong>de</strong> Witwatersrand, em Johannesburgo. “O fracasso<strong>do</strong> governo em cumprir as promessas que fez em 1994 é a verda<strong>de</strong>ira causa da revolta. A frustraçãoé tanta que a população só conseguiu expressá-la pela violência.”Os 5 milhões <strong>de</strong> imigrantes acabaram se tornan<strong>do</strong> bo<strong>de</strong>s expiatórios da violência. “É maisfácil manifestar o ódio contra um grupo vulnerável, uma vez que a maioria <strong>do</strong>s imigrantes é ilegal,<strong>do</strong> que contra o governo”, afirma Gail Eddy, <strong>do</strong> Instituto Sul-Africano <strong>de</strong> Relações Raciais.“Especialmente, quan<strong>do</strong> a população percebe que o governo é incapaz <strong>de</strong> controlar o <strong>de</strong>semprego ea miséria.”Mesmo com um <strong>de</strong>semprego <strong>de</strong> 24% (da<strong>do</strong>s extra-oficiais mencionam 30%), a África <strong>do</strong> Sulé um oásis <strong>de</strong> prosperida<strong>de</strong>, se comparada aos países vizinhos. Os 3 milhões <strong>de</strong> imigrantes <strong>do</strong>Zimbábue, por exemplo, fogem <strong>do</strong> <strong>de</strong>semprego <strong>de</strong> 80%, da maior inflação <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> (165.000% aoano) e <strong>de</strong> um perigoso limbo político que vigora <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o primeiro turno das eleições, em março.Único lí<strong>de</strong>r regional que seria capaz <strong>de</strong> controlar as sandices <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte zimbabuano, RobertMugabe, Mbeki evitou o confronto e aju<strong>do</strong>u a levar o vizinho ao caos econômico, que forçou aindamais imigrantes a tentar a vida na África <strong>do</strong> Sul.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>66Assim como os imigrantes <strong>do</strong> Zimbábue, a gran<strong>de</strong> maioria <strong>do</strong>s que vêm <strong>de</strong> outras naçõesafricanas é ilegal. “O programa <strong>de</strong> imigração é extremamente limita<strong>do</strong>, aten<strong>de</strong> só 150 milestrangeiros. Outros milhões não têm permissão para trabalhar”, explica Landau. “Por isso, aceitamsalários menores e piores condições <strong>de</strong> trabalho.”A disputa entre sul-africanos e estrangeiros por trabalho não é nova. “Des<strong>de</strong> o início <strong>do</strong> século20, imigrantes vêm para cá trabalhar em minas. Esse fluxo aumentou após o fim <strong>do</strong> apartheid, como fortalecimento da economia”, diz Gail. Segun<strong>do</strong> ela, o conflito se intensificou nos anos 90 e,<strong>de</strong>s<strong>de</strong> então, ataques xenófobos isola<strong>do</strong>s vinham ocorren<strong>do</strong> em várias partes <strong>do</strong> país.“Culpar estrangeiros pela falta <strong>de</strong> empregos não é exclusivida<strong>de</strong> da África <strong>do</strong> Sul. No entanto,nossos estu<strong>do</strong>s mostram que os imigrantes até ajudam a criar empregos ao consumir e abrirempresas”, explicou Vincent Williams, diretor <strong>do</strong> Projeto Sul-Africano <strong>de</strong> Imigração, na Cida<strong>de</strong> <strong>do</strong>Cabo.Mbeki ficou mais enfraqueci<strong>do</strong> após per<strong>de</strong>r a presidência <strong>de</strong> seu parti<strong>do</strong>, o CongressoNacional Africano (CNA). O oposição o pressiona para que <strong>de</strong>ixe o cargo. Para Gail, é improvávelque ele saia antes das eleições <strong>de</strong> abril, pois causaria mais instabilida<strong>de</strong>. “É claro que Mbeki tem <strong>de</strong>ser responsabiliza<strong>do</strong>. O real problema não é a imigração, mas a alienação <strong>do</strong> CNA, altamentecentraliza<strong>do</strong>r”, diz Landau. “Há uma imensa distância entre o parti<strong>do</strong> e as aspirações <strong>do</strong> povo.”Mbeki pôs o Exército nas ruas e prometeu ajudar os refugia<strong>do</strong>s. Essas medidas po<strong>de</strong>marrefecer a violência, mas não <strong>de</strong>vem reverter as conseqüências <strong>do</strong>s ataques. “Certamente o país vaiper<strong>de</strong>r legitimida<strong>de</strong> internacional, algo que vinha cultivan<strong>do</strong> para se consolidar como pacifica<strong>do</strong>rregional”, afirmou Landau. Por outro la<strong>do</strong>, há esperança <strong>de</strong> que a violência provoque tambémresulta<strong>do</strong>s positivos. Para Landau, com o CNA enfraqueci<strong>do</strong> e Mbeki sain<strong>do</strong> <strong>de</strong> cena, nasce um<strong>de</strong>bate público no parti<strong>do</strong>.O Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> São PauloÁSIAChina <strong>de</strong>tona guerra à mídia após ataques da CNN17/04/<strong>2008</strong>Analista da emissora diz que governantes são estúpi<strong>do</strong>s e assassinos. Chineses reagemcom boicote a produtos estrangeirosA guerra <strong>de</strong> propaganda nacionalista <strong>do</strong> governo da China contra a mídia estrangeira -acusada <strong>de</strong> manipular informações sobre o país, ser injustamente favorável ao Tibete no episódio<strong>do</strong>s conflitos em Lhasa e "ferir o sentimento <strong>do</strong> povo chinês" - subiu <strong>de</strong> tom ontem após ocomentarista político Jack Cafferty, da re<strong>de</strong> <strong>de</strong> TV americana CNN, convida<strong>do</strong> <strong>do</strong> programasemanal "The Situation Room", afirmar na quarta-feira passada que os produtos exporta<strong>do</strong>s pelaChina são "um lixo" e os governantes, "basicamente o mesmo ban<strong>do</strong> <strong>de</strong> estúpi<strong>do</strong>s e assassinos quesempre foram nos últimos 50 anos".A <strong>de</strong>claração caiu como uma bomba num país on<strong>de</strong> a população é manipulada pelapropaganda <strong>do</strong> governo na mídia estatal e as acusações contra os governantes são tratadas comoinsultos aos próprios chineses. A crítica ganhou importância num momento em que Pequim, se<strong>de</strong>das Olimpíadas em agosto, está acuada por protestos em to<strong>do</strong> o mun<strong>do</strong> contra a violação aosdireitos humanos.CNN diz que não pretendia ofen<strong>de</strong>r povo chinêsA porta-voz <strong>do</strong> Ministério das Relações Exteriores da China, Jiang Yu, exigiu, numaentrevista coletiva na terça-feira, que a CNN peça <strong>de</strong>sculpas públicas aos chineses:- Estamos choca<strong>do</strong>s e repudiamos veementemente as afirmações <strong>de</strong>gradantes feitas contra opovo chinês. O que ele disse reflete sua arrogância, ignorância e hostilida<strong>de</strong> aos chineses, que
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>67ficaram indigna<strong>do</strong>s - disse ela. - Exigimos que a CNN e Cafferty se retratem por seus infelizescomentários e peçam <strong>de</strong>sculpas ao povo da China.A CNN, por sua vez, emitiu um comunica<strong>do</strong> em que ressalta que nem a re<strong>de</strong> nem ocomentarista quiseram ofen<strong>de</strong>r o povo chinês e que os comentários <strong>de</strong> Cafferty - uma análise feitaenquanto o âncora Wolf Blitzer comparava a China <strong>de</strong> hoje ao país <strong>de</strong> 20 ou 30 anos atrás - sereferiam ao governo da China. "Não foi intenção <strong>de</strong> Cafferty ou da CNN ofen<strong>de</strong>r o povo chinês, egostaríamos <strong>de</strong> pedir <strong>de</strong>sculpas a quem quer que tenha interpreta<strong>do</strong> o comentário <strong>de</strong>sta maneira.Jack Cafferty estava dan<strong>do</strong> sua opinião forte sobre o governo da China, não sobre o povo da China.Ele já expressou seus comentários críticos a vários governos, inclusive ao governo <strong>do</strong>s EUA e seuslí<strong>de</strong>res", diz o comunica<strong>do</strong>.Mas a reação aos comentários da CNN foi enorme ontem na mídia estatal e nos sites <strong>de</strong>notícias chineses, que estamparam a "indignação <strong>do</strong> povo chinês" em suas capas e páginas nainternet. Num tom nacionalista e xenófobo, a imprensa publicou editoriais contra a re<strong>de</strong> e contra osjornalistas estrangeiros, acusa<strong>do</strong>s <strong>de</strong> estarem predispostos a falar mal <strong>do</strong> país.Na internet, um grupo <strong>de</strong> chineses nos EUA fez um abaixo-assina<strong>do</strong> online para pedir que aCNN se <strong>de</strong>sculpe e que, ontem à tar<strong>de</strong>, tinha 50 mil assinaturas. Outro site contra a "manipulação damídia estrangeira" foi cria<strong>do</strong> na sexta-feira e já conta com 1,2 milhão <strong>de</strong> assinaturas <strong>de</strong> protestocontra a imprensa internacional, "especialmente a CNN e a BBC".Para o professor <strong>de</strong> estu<strong>do</strong>s <strong>do</strong> Leste Asiático da Universida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Princeton, Perry Link, aonda xenófoba da China em reação aos episódios da crise no Tibete e da viagem da tocha olímpicajá era esperada.- As explosões <strong>de</strong> sentimentos nacionalistas tiram da cabeça <strong>do</strong>s chineses preocupações com oque faz seu próprio governo: corrupção, <strong>de</strong>gradação ambiental, diferença crescente <strong>de</strong> renda, eredirecionam esta raiva para tibetanos e estrangeiros. Isto faz um bem enorme para os governanteschineses - diz.Mas a indignação com os estrangeiros ganha um perigoso tom <strong>de</strong> enfrentamento no momentoem que Pequim se prepara para receber 500 mil turistas estrangeiros para as Olimpíadas. Através <strong>de</strong>mensagens <strong>de</strong> celular, os chineses estão pedin<strong>do</strong> um boicote aos supermerca<strong>do</strong>s Carrefour e à re<strong>de</strong><strong>de</strong> lojas Body Shop, comprada pela gigante francês L'Oréal em 2006, como uma "resposta àmaneira como os franceses trataram a tocha olímpica em Paris".O GloboJapão têm exportações recor<strong>de</strong> no ano fiscal <strong>de</strong> 200723/04/<strong>2008</strong>As exportações <strong>do</strong> Japão alcançaram um recor<strong>de</strong> <strong>de</strong> alta no ano fiscal <strong>de</strong> 2007 encerra<strong>do</strong> emmarço, disse o governo nesta quarta-feira, <strong>de</strong>stacan<strong>do</strong> a forte confiança <strong>do</strong> país na <strong>de</strong>manda externapara manter seus seis anos <strong>de</strong> expansão.O superávit comercial <strong>de</strong> merca<strong>do</strong>rias ficou em 10,225 trilhões <strong>de</strong> ienes (US$ 99,2 bilhões) noano fiscal 2007, alta <strong>de</strong> 13,4% ante o ano anterior, com as exportações crescen<strong>do</strong> 9,9%, para 85,118trilhões <strong>de</strong> ienes (US$ 82,6 bilhões).Ainda que os números da balança comercial divulga<strong>do</strong>s pelo Ministério das Finançasmostrem que as exportações cresceram, as vendas externas para as nações asiáticas, incluin<strong>do</strong> aChina, claramente per<strong>de</strong>ram a força. À medida que as incertezas sobre a economia globalaumentam, a segunda maior economia <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> po<strong>de</strong>rá enfrentar obstáculos no caminho <strong>de</strong> seucrescimento.Refletin<strong>do</strong> uma <strong>de</strong>saceleração no crescimento, o superávit comercial com a Ásia, incluin<strong>do</strong> aChina caiu 14,4% em março. Foi a primeira baixa em oito meses.As exportações para a Ásia avançaram 11,5% no ano fiscal, soma<strong>do</strong> seis anos consecutivos <strong>de</strong>alta; mas, em março, a alta foi <strong>de</strong> apenas 1,9%, em comparação com março <strong>do</strong> ano fiscal anterior.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>68O enfraquecimento da <strong>de</strong>manda na Ásia dá à equipe econômica <strong>de</strong> Tóquio um bom motivopara se preocupar. Até agora, as autorida<strong>de</strong>s têm enfatiza<strong>do</strong> que as exportações permanecemsaudáveis no rastro da <strong>de</strong>manda robusta da Ásia e da zona da euro.O Ministério das Finanças também disse que o superávit comercial em março recuou 30,2%,em termos anualiza<strong>do</strong>s, para 1,119 trilhões <strong>de</strong> ienes (US$ 10,8 bilhões). As exportações subiram2,3% no mês à medida que os embarques <strong>de</strong> semicondutores para a Ásia foram fracos.Em março, as exportações para os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s também caíram pelo sétimo mêsconsecutivo - queda <strong>de</strong> 11%, em termos anualiza<strong>do</strong>s. Em to<strong>do</strong> o ano fiscal, as exportações paraEUA recuaram 3,1% - o primeiro <strong>de</strong>clínio em quatro anos, segun<strong>do</strong> o ministério.Os analistas estão cada vez mais pessimistas em relação às estimativas para a economiajaponesa. Eles avaliam que a tendência <strong>de</strong> queda nas exportações po<strong>de</strong>ria pesar no crescimento daprodução industrial, puxan<strong>do</strong> para baixo a economia. As informações são da Dow JonesAgência Esta<strong>do</strong>Água, o novo negócio da China17/04/<strong>2008</strong>Para resolver seus graves problemas <strong>de</strong> tratamento e abastecimento, o país investe 125bilhões <strong>de</strong> dólares e cria o maior merca<strong>do</strong> <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> nesse setor"Um camelo po<strong>de</strong> ficar sem água por 30 dias. Uma economia em <strong>de</strong>senvolvimento, não."Esse texto faz parte da nova campanha da General Electric na China, feita para a divulgação <strong>do</strong>sserviços <strong>de</strong> tratamento e purificação <strong>de</strong> água que estão sen<strong>do</strong> realiza<strong>do</strong>s pela companhia americanano país. Por uma combinação entre <strong>de</strong>sperdício, falta <strong>de</strong> planejamento, <strong>de</strong>scaso ambiental eaumento da <strong>de</strong>manda, a China está no grupo <strong>do</strong>s países que mais sofrem atualmente com a escassez<strong>do</strong> recurso. Cerca <strong>de</strong> 70% <strong>de</strong> seus rios e lagos estão poluí<strong>do</strong>s e mais da meta<strong>de</strong> das cida<strong>de</strong>s temproblemas <strong>de</strong> abastecimento. Diante da gravida<strong>de</strong> da situação, o governo <strong>de</strong> Pequim <strong>de</strong>cidiu investirno setor 125 bilhões <strong>de</strong> dólares nos próximos três anos. A quantia, acreditam os representantes <strong>do</strong>Parti<strong>do</strong> Comunista, <strong>de</strong>ve resolver boa parte das atuais <strong>de</strong>ficiências e <strong>de</strong>ixar a infra-estruturapreparada para suportar o ritmo <strong>de</strong> crescimento <strong>do</strong> país. Paralelamente à liberação <strong>de</strong> recursosoficiais, as autorida<strong>de</strong>s vêm abrin<strong>do</strong> <strong>de</strong> forma gradual o setor à participação das companhiasestrangeiras. "Nenhum outro lugar <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> oferece hoje tantas oportunida<strong>de</strong>s para projetosrelaciona<strong>do</strong>s ao merca<strong>do</strong> <strong>de</strong> água", afirma o economista alemão Eric Heymann, analista <strong>do</strong> DBResearch, braço <strong>de</strong> pesquisas <strong>do</strong> Deutsche Bank, em Frankfurt, na Alemanha.A GE é uma das que têm <strong>de</strong>monstra<strong>do</strong> gran<strong>de</strong> apetite por esse novo merca<strong>do</strong>. Com o objetivo<strong>de</strong> divulgar sua tecnologia <strong>de</strong> tratamento <strong>de</strong> água e fazer política <strong>de</strong> boa vizinhança com o Parti<strong>do</strong>Comunista, a companhia investiu cerca <strong>de</strong> 80 milhões <strong>de</strong> dólares para fazer parte <strong>do</strong> grupo <strong>de</strong>patrocina<strong>do</strong>res da próxima Olimpíada. Também como parte <strong>de</strong> seu envolvimento com os Jogos,colocou outros 500 milhões <strong>de</strong> dólares em mais <strong>de</strong> 350 projetos relaciona<strong>do</strong>s à infra-estrutura para acompetição, em áreas como transporte, segurança, energia, saú<strong>de</strong>, iluminação e água. Uma dasgran<strong>de</strong>s obras <strong>do</strong> pacote envolve o fornecimento <strong>de</strong> tecnologia a uma fábrica capaz <strong>de</strong> reciclar efiltrar mais <strong>de</strong> 80 000 metros cúbicos <strong>de</strong> água por dia em Pequim.Outras multinacionais ligadas ao setor <strong>de</strong>vem disputar espaço no merca<strong>do</strong> <strong>de</strong> água com a GE.Uma das pioneiras em investimentos nessa área na China, a Veolia Water, uma divisão da francesaVeolia Environment, possui hoje mais <strong>de</strong> 20 contratos <strong>de</strong> operação para distribuição e tratamentoem cida<strong>de</strong>s como Changzhou e Chengdu. Um <strong>de</strong> seus mais novos negócios é o gerenciamentocompleto <strong>de</strong> água da cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Haikou, capital da ilha <strong>de</strong> Hainan, ao sul <strong>do</strong> país, ponto turísticofamoso entre os chineses. A Veolia investe 1,5 bilhão <strong>de</strong> dólares por ano no país, valor que <strong>de</strong>veaumentar mais <strong>de</strong> 60% até 2013. Outra companhia francesa com forte atuação no ramo, a SuezEnvironment, administra atualmente o fornecimento <strong>de</strong> água a 13,5 milhões <strong>de</strong> resi<strong>de</strong>ntes chineses.Ela tem operações importantes como uma concessão <strong>de</strong> 30 anos, assinada em 2006, para o
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>69tratamento <strong>de</strong> água e esgoto <strong>do</strong>s mais <strong>de</strong> 6 milhões <strong>de</strong> habitantes <strong>de</strong> Chongqing, na região central <strong>do</strong>país, cida<strong>de</strong> que é um <strong>do</strong>s símbolos <strong>do</strong> progresso da China. Nos próximos cinco anos, a Suezplaneja investir 750 milhões <strong>de</strong> dólares a fim <strong>de</strong> capitalizar o negócio local <strong>de</strong> água e esgoto. Em2006, o país foi responsável por 6% <strong>do</strong> faturamento da companhia.As empresas multinacionais perceberam que a água não é um bem como qualquer outro naChina -- ela está cada vez mais rara no país e, portanto, mais valiosa. Os chineses <strong>de</strong>têm 7% <strong>do</strong>srecursos hídricos <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> -- e 21% <strong>do</strong>s habitantes <strong>do</strong> planeta. O nível <strong>de</strong> água per capita é <strong>de</strong> 2127 metros cúbicos por ano, ante 45 039 metros cúbicos <strong>do</strong> Brasil. O problema é ainda mais gravena região norte, que concentra quase meta<strong>de</strong> da população <strong>do</strong> país e apenas 14% da água. A Chinasofre também com a falta <strong>de</strong> uma estrutura <strong>de</strong> fornecimento a<strong>de</strong>quada, razão pela qual menos <strong>de</strong>15% <strong>de</strong> sua população tem água potável em suas torneiras. Dois terços das 600 maiores cida<strong>de</strong>schinesas não têm sequer abastecimento regular. Para completar o quadro <strong>de</strong> problemas, há carência<strong>de</strong> uma boa re<strong>de</strong> <strong>de</strong> serviços <strong>de</strong> tratamento <strong>de</strong> resíduos agrícolas, <strong>do</strong>mésticos e industriais, o quecontribuiu para a poluição que vem <strong>de</strong>struin<strong>do</strong> as fontes limpas.A dimensão <strong>do</strong> problemaAs razões que transformaram a água num <strong>do</strong>s principais <strong>de</strong>safios para a ChinaPoluiçãoA falta <strong>de</strong> uma estrutura a<strong>de</strong>quada <strong>de</strong> tratamento <strong>de</strong> esgoto e <strong>de</strong> resíduos industriais eagrícolas <strong>de</strong>ixou resulta<strong>do</strong>s trágicos. Estima-se que mais <strong>de</strong> 70% <strong>do</strong>s rios e lagos da China estejampoluí<strong>do</strong>sFornecimento ina<strong>de</strong>qua<strong>do</strong>Mais da meta<strong>de</strong> das cida<strong>de</strong>s chinesas sofre com a falta <strong>de</strong> água. Na porção rural <strong>do</strong> país, asituação é ainda pior: só 67% da população tem acesso à água potável, ante 93% da urbanaDesvantagem naturalAChina tem 21% da população <strong>do</strong> planeta, mas só 7% <strong>do</strong> estoque <strong>de</strong> água. O norte <strong>do</strong> país é omais <strong>de</strong>sigual: concentra 42% <strong>do</strong>s chineses e só 14% da águaA SITUAÇÃO DE EMERGENCIA tem si<strong>do</strong> agravada pelo ritmo <strong>de</strong> crescimento econômicochinês, que exerce uma pressão enorme sobre a <strong>de</strong>manda <strong>do</strong> recurso. De acor<strong>do</strong> com o centro <strong>de</strong>estu<strong>do</strong>s <strong>de</strong> água americano Pacific Institute, o consumo total <strong>de</strong> água na China aumentou 20% <strong>de</strong>1980 a 2005. Mu<strong>do</strong>u também o perfil <strong>de</strong> utilização. Antes, o setor industrial consumia apenas 7%da água disponível. Hoje, sua participação é <strong>de</strong> 25%. A <strong>de</strong>manda é tão gran<strong>de</strong> que as fontes <strong>de</strong> águajá não conseguem mais dar conta <strong>do</strong> reca<strong>do</strong>. Muitas <strong>de</strong>las começam a apresentar sinais <strong>de</strong>esgotamento. É o caso da bacia <strong>do</strong> rio Hai, um <strong>do</strong>s três maiores <strong>do</strong> país, que tem capacida<strong>de</strong> parafornecer 17,3 bilhões <strong>de</strong> metros cúbicos <strong>de</strong> água por ano. As retiradas em 2007, no entanto,chegaram a 26 bilhões <strong>de</strong> metros cúbicos. Com isso, o Hai corre o risco <strong>de</strong> secar nos próximos anos.O governo chinês começou a se preocupar mais seriamente com a questão só nos últimosanos. Em 1988, foi criada no país a Lei Nacional <strong>de</strong> Água, que estabelece as diretrizes para o uso <strong>do</strong>recurso, promoven<strong>do</strong> soluções para problemas nas áreas <strong>de</strong> gerenciamento, utilização, conservaçãoe proteção das riquezas hídricas <strong>do</strong> país. Em 2006, o governo aumentou a ênfase no assunto aolançar seu 11o plano qüinqüenal. Nele, as autorida<strong>de</strong>s clamam pela construção <strong>de</strong> uma "socieda<strong>de</strong>que economiza água". "Hoje conseguimos ver que o governo chinês está realmente interessa<strong>do</strong> emresolver a questão da infra-estrutura nesse setor", afirma Eric J. Heikkila, especialista em assuntosda China da Universida<strong>de</strong> <strong>do</strong> Sul da Califórnia, nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s. Um projeto gran<strong>de</strong> <strong>do</strong> governopara reduzir os problemas <strong>de</strong> abastecimento da região norte preten<strong>de</strong> <strong>de</strong>sviar mais <strong>de</strong> 40 bilhões <strong>de</strong>metros cúbicos <strong>de</strong> água <strong>do</strong> sul, a um custo <strong>de</strong> 62 bilhões <strong>de</strong> dólares. A obra, que <strong>de</strong>ve ser finalizada
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>70em 2050, vai retirar água <strong>do</strong> rio Yangtze e levá-la ao norte através <strong>de</strong> mais <strong>de</strong> 2 500 quilômetros <strong>de</strong>canais, construí<strong>do</strong>s em três fases. "O governo chinês sabe que há uma crise <strong>de</strong> água que estáatravancan<strong>do</strong> seu <strong>de</strong>senvolvimento. E seus esforços em tornar o país e sua economia sustentáveis setraduzem em enormes oportunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> negócios em áreas como tratamento <strong>de</strong> água e esgoto", dizJean-Louis Chaussa<strong>de</strong>, presi<strong>de</strong>nte da Suez Environment.O setor não vai necessitar apenas <strong>de</strong> obras <strong>de</strong> infra-estrutura. Num prazo curto <strong>de</strong> tempo, ogoverno <strong>de</strong> Pequim precisará rever a política <strong>de</strong> tarifas. O preço da água é muito baixo no país.Hoje, a média nacional <strong>do</strong> gasto das famílias com conta <strong>de</strong> água representa apenas 0,5% <strong>de</strong> seuorçamento, muito aquém <strong>do</strong> padrão <strong>de</strong> 5% sugeri<strong>do</strong> pelo Banco Mundial para países em<strong>de</strong>senvolvimento. De acor<strong>do</strong> com muitos especialistas, aumentar as tarifas para o uso <strong>do</strong> recursopo<strong>de</strong>ria conter o consumo e criar no país uma cultura <strong>de</strong> conservação e economia. Nacionalmente, ocusto <strong>do</strong> uso <strong>de</strong> água resi<strong>de</strong>ncial já subiu 42% <strong>de</strong> 2000 a 2005, <strong>de</strong> acor<strong>do</strong> com uma pesquisa <strong>do</strong>National Bureau of Statistics. Nas gran<strong>de</strong>s cida<strong>de</strong>s, a alta foi <strong>de</strong> 300% a 400% entre 2004 e 2006.Mas a conta ainda continua baixa. "Sem dúvida, os preços inferiores são uma das principais razõespara o consumo alto, já que as pessoas não reconhecem neles a escassez <strong>do</strong> recurso. No entanto, épreciso pon<strong>de</strong>rar os efeitos sociais <strong>de</strong> uma alta nos preços. A maior parte da população <strong>do</strong> país é <strong>de</strong>baixa renda", diz Eric Heymann, <strong>do</strong> DB Research.Não é apenas a potência chinesa que enfrenta graves problemas relaciona<strong>do</strong>s ao uso <strong>de</strong>sserecurso. De acor<strong>do</strong> com um estu<strong>do</strong> recente da consultoria Deloitte, só em <strong>2008</strong> mais <strong>de</strong> 1 bilhão <strong>de</strong>pessoas <strong>do</strong> planeta sofrerão com a falta <strong>de</strong> água limpa. Nas próximas duas décadas, o setor exigiráum investimento global <strong>de</strong> mais <strong>de</strong> 1 trilhão <strong>de</strong> dólares. "A água, assim como o petróleo, está setornan<strong>do</strong> escassa", afirmou recentemente Henri Proglio, presi<strong>de</strong>nte da Veolia Environment. Paramuitos especialistas no assunto, a água promete ser para o século 21 o que o petróleo foi para oséculo 20: a commodity preciosa que <strong>de</strong>termina a riqueza das nações. As novas economiasemergentes em países da África e da Ásia são as que mais precisam <strong>de</strong> investimentos. Na Áfricasubsaariana, só 65% <strong>do</strong>s lares têm acesso à água potável, ante 90% na América Latina.A questão torna-se mais preocupante quan<strong>do</strong> se observa que faltam recursos à maioria <strong>do</strong>sgovernos para investimentos em infra-estrutura nessa área. Mesmo nações <strong>de</strong>senvolvidas, como osEsta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, não escapam <strong>do</strong> problema. O país tem um déficit <strong>de</strong> 11 bilhões <strong>de</strong> dólares anuaisno setor, <strong>de</strong> acor<strong>do</strong> com a Socieda<strong>de</strong> Americana <strong>de</strong> Engenheiros Civis. Em 2005, último da<strong>do</strong>disponível, o investimento foi <strong>de</strong> 850 milhões <strong>de</strong> dólares, menos <strong>de</strong> 10% <strong>do</strong> i<strong>de</strong>al. É consenso nomun<strong>do</strong> que a solução para evitar a catástrofe passa pelo aumento da participação da iniciativaprivada. Hoje, 10% da população <strong>do</strong> planeta é servida por empresas privadas <strong>do</strong> setor hídrico. Essataxa <strong>de</strong>ve aumentar rapidamente nos próximos anos. No Oriente Médio, por exemplo, a ArábiaSaudita começou a liberalizar o setor neste ano. Até 2010, o país preten<strong>de</strong> entregar meta<strong>de</strong> <strong>do</strong>negócio <strong>de</strong> tratamento e distribuição <strong>de</strong> água à iniciativa privada. Mas, em termos <strong>de</strong> oportunida<strong>de</strong><strong>de</strong> negócios, não há nada que se compare hoje ao que vem ocorren<strong>do</strong> no merca<strong>do</strong> hídrico da China.ExameO renascimento <strong>de</strong> Mumbai03/04/<strong>2008</strong>O plano <strong>de</strong> 60 bilhões <strong>de</strong> dólares <strong>do</strong> governo indiano para transformar uma dasmetrópoles mais caóticas <strong>do</strong> planeta num novo centro financeiroMumbai é uma espécie <strong>de</strong> síntese <strong>do</strong> que a Índia tem <strong>de</strong> melhor -- e <strong>de</strong> pior. Lá estão sediadasa maior bolsa <strong>de</strong> valores <strong>do</strong> país, a indústria cinematográfica que mais produz filmes no planeta,Bollywood, e algumas das principais empresas indianas, como os conglomera<strong>do</strong>s Reliance, <strong>do</strong>bilionário Mukesh Ambani, e o Tata Group, comanda<strong>do</strong> pelo empresário Ratan Tata. Essa é a facemo<strong>de</strong>rna da cida<strong>de</strong>, que simboliza como nenhuma outra o estágio <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento <strong>de</strong> umaeconomia que vem crescen<strong>do</strong>, em média, 9% ao ano. Mumbai é também uma das metrópoles mais
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>71caóticas <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>. A poluição atinge níveis quase insuportáveis, falta água potável e to<strong>do</strong>s vivemsob a ameaça <strong>de</strong> blecautes, pois o equilíbrio entre a <strong>de</strong>manda e a produção <strong>de</strong> energia se encontra nolimite. Meta<strong>de</strong> da população <strong>de</strong> 14 milhões <strong>de</strong> habitantes mora em favelas (uma <strong>de</strong>las, a <strong>de</strong> Dharavi,concentra 1 milhão <strong>de</strong> mora<strong>do</strong>res, 17 vezes mais que a comunida<strong>de</strong> da Rocinha, no Rio <strong>de</strong> Janeiro).O trânsito é sempre infernal. Nos horários <strong>de</strong> pico, os carros avançam a ritmo <strong>de</strong> elefante, comvelocida<strong>de</strong> média <strong>de</strong> 13 quilômetros por hora. No transporte público, 5 000 passageiros seaglomeram em trens com capacida<strong>de</strong> para 1 700 pessoas. Muitos arriscam a vida em cima <strong>do</strong>svagões. Por causa disso, centenas morrem nos trilhos por ano.Obstáculos à mo<strong>de</strong>rnida<strong>de</strong>Para transformar a cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mumbai em um novo centro financeiro mundial, o governo vaiprecisar resolver seus sérios problemas <strong>de</strong> infra-estruturaTRÂNSITOA frota da cida<strong>de</strong> é estimada hoje em 1,5 milhão <strong>de</strong> veículos, cinco vezes mais <strong>do</strong> que aregistrada na década <strong>de</strong> 80. Em razão disso, a velocida<strong>de</strong> média <strong>do</strong> trânsito é <strong>de</strong> 13 quilômetrospor horaENERGIAA <strong>de</strong>manda diária <strong>de</strong> energia elétrica é <strong>de</strong> 2 500 megawatts, uma das médias mais altas <strong>do</strong>país.A situação está no limite e a cida<strong>de</strong> corre risco <strong>de</strong> sofrer apagõesAEROPORTOO terminal <strong>de</strong> Mumbai é um <strong>do</strong>s mais congestiona<strong>do</strong>s <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>. Planeja<strong>do</strong> para aten<strong>de</strong>r 18milhões <strong>de</strong> passageiros, atualmente recebe mais <strong>de</strong> 25 milhõesCUSTOS DE INSTALAÇÃOPor causa da baixa oferta <strong>de</strong> imóveis em Mumbai, os gastos com aluguéis são altos, o quefaz com que a cida<strong>de</strong> seja a quarta mais cara da ÁsiaO governo indiano está empenha<strong>do</strong> em realizar uma faxina capaz <strong>de</strong> varrer <strong>do</strong> mapa a faceatrasada <strong>de</strong> Mumbai e ressaltar seus pontos positivos. Para isso, anunciou recentemente um plano <strong>de</strong>investimento <strong>de</strong> 60 bilhões <strong>de</strong> dólares em melhorias urbanas até 2020. Um <strong>do</strong>s principais objetivos<strong>do</strong> projeto é transformar a metrópole num novo centro financeiro mundial, oferecen<strong>do</strong> uma série <strong>de</strong>facilida<strong>de</strong>s para atrair empresas e profissionais <strong>de</strong>sse setor, como se fosse uma versão asiática <strong>de</strong>Wall Street. "Queremos criar uma infra-estrutura <strong>de</strong> alto nível", afirma Vilasrao Deshmukh,ministro-chefe <strong>do</strong> esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> Maharashtra, <strong>do</strong> qual Mumbai é capital. O mo<strong>de</strong>lo que inspira atransformação <strong>de</strong> Mumbai é Xangai. No final <strong>do</strong>s anos 80, a metrópole chinesa era apagada e pouco<strong>de</strong>senvolvida, até que o prefeito Zhu Rongi colocou em prática o seguinte lema: "Infra-estruturavem em primeiro lugar". Foram investi<strong>do</strong>s 40 bilhões <strong>de</strong> dólares em <strong>de</strong>z gran<strong>de</strong>s projetos <strong>de</strong>reconstrução urbana, entre novas pontes, túneis, metrô e sistemas <strong>de</strong> telecomunicações. Hoje,Xangai é uma das metrópoles mais pujantes e mo<strong>de</strong>rnas da Ásia.Os indianos acham que po<strong>de</strong>m realizar feito semelhante com sua Mumbai. Um <strong>do</strong>s locaison<strong>de</strong> as obras já se iniciaram é o Aeroporto Chhatrapati Shivaji International, o maior <strong>do</strong> país.Planeja<strong>do</strong> para aten<strong>de</strong>r 18 milhões <strong>de</strong> passageiros por ano, ele está hoje sobrecarrega<strong>do</strong>.Atualmente, passam pelo aeroporto <strong>de</strong> Mumbai mais <strong>de</strong> 25 milhões <strong>de</strong> pessoas. É normal asaeronaves voarem em círculos por meia hora até conseguirem pousar. O projeto <strong>de</strong> repaginação, queengloba a construção <strong>de</strong> um novo terminal, expandirá sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> passageiros <strong>de</strong> 25 milhõespara 40 milhões e <strong>do</strong>brará seu volume <strong>de</strong> carga, além <strong>de</strong> incluir um centro comercial, um hotel eoutras facilida<strong>de</strong>s. Com um custo <strong>de</strong> 1,7 bilhão <strong>de</strong> dólares, as obras iniciadas em 2006 <strong>de</strong>vem serconcluídas em 2010. Outro plano em andamento é a construção <strong>de</strong> um sistema <strong>de</strong> 150 quilômetros
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>72<strong>de</strong> metrô para <strong>de</strong>safogar o transporte público. A construção será feita em três etapas até 2021, a umcusto <strong>de</strong> 600 milhões <strong>de</strong> dólares.Mumbai é uma espécie <strong>de</strong> vitrine <strong>do</strong>s gigantescos <strong>de</strong>safios <strong>de</strong> infra-estrutura que a Índia tempela frente. "Toda a Índia precisa lidar com a pobreza e a infra-estrutura precária. E esqueça ospadrões <strong>do</strong>s problemas brasileiros, por exemplo, porque a situação <strong>do</strong> país asiático é extremamentepior", diz Philipp Ro<strong>de</strong>, especialista em planejamento urbano da Lon<strong>do</strong>n School of Economics. Osproblemas <strong>de</strong> Mumbai também existem em todas as outras cida<strong>de</strong>s indianas, em maior ou menorescala. Cerca <strong>de</strong> 45% das residências <strong>do</strong> país não são abastecidas com energia elétrica e otratamento <strong>de</strong> água e esgoto é ina<strong>de</strong>qua<strong>do</strong>, quan<strong>do</strong> não inexistente. Em razão disso, o ministro daFazenda, Palaniappan Chidambaram, anunciou que espera aumentar os investimentos da Índia eminfra-estrutura <strong>de</strong> 5% para 9% <strong>do</strong> PIB. Nos próximos cinco anos, 500 bilhões <strong>de</strong> dólares serãoinvesti<strong>do</strong>s -- 30% <strong>de</strong>sse valor vin<strong>do</strong> <strong>do</strong> setor priva<strong>do</strong>. A soma será canalizada para a melhoria <strong>de</strong>cida<strong>de</strong>s, portos, estradas e aeroportos. É a capacida<strong>de</strong> <strong>do</strong> governo <strong>de</strong> recuperar a infra-estrutura <strong>do</strong>país e renovar sistemas antiqua<strong>do</strong>s que vai <strong>de</strong>terminar o futuro não só <strong>de</strong> Mumbai, mas <strong>de</strong> toda aÍndia.ExameÀ ESPERA DE UMA CATÁSTROFE25/05/<strong>2008</strong>Represa que <strong>de</strong>slocou 1,3 milhão <strong>de</strong> chineses preocupa agora por impacto causa<strong>do</strong> porterremoto— Sobre como o terremoto afetou Três Gargantas, o que a comunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> engenharia sabe éo que diz o governo da China, país com um histórico <strong>de</strong> obras gigantes <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> impacto negativotanto <strong>do</strong> ponto <strong>de</strong> vista ambiental quanto humano — diz Patricia Adams, diretora-executiva daProbe International, ONG <strong>do</strong> Canadá que fiscaliza obras <strong>de</strong> infra-estrutura nas quais empresascana<strong>de</strong>nses participam. — Mas o fato é que o pesa<strong>do</strong> lago, construí<strong>do</strong> numa área já instável <strong>do</strong>ponto <strong>de</strong> vista geológico, vem contribuin<strong>do</strong> para o aumento na freqüência <strong>de</strong> tremores,<strong>de</strong>slizamentos e erosão na área <strong>do</strong> Yang Tsé.Nível <strong>de</strong> reservatório acima <strong>do</strong> normalEm setembro <strong>do</strong> ano passa<strong>do</strong>, um artigo no “Diário <strong>do</strong> Povo”, porta-voz <strong>do</strong> Parti<strong>do</strong>Comunista da China (PCC), alertava para os perigos ambientais da represa transcreven<strong>do</strong> a opinião<strong>de</strong> um alto funcionário <strong>do</strong> governo, sem contu<strong>do</strong> revelar seu nome, indício <strong>de</strong> que o tema vemsen<strong>do</strong> objeto <strong>de</strong> discussão na cúpula <strong>do</strong> po<strong>de</strong>r chinesa. “Há vários perigos ambientais e ecológicos,novos e antigos, relativos a Três Gargantas. Se medidas preventivas não forem tomadas, o projetovai terminar em catástrofe”, dizia o artigo.No mesmo mês, o próprio chefe da Comissão <strong>de</strong> Três Gargantas junto ao Conselho <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong>,Wang Xiaofeng, afirmou em seminário sobre o rio Yang Tsé que “não se po<strong>de</strong> baixar a guardasobre os problemas causa<strong>do</strong>s pelo projeto <strong>de</strong> Três Gargantas, assim como não se busca prosperida<strong>de</strong>econômica às custas <strong>do</strong> meio-ambiente”.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong> 73
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>74Ouvi<strong>do</strong>s pelo jornal <strong>de</strong> Hong Kong “South China Morning Post”, <strong>do</strong>is <strong>do</strong>s maioresespecialistas chineses em geologia e hidráulica — Liu Shukun, professor <strong>do</strong> Instituto Chinês <strong>de</strong>Recursos Hídricos e Pesquisa Hidráulica, e Fan Xiao, geólogo <strong>de</strong> Sichuan especializa<strong>do</strong> no YangTsé — ligaram a construção da represa a <strong>de</strong>zenas <strong>de</strong> pequenos tremores e <strong>de</strong>slizamentos na região.“A elevação das águas <strong>do</strong> reservatório fez os terrenos montanhosos satura<strong>do</strong>s <strong>de</strong> água nas margens<strong>do</strong> rio mais instáveis, provocan<strong>do</strong> riscos geológicos que <strong>de</strong>ixam as pessoas vulneráveis a <strong>de</strong>sastres”,disse Liu.Em junho <strong>de</strong> 2003, o nível <strong>do</strong> reservatório atingiu 135 metros acima <strong>do</strong> nível original e, emsetembro <strong>de</strong> 2006, passou para 156 metros. Des<strong>de</strong> então, segun<strong>do</strong> o professor Li Wangping, daAca<strong>de</strong>mia Chinesa <strong>de</strong> Engenharia, a região sofreu com 822 tremores e centenas <strong>de</strong> <strong>de</strong>slizamentos.Um <strong>de</strong>les, em novembro <strong>de</strong> 2007, no conda<strong>do</strong> <strong>de</strong> Ba<strong>do</strong>ng, matou 30 pessoas, quan<strong>do</strong> 3.050 metroscúbicos <strong>de</strong> barranco caíram sobre uma estrada local.Governo: ‘Não <strong>de</strong>monizem represa'As críticas fizeram o governo a<strong>do</strong>tar a postura <strong>de</strong>fensiva <strong>de</strong> sempre. O próprio WangXiaofeng convocou coletiva <strong>de</strong> imprensa em Pequim para <strong>de</strong>smentir o cenário <strong>de</strong> perigo:— O impacto da represa não exce<strong>de</strong>u aquilo que constava <strong>do</strong> relatório <strong>de</strong> impacto ambientalfeito em 1991 e foi até menor <strong>do</strong> que prevíamos.Demonstran<strong>do</strong> irritação, um <strong>do</strong>s engenheiros responsáveis pelo início da construção darepresa, Pan Jiazheng, acusou a mídia estrangeira <strong>de</strong> “<strong>de</strong>monizar” a represa e fazer críticas parciaisnão baseadas em fatos:
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>75— Reportagens distorcidas e exageradas não ajudam o entendimento da China. Não<strong>de</strong>monizem a represa.Pan Jiazheng escolheu o público erra<strong>do</strong> para o discurso. Seria bom que ele explicasse aovilarejo <strong>de</strong> planta<strong>do</strong>res <strong>de</strong> laranja <strong>de</strong> Sanbadao, a apenas <strong>do</strong>is quilômetros da represa, por que <strong>de</strong>s<strong>de</strong><strong>de</strong>zembro <strong>de</strong> 2007 as 29 casas <strong>do</strong> local começaram a apresentar rachaduras <strong>do</strong> teto ao chão,<strong>de</strong>ixan<strong>do</strong> 89 mora<strong>do</strong>res em pânico. Depois <strong>de</strong> uma vistoria, técnicos <strong>do</strong> governo <strong>de</strong>ram até 31 <strong>de</strong>maio para que cerca <strong>de</strong> 90 pessoas <strong>de</strong>ixem suas casas.— Não temos para on<strong>de</strong> ir e o governo quer dar 6 mil yuans (US$862) a cada um comocompensação por nossas casas e fazendas, que estão aqui há gerações nos últimos cem anos —disse Tian Hu’an. — Nunca antes o terreno da montanha ameaçou ruir.— Os técnicos disseram que o problema era da montanha, que acumula muita água no solo eque tu<strong>do</strong> ameaça <strong>de</strong>sabar — afirma Tang Changzhen. — Mas nós achamos que isso estáacontecen<strong>do</strong> por causa da represa, porque nunca tivemos problema antes.Para a Probe International, a melhor solução para os riscos apresenta<strong>do</strong>s por Três Gargantasseria simplesmente <strong>de</strong>sativar a usina. Como isso é impossível para uma obra que causa orgulhoentre os chineses (que não se cansam <strong>de</strong> dizer que possuem a maior hidrelétrica <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> e visitamaos milhares a represa to<strong>do</strong>s os anos), a solução seria reduzir o nível <strong>do</strong> lago:— Reduzir o nível <strong>do</strong> lago reduziria a pressão sobre o terreno ao re<strong>do</strong>r <strong>do</strong> Yang Tsé. Muitosdizem que as chances <strong>de</strong> catástrofe são pequenas, nas condições normais <strong>do</strong> terreno e <strong>do</strong> tempo.Po<strong>de</strong> ser. Mas no caso <strong>de</strong> uma tempesta<strong>de</strong> ou um terremoto, os riscos e conseqüências <strong>de</strong> TrêsGargantas são enormes. A pergunta é: o risco compensa os benefícios da usina?O GloboINVASÃO ASIÁTICA02/06/<strong>2008</strong>Foram inéditos o ritmo acelera<strong>do</strong> <strong>de</strong> crescimento global e as baixas taxas <strong>de</strong> inflação <strong>do</strong>súltimos cinco anos. Mas a economia mundial está, em <strong>2008</strong>, em fase <strong>de</strong> transição. Há sinaisinequívocos <strong>de</strong> <strong>de</strong>saceleração econômica e também <strong>de</strong> pressões generalizadas <strong>do</strong>s preços <strong>de</strong>recursos naturais, energia, matérias-primas e alimentos sobre a inflação mundial. A economiaamericana, até então a mais potente turbina global, chegou ao fim <strong>de</strong> seu mais longo ciclo <strong>de</strong>crescimento. E mesmo a Ásia, outra po<strong>de</strong>rosa turbina global, terá <strong>de</strong> <strong>de</strong>sacelerar seu ritmo paramanutenção e reparos.A inflação corrente na China continental atingiu a taxa anual <strong>de</strong> 8,5%. O índice <strong>de</strong> preços aoconsumi<strong>do</strong>r atingiu 5,5% em Hong Kong e 4% em Taiwan nos últimos 12 meses. O banco central<strong>do</strong> Vietnã elevou os juros <strong>de</strong> 8,75% ao ano para 12% <strong>de</strong> uma só vez, corren<strong>do</strong> atrás <strong>de</strong> uma inflaçãoanual <strong>de</strong> 21,5%. Em Cingapura, a inflação <strong>do</strong>s últimos 12 meses saltou <strong>de</strong> 6,7% para 7,5% emapenas um mês. O mesmo ocorre na Índia, In<strong>do</strong>nésia, Coréia, Malásia, Filipinas e Tailândia, on<strong>de</strong> aaceleração <strong>de</strong> preços é acompanhada por uma <strong>de</strong>saceleração da produção industrial. A inflação daárea <strong>do</strong> euro atingiu os 3,6% anuais, a mais alta taxa em quase 16 anos.Outra dimensão preocupante no atual panorama da economia mundial é o exército industrial<strong>de</strong> reserva chinês, na melhor tradição marxista. Os números a seguir foram extraí<strong>do</strong>s <strong>de</strong> umaconferência <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte da Câmara <strong>de</strong> Comércio Americana na China. São evi<strong>de</strong>ntemente apenasum exemplo da invasão asiática, mas um exemplo assusta<strong>do</strong>r.Um par <strong>de</strong> botas <strong>de</strong> couro manufaturadas na China é vendi<strong>do</strong> por US$49,99 nos EUA. Mas,<strong>de</strong>sse preço <strong>de</strong> quase 50 dólares, US$35,20 (mais <strong>de</strong> <strong>do</strong>is terços) resultam em custos incorri<strong>do</strong>s elucros auferi<strong>do</strong>s fora da China. São <strong>de</strong>spesas com transporte; seguros contra danos, perdas e roubo;aluguéis, salários e custos administrativos das re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> distribuição e vendas nos EUA, bem comoos lucros <strong>do</strong>s atacadistas e varejistas americanos. Dos quase 50 dólares, apenas US$14,79 (menos<strong>de</strong> um terço) são custos incorri<strong>do</strong>s e lucros auferi<strong>do</strong>s na China. E a <strong>de</strong>composição <strong>de</strong>sses quase 15
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>76dólares da fatia chinesa é estarrece<strong>do</strong>ra: US$10,96 em custos <strong>de</strong> matérias-primas, US$1,88 emcustos fixos <strong>de</strong> fábrica; US$1,30 em salários e US$0,65 em lucros <strong>do</strong>s produtores chineses.Resumo da ópera: <strong>de</strong> um preço <strong>de</strong> quase 50 dólares, ficam apenas US$1,30 para a mão-<strong>de</strong>obrachinesa e exíguos US$0,65 para seus capitalistas selvagens. Os asiáticos mergulharam <strong>de</strong>cabeça na globalização. Com mão-<strong>de</strong>-obra abundante e excesso <strong>de</strong> poupança, aceitam baixossalários e baixas taxas <strong>de</strong> lucro para aumentar sua penetração na economia global. Os excessivosencargos sociais e trabalhistas, “conquistas” da social-<strong>de</strong>mocracia, são hoje uma po<strong>de</strong>rosa cunha <strong>de</strong>exclusão social, uma ameaça <strong>de</strong> empalação <strong>do</strong> trabalha<strong>do</strong>r brasileiro pelas hordas <strong>do</strong> capitalismochinês.O GloboOCEANIA E ANTÁRTIDAO Programa Antártico Brasileiro – PROANTAR29/04/<strong>2008</strong>O Programa Antártico Brasileiro –PROANTAR realiza pesquisas científicas nocontinente antártico visan<strong>do</strong> ampliar osconhecimentos <strong>do</strong>s fenômenos que ali ocorremem to<strong>do</strong>s os seus aspectos a suas influênciassobre o Brasil por meio <strong>de</strong>:Desenvolvimento das ativida<strong>de</strong>scientíficas brasileiras com envolvimento crescente <strong>de</strong> cientistas brasileirosEstu<strong>do</strong> das mudanças ambientais globais e avalian<strong>do</strong> sua consequência sobre o homem e osseres vivos, incluin<strong>do</strong> as consequências sócio-econômicas.I<strong>de</strong>ntificação <strong>do</strong>s recursos econômicos vivos e não vivos e obtenção <strong>de</strong> da<strong>do</strong>s sobre aspossibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> seu aproveitamento.Propiciamento <strong>de</strong> avanços da tecnologia nacional aplicável às condições fisiográficas eambientais <strong>do</strong> continente antártico e da área marinha adjacente, bem como a eventual exploração eo aproveitamento <strong>de</strong> recursos vivos e não vivos.Apoio à execução <strong>de</strong> pesquisas conjuntas internacionais em cooperações pacíficas ecompartilhadas. O eleva<strong>do</strong> custo <strong>de</strong> qualquer operação já realizada e sua condição <strong>de</strong> espaçointernacional <strong>de</strong>stina<strong>do</strong> à Ciência, induz que as ativida<strong>de</strong>s antárticas <strong>de</strong> ciência e tecnologia sejam,em gran<strong>de</strong> medida, <strong>de</strong>senvolvidas em termos <strong>de</strong> cooperação internacional, o que implica anecessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> os membros <strong>do</strong> Trata<strong>do</strong> da Antártica manterem ações permanentes, visan<strong>do</strong> oalinhamento <strong>de</strong> suas diretrizes científicas com aquelas, <strong>de</strong> cunho internacional emanadas <strong>do</strong> SCAR.O PROANTAR está vigente há mais <strong>de</strong> vinte anos e o CNPq á parceiro ativo <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1991,responsável pelas ativida<strong>de</strong>s científicas brasileiras na Antártica. Basicamente o programa possui trêsvertentes operacionais:Logística – a cargo da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos <strong>do</strong>Mar/SeCIRM, que também gerencia o programa;Científica – a cargo <strong>do</strong> Conselho Nacional <strong>de</strong> Desenvolvimento Científco eTecnológico/CNPq e;Ambiental – a cargo <strong>do</strong> Ministério <strong>do</strong> Meio Ambiente/MMA.EstruturaO Programa Antártico Brasileiro é geri<strong>do</strong> por uma parceria entre ministérios e uma agência <strong>de</strong>fomento. Efetivamente, participam <strong>do</strong> PROANTAR os ministérios da Ciência e Tecnologia, <strong>do</strong>
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>77Meio Ambiente, das Minas e Energia, das Relações Exteriores, da Defesa (Marinha e Aeronáutica)e o Conselho Nacional <strong>de</strong> Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).Ao CNPq cabe o financiamento e a coor<strong>de</strong>nação da execução das pesquisas, realizadas poruniversida<strong>de</strong>s e outras instituições, além da formação <strong>de</strong> pesquisa<strong>do</strong>res com conhecimento sobreAntártica. Para o exame <strong>do</strong>s projetos, a agência conta com seu Grupo <strong>de</strong> Assessoramento que sóaprova projetos que tenham mérito científico, apresentem orçamento aceitável e não causem danosambientais. O CNPq respon<strong>de</strong> ainda pela concessão <strong>de</strong> bolsas <strong>de</strong> formação.Por sua vez, o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) se ocupa da <strong>de</strong>finição da políticacientífica, buscan<strong>do</strong>, sempre que possível e conveniente, alinhar a pesquisa brasileira às diretrizes<strong>do</strong> Comitê Científico sobre Pesquisas Antártica (SCAR) que, em verda<strong>de</strong>, <strong>de</strong>fine os gran<strong>de</strong>sprojetos internacionais da ciência antártica. Com base no Protocolo <strong>de</strong> Madri, o Ministério <strong>do</strong> MeioAmbiente (MMA) procura garantir que as ativida<strong>de</strong>s brasileiras <strong>de</strong>senvolvidas na Antárticacumpram com as regras internacionais com vistas a minimizar o impacto da presença humana emsolo antártico. O Ministério das Relações Exteriores, órgão responsável pela Política Nacional paraos Assuntos Antárticos, conduz a atuação internacional <strong>do</strong> Brasil no âmbito <strong>do</strong> Trata<strong>do</strong> daAntártica.Ministério da Defesa atua no PROANTAR por intermédio <strong>do</strong>s Coman<strong>do</strong>s da Marinha e daAeronáutica. A Marinha <strong>do</strong> Brasil sedia a Secretaria da Comissão Interministerial para Recursos <strong>do</strong>Mar (SECIRM), que gerencia o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), planeja asOperações Antárticas e financia o segmento logístico <strong>do</strong> Programa, manten<strong>do</strong> a Estação Ferraz,refúgios e acampamentos, além da Estação <strong>de</strong> Apoio Antártico, na Fundação Universida<strong>de</strong> <strong>do</strong> RioGran<strong>de</strong>. A Aeronáutica realiza, com aeronaves C130, os vôos <strong>de</strong> apoio ao PROANTAR. O Decretonº 86.830, <strong>de</strong> 12 <strong>de</strong> janeiro <strong>de</strong> 1982, atribui à Comissão Interministerial para os Recursos <strong>do</strong> Mar(CIRM) a elaboração <strong>do</strong> projeto <strong>do</strong> Programa Antártico Brasileiro.Outro parceiro importante é o Ministério das Minas e Energia, que fornece, por intermédio daPetrobras, combustíveis especialmente <strong>de</strong>senvolvi<strong>do</strong>s para regiões geladas, essenciais aoabastecimento <strong>do</strong>s motores-gera<strong>do</strong>res da Estação, à propulsão <strong>do</strong> navio polar e embarcações, <strong>do</strong>shelicópteros, <strong>do</strong>s veículos terrestres e <strong>do</strong> avião da FAB.I - Coor<strong>de</strong>na<strong>do</strong>r: Comandante da MarinhaII - Membros:Casa Civil da Presidência da RepúblicaMinistério da DefesaMinistério <strong>de</strong> Ciência e TecnologiaMinistério <strong>do</strong> Meio AmbienteMinistério das Relações ExterioresMinistério <strong>do</strong> TransportesMinistério da Agricultura, Pecuária e AbastecimentoMinistério da EducaçãoMinistério <strong>do</strong> Desenvolvimento, Indústria e Comércio ExteriorMinistério <strong>de</strong> Minas e EnergiaMinistério <strong>do</strong> Planejamento, Orçamento e GestãoMinistério <strong>do</strong> EsporteMinistério <strong>do</strong> TurismoSecretaria Especial <strong>de</strong> Agricultura e PescaCNPq
