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O Dinossauro - Ordem Livre

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47e eternamente" nesta

47e eternamente" nesta terra. Hobbes estaria propondo, em suma, uma volta à concepçãoteocrática hebraica que implica considerar o messias um líder terreno, de carne e osso.Quando, em seguida, no capítulo 35, vem a definir o conceito de Igreja, torna-se claramenteinconfundível, como nota Lehman, a identificação que faz entre religião e o culto doEstado-nacional moderno. Vale novamente citar o trecho relevante da obra de Hobbes:"...uma Igreja, enquanto capaz de ordenar, de julgar, absolver, condenar ou fazer qualqueroutro ato, é o mesmo que uma república civil, formada por cristãos ... Governo temporal egoverno espiritual não passam de duas palavras trazidas ao mundo para fazer os homensverem duplo e confundir seus legítimos soberanos... Não existe portanto nenhum outrogoverno nem do Estado, nem da religião, senão o temporal". Nesse sentido, asseveraLehman em seu comentário, "contém o Leviatã e prescreve uma radical secularização doque até então tinha sido aceito pela teologia cristã". Podemos nós acrescentar que a maiorparte dos comentaristas conservadores da obra de Hobbes salientou as consequênciasominosas desse repúdio ao dualismo das Duas Cidades. A negação da tese agostiniana naverdade está na origem da substituição do paradigma agostiniano da Civitas Dei pelaUtopia. A Utopia política constitui uma secularização vulgar do modelo transcendente,paradigma situado "no céu" ou no futuro indeterminado. Doravante, a tensão moralpermanente entre a realidade do poder temporal, na cidade terrena, e o ideal do poderespiritual na Cidade de Deus se transformará num impulso permanente para alcançar aUtopia da perfeição de justiça, felicidade e amor através de meios políticos revolucionários.A Revolução configura a Salvação. A Religião Civil nacional-socialista substitui a religiãocristã.Lehman finalmente lembra que o termo Theologia Civilis, designando o elo pagãoindissolúvel entre política e religião, ocorre na própria obra de Sto. Agostinho, De CivitateDei, com referência crítica à doutrina de Marcus Varro, um autor político do primeiroséculo antes de Cristo e famoso patriota erudito. Agostinho tenta ali demonstrar, com todovigor, a insensatez de uma religião civil ou a incoerência de uma religião concebida emfunção da política, do ponto de vista da teologia cristã. Ora, acontece que esse problemalevantado pelo grande filósofo católico perdura até hoje, eis que a chamada "teologia dalibertação", que fascina largos setores alienados da Igreja brasileira, nada mais é que umatentativa medíocre de novamente fundir religião e política, e transformar o paradigma daCidade de Deus em um novo modelo de utopia política. Lehman corretamente assevera quea identificação de política com religião sempre foi a regra desde o início da históriahumana, acarretando a sacralização do Estado e o endeusamento do monarca. O

48Cristianismo rompeu com essa tradição. Sua principal consequência política consistiu,precisamente, na dessacralização do Estado e na rígida separação entre os reinos respectivosde César e de Cristo.O Racionalismo hobbesiano levanta outros problemas. Hobbes foi talvez, comMaquiavel, o primeiro a negar a existência de valores morais absolutos e a propor a tese deque a sociedade é apenas determinada por interesses. O positivismo científico nas ciênciassociais, assim inaugurado, estender-se-á nos séculos seguintes a todos os ramos doconhecimento humano, inclusive ao terreno controlado pela jurisprudência, pelas ciênciaspolíticas e sociais, e pela psicologia. O caminho ficou assim bem preparado e adubado parao florescimento luxuriante do socialismo e do nacional-socialismo totalitário, ideologiasque também se pretendem científicas e enraizadas no conhecimento positivo da realidadesocial. O apogeu do que chama Hayek o "construtivismo" filosófico se coloca nos séculosXVIII e XIX mas o rastro se prolonga na praxis da presente centúria. O espírito cartesianoaplicado às ciências sociais pode ser exemplificado pela frase de Voltaire no DicionárioFilosófico: "Se Vocês desejam boas leis, queimem todas as que possuem e façam para sinovas leis"... O que Becker chamou a Cidade Celeste dos Filósofos do século XVIII éperfeitamente exemplificado por essa crença teimosa na capacidade do homem, dotado derazão, de compreender as leis que governam a constituição da sociedade e, na base desseconhecimento, construir a sociedade perfeita. Hobbes proclamou a solução "geométrica" daequação social e concluiu, com método cartesiano, que era despótica. Rousseau seriatambém um perfeito discípulo de Descartes e de Hobbes, não obstante a inimizade quenutria e sofria de parte dos demais Enciclopedistas.Em suma, se a sociedade é gerada por um mecanismo e se as leis e imperativosmorais nada mais representam do que regras positivas que governam esse mecanismo —então fica o terreno perfeitamente preparado e lavrado para as roldanas eleitorais queimpõem o domínio absoluto da maioria demagógica numa democracia, ou de uma minoriaamparada na força armada num estado totalitário. A compreensão das leis sociais e,consequentemente, o desejo de manobrá-las com o poder implícito de controlar a sociedadepassou a constituir a ambição indisfarçada da Nova Classe de intelectuais: economistas,sociólogos, historiadores, psiquiatras, biólogos, antropólogos, jornalistas, clérigos,comunicadores sociais, etc. Todos eles passaram a cultivar em comum um soberbo desdémpelos "valores" — considerados como essencialmente excluídos da investigação científica eindignos da atenção de um cientista positivo. Auguste Comte foi o detestável filósofo cujainfluência introduziu essa atitude no Brasil e, desde então, nenhum cientista social em nossa

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