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O Dinossauro - Ordem Livre

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23visava salientar o

23visava salientar o culto da personalidade do Rei como símbolo central da coletividade eencarnação do logos político. Um Leviatã muito civilizado... O poder absolutopatrimonialista.Michelet procurou as origens desse "culto da personalidade" do soberano na antigadivinização de Alexandre. A ideia apolínea solar de Versalhes lembra, sem dúvida, aspretensões faraônicas do grande conquistador macedônio mas, na verdade, tais associaçõesdo Rei e do Sol são tão velhas quanto a ordem cosmológica das antigas sociedadesorientais. A identificação do soberano como herói solar é motivo familiar de todas asmitologias políticas, desde as de Babilônia e Egito, até as da China e Japão. Aparece naRepública de Platão. Invade o Ocidente com os projetos de Alexandre em Heliópolis. Estápresente em Roma com o culto do Sol Invictus onde influências orientais da mesma espéciese fizeram sentir, na época da decadência; e culminou no césaro-papismo teocrático deBizâncio onde as colunas de pórfiro do templo do Sol foram adornar Santa Sofia e o Palácioimperial. Em Constantinopla, o herdeiro da coroa era o Porfirogêneta. Mesmo noCristianismo, como é sabido, a associação persiste nos atributos de Cristo como Sol daJustiça; no simbolismo do galo que, do alto da torre da igreja, anuncia a alvorada; em certassobrevivências da cosmologia pagã como, por exemplo, na designação do domingo comoDia do Senhor (Sonn-tag e Sun-day), e na celebração do solstício de inverno (o dia donascimento do sol nas latitudes setentrionais) como data do Natal do menino Jesus.Na identificação de Luís, o Rei-Sol, com o soberano dos céus, descobrimos,portanto, a revivescência de ideias muito antigas que veiculam um dos motivos maisperenes da simbologia política. A paixão de Luís XIV pela glória constitui umamanifestação tangível e terrena da imagem da radiação de luz, calor e força de gravitaçãouniversal. Mais facilmente podemos assim compreender a tese urbanística de que o planode Versalhes exprime a ideia dominante do absolutismo monárquico. Mas, não é necessáriosupor que os arquitetos da época estivessem conscientes de tal significado, nem certamenteavaliassem até que ponto estavam exprimindo adequadamente o arquétipo, ao desenhar suascidades segundo um plano radioconcêntrico, em forma estelar. O leito do Rei foi colocadobem no meio do Palácio, como foco de todo o esquema urbanístico. Luís considerava-se aprópria emanação da França: "L'Etat, c'est moi!" dizia bem alto. Isso sobretudo quandodormia em seu leito de aparato, o que prova que a planta do palácio não representavaapenas uma solução racional para o problema artístico: sente-se uma verdadeira emergênciade matéria-prima inconsciente, constelada em torno dessa obra arquitetônica suprema daIdade da Razão.

24Sem dúvida, é a beleza de Versalhes a expressão própria de uma filosofia e mesmode uma visão monárquica do mundo. A beleza, declarou Hegel, é uma manifestação damente. A arte barroca foi incontestavelmente o produto da Idade de Descartes: mostrou osefeitos da invenção da bússola e do uso de coordenadas no desenho de mapa-mundi tãonecessários para a descoberta de novos continentes. Refletiu a cosmologia mecânica deCopérnico, Kepler, Galileu e Newton. Manifestou um paralelismo com os novos brinquedosmecânicos que fascinavam os contemporâneos, anunciando a aurora da RevoluçãoIndustrial. "Mecanização do tempo, mecanização do espaço, mecanização do poder"comenta Lewis Mumford. Podemos assim afirmar que Descartes, Newton, Spinoza eLeibniz, o cálculo diferencial e a trigonometria são criações da psique barroca, tanto quantoLe Nôtre e Hardouin-Mansart, Poussin e Claude Lorrain, Bach, Mozart e a músicacontrapontística. No Discurso de Descartes deparamos com o método de clareza, deprecisão matemática, lógica dedutiva, crítica fria e mais soberba simetria que tãocaracteristicamente presidiu à elaboração do pensamento da época. É verdade que essa arteé uma arte intelectual. É uma arte sem muito gênio intuitivo, uma arte infusa por certoesprit de finesse, o espírito francês no que há de melhor, corrigindo a lógica cartesiana e oesprit de géometrie (para usar as categorias de Pascal) na sua talvez excessiva rigidez.Entretanto, permanece o fato de a identificação solar do Rei não constituir apenasum simples recurso poético. Não é uma parte plenamente consciente do protocolo deestado, nem mero "cerimonial da corte" destinado a exaltar toutes les gloires de la France...O que ocorria era uma verdadeira anexação de camadas profundas do InconscienteColetivo, produzindo uma extensão da personalidade do Rei. O mesmo que ocorreria emnosso século em personalidades paranoicas como as de Hitler, Stalin e Pol Pot. Essefenômeno pode atingir pessoas sobrepujadas por novos conhecimentos ou por novasrealizações: "O conhecimento infla", escreveu S. Paulo aos Coríntios. Maior ciência ou umacréscimo de consciência acarreta o perigo da vaidade e do orgulho, da obsessão do poder,da megalomania ou do que os teólogos costumam condenar como pecado de Superbia.Foram os novos conhecimentos da Idade da Razão, de que o Cogito cartesiano constituiu afórmula suprema, o que explica a ominosa ocorrência desse sintoma inflacionário.Uma coisa, porém, é incontestável. O retorno ao simbolismo cosmológico pagãoconstituía um sinal muito mais sério, no âmbito da política, do que compreendiam ouadmitiam os contemporâneos. Os racionalistas tendiam a desvalorizar esse simbolismo.Encolhendo os ombros, consideravam tais "alegorias" inteiramente aceitáveis, sempre queconfinadas ao campo das artes e da poesia. Do ponto de vista da especulação filosófica,

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