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>78Sena<strong>do</strong> realiza seminário para <strong>de</strong>bater Programa AntárticoBrasileiro21/04/<strong>2008</strong>O Programa Antártico Brasileiro será tema <strong>de</strong> semináriopromovi<strong>do</strong> em conjunto pela Comissão Mista Especial <strong>de</strong>Mudanças Climáticas e a Frente Parlamentar em Prol <strong>do</strong> ProgramaAntártico Brasileiro (Proantar), que acontecerá entre os dias 6 e 9<strong>de</strong> maio, no auditório <strong>do</strong> Interlegis, em Brasília.De acor<strong>do</strong> com a programação, no dia 6, às 18h30, naBiblioteca <strong>do</strong> Sena<strong>do</strong>, serão lança<strong>do</strong>s os livros Brasil na Antártica– 25 anos <strong>de</strong> História, edita<strong>do</strong> pelo Ministério <strong>do</strong> Meio Ambiente,e O Brasil e o Meio Ambiente Antártico, sob a responsabilida<strong>de</strong> daSecretaria Interministerial para os Recursos <strong>do</strong> Mar. O semináriocomeça no dia 7, a partir das 9h, e vai reunir parlamentares, pesquisa<strong>do</strong>res, representantes <strong>de</strong> ONGse autorida<strong>de</strong>s públicas que atuam no setor. O eixo <strong>do</strong>s <strong>de</strong>bates vai girar sobre o ContinenteAntártico e sua influência nas mudanças climáticas globais, com palestras sobre o papel daAntártica nas mudanças climáticas, com enfoque nas conseqüências ambientais e econômicas para oBrasil; os recursos minerais e energéticos; e o caráter frágil e único <strong>do</strong> ambiente antártico. No dia 8,haverá uma sessão solene <strong>do</strong> Congresso Nacional, às 10h, em homenagem ao Ano PolarInternacional, que integra um conjunto <strong>de</strong> ações científicas com interesse comum nos pólos Ártico eAntártico. A programação prevê ainda a exposição O Brasil na Antártica, com registros da atuação<strong>de</strong> brasileiros no continente, que po<strong>de</strong>rá ser visitada entre os dias 6 e 9 <strong>de</strong> maio, no hall <strong>de</strong> entrada<strong>do</strong> Auditório Antonio Carlos Magalhães, <strong>do</strong> Sena<strong>do</strong> Fe<strong>de</strong>ral.www.inforel.orgORGANISMOS INTERNACIONAISTropas da ONU armaram milícias29/04/<strong>2008</strong>Investigação mostra que solda<strong>do</strong>s paquistaneses e indianos trocaram munição por ouroTropas <strong>de</strong> paz das Nações Unidas em operação na República Democrática <strong>do</strong> Congo teriamforneci<strong>do</strong> armas para as milícias locais em troca <strong>de</strong> ouro e marfim. A <strong>de</strong>núncia, que envolvesolda<strong>do</strong>s paquistaneses e indianos, é resulta<strong>do</strong> <strong>de</strong> uma investigação <strong>de</strong> 18 meses realizada pelaBBC, que ouviu fontes confi<strong>de</strong>nciais da ONU e sugere que a organização "ignorou ou acobertou" as<strong>de</strong>núncias.Foi constata<strong>do</strong> que na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mongbwalu, no Leste <strong>do</strong> país africano, tropas <strong>de</strong> paz <strong>do</strong>Paquistão envolveram-se no comércio ilegal <strong>de</strong> ouro e forneceram armas aos rebel<strong>de</strong>s da milíciaFNI para garantir a segurança <strong>do</strong> perímetro das minas, aponta a investigação.A investigação também mostra que os solda<strong>do</strong>s indianos presentes na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Goma, noLeste <strong>do</strong> Congo, estiveram diretamente envolvi<strong>do</strong>s com a milícia responsáveis pelo genocídio <strong>de</strong>Ruanda, hoje instalada no Leste <strong>do</strong> Congo.As forças indianas teriam ainda contraban<strong>de</strong>a<strong>do</strong> ouro, compra<strong>do</strong> drogas <strong>de</strong> membros dasmilícias e viaja<strong>do</strong> em um helicóptero da ONU até o Parque Nacional <strong>de</strong> Virunga, on<strong>de</strong> trocarammunição por marfim.Prece<strong>de</strong>nteAs Nações Unidas admitiram ter investiga<strong>do</strong> algumas acusações contra os solda<strong>do</strong>spaquistaneses no ano passa<strong>do</strong> e <strong>de</strong>scobriram que um <strong>de</strong>les teria se envolvi<strong>do</strong> com comércio ilegal
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>79<strong>de</strong> ouro ao permitir que os negociantes usassem um avião da ONU para chegar até a base daorganização, na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Mongbwalu.As autorida<strong>de</strong>s <strong>do</strong> organismo, no entanto, afirmaram que "diante da ausência <strong>de</strong> provas maiscontun<strong>de</strong>ntes, os investiga<strong>do</strong>res não podiam provar alegações <strong>de</strong> que as tropas <strong>de</strong> paz paquistanesasforneceram armas para a milícia".– A investigação não encontrou evidências <strong>de</strong> contraban<strong>do</strong> <strong>de</strong> armas, mas i<strong>de</strong>ntificou umindivíduo que parece ter facilita<strong>do</strong> o contraban<strong>do</strong> <strong>de</strong> ouro – disse o coor<strong>de</strong>na<strong>do</strong>r das operações <strong>de</strong>paz da ONU em Nova York, Jean-Marie Guehenno. – Dividimos essas informações com o coman<strong>do</strong>das tropas no local e esperamos que sejam tomadas as ações necessárias. O assunto está encerra<strong>do</strong>.Chefe da missão da ONU no Congo, Alan Doss disse que "pessoalmente nunca experimentounenhuma pressão política para abortar ou encobrir as <strong>de</strong>scobertas <strong>de</strong> nenhuma investigação". Dosslembrou que as acusações não são novas, reconhecen<strong>do</strong> que a equipe da ONU se comportouinapropriadamente, mas ressaltou que "isto não significa que os países que enviaram estes solda<strong>do</strong>ssão culpa<strong>do</strong>s":– Acredito que seria injusto difamar países inteiros e seus contingentes por comportamentoirresponsável e algumas vezes ilegais.AjudaNo entanto, fontes confi<strong>de</strong>nciais da ONU disseram à BBC que as investigações não foramlevadas adiante por me<strong>do</strong> <strong>de</strong> isolar a Índia e o Paquistão, que juntos fornecem quase um quarto <strong>do</strong>total <strong>de</strong> tropas <strong>de</strong> paz da ONU. Funcionários da organização relataram terem si<strong>do</strong> proibi<strong>do</strong>s <strong>de</strong>seguir com a investigação interna "por razões políticas".Dois lí<strong>de</strong>res da FNI, conheci<strong>do</strong>s como Kung-fu e Dragon, que estão presos na capital,Kinshasa, admitiram publicamente que receberam ajuda da ONU.– Sim, é verda<strong>de</strong>. Eles nos <strong>de</strong>ram armas. Diziam que era para a segurança <strong>do</strong> país e nosdisseram que iríamos ajudá-los a tomar conta da região – <strong>de</strong>clarou o general Mateso Ninga,conheci<strong>do</strong> como Kung-Fu.A operação <strong>de</strong> paz da ONU no Congo é a maior <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>, com 17 mil solda<strong>do</strong>s espalha<strong>do</strong>spelo país. Des<strong>de</strong> que foi implantada, em 2000, a força <strong>de</strong> paz conseguiu <strong>de</strong>sarmar as facções <strong>de</strong>guerra, aju<strong>do</strong>u a trazer estabilida<strong>de</strong> ao país, realizou eleições e auxiliou na reconstrução <strong>do</strong> paísafricano.Jornal <strong>do</strong> BrasilAcor<strong>do</strong> na OMC reconhece questão sanitária regional19/05/<strong>2008</strong>Os países da Organização Mundial <strong>do</strong> Comércio (OMC) fecharam um acor<strong>do</strong> que reconhece oprincípio da regionalização nas questões <strong>de</strong> medidas fitossanitárias. Brasil e países <strong>de</strong> proporçõescontinentais pressionavam há anos para que o princípio fosse aceito na OMC e regulamenta<strong>do</strong>. Comisso, o Brasil terá mais po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> convencer países a aplicar barreiras comerciais a apenas algunsEsta<strong>do</strong>s, e não a to<strong>do</strong> o território nacional.A idéia é <strong>de</strong> que se um foco <strong>de</strong> uma <strong>do</strong>ença atingir um <strong>de</strong>termina<strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> da fe<strong>de</strong>ração, os<strong>de</strong>mais po<strong>de</strong>riam continuar exportan<strong>do</strong>. Hoje, esse princípio é reconheci<strong>do</strong> por alguns governos.Mas outros que usam questões fitossanitárias como justificativa para medidas protecionistas ten<strong>de</strong>ma embargar to<strong>do</strong> um país quan<strong>do</strong> há o foco <strong>de</strong> uma <strong>do</strong>ença em uma região.O Brasil sofre esse problema com as carnes que tenta exportar aos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s. "Esse foio acor<strong>do</strong> que conseguimos chegar. Não era tu<strong>do</strong> o que queríamos, mas já é um gran<strong>de</strong> passo",afirmou um diplomata brasileiro. O Itamaraty queria um entendimento que <strong>de</strong>limitasse com maisclareza quais são os passos que um governo <strong>de</strong>ve seguir para embargar apenas uma região.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>80O acor<strong>do</strong> que foi negocia<strong>do</strong> por cinco anos, porém, não é obrigatório para to<strong>do</strong>s os membrosda OMC. Ainda assim, Brasília acredita que o entendimento pressionará os países importa<strong>do</strong>res atomar <strong>de</strong>cisões <strong>de</strong> reconhecer a regionalização.Alguns governos alegam que estão estudan<strong>do</strong> a questão em relação às exportações <strong>de</strong> carne<strong>do</strong> Brasil. Mas como não há um lista <strong>de</strong> recomendações a ser seguida, passam anos sem dar umaresposta se aceitam comprar o produtos <strong>de</strong> outras regiões <strong>do</strong> País que não estão afetadas.Agência Esta<strong>do</strong>ONU busca acor<strong>do</strong> para conter extinções antes <strong>de</strong> 201019/05/<strong>2008</strong>Conferência recebe representantes <strong>de</strong> 189 países com o lema 'Uma natureza. Ummun<strong>do</strong>. Nosso futuro'A 9ª Conferência das Partes (COP9) da Convenção sobre Diversida<strong>de</strong> Biológica das NaçõesUnidas (CDB) começou nesta segunda-feira, 19, em Bonn (Alemanha) com a missão <strong>de</strong> criar umnovo <strong>do</strong>cumento para preservar a biodiversida<strong>de</strong> e cumprir o objetivo da ONU <strong>de</strong> frear a extinção<strong>de</strong> espécies em 2010.Diante <strong>de</strong> representantes <strong>de</strong> 189 países e da União Européia (UE), o ministro <strong>do</strong> MeioAmbiente alemão, Sigmar Gabriel, disse em seu discurso <strong>de</strong> abertura que é necessária uma"mudança <strong>de</strong> rumo", já que o caminho atual <strong>de</strong> proteção à natureza "conduzirá ao fracasso".Gabriel se disse confiante <strong>de</strong> que a conferência conseguirá pactuar "<strong>de</strong>cisões ambiciosas" eassegurou que é necessário estruturar com "urgência" o "esqueleto" <strong>de</strong> um acor<strong>do</strong> internacional quepossa se concretizar em medidas legais no Japão em 2010.Com o lema "Uma natureza. Um mun<strong>do</strong>. Nosso futuro", os seis mil <strong>de</strong>lega<strong>do</strong>s que participamaté o dia 30 <strong>do</strong> encontro enfrentarão, segun<strong>do</strong> Gabriel, a tarefa <strong>de</strong> conseguir um consenso quepermita avançar na luta contra o <strong>de</strong>saparecimento das espécies.O ministro alemão afirmou que será necessário "flexibilizar as posturas" caso se <strong>de</strong>sejeconcluir o encontro com um "claro mandato" <strong>de</strong> futuro.Gabriel alertou para os perigos que ameaçam a biodiversida<strong>de</strong> e <strong>de</strong>stacou a extinção dasespécies marítimas que, caso o ritmo atual continue, acabará com a pesca comercial em 2050 e, poracréscimo, com o fornecimento <strong>de</strong> proteínas da parcela mais pobre da população <strong>do</strong> planeta, queinclui cerca <strong>de</strong> 1 bilhão <strong>de</strong> pessoas.O ministro assegurou que o compromisso pela proteção <strong>do</strong> meio ambiente não é uma amostra<strong>de</strong> "ecologismo romântico", mas uma questão que passa pela própria sobrevivência da humanida<strong>de</strong>.Ele explicou que, se as estimativas se cumprirem e a população mundial chegar aos 9 bilhõesem 2050, "cada metro quadra<strong>do</strong> <strong>de</strong> solo fértil e cada litro <strong>de</strong> água potável serão necessários" paraevitar os "enfrentamentos pelos recursos naturais".Gabriel admitiu que um <strong>do</strong>s temas <strong>de</strong> <strong>de</strong>bate mais espinhosos da cúpula será a <strong>de</strong>nominada"biopirataria" e as reivindicações <strong>do</strong>s países em <strong>de</strong>senvolvimento, que exigem o pagamento <strong>de</strong> umtipo <strong>de</strong> royalties por parte das companhias que lucrarem com a comercialização <strong>de</strong> seus recursosgenéticos.O secretário-executivo da CDB, Ahmed Djoghlaf, <strong>de</strong>stacou o "tremen<strong>do</strong> valor econômico" danatureza e mencionou da<strong>do</strong>s <strong>do</strong> estu<strong>do</strong> "A economia <strong>do</strong> ecossistema e a biodiversida<strong>de</strong>", dirigi<strong>do</strong>por Pavan Sukh<strong>de</strong>v, que apresentará durante a conferência."A receita anual das áreas naturais protegidas são <strong>de</strong> US$ 5 trilhões frente aos US$ 1,8 trilhãofatura<strong>do</strong>s pela indústria automobilística", explicou Djoghlaf, que <strong>de</strong>stacou que a natureza é a "maiorcorporação <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>", pois 1,6 bilhão <strong>de</strong> pessoas <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m <strong>de</strong> seus recursos para sobreviver.A produção <strong>de</strong> biocombustíveis, que será discutida pela primeira vez na Convenção <strong>de</strong>Biodiversida<strong>de</strong>, <strong>de</strong>spertou hoje as críticas mais severas das ONGs, que exigiram a proibição <strong>de</strong>cultivos <strong>de</strong>stina<strong>do</strong>s a sua fabricação.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>81A Aliança para a Convenção sobre Diversida<strong>de</strong> Biológica (CBD Alliance) reivindicou que aONU <strong>de</strong>sautorize essas plantações, por consi<strong>de</strong>rar que "exacerbarão a crise alimentícia e terão<strong>de</strong>vasta<strong>do</strong>res efeitos nos povos marginaliza<strong>do</strong>s e em gran<strong>de</strong>s ecossistemas."A CBD Alliance reúne mais <strong>de</strong> cem organizações ecológicas, cívicas e indígenas, que tambémreivindicam a proibição das espécies vegetais invasivas e transgênicas.A Conferência das Partes é o órgão máximo da CDB, primeiro acor<strong>do</strong> mundial que abordaintegralmente to<strong>do</strong>s os aspectos da diversida<strong>de</strong> biológica, incluin<strong>do</strong> <strong>de</strong>s<strong>de</strong> recursos genéticos atéespécies e ecossistemas.O Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> São PauloACORDOS MULTILATERAISDeclaração Conjunta Brasil - União Européia28/03/<strong>2008</strong>A visita ao Brasil, no perío<strong>do</strong> <strong>de</strong> 17 a 19 <strong>de</strong> março <strong>de</strong> <strong>2008</strong>, <strong>do</strong>Presi<strong>de</strong>nte da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso,inscreve-se no quadro <strong>do</strong> contínuo aprofundamento da relação <strong>de</strong>Parceria Estratégica entre o Brasil e a União Européia, formalizadapor ocasião da Cúpula <strong>de</strong> Lisboa, em 4 <strong>de</strong> julho <strong>de</strong> 2007.2. O Presi<strong>de</strong>nte Luiz Inácio Lula da Silva e o Presi<strong>de</strong>nte JoséManuel Durão Barroso salientaram a importância <strong>do</strong>s laços históricose culturais que unem o Brasil aos países da União Européia e<strong>de</strong>stacaram a relevância <strong>do</strong> patrimônio comum <strong>de</strong> valores e i<strong>de</strong>ais na construção da ParceriaEstratégica entre o Brasil e a União Européia que reflita a união <strong>de</strong> esforços para enfrentar osgran<strong>de</strong>s <strong>de</strong>safios <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> contemporâneo.3. Os <strong>do</strong>is Presi<strong>de</strong>ntes recordaram os princípios <strong>de</strong>mocráticos e <strong>do</strong> respeito aos direitoshumanos que o Brasil e a União Européia compartilham e reiteraram o relevante papel das NaçõesUnidas como principal instrumento da <strong>de</strong>fesa da paz e da segurança internacionais.Ratificaram seu empenho quanto ao fortalecimento <strong>do</strong> sistema multilateral para a promoção<strong>do</strong> <strong>de</strong>senvolvimento com justiça social.4. Os Presi<strong>de</strong>ntes Lula e Durão Barroso revisaram os principais temas <strong>do</strong> relacionamentoBrasil - União Européia em suas vertentes política, econômico-comercial e científico-tecnológica.Referiram-se à importância <strong>do</strong> Plano <strong>de</strong> Ação da Parceria Estratégica Brasil - União Européia,que se constituirá na moldura que orientará a condução da cooperação bilateral em aspectosconcretos com o propósito <strong>de</strong> alargar e aprofundar o relacionamento bilateral em áreas <strong>de</strong> interessemútuo.Os <strong>do</strong>is Presi<strong>de</strong>ntes reafirmaram a intenção <strong>de</strong> ambas as Partes <strong>de</strong> atribuir priorida<strong>de</strong>, entreoutros, aos temas <strong>de</strong> energia; <strong>de</strong>senvolvimento sustentável e mudança <strong>do</strong> clima; e cooperação emciência e tecnologia.Examinaram ainda as perspectivas <strong>de</strong> benefícios que a Parceria Estratégica Brasil - UniãoEuropéia po<strong>de</strong>rá proporcionar, por meio da execução <strong>de</strong> projetos <strong>de</strong> cooperação triangular, aterceiros países que manifestem interesse nesse gênero <strong>de</strong> cooperação.5. Registraram com especial satisfação os progressos alcança<strong>do</strong>s em matéria <strong>de</strong> ciência etecnologia, refleti<strong>do</strong>s na constituição, em 2007, <strong>do</strong> Comitê Diretivo <strong>de</strong> Cooperação Científica eTécnica Brasil - União Européia (CDC), que estimulará a cooperação bilateral nas áreasaeroespacial, <strong>de</strong> biotecnologia, nanotecnologia, energia, tecnologias <strong>de</strong> informação e comunicação,saú<strong>de</strong> e infra-estrutura. Reiteraram ainda o interesse em dinamizar a cooperação no campo danavegação e observação por satélite e no <strong>de</strong> pesquisa em energia <strong>de</strong> fusão nuclear.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>826. O Presi<strong>de</strong>nte Lula e o Presi<strong>de</strong>nte Barroso comentaram os entendimentos em andamentocom vistas à formalização <strong>de</strong> Diálogos Setoriais nas áreas <strong>de</strong> socieda<strong>de</strong> da informação e educação ecultura.Recordaram, a respeito, o compromisso assumi<strong>do</strong> na Declaração <strong>de</strong> Lisboa, em 2007, nosenti<strong>do</strong> <strong>de</strong> expandir a cooperação bilateral em matéria <strong>de</strong> ensino superior, intensifican<strong>do</strong> osintercâmbios universitários no âmbito <strong>do</strong> Programa Erasmus Mundus.Os Presi<strong>de</strong>ntes reconheceram, a propósito, que um ensino <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong> para to<strong>do</strong>s constituiimportante fator <strong>de</strong> inclusão social.7. Os Presi<strong>de</strong>ntes expressaram sua satisfação com os <strong>de</strong>s<strong>do</strong>bramentos registra<strong>do</strong>s nostrabalhos <strong>do</strong> Diálogo Setorial sobre Política Energética, formaliza<strong>do</strong> em 2007, por ocasião da visitaoficial <strong>do</strong> Presi<strong>de</strong>nte Lula à Comissão Européia.Nesse contexto, reafirmaram o compromisso <strong>de</strong> cooperar para o reforço da eficiênciaenergética e a crescente participação das fontes renováveis na matriz energética mundial.Os Presi<strong>de</strong>ntes Lula e Barroso referiram-se ainda aos resulta<strong>do</strong>s da Conferência Internacionalsobre Biocombustíveis organizada pela Comissão Européia e realizada em Bruxelas, em julho <strong>de</strong>2007, e à preparação da Conferência Internacional sobre Biocombustíveis em São Paulo, <strong>de</strong> 17 a 21<strong>de</strong> novembro <strong>de</strong> <strong>2008</strong>.8. Os <strong>do</strong>is Presi<strong>de</strong>ntes sublinharam a importância da dimensão econômico-comercial <strong>do</strong>relacionamento entre o Brasil e a União Européia.Nesse quadro, saudaram a instalação <strong>do</strong> Mecanismo <strong>de</strong> Consultas sobre Questões Sanitárias eFitossanitárias, que em breve iniciará suas ativida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> consulta e coor<strong>de</strong>nação entre o Brasil e aComissão Européia.9. Ao recordarem ser a União Européia o principal investi<strong>do</strong>r estrangeiro na economiabrasileira, os <strong>do</strong>is Presi<strong>de</strong>ntes discutiram a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> intensificar o diálogo sobre questõesmacroeconômicas e financeiras.Examinaram também as perspectivas <strong>de</strong> cooperação entre o Banco Nacional <strong>de</strong>Desenvolvimento Econômico e Social <strong>do</strong> Brasil (BNDES) e o Banco Europeu <strong>de</strong> Investimento(BEI), em especial na esfera da mitigação <strong>do</strong>s efeitos da mudança <strong>do</strong> clima e <strong>do</strong> financiamento <strong>do</strong>projeto brasileiro <strong>de</strong> trem <strong>de</strong> alta velocida<strong>de</strong>.10. Os <strong>do</strong>is Presi<strong>de</strong>ntes abordaram as gran<strong>de</strong>s questões <strong>de</strong> interesse birregional, objeto <strong>do</strong>sencontros entre o Grupo <strong>do</strong> Rio e a UE e das Cúpulas América Latina e Caribe - União Européia.Os Presi<strong>de</strong>ntes Lula e Durão Barroso manifestaram expectativa otimista em relação aosresulta<strong>do</strong>s da V Cúpula América Latina e Caribe - UE, em Lima, <strong>de</strong> 16 a 17 <strong>de</strong> maio próximo,quan<strong>do</strong> os mandatários das duas regiões examinarão os temas da luta contra a pobreza, a<strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> e a exclusão e <strong>do</strong> <strong>de</strong>senvolvimento sustentável, com ênfase sobre mudança <strong>do</strong> clima eenergia.11. Os Presi<strong>de</strong>ntes manifestaram a expectativa <strong>de</strong> que possam concluir-se com êxito, e embreve prazo, as negociações da Rodada <strong>de</strong> Desenvolvimento <strong>de</strong> Doha da Organização Mundial <strong>do</strong>Comércio.Recordaram, a respeito, a visão compartilhada pelo Brasil e pela UE no senti<strong>do</strong> <strong>de</strong> que umamaior liberalização <strong>do</strong> comércio e a facilitação <strong>do</strong>s fluxos <strong>de</strong> investimento constituem importanteselementos <strong>de</strong> promoção <strong>do</strong> crescimento econômico e da prosperida<strong>de</strong>.Recordan<strong>do</strong> os termos da Declaração <strong>de</strong> Lisboa, reafirmaram a noção <strong>de</strong> que o acor<strong>do</strong> a seralcança<strong>do</strong> <strong>de</strong>ve ser ambicioso, abrangente e equilibra<strong>do</strong>, <strong>de</strong> forma a que se cumpram os objetivos <strong>de</strong><strong>de</strong>senvolvimento da Rodada.12. Os Presi<strong>de</strong>ntes reafirmaram que os acor<strong>do</strong>s regionais são importantes complementos <strong>do</strong>sistema multilateral <strong>de</strong> comércio e reafirmaram o interesse mútuo na conclusão <strong>de</strong> Acor<strong>do</strong> <strong>de</strong>Associação entre o Mercosul e a União Européia.Saudaram a conveniência mútua <strong>de</strong> retomar plenamente as negociações <strong>do</strong> Acor<strong>do</strong> <strong>de</strong>Associação no mais breve prazo possível.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>8313. Ao passar em revista os principais temas da agenda internacional, os Presi<strong>de</strong>ntesreiteraram o entendimento brasileiro e comunitário com relação à necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> promoção <strong>do</strong>multilateralismo, sobre a base <strong>de</strong> uma Organização da Nações Unidas fortalecida.Salientaram a importância <strong>de</strong> se implementar o processo <strong>de</strong> reforma a<strong>do</strong>ta<strong>do</strong> em 2005, naCúpula das Nações Unidas, inclusive a reforma <strong>do</strong>s principais órgãos da ONU, tal como prevê o<strong>do</strong>cumento final, a fim <strong>de</strong> se po<strong>de</strong>rem enfrentar os vários <strong>de</strong>safios com que a comunida<strong>de</strong>internacional se vê confrontada.14. Os Presi<strong>de</strong>ntes expressaram satisfação diante <strong>de</strong>ssa nova oportunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> exame conjunto<strong>de</strong> diferentes temas <strong>de</strong> or<strong>de</strong>m bilateral, inter-regional e global, em relação aos quais constataramexistir consi<strong>de</strong>rável coincidência <strong>de</strong> pontos <strong>de</strong> vista entre o Brasil e a União Européia.Assinalaram, da mesma forma, o dinamismo das visitas <strong>de</strong> autorida<strong>de</strong>s das duas Partes,lembran<strong>do</strong> haver-se registra<strong>do</strong>, ao longo <strong>do</strong>s últimos <strong>do</strong>is anos, extensa troca <strong>de</strong> visitas <strong>de</strong> Ministros<strong>de</strong> Esta<strong>do</strong> brasileiros e Comissários da União Européia.15. Os Presi<strong>de</strong>ntes Luiz Inácio Lula da Silva e José Manuel Durão Barroso registraram ocompromisso com a construção <strong>de</strong> uma Parceria Estratégica voltada a um só tempo para aampliação e a dinamização da cooperação em benefício <strong>do</strong> Brasil e da União Européia, e para apromoção <strong>de</strong> ações em prol da construção <strong>de</strong> um mun<strong>do</strong> mais pacífico e mais justo.www.inforel.orgBrasil e Alemanha discutem biocombustíveis29/04/<strong>2008</strong>Nesta segunda-feira, a ministra <strong>do</strong> Meio Ambiente, MarinaSilva, recebeu o ministro <strong>do</strong> Meio Ambiente, Proteção da Natureza eSegurança Nuclear da Alemanha, Sigmar Gabriel, com que discutiuos preparativos para a 9ª Conferência das Partes da Convenção sobreDiversida<strong>de</strong> Biológica (COP-9), que acontecerá em Bonn, <strong>de</strong> 19 a 30<strong>de</strong> maio.O Brasil presi<strong>de</strong> a Conferência <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a COP-8, realizada em2006 na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Curitiba (PR). A partir <strong>de</strong> maio a Alemanhaassumirá o posto pelos próximos <strong>do</strong>is anos.Marina Silva reafirmou o compromisso <strong>do</strong> Brasil para conter o <strong>de</strong>smatamento e manter afloresta em pé. A ministra <strong>de</strong>stacou a importância das comunida<strong>de</strong>s tradicionais e anunciou que oBrasil está transforman<strong>do</strong> projetos-piloto nesta área em políticas públicas.Segun<strong>do</strong> ela, o Programa <strong>de</strong> Apoio às Comunida<strong>de</strong>s Tradicionais, que tinha <strong>do</strong>tação inicial <strong>de</strong>US$ 200 milhões para os próximos 12 anos, <strong>de</strong>ve contar agora com US$ 1,5 bilhão para o mesmoperío<strong>do</strong>.BiocombustíveisOs <strong>do</strong>is ministros também trataram da inclusão <strong>de</strong> critérios <strong>de</strong> sustentabilida<strong>de</strong> na produção<strong>de</strong> biocombustíveis.Para o ministro alemão, a a<strong>do</strong>ção <strong>de</strong> uma certificação, a exemplo <strong>do</strong> que já acontece para ama<strong>de</strong>ira, seria uma forma <strong>de</strong> valorizar e diferenciar a produção sustentável, que não pressiona afloresta e não compete com a produção <strong>de</strong> alimentos.Por outro la<strong>do</strong>, Marina Silva <strong>de</strong>stacou que o programa brasileiro <strong>de</strong> biocombustíveis éconseqüência <strong>de</strong> investimentos em tecnologia, e representa um esforço importante para as ações <strong>de</strong>mitigação das mudanças climáticas e <strong>de</strong> inclusão social.De acor<strong>do</strong> com a ministra, o Brasil possui 300 milhões <strong>de</strong> hectares <strong>de</strong> área agricultável, masque utiliza apenas 1% para a produção <strong>de</strong> biocombustível.Sigmar Gabriel anunciou que, durante a visita da chanceler Angela Merkel ao Brasil, seráassina<strong>do</strong> um acor<strong>do</strong> na área energética entre os <strong>do</strong>is países e negou que a alteração aplicada pela
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>84Alemanha na porcentagem <strong>de</strong> etanol brasileiro adiciona<strong>do</strong> ao combustível fóssil alemão tenha si<strong>do</strong>uma restrição ao etanol nacional.Há mais <strong>de</strong> 42 anos, Brasil e Alemanha atuam conjuntamente na área <strong>de</strong> cooperação para o<strong>de</strong>senvolvimento. Atualmente, a Alemanha é o segun<strong>do</strong> maior <strong>do</strong>a<strong>do</strong>r bilateral para cooperaçãocom o Brasil, atrás <strong>do</strong> Japão.O governo alemão <strong>de</strong>staca-se por ser o maior <strong>do</strong>a<strong>do</strong>r <strong>do</strong> Programa Piloto para a Proteção dasFlorestas Tropicais <strong>do</strong> Brasil (PPG7), que vem financian<strong>do</strong> projetos na Amazônia e na MataAtlântica, nos últimos <strong>do</strong>ze anos.www.inforel.orgBiocombustíveis: União Européia e Brasil divergem16/05/<strong>2008</strong>Um <strong>do</strong>s principais temas <strong>de</strong>bati<strong>do</strong>s durante a V CúpulaAmérica Latina-Caribe – União Européia, a produção <strong>de</strong>biocombustíveis colocou Brasil e União Européia em la<strong>do</strong>s opostos.Numa das reuniões técnicas que antece<strong>de</strong>u ao encontro <strong>de</strong>chanceleres, o clima chegou a ficar tenso. O presi<strong>de</strong>nte Lula acusouas gran<strong>de</strong>s indústrias petroleiras <strong>de</strong> estarem por trás das críticas aoetanol brasileiro Para a Europa, a produção <strong>de</strong> biocombustíveis reduza produção <strong>de</strong> alimentos, argumento com o qual o Brasil nãoconcorda. O governo brasileiro <strong>de</strong>fen<strong>de</strong> que o etanol produzi<strong>do</strong> apartir da cana-<strong>de</strong>-açúcar não limita a área <strong>de</strong>dicada à produção <strong>de</strong>grãos. Lula propôs a realização <strong>de</strong> uma conferência internacional quereúna autorida<strong>de</strong>s governamentais, OGNs e cientistas <strong>de</strong> to<strong>do</strong> o mun<strong>do</strong> para que se prove que aprodução <strong>de</strong> etanol não é o responsável pela redução na produção <strong>de</strong> alimentos. Na avaliação daComissária para as Relações Exteriores da União Européia, Benita Ferrero-Waldner, “o problemanão está nos biocombustíveis. Trata-se <strong>de</strong> uma questão muito complexa porque muitos dizem quepo<strong>de</strong>ria afetar a produção <strong>de</strong> alimentos atingin<strong>do</strong> a segurança alimentar. Devemos implementar umplano <strong>de</strong> sustentabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>ssa energia a partir <strong>de</strong> biocombustíveis <strong>de</strong> segunda e terceira geração,ou seja, sem aqueles produtos que também se <strong>de</strong>stinam à alimentação”.www.inforel.orgNova oportunida<strong>de</strong> para Doha21/05/<strong>2008</strong>As negociações globais <strong>de</strong> comércio <strong>de</strong>vem ganhar impulso com os novos esboços <strong>de</strong> acor<strong>do</strong>sobre produtos agrícolas e industriais apresenta<strong>do</strong>s segunda-feira em Genebra. Pretensões <strong>do</strong> Brasile <strong>de</strong> outros emergentes foram contempladas nos <strong>do</strong>is <strong>do</strong>cumentos, mas os diplomatas ainda terão <strong>de</strong>trabalhar intensamente nos próximos meses. O objetivo, agora, é alcançar até junho um acor<strong>do</strong>básico sobre como reduzir tarifas e subsídios para facilitar o acesso aos merca<strong>do</strong>s. Se o esforço <strong>de</strong>rresulta<strong>do</strong>, talvez se possa chegar a um entendimento final antes da posse <strong>do</strong> novo presi<strong>de</strong>nteamericano. Se a Rodada Doha não estiver concluída nesse prazo, po<strong>de</strong>rá emperrar <strong>de</strong> novo eninguém po<strong>de</strong> prever quan<strong>do</strong> e como será retomada, principalmente se for eleito um <strong>de</strong>mocrata.Os <strong>do</strong>is <strong>do</strong>cumentos, com um total <strong>de</strong> 142 páginas, são rascunhos das linhas gerais <strong>de</strong> umnovo acor<strong>do</strong>. São revisões <strong>de</strong> esboços apresenta<strong>do</strong>s em julho <strong>de</strong> 2007 e fevereiro <strong>de</strong> <strong>2008</strong>. Paraproduzir os novos textos, o coor<strong>de</strong>na<strong>do</strong>r <strong>do</strong> grupo <strong>de</strong> Agricultura, o neozelandês CrawfordFalconer, e o <strong>de</strong> Acesso a Merca<strong>do</strong>s Não Agrícolas, o cana<strong>de</strong>nse Don Stephenson, gastaram mesesconsultan<strong>do</strong> governos.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>85Os <strong>do</strong>is esboços foram apresenta<strong>do</strong>s na mesma data porque um <strong>do</strong>s objetivos é a obtenção <strong>de</strong>equilíbrio entre os acor<strong>do</strong>s sobre agricultura e sobre indústria. Os emergentes cobram concessõesimportantes na área agrícola em troca <strong>de</strong> maior abertura <strong>de</strong> seus merca<strong>do</strong>s para produtos industriais.Os industrializa<strong>do</strong>s condicionam a liberalização <strong>do</strong> comércio agrícola à redução das barreiras paraprodutos da indústria.Segun<strong>do</strong> o rascunho apresenta<strong>do</strong> por Don Stephenson, os países em <strong>de</strong>senvolvimento terãomaior flexibilida<strong>de</strong> para proteger suas indústrias. São propostas três faixas <strong>de</strong> coeficientes pararedução <strong>de</strong> barreiras. As opções são condicionais. Quem escolher os maiores cortes será autoriza<strong>do</strong>a selecionar um número maior <strong>de</strong> linhas industriais para proteção especial. Quem optar pelosmenores cortes ficará sem flexibilida<strong>de</strong> para dar proteção adicional a setores consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>sestratégicos ou menos competitivos. A margem <strong>de</strong> escolha é maior <strong>do</strong> que a que havia no textoanterior. A proposta ainda não aten<strong>de</strong> inteiramente às pretensões <strong>do</strong> Mercosul, mas os diplomatasbrasileiros haviam indica<strong>do</strong> a disposição <strong>de</strong> aceitar maiores cortes em troca <strong>de</strong> concessões <strong>do</strong>spaíses <strong>de</strong>senvolvi<strong>do</strong>s. Mas o rascunho também não aten<strong>de</strong> a todas as pretensões <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>se as principais potências terão, portanto, <strong>de</strong> aprofundar as barganhas.O texto sobre agricultura trouxe poucas novida<strong>de</strong>s em relação ao rascunho anterior, mas ficouaberta a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> negociação <strong>de</strong> maiores cortes <strong>de</strong> subsídios e <strong>de</strong> tarifas protecionistas. Onovo esboço amplia, portanto, o campo da negociação e, ao mesmo tempo, inclui, em relação acotas para produtos “sensíveis”, alguns avanços consegui<strong>do</strong>s em discussões entre Brasil, Esta<strong>do</strong>sUni<strong>do</strong>s, União Européia, Japão, Austrália e Índia.Se houver um acor<strong>do</strong>, a liberalização <strong>do</strong> comércio agrícola será provavelmente bem menor <strong>do</strong>que a pretendida quan<strong>do</strong> se lançou a Rodada Doha, em 2001. Isso se <strong>de</strong>verá em parte à resistência<strong>do</strong>s países <strong>de</strong>senvolvi<strong>do</strong>s, mas alguns emergentes também pressionaram pela manutenção <strong>de</strong>barreiras. China, Índia e In<strong>do</strong>nésia estão nesse grupo e foram apoiadas pelo Brasil, embora umaampla abertura <strong>de</strong> merca<strong>do</strong>s seja preferível para a agricultura brasileira.Na melhor hipótese, a Rodada Doha permitirá uma redução substancial <strong>de</strong> tarifas <strong>de</strong>importação e <strong>de</strong> subsídios. Mas não eliminará a tendência à ampliação <strong>do</strong> protecionismo nãotarifário. Os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, anunciou o secretário <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> americano, Mike Leavitt, <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>rão aa<strong>do</strong>ção <strong>de</strong> padrões sanitários mais severos para o comércio <strong>de</strong> produtos agrícolas. “Num futuromuito próximo”, disse o secretário, “os países exporta<strong>do</strong>res <strong>de</strong> commodities terão duas opções. Ouaceitarão processos <strong>de</strong> certificação in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> seus produtos ou terão dificulda<strong>de</strong>s.” O Brasiltem certamente interesse em manter os mais altos padrões na produção <strong>de</strong> alimentos. Mas terá <strong>de</strong>batalhar, também, para evitar a conversão <strong>do</strong>s padrões sanitários em perigoso recurso protecionista.O Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> São PauloCoisas da política: As relações entre o Brasil e Cuba03/06/<strong>2008</strong>A recente visita <strong>do</strong> chanceler Celso Amorim a Cuba <strong>de</strong>ve ser examinada no contextointernacional <strong>de</strong> nossos dias. As relações entre os <strong>do</strong>is países eram inexpressivas, até a chegada dastropas <strong>de</strong> Fi<strong>de</strong>l a Havana, em janeiro <strong>de</strong> 1959. Conhecíamos a ilha pela sua música, seus charutos ea folclórica beleza <strong>de</strong> suas mulheres. Os mais cultos sabiam <strong>de</strong> sua penosa história: não ten<strong>do</strong>consegui<strong>do</strong> libertar-se da Espanha antes, os cubanos passaram <strong>do</strong> jugo político <strong>de</strong> Madri para o <strong>de</strong>Washington, sem conhecer realmente a in<strong>de</strong>pendência política. A soberania <strong>do</strong>s cubanos sobre seuterritório, por mais dignida<strong>de</strong> tenha ti<strong>do</strong> seu povo, sempre foi impedida pela força das armas.Poucos povos da América Latina lutaram com tanto <strong>de</strong>no<strong>do</strong> por sua liberda<strong>de</strong>. Com o Grito<strong>de</strong> Yara, em 1868, os cubanos iniciaram rebelião que durou 10 anos, e foi massacrada pelosespanhóis, com a perda <strong>de</strong> 200 mil combatentes. Em 1895, voltaram a confrontar-se com oscolonialistas, na segunda guerra <strong>de</strong> in<strong>de</strong>pendência. Os americanos intervieram no conflito, em
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>86seqüência ao prévio projeto <strong>de</strong> expansionista, no momento em que a Espanha, sob a in<strong>de</strong>cisaregência <strong>de</strong> Maria Cristina, já se preparava para negociar com os revolucionários.A <strong>de</strong>rrota da Espanha custou-lhe as ilhas <strong>de</strong> Porto Rico, no Caribe, Guam e as Filipinas noPacífico. Durante os 50 anos seguintes, mediante a imposição <strong>do</strong>s trata<strong>do</strong>s, os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>stransformaram Cuba em particular e libertino balneário, com seus prostíbulos e cassinos,controla<strong>do</strong>s pelas corporações <strong>de</strong> gangsters da nova metrópole. Quan<strong>do</strong> os cubanos retomavam osonho <strong>de</strong> in<strong>de</strong>pendência <strong>de</strong> Marti e <strong>de</strong> Céspe<strong>de</strong>s, os americanos impuseram-lhes, em 1960, obloqueio econômico ainda em vigor, e tentaram <strong>de</strong>rrubar o regime com a invasão armada da Baía<strong>do</strong>s Porcos, as sabotagens, o incêndio <strong>de</strong> canaviais, os atenta<strong>do</strong>s da CIA. Isso os obrigou a buscar aaliança extracontinental com a URSS.O Brasil – com Jânio Quadros e Affonso Arinos, e com Jango e Santiago Dantas – procurouintervir em favor <strong>do</strong> entendimento, mas os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s estavam <strong>de</strong>cidi<strong>do</strong>s a restaurar o pleno<strong>do</strong>mínio sobre Havana. Ao contrário <strong>do</strong> que indicava o bom senso, a política americana, logo <strong>de</strong>poisda crise <strong>do</strong>s mísseis, foi a <strong>de</strong> impor regimes ditatoriais em toda a América Latina, começan<strong>do</strong>, já em1964, pelo Brasil, e o isolamento diplomático da ilha. No afã <strong>de</strong> se protegerem, os cubanosprocuraram incentivar a revolução na América Latina, não havia condições concretas para ainsurreição continental, conforme advertiram os comunistas históricos. A luta <strong>de</strong>via ser política.A teoria <strong>do</strong> foco insurrecional foi <strong>de</strong>sastrada, apesar <strong>do</strong> generoso martírio <strong>de</strong> Guevara. Aginástica dialética <strong>de</strong> Régis Debray, em seu opúsculo Revolution dans la Revolution?, não sealicerçava no conhecimento da realida<strong>de</strong> continental.Os cubanos recuperam agora a esperança <strong>de</strong> construir o Esta<strong>do</strong> soberano e seguro, que nãotiveram <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1492. Embora Washington mantenha a retórica da arrogância, a situação é outra. OsEsta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, na luci<strong>de</strong>z que resta a alguns <strong>de</strong> seus pensa<strong>do</strong>res políticos, começam a enten<strong>de</strong>rque não é mais o <strong>do</strong>no <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>.O Brasil é o parceiro i<strong>de</strong>al para a recuperação da economia cubana. O governo Lula não seencontra amarra<strong>do</strong> aos problemas internos e aos compromissos revolucionários históricos <strong>de</strong>Chávez e Morales, e tem agi<strong>do</strong> com pragmatismo, na hora em que o mun<strong>do</strong> procura reacomodar-se.Jornal <strong>do</strong> BrasilBRASIL: ASPECTOS SOCIAIS E REGIONAISSandice indígena17/04/<strong>2008</strong>Se mantida pelo Supremo Tribunal Fe<strong>de</strong>ral (STF) a <strong>de</strong>marcação da reserva Raposa Serra <strong>do</strong>Sol em terras contínuas, 50% <strong>do</strong> território <strong>de</strong> Roraima serão <strong>de</strong> "nações indígenas", incluin<strong>do</strong> aianomâmi. Significará, antes <strong>de</strong> qualquer outra implicação, a inviabilida<strong>de</strong> <strong>do</strong> esta<strong>do</strong> como unida<strong>de</strong>autônoma da Fe<strong>de</strong>ração, <strong>de</strong>ven<strong>do</strong> Roraima retornar à condição <strong>de</strong> território, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> Brasília.Pois será <strong>de</strong>cretada a <strong>de</strong>sestabilização da agricultura local, fortemente baseada no cultivo <strong>do</strong> arroz,pratica<strong>do</strong> há décadas naquelas terras. Por isso, nem todas as tribos estão a favor da <strong>de</strong>marcação, porse beneficiarem da existência <strong>de</strong> fazendas produtivas no local.O que seria uma solução óbvia - a <strong>de</strong>limitação em bolsões, <strong>de</strong> forma a preservar as áreas <strong>de</strong>cultivo comercial - tornou-se inviável, pela composição político-i<strong>de</strong>ológica <strong>do</strong> governo Lula. Assimcomo há na máquina pública gente que atua em favor <strong>de</strong> movimentos sem-terra à margem da lei, eexistem representantes <strong>de</strong> organizações racialistas que querem dividir a nação segun<strong>do</strong> a cor dapele, também milita no governo gente que compartilha <strong>do</strong> <strong>de</strong>lírio <strong>de</strong> "reparar" tribos <strong>de</strong> índios esupostos her<strong>de</strong>iros quilombolas, dan<strong>do</strong>-lhes extensões <strong>de</strong> terra injustificáveis, por sobre direitosconstitucionais, e sem qualquer preocupação com a viabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong>sses atos <strong>do</strong> ponto <strong>de</strong> vistaeconômico e da segurança nacional.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>87Não é, portanto, sem motivo que, na semana passada, o comandante militar da Amazônia,general Augusto Heleno, claramente falan<strong>do</strong> em nome das Forças Armadas, consi<strong>de</strong>rou essa<strong>de</strong>marcação <strong>de</strong> terras uma ameaça à integrida<strong>de</strong> e à segurança nacionais. No Rio, ontem, aoparticipar <strong>de</strong> um seminário no Clube Militar, Heleno voltou ao tema para tachar <strong>de</strong> "lamentável" apolítica indigenista, sob aplausos da platéia, estan<strong>do</strong> nela o general Luiz Cesário da Silveira Filho,comandante militar <strong>do</strong> Leste. Depois, em entrevista, o general falou da penúria <strong>de</strong> comunida<strong>de</strong>sindígenas.Além <strong>de</strong> serem consi<strong>de</strong>radas "nações" por essa espécie <strong>de</strong> movimento autonomista que seexpressa aqui e no exterior por meio <strong>de</strong> ONGs, e se infiltrou no governo, as reservas <strong>de</strong> Roraima seencontram em região <strong>de</strong> fronteira. Como há ianomâmis no Brasil e na Venezuela, o Esta<strong>do</strong> precisamesmo continuar atento à aspiração <strong>de</strong> militantes <strong>de</strong>ssa causa exótica fazerem com que essa eoutras reservas sejam reconhecidas como territórios autônomos. Além disso, são fronteiras quepo<strong>de</strong>m se tornar ainda mais vulneráveis.Quem no governo <strong>de</strong>fen<strong>de</strong> a <strong>de</strong>marcação da Serra <strong>do</strong> Sol em terras contínuas age, <strong>de</strong> formaconsciente ou não, a serviço <strong>de</strong>sse lobby. Ainda bem que o STF, com a resistência à remoção <strong>do</strong>sarrozeiros, reabriu a questão da <strong>de</strong>limitação e com isso evitou um choque violento entreagricultores, índios e a Polícia Fe<strong>de</strong>ral. Entrevistas <strong>de</strong> alguns ministros indicam que a Corte <strong>de</strong>veráacolher o bom senso. E assim terá si<strong>do</strong> reparada mais uma sandice praticada, em nome <strong>do</strong>politicamente correto, por aparelhos infiltra<strong>do</strong>s no Esta<strong>do</strong>.O GloboCrise básica17/04/<strong>2008</strong>O trigo está 227% mais caro hoje <strong>do</strong> que estava há pouco mais <strong>de</strong> <strong>do</strong>is anos, em janeiro <strong>de</strong>2006; a soja, no perío<strong>do</strong>, subiu 132%, e o milho, 157%. O arroz <strong>do</strong>brou <strong>de</strong> preço em três meses. Osda<strong>do</strong>s são assim impressionantes, e a armadilha na qual o mun<strong>do</strong> entrou é difícil <strong>de</strong> <strong>de</strong>sarmar: parte<strong>do</strong> problema é causada pela mudança climática; parte da solução po<strong>de</strong> aprofundar a mudançaclimática.Numa nota divulgada ontem, a MB Associa<strong>do</strong>s mostrou que <strong>de</strong>u a louca no arroz: "China ePaquistão impuseram barreira tarifária às exportações. Em Egito, Índia e Paquistão, a exportaçãoestá suspensa. Soma<strong>do</strong>s à Tailândia, esses países respon<strong>de</strong>m por 75% da exportação mundial." Opreço <strong>do</strong> produto estava, em <strong>de</strong>zembro, a US$385 a tonelada; no fim <strong>de</strong> março, chegou a US$730."A conseqüência para o Brasil é que as exportações <strong>de</strong> arroz po<strong>de</strong>m aumentar, causan<strong>do</strong> pressãonos preços internos e impactan<strong>do</strong> a inflação." O Brasil não é gran<strong>de</strong> exporta<strong>do</strong>r, mas <strong>do</strong>brou asvendas neste primeiro trimestre.Há problemas ocasionais com uma ou outra cultura, como sempre acontece na agricultura.Mas agora há uma soma <strong>de</strong> problemas, uma conjuntura nada simples e nada temporária.A terra, exaurida pelo mau uso, pela <strong>de</strong>vastação, respon<strong>de</strong> com eventos extremos e perda <strong>de</strong>área agriculturável. Foi assim na Austrália, que sofreu secas em série; ou no Canadá, que per<strong>de</strong>uparte da safra <strong>de</strong> trigo em 2007; ou na China, que enfrenta chuva ácida e <strong>de</strong>sertificação. Isso reduziua produção e baixou os estoques exatamente quan<strong>do</strong> vários países <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s populações pobrespassaram por um boom <strong>de</strong> crescimento, com elevação da renda. Para mitigar o efeito da mudançaclimática, aumentou-se a pressão sobre a mesma terra exaurida, com a produção <strong>do</strong>sbiocombustíveis. Se, no Brasil, a cana-<strong>de</strong>-açúcar ocupa uma parte pequena da área plantada, nosEsta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, o etanol <strong>de</strong> milho compete diretamente com a alimentação. Aliás duplamente: omilho esmaga<strong>do</strong> para produzir energia po<strong>de</strong>ria ter i<strong>do</strong> para ração animal e alimento para as pessoas.É o círculo vicioso que começou até com uma boa notícia: o maior número <strong>de</strong> pessoas à mesana China, Índia, África e América Latina. O problema foi ocorrer exatamente quan<strong>do</strong> errosacumula<strong>do</strong>s <strong>do</strong> passa<strong>do</strong> estão levan<strong>do</strong> à mudança <strong>do</strong> clima.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>88O Brasil tem condições <strong>de</strong> ser parte da solução <strong>do</strong> problema. O economista José CarlosVannini, da MB Associa<strong>do</strong>s, diz que o país ocupa apenas 45 milhões <strong>de</strong> hectares para produzir seus140 milhões <strong>de</strong> toneladas <strong>de</strong> grãos. Outros 200 milhões estão <strong>de</strong>dica<strong>do</strong>s à pastagem, mas partepo<strong>de</strong>ria ser usada <strong>de</strong> forma mais produtiva.Ainda assim, restam ao Brasil 90 milhões <strong>de</strong> hectares <strong>de</strong> terra para plantar; sem tocar naAmazônia.Mesmo que não seja tanto assim, pois não se pensa em <strong>de</strong>vastar o cerra<strong>do</strong> ou outros biomaspara aumentar a área plantada, basta recuperar a terra não utilizada atualmente. Isso po<strong>de</strong>ria elevarmuito a produção brasileira.- O Brasil já é o maior exporta<strong>do</strong>r <strong>de</strong> soja, milho, açúcar, laranja, café, carne <strong>de</strong> frango e carnebovina - comenta Vannini.O erro maior, que catapultou alguns <strong>do</strong>s preços, foi a opção americana pelo milho. Ele éimprodutivo, subsidia<strong>do</strong>, e compete diretamente com os alimentos. E com o subsídio, acaba ten<strong>do</strong>seus preços eleva<strong>do</strong>s.Isso afeta também o preço da soja, concorrente <strong>do</strong> milho na ração animal.- O preço das commodities agrícolas não subiu tanto quanto o das não agrícolas. A alta é <strong>de</strong>to<strong>do</strong>s os produtos básicos, só que a alimentação tem um peso maior no índice - diz o economistaFábio Silveira, da RC Consultores.Alguns <strong>do</strong>s problemas não vão mudar a curto prazo:- A <strong>de</strong>manda na China e na Índia não vai <strong>de</strong>saparecer, mas, este ano, a safra da soja <strong>do</strong>sEsta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s já vai ser bem melhor, milho ainda <strong>de</strong>ve continuar em alta. A próxima safrabrasileira também será muito boa, sobretu<strong>do</strong> na soja e no milho - diz Fábio.Isso reduz, em parte, o problema. Os eventos climáticos continuarão acontecen<strong>do</strong>, os estoques<strong>de</strong> alimentos permanecem muito baixos, e a escolha errada da matéria-prima para o etanolamericano será mantida; com base em subsídios crescentes, cujos custos estão <strong>do</strong>bran<strong>do</strong> entre 2006e 2010.Uma das preocupações <strong>do</strong> Copom, que ontem <strong>de</strong>cidiu por uma alta <strong>de</strong> 0,5 ponto percentualnos juros, tem si<strong>do</strong> a inflação <strong>de</strong> alimentos. Ela vem atormentan<strong>do</strong> índices <strong>de</strong> preço por toda parte.Porém difícil imaginar que uma Selic mais alta seja capaz <strong>de</strong> conter esse tipo <strong>de</strong> pressão, que temtraços estruturais.Por alimentos, ou outros motivos, a inflação está em alta no mun<strong>do</strong>. Aleatoriamente, seguemalguns países, na comparação feita pela revista "Economist": na África <strong>do</strong> Sul, há um ano, elaestava em 5,7% e agora está em 9,8%; no Chile, saiu <strong>de</strong> 2,6% e agora está em 8,5%. Em HongKong era 0,6% e agora, 6,3%. Na Rússia, era <strong>de</strong> 7,6% e está em 12,7%. Saiu <strong>de</strong> 1,6% para 3,2% naÁrea <strong>do</strong> Euro. Na China, foi <strong>de</strong> 2,7% para 8,7%. Na Venezuela continua alta: era 20% e agora é25%. Nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, foi <strong>de</strong> 2,4% e está em 4%. No Brasil, estava em 3% e agora em 4,7%. Aonda é mundial, a pressão nos preços agrícolas não é um problema trivial. O petróleo em disparadatambém não ajuda. O mun<strong>do</strong> tem que saber como lidar com o problema não aumentan<strong>do</strong> a pressãosobre a terra, mas protegen<strong>do</strong>-a, ao mesmo tempo em que tenta tirar <strong>de</strong>la maiores colheitas.O GloboO país paga a conta23/04/<strong>2008</strong>Greves <strong>do</strong> setor público pioram ainda mais a competitivida<strong>de</strong> <strong>do</strong> BrasilDesigna-se en<strong>de</strong>mia qualquer <strong>do</strong>ença espacialmente localizada que tenha caráter contínuo.Empresta<strong>do</strong> da medicina, esse termo se presta a <strong>de</strong>finir com perfeição um problema crônico que hádécadas fragiliza a competitivida<strong>de</strong> da economia brasileira: a combalida infra-estrutura <strong>do</strong> país, queper<strong>de</strong> em eficiência e custo para to<strong>do</strong>s os seus principais competi<strong>do</strong>res diretos. Mas o que era ruimficou pior. Uma greve <strong>do</strong>s auditores fiscais da Receita Fe<strong>de</strong>ral, responsáveis pela liberação das
