64 O uso de modelos em ecologia de paisagens
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Metzger, Fonseca, Oliveira-Filho & Martensen | 67atualmente (por ex<strong>em</strong>plo, para uma ampla gama <strong>de</strong>porcentagens <strong>de</strong> hábitat na paisag<strong>em</strong>; diferentes configuraçõesespaciais; diferentes condições climáticas); eiii) testar a importância relativa <strong>de</strong> cada parâmetro (<strong>em</strong>mo<strong>de</strong>los, é possível controlar as variáveis) ou a sensibilida<strong>de</strong>do mo<strong>de</strong>lo a um <strong>de</strong>terminado parâmetro (dandoassim indicações <strong>de</strong> que parâmetros <strong>de</strong>v<strong>em</strong> ser observadosou monitorados no campo). Em termos práticos,bons mo<strong>de</strong>los po<strong>de</strong>m ser valiosos instrumentos <strong>de</strong> <strong>de</strong>cisão(enquanto mo<strong>de</strong>los falsos po<strong>de</strong>m ser extr<strong>em</strong>amenteperniciosos).Uma ampla varieda<strong>de</strong> <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los é utilizada <strong>em</strong> Ecologia<strong>de</strong> Paisagens (Turner et al., 2001), <strong>de</strong>s<strong>de</strong> os maissimples, como mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong>terminísticos baseados <strong>em</strong>manchas, até os extr<strong>em</strong>amente complexos, como osmo<strong>de</strong>los espacialmente explícitos baseados <strong>em</strong> indivíduos(os Individual-Based Mo<strong>de</strong>ls, IBM) (Tabela 2). Apesar<strong>de</strong>sta ampla gama <strong>de</strong> possibilida<strong>de</strong>s, os mo<strong>de</strong>los utilizados<strong>em</strong> Ecologia <strong>de</strong> Paisagens caracterizam-se porconsi<strong>de</strong>rar<strong>em</strong> as relações “padrões-processos” e a heterogeneida<strong>de</strong>do espaço, <strong>de</strong> forma implícita, explícitaou realista 1 .TABELA 2 – Principais características <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los com menorou maior complexida<strong>de</strong> que po<strong>de</strong>m ser usados <strong>em</strong> Ecologia<strong>de</strong> Paisagens (baseado <strong>em</strong> Turner et al., 2001 e <strong>em</strong>comunicação pessoal <strong>de</strong> Jane Jepsen).PARÂMETRO MODELOS MODELOSSIMPLES COMPLEXOSFormalização Analíticos SimulaçõesEstocasticida<strong>de</strong> Determinísticos EstocásticosT<strong>em</strong>po Discretos ContínuosEspaço Não espaciais EspaciaisUnida<strong>de</strong> Manchas ou IndivíduospopulaçõesRequerimento <strong>de</strong> dados Baixo AltoCusto Baixo AltoOs mo<strong>de</strong>los <strong>em</strong> Ecologia <strong>de</strong> Paisagens são utilizadospara as mais diversas finalida<strong>de</strong>s, <strong>em</strong> particular para:(1) <strong>de</strong>scrição da estrutura da paisag<strong>em</strong>, como por ex<strong>em</strong>plo,através da teoria dos grafos (Keitt et al., 1997; Urban& Keitt, 2001) ou da teoria da percolação (Stauffer,1985), utilizando-se ou não mo<strong>de</strong>los neutros (Gardneret al., 1987); (2) análise da dinâmica da paisag<strong>em</strong>, através<strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> dinâmica <strong>de</strong> manchas (Pickett &Thompson, 1978) ou <strong>de</strong> matrizes <strong>de</strong> transição (e.g.,Acevedo et al., 1995), geralmente enfatizando os principaisagentes causadores <strong>de</strong>sta dinâmica, através, porex<strong>em</strong>plo, <strong>de</strong> regressões logísticas, mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> vizinhança,ou <strong>de</strong> análises multivariadas; (3) estudos espacialmenteexplícitos <strong>de</strong> dinâmica <strong>de</strong> populações (revisados<strong>em</strong> Dunning et al., 1995; ver também revisão <strong>de</strong> IBM,<strong>em</strong> Grimm, 1999) ou metapopulações (por ex<strong>em</strong>plo, asFunções <strong>de</strong> Incidência; Hanski, 1992, 1994); e (4) análiseda relação entre a estrutura da paisag<strong>em</strong> e os maisdiversos processos ecológicos (por ex<strong>em</strong>plo, propagação<strong>de</strong> perturbação, <strong>de</strong>slocamento <strong>de</strong> indivíduos, taxa<strong>de</strong> mortalida<strong>de</strong>) ou padrões biológicos (e.g., diversida<strong>de</strong>ou riqueza <strong>de</strong> espécies, presença ou abundância <strong>de</strong>espécies), através <strong>de</strong> regressões, análises <strong>de</strong> correspondência,testes <strong>de</strong> Mantel, entre outros. Na próximaseção, procura-se ex<strong>em</strong>plificar algumas das possíveisaplicações <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los <strong>em</strong> Ecologia <strong>de</strong> Paisagens.EXEMPLOS DE APLICAÇÃOMo<strong>de</strong>los que enfatizam a relação entre estrutura ediversida<strong>de</strong> da paisag<strong>em</strong>O estudo das relações entre a estrutura da paisag<strong>em</strong> ea composição e riqueza <strong>de</strong> espécies é s<strong>em</strong> dúvida umdos t<strong>em</strong>as <strong>de</strong> pesquisa mais freqüente <strong>em</strong> Ecologia <strong>de</strong>Paisagens. Para tanto, diversos mo<strong>de</strong>los po<strong>de</strong>m ser utilizados<strong>em</strong> dois principais momentos: na quantificaçãoda estrutura da paisag<strong>em</strong>; e no estabelecimento dasrelações entre paisag<strong>em</strong> e riqueza <strong>de</strong> espécies.1Mo<strong>de</strong>los espacialmente implícitos incorporam