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O Dinossauro - Ordem Livre

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289que devemos a tese em

289que devemos a tese em A República — um sintoma da decadência espiritual da sociedadepoluída pela ideologia (doxa). O filósofo, que é o defensor da verdade, da justiça e davirtude, existe em oposição ao sofista e enquanto protege aretê, a virtude. Age o sofista,simplesmente, como um técnico intelectual privado de qualquer critério de valor. Para ele,simplesmente, equivaleria aretê ao sucesso ou à virtù do homem da Renascença. Por issocabe ao filósofo resistir à poluição ideológica que tudo penetra e tudo contamina sob oefeito desagregador de sua sedução diabólica. Platão sugere que o conflito terminaria nomartírio de Sócrates, muito embora seu sacrifício asseguraria o triunfo da filosofia na poliscorrompida de Atenas. A dialética de Sócrates e de Protágoras no diálogo do mesmo nomese converte, na República, em uma oposição tremenda entre o philosophos (amante dasabedoria) e o philodoxos (amante de opiniões). O philodoxos é, em outras palavras, osofista, o ideólogo, o mero intelectual. Ele usa esteticamente o pseudos, a mentira, parainduzir a juventude em erro. No fundo, é um refinado e sofisticado mentiroso. EricVoegelin acentua (em Order & History, III, 3, §3, 1) que o filósofo é o homem que procuraresistir à corrupção provocada pelo sofisma na sociedade, ao tentar restabelecer a ordemcorreta da razão em sua própria alma, em oposição à psique enferma do sofista. A repúblicaé finalmente oferecida como o paradigma de uma sociedade espiritualmente bem ordenada,pela ordem da justiça que reina na alma de seus membros, em contraste com a sociedadecorrupta que "é o maior de todos os sofistas". A sociedade corrupta seria assim dirigida pelacomunidade de sofistas, ou o que chamaríamos hoje a intelligentsia, supremamente hábilem moldar a mente não apenas dos jovens ingênuos, mas também dos velhos caducos eignorantes.Assinala por outro lado Werner Jaeger (Paideia, II.5) que o Protágoras representao grande movimento de transformação educacional que conduz da sofistica à paideiasocrática, o que significaria a formação da verdadeira cultura. O Sócrates platônicoarrebenta a fortaleza ideológica de seus adversários e, penetrando pela névoa opaca donefelibatismo exposto por Protágoras e seus discípulos, faz emergir a verdade de seupróprio programa pedagógico. Segundo Jaeger, o famoso diálogo descreve o debate com ossofistas como uma das batalhas intelectuais decisivas de sua época. Talvez nenhuma dasoutras obras de Platão supere essa, como análise penetrante do caráter das personalidadesintelectualmente sedutoras, porém moralmente viciadas. Através de sua fina ironia, ofilósofo elimina a paideia puramente estética da palavra e a sofismátiça erudita e pedante,sobre ambas fazendo brilhar a nova paideia austera e honesta da cultura moral, daverdadeira filosofia.

290Ao comparar a filosofia com a medicina — uma constante do pensamentoplatônico — Sócrates afirma que o conhecimento e a sabedoria que se adquire pelaeducação constituem o "alimento da alma". Aretê e epistemê, virtude e conhecimento, sãoos valores solidários que se condicionam um ao outro, e que o médico da alma, opsicoterapeuta, procura introduzir no paciente para curá-lo da enfermidade do pseudossofismático. A dialética transforma-se no método adequado à persecução da Verdade,substituindo a technê ou arte retórica do sofista, que nada mais é que a ciência social ou aantropologia substancialmente ideológica. Protagoras torna-se o tipo do professor de ciênciasocial, antropologia ou filosofia política, de uma ciência e uma filosofia utilitarista edesprovida de critérios de valor. Pela boca de Sócrates, afirma Platão não acreditar que omero engenho humano, por mais agudo e brilhante que pareça, seja capaz de cuidar dasalmas e tornar os homens bons. Aretê é um dom dos deuses. É uma Graça ou um Carisma.E nessa tese mistura Sócrates o sólido realismo de sua ironia e de sua lógica, com a visãomística que caracteriza a inspiração de seu famoso daimon.No final do diálogo, o filósofo será bem sucedido ao revelar a verdadeira ação detodos os sofistas ali reunidos, em conferência na casa de Callias, a começar pelo próprioProtágoras — que não são senão reles demagogos, reduzidos ao mesmo nível dos hoipolloi, da multidão cafajeste que é facilmente seduzida e iludida com belas palavras ocas.Pois se o argumento de Sócrates visa a identificar o conhecimento com a virtude, é precisodistinguir o verdadeiro conhecimento da Ideia do Bem, da erudição superficial e materialque impressiona mas não educa, nem cria nada de novo e de sólido. O diálogo terminadramaticamente em torno da contradição que se forma nessa tese: afirmada e negada orapor um, ora por outro, Sócrates e Protágoras — a Tese é a de que a virtude pode serensinada. A contradição é da essência de toda filosofia dialética. No epílogo ocorre, de fato,uma reversão de posições. E Sócrates afirma que todas as coisas são conhecimento, ajustiça, a sábia moderação e a coragem, numa dialética que serviria para o aprofundamentoda questão da virtude que pode ser ensinada.O valor perene da filosofia de Platão reside nisso que o pensamento ocidentalsempre a ela recorre para a solução de questões vitais no correr dos séculos. Por isso usei ascategorias platônicas em meu livro O Brasil na Idade da Razão, para descrever a Magia daPalavra que nos empolga como "uma sobrevivência da mentalidade primitiva" de que falavaArtur Ramos. Estamos ainda no estágio primário de cultura em que o sofista é rei. O nossosofista é mero comentarista pedante do pensamento estrangeiro, que sabe repetir mas nãosabe julgar. A lectio e a relectio dos autores consagrados além-mar lembram o método de

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