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>89merca<strong>do</strong>rias na alfân<strong>de</strong>ga, está <strong>de</strong>terioran<strong>do</strong> ainda mais a já emperrada logística <strong>do</strong> país (veja oquadro). Depois <strong>de</strong> um mês <strong>de</strong> paralisação, o estrago é monumental: o tempo para liberar aimportação e a exportação <strong>de</strong> produtos <strong>do</strong>brou; fábricas pararam por falta <strong>de</strong> componentes; 50 000contêineres ficaram presos no Porto <strong>de</strong> Santos. Apenas na indústria <strong>de</strong> eletroeletrônicos, o prejuízojá chega a 1 bilhão <strong>de</strong> dólares. Outros grupos empresariais, como a indústria farmacêutica e aautomobilística, além <strong>do</strong> agronegócio, também <strong>de</strong>ixam escapar oportunida<strong>de</strong>s e dinheiro com agreve, arcan<strong>do</strong> com prejuízos ainda não mensuráveis. Não se trata <strong>de</strong> um movimento isola<strong>do</strong>. Des<strong>de</strong>2005, as empresas brasileiras que <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m <strong>de</strong> importações e exportações enfrentaram 492 dias <strong>de</strong>greves e operações-padrão <strong>de</strong> funcionários públicos liga<strong>do</strong>s ao comércio exterior. Foram <strong>de</strong>zesseismeses e meio <strong>de</strong> problemas. "O quadro é <strong>de</strong>sola<strong>do</strong>r. Num mun<strong>do</strong> globaliza<strong>do</strong>, um país precisaoferecer facilida<strong>de</strong>s, e não barreiras, para as relações comerciais entre empresas <strong>de</strong> diversasnações", diz José Augusto <strong>de</strong> Castro, da Associação <strong>de</strong> Comércio Exterior <strong>do</strong> Brasil (AEB).Entre suas exigências, os auditores fiscais querem aumentar o teto salarial <strong>de</strong> 13.400 reaispara 19 000 reais. Isso é bem mais <strong>do</strong> que os 11 420 reais ganhos pelo presi<strong>de</strong>nte da República.Na sexta-feira passada, os grevistas discutiam se voltariam ao trabalho. No entanto, apenas pararealizar o que chamam <strong>de</strong> "operação-padrão". Traduzin<strong>do</strong>: cumpririam o expediente somente paranão ter os dias <strong>de</strong>sconta<strong>do</strong>s, mas fariam o serviço mais lentamente. Greves como essa e a precáriainfra-estrutura explicam o <strong>de</strong>sempenho sofrível <strong>do</strong> Brasil na troca <strong>de</strong> merca<strong>do</strong>rias com o exterior.No ano passa<strong>do</strong>, as exportações <strong>do</strong> país cresceram 17%. Na China, aumentaram 26% e na Índia,20%. O crescimento brasileiro foi embala<strong>do</strong> pela elevação <strong>do</strong> preço das commodities, e não pelaeficiência logística. O Brasil tem o décimo maior produto interno bruto <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>, mas respon<strong>de</strong>por apenas 1,2% <strong>do</strong> comércio global e ocupa o 23º lugar entre os maiores exporta<strong>do</strong>res. Entre osimporta<strong>do</strong>res, o resulta<strong>do</strong> é pior: ocupa o 27º posto.Revista VejaAs invasões no abril vermelho23/04/<strong>2008</strong>MST realiza 50 ações em um só dia e <strong>de</strong>scumpre or<strong>de</strong>m da JustiçaSob o pretexto <strong>de</strong> homenagear os sem-terra mortos no massacre <strong>de</strong> El<strong>do</strong>ra<strong>do</strong> <strong>do</strong> Carajás,ocorri<strong>do</strong> há 12 anos, o Movimento <strong>do</strong>s Trabalha<strong>do</strong>res Rurais Sem Terra realizou ações em to<strong>do</strong> o
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>90País. ISTOÉ já havia antecipa<strong>do</strong> que, afrontan<strong>do</strong> o Esta<strong>do</strong> Democrático <strong>de</strong> Direito, o MSTpromoveria o “Abril Vermelho”. No total, já foram mais <strong>de</strong> 150 ações.Além das invasões e bloqueios, centenas <strong>de</strong> garimpeiros, com apoio <strong>do</strong> MST, paralisaram porsete horas a ferrovia <strong>de</strong> Carajás, no Pará, que pertence à Vale. O ato contrariou <strong>de</strong>cisão judicial queproibia manifestações na empresa. João Pedro Stédile, presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> MST, justificou a invasãocomo uma maneira <strong>de</strong> “chamar a atenção pelos problemas <strong>de</strong> que a Vale é culpada” – segun<strong>do</strong> ele,“conflitos ambientais e trabalhistas”. A empresa classificou o ato como “criminoso” e criticou aomissão da polícia: “Há muito tempo, a Vale vem alertan<strong>do</strong> as autorida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> que esse clima <strong>de</strong><strong>de</strong>srespeito ao Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> Direito cria um ambiente negativo para o crescimento <strong>do</strong>s investimentos.”BLOQUEIO Garimpeiros e sem-terra na ferrovia <strong>de</strong> Carajás, na quinta-feira 17Governo corta R$6,2 bi em investimento socialIsto’é24/04/<strong>2008</strong>Contingenciamento no Orçamento, <strong>de</strong> R$19,4 bi, foi motiva<strong>do</strong> pelo aumento <strong>do</strong>s gastos,inclusive com reajuste <strong>do</strong> mínimoPara a<strong>de</strong>quar o Orçamento <strong>de</strong> <strong>2008</strong> ao corte (contingenciamento) anuncia<strong>do</strong> <strong>de</strong> R$19,4bilhões, o governo reduziu investimentos e congelou R$6,2 bilhões <strong>de</strong> recursos <strong>de</strong>stina<strong>do</strong>s aosministérios volta<strong>do</strong>s às políticas sociais, como Saú<strong>de</strong> e Educação, e R$5,3 bilhões da área <strong>de</strong> infraestrutura,como Transportes e Cida<strong>de</strong>s. Ainda assim, o Ministério <strong>do</strong> Planejamento garante que nãoserão atingi<strong>do</strong>s os projetos <strong>do</strong> Programa <strong>de</strong> Aceleração <strong>do</strong> Crescimento (PAC) e o principalprograma social <strong>do</strong> governo, o Bolsa Família. Mas o nível <strong>de</strong> investimentos, em razão <strong>do</strong> sacrifício<strong>de</strong> projetos fora <strong>do</strong> PAC, caiu 31,5%, passan<strong>do</strong> <strong>de</strong> R$39,2 bilhões para R$26,8 bilhões.O gran<strong>de</strong> contingenciamento <strong>de</strong>ste ano - o maior <strong>de</strong>ste governo - <strong>de</strong>ve-se ao aumento <strong>de</strong>R$16,9 bilhões das <strong>de</strong>spesas públicas <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o final <strong>do</strong> ano passa<strong>do</strong>. Uma das razões é a elevação <strong>do</strong>salário mínimo <strong>de</strong> R$380 para R$415, que terá impacto nas <strong>de</strong>spesas com assistência e previdênciasocial. Outros R$11 bilhões são créditos extraordinários lança<strong>do</strong>s no final <strong>do</strong> ano passa<strong>do</strong> paracustear principalmente obras <strong>do</strong> PAC no início <strong>de</strong>ste ano. O governo também prevê mais gastoscom seguro <strong>de</strong>semprego (mais R$1,7 bilhão) e com financiamento agrícola (R$1,4 bilhão). Do totala ser corta<strong>do</strong>, o Legislativo arcará com R$101 milhões e o Judiciário, com R$120 mihões.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>91Os gastos <strong>de</strong> custeio (manutenção da máquina) serão reduzi<strong>do</strong>s em 7,8%, cain<strong>do</strong> <strong>de</strong> R$90,2bilhões para R$83,1 bilhões, volume menor <strong>do</strong> que o gasto em 2007. Nessa relação estão <strong>de</strong>s<strong>de</strong> as<strong>de</strong>spesas com o funcionamento da máquina administrativa, quanto <strong>do</strong> Fun<strong>do</strong> Nacional <strong>de</strong> Educação(Fun<strong>de</strong>b) e com saú<strong>de</strong>.Verbas po<strong>de</strong>rão ser respostas durante o anoO dinheiro congela<strong>do</strong> po<strong>de</strong>rá ser reposto ao longo <strong>do</strong> ano, <strong>de</strong> acor<strong>do</strong> com a evolução daarrecadação <strong>do</strong> governo. No ano passa<strong>do</strong>, por exemplo, foram libera<strong>do</strong>s inicialmente apenas R$19,4bilhões para investimentos, mas, no final <strong>do</strong> ano, o governo conseguiu empenhar um total <strong>de</strong>R$35,6 bilhões. Para este ano, existe a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> pagamento <strong>de</strong> R$18 bilhões <strong>de</strong> recursos jáempenha<strong>do</strong>s nos anos anteriores, os chama<strong>do</strong>s restos a pagar.Boa parte <strong>do</strong>s cortes vai incidir nas emendas parlamentares. É o que ocorre no Ministério <strong>do</strong>Esporte, que per<strong>de</strong>u 82,3% <strong>do</strong>s recursos, gran<strong>de</strong> parte oriunda das emendas. O Ministério dasCida<strong>de</strong>s, cujo corte nominal <strong>de</strong> R$2,7 bilhões foi o maior entre as pastas - equivalente a 45,8% <strong>do</strong>previsto - per<strong>de</strong>u recursos <strong>de</strong>stina<strong>do</strong>s por <strong>de</strong>puta<strong>do</strong>s e sena<strong>do</strong>res. Segun<strong>do</strong> o ministro Márcio Fortes,as obras <strong>de</strong> saneamento e habitação <strong>do</strong> PAC não serão afetadas:- Temos <strong>de</strong> analisar os da<strong>do</strong>s, mas cerca <strong>de</strong> R$2,9 bilhões das verbas são <strong>de</strong> emendas <strong>de</strong>comissão e <strong>de</strong> bancada.O GloboSinal <strong>de</strong> alerta no Nor<strong>de</strong>ste29/04/<strong>2008</strong>Chuvas hoje e amanhã <strong>de</strong>verão aumentar estragosO número <strong>de</strong> pessoas atingidas pelas enchentes no Nor<strong>de</strong>ste passou <strong>de</strong> 540 mil para 606 milem <strong>de</strong>z dias. É o que mostra o último levantamento realiza<strong>do</strong> pela Secretaria Nacional <strong>de</strong> DefesaCivil (Se<strong>de</strong>c), ligada ao Ministério da Integração Nacional.De acor<strong>do</strong> com a Se<strong>de</strong>c, 359 municípios foram afeta<strong>do</strong>s pelas chuvas: Paraíba (121), RioGran<strong>de</strong> <strong>do</strong> Norte (66), Maranhão (50), Pernambuco (49), Ceará (38) e Piauí (35). Nesses esta<strong>do</strong>s,foram contabiliza<strong>do</strong>s 62.487 <strong>de</strong>saloja<strong>do</strong>s e 80.042 <strong>de</strong>sabriga<strong>do</strong>s.Na Paraíba, o mais atingi<strong>do</strong>, 23 mil pessoas já per<strong>de</strong>ram bens materiais em conseqüência daschuvas. Entre eles, são 19 mil <strong>de</strong>sabriga<strong>do</strong>s. Mais <strong>de</strong> 400 açu<strong>de</strong>s se romperam e 10 pontes foram<strong>de</strong>struídas.Para complicar ainda mais a situação, o Centro Nacional <strong>de</strong> Gerenciamento <strong>de</strong> Risco eDesastres alertou às <strong>de</strong>fesas civis <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s <strong>do</strong> Piauí, Ceará, Rio Gran<strong>de</strong> <strong>do</strong> Norte, Paraíba, MatoGrosso, Mato Grosso <strong>do</strong> Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Gran<strong>de</strong> <strong>do</strong> Sul que haveráfortes chuvas na região hoje e amanhã.Principais vítimasA presi<strong>de</strong>nte da Socieda<strong>de</strong> Paraibana <strong>de</strong> Pediatria, Gilca Gomes, ressalta que as crianças sãoas que mais sofrem com as enchentes. Elas ficam suscetíveis a viroses respiratórias, diarréias,vômitos, leptospirose, hepatite e <strong>de</strong>ngue, principalmente por causa da poluição das águas.Segun<strong>do</strong> a médica, o atendimento pediátrico no Esta<strong>do</strong> é precário. Enquanto a populaçãocresceu, o número <strong>de</strong> leitos infantis diminuiu consi<strong>de</strong>ravelmente.– Temos um hospital infantil reforman<strong>do</strong> há sete anos. Enquanto isso, o número <strong>de</strong> hepatiteno interior da Paraíba cresce assusta<strong>do</strong>ramente por causa das enchentes – <strong>de</strong>nuncia a pediatra.A Se<strong>de</strong>c informou que distribuiu, no último mês, 1.388 toneladas <strong>de</strong> alimentos para asvítimas. Os Esta<strong>do</strong>s <strong>do</strong> Ceará, Maranhão e Paraíba receberam 60 kits <strong>de</strong> medicamentos. Cada um<strong>do</strong>s kits aten<strong>de</strong> 500 pessoas por um perío<strong>do</strong> <strong>de</strong> três meses.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>92Para ajudar os <strong>de</strong>sabriga<strong>do</strong>s, a Conferência Nacional <strong>do</strong>s Bispos <strong>do</strong> Brasil (CNBB) realiza acampanha SOS Nor<strong>de</strong>ste. Até o dia 15 <strong>de</strong> julho, a entida<strong>de</strong> arrecadará recursos para compraralimentos, medicamentos, roupas e colchões.Jornal <strong>do</strong> BrasilMST e estudantes ocupam INCRA em Minas29/04/1008Superinten<strong>de</strong>nte afirma que há pessoas alcoolizadasIntegrantes <strong>do</strong> Movimento <strong>do</strong>s Sem-Terra (MST) e <strong>do</strong> Movimento <strong>do</strong>s Atingi<strong>do</strong>s porBarragens (MAB), além <strong>de</strong> quilombolas e estudantes, invadiram na manhã <strong>de</strong> ontem a se<strong>de</strong> <strong>do</strong>Instituto Nacional <strong>de</strong> Colonização e Reforma Agrária (INCRA), em Belo Horizonte.Segun<strong>do</strong> os movimentos, cerca <strong>de</strong> 500 pessoas participaram da ocupação. O INCRA-MG,porém, disse que cerca <strong>de</strong> 150 manifestantes invadiram a se<strong>de</strong> <strong>do</strong> órgão, por volta <strong>de</strong> 8h30. Osuperinten<strong>de</strong>nte regional <strong>do</strong> instituto, Marcos Helênio Leoni Pena, afirmou que no fim da tar<strong>de</strong> foiobriga<strong>do</strong> a <strong>de</strong>ixar o local, suspen<strong>de</strong>r os trabalhos e dispensar os funcionários, “por questão <strong>de</strong>segurança”.“Eles estão arma<strong>do</strong>s com foices e havia pessoas alcoolizadas”, afirmou Pena, que comunicouo fato à Polícia Fe<strong>de</strong>ral e solicitou que fosse ajuiza<strong>do</strong> um pedi<strong>do</strong> <strong>de</strong> reintegração <strong>de</strong> posse.Em comunica<strong>do</strong> divulga<strong>do</strong> após a invasão, os movimentos acusam o órgão <strong>de</strong> “morosida<strong>de</strong>” eprotestam contra o governo fe<strong>de</strong>ral, por se posicionar em <strong>de</strong>fesa <strong>do</strong> “agronegócio enquanto mo<strong>de</strong>lo<strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento da agricultura para o campo”, que “privilegia as transnacionais e o capitalfinanceiro internacional”.Representantes <strong>do</strong> MST em Minas têm <strong>de</strong>fendi<strong>do</strong> a substituição <strong>do</strong> superinten<strong>de</strong>nte regional,que, por sua vez, acusa o movimento <strong>de</strong> orquestrar uma “jogada política”. “Não sou refém <strong>de</strong>movimento. Minha ação é como pessoa pública, i<strong>de</strong>ntifica<strong>do</strong> com a causa, mas sempre em respeitoà lei. E a lei é morosa”, disse Pena ao Esta<strong>do</strong>.Os manifestantes recusaram diálogo com Pena e enviaram uma pauta <strong>de</strong> reivindicações aopresi<strong>de</strong>nte nacional <strong>do</strong> INCRA, Rolf Hackbart, em Brasília. Eles cobravam a presença <strong>de</strong> Hackbartou <strong>de</strong> uma “autorida<strong>de</strong>” <strong>do</strong> órgão na capital fe<strong>de</strong>ral para <strong>de</strong>ixarem o prédio.Na lista com <strong>de</strong>z itens, os manifestantes pe<strong>de</strong>m a <strong>de</strong>sapropriação imediata da Fazenda NovaAlegria, em Felisburgo (MG), on<strong>de</strong> foram mortos cinco sem-terra; assentamento <strong>de</strong> 4 mil famíliasacampadas; contratação <strong>de</strong> assistência técnica para 1,4 mil famílias assentadas; reconhecimento etitulação <strong>de</strong> quilombolas; entre outros.Em nota, o INCRA-MG informou que “consi<strong>de</strong>ra legítimas as reivindicações e manifestações,<strong>de</strong>s<strong>de</strong> que <strong>de</strong>ntro da legalida<strong>de</strong>.” O Esta<strong>do</strong> não conseguiu contato com representantes <strong>do</strong> MST ou<strong>do</strong>s outros movimentos.Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> São PauloA Amazônia Legal e a política indígena brasileira29/04/<strong>2008</strong>É <strong>de</strong> conhecimento público a existência <strong>de</strong> posições antagônicassobre reservas indígenas na Amazônia. De um la<strong>do</strong> está o GovernoFe<strong>de</strong>ral, com o apoio político e técnico da FUNAI, <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>n<strong>do</strong> suaampliação e a manutenção das ações técnicas sócio-culturaisatualmente a<strong>do</strong>tadas.No pólo oposto estão as Forças Armadas, Instituiçõespermanentes <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>, questionan<strong>do</strong> essa política sob a ótica daconcepção estratégico-militar em torno da soberania brasileira,
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>93apoiadas por especialistas e pesquisa<strong>do</strong>res <strong>de</strong> notório saber sobre <strong>de</strong>fesa e, particularmente, emquestões indígenas.Essa divergência não ocorre somente neste atual governo Lula, mas vem <strong>de</strong> longa data,acentuan<strong>do</strong>-se a partir <strong>do</strong> governo FHC quan<strong>do</strong>, por <strong>de</strong>cisão <strong>de</strong>ste, foi da<strong>do</strong> início à <strong>de</strong>marcação elegalização <strong>de</strong> reservas indígenas localizadas exatamente em terrenos adjacentes às diversas faixas<strong>de</strong> fronteiras na Amazônia.Após um perío<strong>do</strong> <strong>de</strong> intensa e ostensiva pressão política internacional sobre o assunto,diversas ONG nacionais e, sobretu<strong>do</strong> a gran<strong>de</strong> maioria das estrangeiras agra<strong>de</strong>ceram tal <strong>de</strong>cisão.Quan<strong>do</strong> na ativa, tive o privilégio <strong>de</strong> trabalhar por um perío<strong>do</strong> superior a cinco anosininterruptos naquela região, embarca<strong>do</strong> em navios-patrulha fluviais da Marinha e levo comigoregistros <strong>do</strong> chama<strong>do</strong> espírito amazônico lá presente na “atração” das pessoas que se i<strong>de</strong>ntificamcom a força e vulnerabilida<strong>de</strong> da Natureza.O principal papel daquela imensa fonte <strong>de</strong> energia é contribuir na manutenção das condiçõesbásicas para a vida <strong>do</strong> Homem no planeta e, por conseqüência, na renovação permanente das suasnecessida<strong>de</strong>s naturais <strong>de</strong> sobrevivência.O registro acima não tem nada <strong>de</strong> fantasioso, muito menos se limita ao aspecto emocional.Pelo contrário!Tenho absoluta convicção <strong>de</strong> que qualquer cidadão brasileiro que tenha se embrenha<strong>do</strong> por<strong>de</strong>ntro daquele ambiente amazônico, ao mesmo tempo cativante e agressivo aos "intrusos<strong>de</strong>sprepara<strong>do</strong>s e/ou nocivos ao ecossistema", é cativa<strong>do</strong> paulatinamente pelas suas característicaspeculiares e pela majestosa gran<strong>de</strong>za da fauna e flora ali presentes.O envolvimento fica mais acentua<strong>do</strong> quan<strong>do</strong> ocorre a oportunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> conhecer as al<strong>de</strong>iasindígenas afastadas <strong>do</strong> meio urbano mais singelo da Amazônia, como, por exemplo, ascomunida<strong>de</strong>s ribeirinhas ainda existentes ao longo <strong>do</strong>s principais rios amazônicos.A Amazônia sempre existiu, pujante e dinâmica nas suas "atribuições naturais" pela vida eassim <strong>de</strong>ve ser entendida. Sempre!O Projeto "Calha Norte", <strong>de</strong>ntre outros propósitos, foi concebi<strong>do</strong> para se contrapor àsi<strong>de</strong>ologias estranhas ao País e à presença irregular <strong>de</strong> entida<strong>de</strong>s estrangeiras na região, tais comoativida<strong>de</strong>s "missionárias", <strong>de</strong> "pesquisa" e <strong>de</strong> "apoio à saú<strong>de</strong>" junto às comunida<strong>de</strong>s ribeirinhas eindígenas, esta última prioritariamente.Em cada pólo planeja<strong>do</strong> nesse projeto, foi i<strong>de</strong>alizada uma presença balanceada <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>,ten<strong>do</strong> como base uma pequena unida<strong>de</strong> militar <strong>do</strong> Exército, circundada por uma série <strong>de</strong> núcleos <strong>de</strong>representantes <strong>de</strong> um conjunto <strong>de</strong> órgãos governamentais: <strong>do</strong> Ministério da Saú<strong>de</strong> (posto <strong>de</strong> saú<strong>de</strong>proporcional à <strong>de</strong>manda local), <strong>do</strong> Ministério <strong>de</strong> Meio Ambiente (IBAMA) e <strong>do</strong> Ministério daJustiça (FUNAI e PF), to<strong>do</strong>s interliga<strong>do</strong>s com a<strong>de</strong>qua<strong>do</strong>s e mo<strong>de</strong>rnos meios <strong>de</strong> comunicações àManaus, Belém e Brasília.A meu ver, um projeto a<strong>de</strong>qua<strong>do</strong> às necessida<strong>de</strong>s e exigências regionais, exeqüível pelacapacida<strong>de</strong> institucional <strong>do</strong>s órgãos em questão e aceitável politicamente.O resulta<strong>do</strong> <strong>de</strong>sse importante Projeto foi o seguinte: nos reduzi<strong>do</strong>s pólos que foram cria<strong>do</strong>s(redução superior a 50% <strong>do</strong> previsto), o Esta<strong>do</strong> ficou e permanece representa<strong>do</strong> somente pelaexpressão militar, por meio <strong>do</strong> Exército Brasileiro!Vi e vivenciei fatos marcantes em torno <strong>do</strong> tema soberania entre final <strong>de</strong> 1981 e mea<strong>do</strong>s <strong>de</strong>1986.Destaco os seguintes que permanecem níti<strong>do</strong>s na minha memória: "missionários ditoscristãos" conduzin<strong>do</strong> equipamentos sofistica<strong>do</strong>s <strong>de</strong> pesquisa geológica, ministran<strong>do</strong> conceitosreligiosos contrários às religiões cristãs, ensinan<strong>do</strong> diferentes concepções <strong>de</strong> relações sociais quepromovem a supremacia <strong>do</strong> valor <strong>do</strong> homem sobre e in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte da sua cidadania, <strong>de</strong>ntre outrosaspectos; regiões indígenas on<strong>de</strong> o acesso <strong>de</strong> militares da Marinha (via pequenas embarcações e/ouhelicóptero) somente era "autoriza<strong>do</strong>" pelo capitão/cacique <strong>do</strong> grupo, ten<strong>do</strong> si<strong>do</strong> claramentei<strong>de</strong>ntifica<strong>do</strong> indícios <strong>de</strong> presença anterior <strong>de</strong> estrangeiros no seio das al<strong>de</strong>ias; comunida<strong>de</strong>s
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>94ribeirinhas viven<strong>do</strong> em torno <strong>de</strong> ícones religiosos diferentes daqueles comumente conheci<strong>do</strong>s pelacultura brasileira e oci<strong>de</strong>ntal, on<strong>de</strong> parte significativa da produção e comercialização <strong>de</strong> seusprodutos, originários da caça/pesca e <strong>do</strong> artesanato, era "<strong>do</strong>a<strong>do</strong> espontaneamente" àquelasli<strong>de</strong>ranças, etc. Importante é que tu<strong>do</strong> foi <strong>do</strong>cumenta<strong>do</strong> por meio <strong>de</strong> relatórios oficiais para oComan<strong>do</strong> superior e regional.Possuo uma visão crítica e plenamente consolidada sobre os recentes fatos levanta<strong>do</strong>s peloGeneral Heleno, atual Comandante Militar da Amazônia, ratifican<strong>do</strong> cada <strong>de</strong>talhe por ele <strong>de</strong>scrito e<strong>de</strong>fendi<strong>do</strong> em entrevista na Re<strong>de</strong> Ban<strong>de</strong>irante (SP) e em recente palestra realizada no Clube Militar(RJ), ambos difundi<strong>do</strong>s pela mídia brasileira e internacional.Lamento, profundamente, a reação ridícula da FUNAI em face da sua insustentávelargumentação apresentada, seguida por políticos e ambientalistas brasileiros e estrangeiros (pessoasfísicas e/ou ONG).A meu juízo, esses indivíduos ou conhecem a região amazônica à distância, via imagens erelatórios, ou a visitaram, via centros urbanos, por meio <strong>de</strong> parques anexos as instalações hoteleirason<strong>de</strong> é possível ter uma <strong>de</strong>terminada idéia <strong>do</strong> que seja a “selva” em passeios com guia local.Enten<strong>do</strong> ser inoportuno aprofundar o tema sob a ótica <strong>do</strong>s estu<strong>do</strong>s estratégicos pertinentes.Isso po<strong>de</strong>rá ser analisa<strong>do</strong> em um texto próprio, contu<strong>do</strong> avalio ser váli<strong>do</strong> somente registrar<strong>do</strong>is aspectos significativos, a saber: a permeabilida<strong>de</strong> fronteiriça da região, dificultan<strong>do</strong> suafiscalização pela extensa dimensão e características geográficas peculiares; e o significativo valorestratégico e comercial <strong>do</strong>s minerais localiza<strong>do</strong>s exatamente no subsolo <strong>de</strong> diversas reservasindígenas situadas em faixas fronteiriças brasileiras.Deixo para o fim a indignação <strong>de</strong>monstrada pelo Sr. Presi<strong>de</strong>nte da República às <strong>de</strong>clarações<strong>do</strong> General Heleno, cuja experiência é respeitada por seus pares e, aparentemente, tambémreconhecida pela mesma Autorida<strong>de</strong> que o <strong>de</strong>signou para comandar o contingente brasileiro noHaiti, que o promoveu ao posto máximo <strong>do</strong> generalato e, finalmente, o nomeou para o atualComan<strong>do</strong> Militar.A impressão que ficou patente a nós, brasileiros, em face <strong>do</strong> conjunto <strong>de</strong> matérias veiculadaspela mídia nacional, foi a <strong>de</strong> que essa indignação teria si<strong>do</strong> motivada mais pela profissão <strong>do</strong> cidadãoque originou tais <strong>de</strong>clarações <strong>do</strong> que pelo seu real mérito.Conhecen<strong>do</strong> o conteú<strong>do</strong> das entrevistas com um mínimo <strong>de</strong> atenção, surgem as seguintesquestões: ao propor uma revisão da atual política indígena que, na ótica <strong>do</strong> autor, ser caótica, esteato significa uma manifestação <strong>de</strong> respeito ou <strong>de</strong> provocação ao Governo e ao Chefe <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong>?E as recentes invasões <strong>do</strong> MST em terrenos priva<strong>do</strong>s, <strong>de</strong>predan<strong>do</strong> pesquisas inova<strong>do</strong>ras <strong>de</strong>valor para o País, também significam manifestação <strong>de</strong> respeito ou <strong>de</strong> provocação à mesmaAutorida<strong>de</strong>? Com a palavra, o Exmo. Sr. Presi<strong>de</strong>nte Luiz Inácio Lula da Silva.Roberto Carvalho <strong>de</strong> Me<strong>de</strong>iros, CMG (Ref) - www.inforel.orgGasto público e segurança, os <strong>de</strong>safios <strong>do</strong> Brasil21/05/<strong>2008</strong>Temas <strong>do</strong>minam evento sobre visões <strong>do</strong> país daqui a 20 anos. Economistas criticamcriação <strong>de</strong> fun<strong>do</strong> soberanoO Brasil tem <strong>do</strong>is principais <strong>de</strong>safios nas próximas duas décadas: reduzir o gasto público ecombater a insegurança. Esse foi o quadro <strong>de</strong>senha<strong>do</strong> por economistas, intelectuais e autorida<strong>de</strong>sreuni<strong>do</strong>s no "Brasil+20", evento realiza<strong>do</strong> ontem na PUC-Rio - organiza<strong>do</strong> pela associação <strong>do</strong>santigos alunos da universida<strong>de</strong> e pelo Instituto Millenium -, com o objetivo <strong>de</strong> pensar o futuro <strong>do</strong>país.Na primeira sessão <strong>de</strong> <strong>de</strong>bates, Ilan Goldfajn, ex-diretor <strong>de</strong> Política Monetária <strong>do</strong> BancoCentral (BC) e professor da PUC-Rio, fez coro com o economista-chefe da corretora Ágora, Álvaro
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>95Ban<strong>de</strong>ira, na crítica à elevação <strong>do</strong> gasto <strong>do</strong> governo e na ênfase <strong>do</strong>s riscos <strong>do</strong> aumento <strong>do</strong> tamanho<strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>.Goldfajn relembrou os últimos 20 anos, relacionan<strong>do</strong> os ganhos para a economia brasileira<strong>de</strong>sse perío<strong>do</strong>, como controle inflacionário, abertura comercial, sistema financeiro sóli<strong>do</strong>,privatizações, câmbio flutuante e um BC relativamente in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte. Fazen<strong>do</strong> um exercício para aspróximas duas décadas, estabeleceu o crescente gasto público como um risco para que a economiabrasileira avance e reivindicou um investimento maior na educação, para criar uma porta <strong>de</strong> saídapara os programas <strong>de</strong> transferência <strong>de</strong> renda, como o Bolsa Família.Beltrame: ausência <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> explica violênciaPara o economista <strong>do</strong> BNDES Fabio Giambiagi, os gastos <strong>do</strong> governo também po<strong>de</strong>m ser umobstáculo ao <strong>de</strong>senvolvimento.- O <strong>de</strong>safio, agora, é melhorar a qualida<strong>de</strong> <strong>do</strong> gasto público para entregar melhores serviçospara a população, com ênfase na educação - disse, ressaltan<strong>do</strong> que o avanço <strong>do</strong> Brasil nos próximos20 anos será maior que o constata<strong>do</strong> <strong>de</strong> 1988 até agora.Apesar <strong>do</strong>s pontos negativos vislumbra<strong>do</strong>s por Goldfajn, no país esboça<strong>do</strong> pelo economistahá importantes avanços. Em suas projeções, seremos fornece<strong>do</strong>res <strong>de</strong> bens <strong>de</strong> que o mun<strong>do</strong> precisa,a economia ten<strong>de</strong> a aumentar o grau <strong>de</strong> formalida<strong>de</strong> e os juros <strong>de</strong>vem cair:- (Teremos) Uma distribuição <strong>de</strong> renda um pouco melhor e redução da pobreza. Temos queinvestir na educação, e não dar um salto apenas industrial.O economista criticou a criação <strong>do</strong> fun<strong>do</strong> soberano, afirman<strong>do</strong> que não servirá para quaisquerdas finalida<strong>de</strong>s apontadas pelo governo como justificativa para sua criação. Para ele, o fun<strong>do</strong> nãovai conseguir segurar a <strong>de</strong>svalorização <strong>do</strong> dólar nem fazer o país crescer mais ou assegurar melhorremuneração aos ativos <strong>do</strong> governo.- Vamos emprestar dinheiro subsidia<strong>do</strong> às empresas brasileiras. Portanto, não vamos ganharmais com isso.Ban<strong>de</strong>ira também criticou o fun<strong>do</strong> soberano. Para o economista, ele só faria senti<strong>do</strong> sehouvesse um superávit nominal, ou seja, sobra <strong>de</strong> dinheiro <strong>de</strong>pois <strong>do</strong> pagamento <strong>de</strong> juros da dívidapública. Mas, da mesma forma que Goldfajn, também enumerou as conquistas da economiabrasileira nos últimos 20 anos, principalmente a elevação <strong>do</strong> crédito e <strong>do</strong> merca<strong>do</strong> <strong>de</strong> capitais.O consultor David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da Agência Nacional <strong>do</strong> Petróleo (ANP),lembrou a relação direta entre energia e meio ambiente. O jornalista Carlos Alberto Sar<strong>de</strong>nbergcontou histórias sobre as dificulda<strong>de</strong>s jurídicas <strong>do</strong> empresaria<strong>do</strong> para tocar seus negócios. Citou ocaso da AmBev, que <strong>de</strong>ixou <strong>de</strong> construir uma fábrica em Sete Lagoas (MG) por não po<strong>de</strong>r <strong>de</strong>rrubarárvores <strong>de</strong> pequi. Lembrou ainda como a Justiça impõe gastos ao governo, diante <strong>do</strong>s direitosprevistos na Constituição, como os da saú<strong>de</strong>.- Os gastos <strong>do</strong> SUS aumentaram muito para custear tratamentos caríssimos no exterior, que aJustiça manda pagar. É preciso rever isso. Gasta-se mais com isso <strong>do</strong> que com o combate à <strong>de</strong>ngue.Para antropólogo, elite <strong>de</strong>ve obe<strong>de</strong>cer a regras sociaisDiante <strong>de</strong> uma platéia <strong>de</strong> mais <strong>de</strong> mil pessoas, a segunda rodada <strong>de</strong> discussões girou em torno<strong>do</strong> tema da segurança. O secretário <strong>de</strong> Segurança Pública, José Beltrame, falou das dificulda<strong>de</strong>spara se combater a violência urbana no Rio. A perda da condição <strong>de</strong> capital para Brasília, a crise <strong>do</strong>petróleo nos anos 70 e a ocupação <strong>de</strong>sor<strong>de</strong>nada <strong>do</strong> solo foram citadas pelo secretário como razõesda crise <strong>de</strong> segurança fluminense. Ele também citou a ausência <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> nas 1.500 favelascariocas:- On<strong>de</strong> o Esta<strong>do</strong> não está, alguém vai fazer as vezes <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>. Não temos uma política <strong>de</strong>confronto, mas quan<strong>do</strong> entramos para <strong>de</strong>belar o tráfico, somos rechaça<strong>do</strong>s com violência ecruelda<strong>de</strong>. Isso está inseri<strong>do</strong> na cultura das pessoas, sempre foi assim.Para o secretário, é preciso uma ação coor<strong>de</strong>nada <strong>de</strong> todas as secretarias, para gerar emprego,renda, e educação.- No Complexo <strong>do</strong> Alemão, são 130 mil pessoas e somente duas escolas.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>96O antropólogo Roberto DaMatta, que também participou <strong>do</strong> evento, trouxe para o <strong>de</strong>batesobre socieda<strong>de</strong> e cultura o tema da <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong>. Falou da inclusão social, mas referin<strong>do</strong>-se aotopo da pirâmi<strong>de</strong> social, ou seja, a elite brasileira.- Nosso problema é viver sob regras igualitárias. A <strong>de</strong>sigualda<strong>de</strong> faz parte da nossa história.Quan<strong>do</strong> falo <strong>de</strong> inclusão, não é só <strong>do</strong> pobre, mas também da elite que não obe<strong>de</strong>ce às regras. Nospróximos 20 anos, temos que superar o ranço aristocrático e <strong>de</strong>cidir se vamos ser uma socieda<strong>de</strong> <strong>de</strong>pessoas <strong>de</strong> brasão ou <strong>de</strong> pessoas comuns.O GloboDesafio <strong>do</strong> governo: concentrar-se na educação21/05/<strong>2008</strong>A existência <strong>de</strong> 1,6 milhão <strong>de</strong> analfabetos, a persistência <strong>de</strong> elevada distorção entre ida<strong>de</strong>s eséries, a baixa freqüência no ensino superior, e as restritas oportunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> acesso à educaçãoprofissional são alguns <strong>do</strong>s aspectos mais alarmantes divulga<strong>do</strong>s, ontem, pelo Instituto <strong>de</strong> PesquisaEconômica e Aplicada (Ipea).A pesquisa, que reuniu da<strong>do</strong>s coleta<strong>do</strong>s <strong>do</strong> Instituto Brasileiro <strong>de</strong> Geografia e Estatística(IBGE) e da Organização Internacional <strong>do</strong> Trabalho (OIT) até 2005, não traduziu a melhoraimplementada pelo governo fe<strong>de</strong>ral nos últimos três anos, segun<strong>do</strong> o sociólogo Roberto Gonzalez,pesquisa<strong>do</strong>r <strong>do</strong> Ipea e um <strong>do</strong>s profissionais envolvi<strong>do</strong>s neste trabalho.– A melhora nas taxas <strong>de</strong> emprego atuais não estão contabilizadas na pesquisa, que tambémnão incluiu o aumento <strong>do</strong> nível <strong>de</strong> escolarida<strong>de</strong> – ressaltou Gonzalez.Contingente <strong>de</strong> jovensMas o fato é que o Brasil ainda é carente <strong>de</strong> políticas públicas específicas para os jovens, "ecomo o país concentra um contingente enorme da categoria, é imprescindível criar açõesdirecionadas a eles", garante o sociólogo.Para Gonzalez, o <strong>de</strong>safio <strong>do</strong> governo concentra-se na educação. Além <strong>de</strong> fornecer melhorescondições e aumentar o nível <strong>de</strong> escolarida<strong>de</strong> da população brasileira, o governo precisa garantir ainclusão <strong>do</strong> jovem no merca<strong>do</strong> <strong>de</strong> trabalho em ambientes menos precários.– É muito importante criar políticas públicas que permitam o jovem completar os estu<strong>do</strong>s,sem que ele seja empurra<strong>do</strong> ao merca<strong>do</strong> <strong>de</strong> trabalho – reforça.De acor<strong>do</strong> com a pesquisa, a situação educacional <strong>do</strong>s jovens, em 2006, continha 1,6 milhão<strong>de</strong> analfabetos, entre 15 e 17 anos; <strong>do</strong>s 18 aos 24, eram 2,8 milhões; e <strong>do</strong>s 25 aos 29, 2,7 milhões <strong>de</strong>jovens em completo analfabetismo.Quase 34 % <strong>do</strong>s jovens <strong>de</strong> 15 a 17 anos vivem o problema da distorção ida<strong>de</strong>-série, e aindanão freqüentaram o <strong>Ensino</strong> Fundamental. Também merece atenção na pesquisa o fato <strong>de</strong> poucomenos <strong>de</strong> um terço da faixa etária <strong>de</strong> 18 a 24 anos freqüentarem a escola, e apenas 12,7% cursaremo ensino superior, consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong> nível <strong>de</strong> ensino a<strong>de</strong>qua<strong>do</strong> para esta faixa etária.Para Gonzalez, o índice <strong>de</strong> escolarida<strong>de</strong> está melhor, porém ainda muito <strong>de</strong>fasa<strong>do</strong>. em 2005, amédia <strong>de</strong> escolarida<strong>de</strong> brasileira, conforme <strong>de</strong>stacou o sociólogo, é <strong>de</strong> 8,3 anos, <strong>do</strong>s 15 aos 24 anos;ou seja, "esta faixa etária apenas completa o ensino fundamental, o que é muito ruim", diz.Marcelo Néri, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), concorda com o pesquisa<strong>do</strong>r<strong>do</strong> Ipea, <strong>de</strong> que o gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>safio <strong>do</strong> país é a educação e a qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> inserção <strong>do</strong> jovem nomerca<strong>do</strong> <strong>de</strong> trabalho.No entanto, o professor observa que o jovem <strong>de</strong> hoje está melhor prepara<strong>do</strong> <strong>do</strong> que em outrasgerações, e <strong>de</strong>staca a obsolescência tecnológica.– A cada década, o conhecimento tecnológico <strong>do</strong>s jovens supera as gerações anteriores. Aperspectiva <strong>de</strong> futuro é por meio da educação – ressalta.Jornal <strong>do</strong> Brasil
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>97UNESCO: BRASIL USA MÉTODOS PRIMÁRIOS NA ESCOLA29/05/<strong>2008</strong>Estu<strong>do</strong> critica infra-estrutura no ensino fundamental e diz que maior parte <strong>do</strong>s professoresse limita a usar quadro-negroProfessores brasileiros das séries iniciais <strong>de</strong> ensino fundamental, a antiga escola primária,ainda usam méto<strong>do</strong>s <strong>de</strong> ensino primários e pouco diversifica<strong>do</strong>s, abusan<strong>do</strong> <strong>de</strong> aulas em que osestudantes se limitam a copiar textos <strong>do</strong> quadro-negro. É o que mostra estu<strong>do</strong> lança<strong>do</strong>mundialmente ontem pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura(UNESCO), com base em pesquisa realizada em 11 países em <strong>de</strong>senvolvimento, entre eles o Brasil,a Argentina e o Chile.O estu<strong>do</strong> “Uma visão <strong>de</strong>ntro das escolas primárias”, <strong>do</strong> Instituto <strong>de</strong> Estatística da UNESCO,entrevistou diretores e professores. No Brasil, segun<strong>do</strong> a pesquisa, 40% <strong>do</strong>s alunos <strong>de</strong> séries iniciaistêm, na maioria das vezes, aulas em que copiam conteú<strong>do</strong>s. Quase 20% apren<strong>de</strong>m recitan<strong>do</strong> tabelase fórmulas e 10%, repetin<strong>do</strong> frases.Brasil é um <strong>do</strong>s 5 que mais usam “méto<strong>do</strong>s mecânicos”O uso excessivo <strong>do</strong> quadro-negro fez o Brasil ser cita<strong>do</strong> como um <strong>do</strong>s países que se utilizam<strong>de</strong> “méto<strong>do</strong>s mecânicos” <strong>de</strong> ensino, em <strong>de</strong>trimento <strong>de</strong> aulas mais focadas na capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong>compreensão. Só três países asiáticos e o Paraguai registram índice maior <strong>de</strong> uso da lousa. Outroproblema é a falta <strong>de</strong> professores ao trabalho, o que prejudica 17% <strong>do</strong>s alunos brasileiros. Outros11% convivem com atrasos freqüentes <strong>do</strong>s <strong>do</strong>centes. No conjunto <strong>do</strong>s países, os professoresreclamam <strong>do</strong>s baixos salários e da falta <strong>de</strong> prestígio da profissão.O relatório chama a atenção também para a falta <strong>de</strong> infra-estrutura das escolas, especialmenteas rurais, e as disparida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> gastos. Enquanto o Chile investe US$2.120 por aluno ao ano, o Brasilaplica US$1.159 e o Peru, US$479 — os valores em dólar foram converti<strong>do</strong>s pelo chama<strong>do</strong> “po<strong>de</strong>r<strong>de</strong> parida<strong>de</strong> <strong>de</strong> compra”, que permite a comparação internacional.— Meta<strong>de</strong> <strong>do</strong>s alunos <strong>de</strong> escolas rurais assiste às aulas em prédios em más condições. Nascida<strong>de</strong>s, são 25%. É quase inacreditável que 10% <strong>do</strong>s estudantes freqüentem escolas que carecem<strong>de</strong> água potável. Se se quer transformar a escola num fator <strong>de</strong> integração nacional, é preciso umesforço maior — disse o representante da UNESCO no Brasil, Vincent Defourny.Ele afirmou que a carga horária <strong>do</strong>s alunos no Chile é 50% maior <strong>do</strong> que no Brasil: 1.200horas/ano contra 800:— Mais horas melhoram a qualida<strong>de</strong> da aprendizagem.No Brasil, 38% os estudantes estão matricula<strong>do</strong>s em escolas sem biblioteca. A maioria, 87%,estuda em colégios sem computa<strong>do</strong>res conecta<strong>do</strong>s à internet.Para o Ministério da Educação (MEC), a melhoria <strong>do</strong> ensino requer investimentos naformação <strong>do</strong>s professores. O secretário <strong>de</strong> Educação Continuada, Alfabetização e Diversida<strong>de</strong>,André Lázaro, diz que a escola pública brasileira já faz milagre ao funcionar com poucos recursos.O GloboBRASIL: ESPAÇOS RURAIS E URBANOSMinc propõe que militares façam <strong>de</strong>fesa da Amazônia19/05/<strong>2008</strong>Futuro ministro leva hoje a Lula <strong>de</strong>z sugestões para o Ministério <strong>do</strong> Meio AmbienteConvida<strong>do</strong> para assumir o lugar <strong>de</strong> Marina Silva no Ministério <strong>do</strong> Meio Ambiente, CarlosMinc (PT) afirmou ontem, ao <strong>de</strong>sembarcar no Rio, vin<strong>do</strong> <strong>de</strong> Paris, que vai propor ao presi<strong>de</strong>nteLuiz Inácio Lula da Silva que as Forças Armadas aju<strong>de</strong>m na proteção da Amazônia.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>98Atual secretário <strong>de</strong> Esta<strong>do</strong> <strong>do</strong> Ambiente <strong>do</strong> Rio, Minc disse que fará pelo menos <strong>de</strong>zsugestões ao presi<strong>de</strong>nte na reunião marcada para às 17h30 <strong>de</strong> hoje no Palácio <strong>do</strong> Planalto, quan<strong>do</strong>será formaliza<strong>do</strong> o convite para o ministério. Algumas das propostas já foram divulgadas por ele naentrevista dada em Paris.Minc disse que preten<strong>de</strong> complementar o PAS (Plano Amazônia Sustentável) com umprograma <strong>de</strong> "<strong>de</strong>smatamento zero em sete anos". Segun<strong>do</strong> o petista, a idéia se baseia em um plano<strong>de</strong> "<strong>de</strong>smatamento zero" elabora<strong>do</strong> por ONGs e fundações e pelo atual presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> BNDES(Banco Nacional <strong>de</strong> Desenvolvimento Econômico e Social), Luciano Coutinho, que foiaban<strong>do</strong>na<strong>do</strong>. Minc consi<strong>de</strong>ra o plano "consistente", embora admita que o conheça só"superficialmente".Ele acha que abaixo <strong>do</strong> ministro Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos), coor<strong>de</strong>na<strong>do</strong>r <strong>do</strong>PAS, <strong>de</strong>veria ter um gestor local, alguém que conheça bem a região. Lula entregou a coor<strong>de</strong>nação<strong>do</strong> plano a Unger com a alegação <strong>de</strong> que Marina não tinha "isenção".Minc disse que espera que Lula dê condições para que ele trabalhe como fez o governa<strong>do</strong>rSérgio Cabral (PMDB-RJ). Ele vai sugerir que regimentos das Forças Armadas se integrem na<strong>de</strong>fesa das unida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> conservação da Amazônia, como foi feito com os bombeiros que setornaram guarda-parques em áreas protegidas <strong>do</strong> Rio.Assim como fez no Esta<strong>do</strong>, ele preten<strong>de</strong> agilizar a liberação <strong>de</strong> licenciamentos ambientais.Minc disse que a rapi<strong>de</strong>z com que licenciou obras como o COMPERJ (Complexo Petroquímico <strong>do</strong>Rio <strong>de</strong> Janeiro) "encheu os olhos <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte".Outra sugestão é que a Aca<strong>de</strong>mia Brasileira <strong>de</strong> Ciências faça um projeto <strong>de</strong> pesquisa <strong>de</strong> pontapara utilização da biodiversida<strong>de</strong> e da biotecnologia da floresta amazônica. "Transformar o bancogenético da Amazônia em pastagem <strong>de</strong> baixa produtivida<strong>de</strong> é colocar a ecologia contra a barbárie",disse.Folha <strong>de</strong> São PauloExército vê idéia <strong>de</strong> ministro com ressalvas19/05/<strong>2008</strong>O Exército vê com ressalvas a proposta <strong>do</strong> futuro ministro <strong>do</strong> Meio Ambiente, Carlos Minc,<strong>de</strong> usar as Forças Armadas na <strong>de</strong>fesa <strong>do</strong>s parques nacionais e das reservas indígenas e extrativistasda Amazônia. Para Minc, os militares po<strong>de</strong>riam suprir a carência <strong>de</strong> fiscais na região amazônica."Em termos conceituais a idéia po<strong>de</strong> ser interessante, mas é preciso ver como será aplicada",disse à Folha o general Adhemar da Costa Macha<strong>do</strong> Filho, chefe da assessoria <strong>de</strong> imprensa <strong>do</strong>gabinete <strong>do</strong> Exército. Segun<strong>do</strong> Macha<strong>do</strong> Filho, um patrulhamento regular e ostensivo requer"repasse <strong>de</strong> mais verbas" e "a concessão <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> polícia"."Po<strong>de</strong> não ser tão fácil assim, mas vamos esperar a diretriz <strong>do</strong> Ministério da Defesa", afirmou.Des<strong>de</strong> 2001, as Forças Armadas po<strong>de</strong>m ser usadas pontualmente para as chamadas ações <strong>de</strong>garantia da lei e da or<strong>de</strong>m no país.O <strong>de</strong>creto 3.897 fixou as diretrizes para o emprego das Forças Armadas em caráteremergencial. O texto prevê que qualquer ação militar <strong>de</strong> policiamento ostensivo, preventivo ourepressivo será sempre "temporalmente limitada e territorialmente especificada".No caso da Amazônia, ações conjuntas entre militares e outros órgãos <strong>do</strong> governo são cadavez mais freqüentes. "Já fazemos esse tipo <strong>de</strong> ação, quan<strong>do</strong> há um pedi<strong>do</strong> <strong>do</strong> Ibama ou da PolíciaFe<strong>de</strong>ral, por exemplo", explicou à Folha o comandante <strong>do</strong> CMA (Coman<strong>do</strong> Militar da Amazônia),general Augusto Heleno.No início <strong>de</strong> abril, Exército e Ibama atuaram juntos na <strong>de</strong>socupação <strong>de</strong> um garimpo no rioPuruí, afluente <strong>do</strong> Japurá, no Amazonas. Foram apreendidas oito dragas.As <strong>de</strong>clarações <strong>de</strong> Minc se ajustam à diretriz <strong>do</strong> governo Lula para a Amazônia. O Ministérioda Defesa apresentará em agosto um novo plano para a região.