parâmetros espaciais, porém s<strong>em</strong> consi<strong>de</strong>rar a posição exata dos componentes no espaço.Por ex<strong>em</strong>plo, a Teoria da Biogeografia <strong>de</strong> Ilhas consi<strong>de</strong>ra o tamanho e a distância das ilhas ao continente (ambos, parâmetros espaciais),porém, uma vez obtidos esses parâmetros, não é necessário ter a localização exata das ilhas num mapa. Trata-se tipicamente <strong>de</strong> um mo<strong>de</strong>loespacialmente implícito.Em mo<strong>de</strong>los espacialmente explícitos é necessário ter a posição exata dos componentes do sist<strong>em</strong>a no espaço, pois as proprieda<strong>de</strong>s <strong>de</strong>stecomponente <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m do contexto no qual ele se insere. Estes mo<strong>de</strong>los simplificam o espaço <strong>em</strong> unida<strong>de</strong>s (células) <strong>de</strong> tamanho e formaidênticos, com regras <strong>de</strong> mudança <strong>de</strong> estado (regras <strong>de</strong> transição) que <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>m da vizinhança.Mo<strong>de</strong>los espacialmente realistas também usam a posição exata dos componentes do sist<strong>em</strong>a no espaço, porém não procuram simplificaresse espaço <strong>em</strong> unida<strong>de</strong>s (células) s<strong>em</strong>elhantes. Estes mo<strong>de</strong>los lidam com objetos (e.g., manchas) <strong>de</strong> tamanhos e formas diferentes,situados <strong>em</strong> matrizes heterogêneas. Em geral, estes são os mo<strong>de</strong>los mais complexos.MEGADIVERSIDADE | Volume 3 | Nº 1-2 | Dez<strong>em</strong>bro 2007
68 | O <strong>uso</strong> <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los <strong>em</strong> <strong>ecologia</strong> <strong>de</strong> <strong>paisagens</strong>Um ex<strong>em</strong>plo <strong>de</strong>ste tipo <strong>de</strong> pesquisa po<strong>de</strong> ser fornecidopelo projeto Biodiversity conservation in fragmentedlandscapes at the Atlantic Plateau of São Paulo (Metzger,1999a). Este projeto t<strong>em</strong> por objetivo enten<strong>de</strong>r a influênciado tamanho e do grau <strong>de</strong> conectivida<strong>de</strong> 2 <strong>de</strong>fragmentos <strong>de</strong> florestas ombrófilas <strong>de</strong>nsas da MataAtlântica na distribuição <strong>de</strong> espécies com diferentessensibilida<strong>de</strong>s à modificação do hábitat, na composiçãoe riqueza <strong>de</strong> comunida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> diferentes táxons(árvores, mamíferos, aves, répteis, anfíbios, aranhas eborboletas), na variabilida<strong>de</strong> genética <strong>de</strong> algumas populações(<strong>em</strong> particular, <strong>de</strong> anfíbios e pequenos mamíferos)e <strong>em</strong> alguns processos ecológicos (mortalida<strong>de</strong><strong>de</strong> plântulas, polinização, dispersão <strong>de</strong> s<strong>em</strong>entes eciclag<strong>em</strong> <strong>de</strong> nutrientes). Para tanto, estão sendo estudadasduas <strong>paisagens</strong> <strong>de</strong> 100 km 2 no Planalto <strong>de</strong> Ibiúna(cerca <strong>de</strong> 50 km a sudoeste da cida<strong>de</strong> <strong>de</strong> São Paulo):uma paisag<strong>em</strong> florestal, a Reserva do Morro Gran<strong>de</strong>,consi<strong>de</strong>rada como área controle, não-fragmentada; euma paisag<strong>em</strong> fragmentada, na região <strong>de</strong> Caucaia doAlto, on<strong>de</strong> as áreas <strong>de</strong> floresta encontram-se reduzidasa fragmentos <strong>de</strong> diferentes tamanhos e graus <strong>de</strong> conectivida<strong>de</strong>,circundadas por áreas <strong>de</strong> agricultura anuale silvicultura. Estão sendo estudados 21 fragmentos,sendo cinco gran<strong>de</strong>s (50-275 ha), oito médios (10-45 ha)e oito pequenos (< 5 ha).A análise da estrutura da paisag<strong>em</strong> foi baseada numaabordag<strong>em</strong> categórica, on<strong>de</strong> unida<strong>de</strong>s discretas sãoi<strong>de</strong>ntificadas, mapeadas e posteriormente caracterizadasquantitativamente por uma série <strong>de</strong> índices espaciais(Metzger, 2003b). Esta abordag<strong>em</strong> é consistentecom o mo<strong>de</strong>lo conceitual <strong>de</strong> “mancha-corredor-matriz” 3 ,o mais <strong>em</strong>pregado para se <strong>de</strong>finir os el<strong>em</strong>entos da paisag<strong>em</strong><strong>em</strong> função <strong>de</strong> sua disposição espacial. Comexceção das <strong>paisagens</strong> nas quais a heterogeneida<strong>de</strong> seapresenta sob forma <strong>de</strong> gradientes ambientais, praticamentetoda paisag<strong>em</strong> po<strong>de</strong> ser representada a partir<strong>de</strong> manchas, corredores e matriz. Desta forma, utilizou-seum levantamento aerofotogramétrico recente,<strong>de</strong> abril <strong>de</strong> 2000, na escala <strong>de</strong> 1/10.000, e foi feito, porfoto-interpretação, o mapeamento <strong>de</strong> 17 unida<strong>de</strong>s dapaisag<strong>em</strong>, incluindo vegetação natural <strong>em</strong> sete estádios<strong>de</strong> sucessão, quatro tipos <strong>de</strong> campos antrópicos e áreasagrícolas, reflorestamentos, instalações rurais, núcleosurbanos, corpos d’água e mineração. Para a análise quantitativa,as áreas <strong>de</strong> vegetação natural foram agrupadas<strong>em</strong> três classes: floresta <strong>em</strong> estádios inicial/médio aavançado (fisionomia predominant<strong>em</strong>ente arbórea);floresta <strong>em</strong> estádios iniciais (fisionomias arbustivas); evegetação natural pioneira (fisionomias predominant<strong>em</strong>entearbustivas/herbáceas).Para respon<strong>de</strong>r a pergunta central do projeto, duascaracterísticas estruturais da paisag<strong>em</strong> foram analisadas:o tamanho e o grau <strong>de</strong> conectivida<strong>de</strong> dos fragmentos.Os limites dos fragmentos foram <strong>de</strong>finidos pelapredominância <strong>de</strong> fisionomias arbóreas naturais, o quepermitiu acessar as extensões <strong>de</strong> cada fragmento. Nocaso da conectivida<strong>de</strong>, o cálculo foi baseado na correlationlength (Keitt et al., 1997), um índice <strong>de</strong>rivado da teoriados grafos (Gross & Yellen, 1999). Esta teoria t<strong>em</strong> sidoaplicada para <strong>de</strong>screver diferentes tipos <strong>de</strong> re<strong>de</strong>s, comoas formadas por estradas, computadores, ou por ca<strong>de</strong>iashierárquicas <strong>em</strong> <strong>em</strong>presas. Em análises espaciais<strong>em</strong> Ecologia <strong>de</strong> Paisagens, os grafos po<strong>de</strong>m ser entendidoscomo conjunto <strong>de</strong> fragmentos espacialmente isolados,porém funcionalmente unidos, <strong>de</strong> forma similarao que ocorre numa metapopulação. Consi<strong>de</strong>ra-se quedois fragmentos estão unidos quando a distância entreeles ou o tipo <strong>de</strong> matriz que os separa permite fluxosbiológicos. Uma vez <strong>de</strong>finidos todos os grafos <strong>de</strong> umapaisag<strong>em</strong>, é possível medir a conectivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> cada um<strong>de</strong>les, <strong>em</strong> função do número <strong>de</strong> fragmentos unidos ou<strong>de</strong> sua extensão espacial (gyrate, ou área <strong>de</strong> giro), e<strong>de</strong> uma média da conectivida<strong>de</strong> <strong>de</strong> todos os grafos dapaisag<strong>em</strong>, i.e. a conectivida<strong>de</strong> da paisag<strong>em</strong> (Keitt et al.,1997). Quatro índices <strong>de</strong> conectivida<strong>de</strong> foram assimcalculados para cada fragmento, consi<strong>de</strong>rando duascapacida<strong>de</strong>s <strong>de</strong> <strong>de</strong>slocamento das espécies (não se2A conectivida<strong>de</strong> é a capacida<strong>de</strong> da paisag<strong>em</strong> <strong>de</strong> facilitar os fluxos biológicos. Essa conectivida<strong>de</strong> <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> muito <strong>de</strong> características dasespécies, <strong>em</strong> particular da capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>slocamento <strong>em</strong> diferentes tipos <strong>de</strong> hábitat. Entretanto, ela também po<strong>de</strong> ser medida <strong>em</strong> termosestruturais, <strong>em</strong> função da proximida<strong>de</strong> dos fragmentos <strong>de</strong> hábitat, do grau <strong>de</strong> conexão espacial entre eles, através <strong>de</strong> corredores ou steppingstones (pontos <strong>de</strong> ligação; Metzger, 1999b), ou, ainda, <strong>em</strong> função da permeabilida<strong>de</strong> da matriz inter-hábitat.3As manchas são áreas homogêneas, numa <strong>de</strong>terminada escala espacial, que se distingu<strong>em</strong> das unida<strong>de</strong>s vizinhas e apresentam extensõesespaciais reduzidas e não-lineares. Os corredores são também áreas homogêneas, que se distingu<strong>em</strong> das unida<strong>de</strong>s vizinhas e que apresentamdisposição espacial linear. E a matriz é <strong>de</strong>finida, segundo Forman (1995), como a unida<strong>de</strong> da paisag<strong>em</strong> que controla a dinâmica dapaisag<strong>em</strong>. Em geral, essa unida<strong>de</strong> po<strong>de</strong> ser reconhecida por recobrir a maior parte da paisag<strong>em</strong> (i.e., sendo a unida<strong>de</strong> dominante <strong>em</strong> termos<strong>de</strong> recobrimento espacial), ou por ter um maior grau <strong>de</strong> conexão <strong>de</strong> sua área (i.e., um menor grau <strong>de</strong> fragmentação).MEGADIVERSIDADE | Volume 3 | Nº 1-2 | Dez<strong>em</strong>bro 2007
Metzger, Fonseca, Oliveira-Filho & Martensen | 69<strong>de</strong>slocam fora do hábitat; po<strong>de</strong>m se <strong>de</strong>slocar até 50 mpela matriz) e diferentes cenários <strong>de</strong> permeabilida<strong>de</strong>das unida<strong>de</strong>s da paisag<strong>em</strong> (conectivida<strong>de</strong> apenas poráreas florestais e conectivida<strong>de</strong> por toda a vegetaçãonatural, in<strong>de</strong>pen<strong>de</strong>nte <strong>de</strong> sua fisionomia). Todos os índicesforam calculados no programa FRAGSTATS TMversão 3.3, numa imag<strong>em</strong> matricial <strong>de</strong> 5 metros <strong>de</strong> resolução.Uma vez obtidos os índices <strong>de</strong> estrutura da paisag<strong>em</strong>e feitos os levantamentos <strong>de</strong> composição e riqueza dasespécies dos diferentes grupos taxonômicos estudadosnos fragmentos, procurou-se relacionar os padrõesespaciais com os padrões <strong>de</strong> distribuição das espéciesatravés <strong>de</strong> regressões lineares. No caso <strong>de</strong> aves <strong>de</strong>sub-bosque amostradas por re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> neblina (ca. 540horas/re<strong>de</strong> por fragmento; Martensen et al., 2007), ariqueza <strong>de</strong> espécies