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O Dinossauro - Ordem Livre

O Dinossauro - Ordem Livre

19literária alemã.

19literária alemã. Certo. Na medida em que se configura no Racionalismo uma posturafilosófica extrema daqueles que gozam e proclamam um desenvolvimento extraordináriodas funções intelectuais, pode o Romantismo ser definido, em contraposição, como umatentativa de restringir a tirania da massa cinzenta e alargar o âmbito do rubro coração. Aênfase sobre o poder da Razão Humana é certamente sensível entre os italianos doRenascimento. Mas prosperou somente depois da Reforma protestante — sobretudo a deCalvino e Zwingli — e ganhou terreno na Europa ocidental e setentrional, alimentando-seda propensão dos Protestantes nórdicos em dirigir sua vida consciente de acordo comestritos e metódicos princípios racionais. Nessas circunstâncias, o Romantismo deve serconsiderado, na Europa nórdica, não como dado estrutural primário, mas como fenômenoreativo, como compensação necessária, como contrapartida, contraproposta ou contradiçãopsicologicamente explicável na base das relações consciente-inconsciente.Entre os latinos meridionais, ao contrário, constitui o Romantismo mais que umponto de vista filosófico ou um estilo literário: é um modo de vida. É uma forma primáriade expressão. E uma tendência poética natural, uma característica musical inata. Jungcompara a profundidade de significado da palavra Sentiment entre os franceses com o tipoinferior de sentimento de um alemão, por exemplo. As erupções românticas deGemütlichkeit comumente cheiram a cerveja. Para um alemão típico, um alemão do norte,ser gemütlich significa afagar os seios de uma gorda Fraulein, enquanto ouve um Lied deSchubert. Fausto é o modelo, o homem-símbolo do alemão de estilo gótico. Se Splengerpôde chamar a civilização ocidental de Fáustica e oferecer o grande alquimista comprotótipo da cultura germânica — poderíamos, de igual maneira, propor Dom Juan outalvez Otelo, esses heróis extravertidos e eróticos, como gênios tutelares da cultura católicalatina. Ora, Fausto é um homem de razão, um intelectual apanhado pela cauda mefistofélicaà sedução do Romantismo, ao passo que Dom Juan é romântico de nascença, um heróiromântico e desafiador demoníaco da ordem do Logos divino.Na verdade, o herói latino típico é eminentemente romântico. Não por acaso escolheuShakespeare, entre os latinos, seus grandes personagens amorosos — Romeu e Otelo.Hamlet, por outro lado, esse pensador introvertido e angustiado, é necessariamente umnórdico. No latino, o arquétipo da Grande Mãe exerce seu poder hegemônico muito perto,quase ao nível da consciência, enquanto lhe controla a ânima o comportamento normal emrelação ao mundo. Nenhum italiano precisa ser convencido de que la Madonna e la Mammasão figuras de importância primordial em sua vida, sobretudo se é um napolitano, umcalabrês ou siciliano. Nenhum espanhol requer os ensinamentos de Freud para ser

20persuadido do papel predominante em sua alma desempenhada pela libido sexual.Contrariamente ao que ocorreu entre os anglo-saxões, os alemães, os escandinavos, ossuíços ou os holandeses, em cujo meio o arquétipo feminino mergulhou com modéstia, comtemor e vergonha, nas sombras do Inconsciente, os católicos do Sul não reprimiramtenazmente os seus impulsos eróticos e seus entusiasmos dionisíacos. Na verdade, a noçãode um Complexo de Édipo possui limitado mérito revolucionário em nossas partes doglobo, já que sabemos intuitivamente que, em nossa sociedade patriarcal e patrimonialista, éo Pai de fato o representante do Logos. Ele é o chefão, rodeado de prestígio, respeito e nãopouco terror — Pai, padrinho e patrão. A questão existencial que comporta o machismolatino é, precisamente, contra ele rebelar-se como o espanhol que, ao chegar a um novopaís, pergunta: "Hay Gobierno? Soy contra!" Entrementes, entre nós permanece a Mãecomo a grande deusa de mil seios, amante e devoradora, que adoramos e que, há milênios,governa ao redor das praias deste mais belo e mais venerável de todos os mares do mundo,o Mediterrâneo. Afetos extravertidos e intuições profundas constituem as funções dereferência usual do latino, para serem usadas em suas reações artísticas e musicais perante omundo. E inclusive nos campos político e social. Por isso sempre caracterizei o brasileirocomo um afetivo intuitivo.*Consequentemente, na dialética do classicismo racional e do protesto românticoencontramos uma certa antítese que possui conotações religiosas, raciais e geográficas, taiscomo as que acabo de rascunhar. O problema é transportá-la para o âmbito da política. Emsuma, no meu entender, o Racionalismo representa a forma de expressão conscientedaquela que chamo de "sociedade lógica", e o Romantismo a ilimitada expressão da almada "sociedade erótica". Ambos os movimentos constituem, mutatis mutandis, formasreativas inconscientes nessas duas sociedades. E assim como as atitudes e pontos de vistacartesianos estão criando um profundo impacto sobre os afetivos da área meridional emdesenvolvimento, os quais sofrem em seu lado sombrio ao enfrentar com sofreguidão eangústia os desafios da Idade Industrial — assim também o movimento românticorepresenta uma influência anímica profundamente agitadora e desequilibradora que seexerce sobre os pensadores severos, introvertidos e reflexivos do mundo protestantenórdico. Isso não quer dizer, insisto, que qualquer das duas tendências filosóficas, literáriasou estéticas em debate possam ser exatamente equacionadas com tipos raciais, psicológicosou religiosos. Minha digressão possui a intenção única de estabelecer alguns pontos dereferência para uma tentativa de apreciação dessa difícil matéria.* Meus livros O Brasil na Idade da Razão e A Ideologia do Século XX.

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