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>99Da<strong>do</strong>s recentes <strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamento e o conflito pela <strong>de</strong>marcação da reserva Raposa/Serra <strong>do</strong>Sol, em Roraima, reacen<strong>de</strong>ram o <strong>de</strong>bate sobre a presença militar na Amazônia.Em palestra no mês passa<strong>do</strong>, Heleno disse que há um "vazio <strong>de</strong> po<strong>de</strong>r" na região. Hoje, oExército tem 24 mil homens em 124 organizações militares, entre brigadas, batalhões e pelotões <strong>de</strong>fronteira. O contingente <strong>de</strong>ve chegar a 27 mil militares até o final <strong>do</strong> ano.Folha <strong>de</strong> São PauloGrãos impulsionam preços da terra no Brasil; Sul é <strong>de</strong>staque19/05/<strong>2008</strong>Com a alta <strong>do</strong>s grãos, o preço médio das terras <strong>de</strong>stinadas à agropecuária no Brasil subiu 16,3por cento no segun<strong>do</strong> bimestre <strong>de</strong> <strong>2008</strong>, ante o mesmo perío<strong>do</strong> <strong>de</strong> 2007, para 4.135 reais porhectare, informou nesta segunda-feira um estu<strong>do</strong> da AgraFNP, divisão no Brasil <strong>do</strong> grupo AgraInforma, lí<strong>de</strong>r em consultoria no agronegócio no mun<strong>do</strong>.As principais áreas produtoras <strong>de</strong> grãos <strong>do</strong> país registram as maiores valorizações, o que feztambém o preço médio no Sul <strong>do</strong> Brasil superar o custo das proprieda<strong>de</strong>s no Su<strong>de</strong>ste pela primeiravez <strong>de</strong>s<strong>de</strong> o início <strong>de</strong> 2007.Em relação ao primeiro bimestre, a alta <strong>do</strong> preço médio no Brasil foi menor, <strong>de</strong> 3,42 porcento, mas o valor no Sul subiu 6,16 por cento no mesmo perío<strong>do</strong>."A região Sul no bimestre passa<strong>do</strong> tinha quase iguala<strong>do</strong> o valor com o Su<strong>de</strong>ste. Gran<strong>de</strong> parte<strong>de</strong>ssa troca <strong>de</strong> posição é por conta da procura <strong>de</strong> terras agrícolas para grãos no Paraná, que sevalorizou <strong>de</strong>mais", disse a analista da AgraFNP Jacqueline Bierhals, por telefone.O preço médio <strong>do</strong> hectare no Sul subiu <strong>de</strong> 7.288 reais, no primeiro bimestre, para 7.737 reais,enquanto o valor da terra no Su<strong>de</strong>ste foi estima<strong>do</strong> pela consultoria em 7.450 reais por hectare, ante7.317 reais nos primeiros <strong>do</strong>is meses <strong>do</strong> ano."Subiu no Brasil <strong>de</strong> maneira geral, mas no Sul teve um incremento <strong>de</strong> preços muito forte, sãoterras que já são caras e estão encontran<strong>do</strong> espaço para seguir subin<strong>do</strong>", acrescentou.Segun<strong>do</strong> a consultora, para se ter uma idéia da procura <strong>de</strong> terras por grãos no Paraná, o maiorprodutor <strong>do</strong> Brasil, houve um negócio realiza<strong>do</strong> em Cascavel a 34 mil reais por hectare, parcela<strong>do</strong>em três vezes."A maior procura e o tamanho médio das proprieda<strong>de</strong>s, inferior por exemplo às <strong>do</strong> Cerra<strong>do</strong>,dá espaço para esses preços mais salga<strong>do</strong>s."O produtor Camilo Carlos Caus, da região <strong>de</strong> Cascavel (PR), que está tentan<strong>do</strong> ampliar a suaproprieda<strong>de</strong>, disse que os preços <strong>do</strong>s grãos favorecem a aquisição <strong>de</strong> terras, mas lembrou que asnegociações estão difíceis pelo valor eleva<strong>do</strong> e pela disputa com outros interessa<strong>do</strong>s."Tem até médico compran<strong>do</strong> terra por aqui", disse ele, referin<strong>do</strong>-se a profissionais que estãobuscan<strong>do</strong> áreas para entrar no setor <strong>de</strong> reflorestamento, plantan<strong>do</strong> eucaliptos.Segun<strong>do</strong> a AgraFNP, os preços no Su<strong>de</strong>ste também per<strong>de</strong>ram um pouco o brilho em funçãoda menor euforia com os valores pagos pela cana, que tiveram queda na comparação com a safrapassada, pela maior oferta <strong>de</strong> açúcar e álcool.Em São Paulo, o maior produtor <strong>de</strong> cana <strong>do</strong> Brasil, o preço médio da terra subiu para 11.824reais por hectare, ante 11.604 no primeiro bimestre. "Mas essa alta não é nada por conta da cana,são reflorestamentos, áreas <strong>de</strong> grãos, pastagens", disse Jacqueline, lembran<strong>do</strong> que se o produtor <strong>de</strong>cana estivesse com uma melhor remuneração os preços po<strong>de</strong>riam ter subi<strong>do</strong> mais.CENTRO-OESTENo Centro-Oeste, principal região produtora <strong>de</strong> grãos <strong>do</strong> Brasil, a valorização em relação aoprimeiro bimestre foi pequena, <strong>de</strong> 3,5 por cento, mas na comparação com o segun<strong>do</strong> bimestre <strong>de</strong>2007 a alta foi <strong>de</strong> 40 por cento, para 3.246 reais por hectare, também em função <strong>do</strong>s melhorespreços das commodities agrícolas.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>100Segun<strong>do</strong> a analista, essa alta no Centro-Oeste ocorre também em função da maior procura porterra da parte <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s grupos, muitos <strong>de</strong>les estrangeiros, interessa<strong>do</strong>s em cultivar em extensasáreas.Mas esses grupos teriam interesse em áreas <strong>de</strong> Cerra<strong>do</strong>, não naquelas consi<strong>de</strong>radas <strong>do</strong> biomaAmazônico, até para evitar eventuais problemas com órgãos ambientais, disse a analista."Quem tem áreas abertas não ven<strong>de</strong>, porque não existem outras áreas para serem abertas",disse o agricultor Nelson Picolli, presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> Sindicato Rural <strong>de</strong> Sorriso (MT), citan<strong>do</strong>dificulta<strong>de</strong>s ambientais para abertura <strong>de</strong> fronteiras agrícolas.Dessa forma, o valor da proprieda<strong>de</strong> da região ao norte <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>, com a alta da soja, subiu,uma vez que as terras são cotadas em sacas, disse Picolli.ReutersSem apoio, ministro <strong>de</strong>siste <strong>de</strong> recrutar Forças Armadas20/05/<strong>2008</strong>Nova proposta é ter PMs <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>n<strong>do</strong> reservas ambientaisA falta <strong>de</strong> receptivida<strong>de</strong> entre os militares levou o novo ministro <strong>do</strong> Meio Ambiente, CarlosMinc, a recuar ontem da idéia <strong>de</strong> convocar as Forças Armadas para ajudar na <strong>de</strong>fesa das unida<strong>de</strong>s<strong>de</strong> conservação ambiental. Para evitar mais um embate, ou até mesmo a perda <strong>de</strong> credibilida<strong>de</strong>, eleapresentou ontem nova proposta: recrutar policiais militares <strong>de</strong> diversos esta<strong>do</strong>s para criar a GuardaNacional Ambiental, nos mol<strong>de</strong>s da Força Nacional <strong>de</strong> Segurança. Segun<strong>do</strong> Minc, a sugestão foiaprovada pelo presi<strong>de</strong>nte Lula.Setores <strong>do</strong> Exército não receberam com muita serieda<strong>de</strong> o primeiro plano <strong>de</strong> ação <strong>de</strong> Minc.Além <strong>de</strong> avaliar que o novo ministro se precipitou, consi<strong>de</strong>raram Minc equivoca<strong>do</strong> e"reconhecidamente midiático". De concreto, afirmam que as Forças Armadas não têm "gordura"para dispensar em uma nova frente <strong>de</strong> atuação, ainda que venha a ser autoriza<strong>do</strong> por legislação.- O presi<strong>de</strong>nte aceitou que seja uma Guarda Nacional Ambiental, nos termos da ForçaNacional <strong>de</strong> Segurança. Isso teria efeito mais imediato, porque não teríamos a necessida<strong>de</strong> <strong>de</strong> mexerna Constituição - afirmou Minc.De acor<strong>do</strong> com o novo ministro, a participação <strong>do</strong>s militares po<strong>de</strong> ser discutida mais tar<strong>de</strong>.Ele prometeu apoiar uma proposta <strong>de</strong> emenda constitucional <strong>do</strong> <strong>de</strong>puta<strong>do</strong> Sarney Filho (PV-MA)para permitir a atuação das Forças Armadas na <strong>de</strong>fesa das áreas ver<strong>de</strong>s.No caso da Força Aérea, o esforço <strong>de</strong> colaboração na <strong>de</strong>tecção <strong>do</strong> <strong>de</strong>smatamento já érealida<strong>de</strong>: <strong>do</strong>is jatos Embraer-145, equipa<strong>do</strong>s com radar móvel com câmeras especiais, já sãoamplamente usa<strong>do</strong>s na Operação Arco <strong>de</strong> Fogo, da Polícia Fe<strong>de</strong>ral e <strong>do</strong> Ibama.Porém, o esforço terrestre vislumbra<strong>do</strong> por Minc é visto com ceticismo entre militares que jáatuam na região. Nos basti<strong>do</strong>res, o entendimento é <strong>de</strong> que Minc não tem uma compreensão dasdimensões e macroprojetos na Amazônia ao compará-los com sua iniciativa, como secretário <strong>do</strong>Ambiente <strong>do</strong> Rio, <strong>de</strong> utilizar bombeiros para vigiar os parques. A criação da Guarda NacionalAmbiental foi proposta após uma conversa por telefone com o ministro da Justiça, Tarso Genro,assim que Minc chegou a Brasília.O GloboQUAL LATIFÚNDIO?26/05/<strong>2008</strong>No emaranha<strong>do</strong> <strong>do</strong> <strong>de</strong>bate político atual sobre as questões fundiárias, fica muitas vezes difícildiscernir o que está verda<strong>de</strong>iramente em jogo, tal é o afã <strong>de</strong> alguns em ocultar a realida<strong>de</strong>. Apercepção, <strong>de</strong> tão afastada <strong>de</strong>sta, po<strong>de</strong> vir a fabular um mun<strong>do</strong> em que o país seria um imensolatifúndio. Cria-se, assim, um novo mun<strong>do</strong> particularmente propício para a fragilização da
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>101proprieda<strong>de</strong> privada, on<strong>de</strong> os títulos já não mais valem e a própria Constituição é rasgada. Assim, aproprieda<strong>de</strong> entra em um ciclo perverso <strong>de</strong> relativização, on<strong>de</strong> questões indígenas, sociais e outrasganham a cena principal. Elas são freqüentemente instrumentalizadas por ditos movimentos sociais,verda<strong>de</strong>iras organizações políticas, que têm como objetivo banir a economia <strong>de</strong> merca<strong>do</strong> e o esta<strong>do</strong><strong>de</strong> direito.Vejamos os números da distribuição agrária brasileira, referentes a 2007. As culturastemporárias, <strong>de</strong> ciclo anual, compostas, por exemplo, <strong>de</strong> feijão, milho, soja, trigo, arroz, algodão,constituem 55 milhões <strong>de</strong> hectares, perfazen<strong>do</strong> 6,4% <strong>do</strong> total. As culturas permanentes, <strong>de</strong> ciclomais longo, formadas por café, cítricos e frutíferos, constituem 17 milhões <strong>de</strong> hectares, 2% <strong>do</strong> total.As florestas plantadas constituem 5 milhões <strong>de</strong> hectares, 0,6%. As três juntas somam 77 milhões <strong>de</strong>hectares, ou seja, 9% <strong>do</strong> total.Os assentamentos rurais, por sua vez, perfazem sozinhos 77 milhões <strong>de</strong> hectares, ou seja, osmesmos 9% <strong>do</strong> total. A coincidência parece cabalística, mas é a pura realida<strong>de</strong>. Atentem para o fatocentral: os assentamentos equivalem a toda a área <strong>de</strong> culturas temporárias, permanentes e <strong>de</strong>florestas no Brasil. E, no entanto, estas são objeto <strong>de</strong> invasões constantes, como se o país <strong>de</strong>vesse setornar um gran<strong>de</strong> assentamento.A proprieda<strong>de</strong> privada rural, pequena, média e gran<strong>de</strong>, produz a cesta básica <strong>do</strong> brasileiro,sen<strong>do</strong> a fonte <strong>de</strong> fatia expressiva das exportações brasileiras, geran<strong>do</strong> o superávit <strong>de</strong> balançacomercial e, sobretu<strong>do</strong>, emprego, salário, renda e investimentos. Ela se constitui em um <strong>do</strong>s setoresmais dinâmicos da economia nacional e, contu<strong>do</strong>, é objeto <strong>de</strong> questionamentos constantes, viven<strong>do</strong><strong>de</strong> insegurança jurídica, como se fosse a responsável <strong>de</strong> to<strong>do</strong>s os males <strong>do</strong> campo brasileiro.Os assentamentos, por sua vez, são <strong>de</strong> produtivida<strong>de</strong> <strong>de</strong>sconhecida, estudiosos não po<strong>de</strong>m lá<strong>de</strong>ntro fazer uma pesquisa isenta, o controle político é total e se encontram numa situação <strong>de</strong><strong>de</strong>pendência <strong>do</strong> governo. Vivem <strong>de</strong> cestas básicas e não são emancipa<strong>do</strong>s, o que po<strong>de</strong>ria fazer comque se tornassem verda<strong>de</strong>iros proprietários, compran<strong>do</strong> e ven<strong>de</strong>n<strong>do</strong>, sem se subordinarem aorganizações políticas que os controlam. Recursos públicos significativos são ainda canaliza<strong>do</strong>spara esses ditos movimentos sociais. To<strong>do</strong>s vivem <strong>do</strong> dinheiro <strong>do</strong> contribuinte!Vejam a questão das florestas plantadas, fundamentalmente eucaliptos e pinus. Elasrespon<strong>de</strong>m a meros 0,6%, 5 milhões <strong>de</strong> hectares e são, todavia, apresentadas como as gran<strong>de</strong>s vilãs<strong>do</strong> ambiente, sen<strong>do</strong> <strong>de</strong>struídas, em invasões, com requintes <strong>de</strong> violência. Os produtos florestaisrespon<strong>de</strong>m por 15,1% das exportações <strong>do</strong> agro negócio, ocupan<strong>do</strong> a terceira posição <strong>de</strong>pois <strong>do</strong>complexo soja e das carnes (19,3%). A produtivida<strong>de</strong> e o ganho nacional são imensos em um setorque <strong>de</strong>ve se <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r <strong>de</strong> invasões, que ameaçam a sua existência.Tornou-se moda dizer que as áreas indígenas são insuficientes, como se o limite <strong>de</strong> suaampliação fosse to<strong>do</strong> o território nacional. Atualmente, elas ocupam 107 milhões <strong>de</strong> hectares, parauma pequena população. Dizer que os indígenas não possuem suficientes territórios é um evi<strong>de</strong>ntecontra-senso, a não ser que o projeto político em questão consista em não consi<strong>de</strong>rá-los brasileiros,forman<strong>do</strong> diferentes “nações”, que se contraporiam à nação brasileira. Faltaria somente a<strong>de</strong>marcação contínua!Para se ter uma idéia mais precisa <strong>do</strong> que esta área significa, todas as áreas <strong>de</strong> pastagem, <strong>de</strong>carne, principalmente bovina, correspon<strong>de</strong>m a 172 milhões <strong>de</strong> hectares, 20,2% <strong>do</strong> total. Terras <strong>do</strong>governo e <strong>de</strong> outros usos, por sua vez, constituem 171 milhões <strong>de</strong> hectares, isto é, 20,1% <strong>do</strong> total.Eis os números que correspon<strong>de</strong>m à realida<strong>de</strong> e se, mais bem conheci<strong>do</strong>s, fariam com que oscidadãos brasileiros se tornassem mais imunes aos cantos <strong>de</strong> sereia <strong>do</strong>s que querem supostamenteabolir o latifúndio. Aliás, qual?O Globo
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>102BRASIL: FORMA E REFORMA DO ESTADOMST obriga ministro a ouvir reivindicações17/04/<strong>2008</strong>Ocupações <strong>do</strong>s sem-terra atingem o Distrito Fe<strong>de</strong>ral e outros 14 Esta<strong>do</strong>sO Movimento <strong>do</strong>s Trabalha<strong>do</strong>res Rurais Sem Terra (MST) realizou, ontem, protestos eocupações no Distrito Fe<strong>de</strong>ral e em 14 Esta<strong>do</strong>s: Alagoas, Bahia, Espírito Santo, Goiás, MatoGrosso, Mato Grosso <strong>do</strong> Sul, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio <strong>de</strong> Janeiro, Rio Gran<strong>de</strong> <strong>do</strong> Sul, SantaCatarina, São Paulo e Sergipe.O movimento reivindica a liberação <strong>de</strong> linhas <strong>de</strong> crédito para construção <strong>de</strong> casas em áreas <strong>de</strong>assentamento. De acor<strong>do</strong> com o MST, a maior parte das mobilizações foram realizadas em agênciasda Caixa Econômica Fe<strong>de</strong>ral e <strong>do</strong> Banco <strong>do</strong> Brasil.Em Brasília, a se<strong>de</strong> da Caixa foi <strong>de</strong>socupada após ser <strong>de</strong>finida uma audiência <strong>do</strong>strabalha<strong>do</strong>res rurais com o ministro das Cida<strong>de</strong>s, Márcio Fortes, e a presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> Banco <strong>do</strong> Brasil,Maria Fernanda Ramos.Os manifestantes também fizeram protesto em agências da Caixa e Banco <strong>do</strong> Brasil emcida<strong>de</strong>s <strong>do</strong> Espírito Santo, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso <strong>do</strong> Sul, Rio <strong>de</strong>Janeiro e São Paulo.Em Sergipe, a Agência <strong>do</strong> Banco <strong>do</strong> Nor<strong>de</strong>ste no município <strong>de</strong> Carira também foi ocupadapelos trabalha<strong>do</strong>res rurais, além três fazendas em cida<strong>de</strong>s <strong>do</strong> interior.Em São Paulo, os manifestantes ocuparam uma unida<strong>de</strong> da Companhia Nacional <strong>de</strong>Abastecimento (Conab), no município <strong>de</strong> Bauru (a 350 km da capital) e a Secretaria <strong>de</strong> Justiça <strong>do</strong>Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> São Paulo.Jornal <strong>do</strong> BrasilSTF po<strong>de</strong> <strong>de</strong>clarar nula <strong>de</strong>marcação da reserva17/04/<strong>2008</strong>O ministro Ayres Britto, <strong>do</strong> Supremo Tribunal Fe<strong>de</strong>ral (STF), admitiu, ontem, que o <strong>de</strong>cretopresi<strong>de</strong>ncial <strong>de</strong> maio <strong>de</strong> 2005, que homologou a <strong>de</strong>marcação contínua da reserva indígenaRaposa/Serra <strong>do</strong> Sol, po<strong>de</strong> – em tese - vir a ser anula<strong>do</strong>. Isso po<strong>de</strong> acontecer quan<strong>do</strong> o tribunaljulgar uma das principais ações <strong>do</strong> lote <strong>de</strong> 33 processos referentes à questão, "que não é apenas <strong>de</strong>or<strong>de</strong>m fundiária, mas também <strong>de</strong> interesse fe<strong>de</strong>rativo, por envolver litígio entre a União e o Esta<strong>do</strong><strong>de</strong> Roraima".Ayres Britto é relator, por prevenção, <strong>de</strong> to<strong>do</strong>s esses processos – na sua maioria relativos acasos individuais (ações possessórias). Ele vai selecionar uma das ações mais relevantes, comparecer em vias <strong>de</strong> conclusão pelo procura<strong>do</strong>r-geral da República, Antônio Fernan<strong>do</strong> <strong>de</strong> Souza.De acor<strong>do</strong> com levantamento <strong>do</strong> STF, há duas ações populares em andamento que contestama totalida<strong>de</strong> da região <strong>de</strong>marcada, <strong>de</strong> 1,7 milhão <strong>de</strong> hectares, <strong>de</strong>stinada a abrigar cerca <strong>de</strong> 15 milíndios. Os produtores <strong>de</strong> arroz – que dizem ser responsáveis por 6% da economia <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> econsi<strong>de</strong>ram inconstitucional o <strong>de</strong>creto <strong>de</strong> 2005 - têm como alia<strong>do</strong>s 5 mil indígenas, que integram aSocieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> Defesa <strong>do</strong>s Índios Uni<strong>do</strong>s <strong>de</strong> Roraima (Sodiurr). A entida<strong>de</strong> é autora <strong>de</strong> uma açãocivil pública na qual reivindica a <strong>de</strong>marcação judicial da reserva, na qual estão situa<strong>do</strong>s gran<strong>de</strong>sarrozais, vilas e outros núcleos habitacionais. Esta ação já tem parecer (contrário) <strong>do</strong> MinistérioPúblico Fe<strong>de</strong>ral.Na última quinta-feira, o STF suspen<strong>de</strong>u, por unanimida<strong>de</strong>, a operação da Polícia Fe<strong>de</strong>ral <strong>de</strong>retirada da população não-indígena que ainda ocupa apenas 1% da reserva Raposa/Serra <strong>do</strong> Sol, até
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>103o julgamento <strong>do</strong> mérito <strong>de</strong> uma das várias ações em tramitação no tribunal. A Advocacia-Geral daUnião recorreu, no dia seguinte, sem sucesso.Na ocasião, Ayres Britto ressaltou que – apesar <strong>de</strong> existir o perigo <strong>de</strong> uma "conflagração" –não se po<strong>de</strong> <strong>de</strong>ixar <strong>de</strong> levar em conta que a área ainda ocupada por arrozeiros e não-índioscorrespon<strong>de</strong> a apenas 1% <strong>de</strong> 1,7 milhão <strong>de</strong> hectares <strong>de</strong> terras <strong>de</strong>marcadas. E salientou tambémhaver, no caso, "um conflito <strong>de</strong> dimensão fe<strong>de</strong>rativa", ten<strong>do</strong> em vista que o atual Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong>Rondônia "quase voltou à condição <strong>de</strong> Território fe<strong>de</strong>ral, já que 46% <strong>de</strong> suas terras são reservasindígenas e, portanto, da União".No enten<strong>de</strong>r <strong>do</strong> chefe da AGU, ministro José Antonio Toffoli, o STF não avançou ainda comrelação ao mérito da discussão em torno da constitucionalida<strong>de</strong> <strong>do</strong> <strong>de</strong>creto <strong>de</strong> <strong>de</strong>marcação dareserva, ten<strong>do</strong> em vista o fato <strong>de</strong> que as áreas indígenas representam hoje 46% da área total <strong>de</strong>Roraima.– Este é um tema jurídico e político que as comunida<strong>de</strong>s indígenas e o governo terão <strong>de</strong>enfrentar. Defen<strong>de</strong>mos a homologação contínua e precisamos convencer o STF <strong>de</strong> que a Fe<strong>de</strong>raçãonão <strong>de</strong>ixará <strong>de</strong> existir, já que os índios são parte <strong>do</strong> povo <strong>de</strong> Roraima – afirmou.Jornal <strong>do</strong> BrasilJucá quer exclusão <strong>de</strong> áreas <strong>de</strong> reserva23/04/<strong>2008</strong>Lí<strong>de</strong>r <strong>do</strong> governo negocia solução para a Raposa Serra <strong>do</strong> Sol com o STFO lí<strong>de</strong>r <strong>do</strong> governo no Sena<strong>do</strong>, Romero Jucá (PMDB-RR), propôs ontem a exclusão da áreada reserva Raposa Serra <strong>do</strong> Sol <strong>de</strong> pelo menos quatro áreas consi<strong>de</strong>radas essenciais para o<strong>de</strong>senvolvimento econômico da região: o vale <strong>do</strong>s planta<strong>do</strong>res <strong>de</strong> arroz, o local das obras dahidrelétrica <strong>do</strong> Rio Cotingo, a Vila <strong>do</strong> Surumu e a estrutura turística <strong>do</strong> lago Caracaranã.Embora seja o lí<strong>de</strong>r <strong>do</strong> governo, o sena<strong>do</strong>r disse que ainda não discutiu o assunto com oMinistério da Justiça, que <strong>de</strong>fen<strong>de</strong> a <strong>de</strong>marcação em área contínua. Ele está negocian<strong>do</strong> a alternativapara a <strong>de</strong>marcação da reserva com ministros <strong>do</strong> Supremo Tribunal Fe<strong>de</strong>ral e com o governa<strong>do</strong>r <strong>de</strong>Roraima, José <strong>de</strong> Anchieta:- Eu <strong>de</strong>fen<strong>do</strong> há <strong>de</strong>z anos uma solução <strong>de</strong> entendimento. Minha idéia é a<strong>do</strong>tar um mo<strong>de</strong>lointermediário, que excluiria da área <strong>de</strong>marcada quatro localida<strong>de</strong>s estratégicas. O governa<strong>do</strong>rconcorda com essa solução. Já conversei com o ministro Carlos Ayres Brito, e quero discutir oassunto com o novo presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> Supremo, Gilmar Men<strong>de</strong>s.O lí<strong>de</strong>r <strong>do</strong> governo admitiu que <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>u essa proposta na época em que o presi<strong>de</strong>nte Lulahomologou a <strong>de</strong>marcação da reserva, mas sua idéia foi <strong>de</strong>scartada pelo então ministro da Justiça,Márcio Thomaz Bastos. Como o assunto saiu das mãos <strong>do</strong> governo para o STF, Jucá está confianteque conseguirá convencer os ministros a a<strong>do</strong>tar esse mo<strong>de</strong>lo intermediário, que teria o apoio <strong>do</strong>ministro da Defesa, Nelson Jobim.- Com o apoio <strong>do</strong> governa<strong>do</strong>r <strong>de</strong> Roraima, temos chances <strong>de</strong> construir uma saída para esseimpasse - aposta Jucá.Amanhã, a oposição <strong>de</strong>verá tentar aprovar na Comissão <strong>de</strong> Relações Exteriores e DefesaNacional (CRE) <strong>do</strong> Sena<strong>do</strong> um requerimento convocan<strong>do</strong> o comandante militar da Amazônia,general Augusto Heleno, para uma sessão reservada.Um grupo <strong>de</strong> indígenas brasileiros a favor da <strong>de</strong>marcação contínua <strong>de</strong> Raposa Serra <strong>do</strong> Solrelatará a atual situação da reserva na 6ª Sessão <strong>do</strong> Fórum Permanente da ONU para assuntosindígenas, que está ocorren<strong>do</strong> nesses dias, em Nova York. Representantes <strong>do</strong> Conselho Indígena <strong>de</strong>Roraima (CIR) integram a <strong>de</strong>legação.O Globo
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>104Fumaça <strong>de</strong> casuísmo23/04/<strong>2008</strong>O novo presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> STF critica a idéia <strong>do</strong> terceiro mandato e diz que fazer <strong>do</strong>ssiê éprática autoritária e anti<strong>de</strong>mocrática"Dossiês, vazamentos e violação <strong>de</strong> regras básicas embutem um certo cinismo. Isso nãocontribui para a construção <strong>de</strong> uma civilização"O ministro Gilmar Men<strong>de</strong>s assume nesta semana a presidência <strong>do</strong> Supremo Tribunal Fe<strong>de</strong>ral(STF). Seu mandato <strong>de</strong> <strong>do</strong>is anos coincidirá com alguns <strong>do</strong>s mais <strong>de</strong>cisivos momentos <strong>do</strong>s 179 anos<strong>de</strong> existência da mais alta corte <strong>de</strong> Justiça <strong>do</strong> país. O STF está prestes a reiniciar o julgamento que<strong>de</strong>ve legalizar as pesquisas científicas com células-tronco <strong>de</strong> embriões humanos. A prevalecer o<strong>de</strong>sejo <strong>de</strong> alguns políticos, o tribunal também <strong>de</strong>verá ser insta<strong>do</strong> a se pronunciar sobre a proposta <strong>de</strong>emenda à Constituição que permitiria ao presi<strong>de</strong>nte Lula disputar um terceiro mandato. Aos 52anos, ex-advoga<strong>do</strong>-geral da União e ex-procura<strong>do</strong>r da República, Men<strong>de</strong>s fala com a prudência quea posição exige, mas dá pistas – algumas bem claras – sobre o que pensa <strong>de</strong>sses assuntos. "Não vejocom nenhuma simpatia o tema", diz, referin<strong>do</strong>-se à emenda <strong>do</strong> terceiro mandato. Na entrevista aseguir, ele critica o ministro da Justiça, Tarso Genro, que <strong>de</strong>fen<strong>de</strong> a utilização <strong>de</strong> <strong>do</strong>ssiês porgovernos com finalida<strong>de</strong>s políticas, fala da leniência <strong>de</strong> juízes e lembra que o foro privilegia<strong>do</strong> po<strong>de</strong>ser confundi<strong>do</strong> com impunida<strong>de</strong>.Veja – Há um <strong>de</strong>bate sobre a idéia <strong>de</strong> mudar a Constituição para permitir que o presi<strong>de</strong>nteLula dispute um terceiro mandato. Uma proposta como essa tem amparo legal?Men<strong>de</strong>s – A Constituição tem si<strong>do</strong> alterada várias vezes por razões diversas. Tempo <strong>de</strong>aposenta<strong>do</strong>ria, condições <strong>de</strong> contribuição <strong>de</strong> aposenta<strong>do</strong>ria, estabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> servi<strong>do</strong>r público – tu<strong>do</strong>isso vem <strong>de</strong>mandan<strong>do</strong> reformas. Mas tenho sérias dúvidas sobre reforma <strong>de</strong> mandatos eletivos. Nãovejo nenhuma razão para isso. Caso seja introduzida essa idéia, teremos um intenso <strong>de</strong>bate no STF.Precisaremos discutir se a emenda que permitiria um terceiro mandato consecutivo é compatívelcom a Constituição e com o esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> direito <strong>de</strong>mocrático. Será necessário analisar se isso nãoestará crian<strong>do</strong> um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> continuísmo.Veja – O que o senhor acha?Men<strong>de</strong>s – Não vou falar sobre isso. Esse assunto certamente chegará ao STF.Veja – Mas, se o Congresso Nacional é soberano, uma reforma constitucional que permita oterceiro mandato seria teoricamente legal.Men<strong>de</strong>s – No esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> direito não há soberanos. To<strong>do</strong>s estão submeti<strong>do</strong>s às regrasconstitucionais. Todas as mudanças <strong>de</strong>vem aten<strong>de</strong>r aos preceitos das cláusulas pétreas daConstituição Fe<strong>de</strong>ral.Veja – Sua resposta indica que o senhor é contra a mudança na lei que permitiria aopresi<strong>de</strong>nte Lula disputar um terceiro mandato.Men<strong>de</strong>s – Não vejo com nenhuma simpatia o tema. Tem um fumus (fumaça) <strong>de</strong> casuísmo,não é? Tem forte senti<strong>do</strong> casuísta.Veja – O ministro da Justiça, Tarso Genro, disse que fazer <strong>do</strong>ssiês com fins políticos não écrime. Como o senhor analisa essa <strong>de</strong>claração?Men<strong>de</strong>s – Fazer coleta <strong>de</strong> informações às quais eu tenho acesso simplesmente porque estou nogoverno, para uma finalida<strong>de</strong> política eventualmente <strong>de</strong> constrangimento ou <strong>de</strong> chantagem, po<strong>de</strong>não ser crime. Mas certamente não é uma atitu<strong>de</strong> eticamente louvável. É uma atitu<strong>de</strong> preocupante,que revela uma concepção autoritária e certo patrimonialismo. Embute-se nela o entendimento <strong>de</strong>que as informações que estão ao meu alcance pelo fato <strong>de</strong> eu estar no governo, o que écircunstancial, po<strong>de</strong>m ser usadas para as finalida<strong>de</strong>s que eu enten<strong>de</strong>r <strong>de</strong>vidas. Isso é preocupante. Sealguém pensa assim, talvez tenha <strong>de</strong> repensar seu conceito <strong>de</strong> <strong>de</strong>mocracia. Talvez essa pessoa esteja
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong><strong>105</strong>len<strong>do</strong> muito Lenin e Trotsky – e <strong>de</strong>veria ler mais Popper (Karl Popper, filósofo inglês nasci<strong>do</strong> naÁustria, o maior <strong>de</strong>fensor teórico da <strong>de</strong>mocracia liberal) .Veja – Existe um vezo autoritário aí?Men<strong>de</strong>s – Esse tipo <strong>de</strong> prática não é elogiável. Usar informações contra alguém, com esseintuito? O servi<strong>do</strong>r público que <strong>de</strong>scobre algo in<strong>de</strong>vi<strong>do</strong> <strong>de</strong>ve <strong>de</strong>nunciar. Se for crime, <strong>de</strong>ve-secomunicar o Ministério Público. Mas coletar da<strong>do</strong>s revela práticas <strong>de</strong> um catecismo que não é o da<strong>de</strong>mocracia constitucional. Certamente revela um pensamento autoritário. Dossiês, vazamentos <strong>de</strong>informações sigilosas e violação <strong>de</strong> regras básicas também embutem certo cinismo. Isso nãocontribui para a construção <strong>de</strong> uma civilização.Veja– O Supremo tem se manifesta<strong>do</strong> com freqüência sobre a legalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisões tomadaspelo Congresso. É o STF que está se intrometen<strong>do</strong> na vida legislativa ou são as <strong>de</strong>cisões legislativasque estão contrarian<strong>do</strong> as normas constitucionais?Men<strong>de</strong>s – Essa é uma questão antiga da experiência <strong>do</strong> constitucionalismo. Toda vez que seinstala um mo<strong>de</strong>lo forte <strong>de</strong> controle judicial, temos essa discussão. Ou se imputa uma excessivacompreensão para a obra <strong>do</strong> legisla<strong>do</strong>r ou se imputa uma ativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> exagero. O mo<strong>de</strong>lo brasileiro<strong>de</strong> 1988 pressupõe um controle constitucional pleno. Um cidadão ou qualquer entida<strong>de</strong>representativa po<strong>de</strong> alegar a inconstitucionalida<strong>de</strong> <strong>de</strong> uma matéria que afete um direito seu. Asoportunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> se fazerem contestações são amplas, portanto. O STF vem cumprin<strong>do</strong><strong>de</strong>vidamente o seu papel ao fazer algumas censuras.Veja – O julgamento sobre a utilização <strong>de</strong> células embrionárias humanas em pesquisascientíficas é consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong> o mais emblemático da história <strong>do</strong> STF. Qual é sua posição a respeito <strong>do</strong>tema?Men<strong>de</strong>s – O caso mais importante é sempre aquele que está para ser <strong>de</strong>cidi<strong>do</strong>. Espero retomaro julgamento sobre as pesquisas com células-tronco no próximo mês. É claro que é uma questãomais complexa porque envolve, além da questão jurídica, discussões sobre ética e moral. Enten<strong>do</strong>que existe uma gran<strong>de</strong> expectativa em relação a pessoas <strong>do</strong>entes que po<strong>de</strong>m vir a ser curadas com aliberação das pesquisas. Mas é preciso acompanhar esse assunto com ânimo reflexivo. As coisasnão se resolvem <strong>de</strong> forma apodítica (termo filosófico cujo significa<strong>do</strong> se refere a uma verda<strong>de</strong> queprescin<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>monstração).Veja – O senhor não acha que essa discussão também está contaminada <strong>de</strong>mais por razõesreligiosas?Men<strong>de</strong>s – Isso é um da<strong>do</strong> inevitável. As nossas compreensões <strong>de</strong> or<strong>de</strong>m religiosa, filosófica ecultural nos acompanham. São as nossas circunstâncias. Esse componente religioso, porém, nãopo<strong>de</strong> ser <strong>de</strong>cisivo. Deve apenas ser uma advertência para que as <strong>de</strong>cisões sejam tomadas comméto<strong>do</strong> e cautela. Não é possível exigir que um juiz, ao vestir a toga, consiga se <strong>de</strong>spir <strong>de</strong> suassimpatias e concepções. O relevante é ele sempre tentar superar os preconceitos. O i<strong>de</strong>al seráchegarmos a um resulta<strong>do</strong> mais científico e menos <strong>do</strong>gmático.Veja – Existe no país uma sensação mais ou menos generalizada <strong>de</strong> que a polícia pren<strong>de</strong> e aJustiça manda soltar. Qual é a razão <strong>de</strong> fun<strong>do</strong> <strong>de</strong>ssa percepção?Men<strong>de</strong>s – Lidar com réu preso é dramático. Fui relator <strong>de</strong> um caso em que o réu estava presohavia seis anos esperan<strong>do</strong> julgamento. Man<strong>de</strong>i soltá-lo. Isso nunca é bem-visto pela opinião pública.Mas suponho que esse enuncia<strong>do</strong> tenha si<strong>do</strong> construí<strong>do</strong> por meio <strong>de</strong> uma obra <strong>de</strong> marketing com ointuito <strong>de</strong> fazer uma propaganda institucional da polícia. Qualquer pessoa alfabetizadajuridicamente sabe que, a não ser em flagrante, a polícia só pren<strong>de</strong> por meio <strong>de</strong> uma or<strong>de</strong>m judicial.Quem manda pren<strong>de</strong>r é a Justiça, e quem manda soltar também é a Justiça. Ocorre que algunsmagistra<strong>do</strong>s ficam impressiona<strong>do</strong>s com os argumentos da polícia e não observam os fundamentoslegais da prisão preventiva, o que provoca uma revisão da <strong>de</strong>cisão em instância superior. É naturalque essas divergências causem alguma insegurança jurídica. Mas o papel <strong>do</strong> STF é sempre o <strong>de</strong>consolidar o esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> direito <strong>de</strong>mocrático.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>106Veja – O senhor concorda com a forma pela qual o STF é constituí<strong>do</strong>? Hoje, <strong>do</strong>s onzeministros, sete foram indica<strong>do</strong>s pelo presi<strong>de</strong>nte Lula. Isso não po<strong>de</strong> influenciar as <strong>de</strong>cisões da corte?Men<strong>de</strong>s – To<strong>do</strong> dia o STF <strong>de</strong>ci<strong>de</strong> contrariamente aos interesses <strong>do</strong> governo. Não acredito quealgum ministro vá levar em conta a origem <strong>de</strong> sua indicação nessas reflexões. A <strong>de</strong>cisão que aceitoua <strong>de</strong>núncia <strong>do</strong> mensalão <strong>de</strong>ixou isso muito claro. Houve inclusive divergências entre os própriosministros indica<strong>do</strong>s pelo presi<strong>de</strong>nte Lula. Os entendimentos <strong>do</strong> STF às vezes são fixa<strong>do</strong>s em termosquase seculares, alguns há mais <strong>de</strong> 150 anos. Simplificar essa relação leva a erros grosseiros. Onosso mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> escolha, semelhante ao <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, tem relativa credibilida<strong>de</strong>. Po<strong>de</strong>msurgir dúvidas quanto ao acerto ou <strong>de</strong>sacerto <strong>de</strong> uma ou outra indicação, mas teríamos esseproblema em outros sistemas. Na Europa, on<strong>de</strong> os ministros são indica<strong>do</strong>s pelo Parlamento,Portugal recentemente viveu o drama <strong>de</strong> trocar os mandatos <strong>de</strong> seis juízes ao mesmo tempo.Ninguém duvida que as forças políticas <strong>do</strong>minantes no atual momento é que vão <strong>de</strong>terminar arecomposição <strong>do</strong> tribunal.Veja – O foro privilegia<strong>do</strong>, que conce<strong>de</strong> às autorida<strong>de</strong>s, como <strong>de</strong>puta<strong>do</strong>s, sena<strong>do</strong>res eministros, o direito <strong>de</strong> só serem processadas no STF, costuma ser visto como agente <strong>de</strong> impunida<strong>de</strong>.Isso proce<strong>de</strong>?Men<strong>de</strong>s – Até o início da década, <strong>de</strong>puta<strong>do</strong>s e sena<strong>do</strong>res só podiam ser processa<strong>do</strong>s pelo STFmediante autorização <strong>do</strong> Congresso, que nem sequer se reunia para analisar esses casos. A retomadadas ações, portanto, é relativamente recente. Talvez isso explique em parte a sensação <strong>de</strong>impunida<strong>de</strong> que existe hoje em relação aos políticos. Também temos <strong>de</strong> encontrar meios para evitarque a relativa habilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> um advoga<strong>do</strong> leve à prescrição <strong>de</strong> um crime. Mas isso não temnenhuma relação com a prerrogativa <strong>de</strong> foro <strong>de</strong> algumas autorida<strong>de</strong>s. A impunida<strong>de</strong> gerada pelaprescrição po<strong>de</strong> ser combatida por meio da reforma <strong>do</strong> Código <strong>de</strong> Processo Penal. O Ministério daJustiça está se <strong>de</strong>bruçan<strong>do</strong> sobre isso neste momento.Veja – Medidas recentes, como a súmula vinculante, foram recebidas como um mecanismoeficaz para <strong>de</strong>safogar o Judiciário e torná-lo mais ágil. Quanto tempo ainda será preciso para queesses efeitos sejam senti<strong>do</strong>s pela socieda<strong>de</strong>?Men<strong>de</strong>s – A criação das súmulas vinculantes, <strong>de</strong>finin<strong>do</strong> que uma <strong>de</strong>cisão <strong>do</strong> STF a<strong>do</strong>tada porpelo menos oito <strong>de</strong> seus onze ministros adquira força <strong>de</strong> lei, <strong>de</strong>ve reduzir o número <strong>de</strong> processos e otempo <strong>de</strong> tramitação das ações. O STF já aprovou três súmulas e <strong>de</strong>ve aprovar outras ainda nestesemestre. Em pouco tempo, essas <strong>de</strong>cisões terão repercussão no resto <strong>do</strong> país, principalmentenaquelas ações que dizem respeito a interesses coletivos.Veja – A CPI <strong>do</strong>s Grampos <strong>de</strong>scobriu que existem atualmente quase 500 000 escutastelefônicas autorizadas pela Justiça no país. Não está haven<strong>do</strong> uma banalização <strong>de</strong>ssa ferramenta <strong>de</strong>investigação?Men<strong>de</strong>s – Os juízes <strong>de</strong>vem ter mais cuida<strong>do</strong> em relação a isso. A lei prevê que o prazo parauma interceptação telefônica é <strong>de</strong> quinze dias. Mas o entendimento <strong>do</strong>s juízes é que esses quinzedias po<strong>de</strong>m ser renova<strong>do</strong>s <strong>de</strong> maneira ilimitada. O resulta<strong>do</strong> é que hoje existem escutas instaladashá <strong>do</strong>is ou três anos em um mesmo telefone. Esses procedimentos precisam ser revistos. Outraquestão <strong>de</strong>licada é a divulgação <strong>de</strong>sse conteú<strong>do</strong> por agentes policiais antes mesmo <strong>de</strong> o juiz serinforma<strong>do</strong> sobre ele. Não temos hoje mecanismos para coibir isso. É notória a participação <strong>do</strong>sagentes policiais na divulgação, às vezes até em consórcio com órgãos <strong>de</strong> imprensa. Acostumamonosa isso <strong>de</strong> maneira equivocada. O Judiciário, que autoriza as escutas, tem responsabilida<strong>de</strong> porisso.Veja– Parece que as investigações policiais hoje em dia se limitam a grampear suspeitos.Men<strong>de</strong>s – Há um fenômeno curioso na cultura policial sobre esse tema. É a canonização <strong>do</strong>juízo emiti<strong>do</strong> pelo investiga<strong>do</strong>, que muitas vezes é um notório criminoso. Duvida-se muito daconduta ética <strong>de</strong>ssas pessoas, mas ao mesmo tempo se atribui uma verossimilhança, uma verda<strong>de</strong>,àquilo que elas dizem. Vejo relatórios afirman<strong>do</strong> que isso ou aquilo ocorreu a partir <strong>de</strong> exegese quese faz com base em escutas telefônicas. Muitas pessoas já se viram em dificulda<strong>de</strong> apenas porque
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>107tiveram o nome menciona<strong>do</strong> numa interceptação telefônica. Pessoas que não são dignas <strong>de</strong>nenhuma credibilida<strong>de</strong>, no contexto social inclusive, ganham uma estranha credibilida<strong>de</strong> quan<strong>do</strong>suas afirmações são fruto <strong>de</strong> interceptação telefônica. É um fenômeno tipicamente brasileiro. Émais uma matéria para o estu<strong>do</strong> da nossa sociologia criminal.Veja – O senhor é contra ou a favor <strong>do</strong> aborto?Men<strong>de</strong>s – Não vou respon<strong>de</strong>r.Veja – O senhor é favorável à <strong>de</strong>scriminalização <strong>do</strong> uso <strong>de</strong> drogas?Men<strong>de</strong>s – Há argumentos razoáveis contra e a favor. Eu não emitiria um juízo <strong>de</strong>finitivo sobreisso. Mas também não acho que se <strong>de</strong>va dizer que to<strong>do</strong> uso <strong>de</strong> drogas tem <strong>de</strong> ser criminaliza<strong>do</strong>. Éuma questão muito complexa. Ela <strong>de</strong>ve ser avaliada pelo Po<strong>de</strong>r Legislativo.Veja – O senhor estu<strong>do</strong>u direito na UnB, universida<strong>de</strong> na qual os estudantes ocuparam areitoria e acabaram conseguin<strong>do</strong> a substituição <strong>do</strong> reitor. Se isso houvesse ocorri<strong>do</strong> em seu tempo<strong>de</strong> estudante, o aluno Gilmar Men<strong>de</strong>s teria ocupa<strong>do</strong> a reitoria?Men<strong>de</strong>s – Eu era aluno da UnB em 1977, quan<strong>do</strong> a universida<strong>de</strong> foi ocupada pelos militares, eparticipei <strong>do</strong>s protestos contra a invasão. Acho que essas manifestações são absolutamentelegítimas. Há reivindicações hiperbólicas que fazem parte da luta política. Mas é recomendável quesigamos os cânones <strong>do</strong> esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> direito. A invasão como forma <strong>de</strong> protesto é legítima.Impossibilitar o funcionamento da reitoria, porém, <strong>de</strong>ve ser trata<strong>do</strong> <strong>de</strong>ntro da legislação vigente.Revista VejaO GENERAL HELENO: crítica à política indigenista abriu crisecom governo29/04/<strong>2008</strong>O governo Lula anunciou o reajuste <strong>do</strong>s militares em 24 <strong>de</strong> abril, dias <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> uma fortepolêmica entre o Planalto e as Forças Armadas, por causa da <strong>de</strong>marcação da Reserva Raposa Serra<strong>do</strong> Sol, em Roraima. Há cerca <strong>de</strong> 15 dias, o comandante militar da Amazônia, general AugustoHeleno, em discurso no Clube Militar, no Rio, classificou a política indigenista <strong>do</strong> país como"lamentável, para não dizer caótica". Para os militares, a reserva, que fica em áreas <strong>de</strong> fronteira eocupará 50% <strong>do</strong> território <strong>do</strong> esta<strong>do</strong>, será uma ameaça à soberania nacional.Irrita<strong>do</strong> com as <strong>de</strong>clarações <strong>do</strong> general, o presi<strong>de</strong>nte Lula, que <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>ra publicamente a<strong>de</strong>marcação, convocou o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e o comandante <strong>do</strong> Exército, generalEnzo Martins Peri, exigin<strong>do</strong> que Heleno se retratasse pelas críticas à política indigenista. O general,que recebeu apoio <strong>de</strong> parte da cúpula militar, disse ainda que "o Alto Coman<strong>do</strong> <strong>do</strong> Exército é umórgão que serve ao Esta<strong>do</strong> brasileiro e não ao governo".O reajuste vem sen<strong>do</strong> cobra<strong>do</strong> ao longo <strong>do</strong> governo Lula, até pelas mulheres <strong>do</strong>s militares.Em abril <strong>de</strong> 2004, por exemplo, cerca <strong>de</strong> 700 <strong>de</strong>las organizaram um protesto que tumultuou acerimônia <strong>de</strong> troca da ban<strong>de</strong>ira, na Praça <strong>do</strong>s Três Po<strong>de</strong>res. Com apitos, panelas e faixas, elasocuparam uma das arquibancadas instaladas para a cerimônia e, com muito barulho e palavras <strong>de</strong>or<strong>de</strong>m, pediram um aumento emergencial <strong>de</strong> 100% para os integrantes das três Forças.Naquele mesmo mês, cerca <strong>de</strong> 80 mulheres e parentes <strong>de</strong> militares fizeram novo protestocontra a falta <strong>de</strong> reajuste para a categoria e, num gesto <strong>de</strong> ousadia, tentaram invadir e subir a rampa<strong>do</strong> Palácio <strong>do</strong> Planalto - enquanto o presi<strong>de</strong>nte Lula participava <strong>de</strong> cerimônia num <strong>do</strong>s salões <strong>do</strong>palácio. As manifestantes levaram faixas e foram contidas por seguranças da Presidência daRepública e por policiais <strong>do</strong> Distrito Fe<strong>de</strong>ral.O Globo