está marginalmente relacionadacom a área dos fragmentos, porém está fort<strong>em</strong>ente associadaà proporção <strong>de</strong> mata numa vizinhança <strong>de</strong>800m e à conectivida<strong>de</strong> florestal do fragmento. Estesdados suger<strong>em</strong> que os limites dos fragmentos, tal qual<strong>de</strong>finidos pela foto-interpretação, não correspon<strong>de</strong>maos limites funcionais (ou biologicamente significativos)para o conjunto da avifauna. Ou seja, as espécies respon<strong>de</strong>mmais a características da paisag<strong>em</strong> (proporção<strong>de</strong> mata, conectivida<strong>de</strong>) do que ao tamanho do fragmento,indicando que a permanência <strong>de</strong> algumasespécies nos fragmentos <strong>de</strong>pen<strong>de</strong> do tipo <strong>de</strong> entorno.Estes resultados por si só não permit<strong>em</strong> estabelecerrelações causais, porém, ao indicar<strong>em</strong> possíveis interações,têm como benefício o direcionamento (afunilamento)da pesquisa <strong>em</strong> questões mais pontuais efuncionais, como por ex<strong>em</strong>plo, <strong>em</strong> experimentos <strong>de</strong><strong>de</strong>slocamento pela paisag<strong>em</strong>.Este tipo <strong>de</strong> análise v<strong>em</strong> sendo comumente utilizado<strong>em</strong> estudos <strong>de</strong> fragmentação, on<strong>de</strong> variáveis biológicassão relacionadas a características <strong>de</strong> manchas <strong>de</strong>hábitat (gran<strong>de</strong> maioria dos estudos), ou a característicasda paisag<strong>em</strong> no entorno <strong>de</strong>stas manchas (McGarigal& Cushman, 2002). Estes trabalhos <strong>de</strong>v<strong>em</strong> ser consi<strong>de</strong>radoscomo uma etapa exploratória no estabelecimento<strong>de</strong> relações causais entre padrões espaciais e processosecológicos (Metzger, 2003a). McGarigal & Cushman(2002) suger<strong>em</strong> ainda que, como a fragmentação é umprocesso que ocorre no nível da paisag<strong>em</strong>, é necessáriomudar o foco da pesquisa, analisando não apenasfragmentos com diferentes características (e.g., tamanhoe isolamento) inseridos numa única paisag<strong>em</strong>, mastambém comparando <strong>paisagens</strong> com diferentes graus<strong>de</strong> fragmentação.Mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> simulação da paisag<strong>em</strong>A importância do arranjo espacial do hábitat sobre apersistência das espécies é outro foco <strong>de</strong> estudos <strong>em</strong>Ecologia <strong>de</strong> Paisagens. A idéia é enten<strong>de</strong>r, a partir dasocorrências e das proprieda<strong>de</strong>s das populações atualmentepresentes, <strong>em</strong> que condições estas populaçõesten<strong>de</strong>riam a se extinguir ou, inversamente, a se perpetuar.Para tanto, é necessário extrapolar os padrõesatuais <strong>de</strong> presença para outras condições espaciais ouao longo do t<strong>em</strong>po, o que muitas vezes só po<strong>de</strong> serfeito através <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>lag<strong>em</strong>. Vários mo<strong>de</strong>los sofisticadostêm sido utilizados para respon<strong>de</strong>r tais questões,entre eles os Mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> Viabilida<strong>de</strong> Populacional(Akçakaya & Ferson, 1992; Possingham et al., 1992) oumo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> dinâmica <strong>de</strong> populações espacialmenteexplícitos (Dunning et al., 1995). Quando estes mo<strong>de</strong>losincorporam parâmetros espaciais para analisarcaracterísticas populacionais, obrigatoriamente elesassum<strong>em</strong> uma perspectiva <strong>de</strong> Ecologia <strong>de</strong> Paisagens.Um dos gran<strong>de</strong>s <strong>de</strong>safios <strong>de</strong>stes mo<strong>de</strong>los é parametrizara importância dos diferentes tipos <strong>de</strong> unida<strong>de</strong>sda paisag<strong>em</strong> nos processos <strong>de</strong>mográficos e no <strong>de</strong>slocamentodas espécies, o que só po<strong>de</strong> ser atingido ao seconsi<strong>de</strong>rar o espaço sob a ótica das espécies estudadas(Vos et al., 2001). Uma estratégia para se evoluir nestesentido é consi<strong>de</strong>rar que a estrutura da paisag<strong>em</strong> biologicamentesignificativa (na ótica das espécies) é aquelaque melhor se correlaciona com os padrões biológicosobservados. Ou seja, inversamente ao que se fez <strong>em</strong>Caucaia, on<strong>de</strong> se impunha um padrão espacial numavisão antropocêntrica e procurava-se relacioná-lo comas proprieda<strong>de</strong>s biológicas (no caso, a riqueza <strong>de</strong> espécies),uma outra estratégia <strong>de</strong> pesquisa é <strong>de</strong> simulardiferentes padrões espaciais (ou “visões” <strong>de</strong> uma mesmapaisag<strong>em</strong>) e analisar qual <strong>de</strong>stes padrões espaciaismelhor se correlaciona com os padrões biológicos.Esta foi a estratégia adotada para se testar a importânciada permeabilida<strong>de</strong> da matriz inter-hábitat namigração <strong>de</strong> aves da floresta contínua para fragmentosflorestais na Amazônia (Antongiovanni, 2001;Antongiovanni & Metzger, 2005). Este trabalho foi <strong>de</strong>senvolvidonas áreas do Projeto <strong>de</strong> Dinâmica Biológica<strong>de</strong> Fragmentos Florestais (PDBFF), situadas a cerca <strong>de</strong>80 km ao Norte <strong>de</strong> Manaus, AM. Foram estudados novefragmentos, <strong>de</strong> 1 e 10 ha, isolados entre 1980 e 1984, eque se encontram envoltos por três diferentes tipos <strong>de</strong>matrizes: capoeiras dominadas por Vismia spp, <strong>em</strong> áreasque sofreram corte e queima; capoeiras dominadas porCecropia spp, <strong>em</strong> áreas que sofreram apenas corte; eáreas <strong>de</strong> pastag<strong>em</strong> ainda ativas. A comunida<strong>de</strong> <strong>de</strong> avesMEGADIVERSIDADE | Volume 3 | Nº 1-2 | Dez<strong>em</strong>bro 2007
