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O Dinossauro - Ordem Livre

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123Ninguém aprecia o

123Ninguém aprecia o descobrimento da própria responsabilidade. Ninguém encontraprazer no próprio sofrimento ou pecado, a não ser o masoquista. E por que nos é,normalmente, difícil admitir a nossa culpabilidade por erros, destemperos e misériassofridas é que Sócrates propôs o conhecimento de si-próprio — Gnothe seauton — como osublime princípio de toda sabedoria. Essa sabedoria de autocrítica e exame de consciênciatornou-se, através do Cristianismo, o fundamento da Filosofia Perene do Ocidente.Tomemos um caso específico para exemplificar o que afirmo. Debrucemo-nossobre um dos problemas centrais de nossa situação coletiva conjuntural: a dívida externa.Com risco de cair em lugares-comuns, procuremos analisar os aspectos morais das altastaxas de juros que estão sendo cobradas ao Brasil. E verifiquemos se são justos os reclamosnacionalistas contra uma suposta extorsão de que estaria o Brasil sendo vítima. Falemos deusura. E ao fazê-lo, levemos em consideração o que se ouve em discursos políticos,manifestações no Congresso, artigos de jornal, entrevistas na televisão e livros de bolso,como expressão de aparente, justa e conscienciosa indignação contra os banqueirosinternacionais e o arquivilão da mitologia botocuda xenófoba, o FMI! Coitado do Brasil!Pediu inocentemente emprestado alguns biliõezinhos de dólares. Queria honestamentesuperar o subdesenvolvimento. Pretendia celeremente debelar a pobreza. Desejava manteras altas taxas de expansão que haviam notabilizado o famoso "milagre brasileiro", e agoraesses execráveis usurários nos roubam e exploram com juros extorsivos, invocando secretase demoníacas instituições de sentido hermético, tais como a libor, o prime, o spread,fechando seu mercado em injustificado protecionismo, arruinando nosso pobre povo,coitadinho, criando recessão e desemprego, baixando o PIB, encalacrando-nos, entalandonos...Miseráveis! Foi apressadamente retirado das prateleiras bichadas o mofado Brasil,colônia de banqueiros de Gustavo Barroso. Esqueceu-se que Gustavo Barroso eracomandante da milícia integralista e que seus ataques se dirigiam sobretudo contra judeus— os Rothschild, os Lazare, os Pereyre, os Goldschmidt e outros indigitados semíticosfinancistas sem pátria. O que vale é sua apaixonada denúncia do dinheiro cosmopolita quenos esfola. Protestemos ardentemente contra o roubo!Mas também, analisemos melhor e mais friamente o tema!A condenação da usura, ou seja, do empréstimo a juros, é antiquíssima e pode serocasionalmente encontrada em todas as sociedades. A tradição judeo-cristã enfatizou aproibição que a Bíblia transformou em dogma. O Salmo XV condena a usura: "Quem andacom integridade e pratica a Justiça... jura com dano próprio sem se retratar; não emprestadinheiro com usura, nem aceita suborno contra o inocente". Na Primeira Epístola a Timóteo

124(6:10), S. Paulo acentua que "a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro", assimconfirmando o auri sacra fames (Quid non mortalia pectora cogis, auri sacra fames) deVirgílio. Como resultado de tal ascético tabu, estendeu-se a proibição do empréstimo ajuros durante a Idade Média, proibição de que ficaram isentos os judeus para sua vergonhae infelicidade. Isso contribuiu tanto para sua transformação em joalheiros, banqueiros ebodes expiatórios, quanto para a justificação do anti-semitismo e ocasionais pogroms. Aprincipal consequência da condenação escolástica, entretanto, foi a estagnação econômicado período. Isso não impediu, aliás, que certas ordens monásticas, como por exemplo a dosCavaleiros Templários, se transformassem em banqueiros dos reis.É conhecida a tese de que os primórdios do capitalismo e do desenvolvimentoeconômico do Ocidente datam de fins do século XV, especialmente na Holanda, quandocomeça a fixar-se um limite legal, uma espécie de teto nas taxas de juros permitidas —libertando assim, ainda que parcialmente, o comércio do dinheiro. A usura é perseguidacomo crime acima de tais limites. É também interessante notar que, na Inglaterra, o tetobaixou de 10% em 1541, ao tempo do rei Henrique VIII, para 5% em 1713. O desabrocharda expansão capitalista e industrial segue de perto a libertação da transação bancária. ForamTurgot em França (1775), Adam Smith e Jeremy Bentham na Inglaterra (1787), osprimeiros a atacar incisivamente a teimosa ideia de um controle legal sobre as taxas dejuros. Em meados do século XIX, a libertação do empréstimo a juros, segundo a lei daoferta e da procura, era já quase universal. Permanece, em alguns casos, o controle pelostribunais da incidência clamorosa de abuso e extorsão, ao mesmo tempo em que cessa aprisão por dívidas. Observemos que o FMI não é um tribunal que procure coibir a ganânciados credores, mas apenas assegurar a seriedade dos devedores, nas medidas de autocontençãopara o serviço da dívida.Numa crítica a William Pitt, então primeiro-ministro, Bentham escreveu: "Vocêssabem que é uma velha máxima de minha autoria que os juros, como o amor e a religião,devem ser livres". Sustentado no Inquérito sobre a natureza e as causas da riqueza dasnações, de Adam Smith, o grande liberal manifestava sua tese de que se devia estender oprincípio da libertação de comércio ao dinheiro. Em carta a um amigo, Sir John Bowring,enuncia claramente o princípio: "Nenhuma pessoa de idade madura e mente sadia, agindolivremente e com os olhos abertos, deveria ser impedida, tendo em vista alguma vantagemsua, de fazer tal negócio ao obter dinheiro conforme julgue adequado; nem deveria... serimpedida qualquer outra pessoa de supri-lo." O problema do controle e proteção datemeridade ou prodigalidade dos empresários, do tipo daqueles que nos têm governado

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