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>108POLÍTICA AMBIENTAL20/05/<strong>2008</strong>Minc propõe imposto ver<strong>de</strong>Novo ministro afirma que Lula aceitou suas condições e apoiou punição a <strong>de</strong>smata<strong>do</strong>resO novo ministro <strong>do</strong> Meio Ambiente, Carlos Minc, disse ontem, após encontro no Palácio <strong>do</strong>Planalto, que o presi<strong>de</strong>nte Luiz Inácio Lula da Silva aceitou suas precondições para assumir ocargo, entre elas a <strong>de</strong> que não vai se <strong>do</strong>brar às pressões para rever as regras rígidas contra o<strong>de</strong>smatamento na Amazônia, que levaram sua antecessora, Marina Silva, a pedir <strong>de</strong>missão. Lulaficou ao la<strong>do</strong> <strong>de</strong> Minc na queda-<strong>de</strong>-braço pela não-concessão <strong>de</strong> créditos agrícolas a <strong>de</strong>smata<strong>do</strong>res.A suspensão <strong>de</strong>ssa medida é uma das principais reivindicações <strong>do</strong>s governa<strong>do</strong>res Blairo Maggi(Mato Grosso) e Ivo Cassol (Rondônia). Segun<strong>do</strong> Minc, Lula prometeu manter os principais pontosda política ambiental <strong>de</strong> Marina. De acor<strong>do</strong> com o ambientalista, que será empossa<strong>do</strong> na próximaterça-feira, Lula afirmou também que aumentará os recursos <strong>de</strong>stina<strong>do</strong>s à pasta.- Perguntei o que ele esperava <strong>de</strong> mim. Depois, disse todas as condições <strong>de</strong> trabalho mínimaspara eu aten<strong>de</strong>r às expectativas <strong>de</strong>le e da socieda<strong>de</strong>. Não fui convida<strong>do</strong> para ser um anti-Marina ouum biombo ver<strong>de</strong> para escon<strong>de</strong>r a <strong>de</strong>struição da floresta - afirmou Minc.O novo ministro disse ter ouvi<strong>do</strong> <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte a promessa <strong>de</strong> que o Conselho MonetárioNacional não reverá a norma que impediu os bancos oficiais <strong>de</strong> emprestarem dinheiro aproprietários que <strong>de</strong>smatam a Amazônia. Lula também teria acena<strong>do</strong> com a liberação progressiva <strong>de</strong>parte <strong>do</strong>s cerca <strong>de</strong> R$850 milhões que seriam <strong>de</strong>stina<strong>do</strong>s ao ministério e estão contingencia<strong>do</strong>s paragarantir o superávit primário.- Isso é bom para as contas <strong>do</strong> governo e ruim para o meio-ambiente - disse.Em seu primeiro encontro com Lula após o convite para integrar o governo - que também tevea participação da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff - Minc apresentou uma lista <strong>de</strong> <strong>de</strong>z idéiaspara melhorar os mecanismos <strong>de</strong> proteção ambiental <strong>do</strong> país. Entre elas, a criação <strong>de</strong> um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong>incentivos fiscais para os esta<strong>do</strong>s que respeitarem o meio ambiente, batiza<strong>do</strong> por ele <strong>de</strong> Imposto <strong>de</strong>Renda Ver<strong>de</strong>. O sistema seria inspira<strong>do</strong> no ICMS Ver<strong>de</strong>, que Minc implantou no Rio comosecretário estadual <strong>do</strong> Ambiente.- O presi<strong>de</strong>nte Lula e a ministra Dilma gostaram muito da idéia - afirmou.Minc anunciou que Isabela Teixeira, sua subsecretária no Rio, será a secretária-executiva <strong>do</strong>ministério. A posse estava marcada para amanhã, mas ele pediu para assumir dia 27, com o objetivo<strong>de</strong> garantir a presença <strong>do</strong> governa<strong>do</strong>r Sérgio Cabral, que está em viagem ao exterior."Seja criativo, não se furte, não se acanhe"Minc também disse que o presi<strong>de</strong>nte o incentivou a manter o estilo polêmico, que provocouem Brasília reações atravessadas às suas primeiras entrevistas após o convite para o ministério.Afirmou que Lula não manifestou qualquer insatisfação com a lista <strong>de</strong> exigências que ele vem<strong>de</strong>sfian<strong>do</strong> <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que foi menciona<strong>do</strong> como o sucessor <strong>de</strong> Marina Silva:- O presi<strong>de</strong>nte me falou o seguinte: "A única coisa que você não po<strong>de</strong> fazer é não ter idéias.Seja criativo. Não se furte, não se acanhe".Antes <strong>de</strong> chegar ao Planalto, Minc avisou que só aceitaria o cargo com a promessa <strong>de</strong> ser umministro forte e com recursos para implementar os principais programas da pasta.- A pior coisa que po<strong>de</strong>ria acontecer para o presi<strong>de</strong>nte Lula e para o país <strong>de</strong>pois da saída daMarina seria ter um ministro fraco. Um ministro que não se impusesse, que não tivesse recursospara trabalhar, que não tivesse condições <strong>de</strong> participar da política tecnológica e da política industrial- argumentou.Com o mesmo tom afirmativo usa<strong>do</strong> nos últimos dias, Minc prometeu apresentar um pacotepara tornar mais rígidas as leis ambientais.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>109- Ser ministro <strong>do</strong> diálogo não significa que não vou ser duro com o crime ambiental. Pelocontrário, vou criar uma coor<strong>de</strong>nação integrada <strong>de</strong> combate aos crimes ambientais, inteligênciaver<strong>de</strong>, banco <strong>de</strong> da<strong>do</strong>s ver<strong>de</strong>. Tremei polui<strong>do</strong>res. Os criminosos ambientais vão para a prisão -prometeu.Minc também prometeu que as ações da Polícia Fe<strong>de</strong>ral na Operação Arco <strong>de</strong> Fogo, contra o<strong>de</strong>smatamento da Amazônia, serão intensificadas:- As operações não po<strong>de</strong>m parar agora, quan<strong>do</strong> a estiagem se aproxima. A causa ambiental noBrasil não po<strong>de</strong> ser <strong>de</strong>scontinuada.No entanto, Carlos Minc <strong>de</strong>ixou claro que a floresta não será sua única priorida<strong>de</strong> no governo.Ele quer reproduzir, agora em escala fe<strong>de</strong>ral, as ações contra a poluição <strong>de</strong> rios e lagoas que onotabilizaram, em suas palavras, como "o ambientalista mais xiita <strong>do</strong> Rio <strong>de</strong> Janeiro nos últimos 15anos".Outra proposta apresentada por Minc a Lula foi a criação <strong>de</strong> um plano para ampliar as re<strong>de</strong>s<strong>de</strong> coleta <strong>de</strong> esgoto, que hoje chegam a 35% <strong>do</strong>s <strong>do</strong>micílios no país.O GloboO <strong>de</strong>safio da economia ver<strong>de</strong>20/05/<strong>2008</strong>A saída <strong>de</strong> Marina Silva não muda em nada o dilema brasileiro: encontrar uma fórmulaque permita crescimento sustentávelO Brasil tem um <strong>de</strong>safio: conciliar <strong>de</strong>senvolvimentocom preservação. O <strong>de</strong>smatamento <strong>de</strong>senfrea<strong>do</strong> daAmazônia, a maior floresta tropical <strong>do</strong> planeta, não po<strong>de</strong>continuar. Quase um quinto da vegetação original já<strong>de</strong>sapareceu, meta<strong>de</strong> disso nos últimos vinte anos, quan<strong>do</strong>o avanço das motosserras passou a ser monitora<strong>do</strong> comimagens feitas por satélites. O pedi<strong>do</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>missão daministra <strong>do</strong> Meio Ambiente, Marina Silva, na semanapassada, ocorreu no contexto <strong>de</strong>sse <strong>de</strong>bate central para ofuturo – como conciliar o crescimento econômico com aproteção ambiental, sobretu<strong>do</strong> na região amazônica, queabrange mais da meta<strong>de</strong> <strong>do</strong> território nacional. Marinateve <strong>de</strong> sair porque não soube solucionar essa equação.Sua saída, porém, não muda em nada o dilema coloca<strong>do</strong>diante <strong>do</strong>s brasileiros.Para dar o salto econômico <strong>de</strong> que necessita, o Brasil não po<strong>de</strong> abrir mão <strong>de</strong> seu potencialagropecuário ou <strong>de</strong> investir na geração <strong>de</strong> energia. Tampouco po<strong>de</strong> <strong>de</strong>struir um bioma que é aomesmo tempo um patrimônio nacional a ser preserva<strong>do</strong> e um foco <strong>de</strong> interesse internacional. Peladiversida<strong>de</strong> biológica e pelo papel que a floresta tropical brasileira <strong>de</strong>sempenha no equilíbrioclimático <strong>do</strong> planeta, seu <strong>de</strong>stino <strong>de</strong>sperta preocupação global. A reação no exterior ao pedi<strong>do</strong> <strong>de</strong><strong>de</strong>missão da ministra foi <strong>de</strong> susto. O jornal inglês The Guardian qualificou a saída <strong>de</strong> Marina Silvacomo "uma ameaça ao futuro da maior floresta tropical <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>". Marina Silva nunca passou <strong>de</strong>um ícone, uma peça <strong>de</strong> marketing exibida pelo governo Lula para mostrar uma suposta vocaçãoambientalista. Muito antes <strong>de</strong> ser ministra, ela era reconhecida internacionalmente como <strong>de</strong>fensorada preservação da Floresta Amazônica, com excelente trânsito entre as ONGs mais barulhentas <strong>do</strong>planeta. No cargo <strong>de</strong> ministra, porém, mostrou pouca intimida<strong>de</strong> com a burocracia, a começar pelamontagem da equipe. Seus principais assessores eram quase to<strong>do</strong>s militantes <strong>de</strong> organizações<strong>do</strong>gmáticas, que viviam em atrito permanente com setores <strong>do</strong> próprio governo.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>110Des<strong>de</strong> o primeiro mandato, Marina travou uma queda-<strong>de</strong>-braço com a então ministra <strong>de</strong> Minas eEnergia, Dilma Rousseff. As divergências com relação à concessão <strong>de</strong> licenças ambientais para aconstrução <strong>de</strong> hidrelétricas chegaram a tal ponto que as duas mal se cumprimentavam. Para Dilma,Marina era um obstáculo ao crescimento <strong>do</strong> país. Marina consi<strong>de</strong>rava Dilma a encarnação <strong>de</strong> tu<strong>do</strong> oque <strong>de</strong>veria ser combati<strong>do</strong> pelo governo. O presi<strong>de</strong>nte Lula também não escondia <strong>de</strong> seusinterlocutores a irritação com o <strong>de</strong>sempenho da Pasta <strong>do</strong> MeioAmbiente. Nas últimas semanas, houve <strong>do</strong>is exemplos claros <strong>do</strong>processo <strong>de</strong> fritura da ministra. O primeiro foi o lançamento daPolítica Industrial, que não tinha uma linha sequer sobre a questãoecológica, apesar <strong>do</strong>s longos textos sobre o assunto envia<strong>do</strong>s porMarina ao Planalto. Depois, no que acabou sen<strong>do</strong> a gota d’água, opresi<strong>de</strong>nte anunciou que o Plano Amazônia Sustentável seriacoor<strong>de</strong>na<strong>do</strong> por Mangabeira Unger, ministro <strong>de</strong> AssuntosEstratégicos. O plano era um filhote <strong>do</strong> ministério <strong>de</strong> Marina, e elatinha esperanças <strong>de</strong> assumir sua coor<strong>de</strong>nação. Entre quatro pare<strong>de</strong>s,Lula mostrou-se alivia<strong>do</strong> com a renúncia da ministra. "Ela temposições muito i<strong>de</strong>ológicas, muito radicais", confi<strong>de</strong>nciou opresi<strong>de</strong>nte a um interlocutor no dia da <strong>de</strong>missão.Carlos Minc, nomea<strong>do</strong> por Lula para substituir Marina:reputação <strong>de</strong> pragmatismoPara reduzir os danos <strong>de</strong> imagem no meio internacional, Lulaescolheu para substituir Marina outro político com "selo ver<strong>de</strong>":Carlos Minc, secretário <strong>do</strong> Meio Ambiente <strong>do</strong> Rio <strong>de</strong> Janeiro,militante ambientalista também conheci<strong>do</strong> no exterior, mas que temuma diferença fundamental em seu currículo. Enquanto Marina semostrou apenas um ícone, Minc é um ambientalista que se a<strong>de</strong>quouàs políticas <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento. Nos <strong>de</strong>zessete meses em queocupou a secretaria, ele emitiu licenças para obras complexas e<strong>de</strong>licadas sob o ponto <strong>de</strong> vista ambiental, como um pólopetroquímico <strong>de</strong> 8,4 bilhões <strong>de</strong> dólares que a Petrobras vai construirpróximo a um manguezal e um arco ro<strong>do</strong>viário <strong>de</strong> 146 quilômetrosque atravessa uma reserva florestal. A postura <strong>de</strong> Marina Silva era<strong>de</strong> preservação incondicional da Amazônia, admitin<strong>do</strong> apenas ilhas<strong>de</strong> agricultura <strong>de</strong> subsistência e <strong>de</strong> proteção <strong>de</strong> pequenascomunida<strong>de</strong>s, como a <strong>de</strong> seringueiros e castanheiros. É um discursoeficiente na teoria e para conquistar a simpatia internacional, mas que bateu <strong>de</strong> frente com asnecessida<strong>de</strong>s práticas <strong>do</strong> país, como a construção <strong>de</strong> estradas, a mineração, a geração <strong>de</strong> energiaelétrica, a agricultura e a pecuária.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>111Unger: escolhi<strong>do</strong> à revelia <strong>de</strong> Marina para coor<strong>de</strong>nar plano amazônicoO <strong>de</strong>safio brasileiro <strong>de</strong>corre num cenário único. A impressionante expansão econômica <strong>do</strong>sEsta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, por exemplo, ocorreu em um perío<strong>do</strong> em que não havia Greenpeace nempreocupações ambientais. Até mea<strong>do</strong>s <strong>do</strong>s anos 80, o governo brasileiro tentou repetir a receita <strong>do</strong>passa<strong>do</strong>. Para povoar a Amazônia e integrá-la ao resto <strong>do</strong> país, distribuiu terras e estimulou o<strong>de</strong>smatamento como forma <strong>de</strong> consolidar a presença na região. Até recentemente, quan<strong>do</strong><strong>de</strong>marcava lotes para os sem-terra na Amazônia, o Incra exigia a <strong>de</strong>rrubada da mata para que oassenta<strong>do</strong> justificasse a posse. O Brasil já não po<strong>de</strong> seguir esse caminho. A <strong>de</strong>struição da floresta éinaceitável <strong>de</strong>ntro e fora <strong>do</strong> país. Mais <strong>de</strong> 15% <strong>do</strong>s 5 milhões <strong>de</strong> espécies <strong>de</strong> seres vivos existenteshabitam a Floresta Amazônica. Ao contrário <strong>do</strong> que ocorre nas florestas temperadas <strong>do</strong> Japão e daAlemanha, com poucas espécies <strong>de</strong> árvore, uma vez <strong>de</strong>struída, a biodiversida<strong>de</strong> tropical não po<strong>de</strong>ser recriada pelo reflorestamento. Existem hoje legislação, recursos tecnológicos e vigilânciaremota suficientes para permitir a ocupação econômica da Amazônia sem alterar <strong>de</strong> forma<strong>de</strong>strutiva seu metabolismo. O dilema brasileiro é usar to<strong>do</strong> esse mecanismo <strong>de</strong> maneira eficiente,<strong>de</strong> forma a criar uma economia próspera e, a exemplo <strong>de</strong> seus ministros <strong>do</strong> Meio Ambiente, comdireito a "selo ver<strong>de</strong>".Revista VejaCom que asas o país vai voar?28/05/<strong>2008</strong>Meta<strong>de</strong> <strong>do</strong> corpo está no Primeiro Mun<strong>do</strong>, mas parte <strong>do</strong> Brasil ainda veste as calças curtas <strong>do</strong>sub<strong>de</strong>senvolvimentoA a<strong>do</strong>lescência é a etapa <strong>do</strong> <strong>de</strong>senvolvimento humano que marca a passagem da <strong>de</strong>pendênciainfantil para a auto-suficiência adulta. Aplica<strong>do</strong> ao estágio <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento das nações, oconceito <strong>de</strong>fine com perfeição os países situa-<strong>do</strong>s entre as calças curtas <strong>do</strong> sub<strong>de</strong>senvolvimento e a
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>112maturida<strong>de</strong> institucional, que se comportam ora como criança, ora como adulto. É justamente aí,nessa espécie <strong>de</strong> encruzilhada, que se encontra o Brasil atual. Graças a um incrível avançoinstitucional e a uma rara coincidência <strong>de</strong> fatores, o país <strong>de</strong>spontou no cenário internacional comsuas exportações diversificadas, o sucesso <strong>do</strong> etanol e a conquista recente <strong>do</strong> grau <strong>de</strong> investimento,distinção concedida às economias classificadas como sólidas e confiáveis. Mas o Brasil aindaatravessa as dicotomias típicas <strong>de</strong> um a<strong>do</strong>lescente, cada vez mais visíveis. Produz aviões a jato, mastambém mosquitos da <strong>de</strong>ngue. A mesma socieda<strong>de</strong> que exporta as mo<strong>de</strong>los mais bem pagas <strong>do</strong>mun<strong>do</strong> fornece garotas a bordéis <strong>de</strong> to<strong>do</strong> o planeta. O ensino que permitiu ao país explorar petróleoa 7000 metros <strong>de</strong> profundida<strong>de</strong> aparece em último lugar no ranking internacional <strong>de</strong> matemática ena penúltima posição em ciências, na comparação feita pela Organização para Cooperação eDesenvolvimento Econômico (OCDE) entre quarenta países.Contradições como essas <strong>de</strong>correm justamente da fase <strong>de</strong> transição em que se encontra oBrasil. O país tem um pé no Primeiro Mun<strong>do</strong> e outro no sub<strong>de</strong>senvolvimento, como mostram oscinqüenta exemplos que acompanham esta matéria. Qual Brasil prevalecerá? O das asas da Embraerou aquele das asas <strong>do</strong> mosquito da <strong>de</strong>ngue? O <strong>do</strong> etanol <strong>de</strong> cana-<strong>de</strong>-açúcar ou o <strong>do</strong> trabalho escravono campo? O da abertura comercial ou o da fobia <strong>de</strong> importações? O Brasil nunca teve tantaspossibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> <strong>de</strong>finir seu próprio futuro, afirmam os economistas Octavio <strong>de</strong> Barros, diretor <strong>de</strong>pesquisas macroeconômicas <strong>do</strong> Bra<strong>de</strong>sco, e Fabio Giambiagi na apresentação <strong>de</strong> BrasilGlobaliza<strong>do</strong> (Campus/Elsevier; 424 páginas; 79,90 reais), que chega às livrarias nesta semana: "Aprimeira opção é limitar-se a acumular avanços econômicos e perpetuar a tensa coexistência entre oBrasil <strong>de</strong> Primeiro Mun<strong>do</strong> e o Brasil <strong>de</strong> Terceiro Mun<strong>do</strong>. A outra, que nos parece mais atraente, éestreitar mais rapidamente a distância que o separa <strong>do</strong> Primeiro Mun<strong>do</strong>". Organiza<strong>do</strong> por Barros eGiambiagi, o livro recebeu a colaboração <strong>de</strong> 22 economistas (entre outros, Claudio Haddad,Affonso Celso Pastore e Luciano Coutinho), além da <strong>do</strong> sociólogo e ex-presi<strong>de</strong>nte Fernan<strong>do</strong>Henrique Car<strong>do</strong>so.Em seus onze capítulos, prefacia<strong>do</strong>s por Henrique Meirelles, presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> Banco Central, oestu<strong>do</strong> tem como substrato justamente a inserção <strong>do</strong> país no mun<strong>do</strong> capitalista contemporâneo e ascontradições que esse processo levanta. O livro parte <strong>do</strong> pressuposto <strong>de</strong> que o cenário raro <strong>de</strong>bonança mundial, por sua intensida<strong>de</strong>, proporcionou ao Brasil um bilhete <strong>de</strong> loteria premia<strong>do</strong>. Opaís foi um <strong>do</strong>s maiores beneficia<strong>do</strong>s pelo aumento da <strong>de</strong>manda – e <strong>do</strong> preço – <strong>de</strong> produtos como
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>113minério <strong>de</strong> ferro, soja e carne. China, Índia e outros países <strong>de</strong> crescimento acelera<strong>do</strong> encontraramaqui um celeiro indispensável. Graças a esse vento favorável, a economia brasileira acumulou, nosúltimos cinco anos, um sal<strong>do</strong> total <strong>de</strong> 200 bilhões <strong>de</strong> dólares em sua balança comercial. Com esse"prêmio", o país pagou sua dívida externa, engor<strong>do</strong>u suas reservas em moeda forte e conquistoucredibilida<strong>de</strong> para o real. Esse avanço se <strong>de</strong>u antes mesmo <strong>de</strong> o país instalar controles sanitárioseficientes, cortar os gastos públicos e conter a impunida<strong>de</strong>. É como se o Brasil <strong>de</strong> Primeiro Mun<strong>do</strong>,para emergir, tivesse simplesmente se <strong>de</strong>svia<strong>do</strong> <strong>do</strong>s obstáculos <strong>de</strong> Terceiro Mun<strong>do</strong>, sem <strong>de</strong>sfazê-los.Os resulta<strong>do</strong>s foram, até aqui, auspiciosos, mas insuficientes:• O Brasil segue como a economia mais fechada <strong>do</strong> planeta e foi uma das que menos seabriram nas últimas três décadas. Diz Claudio Haddad, presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> Ibmec São Paulo: "O aumento<strong>do</strong> protecionismo nos países <strong>de</strong>senvolvi<strong>do</strong>s, mesmo que aconteça, não <strong>de</strong>ve servir <strong>de</strong> pretexto paraque o Brasil faça o mesmo".• Se quiser trilhar a história <strong>de</strong> sucesso <strong>do</strong>s países asiáticos, o Brasil terá <strong>de</strong> poupar mais.Como afirma Pastore no capítulo que escreve com Maria Cristina Pinotti e Leonar<strong>do</strong> Porto <strong>de</strong>Almeida, a taxa <strong>de</strong> poupança brasileira é das menores <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>. Por isso, faltam recursos paraampliar os investimentos e aumentar o potencial <strong>de</strong> crescimento. Sempre que o país passa a crescermais rápi<strong>do</strong>, acaba importan<strong>do</strong> poupança estrangeira. O risco, dizem os autores, é aprofundar odéficit nas contas externas. Como contornar isso? Diminuin<strong>do</strong> os gastos <strong>do</strong> governo, o que elevariaa poupança pública e ampliaria o capital disponível para investimentos.• Apesar da queixa em relação ao câmbio, os fatores que, <strong>de</strong> fato, solapam a competitivida<strong>de</strong>das empresas brasileiras são a burocracia, a carga fiscal, o custo trabalhista e a péssima infraestrutura.Sem corrigir essas distorções, o país seguirá concorren<strong>do</strong> <strong>de</strong> maneira <strong>de</strong>sigual com seusadversários no comércio global.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>114• O acesso à educação cresceu rapidamente na última década. Falta agora ampliar os esforçosna qualida<strong>de</strong>, para que os trabalha<strong>do</strong>res sejam capazes <strong>de</strong> produzir merca<strong>do</strong>rias e serviços maiselabora<strong>do</strong>s. Isso inclui não apenas o ensino fundamental, mas também a pesquisa científica.• Fundamental, afirmam to<strong>do</strong>s os autores <strong>do</strong> livro, será não regredir nas conquistasmacroeconômicas obtidas até aqui e preservar o tripé <strong>de</strong> combate à inflação, câmbio flutuante esuperávit fiscal primário.Ganhar na loteria é sempre bom. Ainda mais quan<strong>do</strong> o prêmio é bem aproveita<strong>do</strong>. Mas po<strong>de</strong>setambém <strong>de</strong>sperdiçar o bilhete premia<strong>do</strong> da noite para o dia, como mostram os exemplos daVenezuela e da Argentina, <strong>do</strong>is países que, como o Brasil, foram beneficia<strong>do</strong>s pela alta <strong>do</strong> preço <strong>de</strong>commodities e se afundaram na lama <strong>do</strong> populismo. Que os exemplos tristes <strong>do</strong>s países vizinhossirvam <strong>de</strong> lição. O mun<strong>do</strong> conspira a favor <strong>do</strong> Brasil, mas o jogo ainda não foi ganho. Como dizemos organiza<strong>do</strong>res <strong>do</strong> livro, a idéia <strong>de</strong> que estamos pre<strong>de</strong>stina<strong>do</strong>s ao êxito é certamente um erro – masnunca antes o <strong>de</strong>stino sorriu tanto para o Brasil.Revista VejaSÓ FALTA A MOODY’S30/05/<strong>2008</strong>Nova chancela internacionalFitch dá grau <strong>de</strong> investimento ao Brasil. Nota po<strong>de</strong> trazer mais capital, sobretu<strong>do</strong> da ÁsiaQuase um mês <strong>de</strong>pois <strong>de</strong> o Brasil ser eleva<strong>do</strong> a grau <strong>de</strong> investimento pela agência <strong>de</strong>classificação <strong>de</strong> risco Standard & Poor’s (S&P), ontem foi a vez da Fitch Ratings. Tal como a S&P,a Fitch elevou a nota <strong>do</strong>s títulos <strong>do</strong> governo <strong>de</strong> longo prazo em moeda estrangeira <strong>de</strong> “BB+” para“BBB-”, o que significa grau <strong>de</strong> investimento, avaliação dada a países on<strong>de</strong> é seguro investir. Coma nota anterior, o Brasil era consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong> “grau especulativo”, ou seja, com risco <strong>de</strong> calote. A Fitchtambém elevou a “BBB-” os títulos em moeda local. A mudança da nota po<strong>de</strong> ser o passo quefaltava para o Brasil receber um fluxo significativo <strong>de</strong> aplicações. Isso porque muitos fun<strong>do</strong>s <strong>de</strong>pensão e segura<strong>do</strong>ras estrangeiros têm como regra aplicar apenas em países que tenham grau <strong>de</strong>investimento em pelo menos duas gran<strong>de</strong>s agências.Pelo comunica<strong>do</strong> da Fitch, a elevação da nota representa o “dramático aprimoramento <strong>do</strong>balanço externo e <strong>do</strong> setor público brasileiros, que reduziram fortemente a vulnerabilida<strong>de</strong> externa ea choques <strong>de</strong> câmbio, entrincheiraram a estabilida<strong>de</strong> macroeconômica e elevaram as perspectivas <strong>de</strong>crescimento a médio prazo”. A Fitch <strong>de</strong>stacou também a diversificada economia <strong>do</strong> país e a“relativa estabilida<strong>de</strong> política e social”.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>115A Fitch ressaltou a posição atingida pelo país como cre<strong>do</strong>r externo líqui<strong>do</strong>, “graças ao hábilgerenciamento da dívida e à acumulação <strong>de</strong> reservas internacionais, hoje próximas a US$200bilhões”. Ainda assim, a agência <strong>de</strong>staca que a nota <strong>do</strong> Brasil continua sen<strong>do</strong> limitada pelafragilida<strong>de</strong> estrutural das finanças públicas, com o alto endividamento <strong>do</strong> governo e o “ritmoglacial” das reformas estruturais.As reformas tributária, trabalhista e da Previdência, aliás, sempre foram o argumento da Fitchpara adiar o grau <strong>de</strong> investimento <strong>do</strong> Brasil. Embora as mudanças não tenham vin<strong>do</strong>, a diretorasênior <strong>do</strong> grupo <strong>de</strong> análise <strong>de</strong> risco soberano da Fitch, Shelly Shetty, explica que a elevação da nota<strong>do</strong> país está muito relacionada ao fato <strong>de</strong> o país continuar ten<strong>do</strong> superávits fiscais nos primeirosmeses <strong>de</strong> <strong>2008</strong>, mesmo sem a CPMF, extinta no fim <strong>de</strong> 2007.— A qualida<strong>de</strong> <strong>do</strong>s gastos <strong>do</strong> governo é baixa e precisa ser melhorada porque os gastoscontinuam crescen<strong>do</strong> — disse Shelly.Carlos Langoni, ex-presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> Banco Central e diretor <strong>do</strong> Centro <strong>de</strong> Economia Mundial daFundação Getulio Vargas (FGV), acredita que o segun<strong>do</strong> grau <strong>de</strong> investimento vai diversificar ofluxo <strong>de</strong> capitais externos que entram no país, hoje pre<strong>do</strong>minantemente americanos e europeus.Segun<strong>do</strong> o economista, o Brasil <strong>de</strong>ve atrair novamente o capital asiático, que <strong>de</strong>ixou o país após amoratória da dívida externa na década <strong>de</strong> 80.— Com <strong>do</strong>is selos <strong>de</strong> qualida<strong>de</strong>, virão volumes expressivos <strong>de</strong> capital da Ásia, on<strong>de</strong> hágran<strong>de</strong> volume <strong>de</strong> poupança. Só a China tem US$1 trilhão em reservas.Dólar cai a R$1,638, nível <strong>de</strong> 9 anos atrásImediatamente após a divulgação da notícia, feita pela Fitch, às 15h27m, a Bolsa <strong>de</strong> Valores<strong>de</strong> São Paulo (Bovespa) — cujo principal indica<strong>do</strong>r, o Ibovespa, recuava mais <strong>de</strong> 1% —, chegou asubir 1,04%, alcançan<strong>do</strong> nova máxima histórica <strong>de</strong> 73.920 pontos. A bonança durou menos <strong>de</strong> <strong>de</strong>zminutos: logo, investi<strong>do</strong>res passaram a ven<strong>de</strong>r seus papéis para embolsar os ganhos com as altas dasúltimas semanas, provocadas justamente pela expectativa da nota da Fitch. A Bolsa fechou emqueda <strong>de</strong> 1,85%, aos 71.797 pontos. O volume <strong>de</strong> negociação ficou em R$8,453 bilhões, o maior<strong>de</strong>s<strong>de</strong> 2 <strong>de</strong> maio, o primeiro dia <strong>de</strong> funcionamento <strong>do</strong> merca<strong>do</strong> após o grau <strong>de</strong> investimento da S&P.O risco-país caiu 6,34%, para 192 pontos centesimais.O dólar também sentiu os efeitos e recuou 1,09%, para R$1,638 — a menor cotação <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 20<strong>de</strong> janeiro <strong>de</strong> 1999, pouco <strong>de</strong>pois da maxi<strong>de</strong>svalorização <strong>do</strong> real. Mas a moeda foi afetadaprincipalmente pela briga entre os que apostam na alta e os que apostam na queda da moeda, já quehoje é dia <strong>de</strong> formação da Ptax <strong>do</strong> mês, a taxa média que orienta contratos negocia<strong>do</strong>s no merca<strong>do</strong>futuro.— Quan<strong>do</strong> o grau <strong>de</strong> investimento da S&P saiu, pegou to<strong>do</strong> mun<strong>do</strong> <strong>de</strong> surpresa e a Bolsasubiu muito. Mas o da Fitch já era espera<strong>do</strong>, havia fortes rumores. Tem uma máxima <strong>do</strong> merca<strong>do</strong>,com a qual eu não concor<strong>do</strong>, que diz: compre no boato e venda no fato. Provavelmente, quemcomprou está ven<strong>de</strong>n<strong>do</strong> agora — disse Álvaro Ban<strong>de</strong>ira, diretor da corretora Ágora.As ações que mais sentiram os efeitos imediatos <strong>do</strong> grau <strong>de</strong> investimento da Fitch foramBovespa Holding e BM&F. Com a expectativa <strong>do</strong> aumento <strong>do</strong> volume <strong>de</strong> negociações, com aatração <strong>de</strong> mais investi<strong>do</strong>res para as bolsas, as ações chegaram a subir 8,86% e 7%,respectivamente. Mas fecharam em leves perdas.— O investi<strong>do</strong>r <strong>de</strong>ve pensar que o benefício virá numa linha <strong>de</strong> tempo mais longa. O gran<strong>de</strong>potencial <strong>de</strong> atrativida<strong>de</strong> <strong>de</strong> volume <strong>de</strong> investimentos na Bolsa está para acontecer— disse o gerente<strong>de</strong> análise da Modal Asset, Eduar<strong>do</strong> Roche.O CalPERS, maior fun<strong>do</strong> <strong>de</strong> pensão <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, com po<strong>de</strong>r <strong>de</strong> fogo <strong>de</strong> US$244bilhões, reafirmou que consi<strong>de</strong>ra o Brasil um <strong>do</strong>s mais atraentes entre os emergentes. O grupo tem<strong>de</strong> US$1,5 bilhão a US$2 bilhões investi<strong>do</strong>s no país <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 2005.— Continuaremos aumentan<strong>do</strong> nossos investimentos no país — disse o porta-voz ClarkMcKinley.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>116O segun<strong>do</strong> maior fun<strong>do</strong> <strong>do</strong>s EUA — CalSTRS, <strong>do</strong>s professores <strong>do</strong> esta<strong>do</strong> da Califórnia, comcerca <strong>de</strong> US$170 bilhões em ativos —, informou que não mudará suas estratégias para o Brasil, jáque também tem seu próprio sistema <strong>de</strong> avaliação <strong>de</strong> risco. O CalSTRS tem aproximadamenteUS$30 milhões em títulos brasileiros.O GloboBRASIL: GESTÃO DOS RECURSOS ESTRATÉGICOSO maior pólo <strong>de</strong> investimento <strong>do</strong> Brasil17/04/<strong>2008</strong>O porto <strong>de</strong> Suape vive um ciclo <strong>de</strong> novos empreendimentos que somarão mais <strong>de</strong> 6bilhões <strong>de</strong> dólares até 2010 e estão transforman<strong>do</strong> a economia <strong>de</strong> PernambucoNa ro<strong>do</strong>via que dá acesso ao complexo industrial <strong>de</strong>Suape, na cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ipojuca, no litoral sul <strong>de</strong> Pernambuco, otrânsito beira o caos. Uma procissão <strong>de</strong> caminhões atravanca aestrada <strong>de</strong> pista simples que, espremida pela obra <strong>de</strong> duplicação<strong>do</strong> trecho, complica ainda mais o tráfego. Os turistas quepassam por ali a caminho <strong>do</strong> balneário <strong>de</strong> Porto <strong>de</strong> Galinhasnaturalmente se irritam. Mas os pernambucanos só têmmotivos para comemorar -- o aumento <strong>do</strong> congestionamento ésinal da transformação em curso em Suape. A difícil tarefa <strong>de</strong>chegar e sair <strong>do</strong> complexo po<strong>de</strong> ser vista como uma espécie <strong>de</strong>termômetro da efervescência <strong>do</strong>s negócios por lá. Novos evolumosos empreendimentos fazem <strong>de</strong> Suape hoje o maiorpólo <strong>de</strong> investimento <strong>do</strong> país. Até 2010, os 23 projetos emcurso absorverão 6,2 bilhões <strong>de</strong> dólares. Quatro <strong>de</strong>les estãomudan<strong>do</strong> a paisagem <strong>do</strong> lugar: a refinaria da Petrobras, ocomplexo petroquímico, o estaleiro Atlântico Sul e o moinhoda Bunge. São projetos que, inevitavelmente, atrairão novas empresas -- sejam elas fornece<strong>do</strong>res ouclientes. E isso po<strong>de</strong> ser apenas parte <strong>do</strong> que Suape será no futuro. Estão em negociação outros 7,5bilhões <strong>de</strong> dólares em investimentos, o que inclui uma si<strong>de</strong>rúrgica e uma fábrica <strong>de</strong> celulose. Seesses projetos também se concretizarem, cálculos <strong>do</strong> governo indicam que o PIB pernambucano, <strong>de</strong>63 bilhões <strong>de</strong> reais no ano passa<strong>do</strong> -- o décimo <strong>do</strong> país --, <strong>de</strong>ve alcançar 147 bilhões em 2020, oequivalente ao tamanho da economia <strong>de</strong> Minas Gerais atualmente. "Meta<strong>de</strong> <strong>de</strong>sse crescimento virá<strong>do</strong>s investimentos em Suape", disse o governa<strong>do</strong>r Eduar<strong>do</strong> Campos a EXAME.Às vésperas <strong>de</strong> completar 30 anos, o porto <strong>de</strong> Suape vive uma fase ímpar em sua história. De2007 a 2010, está sen<strong>do</strong> investi<strong>do</strong> ali o triplo <strong>do</strong> volume <strong>de</strong> recursos aplica<strong>do</strong> em três décadas.Cria<strong>do</strong> em 1978 para substituir o porto <strong>de</strong> Recife, até há pouco tempo Suape era visto como umempreendimento com gran<strong>de</strong> potencial, mas que caminhava timidamente, o que refletia em boamedida a marcha lenta da economia <strong>de</strong> Pernambuco nas décadas <strong>de</strong> 80 e 90. "Nesse perío<strong>do</strong>, nossocrescimento foi medíocre, acompanhan<strong>do</strong> a média brasileira, mas abaixo <strong>de</strong> outros esta<strong>do</strong>snor<strong>de</strong>stinos", diz o economista Sérgio Buarque, da consultoria pernambucana Multivisão. Emborase mantivesse como a segunda maior economia <strong>do</strong> Nor<strong>de</strong>ste, atrás apenas da Bahia, Pernambuco foiper<strong>de</strong>n<strong>do</strong> importância relativa à medida que esta<strong>do</strong>s como Ceará e Rio Gran<strong>de</strong> <strong>do</strong> Norteavançavam.O fenômeno agora verifica<strong>do</strong> em Suape é resulta<strong>do</strong> <strong>do</strong> bom momento da economia brasileira,das qualida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> um porto mo<strong>de</strong>rno e <strong>de</strong> um padrinho <strong>de</strong> peso. A <strong>de</strong>cisão <strong>de</strong> instalar a refinaria daPetrobras teve um importante componente político. "O alinhamento <strong>do</strong> governa<strong>do</strong>r Eduar<strong>do</strong>Campos com o presi<strong>de</strong>nte Luiz Inácio Lula da Silva trouxe a refinaria para Suape", diz Fernan<strong>do</strong>
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>117Bezerra Coelho, secretário estadual <strong>de</strong> Desenvolvimento Econômico e presi<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> Suape. Ceará eBahia também eram candidatos a receber o investimento, a primeira refinaria projetada pelaPetrobras após um jejum <strong>de</strong> 25 anos. Mas o esta<strong>do</strong> natal <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte Lula acabou levan<strong>do</strong> amelhor. Junto com a refinaria, outros investimentos foram concebi<strong>do</strong>s para criar um complexopetroquímico. Em março, a americana Oxbow anunciou uma fábrica <strong>de</strong> 150 milhões <strong>de</strong> dólares paraprocessar coque <strong>de</strong> petróleo, resíduo que será gera<strong>do</strong> pela refinaria. Pernambuco foi aquinhoa<strong>do</strong>com 2 bilhões <strong>de</strong> reais em obras públicas <strong>do</strong> Programa <strong>de</strong> Aceleração <strong>do</strong> Crescimento, incluin<strong>do</strong>ampliação <strong>do</strong> cais e melhoria das estradas <strong>de</strong> acesso a Suape.O apoio <strong>do</strong> governo Lula tem ajuda<strong>do</strong> -- e muito --, mas o ciclo <strong>de</strong> crescimento nãoaconteceria se Suape não fosse uma exceção entre os portos brasileiros. Em primeiro lugar, estánum ponto bem localiza<strong>do</strong>: é um <strong>do</strong>s terminais brasileiros mais próximos da Europa. Aprofundida<strong>de</strong> <strong>do</strong> cais é <strong>de</strong> 15,5 metros (3,5 metros a mais que a <strong>de</strong> Santos) e será ampliada para 18,o que permitirá a chegada <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>s cargueiros internacionais que hoje têm acesso limita<strong>do</strong> aopaís. Outro <strong>de</strong>staque é a qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> administração portuária, superior à média brasileira <strong>do</strong>sterminais públicos. "A gestão <strong>do</strong> porto é muito ativa. Os executivos <strong>de</strong> Suape fazem road shows nasempresas, no Brasil e no exterior, e trabalham para melhorar as condições <strong>do</strong>s usuários, ao contrário<strong>de</strong> Santos, que expulsa clientes", diz Paulo Fleury, diretor <strong>do</strong> Centro <strong>de</strong> Estu<strong>do</strong>s em Logística daUniversida<strong>de</strong> Fe<strong>de</strong>ral <strong>do</strong> Rio <strong>de</strong> Janeiro. Uma pesquisa da instituição com usuários <strong>de</strong> portosapontou Suape como o terceiro melhor <strong>do</strong> país, atrás apenas <strong>do</strong>s terminais priva<strong>do</strong>s <strong>de</strong> Ponta daMa<strong>de</strong>ira, no Maranhão, e <strong>de</strong> Tubarão, no Espírito Santo. Para aproveitar melhor essas qualida<strong>de</strong>s, ogoverno <strong>de</strong> Pernambuco preten<strong>de</strong> transformar Suape em um hub, um concentra<strong>do</strong>r e redistribui<strong>do</strong>r<strong>de</strong> cargas internacionais, a exemplo <strong>de</strong> Roterdã, na Holanda. De lá sairiam navios <strong>de</strong> cabotagempara outros portos brasileiros. Hoje, boa parte da carga <strong>de</strong>sembarcada em Suape segue para omerca<strong>do</strong> nor<strong>de</strong>stino. Em 2007, o porto movimentou 7 milhões <strong>de</strong> toneladas entre importação eexportação, volume inferior a um décimo <strong>do</strong> que passou por Santos. A principal merca<strong>do</strong>ria quechega ao porto são combustíveis. No caminho inverso, saem principalmente açúcar, frutas e resinasplásticas. O plano <strong>de</strong> ampliação prevê aumentar o número <strong>de</strong> cais <strong>do</strong> porto <strong>de</strong> quatro para 34 até2020.Canteiro <strong>de</strong> obrasGran<strong>de</strong>s investimentos estão aceleran<strong>do</strong> o <strong>de</strong>senvolvimento <strong>do</strong> pólo industrial e logístico <strong>de</strong>SuapeLocalizaçãoIpojuca, PernambucoPortoConta com quatro cais, mas o plano <strong>de</strong> expansão prevê a construção <strong>de</strong> outros 34 até 2020. Oobjetivo é tornar o porto um concentra<strong>do</strong>r <strong>de</strong> cargas internacionaisRankingSuape é o terceiro melhor porto <strong>do</strong> país (sen<strong>do</strong> o primeiro público), <strong>de</strong> acor<strong>do</strong> com umapesquisa feita com usuários(1)Infra-estruturaEstão sen<strong>do</strong> investi<strong>do</strong>s 1 bilhão <strong>de</strong> reais em estradas para melhorar o acesso ao portoIndústria23 empreendimentos estão sen<strong>do</strong> implanta<strong>do</strong>s e somam 6,2 bilhões <strong>de</strong> dólares. O portonegocia mais 7,5 bilhões <strong>de</strong> dólares em investimentosEmpregos
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>118Apenas na construção <strong>do</strong>s empreendimentos serão gera<strong>do</strong>s 45 000 postos <strong>de</strong> trabalho. Para aoperação <strong>de</strong>ssas unida<strong>de</strong>s, serão cria<strong>do</strong>s 11 000 empregos diretos(1) Pesquisa conduzida pela Coppead/UFRJ Fontes: porto <strong>de</strong> Suape e empresasA GRANDE EFERVESCENCIA DE SUAPE, no entanto, não está à beira-mar. O epicentroda expansão agora é a refinaria Abreu e Lima, empreendimento da Petrobras no qual a venezuelanaPDVSA <strong>de</strong>ve ficar com 40% <strong>do</strong> capital. Tu<strong>do</strong> o que se refere à refinaria é superlativo. Cominvestimento <strong>de</strong> 4 bilhões <strong>de</strong> dólares, a unida<strong>de</strong> <strong>de</strong>verá processar 200 000 barris <strong>de</strong> petróleo por diaem 2011. A licença ambiental da obra saiu em apenas cinco meses -- um assombro para os padrõesbrasileiros. "Estamos aqui para <strong>de</strong>scomplicar", afirma o governa<strong>do</strong>r Eduar<strong>do</strong> Campos, numa<strong>de</strong>monstração <strong>de</strong> que, quan<strong>do</strong> há interesse político, as coisas po<strong>de</strong>m andar rápi<strong>do</strong>. Hoje, 2 400pessoas trabalham na terraplanagem <strong>do</strong>s 630 hectares da refinaria -- a maior movimentação <strong>de</strong> terra<strong>do</strong> Brasil, com 650 máquinas em operação. A expectativa é que no pico da obra haja 16 000trabalha<strong>do</strong>res na construção. O objetivo é que boa parte da mão-<strong>de</strong>-obra venha <strong>do</strong> próprio esta<strong>do</strong>. Oopera<strong>do</strong>r <strong>de</strong> retroescava<strong>de</strong>ira Val<strong>de</strong>milson Leo<strong>do</strong>ro <strong>de</strong> Oliveira, <strong>de</strong> 35 anos, é <strong>de</strong> Cumaru, cida<strong>de</strong>pernambucana situada a 120 quilômetros <strong>do</strong> porto. Antes da obra da Petrobras, ele trabalhava naCompesa, empresa <strong>de</strong> saneamento <strong>do</strong> esta<strong>do</strong>. "Recebi uma oferta melhor e vim para cá", dizOliveira, que sustenta, com um salário <strong>de</strong> 1 500 reais, a mulher e os três filhos, que ficaram nacida<strong>de</strong> natal. A cada 15 dias ele <strong>de</strong>ixa o alojamento on<strong>de</strong> mora para visitar a família. No passa<strong>do</strong>,trabalha<strong>do</strong>res como Oliveira migravam para o Sul e o Su<strong>de</strong>ste. Atualmente, estão encontran<strong>do</strong>oportunida<strong>de</strong>s na própria região.Mas, para as empresas, o gran<strong>de</strong> número <strong>de</strong> empregos gera<strong>do</strong>s em Suape se transformou em<strong>de</strong>safio. A baixa qualificação profissional é o maior gargalo. Até agora, 12 000 pessoas da regiãofizeram cursos, promovi<strong>do</strong>s pelo governo <strong>do</strong> esta<strong>do</strong>, <strong>de</strong> reforço em português e matemática, espécie<strong>de</strong> remen<strong>do</strong> educacional para brigar por vagas nas indústrias. O estaleiro Atlântico Sul, umasocieda<strong>de</strong> das construtoras Camargo Corrêa e Queiroz Galvão e <strong>do</strong> fun<strong>do</strong> <strong>de</strong> investimento PJMR,recebeu 342 operários que fizeram o reforço e hoje estão em treinamento na empresa. Eles já foramcontrata<strong>do</strong>s e vão trabalhar como solda<strong>do</strong>res e monta<strong>do</strong>res <strong>do</strong>s navios. Flávia Lima, <strong>de</strong> 23 anos,mora<strong>do</strong>ra <strong>de</strong> Ipojuca, treina para ser solda<strong>do</strong>ra. Será a primeira vez que ela trabalhará na indústria.Antes, era funcionária da prefeitura local. "Na minha rua, o que mais tem hoje é solda<strong>do</strong>r emtreinamento", diz Flávia. À noite, ela cursa o primeiro ano <strong>de</strong> recursos humanos em uma faculda<strong>de</strong><strong>de</strong> Recife. No ano passa<strong>do</strong>, ao mesmo tempo que prestava vestibular, Flávia fazia o reforço escolarpara brigar por uma vaga no estaleiro. Isso mostra que o diploma <strong>do</strong> ensino médio não temsignifica<strong>do</strong> gran<strong>de</strong> coisa para o merca<strong>do</strong> <strong>de</strong> trabalho. Boa parte <strong>do</strong>s novos operários não sabia nemo que era um estaleiro. "O nível era muito baixo. Sem o reforço ficaria muito difícil treinar essepessoal", diz Paulo Haddad, presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> Atlântico Sul. A estréia para valer <strong>de</strong> Flávia no chão <strong>de</strong>fábrica está marcada para julho, quan<strong>do</strong> as primeiras chapas <strong>de</strong> aço começarão a ser cortadas noestaleiro. A obra <strong>do</strong> Atlântico Sul, que será finalizada no primeiro semestre <strong>de</strong> 2009, sofreumudanças no meio <strong>do</strong> caminho, mais que duplican<strong>do</strong> a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> produção previstaoriginalmente. O movimento po<strong>de</strong> aumentar ainda mais porque a Petrobras está prestes a licitar aconstrução <strong>de</strong> mais 146 embarcações.Efeito multiplica<strong>do</strong>rCom os investimentos em Suape, a previsão é que o PIB <strong>de</strong> Pernambuco mais que duplique até20202007 63(em bilhões <strong>de</strong> reais)
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>119<strong>2008</strong> 662009 692010 722015 1002020 147Fonte: consultoria MultivisãoO RITMO ALUCINANTE DAS OBRAS TEM SERVIDO <strong>de</strong> chamariz para buscar novosinvestimentos. O principal alvo <strong>do</strong> governa<strong>do</strong>r Eduar<strong>do</strong> Campos no momento é trazer o projeto danova fábrica <strong>de</strong> celulose <strong>do</strong> grupo Suzano para a área <strong>do</strong> porto. David Feffer, sócio <strong>do</strong> grupo, eAntonio Maciel Neto, presi<strong>de</strong>nte da empresa, já estiveram com Campos para tratar das vantagensfiscais que o investimento <strong>de</strong> 2 bilhões <strong>de</strong> dólares teria no esta<strong>do</strong>. "O anúncio da Suzano está porpouco", diz Campos. Na lista <strong>de</strong> ambições <strong>do</strong>s pernambucanos, há também terminais <strong>de</strong> grãos, <strong>de</strong>açúcar e <strong>de</strong> minérios, uma si<strong>de</strong>rúrgica e uma monta<strong>do</strong>ra <strong>de</strong> automóveis, entre outros investimentos.No começo <strong>de</strong> <strong>2008</strong>, a GM assinou um protocolo <strong>de</strong> intenções com o governo para instalar emSuape um centro <strong>de</strong> distribuição <strong>de</strong> carros. Seria um possível primeiro passo para instalar uma linha<strong>de</strong> montagem no pólo.A dúvida para quem já está em Suape e para quem ainda não chegou é se haverá energia eágua suficientes para to<strong>do</strong>s os projetos. Na área <strong>do</strong> porto, existe uma termelétrica com capacida<strong>de</strong>para 523 megawatts. Há um projeto <strong>de</strong> uma nova térmica, a ser construída por um consórcioli<strong>de</strong>ra<strong>do</strong> pela BR Distribui<strong>do</strong>ra (<strong>de</strong> novo, a Petrobras) até 2012, e o governo ainda estarianegocian<strong>do</strong> mais três centrais <strong>de</strong> energia elétrica para a região. O problema é que, no atual ritmo <strong>de</strong>crescimento, essa oferta po<strong>de</strong> se esgotar rapidamente. "A velocida<strong>de</strong> das obras privadas é muitomaior que a das obras públicas <strong>de</strong> infra-estrutura", diz o paulista Dárcio Silva, diretor da empresaitaliana Mossi & Ghisolfi, que em 2007 inaugurou uma unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> resina PET em Suape.A cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> Ipojuca vem colhen<strong>do</strong> os lucros e os problemas <strong>do</strong>s novos investimentos. Aestimativa é que 30 000 pessoas sejam atraídas para trabalhar nas obras <strong>do</strong> pólo, e uma parte <strong>de</strong>las<strong>de</strong>ve permanecer em Ipojuca, atualmente com 60 000 habitantes. A cida<strong>de</strong> vive uma espécie <strong>de</strong>preparação para a onda migratória. A procura por pontos comerciais é intensa e os preços <strong>de</strong>terrenos dispararam. O Wal-Mart busca uma área para instalar uma unida<strong>de</strong> <strong>do</strong> Bompreço, suaban<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> supermerca<strong>do</strong>s no Nor<strong>de</strong>ste. Os empresários locais também se animam com aperspectiva <strong>de</strong> ter novos consumi<strong>do</strong>res. Edinício Aníbal Ribeiro já contratou uma arquiteta para areforma <strong>do</strong> Magazine Real, sua loja <strong>de</strong> vestuário e eletro<strong>do</strong>mésticos localizada no centro <strong>de</strong> Ipojuca."Daqui a alguns anos, a cida<strong>de</strong> vai crescer 10% ao ano, como a China", diz Ribeiro, também <strong>do</strong>no<strong>de</strong> uma loja <strong>de</strong> material <strong>de</strong> construção. Com o ritmo chinês que se impõe na região, a tendência éque falte to<strong>do</strong> tipo <strong>de</strong> serviço, a começar por moradias. Isso é visto como oportunida<strong>de</strong> paraempresas como a incorpora<strong>do</strong>ra paulista Gafisa, que <strong>de</strong>ve lançar até junho um empreendimento com400 apartamentos na praia <strong>do</strong> Paraíso, vizinha ao porto <strong>de</strong> Suape, em Cabo <strong>de</strong> Santo Agostinho.Além <strong>do</strong>s interessa<strong>do</strong>s em ter um imóvel na praia, a empresa i<strong>de</strong>ntificou a <strong>de</strong>manda <strong>de</strong> moradiaspara profissionais aloca<strong>do</strong>s nas novas fábricas <strong>do</strong> complexo. O projeto marca a estréia da Gafisa emPernambuco.Os maiores projetosQuatro gran<strong>de</strong>s empreendimentos estão em execução hoje em Suape1 - RefinariaA obra <strong>de</strong> 4 bilhões <strong>de</strong> dólares é uma parceria da Petrobras com a venezuelana PDVSA.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>120Maior investimento no local, será inaugurada em 2011 e terá capacida<strong>de</strong> para processar 200 000barris <strong>de</strong> petróleo por dia2 - Pólo petroquímicoCom três fábricas, o pólo soma 1,4 bilhão <strong>de</strong> dólares em investimentos. Já foi inauguradauma fábrica <strong>de</strong> resina PET e está em construção uma unida<strong>de</strong> <strong>de</strong> matéria-prima. O próximo passoserá uma fiação <strong>de</strong> poliéster, o que dará origem a um pólo têxtil3 - MoinhoA Bunge está construin<strong>do</strong> o maior moinho <strong>de</strong> trigo da América Latina, que terá capacida<strong>de</strong><strong>de</strong> produção <strong>de</strong> 850 000 toneladas <strong>de</strong> farinha por ano.A empresa também tem interesse em operarum terminal <strong>de</strong> grãos no porto4 - EstaleiroEmpreendimento <strong>de</strong> Camargo Corrêa, Queiroz Galvão e PJMR, será o maior estaleiro <strong>do</strong>hemisfério sul, com capacida<strong>de</strong> para processar 160 000 toneladas <strong>de</strong> aço por ano. Já temencomendas <strong>de</strong> 12 navios petroleiros e <strong>do</strong> casco da plataforma P-55 da PetrobrasFontes: porto <strong>de</strong> Suape e empresasO movimento se justifica pelo peso que o Nor<strong>de</strong>ste vem ganhan<strong>do</strong> na economia brasileira. Aregião representa 13% <strong>do</strong> PIB <strong>do</strong> país e, nos últimos anos, após uma longa letargia, começou acrescer acima da média nacional. Em 2005 e 2006, as famílias nor<strong>de</strong>stinas acumularam aumento <strong>de</strong>renda <strong>de</strong> 12% -- o maior avanço por região <strong>do</strong> Brasil. Para aten<strong>de</strong>r esse merca<strong>do</strong> em expansão, aBunge está instalan<strong>do</strong> em Suape o maior moinho <strong>de</strong> trigo da América Latina, com capacida<strong>de</strong> paraproduzir cerca <strong>de</strong> 850 000 toneladas <strong>de</strong> farinha por ano.Se <strong>de</strong> um la<strong>do</strong> o crescimento acelera<strong>do</strong> <strong>do</strong> pólo gera oportunida<strong>de</strong>s, <strong>de</strong> outro <strong>de</strong>spertapreocupações. O BNDES criou um grupo <strong>de</strong> trabalho para avaliar os efeitos positivos e negativos<strong>do</strong>s investimentos em Suape. Quer evitar uma repetição <strong>do</strong> que ocorreu nos pólos <strong>de</strong> Camaçari, naBahia, e Macaé, no Rio <strong>de</strong> Janeiro, on<strong>de</strong> a chegada maciça <strong>de</strong> trabalha<strong>do</strong>res para a construção <strong>do</strong>sempreendimentos gerou favelas, <strong>de</strong>sor<strong>de</strong>namento urbano e <strong>de</strong>gradação ambiental ao final das obras.Caso a experiência em Pernambuco dê certo, <strong>de</strong>ve ser replicada no entorno das obras das usinashidrelétricas <strong>do</strong> rio Ma<strong>de</strong>ira, em Roraima. O objetivo é que o movimento econômico em Suapetenha reflexo na renda e na qualida<strong>de</strong> <strong>de</strong> vida da população <strong>do</strong> esta<strong>do</strong>. Pernambuco, hoje, registraindica<strong>do</strong>res sociais que estão entre os piores <strong>do</strong> país. Recife, com 19% da população <strong>de</strong>sempregada,é consi<strong>de</strong>rada a capital mais violenta <strong>do</strong> Brasil, <strong>de</strong> acor<strong>do</strong> com uma pesquisa <strong>do</strong> Ministério daJustiça. E Cabo <strong>de</strong> Santo Agostinho (on<strong>de</strong> parte <strong>do</strong> complexo <strong>de</strong> Suape está instalada) está entre as30 cida<strong>de</strong>s mais violentas <strong>do</strong> país. Parece claro o po<strong>de</strong>r transforma<strong>do</strong>r, na economia <strong>do</strong> esta<strong>do</strong>, <strong>do</strong>maior investimento em curso no país -- o que se espera é que ele seja capaz <strong>de</strong> mudar também ocenário social <strong>de</strong> Pernambuco.Revista ExameO IMPASSE DA HIDRELÉTRICA23/04/<strong>2008</strong>Governo já fala em mudar tarifaO ministro <strong>do</strong> Exterior, Celso Amorim, esclareceu ontem em Gana, na África, que o governobrasileiro não modificará o trata<strong>do</strong> <strong>de</strong> Itaipu, mas po<strong>de</strong>rá negociar alterações nas tarifas da energiaelétrica exce<strong>de</strong>nte repassada ao país pelo Paraguai, pelas brechas <strong>do</strong> próprio trata<strong>do</strong>. Um dia <strong>de</strong>pois<strong>de</strong> o presi<strong>de</strong>nte Luiz Inácio Lula da Silva ter dito que o trata<strong>do</strong> - que estipula o preço <strong>de</strong>stina<strong>do</strong> àdívida <strong>do</strong> Paraguai pela construção da usina e o que é diretamente entregue ao país - não serárenegocia<strong>do</strong>, o chanceler <strong>de</strong>clarou que o Brasil precisa ser "generoso", e não "imperialista", na sua
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>121relação com seus vizinhos. Uma possível negociação com o Paraguai, com aumento da tarifa para oBrasil, foi tema <strong>de</strong> uma reunião da coor<strong>de</strong>nação política <strong>do</strong> governo ontem, com a presença <strong>do</strong>presi<strong>de</strong>nte Lula. Essa possibilida<strong>de</strong>, no entanto, enfrenta resistência <strong>de</strong>ntro <strong>do</strong> próprio governo,como no Ministério <strong>de</strong> Minas e Energia.Amorim consi<strong>de</strong>ra que as negociações com o Paraguai não prejudicarão os interessesnacionais, mas po<strong>de</strong>m manter a paz na América <strong>do</strong> Sul:- Passamos da era <strong>de</strong> pensar: "Somos gran<strong>de</strong>s e o resto da América <strong>do</strong> Sul que se adapte anós." Não po<strong>de</strong>mos ser assim. O presi<strong>de</strong>nte Lula sabe que não po<strong>de</strong> ser assim. Temos que ter umavisão generosa. E quan<strong>do</strong> falamos em generosida<strong>de</strong>, não é só ser bonzinho. Generosida<strong>de</strong> é tambémver seu próprio interesse <strong>de</strong> longo prazo, que é o <strong>de</strong> uma região pacífica. O Brasil não quer ser vistocomo um país imperialista, que só quer tirar vantagem. Quer o progresso <strong>do</strong> conjunto.Lugo reafirma que preço é injustoSegun<strong>do</strong> o chanceler, não houve contradição entre suas <strong>de</strong>clarações e as <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte.- Na verda<strong>de</strong>, nós <strong>de</strong>claramos a mesma coisa, com palavras diferentes. Às vezes, a gente diz(o mesmo) com outras palavras. Mas a maneira como acabou publica<strong>do</strong> dá a impressão <strong>de</strong> que sãoduas linhas diferentes. Eu acho que conversar a gente <strong>de</strong>ve, para enten<strong>de</strong>r qual é o problema <strong>do</strong>outro. O fato é que o trata<strong>do</strong> não po<strong>de</strong> ser muda<strong>do</strong> - disse o ministro <strong>do</strong> Exterior ontem, em Acra,on<strong>de</strong> participa da 12ª Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento(Unctad).A questão está sen<strong>do</strong> analisada pelo governo brasileiro, que não <strong>de</strong>scarta sequer um pequenoreajuste da tarifa paga pelo país ao Paraguai. Isso foi discuti<strong>do</strong> ontem numa reunião da coor<strong>de</strong>naçãopolítica.A postura, porém, não agrada a setores <strong>do</strong> governo. O ministro <strong>de</strong> Minas e Energia, EdisonLobão, afirmou ontem que o preço da energia pago pelo Brasil ao Paraguai é justo e que umaelevação <strong>de</strong> tarifa não está, hoje, nos horizontes brasileiros. Segun<strong>do</strong> ele, a energia produzida porItaipu custa cerca <strong>de</strong> US$46 (R$77 em valores <strong>de</strong> ontem) o megawatt (MW), "mais ou menos" ovalor da energia a ser produzida pela hidrelétrica <strong>de</strong> Santo Antonio, no rio Ma<strong>de</strong>ira, que foi licitadano final <strong>do</strong> ano passada com preço <strong>de</strong> R$78 o MW.- O que o Paraguai tem fala<strong>do</strong> é uma revisão <strong>de</strong> tarifas, achan<strong>do</strong> que a que se pratica não éjusta. E posso dizer que esta é uma tarifa justa. É a tarifa que se pratica no merca<strong>do</strong> brasileiro. Oministro Celso Amorim enten<strong>de</strong> que o preço <strong>de</strong>ve ser um preço justo. E o preço é justo - afirmou oministro, aponta<strong>do</strong> nos basti<strong>do</strong>res como um <strong>de</strong>fensor <strong>do</strong>s critérios puramente técnicos nanegociação.Segun<strong>do</strong> Lobão, se o Paraguai tiver reivindicações a fazer, o governo brasileiro po<strong>de</strong>ráexaminar, "com to<strong>do</strong> o cuida<strong>do</strong> como sempre fizemos". Mas o ministro afirmou que o Brasil já fazmuitas concessões ao Paraguai. Em 2007 o vizinho ven<strong>de</strong>u toda a energia a que tinha direito aoBrasil - e não apenas os 95% tradicionais - a US$45 e usou para consumo próprio o que Itaipugerou a mais <strong>do</strong> que o previsto pela meta<strong>de</strong> <strong>do</strong> preço. Ganhou US$100 milhões com esta operação.O presi<strong>de</strong>nte eleito <strong>do</strong> Paraguai, Fernan<strong>do</strong> Lugo, reafirmou ontem que não abre mão darevisão <strong>do</strong> preço da energia comprada <strong>do</strong> país, mas se mostrou disposto ao diálogo com o Brasilsobre o tema:- Consi<strong>de</strong>ramos o trata<strong>do</strong> injusto. In<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente <strong>de</strong> não po<strong>de</strong>rmos renegociar o trata<strong>do</strong>em si, porque teria que haver vonta<strong>de</strong> <strong>de</strong> ambas as partes, cremos que o preço da energia tem queser um preço justo.A proposta <strong>de</strong> Lugo é criar uma comissão técnica binacional para <strong>de</strong>bater o tema. Ontem elerevelou que preten<strong>de</strong> indicar os representantes na segunda semana <strong>de</strong> governo.- Seguramente começaremos na segunda semana <strong>de</strong>pois da posse (em 15 <strong>de</strong> agosto),indican<strong>do</strong> as equipes técnicas para po<strong>de</strong>rmos iniciar as conversas - afirmou.Reunião <strong>de</strong> lí<strong>de</strong>res antes da posse
