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O Dinossauro - Ordem Livre

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63revolução..." O

63revolução..." O desejo de revolta registra-se desde o início do movimento romântico — e denovo aí podemos notar com admiração como nossos Inconfidentes da Vila Rica de OuroPreto tenham tão cedo percebido essa conexão entre a rebelião contra a autoridademonárquica da Metrópole e o seu próprio lírico desarvoramento emocional. Shelley, um"anjo belo e ineficaz" (beautiful and ineffectual), como o descreveu Matthew Arnold, ia noentanto proclamar com extraordinária energia a revolta de Prometeu contra a ordem lógicados deuses da Razão clássica. O espírito de contestação e revolta viria a configurar uma dascaracterísticas permanentes na inspiração dos grandes poetas românticos que tamanho papeldesempenhariam na primeira metade do século XIX. Mas isso de modo algum implica acrença de que o Romantismo não se tenha também podido transformar, sobretudo nopensamento filosófico, em fonte de tendências profundamente reacionárias.O culto da morte é uma das características mais notáveis do Romantismo. Myname is death, cantaria Southey: the last best friend am I. Esse culto, na tradição dafilosofia idealista alemã, conduz também a uma hiperdulia da violência e a uma concepçãotrágica da vida, nos quais podemos descobrir os pródromos da cosmovisão terrorística queeclodiu em nosso século. O romântico percebe que a morte é a suprema violência que sofreo indivíduo. É a violência que suprime a própria existência e que nos anula a consciênciapela negação de nosso próprio Ser. Georges Cottier aponta para a influência que essa ideiade violência e de morte exerceu sobre Hegel, cuja filosofia vitalista passa então a afirmar amorte como uma condição dialética da vida, o foco fecundo de renovação da natureza. Osprocessos de nutrição, particularmente no espetáculo impressionante da vida dos animaiscarnívoros, comportam o sacrifício dos vivos em benefício da sobrevivência de outrosseres. A natureza demonstra, efetivamente, que sua renovação eterna se desenvolve pelosencontros duplamente agressivos e amorosos, de amor e devoração, entre os seres vivos. Aviolência passa assim a ser considerada um elemento essencial da existência, no mesmosentido que o amor, e a consciência dessa realidade conduz ao existencialismo trágido deUnamuno. O que os antigos e os escolásticos chamavam o humor irascibile ou colérico dohomem, a concupiscência de domínio são condições da defesa da própria vida. O culto daviolência e do heroísmo vital, na luta constante que é a vida, acabará tomando um cunhoniilista na filosofia frenética de Nietzsche.Harold Nicolson (num artigo na revista Horizon, maio de 1961, vol. III, nº 5)descreve o movimento romântico como um desejo de expressão mais livre e maisindividual, em ziguezagueante e explosivo protesto contra os velhos padrões de simetriageométrica e "correção". Diríamos então que é um protesto contra Bacon que, por

64intermédio da ciência, começa a se apossar da inteligência humana. De um certo modo,pensa Nicolson, corresponderia a um progresso do senso estético para além dos cânones emvigor desde a época helenística. Nicolson lembra os conselhos clássicos de Estilo. Podemosaqui recordar Voltaire e citar Boileau. Em L'Art Poétique, Boileau havia aconselhado aseguir fielmente as regras draconianas do estilo. O conselho dos racionalistas não era nosentido da liberdade e da expressão emocional irrestrita, mas no sentido da disciplina, dacensura e do equilíbrio. Boileau pontificava:Faltes choix d'un censeur solide et salutaire,Que la raison conduise et le savoir éclaire.O Romantismo, ao contrário, acarreta o rompimento dos controles e censuras daRazão, o levante contra o que seria o "recalque" dos psicanalistas. O românticorevolucionário não descobre o Mal em si mesmo, mas o projeta sobre os outros. Aceita suaspaixões como divinas e se recusa a arcar com a pesada carga da introversão ética. Ele quer"derrubar as estruturas" e a tradição, porque são as estruturas da Lei e do Superegopatriarcal. Freud descobriu muito bem o Complexo de Édipo como fórmula original doromantismo mas, na realidade, foi Jung quem apontou para o Complexo materno nãoresolvido, tendente inconscientemente para o incesto com a Mãe. A mãe devoradora ecastradora. O romântico é um puer aeternus, um eterno adolescente, e na educaçãopermissiva inspirada por Dewey, Dr. Spock e a psicanálise encontramos o resultado maisrefinado e triunfante desse psicologismo mórbido cujos sintomas poderiam ser congregadosna expressão "síndrome do romantismo".Nunca tanto se falou em Le Sentiment quanto durante a Idade da Razão. Asgrandes damas, os aristocratas, os reis, os pensadores orgulhavam-se da intensidade de suaspaixões, da finura de sua sensibilidade, da beleza de suas virtudes, das agruras de seusamores. Os impulsos que o Cristianismo austero havia tentado conter pelo medo do castigoeterno, expandiam-se agora livremente sob o pretexto de que o homem era "bom". A friezade uma consciência controlada solidificou-se apenas, como norma de comportamento, entreos puritanos dos países calvinistas e os pietistas dos países luteranos enquanto, nas elitesfrancesas e alemãs, o Romantismo em seus primórdios se apresentou como umamaravilhosa libertação — que se traduziu em torrentes de lágrimas no evangelho deRousseau.

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