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R$ 5,90 - Roteiro Brasília

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luzcâmeraaçãoPais

luzcâmeraaçãoPais analógicos,filhos digitaisMostra no CCBB exibe duas dezenas de filmes queutilizam a ferramenta digital e discute o futurodo cinema sob o impacto das novas tecnologiasPOR SÉRGIO MORICONIDa mesma maneira que os fotógrafosse apressaram em substituir suas velhascâmaras fotográficas por novíssimosaparelhos digitais, cineastas do mundointeiro não param de se perguntar, pelomenos nesses últimos dez anos, quantotempo ainda resta para que a linguagemcentenária do cinema deixedefinitivamente de lado a maquinariade produção analógica e os tradicionaisfilmes em película. As conseqüênciasde tal processo vão muito além deconsiderações meramente nostálgicas.Para os profissionais da artecinematográfica, a disseminação dodigital em todas as etapas de produção(captação e finalização), e ainda nosmétodos de distribuição e exibição,pode fazer com que, neste novo milênio,o cinema simplesmente deixe de ser oque é e se transforme numa outra coisa.O curador da mostra AnalógicoDigital, Gustavo Galvão, selecionoucurtas e longas dos gêneros ficção,documentário e animação quepossibilitam uma reflexão sobrealgumas das questões consideradasdeterminantes para o cinema a partir dadifusão das técnicas digitais, entre elasa democratização do acesso à realização,provocada pelo baixo custo de produção,e as mencionadas conseqüênciasestéticas que o novo instrumental podeproduzir na sétima arte. Obviamenteque documentários como À Margem doConcreto, de Evaldo Mocarzel, Entreatos,de João Moreira Salles, O Prisioneiro daGrade de Ferro, de Paulo Sacramento, OFim e o Princípio, de Eduardo Coutinho,e O Homem Urso, de Werner Herzog,acrescentam outro elemento importantenessa equação: o baixo custo e aportabilidade do digital permitem aosdocumentaristas uma enorme liberdadeno trabalho de campo. Sem as limitaçõesimpostas pela produção em película, queimplica em custos altíssimos, eles podemcolher o maior número de imagens eentrevistas.Mas o digital trouxe iguais desafiospara a linguagem do cinema. AnalógicoDigital – de 29 de maio a 10 de junhono cinema do CCBB – apresenta oemblemático O Mistério de Oberwald,produzido em 1981, em que o diretorMichelangelo Antonioni, baseado numtexto de Jean Cocteau, se reencontracom a sua atriz/mulher fetiche MônicaVitti para contar a história de umarainha cujo marido havia sidoassassinado dez anos antes, deixandoas tarefas de direção do reino a cargode sua sogra e do chefe de polícia.Num belo dia, surge misteriosamenteum rebelde que guarda incrívelsemelhança física com o rei falecido eque tem a intenção de matar a rainha.Esse primeiro drama de época dirigidopor Antonioni vai ter desdobramentosinsuspeitados, mas não é isso o que nos42

