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O Dinossauro - Ordem Livre

O Dinossauro - Ordem Livre

109Representa o

109Representa o Romantismo realmente um dos movimentos de ideias mais potentesque plasmaram o inconsciente coletivo brasileiro, determinando os rumos de nossa culturanascente. Basta mencionar o impacto do Romantismo em nossa literatura e em nossa vidapolítica, a importância psicológica de lugares-comuns como a predestinação do Brasil; ou anacionalidade brasileira de Deus; ou a natureza fundamentalmente "boa" do homembrasileiro — para avaliar o quanto ainda vivemos na atmosfera soporífera de nossa visãoromântica do Paraíso tropical. Mais recentemente, o romantismo tem invadido a própriateoria política. Na Teologia da Libertação, para a qual tanto estão contribuindo ilustresprelados patrícios, o mito revive com a concepção da "bondade" implícita dossubdesenvolvidos do Terceiro-Mundo em relação à maldade feroz dos industrializados,capitalistas, opressores e imperialistas de além-mar. Poderíamos chegar ao argumento deque o próprio sucesso do Marxismo em nossas plagas se prende às origens românticas dopensamento de Marx. Este com efeito era, em matéria de dinheiro, um boêmio nefelibataque refugava qualquer trabalho útil e qualquer poupança — no que muito se assemelha àsnossas próprias tendências de aristocratas ociosos e especulativos, debatendo no Lamas osproblemas do Cosmos. No estágio inicial primitivo da sociedade humana, dizia Marx,encontrava-se o paraíso sem o pecado original da propriedade privada. Vivendo toda a suavida às custas de Engels, o que Marx provavelmente ansiava era o retorno àquele paraísoonde as regras ferozes da economia moderna ainda não estavam em vigor. O segredo dofascínio de Marx para nossos intelectuais reside, certamente, nessa postura antieconômicade que o dinheiro ou a propriedade é a origem de todos os males, de todos os pecados. Marxnão estava aí recordando o Antigo Testamento mas a Primeira Epístola de S. Paulo aTimóteo, cap. 6, 1...No momento da independência, dispunha o Brasil, como aliás as outras naçõeslatino-americanas, de vários paradigmas políticos a escolher. Havia, teoricamente, um lequede opções disponíveis. Em virtude do funcionamento da instância psicológica da Persona,cabia-nos vestir a nossa vivência coletiva incipiente, motivada pelo jogo das paixõespolíticas, com uma máscara institucional. Fomos naturalmente buscar o modelo nas naçõesmais avançadas da Europa. Essas se tornaram, para nós, as sociedades exemplares.É fácil de entender que tenhamos também, inicialmente, procurado nos EstadosUnidos o paradigma apto a satisfazer-nos o anseio de liberdade e organização própria, aotentarmos nos independizar do regime absolutista e mercantilista imposto por Pombal. Defato, com exceção do Brasil, as nações latino-americanas fizeram-se repúblicaspresidencialistas e, ocasionalmente, adotaram o federalismo, não obstante haja este

110provocado não poucos conflitos internos. O Brasil preferiu seguir o exemplo britânico.Durante o império tentamos a experiência do parlamentarismo liberal inglês e divertimonoscom o joguinho do bipartidarismo — liberais X conservadores — um arremedobastante artificial mas que, pelo menos, nos assegurou a liberdade e preservou da rebordosaanárquica e caudilhesca que, invariavelmente, atormentou nossos vizinhos. A repúblicaprovocou o desmoronamento dessa estrutura. Com o pretexto de que a monarquia eraanacrônica e incompatível com a atmosfera progressista do Novo Mundo, desprezamos umregime que nos granjeara longa tranquilidade e evitara as misérias imperantes à nossa volta.A democracia oligárquica e patrimonialista da República Velha, entretanto,também assegurou-nos cerca de 40 anos de relativa estabilidade política que terminou em1930. Isso porque, com certo pragmatismo e o uso do "estado de sítio", vestiu de formasliberais o que, na realidade, configurava um sistema presidencialista passavelmenteautoritário, inspirado no Comtismo e praticamente independente da consulta popular. Desdeentão, e até 1964, o democratismo populista imperou. A minha geração foi testemunha de50 anos de desordem, entremeados de ditaduras de vários tipos.O espetáculo lastimoso não constitui privilégio brasileiro. Qual o país latino quenão tenha sofrido sorte igual nos séculos XIX e XX? Vejam a França que, desde 1789,conheceu quinze regimes diversos. Ou a Espanha que viveu várias repúblicas e monarquiase "pronunciamentos" e guerras civis. E mesmo os países mais adiantados da América Latinacomo a Argentina, o Uruguai e o Chile, onde o sistema militar alterna com períodos deintranquilidade civil. Todos nós sofremos de um mal endêmico. Afeta-nos uma espécie deprofunda moléstia — um nosos como o qualificam os filósofos gregos — da qual só talveza pequena Costa Rica haja escapado. Democracia? É certamente uma ave rara nesta partedo mundo. E não se queira atribuir tal situação a motivos econômicos, raciais, geográficosou outros, pois atinge tanto nações economicamente desenvolvidas, de raça branca e climatemperado como a Argentina e o Uruguai, quanto as nações pobres de raça mestiça e climatropical como a Nicarágua ou o Peru. Devem existir motivações profundas, de naturezapsicossocial, que nos cabe investigar.*Notemos, antes de mais nada, que a crítica do artificialismo das estruturas políticolegaispor nós adotadas já há muito tem sido empreendida. Não é novidade. Certamente,nem o parlamentarismo liberal monárquico do Império, nem o presidencialismo federalistae autoritário da República correspondiam aos vigentes nas sociedades exemplares —Inglaterra e Estados Unidos — que havíamos adotado em nossas tentativas miméticas.* Abordei o tema em minhas obras Em berço esplêndido e O Brasil na Idade da Razão

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