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>122Embora não abra mão <strong>de</strong> reajustar os preços e <strong>de</strong> cobrar uma relação "racional", Lugo semostrou disposto ao diálogo e a rejeitar a possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> medidas radicais.- Ninguém po<strong>de</strong> se negar a manter relações justas, equitativas, no marco da racionalida<strong>de</strong>. É oque pedimos aos nossos irmãos <strong>do</strong>s países vizinhos. O próprio presi<strong>de</strong>nte Lula nos disse queinclusive os técnicos não concordam sobre os números (<strong>de</strong> Itaipu).Lula e Lugo <strong>de</strong>vem se encontrar antes da posse <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte eleito <strong>do</strong> Paraguai. O presi<strong>de</strong>ntebrasileiro foi convida<strong>do</strong> ontem por Lugo para a posse. Lula ainda não confirmou se comparecerá,mas disse a Lugo que preten<strong>de</strong> conversar com o paraguaio antes <strong>de</strong> ele assumir o governo.O GloboEstoque baixo <strong>de</strong> arroz faz Brasil suspen<strong>de</strong>r exportações24/04/<strong>2008</strong>Ministro da Agricultura pe<strong>de</strong> que produtores parem as vendas no exteriorO ministro <strong>de</strong> Agricultura, Reinhold Stephanes, informou que <strong>de</strong>s<strong>de</strong> a semana passada estãosuspensas as exportações <strong>de</strong> arroz <strong>do</strong>s estoques <strong>do</strong> governo. O ministro explicou ainda que hoje sereunirá com produtores para pedir a suspensão <strong>de</strong> vendas externas feitas diretamente pelo setorpriva<strong>do</strong>. Segun<strong>do</strong> o ministro, po<strong>de</strong>m ser usa<strong>do</strong>s mecanismos como aumento da tarifa <strong>de</strong> exportação<strong>do</strong> produto para inibir a venda.Stephanes diz que o objetivo é proteger o merca<strong>do</strong> interno. Ele disse que está preocupa<strong>do</strong> como abastecimento daqui a quatro ou cinco meses, uma vez que o preço <strong>do</strong> arroz vem aumentan<strong>do</strong>muito no merca<strong>do</strong> mundial e importar está cada vez mais difícil.O ministro afirmou que não há prazo para retomar a exportação e que o governo temacompanha<strong>do</strong> <strong>de</strong> perto o merca<strong>do</strong>. Segun<strong>do</strong> o Chicago Board of Tra<strong>de</strong> (CBOT), maior bolsa <strong>de</strong>commodities agrícolas <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>, a saca <strong>do</strong> arroz subiu, nos últimos três meses, <strong>de</strong> US$ 15,50 paraUS$ 24,46, diante da possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>sabastecimento. A situação está complicada porque <strong>do</strong>is<strong>do</strong>s maiores exporta<strong>do</strong>res <strong>do</strong> produto, a Índia e o Vietnã, estão impedin<strong>do</strong> a exportação para tentarreduzir o preço no merca<strong>do</strong> interno.Hoje, o estoque público <strong>do</strong> Brasil é <strong>de</strong> 1,6 milhão <strong>de</strong> toneladas, sen<strong>do</strong> que 1 milhão é aquantia consi<strong>de</strong>rada exce<strong>de</strong>nte, ou seja, que po<strong>de</strong>ria ser exporta<strong>do</strong> sem afetar o merca<strong>do</strong> internoimediatamente.– Como o Brasil possui um exce<strong>de</strong>nte muito pequeno, é melhor guardar para o merca<strong>do</strong>interno – afirmou Stephanes.Segun<strong>do</strong> ele, o Brasil não é gran<strong>de</strong> exporta<strong>do</strong>r <strong>de</strong> arroz, mas ven<strong>de</strong> ao merca<strong>do</strong> externo,anualmente, cerca <strong>de</strong> 800 mil toneladas.ProcuraO crescimento da <strong>de</strong>manda mundial por alimentos e a conseqüente alta <strong>do</strong>s preços fez crescerfortemente o números <strong>de</strong> pedi<strong>do</strong>s <strong>do</strong> produto ao Brasil vin<strong>do</strong>s <strong>de</strong> países da América <strong>do</strong> Sul e daÁfrica. De acor<strong>do</strong> com o ministro, o governo vai leiloar parte <strong>do</strong> estoque atual na próxima semanapara abastecer o merca<strong>do</strong> e baixar o preço <strong>do</strong> produto.O Sam's Club, divisão atacadista da re<strong>de</strong> <strong>de</strong> hipermerca<strong>do</strong>s Wal-Mart, informou ontem quevai limitar a venda <strong>de</strong> diversos tipos <strong>de</strong> arroz nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s. Este é o mais recente sinal dafalta <strong>de</strong> oferta <strong>do</strong> produto no merca<strong>do</strong> mundial.TrigoO ministro Reinhold Stephanes <strong>de</strong>scartou ontem novos aumentos no pão francês ou <strong>de</strong>produtos à base <strong>de</strong> trigo, por conta da suspensão <strong>de</strong> exportações <strong>do</strong> produto pela Argentina.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>123De acor<strong>do</strong> com o ministro, a crise no país vizinho já teve impacto, e o Brasil a<strong>do</strong>tou todas asmedidas que po<strong>de</strong>ria ter toma<strong>do</strong>, como a redução a zero das tarifas <strong>de</strong> importação <strong>de</strong> outros países eo estímulo à produção interna.Jornal <strong>do</strong> BrasilDesafios na energia28/04/<strong>2008</strong>O Itamaraty <strong>de</strong>ve chegar a bom termo na negociação <strong>de</strong> Itaipu, como fez no caso <strong>do</strong> gásnatural bolivianoO país enfrenta o estigma imputa<strong>do</strong> aos biocombustíveis como responsáveis pela alta <strong>do</strong>spreços <strong>do</strong>s alimentos no mun<strong>do</strong>, que afeta as populações pobres. Partin<strong>do</strong> <strong>do</strong> FMI (Fun<strong>do</strong>Monetário Internacional), essa informação não tem muita credibilida<strong>de</strong>, já que sua política <strong>de</strong> ajustedas economias <strong>do</strong>s países em <strong>de</strong>senvolvimento agravou a pobreza.É possível expandir a produção <strong>de</strong> álcool no Brasil. A lavoura da cana ocupa 7 milhões <strong>de</strong>hectares, <strong>do</strong>s quais 3 milhões <strong>de</strong> hectares para açúcar e 4 milhões <strong>de</strong> hectares para álcool, enquantosó a soja, a maior parte para exportação, ocupa 23 milhões <strong>de</strong> hectares. Segun<strong>do</strong> o IBGE, temos 152milhões <strong>de</strong> hectares <strong>de</strong> área agricultável, <strong>do</strong>s quais são utiliza<strong>do</strong>s 62 milhões <strong>de</strong> hectares, e há 177milhões <strong>de</strong> hectares <strong>de</strong> pastagens. Excluí<strong>do</strong>s os 440 milhões <strong>de</strong> hectares <strong>de</strong> florestas nativas,dispõem-se <strong>de</strong> 90 milhões <strong>de</strong> hectares para expandir a agricultura sem <strong>de</strong>smatamento. Apenas umaparte <strong>de</strong>ssas áreas é a<strong>de</strong>quada à cana e é econômica e socialmente viável para biocombustíveis,como álcool e biodiesel. Este último em gran<strong>de</strong> parte vem da soja, que, ao contrário da cana,pressiona o <strong>de</strong>smatamento na Amazônia.O álcool <strong>de</strong> milho nos EUA é subsidia<strong>do</strong> e, diferentemente <strong>do</strong> brasileiro, afeta o preço <strong>do</strong> grãoe se reflete em outros alimentos. A<strong>de</strong>mais, a cana captura CO2 <strong>do</strong> ar no seu crescimento, igualan<strong>do</strong>aproximadamente a emissão na produção e no consumo <strong>do</strong> álcool. Logo, ao substituir a gasolina,evita emissões <strong>de</strong> CO2, que contribuem para o aquecimento global. O merca<strong>do</strong> internacionalcrescerá se forem removi<strong>do</strong>s os subsídios nos países ricos. Os EUA consomem um pouco mais <strong>de</strong>álcool automotivo que o Brasil, mas o percentual <strong>de</strong>le na gasolina é baixo. Seu consumo <strong>de</strong> gasolinaé <strong>de</strong> 580 bilhões <strong>de</strong> litros por ano. Esse percentual <strong>de</strong>ve aumentar para 20%. Consi<strong>de</strong>ran<strong>do</strong> 1,3 litro<strong>de</strong> álcool para cada litro <strong>de</strong> gasolina, daria algo como 150 bilhões <strong>de</strong> litros ao ano <strong>de</strong> álcool, oitovezes mais <strong>do</strong> que a atual produção brasileira, <strong>de</strong> 18 bilhões <strong>de</strong> litros por ano. Levará um tempopara isso e o Brasil po<strong>de</strong>rá exportar mais álcool, mas não é razoável suprir to<strong>do</strong> esse merca<strong>do</strong>.Outro <strong>de</strong>safio na área energética é negociar o pleito <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte Fernan<strong>do</strong> Lugo, eleito noParaguai, em relação a Itaipu Binacional, que tem dívida <strong>de</strong> US$ 19 bilhões com a Eletrobrás e como Tesouro brasileiro. Foi o Brasil que construiu a usina e obteve seu financiamento.Essa dívida é amortizada pela tarifa paga pelos consumi<strong>do</strong>res, que na sua maciça maioria sãobrasileiros.Meta<strong>de</strong> da energia gerada por Itaipu pertence ao Brasil e meta<strong>de</strong> ao Paraguai, que consomecerca <strong>de</strong> 5% <strong>de</strong>la. Pelo acor<strong>do</strong>, a Eletrobrás compra os restantes 95%, pagan<strong>do</strong> um valor que pormuitos anos era alto.Uma cota compulsória da energia <strong>de</strong> Itaipu teve <strong>de</strong> ser estabelecida no governo Geisel paraempresas elétricas brasileiras. Hoje não é mais cara, comparativamente, pois a energia elétrica noBrasil subiu <strong>de</strong> preço <strong>de</strong>s<strong>de</strong> as privatizações. A energia <strong>de</strong> Itaipu custa US$ 42 o MWh (megawatthora),preço semelhante ao previsto para a geração pela hidrelétrica <strong>de</strong> Santo Antônio, a serconstruída no rio Ma<strong>de</strong>ira (R$ 78 o MWh). O Itamaraty <strong>de</strong>ve chegar a bom termo na negociação,como fez no caso <strong>do</strong> gás natural boliviano.O que não <strong>de</strong>verá ser admiti<strong>do</strong> é que a energia possa ser colocada no merca<strong>do</strong> para aArgentina e o Chile, per<strong>de</strong>n<strong>do</strong> o Brasil o direito <strong>de</strong> dispor <strong>de</strong>la por meio da Eletrobrás. Itaipu suprecerca <strong>de</strong> 19% da energia elétrica <strong>do</strong> país.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>124Folha <strong>de</strong> São PauloPOLÊMICA VERDE09/05/<strong>2008</strong>Mais cana <strong>do</strong> que águaETANOL PASSA HIDRELÉTRICAS E SE TORNA 2ª MAIOR FONTE DE ENERGIA DOPAÍSOs produtos <strong>de</strong>riva<strong>do</strong>s da cana-<strong>de</strong>-açúcar, como o etanol, ultrapassaram as usinas hidrelétricaspela primeira vez e se tornaram a segunda maior fonte <strong>de</strong> energia <strong>do</strong> país em 2007. Ano passa<strong>do</strong>,esses <strong>de</strong>riva<strong>do</strong>s tiveram participação <strong>de</strong> 16% na matriz energética, ocupan<strong>do</strong> a segunda posição,enquanto energia hidráulica e eletricida<strong>de</strong> tiveram 14,7%, segun<strong>do</strong> da<strong>do</strong>s preliminares <strong>do</strong> BalançoEnergético Nacional, divulga<strong>do</strong> ontem pela estatal Empresa <strong>de</strong> Pesquisa Energética (EPE). Em2006, as participações foram <strong>de</strong> 14,5% e 14,8%, respectivamente. O petróleo e seus <strong>de</strong>riva<strong>do</strong>scontinuaram em primeiro lugar, com 36,7%, mas houve queda em relação aos 37,8% <strong>de</strong> 2006.A matriz está fican<strong>do</strong> mais limpa. A participação das diferentes fontes <strong>de</strong> energia renovável,como o etanol, aumentou <strong>de</strong> 44,9% para 46,4% em 2007. As não renováveis, como petróleo, caíram<strong>de</strong> 55,1% para 53,6%. A oferta interna <strong>de</strong> energia cresceu 5,9%, levan<strong>do</strong>-se em conta o consumopor cidadãos, empresas e setor <strong>de</strong> transformação (coquerias, carvoarias, refinarias etc.). O avançofoi maior que o <strong>do</strong> Produto Interno Bruto (PIB), <strong>de</strong> 5,4%.Pelo levantamento da EPE, o petróleo manteve a auto-suficiência alcançada em 2006, comprodução <strong>de</strong> 1,751 milhão <strong>de</strong> barris diários e consumo <strong>de</strong> 1,734 milhão. A queda <strong>do</strong> petróleo éexplicada em boa parte pelo recuo no consumo <strong>de</strong> gasolina, em função <strong>de</strong> um aumento <strong>de</strong> 46,1% no<strong>de</strong> álcool hidrata<strong>do</strong> (usa<strong>do</strong> diretamente como combustível nos tanques). Além <strong>do</strong>s melhores preços<strong>do</strong> álcool nas bombas em 2007 — este ano, já se verificam reajustes —, o avanço <strong>do</strong> etanol foijustifica<strong>do</strong> pelo aumento da frota <strong>de</strong> carros bicombustíveis no país.Da<strong>do</strong>s da Anfavea,associação <strong>do</strong>s fabricantes<strong>de</strong> veículos, apontam queem abril o Brasil tinhacinco milhões <strong>de</strong> veículosflex. Também contribuírama ampliação da área colhida<strong>de</strong> cana no Brasil em 8,2%,no ano passa<strong>do</strong>; o aumento<strong>de</strong> 45% na produção <strong>de</strong>álcool hidrata<strong>do</strong>; e oaumento da parcelaobrigatória <strong>de</strong> adição <strong>de</strong>álcool anidro adiciona<strong>do</strong> àgasolina, <strong>de</strong> 23% para 25%.O especialistaAdriano Pires, <strong>do</strong> CentroBrasileiro <strong>de</strong> Infra-Estrutura (CBIE), diz que o álcool está com preços mais competitivos:— O Brasil já tem uma das matrizes energéticas mais limpas <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>. Além da maior<strong>de</strong>manda pelo álcool para os carros, gran<strong>de</strong> parte da produção <strong>de</strong> etanol passou a ser contabilizadaoficialmente com a implantação da nota fiscal eletrônica. A redução da carga tributária, com omenor ICMS, também aju<strong>do</strong>u. Mais barato, o álcool tomou espaço da gasolina. Quem tirou espaçoda água foi o gás. Há uma tendência <strong>de</strong> que a cana continue avançan<strong>do</strong>.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>125Com a alta <strong>de</strong> 46,1%, o consumo <strong>de</strong> álcool hidrata<strong>do</strong> atingiu 10,4 bilhões <strong>de</strong> litros em 2007. Oanidro (usa<strong>do</strong> na mistura com a gasolina) avançou 19,7%, para 6,2 bilhões <strong>de</strong> litros. Já o consumo<strong>de</strong> gasolina premium (que não tem álcool) caiu 3,9%, para 18 bilhões <strong>de</strong> litros.— Acredito que seja uma tendência irreversível (cana à frente da energia hidrelétrica). É umano histórico. Temos três fontes que serão a base da matriz: petróleo, cana e hidráulica, e nas trêssomos auto-suficientes — disse o presi<strong>de</strong>nte da EPE, Maurício TolmasquimPara ele, a cana terá cada vez mais importância na matriz energética brasileira, mesmo comprevisão <strong>de</strong> novas hidrelétricas, como os megaprojetos <strong>do</strong> Rio Ma<strong>de</strong>ira e <strong>de</strong> Belo Monte.Pergunta<strong>do</strong> sobre os questionamentos <strong>de</strong> que a produção <strong>de</strong> etanol po<strong>de</strong> comprometer ospreços <strong>do</strong>s alimentos, Tolmasquim refutou as críticas:— No Brasil, temos solo para aumentar a produção <strong>de</strong> etanol sem afetar a produção <strong>de</strong>alimentos.ANALISTAS: ALIMENTOS NÃO SOFREM PRESSÃOEspecialistas em inflação não acreditam que o avanço da plantação <strong>de</strong> cana vá pressionar opreço <strong>de</strong> outras culturas, como a da soja. Segun<strong>do</strong> Luiz Roberto Cunha, professor <strong>de</strong> economia daPUC-RJ, o Brasil tem muito espaço para agricultura. O máximo que po<strong>de</strong>ria acontecer, diz, é atransferência <strong>de</strong> plantações para outras localida<strong>de</strong>s:— Mas nem <strong>de</strong> longe po<strong>de</strong> acontecer o que houve nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, on<strong>de</strong> a plantação <strong>de</strong>milho para a produção <strong>de</strong> etanol afetou o preço <strong>de</strong> outras culturas.Geral<strong>do</strong> Barros, coor<strong>de</strong>na<strong>do</strong>r científico <strong>do</strong> Centro <strong>de</strong> Estu<strong>do</strong>s Avança<strong>do</strong>s em EconomiaAplicada (Cepea), da Esalq/USP, acredita que os preços na agricultura já estão pressiona<strong>do</strong>s, e nãoserá a cana que vai mudar o cenário:— A agricultura representa menos <strong>de</strong> 4% <strong>de</strong> toda a área plantada <strong>do</strong> país. Nem se esse índice<strong>do</strong>brasse os preços <strong>de</strong> outras culturas seriam pressiona<strong>do</strong>s. Para aumentar o espaço <strong>de</strong> plantação, épreciso haver investimentos <strong>de</strong>, no mínimo, R$80 bilhões por ano. Além disso, a cana-<strong>de</strong>-açúcarhoje ocupa espaço <strong>de</strong> pastagens <strong>de</strong>gradadas, que não estão sen<strong>do</strong> usadas nem por ga<strong>do</strong>.Segun<strong>do</strong> Tolmasquim, da EPE, o consumo <strong>de</strong> energia <strong>de</strong> diferentes fontes cresceu 13,5milhões <strong>de</strong> toneladas e, <strong>do</strong> total, 70% são <strong>de</strong> fontes renováveis. A energia renovável que maisavançou foi a da cana: 41,4%. Foi i<strong>de</strong>ntificada uma alta <strong>de</strong> 8,6% no uso <strong>de</strong> carvão mineral, com oaumento da produção e <strong>do</strong> consumo <strong>de</strong> coque metalúrgico para aplicação na indústria si<strong>de</strong>rúrgica.Por outro la<strong>do</strong>, o consumo <strong>de</strong> urânio caiu 9,9%, em função das paradas das usinas Angra 1 e Angra2 ano passa<strong>do</strong>. Tolmasquim afirmou que um grupo interministerial discute a proposta <strong>de</strong> um novomo<strong>de</strong>lo nuclear, em que po<strong>de</strong>riam ser feitas parcerias com a iniciativa privada na prospecção <strong>de</strong>urânio.Na opinião <strong>de</strong> Pires, <strong>do</strong> CBIE, há ainda gran<strong>de</strong> espaço para a geração <strong>de</strong> energia a partir <strong>do</strong>bagaço da cana — um segmento que tem potencial para chegar ao volume <strong>de</strong> Itaipu (mais <strong>de</strong> 90milhões <strong>de</strong> megawatts-hora), apesar <strong>de</strong> a produção acontecer durante sete meses por ano. Oconsultor David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da Agência Nacional <strong>de</strong> Petróleo (ANP), en<strong>do</strong>ssa osargumentos. Segun<strong>do</strong> ele, o etanol, além <strong>de</strong> ser a energia <strong>do</strong> futuro, é limpa.O GloboO plano para a indústria20/05/<strong>2008</strong>Empresários estão otimistas, mas mantêm críticas à política <strong>de</strong> juros <strong>do</strong> BCA cerimônia <strong>de</strong> lançamento da Política <strong>de</strong> Desenvolvimento Produtivo foi grandiosa. Porquase três horas, reuniu, no Rio <strong>de</strong> Janeiro, na segunda-feira 12, o presi<strong>de</strong>nte da República, <strong>de</strong>zgoverna<strong>do</strong>res e 11 ministros, além <strong>de</strong> figuras <strong>de</strong> peso <strong>do</strong> empresaria<strong>do</strong> que lotaram o auditório <strong>do</strong>BNDES. O cortejo foi coerente com a dimensão <strong>do</strong> plano, também grandioso. Entre <strong>de</strong>sonerações,subsídios e financiamentos, o pacote vai somar R$ 266,4 bilhões até 2010. Desse total, R$ 210
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>126bilhões têm origem em <strong>de</strong>sembolsos <strong>do</strong> BNDES e R$ 21,4 bilhões representam renúncia fiscal. Asmetas <strong>do</strong> governo são ambiciosas. Quer que a taxa <strong>de</strong> investimentos <strong>do</strong> País suba <strong>de</strong> 17,6% para21% <strong>do</strong> PIB e cobiça abocanhar uma fatia <strong>de</strong> 1,25% das exportações mundiais – a atual é <strong>de</strong> 1,18%.Um <strong>do</strong>s mais entusiasma<strong>do</strong>s durante a solenida<strong>de</strong> foi exatamente o presi<strong>de</strong>nte Lula. “Queremosconsolidar a vitória <strong>do</strong> Brasil sobre 25 anos <strong>de</strong> incertezas e <strong>de</strong> crescimento volátil e baixo.Felizmente, estamos viran<strong>do</strong> essa página”, afirmou.Embora <strong>de</strong>dique ênfase às exportações, a nova política industrial, no seu conjunto, vaibeneficiar 24 setores da economia. Ganham <strong>de</strong>staque os bens <strong>de</strong> capital, com linhas <strong>de</strong> crédito maisbaratas <strong>do</strong> BNDES, a indústria naval, o setor automotivo, a produção <strong>de</strong> semicondutores e atecnologia da informação. A este último segmento coube o privilégio da <strong>de</strong>soneração <strong>de</strong> até 13,1%na folha <strong>de</strong> pagamento. “Melhor é impossível”, comemorou o presi<strong>de</strong>nte da Associação Brasileiradas Empresas <strong>de</strong> Software e Serviços, Antonio Carlos Gil. Segun<strong>do</strong> o ministro da Fazenda, Gui<strong>do</strong>Mantega, as medidas têm o objetivo <strong>de</strong> aumentar “o po<strong>de</strong>r concorrencial das empresas brasileirasnum mun<strong>do</strong> globaliza<strong>do</strong>”. O BNDES reduzirá para 1,1% o spread nas linhas <strong>de</strong> financiamento epara 0,9% o spread que aplica às linhas <strong>de</strong> crédito <strong>do</strong> Finame para compra <strong>de</strong> máquinas. LucianoCoutinho, presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> banco, explicou que a redução <strong>do</strong> retorno <strong>do</strong> BNDES se justifica, pois“trata-se <strong>de</strong> um incentivo sistêmico muito po<strong>de</strong>roso”.Em seu discurso <strong>de</strong> 35 minutos, o presi<strong>de</strong>nte Lula voltou a comparar a nova política industrialao II Plano Nacional <strong>de</strong> Desenvolvimento <strong>do</strong> governo Geisel. “A Política <strong>de</strong> DesenvolvimentoProdutivo tem forte amplitu<strong>de</strong> e ambições comparáveis às <strong>de</strong> outras iniciativas que, em outrasépocas, ajudaram a transformar economicamente o País, como o Plano <strong>de</strong> Metas nos anos 50 e 60 eo segun<strong>do</strong> PND, nos anos 70”, ressaltou. E, dirigin<strong>do</strong>-se ao ex-ministro João Paulo <strong>do</strong>s ReisVelloso, um <strong>do</strong>s membros da equipe econômica <strong>do</strong> general Geisel, pon<strong>de</strong>rou que, naqueles tempos,“o Esta<strong>do</strong> era muito mais forte <strong>do</strong> que hoje e o presi<strong>de</strong>nte tinha muito mais po<strong>de</strong>r”. Os tempos, semdúvida, são outros. No regime <strong>de</strong>mocrático, certamente não haverá espaço para favorecimentos. Naditadura, o BNDES escolheu a <strong>de</strong><strong>do</strong> os empresários que teriam direito aos incentivos fiscais.Alguns foram bem-sucedi<strong>do</strong>s, mas outros quebraram. Os erros <strong>do</strong> passa<strong>do</strong> certamente não serãorepeti<strong>do</strong>s.Na verda<strong>de</strong>, os empresários estão otimistas. Até mesmo o presi<strong>de</strong>nte da Fiesp, Paulo Skaf,contumaz crítico <strong>do</strong> governo Lula, aplaudiu os incentivos: “É um pacote <strong>do</strong> bem. As medidas <strong>de</strong><strong>de</strong>soneração fiscal são sempre positivas.” Mas não per<strong>de</strong>u a viagem e voltou a alfinetar a política <strong>de</strong>juros. Disse que a taxa <strong>de</strong> juros elevada caminha na contramão <strong>do</strong> pacote ao <strong>de</strong>sestimular osinvestimentos. O ministro <strong>do</strong> Desenvolvimento, Miguel Jorge, rebateu: “Seja qual for a medidaa<strong>do</strong>tada pelo governo, há um lí<strong>de</strong>r empresarial que sempre reclama <strong>do</strong>s juros. Tem uma verda<strong>de</strong>irafixação com o tema.” À margem da discussão, a Associação Brasileira das Indústrias <strong>de</strong> Base(Abdib) elogiou a nova política, pedin<strong>do</strong> apenas cuida<strong>do</strong> com sua gestão, pois as medidas envolvem<strong>de</strong>cisões <strong>de</strong> 35 órgãos públicos. “O <strong>de</strong>safio, agora, é instituir um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> gestão e controlecentraliza<strong>do</strong> e ágil para acompanhar o cumprimento das metas”, prevê a entida<strong>de</strong>. Um bomconselho foi da<strong>do</strong> pelo empresário Jorge Gerdau Johannpeter. “Sem cobrança <strong>de</strong> chefe, nada vaipara a frente”, disse Gerdau, dan<strong>do</strong> a enten<strong>de</strong>r que Luciano Coutinho <strong>de</strong>veria ser o responsável peloêxito <strong>do</strong> pacote. Coutinho seria o “pai da política industrial”, assim como a ministra Dilma Rousseffé a “mãe <strong>do</strong> PAC”.Isto’éUm pacote <strong>de</strong> bonda<strong>de</strong>s20/05/<strong>2008</strong>A criação <strong>de</strong> um "fun<strong>do</strong> soberano" e o lançamento <strong>de</strong> medidas para incentivar a indústriasão as apostas <strong>do</strong> governo na economia
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>127Incentivo: a indústria automobilística foi umas das beneficiadas peloplanoO Brasil já experimentou diversas políticas industriais nas últimas seis décadas, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> queGetúlio Vargas criou, nos anos 40, empresas como a Companhia Si<strong>de</strong>rúrgica Nacional e aCompanhia Vale <strong>do</strong> Rio Doce. Houve <strong>de</strong>pois os <strong>do</strong>is ciclos <strong>de</strong> substituição <strong>de</strong> importações,primeiro com o Plano <strong>de</strong> Metas <strong>de</strong> Juscelino Kubitschek, <strong>de</strong> 1956, e mais tar<strong>de</strong> no governo militar(1964-1985). Tais iniciativas <strong>de</strong>ixaram um lega<strong>do</strong> misto. Elas produziram alguns <strong>do</strong>s efeitosalmeja<strong>do</strong>s, mas custaram rios <strong>de</strong> dinheiro <strong>do</strong> contribuinte na forma <strong>de</strong> incentivos e subsídios.Agora, mais uma vez, o governo tenta emplacar uma nova e bem mais mo<strong>de</strong>sta política industrial naforma <strong>de</strong> um plano chama<strong>do</strong> Política <strong>de</strong> Desenvolvimento Produtivo (PDP). O objetivo das medidasanunciadas na semana passada é incentivar as exportações e ampliar a capacida<strong>de</strong> produtiva <strong>do</strong> país.Como as iniciativas <strong>do</strong> passa<strong>do</strong>, a atual vai atingir alguns <strong>do</strong>s objetivos e custará rios <strong>de</strong> dinheiroaos contribuintes na forma <strong>de</strong> renúncia fiscal e crédito subsidia<strong>do</strong>.A boa notícia é que, <strong>de</strong>sta vez, apesar <strong>de</strong> o financiamento ser público, quase to<strong>do</strong> oinvestimento previsto será feito pela iniciativa privada. O PDP traz reduções <strong>de</strong> impostos e diminui,ainda que timidamente, a burocracia enfrentada pelos exporta<strong>do</strong>res. O alicerce <strong>do</strong> pacote será aampliação <strong>do</strong>s <strong>de</strong>sembolsos <strong>do</strong> Banco Nacional <strong>de</strong> Desenvolvimento Econômico e Social(BNDES), que <strong>de</strong>verão totalizar 210 bilhões <strong>de</strong> reais até 2010. Como se sabe, o BNDES é a únicafonte <strong>de</strong> crédito farto e barato à disposição das companhias. Um empresário com acesso ao crédito<strong>do</strong> banco estatal pagará agora apenas 8% ao ano <strong>de</strong> juros – abaixo, portanto, da taxa básica <strong>de</strong> juros(11,75%). O mesmo empresário que recorresse ao sistema bancário priva<strong>do</strong> pagaria peloempréstimo a taxa básica <strong>de</strong> juros mais cerca <strong>de</strong> 15%, totalizan<strong>do</strong> acima <strong>de</strong> 26% ao ano.Uma das críticas, no entanto, é que o governo centralizou em si a <strong>de</strong>cisão sobre quais setoresestimular. Afirma Maurício Canê<strong>do</strong>, pesquisa<strong>do</strong>r da Fundação Getulio Vargas e um <strong>do</strong>s autores <strong>do</strong>ensaio "Por que o Brasil não precisa <strong>de</strong> uma política industrial": "Eleger setores para receberincentivos fiscais e subsídios po<strong>de</strong> trazer uma vantagem competitiva artificial, além <strong>de</strong> onerar asáreas que não foram contempladas". O economista Gustavo Loyola, sócio da consultoriaTendências, concorda: "Essas medidas têm efeitos diluí<strong>do</strong>s no tempo e no espaço. O i<strong>de</strong>al seriabeneficiar to<strong>do</strong>s ao mesmo tempo". Para Loyola, a questão é que o governo "sofre <strong>de</strong>hiperativida<strong>de</strong>: lança muitos pacotes e medidas isoladas, que no fun<strong>do</strong> não vão resolver osproblemas estruturais". O pacote foi bombar<strong>de</strong>a<strong>do</strong> até mesmo pelo fogo amigo. "A melhor políticaindustrial que o Brasil po<strong>de</strong> oferecer a to<strong>do</strong>s os empreendimentos é infra-estrutura logística", disse ovice-presi<strong>de</strong>nte José Alencar. "Precisamos <strong>de</strong> portos, <strong>de</strong> armazenagem, <strong>de</strong> aeroportos, <strong>de</strong> estradas<strong>de</strong> ferro, <strong>de</strong> hidrovias, <strong>de</strong> obras capazes <strong>de</strong> fazer com que o Brasil cresça sem atropelo, semgargalos."A outra medida anunciada foi a criação <strong>do</strong> Fun<strong>do</strong> Soberano <strong>do</strong> Brasil, classifica<strong>do</strong> peloministro da Fazenda, Gui<strong>do</strong> Mantega, como um "cofrinho" em que o país <strong>de</strong>positará parte <strong>de</strong> suaseconomias <strong>de</strong> mo<strong>do</strong> que possa se valer <strong>de</strong>las em tempos mais bicu<strong>do</strong>s. Esse fun<strong>do</strong>, que será abertono exterior, terá duas funções. A primeira é ajudar a enxugar um pouco a liqui<strong>de</strong>z <strong>de</strong> dólares naeconomia e, assim, contribuir para a estabilida<strong>de</strong> cambial. A segunda é fiscal. O dinheiro não serágasto pelo governo, mas usa<strong>do</strong> para financiar a internacionalização <strong>de</strong> empresas. Por inusitada, ainiciativa recebeu críticas <strong>de</strong> to<strong>do</strong>s os la<strong>do</strong>s. A mais recorrente foi a <strong>de</strong> que o Brasil não dispõe <strong>de</strong>sal<strong>do</strong>s gran<strong>de</strong>s o bastante para justificar a criação <strong>de</strong> um fun<strong>do</strong>. A maioria <strong>do</strong>s analistas diz que
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>128seria mais apropria<strong>do</strong> usar esses recursos para amortizar parte da dívida pública e, assim, reduzir ataxa <strong>de</strong> juros. Mantega contra-argumenta que a criação <strong>do</strong> fun<strong>do</strong> é uma forma <strong>de</strong> economizar e <strong>de</strong>investir que, ao fim e ao cabo, terá efeitos ainda mais positivos sobre as contas públicas – com avantagem adicional <strong>de</strong> ser bem mais palatável politicamente.Revista VejaA CONSTITUIÇÃO E OS PORTOS29/05/<strong>2008</strong>As operações portuárias públicas são realizadas por terminais opera<strong>do</strong>s por concessionáriospriva<strong>do</strong>s, mediante licitação. Os concessionários obrigam-se a cobrar preços módicos e tratar <strong>de</strong>mo<strong>do</strong> igual os usuários. Sujeitam-se a controle rigoroso e pagam à União importâncias elevadaspara a obtenção e a manutenção das concessões. Realizam investimentos vultosos para recuperar eampliar as instalações portuárias, que revertem à União.Em <strong>de</strong>z anos, mais <strong>de</strong> um bilhão <strong>de</strong> dólares foram investi<strong>do</strong>s em terminais públicos <strong>de</strong>contêineres. Três <strong>de</strong>les captaram, no merca<strong>do</strong> <strong>de</strong> ações, mais <strong>de</strong> 2,5 bilhões <strong>de</strong> reais para aplicar naexpansão futura da infra-estrutura. A movimentação <strong>de</strong> contêineres no Brasil quintuplicou e ocomércio exterior passou <strong>de</strong> 100 bilhões para 280 bilhões <strong>de</strong> dólares. Criou-se um merca<strong>do</strong> comampla competição: entre portos, entre terminais e no âmbito das várias licitações.A concessão <strong>de</strong> terminais públicos é o instrumento para atrair a iniciativa privada para o setorportuário, manten<strong>do</strong> o controle público. A Constituição (art. 21, XII, f) atribuiu à União acompetência para explorar os portos, por sua relevância econômica e pela soberania nacional.Previu a licitação como obrigatória (art. 175). A criação <strong>de</strong> terminais privativos com função <strong>de</strong>terminais públicos sem prévia licitação é inconstitucional.A finalida<strong>de</strong> legal <strong>do</strong>s terminais privativos é movimentar carga própria e, acessoriamente, <strong>de</strong>terceiros. Não há serviço público, mas satisfação <strong>de</strong> interesse priva<strong>do</strong>, daí caber a autorização <strong>do</strong>art. 21, XII, da Constituição. A prestação <strong>de</strong> serviços ao público em geral exige concessão e prévialicitação.Os terminais privativos prestam serviço priva<strong>do</strong>. Po<strong>de</strong>m eliminar ou reduzir a movimentação<strong>de</strong> <strong>de</strong>terminadas merca<strong>do</strong>rias. Po<strong>de</strong>m interromper a sua operação ou estabelecer privilégios entre osusuários. O investimento reverte em ganho para o investi<strong>do</strong>r, não para o patrimônio público.Admitir que terminais privativos prestem serviços públicos é subordinar o interesse da naçãobrasileira ao capital priva<strong>do</strong>.A competição <strong>de</strong>ve ser ampliada sem a criação <strong>de</strong> terminais privativos. Não cabe acompetição entre terminais com regras diferentes, levan<strong>do</strong> os terminais públicos à insolvência. Alicitação prévia garante a concorrência no acesso ao setor portuário e impe<strong>de</strong> a cartelização.O Brasil e to<strong>do</strong>s os países civiliza<strong>do</strong>s preservam o controle público sobre seus portos.Generalizar os terminais privativos levará o país à condição única <strong>de</strong> eliminar os portos públicos. Opior será seu provável controle pelo capital estrangeiro. A privatização indiscriminada <strong>do</strong>s portos éo primeiro passo na sua alienação para os arma<strong>do</strong>res multinacionais.A busca <strong>de</strong> investimentos e a expansão <strong>do</strong> setor portuário são realizáveis no mo<strong>de</strong>lo atual. Aexpansão da capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> tão-somente da licitação <strong>de</strong> novos terminais públicos e <strong>do</strong>aperfeiçoamento <strong>do</strong> marco regulatório, a<strong>de</strong>quan<strong>do</strong> os portos aos navios <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> porte. O que nãopo<strong>de</strong>mos é alienar a soberania nacional.O Globo
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>129Governo prevê US$1 bi com Fun<strong>do</strong> Amazônia01/06/<strong>2008</strong>Recursos internacionais estão condiciona<strong>do</strong>s a compromisso brasileiro <strong>de</strong> diminuir índice<strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamentoO governo brasileiro espera arrecadar US$1 bilhão já no primeiro ano <strong>de</strong> existência <strong>do</strong> Fun<strong>do</strong>Amazônia, que será cria<strong>do</strong> para receber verbas <strong>de</strong>stinadas à proteção da Amazônia. O fun<strong>do</strong>,anuncia<strong>do</strong> anteontem pelo ministro <strong>do</strong> Meio Ambiente, Carlos Minc, estará condiciona<strong>do</strong> aocompromisso brasileiro <strong>de</strong> diminuir os índices <strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamento. Quanto mais o Brasil reduzir aemissão <strong>de</strong> gás carbônico gera<strong>do</strong> pelo <strong>de</strong>smatamento e pelas queimadas, maior o volume <strong>de</strong>recursos a serem <strong>do</strong>a<strong>do</strong>s pelos governos, entida<strong>de</strong>s privadas e ONGs estrangeiras e nacionais.Primeira parceria será firmada hoje com a NoruegaO diretor <strong>do</strong> Programa Nacional <strong>de</strong> Florestas <strong>do</strong> Ministério <strong>do</strong> Meio Ambiente, TassoAzeve<strong>do</strong>, <strong>de</strong>ve fechar hoje a primeira parceria <strong>do</strong> Fun<strong>do</strong> Amazônia, com o governo da Noruega,que <strong>do</strong>ará US$100 milhões. Azeve<strong>do</strong> reúne-se hoje com o primeiro-ministro da Noruega, JensStoltenberg, em Oslo, para selar o compromisso. Dirigentes <strong>de</strong> ONGs norueguesas tambémparticiparão <strong>do</strong> encontro.Em Bonn, na Alemanha, a chanceler alemã Angela Merkel anunciou ontem, durante aConvenção sobre Biodiversida<strong>de</strong> da ONU, que seu governo <strong>de</strong>veria liberar 500 milhões até 2012para a proteção das florestas no mun<strong>do</strong>. Foi o segun<strong>do</strong> país, <strong>de</strong>pois da Noruega, a anunciar umaposição que po<strong>de</strong> servir <strong>de</strong> exemplo aos <strong>de</strong>mais países <strong>do</strong> G8 (grupo <strong>do</strong>s sete países mais ricos maisa Russia). A Noruega resolveu <strong>de</strong>stinar 2,5 bilhões <strong>de</strong> euros obti<strong>do</strong>s com o petróleo parainvestimentos <strong>de</strong> preservação <strong>de</strong> florestas.— O dinheiro <strong>de</strong>stina<strong>do</strong> ao Brasil será utiliza<strong>do</strong> em ações <strong>de</strong> combate ao <strong>de</strong>smatamento, napromoção da conservação e <strong>do</strong> manejo sustentável da floresta — disse Tasso Azeve<strong>do</strong>, por telefone,<strong>de</strong> Oslo.O Fun<strong>do</strong> Amazônia será administra<strong>do</strong> pelo BNDES e por um conselho gestor responsável por<strong>de</strong>finir as diretrizes <strong>de</strong> aplicação <strong>do</strong> dinheiro. O presi<strong>de</strong>nte Luiz Inácio Lula da Silva assinará o<strong>de</strong>creto que cria o fun<strong>do</strong> no próximo dia 5. A proposta da criação foi apresentada na 13ªConferência <strong>do</strong> Clima, em Bali, na In<strong>do</strong>nésia, em <strong>de</strong>zembro <strong>do</strong> ano passa<strong>do</strong>, e anunciada pela exministraMarina Silva.Luciano Coutinho: Brasil quer <strong>do</strong>ações expressivasNo Rio, o presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> BNDES, Luciano Coutinho, disse que o diretor da área <strong>de</strong>planejamento <strong>do</strong> banco, João Carlos Ferraz, também está em Oslo negocian<strong>do</strong> a primeira <strong>do</strong>açãopara esse fun<strong>do</strong> que, segun<strong>do</strong> ele, po<strong>de</strong>rá chegar a US$200 milhões.— O fun<strong>do</strong> está em processo <strong>de</strong> estruturação porque o Brasil quer receber <strong>do</strong>açõesexpressivas — afirmou Coutinho.Tasso Azeve<strong>do</strong> disse que as contribuições voluntárias para Fun<strong>do</strong> Amazônia po<strong>de</strong>rão serfeitas por pessoas físicas.Minc está em Bonn participan<strong>do</strong> da Convenção sobre Diversida<strong>de</strong> Biológica e buscarárecursos para o programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa), com o qual governos estrangeirosjá colaboram. Hoje, Minc falará na conferência, em seu primeiro gran<strong>de</strong> evento internacional comoministro.O Globo
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>130Clima ameaça potencial energético <strong>do</strong> país03/06/<strong>2008</strong>Segun<strong>do</strong> Coppe, aquecimento global vai reduzir vazão <strong>do</strong> Rio Ma<strong>de</strong>ira, on<strong>de</strong> duashidrelétricas serão construídasA região Norte está na mira <strong>do</strong> governo. É <strong>de</strong> lá que a Empresa <strong>de</strong> Pesquisa Energética (EPE)preten<strong>de</strong> extrair 70% <strong>do</strong> potencial hidrelétrico <strong>do</strong> país. A licitação das duas usinas <strong>do</strong> Complexo <strong>do</strong>Rio Ma<strong>de</strong>ira (Santo Antônio e Jirau) <strong>de</strong>rrubou a fronteira amazônica para a construção <strong>de</strong> gran<strong>de</strong>sempreendimentos energéticos na região.Somadas, as duas usinas terão capacida<strong>de</strong> para gerar 6.540 MW <strong>de</strong> potência. Só que ogoverno esqueceu <strong>de</strong> contemplar os potenciais impactos das mudanças climáticas no sistemaenergético brasileiro e não simulou eventual perda <strong>de</strong> vazão (a quantida<strong>de</strong> média anual <strong>de</strong> água queaflui para as usinas) nos reservatórios projeta<strong>do</strong>s para a região.Pelos cálculos apresenta<strong>do</strong>s no estu<strong>do</strong> "Mudanças Climáticas e Segurança Energética noBrasil", essa perda po<strong>de</strong>rá chegar a 15% nas duas usinas. O trabalho, <strong>de</strong> autoria <strong>de</strong> RobertoSchaeffer e Alexandre Szklo, ambos da Coppe/UFRJ, é o primeiro que cruza variáveis ambientaiscom o Plano Nacional <strong>de</strong> Energia 2030, produzi<strong>do</strong> pela EPE.Bacia <strong>do</strong> São Francisco po<strong>de</strong> per<strong>de</strong>r até 26,4% <strong>de</strong> vazãoO estu<strong>do</strong> será apresenta<strong>do</strong> hoje ao diretor-geral da Agência Nacional <strong>de</strong> Energia Elétrica(Aneel), Jerson Kelman, e ao presi<strong>de</strong>nte da EPE, Maurício Tolmasquim.Schaeffer e Szklo pinçaram <strong>do</strong> Relatório Especial sobre Cenários <strong>de</strong> Emissões, <strong>do</strong> PainelIntergovernamental <strong>de</strong> Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês), as variáveis ambientais queutilizaram para simular impactos futuros no planejamento energético brasileiro. Eles usaram <strong>do</strong>iscenários: um <strong>de</strong> baixas emissões <strong>de</strong> gases <strong>de</strong> efeito estufa e, portanto, mais otimista (1); e outro, <strong>de</strong>altas emissões <strong>de</strong> gases <strong>de</strong> efeito estufa, que ten<strong>de</strong> a elevar enormemente a temperatura da Terra, ouseja, mais pessimista (2).- Ainda que não tenhamos simula<strong>do</strong> a bacia <strong>do</strong> Rio Ma<strong>de</strong>ira, simulamos a <strong>do</strong> Tocantins-Araguaia, que guarda enormes semelhanças. Nos <strong>do</strong>is cenários, a perda <strong>de</strong> energia ten<strong>de</strong> a ser maiorao longo <strong>do</strong> tempo <strong>do</strong> que os 15% projeta<strong>do</strong>s como perda <strong>de</strong> vazão nos reservatórios - admitiuSchaeffer.Apesar <strong>do</strong>s impactos previstos para o Norte, o Nor<strong>de</strong>ste será a região mais afetada. A queda<strong>de</strong> vazão po<strong>de</strong>rá sofrer uma redução média <strong>de</strong> 8,6% no cenário 1 e <strong>de</strong> 10,8%, no 2. As usinas maisafetadas, segun<strong>do</strong> o estu<strong>do</strong>, seriam as da bacia <strong>do</strong> São Francisco, que registrariam uma queda <strong>de</strong>23,4% no cenário mais pessimista e <strong>de</strong> 26,4%, no cenário mais otimista.- A se confirmarem essas quedas <strong>de</strong> vazão média, haveria efeitos negativos na produção total<strong>de</strong> energia média gerada pelas hidrelétricas, que cairia 1% no cenário 1 e 2,2% no cenário 2 -comentou Schaeffer, acrescentan<strong>do</strong> que o efeito mais acentua<strong>do</strong> seria nas usinas <strong>do</strong> rio SãoFrancisco, on<strong>de</strong> a produção <strong>de</strong> energia po<strong>de</strong>ria cair até 7,7%.Mesmo contan<strong>do</strong> com um banco <strong>de</strong> da<strong>do</strong>s <strong>de</strong> 77 anos, os autores <strong>do</strong> trabalho estãoconvenci<strong>do</strong>s <strong>de</strong> que a Aneel, a EPE, o Opera<strong>do</strong>r Nacional <strong>do</strong> Sistema Elétrico (ONS) e a AgênciaNacional <strong>de</strong> Águas (ANA) não po<strong>de</strong>m mais ignorar as variáveis ambientais para planejarenergeticamente o país.É que esses padrões <strong>de</strong> previsibilida<strong>de</strong> das chuvas brasileiras não são mais suficientes para ostempos mo<strong>de</strong>rnos. Os da<strong>do</strong>s históricos <strong>de</strong> chuva no Brasil vêm sen<strong>do</strong> acumula<strong>do</strong>s <strong>de</strong>s<strong>de</strong> 1931.Fontes alternativas também sofrerão impacto climáticoAté as fontes alternativas <strong>de</strong> energia serão afetadas pela mudança <strong>do</strong> clima. É que, se, por umla<strong>do</strong>, as fontes renováveis são uma saída para abrandar os efeitos da mudança <strong>do</strong> clima; <strong>de</strong> outro,
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>131por serem fontes <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes das condições climáticas, estão potencialmente sujeitas a impactos <strong>do</strong>próprio fenômeno que preten<strong>de</strong>m evitar.- Uma parte <strong>de</strong>sses efeitos negativos sobre a produção <strong>de</strong> matérias-primas para o biodiesel noNor<strong>de</strong>ste po<strong>de</strong>rá ser compensada pela abertura <strong>de</strong> novas áreas <strong>de</strong> cultivo no Sul - avaliou.Schaeffer comentou que a cana-<strong>de</strong>-açúcar para produção <strong>de</strong> álcool não sofrerá impactosrelevantes, já que é uma planta que tolera altas temperaturas, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> que haja mais umida<strong>de</strong> no solo,através <strong>de</strong> irrigação ou chuva.Já a produção <strong>de</strong> biodiesel po<strong>de</strong> ser negativamente afetada pela mudança <strong>do</strong> clima, sobretu<strong>do</strong>no Nor<strong>de</strong>ste, on<strong>de</strong> algumas áreas po<strong>de</strong>m se tornar ina<strong>de</strong>quadas para o cultivo <strong>de</strong> oleaginosas como amamona e a soja. O estu<strong>do</strong> não chegou a quantificar, como fez no caso das hidrelétricas, umaeventual redução da produção provocada pela mudança <strong>do</strong> clima.- Só que a incerteza embutida na projeção das vulnerabilida<strong>de</strong>s <strong>do</strong> setor <strong>de</strong> energia no Brasilàs mudanças climáticas não é razão para que o país <strong>de</strong>ixe <strong>de</strong> se preparar para elas - concluiuSchaeffer.O GloboGoverno prevê US$1 bi com Fun<strong>do</strong> Amazônia29/05/<strong>2008</strong>Recursos internacionais estão condiciona<strong>do</strong>s a compromisso brasileiro <strong>de</strong> diminuir índice<strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamentoO governo brasileiro espera arrecadar US$1 bilhão já no primeiro ano <strong>de</strong> existência <strong>do</strong> Fun<strong>do</strong>Amazônia, que será cria<strong>do</strong> para receber verbas <strong>de</strong>stinadas à proteção da Amazônia. O fun<strong>do</strong>,anuncia<strong>do</strong> anteontem pelo ministro <strong>do</strong> Meio Ambiente, Carlos Minc, estará condiciona<strong>do</strong> aocompromisso brasileiro <strong>de</strong> diminuir os índices <strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamento. Quanto mais o Brasil reduzir aemissão <strong>de</strong> gás carbônico gera<strong>do</strong> pelo <strong>de</strong>smatamento e pelas queimadas, maior o volume <strong>de</strong>recursos a serem <strong>do</strong>a<strong>do</strong>s pelos governos, entida<strong>de</strong>s privadas e ONGs estrangeiras e nacionais.Primeira parceria será firmada hoje com a NoruegaO diretor <strong>do</strong> Programa Nacional <strong>de</strong> Florestas <strong>do</strong> Ministério <strong>do</strong> Meio Ambiente, TassoAzeve<strong>do</strong>, <strong>de</strong>ve fechar hoje a primeira parceria <strong>do</strong> Fun<strong>do</strong> Amazônia, com o governo da Noruega,que <strong>do</strong>ará US$100 milhões. Azeve<strong>do</strong> reúne-se hoje com o primeiro-ministro da Noruega, JensStoltenberg, em Oslo, para selar o compromisso. Dirigentes <strong>de</strong> ONGs norueguesas tambémparticiparão <strong>do</strong> encontro.Em Bonn, na Alemanha, a chanceler alemã Angela Merkel anunciou ontem, durante aConvenção sobre Biodiversida<strong>de</strong> da ONU, que seu governo <strong>de</strong>veria liberar 500 milhões até 2012para a proteção das florestas no mun<strong>do</strong>. Foi o segun<strong>do</strong> país, <strong>de</strong>pois da Noruega, a anunciar umaposição que po<strong>de</strong> servir <strong>de</strong> exemplo aos <strong>de</strong>mais países <strong>do</strong> G8 (grupo <strong>do</strong>s sete países mais ricos maisa Russia). A Noruega resolveu <strong>de</strong>stinar 2,5 bilhões <strong>de</strong> euros obti<strong>do</strong>s com o petróleo parainvestimentos <strong>de</strong> preservação <strong>de</strong> florestas.— O dinheiro <strong>de</strong>stina<strong>do</strong> ao Brasil será utiliza<strong>do</strong> em ações <strong>de</strong> combate ao <strong>de</strong>smatamento, napromoção da conservação e <strong>do</strong> manejo sustentável da floresta — disse Tasso Azeve<strong>do</strong>, por telefone,<strong>de</strong> Oslo.O Fun<strong>do</strong> Amazônia será administra<strong>do</strong> pelo BNDES e por um conselho gestor responsável por<strong>de</strong>finir as diretrizes <strong>de</strong> aplicação <strong>do</strong> dinheiro. O presi<strong>de</strong>nte Luiz Inácio Lula da Silva assinará o<strong>de</strong>creto que cria o fun<strong>do</strong> no próximo dia 5. A proposta da criação foi apresentada na 13ªConferência <strong>do</strong> Clima, em Bali, na In<strong>do</strong>nésia, em <strong>de</strong>zembro <strong>do</strong> ano passa<strong>do</strong>, e anunciada pela exministraMarina Silva.Luciano Coutinho: Brasil quer <strong>do</strong>ações expressivas
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>132No Rio, o presi<strong>de</strong>nte <strong>do</strong> BNDES, Luciano Coutinho, disse que o diretor da área <strong>de</strong>planejamento <strong>do</strong> banco, João Carlos Ferraz, também está em Oslo negocian<strong>do</strong> a primeira <strong>do</strong>açãopara esse fun<strong>do</strong> que, segun<strong>do</strong> ele, po<strong>de</strong>rá chegar a US$200 milhões.— O fun<strong>do</strong> está em processo <strong>de</strong> estruturação porque o Brasil quer receber <strong>do</strong>açõesexpressivas — afirmou Coutinho.Tasso Azeve<strong>do</strong> disse que as contribuições voluntárias para Fun<strong>do</strong> Amazônia po<strong>de</strong>rão serfeitas por pessoas físicas.Minc está em Bonn participan<strong>do</strong> da Convenção sobre Diversida<strong>de</strong> Biológica e buscarárecursos para o programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa), com o qual governos estrangeirosjá colaboram. Hoje, Minc falará na conferência, em seu primeiro gran<strong>de</strong> evento internacional comoministro.O GloboPETROBRAS: MAIS ÓLEO LEVE EM SANTOS30/05/<strong>2008</strong>Jazida em águas rasas da bacia tem potencial <strong>de</strong> 12 mil barris por poçoA Petrobras anunciou mais uma <strong>de</strong>scoberta <strong>de</strong> petróleo leve na Bacia <strong>de</strong> Santos, <strong>de</strong>sta vez emáguas rasas, <strong>de</strong> mais fácil extração que as jazidas recentemente anunciadas na camada pré-sal. Aempresa não divulgou avaliações sobre reservas, mas afirmou que estima uma produção <strong>de</strong> mais <strong>de</strong>12 mil barris diários por poço. O petróleo leve tem mais valor comercial. O Brasil hoje exporta óleopesa<strong>do</strong> e importa o leve.
