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O Dinossauro - Ordem Livre

O Dinossauro - Ordem Livre

67admitiu, inicialmente,

67admitiu, inicialmente, a bondade básica da natureza humana. Seguia, nesse ponto, ootimismo de lord Shaftesbury para quem a natureza humana é a melhor possível nummundo o mais harmonioso possível (o melhor dos mundos possíveis de Leibniz). Aoaceitar, entretanto, a bondade da natureza humana, Rousseau era pessimista no que dizrespeito à civilização. Em vez de um complexo de inferioridade adleriano, escravizado aoLogos do monarca absoluto, Rousseau pretendeu construir sua sociedade ideal nos alicercesmovediços de um Eros extravertido. É relevante, no contexto de nosso argumento, observaressas diferenças entre os pensadores racionalistas e os Românticos. O Inconsciente dosRomânticos, até Freud, se associa a uma imagem feminina de bondade instintiva queconduz, pela lógica inerente e paradoxal do incesto edipiano, ao assassínio da instânciapaterna, arquetípica, de Autoridade e Lei, o Nomos, símbolo da Repressão. A aceitação dapremissa do Contrato Social é o ponto de partida — que vamos reencontrar na "sociologia"freudiana. Todo o problema de Rousseau consiste em procurar meios de conciliar aLiberdade, definida como o jogo aberto e sem constrangimento dos sentimentos naturais,com a existência de uma sociedade civilizada a qual é considerada, essa sim, summummalum. L'enfer c'est les autres...Enquanto estava Hobbes preocupado com a submissão dos "maus" instintos dolobo no homem, Rousseau atendia ao ímpeto de preservar a pretensa inocência, pureza eliberdade emocional do bicho natural — aquele que era chamado le Bon Sauvage. O mitodo Bom Selvagem aparece na Europa com o Renascimento. Reação contra a ênfasemedieval do homo spiritualis, foi fantasmagoricamente constelado depois da descoberta deprimitivos negros africanos e índios americanos, na esteira das Grandes Navegaçõesibéricas.* No mito do Bom Selvagem, a história da criação do Homem segundo o Gênesefoi transmudada, para fins de repaganização, sugerindo uma escapatória pelagiana paralonge das consequências do Pecado Original. A sofisticação da Europa barroca e oartificialismo de sua Máscara, no século do Iluminismo versalhesco, parecia exigir essaidealização compensatória graças à qual o "nobre selvagem", simples e nu, destituído demalícia e de cobiça, foi imaginativamente transplantado de suas florestas primevas do NovoMundo, para servir de modelo exemplar contra o luxo e a corrupção das grandes cortesprincipescas. Tratava-se de, se possível, corrigir e desmascarar a Persona excessivamentepretensiosa do aristocrata do século de Luís XIV, com sua cabeleira postiça e seus punhosde renda. Montaigne, como se sabe, muito contribuiu para a vulgarização da imagem* Já tive ocasião, no livro Em berço esplêndido, de discutir a influência do mito sobre a Visão do Paraíso Tropical que fascinou osdescobridores portugueses, ao desembarcarem em nossas praias, e que continua a determinar o comportamento do Brasil litorâneo,hedonista e preguiçoso.

68fabulosa do paraíso tropical. Há um trecho célebre em seus Ensaios em que procurareabilitar os canibais e provar que os animais são mais humanos que os homens. Sobre osíndios escreve ele: "... leur âme, déchargée de toute passion et pensée et occupation tendueou deplaisante, comme gens qui passent leur vie en une admirable simplicité et ignorance,sans lettres, sans loi, sans roi, sans religion quelconque." As viagens de Swift, na pessoa deGulliver, ilustram a extensão da crítica das condições reinantes num mundo já alcançadopelo espírito voltairiano, sendo que as figuras de animais foram frequentemente utilizadascom esse propósito, como o fizeram La Fontaine e o próprio Swift. Na falta de animais dequatro patas, serviam os índios para o efeito procurado. Processava-se uma projeçãosentimental para a utopia retrógrada da Idade de Ouro: não um Paraíso Perdido miltonianocomo o dos Puritanos calvinistas, mas uma fantasia nostálgica e erótica de reabsorção nocolo amante e terno da Magna Mater telúrica. As Isles flottantes de Morelly oferecem umexemplo da utopia nesse espírito de nudismo tropical e liberdade sexual que dominou aépoca (e domina a nossa...). Rousseau teve a capacidade de formalizar o mito em teoria. E ateoria tornou-se uma tremenda ideia-força. Sem duvida, estava reagindo contra o extremoracionalismo de sua época e servindo de veículo intelectual para uma descarga emocionalde conteúdos psíquicos coletivos longamente reprimidos pela austera educação da Reformae da Contra-Reforma. "Exister pour nous, c'est sentir" — eis seu desafio mortal ao cogito,ergo sum cartesiano e ao "Método para bem conduzir o pensamento"... O homem que pensaseria para ele um animal depravado.Como ponto de partida para suas cogitações frenéticas, Rousseau argumentou que,por motivos econômicos, os homens não necessitavam uns dos outros no estado denatureza: cada um podia satisfazer os seus desejos por si próprio. Não existemdesigualdades naturais, nem obstáculos à absoluta liberdade. Também, contrariamente aHobbes, a paz seria o estado originário do homem, a guerra só aparecendo após se havertornado um cidadão, um burguês, um habitante civilizado de uma cidade. Em seu Discursosobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, procura Rousseausustentar esses preconceitos, argumentando no sentido de que a anatomia comparada indicater sido nossa espécie, originariamente, um bípede frutívoro. Ora, a antropologia modernainclina-se fortemente para a tese de que o Pitecântropo foi, não frutívoro, mas carnívoro.Essa discrepância é interessante como demonstração de diferenças de pontos de vista,mesmo em ciências que se pretendem objetivas, imparciais e desprovidas de critérios devalor. Cabe notar, nesse particular, que o inimigo de Rousseau, Diderot, por ódio à Igreja,também propugnava a ideia da bondade natural do homem, considerando o Pecado Original

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O Livro dos Espíritos