70 | O <strong>uso</strong> <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los <strong>em</strong> <strong>ecologia</strong> <strong>de</strong> <strong>paisagens</strong><strong>de</strong> sub-bosque foi amostrada nos fragmentos com re<strong>de</strong>s<strong>de</strong> neblina, <strong>de</strong>s<strong>de</strong> antes do isolamento dos fragmentosaté 1992 (Bierregaard Jr. & Lovejoy, 1989;Stouffer & Bierregaard, 1995). Onze espécies insetívorasforam analisadas pormenorizadamente, por estar<strong>em</strong>entre as espécies mais comuns antes da fragmentaçãoe por ser<strong>em</strong> facilmente capturadas <strong>em</strong> re<strong>de</strong>s <strong>de</strong> neblina.Nove <strong>de</strong>stas espécies sofreram extinções locais apóso isolamento dos fragmentos, porém, com o abandonodas pastagens e conseqüente <strong>de</strong>senvolvimento dascapoeiras <strong>de</strong> Cecropia spp e Vismia spp, houve recolonização(Stouffer & Bierregaard, 1995). Segundo estesautores, as recolonizações foram mais freqüentes quandoos fragmentos estavam envoltos por capoeiras <strong>de</strong>Cecropia spp, indicando que estas capoeiras erammais permeáveis aos fluxos biológicos. O trabalho <strong>de</strong>Antongiovanni (2001) teve justamente por objetivo testaressa afirmação. Desta forma, para cada fragmento eano analisado (1985 a 1992), foram calculados índices<strong>de</strong> permeabilida<strong>de</strong> da matriz que levam <strong>em</strong> conta:(1) a distância a ser percorrida no caminho <strong>de</strong> <strong>de</strong>slocamentoentre o fragmento e a área <strong>de</strong> mata primáriacontínua mais próxima (consi<strong>de</strong>rada como única fonte<strong>de</strong> indivíduos, uma vez que estudos anteriores mostramque há pouco movimento <strong>de</strong> indivíduos entre fragmentos);e (2) a resistência oferecida pelos diferentestipos <strong>de</strong> matriz. Os valores <strong>de</strong> permeabilida<strong>de</strong> da matrizforam relacionados, com o <strong>uso</strong> <strong>de</strong> regressõeslogísticas, com a ocorrência <strong>de</strong> migração <strong>de</strong> indivíduos<strong>de</strong> cada uma das 11 espécies estudadas, por fragmentoe para cada ano <strong>em</strong> estudo (n = 60). Para o cálculo dapermeabilida<strong>de</strong> da matriz, assumiu-se como pr<strong>em</strong>issaque o indivíduo iria percorrer o caminho mais curtoentre a fonte e o fragmento. As relações explicitadasacima foram realizadas para cada uma das espécies equatro conjuntos <strong>de</strong> valores <strong>de</strong> permeabilida<strong>de</strong> da matriz,obtidos por meio da simulação <strong>de</strong> quatro cenáriospossíveis on<strong>de</strong>: (1) capoeiras <strong>de</strong> Cecropia spp são maispermeáveis; (2) capoeiras <strong>de</strong> Vismia spp são mais permeáveis;(3) capoeiras <strong>de</strong> Vismia spp e Cecropia spp sãoigualmente permeáveis, porém capoeiras mais velhas sãomais permeáveis que as mais jovens; e (4) não há diferençana permeabilida<strong>de</strong> das unida<strong>de</strong>s da matriz, i.e., apenasé consi<strong>de</strong>rada a distância entre a floresta contínua e ofragmento. Cada um <strong>de</strong>stes cenários correspon<strong>de</strong> a umapossível “visão” da estrutura da paisag<strong>em</strong>, sendo que oobjetivo é justamente ver qual <strong>de</strong>stas visões melhor seajusta aos padrões observados <strong>de</strong> migração das espécies.As regressões logísticas mostram que o cenário <strong>em</strong>que apenas o isolamento é consi<strong>de</strong>rado não se ajustaaos dados <strong>de</strong> ocorrência <strong>de</strong> migrações para nenhumaespécie. Por outro lado, os cenários <strong>em</strong> que Cecropiaspp e capoeiras mais velhas são mais permeáveis foramsignificativamente ajustados à ocorrência <strong>de</strong> migração<strong>de</strong> sete espécies, confirmando a hipótese <strong>de</strong> Stouffer &Bierregaard (1995). Para outras quatro espécies, nenhumdos cenários propostos explicou significativamente amigração <strong>de</strong> indivíduos para os fragmentos, o que po<strong>de</strong>significar que estas espécies são indiferentes à matriz,ou que nenhum dos cenários se aproxima da visão damatriz <strong>de</strong>stas espécies. Este trabalho mostra que o <strong>uso</strong><strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> simulação para criar <strong>paisagens</strong> segundoa percepção das espécies é uma estratégia útil da análiseda paisag<strong>em</strong>. A aplicação <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> permeabilida<strong>de</strong><strong>de</strong> matriz no estudo da migração <strong>de</strong> indivíduos<strong>em</strong> <strong>paisagens</strong> fragmentadas <strong>de</strong>ve ter um papel essencialno entendimento <strong>de</strong> mosaicos antrópicos e na conservaçãoda diversida<strong>de</strong> biológica nestas <strong>paisagens</strong>(Antongiovanni & Metzger, 2005).Mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> dinâmica <strong>de</strong> paisag<strong>em</strong> e suasconseqüências <strong>em</strong> termos <strong>de</strong> biodiversida<strong>de</strong>Outro tópico relevante nas pesquisas <strong>em</strong> Ecologia <strong>de</strong>Paisagens é o estudo da influência <strong>de</strong> dinâmica da paisag<strong>em</strong>sobre os processos biológicos. Sabe-se que diferentespadrões <strong>de</strong> modificação do hábitat resultam<strong>em</strong> diferentes estruturas espaciais, o que, por sua vez,implica <strong>em</strong> diferentes influências sobre os processosbiológicos (Gustafson, 1999). Mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> dinâmica dapaisag<strong>em</strong> têm sido utilizados para analisar as mais variadasconseqüências das mudanças da paisag<strong>em</strong>, comona <strong>em</strong>issão <strong>de</strong> gases <strong>de</strong> efeito estufa, na produção ma<strong>de</strong>ireira,na sustentabilida<strong>de</strong> social <strong>de</strong> uma região, ouainda na manutenção da biodiversida<strong>de</strong> (Dale et al.,1993a, b; 1994a, b; Gustafson, 1999; entre muitos outros).Dentre estes tópicos, um t<strong>em</strong> <strong>de</strong>spertado especialatenção: a influência <strong>de</strong> padrões <strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamentosobre os riscos <strong>de</strong> extinção. Para abordar esta probl<strong>em</strong>ática,é interessante analisar qual seria o padrão esperado<strong>de</strong> perda <strong>de</strong> espécies ao longo <strong>de</strong> um processo<strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamento. O <strong>uso</strong> <strong>de</strong> princípios da teoria dapercolação <strong>em</strong> mo<strong>de</strong>los neutros t<strong>em</strong> sido muito útil nestesentido (Gardner et al., 1987; Gardner & O’Neill, 1991).Um mo<strong>de</strong>lo neutro consiste num conjunto <strong>de</strong> regras“simples” usadas para criar um padrão espacial, <strong>em</strong> geralbidimensional. O mo<strong>de</strong>lo neutro permite criar e analisaruma estrutura na ausência <strong>de</strong> fatores geradores <strong>de</strong>padrão (i.e., <strong>de</strong> or<strong>de</strong>m), e, ao compararmos este padrãoao observado, é possível ter uma idéia <strong>de</strong> quanto a paisag<strong>em</strong>real se ajusta às regras do mo<strong>de</strong>lo neutro. Emgeral, testa-se inicialmente o mo<strong>de</strong>lo mais simples <strong>de</strong>todos: o padrão neutro totalmente aleatório.MEGADIVERSIDADE | Volume 3 | Nº 1-2 | Dez<strong>em</strong>bro 2007
Metzger, Fonseca, Oliveira-Filho & Martensen | 71A teoria da percolação foi <strong>de</strong>senvolvida inicialmentena física para respon<strong>de</strong>r perguntas relacionadas à conectivida<strong>de</strong><strong>em</strong> espaços bidimensionais (Stauffer, 1985),tais como: quanto metal é necessário acrescentar <strong>de</strong>forma que a eletricida<strong>de</strong> possa passar num <strong>de</strong>terminadomaterial? A idéia seria encontrar a quantida<strong>de</strong>mínima necessária para ter condutivida<strong>de</strong>, pois o acréscimo<strong>de</strong> mais metal aumentaria os custos. Nesta teoria,há apenas dois estados <strong>em</strong> que um material po<strong>de</strong> seencontrar: há percolação (no caso, passag<strong>em</strong> <strong>de</strong> eletricida<strong>de</strong>),pois o metal condutor atravessa o material <strong>de</strong>ponta a ponta; e não há percolação, quando metal condutorencontra-se fragmentado e não permite unir duaspontas do material estudado. Ecólogos estão interessados<strong>em</strong> questões similares às dos físicos, porém, aoinvés <strong>de</strong> percolação elétrica, o interesse está na percolação<strong>de</strong> indivíduos <strong>de</strong> uma espécie ou <strong>de</strong> perturbações:quanto hábitat é necessário para permitir que uma <strong>de</strong>terminadaespécie possa se locomover <strong>de</strong> um dadoponto a outro <strong>de</strong> uma paisag<strong>em</strong>? Que quantida<strong>de</strong> <strong>de</strong>mata, com alta probabilida<strong>de</strong> <strong>de</strong> pegar fogo, po<strong>de</strong> permitir(ou impedir) a propagação <strong>de</strong> uma queimadana paisag<strong>em</strong>? Devido à similarida<strong>de</strong> das perguntas <strong>de</strong>físicos e ecólogos, a teoria da percolação v<strong>em</strong> sendoconstant<strong>em</strong>ente aplicada <strong>em</strong> Ecologia <strong>de</strong> Paisagens(Gardner et al., 1987; Turner et al., 1989; Andren, 1994,With et al., 1997).Quando se analisa a percolação <strong>de</strong> hábitat <strong>em</strong> <strong>paisagens</strong>neutras, observa-se que ocorr<strong>em</strong> mudanças bruscasna estrutura da paisag<strong>em</strong> no limiar <strong>de</strong> percolação,quando há ruptura da continuida<strong>de</strong> do hábitat original,aumento brusco do grau <strong>de</strong> fragmentação e reduçãoabrupta do tamanho dos fragmentos (With & King,1999). Todas estas mudanças suger<strong>em</strong> um aumento dosriscos locais <strong>de</strong> extinção e uma diminuição nas possibilida<strong>de</strong>s<strong>de</strong> recolonização, o que po<strong>de</strong> significar umrápido aumento dos riscos <strong>de</strong> extinção no conjunto dapaisag<strong>em</strong> (Metzger & Decamps, 1997).Para testar esta hipótese do aumento brusco dosriscos <strong>de</strong> extinção <strong>em</strong> <strong>paisagens</strong> reais, mo<strong>de</strong>los <strong>de</strong> simulação<strong>de</strong> perda <strong>de</strong> espécies foram utilizados para seanalisar três padrões comuns <strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamento naAmazônia brasileira (Oliveira-Filho, 2001; Oliveira-Filho & Metzger, 2006): (1) espinha <strong>de</strong> peixe, on<strong>de</strong> lotes<strong>de</strong> mesmo tamanho (e.g., 50 ha) são distribuídos regularmenteao longo <strong>de</strong> estradas, como ocorre <strong>em</strong> projetos<strong>de</strong> colonização governamentais; (2) <strong>de</strong>sor<strong>de</strong>nado,formado por lotes pequenos, <strong>de</strong> tamanhos variados eirregularmente distribuídos no espaço, geralmenteresultante <strong>de</strong> colonização não-induzida; e (3) gran<strong>de</strong>sproprietários, e.g. fazen<strong>de</strong>iros que promov<strong>em</strong> pecuáriaextensiva <strong>em</strong> lotes <strong>de</strong> mais <strong>de</strong> 1000 ha.Estes padrões foram estudados na região <strong>de</strong> Alta Floresta,no norte do estado <strong>de</strong> Mato Grosso. Para cadaum <strong>de</strong>stes padrões, foram selecionadas três áreas (réplicas),<strong>de</strong> 8 por 8 km, on<strong>de</strong> <strong>em</strong> 1984 havia mais <strong>de</strong> 90%<strong>de</strong> mata e <strong>em</strong> 1998 havia menos <strong>de</strong> 30% <strong>de</strong> mata.As alterações na estrutura da paisag<strong>em</strong> foram seguidasa partir <strong>de</strong> imagens <strong>de</strong> satélite Landsat-TM, classificadas<strong>em</strong> mata e não-mata, numa série bianual <strong>de</strong> 1984a 1998. Um padrão aleatório <strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamento foi geradopelo programa RULE (Gardner, 1999), contendoentre 95% e 15% <strong>de</strong> floresta <strong>de</strong> forma a simular oitomomentos ao longo <strong>de</strong> um processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamento.Para simular a perda <strong>de</strong> espécies ao longo do processo<strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamento, foram criados 60 grupos funcionais,resultantes da combinação <strong>de</strong> características <strong>de</strong>: (1) <strong>de</strong>slocamentopela matriz (5 classes: não se <strong>de</strong>sloca pelamatriz ou se <strong>de</strong>sloca 60, 120, 240 ou 480 metros matriza<strong>de</strong>ntro); (2) área <strong>de</strong> vida (6 classes: 125, 250, 500,1000, 2000 e 4000 ha); e (3) tolerância ou não aos efeitos<strong>de</strong> borda, numa faixa <strong>de</strong> 90 m a partir do contatoentre mata e não-mata (duas classes). Todos os gruposfuncionais foram inseridos nas <strong>paisagens</strong> iniciais (1984para as <strong>paisagens</strong> reais e 95% <strong>de</strong> hábitat para a simulação)e foram mantidos na paisag<strong>em</strong> enquanto osrequerimentos <strong>de</strong> área <strong>de</strong> vida foss<strong>em</strong> respeitados,consi<strong>de</strong>rando-se a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>slocamento e a sensibilida<strong>de</strong>às bordas. O mo<strong>de</strong>lo utilizado é <strong>de</strong>terminista,na medida <strong>em</strong> que para cada estrutura há apenas umacondição possível para cada grupo funcional (presenteou ausente, <strong>de</strong>pen<strong>de</strong>ndo do caso). A<strong>de</strong>mais, esse mo<strong>de</strong>lonão consi<strong>de</strong>ra o t<strong>em</strong>po <strong>de</strong> latência entre as modificaçõesda paisag<strong>em</strong> e a extinção do grupo funcional.Os resultados da dinâmica da paisag<strong>em</strong> mostram quea paisag<strong>em</strong> simulada (aleatória) apresenta um padrãonão-linear <strong>de</strong> alteração <strong>de</strong> sua estrutura para todos osíndices consi<strong>de</strong>rados (número <strong>de</strong> fragmentos, tamanhomédio dos fragmentos, isolamento e conectivida<strong>de</strong>). Poroutro lado, os padrões reais apresentaram tanto variaçõeslineares (<strong>em</strong> particular, no caso do número <strong>de</strong> fragmentos)quanto não-lineares (para os <strong>de</strong>mais índices),sendo que três momentos <strong>de</strong> mudança brusca ocorreram:no início do processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamento, quandohá uma perda rápida no tamanho médio dos fragmentos;num momento intermediário, quando há perda <strong>de</strong>conectivida<strong>de</strong> ou aumento do isolamento; e no final doprocesso <strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamento, quando há um aumentobrusco no grau <strong>de</strong> isolamento. Os momentos <strong>de</strong> mudançabrusca variaram pouco entre os padrões <strong>de</strong><strong>de</strong>smatamento reais, contrariamente ao esperado.Surpreen<strong>de</strong>nt<strong>em</strong>ente, e apesar da ocorrência <strong>de</strong>stes limiares<strong>de</strong> mudança brusca da paisag<strong>em</strong>, o padrão <strong>de</strong>perda dos grupos funcionais foi linear para todos osMEGADIVERSIDADE | Volume 3 | Nº 1-2 | Dez<strong>em</strong>bro 2007