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Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>135Os indícios <strong>de</strong> petróleo foram i<strong>de</strong>ntifica<strong>do</strong>s no poço 1-SPS-56 (bloco S-40), a cerca <strong>de</strong> 275quilômetros ao sul da cida<strong>de</strong> <strong>de</strong>Santos. A profundida<strong>de</strong> <strong>do</strong> poço é<strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 2.080 metros. No présal,em geral, os poços têmprofundida<strong>de</strong> abaixo <strong>de</strong> 5 milmetros. A Petrobras éconcessionária exclusiva <strong>do</strong>bloco.— Não sabemos se aprodução será maior que a <strong>de</strong>Tupi. O positivo é que o petróleoé leve e está em águas rasas, que<strong>de</strong>manda uma tecnologia barata eque a Petrobras <strong>do</strong>mina — dizAdriano Pires, <strong>do</strong> CentroBrasileiro <strong>de</strong> Infra-Estrutura.Em El Salva<strong>do</strong>r, on<strong>de</strong>estava para um encontroempresarial, o presi<strong>de</strong>nte LuizInácio Lula da Silva falou com osjornalistas sobre a <strong>de</strong>scoberta, pouco antes <strong>de</strong> <strong>de</strong>colar para o Brasil:— Uma terceira notícia boa, e que falta apenas <strong>de</strong>marcar a quantida<strong>de</strong>, é que encontramosmais petróleo hoje, entre São Paulo e mais ou menos Paraná. Deus resolveu passar no Brasil e ficar.Não foi embora. Estou feliz — afirmou o presi<strong>de</strong>nte, que citou ainda o grau <strong>de</strong> investimentoconcedi<strong>do</strong> pela Fitch e o fun<strong>do</strong> soberano.O GloboNão basta ter dinheiro15/06/<strong>2008</strong>O Brasil está se tornan<strong>do</strong> um país mais rico, se não a passos chineses, ao menos em ritmomais acelera<strong>do</strong> <strong>do</strong> que foi possível ao longo das décadas <strong>de</strong> 80 e 90. De quem são os méritos pelocrescimento mais acelera<strong>do</strong> - se <strong>de</strong>ste ou <strong>do</strong> governo anterior - é uma questão aberta à disputapolítica. Não é esse, porém, o ponto <strong>de</strong>ste artigo.In<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente <strong>de</strong> quem tenha a maior parte <strong>do</strong>s méritos, questão que à maioria daspessoas interessa pouco, há um consenso relativamente estabeleci<strong>do</strong> <strong>de</strong> que forças estruturaisconspiram a nosso favor. Em especial uma alta <strong>de</strong>manda global por bens <strong>do</strong>s quais somosprodutores competitivos, principalmente commodities agropecuárias, minerais e agora, comimpulso cada vez maior e perspectivas cada vez melhores, energéticas (etanol e petróleo).As recentes <strong>de</strong>scobertas da Petrobrás no litoral su<strong>de</strong>ste <strong>do</strong> País, em águas ultraprofundas,reforçam as percepções positivas sobre a evolução futura <strong>de</strong> nossa economia. As estimativas sobreas reservas <strong>de</strong> petróleo <strong>do</strong>s Campos <strong>de</strong> Tupi, Júpiter e Carioca apontam para um aumento <strong>de</strong> duas atrês vezes <strong>do</strong> total <strong>de</strong> reservas petrolíferas <strong>do</strong> País. Os recursos fiscais potencialmente <strong>de</strong>correntesda exploração <strong>de</strong>sses campos, no prazo <strong>de</strong> 10 a 15 anos, po<strong>de</strong>rão representar um acréscimo <strong>de</strong>receitas públicas bastante superiores às que se obtinham com a CPMF. Não menores serão asoportunida<strong>de</strong>s para o investimento priva<strong>do</strong>, seja na exploração, se não houver retrocessos no regimeregulatório, seja nas múltiplas ativida<strong>de</strong>s industriais e <strong>de</strong> serviços ligadas à produção <strong>de</strong> petróleo.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>136Digo tu<strong>do</strong> isso para concluir que a disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> recursos fiscais e externos <strong>de</strong>ixou <strong>de</strong>ser, ao que tu<strong>do</strong> indica, uma restrição fundamental ao crescimento da nossa economia. E que o valoratribuí<strong>do</strong> às nossas riquezas economicamente exploráveis cresceu significativamente.Um país mais rico, muito bem. Quem não quer? A questão é se, além <strong>de</strong> um país mais rico,seremos uma socieda<strong>de</strong> melhor e mais justa. Isso <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> menos da nossa “guerra” para abrirmerca<strong>do</strong>s para nossos produtos no exterior, como o etanol, o que é, sem dúvida, muito importante, emais da nossa capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> combater os nossos próprios inimigos internos: a <strong>de</strong>sorganização <strong>do</strong>Esta<strong>do</strong>, a <strong>de</strong>smoralização da vida política, a dificulda<strong>de</strong> <strong>de</strong> fazer valer o império da lei.A literatura sobre <strong>de</strong>senvolvimento político mostra que a corrupção ten<strong>de</strong> a aumentar on<strong>de</strong> equan<strong>do</strong> a riqueza pública e privada aumenta sem que, ao mesmo tempo, as instituições jurídicas epolíticas se fortaleçam. E mais ainda se, além <strong>de</strong> instituições insuficientemente fortes para regular econtrolar a alocação e distribuição <strong>de</strong>ssas “novas riquezas”, se tem um Esta<strong>do</strong> que amplia a suaintervenção na vida econômica e social <strong>de</strong> mo<strong>do</strong> discricionário, ou seja, ao gosto <strong>do</strong>s governos <strong>de</strong>turno, e não sob o crivo <strong>de</strong> normas claras.Foi assim nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s <strong>do</strong>s “robber barons” (os barões ladrões das concessões <strong>de</strong>estrada <strong>de</strong> ferro e outros negócios <strong>de</strong> infra-estrutura, entre o final <strong>do</strong> século 19 e o começo <strong>do</strong> século20). Continua a ser assim na Rússia <strong>de</strong> hoje, embora os beneficiários <strong>do</strong> po<strong>de</strong>r tenham si<strong>do</strong> uns comYeltsin (os oligarcas que fizeram fortunas com as privatizações “selvagens”) e outros com Putin (ossilovikis, membros das forças <strong>de</strong> segurança, e seus alia<strong>do</strong>s).A socieda<strong>de</strong> norte-americana conseguiu, ao longo da primeira meta<strong>de</strong> <strong>do</strong> século 20, criar oufortalecer instituições que <strong>de</strong>marcaram com maior niti<strong>de</strong>z o terreno <strong>do</strong> legal e <strong>do</strong> ilegal nosnegócios públicos, nos negócios priva<strong>do</strong>s e na intercessão <strong>de</strong> ambos, um processo que não terminanunca, como se viu agora com a marcha à ré da dupla Bush-Cheney e os escândalos corporativos,como o da Enron.O Brasil não é os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s no final <strong>do</strong> século 19, começo <strong>do</strong> século 20. É um paísinstitucionalmente mais <strong>de</strong>senvolvi<strong>do</strong> <strong>do</strong> que eram os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s <strong>de</strong> então. Ainda assim, ossinais são preocupantes: a associação entre política, negócios e, não raro, negócios ilícitos, comramificações criminosas, assusta pela freqüência, extensão e profundida<strong>de</strong>.A boa notícia é que o sistema imunológico da socieda<strong>de</strong> brasileira - instituições construídasou fortalecidas ao longo <strong>do</strong>s últimos 20 anos, como o Ministério Público e a Polícia Fe<strong>de</strong>ral -começa a reagir. Falta dar conseqüência prática cabal a essas iniciativas, o que passa poraperfeiçoamentos na legislação penal, no que também não estamos para<strong>do</strong>s. Dos governos se esperaque não passem a mão na cabeça <strong>de</strong> “alopra<strong>do</strong>s”, que respeitem a autonomia das agênciasregulatórias e não se metam a fazer ou facilitar negócios em nome <strong>do</strong> interesse público. Dosparti<strong>do</strong>s, que façam seleção mais criteriosa <strong>de</strong> seus candidatos e punam os “seus” quan<strong>do</strong> for o caso.Do Congresso, a mesma coisa, quanto à punição.Da socieda<strong>de</strong>, em especial da chamada elite, se espera o rechaço a condutas ilegais. Não éessa a nossa tradição. Desconhecemos a noção <strong>de</strong> vergonha tão presente nas socieda<strong>de</strong>s asiáticas, aponto <strong>de</strong> levar executivos e políticos flagra<strong>do</strong>s em corrupção a cometer atos <strong>de</strong> suicídio ou <strong>de</strong>contrição pública. Desconhecemos também a noção <strong>de</strong> culpa perante Deus e a comunida<strong>de</strong>,presente no protestantismo e reforçada pelo regramento jurídico em países anglo-saxões, como osEsta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s. A falta <strong>de</strong> “tradição” não é, porém, <strong>de</strong>sculpa nem obstáculo.Pregação moralista? Não. A corrupção não é “apenas” uma questão moral. Ela <strong>de</strong>svia recursos<strong>de</strong> ativida<strong>de</strong>s economicamente mais produtivas, cria incentivos a comportamentos oportunistas e éconcentra<strong>do</strong>ra <strong>de</strong> renda. Além disso, quan<strong>do</strong> não coibida, por premiar a “esperteza” e <strong>de</strong>smoralizara universalida<strong>de</strong> das leis, <strong>de</strong>strói a legitimida<strong>de</strong> da <strong>de</strong>mocracia e a própria noção <strong>de</strong> justiça, sem asquais não po<strong>de</strong> haver “boa socieda<strong>de</strong>”.Mais recursos teremos. Saberemos utilizá-los bem?O Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> SãoPaulo
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>137Desenvolvimento sustentável é abstração15/06/<strong>2008</strong>Ambientalistas radicais se acautelem: o ministro quer <strong>de</strong>sfolhar a tese <strong>de</strong> que a Amazôniaseja preservada como santuário <strong>de</strong> árvores, rios, bichos e humanos sem perspectivasQuem entra no gabinete <strong>do</strong> ministro <strong>de</strong> Assuntos Estratégicos, o filósofo e jurista RobertoMangabeira Unger, <strong>de</strong>para-se com a solene reprodução <strong>de</strong> um retrato <strong>de</strong> José Bonifácio <strong>de</strong> Andradae Silva, o Patriarca da In<strong>de</strong>pendência, emoldurada em <strong>do</strong>ura<strong>do</strong> e pendurada no salão <strong>de</strong> <strong>de</strong>spachosem estilo clean. Não se trata <strong>de</strong> i<strong>do</strong>latria confessa, mas <strong>de</strong> um daqueles presentes <strong>de</strong> grego com queparlamentares costumam brindar ministros recém-empossa<strong>do</strong>s. Respeitável conhece<strong>do</strong>r <strong>de</strong> história<strong>do</strong> Brasil, o ministro explica com o sotaque americaniza<strong>do</strong> que a infância vivida nos Esta<strong>do</strong>sUni<strong>do</strong>s colou in<strong>de</strong>levelmente na sua biografia: “Não faça comparações. Este aí teve po<strong>de</strong>res quaseditatoriais no Império. Eu não tenho po<strong>de</strong>r algum”.O futuro dirá. Neto <strong>de</strong> um célebre político baiano, o governa<strong>do</strong>r Octávio Mangabeira,professor titular <strong>de</strong> Direito em Harvard e consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong> brilhante pensa<strong>do</strong>r <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> jurídicoamericano, Mangabeira Unger, 61 anos, confessou algo pessoal nesta entrevista ao Aliás: sente-sefeliz. Graças ao convite <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte Lula, feito em outubro <strong>do</strong> ano passa<strong>do</strong>, para assumir umapasta ministerial <strong>de</strong>votada a projetos <strong>de</strong> longo prazo, conseguiu finalmente espaço institucional (emeios) para <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r idéias pelas quais batalha há décadas. Como a <strong>de</strong> que o Brasil precisa criar umnovo mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento, jogan<strong>do</strong> fora o formulário <strong>de</strong> soluções importadas e <strong>de</strong>sistin<strong>do</strong>da idéia <strong>de</strong> ser uma “Suécia tropical”. A felicida<strong>de</strong> é tanta que o ministro parece uma parabólica,antenan<strong>do</strong> to<strong>do</strong>s os setores da vida nacional. Fala <strong>de</strong> meio ambiente, educação, política, trabalho,agricultura. Com idéias para tu<strong>do</strong>, mais parece um organiza<strong>do</strong>r-geral da Nação. Sobre aquele que jáfoi alvo <strong>de</strong> suas críticas mais ácidas, faz outra revelação: “Ousaria dizer que o presi<strong>de</strong>nte tem ti<strong>do</strong>tolerância crescente comigo...” E <strong>de</strong>sata a rir. Também aprecia o senso <strong>de</strong> humor <strong>de</strong> Lula.Mangabeira Unger filosofa alto, mas traduz idéias quase ao rés <strong>do</strong> didatismo. Sabe que correcontra o relógio - tanto pelo que resta <strong>do</strong> segun<strong>do</strong> mandato <strong>de</strong> Lula quanto pelo fato <strong>de</strong> tocar umministério que pisa em campos mina<strong>do</strong>s. Seu maior <strong>de</strong>safio, hoje, é a coor<strong>de</strong>nação <strong>do</strong> PlanoAmazônia Sustentável, o PAS, que teria <strong>de</strong>sperta<strong>do</strong> a mágoa <strong>de</strong>rra<strong>de</strong>ira <strong>de</strong> Marina Silva, levan<strong>do</strong>-aa aban<strong>do</strong>nar o Ministério <strong>do</strong> Meio Ambiente há um mês. “Não tinha senti<strong>do</strong> o PAS ficar numministério setorial, como o <strong>de</strong> Marina. Mas sempre nos <strong>de</strong>mos tão bem, por que ela <strong>de</strong>cidiu sair?”,indaga um inconforma<strong>do</strong> Mangabeira Unger, bem menos enfático em relação ao sucessor daministra, Carlos Minc. “Eu o conheci agora, estamos conversan<strong>do</strong>.”Seu pensamento gira em torno <strong>de</strong> um feixe <strong>de</strong> convicções, entre elas, a <strong>de</strong> que é preciso crerna vitalida<strong>de</strong> brasileira - “isso é revolucionário”, sublinha - e apostar na posição <strong>de</strong> <strong>de</strong>staque que oBrasil terá no mun<strong>do</strong>. Chega a dizer que o País será, fatalmente, o parceiro preferencial <strong>do</strong>s Esta<strong>do</strong>sUni<strong>do</strong>s. De política americana, enten<strong>de</strong> um boca<strong>do</strong>, embora se mantenha discreto ao falar dacampanha eleitoral em curso. Sabe-se que Barak Obama foi seu aluno em Harvard, “um alunotalentoso, com qualida<strong>de</strong>s morais e intelectuais”, e que a amiza<strong>de</strong> perdura. Mas o ministro, que nãose diz político, her<strong>do</strong>u a esperteza <strong>do</strong> avô: “McCain também tem biografia respeitável”. Não é hora<strong>de</strong> <strong>de</strong>clarar favoritismos.Quan<strong>do</strong> esta entrevista chegar aos leitores, o senhor estará em viagem <strong>de</strong> trabalho pelaAmazônia, em pleno fim <strong>de</strong> semana. Sinal <strong>de</strong> que o PAS <strong>de</strong>colou?O PAS não é planilha. É um conjunto <strong>de</strong> diretrizes e compromissos, cuja implementação estásen<strong>do</strong> feita. Já per<strong>de</strong>mos muito tempo com essa guerra entre <strong>de</strong>senvolvimentistas e ambientalistas.Uma falsa guerra, aliás. Pela primeira vez a Amazônia ocupa o centro da atenção nacional. Porque oBrasil está <strong>de</strong>scobrin<strong>do</strong>, até intuitivamente, que esta não é uma causa regional. A Amazônia é anossa gran<strong>de</strong> fronteira, não só em termos geográficos, mas imaginários. São poucos os brasileirosque ainda se batem pela idéia <strong>de</strong> que a região tem <strong>de</strong> ser um santuário vazio <strong>de</strong> gente e açãoeconômica. Como também poucos aceitam a idéia <strong>de</strong> que o preço <strong>do</strong> <strong>de</strong>senvolvimento inclui todas
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>138as formas <strong>de</strong> produção, até as predatórias. A gran<strong>de</strong> maioria <strong>do</strong>s brasileiros rejeita as duas posições,insistin<strong>do</strong> na tese <strong>do</strong> <strong>de</strong>senvolvimento sustenta<strong>do</strong>. O problema é que esta tese é uma abstração.Desenvolvimento sustenta<strong>do</strong> é abstração?É uma tese sem conteú<strong>do</strong>. A gran<strong>de</strong> convergência nacional sobre a Amazônia ainda se vale <strong>de</strong>uma abstração. Em diferentes lugares tenho dito o seguinte: a Amazônia não é só a maior coleção<strong>de</strong> árvores <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>, é também um grupo <strong>de</strong> pessoas. Sem alternativas econômicas, essas pessoasserão impelidas, inexoravelmente, a ativida<strong>de</strong>s que resultarão na <strong>de</strong>vastação da floresta. E, aí, aquestão ambiental se transformará no que foi a questão social para o presi<strong>de</strong>nte Washington Luís -caso <strong>de</strong> polícia. É difícil <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r uma vasta região sem projeto. As tarefas <strong>do</strong> <strong>de</strong>senvolvimento e dapreservação estão irremediavelmente entrelaçadas.Sua visão coli<strong>de</strong> com a <strong>de</strong> uma boa parcela <strong>do</strong> ambientalismo.Ambientalismo carente <strong>de</strong> um projeto econômico construtivo é inconsistência.A crítica que faz ao <strong>de</strong>senvolvimento sustenta<strong>do</strong> no Brasil vale para outros lugares <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>?Não é uma crítica, é um problema. E acontece em outras partes. Há uma diferença importanteentre o tipo <strong>de</strong> ambientalismo que prevalece nos países ricos e o tipo que nós tentamos construir noBrasil. Nos países ricos, o ambientalismo compõe uma política pós-i<strong>de</strong>ológica e pós-estrutural.Como muitas alternativas <strong>de</strong> organização institucional, aventadas no curso <strong>do</strong> século 20, foramtestadas e <strong>de</strong>sacreditadas, então os países ricos gostam <strong>de</strong> dizer “agora cui<strong>de</strong>mos <strong>do</strong> nosso gran<strong>de</strong>jardim, a natureza”. Não é assim. Resolveremos problemas <strong>de</strong> preservação e <strong>de</strong>senvolvimento cominovações que exigem gran<strong>de</strong>s avanços <strong>de</strong> imaginação.Quan<strong>do</strong> foi chama<strong>do</strong> para o ministério, o senhor sabia da missão que teria pela frente?Ao assumir, tive a preocupação <strong>de</strong> <strong>de</strong>finir um conjunto <strong>de</strong> iniciativas que encarnasse amudança no mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento que o País e o presi<strong>de</strong>nte buscam. Se formulasse apenasalgo conceitual sobre o futuro, seria enorme o risco <strong>de</strong> apresentar um projeto natimorto, que nãosairia <strong>do</strong> papel. Portanto, procurei formular estratégias <strong>de</strong> longo prazo pensan<strong>do</strong> em açõesconcretas, tangíveis, como se fossem as primeiras prestações <strong>do</strong> futuro.Que ações vêm por aí?I<strong>de</strong>ntifiquei cinco áreas: oportunida<strong>de</strong> econômica, oportunida<strong>de</strong> educativa, qualida<strong>de</strong> dagestão pública, <strong>de</strong>fesa e Amazônia. Nesta área, imaginei outros sete conjuntos <strong>de</strong> iniciativas. Estouconvenci<strong>do</strong> <strong>de</strong> que é a partir da Amazônia que se po<strong>de</strong> pensar o futuro <strong>do</strong> país.Como chegou a essa certeza?Há várias maneiras <strong>de</strong> se chegar a ela, inclusive numa visão rudimentar da história brasileira:no século 19 ocupamos o litoral, no século 20 avançamos para o Centro-Oeste, agora é a vez daAmazônia. Ocorre que, hoje, essa dinâmica própria <strong>do</strong> Brasil converge com uma preocupaçãomundial, segun<strong>do</strong> a qual a Amazônia <strong>de</strong>ve ser usufruída por to<strong>do</strong> o mun<strong>do</strong>. Por favor, gostaria,neste ponto, <strong>de</strong> explicar rapidamente quais são os sete conjuntos <strong>de</strong> iniciativas.Pois não.O primeiro tem a ver com a regularização fundiária. Se há um <strong>de</strong>safio na Amazônia compriorida<strong>de</strong> sobre to<strong>do</strong>s os <strong>de</strong>mais é tirar a região <strong>do</strong> cal<strong>de</strong>irão <strong>de</strong> insegurança jurídica em que seencontra. Falo <strong>de</strong> uma coisa básica, a titularida<strong>de</strong> da terra, tanto na Amazônia com floresta quantona Amazônia sem floresta. E aí cabe um esclarecimento preliminar: existe mais <strong>de</strong> uma Amazônia.O que chamamos <strong>de</strong> Amazônia Legal ocupa quase 60% <strong>do</strong> território nacional, incluin<strong>do</strong> vastasáreas <strong>de</strong> cerra<strong>do</strong> e savana tropical, que jamais foram floresta, ou, pelo menos, não são floresta hámuito tempo. Em áreas assim está o Esta<strong>do</strong> <strong>do</strong> Mato Grosso, hoje um <strong>do</strong>s gran<strong>de</strong>s celeiros não só<strong>do</strong> Brasil, mas <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>.Mas como pensa resolver a insegurança fundiária?Não basta fortalecer os órgãos responsáveis pela regularização fundiária, a começar peloIncra. Nenhum <strong>do</strong>s países que enfrentaram problema fundiário <strong>de</strong> dimensão parecida com o nosso -como os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, no século 19 - conseguiu resolvê-lo sem mudanças substanciais nas leisque governam a titularida<strong>de</strong> e a transmissão da proprieda<strong>de</strong>. E não seremos exceção. Teremos que
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>139chegar, até por simplificação <strong>do</strong> Direito Civil, a um mecanismo que rapidamente substitua posseinsegura por proprieda<strong>de</strong> plena. O segun<strong>do</strong> conjunto <strong>de</strong> iniciativas trata <strong>de</strong> medidas contra o<strong>de</strong>smatamento. O terceiro tem a ver com a população amazônica <strong>de</strong> extrativistas e pequenosprodutores agrícolas, que atuam na zona <strong>de</strong> transição entre a floresta e o cerra<strong>do</strong>. Precisamosoferecer a eles alternativas economicamente viáveis e ambientalmente seguras. Porque hoje essesprodutores atuam como uma espécie <strong>de</strong> linha <strong>de</strong> frente voluntária para que gran<strong>de</strong>s agricultores epecuaristas venham e se instalem. E po<strong>de</strong>riam funcionar justamente como um cordão <strong>de</strong> proteção dafloresta.O que chama <strong>de</strong> Amazônia sem floresta? Inclui área <strong>de</strong>vastada?Sim, mas falo aqui <strong>de</strong> cerra<strong>do</strong> e savanas tropicais, on<strong>de</strong> se tem gran<strong>de</strong> produção agrícola.E gran<strong>de</strong> <strong>de</strong>vastação.Não é assim. Toda a produção agrícola <strong>do</strong> Mato Grosso ocorre em 8% da área daqueleEsta<strong>do</strong>. No Brasil, po<strong>de</strong>ríamos, com relativa facilida<strong>de</strong>, <strong>do</strong>brar a área <strong>de</strong> cultivo e triplicar nossaprodução sem tocar em uma única árvore! Repito: nosso problema não é o conflito entre<strong>de</strong>senvolvimento e preservação. Nosso problema é que estamos muito aquém <strong>de</strong> on<strong>de</strong> <strong>de</strong>veríamosestar tanto em <strong>de</strong>senvolvimento quanto em preservação.O senhor parou no quinto conjunto <strong>de</strong> iniciativas.Tem a ver com indústria. Ainda hoje fala-se disso na Amazônia como se fosse um sacrilégio.Tem indústria lá? Tem. Na Zona Franca <strong>de</strong> Manaus, produzem-se coisas como motocicletas, quenada têm a ver com floresta. Há espaço para indústrias que transformem matérias-primas <strong>do</strong> lugar,inclusive geran<strong>do</strong> tecnologia para o manejo sustentável da floresta tropical. A mineração no Pará,por exemplo, que é uma ativida<strong>de</strong> econômica que só per<strong>de</strong> para a Zona Franca na região, agregapouquíssimo valor. O sexto ponto é transporte. Queremos superar essa nossa fixação histórica emro<strong>do</strong>via e construir um paradigma multimodal <strong>de</strong> transporte, integran<strong>do</strong> os elementos ro<strong>do</strong>viário,ferroviário e aquaviário. E ainda estabelecer as ligações aéreas da Amazônia com o resto <strong>do</strong> mun<strong>do</strong>.O sétimo conjunto é capacitação <strong>de</strong> gente, sem o que nada vai para a frente.O senhor justifica a política agrícola <strong>do</strong> governa<strong>do</strong>r Blairo Maggi?Sim. Mas por que só falar <strong>do</strong> governa<strong>do</strong>r <strong>do</strong> Mato Grosso, cujo Esta<strong>do</strong> tem característicasgeográficas e agrícolas próprias? Por que não falar também das medidas preservacionistasimplantadas pelos governa<strong>do</strong>res <strong>do</strong> Amapá e Acre? Volto ao mesmo ponto: é falso o conflito entre<strong>de</strong>senvolvimento e preservação. Meu problema agora é correr atrás <strong>de</strong> conteú<strong>do</strong> para fazer <strong>do</strong><strong>de</strong>senvolvimento sustentável uma realida<strong>de</strong>.Até porque seus projetos são <strong>de</strong> longo prazo, mas sua permanência neste governo tem prazomais curto.O longo prazo só existe se tiver expressão a curto prazo. Se tentarmos fazer tu<strong>do</strong> ao mesmotempo, na Amazônia, corremos o risco <strong>de</strong> não alcançar o grau <strong>de</strong> <strong>de</strong>nsida<strong>de</strong> necessário para queessas experiências surtam efeito um transforma<strong>do</strong>r e sinalizem o caminho. Vamos logo i<strong>de</strong>ntificarmicrorregiões on<strong>de</strong> concentrar iniciativas.Há um discurso circulan<strong>do</strong> nos países ricos <strong>de</strong> que não somos capazes <strong>de</strong> tomar conta <strong>de</strong>ssesbiomas.A Amazônia brasileira é <strong>do</strong> Brasil, e não <strong>de</strong>sses países que já <strong>de</strong>vastaram suas florestas. Estou<strong>de</strong>termina<strong>do</strong> a ter um diálogo com gran<strong>de</strong>s especialistas estrangeiros sobre isso. Nós, no Brasil, não<strong>de</strong>vemos temer o discurso que vem <strong>de</strong> fora. Ao contrário, temos que a<strong>do</strong>tar uma postura sempreconceitos, magnânima até, com o mun<strong>do</strong>, fundada na afirmação incondicional da nossasoberania. Percamos <strong>de</strong> vez o me<strong>do</strong> <strong>de</strong> idéias ou críticas. O que nos inibe diante <strong>do</strong> mun<strong>do</strong> é ain<strong>de</strong>finição <strong>do</strong> nosso próprio projeto.Consi<strong>de</strong>ran<strong>do</strong> o cenário político hoje, é gran<strong>de</strong> a chance <strong>de</strong> termos um futuro presi<strong>de</strong>nte entreos alia<strong>do</strong>s <strong>de</strong> Lula. Concorda que talvez nem isso garanta a continuida<strong>de</strong> das políticas esboçadasagora?
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>140Eu me preocupo o tempo to<strong>do</strong> em construir um projeto que não seja apenas <strong>de</strong> um governo,mas <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>. Talvez meus maiores obstáculos não sejam nem os políticos, nem os econômicos,mas os intelectuais. Não sinto falta <strong>de</strong> calor, sinto falta <strong>de</strong> luz! Faltam-nos idéias - e não se muda omun<strong>do</strong> sem elas. Há outro problema, <strong>de</strong> or<strong>de</strong>m moral ou, quem sabe, psicológica. Falo da históricafalta <strong>de</strong> confiança em nós mesmos, <strong>de</strong>ssa tradição brasileira <strong>de</strong> trilhar caminhos abertos por paísesque nos acostumamos a tomar como referência. Agora chegou a hora <strong>de</strong> <strong>de</strong>sbravar, <strong>de</strong> contar comuma rebeldia nacional. Na história mo<strong>de</strong>rna, as nações foram construídas por elites dirigentes queconverteram as massas ao i<strong>de</strong>ário nacional por meio <strong>de</strong> guerras e da propaganda. No Brasil foidiferente. As elites sempre foram ambivalentes, ou seja, raramente tiveram com a idéia <strong>de</strong> Naçãouma i<strong>de</strong>ntificação incondicional. Quem se i<strong>de</strong>ntifica com a Nação, aqui, é o povo, não as elites.Então tratemos <strong>de</strong> afirmar nossa originalida<strong>de</strong> coletiva, que é tão viva na cultura, mas raramentetraduzida no plano das instituições.Que o papel o Brasil está assumin<strong>do</strong> no mun<strong>do</strong>, ministro?Vejamos essa questão com muita sobrieda<strong>de</strong>. Ao contrário da China, temos uma <strong>de</strong>mocraciafalha, porém vibrante. Ao contrário da Índia, temos unida<strong>de</strong> nacional. O que nos tem falta<strong>do</strong>, alémda qualificação <strong>do</strong> nosso povo e da ampliação <strong>de</strong> oportunida<strong>de</strong>s, é uma disposição <strong>de</strong> jogar oformulário fora. Há duas lições que po<strong>de</strong>mos tirar <strong>do</strong> que ocorreu no plano internacional nas últimasdécadas. Primeiro: vai para a frente quem se abre para o merca<strong>do</strong> e para o mun<strong>do</strong>. Segun<strong>do</strong>: só vaipara a frente quem, ao se abrir para o merca<strong>do</strong> e para o mun<strong>do</strong>, joga fora o formulário.Dê um exemplo <strong>de</strong> como o País está gruda<strong>do</strong> ao formulário.O Brasil é o país mais pareci<strong>do</strong> com os Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s no mun<strong>do</strong>. Mas esse fato não éreconheci<strong>do</strong> nem lá nem cá. Pareci<strong>do</strong>s como? São <strong>do</strong>is países imensos, um no Norte, outro ao Sul,funda<strong>do</strong>s na mesma base <strong>de</strong> povoamento europeu e escravatura africana. São muito <strong>de</strong>siguais nassuas categorias. Os EUA são o país mais <strong>de</strong>sigual <strong>de</strong>ntre os ricos. O Brasil é o mais <strong>de</strong>sigual <strong>de</strong>ntreos países em <strong>de</strong>senvolvimento. Mas em ambos, para<strong>do</strong>xalmente, a maioria das pessoas continua aacreditar que tu<strong>do</strong> é possível. São países on<strong>de</strong> a vitalida<strong>de</strong> fervilha. Só que os EUA passaram pelofetichismo institucional, ou seja, acreditaram ter o formulário perfeito e <strong>de</strong>finitivo <strong>de</strong> umasocieda<strong>de</strong>. Ora, isso é uma superstição. Pois temos o problema inverso <strong>do</strong>s americanos: enquantoeles fetichizam as instituições que criaram, não confiamos na capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> criar as nossas. E asimportamos. Temos que dar olhos e asas a essa energia humana que existe no Brasil. Issoacontecerá quan<strong>do</strong> criarmos o novo mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento. E, claro, quan<strong>do</strong> alcançarmos uma<strong>de</strong>mocracia na qual mudanças não sejam entendidas como crises.O candidato <strong>de</strong>mocrata à Casa Branca, Barak Obama, afirmou que Brasil e EUA <strong>de</strong>vem juntarforças na <strong>de</strong>fesa da energia limpa, mas que o etanol americano não se subordinará ao etanolbrasileiro. Como interpretar essa <strong>de</strong>claração?Os EUA estão se aproximan<strong>do</strong> <strong>de</strong> mais um momento <strong>de</strong> inflexão, como tantos outros jávivi<strong>do</strong>s no país. Historicamente, isso ocorre duas a três vezes por século, às vezes com crise, comonos anos Roosevelt, às vezes sem crise, como no início <strong>do</strong> século 20. A inflexão <strong>de</strong> agora é <strong>do</strong> tiposem crise. É bem possível que, nos próximos tempos, os EUA venham a construir um projetosucedâneo ao <strong>de</strong> Roosevelt, <strong>de</strong> criação e ampliação <strong>de</strong> oportunida<strong>de</strong>s. A eleição presi<strong>de</strong>ncialamericana, portanto, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntemente <strong>do</strong> resulta<strong>do</strong> que venha a ter, será menos importante <strong>do</strong>que esta transformação subterrânea. Consi<strong>de</strong>re, também, a mudança <strong>do</strong> grau <strong>de</strong> importância <strong>do</strong>sEUA no mun<strong>do</strong>. Aí entra o Brasil.Entra como?Estamos num momento <strong>de</strong> construção nacional e temos semelhanças com os EUA. Seavançarmos nessa construção, sem dúvida seremos parceiros privilegia<strong>do</strong>s <strong>do</strong>s americanos, mascom um engajamento crítico como nunca tivemos antes. Para isso será necessário aban<strong>do</strong>nar a visãomíope, muito comum no Brasil, <strong>de</strong> consi<strong>de</strong>rar tu<strong>do</strong> pelo prisma <strong>do</strong> protecionismo comercial.Intensifiquemos relações com Índia, Rússia, China. Enfim, o Brasil ascen<strong>de</strong> ao primeiro plano
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>141mundial, sem ainda ter <strong>de</strong>fini<strong>do</strong> seu caminho. Não basta apostar tu<strong>do</strong> em um invento tecnoprodutivocomo biocombustível. É preciso ter caminho e proposta.Ministro, nos últimos anos, o senhor fez uma crítica reiterada à política econômica brasileira.Inclusive dizen<strong>do</strong> que os governos FHC e Lula convergiram para o mesmo caminho, equivoca<strong>do</strong> noseu enten<strong>de</strong>r. Como é que hoje o senhor se sente tão à vonta<strong>de</strong> servin<strong>do</strong> a um governo que tantocriticou?Porque continuo <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>n<strong>do</strong> as mesmas idéias. Vou dar um exemplo. No Brasil, sobramparti<strong>do</strong>s e faltam alternativas. A verda<strong>de</strong> é que o nosso sistema político-partidário jamais serecuperou <strong>do</strong> trauma <strong>do</strong> regime militar. Apesar <strong>de</strong> tantos parti<strong>do</strong>s, parece que só temos uma idéia acontinuar perseguin<strong>do</strong>: construir a Suécia tropical. Esta é uma idéia que discuto hoje, mas<strong>de</strong>senvolvo há tempos em meus trabalhos.Que país fictício é esse?A idéia é a seguinte: gran<strong>de</strong>s alternativas <strong>de</strong> <strong>de</strong>senvolvimento no curso <strong>do</strong> século 20 foram<strong>de</strong>rrotadas. Sobrou então um caminho único no mun<strong>do</strong>, que é o mo<strong>de</strong>lo institucional estabeleci<strong>do</strong>nos países ricos <strong>do</strong> Atlântico Norte. Um caminho que po<strong>de</strong> ser amargo, daí utilizarem-se aspolíticas sociais como açúcar. O i<strong>de</strong>ário da Suécia tropical consiste justamente em adaptar essemo<strong>de</strong>lo às nossas circunstâncias. Buscar a humanização da economia <strong>de</strong> merca<strong>do</strong> e da globalizaçãovirou o leitmotiv da política brasileira. Sou um adversário <strong>de</strong>sse i<strong>de</strong>ário. Porque o País não quer, enem precisa, humanizar o inevitável, mas reconstruir o existente. O povo não quer açúcar. Eu diriaque isso é revolucionário.Vai aí uma crítica às políticas assistencialistas <strong>do</strong> governo?Não posso ser contra políticas compensatórias, porque quem está imobiliza<strong>do</strong> pela misérianão tem como agir, precisa <strong>de</strong>las. O perigo é imaginar que essas políticas sejam suficientes esubstituam uma agenda <strong>de</strong> ampliação <strong>de</strong> oportunida<strong>de</strong>s. Agora mesmo estou trabalhan<strong>do</strong> com oministro Patrus Ananias para <strong>de</strong>finir o próximo passo <strong>do</strong> Bolsa-Família. Precisamos <strong>de</strong> um mo<strong>de</strong>loque incentive capacitações, focalizan<strong>do</strong> as famílias que estão mais próximas <strong>de</strong> “escapar” da<strong>de</strong>pendência <strong>de</strong>ssas transferências. Portanto, não as mais pobres, mas as menos pobres nesseuniverso <strong>de</strong> atendimento. As mais pobres terão <strong>de</strong> continuar no programa tal como está hoje.O senhor também vem trabalhan<strong>do</strong> com o ministro Fernan<strong>do</strong> Haddad, da Educação.Formulamos iniciativas com vistas a um novo mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong> escola média, que é elo fraco <strong>do</strong>sistema educacional brasileiro e <strong>de</strong>ve ser conserta<strong>do</strong>. Até para que se transforme numa cunha quenos aju<strong>de</strong> a <strong>de</strong>molir esse ensino enciclopédico e informativo que está aí, substituin<strong>do</strong>-o por umensino analítico. Um ensino que leve o indivíduo a ser capaz <strong>de</strong> fazer análise verbal e análisenumérica. Também será necessário mudar o ensino técnico profissionalizante, que continua a serensino <strong>de</strong> ofícios. Isso não faz senti<strong>do</strong> na evolução das economias contemporâneas, que exige daspessoas um repertório cada vez maior <strong>de</strong> capacitações.Nunca foi fácil harmonizar interesses locais e fe<strong>de</strong>rais, como o senhor quer tentar, em to<strong>do</strong>sos níveis. São lógicas em conflito.Então flexibilizemos o fe<strong>de</strong>ralismo brasileiro. Eu posso até utilizar uma expressão tirada <strong>do</strong>vocabulário <strong>do</strong> Direito constitucional americano, para afirmar que o fe<strong>de</strong>ralismo é um conjunto <strong>de</strong>laboratórios. Se temos fe<strong>de</strong>ralismo, então vamos experimentar.Experimentamos pouco?Vivemos um para<strong>do</strong>xo. O que é o Brasil? Sua gran<strong>de</strong> vitalida<strong>de</strong>. E como está o Brasil?Enfia<strong>do</strong> numa camisa-<strong>de</strong>-força. Nossas instituições, políticas, econômicas, educacionais, são anossa negação.De Gaulle, certa vez, disse que o Brasil não era um país sério. O senhor já escreveu que oBrasil é um país triste.Eu escrevi? Não me lembro. Em que contexto?Em um artigo falan<strong>do</strong> justamente <strong>do</strong> mo<strong>de</strong>lo econômico, da baixa participação <strong>do</strong> salário narenda nacional, <strong>do</strong>s trabalha<strong>do</strong>res joga<strong>do</strong>s na informalida<strong>de</strong>...
