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O Dinossauro - Ordem Livre

O Dinossauro - Ordem Livre

25515O BOM GOVERNO PODE

25515O BOM GOVERNO PODE SER ENSINADOA burocracia pode ser explicada ou definida, em certo sentido, como o produto deuma estrutura paternalista colonial ou patrimonialista, pré-capitalista — um organismoarcaico que, por inércia, se mantém em pleno século vinte, atrasando o nosso necessárioprogresso. Sociologicamente, certos aspectos lhe são sem dúvida peculiares: a inércia, oconservadorismo e a cristalização de velhos privilégios e hábitos que datam do tempo dosvice-reis. Esses aspectos arcaicos não podem ser olvidados, como vimos. Assim, apermanência de uma mentalidade pré-capitalista pode fazer com que uma tal estrutura, dita"obsoleta", se transforme numa estrutura considerada "moderna" ou "progressista", semnada eliminar de seus vícios. Em nome do socialismo, pode-se restaurar formas antiquadasde paternalismo. Karl Marx, não podendo prever o desenvolvimento burocrático na"primeira pátria do proletariado", já prevenia contra o formalismo que "se torna um poderreal, sua substância e próprio conteúdo... um tecido de ilusões". Temia Marx que "osobjetivos do Estado se tornassem os da burocracia". Assim se explica que a burocraciaineficiente dos Tzares se tenha metamorfoseado no "Primeiro Círculo do Inferno", que nosdescreve Alexandre Solzhenitsyn sob a forma dantesca de uma eficiente e ultramodernaprisão estaliniana. O Dinossauro se transforma, nesse caso, em Tiranossauro. ANomenklatura é a cabeça do Leviatã...No Brasil pode assim ocorrer que o Vice-Reinado de outrora se transforme noEstado cartorial de hoje; a Corte da Quinta da Boa-Vista, na Copa-e-Cozinha do Planalto; olatifúndio do açúcar, no sindicato dos boias-frias; e o fazendeiro soberbo, no tubarão e nopelego. Assim podemos dar um pulo do Governo Geral para o Estado nacional-sindicalista,sem que isto afete a estrutura da mentalidade burocrática. Pelo contrário, há indícios de queisso poderia ocorrer num ambiente estatizante. Já no Brasil esse perigo começou amaterializar-se sob influência do getulismo ideológico e pouco falta para que façamos aexperiência de um "Governo Geral" do século XVIII, vestido de slogans marxistas doséculo XX. Cuba, ao que parece, está completando uma experiência desse tipo, pois aineficiência burocrática seria ali de tal magnitude que inspirou ao senhor Anastas Mikoyan,velho bolchevista, ministro soviético do Comércio Exterior e armênio esperto, seu célebre

256comentário sobre a incompatibilidade da rumba e do socialismo.É evidente que o problema do futuro da burocracia escapa ao âmbito de um estudodedicado meramente à exploração de certos aspectos rebarbativos da nossa administração,os quais exprimem peculiaridades de nossa mentalidade coletiva. A burocracia, sem dúvida,é um fenômeno sociológico da época moderna. Dela sofremos nós, como sofrem outrospovos, de outras raças e sob outros regimes. Existe burocracia em todo o mundo. Nos paísescapitalistas, como nos comunistas. A Ocidente como no Levante. Os americanos queixamsede sua red tape e multiplicam as denúncias contra o crescimento do Estado desdeWilson, Roosevelt e Johnson. Os ingleses produziram um especialista, C. NorthcoteParkinson, que empreendeu estudos tão aprofundados quanto deliciosos sobre ciência deadministração, formulando uma lei famosa que lhe carrega o nome. Esta foi recentementecomprovada empiricamente. Nos países comunistas, a "nova classe" de burocratascentralizantes que, pouco a pouco, substituiu os antigos agitadores profissionais à testa dopartido e do Estado, começa a ser combatida como um estorvo ao desenvolvimento e umatraição à Revolução. A "Revolução Cultural" maoísta foi dirigida contra os burocratas doPCC, mas Deng Xiaoping venceu a parada e hoje parece empenhado em "abrir" o paísinterna e externamente, em que pese a resistência desses mesmos burocratas. A burocracia éo produto monstruoso do século XX e da civilização industrial em seu presente estágio. Elarepresenta o próprio establishment em todos os seus níveis hierárquicos. Um outro autorrecente, já citado, Laurence Peter, formula o seu Princípio de Peter do seguinte modo: "emuma hierarquia, todo empregado tende a elevar-se ao nível de sua própria incompetência; anata eleva-se até azedar". A nossa burocracia, nesse sentido, não é diferente das demais,refletindo certas tendências universais da sociedade moderna, apenas que foram sobrepostasa alicerces de paternalismo colonial e são modificadas pelo calor original da Mamãezada denossa sociedade erótica.Como fatalidade moderna a burocracia é, pois, não somente um arcaísmo, comoum desafio do futuro. Mesmo a rebelião dos hippies representou um protesto, talveznecessário, ao excesso de arregimentação, especialização e mecanização que oestablishment impõe. A crítica de Parkinson também se endereça ao que a evoluçãoburocrática tem de excessiva e monstruosa. Parkinson previne que "o trabalho expande paraencher o tempo disponível". Consciente está de ser a problemática a do excesso, dodesperdício de trabalho — trabalho não produtivo e desumanizante, com papelório,carimbos, arquivos, assinaturas, etc, e todas as regras do jogo de poder entre homens que,aos poucos, se vão tornando como que chips de um imenso computador social. Laurence

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