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O Dinossauro - Ordem Livre

O Dinossauro - Ordem Livre

69um mito detestável.

69um mito detestável. Diderot aconselhava: "Gozai sem susto... Sede felizes... Tende aaudácia de libertar-vos do jugo da religião... Retornai à natureza, ela vos proporcionaráconforto e dispersará de vosso coração todos esses temores que vos oprimem".O homem, sendo bom em estado de natureza, cabe à sociedade a culpa inteirapelos seus crimes. O relacionamento e interdependência social constituem a fonte de todosos males. Rousseau acentuava possuir "provas fatais" de sua estranha teoria. Se houvessepermanecido na "maneira solitária de vida que a natureza prescreve", o homem não teriaperdido sua inocência original. Os homens tornam-se infelizes e maldosos ao sesocializarem. Os homens que saem do Acre ou Roraima e vão para São Paulo. Enquantoviveram como Robinsons Crusoes, gozaram de "uma vida livre, saudável, honesta e feliz"*— teoria tanto mais extravagante quanto devemos considerar Rousseau, posteriormente,como o profeta de um coletivismo quase que totalitário.Ele próprio estava convencido, entretanto, de que tudo isso era uma meraconstrução imaginária, uma conjectura sobre um estado de coisas que talvez nunca hajaexistido, que já não mais existe e jamais existirá — e, na verdade, revelando tão poucaconformidade com o que conhecemos, empiricamente, da pré-história quanto a versãooposta, de Hobbes, da guerra de todos contra todos. O único argumento "empírico" de quese valeu Rousseau para a defesa de sua hipótese era que encontrara o verdadeiro modelo doParaíso original em seu próprio coração. No sexto parágrafo de seu Discurso sobre adesigualdade, ele apresentou o arrazoado de uma maneira assaz peculiar para quem sepropunha defender uma teoria científica: "Commençons donc par écarter tous les faits".Comecemos por afastar todos os fatos, "car ils ne touchent point à la question". Ele nãoqueria pensar muito no assunto pois, de qualquer maneira, "a fadiga de pensar se torna cadadia mais pesada para mim"...Curiosamente, para um homem da Iluminação e para um revolucionário, Rousseause revela um inimigo intrínseco do progresso — que descreve como "um passo para adecrepitude do homem". Ele aceita a evolução e até mesmo declara que o desejo universalde reputação, de honras e de preferências representa o que há de melhor e o que há de piorem nós. No entanto, descreve os camponeses da Suíça, isolados em seus altos valesalpestres, como o paradigma supremo da felicidade para a humanidade. O atraso e o tédiosão equacionados com a felicidade, mas quem sabe se não se esconde alguma verdade na* "Tant qu'ils ne s'appliquèrent qu'à des ouvrages qu'un seul pouvait faire, et qu'à des arts qui n'ont pas besoin du concours deplusieurs mains, ils vécurent libres, sains, bons et heureux autant qu'ils pouvaient 1'être par leur nature, et continuèrent à jouir entreeux des douceurs d'un commerce independant." — em Discours sur l'origine et les fondements de l'Inégalité.

70ideia? Também condena os avanços nas comunicações entre os homens, pois só acarretam acorrupção. O espírito de empresa significa a exploração das forças de outros homens (osocialismo em gestação!) enquanto o progresso tecnológico e científico só pode provocarmais autoridade, mais malícia e mais corrupção. Rousseau se coloca definitivamente contraesse grande ídolo do século XX que chamamos de desenvolvimento: ele é, na verdade, oprimeiro profeta do modo de vida dos hippies. O primeiro cantor de rock. Mas suacondenação nostálgica do progresso devia ser esquecida: os românticos políticos herdaramlheas invectivas contra as instituições e as desigualdades, mas desprezaram seus frágeisargumentos básicos. Tais caprichos do destino frequentemente ocorrem...Que tenha Rousseau decidido construir um edifício filosófico sobre fundamentostão precários e que tenha sido historicamente bem sucedido em seu empreendimento, eisque ilustra o passo infelicíssimo dado para trás no pensamento ocidental, desde os temposde Platão e de Sto. Agostinho. Sempre vale repetir: o sucesso histórico de uma teoria poucotem a ver com a veracidade de sua argumentação empírica e a solidez de sua construçãológica. Rousseau poderia ser colocado no grande divisor de águas entre os filósofosindividualistas e racionalistas do Contrato Social dos séculos XVII e XVIII, de um lado, eos maîtres penseurs alemães do século XIX, do outro. O poder de seus livros sobre nossopróprio século resulta do fato de que representa ambas as correntes, ambos os lados donosos que ainda nos afeta. Postado na origem da loucura no pensamento político de nossaépoca, foi ele que, pela primeira vez, deu forma ao Íncubo ideológico que possui a psiquecoletiva do homem moderno; foi ele que gerou o demônio da inverdade que o privou dejulgamento livre e o forçou a formar suas opiniões em termos de dogmas, de slogans depropaganda, de medíocres pontos de vista, de reportagens preconcebidas, de notíciascondimentadas, de dezinformatsiya e de toda espécie de "ismos" cuja potência de convicçãoestá em proporção direta à sua falta de vigor intelectual.Alguns aspectos salientes da vida de Rousseau são muito preciosos na revelaçãodo background psicológico de sua filosofia. Devemos crer na observação de Fichte, paraquem "a espécie de filosofia que escolhemos depende do tipo de homem que somos. Poisum sistema filosófico não é um pedaço de móvel, que se pode adquirir ou atirar fora àvontade. Está animado pelo espírito do homem que o possui." Isto está de acordo com o quenos explica Jung sobre o relacionamento entre o tipo psicológico de um autor e suadoutrina. Jung, na verdade, decidiu-se pela redação de uma de suas principais obras, Ostipos psicológicos, numa tentativa de compreender as diferenças entre as teorias de Adler eas de Freud pela introversão do primeiro e extraversão do segundo. Há poucos exemplos na

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