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>142Bom, <strong>de</strong>vo ter dito, afinal já escrevi muita coisa. Hoje não vejo a tristeza como um problema.Mas, sim, a supressão da vitalida<strong>de</strong> brasileira. O Brasil fervilha <strong>de</strong> vida <strong>de</strong>ntro <strong>de</strong> uma camisa-<strong>de</strong>força.Daí a importância que atribuo à Amazônia. Lá está o terreno on<strong>de</strong> vamos começar <strong>de</strong> novo.On<strong>de</strong> po<strong>de</strong>remos nos reimaginar e nos organizar. Mas não se combate uma orto<strong>do</strong>xia universal comheresias locais. Só com heresias universalizantes. Por isso conclamo os brasileiros a ousarem. Quecometam heresias. Que joguem fora o formulário.O senhor já foi pré-candidato à presidência da República e, na época, chegou a falar <strong>do</strong>primeiro governo Lula como o maior esbulho eleitoral da história <strong>do</strong> Brasil. Quem mu<strong>do</strong>u: o senhorou o presi<strong>de</strong>nte?Insisto em dizer que trabalho em torno <strong>de</strong> idéias que sempre <strong>de</strong>fendi. Como a <strong>de</strong> rejeitar aSuécia tropical. Ou a <strong>de</strong> buscar inovações institucionais para construir um mo<strong>de</strong>lo <strong>de</strong><strong>de</strong>senvolvimento basea<strong>do</strong> na criação <strong>de</strong> oportunida<strong>de</strong>s econômicas e educativas. Até agora, opresi<strong>de</strong>nte Lula está me dan<strong>do</strong> to<strong>do</strong> apoio, com gran<strong>de</strong> entusiasmo. Até acha graça das minhasidiossincrasias. Ousaria dizer que é crescente a tolerância <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte comigo... (risos). Não seiaté que ponto isso po<strong>de</strong> chegar, porque, embora avancemos com projetos <strong>de</strong> construção nacional,haverá um preço a pagar: os conflitos e as controvérsias que virão.Pensa se candidatar <strong>de</strong> novo?Meu projeto político são esses 40 anos em que estive procuran<strong>do</strong> uma alternativa para oBrasil. Só tive episódios <strong>de</strong> engajamento eleitoral quan<strong>do</strong> julguei que seriam úteis para uma tarefamaior. Estou muito feliz hoje. Fui convoca<strong>do</strong> para fazer, <strong>de</strong>ntro <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> brasileiro, o que já vinhafazen<strong>do</strong> no campo <strong>do</strong>utrinário. Não sou político profissional, mas também não nego a possibilida<strong>de</strong><strong>de</strong> um novo engajamento eleitoral se num <strong>de</strong>termina<strong>do</strong> momento isso for útil. Mas isso tu<strong>do</strong> écircunstancial. O importante agora é criar conteú<strong>do</strong> e dar direção.Este governo estava precisan<strong>do</strong> <strong>de</strong> um filósofo?A filosofia, no senti<strong>do</strong> das formulações mais ambiciosas e exigentes <strong>do</strong> pensamento, é muitosemelhante à política, na sua ambição transforma<strong>do</strong>ra. São ativida<strong>de</strong>s humanas muito parecidas.Porque dizem respeito a tu<strong>do</strong> e não a algo em particular. Pe<strong>de</strong>m uma mobilização completa dasemoções e atenções. É a vida humana conduzida ao nível mais alto <strong>de</strong> intensida<strong>de</strong>.O Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> São PauloBRASIL: ÁREAS DE INTERESSECúpula militar critica governo17/04/<strong>2008</strong>As autorida<strong>de</strong>s militares unificaram seu discurso e o alvo foi o governo fe<strong>de</strong>ral. Cinco dias<strong>de</strong>pois <strong>de</strong> o presi<strong>de</strong>nte Luiz Inácio Lula da Silva <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>r a <strong>de</strong>marcação contínua da ReservaRaposa Serra <strong>do</strong> Sol, em Roraima, generais e ex-ministros, reuni<strong>do</strong>s ontem para o seminário"Brasil, ameaças a sua soberania", criticaram o <strong>de</strong>creto que <strong>de</strong>termina a homologação <strong>do</strong> território.Fizeram coro ao <strong>de</strong>scontentamento expresso na semana passada pelo comandante militar daAmazônia, general Augusto Heleno. Ontem ele foi duro com o governo, ao criticar, sob aplausos, otratamento da<strong>do</strong> aos índios:- A política indigenista está dissociada da História brasileira e tem <strong>de</strong> ser revistaurgentemente. Não sou contra os órgãos <strong>do</strong> setor, quero me associar para rever uma política que não<strong>de</strong>u certo, é só ir lá para ver que é lamentável, para não dizer caótica.Durante palestra no Clube Militar, no Centro <strong>do</strong> Rio, e diante <strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 150 militares daativa e da reserva, o general <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>u a in<strong>de</strong>pendência <strong>do</strong> Exército em relação aos governos:- O alto coman<strong>do</strong> <strong>do</strong> Exército é um órgão que serve ao Esta<strong>do</strong> brasileiro e não ao governo.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>143Em seguida, durante entrevista, o general disse ter constata<strong>do</strong> o aban<strong>do</strong>no <strong>de</strong> áreas indígenas.Muitas, segun<strong>do</strong> ele, enfrentam problemas <strong>de</strong> alcoolismo e tráfico <strong>de</strong> drogas.- Quan<strong>do</strong> critico, não tenho interesse político ou econômico. Só penso nos interessesnacionais - disse.Preocupação é com divisão políticaAté então única voz pública das Forças Armadas contra a homologação da reserva RaposaSerra <strong>do</strong> Sol, Augusto Heleno recebeu ontem o apoio <strong>de</strong> ex-ministros, como Zenil<strong>do</strong> Lucena(Exército) e Bernar<strong>do</strong> Cabral (Justiça), <strong>de</strong> generais <strong>do</strong> alto coman<strong>do</strong> e <strong>do</strong> lí<strong>de</strong>r indígena JonasMarcolino, convida<strong>do</strong> para o <strong>de</strong>bate. O comandante militar <strong>do</strong> Leste, general Luiz Cesário daSilveira Filho, na primeira fila <strong>do</strong> auditório, afirmou que o problema em Roraima é <strong>de</strong> soberania.Segun<strong>do</strong> o militar, a discussão passa pelo cumprimento <strong>do</strong> artigo 142 da Constituição, que trata daatuação das Forças Armadas na <strong>de</strong>fesa da pátria:- Nossa preocupação é constitucional, com a soberania brasileira.O chefe <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong> Maior <strong>do</strong> Coman<strong>do</strong> Militar <strong>do</strong> Leste, general Mário Matheus Madureira,disse que está preocupa<strong>do</strong> com a homologação em faixa contínua da reserva:- O risco da soberania é com áreas que po<strong>de</strong>m ser separadas <strong>do</strong> território brasileiro. ONGsinternacionais e grupos indígenas po<strong>de</strong>m solicitar essa divisão política. Po<strong>de</strong> ser a mesma situaçãoque ocorreu no Kosovo. É uma preocupação <strong>de</strong> to<strong>do</strong>s.A opinião <strong>do</strong>s militares durante o seminário ganhou a a<strong>de</strong>são <strong>do</strong> ministro <strong>do</strong> Exército <strong>do</strong>governo Sarney, Leônidas Pires Gonçalves:- São to<strong>do</strong>s brasileiros, há riscos <strong>de</strong> utilizarem o aumento <strong>de</strong> uma ocupação indígena. Po<strong>de</strong>ocorrer um esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> enclave (quan<strong>do</strong> um território se sobrepõe ao outro).O general Augusto Heleno, que na última quinta-feira, em Brasília, classificou como "risco àsoberania nacional" a <strong>de</strong>marcação em terras contínuas da reserva, abran<strong>do</strong>u o tom:- Não falo em nome <strong>do</strong> governo porque não tenho autorida<strong>de</strong> para isso. Em nenhum momentocontrariei a <strong>de</strong>cisão <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte. Não tenho intenção <strong>de</strong> contrariar hierarquia e disciplina - disse,em entrevista.Na palestra, no entanto, sem citar o nome da reserva, apresentou sua teoria sobre a retirada <strong>de</strong>não-índios <strong>de</strong> terras indígenas:- Como um brasileiro não po<strong>de</strong> entrar numa terra porque é indígena? Isso não entra na minhacabeça.O general leu artigos da Declaração <strong>do</strong>s Povos Indígenas, da ONU. Um <strong>de</strong>les, sobre a<strong>de</strong>smilitarização das reservas, irritou o militar:- Então o entrave somos nós? Cumprimos o papel constitucional."É só ir lá para ver que (a política indigenista) é lamentável, para não dizer caóticaGeneral Augusto HelenoO risco é acontecer o mesmo que ocorreu no Kosovo. Um grupo <strong>de</strong> indígenas po<strong>de</strong>solicitar a separação política <strong>do</strong> esta<strong>do</strong>General Mário MadureiraA Reserva Raposa Serra <strong>do</strong> Sol foi <strong>de</strong>marcada no governo Fernan<strong>do</strong> Henrique Car<strong>do</strong>so em1998. Em 15 <strong>de</strong> abril <strong>de</strong> 2005, o presi<strong>de</strong>nte Luiz Inácio Lula da Silva assinou o <strong>de</strong>creto <strong>de</strong>homologação, última fase no processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>limitação da reserva. A partir <strong>de</strong> então, começou umanegociação para a retirada <strong>do</strong>s não-índios da área, on<strong>de</strong> vivem cerca <strong>de</strong> 18 mil indígenas. A<strong>de</strong>marcação em área contínua nunca foi bem recebida em Roraima, esta<strong>do</strong> que já ce<strong>de</strong>u boa parte <strong>de</strong>seu território a uma reserva <strong>do</strong>s ianomâmis.A <strong>de</strong>marcação em área contínua também enfrenta a oposição <strong>do</strong>s militares. Em 2007, aPolícia Fe<strong>de</strong>ral preparava uma ação para retirar os invasores e pediu apoio aos militares, que nãoajudaram e vazaram a operação a políticos <strong>de</strong> Roraima.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>144Um grupo <strong>de</strong> arrozeiros ocupa a reserva <strong>de</strong>s<strong>de</strong> os anos 80. Eles se recusam a sair, mesmo comin<strong>de</strong>nizações oferecidas pela Fundação Nacional <strong>do</strong> Índio (Funai). Alia<strong>do</strong>s a índios contrários à<strong>de</strong>marcação em área contínua <strong>de</strong> 1,6 milhão <strong>de</strong> hectares, os rizicultores se armaram.Os índios contrários à <strong>de</strong>marcação contínua são liga<strong>do</strong>s à Socieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> Defesa <strong>do</strong>s IndígenasUni<strong>do</strong>s <strong>do</strong> Norte <strong>de</strong> Roraima (Sodiur). Os pró-<strong>de</strong>marcação contínua são vincula<strong>do</strong>s ao ConselhoIndigenista <strong>de</strong> Roraima (CIR), liga<strong>do</strong> à Igreja Católica.O principal opositor da <strong>de</strong>marcação é o presi<strong>de</strong>nte da Associação <strong>do</strong>s Arrozeiros <strong>de</strong> Roraima,Paulo César Quartiero, responsável pelas ações <strong>de</strong> resistência à operação preparada pela PolíciaFe<strong>de</strong>ral. Na última semana, a ação da PF foi suspensa provisoriamente por uma ação <strong>do</strong> SupremoTribunal Fe<strong>de</strong>ral (STF). Os ministros enten<strong>de</strong>ram que a operação po<strong>de</strong> criar um ambiente <strong>de</strong>violência. O pedi<strong>do</strong> <strong>de</strong> suspensão foi feito pelo governa<strong>do</strong>r <strong>de</strong> Roraima, José Anchieta, <strong>do</strong> PSDB.O GloboGeneral diz que <strong>de</strong>marcação <strong>de</strong> terra indígena po<strong>de</strong> serameaça ao país17/04/<strong>2008</strong>O comandante militar da Amazônia, general Augusto Heleno, disse nesta quarta-feira, que a<strong>de</strong>marcação contínua <strong>de</strong> terras indígenas na região <strong>de</strong> fronteira é uma ameaça à soberania nacional.Ele participou da abertura <strong>do</strong> seminário Brasil, Ameaças a sua Soberania, que prossegue até sextafeira,no Clube Militar <strong>do</strong> Rio <strong>de</strong> Janeiro.- Nós estamos cada vez mais aumentan<strong>do</strong> a extensão das terras indígenas na faixa <strong>de</strong> fronteirae caminhan<strong>do</strong> numa direção que me preocupa. Po<strong>de</strong> não ser uma ameaça iminente, mas ela mereceser discutida e aprofundada - <strong>de</strong>clarou Augusto Heleno. E completou: - Po<strong>de</strong>rão representar umrisco para a soberania nacional.Para o militar, o país tem que estar prepara<strong>do</strong> para a guerra e a Amazônia é a região maisprovável <strong>de</strong> ocorrer ações bélicas.- É nossa hipótese alfa. Há ameaça <strong>de</strong> conflitos arma<strong>do</strong>s, ainda que não sejam iminentes, masque po<strong>de</strong>m ocorrer, <strong>de</strong>vi<strong>do</strong> ao aumento inegável <strong>de</strong> tensão em algumas relações bilaterais - disseAugusto Heleno.Ele apontou <strong>de</strong>z possíveis conflitos fronteiriços entre os países vizinhos, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> disputas porterras entre Guiana e Venezuela ou Paraguai e Bolívia, até efeitos da guerrilha das Forças ArmadasRevolucionárias da Colômbia (Farc).O militar negou que sua posição contrária à <strong>de</strong>marcação <strong>de</strong> área contínua na reserva RaposaSerra <strong>do</strong> Sol, em Roraima, <strong>de</strong>fendida pela Presidência da República, represente quebra <strong>de</strong>hierarquia.- Em nenhum momento eu contrariei a <strong>de</strong>cisão <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte da República. Ela está tomada eserá cumprida por quem <strong>de</strong> direito. Eu levantei o problema. E ele merece ser discuti<strong>do</strong> e novamenteestá sen<strong>do</strong> estuda<strong>do</strong> - disse, referin<strong>do</strong>-se à <strong>de</strong>cisão <strong>do</strong> Supremo Tribunal Fe<strong>de</strong>ral (STF), queman<strong>do</strong>u suspen<strong>de</strong>r a ação <strong>de</strong> retirada <strong>de</strong> não-índios da reserva.O general comentou a <strong>de</strong>claração <strong>do</strong> representante da Advocacia Geral da União (AGU), JoséAntônio Toffoli, feita terça-feira, contestan<strong>do</strong> os argumentos <strong>de</strong> que homologação em área contínuatraria riscos para a <strong>de</strong>fesa <strong>do</strong> território nacional e enfatizan<strong>do</strong> que <strong>de</strong>clarações <strong>de</strong> membros dasForças Armadas que se mostraram críticos à <strong>de</strong>marcação “não correspon<strong>de</strong>m ao pensamento <strong>do</strong>governo brasileiro”.- Eu não tomei posição quanto à <strong>de</strong>marcação <strong>de</strong> terra indígena. Eu coloquei um problema paraque ele seja discuti<strong>do</strong> por aqueles que representam o governo. Eu não falo em nome <strong>do</strong> governoporque não tenho autorida<strong>de</strong> para isso. E o Exército Brasileiro é um instrumento <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>, acima<strong>de</strong> ser um instrumento <strong>de</strong> governo.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>145Durante a palestra, para cerca <strong>de</strong> 200 pessoas, a maioria militares, o general mostrou trechosda Declaração da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre os Direitos <strong>do</strong>s Povos Indígenas,para reforçar sua visão <strong>de</strong> possíveis ameaças à soberania nacional com <strong>de</strong>marcações contínuas <strong>de</strong>territórios indígenas, que po<strong>de</strong>riam ser consi<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>s in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ntes <strong>do</strong> país.A <strong>de</strong>claração da ONU foi aprovada no ano passa<strong>do</strong> e tem 46 artigos, com objetivo <strong>de</strong> protegeros povos indígenas em to<strong>do</strong> o mun<strong>do</strong>. Segun<strong>do</strong> ele, o artigo 6 <strong>de</strong>fine que “toda a pessoa indígenatem direito a uma nacionalida<strong>de</strong>”. O artigo 9 diz que “os povos e as pessoas indígenas têm o direito<strong>de</strong> pertencer em uma comunida<strong>de</strong> ou nação indígena, em conformida<strong>de</strong> com as tradições e costumesda comunida<strong>de</strong>, ou nação <strong>de</strong> que se trate”.O diretor <strong>do</strong> Centro <strong>de</strong> Informações da ONU, Giancarlo Summa, rebateu as <strong>de</strong>sconfianças <strong>do</strong>general e disse que a <strong>de</strong>claração não tem objetivo <strong>de</strong> formar novos esta<strong>do</strong>s indígenas.- O artigo 46 proíbe, explicitamente, que a <strong>de</strong>claração possa ser utilizada para tentar<strong>de</strong>smembrar um território <strong>de</strong> um país. Não é para formar novos países ou esta<strong>do</strong>s indígenas e aprópria <strong>de</strong>claração proíbe essa possibilida<strong>de</strong>.Em referência à polêmica em torno da reserva Raposa Serra <strong>do</strong> Sol, o representante da ONUdisse que a entida<strong>de</strong> não se pronuncia sobre assuntos internos <strong>do</strong>s países-membros, limitan<strong>do</strong>-se areconhecer que há maior preservação <strong>do</strong> meio ambiente nas áreas transformadas em reservasindígenas o que, segun<strong>do</strong> ele, é um fator positivo.Jornal <strong>do</strong> BrasilA nova concorrente da EMBRAER23/04/<strong>2008</strong>Fabricante <strong>de</strong> aviões militares russos Sukhoi lança jato civil <strong>de</strong> 100 lugaresDepois <strong>de</strong> anos <strong>de</strong> tentativa, a Rússia <strong>de</strong>sistiu <strong>do</strong>s wi<strong>de</strong>-body e agora investe nos jatosregionais, como o Sukhoi Superjet 100A empresa russa Sukhoi Company (JSC), que fabrica os caças supersônicos Sukhoi, estácolocan<strong>do</strong> no merca<strong>do</strong> um avião com capacida<strong>de</strong> para até 100 passageiros, o Sukhoi Superjet 100,que <strong>de</strong>verá competir com os aviões da Embraer, principalmente com os da linha E-jets, como osmo<strong>de</strong>los EMBRAER 190 e Embraer 195. Segun<strong>do</strong> o diretor-geral da empresa, Mikhail Pogosyan, oSuperjet 100, que custará cerca <strong>de</strong> US$ 27,8 milhões, terá custos operacionais <strong>de</strong> 10% a 15% maisbaratos <strong>do</strong> que os produtos da EMBRAER e da cana<strong>de</strong>nse Bombardier. Procurada por ISTOÉ, aEMBRAER diz que não comenta lançamentos <strong>de</strong> produtos <strong>de</strong> concorrentes.O projeto <strong>do</strong> novo avião faz parte da reformulação que a indústria aeronáutica russa sofreurecentemente. Em 2006, enquanto a empresa aérea russa Aeroflot anunciava que substituiria seuswi<strong>de</strong>-body Ilyushin Il-96 por aviões da Boeing ou da Airbus, o presi<strong>de</strong>nte Vladimir Putin assinouum <strong>de</strong>creto crian<strong>do</strong> uma estatal que passava a controlar os seis maiores fabricantes <strong>de</strong> aviões russos.A holding, chamada United Aircraft Corporation, passou a controlar a Sukhoi, a Mikoyan, aTupolev, a Irkut, a Ilyushin e a Yakovlev. A <strong>de</strong>cisão veio <strong>de</strong>pois que o setor aeronáutico russoreconheceu que não tinha condições <strong>de</strong> competir com as gran<strong>de</strong>s empresas aeronáuticas oci<strong>de</strong>ntaisno segmento <strong>de</strong> jatos <strong>de</strong> passageiros wi<strong>de</strong>-body. Decidiuse, então, que o setor seria remo<strong>de</strong>la<strong>do</strong> paraproduzir jatos regionais com capacida<strong>de</strong> máxima <strong>de</strong> 100 passageiros. "Temos que encontrar umnicho", disse Yuri M. Koptev, ex-vice-ministro da indústria. "Como a Boeing não faz jatosregionais, foi <strong>de</strong>terminada a direção que a aviação russa <strong>de</strong>ve tomar para se tornar lí<strong>de</strong>r mundial."US$ 27,8 milhões é quanto vai custar o novo avião da SukhoiAo mesmo tempo, uma subsidiária da estatal, a Sukhoi Design Bureau, vem <strong>de</strong>senvolven<strong>do</strong><strong>de</strong>s<strong>de</strong> 2002 um jato militar supersônico <strong>de</strong> 5ª geração, chama<strong>do</strong> T-50 PAK-FA, um avião "stealth"(invisível aos radares), que preten<strong>de</strong> ser superior ao caça americano F-35 Lightning II e tão furtivoquanto o também americano F-22 Raptor. Na visita que a missão russa fez ao Brasil na semanapassada, chefiada pelo secretário <strong>do</strong> Conselho <strong>de</strong> Segurança da Rússia, Valentin Sobolev, foi
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>146assina<strong>do</strong> um protocolo <strong>de</strong> intenções entre os <strong>do</strong>is governos. Os russos querem que o Brasil se una aeles e à Índia para <strong>de</strong>senvolver o T-50 PAK-FA.O problema é que, na Rússia, o Esta<strong>do</strong> controla 100% da holding <strong>de</strong> aviação, mas osfabricantes são priva<strong>do</strong>s. Ora, numa situação <strong>de</strong>ssa, o Esta<strong>do</strong> po<strong>de</strong> absorver custos <strong>de</strong> produção <strong>de</strong>aviões como o Superjet 100. Além disso, a indústria aeronáutica russa conta com mão<strong>de</strong>- obrabarata no setor: cerca <strong>de</strong> US$ 300 por mês. Assim, ao se associar a uma parceria para construir umcaça <strong>de</strong> 5ª geração, o Brasil estará investin<strong>do</strong> num concorrente da EMBRAER.Isto’éSelva é com ele23/04/<strong>2008</strong>Comandante da Amazônia ataca a política <strong>de</strong> fazerreservas indígenas gigantescasAugusto Heleno, no Clube Militar: a políticaindigenista é "lamentável"O General <strong>de</strong> Exército Augusto Heleno Pereira éum <strong>do</strong>s poucos comandantes brasileiros com experiênciaem combate. Foi o primeiro chefe da missão <strong>de</strong> paz daONU no Haiti. Já ocupou alguns <strong>do</strong>s postos mais altosda burocracia <strong>do</strong> Exército. Hoje, é o comandante militarda Amazônia. Na semana passada, o general Helenousou to<strong>do</strong> o seu prestígio para atacar a políticaindigenista <strong>do</strong> governo Lula. Durante uma palestra no Clube Militar, no Rio <strong>de</strong> Janeiro, <strong>de</strong>clarouque a <strong>de</strong>marcação <strong>de</strong> reservas indígenas na fronteira <strong>do</strong> país ameaça a soberania nacional. E foialém. O comandante da Amazônia chamou a atual política indigenista <strong>de</strong> "lamentável" e "caótica",por impedir não-índios <strong>de</strong> entrar em reservas e por aban<strong>do</strong>nar as comunida<strong>de</strong>s indígenas à miséria<strong>de</strong>pois da <strong>de</strong>marcação. As críticas, claro, repercutiram mal, e o presi<strong>de</strong>nte Luiz Inácio Lula da Silvaexigiu que o militar fosse disciplina<strong>do</strong>. Há poucas chances <strong>de</strong> que isso ocorra e nenhuma <strong>de</strong> quesurta efeito.O general Heleno fala com liberda<strong>de</strong> porque está no topo da carreira, não <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> mais <strong>de</strong>promoções e po<strong>de</strong> vestir o pijama quan<strong>do</strong> quiser. Em momentos como esse, é comum que osmilitares soltem a língua. Em 1995, o general Murillo Tavares da Silva malhou um projeto <strong>de</strong>in<strong>de</strong>nização das vítimas <strong>do</strong> regime militar. Dois anos antes, seu colega Benedito Leonel invocou a"cólera das legiões" para exigir reajuste nos sol<strong>do</strong>s. Eles, como Heleno, falaram respalda<strong>do</strong>s porseus companheiros <strong>de</strong> caserna. As Forças Armadas estão justificadamente insatisfeitas com apolítica da União <strong>de</strong> entregar territórios vastos e contínuos aos índios, como no caso da reservaRaposa Serra <strong>do</strong> Sol, em Roraima. Prova disso é que, <strong>do</strong>is dias <strong>de</strong>pois <strong>do</strong> discurso <strong>de</strong> Heleno, outrogeneral, Luiz Schroe<strong>de</strong>r Lessa, publicou um artigo no qual classifica a criação <strong>de</strong> reservas nafronteira da Amazônia como "um <strong>do</strong>s maiores atenta<strong>do</strong>s à soberania brasileira com o apoioostensivo <strong>do</strong> presi<strong>de</strong>nte Lula e a omissão criminosa <strong>de</strong> seu governo". Do ponto <strong>de</strong> vista militar, aavaliação é correta.Os militares sabem que a Amazônia é uma região <strong>de</strong> difícil vigilância. De população rarefeitae fronteiras secas na selva fechada, ela se torna extremamente porosa e vulnerável. A <strong>do</strong>utrinamilitar <strong>de</strong>fen<strong>de</strong> <strong>de</strong>s<strong>de</strong> sempre a ocupação e a civilização da Amazônia como a melhor forma <strong>de</strong>protegê-la. A ameaça <strong>de</strong> invasão da região por traficantes e terroristas estrangeiros, como os dasFarc, é real. Só quem po<strong>de</strong> contê-la é o Exército. Por isso, é <strong>de</strong> bom senso sempre ouvir o que osgenerais têm a dizer sobre a Amazônia.Veja
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>147Embraer ven<strong>de</strong> caça a Chile e Equa<strong>do</strong>r29/04/<strong>2008</strong>Países confirmam encomenda <strong>de</strong> pelo menos 36 Super TucanosOs governos <strong>do</strong> Chile e <strong>do</strong> Equa<strong>do</strong>r confirmaram a compra, para equipar as Forças Aéreas <strong>de</strong>ambos os países, <strong>do</strong> avião <strong>de</strong> ataque leve Super Tucano, produzi<strong>do</strong> pela Embraer. O Chile fica com12 unida<strong>de</strong>s, com opção <strong>de</strong> um segun<strong>do</strong> lote igual, e o Equa<strong>do</strong>r com 24. Os <strong>do</strong>is fornecimentossignificam negócios estima<strong>do</strong>s em US$ 384 milhões. Ontem, a empresa confirmou que os termos<strong>do</strong>s contratos estão sen<strong>do</strong> discuti<strong>do</strong>s.A versão escolhida é semelhante à especificada pela Aeronáutica da Colômbia - queencomen<strong>do</strong>u 25 aeronaves em 2005 e já recebeu quase todas -, <strong>de</strong> <strong>do</strong>is lugares, com pesada cargaeletrônica, <strong>de</strong>stinadas a missões <strong>de</strong> combate e treinamento.Na seleção <strong>do</strong> Chile, o Super Tucano venceu concorrentes difíceis. Estavam em avaliaçãopelo menos cinco outros mo<strong>de</strong>los: o suíço Pilatus PC-21, o americano Texan II, o argentino PampaAT-63, o coreano T-50 e o italiano M346. A encomenda equatoriana po<strong>de</strong> ser maior que aanunciada. Segun<strong>do</strong> o presi<strong>de</strong>nte Rafael Correa, a intenção é <strong>de</strong> adquirir “ao menos 24 caças numprimeiro momento”.A Força Aérea Brasileira, a FAB, negociou com a Embraer um lote <strong>de</strong> 99 turboélices. Jáforam entregues cerca <strong>de</strong> 50, rebatiza<strong>do</strong>s como A-29 (versão exclusiva <strong>de</strong> ataque) e AT-29,configuração <strong>de</strong> <strong>do</strong>is pilotos.Na América Central, a Republica Dominicana e a Guatemala também selecionaram o aviãobrasileiro. O merca<strong>do</strong> para essa classe <strong>de</strong> aeronave é promissor: até 2010 serão <strong>de</strong>fini<strong>do</strong>s pedi<strong>do</strong>s <strong>de</strong>até 350 aviões da classe <strong>do</strong> Super Tucano fora <strong>do</strong> eixo <strong>do</strong>s EUA e da Europa. Só o merca<strong>do</strong> asiáticorespon<strong>de</strong>rá por 200 unida<strong>de</strong>s, representan<strong>do</strong> US$ 1,1 bilhão.O mo<strong>de</strong>lo exporta<strong>do</strong> para o Chile e o Equa<strong>do</strong>r é inspira<strong>do</strong> no conjunto antiguerrilhaespecifica<strong>do</strong> pela Colômbia e usa<strong>do</strong> no ataque <strong>de</strong> 1º <strong>de</strong> março contra um acampamento clan<strong>de</strong>stinodas Farc no Equa<strong>do</strong>r.Pequeno e ágil, o Super Tucano é uma engenhosa combinação <strong>de</strong> recursos tecnológicos <strong>de</strong>última geração com a engenharia <strong>de</strong> baixo custo <strong>do</strong>s turboélices.Po<strong>de</strong> permanecer sete horas em missão <strong>de</strong> patrulha. Leva 1,5 tonelada <strong>de</strong> carga <strong>de</strong> ataque eduas armas fixas - canhões <strong>de</strong> 30 milímetros ou metralha<strong>do</strong>ras pesadas. Voa a 590 km/h.Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> São PauloLIBERDADE NOS PORTOS26/05/<strong>2008</strong>A sena<strong>do</strong>ra I<strong>de</strong>li Salvati, <strong>do</strong> PT catarinense, discursou recentemente no Sena<strong>do</strong> contra osterminais portuários privativos. Segun<strong>do</strong> ela, esses projetos constituem uma concorrência <strong>de</strong>slealcom os portos públicos. Na verda<strong>de</strong>, ten<strong>de</strong>m a ser mais eficientes, e por isso são tão necessários.Calcula-se em 60 berços <strong>de</strong> atracação para navios porta-contêineres o déficit estrutural nosportos brasileiros. Os portos públicos arrenda<strong>do</strong>s sob regime <strong>de</strong> concessão na década <strong>de</strong> 1990 jáoperam no limite <strong>de</strong> sua capacida<strong>de</strong>.O eleva<strong>do</strong> tempo <strong>de</strong> espera para atracação das embarcações nos principais portos brasileiros éfator prejudicial aos interesses nacionais, na medida em que pressiona custos e compromete acompetitivida<strong>de</strong> <strong>do</strong> setor produtivo. Demora em porto é sempre sinônimo <strong>de</strong> prejuízo.Ciente <strong>do</strong>s gargalos representa<strong>do</strong>s pelo esgotamento da capacida<strong>de</strong> logística, a agênciaresponsável pela regulação e fiscalização <strong>do</strong> setor, a ANTAQ, tem procura<strong>do</strong> agilizar a outorga <strong>de</strong>autorizações <strong>de</strong> terminais privativos <strong>de</strong> uso misto (que movimentam carga própria e <strong>de</strong> terceiros).
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>148Contu<strong>do</strong>, os arrendatários <strong>do</strong>s terminais públicos, que atuam sob o regime <strong>de</strong> concessão,organizam-se, neste momento, para impedir a operação <strong>de</strong>sses terminais privativos, alegan<strong>do</strong> sua“ilegalida<strong>de</strong>” e o risco <strong>de</strong> promoverem “uma competição <strong>de</strong>senfreada” no setor.Por meio da entida<strong>de</strong> que os representa, propuseram no Supremo Tribunal Fe<strong>de</strong>ral (STF) umaargüição <strong>de</strong> <strong>de</strong>scumprimento <strong>de</strong> preceito fundamental, com pedi<strong>do</strong> <strong>de</strong> liminar, visan<strong>do</strong> a questionarautorizações concedidas pela ANTAQ e, conseqüentemente, impedir a disseminação <strong>de</strong>sse tipo <strong>de</strong>empreendimento.A insegurança jurídica <strong>de</strong>corrente <strong>de</strong>ssa <strong>de</strong>manda <strong>de</strong>sestimula novos investimentos e paralisaos já em curso, justamente num momento em que o Brasil precisa eliminar gargalos e ampliar a suacapacida<strong>de</strong> logística no setor.O argumento da ilegalida<strong>de</strong> levanta<strong>do</strong> na argüição é inconsistente, uma vez que a ANTAQtem o amparo da própria Constituição fe<strong>de</strong>ral — que, em seu artigo 21, inciso XII, alínea F, dispõeque os portos po<strong>de</strong>m ser explora<strong>do</strong>s mediante autorização. Tem ainda o respal<strong>do</strong> expresso da lei8.630/93 (Lei <strong>de</strong> Mo<strong>de</strong>rnização <strong>do</strong>s Portos) e da lei 10.233/01, que criou a agência.Na verda<strong>de</strong>, a argüição encaminhada ao Supremo tenta encobrir o verda<strong>de</strong>iro motivo que levaos arrendatários <strong>de</strong> portos públicos a se insurgir contra os novos terminais privativos: o temor <strong>de</strong>uma maior competição no setor <strong>de</strong> logística portuária, algo que beneficiaria to<strong>do</strong>s os usuários <strong>de</strong>transporte marítimo e <strong>de</strong> serviços portuários.Váli<strong>do</strong> dizer que os terminais privativos <strong>de</strong> uso misto exigem investimentos <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> soma,em projetos que chegam a R$1 bilhão. Em função <strong>do</strong>s pesa<strong>do</strong>s investimentos, os projetos reúneminvesti<strong>do</strong>res <strong>de</strong> diferentes segmentos, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> empresas especializadas em transporte e logística ainstituições financeiras.Tal característica por si só contribui para a pulverização <strong>do</strong>s interesses e a prevenção <strong>de</strong>monopólios li<strong>de</strong>ra<strong>do</strong>s por um grupo hegemônico, características que se harmonizam com oprincípio da livre concorrência.É váli<strong>do</strong> lembrar ainda que os arrendatários <strong>do</strong>s terminais públicos também po<strong>de</strong>m investirem terminais privativos, em igualda<strong>de</strong> <strong>de</strong> condições com novos players — o que gera maisconcorrência.O Brasil precisa aumentar seus investimentos no setor portuário, a fim <strong>de</strong> aten<strong>de</strong>r à crescente<strong>de</strong>manda <strong>do</strong> comércio exterior. O po<strong>de</strong>r público esgotou a sua capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> investimento, atéporque elegeu outras priorida<strong>de</strong>s fiscais.Assim, os terminais privativos <strong>de</strong> uso misto constituem a única possibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> ampliação e<strong>de</strong> mo<strong>de</strong>rnização da logística portuária. E, uma vez que são autoriza<strong>do</strong>s e fiscaliza<strong>do</strong>s por órgãocompetente, que age em conformida<strong>de</strong> com a lei, não há qualquer justificativa para impedir a suainstalação e o seu funcionamento.Ao levar a questão à Justiça, os concessionários <strong>de</strong> terminais públicos <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>m seusinteresses. Ao tomar seu parti<strong>do</strong>, ainda que indiretamente, a sena<strong>do</strong>ra I<strong>de</strong>li Salvati age <strong>de</strong> boa-fé,mas comete um equívoco. Coibir a expansão <strong>do</strong>s terminais privativos equivale a perpetuar, no setorportuário, práticas patrimonialistas — aquelas em que o Esta<strong>do</strong> beneficia poucos em <strong>de</strong>trimento <strong>de</strong>muitos.O Brasil, que já teve uma lei <strong>de</strong> reserva na informática, não precisa <strong>de</strong> uma Lei <strong>de</strong> Reserva<strong>do</strong>s Portos.O GloboAmazônia: Pressão <strong>de</strong>svia foco da sustentabilida<strong>de</strong>, diz diretorda ANA16/06/<strong>2008</strong>O <strong>de</strong>smatamento e a Floresta Amazônica têm uma gran<strong>de</strong> visibilida<strong>de</strong> global que acabapressionan<strong>do</strong>, muitas vezes, o governo a dar uma atenção exagerada a essas temáticas em
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>149<strong>de</strong>trimento <strong>de</strong> outros assuntos importantes para a sustentabilida<strong>de</strong> <strong>do</strong> país, como o uso <strong>do</strong>s recursoshídricos.A opinião é <strong>do</strong> diretor-presi<strong>de</strong>nte da Agência Nacional <strong>de</strong> Águas (ANA), José Macha<strong>do</strong>, queapresentou hoje (14) na Exposição Internacional Água e Desenvolvimento Sustentável, na cida<strong>de</strong>espanhola <strong>de</strong> Zaragoza, as principais ações da Política Brasileira <strong>de</strong> Recursos Hídricos.- A priorização da preservação amazônica é necessária, não há dúvidas sobre isso, mastambém acho importante ter uma pauta mais diversificada, e a questão da água me parece queprecisa ter uma proeminência maior na agenda nacional - afirmou o diretor , em entrevista àAgência Brasil.Para Macha<strong>do</strong>, o país po<strong>de</strong>ria obter ganhos substanciais se usasse estrategicamente a gran<strong>de</strong>disponibilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> água, com a gestão <strong>do</strong> recurso <strong>de</strong> forma sustentável.- O Brasil tem <strong>de</strong> fazer uma gestão eficiente da água e com isso galgar o <strong>de</strong>senvolvimento emfunção da sua disponibilida<strong>de</strong> <strong>do</strong> recurso. Essa é uma vantagem comparativa que o Brasil tem eprecisa ver isso como oportunida<strong>de</strong> - <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>u.O diretor apontou como exemplo o uso da irrigação. O Brasil usa atualmente apenas 10% dapotencialida<strong>de</strong> <strong>de</strong>ssa técnica. De acor<strong>do</strong> com Macha<strong>do</strong>, a aplicação mo<strong>de</strong>rna e inteligente da práticairrigatória po<strong>de</strong>ria aumentar a produção agrícola em várias regiões <strong>do</strong> país, pois permitiria acolheita <strong>de</strong> duas safras anuais, em vez <strong>de</strong> uma.Ele <strong>de</strong>stacou também que a Política Nacional <strong>de</strong> Irrigação já tramita no Congresso Nacional ehá tecnologias e instituições <strong>de</strong> pesquisa suficientes para uma gestão eficiente das águas, mas oassunto precisa ser incluí<strong>do</strong> em um planejamento estratégico <strong>do</strong> país.Jornal <strong>do</strong> BrasilÉ possível 'salvar' a Amazônia?15/06/<strong>2008</strong>Há 10 mil anos as florestas cobriam uma área <strong>de</strong> quase 50 milhões <strong>de</strong> quilômetros quadra<strong>do</strong>sda superfície da Terra, seis vezes maior <strong>do</strong> que to<strong>do</strong> o Brasil. Com o avanço da civilização, cerca <strong>de</strong>10 milhões <strong>de</strong>sses quilômetros quadra<strong>do</strong>s foram <strong>de</strong>rruba<strong>do</strong>s e transforma<strong>do</strong>s em áreas <strong>de</strong>dicadas àagricultura, principalmente na Europa, na América <strong>do</strong> Norte, bem como em áreas com florestas <strong>de</strong>clima tempera<strong>do</strong> ou boreal.Nessas regiões o <strong>de</strong>smatamento cessou há mais <strong>de</strong> cem anos e muitas áreas foramreflorestadas, como, aliás, é o caso da Floresta da Tijuca, no Rio <strong>de</strong> Janeiro, que fora substituída, naprimeira meta<strong>de</strong> <strong>do</strong> século 19, por plantações <strong>de</strong> café, sen<strong>do</strong> a ma<strong>de</strong>ira utilizada para lenha ecarvão.O que está ocorren<strong>do</strong> hoje é a <strong>de</strong>rrubada <strong>de</strong> florestas tropicais - que até mea<strong>do</strong>s <strong>do</strong> século 20tinha si<strong>do</strong> pequena -, principalmente na In<strong>do</strong>nésia, no Brasil, na Malásia, na Tailândia e em paísesda África. Cerca <strong>de</strong> 100 mil quilômetros quadra<strong>do</strong>s por ano <strong>de</strong>ssas florestas estão sen<strong>do</strong>transforma<strong>do</strong>s em áreas <strong>de</strong>dicadas à agricultura ou a pastagens, quase 20% <strong>do</strong>s quais no Brasil,principalmente na Amazônia.A expansão da fronteira agrícola nas florestas tropicais não está ocorren<strong>do</strong> por acaso, mas é oresulta<strong>do</strong> <strong>de</strong> forças econômicas consi<strong>de</strong>ráveis, que tentam respon<strong>de</strong>r à <strong>de</strong>manda crescente poralimentos no mun<strong>do</strong> e ao comércio ilegal <strong>de</strong> ma<strong>de</strong>iras nobres.As conseqüências negativas <strong>do</strong> <strong>de</strong>smatamento da Amazônia em gran<strong>de</strong> escala são muito maisbem conhecidas hoje <strong>do</strong> que no passa<strong>do</strong>, e já se sabe que ele mudará para pior o clima <strong>de</strong> to<strong>do</strong> oPaís.Apesar disso, ele continua a ocorrer, por uma simples razão: as conseqüências <strong>do</strong><strong>de</strong>smatamento só se fazem sentir a médio e longo prazos, mas os benefícios (para os que <strong>de</strong>smatam)são imediatos, tais como a venda da ma<strong>de</strong>ira e a conversão da terra (barata) em pastagens e emplantações <strong>de</strong> soja. É por isso que governa<strong>do</strong>res e prefeitos da região amazônica em geral são
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>150favoráveis ao <strong>de</strong>smatamento, respon<strong>de</strong>n<strong>do</strong> aos anseios da população que lá vive e levan<strong>do</strong> em contaos seus interesses políticos <strong>de</strong> eleição e reeleição a cada quatro anos.Por essa razão, não é realista pensar que a floresta amazônica será preservada intacta, comoum imenso jardim botânico, porque já vivem lá 25 milhões <strong>de</strong> brasileiros. Cerca <strong>de</strong> 15% da florestajá foi <strong>de</strong>rrubada, mas existem também inúmeros parques nacionais e áreas protegidas.Fora <strong>de</strong>ssas áreas <strong>de</strong>veria ser preservada, pelos seus proprietários, a “reserva legal” <strong>de</strong> 80%.Se este dispositivo fosse obe<strong>de</strong>ci<strong>do</strong>, ainda se po<strong>de</strong>ria “salvar” a floresta não como uma áreacontígua, mas como um gigantesco mosaico.Para que isso ocorra é preciso, antes <strong>de</strong> mais nada, regularizar a posse da terra e impedir a“grilagem”, sobretu<strong>do</strong> em terras públicas, ou seja, é preciso aumentar a presença <strong>do</strong> po<strong>de</strong>r públicona Amazônia, crian<strong>do</strong> uma Polícia Ambiental que proteja os parques nacionais e puna severamenteaqueles que não respeitam a “reserva legal” e <strong>de</strong>smatam a floresta.Argumentar que isso não po<strong>de</strong> ser feito é falso e po<strong>de</strong> ser <strong>de</strong>monstra<strong>do</strong> pelo que estáocorren<strong>do</strong> em Esta<strong>do</strong>s <strong>do</strong> sul <strong>do</strong> País, sobretu<strong>do</strong> em São Paulo, on<strong>de</strong> a Polícia Ambiental possui umefetivo superior a 2 mil homens. Os Esta<strong>do</strong>s da Amazônia <strong>de</strong>veriam ter também uma PolíciaAmbiental e, se não tiverem recursos para tal, caberia ao governo fe<strong>de</strong>ral assumir essa tarefa.Uma outra idéia, que surgiu mais recentemente, é a <strong>de</strong> remunerar os proprietários <strong>de</strong> terras naAmazônia para conservar a floresta em pé, em lugar <strong>de</strong> cortá-la. Este méto<strong>do</strong> é aplica<strong>do</strong> há muitosanos nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s para manter sem uso uma reserva <strong>de</strong> cerca <strong>de</strong> 10% da área agricultáveldaquele país. Isso é feito para evitar que o excesso <strong>de</strong> produção <strong>de</strong> certos produtos leve a uma quedaexagerada <strong>do</strong> seu valor no merca<strong>do</strong>.Nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, o governo paga cerca <strong>de</strong> US$ 100 por hectare aos proprietários. Aplicaresse sistema no Brasil exige, em primeiro lugar, que seja regularizada a questão da posse das terras.Em segun<strong>do</strong>, seria preciso <strong>de</strong>finir <strong>de</strong> on<strong>de</strong> viriam os recursos, que po<strong>de</strong>riam ser enormes por causada extensão <strong>do</strong> <strong>de</strong>smatamento.A solução aventada até agora pelo Ministério <strong>do</strong> Meio Ambiente e pelo Itamaraty é usar afilantropia internacional, o que nos parece uma proposição inviável. As <strong>do</strong>ações filantrópicas teriam<strong>de</strong> ser feitas to<strong>do</strong>s os anos e, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>n<strong>do</strong> <strong>do</strong> valor que se dê à floresta (e ao carbono nelaarmazena<strong>do</strong>), po<strong>de</strong>riam ser necessários bilhões <strong>de</strong> dólares por ano. A nosso ver, só um mecanismo<strong>de</strong> merca<strong>do</strong>, como o Mecanismo <strong>de</strong> Desenvolvimento Limpo, mobilizaria esses recursos.Além disso, o problema <strong>de</strong>ssa proposta é que muitos proprietários po<strong>de</strong>riam preferir <strong>de</strong>rrubara floresta e usar a área <strong>de</strong>smatada para ativida<strong>de</strong>s econômicas mais rentáveis, plantar soja, porexemplo, como está, <strong>de</strong> fato, ocorren<strong>do</strong> em muitos Esta<strong>do</strong>s, freqüentemente com créditos facilita<strong>do</strong>s<strong>de</strong> bancos estatais.Sem facilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> crédito o <strong>de</strong>smatamento é reduzi<strong>do</strong>, como ocorreu entre 1989 e 1992, nosgovernos Sarney e Collor. E, se o entusiasmo <strong>do</strong> governo fe<strong>de</strong>ral em abrir estradas na Amazôniadiminuir, as possibilida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> evitar a expansão <strong>do</strong> <strong>de</strong>smatamento vão reduzir-se mais ainda. Afinal<strong>de</strong> contas, a área <strong>de</strong>vastada no Pará, em Mato Grosso e em alguns outros Esta<strong>do</strong>s já foi tão gran<strong>de</strong> -cerca <strong>de</strong> 400 mil quilômetros quadra<strong>do</strong>s - que a sua utilização tornaria <strong>de</strong>snecessários novos<strong>de</strong>smatamentos, se fossem da<strong>do</strong>s incentivos para tal, uma vez que a recuperação <strong>do</strong> solo exigeinvestimentos.Mesmo com essas políticas, nunca teremos <strong>de</strong> volta uma floresta contígua e intocada como nopassa<strong>do</strong>, mas um mosaico com áreas prósperas e enormes áreas protegidas, garantin<strong>do</strong> um<strong>de</strong>senvolvimento sustentável da região.O Esta<strong>do</strong> <strong>de</strong> São Paulo
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>151BRASIL: SAÚDEO 'AEDES' ATACA23/04/<strong>2008</strong>Epi<strong>de</strong>mia já é a pior <strong>de</strong> todasNúmero <strong>de</strong> mortes por <strong>de</strong>ngue (92) supera o <strong>de</strong> 2002 e especialistas prevêem maisCom 92 mortes confirmadas, o número <strong>de</strong> óbitos por <strong>de</strong>ngue este ano já supera o <strong>de</strong>to<strong>do</strong> o ano <strong>de</strong> 2002, quan<strong>do</strong> 91 pessoas morreram na epi<strong>de</strong>mia que era consi<strong>de</strong>rada amais grave já enfrentada pelo Esta<strong>do</strong> <strong>do</strong> Rio. E o número <strong>de</strong> óbitos po<strong>de</strong> ser ainda maior:outros 96 estão sen<strong>do</strong> investiga<strong>do</strong>s. Se confirma<strong>do</strong>s, o total po<strong>de</strong>rá chegar a 188, maisque o <strong>do</strong>bro daquele ano. Comparan<strong>do</strong> as duas epi<strong>de</strong>mias, este ano a letalida<strong>de</strong> é quasetrês vezes maior. Em 2002, 288.245 pessoas foram infectadas. Este ano, em quatromeses são 110.783 casos. De janeiro até 25 <strong>de</strong> abril daquele ano foram computadas 56mortes, 36 a menos <strong>do</strong> que as registradas pela Secretaria estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong> no mesmoperío<strong>do</strong> <strong>de</strong>ste ano. Ou seja, naquela época, a esta altura <strong>do</strong> ano, eram 40% a menos.O município <strong>do</strong> Rio tem o maior número <strong>de</strong> casos e <strong>de</strong> óbitos. São 56.919 pessoasinfectadas pelo mosquito Ae<strong>de</strong>s aegypti e 55 mortos. Ontem a Secretaria municipal <strong>de</strong>Saú<strong>de</strong> confirmou a morte <strong>de</strong> uma mulher, <strong>de</strong> 48 anos, mora<strong>do</strong>ra <strong>de</strong> Pieda<strong>de</strong>, vítima <strong>de</strong><strong>de</strong>ngue hemorrágica no sába<strong>do</strong>. Ela faleceu no Hospital da Or<strong>de</strong>m Terceira daPenitência, na Tijuca.Das 92 mortes, 32 foram por <strong>de</strong>ngue hemorrágica e 42%, <strong>de</strong> menores <strong>de</strong> 15 anos. Amaior parte <strong>do</strong>s <strong>do</strong>entes (55%) tem <strong>de</strong> 15 a 49 anos. Três óbitos <strong>de</strong> mãe e seu feto foramconfirma<strong>do</strong>s. O último, no dia 18, quan<strong>do</strong> uma gestante morreu da <strong>do</strong>ença no município<strong>de</strong> Italva. Este ano foram notifica<strong>do</strong>s 603 casos <strong>de</strong> <strong>de</strong>ngue em grávidas.Além <strong>do</strong> Rio, os municípios com maior número <strong>de</strong> mortes são Duque <strong>de</strong> Caxias (11),São João <strong>de</strong> Meriti (5), Campos e Angra <strong>do</strong>s Reis (ambos com 4 óbitos) e Paracambi,Nova Iguaçu e São Gonçalo (3 mortes cada um).Para esta<strong>do</strong>, casos começam a baixarDe acor<strong>do</strong> com a Secretaria estadual <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, o número <strong>de</strong> casos <strong>de</strong> <strong>de</strong>ngue está começan<strong>do</strong>a diminuir. Em janeiro foram 16.573 ; em fevereiro, 22.355; em março, 46.780 e nos 22 dias <strong>de</strong>abril, 25.075.Para o chefe <strong>do</strong> Departamento <strong>de</strong> Medicina Preventiva da UFRJ, Roberto Medronho,provavelmente meta<strong>de</strong> <strong>do</strong>s 96 óbitos que estão sen<strong>do</strong> analisa<strong>do</strong>s para saber se foram por <strong>de</strong>ngueserá confirmada.- É um triste e lamentável recor<strong>de</strong> que não precisávamos ter bati<strong>do</strong>. Parte <strong>do</strong>s óbitosregistra<strong>do</strong>s po<strong>de</strong>ria ter si<strong>do</strong> evitada se, em vez <strong>de</strong> escon<strong>de</strong>rem a epi<strong>de</strong>mia, todas as medidasnecessárias tivessem si<strong>do</strong> tomadas a tempo. Nos Esta<strong>do</strong>s Uni<strong>do</strong>s, quan<strong>do</strong> um especialista em algumassunto menciona uma expectativa <strong>de</strong> óbitos que possa vir a ser confirmada, como nos casos queestão sen<strong>do</strong> avalia<strong>do</strong>s, eles chamam <strong>de</strong> chute <strong>de</strong>lica<strong>do</strong> - disse Medronho. - É inadmissível que, empleno século 21, crianças morram <strong>de</strong> uma epi<strong>de</strong>mia que po<strong>de</strong>ria ter si<strong>do</strong> evitada. Com certeza, osda<strong>do</strong>s indicam que estamos viven<strong>do</strong> a mais grave <strong>de</strong> todas as epi<strong>de</strong>mias <strong>de</strong> <strong>de</strong>ngue já registradas.Também para o entomólogo Anthony Érico Guimarães, da Fiocruz, muitos <strong>do</strong>s casos <strong>de</strong>óbitos em análise serão confirma<strong>do</strong>s:- A epi<strong>de</strong>mia <strong>de</strong>ste ano está atingin<strong>do</strong> mais jovens com ida<strong>de</strong>s inferiores a 15 anos, que nasepi<strong>de</strong>mias <strong>de</strong> 2001 e 2002 tiveram contato com o vírus tipo 3 da <strong>de</strong>ngue. Agora, o tipo 2 veio comforça em cima <strong>de</strong>ssas pessoas. Sem dúvida há um culpa<strong>do</strong>. Se não temos uma vacina para combateressa <strong>do</strong>ença, os órgãos <strong>do</strong> governo <strong>de</strong>veriam ensinar mais a<strong>de</strong>quadamente à população comoi<strong>de</strong>ntificar e eliminar o mosquito transmissor da <strong>de</strong>ngue e suas larvas. Há duas campanhas que
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>152po<strong>de</strong>riam ser realizadas: a informativa e a educativa. O governo está informan<strong>do</strong> a população comocombater a <strong>do</strong>ença <strong>de</strong> forma equivocada. Em vez <strong>de</strong> orientar como guardar os pneus em casa, porexemplo, o governo <strong>de</strong>veria recolher os pneus para reciclagem.Uma megaoperação contra focos <strong>de</strong> Ae<strong>de</strong>s aegypti mobilizou ontem 20 agentes <strong>de</strong> en<strong>de</strong>miasno antigo parque gráfico da Manchete, em Parada <strong>de</strong> Lucas. Durante to<strong>do</strong> o dia, os agentesencontraram 20 possíveis cria<strong>do</strong>uros <strong>do</strong> mosquito. Des<strong>de</strong> o início <strong>do</strong> mês, quan<strong>do</strong> foi baixa<strong>do</strong><strong>de</strong>creto municipal permitin<strong>do</strong> a cassação <strong>de</strong> alvará <strong>do</strong>s estabelecimentos que não eliminam focos,20 comerciantes já foram notifica<strong>do</strong>s. Eles tiveram 24 horas para eliminar os cria<strong>do</strong>uros.Nova turma <strong>de</strong> médicos gaúchosSegun<strong>do</strong> o coor<strong>de</strong>na<strong>do</strong>r <strong>do</strong> Controle <strong>de</strong> Vetores da Secretaria municipal <strong>de</strong> Saú<strong>de</strong>, MauroBlanco, o resulta<strong>do</strong> da varredura no parque gráfico vai constar <strong>de</strong> um relatório. Nos próximos dias,o <strong>do</strong>cumento será envia<strong>do</strong> aos responsáveis pelo estabelecimento, que <strong>de</strong>verão tomar providências,e ainda para a Defesa Civil municipal. Durante a vistoria, nenhum responsável pelo prédio foiencontra<strong>do</strong>. Os agentes aplicaram biolarvicida no local.- Os agentes já tinham feito uma varredura no prédio e a quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong> mosquitos adultos émuito gran<strong>de</strong>. O prédio é um macrofoco <strong>do</strong> Ae<strong>de</strong>s e traz risco para a população vizinha - alertouBlanco, lembran<strong>do</strong> que a população po<strong>de</strong> fazer <strong>de</strong>núncias ao Tele-Dengue: 2575-0007.Coor<strong>de</strong>na<strong>do</strong>r da Defesa Civil municipal, o coronel João Carlos Mariano disse que, entre asempresas notificadas, havia até uma boate com a caixa d'água <strong>de</strong>stampada em Ipanema. Mas, amaioria <strong>de</strong>sses estabelecimentos é formada por ferros-velhos, <strong>de</strong>pósitos, borracheiros e lojas <strong>de</strong>materiais <strong>de</strong> construção .Na manhã <strong>de</strong> ontem, 19 médicos que chegaram segunda-feira <strong>do</strong> Rio Gran<strong>de</strong> <strong>do</strong> Sulreceberam um treinamento no Quartel Central <strong>do</strong> Corpo <strong>de</strong> Bombeiros. Os profissionais vãotrabalhar nas tendas <strong>de</strong> hidratação <strong>do</strong> esta<strong>do</strong>. Com a chegada <strong>do</strong>s profissionais, outro grupo <strong>de</strong> 19médicos voltou para casa. Cerca <strong>de</strong> 90 médicos vin<strong>do</strong>s <strong>de</strong> outros esta<strong>do</strong>s trabalham no atendimentoàs vítimas da <strong>de</strong>ngue no Rio. Já os médicos que se apresentaram ao esta<strong>do</strong> indica<strong>do</strong>s pelo ConselhoRegional <strong>de</strong> Medicina <strong>do</strong> Rio (Cremerj) são 48. Dois <strong>de</strong>les, porém, <strong>de</strong>sistiram <strong>do</strong> trabalho.O GloboVITÓRIA DA CIÊNCIA30/05/<strong>2008</strong>Supremo libera pesquisas com células-tronco <strong>de</strong> embriões humanos no BrasilApós três anos <strong>de</strong> in<strong>de</strong>finição, que <strong>de</strong>ixaram paralisadas as pesquisas com células-tronco <strong>de</strong>embriões humanos no país, o Supremo Tribunal Fe<strong>de</strong>ral (STF) liberou ontem <strong>de</strong> forma <strong>de</strong>finitivaesse tipo <strong>de</strong> experiência no país. Seis <strong>do</strong>s 11 ministros da Corte <strong>de</strong>clararam total apoio às pesquisas.Outros cinco também consi<strong>de</strong>raram constitucionais os estu<strong>do</strong>s, mas com restrições. Em três <strong>de</strong>ssesvotos, as pon<strong>de</strong>rações eram tão rigorosas que, na prática, tornariam as pesquisas inviáveis. Masprevaleceu o entendimento <strong>de</strong> que a Igreja, o maior entrave à liberação, não po<strong>de</strong> interferir em<strong>de</strong>cisões <strong>de</strong> um esta<strong>do</strong> laico. O resulta<strong>do</strong> da sessão foi festeja<strong>do</strong> por cientistas e porta<strong>do</strong>res <strong>de</strong><strong>de</strong>ficiências físicas e outras <strong>do</strong>enças.Ontem, terceiro e último dia <strong>do</strong> julgamento, o voto mais contun<strong>de</strong>nte em <strong>de</strong>fesa das pesquisasfoi da<strong>do</strong> pelo ministro Celso <strong>de</strong> Mello. Ele iniciou sua fala critican<strong>do</strong> com veemência qualquertentativa <strong>de</strong> encarar o tema <strong>do</strong> ponto <strong>de</strong> vista religioso:— A laicida<strong>de</strong> <strong>do</strong> esta<strong>do</strong> não se compa<strong>de</strong>ce <strong>do</strong> exercício da ativida<strong>de</strong> pública movida pelo<strong>do</strong>gma da fé.As pesquisas com material embrionário foram autorizadas em 2005 pela Lei <strong>de</strong>Biossegurança. Mas o Ministério Público Fe<strong>de</strong>ral, ten<strong>do</strong> à frente o procura<strong>do</strong>r Cláudio Fonteles,entrou com uma ação no STF questionan<strong>do</strong> a constitucionalida<strong>de</strong> da lei. Ela <strong>de</strong>srespeitaria <strong>do</strong>isprincípios constitucionais: o direito à vida e a dignida<strong>de</strong> da pessoa humana.
Informativo Nr <strong>105</strong> (2º/<strong>2008</strong>) – CP/ECEME <strong>2008</strong>153Em seu voto, Celso <strong>de</strong> Mello sustentou que o embrião não po<strong>de</strong> ser trata<strong>do</strong> como pessoa. Elembrou que os embriões <strong>de</strong>scarta<strong>do</strong>s por clínicas <strong>de</strong> fertilização “são fada<strong>do</strong>s ao lixo sanitário” eque, portanto, usá-los em pesquisas lhes daria “uma <strong>de</strong>stinação mais nobre”. Marco Aurélio Mello<strong>de</strong>fen<strong>de</strong>u a mesma tese:— Os embriões serão <strong>de</strong>struí<strong>do</strong>s <strong>de</strong> qualquer mo<strong>do</strong>. A questão é saber se serão <strong>de</strong>struí<strong>do</strong>sfazen<strong>do</strong> o bem para outras pessoas ou não.O julgamento havia começa<strong>do</strong> em março, mas foi suspenso após os votos favoráveis àspesquisas <strong>de</strong> Carlos Ayres Britto e Ellen Gracie Northfleet por um pedi<strong>do</strong> <strong>de</strong> vista <strong>de</strong> CarlosAlberto Direito. Na quarta-feira, Direito apresentou seu voto. Dizia concordar com as pesquisas,<strong>de</strong>s<strong>de</strong> que os embriões usa<strong>do</strong>s não fossem <strong>de</strong>struí<strong>do</strong>s — uma técnica muito difícil, segun<strong>do</strong> aavaliação <strong>de</strong> cientistas <strong>do</strong> setor. Ele também sugeriu maior rigor na autorização e fiscalização daspesquisas.Em seguida, Eros Grau e Ricar<strong>do</strong> Lewan<strong>do</strong>wski votaram da mesma forma. O ministro CezarPeluso concor<strong>do</strong>u com as pesquisas, mas impôs apenas uma restrição: o maior rigor no controle <strong>do</strong>sprocedimentos. No mesmo dia, os ministros Cármen Lúcia Antunes Rocha e Joaquim Barbosavotaram sem restrições em prol <strong>do</strong>s experimentos. Ontem, foi a vez <strong>de</strong> Celso <strong>de</strong> Mello e MarcoAurélio <strong>de</strong>clararem apoio às pesquisas. O presi<strong>de</strong>nte da Corte, Gilmar Men<strong>de</strong>s, <strong>de</strong>fen<strong>de</strong>u a mesmaposição <strong>de</strong> Peluso.CNBB con<strong>de</strong>na <strong>de</strong>cisão e <strong>de</strong>fen<strong>de</strong> embriãoApós o voto <strong>de</strong> Celso <strong>de</strong> Mello, que completou os seis votos da maioria a favor, os porta<strong>do</strong>res<strong>de</strong> <strong>de</strong>ficiência presentes começaram a comemorar. A geneticista Mayana Zatz, pró-reitora <strong>de</strong>pesquisa da USP, foi abraçar o grupo.— Estou muito emocionada, mas temos uma enorme responsabilida<strong>de</strong> pela frente. Com aliberação da pesquisa, vamos submeter os projetos aos comitês e correr atrás <strong>do</strong> prejuízo. Euconcor<strong>do</strong> plenamente com o rigor e espero que, em alguns anos, os que votaram contra possamdizer que nós tínhamos razão — disse Mayana.Celso <strong>de</strong> Mello resumiu o espírito <strong>do</strong> julgamento, que consi<strong>de</strong>rou “histórico”:— O voto permitirá a milhões <strong>de</strong> brasileiros que hoje sofrem, pessoas que estão postas àmargem da vida, o exercício <strong>de</strong> um direito concreto e inalienável, que é o direito da busca dafelicida<strong>de</strong> e <strong>de</strong> viver com dignida<strong>de</strong>, um direito <strong>do</strong> qual absolutamente ninguém po<strong>de</strong> ser priva<strong>do</strong>.Longe <strong>do</strong> tribunal, o ministro da Saú<strong>de</strong>, José Gomes Temporão, divulgou nota celebran<strong>do</strong> oresulta<strong>do</strong>. “A <strong>de</strong>cisão <strong>do</strong> STF é uma vitória da vida, pois aten<strong>de</strong> à expectativa <strong>de</strong> milhares <strong>de</strong>pacientes que têm esperança <strong>de</strong> cura para as suas <strong>do</strong>enças. As pesquisas <strong>de</strong> células-tronco abreminúmeras possibilida<strong>de</strong>s para encontramos respostas para <strong>do</strong>enças que não têm tratamento hoje”, dizo texto. A Conferência Nacional <strong>do</strong>s Bispos <strong>do</strong> Brasil (CNBB), por sua vez, divulgou notalamentan<strong>do</strong> a <strong>de</strong>cisão: “O embrião humano tem direito à proteção <strong>do</strong> Esta<strong>do</strong>.O Globo