interessa aqui.Graças à técnica do vídeo, quecomeçava a se difundir no início dadécada de 80, Antonioni conseguiurodar seu filme em apenas 64 dias.No entanto, foram as experiênciasque o diretor empreendeu com as coresque deram singularidade a O Mistério deOberwald. Talvez sutis demais para serempercebidas por um público acostumadocom cores realistas, os efeitos cromáticasdo filme são hoje um deleite para osapreciadores de um cinema que investeno atributo primordial da imagem.Sem dúvida, ao manipular a chamadadimensão semântica de sua obra,alterando as cores e a iluminação emcenas de amanhecer, criando sombrase silhuetas que se movem nas paredesdo castelo, Antonioni restituiu algoessencial que o cinema sonoro haviadeixado pelo caminho ao optar porempobrecidas formas narrativasderivadas do teatro e do romancenaturalistas.Desde quando surgiu, no final doséculo XIX, o cinema oscilou entreser uma experiência visual pura, ligadaà pintura e às artes visuais, ou setransformar num sucedâneo ilustradode outras linguagens narrativas, comoos mencionados teatro e literatura.Muitas vezes, como nos casos domovimento expressionista alemão(O Gabinete do Dr. Caligari, Nosferatu,o Vampiro, entre outros clássicos) e dasvanguardas francesa e russa dos anos20, o cinema foi uma mescla das duastendências. A vanguarda francesa seriaum exemplo à parte. Protagonizada porartistas que vieram de outros campos dasartes, quase todas não-narrativas – casosdo fotógrafo Man Ray, do artistadadaísta Marcel Duchamp, do pintorFernand Léger –, tinha a pretensão defundar o que chamavam de “cinemapoesia”.Os “cine-poemas” da vanguardafrancesa são os avós do vídeo-arte,modalidade que surge comoconseqüência da disseminação datécnica do vídeo, que é, por sua vez,pai e mãe do novo cinema digital.Personagem fundador do vídeo-arte,o sul coreano Nam June Paik fez umaprofecia em certo sentido aterrorizante,quase apocalíptica, para muitos dosatuais realizadores analógicos: “Damesma forma que a colagem tornouobsoleta a pintura a óleo, também otubo de raios catódicos irá substituir atela”. Em 1963, Paik havia combinadodoze aparelhos de televisão preparadoscom quatro pianos, toca-discos, objetossonoros e mecânicos e, nos termos deSylvia Martin, “além de uma cabeça deboi pendurada à entrada do espaço poronde o público deveria passar como setratasse de uma zona de iniciação epurificação”.Paik, Gary Hill, Bill Viola, entreoutros, encontraram eco em diretoresde cinema contemporâneos, como oinglês Peter Greenaway, realizador queutiliza as conquistas de artistas do vídeoarte,digitais ou não, em filmes que nãosó estendem os limites como criamtensões nas dimensões semântica(imagem e o movimento da imagem)e sintática (a articulação entre os planose as cenas dos filmes) do cinemanarrativo clássico. Realizadores comoJean Luc-Godard (este desde os anos 60),de Elogio ao Amor, e a turma do Dogma– movimento criado na Dinamarcanos anos 90 que propunha um cinemabarato e despojado a partir do usodigital –, assim como a francesa AgnèsVarda, de Os Catadores e Eu, fazem,todos eles, cada um à sua maneira,o mesmo. Cineastas do campo daanimação, como Sylvain Chomet, deAs Bicicletas de Belleville, e RobertRodrigues e Frank Miller, de Sin City(este uma mescla de animação e ficçãocom atores), se apropriam do digitalcomo um “jardim das delícias”.Outros grandes nomes programadosna mostra utilizam o digital comoferramenta de captação e edição de seusfilmes. São ferramentas que, por suaprópria natureza, criam micro-alteraçõesna dramaturgia do filme. São mudançasque, de fato, deixam no ar dúvidas sobreo futuro do cinema como exercícionarrativo aceito consensualmente pelopúblico que freqüenta as salas deexibição convencionais. As mesmasdúvidas devem ter freqüentado os povosque viram seus rituais tomarem a formade dramas teatrais na antiga Grécia,assim como freqüentaram as cabeçasdos amantes do teatro quando asprimeiras imagens foram projetadasnuma tela onde uma platéia,ritualisticamente sentada numa salaescura, pôde vivenciar, pela primeiravez, a experiência gregária de um teatrovirtual a que se deu o nome de cinema.Analógico DigitalDe 29/5 a 17/6, no CCBB. Ingressos a R$ 4e R$ 2 (as sessões de filmes em DVD serãogratuitas). Clientes do Banco do Brasilpagam meia-entrada apresentando o cartãodo banco na bilheteria. Mais informações:3310.7087. Site oficial:www.bb.com.br/culturaFotos: divulgação43