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O Dinossauro - Ordem Livre

O Dinossauro - Ordem Livre

195segundo corria, nem

195segundo corria, nem era mesmo brasileiro: nascera no sul da Itália, ou na Apúlia maisprecisamente. Um legítimo Cagliostro (Cagliostro, o mais famoso de todos os picaretas doséculo XVIII, que conseguiu até mesmo ludibriar a Goethe). Certa vez, esse charlatão dospobres mostrou-me com orgulho, por ocasião do Natal, o resultado de sua "esfalfante"atividade em benefício da "eficiente promoção comercial brasileira em França": era umasala da Chancelaria no boulevard Montaigne, apinhada de lindos pacotes, bem embrulhadoscom cordão verde-amarelo. Caixas de marrons-glacés que se destinavam a todos os seusprotetores brasileiros — políticos, deputados, generais, ministros, jornalistas, empresários,membros da Academia Brasileira de Letras, toda aquela vasta e poderosa clientela graças àqual mantinha, ano após ano, a sua permanência em Paris como Maquereau, ou alcoviteirode alto coturno.Estou certo de que tipos dessa ordem existem e experiências como a minhaocorrem em todas as partes do mundo. O burocrata espertalhão é figura familiar emqualquer lugar ou nação. O que é peculiar à vida política e administrativa brasileira é afrequência singular do aparecimento de finórios desse tipo que, graças às suas técnicassicofânticas imensamente refinadas de cordialidade e prestação de serviços pessoais,conseguem galgar os mais altos escalões da hierarquia do Estado.* * *Há mais de 50 anos (1931), o conde Hermann von Keyserling visitou-nos nodecurso de uma viagem "filosófica" à América do Sul, no gênero das que costumavarealizar. Dessa visita surgiu a obra Meditações sul-americanas. O livro é imperdoavelmenteesquecido e até hoje não foi publicado em português. Keyserling quase desaparece,injustamente, do rol dos grandes pensadores do século. É curioso notar, entretanto, quealgumas das observações que fez sobre nosso país ainda são absolutamente válidas econstituem, em certos casos, algo do que de mais profundo se tem dito sobre nossa culturaem gestação e sobre nosso "caráter nacional". Tais observações às vezes coincidem demodo admirável com as do Retrato do Brasil, de Paulo Prado (1928), e Raízes do Brasil, deSérgio Buarque de Hollanda (1936) — o que me leva a crer que tenha apreciado longasconversas com aqueles estudiosos de nossa psicologia coletiva, quando Keyserling passoupor São Paulo. Aqueles autores eram então jovens e já brilhantes. Provavelmente, foi de taistertúlias que explodiram algumas das intuições presentes nos três livros mencionados.Há um ponto que merece nosso especial interesse. Keyserling, que era de nobreza

196bálta, alemão de sangue e cultura, mas russo ao nascer, faz a certa altura a observação deque o Estado brasileiro muito lhe parecia assemelhar-se ao Estado russo. "O aparelho doEstado é um organismo à parte", escreve ele. "O alto funcionário brasileiro se parece comoum irmão ao da Rússia tzarista. Mas o Brasil se revela perfeito e seguro naquilo mesmo emque a Rússia era imperfeita e vulnerável; e de tal modo que, poucos dias depois de minhachegada ao Brasil, já me podia dizer que se a Rússia houvesse sido governada como oBrasil, o povo jamais teria feito a revolução." O paralelo traçado por Keyserling é de altapertinência. Em ambos os países, de grande extensão territorial, baixa densidadedemográfica e grau acentuado de subdesenvolvimento, o Estado desempenhava um papelde vanguarda, como desempenha até hoje, ainda que sempre ineficiente, no esforço pelaindustrialização e progresso material. Uma diferença profunda, contudo, distingue essesdois monstros antediluvianos, esses dois Leviatãs grosseiros e açambarcadores. "No Brasil,mais do que em qualquer outro lugar", escreve Keyserling, "segue a arte de governarcaminhos semelhantes aos da diplomacia da fêmea, a qual tudo refere ao primordial, e tal éprecisamente a razão de seus êxitos." O filósofo alemão fala do Brasil em termos deDelicadeza. Com essa palavra portuguesa como título do capítulo em que mais se demorano Brasil, ele acentua que, ao contrário do Estado russo — useiro e vezeiro no uso do knut,do ukase e da Sibéria para a reeducação dos recalcitrantes —, o Estado brasileiro era todosuavidade, discrição e delicadeza na imposição de sua autoridade. Naquilo em que a Rússiase mostrava brutal, reina no Brasil a consideração mais refinada, e tudo que poderiaalimentar algum descontentamento é encoberto de maneira a torná-lo invisível. Essa últimaobservação me lembra o admirável sistema chocante, que adotamos para a eliminação doscriminosos: em vez da pena capital, a execução sumária pelos esquadrões da morte nacalada da noite... Keyserling observa ainda, divertido, que se um dia o comunismo tomarconta do Brasil, as autoridades ficarão com pena dos burgueses capitalistas e terão adelicadeza de lhes restituir as casas e usinas desapropriadas ou, pelo menos, arranjar-lhesemprego na nova Nomenklatura...Todos nós concordamos sobre o paternalismo absorvente que se mantém como umdos traços mais salientes de nossa política, através das peripécias históricas — Revolução"liberal" de 1930, "Estado Novo", "Nova República" de 1945, "Revolução" de 1964 e"Nova República" de 1985. O patrimonialismo paternalista implica o filhotismo, onepotismo, o compadrio, a parentela, o clientelismo, o empreguismo, o "fisiologismo" etantas outras expressões que designam formas diversas do mesmo fenômeno fundamental.Em poucas palavras: a confusão entre o público e o privado. A situação em que, quem não

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