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O Dinossauro - Ordem Livre

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231Crozier insiste aí

231Crozier insiste aí nas diferenças oriundas de condições psicossociais quedeterminam, em cada país, o funcionamento da burocracia. Os homens de ação conhecemperfeitamente essas diferenças e não deixam de levá-las em consideração. "Mas as ciênciassociais, talvez afetadas pelas lembranças desagradáveis deixadas pela Völker Psychologie,nunca se interessaram seriamente em tais comparações". E adiciona: "Tocqueville, éverdade, já tinha em seu tempo proposto uma série de sínteses dessa natureza, cujo vigor econtínua pertinência ainda hoje, passados cem anos, nos supreendem. Tanto em LaDemocratie en Amérique como em L'Ancien Régime, ele soube ligar a análise das relaçõessociais e das relações ao nível do que agora chamamos grupo primário, com a análise dasestruturas administrativas e das regras do jogo social e político".Tocqueville também explicou com muito acerto como a política municipal eprincipalmente a política fiscal dos monarcas absolutos dos séculos XVII e XVIII acabaramdefinitivamente com qualquer veleidade de iniciativa e qualquer possibilidade de atividadeorganizada espontânea, particularmente nos escalões inferiores. "Nesse sistema deimpostos", afirma Tocqueville, "cada contribuinte tinha, efetivamente, um interesse diretoem espionar seus vizinhos e denunciar aos coletores os progressos de suas fortunas: todoseram instruídos para a delação e o ódio". Vemos assim a semelhança com o que ocorreu noBrasil colonial em virtude das mesmas causas. A rigidez, a centralização e o controleopressivo do sistema francês se sustentam na necessidade de manter a ordem numasociedade por natureza rebelde. Notai também a diferença com o que ocorre no Japão, ondeo caráter hierárquico e disciplinado de uma sociedade condicionada por mil anos defeudalismo e trezentos anos de ditadura militar shogunal, a torna muito mais passiva emaleável.Crozier observa ainda que os sucessos franceses sempre foram mais numerososnos dois extremos possíveis das formas de atividade: "por uma parte nas aventuras erealização individuais no domínio da ciência e da técnica, onde o indivíduo é totalmentedono de seu esforço; e, por outra parte, nas atividades mais rotineiras, onde um sistema deorganização burocrática, que protege perfeitamente o indivíduo contra qualquer arbítrio,tem chances de ser mais eficaz que outros sistemas mais flexíveis e favoráveis àconcorrência". Mas o fato de que as tendências acima descritas sejam mais acusadas emFrança, pondera Crozier, não significa necessariamente que as organizações francesassejam mais burocráticas que as de outros países. É possível, diz ele, que outros tipos derigidez se desenvolvam a partir de outras premissas. "Se nos ativermos à nossa ampladefinição de um sistema burocrático como um sistema incapaz de corrigir-se em função de

232seus erros, podemos facilmente conceber outros sistemas diferentes do francês que possamtambém ser considerados como sistemas burocráticos".Henri Lepage confirma por sua vez que o atraso da França principia a secaracterizar já no final do século XVIII, desde logo em relação à Grã-Bretanha e aos PaísesBaixos. O motivo é que seu Estado é absolutista e o daqueles republicano ou constitucional,isto é, limitado. Os direitos de propriedade privada são mais sólidos na Inglaterra eHolanda, mais respeitados, ao passo que em França a monarquia reivindica direitoseconômicos excessivos. Essas observações seriam mais válidas ainda se aplicadas às naçõesem que permanecem as consequências do "despotismo oriental", como a Índia, a China, aRússia tzarista e os dois velhos reinos da península ibérica. Neles, toda a propriedade ougrande parte dela está, teoricamente, nas mãos da Coroa e é administrada por uma classe deburocratas a serviço da dinastia reinante. É patrimônio do Estado. Henri Lepage salientanessa altura a opinião da Escola dos Property Rights, dos direitos de propriedade natradição de Locke — a qual sustenta a relação direta entre direito de propriedade privada ecrescimento econômico. E conclui: "O crescimento (econômico) como fenômeno humanode dimensões mundiais só sobreviverá na medida em que em qualquer lugar subsistir uma'potência capitalista'. Que essa potência seja suprimida e o crescimento, no sentido modernodo termo, desaparecerá". As palavras do economista francês são comprovadas pelaaceleração do crescimento nas nações novas das áreas afro-asiática e latino-americana emque os direitos de propriedade são respeitados (Japão, Coreia, Singapura, Costa do Marfim,Gabão, Venezuela, Costa Rica), em comparação com a estagnação ou a crise daquelas que,como o México, o Peru, a Argentina, o Estado se dedicou ao mister inglório de perseguir ainiciativa privada, a partir de regimes autoritários socializantes ou ditaduras militares.Nos países de monarquia constitucional e em repúblicas como a Suíça, a Holanda,e logo em seguida os Estados Unidos, a prosperidade econômica resulta, haja vista, dopoder de controle que sobre o parlamento e o executivo detém uma próspera classe demercadores, interessados em utilizar o braço do Estado para a defesa de seus interesses,inclusive na concorrência no mercado internacional. Em França, por contraste, oMercantilismo gerido pela monarquia visa exclusivamente a criar barreiras ao comércio,manter um sistema quase autárquico, e acumular excedentes e um tesouro de guerra para obem exclusivo do poder nacional.Entre a França e a Inglaterra, uma das melhores comparações é a que pode ser feitano que diz respeito aos métodos divergentes utilizados em seu esforço colonizador noCanadá, dando como resultado a conquista daquele território pela Grã-Bretanha, embora

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