72 | O <strong>uso</strong> <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los <strong>em</strong> <strong>ecologia</strong> <strong>de</strong> <strong>paisagens</strong>padrões <strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamento, tanto os reais quanto o aleatório.As principais diferenças foram observadas entregrupos funcionais com diferentes características, <strong>em</strong> particular,o grupo <strong>de</strong> espécies <strong>de</strong> interior se extinguiu maisrapidamente que o grupo <strong>de</strong> espécies <strong>de</strong> borda, ou aindaos grupos funcionais com menor capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong> <strong>de</strong>slocamentoe/ou maior área <strong>de</strong> vida ten<strong>de</strong>ram também ase extinguir mais cedo no processo <strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamento.Desta forma, foi possível distinguir quatro gran<strong>de</strong>sconjuntos <strong>de</strong> grupos funcionais: (1) aqueles que sãomuito sensíveis ao <strong>de</strong>smatamento e que se extingu<strong>em</strong>constant<strong>em</strong>ente no início do processo, quando há umaqueda brusca no tamanho médio dos fragmentos; (2)aqueles que são sensíveis ao padrão <strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamentoe ao arranjo espacial da floresta r<strong>em</strong>anescente, ten<strong>de</strong>ndoa se extinguir mais tar<strong>de</strong> quando o padrão é maisagregado; esse grupo é sensível aos limiares dos índices<strong>de</strong> isolamento e conectivida<strong>de</strong>; (3) os grupos funcionaisque são apenas sensíveis ao <strong>de</strong>smatamento, masnão ao arranjo espacial dos r<strong>em</strong>anescentes, ten<strong>de</strong>ndoa se extinguir progressivamente (linearmente) à medidaque ocorre o <strong>de</strong>smatamento; e (4) finalmente, osgrupos funcionais pouco sensíveis, que não se extingu<strong>em</strong>nas condições estudadas. Apesar da simplicida<strong>de</strong>e das limitações do mo<strong>de</strong>lo utilizado (não consi<strong>de</strong>rao t<strong>em</strong>po <strong>de</strong> latência; é <strong>de</strong>terminista; não consi<strong>de</strong>ra nenhumacaracterística relacionada à <strong>de</strong>mografia das espécies),ele permite evi<strong>de</strong>nciar padrões <strong>de</strong> perda <strong>de</strong>espécies que só po<strong>de</strong>riam ser observados através domonitoramento biológico <strong>de</strong> <strong>paisagens</strong> <strong>em</strong> processo <strong>de</strong><strong>de</strong>smatamento, algo quase impossível <strong>de</strong> ser realizado.A<strong>de</strong>mais, esses mo<strong>de</strong>los, se corretamente validados,po<strong>de</strong>m dar importantes indicações sobre quepadrão <strong>de</strong> <strong>de</strong>smatamento é menos prejudicial <strong>em</strong> termosbiológicos, sendo assim <strong>de</strong> gran<strong>de</strong> valia no planejamentoda expansão da fronteira agrícola na Amazônia e naotimização da conservação da biodiversida<strong>de</strong> <strong>em</strong> <strong>paisagens</strong>antropizadas.CONSIDERAÇÕES FINAISDevido à complexida<strong>de</strong> das questões abordadas <strong>em</strong>Ecologia <strong>de</strong> Paisagens e à dificulda<strong>de</strong> <strong>de</strong> se realizar experimentoscom <strong>paisagens</strong>, a aquisição <strong>de</strong> conhecimentoatravés do <strong>uso</strong> <strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los revela-se uma estratégiaútil e compl<strong>em</strong>entar à experimentação ou à comparação<strong>de</strong> <strong>paisagens</strong>. Mo<strong>de</strong>los po<strong>de</strong>m ser úteis para criarhipóteses, avaliar a influência <strong>de</strong> um <strong>de</strong>terminado fator,ou mesmo para extrapolar os padrões observadosao longo do t<strong>em</strong>po ou para condições espaciais <strong>de</strong> difícilobservação no campo. Há uma gran<strong>de</strong> diversida<strong>de</strong><strong>de</strong> mo<strong>de</strong>los utilizados <strong>em</strong> Ecologia <strong>de</strong> Paisagens, sendoque estes foram, <strong>em</strong> geral, inicialmente <strong>de</strong>senvolvidos<strong>em</strong> outras disciplinas. Há, assim, poucos mo<strong>de</strong>los<strong>de</strong> Ecologia <strong>de</strong> Paisagens, mas muitos mo<strong>de</strong>los usadosou adaptados para o estudo <strong>de</strong> probl<strong>em</strong>áticas própriasda Ecologia <strong>de</strong> Paisagens, i.e., relacionados com a investigaçãodas relações entre padrões espaciais e processosecológicos, ou pelo menos na análise <strong>de</strong> um<strong>de</strong>stes componentes. Por incorporar<strong>em</strong> parte da heterogeneida<strong>de</strong>da paisag<strong>em</strong>, estes mo<strong>de</strong>los são relativamentecomplexos e, quase que obrigatoriamente, sãoespacialmente explícitos ou realistas. Um <strong>de</strong>safio futuroé encontrar um balanço entre a complexida<strong>de</strong> <strong>de</strong>stesmo<strong>de</strong>los, que acabam se tornando cada vez maisespecíficos a um tipo <strong>de</strong> situação, e a capacida<strong>de</strong> <strong>de</strong>generalização, essencial para o avanço <strong>de</strong> uma teoria<strong>em</strong> Ecologia <strong>de</strong> Paisagens.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASAcevedo, M.F., D.L. Urban & M. Ablan. 1995. Transition and GapMo<strong>de</strong>ls of Forest Dynamics. Ecological Applications 5: 1040-1055.Akçakaya, H.R. & S. Ferson. 1992. RAMAS/Space user manual:spatially structured population mo<strong>de</strong>ls for conservationbiology. Applied Biomath<strong>em</strong>atics, New York.Andren, H. 1994. Effects of habitat fragmentation on birds andmammals in landscapes with different proportions of suitablehabitat - a review. Oikos 71: 355-366.Antongiovanni, M.A. 2001. 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